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A ignorância de uma sociedade medieval, levada a seu extremo de crueldade e estupidez. A verdade muitas vezes brilha tanto que cega.
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Como pode um homem suportar tanta dor? Engraçado que tanta dor acaba se tornando amarga resignação, vinda da compreensão do que não podemos evitar. Enquanto sabemos o que vai acontecer, sempre achamos que pode ser evitado, que Deus não vai permitir, que algo vai acontecer e mudar nosso destino e tudo vai voltar pelo menos ao normal. Mas quando nada acontece quando o prazo se esgota, ficamos esperando o desfecho final, inertes, sem ação...
E assim estava eu a assistir tamanha infâmia, sem poder fazer nada para mudar tal destino. Onde estava Deus, que deixou tudo isto acontecer? E o pior, em seu nome! Como poderei continuar acreditando nele, com tamanha covardia? Será ele um Deus vingador, que nos pune, por apenas existir? Como será o meu amanhã, sem Deus, sem ela?
Estou aqui no meio desta multidão, assistindo a um ato ignóbil e de repente, ao fitar seus olhos, minha mente se turva e lembra...
Estava eu retornado de uma longa viagem, havia ido resolver uma herança recebida após a morte de um parente distante. Era noite, estava cansado, sujo e esfomeado, mas não quis interromper viagem e seguia confiante que minha residência se encontrava logo adiante. O luar clareava meu caminho, quando de repente distingui uma figura clara adiante. Ao me aproximar, consegui visualizar uma imagem de sonho, vestida em traje de um branco diáfano, suave no meio da parca bruma que a envolvia. Fascinado, reduzi a marcha de meu cavalo que parou em frente a tal criatura. Era uma mulher linda, etérea, com longos cabelos pretos, um rosto oval e branco como uma pérola e olhos verdes faiscantes como esmeraldas. Ela me olhava com espanto, como se já me conhecesse e no mesmo instante o meu sentimento passou a ser o mesmo.
Todos os sons cessaram. Éramos apenas eu e ela. Não conseguia respirar e ao mesmo tempo, sentia que ela também sentia o mesmo.. Era como se estivéssemos ligados pelo mesmo sentimento e conseguíssemos sentir ao mesmo tempo as mesmas emoções... Apeei do meu cavalo, me ajoelhei ao seus pés e ela suavemente me ergueu. Nos olhamos por um bom tempo antes que eu conseguisse emitir qualquer som. Quando consegui falar, perguntei o que tão linda fada fazia a noite na floresta. Ela me respondeu estar colhendo ervas para uma parturiente com dificuldades e ao se lembrar pediu licença para voltar a aldeia onde tal mulher a esperava. Eu a levei no meu cavalo e então minha vida realmente começou.
Seu nome era Maryam e ela tinha o conhecimento de ervas medicinais, passado de mãe para filha durante gerações. Vinham pessoas de aldeias distantes buscar seus medicamentos, crentes de sua eficácia, propagada de boca em boca por aquelas pessoas de tanta fé. Sempre que eu conseguia me afastar de meus compromissos, ia com ela a floresta e ela me contava a propriedade de cura de cada planta, como Deus era sábio ao prover a natureza com os remédios aos males causados pelo próprio homem.
Eu estava completamente apaixonado e sentia que Maryam era a mulher que me faria feliz por toda a vida, senão por toda a eternidade... Mas toda a felicidade tem um fim...
Eu era um fidalgo de grande prestígio no meu país. Cumpria a obrigação de receber outros nobres, inclusive de outros países, como um embaixador político. Desta vez, recebemos uma comitiva de um país distante, eu e Maryam, minha noiva, linda a comandar um lauto banquete. Eis que a esposa de um lorde, que já estava adoentada, começou a se contorcer em dores. Minha Maryam, acostumada que estava com as dores do povo, tomou as dores da lady enferma, acompanhou-a seus aposentos e durante três dias velou seu leito, fazendo-a ingerir as infusões feitas com as ervas de sua floresta tão conhecidas.
Já no segundo dia, o bispo em reunião com o lorde esposo da moribunda, me confidenciou que a morte da lady era esperada por estes dias, pois apesar do tratamento dos melhores médicos e das orações dos bispos e padres do padres do país, verificou-se ser da vontade de Deus que tal alma repousasse ao seu lado pela eternidade. Só que no 4o. dia a lady se levantou como se nada tivesse acontecido, totalmente restabelecida.
Este foi o começo do fim. A comitiva começou a duvidar da real comunicação do bispo com Deus. Este não poderia perder sua posição e ao saber que a enferma tinha sido tratada com ervas, começou a lançar a suspeita que Maryam usava segredos de feitiçaria para curar os doentes.
O resto é História. Mesmo com todo o meu prestígio na corte, não se poderia admitir que uma mulher contrariasse o predito por um homem da Igreja, ainda mais em um tempo onde tal fato era heresia e a pena para tal era a fogueira.
E aqui estava eu, assistindo aos preparativos de uma fogueira tão grande que daria para queimar quase todo o clero. E lá estava ela, com uma feição tão calma, como a do dia em que nos conhecemos. Fui chegando mais perto, forçando minha entrada empurrando os sanguinários espectadores deste espetáculo tão odioso. Ao chegar o mais perto possível, ela me olhou com o todo o amor de um universo brilhando em seu olhar e me disse: - Não chores e não fiques triste com minha sorte meu amor. Nosso amor é eterno. Tenha a certeza que este não é o fim, mas apenas um dos começos que viveremos juntos.
Eu nunca lhe contei, mas os ensinamentos que recebi de minhas antepassadas remontam aos tempos anteriores a Igreja e para nós sempre existiu Deus, embora não este que a Igreja pregoa. Minha morte nesta fogueira não me é estranha, pois nosso povo a usava para celebrar seu poder. Sim, saibam todos- gritou- sou uma bruxa e minhas cinzas se misturarão no solo criando vida, que salvará muitas vidas, sem a ajuda de seus cardeais, bispos e padres. Porque EU SOU DEUS!
O medo se revelou em todos os rostos, inclusive do clero que no julgamento tanto tentou faze-la repetir tais palavras junto com seu arrependimento. E enquanto queimava não se ouviu um lamento de dou apenas a frase gritada com toda a força de sua linda voz: EU SOU DEUS! Até que a voz se silenciou de uma vez.
O povo atarantado e triste começou lentamente a voltar para suas casas. Fiquei fitando o fogo até que se extinguisse. Não consegui chorar.
Na primavera seguinte, eu já debilitado pela tristeza que não me permitia reação, passei pelo pátio onde ardera seu corpo em chamas para me despedir e eis que, pasmo lá avistei um canteiro de rosas selvagens nascidas entre diversas ervas com poder curativo. Tive então a certeza que minha morte eminente não seria o fim. Eu a encontraria novamente e juntos começaríamos uma nova vida. Fiquei ali, sentado ente aquelas rosas que eram tão minhas, sentindo minhas forças me abandonando quando avistei a luz do luar sobre mim. E me lembrei, que naquele dia, também era noite de lua cheia. Tive então a certeza de vê-la, no meio do jardim, me estendendo os braços na promessa de um abraço sem fim e a ele me entreguei.
Esta é uma lembrança de uma de minhas vidas. E na lembrança, mais que a luz do fogo, a mais brilhante era a luz da minha sempre lua nua.
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Mônica Medeiros é também a responsável pela página de contos Lua Nua
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