Depois de receber várias ameaças de morte em Harad por integrantes da Guilda dos Trepanadores e preocupado com a movimentação das tropas sulistas rumo à guerra iminente, o Doutor decide cuidar da própria saúde e muda-se para Gondor onde abre um consultório em Minas Tirith. Todavia, o cerco da Cidadela afasta boa parte dos clientes potenciais e ele começa a se perguntar como pagará as contas no final do mês - se houver final do mês. Quando finalmente os rohirrim levantam o cerco, ele se convence de que deve procurar o Diretor das Casas de Cura para oferecer seus préstimos profissionais.
O Diretor examinou a minha antiga autorização de trabalho em Harad com ar perplexo. Mas, evidentemente não sabia ler caracteres cuneiformes, pois estava segurando a placa de cerâmica de cabeça para baixo.
- Não entendo! Se o amigo é um curador, como não se apresentou antes, durante o cerco, quando precisávamos de toda a ajuda disponível?
Peguei a tabuleta de volta com ar melancólico e coloquei-a na bolsa de couro onde carregava meu portfólio sulista, todo escrito em tabuletas de barro. Aquilo pesava pra burro! Precisava contratar um escriba que fizesse uma transcrição para pergaminho.
- Meu caro Diretor, eu não lido com males do corpo - só do espírito.
- Ah! Então é um bardo, e não um curador. Faz canções para alegrar o coração das pessoas?
- Ehr... não, o meu método de trabalho é um pouco diferente. As pessoas vão até o meu consultório e FALAM sobre seus problemas.
- Que exótico! E enquanto isso, o que você faz?
- Eu escuto. E faço anotações.
- E isso resolve os problemas das pessoas?
- Nem imagina quanto! É claro que se vocês tivessem religião, isso certamente ajudaria, mas como não têm sacerdotes nem veneram deuses aos quais possam dirigir orações, falar comigo pode certamente desanuviar muitos corações cheios de pesar.
O Diretor quedou-se pensativo por alguns momentos, os olhos perdidos nas montanhas distantes que se viam pela janela aberta do seu gabinete. Quando finalmente falou, o fez devagar, como se estivesse procurando as palavras certas.
- Sabe, interessante isso que você disse... essa coisa dos corações pesarosos. Talvez... eu tenha alguém para fazer-lhe uma consulta... esta noite.
E depois encarando-me novamente, acrescentou com ar decidido:
- Deixe o seu endereço! Mandarei procurá-lo por volta da décima-segunda hora.
Revirei meus bolsos, não achei nada e perguntei:
- Estou sem cartão. Teria um pedaço de pergaminho...?
***
A noite caiu, negra como tinta. Um clima de desastre iminente pairava sobre a Cidadela, agora que o exército do Rei estava à caminho do Vale Morgul e nenhuma notícia mais fora ouvida sobre eles. Eu estava dando os últimos retoques no meu consultório quando ouvi baterem à porta.
Abri e vi três vultos lá fora, envoltos em sombrios mantos cinzentos com capuzes levantados. O mais alto e magro segurava uma lanterna cuja chama vacilante mal e mal iluminava o chão ao redor. Ao seu lado estava um vulto ligeiramente menor e por trás de ambos, uma grande sombra gorda. Confesso que tremi nessa hora. Meu Deus, pensei, perdemos a guerra e três Espectros do Anel em pessoa vieram me buscar!
Meus pensamentos funestos foram interrompidos pela voz do Diretor. Era ele quem segurava a lanterna.
- Não vai nos convidar à entrar, Doutor?
Fiz uma vênia e afastei-me da passagem.
- Ah, perdão... não o reconheci, Mestre Diretor.
As três figuras entraram e eu fechei a porta. Só então elas abaixaram os capuzes e removeram os mantos.
Além do Diretor, havia uma velha aia gorda de cabelos grisalhos e uma bela jovem loura de olhos cinzentos, expressão tristonha - e o braço esquerdo numa tipóia de linho.
- Qual das duas senhoras... - comecei a dizer, sem saber a quem me dirigir.
O Diretor fez um gesto cortês indicando a jovem loura.
- A Senhora de Rohan, Éowyn, filha de Éomund, irmã de Éomer, sobrinha do falecido Rei Théoden. Contei-lhe sobre seu método e ela acedeu em experimentar. E esta é Goreth, uma aia de confiança que trabalha comigo nas Casas de Cura.
Fiz uma reverência perante as duas mulheres.
- Encantado, Senhora de Rohan... dama Goreth.
Éowyn lançou-me apenas um olhar vagamente curioso, enquanto o Diretor complementava:
- Naturalmente, a aia permanecerá presente enquanto estiver aplicando seu método terapêutico, Doutor. E eu vou esperar sentado aqui na sua ante-sala, se não se importa.
Cocei a cabeça.
- Veja, tudo bem que fique esperando o término da sessão, mas é contra as regras ter uma terceira pessoa ouvindo a conversa entre paciente e terapeuta...
O Diretor deu-me um sorriso condescendente.
- Goreth tem olhos de águia... mas é surda como uma porta, Doutor.
Foi exatamente assim que surgiu o hábito de se manter uma assistente dentro dos consultórios para salvaguarda da honra das clientes - embora eu não tenha nada a ver com o fato de meninas surdas começarem a ser vendidas como escravas em decorrência disto.
***
Entramos eu e as duas mulheres no consultório. Indiquei uma cadeira num canto para a gorda dama Goreth e o divã para a Senhora de Rohan.
- Quer que eu me deite? - Perguntou Éowyn desconfiada. Goreth não falou nada, mas seus olhos estavam arregalados.
- Faz parte da terapia. É apenas para que você relaxe e consiga falar mais livremente - tranqüilizei-a.
Éowyn sentou-se no divã, entremeando os dedos longos da mão livre pelo tosão branco de ovelha que recobria o móvel. Finalmente, deitou-se. Reta e rígida como uma tábua.
Cocei a cabeça. Ia ser mais difícil do que eu estava pensando.
Da minha cadeira junto à cabeceira do divã, tabuinha de cera e estilo na mão, virei a ampulheta que marcava o tempo da consulta e fiz a primeira pergunta:
- Como se feriu, Senhora?
Éowyn fez um gesto vago.
- Oh... bem... eu estava combatendo um Nazgûl e matei a criatura que ele montava... uma coisa grande, preta... com um pescoço comprido e uma cabeça enorme, que balançava de um lado para o outro!
- E a coisa grande e preta lhe atingiu?
Éowyn ruborizou-se.
- Não, céus! Eu cortei a cabeça da coisa antes que ela tocasse num fio do meu cabelo. Mas então o Nazgûl despedaçou meu broquel com sua maça. Eis como quebrei meu braço.
- Todavia, parece-me em franco processo de recuperação - avaliei.
- Do ponto de vista físico, sim. Meu Senhor deixou ordens para que eu ficasse no leito por pelo menos dez dias, mas estou acostumada a estar em movimento, não confinada numa cama.
- Por meu Senhor a Senhora estaria querendo dizer o Rei?
Breve pausa. Os olhos de Éowyn se fecharam e seu corpo se tornou menos rígido.
- Sim... o Rei. Meu Senhor. Aquele ao lado de quem eu gostaria de tombar num campo de batalha.
Fiz uma provocação.
- Com o devido respeito, este não me parece ser um pensamento dos mais indicados para uma donzela. Ainda que ela seja da Terra de Rohan. Às mulheres compete dar a vida, não a morte.
Éowyn balançou a cabeça em desalento.
- Que me importa a vida! Tudo aparenta estar desmoronando. A Sombra se alastra sobre o mundo e parece já não haver esperanças... nem mesmo para aqueles que amam.
Era hora de colocar o dedo na ferida.
- Você ama o Rei como um soldado ama o seu capitão ou como uma mulher ama um homem?
Éowyn olhou-me estupefata.
- Como ousa?!
Ignorei o arzinho ofendido.
- Para mim está bastante claro que você venera o Rei e estaria disposta a morrer por ele.Mas ele talvez não lhe tenha pedido para fazer isso. E nem desejar que isso aconteça.
Éowyn ficou a remoer as minhas palavras. A areia da ampulheta acabou de escoar.
- Nossa primeira sessão terminou - avisei. - Volte amanhã à mesma hora.
- Mas já?! - Espantou-se ela.
***
Na segunda noite, Éowyn apresentava um aspecto menos melancólico. Deitou-se no divã sem que eu precisasse dizer nada e foi logo começando a falar.
- Ontem, antes de vir para cá, eu pedi ao Mestre Diretor que me levasse ao Regente da Cidade para que ele autorizasse a minha partida de Gondor.
- Para voltar para Rohan, certamente - ponderei.
- Não! - Retrucou ela com voz dura. - Para me juntar ao meu irmão e ao exército que segue para a guerra.
- Deixe-me tentar adivinhar a resposta dele. Não?
- Não, é claro. Disse-me que mesmo que eu tivesse forças para tanto, não mais seria capaz de alcançar os Capitães e suas tropas. Além do mais, ele me fez ver que, se nosso exército não obtiver sucesso, a guerra acabará nos atingindo, mais cedo ou mais tarde.
- É um raciocínio triste, mas perfeitamente lógico. O Regente Faramir é um homem sensato.
Breve pausa e depois ela prosseguiu.
- Ele é um homem muito gentil, também. Disse-me que as mesmas mãos nos haviam trazido à ambos da Sombra...
- As mãos do Rei.
- Sim. As mãos do Rei. E que...
- Sim? - Incentivei.
Ela abriu um sorriso tímido.
- ... e que eu era linda. Voltei a vê-lo ainda esta manhã, sobre as muralhas.
Ora, ora, ora, pensei. Eis que Faramir me aparece com um remédio para melancolia melhor do que colocar a cama do lado de fora da casa.
- Compreendeu o que ele quis dizer com essa história das mãos do Rei?
Éowyn olhou-me surpresa.
- Não. Sim. Quer dizer, o Rei nos curou...
- Vocês estavam às portas da morte e o Rei os salvou. Aos dois. Acha mesmo que ele desejaria que você morresse em combate?
A donzela mordeu os lábios.
- E não obstante, eu morreria por ele.
- Por um homem ou pelo Rei, Senhora?
Ela não respondeu e quedou-se em silêncio, fitando o teto de vigas escuras.
- Está me parecendo que não ama verdadeiramente o Senhor Aragorn.
- Como pode me dizer isso? - Perguntou ela com voz trêmula.
- O que você ama não é um homem que poderá fazê-la Rainha, mas uma sombra refletida do seu próprio eu interior. Nesta sombra você projeta seus anseios egoístas e chama isso de amor. Acredito que no seu íntimo gostaria de ter nascido varão, capaz de praticar grandes feitos pela causa de Rohan. Mas como a natureza é sábia, eis que tal não foi necessário, embora você já tenha praticado uma proeza que eternizará o seu nome e lhe colocará acima de muitos guerreiros da antigüidade.
Éowyn continuava a olhar para o teto, com os olhos cheios de lágrimas.
- Quer me dizer que quando olho para Aragorn, não é Aragorn quem vejo... mas a mim mesma?
- Ou aquilo que gostaria realmente de ser.
Éowyn fungou e eu lhe passei um lenço. Ela assoou estrepitosamente e limpou os olhos com as costas da mão.
- Sim. Quantas e quantas vezes, quando Língua de Cobra envenenava o espírito de meu tio, não desejei ser homem para lhe cravar uma espada no coração! Ah! Como isso me teria feito bem!
Olhei de soslaio para a ampulheta.
- Gentil donzela, antes que nosso tempo se esgote, gostaria de lhe dizer que você já foi o grande guerreiro que sempre desejou ser. Nem que fosse por um dia. Agora está na hora de pôr os pés no chão e voltar a ser mulher novamente.
***
A quinta sessão ocorreu no Dia da Vitória, dia que será para sempre lembrado, no qual Sauron caiu para sempre. A Senhora estava corada e bem-disposta, embora lampejos de incerteza ainda cruzassem ocasionalmente seus olhos cinzentos.
- Eis que o Sol voltou a brilhar novamente - disse eu. - Dentro e fora do coração dos homens.
- Sim. E uma nova esperança volta a habitar em meu peito. Embora eu esteja apreensiva pela hora que se aproxima...
Parei com o estilo no ar. E então, ela continuou.
- A hora em que ficarei frente a frente com o meu Senhor.
Baixei o estilo.
- Seu coração dividiu-se ao saber que ele está voltando?
Ela fez um gesto vago com a mão.
- Tive momentos de felicidade ao longo dos últimos dias, caminhando com Faramir sobre as muralhas, pelos jardins das Casas de Cura. As coisas que ele me disse... seus projetos de reconstrução de casas e pontes... se e quando a guerra acabasse...
Desta vez fui eu quem sorri.
- Parece-me uma perspectiva de vida bem doméstica, não é? Não o tipo de vida com que a Rainha de um poderoso império poderia sonhar. Nada de expedições de conquista e grandes batalhas.
- Estaria eu errada em desejar isso apenas por ser mulher?
- Não. Você não está errada. Seu erro está apenas em como pretendia viabilizar o seu projeto de vida. Já falamos sobre isso. O que sente pelo Senhor Aragorn não é amor. Paixão não é amor. Paixão não estrutura famílias nem cria filhos. E quando precisasse do seu homem, ele sempre estaria distante, em viagens de inspeção pelas fronteiras. Ou guerras. Há muito ainda a fazer, mesmo depois da queda da Torre Negra. E você passaria muitos e longos dias sozinha em Minas Tirith... embora sempre cercada de aias e servos.
- A vida sem paixão parece-me uma vida sem sal.
- Depende em quê você investe a sua paixão. Certamente não em alguém que não a quer. Isso só poderia lhe conduzir à destruição, como bem desejava há poucos dias. Partir para a guerra, morrer em campo de batalha...
Éowyn apenas ouvia, muito serena, olhando para o teto.
- Não pode querer amar uma projeção do seu próprio espírito. É como querer amar uma nuvem de fumaça, um fantasma.
- Então devo renunciar à paixão - disse ela, lentamente.
- Não! Deve procurar algo em que possa investir a sua paixão proveitosamente. E esse algo não é alguém; não é um homem. Homem algum sobre a terra, mesmo o Senhor Aragorn, é tão perfeito que seja capaz de preencher todos os anseios do seu coração. Mesmo que conseguisse realizar o seu intento, dia viria em que ele teria de colocá-la de lado para cuidar dos assuntos do reino. E eu percebo que, em seu íntimo, você jamais permitiria que isso acontecesse.
Os olhos de Éowyn começaram a tomar novamente aquele tom cinza de tempestade. Uma chuva de lágrimas estava à caminho.
- Ele não me ama! - Ela gritou, o punho direito cerrado. - Se ele me amasse, ficaria comigo e não me trocaria por nada!
- Eu não disse? - Observei polidamente.
E completei:
- Seu tempo acabou.
***
Minha última sessão com a Senhora Éowyn ocorreu poucos dias depois, antes do retorno do rei. Seus olhos estavam claros e brilhantes e ela parecia em paz, deitada no divã.
- Tomei uma decisão - anunciou.
- Finalmente - respondi.
- Eu disse a Faramir que aceito ser sua esposa.
- E não cairá na tentação de querer usá-lo como um substituto para o Rei?
- Não! - Retrucou ela com veemência. - Acho que aprendi a lição. Quero ser a esposa de um bom homem, um homem honesto, bravo, trabalhador - e não de um mito. O Rei certamente terá alguém ao seu lado que possa desempenhar melhor que eu o papel de Rainha.
- Talvez a palavra aí não seja melhor, porém adequado. Mitos precisam de mitos. Pessoas precisam de pessoas. E além de esposa e mãe, no que a jovem Senhora pretende investir a sua... paixão?
Éowyn virou a cabeça em minha direção e pela primeira vez desde que seu tratamento havia começado, ela tinha um imenso sorriso nos lábios.
- Eu quero ser uma curadora!
- Parabéns! - Aplaudi.
- Como você.
- Hein?!
- Sabe, achei fantástico esse seu método de resolver problemas conversando com as pessoas. Eu gostaria de saber mais sobre isso. Gostaria que me ensinasse.
E foi assim que, nos dias do Rei Elessar, o Doutor montou o embrião do que seria futuramente conhecido como a Academia dos Encolhedores de Cabeças de Minas Tirith.
***