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A perseguição não foi apenas por interesses religiosos. Muito do que aconteceu ficou oculto pelo véu do tempo. Até agora...
Parte 1
Eu olhava para o teto, acompanhando os lentos movimentos de uma aranha. Talvez o fizesse para diminuir a tensão, já que só o que podia fazer era esperar.
Sentado no canto da prisão, próximo à minúscula janela, eu evitava pensar na situação que estava vivendo. Há poucas semanas eu fazia parte de um grupo de sacerdotes, iniciados na mais pura magia. Era responsável, junto a alguns outros, por manter prósperas as plantações da nossa pequena aldeia. Nosso templo fazia esse trabalho a séculos. Sempre fomos respeitados e apoiados pela população, até a chegada dos malditos missionários do Cristianismo. Com suas falas confusas e sua desmedida cobiça, insuflaram o povo contra nós, em uma trama que demoramos demais para perceber.
Primeiro, tentaram assumir nossos trabalhos, tomando para si a posse das terras da aldeia. Como não cedemos, envenenaram nossas fontes, com isso matando boa parte das nossas plantações, mais alguns velhos e crianças, que não resistiram ao terrível veneno.
Acusaram-nos de bruxaria e traição, e o povo acreditou. Apenas os mais velhos nos defenderam, mas suas vozes foram abafadas pelo vozerio dos fiéis cristãos, tão obcecados por seus padres que não enxergavam mais a verdade.
Assim, em uma noite que os séculos varrerão, fomos presos e condenados, sem julgamento ou chance de reclamação. Condenados à prisão perpétua, muitos de nós ficaram entristecidos com a ingratidão do povo tantas vezes ajudado.
Matheus foi o primeiro a se pronunciar.
- Eu não vou ficar aqui. Nossa situação não vai melhorar.
Arair, um ancião do grupo, retrucou:
- Precisamos aguardar mais. As coisas vão piorar se fugirmos. Não somos criminosos!
- Mas somos tratados como tal! Já estamos aqui há um mês e nada mudou! Ninguém se importa!
- Há algumas coisas mais importantes que nossas vidas. Nossa ordem sempre foi respeitada e, se formos terminar, que seja com honra.
Não acreditei no que ouvia. Arair sempre fora um defensor do templo, fazendo parte do Conselho de Mestres, e agora estava aceitando passivamente nossa destruição, próxima. Não fazia sentido.
- Mestre, o que disse?
- Sim, Emanoeh, é verdade. Tragédias virão se sairmos daqui à força. Já foi previsto.
- Mas mestre, temos que manter a chama da verdade viva!
- E o que faremos escondidos? Apenas daremos aos nossos inimigos as razões que eles precisam, e que ainda nem imaginaram.
- Como pode ser isso?
- Não sei exatamente como será, mas nossa previsões indicam um período negro na humanidade. Essa nova religião não é ruim, foi enviada para trazer luz à humanidade. Mas os homens se corromperam e estão transformando a luz em trevas. A catástrofe é inevitável e nós, já que não podemos evitá-la, vamos minimizar o problema.
- Morrendo?
- Se necessário for.
Parte 2
- Senhor padre! Senhor padre!
O Jovem, de cabeça raspada e aparentando pouca idade corria pelos corredores do castelo. Seu rosto pálido e olhos vidrados denunciavam o forte estado de fascinação que arrastava sua alma.
Em uma sala austera, coberta de livros e papéis, um velho com aparência sinistra o recebeu. Suas vestes negras eram claras em relação à cor de seu espírito. Dissimulando sua irritação por ter sido interrompido, assumiu uma voz melosa, para aparentar uma bondade que longe passava de seu coração.
- Por que corres, meu filho? O que tanto te apavora?.
- Senhor padre, quatro bruxos malditos desapareceram! Foi como se virassem fumaça, ninguém viu nada!
- Como? Tem certeza?
- Absoluta, senhor! Quando fui levar a ração diária o guarda me contou, apavorado!
Um brilho terrível passou pelos olhos do velho padre. Já havia sido difícil armar a ratoeira que incriminou os sacerdotes, e agora isso. E se eles tentassem reverter a situação? Não, isso não podia acontecer, não agora. Padre Thomas ansiava pela sua promoção, e não podia permitir que esse feito se realizasse.
Há uma semana ele havia recebido uma carta do pontífice, dando-lhe os parabéns pela sua conquista, convertendo uma aldeia pagã ao catolicismo - com uma nota especial pela quantidade de bens e terrenos amealhados no decorrer do processo.
- Irmão Arthur, temos que tomar medidas extremas.
- O que o senhor mandar, padre!
- Junte quantos fiéis puder, e traga-os até o pátio principal, o mais rápido possível. Preciso de todos vocês para acabar com esse mal, espalhado por Lúcifer!
Em duas horas o pátio estava com mais de quarenta pessoas, jovens em sua maioria. Todos obstinados pela nova religião.
- Fiéis irmãos, hoje Nosso Senhor precisa de vocês! Quatro bruxos malditos fugiram da santa morada (ele certamente achou melhor não dizer prisão), utilizando recursos que só as forças do mal possuem. Precisamos capturá-los e dar um fim a esse trabalho maligno! Aqueles que não se converterem deverão ser queimados, para que não mais espalhem seu mal!
O padre escolhia as palavras com precisão, para dar um tom de justiça à suas ignóbeis atitudes. Sua crueldade, superada apenas pela sua ambição, em breve conquistaria simpatizantes, espalhando o terror por toda a Europa.
O que nosso pobre Padre Thomas não esperava era que ele mesmo sofreria os efeitos de seu mal. A ambição e a ganância existiam em todos os degraus da Igreja, e a autoria da nova prática contra os bruxos foi-lhe tomada. Sem recursos para combater pessoas tão influentes, foi designado para uma outra aldeia, ainda mais afastada que a de nossa história. Porém, a viagem que empreendeu para chegar até ela nunca chegou ao seu fim.
São Paulo, 16/10/2003 – 17:40.
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