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Rápido como um raio Hermes se deslocava de um palácio para outro acordando os onipotentes deuses do Olimpo. Zeus ordenara que seu filho convocasse os deuses para um reunião em seu palácio. Pelo olhar severo do pai Hermes soube que essa ordem deveria ser cumprida imediatamente.
Um a um os deuses do Olimpo foram sendo chamados pelo mensageiro divino. Alguns como Ares e Héracles acordaram visivelmente de maus bofes. Quanto a Dionísio, não houve como negar que a quantidade de vinho ingerida na noite anterior lhe causava uma desagradável dor de cabeça. Seu semblante não negava.
Antes de entrar no palácio de sua irmã Athena o mensageiro divino se assustou com o vôo da coruja que sempre acompanha a deusa da sabedoria.
Eros vendo o frenesi de Hermes, gentilmente se prontificou a acordar a bela Afrodite. Desde o nascimento de Hermafrodito que Hermes e Afrodite evitavam conversar.
As pressas Hermes se dirige primeiro para o Hades, seu tio de mesmo nome, Hades, também era convocado pelo soberano do Olimpo. Depois de convocar o taciturno tio Hermes voa a toda velocidade para o ponto mais fundo do Oceano. Encontra seu tio Possêidon quando este passeava pelos jardins subaquáticos de seu enorme palácio.
Com seu tio convocado o apressado mensageiro vai para a cratera do Vesúvio convocar seu meio irmão Hefestos para a reunião que seu pai convocara.
A tia Deméter foi encontrada por Hermes em um templo dedicado à deusa nas colinas da Ática.
Os irmãos Apolo e Ártemis se encontravam passeando nos bosques sagrados dedicados aos dois deuses.
Olhando para a lista de quem deveria ser convocado Hermes finalmente pôde atenuar o alucinante ritmo que empreendera até então. Voltou ao Olimpo com uma velocidade menor do que aquela com a qual iniciara.
Pouco a pouco os deuses convocados foram chegando ao palácio de Zeus. Ao adentrarem-se à sala do trono os deuses perceberam que não estavam sós no recinto. Um grupo de pessoas estranhas e desconhecidas também se encontrava na sala. De seu trono um Zeus sério e carrancudo reclamava da demora deste ou daquele convocado, a seu lado a bela Hera fazia uma cara de poucos amigos. Seu semblante era igualmente carrancudo e sério.
O penúltimo deus a chegar ao palácio de Zeus foi Hefestos. O deformado ferreiro divino se apresentou com a mesma roupa que utilizava quando de seu trabalho em sua forja. Desculpou-se pela demora mas mesmo assim não escapou a uma séria reprimenda de seu pai Zeus.
Finalmente o rápido Hermes retorna completando assim o conselho dos deuses.
Aquelas pessoas que também estavam na sala do trono de Zeus mantinham-se calmas. Apenas aqui e ali trocavam algumas conversas dentro de seu próprio grupo sem se dirigir aos deuses do Olimpo.
Finalmente Zeus inicia a reunião.
- Caras deusas, honrados deuses, por séculos somos adorados pelo povo grego. Durante esse tempo não tivemos rivais na adoração deste povo. Mesmo o bárbaro Alexandre, aquele macedônio insignificante, respeitou nossos cultos e também nos adorou. Neste tempo todo, nós os deuses, fomos testemunhas do naufrágio da Atlântida, vimos o nascer e o morrer da civilização Micênica e Cretense. Presenciamos a Guerra de Tróia, alguns a favor dos gregos, outros a favor dos troianos. Protegemos nosso povo dos persas durante as três guerras que estes lhes moveram. Vimos Atenas se erguer como a maior cidade grega e sua derrota pelos homens de Esparta. Estes por sua vez tombaram sob a rebelião de Tebas que se rendeu aos bárbaros da Macedônia. Deusas e deuses, tudo isso ocorreu com nosso povo. Mas eles nunca nos abandonaram, sempre nos honraram com suas oferendas, seus sacrifícios, sua devoção.
Zeus para com seu discurso inflamado, olhando os apreensivos deuses ali presentes. A fisionomia de todos os deuses demonstrava um misto de dúvida e espanto. Afinal o deus dos deuses citava apenas fatos que todos ali já sabiam. Qual o motivo daquela reunião?
Zeus continua seu discurso.
- Bem meus caros pares, isso que lhes falei todos já sabem, vivenciaram os fatos. Foram os responsáveis diretos ou indiretos por estes mesmos fatos. Nunca nenhum de nós ficou sem seus adoradores, nossos templos continuam repletos de fiéis e oferendas. Nossos oráculos continuam sendo consultados. Instigamos em nossos adoradores terror e amor. Somos bons ou maus. Cumulamos com riquezas nossos melhores servos humanos como também maltratamos cruelmente aqueles que ousam nos desafiar.
Nova pausa de Zeus. Seus pares continuam sem entender a razão daquele palavreado todo.
- Pois bem, vamos agora ao motivo desta reunião. Como todos viram temos visitas no Olimpo. Essas senhoras e senhores aqui presentes também se denominam deuses e pasmem meus pares, dizem que vieram nos substituir na adoração de nosso povo.
- O quê ?
Um irado Ares é o primeiro a se manifestar, refeito da desagradável surpresa contida no final do discurso de seu pai.
- Vieram nos substituir? A nós, os senhores do Olimpo. Quem são esses seres, como se atrevem a se portar desta maneira perante os deuses.
- Decerto são os efeitos do vinho meu caro irmão.
As palavras de Dionísio até tinham sentido.
Uma figura majestosa, vestido com uma manta azul celeste e tendo na mão direita três raios se destaca do grupo dos desconhecidos solicitando a palavra.
- Caros deuses do Olimpo. Meu nome é Júpiter, sou o pai dos deuses e homens, sou o rei dos deuses. Apenas tenho um nome diferente. Meus adoradores são os romanos que saíram da Península Itálica e fizeram um enorme império. A Grécia agora faz parte deste império. Portanto, eu e meus acompanhantes simplesmente viemos substituir vocês. Já que a cultura romana está substituindo a cultura grega como mais importante do mundo nada mais justo que nós, os deuses romanos substituamos vocês, deuses gregos na adoração do povo e também aqui na morada dos deuses.
Um Hermes irritado interrompe em altos brados a colocação daquele desconhecido.
- Então seus servos, os romanos, estão substituindo os gregos como maior civilização do mundo e os senhores simplesmente acham que podem vir até aqui e nos substituir. Grande tolo. O que lhes faz pensar que são melhores do que nós. Por acaso algum de vocês alcança as velocidade que eu consigo? Ou tendes algum deus com a força de nosso Héracles aqui. Ou será que vocês possuem alguém que comande as guerras e batalhas como meu irmão Ares. Terão algum artesão como nosso Hefestos?
Uma deusa, de indescritível beleza, pele branca como o leite, vestindo os trajes de uma caçadora se adianta do grupo dos outros deuses.
- Há, há, há, sua velocidade não se compara a de Mercúrio, seu Héracles é uma criança ante a força de nosso Hércules. Quanto a guerras e batalhas temos aqui nosso Marte incomparável na ferocidade com que comanda as matanças. E também duvido que tenham artesão mais detalhista e perfeito que nosso Vulcano. Seu tempo acabou olímpicos. Nós, os deuses de Roma é que dominaremos a partir de agora.
Apolo e Ártemis se entreolham desconfiados. Deméter, Afrodite, Hera e Athena mantém-se distantes da discussão que se instala naquela hora. Uma infinidade de deuses e deusas toma a palavra. Cada qual arvorando para si e seus pares as melhores qualidades. Como contrapartida das deusas gregas temos no lado romano Ceres, Vênus, Juno e Minerva que também se mantém quietas e afastadas da acirrada disputa verbal que se trava na sala do trono de Zeus.
Uma voz enérgica e forte irrompe no aquela balbúrdia de sons. Era Hades, o taciturno senhor das regiões infernais que muitos também chamavam de Hades.
- Pois que seja feita uma disputa entre nós os deuses gregos e vocês os ditos deuses dos romanos. O vencedor ficará com a adoração dos homens e também com o Olimpo. Nos Campos Elíseos tenho um homem correto que pode ser o juiz desta disputa. Seu nome é Minos.
Os romanos sorriem com a sugestão de Hades. O contraponto romano do deus grego, chamado pelos romanos de Plutão já havia alertado os seus que nenhum homem seria mais imparcial para analisar uma disputa do que Minos.
- Eu Júpiter, em nome dos deuses romanos aceito a disputa e o juiz que vocês designaram. Já está na hora de verem que somos muito superiores a vocês gregos.
Hades olha taciturnamente para seus adversários e desaparece, ia à região dos Campos Elíseos chamar Minos para servir como juiz daquela disputa.
No meio desta confusão toda Hélio, o deus Sol já terminara seu turno sobre Gaia - a Terra - que a partir de então teria como companheira no espaço Cibele - a Lua.
Os deuses romanos são convidados pelos deuses gregos para pernoitar no Olimpo. No dia seguinte Hades e Minos já estariam de volta e as disputas começariam. O prêmio daquela disputa: a adoração dos homens e o direito de viver no monte Olimpo.
O dia seguinte traz Apolo conduzindo o carro de Hélio, anunciando a chegada de um novo dia. Os deuses romanos e gregos acordam cedo. As disputas teriam lugar no próprio monte Olimpo. Uma multidão de deuses gregos que não participariam da disputa acorre ao Olimpo para torcer por seus representantes. Os romanos permaneciam calmos e comedidos. Pareciam achar que a disputa seria resolvida de forma rápida e satisfatória para eles.
Minos, o escolhido para ser o juiz daquela disputa é colocado a par da situação e concorda em ser o mediador.
A primeira disputa seria de velocidade. Do lado grego Hermes, vestindo apenas uma túnica vermelha, tendo na mão direita o Caduceu, por cima da cabeça o elmo alado provido de asas. Nos pés desnudos do deus, como protuberâncias que saltavam de seu calcanhar as duas asas que simbolizavam a rapidez do deus grego. O velocista romano atendia pelo nome de Mercúrio. Também vestia uma túnica vermelha, sendo no entanto mais velho que o jovem mensageiro do Olimpo. Seu elmo também apresentava asas, assim como seus pés.
Minos chama ambos os representantes para lhes passar a tarefa.
- Ambos se dizem deuses. Portanto para um deus nada pode ser impossível. Ambos sabem que distante daqui, localizado nas profundezas de Urano - o céu estrelado - existe um planeta lindo e enorme. Neste planeta existe uma flor que nós chamamos de Rosa de Belisquer. Pois os contendores devem viajar até esse mundo distante e o primeiro que chegar até aqui com uma Rosa de Belisquer será declarado vencedor. Ao meu sinal partam.
Minos dá então o sinal. A velocidade com que os contendores partem rumo à imensidão do cosmos é fantástica. Um pequeno redemoinho forma-se no local onde antes estiveram os deuses.
A distância entre a Terra e Belisquer é de 52 milhões de anos luz, os deuses lançam-se com ímpeto pelo espaço. A velocidade que alcançam é fantástica. Duas horas após a partida da Terra os deuses gregos e romanos, percebem dois pontos se aproximando rapidamente. Um impacto terrível anuncia o pouso violento, duas crateras formam-se no local. Ao se abaixar a poeira percebe-se que os causadores daquele estrago nada mais eram que os deuses grego e romano. E na mão de cada deus uma Rosa de Belisquer. A chegada fora no mesmo exato momento. Minos declarou empate naquela primeira prova.
A segunda prova colocaria frente a frente os dois deuses de maior força física. Um gigantesco Héracles, de 1,97 M de altura, um corpo sem uma grama sequer de gordura, um feixe de músculos extremamente bem cuidados. Héracles era versado em todos os tipos de luta, desde a luta de mãos nuas, que posteriormente originou a luta greco-romana, até o manejo de maças, espadas, lanças, tridentes e todas as armas fabricadas naquela época. Para fazer frente a esse gigante apresentou-se uma outra massa muscular de olhar rígido e de poucas palavras. O Hércules romano.
Minos chama os contendores, explicando a ambos as regras da luta. Essas regras se restringiam a duas. Os contendores lutariam até a exaustão completa de algum deles ou de ambos. O último que permanecesse de pé após o combate seria declarado o vencedor. Golpes abaixo de linha da cintura desclassificariam o contendor.
Os dois gigantes se olham com faces carrancudas. O Héracles grego iniciou o combate com seu escudo e seu machado, todos os artefatos bélicos foram feitos por Hefestos. Do lago romano Hércules preferiu a rede e o tridente que seu meio irmão Vulcano confeccionara.
A luta é titânica, a cada golpe de Héracles um forte contragolpe de Hércules. O tridente de Hércules é feito em pedaços pelo deus grego, a segunda arma a ser utilizada pelo deus romano é a pesada maça de guerra , empunhando essa arma Hércules consegue cortar o cabo do machado do deus grego.
O escudo de Héracles é transformado em uma monte de ferros retorcidos, os golpes de maça de Hércules são fortes e potentes. Abandonando o escudo o deus grego pega sua espada e em um golpe bem medido corta o cabo da maça do rival. E assim uma a uma as armas dos oponentes vão sendo inutilizadas pelo rival. Sem mais nenhuma arma para utilizar os titãs se atracam para a luta corpo a corpo. Os deuses ao redor dos gladiadores divinos gritam e incentivam seu lutador. Por horas e horas a luta se desenrola sem que no entanto se consiga apontar alguma vantagem para esse ou aquele lutador.
O cansaço é visível nos rostos dos lutadores. A noite chega no Olimpo sem que algum deus, seja o grego ou o romano possa ser declarado vencedor. Cansado daquele combate sem definição Minos interrompe a luta, chama Zeus e Júpiter para conversar e declara novo empate na disputa entre gregos e romanos. Exaustos, Hércules e Héracles concordam com a decisão do juiz.
O segundo dia da disputa se iniciou com a prova de perícia na caça. Do lado grego a bela e casta Ártemis com sua aljava de flechas e seu arco curto, próprio para a caça, vestida com os característicos trajes de caçadora a bela deusa grega acreditava em uma vitória fácil. Do lado romano Diana também portava seu arco e sua aljava de flechas. Suas roupas eram um pouco mais pesadas do que a utilizada pela deusa grega, mas eram igualmente apropriadas para uma caçadora. Minos escolhera três animais: um urso, um veado e um leão. A caçada teria lugar nos bucólicos campos da Ática. A primeira deusa que voltasse ao Olimpo trazendo os três animais seria declarada vencedora. Somente animais machos poderiam ser abatidos.
Ao sinal de Minos as duas belas deusas iniciam a descida do Olimpo rumo ao campo de caça escolhido. Foi uma prova rápida, em menos de duas horas as deusas se apresentavam perante o juiz, cada qual prostrou aos pés de Minos os animais abatidos. Novo empate foi declarado. A próxima prova seria da beleza. Pelo lado grego Afrodite, a bela deusa do amor foi se preparar para a prova. As deusas que compunham a delegação romana se dirigem com sua representante Vênus para prepará-la para o concurso.
Os deuses se espremiam uns aos outros, cada qual tentando uma melhor visão para o quadro deslumbrante e fantástico que se desenrolaria em sua frente.
Minos convocou primeiro a desafiante. A bela deusa romana apareceu fantasticamente vestida com uma túnica imaculadamente branca com detalhes em dourado, esses detalhes eram desenhos de animais bordados com maestria por Minerva. O cinto que ostentava trazia a efígie da Medusa decapitada. Nos cabelos um prendedor de ouro maciço segurava o belo penteado feito por Juno. As delicadas sandálias com detalhes em prata e ouro completavam com maestria a indumentária da deusa romana. Entre os deuses que estavam acompanhando a prova surge como que um frenesi de espanto ao ver a beleza da deusa romana. Muitos pensavam que Afrodite não teria como competir com tão encantadora beleza.
A deusa grega é então convidada a se exibir perante Minos. Se Vênus já causara muito espanto com sua beleza arrebatadora, esse espanto não diminuiu em nada com apresentação de Afrodite.
A deusa grega estava com uma túnica vermelha, detalhes bordados em azul celeste. Seu cinto apresentava-se emoldurado pela cabeça da Górgona, nos cabelos um adorno em forma de escaravelho moldado pelo artesão dos deuses Hefestos. A túnica da deusa grega era mais curta que a da concorrente romana, deixando certas partes das esculturais pernas à mostra. A própria deusa romana se demonstrou espantada com a beleza da concorrente grega.
Não havia como eleger esta ou aquela concorrente como sendo a mais bela. Minos resolve fazer novo desfile, desta vez, seguindo um costume adotado pelos espartanos, as deusas deveriam desfilar nuas. O novo desfile somente aumentou a incerteza, Afrodite era mais baixa que a rival, mas as formas perfeitas e esculturais da deusa. Nádegas bem delineadas, um par de bustos que poderiam ser definidos como simetricamente perfeitos. O mesmo se verificava na nudez da não menos bela Vênus. Realmente não se poderia apontar essa ou aquela deusa como vencedora daquele concurso, qualquer decisão, por mais justa que se mostrasse na verdade seria injusta. Não havia como escolher.
Um racional Minos declara novo empate. Com essa decisão encerra-se o segundo dia das disputas entre gregos e romanos.
O terceiro dia das provas se iniciou com a prova da fertilidade da Terra. Deméter representante grega, Ceres a concorrente romana. A tarefa era simples, deveriam as deusas percorrer os campos e fertilizar ao máximo as terras dos lavradores e aldeões. A deusa que conseguisse fazer o trecho de terra sob sua responsabilidade gerar os mais belos frutos e cereais seria declarada vencedora.
Por três horas as deusas percorrem as terras gregas. Premiando os agricultores com uma fertilidade em suas terras até então desconhecida. Findo o prazo Minos e uma comitiva escolhida pelos lados concorrentes foram verificar os resultados. Nos campos da deusa grega uma profusão de macieiras totalmente forradas de belas e enormes maçãs. Os olivais estavam repletos de azeitonas, algumas com o tamanho de pêssegos. As hostes de trigo cresceram tanto que mais se pareciam com árvores. Por todo lado fartura e abundância.
Do lado romano a mesma dádiva era encontrada. Os trigais mais se assemelhavam a pequenas florestas. As árvores frutíferas estavam carregadas com os mais diversos tipos de frutas e frutos possíveis. Toda profusão de alimentos que a terra podia gerar era encontrado nos campos visitados por Ceres. As dádivas encontradas eram idênticas, não havia como fugir a um novo empate.
O outro desafio do dia seria o confronto entre Possêidon, o majestoso deus dos mares gregos e seu similar romano Netuno. Para palco desta prova uma ilha deserta, localizada em alto mar, longe das rotas comerciais foi a escolhida.
O deus romano trajava uma belíssima túnica vermelha, com muitos detalhes bordados em dourado que representavam imagens da vida marinha. Seu enorme tridente ficava resplandecente sob a luz do Sol. Sua barba enorme lhe chegava ate a altura de seu umbigo. Como primeira providência o deus romano bateu seu enorme tridente na terra desolada daquela desconhecida ilha fazendo brotar uma bela fonte de água salgada, dali saiu um enorme touro branco.
Andando por aquele inóspito pedaço de terra Netuno foi criando fontes e lagos. Se dirigindo para o mar que cercava a ilha o deus romano fez daquele pedaço do mar um ambiente extremamente propício para a pesca. Peixes de todos os tamanhos e variedades foram criados pelo tridente do deus, um verdadeiro paraíso para pescadores. O deus romano arrancou, mesmo entre os concorrentes exclamações de júbilo e admiração. Sua obra era extremamente bela e no caso da ilha futuramente vir a ser habitada todas as obras feitas pelo deus seriam muito bem aproveitadas.
Chegou a vez de Possêidon, sua barba não era tão longo como a do rival romano. Sua face no entanto se mostrava mais majestosa do que a do deus romano. Seu tridente, de menor tamanho do que o do concorrente, brilhava em todas as cores do arco-íris. Sua túnica era de um verde que lembrava o encontrado entre as algas marinhas, essa túnica era majestosamente bordada com imagens que igualmente lembravam a vida marinha. Possêidon bateu seu tridente com força no mar ao redor da ilha fazendo surgir um enorme vagalhão de água que cobriu totalmente o local da disputa.
Após isso, utilizando seus poderes sobre os animais da água convocou enormes baleias e golfinhos para habitar a região em volta, novo golpe do tridente fez com que as águas que cobriram a ilha fossem afastadas e novamente o pedaço de terra no qual se desenvolvia aquela disputa apareceu, mas com formato diferente do antigo. Olhando-se de cima a ilha agora se assemelhava a uma sereia. As fontes de água criadas por Netuno tiveram sua posição modificada no novo relevo da ilha. O touro branco que tanta admiração causara entre os deuses fora afogado pelo vagalhão invocado pelo deus grego.
Minos ficou com dúvidas. De um lado Netuno proporcionara a criação de vida, a criação de fontes de água que futuros habitantes poderiam aproveitar. Do lado de Possêidon o vagalhão de água e a modificação do formato da ilha mostrava claramente o que um deus irado poderia fazer. Com muita ponderação o juiz daquela disputa decreta novo empate, não sem ouvir alguns protestos de lado a lado. Mesmo com protestos a decisão do juiz foi respeitada.
O quarto dia da disputa começou com uma novidade. Um ser humano se apresentava perante os portões dourados do Olimpo, solicitando uma audiência com os deuses. Ao tomar conhecimento desta notícia Zeus se mostra confuso e irado.
- Um ser humano aqui no Olimpo? O que este insignificante ser deseja dos deuses. Ele que vá orar nos templos. Quando tivermos tempo veremos o que pede e vamos decidir se vai ser atendido ou não. Ah esses humanos, será possível que não percebem que os deuses têm muito mais a fazer do que ficar prestando atenção aos seus desejos desprezíveis?
A resposta do deus dos deuses foi levada até o tranqüilo e pacato ser humano que simplesmente retrucou que ficaria aguardando uma audiência com os deuses.
Deixando aquele insignificante ser humano de lado a disputa entre os deuses romanos e gregos continuou pelo quarto dia. Seriam duas provas. A de sabedoria que colocaria frente a frente a bela romana Minerva e sua rival grega Athena. Em caso de empate nesta prova a decisão seria entre os dois representantes máximos dos deuses. Zeus e Júpiter.
Minos preparara um extenso e meticuloso teste de conhecimento e sabedoria. As perguntas eram as mesmas para as duas concorrentes. Aquela que terminasse primeiro e com menor número de erros seria declarada vencedora.
A bela Athena com seus elmo e sua armadura que brilhavam sob o Sol pegou seu questionário começando imediatamente a responder às perguntas de Minos, a seu lado sua inseparável mascote, a coruja, símbolo da sabedoria. Do lado romano a não menos bela Minerva, trajando uma leve túnica azul celeste respondia calmamente ao mesmo questionário, demonstrando uma calma até certo ponto irritante.
Por quatro horas as deusas ficaram debruçadas sob seus questionários em um silêncio quase absoluto. Podia se ouvir o vento que soprava ou os alegres pios e trinados dos pássaros que eventualmente passeavam pelo Olimpo. Ambas entregaram suas respostas ao mesmo tempo. Por mais quatro horas o silêncio permaneceu enquanto Minos conferia as respostas das deusas. Ao final da conferência o juiz decreta novo empate.
Ambas as deusas responderam corretamente a todas as perguntas formuladas. O embate entre Zeus e Júpiter se tornou então inevitável para que se conseguisse fazer com que um vencedor fosse declarado naquela disputa acirrada.
O ignorado ser humano que se apresentara perante os portões do Olimpo ainda permanecia ali, aguardando a audiência que solicitara perante os deuses.
O raiar do quinto e último dia daquela disputa entre deuses demonstrava que Hélio, o deus do Sol grego estava animado naquele dia, o céu que iluminava os mortais se apresentava belo e majestoso. Poucas nuvens vagavam aqui e ali, As aves e animais silvestres percorriam os céus e as florestas com incontida alegria como a saudar o belo dia.
Zeus se encontrava em seu quarto, assessorado pelos Ciclopes que trabalharam a noite inteira fazendo os raios do senhor do Olimpo que seriam utilizados no embate contra o Júpiter romano. Este por sua vez, mais prevenido que o deus grego, trouxera em sua aljava um bom número de raios.
A disputa seria entre os dois deuses, como imortais já sabiam que não pereceriam naquele embate, mas mesmo um deus quando solicitado ao extremo, apresenta sinais de cansaço. O primeiro que apresentasse esses sinais perderia aquela disputa.
Antes do início da disputa os guardiões dos portões celestiais do Olimpo novamente se apresentaram perante os deuses informando que o mortal que ali permanecera desde o dia anterior insistia em ser recebido pelos deuses.
Um irado Zeus manda que a seguinte resposta.
- Mas esse humano está aí ainda? O que ele quer dos deuses que não pode esperar a decisão de nossa disputa.
O silêncio foi a única resposta.
- Pois tragam esse mortal aqui. Faço questão de fulminá-lo com meus raios pessoalmente.
Alguns instantes depois um tranqüilo mortal se apresenta perante os deuses gregos e romanos ali presentes.
Zeus olha a estranha figura que se apresenta. O mortal era dotado de uma boa estatura, perto de 1,82 M de altura, seus olhos azuis emanavam uma misericórdia e uma bondade inexistentes nos semblantes dos outros deuses. Em suas mãos e pés observavam-se estranhas chagas, como se aquele ser já tivesse tido algum cravo a lhe varar as carnes. A figura se apresentava com uma pele clara, levemente queimada pelo sol, como a denunciar que nascera em uma região mais quente do que a Hélade. Uma aura estranha, de poder e de mistério emanava daquela figura.
- Quem sois vós mortal, e o que o leva a solicitar as dádivas dos deuses.
- Eu sou a luz e as estrelas. Eu sou aquele que abençoara os pobres e as crianças. Sou o templo de Salomão. Sou o deus de Moisés, de Josué, de Davi. Sou a verdade e a vida.
- Fala por metáforas mortal, de onde vens.
- Eu estou aqui agora, e também estou em todo lugar. Estou nas orações dos fiéis, e mesmo no coração dos infiéis. Sou o futuro do mundo. Sou a redenção das almas.
As palavras daquele homem eram dotadas de um enigma que ao mesmo tempo assustava e encantava a todos os deuses.
- Chega de falatório sem sentido homem. O que veio fazer aqui na morada dos deuses, perante os senhores dos destinos do homem?
- Eu vim substituí-los. Sou sábio como Athena e Minerva. Sei ser hábil como Hefestos e Vulcano. Posso ser belo como Afrodite e Vênus. Domino os mares como Possêidon e Netuno. Posso iluminar os céus como Apolo e Hélio. Cuido bem das almas dos mortos como Hades e Plutão. Eu sou todos vocês e nenhum de vocês.
- Mais um deus querendo concorrer com os deuses do Olimpo. O que acontece no mundo? De repente todos os deuses inferiores querem disputar conosco. Pois bem aguarde o vencedor da minha disputa com Júpiter que iniciaremos a disputa com você.
- Não haverá mais disputas Zeus, nem contigo, nem contra os deuses romanos. A partir de agora um só deus será o regente dos homens.
Com um grito de ira Zeus pega das mãos de um Ciclope um de seus raios e lança em direção ao mortal. Este apenas ergue sua mão direita, uma luz forte ilumina o ambiente. O raio de Zeus bate na mão do mortal e se dissolve numa profusão de luzes.
Passado o susto inicial Zeus não desiste e lança mais raios em direção àquela figura, desta vez seu rival romano também participa do ataque. Um a um os raios lançados se dissolvem.
- Eu sou a verdade eterna.
Dito isso o humano ergue as duas mãos para o alto, uma luz muito forte é vista. É a última visão dos deuses do Olimpo e de seus concorrentes romanos. Um a um estes começam a se dissolver. Os deuses vão se dissolvendo numa profusão de luzes das mais diversas cores e matizes. A essência destes volta sob a forma de uma chuva de luzes em direção à terra. Os palácios do Olimpo vão se tornando transparentes até sumirem completamente. Deuses gregos e romanos tentam escapar, apenas para verem horrorizados que não conseguiam se mover, sendo então atingidos pela luz que emanava daquele simples mortal.
Finalmente o último deus grego se dissolve, o último palácio se desfaz.
- "Portanto a graça de Deus, nosso Salvador, apareceu a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando à impiedade e aos desejos dos séculos, vivamos neste século sóbria, justa e piamente, aguardando a esperança bem-aventurada e a vinda gloriosa do grande Deus e Salvador nosso, Jesus Cristo, que se deu a si mesmo por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniqüidade e purificar para si um povo aceitável, zeloso pelas boas obras. Ensina essas coisas, exorta e repreende com toda a autoridade. Ninguém te despreze."
Epístola a Tito |