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INFORMAÇÕES    
Autor: Aguinaldo I. Peres.
Título: Brincando de Cartomante.
Publicação: 08/11/2005.
Categoria: Fantasia.
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Vencedor do Desafio de Março com o tema: Luar Violeta. Contribuição: Escritores da Fábrica de Sonhos.

Você pode copiar o material apenas para uso privado e de acordo com a lei de direitos autorais.

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FANTASIA      
Lendas de Yuracan – Brincando de Cartomante
Por: Aguinaldo I. Peres

Imagem da Internet

N.E. – O texto abaixo foi extraído de um
diário do séc. VII.

Adoro a cidade de Celdet aos pés da grande fortaleza, o vento frio que desce dos picos gelados da cordilheira mantêm longe da cidade o calor do verão que nesta época sufoca Temi, a grande capital do império.

Mas também existem suas desvantagens. O povo da Cordilheira de Oszitti é muito supersticioso, eles vêem bruxas e feiticeiros em cada esquina, em cada gesto ou atitude estranha, o que torna minha vida muito mais complicada.

No momento ouço o dono da estalagem em seu monólogo preferido, cheio de críticas ao custo de vida, às taxas de juros exorbitantes e à política tributária do império cada vez mais voraz.

- Mas tudo que eu preciso é... – tento interromper sem sucesso.

- Não, não, infelizmente é impossível. A senhora sabe que dentro de duas semanas, na próxima lua cheia, a grande caravana deve partir para a capital. Em poucos dias não será mais possível encontrar um único quarto vago em toda a cidade.

Era claro que eu sabia, eu mesma deveria partir junto com a caravana, mas até lá precisava de um lugar para dormir. Não havia alternativa, precisaria arrumar um emprego.

- Neste caso se o senhor puder esperar até amanhã, tenho certeza que conseguirei pagar pelo resto da estadia.

- Mas é claro. – Concordou alegremente o estalajadeiro – Odiaria ter que confiscar sua bagagem. Afinal a senhora é como se fosse da família.

Agradeço e saio para a rua movimentada, imaginando o que seria de mim se não fosse “da família”. Provavelmente dois capangas armados de porretes.

****

Odeio. Odeio. Odeio... Isso é tão degradante.

Aqui estou eu, vestida com esse horroroso hábito de cetim vermelho carmim com símbolos cabalísticos em negro, numa barraca de lona remendada e fedendo a incenso. O que é muito melhor que o cheiro original de mofo, cerveja e urina.

Havia poucos móveis, e nem caberiam mais devido ao espaço reduzido; uma mesa coberta por um pano vermelho, manchado e com vários sinais de remendos; dois compridos candelabros posicionados para deixar meu rosto nas sombras; uma poltrona de espaldar alto com varias almofadas presas em pontos estratégicos; e duas cadeiras simples e desconfortáveis. Tempo é dinheiro, queridos clientes.

Não seria um serviço tão ruim se não tivesse que mentir tanto. Mas às vezes não é necessário, como no caso das duas jovens que acabam de entrar. Por que será que elas sempre aparecem em duplas?

Elas parecem irmãs, a pele morena, os grandes olhos castanhos escuros, os longos cabelos negros presos por uma touca e o mesmo tipo de vestido de festa que as jovens solteiras usam em Celdet em tons coloridos e enfeitados com rendas.

E o ritual se repete. Uma olha contrariada para o chão, a outra me encara com curiosidade e divertimento.

- Minha amiga quer ler a sorte.

Estendo o baralho de Tarô para a jovem tímida, que olha com medo para minha mão de unhas pintadas de negro.

- Vamos! Pega logo, Sara! – incentiva a amiga enquanto a chuta levemente.

- Não tenha medo. – a jovem finalmente apanha o baralho - Agora embaralhe as cartas, e depois separe seis cartas e as coloque viradas ara baixo sobre a mesa formando duas fileiras.

A jovem manipula as cartas com todo o cuidado, como se elas fossem frágeis como cristal ou que pudessem fugir a qualquer momento. Hesitante, ela escolhe as seis cartas.

Agora ambas olham com atenção as cartas na mesa, coloco a mão sobre a primeira e deixo a expectativa crescer.

- A primeira carta representa o passado, o fato que gerou suas preocupações. – Viro a carta com um estalo e observo com prazer o sobressalto das meninas.

- A Morte! Alguém faleceu recentemente, alguém influente na sua vida. – Noto a tristeza nos olhos da jovem e viro lentamente a carta abaixo.

- O Rei de Copas! Amizade, gentileza e apoio. Foi seu irmão mais velho.

- Sim... – sussurra a jovem quase a chorar.

- Não é necessário responder, afinal não foi uma pergunta. – A jovem concorda com um aceno de cabeça, enquanto a acompanhante me encara deslumbrada.

Pouso a mão sobre a segunda carta.

- A segunda carta representa o presente, o fato que aflige seu coração. - Um novo estalo e outro susto. Felicito-me pelo excelente show.

- O Sete de Ouros! Uma decisão deverá ser tomada. – Encaro a donzela.

- Entendo. Com a morte do seu irmão todas as esperanças da família se voltaram para você. Agora seus pais negociam o casamento de sua única filha como quem negocia um garanhão ou uma porca fértil. – As palavras soam duras, mas era a mais pura das verdades e a jovens sabiam disso.

- E você está aqui para saber quem será o escolhido.

- Sim. – Respondem ao mesmo tempo.

- Não foi uma pergunta. – Pouso a mão sobre a terceira e última carta da fileira de cima.

- Esta carta representa o futuro, a resposta que veio buscar. – desta vez o estalo não as assustou.

- O Valete de Espadas! Inteligência, juventude e aventuras. – Sorrio para a jovem a minha frente.

- Você terá sorte, pelo menos ele não será um velho gordo e rico. – Noto a face rubra da cliente.

- Vamos ver se é alguém que já conhecemos. – Viro a carta abaixo.

- O Dois de Copas! Amizade, companheirismo, a união dos opostos. Então será um companheiro de infância, filho de um amigo de vosso pai.

A face da garota fica ainda mais afogueada, sem conseguir esconder a felicidade e abaixa o rosto e começa a procurar algo inexistente em sua pequena bolsa.

- É o Isaac! Só pode ser o Isaac, nós sempre brincávamos juntos na praça, e seus pais são amigos desde sempre. – A acompanhante abraça a amiga. – Isso é ótimo, não é?

- Sim. – A donzela concorda num tom alegre.

Recolho-me às sombras donde observo sorrindo a tagarelice das duas. Por fim a cliente retira da bolsa uma moeda de ouro e a deposita sobre a mesa.

Elas já estavam saindo da barraca quando as chamo.

- E você minha jovem, não gostaria da saber seu futuro?

- Não, obrigada. Quem sabe outro dia. – Responde a companheira com um grande sorriso.

- Entendo, está com medo de que sua sorte não seja tão boa quanto à de sua amiga. – Provoco a moça com a certeza do resultado.

A garota voltou-se com fúria no olhar, e retornou até sua cadeira arrastando a assustada amiga.

Raquel! Você não precisa...

- Já que estou aqui, por que não aproveitar? – pergunta a amiga gentilmente.

A nova cliente senta diante de mim, e pede autoritária.

- O baralho.

Debruço-me sobre a mesa, as chamas das velas dançam em meus olhos, ou seria outra coisa?

- Preciso explicar as regras novamente? – pergunto jocosamente.

Ela não responde, apenas retira as cartas de minha mão e começa a embaralhá-las com raiva, como se elas fossem a causa de todas suas frustrações. Sem desviar seus olhos dos meus, ela deposita as cartas sobre a mesa em duas fileiras perfeita. A única pessoa que olha para a mesa é a confusa Sara.

Desta vez não há jogos de cena, simplesmente viro a primeira carta.

-A Imperatriz! Poder e controle. Uma mulher controla a sua vida. Preciso dizer quem é?

Seus olhos se estreitam ainda mais, mas não há resposta. Viro a segunda carta.

- Os Amantes! Uma decisão do coração. Chegou o momento de escolher qual o caminho que irá seguir pelo resto da vida.

Arrasto as duas cartas da ponta para o centro da mesa.

- Uma decisão, dois futuros. – Desviro as duas cartas.

- O Idiota ou a Rainha de Ouros! Ou você segue o caminho dos corajosos tolos que abandonam tudo em busca de um novo destino, ou torne-se uma rainha, serena e próspera, aceitando o destino que lhe é imposto.

A tensão na fase da jovem desapareceu, ter todos os seus temores e anseios colocados em simples palavras tinha sido tão calmante quanto um banho quente.

- Então no final minha mãe estava certa? – perguntou num suspiro.

- Não é preciso magia para se ler o futuro, mas às vezes o orgulho nos impede de ver além da próxima esquina.

jovem se levanta apoiada pela amiga, mas quando nossos olhares outra vez se cruzam um pouco do antigo orgulho já está de volta.

Obrigada pelo show. – E joga uma moeda de ouro sobre a mesa.

****

Hoje foi um dia divertido, mas em verdade, tudo começou ontem.

Ontem larguei um pouco meu emprego como ‘leitora da fortuna’ e fui me juntar às moças casadoiras para observar os jovens cadetes da fortaleza, que vêem se exibir na praça central no seu dia de licença. É muito engraçado ver os jovens em grupo se pavoneando de um lado para o outro fingindo não notar as alegres observadoras.

E eis que hoje, dois pavões adentram minha tenda, vestindo uniforme completo e com o peito estufado. Por que será que eles também sempre andam aos pares?

Um dos rapazes senta a minha frente enquanto o outro permanece mais atrás em pé.

Estendo-lhe o baralho mais ele recusa.

- Prefiro que leia a minha mão. – E a estendeu em minha direção.

Esse tipo de pedido era incomum, mas não estranho. Portanto fiquei surpresa quando o jovem puxou minha mão para si e a beijou.

Por favor, seja a minha mulher.

momento não sabia se me sentia ofendida ou lisonjeada. Mas devo declarar em defesa do jovem arrojado que ele tinha bons motivos, pois apesar de meus quarenta e poucos anos, me mantinha em boa forma, apenas 65 quilos bem distribuídos em 1,80m, meus longos cabelos negros drapejados de prata emolduram um rosto oval e pouco marcado por rugas. Sei que sou apreciada por homens, mas ser por um jovem era uma deliciosa novidade.

- Tens certeza do que me pedes? – Decidi brincar.

- Sim! Lhe daria tudo que tenho, mesmo minha vida. – Respondeu empolgado o jovem.

Com certeza o caso era sério, portanto as medidas precisariam ser definitivas.

- Uma mulher, na minha idade, possui certos segredos para manter sua beleza, certas necessidades. – Digo numa voz melodiosa, deixando o jovem mergulhar nas profundezas de meus olhos cinza-prateados e então...

rápida torção do pulso, me livro e ao mesmo tempo agarro o pulso do jovem, trazendo sua mão para mim. Como num passe de mágica, ou seria de magia, surge uma adaga de ponta aguçada que encosto sobre a palma cativa.

Tudo que lhe peço é um pouco de vosso sangue.

os músculos do braço se retesando para poder se livrar, ao mesmo tempo em que seu semblante muda do fascínio para o espanto. Seu perplexo companheiro faz um gesto em direção à espada, mas, indeciso, não o conclui.

de suor se formam na sua testa, seria por causa do esforço para soltar o pulso ou seria de medo. Afasto a adaga e afrouxo o aperto. Num pulo o rapaz se ergue, derrubando a cadeira, ele se afasta da mesa até encostar-se ao amigo.

Também me levanto, braços estendidos em sinal de suplica, em cada mão, uma adaga.

- Por favor, eu vos peço, apenas um pouco de vosso sangue. Ou quem sabe de vosso amigo.

Os rapazes desaparecem como se levados pelo vento.

Permaneço alguns instantes congelada naquela posição e então desabo sobre a mesa, e rio até as lágrimas.

****

Era inevitável que esse dia chegasse, é impossível ocultar para sempre um diamante em meio a cacos de vidro.

Ela entrou sozinha na tenda, enquanto os guardas da fortaleza ocupando toda a praça. Apesar da idade, ela avançava com passos firmes, o cajado de carvalho que trazia, polido por gerações de uso, era apenas um símbolo.

Tentei enganar o destino e bancando a inocente lhe estendo o baralho de Tarô, que ela recusa com um gesto desdenhoso da mão.

- Não vim aqui atrás de jogos de salão. Só irei embora quando ouvir a resposta que vim buscar.

Suspiro resignada, e afundo na poltrona.

- E o que a anciã do Conselho dos Clãs deseja de nós? – pergunto sem entonação.

Os lábios da velha se contorceram num sorriso de triunfo.

- Há 600 anos a deusa nos prometeu a vitória, ela nos disse que um corvo nasceria no ninho do condor e que ele levaria os clãs de volta à planície.

- O que é uma eternidade para os humanos não passa de um instante para os deuses. – Uma frase totalmente inútil escapa de meus lábios.

- Não é dos deuses que quero saber, é dele! – A anciã estica o braço magro em direção da praça.

Meus olhos fitam a lona que fecha a tenda e mais além. Lá está ele, um jovem alto, pele bronzeada, cabelos loiros queimados pelo sol e olhos azuis brilhantes. Poderia ser apenas mais um órfão de guerra trazido para as montanhas para se tornar outro guerreiro mercenário de Oszitte, mas havia algo de diferente, era como o nascimento de um furacão no fluxo suave da história, porém não era ele o causador.

- Desejas tanto assim o poder? – Pergunto com desprezo.

- Para um corvo se tornar o líder dos condores e necessário que ele se torne mais forte e mais cruel que os condores. É o que tu desejas para aquele jovem? Queres transformá-lo num monstro?

- Se está é à vontade da deusa... – é a resposta hesitante que recebo.

Ergo-me furiosa.

- Não culpe os deuses por seus atos. Não foi a deusa quem sussurrou no ouvido das mulheres do conselho que a lenda está para se realizar. Nem é a deusa quem está espalhando o nome do jovem protegido do Senhor da Guerra pelas trilhas da montanha.

A líder do conselho se encolheu na cadeira, já fazia décadas que alguém ousará contraria-la ou lhe erguerá a voz.

- Mas lhe darei sua resposta, ouça bem, pois não irei repetir. Só ao corvo cabe decidir sobre seu destino.

A anciã também se ergue, retira das dobras do vestido negro uma pequena bolsa e a colocou sobre a mesa.

Antes que ela deixasse a tenda, lancei-lhe um último aviso.

- Nunca mais me procure, se ousar fazê-lo lhe arrancarei a alma como quem arranca uma erva daninha, e não serão esses poucos soldados que me impediram.

A velha parte me deixando sozinha com um gosto de fel na boca, calculo o peso da bolsa e decido largar o emprego.

****

O dia da partida havia chegado, felizmente sem outros incidentes.

O Sol ainda não havia despontado na curva do horizonte, mas o céu já estava claro. O vento frio que vem dos picos era sinal do começo do outono.

A caravana estava preparando-se para partir e a movimentação em torno era intensa. Familiares se despedindo, ambulantes vendendo suas últimas mercadorias, amigos comemorando, carregadores guardando nas carroças os derradeiros fardos.

Converso com o chefe da caravana que me indica a carroça que me levaria, caminho entre os vendedores pechinchando, compro algumas maças, aprecio o burburinho do povo.

Uma pequena agitação quando os cavaleiros da escolta se aproximam, por uma brecha na multidão, vejo alguém deslizar para dentro da minha carroça, sorriu e compro mais algumas maças.

Finalmente a luz do sol atinge o alto da muralha, a trombeta ressoa chamando os retardatários, as carroças começam a se mover lentamente. O condutor me ajudar a subir e sussurra no meu ouvido que haveria outro passageiro.

Ela estava sentada encolhida no fundo da carroça, o vestido de tecido grosseiro e desbotado era do tipo que as mulheres usavam na lavoura, mas as mãos finas e delicadas não eram de uma camponesa.

- Então decidiu seguir o caminho d'O Idiota.

Ela virou seu lindo e assustado rosto para mim, ao qual respondi com um sorriso.

- Neste caso seremos companheiras de viagem, Raquel. Pode me chamar de Anita.

****

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