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INFORMAÇÕES    
Autor: Alecsander Machado.
Título: O Outro lado da História.
Publicação: 31/03/2006.
Publicação Original: 29/09/2003.
Categoria: Fantasia.
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FANTASIA      
O Outro Lado da História.
Por: Alecsander Machado

Imagem da Internet

Os fatos nunca se limitam ao que nossos olhos podem ver e ao que nossos ouvidos podem ouvir. Há sempre muito mais.

Recomendo ler antes - Maryam, de Monica Medeiros.

O dia acabava de amanhecer. Olhei para o lado e vi que ela ainda dormia. Essa mulher realmente me ama, pensei. Há muito tempo ela tinha aprendido a não precisar dormir, mas mesmo assim dormia comigo. Eu ainda não havia aprendido. Mesmo após vários anos de treinamento, eu ainda não conseguia isso.

Dei um beijo em sua face e a vi se espreguiçar, lentamente, sem nem sequer abrir os olhos. Sorri.

- É hora de levantar, temos trabalho a fazer.

- Ah... Tenho que parar com esse negócio de dormir...

- Um dia você consegue.

Dessa vez foi ela quem riu. Mas não demorou muito para levantar, e em pouco tempo estávamos nos preparando para sair.

Do lado de fora de nossa casa havia uma carruagem bem decorada, com entalhes na madeira e detalhes em ouro. Haviam dois corcéis atrelados à Carruagem. Ansiosos, eles batiam os cascos aguardando nossa partida. E nossos animais não deixavam nada a dever aos que pertenciam aos dois cavaleiros que nos acompanhariam. Quatro fortes batedores a cavalo, com lanças e espadas cercavam nossa carruagem, cujo cocheiro, nos esperava.

Arthur, nosso guia e cocheiro, tinha como principal tarefa nos levar ao nosso destino e nos trazer de volta a salvo. Conhecedor de muitos caminhos e muitas técnicas de fuga, quase sempre nos acompanhava. E o fazia com um constante sorriso, retirado apenas quando via alguma cena triste.

Entramos na carruagem, e dentro já nos aguardavam dois companheiros de trabalho, ambos hindus. Sua tarefa era fazer o trabalho técnico, enquanto para nós sobrava o emocional.

- Vocês estão atrasados!

- Ora, Keob-Horamed... Você sabe que Arthur sempre nos deixa a tempo, não há com o que nos preocupar.

- Você abusa da sorte. Tem que treinar mais disciplina.

Danielle, minha amada, entrando na carruagem com um pouco de dificuldade, veio em minha defesa.

- Pode deixar, vou conseguir um horário livre com o professor de disciplina para Aramis.

Parcialmente satisfeito, Keob ajeitou a enorme pedra verde em seu turbante e não tocou mais no assunto.

Al-Moweer, o segundo hindu ocupante da cabine não nos deu atenção. Estava concentrado em suas orações, que não deixava de recitar até que começasse o trabalho - e por vezes eu poderia jurar que ele estava fazendo durante o trabalho. Ao contrário de Keob, tinha uma enorme safira em seu turbante, o que por vezes contrastava com as demais cores ao redor.

A carruagem ultrapassou os limites da cidade de Dimege e parou próxima ao pátio principal. A rua estava apinhada de gente, e logo ao descer da carruagem corremos para ocupar nosso lugar próximo à fogueira. Al-Moweer e Keob-Horamed retiravam rapidamente diversos apetrechos de suas sacolas, e em pouco tempo estavam com diversos deles montados próximos ao nosso local.

Não precisamos esperar muito. Ao som dos gritos daquela multidão ensandecida uma miúda figura era arrastada amarrada por grossas cordas. Maryam mantinha seu semblante altivo, apesar do triste fim que a esperava.

Ela estava fraca, mas seu espírito era forte. Vinda de uma linhagem de pessoas ligadas à espiritualidade, desde cedo manifestou poderes que as pessoas não compreendiam. Usou durante toda a sua vida seu conhecimento - adquirido com estudo - e seus dons para o bem de sua aldeia. Porém, a sombra da ignorância atingira sua vida.

- Quando isso vai acabar? - Danielle estava entristecida com o que via.

- Ainda vai durar algum tempo, mas a própria intolerância dos homens dará um fim a isso. Mas até que isso aconteça ainda vamos ter muito trabalho a fazer. E foi você quem me ensinou isso.

Enquanto Maryam era atada à fogueira, os dois hindus, rápidos e ágeis como serpentes ligavam diversos aparelhos que eu não compreendia ao corpo de Maryam. Ela não os via, mas sabia que não estava só.

Aguardávamos ansiosamente o sinal de Al-Moweer para começarmos a trabalhar, quando vimos que no meio da multidão um ser vibrava em sintonia diferente da maioria. Era o homem que amava Maryam. Impotente e incapaz de compreender o poder que se apresentava diante dele, tanto de luz quanto de sombras, ele sofria em silêncio. Mas seu desespero chegava a nós como berros na escuridão de uma floresta.

- Não podemos ajudá-lo? - Danielle estava cada vez mais preocupada - Não sabia que ia ser tão complicado.

- Não, ele terá que conviver com sua decisão. Ele teve tempo suficiente para aprender com ela, e não o fez. Agora, terá que sofrer a conseqüência de suas decisões. Mas a misericórdia divina está sempre presente para todos, e quando ele pedir ajuda, haverá quem o acalme seu coração atormentado.

Mesmo tentando acalmar Danielle eu não podia deixar de lembrar de muitas outras histórias como essa, que se repetiam dia a dia.

- Está na hora.

O aviso de Moweer não permitia que perdêssemos tempo. Em dois segundos nos tornamos visíveis a Maryam, que sorriu ao nos ver.

Em seu pensamento, ela nos agradeceu por estarmos ali. - Aramis, meu mestre, que saudade!

- Estamos aqui para protegê-la. Uma nova etapa vai começar para você.

- Não se preocupe. Você não vai mais ficar só. - Danielle passava a mão nos cabelos de Maryam, que estava deslumbrada com a visão.

Danielle estava esvoaçante, com roupas alvas como nuvens claras, parecendo realmente um anjo. Minhas roupas brancas não eram tão deslumbrantes, mas deram a Maryam a confiança de que estava segura.

Ela não sentiu as chamas em momento algum. Aguardei o sinal dos hindus para pegá-la em meus braços.

- Não se preocupe, descanse. Você está segura.

Ela sorriu para mim antes de perder os sentidos e dormir um longo e profundo sono. Seu corpo material queimava nas chamas, servindo de deleite à turba insana, que clamava pela morte de uma protetora, que eles não souberam reconhecer.

Voltamos para a carruagem, onde acomodei Maryam em uma cama improvisada. Estranhos seres tentaram se aproximar, clamando por vingança, dizendo-se injustiçados. Mas nossos batedores afastaram esses seres para longe, e alçamos vôo rumo ao infinito, de volta para casa.

Maryam recuperou-se rapidamente, devido à sua lucidez espiritual, e em pouco tempo lhe foi concedido uma visita à Terra. Seu único desejo era rever seu grande amor, e ela pôde realizá-lo. Ajudamos em seu processo de materialização e, por uma noite, sob a luz da lua, ela o teve mais uma vez em seus braços.

E a história nunca se acabou...

Rio de Janeiro, 29/09/2003 – 22:08.

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