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Para responder a pergunta acima é necessário recorremos
ao pensamento do filósofo grego Platão, que foi o primeiro a criar uma utopia. Ou seja o pensamento
de que devemos, para alcançar a liberdade, buscar sempre viver em uma era melhor, muitas
vezes esta utopia é o passado “mitológico” do homem, entretanto este é um argumento
puramente sentimental e religioso, pois a utopia se encontra, na verdade, sempre no futuro.
Platão desenvolve este pensamento majestosamente com o
mito de Atlântida, esta é uma nação muito poderosa que possui uma alta cultura e chega a
conquistar territórios da África e Europa, até serem derrotados pelos atenienses e seus aliados,
em uma época tão distante que já foi esquecida pela memória dos atenienses, e acaba por ser
afundada no mar pelos deuses, devido a prepotência de seus reis.
Entretanto, com toda a certeza, Atlântida nunca existiu
e nem mesmo Platão não acreditava em sua existência no mundo real, mas no Crítias e no
Timeu, ele usa o mito para descrever uma sociedade ideal, destruída em razão de seus
próprios vícios, ao mesmo tempo em que cria um mito para o povo ateniense, em que eles são
grandes heróis salvadores da liberdade contra a tirania.
Platão então é capaz de criar ao mesmo tempo um modelo
de sociedade em que os atenienses deveriam se inspirar, alerta estes para a necessidade de
vigiar o estado contra a sua corrupção interna e cria para os atenienses uma responsabilidade
ancestral com a liberdade, e a busca por um mundo melhor.
Mas o que tudo isso tem a ver com “Missão Marte”?
Antes de continuarmos a responder esta questão é necessário um pequeno resumo do filme.
Missão Marte do premiado diretor Brian De Palma, bem feito do ponto de
vista dos efeitos especiais e contando com a figura carismática de Tim Robins, terminou
de uma maneira trivial, já explorada em centenas de livros e filmes: descobre-se, no final, a tese mais
velha e, talvez, a mais batida dos últimos 50 anos na ficção científica: a vida na Terra teve origem a
partir do espaço. No caso, seríamos fruto do DNA vindo de Marte. Um tema que sem duvida foi esgotado
no filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço”.
Mas voltando ao enredo, o trama do filme é simples, e se
passa praticamente em três lugares: em uma enorme estação espacial, na nave espacial de resgate que vai
buscar os possíveis sobreviventes da missão 1 que, uma vez no solo de Marte foram surpreendidos por um
estranho furacão e, finalmente, o terceiro lugar, o solo de Marte. O centro do enredo está no desempenho
da equipe de resgate, a missão 2, com os atores Tim Robins, Gary Sinise,
a bela Connie Nielsen e Jerry O’Oconnel, e com um dos sobreviventes da
missão 1, Don Chaeadle.
Gary Sinise e Connie Nielsen
encontram em Marte Don Chaedle, que sobreviveu um ano sozinho em uma estufa que já havia
sido construída previamente no planeta vermelho. Ele mostra aos companheiros uma montanha que se revelou
ser um rosto similar ao rosto humano. Eis então o choque: não estamos sozinhos no Universo.
Resolvendo o enigma de como entrar na montanha-rosto, sem que
ela reagisse como da primeira vez, ou seja, com o furacão, Gary, Connie
e Don passam para o lado de dentro do grande rosto. Uma vez lá dentro, por hologramas
tridimensionais que lá se encontram, ficam sabendo que os marcianos foram embora do planeta há muito,
mas uma das naves se desgarrou e acabou caindo na Terra, e o que estava nela desenvolveu as formas de
vida que temos aqui, inclusive nós mesmos, daí para frente segue-se tudo como aprendemos na escola segundo
a moderna teoria da evolução, ou seja, passamos das formas de vida aquáticas para as formas de vida
terrestres. Os três astronautas descobrem também que tudo está ali preparado para que, quando alguém da
nave perdida voltasse, pudesse reencontrar o caminho para onde os marcianos partiram. Os humanos, uma vez
que são descendentes dos marcianos, são esse alguém esperado pela montanha-rosto.
Nesse momento, tudo dentro da montanha-rosto começa a tremer e
dar sinais de que aquilo é uma nave, e que vai partir, levando quem teria ficado desgarrado, há milhões de
anos. Connie e Don começam a voltar para fora da montanha-caverna, onde
uma pequena nave os espera, dirigida por Jerry. Mas Gary Sinise diz que
ele não vai voltar, que vai para onde a nave marciana o levar. Em outras palavras, ele vai voltar, mas não
para sua casa na Terra e sim para sua casa primordial, unindo-se aos seus progenitores, os progenitores de
todos nós.
O argumento que Gary usa a fim de explicar sua
decisão para Connie e Don é tirado da fala de sua esposa, então morta,
que nos projetos iniciais seria a comandante da Missão Marte. Ele diz: "nascemos para encontrar outros
mundos, e desses outros mundos irmos para outros".
Isso tudo tem muito de Platão, ou seja aquela nostalgia
de viver um passado mais ou menos idealizado que nunca foi vivido realmente, e que é o que se quer como
futuro, sem no entanto, jamais, revelar em imagem o que é esse futuro, o mito de Atlântida, descrito
acima é fruto desta nostalgia. No meu ponto de vista é realmente esta a mensagem que o
filme passa, recuperando assim Platão após séculos, tanto é que o que acontece com Gary, o filme não
conta. Conta apenas que ele poderá assumir formas de vida que não se restringem à vida terrestre. O filme
termina com Don, Connie e Jerry voltando para a estação
espacial da Terra e cruzando no espaço com a nave marciana, com uma tecnologia melhor, levando Gary muito
mais rapidamente também para casa.
Gary é, entre todos, o único que realmente
sentia aquilo que Platão dizia que teríamos de sentir, mas sentir corretamente: o desejo de se perder
sem perder a consciência; o desejo de voltar a viver em comunhão com o uno, com o todo, sem no entanto
perder a individualidade; o desejo de fazer parte do coletivo sem a cegueira e barbárie de tudo que é
coletivo, ou seja sair da caverna e contemplar o mundo real, para assim muda-lo.
Ou seja pensar a utopia da liberdade individual em comunhão
com a sociabilidade sem nunca descrevê-la; tomá-la como um passado que nunca foi vivido, desfrutá-la
esteticamente para não ter que teorizá-la como fez Karl Marx , querer voltar para uma época melhor,
mas que nunca de fato ocorreu.
Esse é o futuro de Gary: o desconhecido, mas
um desconhecido que é na verdade uma volta para sua verdadeira casa, ou seja uma volta para o
que Platão chamaria do mundo das idéias, libertando-se assim das correntes do mundo real,
entenda-se esse mundo que nos priva da liberdade e da socialização verdadeira, e nos
acorrenta a uma realidade de meras aparências.
Edgar Indalecio Smaniotto, astrônomo amador, professor do ensino fundamental, escritor e articulista. |
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