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Autor: Êferos Masopias.
Título: Meirol e a Pedra Sácer.
Publicação: 09/03/2006.
Categoria: Fantasia.
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FANTASIA      
Meirol e a Pedra Sácer.
Por: Êferos Masopias

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Esta é uma história que aconteceu antes do conselho dos silvos ser formado...

1. Meirol comparece perante o Grande Líder.

Meirol era um maztena que vivia distante das terras principais. Sempre foi localmente reconhecido por sua inteligência e esperteza em resolver dilemas. Tivesse nascido na época eferial ou em Libros de qualquer período, teria, com certeza, tido maior reconhecimento entre os intelectuais contemporâneos do leste numaioriano.

Vivia da pesca, à maneira dos dunos; mas distava muito tanto das principais terras maztenas como das dunas. Uns 30 quilômetros o distanciava de Handaf, o grande líder maztena.

Ao anoitecer, Meirol chegava em casa, vindo de sua pescaria, e descansava até ouvir o anúncio de que o jantar estava na mesa; mas dessa vez sua habitual tranqüilidade foi substituída por uma surpresa:

“Meu senhor, Greices esteve aqui à tarde, e disse que o espera em sua morada. Disse para apressar-se, pois o assunto é importante” – Disse sua esposa Pes-Ean. Era um costume maztena a mulher tratar o marido como “meu senhor”. Quanto a Greices, era o líder da região e representava Handaf. Isso o tornava muito respeitado.

Meirol já esteve na companhia de Greices muitas vezes. Greices confiava nele e na sua perspicácia, e aconselhava-se com Meirol para julgar o povo local. Parecia que o julgamento de Meirol nunca falhava.

No caminho para a morada de Greices, Meirol ia refletindo no que poderia ser tão importante, pois Greices nunca usara o termo “é importante” ao solicitar sua ajuda. “Talvez seja o caso da viúva Raus-Ean, que alega ter sido enganada pelos cunhados, no que se refere à posse da canoa, mas isso é tão importante? … Pobre Raus-Ean, creio que realmente tem razão … Mas não deve ser esse o motivo da solicitação de minha presença! Bem, Greices raspou o cabelo antes de sair, e isso significa que fez a jornada até Handaf. Isso pode ser um sinal de que o grande Handaf precisa de ajuda, mas claro, não deve ser da minha …” – Assim perdido em seus pensamentos, Meirol aproximou-se da moradia de Greices.

De longe, o servo de Greices já o avistara e foi recebê-lo. Introduziu-o ao aposento onde se serviria o jantar. A casa de Greices, como todas as casas da região, não era requintada, não possuía luxo, mas era a maior e com mais aposentos, uma vez que ele era o representante de Handaf para a região.

Durante o jantar, Greices ia explicando a Meirol sua ida até o grande líder dos maztenas, de como ela fora incomum , do cavaleiro mensageiro urgindo em sua moradia, da velocidade imposta no percurso e no importante anúncio dado por Handaf. Meirol ouvia tudo atentamente, levantando as sobrancelhas em alguns momentos e em outros fazendo uma cara de quem descobria a verdade. Em meio à conversa, Greices pediu a Meirol que fosse para casa e passasse a noite lá com sua esposa, pois teria de viajar no dia seguinte, antes do nascer do sol, e a data de regresso não era conhecida. (Os líderes regionais iam ter com o grande líder uma vez na primeira parte da floração e outra vez na terceira parte da desfloração, o que daria duas vezes ao ano, segundo o calendário mamouriano, criado pelos Asnarlahals)

Assim nascera o novo dia e ambos, mais três servos de Greices (dois estavam bem armados), estavam a caminho, iniciando seus mais de 30 km de viagem até Handaf. Uma viagem que Meirol nunca fizera.

No início da viagem, Meirol logo perguntou:

“Senhor, estou intrigado! Como um grande líder poderia solicitar minha presença …um mero pescador de um povo ribeirinho? Não sei nada mais do que pescar no Vantaás-Eás!”

De fato, o nome do rio assim ficou conhecido por todos os silvos de épocas posteriores, mas nos dias de Handaf somente os maztenas chamavam o rio assim. Os dunos, por exemplo o chamavam de Massava, enquanto nomeavam o Silivratas de Tassava.

“Meirol, tu és incrivelmente modesto, mas tua sabedoria te precede. O grande líder está com um imenso problema, e isso exige grandes mentes para resolvê-los. A ele tenho informado sobre tua valorosa ajuda na busca pela justiça na nossa localidade, e ele mandou buscá-lo. Porém, mais dois considerados sábios estão indo ter com Handaf, e um de seus conselheiros também estará lá para tentar mostrar que é mais sábio que os demais.”

“Quer dizer que estou indo a uma competição?”

“De certa forma, sim! O Grande Líder enviará o mais sábio numa comitiva para reaver algo muito importante. Um artefato mundii perdido.”

“Greices, que artefato é esse, e porque é tão importante assim, e o que é Mundii?”

“Nossa única desvantagem é que vivemos muito longe das terras principais, longe das preocupações da nossa tribo, indiferente ao mundo que nos cerca, tendo paz com os dunos. Isso nos faz estar desinformado de muita coisa, e pode pesar contra sua sabedoria nata. Mundii é um povo antigo que vive além do Grande Rio (o Silivrens). Foram dominados pelos doles e hoje a tribo se chama Dole-Mundii. Os mundii são a maioria, mas a liderança da tribo está nas mãos dos doles. Quanto a como você será de ajuda e o que se espera de você, nada sei”

“Mas senhor, você ainda não me contou”

“O quê?”

“Que artefato é esse?”

“Chamamos de pedra Sácer. Não sei sobre suas origens, a não ser que pertenceu aos mundii. Mas nós, os maztenas, o temos em grande estima …(Greices pausa e sussurra consigo mesmo, e Meirol entendeu algo como “eu nem estimo tanto assim”) e … então … bem, do que eu falava mesmo? Ah sim, … e os chefes do exército confiam nesse artefato como amuleto, e ele sumiu. Para piorar as coisas, os mundii exigem que os maztenas lhes mostrem o artefato todo ano. Crêem que receberão uma maldição do seu deus Onarai se atacarem quem tem tal pedra. Assim, não nos atacam por esse motivo. Agora você sabe que estará entrando num assunto que envolve o bem-estar de todos os milhares de maztenas. Se tiver paciência, Handaf nos explicará outras coisas na ocasião que ele considerar mais oportuna.”

Estavam agora numa marcha tranqüila. Não tinham pressa, e Meirol não entendia por que, se a primeira ida de Greices fora bem apressada. Mas a verdade é que outro considerado sábio morava há uns 18 km de Handaf e não usava cavalo. Logo, uma apressada marcha galopante não traria muita vantagem.

Ao chegarem, foram recebidos por belas mulheres, servas de Handaf, que lhes mostraram onde ficariam até o chamado. Apesar de já ter uma vez explicado, Greices olha para Meirol e diz:

“Em ocasiões formais, nunca olhe diretamente nos olhos do Grande Líder, sempre olhe para baixo.”

Meirol então passou a olhar para uma praça distante, muitas pessoas vendendo e comprando, gente diferente … estranha …

“Você sabe de onde são?” – pergunta ele a Greices, apontando para bem vestidos senhores.

“São homens asnarlahals. O Grande Líder estima muito suas visitas, e aprende com eles. Nossas vestimentas atuais são um arremedo de suas belas vestes e o nosso calendário foi inventado por eles.”

Meirol estava sentindo-se estranho, longe de casa. Uma vontade de subir no puro-sangue montanhês que o trouxe e sair dali desceu sobre ele e estava tornando-se incontrolável. Pensou em sua querida esposa e a lembrança amada tirou-lhe a atenção. Ele então voltou-se a um homem que implorava misericórdia aos soldados. Estava amarrado e era trazido quase arrastado. Ao passar por Meirol ele o encarou com tamanha força nos seus olhos grandes e cheios de lágrimas que Meirol sentiu-se perturbado e desviou o olhar. E lá se foi o homem, para ser lançado na detenção.

Não demorou muito, chegou o último homem convocado, Servensaus, junto com seu líder regional, Míten, de cabeça raspada, equivalente a Greices. Homem educado, Servensaus passou por Meirol e o cumprimentou com um sorriso amistoso. Míten também o cumprimentou com um sorriso, mas este último possuía alguma malícia … um sorriso com certo desdém.

Logo houve o chamado, e o coração de Meirol passou a bater mais rápido, e uma certa ansiedade tomou conta dele. Passaram a dirigir-se para uma sala ampla (o aposento do corro), que tinha um assento de pedras lavradas e vários sacos estofados ao redor. Apesar de os maztenas já utilizarem cadeiras como assento, aquela sala de reuniões mantinha as características tradicionais de outrora, sendo que apenas o assento do Grande Líder fora alterado. Entraram Míten e seu companheiro Servensaus e sentaram-se, depois Greices e seu companheiro Meirol e sentaram-se; sobraram dois assentos de saco.

“Mas senhor,” perguntou Servensaus a Míten, “não seriam 4 sábios? Por que só há mais dois lugares? Se minha suposição estiver correta, os outros dois são líderes … eles são não é mesmo?” Se cada sábio vinha acompanhado de seu líder, deveria haver 8 lugares, mas só havia 6

Míten somente balançou a cabeça positivamente. Ele não se agradava dessa idéia (de que líderes pudessem ser escolhidos para a tarefa), e gostaria de que seu companheiro Servensaus fosse escolhido, aumentando sua honra pessoal e moral perante Handaf.

Logo entrou no aposento um outro homem de cabeça raspada. Todos os líderes regionais assim faziam, antes de entrar perante o Grande Líder. Cumprimentou Míten e Greices e nem olhou para os outros dois. Em seguida veio um homem bem vestido, quase parecendo um asnarlahal. Este não olhou para ninguém. Era Greiteli, um dos conselheiros de Handaf. A Meirol pareceu que a arrogância crescia junto com a posição em alguns desses senhores.

Um silêncio profundo tomou conta do aposento. Dava para ouvir a respiração de todos e isso trouxe nova ansiedade a Meirol. Não queria estar entre gente importante, mas queria estar com Pes-Ean. Pensava em quão orgulhoso deveria ser Handaf, já que tinha a maior posição entre todos, e nem sequer permitia que olhassem diretamente em seus olhos.

Não demorou muito e Handaf entrou, e todos se debruçaram no chão. Handaf então os permitiu voltarem à anterior posição e lhes deu boas-vindas. Estava nu da cintura para cima, e possuía um colar de brilhantes. No meio do colar estava um pingente, uma insígnia, símbolo de seu poder. Tal colar era a principal insígnia maztena e segundo a tradição fora forjado pelo ser que criou a vida em Panol, o planeta (Greices não acreditava nisso).

Handaf foi direto ao assunto:

“Saibam todos, que preciso formar uma comitiva, e que necessito que o líder dela seja reconhecidamente sábio. A ele fornecerei homens bens treinados na guerra e tudo mais que ele achar necessário. Depois de mostrar-se superior aos outros em discernimento e perspicácia, o escolhido saberá do que se trata. Foram propostos três enigmas, e estes servirão de teste à vossa esperteza. (Bateu palmas) Que comecem os testes!” Os dois primeiros testes foram elaborados em Libros, levados aos levinotes, que levaram aos asnarlahals, que levaram a Handaf.

Assim entraram homens com mesas, 4 delas, colocando-as nos quatro cantos da sala, e puseram em cada uma o seguinte: Uma vasilha com que cabia um metame, contendo um metame de água, outra que cabia 5 metames, contendo 5 metames, e mais uma vasilha de 6 metames, porém contendo apenas dois metames de água. Um metame maztena equivale a 894 ml

“O desafio,” passou a clamar o internúncio do Grande Líder, “consiste em distribuir os volumes de modo que a vasilha de 5 metames e a de 6 fiquem com exatamente com 4 metames de água cada uma.”

E o desafio começou. Juízes analisavam se havia interferência de terceiros nos testes. Não demorou muito e Greiteli clamou “terminei” e o juiz deu por encerrada a descoberta de Greiteli, mas aos demais ainda se lhes permitiu que continuassem no seu desafio. “Ele está nos logrando”, pensava Meirol, “deve ter tido acesso aos testes de maneira prévia”. Após um tempo determinado, Handaf encerrou o teste e disse a Greiteli:

“O congratulo, Greiteli. Fico feliz de que és meu conselheiro. Demonstre juiz, como Greiteli resolveu a questão”

O juiz passou a dizer, e fazer o que dizia, em demonstração a todos:

“Greiteli, primeiro, despejou todo conteúdo do recipiente de 5 metames no recipiente de 6. Como o recipiente de 6 metames suporta apenas mais 4 metames, este ficou com 6 metames e o de 5 com 1 metame. Então ele colocou todo volume do recipiente de 1 metame no recipiente de 5 metames. O recipiente de 5 metames ficou então com 2 metames e o de 1 metame ficou vazio”.

Logo, Greiteli despejou o conteúdo do recipiente de 6 metames, que contém agora 6 metames, no recipiente de 5 metames. Como o de 5 metames já continha 2 metames, este suporta apenas mais 3 metames. Ele passa a ter 5 metames e o de 6 metames fica então com 3 metames.

O passo seguinte foi despejar o conteúdo do recipiente de 5 metames no recipiente de 1 metame. Como o de 1 metame suporta apenas 1 metame, o de 5 metames fica então com 4 metames.

Para finalizar, Greiteli colocou todo o conteúdo do recipiente de 1 metame dentro do de 6 metames.

“Impressionante,” repetiu Handaf três vezes, inserindo a palavra “mesmo” depois da última vez.

“Mais alguém descobriu algo antes do fim do teste?”

“Eu, Grande Líder” – era Meirol.

Handaf valorizou o fato de Greiteli descobrir uma maneira de resolver o teste rapidamente, mas o mais importante para ele é que o teste fosse terminado. Por isso pediu ao juiz de Meirol que demonstrasse o que fez Meirol.

“Meirol, despejou o conteúdo de 1 metame de água do recipiente de 1 metame no de 6, que possuía 2 e despejou um metame do recipiente de 5 no de 1. Então o de 5 ficou com 4, o de um ficou com um e o de 6 ficou com três. Meirol colocou novamente o metame do de 1 no de 6 (que tinha 3) e o resultado foi o desejado”.

“Impressionante” clamou Handaf, “declaro Meirol o vencedor dessa prova”

O internúncio então avisou a todos: “Meirol, sob Greices, venceu a primeira prova, a todos é concedida pequena pausa.”

Aquelas palavras doeram fundo em Míten, que desejava ouvir seu nome e o de Servensaus naquele momento. Aliás, Míten tinha certeza de que Servensaus não encontraria rival à altura de sua sabedoria, mas Servensaus nem sequer imaginou como resolver o problema. Greiteli também balbuciara algumas palavras, e Meirol ouviu entre algumas palavras inaudíveis Greiteli reclamando consigo mesmo que só obtivera acesso a duas das três provas e dentre as duas obtidas ilegalmente, uma delas ninguém sabia a resposta e a outra ele, Meirol, já havia vencido. Pasmo diante de tal confirmação de sua suspeita, Meirol nem viu Servensaus se aproximar dele, dizendo: “O congratulo aroer, pela sua esperteza!”

Um aroer é um homem que vive nas beiradas do território maztena.

“Míten parece não estar tão despreocupado quanto tu.”

“Míten é um bom homem, mas têm suas pretensões. Acha que porque sou bom esculpidor, consigo na maioria das vezes detectar se alguém está mentindo, sou um bom contador de lendas, conheço bem o mapa dos céus e as estrelas e posso me guiar por elas, e prevejo o tempo com pouca chance de erro, só por isso ele acha que sou o mais sábio de toda Panol. Isso não é atestado de sabedoria.”

Soaram sinceras as palavras de Servensaus.

Dali a pouco, estavam todos novamente reunidos e postos em seus assentos. O internúncio pediu que Servensaus, Meirol, o líder regional tido como sábio e Greiteli se aproximassem dele, para que declarasse a próxima prova: “Respondam do que se trata. A resposta é um enigma: Quando é desconhecido se torna um desafio, mas quando é conhecido não é grande coisa.”

“Vejo que tu mesmo respondeste o enigma.” – Disse Meirol ao internúncio.

“Que queres dizer com isso, aroer?”

“Tu mesmo dissesses: A resposta é UM ENIGMA.” Impressionado pela rapidez de Meirol em vencer a prova, Handaf o proclamou novamente vencedor.

Havia três provas a serem feitas, e Meirol já havia vencido duas. Era portanto vencedor, mas Handaf tinha interesse em ver como se sairiam na última prova. Por isso o internúncio declarou: “Estimados companheiros maztenas, eis que a prova final é, na verdade, um problema real que assola as mentes de nossos conselheiros e do próprio Grande Líder. Não é permitida a entrada de estranhos no aposento do corro, por isso, peço-vos que tenhais a bondade de acompanhar-me para fora, e ouviremos o problema do asnarlahal postado à entrada.” Após todos terem se ajeitado lá fora, Handaf bateu palmas, e o asnarlahal, depois de um cumprimento, iniciou seu relato:

“Eis que trouxemos conosco estas lindas lanças, trabalho de um mestre da fundição, de terras longínquas, um belo trabalho, eram, de fato, lanças sistartes, adquiridas por levinotes e repassadas aos asnarlahals. Aos hubiatanos, homens de terras distantes no nascente, interessa-lhes muito o arcadã por vós produzido. Os levinotes desejaram trocar conosco as lanças que possuíam, por arcadãs, que de vós obtemos. Obtivemos 90 lanças da tribo levinote mais ao poente e 90 estavam na tribo mais ao nascente. Apesar de serem idênticas as lanças, os levinotes do poente exigiram que para cada três das 90 lanças fosse dado 01 arcadã maztena. Porém, para as 90 lanças dos levinotes do nascente foram exigidos 01 arcadã maztenas para duas lanças. Não havia asnarlahal no mundo que fizesse estes levinotes do nascente abaixarem seu preço para equiparar-se ao dos levinotes do poente. Pareceu-nos bem, portanto trocar aqui em vossas terras 02 arcadãs por 05 lanças. Não é a mesma coisa trocar 03 lanças por 01 arcadãs e mais 02 por 01, ou trocar logo 05 lanças por 02 arcadãs? Consideramos a segunda opção a mais rápida.

Arcadã: Arco e flecha feito com uma madeira resistente de bela cor.

Com a permissão de Handaf, procuramos guerreiros dispostos a trocar seus arcadãs por lanças. Deu-se porém, que devíamos ter 75 arcadãs nas mãos, mas ao estarmos a caminho contamos os arcadãs, e eis 72 deles. Como pode, visto que cuidadosamente fizemos as trocas e não erramos, e nem perdemos nenhuma e garantimos que não fomos roubados?”

Ninguém percebeu, mas nesta hora os guardas traziam o homem que havia encarado Meirol com força no olhar, e estava amarrado; ele ia ser julgado por Handaf. Pararam, no entanto, à distância, ouvindo curiosos o relato dos arcadãs que faltavam; e desejando não perturbar o grande líder, esperavam. Agora que o problema estava exposto, somente aquele homem riu, em voz baixa. Meirol percebeu aquilo, e soube no seu íntimo que o homem sabia a resposta. Seria ele alguém dado a fazer muitas contas e sabia os segredos dos cálculos? Meirol acreditou que sim, mas voltou sua atenção para a solução do problema.

Ocorreu que tempo depois ninguém havia conseguido descobrir o erro. Na verdade, todos achavam que os asnarlahals perderam, de alguma forma, esses três arcadãs faltantes.

“Não esperava que descobríssemos mesmo, uma vez que estes asnarlahals, dados a muitas contas não foram nem eles mesmos capazes de descobrir o erro no cálculo.” Encerrou-se assim, a terceira prova.

Todos foram então reunidos no aposento do corro e Handaf declarou Meirol o vencedor e disse:

“Eis que te mostraste mais o mais perspicaz entre os perspicazes. Agora, todo o povo maztena estará em tua mão.”

De súbito, Greiteli alertou: “Meu Grande Líder, senhor dos maztenas, é certo que este homem nos venceu a todos e mostrou-se atinado. Porém, deveriam todos os maztenas colocar suas esperanças num aroer ... neste homem que mora nos arrabaldes de nossa tribo e vive de pesca como um duno?”

Ao que respondeu Meirol: “Não sou duno, mas me sentiria venturoso se fosse, dada a simplicidade e felicidade que se encontra no seio de tal tribo.”

“Diga-me Meirol” falou Handaf, “como vivem os dunos? Pois eis que estou em constante contato com os assuntos do norte, mas nada sei de como vivem os homens do sul.

“Meu senhor” disse Meirol ajoelhando-se “se eu tiver achado favor aos teus olhos, perdoe a insensatez de teu servo, ao desejar ser um duno.”

“Que significa isso, que peço para dizer-me como vivem os dunos e tu passas a clamar por minha benignidade?” Disse Handaf, ao que Meirol respondeu: “Grande Líder, admiro os dunos, pois entre eles há pouca distinção de classe, e suas vilas são baseadas na partilha. Todos pescam, caçam e plantam e todos trazem todo o resultado de seu labor para um armazém em comum, e fazem a partilha entre todos na vila. Até mesmo o líder duno trabalha arduamente, e leva o resultado de seu labor para partilhar com outros. Que minha observação não faça acender a ira de meu Senhor!”

Handaf sentiu-se curioso quanto aos dunos e desejava saber mais, porém, ficou visivelmente incomodado com a possível comparação entre ele e o líder tribal dos dunos. Dispensou portanto a todos, mas ordenou que ninguém deixasse a vila principal até segunda ordem. Quanto a Meirol e Greices, marcou Handaf com esses um novo corro (reunião de pessoas num círculo) para o dia seguinte.

E ali na vila pernoitaram todos, e amanheceu o dia, e houve novo chamado. Apresentaram-se portanto Greices e Meirol a Handaf.

Dirigindo a palavra a Meirol, Handaf disse:

“Amigo, podes olhar para mim agora. Este costume maztena não me agrada, mas é isso que os meus subordinados esperam que eu exija.”

Meirol ficou surpreso ao ver as coisas de um ângulo diferente. Ora, até mesmo o Grande Líder cumpria exigências.

“Te contarei agora a história da pedra Sácer, de como ela é vital para os maztenas e o que espero de ti. Poderás, depois, renunciar a esta carga que está sendo a ti imposta.”

Meirol não disse uma única palavra, mas se acomodou, curioso por ouvir a história.

“Conheces tu a pedra Sácer?” – perguntou Handaf.

“Vim a conhecê-la hoje pela manhã, quando Greices abordou superficialmente o assunto”

Handaf surpreendeu-se de saber que havia maztenas que não conheciam a pedra, pois perguntara imaginando que a resposta seria sim.

“Pois vou contar a ti a história da pedra:

Os mundii tinham uma pedra que para eles era muito importante. Chamavam-na de Pedra do Ancianato. Há uns 100 ciclos atrás (100 anos) nossos antepassados travaram guerra contra os mundii, por motivos que a história não registrou. Fragmentos em nossos registros, porém, relatam que estávamos perdendo a luta, e nossos bravos guerreiros eram menos numerosos que os mundii (assim como ainda é hoje). Íamos ser reduzidos a nada. Ora, eis que na correria da batalha, invadimos um templo de Onarai, o deus mundii. Um dos guerreiros, na euforia, agarrou-se a uma pedra e ela desprendeu-se da parede, e veio a estar na palma de sua mão. Um conselheiro do Grande Líder da época (este Grande Líder não é meu antepassado) alegou, naquele momento, que havia tido uma visão na noite anterior, e nela aparecia tal pedra e uma voz que dizia ‘a vitória pertence aos maztenas’. Imagino que o conselheiro era um bendito mentiroso, mas o fato é que a visão recebeu crédito e encheu de ânimo os maztenas encurralados em território mundii. Ora, vendo que os maztenas partiam abertamente para a batalha, os mundii viram que se apoderaram da pedra, ficaram atônitos, e se dispersaram, e foram caçados. Assim, os maztenas saíram do território mundii, mas junto levaram a pedra que se desprendera da parede. E o que estava escrito na pedra era Onarai, o nome do deus Mundii. Porém, não sabemos como, mas hoje todos conhecemos o artefato por Pedra Sácer.

Ocorre que a história se perpetuou, e os chefes de exército maztenas daquela época juraram sempre lutar bravamente enquanto o líder mantivesse a posse do amuleto. E sempre foi assim nestes últimos 100 ciclos. Imaginas tu o perigo que corremos se formos atacados hoje, com o ânimo de nossos supersticiosos chefes militares estando abatido?

Eis que isso não é tudo. Saiba que os mundii nunca esqueceram o ultraje que fizemos, ao roubar-lhes o que eles chamam de Amuleto do Ancianato. Eles, acham que Onarai protege a quem tem o amuleto, ou a Pedra Sácer. Por isso, apesar de crescerem novamente em número, e se tornarem um exército poderoso, nunca ousam nos atacar sem primeiro verificar se possuímos ainda tal pedra. Os mundii estão dominados atualmente pelos doles, homens muito inteligentes. Mas os doles sabem que os mundii esperam que eles respeitem essa diferença que há entre nós e os mundii. Por isso, os doles enviam de ciclo em ciclo uma comitiva dole-mundii que exige que mostremos a eles a pedra Sácer. Como a pedra nunca nos faltou até agora, nunca nos atacaram. Mas, eis que agora ela sumiu, e temos uma parte (um mês) até que venha uma nova comitiva e busque saber se ainda temos a pedra Sácer. Sofreremos, portanto, um ataque mundii e vemos nossos desalentados chefes de exército lamentarem a perda da Pedra.

Esta é a história da pedra Sácer, e por isso me é muito cara. Encararás tu o desafio de investigar o paradeiro da Pedra Sácer e trazê-la a mim em menos de uma parte, Meirol?”

Meirol pensou em Pes-Ean. Desejou estar com ela novamente, quis nunca ter ouvido falar dessa pedra Sácer e voltar para sua pescaria e seu cotidiano, nas belas paisagens das margens mais ao sul do Vantaás-Eás. Mas, os acontecimentos o levaram ali, e ele sentia que não deveria dar às costas aos seus irmãos maztenas nesse momento. Ponderou e concluiu que todos ficariam mais desanimados ao saber que o vencedor nos testes não aceitou a carga de ir resgatar a pedra Sácer, mesmo que outro fosse em seu lugar.

“Sim, meu Senhor, o Grande Líder, irei” – Disse Meirol.

O espírito de Handaf se imbuiu de sentimentos positivos e otimismo. Se não fosse por sua elevada posição teria se ajoelhado diante de Meirol, em sinal de gratidão.

“Agora aroer, diga-me do que precisarás ... eis que tenho comigo vários homens habilidosos e fortes, aptos para batalha e para a proteção. Poderás levar muitos deles, se desejar.”

“Meu senhor, considero que, ou levemos toda nossa força militar maztena, ou levemos pouquíssimos homens, para que não demos na vista. Me seria útil que Servensaus fosse comigo, pois é um bom companheiro e pode prever o tempo, e sabe navegar olhando os céus, e essas habilidades me serão muito úteis. Também, sei que logo haverá aqui uma audiência para julgar um homem alto que está lá fora esperando. Não sei o que fez, nem a gravidade de sua atitude segundo os costumes maztenas, mas se for possível achar motivo para perdão, e se ele não representar ameaça para minha vida, que ele seja integrado à comitiva que me acompanhará.”

“Como se explica isso, que um homem que não conheces e mal o vistes poderia ser desejável como integrante de tua comitiva?”

“Suponho, meu senhor, que ele é um homem entendido. E se terei de andar por terras que são por mim desconhecidas, terei imenso prazer em ter em minha companhia homens de conhecimento. Também, Greices, se desejar, poderá estar conosco.”

“Seus pedidos serão atendidos Meirol. No entanto, além de 4 carregadores você levará Quin-Néser e Caldiens contigo. Quin-Néser é homem habilidoso. Atira objetos cortantes e não erra o alvo. È rápido no correr e tem visão aguçada. Caldiens é o homem mais forte de toda Panol (uma expressão hiperbólica). É do meu agrado que eles te acompanhem. Também, insistiu muito em unir-se ao séquito o Sr. Greiteli, meu conselheiro. Ele pediu audiência ainda ontem, e lhe dei permissão para acompanhá-lo.”

Meirol não apreciou este último nome, mas não quis desagradar o Grande Líder.

“A única informação que poderei te dar para que possas ver o fio que leva ao novelo é que uma caravana de Levinotes esteve no norte de nossas fronteiras, e os aroeres afirmaram que seguia para mais ao norte. É rara uma caravana de comerciantes levinotes por aqui, pois eles usualmente comercializam por intermédio dos asnarlahals . Isso me pareceu ter algo que ver com o sumiço da pedra. Quanto à pedra Sácer, estava sob a guarda pessoal de meu terceiro filho, Tarastir. Seus homens não sabem como ela sumiu da Gruta de Outrora, seu local de armazenamento. Pensei em punir os que mantinham vigilância à noite com a morte mas Tarastir implorou para que eu poupasse seus guardas, e mostrei clemência nesse caso, por meu filho.”

Meirol já tinha duas dicas: A pedra deve ter ido para o norte, e levada por levinotes. Os quatro carregadores, Alaicha, Bafor-Nul, Esmálforas, Quénsel, já estavam prontos com seus sacos contendo provisões para a viagem. Quin-Néser e Caldiens foram se despedir de suas esposas e se encontrariam com eles mais tarde, pois se deslocariam com mais velocidade para os alcançar. Estes possuíam adejantes, cavalos selvagens muito velozes e fortes, que só permitem que seu dono os domine, e se esse morrer, a nenhum outro permitem que tome o seu lugar. Esmálforas, o pequeno (quase anão) possuía um marchador de Tamblem, cavalos de baixa estatura, que migraram das redondezas do rio Dorna. O puro-sangue montanhês que trouxe Meirol foi passado à Servensaus e Greices (que os acompanharia até a tribo Eromê, e depois regressaria, montava seu Crina dourada, da mesma raça que o cavalo de Handaf. Belos animais eram os crinas douradas. Handaf desejou empregar seu cavalo Peloreã nessa missão desesperadora, e o cedeu a Meirol. Alguns acharam que isso era uma mácula na tradição, um aroer montar um crina dourada. E assim se pôs a caminho a comitiva de 11 integrantes ...

Os 11: Meirol, Greices, Servensaus, Aduneius (cuja liberdade deve à Meirol), Greiteli, os dois guerreiros Caldiens e Quin-Néser, e os quatro carregadores: Alaicha, Bafor-Nul, Esmálforas e Quénsel

2. Caruanã – o Líder dos Dole-Mundii e o Amuleto do Ancianato.

Caruanã havia tomado o poder recentemente. Havia sido escolhido por seu pai para dominar, mas entre os doles nem sempre o pai escolhe o filho como líder. Caruanã, diferente de seu pai, era um homem curioso e com sede de poder. Inteirou-se dos pormenores dos mundii e daquilo que chamam de amuleto do ancianato. Assim como seu pai e seu avô, concordou que uma comitiva iria investigar todos os anos se o amuleto continuava em poder dos maztenas, e comandaria uma ofensiva para vingar o roubo, caso o amuleto fosse perdido. Era sábio agradar aos mundii nesse respeito, pois apesar de sentir desprezo por eles, Caruanã sabia que eram numerosos, e uma rebelião poderia ser difícil de sufocar. Ao averiguar os assuntos, enquanto ainda vivia seu pai, Caruanã entrou com tans no templo que há uns 100 anos (ou ciclos) antes os maztenas invadiram para se protegerem.

Tans – Classe servil que atendia aos Onaraitans, os sacerdotes de Onarai.

Ao interrogar sobre o amuleto do ancianato, Caruanã ouviu um dos tans dizer:

“Os sacerdotes não poderão atuar sem a pedra, pois ela dá poderes a este lugar. Antes, quando a possuíamos, nossos antepassados diziam que Onarai se abria e permitia que os Onaraitans fizessem oferendas. Agora, sem o amuleto, Onarai se fechou para nós. Gratos eternamente seremos a quem nos trouxer o amuleto, desde que não seja um maztena.”

Isso soou bem para Caruanã, pois se ele trouxesse a pedra de volta, a gratidão faria as chances de os mundii se separarem serem reduzidas a zero. Esse era um risco real, mas ignorado por seu pai e avô. Mas ao mesmo tempo em que via vantagens em obter o amuleto do Ancianato, ele passou a temer que outro poderia encontrá-la e trazê-la de volta, e ganhar a devoção e gratidão dos mundii. Como conseguiria tal pedra? Com batalha? Mas não poderia contar com o auxílio dos mundii se batalhasse com maztenas. Haveria outra maneira? Talvez os sábios de além das montanhas Andeias poderiam ajudar. E ajudaram.

Tais sábios nada mais eram do que gananciosos mercadores levinotes, que viram a oportunidade de lucrar com as intenções de Caruanã. Eles lhe haviam dito que enviasse um dole com muito dinheiro, pois obteriam o Amuleto do Ancianato, ou pedra Sácer, mas precisariam de tempo e fariam uma arriscada manobra, e isso custaria caro. Feitos os devidos acertos, os levinotes calcularam datas e disseram o dia aproximado em que o dole encarregado de fazer o pagamento deveria ser enviado por Caruanã à tribo leste dos levinotes.

Caruanã estava impaciente! Foram muitos e longos os dias de espera até chegar a data estabelecida para o envio do seu representante até os levinotes, mas ela já havia chegado. Ele já se fora e agora Caruanã passava o tempo inquieto, movimentando-se de um lado para outro, ansioso por ver o Amuleto do Ancianato em suas mãos. Na manhã em que Meirol ia com Greices até o Grande Líder dos maztenas, Caruanã acordara cedo e estudava possibilidades, benefícios e riscos de não ver a pedra sob seus cuidados. O assunto todo, para Caruanã, já havia virado uma obsessão.

3. Eromês e Manvatopias – Uma inesperada revelação.

A comitiva dos 11 cavalgava pelo território norte dos maztenas, para Meirol, tão belo quanto o sul. Aqui, porém, encontram-se menos pescadores. Os quatro carregadores conversavam muito entre si, e pareciam sentir-se honrados em participar nessa aventura por terras desconhecidas. Nenhum era casado. Quin-Néser fitava o olho no horizonte e olhava muito para os lados, como quem estivesse procurando algo. Greiteli cavalgou todo o tempo ao lado de Greices e conversava somente com ele, como se conversar com um homem de menor posição fosse inconveniente. Meirol, em determinado momento, aproximou-se de Aduneius e perguntou-lhe:

“Que graça te designaram ao nascer?”

“Aduneius” – respondeu friamente o homem.

“És de qual tribo?”

“Nenhuma das que conheces”

Meirol percebeu que o homem não estava disposto a deixar-se ser sondado. Caldiens olhou para Aduneius com um olhar ameaçador e viu Meirol acenar que estava tudo bem.

“Sabe Aduneius, tenho vivido uma vida simples, e muito pouco conhecimento dos lugares desse mundo eu tenho. Deves ter razão; para mim, o lugar que moras não passa de um nome, e talvez citá-lo seria esgotar a língua”

Aduneius ficou comovido com tal demonstração de humildade. Fora tratado há muitos dias somente com hostilidade e palavras duras. Mas agora que respondera rudemente, Meirol não o molestou, nem se ofendeu. Após uma pausa, Meirol continuou cavalgando ao lado de Aduneius. Ouvia-se a conversa dos carregadores que contavam animadamente o relato do Asnarlahal, que antes de apresentar seu problema ao Grande Líder, na ocasião em que ninguém pôde solucionar, escorregou e caiu vergonhosamente.

“Eles não fizeram bem em trocar 5 lanças por 2 arcadãs. Não é a mesma coisa.” – Falou, olhando para a cabeça do cavalo, Aduneius.

Meirol deu um sorriso, satisfeito, e falou:

“Minha dedução não apresentou falha. Sabias a resposta”

“Vamos chamar as 90 lanças dos levinotes do poente de lanças A, lembrando que 3 delas seriam trocadas por 01 arcadã. As lanças da tribo do nascente chamaremos de lanças B, lembrando que 02 delas seriam trocadas por 01 arcadã.

Na primeira troca, trocou-se 3 lanças A mais 2 lanças B e obteve-se 2 arcadãs (5 por 2). Sobraram 87 da A e 88 da B.

Na segunda rodada trocou-se 3 lanças A mais 2 lanças B e obteve-se mais 2 arcadãs que agora somavam 4. Sobraram 84 do A e 86 do B.

Na terceira rodada trocou-se 3 lanças A mais 2 lanças B e obteve-se mais 2 arcadãs que agora somavam 6. Sobraram 81 do A e 84 do B.

Você pode observar uma regra: A cada rodada de trocas, aumentam 02 arcadãs, diminuem 03 lanças A e 02 lanças B. De modo que na décima rodada obteríamos 20 arcadãs, e diminuiríamos 30 lanças A e 20 lanças B. Na trigésima rodada haveriam 60 arcadãs com os asnarlahals, acabariam as lanças A e ainda sobrariam 30 lanças B, pois aqui elas atingiram 60 lanças. Até agora não há erro.

Observe daqui para frente: As lanças B valem 2 x 1 em relação ao arcadã, de modo que 5 valeriam por 2 arcadãs e meio, mas os asnarlahals continuaram a trocar 5 x 2. A cada rodada perderam meio arcadã e nas 06 rodadas que se seguiram, perderam 03 arcadãs. Dos 75, obtiveram 72”.

Meirol olhou pasmo para Servensaus e Greices, que também ouviram a explicação, mas não do começo. Pediu-se uma repetição da solução, que foi dada em detalhes por Aduneius, satisfeito em ter encontrado pessoas que admiravam o conhecimento.

“Donde vens e o que fazes?” – Perguntou Greiteli.

“Sou de Libros. Sou o norteador matemático da Casa do Pensamento”

“Quer dizer que você lidera os que analisam a matemática, na sua terra?” Perguntou Greices.

“Sim, eu os norteio, ou oriento, como estão as pessoas dessa região habituadas a dizer.”

“Parece que Meirol tem uma percepção e tanto ... escolheu um mestre na arte das contas sem sabê-lo.”

“Pude ver pelo olhar e pelo malicioso riso que ele sabia a resposta.”

“Aprendemos a civilização com os asnarlahals, que a aprenderam com Libros.” Disse Greiteli, fazendo o gesto de beijar os dedos (a mão fica de maneira que o indicador envolva o polegar) e depois estender o braço com a palma da mão virada para cima enquanto abaixa a cabeça. É a forma de Libros cumprimentar seus senhores e homens de fama. Isso impressionou Aduneius, um homem do alto escalão maztena se dobrando perante ele. Não que ele achasse que não merecia, mas era justamente a liderança maztena que o julgava adversamente. Porém, a atitude de Greiteli deixou mais impressionados ainda aos outros integrantes da comitiva. Não achavam que um homem arrogante como ele poderia demonstrar tamanha cordialidade.

Ao continuarem sua cavalgada, chegaram aos limites do território maztena. Lá, Meirol perguntou aos aroeres do Norte sobre as caravanas de Levinotes, e para onde foram. Indagou se algum homem com modos maztenas foi avistado fazendo alguma transação comercial com eles. Meirol ficou impressionado com a disposição para ajudar demonstrada pelos aroeres. Obteve toda a resposta que precisava. Soube que nenhum maztena das terras principais foi avistado por ali.

“Os homens do norte conhecem Peloreã, o cavalo crina dourada de Handaf. Por isso o ajudam, sabendo que você está numa missão em nome do Grande Líder.” – Explicava Greices

“Bem, Meirol, meus três servos me aguardam na vila (chamavam de “vila principal”, ou somente “vila” a cidadela onde Handaf habitava, descontando os arredores). Preciso retornar para levá-los embora. Não irão sem mim, e não desejo lhes impor uma espera demorada. Eis que agora ainda estás mais perto da vila do que estaria se estivesse em nossa morada. Mas doravante haverá uma terra erma (desabitada) e logo você deverá tomar cuidado, pois seguindo a margem do Vantaás-Eás você entrará na terra dos eromês. Não temos tratos com eles, e não sabemos se são amistosos ou não.”

Ambos se abraçaram demoradamente e Meirol falou:

“Diga a Pes-Ean que desejo ardentemente regressar. Diga a ela que meu coração sente-se esmagado pela distância. Sabe Greices, nunca estive tão longe dela. Nunca na minha vida. Já passei mais dias sem a companhia de Pes-Ean, mas estava muito mais perto dela. Sinto falta dela.”

“Maztenas ...” completou Greices – “Handaf o Grande Líder me pediu que nomeasse Meirol como o homem mais graduado do grupo. Portanto, todos vós deveis obediência a ele a partir desse ponto. Caldiens e Quin-Néser farão valer essa obediência pela força, se for necessária”.

“Não creio que será. É com alegria que o recebemos como nosso senhor.” manifestou-se Servensaus.

Greiteli não apreciara isso, mas vira que os dois homens de guerra balançavam a cabeça em sinal de positivo enquanto Greices falava, o que parece demonstrar que eles sabiam da nomeação. E se eles sabiam, não era uma invenção de Greices, uma nomeação ilegítima de última hora.

Após despedir-se de todos, Greices e seu crina dourada se foram, e a comitiva de 10 continuou sua tarefa. De todos, apenas Meirol gostaria de estar no lugar de Greices.

Agora, um sentimento estranho tomou conta de Meirol. Ele não sabia se era o peso de liderar os homens ou se era a falta de seu líder, Greices.

A cavalgada continuava. Já não havia mais aldeias e a vegetação começava a fechar-se. Terra de ninguém. Algumas vezes ir margeando o rio era a melhor opção. Como cavalgavam sem pressa, por estarem em terra desconhecida, pouco avançavam e logo começou a escurecer.

“Vejo pelos astros que estamos indo para o noroeste” arrematou Servensaus.

Aduneius olhou com curiosidade. Os homens em Libros conheciam os astros, mas Aduneius nunca vira um ádvena (qualquer homem que não é de Libros) se guiar pelos astros. Havia tal ciência em Libros, mas Aduneius não era sábio neste assunto.

Mais adiante acamparam. Os carregadores tinham em seus cavalos robustos tecidos para barracas e logo perguntaram à Meirol onde ele queria que estas fossem montadas. Decidido o local, passaram a trabalhar habilmente nessa tarefa. 05 barracas, para 10 dormirem.

Estavam à quase um quilômetro do Vantaás-Eás, e Alaicha e Quénsel foram buscar água no rio. Aduneius divertia a todos com um jogo no qual ele afirmava que nunca perdia.

Quando Meirol se aproximou, ele explicou novamente:

“Aqui há muitas pedras. Jogaremos com 34 delas.

“O jogo é assim. Cada um de nós vai retirando pedras. A cada rodada podemos retirar uma, duas, ou três pedras. Você pode tirar duas na primeira vez, e eu três em seguida, entendeu? Quem tiver que retirar a última pedra perde o jogo ... ou seja, você perderá!”

Meirol ficou curioso com a certeza de Aduneius na vitória. Para que o leitor acompanhe como desenrolou-se o jogo, colocaremos A2 se, por exemplo, Aduneius retirar duas pedras e M3 se Meirol retirar três. O jogo desdobrou-se assim:

A1, M3, A1, M1, A3, M2, A2, M3, A1, M3, A1, M2, A2, M1, A3, M2, A2. Como a soma dos números deu 33, sobrou uma pedra na mesa para Meirol retirar.

Greiteli aproximou-se e desejou jogar também, escolhendo ele mesmo o número de pedras, 23 delas. Ele achava que o segredo, ou estava na primeira pedra retirada por Aduneius, ou no número de 34 delas. Mas percebeu seu primeiro engano, quando Aduneius começou retirando duas, e não uma pedra. Veja o jogo:

A2, G1, A3, G2, A2, G3, A1, G2, A2, G1, A3. A soma dá 22 pedras ... sobrou uma para o perdedor Greiteli.

“Será que você é capaz de vencer se eu começar?” – Bradou Greiteli, que percebeu que Aduneius sempre começava.

“Tudo bem ... vamos tentar com 21 pedras.” E assim foi o jogo:

G1, A3, G1, A3, G3, A1, G2, A2, G1, A3, cuja soma é 20 pedras, sobrou uma e a vez é de Greiteli.

Todos estavam curiosos com aquele jogo, e quando Alaicha retornou, soube do jogo e tentou também derrotar o imbatível, mas não pôde fazê-lo.

“Se eu sobreviver a esta jornada por terras estranhas, lhes contarei meu segredo depois” – prometeu Aduneius.

E veio a noite, e metade dela Caldiens ficou vigiando, e na outra metade, Quin-Néser.

A aurora levaria duas horas e meia para raiar quando Quin-Néser deu um alerta em alta voz para seus companheiros. Meirol saiu da barraca e avistou o que pareciam ser duas dezenas de homens, guerreiros estranhamente vestidos, com colares de dentes. Um deles veio correndo na direção de Servensaus, que levantara-se assim que ouvira Quin-Néser alertar. O guerreiro tinha uma lança nas mãos e, ao chegar perto, preparou-se para arremessá-la, mas parou subitamente, largou a lança, tentou olhar para as costas e tombou. Quin-Néser atirou-lhe um punhal. Meirol olhou para o lado e viu Caldiens correndo na frente de todos e, sozinho lutava com os inimigos, e prevalecia. A três ele matou e outros ficaram feridos, até que foi rendido. Cercaram o acampamento e falaram palavras incompreensíveis para os maztenas, mas que Aduneius compreendeu. Greiteli também não estranhou muito e afirmou:

“Soa como a língua dos asnarlahals, mas não consigo traduzir tudo, porque mal consigo entender o que os asnarlahals dizem”. Aduneius esclareceu:

“É a língua comum com alguma variação. Estão discutindo entre eles se devem nos matar agora ou levar-nos perante seu Grande Líder. Direi que pedimos audiência ao Grande Líder deles.”

E foi isso que fez Aduneius, num sotaque que Greiteli pôde compreender um pouco, por se aproximar mais do sotaque dos asnarlahals. A isto respondeu Issalido, o líder deles, na língua comum:

“Não podemos negar isso a quem nos pede. Sereis escoltados para lá. Qualquer movimento em falso e teremos prazer em vingar a morte de nossos companheiros.” Na verdade, ele teria ordenado a execução de todos, não fosse o caso de que não confiava em todos os seus comandados que ali estavam. Talvez alguém teria prazer em delatá-lo ao Grande Líder como um que não respeitou a lei do pedido de audiência.

Aduneius, com dificuldade, conseguiu entabular uma conversa com um dos guerreiros e relatou a Meirol suas descobertas:

“São eromês, e estamos bem longe de seu Grande Líder. Ainda cavalgaremos muito. Estão com uma visita importante de outro Grande Líder, de uma tribo vizinha. Talvez seremos executados para a diversão dessa nobre visita.”

E chegaram, enfim até o Grande Líder dos eromês. Foram postos na retenção e Aduneius pensou consigo mesmo: “já estou me acostumando a isso”. Meirol pôde ver nas faces de seus amigos que todos estavam muito apreensivos. Podiam ouvir tambores e de um orifício Bafor-Nul via que havia dança, e pessoas ocupadas davam ordens para servos, que corriam de um lado para outro.

E as horas foram passando, e a manhã já estava vigorosa, e o meio-dia se aproximava. Queriam fazer o desjejum, mas seus pertences não estavam em seu poder. Logo o sol indicava que era hora do almoço, e alguém os trouxe comida. Era boa, não podiam reclamar. E veio a tarde, e Meirol começou a ficar desalentado com essa demora. Antes de cair a noite, foram retirados da detenção e tiveram as mãos atadas.

Foram levados perante o Grande Líder eromê, que ante seus olhos não tinha a mesma grandeza que o Grande Líder maztena. Ao lado dele estava um homem, sentado em um trono bem adornado (era cômico o fato de que esse homem fazia seus servos carregarem seu pesado trono nessa viagem). Era o Grande Líder dos manvatopias, a grandiosa visita dos eromês.

“Que o líder dos invasores tenha suas mãos desatadas” – ordenou o Grande Líder dos eromês.

Assim, Meirol sentiu uma faca cortando as cordas. Intencionalmente ou não, sentiu que a faca cortou-lhe levemente a mão.

“Conte-me Issalido, o que aconteceu”

“Meu senhor, longos sejam os seus dias! Eu e meus homens fazíamos a ronda nas fronteiras eromês e eis que avistamos um acampamento. Bem sabes dos dias funestos que atravessamos, e que os tassu-assus nos fazem emboscadas. Pois bem, tassu-assus atacam a partir do norte, e não do sul, mas não poderia ser esta mais uma emboscada? Ordenei que um de meus homens matasse um dos invasores, e se eles resistissem, eram bravos guerreiros, se não revidassem, eram homens sem poder de guerra, e pouca ameaça ofereceriam. Mas eis que um deles, de uma boa distância, acertou-o com um punhal. Foi um arremesso incrível. Diante disso, vi que estávamos perante homens perigosos e ordenei o ataque. É difícil acreditar na força daquele homem (fez isso apontando para Caldiens). Ele matou mais três de meus homens. Mas felizmente os subjugamos e o trouxemos a ti para que sejam julgados com tua justiça infalível. Estes homens mataram quatro eromês em terras eromês”

O Grande Líder eromê pensou um pouco e, usando Aduneius como tradutor, pediu a Meirol que explicasse o que aconteceu, ao que ele respondeu, incomodado pelo sangue que levemente vertia da mão:

“Somos maztenas (diante dessa afirmação o Grande Líder manvatopia arrumou-se em seu trono, como se isso o interessasse muito). Estamos a caminho do norte. Não sabíamos que estávamos em território eromê e mesmo que soubéssemos, não esperávamos tamanha hostilidade, nem que um dos nossos tivesse que pagar com a vida para que pudéssemos ser avaliados. Se o mesmo homem que agora prestou seu testemunho fosse encontrado em território maztena, não teria encontrado igual agressividade. Estávamos dormindo e fomos alertados pelo nosso valoroso vigia de que homens aparentemente hostis se aproximavam. Um deles preparou-se para cravar uma lança em um dos nossos homens, um que é pacífico e excelente homem. Haveríamos de deixar que nosso companheiro tivesse seu fim? Os eromês que morreram, eles é que nos atacaram. Nós simplesmente nos defendemos.”

O Grande Líder eromê perguntou ao Grande Líder manvatopia se ele desejava fazer alguma pergunta que auxiliasse no caso, ao que ele escolheu Quénsel para aproximar-se e perguntou, na língua maztena:

“Diga-me maztena, o que estão indo buscar? Não é comum encontrar maztenas fora de seu território!”

Meirol sabiamente manteve segredo sobre a Pedra Sácer, mas faria isso seu companheiro? Greiteli gelou ... pois ele sabia o que nenhum outro dos nove sabia, de que os mavatopias, do tronco étnico dos manvas, conheciam muito bem a história da Pedra Sácer. Os manvatopias mantinham contato com os manvas do norte e do sul, que habitavam a margem norte do grande rio Silivrens, relativamente próximos dos Dole-Mundii. Quénsel passou a dizer:

“Ó Grande Líder dos manvatopias, estamos procurando reaver algo de muito valor para nossa tribo ... estamos em busca da Pedra Sácer.”

O Grande Líder manvatopia estremeceu e relaxando a postura, escorregou um pouco em seu trono. “Esta é uma inesperada revelação”, pensou ele. Balbuciou palavras, olhou para o Grande Líder eromê e tentou conter o sorriso, mas não pôde. Os manvatopias sabiam da força militar dos dole-mundii, e o Grande Líder manvatopia sabia da gratidão que o Grande Líder dole-mundii teria aos manvatopias, se eles pudessem informar algo sobre o Amuleto do Ancianato. Melhor ainda, se soubessem que os manvatopias deram um fim aos que tentavam reencontrar a pedra.

De tudo o que se passava na mente do Grande Líder manvatopia Greiteli podia adivinhar, inclusive da intenção de eliminá-los, e tudo isso ele contou aos seus companheiros dizendo em voz baixa as mesmas palavras que se passaram no pensamento do Grande Líder manvatopia: “Essa foi uma inesperada revelação”.

O Grande Líder eromê se pôs a pensar, consultou um homem que parecia ser um de seus conselheiros e, talvez para agradar ao Grande Líder manvatopia (que pareceu ao Grande Líder eromê interessado no fim daqueles maztenas), deu a sentença, traduzida aos companheiros por Aduneius:

“Sei que não tínheis más intenções, por isso sois metade inocentes. Porém matastes quatro eromês em solo eromê, e nisso sois metade culpados. Não posso declarar alguém metade culpado, metade inocente. Num pedaço de papiro será anotada a palavra culpado, e num outro, inocente e ambas as palavras serão colocadas num saco. Que um de vós retire do saco o pedaço de papiro e, assim, decida própria sentença. ‘Culpado’ significará morte, ‘Inocente’ vos livrará!”

Os Grandes Líderes combinaram em segredo alguma coisa, e Meirol não estava gostando daquilo.

“Vão colocar somente a palavra culpado nos dois pedaços de papiro!” – Exclamou Servensaus, tremendo e com o coração batendo rápido. A voz saiu trêmula. Quando os outros ouviram o que disse Servensaus, se desesperaram. Greiteli esmoreceu.

Meirol tomou a dianteira e foi retirar o pedaço de papiro. Olhou para cima, para todos os que estavam na audiência, e para seus amigos. Sua face imprimia um desânimo completo. Foi-lhe ordenado que retirasse a sentença. A face atroz do Grande Líder dos manvatopias transformou-se em sorriso desdenhoso quando seus olhos encontraram os de Meirol.

“Não é justo!” – Sussurrou Meirol ao homem que lhe trouxe o saco. A resposta dele, “eu sei”, acompanhada de uma face cheia de compaixão trouxe mais desalento ao coração de Meirol. Significava que realmente haviam tramado contra ele. Já estava prestes a protestar, quando retirou o pedaço de papiro e ouviu o Grande Líder eromê dizer:

“Maztena, a tradição eromê diz que agora deverás escolher tua última refeição. Se fores condenado a morte e estiver no alcance de nossas mãos atendê-lo, o faremos.”

Depois de Aduneius ter traduzido a sentença, de súbito, Meirol alegrou-se. Seus amigos perceberam que ele pensara em algo. “O que foi, o que foi” perguntava Esmálforas, mas ninguém lhe respondia.

Meirol olhou para Aduneius e disse:

“Traduza isso Aduneius, meu último desejo para a refeição. Gostaria de comer um pedaço de papiro.”

Aduneius traduziu e o Grande Líder dos eromês deu sua permissão, movido por curiosidade, ao que Meirol comeu o pedaço de papiro que tinha em sua mão, antes mesmo que os eromês providenciassem sua estranha refeição.

Só havia agora uma maneira de saber o resultado da sentença: ordenar que se leia o único pedaço de papiro que sobrou.

Aduneius não acreditara na saída brilhante pensada por Meirol. O Grande Líder dos manvatopias ouvira e entendera, e coçou a cabeça, vendo-se já derrotado nesse pequeno embate contra os maztenas.

Os amigos entenderam logo a questão: Se o homem ler culpado (e lerá, pois nas duas vezes foi colocado tal palavra), logo Meirol só poderia ter na mão a palavra Inocente.

E assim se deu. Depois de consultar o Grande Líder dos manvatopias e questionar sobre o que é essa Pedra Sácer, o Grande Líder dos eromês ficou curioso com respeito ao assunto. Ele também não desejava voltar atrás com sua palavra, dada perante os demais, e deixou que os amigos fossem embora. Porém ficou muito curioso sobre esta Pedra Sácer e intrigado com a esperteza desse Meirol. Disse à comitiva que se eles pisassem em território eromê, poderiam receber sua hospitalidade. Em troca desejaria saber do desfecho da busca dessa pedra.

E os maztenas se foram, com permissão para cruzar o território eromê. No caminho, Greiteli explicava que os manvatopias eram do ramo étnico dos manvas, e os manvas estavam informados a respeito dos assuntos dos mundii. Lamentou a revelação do assunto a um manva, pois agora o assunto do sumiço da pedra poderia chegar aos ouvidos dole-mundii. Isso acarretaria sérios problemas. O tempo da inspeção dole-mundii da pedra Sácer poderia ser abreviado de um mês (ou uma parte) para alguns dias, tempo necessário para que os manvatopias façam a notícia chegar até os dole-mundii.

4. A caravana Levinote.

Le-in e Ninfa carregavam algo muito importante. Um artefato que, imaginava Le-in, lhes traria um lucro altíssimo.

Estes dois mercadores eram sócios há muito tempo. Fizeram muitas viagens usando rotas entre as três tribos levinotes. Também se aventuraram entre os hubiatanos e os dilibrunas, que formavam duas tribos, cancas e arnas. Os dilibrunas não tinham parentesco étnico, mas eram unidos por um pacto, o pacto dilibruna. Alguns historiadores opinam que os mastarianos, ao sugerirem a formação do pacto dos silvos, se inspiraram no pacto dilibruna.

Fora dessa região (o oeste do território silvo), Le-in e Ninfa pouco se aventuravam. Os levinotes usualmente usavam os asnarlahals para comerciar com as tribos entrerrienses (o que inclui os maztenas). Os levinotes mantinham ainda rotas comerciais até Mastaris, Manvas do Norte e Dole-Mundii. Essas caravanas eram muito dispendiosas e Le-in e Ninfa as evitavam.

Ninfa sempre fora um comerciante que evitava o lucro injusto. O que não significava que ele não procuraria obter acordos favoráveis a si mesmo. Le-in apreciava muito a companhia de Ninfa, e sabia que se contasse a verdade sobre o Amuleto do Ancianato, Ninfa não o apoiaria!

Le-in fora contatado por ricos comerciantes levinotes que lhe prometeram lucro altíssimo por tal pedra. Disseram-lhe como a obteria, e para quem a levaria (a saber, para Assai, dos levinotes do leste). Le-in fora escolhido por conhecer bem a rota entre as tribos levinotes e os asnarlahals.

O homem que negociou com ele explicou que a pedra pertencia à outra tribo e que fora roubada pelos maztenas. Explicou ainda que asnarlahals venderam (literalmente) uma importante informação: um maztena descontente tinha condições de se apoderar da pedra e entregá-la aos levinotes. Daí em diante foi fácil. Le-in formou uma caravana, contratou homens, e junto com seu desavisado amigo Ninfa foi até as fronteiras maztenas, esperando em local previamente acertado a vinda da pedra. Claro que como bom comerciante (e para despistar) Le-in trouxe junto muitas mercadorias, todas obtidas da tribo asnarlahal do norte. Le-in não se apiedava do roubo da pedra, pois, segundo o ditado popular entre os levinotes, “afanar de gatuno não é roubar”. Afinal, a pedra não pertencia aos maztenas.

Dessa maneira, lá estavam a caminho Le-in e Ninfa. Conversavam animadamente sobre os lucros que poderiam obter de toda essa caravana que faziam. Ninfa não sabia que os lucros poderiam ser bem maiores do que ele imaginava agora.

Se houvesse estrada em linha reta das tribos levinotes até os asnarlahals, ela seria de mais de 110 quilômetros. Como a estrada é tortuosa, o percurso é consideravelmente aumentado.

Avistaram o belo vale verdejante do Silivrens e seus corações se alegraram. Logo estariam caminhando ao lado das Montanhas Andeias. Uma vista incrível, principalmente a do Pico Andeias. Isso significaria que uns dois terços do percurso já teriam sido vencidos. Não havia levinote que não se alegrava ao passar por aquela região desabitada e bela. Era nessa região montanhosa, mais ao oeste porém (onde os montes são menos altos), que viviam os levinotes do nascente. Eram assim chamados pelos asnarlahals e homens de outras tribos. Os levinotes do norte e do oeste, porém, os chamavam de levinotes das montanhas.

Ao se aproximarem do pico Andeias, perceberam algo estranho.

“As nuvens estão diferentes naquela região, e muito baixas.” – disse Le-in a Ninfa.

“Não seja tolo Le-in, aquilo não é nuvem. É fumaça! Tem alguém nas Montanhas Andeias!” – arrematou Ninfa. Dizendo isso, fez a caravana parar. Nesse momento, perceberam que a fumaça aumentou. Ninfa completou:

“Devem ter apagado o fogo porque nos viram e não desejavam chamar a atenção.”

Le-in e Ninfa ficaram confusos, sem saber se avançavam ou voltavam e procuravam um caminho alternativo.

“Podemos cruzar o Grande Rio Le-in, podemos voltar e cruzá-lo na nascente do Vantaás-Eás, pois é perto daqui. Alguns poucos asnarlahals que por lá residem podem nos fornecer embarcação.” – Disse Ninfa, mas Le-in protestou:

“Ninfa, isso retiraria nosso lucro, pois teríamos que pagar pelas embarcações, e nem tente me dissuadir a ir contornando a cadeia de montanhas, pois isso representaria um grande aumento nos dias de viagem, e não temos suprimentos para isso. E você sabe que na Amandii muitos animais perigosos ficam a espreita esperando que homens como nós caiam despreparadamente em seu território. Além disso, para uma das mercadorias, tenho prazo de entrega! (referia-se ao amuleto do ancianato)” Falando assim, ordenou que a caravana continuasse. E a caravana continuou.

Quando chegaram a estar lado a lado com o Pico Andeias, ouviram trotes de cavalos, e pareciam avançar em sua direção. Todos ficaram amedrontados e dois ajudantes fugiram na direção do rio. Le-in ficou apavorado, e não sabia o que fazer. Ninfa percebeu que seriam atacados e ordenou que todos fizessem um círculo ao redor dos pertences e tomassem qualquer armamento que possuíssem. Logo ouviram berros de dor e alguns homens montados vindo do rio traziam a cabeça dos dois fugitivos. O pavor tomou conta dos membros da caravana, que desfizeram a formação e passaram a correr em direção à região montanhosa. Foram porém surpreendidos por outros homens que vinham de lá e passaram a ser alvejados por flechas, uma enxurrada delas. Alguns ainda sobreviveram, e Le-in e Ninfa também. Todos, porém, foram alvejados. Quando os atacantes chegaram mais perto, passaram a golpear ao fio da espada a todos que ainda tentavam fugir. Depois, voltando-se aos demais, foram matá-los também. Ouvia-se pedidos de clemência, que não foram entendidos, e mesmo que fossem, não seriam atendidos. Ninfa imediatamente sujou-se excessivamente com sangue alheio, retirou a flecha que entrou em sua carne, quebrou-a num pedaço menor e colocou no ferimento, dando a impressão de que entrara em seu corpo, ferindo-o mortalmente. Ouviu seu amigo Le-in pedir clemência e ser decapitado, e depois desmaiou.

Acordou muito tempo depois, não sabendo se ficara desacordado por um breve momento, horas ou até mais de um dia. Sentia muitas dores no estômago e achou que lhe chutaram para ver se estava morto. Como desmaiara, não sentiu o chute. Viu que sangrara bastante através do ferimento aberto pela flecha, abaixo das costelas, no lado direito. Apesar de tudo, era superficial. Rasgou a pele e sangrou, mas não comprometeu seus órgãos internos.

Ninfa olhou a desolação ao seu redor.

“Que dias funestos são estes?” lamentava. Nunca fora atacado durante todas as suas idas e vindas. Nunca fora roubado. Olhou com terrível tristeza para os corpos sem vida. Um jovem rapaz que bravamente manteve-se emocionalmente equilibrado durante o ataque e chegou a cortar a perna de um deles jazia no chão, alvejado no olho. Que vida tinha? Que vida não levará mais? Quem o espera, achando que ainda está vivo? Essas perguntas preencheram a mente de Ninfa por um tempo. Ele, sentado, olhou novamente para os corpos. O vento batia forte e balançava as vestes dos mortos e Ninfa ficava por ali, olhando, parado, num desalento desmedido. Ficou ainda algum tempo assim, até que levantou-se. Enterrar todos esses corpos seria uma tarefa árdua para um homem ferido, de modo que Ninfa, usando os cavalos (alguns foram roubados, mas nem todos), fez um transporte para os corpos e os levou até as margens do Rio Silivrens. Despiu-os e retirou qualquer outro pertence, como anel e enfeites, para entregar as famílias, e lançou os corpos no rio. Ao fazer o mesmo com o corpo de Le-in, Ninfa chorou amargamente e arrependeu-se, por aquele instante, de não se permitir morrer junto com o grupo. E assim ele se livrou de todos os corpos.

Olhou para a mercadoria ... sobrara muita coisa! Porque alguém atacaria em grande número, para depois deixar muito da mercadoria para trás? Ninfa não soube dizer ... tomou o que podia reunir e que considerou valioso(apesar de a maioria das coisas valiosas terem sido levadas), recobrou um pouco de ânimo, pôs a mercadoria escolhida no seu cavalo e subiu no cavalo de Le-in. Percebeu, porém, no lado direito da sela um bolso contendo alguma coisa, pois sua perna esbarrou em algo. Abriu e viu que era uma pedra.

“Por que essa pedra foi trazida junto? E por que Le-in não a colocou junto das outras mercadorias, se achava que tinha algum valor? Será que ele a queria para si?” Assim pensativo, Ninfa continuou sua triste viagem até a região montanhosa onde Assai residia. Ninfa nada sabia sobre Assai, mas este morava no caminho que Ninfa se propôs a percorrer.

5. A comitiva Chega até os Asnarlahals.

A preocupação de que os manvatopias delatariam a situação aos dole-mundii fez que a comitiva liderada por Meirol apressasse o galope.

“Quem mora ao norte dessas terras?” Perguntou Meirol, e Greiteli respondeu:

“São os tassu-assus. Como vocês puderam ouvir anteriormente, ele são hostis aos eromês.”

“Não sabemos que outros perigos nos esperam deste lado do Vantaás-Eás. Vive que tribo do outro lado do rio?”

Greiteli não soube responder, e Aduneius disse que passou por ali, mas não vira viva alma nem residência naquelas terras.

“Atravessaremos o rio e pernoitaremos no outro lado, e evitaremos o território dos tassu-assus” disse Meirol, “Porém recomeçaremos a cavalgada antes da alvorada.”

Procuraram uma parte do rio que pudesse ser atravessada a galope e encontraram. Em certo momento os cavalos hesitaram, pois o rio começou a afundar, mas logo as águas estavam rasas novamente.

Chegaram no outro lado e escolheram novamente o local para armar as barracas, e os quatro carregadores novamente ficaram ocupados. Os demais integrantes discutiam o acontecido e as conseqüências. Quin-Néser e Caldiens foram bater a região.

Logo a noite caiu, e os homens sentaram-se ao redor de uma fogueira e Quin-Néser começou a contar o relato da batalha contra os achis. O Grande Líder dos dimbols solicitara ajuda de Handaf, e este enviou algum auxílio contra os achis, e Quin-Néser fora enviado à batalha. Detalhes interessantes da luta foram relatados com sentimento e exatidão. A história de 300 dimbols que perderam uma batalha para 63 achis, que encurralados subiram uma elevação de mata densa e armaram armadilhas atrás de si, envenenando muitos dos dimbols, fazendo outros cair em buracos e serem perfurados por lanças lá colocadas e ainda outros cortando gravemente o pé, sendo depois carregados por seus companheiros atrasando-os. Os maztenas sentiram-se orgulhosos em saber que seus arcadãs viraram a guerra, quando os dimbols foram a campo aberto para uma última batalha. Estavam já na proporção de 1 para 3 achis, e os achis aparentemente estavam pressionando Daverás para os ajudar na batalha, o que aumentaria ainda mais o poder deles.

Estavam naquela hora em campo aberto, e os dimbols desejavam ir à batalha e morrer honradamente, numa corrida ao suicídio, numa luta sem esperança.

Nesse ponto, um líder de exército maztena organizou arqueiros de tal forma que vários achis foram alvejados muito antes atingirem os dimbols, e a vantagem numérica mudou de lado ... os maztenas ajudaram os dimbols a alcançar a vitória.

A noite já estava avançada quando Quin-Néser terminou o relato. Meirol disse à Caldiens que ele ficaria de guarda um pouco, para que os dois guerreiros tivessem, dessa vez, uma noite bem dormida. Enquanto todos os outros dormiam, porém, Meirol percebeu que Servensaus permanecia acordado. “Estou sem sono” disse ele, respondendo à um aceno de Meirol.

“Sente-se aqui comigo então, vamos conversar em tom baixo”

Servensaus foi. E iniciou-se uma agradável conversa a respeito de lendas inventadas por Servensaus.

“Uma delas” disse ele “é a minha preferida. Estou inventando um novo planeta.”

“Ah é, e como é o nome ... Panol?”

“Não ... Como chamamos o solo de terra ... as terras da tribo tal, as terras da família tal, chamei de planeta Terra.”

“Criativo ... o que eles fazem lá?”

“Ainda estou bolando tudo, e muito pode ser alterado. Já inventei mais de 2000 anos de história para a gente de lá. Várias nações, várias guerras. Mas pretendo escrever sobre grandes navegações que os terranos farão e numa dessas navegações encontrarão um país chamado Brasil. Este país trará paz ao mundo, mas fará isso através das armas.”

Servensaus continuou a contar sobre suas idéias, e quando ele falou do esboço mental que tinha para um jovem chamado Alexandre, o grande, Meirol disse:

“Isso tira o senso de história real para sua lenda, imaginar que um único homem conquistaria tantas nações e venceria tantas batalhas. Também, essa história de Brasil e paz não combinam com a realidade, ... veja a nossa realidade Servensaus. Ninguém quer a guerra, mas ela existe.”

“Se ela existe, dizer que ninguém a quer é tolice. Mas talvez você tenha razão ... vou reinventar esse futuro nas minhas invenções. Mas não mexerei no que penso para Alexandre. Os maztenas provaram que façanhas militares podem virar uma batalha que, numericamente, está contra você.”

“Sei.”

“Um jovem terrano que inventei é um criador de histórias também.”

“Quer dizer que você inventou um criador de história? Então você terá que inventar uma história que para ele é realidade, e depois as histórias que ele criaria .. mas na verdade tudo é lenda. Curioso!”

“Mais curioso ainda é o fato de que ele inventou uma Panol. Igual a nossa ... tem maztenas, Handaf, dunos, eromês, asnarlahals e tudo mais.”

“Quer dizer, você inventou um cara e um outro mundo para ele, daí ele inventa um mundo que é o nosso mundo. Para ele, a Panol é imaginária e a Terra é real. Mas na verdade Panol é real e o planeta Terra é imaginário. Se ele inventasse um Servensaus na Panol dele, para aquele homem a Panol era real, e a Terra que esse Servensaus inventou seria imaginária. Daí, se isso fosse um ciclo contínuo, seríamos imaginário e reais alternadamente.”

“É” disse Servensaus rindo, “mas não esqueça que a Terra é que é imaginária, e a Panol é real”

“Agora não sei mais nada” disse Meirol, em tom de brincadeira.

A noite se passava e Servensaus e Meirol iam dando contornos mais bem-definidos à este lugar imaginário. Logo, Aduneius acordou e pôs-se a vigiar o acampamento no lugar de Meirol, e ambos foram dormir.

Ao amanhecer, se foram. Como o comerciante Le-in ia à frente deles com a pedra Sácer em passo de caravana, eles teriam quase o alcançado, não fosse os contratempos com os eromês. Agora, cavalgavam com alguma pressa e iam contornando as terras dos tassu-assus. O terreno possuía um vale úmido, apesar de lá não correr rio algum. Subiram, desceram, atravessaram o vale, subiram novamente e desceram ... aí já estavam a meio caminho da tribo sul dos Asnarlahals. Continuaram cavalgando por terras onde o silêncio é o Grande Líder. Ao seu lado esquerdo podiam divisar as matas altas que impedem que vejam a vegetação rasteira da Amandii. Ao lado direito estava o Vantaás-Eás.

Cavalgadas depois, chegaram até os primeiros habitantes asnarlahals. Estes viviam deste lado do rio, mas a tribo propriamente dita ficava do outro lado. Conversaram com os asnarlahals, que os interrogaram muito, tentando saber quem eram e para onde iam.

“Os asnarlahals vigiam os acontecimentos por aqui e se mantém informados sobre quem passa por essas terras. Esse interrogatório todo provavelmente é reportado aos líderes do outro lado do rio. Greices também interrogava forasteiros, para depois informar Handaf das movimentações nas fronteiras. Se os levinotes passaram por aqui, os asnarlahals devem ter percebido. Precisamos conversar com a liderança deles. Como atravessaremos esse rio?” Disse Meirol.

“Ora Meirol, pergunte a estes sobre os levinotes, pois se estes são os que reportam tudo, estão em melhores condições de dizer algo.” Sugeriu Greiteli.

“Não, Greiteli, É possível que outros asnarlahals, em outro ponto, tenham avistados os levinotes, enquanto estes talvez nem os tenham vistos. É para onde aflui toda informação que devo ir.”

Os asnarlahals não queriam atravessá-los sem pagamento em moedas de pratas. Nenhum maztena, porém as possuía. Fora um descuido de Handaf não providenciar-lhes isso. Um dos asnarlahals apontou para o cavalo de Handaf e balbuciou algumas palavras que Meirol não pôde entender.

“Querem o crina dourada!” Disse Aduneius.

Meirol desesperou-se. Desejava entregar o cavalo a Handaf, se pudesse ter sucesso em sua jornada. Ele pensou muito, franziu a testa, coçou os olhos, pôs as mãos atrás, na nuca, e estava se acostumando com a idéia de desfazer-se do cavalo.

Ora, aconteceu que um outro homem que possuía um pequeno barco era também comerciante de cenouras. A espécie de cenoura asnarlahal era fina e comprida, mas de bom aspecto. Aduneius aproximou-se e percebeu que este cometia um grande erro em suas vendas. O comerciante cobrava as cenouras por ráshnaki. Um ráshnaki era a quantidade de cenouras que dava para amarrar em um cordão de 30cm. Cada ráshnaki era tanto, mas certos homens traziam um cordão de 60cm e pagavam pelas cenouras o dobro do que pagariam por um cordão de 30cm. Chamavam o cordão de 60cm de ráshnaki duplo.

Na língua comum, Aduneius conversou com o comerciante, e dizendo:

“Ora asnarlahal, tu estás perdendo dinheiro e não te apercebes?”

O homem o olhou espantado tanto pela forma direta que este estranho lhe dirigia a palavra, como pelo que dizia.

“Eis que tenho comigo nove colegas, e nós dez temos que atravessar o rio. Te mostrarei que estão te enganando, e tu, da tua parte, providenciará para nós uma travessia segura.”

O comerciante concordou e Aduneius passou a explicar-lhe através de desenhos e contas, que um ráshnaki duplo tinha quatro vezes mais cenouras que um ráshnaki simples. Depois, amarrou as cenouras das duas maneiras e contou as cenouras contidas nos dois diferentes ráshnakis. O asnarlahal ficou estarrecido. Os compradores já deviam ter se dado conta da vantagem do ráshnaki duplo, por isso cada vez mais esse último era mais solicitado. O homem curvou-se até o chão em gratidão à Aduneius (e ele, cheio de pose, gostou da bajulação). Depois, o homem chamou seu servo mais experiente e ordenou que transportasse os maztenas. Torna-se desnecessário dizer que os demais ficaram curiosos; e Meirol, orgulhoso de sua escolha (de tê-lo trazido junto). Durante a travessia do rio Vantaás-Eás, Aduneius teve de explicar aos demais por que todos estavam sendo transportados “de graça”.

Do outro lado do rio, agradeceram a travessia e por indagações descobriram onde se ubicava o Grande Líder dos asnarlahals. Muitos deles sabiam falar à maneira dos maztenas. O comércio fazia algumas imposições que os asnarlahals não se importavam em obedecer. Os maztenas estavam a pé, porque os cavalos não puderam ser transportados e Meirol deixou Bafor-Nul cuidando deles na margem oeste do rio. Caldiens e Quin-Néser estavam apreensivos, pois eram responsáveis em garantir a vida dos membros da comitiva, e lembravam que da vez anterior em que entraram em solo dominado (as terras eromês) a morte fez-se quase certa.

Com certa dificuldade em caminhar pelas muitas e bem povoadas ruelas (para eles, um tanto incomuns), Meirol e seus companheiros encontraram a edificação onde estava o Grande Líder asnarlahal. Pediram aos guardas permissão de ir até ele e perceberam que os mesmos não entenderam nada e ficaram com um aspecto agressivo por verem forasteiros às portas daquele edifício. Aduneius já estava prestes a conversar com eles na língua comum, quando Greiteli tomou a frente e falou algumas palavras aos guardas. Incrivelmente, um deles curvou-se perante Greiteli e saiu.

“Não esqueçamos que temos entre nós um homem de alta graduação” – Disse Servensaus.

O guarda retornou e disse a Greiteli que outros assuntos urgentes ocupavam o Grande Líder dos asnarlahals e que eles seriam bem acolhidos em outro aposento, se desejassem esperar um pouco. Sentaram-se, foram bem servidos, e os corações deles passaram-se a alegrar-se com o bom vinho asnarlahal. Um asnarlahal com brincos de ouro estava por perto, sozinho, também esperando uma audiência com o Grande Líder. Vez por outra o olhar dele se encontrava com o de Meirol, e Meirol abaixava ou desviava o olho. O homem parecia curioso.

“Bafor-Nul se deu mal” disse Alaicha. Lembrado disso, Servensaus recolheu um pouco da boa comida e pôs vinho numa bilha e guardou para o companheiro. Meirol então pôs-se a pensar alto:

“Que missão mais desorientada ... estamos perseguindo uma suposição, não sabemos com certeza para onde a Pedra foi, se estamos seguindo seus rastros corretamente, nem se os que estão no caminho podem nos dar boas informações. Dependemos de nossa própria esperteza coletiva, somos constantemente atrasados e um ataque dole-mundii logo será formado. Não vou mais esperar aqui.”

Levantou-se como se aquela pequena espera o atormentasse mais do que a longa demora nas terras eromês. Nesse mesmo momento, pensando que os maztenas se iam, o homem se levantou bruscamente e estendendo a mão na direção de Meirol, ia dizer alguma coisa. Quin-Néser atirou-lhe um punhal que o prendeu pela túnica na parede, mas não o feriu. Ao mesmo tempo perplexo pela habilidade do maztena e assustado pela rapidez do ataque, o homem livrou-se da túnica presa na parede, só para ser preso nos fortes braços de Caldiens, que visivelmente irritado, perguntou o que ele ia fazer.

“Vá com calma grandalhão ... você está em solo asnarlahal. Sabes por acaso minha posição? Sabes quem sou? ... Você, o que faz aqui?” Perguntou apontando para Meirol.

“O que venho fazer aqui é problema meu. Há algo em que eu possa ser útil? Porque estás prestando atenção a nossos assuntos?”

“Digamos que assisti muitas negociações neste mesmo aposento. Muitas das quais pude tirar lucro, algumas nem tanto. Sou um rico comerciante asnarlahal e estou esperando para entrar perante o Grande Líder Djeiko-Bihel. Sabe, homens, vocês não são dos mais educados, e minha conversa com vocês não existiria se ela não interessasse a mim também.”

“Peço que nos perdoe. Estamos sob intensa pressão, numa situação delicada” – disse Meirol.

“Entendo ... vocês são maztenas? Se são, sei o que procuram ... a Pedra Sácer.”

Um assombro tomou conta do grupo. Meirol arregalou os olhos no mesmo instante em que Greiteli botou a mão no peito e Servensaus na boca”

“Como sabe disso asnarlahal? Diga rápido!” – disse Caldiens, em tom ameaçador.

“Vá com calma grandalhão ... você está em solo asnarlahal. Sabes por ...”

“Por Handaf, vais começar com tua ladainha novamente? Qual é teu nome asnarlahal?” Perguntou Greiteli.

“Sendedcol é o meu nome.”

“Sendedcol? Mil desculpas senhor. Não sabíamos que estávamos diante de tão importante pessoa” Disse Greiteli, levemente curvando-se, e olhando para os demais continuou: “Ele é o senhor de alguns dos asnarlahals que nos visitam e compram, e vendem mercadorias para nós. Handaf aprecia muito as visitas asnarlahals.”

“Sendedcol – disse Meirol – Greiteli te respeita muito, pois ele é homem de alto escalão, e entende muito mais do que eu sobre muitos assuntos importantes. Eu, porém, entendo agora somente duas coisas. Tenho pressa, e o sumiço da Pedra Sácer era um segredo maztena. Como sabes algo sobre isso? Algum manvatopia passou por aqui?”

“Não diga que os manvas sabem sobre o assunto! Se sabem, é hora de Handaf se preparar para a batalha. É uma pena. Os maztenas são um povo interessante de se conhecer ... para mim em particular, significa um malogro inacreditável. Meus melhores negócios são realizados com os maztenas.

“Tenho uma esposa, uma pessoa inocente de todas as tolices dos homens que pisam no solo. Ela pode morrer nas mãos dos dole-mundii, e com ela milhares de outras mulheres e crianças, e você se preocupa com seu dinheiro?”

“Maztena, que tenho eu a ver com os erros de vossas tribos? Se tu não pode corrigi-los, posso eu? Mas eis que vos darei uma valiosa informação. Aqui, nesse aposento, como eu falava, levinotes receberam informações de como receberiam a Pedra Sácer. Contaram com a colaboração de um maztena desconhecido, um tal Tarastir (falava isso em tom de ironia, uma vez que Sendedcol sabia que Tarastir era filho de Handaf).”

Os maztenas todos ficaram muito espantados com o que ouviram .. Greiteli mais que todos.

“Nossa sagacidade mostrou-se brumosa. Os homens de Tarastir não viram quem pegou a pedra? Como não, se foram eles mesmos que a tomaram! Teria sido justo se Handaf os matasse, ... a todos! – Disse Meirol.”

“Por isso Tarastir implorou pela vida de seus guardas! Ao encarar a morte alguém entre eles poderia implorar por sua vida delatando o mentor do roubo.” – Completou Servensaus.

“Deixem-me continuar” – clamou Sendedcol “éramos poucos nessa reunião. Parece que o organizador dela, que por prudência me pouparei de pronunciar o nome, desejou o mínimo possível de pessoas na reunião. Daí, sentaram-se conosco levinotes. Disseram que precisavam de uma informação, e que pagariam bem por ela. Queriam saber como obter a Pedra Sácer.

Os levinotes são inteligentes. Sabem que os asnarlahals conhecem bem os maztenas, e que alguns asnarlahals venderiam até sua família para ganhar algum dinheiro. E de fato, por uma simples informação, os levinotes pagaram muito bem. Por um desses grandes infortúnios dos acontecimentos, solicitaram informações justamente para aquele comerciante que há tempos eu percebia que era visitado por Tarastir. Nunca soube porque Tarastir o visitava com freqüência, nem sobre o que falava, mas me pareciam lamúrias. Vim a saber numa reunião posterior, de sua própria boca, que Tarastir ambicionava o poder, mas seu pai estava propenso a escolher como sucessor um dos dois filhos mais velhos, ou um de seus conselheiros.

Eu estava por aqui para falar com o Grande Líder sobre um problema meu. Ao me ver, porém, nosso amigo asnarlahal ficou feliz e de maneira um tanto apressada me chamou para a reunião, pois eu conhecia muito bem os maztenas. Me foi imposta duas opções ao participar da reunião: silenciar-me sobre o assunto fora dela, e participar dos lucros, ou denunciar tudo e pôr em risco a vida de minha família. Este comerciante era homem influente e poderoso, mais rico do que eu, capaz de comprar muitas testemunhas entre os grandes, para falarem falsamente contra mim. Participei da reunião, ouvi tudo, e não fui de ajuda. O comerciante sozinho verificou que ele sabia quem podia ajudar a roubar a pedra. O descontente Tarastir.

O comerciante asnarlahal disse que os levinotes poderiam vir até as fronteiras maztenas em certo dia, em exato lugar e apanhariam das mãos de maztenas a prometida pedra. Fiquei pensando em como tal comerciante poderia dar tal garantia. Mas numa outra reunião nessa sala, fui novamente convidado a participar. Dessa vez Tarastir estava aqui. Foi quando soube de seu descontentamento. Fiquei surpreso quando ouvi que ele venderia a pedra aos levinotes. Ele venderia toda a sua tribo à guerra contra os dole-mundii, por relativamente pouco dinheiro! Não pude acreditar. Como Tarastir retirou a pedra tão bem vigiada do seu lugar eu não sei, mas sei por vocês que ele foi eficiente.”

“Foi fácil, ele era responsável pela segurança da pedra em alguns dias” – explicou Greiteli.

“O filho traiu a confiança de seu pai. Mas talvez vocês se perguntem porque fui convidado a ouvir o que Tarastir dizia. Pode parecer que Ojina correu um risco desnecessário, mas já que ele de maneira apressada me convidara para participar da primeira reunião, agora queria que eu participasse dessa segunda reunião também para que me sentisse cúmplice de tudo, e me calasse. Passei todos esses dias angustiado, desejando informações sobre a Pedra Sácer. Passei a ser vigiado por onde ia, e achei melhor andar escoltado por servos robustos. Queria informar o Grande Líder, mas temia a vingança desse influente comerciante. Ontem tentei entrar aqui e pedir audiência ao Grande Líder. Mas quando estava para passar pelos guarda na entrada um punhal foi cravado no chão, como um lembrete. Me desencorajei e fui para casa. À noite avaliei tudo. Sei de vossa história. Sei que os dole-mundii virão atacá-los e provavelmente arrasarão vossa tribo. Valeria a minha vida mais do que as de milhares de maztenas? De que valor seria me calar e viver com o peso de tantas mortes em minha alma, e ver minha casa definhar? (dizia isso porque os maztenas eram fonte de lucro para ele, através do comércio). Eis que hoje me propus a vir aqui e falar com o Grande Líder sobre o assunto, e para o meu espanto, estranhos me agarraram, lançaram um punhal contra mim e me trataram com desrespeito. E é aqui que nos encontramos.”

Os maztenas entenderam que Sendedcol agora falava deles. Meirol arrependeu-se muito no seu coração e implorou perdão.

“Então é assim que tudo aconteceu ... esse comerciante asnarlahal combinou com Tarastir e com os levinotes o local da entrega da Pedra ... nossas fronteiras. Por isso a caravana levinote estava lá no norte das terras maztenas.” Disse Meirol. “Peço-te Sendedcol que leves essa informação até o Grande Líder Asnarlahal, para que ele decida se nossa amizade forjada pelo comércio terá valia como uma aliança militar. Nossa missão falhou num aspecto ... era para ser secreta e rápida, para interceptarmos a caravana que, imaginávamos (e não estávamos errados), estava com a Pedra Sácer. Deixamos de ser rápidos ao sermos aprisionados pelo eromês. Deixamos de estar em segredo quando revelamos o objetivo de nossa comitiva ao Grande Líder dos Manvatopias. Agora, revela por favor também ao seu Grande Líder todo o assunto, pois creio que ele poderá nos ajudar. Que ele troque mensagens com Handaf, se desejar.”

“Meirol, com sua permissão desejaria permanecer aqui, para cuidar de que esses assuntos sejam devidamente tratados, pois isso exige relações diplomáticas.” solicitou Greiteli.

“Acho excelente idéia” disse Meirol, fitando Greiteli. Parece que Greiteli estava retirando o véu de soberba que usava.

Foi uma triste despedida. Greiteli estava com o semblante carregado, como se algo o perturbasse profundamente. Os que partiram sentiram que a companhia de Greiteli foi uma perda necessária, mas dolorida. Eram só dez, e sentiriam falta de qualquer um que deixasse o séquito. Agora, deixando Greiteli nas terras dos asnarlahals, atravessaram novamente o rio, com o auxílio provido por Sendedcol.

6. Ninfa chega até Assai.

A cadeia de montanhas Andeias era o lar da tribo levinote do nascente. Apesar disso, do pico Andeias até a tribo propriamente dita havia ainda cerca de 80 quilômetros, já vencidos por Ninfa.

A tribo estava estranhamente agitada e quando Ninfa penetrou no interior dela, passou por algumas aldeias com suas mercadorias, indo ter com outro comerciante conhecido. Numa dessas aldeias, porém, um homem a pé aproximou-se de Ninfa, e este rapidamente puxou uma adaga, e tremendo apontou-a ao homem.

“Fique onde está, se zela pela sua vida”

O homem sorriu. O chapéu fazia sombra e seus olhos mal podiam ser vistos. Mascava algo, “alguma erva talvez” lembraria depois Ninfa. Com um golpe rápido, o homem desarmou Ninfa, imobilizou-o e soltando-o devolveu a faca.

“Perdoe-me, meu caro senhor” disse ele a Ninfa, “mas poucos entre os vivos podem realmente ser uma ameaça para mim. Estou aqui, aguardando uma caravana que viria do nascente. Espero por muitos homens, mas somente vejo esta caravana de um homem só. Tu, que vens, do nascente, não sabes de um homem chamado Le-In?”

Ninfa esmoreceu. O nome de seu amigo mencionado por esse estranho! O que acontecia?

“Le-In era meu sócio nessa empreitada. O que querias com ele?”

“Não convém que saibas a resposta”

“Tampouco me convém que tu saibas algo sobre mim ou Le-In”

“Há algo a ser revelado? Seu sócio prometeu algo ao Grande Assai, meu senhor! Alguns dizem que Assai é mais poderoso que o próprio Grande Líder de nossa tribo das montanhas. Eu, se fosse você, não ousaria esconder nada dele. Você disse que ele ‘era’ seu sócio e perguntou não o que eu quero, mas o que ‘queria’ com ele! Parece que algo aconteceu com vossa sociedade.”

Ninfa continuou calado e foi sendo escoltado por esse desconhecido tagarela até a casa de Assai. O homem falava muito sobre a grandeza desse tal Assai, mas Ninfa não prestava muita atenção. Estava agora num estado de espírito de desmotivação, e parecia que não fazia diferença quem era esse Assai, nem o que ele desejava comprar da caravana de Le-In. “Estranhos mesmo esses levinotes das montanhas. Parece que não conversam abertamente como os outros levinotes, mas preferem os leves cochichos” pensava Ninfa. Ele começou a perceber as idas e vindas de todos, as pessoas pareciam muito ocupadas com seus afazeres, homens vendendo nas feiras e alguns senhores bem vestidos ostentavam suas riquezas. “Essas pessoas, indo de um lado para o outro, será que sabem o que estão fazendo?” – pensou – “tanta atividade, tantos interesses, mas daí simplesmente morrem e nada disso as ajudará, nem será necessário ...”

Entraram numa ruela e havia cavalos à espera deles. Não pareciam de raça. Ambos agora foram cavalgando (Ninfa estava com seu cavalo, mas andara a pé, puxando seu cavalo para acompanhar o estranho) até que se depararam com um grande portão de uma propriedade bem cercada. Era a casa de Assai.

Foram introduzidos a um belo aposento e logo entrou Assai. Ninfa esperava ver um homem mais bem cuidado e mais alto. Assai, depois dos cumprimentos, mandou trazer bebida e foi logo perguntando:

“É você Le-In?”

“Você deveria saber, se fez negócios com ele”

“Fiz por intermediários. Tenho muitos homens a minha disposição. Os mesmos que negociaram com o maztena foram os mesmos que trataram do assunto com Le-In. Se você não é Le-In, o que faz aqui?”

Essa pergunta, fazia a Ninfa, mas olhando para seu servo.

“Meu senhor, ele é ou era sócio de Le-In. Parece que esteve na caravana deste. Como sei de vossa ansiedade nesse caso, resolvi trazê-lo até meu senhor. Segui suas instruções não o indagando muito no caminho, mas sei que fiz a coisa certa trazendo-o aqui. Deixei meu braço-direito espionando a estrada que vem do nascente. Se a caravana de Le-In aparecer, saberemos.”

“Ótimo, Mágobas!”

Ninfa voltou a dar atenção ao assunto todo! Porque tanto interesse em Le-In e o que esse homem rico queria tanto dele? Seus pensamentos foram interrompidos quando Assai perguntou-lhe:

“Onde está Le-In, seu sócio ... você sabe?”

“O que quer dele?”

“Ainda não sei quem és, como posso saber se é conveniente que saibas de algo?”

“Não a sua conveniência que me interessa, montanhês. Sou o único num raio de muitos quilômetros que sabe do paradeiro de Le-In. Obterás sua informação, se te preocupares em sanar as minhas dúvidas, ouviste? As minhas primeiro!” Falou isso num tom ameaçador!

Assai riu brevemente e mencionou: “Há muitas maneiras de se obter uma informação Ninfa.” Era uma ameaça, mas ele não a continuou, pois desejava cooperação de Ninfa. “Mas somente diga se tu eras mesmo sócio de Le-In, depois te responderei suas indagações.”

“Sim, eu era. E me sinto traído por Le-In por sua negociação paralela.”

“De modos que encerrou a parceria ...”

“Não ... não foi assim! Para que saibais que deves me dar o devido tratamento se desejas saber algo sobre meu ex-sócio, te informo o seguinte: Nossa missão era pegar mercadorias cedidas por um maztena chamado Tarastir. Também, tínhamos mercadorias dos asnarlahals conosco, mas creio que essa do maztena é de seu interesse, porque foi incomum um levinote negociar diretamente com um maztena, uma vez que o fazemos através doas asnarlahals. Mais tarde, na altura do Pico Andeias, Le-In evitou um necessário desvio porque tinha prazo de entrega para uma das mercadorias. Por acaso é a sua? (Nesse momento, Assai balançou a cabeça positivamente) Diga-me, rico montanhês, como saberia desses detalhes sobre o maztena, e o prazo de entrega se não fosse de fato sócio de Le-In?”

Ninfa continuou falando sobre a sociedade deles, as caravanas que juntos empreenderam, até que foi surpreendido por Assai, dizendo que bastava.

“O que quer saber de mim, meu amigo Ninfa?”

“Quero saber o queres de Le-In”

Assai coçou a cabeça, colocou a mão de modo a cobrir o queixo e passou a narrar a história:

“Fomos contatados por um dole que desejava possuir o Amuleto do Ancianato, ou Pedra Sácer, como chamam os maztenas” – Assai estudou a reação de Ninfa, e percebeu que este não conhecia esses nomes – “Sabe Ninfa, é uma Pedra importante para os Dole-Mundii e eles desejavam obtê-la de volta. Digo ‘de volta’ por que os maztenas roubaram a pedra dos mundii há um século, e não a devolveram mais. Seríamos bem recompensados se ajudássemos os mundii a reaver seu amuleto. Mas como fazê-lo? Ora, é sabido por mim que os Asnarlahals conhecem bem as tribos entrerrienses, de modo que enviei um representante para negociar com eles qualquer informação útil. Para minha surpresa, meu enviado descobriu tudo o que eu precisava para obter tal amuleto. Aconteceu que meu enviado adoeceu e veio a falecer dias atrás. A quem poderia eu enviar para apanhar a Pedra no local e dia combinado, se o homem que conhecia o trajeto não existia mais? “Ninguém melhor que Le-in”, sugeriu um dos meus servos, primo de um cunhado dele. Ele me explicou que Le-In e seu Sócio, que agora tenho o privilégio de conhecer, eram, dentre todos os levinotes, os que melhor conheciam o trajeto. Houve negociação entre mim e Le-In, e apesar de eu ter ouvido que ele tinha sócio, Le-In não mencionou você, e disse-me que traria o Amuleto, um trabalho pelo qual ele seria muito bem pago.”

“Le-In não me contou nada! Meu sócio ... meu amigo Le-In! Por que me enganaste? Talvez ele soubesse que eu jamais concordaria em trazer tal amuleto, se soubesse dos fatos.”

“Agora diga-me Ninfa,” Assai realinhou-se no assento e tentou controlar a expectativa gerada por essa pergunta que agora fazia, “tens entre as mercadorias, esta que preciso? Se a tiveres, dá-me-a, e o dinheiro que obterás será suficiente para fazer dessa, de muito longe a tua mais lucrativa expedição de toda a tua vida.”

Isso aguçou o interesse de Ninfa pelo mundo terreno novamente. Afinal, ele era um mercador nato.

“Há algo que preciso mencionar” – disse Ninfa com um ar pesado. Seu rosto tornou-se pesaroso e um súbito silêncio apoderou-se dos arredores. Assai ficou meio imóvel prevendo que o amuleto do Ancianato não estava com Ninfa. E antes que Ninfa terminasse sua frase Assai lembrou-se de que Le-In prometera voltar com uma grande caravana, e agora nem ele mesmo retornava, mas seu sócio vinha só.

“Quase esqueci-me de Le-In. Onde está ele? Onde estão os outros membros da caravana?” – perguntou Assai.

Nesse momento, um de seus servos mensageiros apareceu com ar de urgência. Assai era homem de muitos assuntos, mas com um aceno fez seu servo recuar e esperar. Estava mais interessado no relato de Ninfa, que passou a narrar:

“Estávamos na altura do pico Andeias quando fomos atacados. Nunca em minha vida fomos surpreendidos por ladrões nesse trajeto. Eles mataram todos, impiedosamente ...” Ninfa continuou dando detalhes da história, da impiedade dos atacantes, do modo como se salvou, e das mercadorias que levaram. Assai compreendera rapidamente o que acontecera.

“Que ato pérfido! Possivelmente os asnarlahals venderam a informação para mim e armaram uma emboscada para obter a pedra novamente, pois sabiam de seu acentuado valor. Malditos sejam os enganadores entrerrienses. Foram eles, pois eles sabiam de tudo ... eles e aquele maztena imprestável que vendeu seus semelhantes, chamado Tarastir. Não duvido de que este último também esteja envolvido nessa trapaça! Onde está a honra nesse mundo atual?”

Ninfa sentiu-se no meio de um jogo sujo de ganância e pouca lealdade. Este Assai que estava em sua frente vociferando aquelas palavras de boa moral nem lamentava as vidas perdidas no caminho, nem se preocupava com as complicações que poderiam vir de sua intromissão nos assuntos de duas tribos e agora queria parecer um bastião da moralidade.

“Como sabes que não são simplesmente ladrões?” – Ninfa formulou tal dúvida, sabendo ele mesmo que para ladrões, aqueles agressores levaram pouca coisa.

“Não disseste tu que pouca coisa levaram? Quando acharam a Pedra Sácer, deram-se por satisfeitos na sua busca e tomaram mais algum despojo provavelmente por ganância. Mas era a Pedra que procuravam.”

“Pedra Sácer ... Pedra ... eu tenho algo comigo. Espere um pouco aqui, pois já retorno!”

Ninfa saiu e logo voltou com uma Pedra nas mãos, em formato triangular que continha uma inscrição estranha.

Uma gargalhada breve, seguida por uma menos breve e outra demorada e ruidosa puderam ser ouvidas no aposento. Era Assai, plenamente satisfeito.

“Mas como ...”

“Le-In sabia que era um artefato importante, e o escondeu num bolso, na cela do seu cavalo. Por sorte, não estava entre os cavalos roubados. Quando o montei senti a perna bater nesse objeto e percebi que se Le-In havia o depositado em lugar mais secreto, deveria ter alguma importância para ele.”

Assai chegou até mesmo a cogitar se esse Onarai não era mesmo um espírito verdadeiro, e se não havia conduzido a situação para que a Pedra Sácer retornasse ao seu lugar, mas esse pensamento evaporou-se em seguida! Assai não era um homem lá muito espiritual. Ao atender o servo que o interrompera a pouco, recebeu a notícia de que o dole que viria apanhar a pedra estava já em território levinote, e enviara um servo para avisar da sua iminente chegada. Assai começou a organizar uma grande festa de recepção e pediu que Ninfa ficasse para participar em tal. Ele agradeceu o convite, aceitando-o. Ninfa não sabia, mas a verdade é que Assai não queria pagá-lo sem antes receber a devida quantia dos doles. Por isso, nada melhor que Ninfa ficar ali com ele até a negociação com o dole estar efetuada.

7. “Você vendeu nossas vidas por este preço?

Bafor-Nul sentia-se revigorado enquanto alimentava-se e saboreava o bom vinho asnarlahal, trazido a ele por Servensaus.

“O que faremos com este” – falou de boca cheia apontando para o cavalo de Greiteli.

Meirol ainda não havia pensado no cavalo, e enquanto pensava em vendê-lo, Quénsel sugeriu que o cavalo fosse levado ao proprietário pelos mesmos homens que os atravessaram ... os servos de Sendedcol.

Logo a comitiva cavalgava rapidamente em direção ao pico Andeias. Meirol calculou que a caravana levinote dificilmente teria partido para outro lugar, senão para suas próprias terras.

“Suponha que encontremos a tal caravana. E então?” perguntou Aduneius.

“Então o quê?” respondeu perguntando Meirol.

“O que você fará?” Colocará um punhal na mão de nós todos e atacaremos como loucos desvairados a caravana levinote?”

Meirol nem tinha pensado nisso. “Que aventura mais maluca. ... (fez um longo silêncio) ... Aduneius, você percebe a falta de orientação nisso tudo?” – Aduneius balançou a cabeça positivamente – “Handaf fez testes para saber qual dos chamados sábios enviaria nessa missão. Mas Handaf não tinha a menor idéia de nada sobre o paradeiro da Pedra Sácer. Não fosse a denúncia dos levinotes no norte, não faríamos a menor idéia de onde a pedra poderia estar. Além disso, nem pensamos nisso que você acabou de perguntar. Descobrir para onde a Pedra Sácer foi é uma coisa; poder resgatá-la é outra.”

Continuaram em direção ao oeste e avistaram de longe o pico Andeias.

“As Montanhas Andeias” – disse admirado Meirol. Meirol nunca ouvira falar delas antes, mas Aduneius e Servensaus descreveram-lhe detalhadamente o Pico, o mais alto de todo o território Silvo. A admiração dos narradores aguçou a curiosidade de Meirol, e ele sentiu-se honrado em conhecer aquele lugar.

Caldiens, que ia à frente, parou. Olhando com seriedade para Meirol, pediu que a comitiva tentasse se ocultar atrás de alguma árvore ou rochedo. Levando Quin-Néser consigo, Caldiens foi bater a região.

Os carregadores estavam visualmente nervosos com aquilo. Mas o quê estava acontecendo? Nenhum dos que ficaram para trás sabiam.

Logo voltavam os dois guerreiros, com olhar triste.

“Parece que a caravana Levinote foi atacada. Há sinais de luta, flechas ao chão e muito sangue. Há indícios de cavaleiros vindo das montanhas e do Grande Rio. Algumas mercadorias de não muito valor foram deixadas para trás.”

O grupo sentiu-se nervoso com a notícia. Enquanto cavalgava, Bafor-Nul olhava para o pico, com a sensação de que logo uma nuvem de poeira se ergueria vindo na direção deles. O vento batendo no rosto parecia frio, mas o vento era quente. Ouviu-se um relincho alto e uma galopada; Caldiens assustou-se e disse que batera a região o suficiente para afirmar que não havia ninguém lá. Logo aparecera um cavalo selvagem, cortando a frente da comitiva e se dirigindo ao rio. Caldiens deu um breve sorriso, como se pensasse “cavalo travesso”.

Ao chegar no exato local do ataque, a comitiva parou. Passaram a procurar cautelosamente algum artefato que pudesse ser a Pedra Sácer.

“Imaginem que a caravana foi atacada por ladrões inescrupulosos. Será que uma pedra teria algum valor para gente gananciosa?” Perguntou Aduneius.

“Bem, se for para vender ...” – arrematou Meirol

“Não Meirol. Olhe esses objetos simples ... foram deixados para trás. Parece que os ladrões estavam interessados nos objetos mais bem elaborados, os de valor. Se deixaram esses para trás, porque levariam uma pedra ... a menos que ... é ... a menos que soubessem de seu alto valor venal!”

Meirol caiu de joelhos, desanimado.

“Você está sugerindo que alguém sabia que essa caravana levava a Pedra Sácer e a atacou para obtê-la?”

“É uma hipótese, não um fato confirmado”

“Por Handaf ... que direção tomaremos agora?”

Meirol reuniu o grupo para se aconselhar. Pediu que todos prestassem atenção na hipótese de Aduneius e perguntou qual direção cada um sugeria que a comitiva deveria tomar.

“Das montanhas” disse Bafor-Nul, “eles vieram de lá,segundo Caldiens, então foram para lá”.

“Eu acho que o Bafor-Nul está certo” disse Quénsel.

“Devemos ir adiante, pois que direção eles tomaram se a pedra está com eles? Não sabemos. Mas se a pedra não estiver? Então ela foi para o poente, com alguém que talvez fugiu do pesaroso fado que envolveu os demais.” Sugeriu Quin-Néser.

“É” disse Esmálforas

“Concordo com Quin-Néser” disse Servensaus

“Porque ainda temos dúvida ... não é nem preciso colher mais opiniões, está claro que Quin-Néser tem razão” declarou Alaicha.

Ao ser apontado pelo olhar de Meirol, Aduneius disse:

“Melhor nos nortear pela opinião de um esquadrinhador de terrenos.” Disse isso olhando para Caldiens, que se expressou:

“Se os agressores obtiveram ou não a Pedra não sei, mas sei que foram para o nascente. Como não nos deparamos com ninguém no caminho, devem ter saído da rota principal, ou passado por nós enquanto estávamos em terras asnarlahals ou eromês. Mas acho que a primeira opção é a mais provável, uma vez que os rastros deles vão até perto de onde parei o grupo lá trás e desviam para o sudeste.”

Meirol ficou confuso, e falou em voltar para o leste. Alaicha disse que ainda achava que o grupo deveria ir para o poente. Enquanto havia conselho entre eles viram lá diante um homem montado, parado. A neblina que desceu naquele momento permitiu que se percebesse pouco mais que uma silhueta. O homem ficou lá, parado, enquanto uma ansiedade conjugada com silêncio bateu sobre o grupo.

“Deve ser um batedor, talvez do mesmo grupo que dizimou os levinotes mercadores.” Disse Quin-Néser. “Ele não pode avisar os demais sobre nós.”

Quando Quin-Néser terminou sua frase, o homem manuseou as rédeas e insinuou que ia dar meia-volta; então Caldiens e Quin-Néser pularam sobre os velozes adejantes e foram no encalço deles. O cavalo do homem não era dos mais velozes, e mesmo que fosse, não seria páreo para adejantes. Logo os mesmos voltaram com o homem amarrado sendo trazido a pé por Quin-Néser, enquanto Caldiens trazia o cavalo do estranho.

“Assassinos” ouviu o grupo de longe! “Podem me matar, pois desejo encontrar-me com meu irmão Le-In”. Obviamente, não irmão de sangue.

Quando o prisioneiro olhou para o grupo que acompanhava seus dois captores, reconheceu a semelhança nos modos com o grupo que matou os integrantes de sua caravana. Puxou uma adaga que estava engenhosamente escondida sob sua vestimenta, mas foi rendido por Quin-Néser imediatamente.

“Assassinos” sussurrou novamente.

“Quem és?” perguntou Meirol.

“Sou este homem que estás vendo. Que diferença faz o nome que me designaram ao nascer?” Era Ninfa!

Meirol riu da resposta inesperada. “Por que nos chamas de assassino? És tu um dos eromês?”

“Eromês? Não tenho tratos com aqueles bárbaros entrerrienses.”

“Então por que nos acusas de assassinato? Os únicos homens que matamos foram eromês, e o fizemos em legítima defesa!”

Ninfa parou, pensou e desculpou-se.

“Julguei que fossem os assassinos de meus amigos. Foram mortos por ladrões. Parece que estavam interessados numa Pedra que nossa caravana trazia.”

“Uma Pedra ele disse?” pensou Meirol. A menção disso fez todos pararem e olharem para o estranho: deixaram de se coçar, olhar para o Pico Andeias, reajustar a cela do cavalo ou verificar pequenos ferimentos.

“Por tudo que é mais sagrado, precisamos saber mais dessa Pedra” disse Meirol.

“Parece que o mundo enlouqueceu ... ninguém mais procura pedras preciosas, só esta Pedra infame sem valor.”

“Amigo, (“então agora virei amigo”, pensou o Ninfa) meu batedor já constatou que houve luta nesse local. Deve ser o ataque a sua caravana, conforme você comentou. Não fomos nós. O último lugar em que encontramos homens foi na tribo asnarlahal, lá atrás. Acabo de ver pela primeira vez na minha vida o majestoso Pico Andeias, e procuramos qualquer notícia sobre uma Pedra específica.

Perdoe nossa captura. Julgamos que você fosse integrante do grupo dos homens que causaram o infortúnio aos mercadores nesse lugar. Parece que você julgou também que nós fôssemos tais homens. Minhas consternações por sua perda!”

“Por que queres tu a Pedra?”

“Meu nome é Meirol, sou um maztena. Parece que você sente um certo desprezo por nós, entrerrienses! (disse isso, com um sorriso de canto da boca e olhando fixamente para Ninfa) Bem, se permite dizer, ainda não estou certo se devo contar a ...”

“um estranho que vocês perderam a Pedra Sácer e agora sua tribo espera sucesso da parte de uma pequena e desesperada comitiva. Por tudo que foi consagrado no mundo, por que não nos alcançaram ao notar o desaparecimento da Pedra Sácer? Se tivésseis sido mais ágeis talvez Le-In ainda estivesse vivo!”

“Sabes o que busco?”

“Me contaram sobre o roubo maztena do Amuleto do Ancianato. Quando você mencionou que era maztena, soube o que você buscava! Me chamo Ninfa. Sou levinote, um dos cabeças da caravana que levava vossa Pedra.”

“Ninfa, muita coisa está em risco. Não sei se tínhamos motivo no passado para roubar essa Pedra Sácer ou não, mas o que sei é que os mundii são guerreiros bárbaros e numerosos. Não nos atacam por respeito ao seu deus Onarai. Mas logo saberão da perda da Pedra, e não temerão nos atacar. Pense em nossas crianças Ninfa. Pense nas mulheres maztenas, inocentes da insanidade dos homens, que pagariam com sofrimento e morte por algo que não cometeram; pois nossa tribo, pelo bem ou pelo mal, é governada pelas decisões dos homens!”

Ninfa ficou terrivelmente preocupado: “Por todos os levinotes do mundo, o que foi que eu fiz?”

Ele sentou-se desolado! “Eu vendi a Pedra Sácer por um alto valor” Ninfa mencionou seu encontro com Assai e a transação comercial entre os dois. Respondendo a perguntas de Aduneius e Servensaus, ele recuou no tempo e comentou sobre como achara estranho a ida da caravana até a tribo dos maztenas, e a entrega de uma mercadoria por um homem maztena chamado Tarastir. Seguiu falando do ataque de homens semelhantes ao grupo de Meirol atacando a caravana, e causando a morte de seus colegas e levando algumas mercadorias, deixando outras para trás, bem como alguns cavalos que podiam ser vendidos a bom preço. Não demorou muito e sua narração chegou ao ponto em que encontrou Mágobas, o servo de Assai ... quando Le-In mencionou sem querer o valor pelo qual vendera a Padra Sácer, Meirol não pôde segurar a indignação e protestou:

“Você vendeu nossas vidas por este preço?”

A frase reverberou. Houve um silêncio, cortado por pássaros que voavam nas redondezas. Ninfa continuou:

“Pouco, se pensares do modo como pensas. Muito, se pensares na venda de uma Pedra que para mim não tinha nenhum valor! Porém maztena, não estava satisfeito em ficar bem na vida e não saber exatamente por que Le-In morreu. Fora um simples roubo? Decidi vir para o nascente para investigar, pois Assai, o homem que comprou a Pedra Sácer de mim parecia esperto, e sugeriu que o ataque era uma tentativa dos vendedores asnarlahals de reaver a Pedra que venderam.”

Quénsel e Bafor-Nul estavam espantados, olhando para Alaicha.

“Por que descaiu teu semblante dessa maneira, meu amigo Alaicha. Ainda há esperança. Vede! A Pedra Sácer está indo para os dole-mundii em passo de caravana. Ainda podemos alcançá-la.”

“Eu sei Quénsel. Deixe-me em paz!”

Quénsel e Bafor-Nul estranharam a rudeza do colega. Ele parecia agora mais preocupado do que Meirol ... ou ainda, mais preocupado do que Handaf estava nas horas que seguiram à descoberta da ausência da Pedra. Alaicha sentiu-se observado pelos colegas.

“Desculpe meu desespero, amigos.”

Ao voltarem suas atenções para Meirol e o levinote ouviram-nos dizer que iam cruzar o Grande Rio com a ajuda dos asnarlahals, e ir ao encalço da caravana dole, antes que a Pedra Sácer chegasse a Caruanã.

8. Uma Notícia Boa e Ruim.

Uma notícia pode ser boa ou ruim, dizia uma frase do livro “Ditos”, por Madegal, escrito cerca de 200 anos depois desse episódio. Para Caruanã, isso era verdade. Era bom não ter notícia, por que o teor dela poderia ser negativo. “Será que os sábios d´além das montanhas Andeias poderiam mesmo obter o amuleto para mim?” Ele ainda não sabia, mas os “sábios” levinotes já o haviam obtido.

Caruanã também achava ruim não ter notícia, pois ela poderia ser boa ... e sua ansiedade, desnecessária.

Naquela tarde, porém, algo ia tirar-lhe a monotonia! Veio a ele um servo do Grande Líder dos manvatopias dizendo que seu senhor estava a caminho dos manvas do sul, e desejava encontrar-se com ele.

Caruanã ficou irado. “Esse líder menor de uma tribo decadente, sempre me importunando e desejando uma aliança com a poderosa tribo dos dole-mundii.” – pensou!

Antes mesmo de dizer palavras ásperas ao servo manvatopia, seus pensamentos foram rebatidos pelas palavras deste: “Grande Líder dole-mundii, meu senhor tem uma informação valiosa para vossas pretensões. Disse que se o ouvisse, não se arrependeria”

Caruanã mudou a feição, de uma carranca fechada para uma cara de espanto. “Saberia esse manva algo sobre o amuleto do Ancianato?” – raciocinava ele, dizendo depois ao homem postado à sua frente: “Ide, e dizei a teu senhor que ele será bem vindo aqui!” O servo manvatopia despediu-se de Caruanã, feliz por poder dar uma notícia que sabia que deixaria seu Grande Líder feliz.

Horas depois e o Grande Líder manvatopia aparecia no horizonte. Logo os internúncios dole-mundii e manvatopia anunciaram a chegada do Grande Líder. Caruanã não havia feito muitos preparativos, primeiro porque foi uma visita de surpresa, e segundo porque ele sentia um certo desprezo pelos manvas, tanto a tribo manva do norte, bem como a do sul e a dos manvatopias. Feitos os devidos cumprimentos, ambos os líderes foram para um cômodo mais interior da moradia de Caruanã. Como a desconfiança era abundante e recíproca, uma pequena guarda pessoal acompanhou os dois.

“Serei breve, pois meu irmão, o líder dos manvas do sul, me espera (não eram irmãos de sangue, os manvas consideravam-se uma fraternidade). Tenho uma informação para ti, Grande Líder.”

“Prossiga!”

“Mas é uma informação que acharás valiosa, Grande Líder dos dole e dos mundii”

“Entendo ... terás minha gratidão Grande Líder manvatopia, se tua informação puder comprá-la!”

“Bem sabes dos meus problemas com os tassu-assus, que eles atacam os eromês e acabam algumas vezes por nos atacar. São guerreiros bárbaros e destemidos, à maneira dos mundii. Sabes ainda que enfrento oposição à minha liderança no sul manvatopia, num território onde quase encontramos os maztenas do norte, e que as terras ao leste do rio Silivratas estão desabitadas, mas os ununaios (membros da tribo dos achis) não permitem que ninguém as habite. E também ...”

“Que é isso? Acaso estás salvando os dole-mundii de sua exterminação, para achar que podes fazer tantos pedidos a mim? Diga o que tens a dizer, e julgarei até que ponto a informação valerá uma aliança.”

Os manvatopias consideravam o Grande Líder dos dole-mundii um grande arrogante. Mal o suportavam, mas o consideravam um excelente aliado pois, numa batalha, talvez só os achis poderiam fazer-lhe frente em toda aquela vasta região. Pensando nisso, o Grande Líder manvatopia pôs-se a dizer:

“Estive visitando os eromês para selar nossa amizade e discutir sobre um problema comum: os tassu-assus. Enquanto uma festividade era preparada, eis que apareceu em terras eromês um pequeno grupo de maztenas, uns dez talvez. Maztenas fora de seu território é algo incomum, por isso fiquei surpreso e curioso; o que faria um grupo de maztena em solo eromê? Teriam sido expulsos e enviados ao exílio? De repente, minha mente lembrou do amuleto do Ancianato. Suspeitei que perderam a pedra e, para não levantar suspeitas de tal perda, enviaram um pequeno grupo para procurá-la. Descobri tudo da melhor forma possível, perguntando, e um homem, aparentemente servo do principal, confirmou minha suspeita. Caruanã ... eles estão sem o amuleto! Essa é, portanto, uma notícia boa e ruim. É boa, pois sabe-se que estão sem a pedra. É ruim, pois estão no encalço dela.”

Caruanã quase explodia de satisfação. “Afinal, parece que os sábios de longe conseguiram-na para mim.” A confirmação de que a tribo maztena, que por um século jamais permitiu que a Pedra Sácer sumisse, a perdesse agora era um indício excitante de que seus planos iam bem.

“Ide aos manvas do sul, meu amigo. Adiantarei a investigação anual referente ao amuleto, e se os maztenas não puderem mostrá-lo a mim, saberei que não te enganastes no que se refere a isso. Quando voltareis de tua visita?”

“Passarei alguns dias lá ... não planejei o número exato”

“Vá em paz, meu amigo manva. A notícia que me trouxeste é valiosa. Ganhaste minha amizade”

Algumas formalidades depois e o séquito manvatopia passou a tomar seu rumo, com muitos soldados e um assento sendo carregado por alguns homens. Caruanã achou graça disso. Nunca levara seu assento junto com ele. Mas seus pensamentos rapidamente se voltaram para os maztenas.

Os dole-mundii passaram a organizar uma pequena comitiva para investigar de maneira adiantada ao previsto se os maztenas possuíam ainda o Amuleto ou não. Enquanto a comitiva organizava sua partida, Caruanã já ia reunindo-se com os chefes de sua força militar, enviando chamados por toda a tribo, convocando todo “apto a segurar uma lança ou um machado.”

Os dole-mundii, em especial os mundii, gostavam do combate corpo-a-corpo e eram hábeis e vigorosos para este tipo de luta. Havia entre alguns doles e mundii homens de boa pontaria que causavam um dano considerável no inimigo com suas lanças. Mas iam enfrentar um povo que sabia manejar o arco e flecha como ninguém, usando-o constantemente na caça e pesca.

Caruanã estava agitado e satisfeito. Sabia que os mundii seriam subservientes aos doles por muito tempo, se houvesse sucesso nessa empreitada. Na sua inquietação, passou a organizar o povo que ia afluindo a ele obedecendo a convocação militar. Mas os dole-mundii se espalhavam por uma grande região, e reuni-los não seria uma tarefa a ser cumprida brevemente!

9. A confirmação.

Handaf estava doente. Pressentia que algo terrível estava para acontecer. Agora ele estava sentado, sozinho, observando toda a atividade maztena ao seu redor. Rumores de uma guerra contra os dole-mundii haviam feito o espírito dos seus conterrâneos ficar abatido.

Muitos maztenas de vilas distantes porém não sabiam de nada, e em especial os aroeres do sul, de onde veio Meirol, que ignoravam totalmente a possível guerra contra os dole-mundii. Seria uma surpresa para estes ver os atacantes penetrando em suas vilas.

Handaf refletia nos últimos acontecimentos: A última notícia que recebera sobre Meirol viera com Greices, até que recebera um mensageiro asnarlahal que relatara brevemente o encontro de Greiteli com o Grande Líder asnarlahal. Através dele, Handaf soube algo que o estremecera! O Grande Líder dos manvatopias soubera sobre a perda da Pedra Sácer. Pela proximidade com os dole-mundii, os manvas estão informados sobre esses assuntos e o segredo revelado poderia custar caro! Será que os manvatopias revelariam o assunto aos doles? Essa dúvida temível arrastou Handaf para uma grande depressão resultando por dois dias num fortuito problema estomacal. Através do asnarlahal mensageiro, Handaf soube também que pelo menos todos da comitiva estavam vivos, e que Greiteli em breve voltaria para casa!

Handaf continuava refletindo enquanto os preparativos para despedir-se do mensageiro formalmente ficavam prontos. Mas eis que naqueles instantes, Handaf recebeu outra mensagem que o deixara sem forças: uma comitiva dole-mundii estava se aproximando.

Todos ficaram aflitos. “Que fazer? E agora, que fazer? Como esconder dos doles que a pedra sumira? Porque vieram antes da data costumeira? Eles souberam do sumiço da Pedra Sácer! Os manvatopias, ... aqueles desapiedados! Delataram a situação! Que fazer?”

Todos estavam assustados. Nunca viram Handaf demonstrando tamanha fragilidade. Um grande temor abateu-se sobre todos. Antes que as coisas saíssem de controle, Handaf se recompôs e tomou uma postura firme novamente. Ordenou que houvesse preparativos para a recepção em frente ao aposento do corro e se retirou.

O asnarlahal, que receberia a despedida formal de Handaf, recebeu um pedido para que ficasse mais um pouco e visse o desfecho dessa nova situação.

Horas depois, uma comitiva de 20 doles e 50 mundii (12 deles homens de destaque e sacerdotes; os demais eram guerreiros guardas) aparecia na vila principal. Os aldeões olhavam espantados para aquele séquito. Já viram outros, mas eram sempre compostos de 3 doles, 3 mundii, e uns dez guerreiros mais ou menos. Agora, vinha uma multidão!

“Avise Handaf, o Grande Líder, que Caruari, irmão e representante de Caruanã está aqui”

Após algumas formalidades, como o anúncio da presença de Handaf e a reverência a ele prestada, a conversação iniciou. Caruari detestou inclinar-se ao chão para esse líder de uma tribo militarmente fraca, mas seguira as instruções de seu irmão de respeitar os preceitos maztenas, afinal os visitantes eram minoria e não podiam com milhares de maztenas.

“Viemos, em nome de Caruanã, Grande Líder dos doles e também dos mundii, solicitar que nos mostres o amuleto do ancianato”

Na hora, Handaf lembrou-se de que poderia ter feito uma réplica exata da pedra para uma ocasião como essa, mas agora era tarde. De qualquer forma, Handaf odiava o engano!

“Não há mais tal amuleto em nossas terras” – disse Handaf

Os mundii guerreiros se arranjaram em formação, estupefatos com o que ouviram. Não sabiam de nada sobre o sumiço da pedra. Repentinamente sentiram o perigo de ouvir uma notícia que não poderia sair das terras maztenas.

“A confirmação” sussurrava Caruari, “a confirmação”, depois disse em voz alta aos guerreiros mundii:

“Tolos, não sabem que Handaf não ousaria nos fazer mal? Ele agora precisa fazer o possível e o impossível para que Caruanã não decida atacá-lo, e atacar a comitiva em que o próprio irmão de Caruanã integra não parece ser a melhor decisão!”

Depois, olhando para Handaf, disse: “Maztenas amaldiçoados! Cresci ouvindo a história do amuleto do ancianato e da importância dele para os irmãos mundii. Agora finalmente a hora de reaver o artefato está perto!”

O sumo-onaraitan (mundii-sacerdote) então olhou para os companheiros mundii e gritou “Númaior!” e os demais mundii celebraram levantando em êxtase os braços. Acreditavam que Númaior era o espírito subalterno de Onarai que manobrava as situações de forma que na hora devida o amuleto voltaria para mãos mundii.

Handaf olhou severamente para o grupo e ordenou que parassem imediatamente, porque uma celebração alienígena era imprópria na frente do aposento do corro. Caruari riu e ameaçou ordenar que os mundii continuassem, mas ao ver os guardas maztenas cercando toda a comitiva, aquietou-se.

“Se o Grande Líder meu irmão me permitir, eu mesmo te encontrarei no campo de batalha Handaf. Espero ansioso ver a queda maztena. Farei você rebaixar-se até o chão no mesmo gesto de reverência que fui hoje obrigado a exercer!”

A um gesto de Handaf, a guarda maztena rendeu todos os guerreiros mundii e Bedzar apontou uma ponta de lança para o pescoço de Caruari.

“Sou um embaixador. Não posso ser atacado dessa maneira” – Disse Caruari, agora assustado!

“És um embaixador. Não podes atacar-nos dessa maneira” – Disse Bedzar, chefe da guarda da vila principal. A um aceno de Handaf, forçou todos os doles-mundii a deitarem de bruços no chão.

“Dole insolente, para mim era vantajoso manter-te cativo, sem levares a inoportuna informação aos dole-mundii. Mas os costumes dole-mundii de traição e quebra de lealdade são raros entre os maztenas e mesmo significando uma grande adversidade para nós, eu os deixaria ir. Seu atrevimento em olhar para mim e seu insulto feriu o costume local e me deu o motivo que queria para manter-vos cativos. Caruari, seu tolo! Agora seu irmão demorará mais até receber a confirmação desejada, sugerida pelo Grande Excremento manvatopia. Quanto a batalha, sou homem de idade e você é jovem. É possível que nos encontremos no campo de batalha e eu pereça às tuas mãos. Mas saiba que o Grande Líder maztena não é como o Grande Líder dole-mundii, um covarde que se esconde atrás das habilidades militares dos dois irmãos mais novos.”

Todos assustaram-se. Handaf nunca ousara dizer tais palavras baixas, principalmente ao referir-se a um Grande Líder. Como Handaf sabia sobre o manvatopia, Caruari não imaginava, mas o sacerdote mundii esclareceu o assunto ao ver o que parecia ser um asnarlahal no meio daquela “gentalha maztena”! Entenderam que de alguma forma os asnarlahals foram avisados sobre o incidente na terra dos eromês.

Depois, Handaf convocou seus generais e a alguns deles ordenou que percorressem a tribo e chamassem toda a força militar dos maztenas. Alguns deles foram tomados de um pavor súbito, pois não queriam lutar sem a Pedra Sácer, e previram uma terrível derrota contra a forte e numerosa tribo dos dole-mundii.

Depois Handaf dispensou Assilésio, o mensageiro asnarlahal e disse:

“O que vistes, relatai! Os maztenas estão em apuros e são poucos se comparados ao inimigo. A moral de meus líderes militares está abalada. Se há laços entre nós que ultrapassam os simples vínculos comerciais, é chegada a hora de os asnarlahals a demonstrarem. Vós vos mostrastes muito competentes em tempos de paz, confio que sejais igualmente hábeis em tempos de guerra!”

Alguns dias passaram-se até que o mensageiro regressava e com ele Greiteli. Handaf ficou satisfeito em revê-lo e pediu que fosse ao aposento do corro.

“Meu Grande Líder, senhor dos maztenas”

“Dispenso as formalidades agora. Olha para mim.”

“Senhor, sabes o que realmente está acontecendo?”

“Se sei? A comitiva Dole-mundii veio com antecedência e com mais guardas do que o costumeiro e o próprio irmão de Caruanã a integrava. Eles ainda estão aqui, encarcerados!”

“Sei da vinda deles, mas manténs cativo o próprio irmão daquele que vem ao nosso encontro com uma grande massa de gente? Pretendes usar Caruari para pedir termos de paz em troca da vida dele?”

“Este é um costume eromê, manva ou tassu-assu. Mas não um costume maztena. Nosso código de honra não nos permite fazer tal negociação (Handaf cita seus princípios pessoais como se fossem costumes da tribo, o que não é verdade). Sabes dizer agora onde está Meirol?”

“Se não fossem os eromês, ele teria alcançado a caravana levinote ...”

“ ... E Quin-Néser e Caldiens a teriam resgatado.”

“Ah ... Sim, agora entendo porque os dois melhores guerreiros foram retirados da guarda da vila para acompanhá-lo! Achei que era para simplesmente garantir a segurança de Meirol. Mas, ... a caravana levinote era grande, composta de várias pessoas ...”

“Já viste a dupla em ação ... um mata a distância com perfeição e os que escapam dele caem nos braços do outro para igualmente encontrar a morte.”

“Disseste que Caruanã mandou investigar o paradeiro da Pedra Sácer ... se seu irmão não voltar ele logo estará a caminho com sua força militar ...”

“Sim! Tenho batedores naquelas terras de ninguém que os achis não permitem que seja povoada. No conselho de guerra o Rauquem, líder militar dos aroeres do norte, sugeriu que fosse montada guarda ao norte de nossa tribo, aqui nas terras entrerrienses, pois considerou que Caruanã poderia usar terras manvatopias para chegar aqui, já que seria uma boa opção evitar os achis ununaios. Assim que ele aparecer, receberei o rebate (sinal).”

“A propósito, parece que Meirol atravessara as terras dos asnarlahals do sul, cruzando o Grande Rio ao norte da Marloan (a Marloan é a terceira queda do rio Silivrens)”

“Meirol, o que você anda fazendo?” Handaf suspirou aflito.

“As descrições dos companheiros e de Meirol batiam com eles, mas haviam um outro integrante no grupo, o que me fez duvidar um pouco se tratava de nosso Meirol. Acho que ele não sabia que ainda me mantinha por lá, e por isso nem me procurou., A propósito, o asnarlahal mensageiro tem uma mensagem encorajadora para o povo maztena”

“O mensageiro, ia me esquecendo ... chame-o até aqui à frente do aposento do corro”

Logo depois de convocado, Assilésio cumprimentou o Grande Líder indo até o chão e passou a dizer:

“Grande Líder dos maztenas, não é costume asnarlahal intrometer-se nos assuntos de outras tribos. Nem a tribo asnarlahal do norte auxilia ou prejudica a do sul nem a do sul faz isso com a do norte. Que diremos de uma intervenção em assuntos extra-asnarlahals? Nosso Grande Líder tem de zelar pela tradição asnarlahal. Mas eis que o grande Djeiko-Bihel não é homem insensível. Não é apropriado um asnarlahal morrer por um estranho, mas essa antiga lei não se aplica aos escravos, sejam eles asnarlahals ou não. Temos muitos escravos treinados para a batalha, homens de infantaria. Esses estarão a caminho, assim que o senhor dos maztenas desejar e me enviar de volta como mensageiro de sua necessidade”

A um aceno de Handaf o internúncio disse:

“Toda ajuda é bem vinda, asnarlahal. Homens de infantaria serão uma prestativa ajuda, pois carecemos de homens capazes de suportar um ataque corpo-a-corpo. O que queres em troca por tal ajuda?”

“Sua simples existência como tribo é para nós gratificante. Se o Grande Líder dos maztenas concordar, gostaríamos de continuar a ter primazia no comércio com os maztenas.”

Com um novo aceno de Handaf, o internúncio concedeu o pedido e despediu Assilésio, implorando que fosse rápido até sua tribo trazer ajuda!

Nesse momento Rauquem recebe um mensageiro assustado e esgotado, que o informa da presença dole-mundii nas terras ao sul dos manvatopias, mas estão em campanha contra sulinos rebeldes à liderança do Grande Líder manvatopia. Rauquem ordena que seja dado o rebate.

Vários arautos, subordinados do internúncio, começaram a clamar em vários pontos até que as vozes começaram a ficar quase inaudíveis. Enquanto isso mensageiros montados saíam em disparadas para vários pontos da rosa-dos-ventos. Os homens convocados para a batalha precisavam apressar-se.

Quando enfim um líder local dos aroeres da vila de Meirol convocou o vilarejo, Pes-Ean sentiu um aperto no peito. A saudade de seu esposo era forte, pois Meirol era homem bondoso e romântico com sua esposa. O coração dela batia muito forte agora, de modos que ela tinha a impressão que outros notavam isso através de seu decote generoso (não era exatamente o coração que estava chamando a atenção). Greices ficara doente devido a uma picada de algum inseto desconhecido e ardia em febre, de modo que estava atuando seu substituto.

Após reunir o povo, o substituto passou a cumprimentá-los, gerou expectativa do que haveria de dizer, e depois falou:

“Homens e mulheres maztenas. Recebi a pouco um mensageiro da vila principal que veio alertar-nos sobre um ataque à nossa tribo. Doles-mundii estão a caminho para nos exterminar.” Nesse ponto do discurso, o pavor tomou conta de muitos. Não sabiam o que era um dole-mundii, e nem desejam saber mesmo!

“Eis que nosso Grande Líder, senhor dos maztenas, convocou sob a minha liderança todo homem capaz de segurar uma lança ou manusear um arcadã. Por nossas esposas, que ninguém se acovarda”.

Defender o território maztena e as mulheres que consideram indefesas, eram os dois lemas maztenas para incitar os homens às armas. Sempre funcionavam pois os maztenas amavam seu próprio povo, e seu código de honra os fazia verem a si mesmos como defensores das suas mulheres. Mais tarde no tempo seu lema fez menção aos filhos também.

A situação desenrolou-se de forma que batalhões de guerreiros logo estavam diante de Handaf, preparando-se para a batalha. Homens de infantaria com lanças, e arqueiros habilidosos no uso do arcadã. Alguns poucos cavalarianos também compunham a força militar.

“Onde estão os homens de Ovidas, do riacho Habunã e de Manassa?” Perguntou Handaf, vestido para a batalha, com o cabelo amarrado, uma proteção de couro ao redor do abdome e uma longa veste em tons de cinza e verde acinzentado segurada por alças, passando por baixo da proteção, indo até os pés. O peito estava nu.

“Meu senhor, Grande Líder, não veio ninguém de lá, mas há notícias de que estão a caminho.”

“Os aroeres do sul já estão aqui, e os homens de terras mais próximas ainda não ..., ... se não chegarem em breve serão punidos ... mande uma mensagem até eles.”

Os homens ficaram atemorizados. À Questal, chefe dos cavalarianos, Handaf explicava depois que o comandante indulgente torna os soldados imprestáveis. Quem relaxa a disciplina pode ter soldados arrogantes ao seu lado.

Enfim, os aroeres do norte já haviam recuado suas famílias e trouxeram notícias de que o norte fora arrasado pelos dole-mundii. Handaf passou a mobilizar suas tropas e dividi-las em dois grupos, sendo que Handaf comandava a vanguarda com uma tropa de elite, e Bedzar o acompanhava. Na retaguarda ia uma grande multidão de homens, dispostos em grupos de lanceiros e arqueiros. Teria sido sábio proteger os flancos com os cavalarianos, mas os silvos desconheciam tais táticas de guerra, e Handaf os trouxe na vanguarda.

10. A comitiva atravessa o solo manva.

Agora Meirol havia feito o caminho inverso até os asnarlahals. O mesmo comerciante de Rashnáki de cenouras os vira e os atravessara pelo Vantaás-Eás. Mais tarde, tendo cruzado o território asnarlahal, fizeram a perigosa e demorada travessia do Grande Rio Silivrens.

Como não sabiam da presença de Greiteli (e como não havia poucas vilas naquelas vastas terras) continuaram seu trajeto. Acertaram no plano de interceptar o dole com a pedra. Pois estavam atrás, mas escolheram o caminho mais curto, algo que deviam à experiência de Ninfa.

Só havia um inconveniente: teriam de atravessar o território dos manvas do sul, onde estavam agora, sem serem vistos.

Nessa altura muitas coisas já tinham acontecido! O Grande Líder manvatopia já delatara a situação ao Grande Líder dole-mundii, Handaf já havia recebido a comitiva dole-mundii e Greiteli estava a caminho do território maztena. Meirol não sabia, mas estava em vantagem sobre o dole que trazia a Pedra Sácer consigo.

Nas terras manvas procuraram evitar as estradas de algumas vilas que passaram a encontrar no caminho, mas isso estava atrasando o cavalgar porque longe das estradas o chão estava irregular e a vegetação, bem fechada. Lembrando-se das palavras de Greiteli, que disse que os manvas sabiam da história da Pedra Sácer, estavam um tanto ansiosos. De repente viram-se numa pequena elevação de campo aberto, com algumas gramíneas aqui, outras ali. Viram lá embaixo pessoas aparentemente amassando uvas num lagar, e parecia que outras dançavam ao redor. Uma moça, de tez mais clara ainda do que geralmente os loiros manvas são, olhou para o grupo maztena do meio de uma roda de dança. Percebeu o susto estampado nos estranhos ao se verem descobertos. Ela preferiu não dizer nada aos demais, uma gentileza que logo se mostraria de pouca valia. Todos os maztenas recuaram rapidamente para não serem mais vistos e cavalgaram para longe dali, mas repentinamente viram-se diante de um grupo de soldados manvas. O capitão daquela divisão pareceu bastante surpreso de ver aquela gente diferente ali.

Ao sinal de um estranho som gutural os soldados cercaram os maztenas, ordenando que erguessem as mãos. O capitão manva não conhecia aquela gente de pele morena clara e estranhou aquele homem que parecia envolto num manto (Aduneius), também ficou admirado de ver aquele crina dourada, montaria de Meirol.

Não sabendo de toda a movimentação ocorrida em sua tribo, causada pelos manvatopias, aquele manva do sul sabia que não era por mero acaso que estranhos fossem encontrados nas terras dos manvas do sul. Decidiu-se portanto, por levar os homens ao seu Grande Líder.

“Alguém entendeu uma palavra do que esses estranhos dizem?” Perguntou Meirol

“Por Handaf, esses coitados tem um falar tão estranho, que parecem que estão se amaldiçoando mutuamente” – Disse Servensaus

“Não me parece desconhecida ... obviamente não sei o que dizem, mas acho que já a ouvi antes” – Completou Aduneius, sem lembrar que o som era o mesmo dos sussurros dados pelos manvatopias na terra dos eromês,

Os maztenas tiveram suas mãos atadas, porém não foram empurrados ou tratados com outra descortesia. Mas a eles era indicado o caminho e o seguiam. Estavam sendo levados a um governador regional, para que lá ele decidisse o que fazer com os estranhos. Os cavalos foram levados junto, mas todos estavam desmontados.

Caminhadas e caminhadas depois entraram em terras que os manvas chamavam de Cadmon, e o grupo de Meirol viu-se diante de uma construção simples, mas de belo jardim. Córregos com água límpida e grama e flores belamente situadas, com borboletas azul Royal e outras num vibrante laranja aguardente voavam pela paisagem. Havia uma estradinha pavimentada com pedras brancas que levavam até a edificação.

“Pardês ...” sussurrou Aduneius!

Servensaus olhou, intrigado, ao que Aduneius explicou:

“É o lugar de Panol para onde vão as índoles dos homens, segundo uma antiga lenda carachi, contada entre grupos que migraram para . Os de bom caráter teriam sua índole vivendo para sempre em felicidade sempiterna na Pardês. Alguns homens em libros crêem nesta história, mas a modificaram, sendo a Pardês chamada de Paradeisos e acrescentando um lugar de punição para os maus. Estes seriam escravos eternos das boas índoles, recebendo delas punições severas e à noite se recolheriam num lugar onde teriam intenso sono, mas não poderiam dormir.”

Um arrepio correu pelo corpo de Servensaus, ao ouvir aquela história. Era totalmente nova para os maztenas, mas ecos desse mito eram encontrados entre dunos, eromês e asnarlahals, povos descendentes de carachis. No entanto, logo a atenção dele voltou-se novamente para o jardim acolhedor diante dele. Sentiu por um sopro de tempo um revigoramento dentro de si, que logo evaporou-se diante de guardas carrancudos que começaram a falar naquela língua estranha.

Foram levados perante um homem bem adornado, gordo, que bebia uma bebida fermentada a base de laranja, o qual autorizou que fossem desamarrados. Fê-los uma pergunta que não compreenderam. Meirol perguntou aos espectadores se alguém falava a língua dos maztenas. Não houve resposta, mas o homem gordo riu com um canto da sua entreaberta boca, pois achou curioso aquele idioma! Ao pedido de Meirol, Aduneius perguntou na língua comum se alguém falava aquele idioma.

“Converse comigo, pois sou um mastariano cativo de guerra que cresceu aos olhos de meu senhor, e em Mastaris se fala a língua comum.” Depois o homem voltou-se para seu senhor e explicou-lhe na língua manva o que estava acontecendo. O homem mastariano era de uma fala tão calma que apaziguou o medo que ia crescendo dentro do maztenas. Mastaris era uma tribo altamente civilizada, mas sem muita força militar. Era menos populosa que as tribos asnarlahals ou levinotes, outros dois povos desenvolvidos. Moravam num ângulo formado pelos rios Silivrens (o grande rio) e o Avalen-Tiste, que os mênlistes chamavam de Cados. Tais rios os cercavam ao oeste, sul e norte. Ao leste viviam os manvas, do norte e do sul. Os mastarianos não tinham muitos problemas com os manvas do sul diretamente, mas os do norte eram belicosos e dispostos a saques, e ao travar embates com os manvas do norte os mastarianos acabavam por entrar em rota de colisão com os manvas do sul.

“Conheço os mastarianos” disse Ninfa.

O governante manva falou algo ao servo mastariano e se retirou, ordenando que os estranhos fossem confinados a um aposento trancado, mas cômodo. O mastariano foi junto e passou a prosear com Aduneius.

Horas depois, o próprio governante manva passou por perto do aposento e ouviu comemorações e risadas. Ao ordenar que a porta fosse aberta viu pedras no chão e Aduneius explicando naquela “palavras ininteligíveis” algo sobre o jogo. A um pedido seu, o servo respeitosamente explicou sobre o imbatível Aduneius e seu joguinho de pedras. Isso aguçou a curiosidade do homem. Ao ver que os hóspedes eram gente interessante os convidou para alimentar-se a sua mesa e contar de onde vieram e o que faziam em solo manva. Meirol alertou a todos de que podia se tratar de uma gentileza com fins específicos e ordenou-lhes que nada falassem da Pedra Sácer.

Durante a refeição, usando o mastariano como intérprete, Aduneius conversou sobre como a matemática era avançada em sua terra. Explicou-lhes alguns princípios fundamentais e contou o que os homens de libros chamam de “O problema do viciado”, segundo o qual um jogador tinha moedas no valor de 16 pésets de prata e foi até uma casa de jogos. Ganhasse ou perdesse, ele sempre apostava a metade de seu dinheiro. Numa notinha apostou 6 vezes, perdeu 3 e ganhou 3. Aduneius perguntou com quanto dinheiro ficou o jogador e parecia razoável a todos que fosse os mesmos 16 pésets, uma vez que independentemente da ordem das perdas e ganhos, o que perdia recuperava e o que ganhava perdia. Através de cálculos Aduneius provou ao líder manva que o jogador sempre perdia 9,25 pésets, independentemente da ordem de ganhos ou perdas.

Foi um problema para o manva compreender a fração 0,25 que compunha aquele 9,25, mas ficou muito satisfeito com seu aparentemente ilustre sábio.

(Ppésets é uma medida monetária dos mastarianos, empregada pelos manvas também. Aduneius não a conhecia, mas aqui teve a ajuda do mastariano)

No decorrer da noite Aduneius foi contando a respeito de onde ele era, de como era a terra de Libros, e da origem da civilização em Númaior. Falou da nazbiata (embarcações vindas do continente daneliano se perdem no mar e param neste continente) e de como carachis escravos das embarcações se espalharam em pequenas tribos. Todos ficaram surpresos quando ele mencionou que destes carachis descenderam as tribos dos asnarlahals, levinotes (ao falar dessa tribo apontou a Ninfa) e dos mastarianos, entre outras.

“A maioria dos carachis conhecia a língua comum falada na Danélia, por isso levaram-na consigo pelo nosso continente afora …” Explicava Aduneius, diante da agonia de Meirol que tinha pressa em se livrar daquele homem gentil, mas ainda assim seu captor e possivelmente um perigoso manva. Os demais, porém, pareciam se deliciar com aquele vislumbre do começo, algo que intrigara tantas mentes por tanto tempo. Perguntado por Servensaus (pergunta que foi devidamente traduzido para a língua manva), o que exatamente era essa terra de Libros, Aduneius respirou fundo como se em sua mente se passasse uma lembrança gostosa tal qual uma brisa fresca num dia que queima em calor. Depois falou a respeito de sua terra natal, das duas grandes cidades, Libros e Abratena, das consecuções de engenharia, dos sistemas de irrigação, dos aquedutos e do sistema numérico baseado em 10 desenvolvido orgulhosamente por seus antecessores. Até Meirol esqueceu-se um pouco de sua missão e ficou imaginando aquela terra, em especial aquela “Casa do Pensamento” da qual fazia parte Aduneius.

Logo Aduneius principiou a narrar sua expedição para as terras desconhecidas do norte, justamente essas tribos silvas que ele agora estava percorrendo. O norteador geográfico da Casa do Pensamento, com permissão real, levou muitos homens importantes para reconhecer as terras e a gente ao norte de Libros, pois registros antigos mencionavam povos carachis povoando o norte. Depois Aduneius lhes falou do animal selvático que lhes atacou, arrastando um deles para longe. Falou ainda da busca ao homem perdido e de como ele (Aduneius) veio a se perder, na correria, do seu grupo. Desorientado, ele passou a perambular pelas terras de Romvelt, uma gente hostil que o maltratou mas descuidou de guardá-lo devidamente. Logo ele andou entre os dunos, um povo muito simpático e simples. Ali Aduneius ficou algum tempo, fazendo anotações sobre aquela gente, até que a saudade de sua terra apertou. Saiu para procurar Libros, atravessou o Vantaás-Eás, mas foi para o norte (geografia não era o forte dele). Até se dar conta de seu erro já estava quase na terra dos asnarlahals. Voltou e encontrou os aroeres do norte maztena, que o encaminharam à Handaf. Sendo tratado de maneira arrogante por líderes maztenas, Aduneius começou a perder a paciência com aquela gente. Demasiadamente ansioso (devido aos assuntos relacionados à Pedra), Handaf também o tratou com rudeza, e Aduneius, no seu orgulho, respondeu rispidamente olhando para Handaf. Ao ser advertido por um guarda maztena a não olhar mais para o Grande Líder, Aduneius o olhou novamente e continuou fitando o potentado. Não muito depois disso, arrasado por estar longe de casa, cansado e com ódio, à caminho da detenção, seus olhos lacrimejantes encontraram os de Meirol.

Quando terminou de falar, notou que todos os maztenas estavam cabisbaixos, como se estivessem envergonhados. O governante manva estava pra lá de satisfeito com toda aquela história que o entreteve, enquanto Meirol queria livrar-se dele, mas viu que Aduneius estava no caminho certo ao tentar ganhar a aprovação deste.

O governante manva, já embriagado, perguntou aos maztenas para onde iam. Um silêncio tomou conta de todos ao ouvirem a pergunta traduzida.

“Estamos a caminho do oeste” Foi a resposta.

“Ao oeste?” A resposta intrigou o manva, que sem suas faculdades mentais normalizada teve dificuldade em fazer qualquer associação.

“O oeste é um lugar perigoso …não confio nesses dole nem nesses mundii, e depois deles os maras e os corohires mostram-se extremamente selvagens. Não aproximem-se muito das margens do Grande Rio, onde a concentração de vilas é alta. Como desejo que vós vos mantenhais vivos, ofereço uma pequena guarda, se me contares o segredo de sua vitória naquele jogo de pedras.” – Disse o agora flatulento manva.

“Aceite Aduneius, pois agora teremos que interceptar um dole talvez em terra dole-mundii. Precisaremos de mais força, maior da que possuímos agora.”

Ao ser aceita a proposta, o manva perguntou quantos guardas deveriam acompanhá-los.

“O número de tuas esposas, com o número dobrado a cada uma delas, e me darás um pequeno exército, pois sei que potentados manvas possuem muitas delas.” Disse Aduneius

O manva riu: “Só tenho 12 esposas meu amigo, e aceito esses termos”

Feitas as contas, percebeu-se que seria um guerreiro para uma esposa, dois para a segunda, 4 para terceira, 8 para a quarta, 16 para a quinta, assim sucessivamente, de modo que terminou em 2048 guardas para a última esposa.

O governante ficou em apuros. “Isso é toda a guarda de Cadmon. Como podem 12 esposas render-lhe tanto?” Ao mesmo desesperado e admirado pela sagacidade de seu visitante, o governante manva viu-se na mesma situação que o Grande Líder eromê. Havia dado sua palavra diante de muitos, e não desejava vê-la sem valor.

“Para que sejamos razoáveis, que acha de 50 homens?”

Meirol falou baixo com Ninfa e a um aceno positivo de Meirol, Aduneius aceitou a proposta: “É o suficiente para guardar-nos”, disse. Na verdade, era o suficiente para interceptar o dole com a pedra.

Curiosamente, como o assunto desviara-se para o problema do número de guardas, ninguém lembrou-se mais do jogo de pedras, e a curiosidade do manva bêbado não foi saciada.

No caminho foram barrados algumas vezes por guardas do Grande Líder manva do sul e regionais, mas ao verem o salvo-conduto do governante manva de Cadmon e a guarda de 50 homens com eles, sempre podiam seguir seu caminho.

E lá se foram os maztenas, o homem de libros e o levinote, na sua busca ao dole, devidamente protegidos.

11. Meirol logra a Pedra Sácer.

“Tudo está muito calmo por aqui, os mundii e os dole são numerosos e suas vilas costumam fervilhar de gente”, disse Ninfa, ao perceber a falta da agitação freqüentemente narrada por seus amigos mercadores e percebida por ele mesmo nas suas viagens comerciais de muitos anos atrás.

Estavam penetrando na terra dole-mundii com uma guarda manva e ninguém os fazia parar. Muitas pessoas ao vê-los inclusive se trancavam em seus casebres ou corriam sabe-se lá para onde!

“Meirol, algo está errado” Reafirmou Ninfa!

“A guerra começou”, disse Servensaus. “Aqui está vazio porque o Grande Líder dole-mundii organizou uma expedição aos maztenas. Sem dúvida ele sabe do sumiço da Pedra Sácer”

Meirol afastou-se do grupo. Olhando para os céus e seu azul límpido, sentiu uma grande angústia e falou baixinho, como se alguém morasse lá em cima e pudesse ouvi-lo. Uma lágrima caiu-lhe com velocidade, deixando seu rastro molhado na face até alcançar o pescoço. Pensou na esposa amada, e um aperto no peito insuportável fê-lo prostrar-se.

“Se a guerra já começou o mal já está em andamento, mas ainda há esperança! Podemos interromper a guerra se ainda obtermos a Pedra”

“Para onde iremos agora?” Perguntou Caldiens.

“Para o templo principal de Onarai” disse Ninfa. “Lá devemos buscar a estrada norte, que é de onde virá o dole com a Pedra”

O Grande Líder dole-mundii teve de regressar de sua luta nas terras maztenas. Recebeu notícias de ataques dos faachitas, que habitam as terras ao norte dos dole-mundii, até a margem do rio Avalen-Tiste. Um homem dole pôs fogo em entulhos perto de uma floresta num dia de muito vento, e o fogo espalhou-se de tal forma que ardeu toda a região. Agora faachitas acham que se trata de fogo dole criminoso e estão atacando os dole-mundii que ficaram indefesos.

Caruanã voltou com uma enorme força militar, mas mesmo assim ainda deixou sob o comando competente de seu irmão mais novo, Abuani, as forças de invasão aos maztenas. Trouxe consigo muitos mundii, pois tinha medo dos faachitas e os doles não tinham a mesma bravura na batalha. E Abuani, como seu irmão Caruari, é homem valente e estrategista militar competente, soube melhor do que Caruanã o que fazer. Avançando impiedosamente sobre solo maztena, fê-los recuar em muitas frentes de batalha. Mas os maztenas não recuavam com facilidade … e com suas táticas de guerrilha e conhecimento da região, fizeram muitas emboscadas aos dole-mundii.

Ao fim do dia, muitos lanceiros haviam caído e os arqueiros não podiam ficar descobertos. Seguindo o conselho de Bedzar, Handaf recuou o que restou da vanguarda e os reagrupou com o grupo da retaguarda. As batalhas reiniciaram e Handaf sempre ia recuando gradativamente, e vidas, tantos dos maztenas como dos dole-mundii, iam se perdendo no ardor da guerra. Rauquem fora ferido gravemente ao procurar resgatar aroeres que caíram numa emboscada. Delor, um dos chefes de exército, tombou junto com um grupo de homens valentes que viram Handaf em apuros e foram em seu auxílio. Sem tal intervenção Handaf com certeza estaria morto. Quanto a Delor, era filho de dunos, a tribo ao sul dos maztenas, mas decidiu casar-se com uma mulher da vila principal maztena e jurou lealdade à Handaf.

A batalha continuava desesperadora e Handaf ordenou o deslocamento de todo inapto para a batalha para mais ao sul. Multidões de mulheres, idosos e crianças tiveram de abandonar suas modestas moradas rapidamente. Com sua incapacidade de manter posições e seus recuos forçados, os maztenas logo estavam voltando para as terras da vila principal. Ali a luta seria mais feroz, porque os maztenas não pretendiam entregar aquele lugar aos dole-mundii. Os dole-mundii recuaram um pouco, aparentemente para se reagruparem e organizarem-se novamente. Abuani apreciou toda a bravura maztena, e considerou que tanto seus homens como os inimigos mereciam um descanso. Conhecendo Handaf, Abuani foi em pessoa perguntar sobre seu irmão Caruari. Num gesto de honradez, Handaf o respeitou como mensageiro e ambos sentaram-se para negociar a libertação de Caruari. Como maztenas e doles cercavam os dois, Abuani respeitou os costumes maztenas por estar em terras maztenas e abaixou-se curvando-se perante seu inimigo, e tratou de não olhar para Handaf.

“Caruari sai da detenção se cancelares a guerra.”

“Sabes que a guerra não é decisão minha, é descuido teu e decisão de meu irmão. Mas mesmo que ele decidisse não atacar-te, os mundii fariam isso por si só. Eles são desorganizados, mas numerosos. Não podemos correr o risco de desagradá-los. Se libertares meu irmão, pouparei de sofrimento tu e tua família contigo, ao arrasar tua força militar.”

“Teu irmão ofendeu os costumes maztenas, e não pode ser simplesmente libertado, a menos que eu tenha um bom motivo para apresentar aos meus comandados. E vantagem pessoal não é esse motivo. Não o libertarei.”

“Mas eu o libertarei, e te farei cativo no lugar dele” – disse o dole, levantando-se furiosamente e dando as costas para Handaf.

Apesar da aspereza das palavras, Abuani considerava a Handaf um homem respeitável. Quisera que seu próprio irmão, o Grande Líder dole-mundii Caruanã, tivesse a mesma decência do grande Líder maztena.

“O templo de Onarai” Disse Meirol ao avistar o tão esperado templo.

“Não ‘o templo’, mas sim ‘o principal deles’ - corrigiu Ninfa. “Há muitos outros espalhados por aí.

O templo era feito de Pedra, mas era cercado por madeira de cedro, belas e vigorosas toras. Na entrada havia um portão voltado para o sul e duas colunas com totens de face atroz. Na empena haviam esculpidos rostos severos, alegres e tristes. Um deles era o do espírito que chamavam Númaior, um dos principais entre os deuses mundii; uma outra face, uma humana, era a do profeta Merindóremi, das terras do oeste, de onde vieram os antepassados mundii. O trabalho não era bom, não era belamente entalhado. O clima estava frio e parecia que uma tempestade se aproximava. Como o céu enegrecia-se a partir do norte, dava a impressão que o negrume partia do templo. Raios lá atrás deram um aspecto sombrio ao lugar. Não era característico dali, mas aos maztenas parecia que era. Havia neblina baixa e guardas estavam postados no portão do templo.

O séquito de Meirol afastou-se do templo e buscaram a estrada norte.

“Se estivermos com sorte, ainda interceptaremos os doles que estão com a Pedra” Afirmou Ninfa.

Distanciaram-se do templo pela estrada norte o suficiente para manterem-se longe da guarda templária e aguardaram a vinda da Pedra Sácer com o dole. Foram, porém, vistos pelos defensores do templo, que entraram em conselho sobre o que fazer com aquele enorme grupo de mais 50 pessoas.

A espera não foi cômoda, tamanho o número de mosquitos e similares no lugar, mas foi recompensada: Lá adiante apareceu um grupo de pessoas, vindo pela estrada Norte.

“O grupo que comprou o amuleto do ancianato de Assai” Disse Ninfa, quase não se contendo de expectativa de ver o desfecho dessa situação. Ele desejava muito poder reparar o problema que causou desintencionalmente ao levar em sua caravana a Pedra Sácer, algo que já havia custado centenas de vidas na batalha que acontecia naquele momento.

Esconderam-se e prepararam uma emboscada sob o comando de Quin-Néser. No meio daquela espera Alaicha encontrou cogumelos. Ofereceu-os a Esmálforas e Quénsel, dizendo parecer muito bom, mas ele mesmo não comera, pois disso se proveu pela vida inteira. Como ele cultivava cogumelos, ambos acreditaram que era bom e comeram com prazer.

Na hora exata em que os doles passavam pelo local, jamais imaginariam que tão perto do templo, uma área sempre tão protegida, seriam atacados por manvas e maztenas. Poderiam ter prestados atenção aos sinais: As vilas por onde passaram estavam praticamente desprotegidas, indício de que os guerreiros dole-mundii estavam em guerra longe daquelas terras.

Foi grande a sua surpresa quando o dole viu-se cercado por todos aqueles homens, seus próprios guardas rendidos pelos manvas e seu principal servo, que fez um movimento brusco, ser pregado pelas mangas da túnica em um tronco de árvore por punhais lançados à distancia. Rendido e sem intenção de perder a vida, entregou-se.

“Há algo com você que precisamos” – Disse Meirol

O dole, homem de boa cultura, fluente na língua comum, na manva e na maztena, ia negar que tinha consigo algo importante, mas viu Ninfa entre a multidão.

“Deve estar engana ... Olá, acho que nos conhecemos levinote. Então você vende objetos e depois os rouba para vendê-los de novo?”

Ninfa ofendeu-se.

“Não sou este tipo de comerciante, estou aqui porque participei de algo que não desejava e quero auxiliar a pôr as coisas no lugar. E quero que saibas…”

Ninfa fora interrompido por Servensaus, que assustado tentava ajudar Esmálforas, que lacrimejava e suava muito, reclamando de forte cólica estomacal e tontura. Quénsel, assustado, também estava lacrimejando muito. Caldiens apontou para um outro cogumelo, do mesmo tipo e alertou aos demais que vira os dois comendo aquilo.

“Um chapéu de cobra … eles comeram um chapéu de cobra … vão morrer” Disse Aduneius.

O dole disse aos seus servos algo que Meirol não entendeu, e quatro deles deixaram o grupo. Perplexo, Meirol não quis evitar que se fossem. Logo voltaram com algumas espécies de tâmaras, dando-as aos dois maztenas intoxicados. Tal fruta tinha um forte efeito laxante, e praticamente limpou o organismo dos dois homens.

Dole e maztena, trabalhando lado a lado para salvar os dois …

Meirol quis ser mais gentil com o homem que mesmo sendo considerado inimigo salvou os dois carregadores.

“Teriam morrido sem a limpeza estomacal” Disse o dole.

Aduneius desejou levar uma muda daquela planta para Libros, mas nem mesmo sabia se veria aquele reino novamente.

“Que graça te designaram ao nascer?”

“Noseanã, chamado de O Multilíngüe, por meu senhor, o Grande Líder Dole-mundii”

A menção desse nome fez Meirol lembrar de novo da pedra.

“Noseanã, eis que estás em número muito menor que eu, e se medíssemos forças tu não prevalecerias de forma alguma. Por favor, permita que eu te faça a gentileza de ordenar que a guarda manva que me acompanha abaixe suas armas. Prometa que não atentarás contra mim, pois não desejo apontar armas para aquele a quem sinto gratidão.”

“Ainda estás em solo dole-mundii. Não estou em muita desvantagem, mas considerando minha posição atual, aceito seus termos.”

“Diga-me dole, por que os homens daqui parecem tão assustados? Passei por várias vilas, que desprovidas de guarnição, evidenciava medo”

“Ao norte um homem, na sua tolice, pôs fogo em algo que desejava descartar. As chamas foram levadas pelo vento para lá e para cá, até atingirem uma floresta que os faachitas consideram seu território. Consideraram que o incêndio era criminoso e decidiram atacar. Como não havia, segundo relatos, forte resposta do nosso lado, pode-se concluir que Caruanã está em campanha contra os maztenas.”

Meirol voltou sua atenção à Pedra Sácer.

“Deixe-me ver … a Pedra.”

O clima voltou a ficar tenso …contra a vontade, voltando a olhar para aquela multidão com o maztena e fixando o olho naquele grandalhão que era Caldiens e lembrando-se da habilidade com punhais exibida por Quin-Néser, o dole permitiu que o amuleto fosse retirado de sua bolsa.

Meirol olhou espantado para aquele objeto quase sem graça, uma pedra num formato triangular, com uma inscrição.

“O que é?” Perguntou Meirol, apontando para a inscrição

“Segundo meu amigo Ashnaquir, trata-se do nome do deus mundii Onarai. Ashnaquir é um Onaraitan, um dos sacerdotes de onarai. Um tan é um “escolhido para um trabalho especial”, assim um Onaraitan é um escolhido para trabalhar para Onarai. Na língua comum, Onaraitan é traduzida por Sacerdote.”

Servensaus adiantou-se e foi logo perguntando?

“Sabes porque muitos a chamam de Pedra Sácer?”

“Os maztenas chamam assim, para os mundii ela sempre foi o amuleto do Ancianato”

Outro onaraitan, ou sacerdote, cochichou algo aos ouvidos do dole, e este falou:

“Que fareis com o amuleto?”

“Sabes que precisamos levá-lo à nossa tribo novamente”

“Meu senhor me matará se eu permitir isso.”

“Não tens escolha, a menos que seus 8 guardas possam vencer nós todos. Queres tentar? Não quero que tentes! Não quero opor-me a ti numa luta desigual.”

O dole pensou um pouco e falou: “Meirol, és homem de discernimento e parece haver compaixão em ti. Faz 100 ciclos (anos) que os mundii não adoram Onarai decentemente, e cada ano que passa se sentem mais amaldiçoados. Dizem os relatos da época que quando a pedra era usada Onarai se abria e permitia que os Onaraitans fizessem oferendas, e que agora o deus fechou-se para eles. Dizem que o amuleto dava poderes ao templo. Sinto-me curioso para ver se há alguma verdade nisso. Porque não leva a pedra até o templo pelo menos uma única vez, e então leva-a de volta ao teu povo? Além do mais uma forte chuva se aproxima … o templo nos abrigará!”

“Parece justo”

Todos foram ao templo. Lá Meirol não vira mais a guarda no portão, e isso não o tranqüilizou. Todos entraram e a Pedra Sácer continuava na mão de Meirol. Andaram por um labirinto de pedras e logo estavam numa câmara fria, com uma grande parede cheia de caracteres estranhos.

“Foi aqui que eles se refugiaram” – pensou Meirol, ao lembrar da história contada por Handaf, da guerra ocorrida há cem anos e dos maztenas que recuaram e se protegeram ali.

“Shpatan cunsil um onaraitan” Leu o sacerdote apontando para um texto.

“A permissão é dada aos sacerdotes” traduziu Nozeanã, o dole. “Dê Meirol, o amuleto ao sacerdote.”

Agora quem hesitou foi Meirol, mas a curiosidade foi superior. Entregou a Pedra ao sacerdote e quando este colocou-a no lugar, um dispositivo foi acionado, como se ela fosse uma espécie de chave, e logo a parede abriu-se para o lado, como uma porta. Carcaças de animais sacrificados sobre um altar ainda podiam ser vistas.

“Então é verdade, há uma força neste lugar” – disse o dole maravilhado, não percebendo que se tratava de pura engenharia.

“Não acham curioso que um SACERdote precisem de algo que os maztenas chamam de Pedra SÁCER?. Sacerdote na língua mundii é Onaraitan. Onarai é o nome do deus mundii, mas também é parte da palavra para Sacerdote. De forma que na língua comum, parte da palavra para sacerdote é SACER. Alguém deve ter feito tal associação ao designá-la de Pedra Sácer.”

Todos olharam espantados. Fazia sentido. Os tans, eram ajudantes de templo, servos dos onaraitans. Os onaraitans (sacerdotes) eram servos de Onarai. Daí alguém falou:

“Então TAN deve significar DOTE, para completar a palavra” – Ninguém se importou com o comentário, somente um dole chamado Kuari.

Meirol, lembrando da invasão aos maztenas, apanhou rapidamente a Pedra e cheio de pressa convocou todos a saírem do lugar. Saíram todos rapidamente e o dole tentou pará-los, mas as lanças dos manvas falaram mais alto. Sabendo da morte que o aguardaria por sua falha, o dole decidiu ir com Meirol. Deixaram o lugar e andaram por vários quilômetros, até que o líder da guarda manva perguntou através de Aduneius para onde Meirol se dirigia.

“Para as terras maztenas”

“Então aqui acaba a obrigação de meu senhor de Cadmon para consigo. Nossa obrigação era de levá-lo ao leste, mas agora estás indo para o sul.”

Meirol lamentou, pois ainda estava em solo dole-mundii, agradeceu a ajuda manva e despediu-os.

Na demorada viagem de volta, Caruanã tinha pressa em castigar os intrusos faachitas, “oportunistas que esperam a tribo ficar sem defesas para atacá-la”, segundo o pensamento dele.

Para atacar os faachitas, ele teria de pegar a mesma estrada norte do templo, e por isso mesmo passou por aquele lugar. Ao aproximar-se do templo, viu um mundii da guarda templária correr em sua direção e falar da intrusão de Meirol).

Imediatamente reuniu os homens que o acompanhava, 2000 guerreiros, acrescentados da guarda do templo, e enviou-os aos faachitas e lembrou de perguntar onde estava o multilíngüe. Ouviu dos mundii sacerdotes ainda quase em transe o inteiro relato de como a Pedra Sácer entrou e saiu só templo, e da decisão de Noseanã de ir-se com eles. Irritado por tamanha traição e angustiado por ver que esse Meirol ainda estava na busca da pedra, Caruanã ordenou que 20 batedores fossem trazê-los até ele. Enquanto isso continuou ouvindo a respeito do que comentaram sobre o significado da palavra Onaraitan, e nesse momento Kuari explicou-lhe:

“Disseram que tan significa dote”

“Dote? Nosso nome tribal de outrora, que depois Jabalahal mudaria para dole. Nós somos os tans. Eu como Tan principal, devo ser o sumo-onaraitan.” Assim, num momento de êxtase, Caruanã penetrou num lugar sagrado somente permitido aos onaraitans, dentro do templo, para investigar ali algum vestígio que apoiasse sua autodesignação. Ele estava blefando, pois sabia que os doles nada tinha a ver com a adoração à Onarai, mas sempre cobiçara o cargo de sumo-onaraitan, para poder manter os mundii sob maior controle. Sua presença ali, naquele local sagrado permissível somente aos onaraitans, desencadeou uma revolta dos mundii do templo, que o entregaram à morte.

Assim morreu Caruanã, Grande Líder dos Dole-Mundii.

Quanto aos 20 que foram no encalço de Meirol, acharam-no na vila de Suanai, às margens do gigantesco Silivrens. Quando os viram, o grupo de Meirol já estava embarcando para cruzar o rio, numa embarcação obtida pelos contatos de Noseanã. Os 20 também cruzaram o rio e entraram em solo perigoso, por onde violentos achis ununaios mantinham guarda. Nessas terras os comandados de Caruanã aproximaram-se do séquito de Meirol e alvejaram com uma flecha o peito de Noseanã. Este prostrou-se de joelhos, e ainda vivo olhou para Meirol e estendeu o braço como se pedisse ajuda, e tombou. Esmálforas e Quénsel, num gesto de bravura que seus corações incitaram a cometer por seu curador, atacaram os doles e Esmálforas, mesmo tendo o braço curto, fez um profundo corte num dos homens, mas foi apunhalado por outro, nas costas. Quénsel também fora morto, e enquanto os doles vinham para matar os demais, iam tombando à medida que Quin-Néser atirava seus punhais, até acabassem, seis punhais ao todo. Caldiens, ardoroso lutador corpo-a-corpo embrenhou-se na luta com sua larga espada e fez que mais três tombassem pela força de seu braço. Os doles recuaram assustados. Nunca viram tamanha eficiência nem nas suas mais aterradoras batalhas. Já estavam em 11 contra oito e reavaliaram a situação. Como derrotar aqueles dois? Parecia impossível. Cada vez que tais lutas aconteciam, Meirol compreendia mais porque Handaf os tinha enviado junto.

“Temos que derrubar aquele grandalhão, porque o que lança projéteis parece estar sem munição.” Foi a decisão que tomaram. Assim, foram como um só corpo na direção de Caldiens, mas os demais maztenas correram para auxiliá-lo. E na luta que se seguiu Caldiens estava novamente prevalecendo, mas seus amigos não ofereciam muita ajuda, com exceção do momento em que Ninfa acertou uma pancada na cabela de um dole que pegando Caldiens de costas, o golpearia fatalmente. Mas no mesmo momento que Caldiens virou-se para agradecer-lhe, eis que Ninfa estava sendo golpeado, e Alaicha também. Ambos caíram ao solo no mesmo instante. O grito de desespero de Meirol fora alto o suficiente para que todos abaixassem as espadas por um segundo, depois tomados de ira, os maztenas devastaram os doles, até que nenhum permaneceu vivo.

Foram até os dois corpos ali jazendo ao chão, e viram que Ninfa tinha, de fato, perecido. Ninfa teria desejado mais a morte do que uma vida sem ajudar os maztenas nesse problema que ele desintencionalmente desencadeou, através de seu sócio Le-In.

Quanto a Alaicha, ainda estava vivo. Entre suas palavras ditas com dificuldade, Bafor-Nul entendeu algumas, e Alaicha pereceu. Ainda segurando a mão dele, Bafor-Nul explicou:

“Ele viera conosco a pedido de Tarastir”

“Tarastir? Alaicha era nosso inimigo?”

“Ele disse que sua missão era nos atrapalhar, não nos permitir que alcançássemos a Pedra Sácer, para que um grupo sob o comando de Tarastir a recuperasse no meio do caminho. Por isso ele ficou tão perturbado quando nosso heróico inimigo levinote (apontou para Ninfa), disse que vendera Pedra. Isso significou que os planos de Tarastir dera errado, e só aí foi que Alaicha percebeu um gigantesco problema. Provavelmente sempre achara que Tarastir tinha tudo sobre controle. Ele disse depois ‘Greiteli também’, e morreu.”

“Eu achei exagerada a insistência dele em nos sugerir que fôssemos para o oeste, quando paramos ao pé do pico Andeias.

“Será que Greiteli está com Tarastir nessa trama, justo ele que deixei para trás pra avisar Handaf? Deveria ter procurado notícias de seus feitos ao cruzarmos as terras dos asnarlahals pela segunda vez. Agora só uma coisa importa, que os mundii vejam que estamos novamente com a Pedra Sácer.”

Assim, Meirol ordenou que Caldiens e Quin-Néser, possuidores dos cavalos adejantes, cavalgassem o mais rápido que pudessem a fim de levar a pedra à Handaf.

12. De volta ao lar.

A batalha contra os doles-mundii era aterrorizadora. Agora os maztenas perderam até a vila de Handaf.

Ao encontrar a casa de detenção, Abuani aumentou sua admiração por Handaf ao ver que ele não executara os prisioneiros, e libertou seu irmão, Caruari. Este, desprovido da mesma honradez que o irmão mais novo, convocou mais da metade dos comandados, todos que eram mundii e estavam mais dispostos à luta, chamou-os a si e foi no encalço de Handaf. Abuani alertou para não seguir Handaf rapidamente, mas aconselhou o irmão a bater a região antes.

Dono de grande arrogância, Caruari levou seus exércitos a uma perseguição à Handaf. Vendo que seu inimigo o perseguia, Handaf levou-o até o desfiladeiro Magaf. Ali, por cima das elevações, arqueiros e seus potentes arcadãs faziam os mortos dole-mundii ascenderem a um grande número. Mesmo assim, eram tão numerosos, que ainda haviam muitos deles, e os lanceiros postados na boca do abismo, uma passagem estreita, eram poucos, mas mantiveram através de sua formação os dole-mundii sob controle. Bedzar, homem competente em batalha, chefe da guarda da vila principal, um dos homens mais leais à Handaf, tombara aqui. Com o passar do tempo, os arqueiros lá em cima passaram a diminuir em número, alvejados por projéteis vindo de baixo. Sem os hábeis mestres do uso do arcadã, tal batalha seria impossível de vencer, mas cada arqueiro, ao morrer, tinha levado consigo muitos dole-mundii para a morte.

A situação agora era desesperadora. Caruari pedira auxílio à Abuani e este deu a volta em torno do local da batalha e ia atacar a retaguarda maztena, que estava totalmente desprotegida. Tal informação fora dada por Questal, chefe dos cavalarianos, oriunda de seus batedores. Não haviam mais muitos infantes nem mesmo para segurar o ataque na vanguarda, e muitos arqueiros haviam tombado. Agora, a desguarnecida retaguarda seria alvo de Abuani com uma tropa composta só de doles.

“Se falharmos aqui, as forças de devastação irão ao encontro de nossas esposas e nossos pequenos. Tem de haver alguma esperança.” Disse Handaf à Questal. No mesmo momento, Quin-Néser e Caldiens apontaram no leste. Sua nuvem de poeira fora vista por amigos e inimigos. Mas os inimigos é que viram antes e foram ao seu encontro. Antes mesmo de poder entregar a pedra à Handaf, Caldiens e Quin-Néser estavam sendo atacados. Caldiens segurou com forte seu braço os que pôde e mandou Quin-Néser continuar a cavalgada. Questal e alguns cavalarianos com ele foram em direção à Caldiens para o ajudá-lo, mas era demasiado tarde. Enquanto os mundii tombavam vítimas dos braços fortes dele, o próprio Caldiens era apunhalado por todos os lados. Quando viu que Quin-Néser estava a uma distância segura, parou de lutar, e já quase sem vida caiu de joelhos, olhou toda a devastação ao seu redor, viu de longe muitos maztenas tombados e seus olhos procuraram Handaf, até que ele caiu e adormeceu na morte.

Quin-Néser levou a pedra até Handaf, que solicitou uma reunião diplomática com os mundii, concedida por Caruari. Logo depois na reunião, com generais maztenas e líderes mundii, além de Handaf e Caruari, Handaf levantou uma mão com um objeto coberto por um lenço. Puxou o lenço e clamou:

“Conosco está a Pedra Sácer” e foi caminhando e clamando a mesma coisa, ao passo que um mundii a reconheceu e confirmou a posse dela. O resultado foi surpreendente: Milhares de mundii curvando-se instantaneamente. Possuído de uma ira incontrolável, Caruari correu até Handaf, para acometê-lo, mas foi barrado por maztenas, que o entregaram a morte.

Quanto à Abuani, seus doles não cederiam á posse da Pedra, mas foram interceptados por uma brilhante companhia de infantaria oriunda dos asnarlahals. Handaf não teria forças para derrotar Abuani, mas enfim os maztenas não estavam só nessa batalha que aparentemente não podiam ser vencedores. Os asnarlahals e doles tiveram uma luta ferrenha, mas os asnarlahals renderam os doles e pouparam a vida de muitos deles. Abuani, também fora poupado e à pedido de Handaf pôde voltar à sua tribo.

Logo no horizonte da vila principal vinham Meirol e seu grupo. Ele e seu crina dourada, mais Servensaus e Aduneius, e Bafor-Nul, o carregador. Ao passo que se aproximavam do aposento do corro, observavam a destruição ao seu redor.

“Está acabado, falhei ... a confiança depositada em mim provou-se vã” Clamava Meirol, chorando. Foi grande a sua surpresa quando viu distante alguns cavalarianos, e Questal com eles, aproximando-se com grande velocidade e saudando-os com grande felicidade.

“Seja bem-vindo novamente ao lar, abençoado Meirol, sejam bem-vindos os teus companheiros.”

Ao descer do cavalo Questal proseou com Meirol e contou-lhe de tudo, da resistência maztena, de como Handaf encurralou os mundii sob Caruari no desfiladeiro Magaf e suavizou a desvantagem numérica, dos asnarlahals que vieram em auxílio e enfrentaram Abuani e os doles com ele. Explicou também de como a Pedra Sácer retornou em boa hora e falou dos mundii se prostrando perante Handaf, possuidor da Pedra. Meirol explodia de satisfação, mas ela desvaneceu-se quando foi lembrado por Questal de que o norte fora devastado, assim como as terras que ele mesmo podia agora ver. Sua alegria diminuiu mais ainda ao saber que Caldiens tombara. Um enorme pesar tomou conta dele, e sentiu uma incontrolável vontade de agradecer pessoalmente à Caldiens por ser um herói de tamanha magnitude.

Horas e horas depois, e os homens importantes da tribo estavam de volta à vila principal. Handaf abraçou calorosamente aos integrantes da comitiva de Meirol dentro do avariado aposento do corro, oculto dos demais maztenas. Todos estavam ali, os sobreviventes dessa aventura por terras estranhas: Meirol, Aduneius, Servensaus, Quin-Néser, Greiteli e Bafor-Nul.

Mais tarde, uma festividade solene foi preparada para lembrar dos que tombaram na batalha, bem como do levinote Ninfa, do dole Noseanã, do valente Caldiens e dos carregadores Esmálforas, o pequeno, Alaicha e Quénsel. Quanto a Alaicha, os integrantes da comitiva decidiram-se não falar nada a seu respeito.

Mais tarde, já à noite, novamente em reunião com Handaf, Meirol e seu grupo deu mais explicações à Handaf. Falaram de Tarastir e seus planos de fazer a pedra sumir para somente poder resgatá-la. Handaf percebeu aí a manobra de seu filho: queria crescer aos olhos do pai. Sua atitude custou a vida de muitos. Meirol ainda relatara do rico asnarlahal que aliou-se a Tarastir. Ao ser indagado do nome do homem, Meirol disse que não fora revelado. Servensaus adiantou-se e disse:

“Ojina é o nome dele. Sendedcol falou esse nome sem querer nas suas muitas explicações.”

“Eu o conheço” – disse Handaf. “Aquele patife, isso será reportado ao Grande Líder Asnarlahal. Sabes porque Greiteli está constantemente cochichando com Tarastir?”

“Greiteli não sabe que sabemos, mas ele está apoiando Tarastir. Provavelmente acreditava que Tarastir não falharia no resgate da Pedra.”

Handaf ficou abismado ... seu próprio filho e um de seus principais conselheiros. “Por isso Greiteli insistira tanto em ir junto ... precisava acompanhar o andamento de tudo!”

E assim, a Pedra Sácer foi novamente recolocada na gruta de Outrora, e sua guarda foi reforçada. E Meirol pôde voltar aos aroeres do sul. A despedida de seus amigos não fora fácil, mas a saudade de sua esposa era imensa. E a terra dos maztenas começou sua recuperação de todo o mal causado.

13. Eventos posteriores.

Quanto à Servensaus, foi bem recebido por Míten. Seu senhor foi enaltecido por Handaf, por ter trazido tal homem num momento de necessidade. Servensaus serviu à Handaf na vila principal, tomando o lugar de Greiteli.

Greiteli tornou-se escravo. Sua família foi reduzida à mesma condição. Esta era a paga considerada justa por sua atitude de ocupar-se com algo que não deveria.

Caldiens virou um mito com o passar do tempo. Lendas a respeito dele foram criadas, mas as histórias ficaram muito deformadas, além da realidade.

Quin-Néser pereceu em outra batalha, desta vez apoiando uma revolta contra Handaf. Sua lealdade mudara de lado com o passar dos anos.

Tarastir foi condenado à Morte. O próprio Handaf o executou. Sua guarda foi poupada da morte por sua bravura na luta contra os dole-mundii.

Bafor-Nul tornou-se mais líder regional, assim como Míten e Greices.

Abuani tornou-se Grande Líder dos dole-mundii, no lugar de irmão. Ele decretou o maior luto já visto naquelas terras por seus dois irmãos. Desse dia em diante, ele passou a respeitar e a odiar mais ainda a Handaf.

Aduneius nunca pôde retornar ao solo de Libros. De todos que partiram com ele para inspecionar essas terras, nenhum na verdade voltou. Aduneius fora atacado de uma doença que lhe acometeu. Regressou ao solo maztena e passou seus últimos dias com o governante de Cadmon, na tribo manva do sul, levando consigo um grandioso presente de Handaf, o que causou desconforto entre o governante de Cadmon e seu grande Líder manva, aliados dos manvatopias. Lá ele revelou o segredo do jogo das pedrinhas. Ele pediu audiência com o Grande Líder dos eromês porque soube da existência dessa lei, nas suas perambulações. O reino de Libros faria uma segunda expedição por aquelas terras, mas dessa vez fariam navegando o rio Silivrens. Foi relacionado com essa expedição que os império sistarte, ao leste de todas essas terras, declarou guerra à Libros, destruindo o mais belo reino do continente.

Igualmente recompensado foi Sendedcol, o asnarlahal que avisara Meirol sobre Tarastir.

Greices falecera da doença que o acometia, mas Meirol negou-se a ser o líder regional, apesar das insistências do Grande Líder. Para ele, o abraço de sua esposa e sua vida simples de pescador era o melhor que a vida podia oferecer. Não queria participar das debelações dos grandes.

Uns 200 anos depois, muitas daquelas tribos uniram-se num conselho, para organizarem-se militarmente contra a ameaça sistarte. Maztenas e dole-mundii entraram nesse conselho somente 300 anos depois, quando o conselho já tinha quase 100 anos. Como aliados nesse chamado “conselho dos silvos”, dole-mundii não mais importunaram os maztenas com sua inspeção da pedra Sácer, que continuou a existir até então. O conselho apresentou falhas e exatamente 200 anos depois de ser formado, deu lugar a um império que reunia todas essas tribos.

Maztenas e dole-mundii combateram lado a lado as forças silvas numa revolta contra o conselho. Esta era uma guerra que começou uns 60 anos depois de seu ingresso no conselho. Mais tarde, no período imperial, tanto maztenas como dole-mundii, bem com outras tribos, foram excluídos dos direitos de cidadania, por seus envolvimentos nessa luta.

Séculos mais tarde toda a civilização silva caiu numa gigantesca batalha contra os sistartes, os mesmos que os fizeram unir-se um dia, e aquelas terras foram colonizadas por sistartes, que fundaram por ali uma gigantesca cidade chamada Livren-Roar.

FIM

Mais informações, veja http://grandmaster83.tripod.com/sistartes/vilzafe.html.
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