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No séc. IV a principal rota comercial entre a capital nirana do Reino de Temi e as fortalezas dos ittacianos na Cordilheira de Oszitte, margeava o grande Deserto Vermelho – situado à sudoeste da Península de Yuracan - até a cidade de Kalgor. Somente então as caravanas ousavam penetrar do deserto, para atravessar seu ponto mais estreito. No meio dessa trilha existia um grande rochedo que se sobressaia no deserto e aos pés dele um caravançarai tão antigo quanto o próprio rochedo. O caravançarai era uma única e grande construção dividida em três partes: a morada do administrador, o albergue para os viajantes e o enorme estábulo capaz de abrigar até cem animais.
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A tempestade de areia cobria o céu, de horizonte a horizonte. Eram apenas dez horas daquela manhã sem sol. Com todas as janelas fechadas, a área reservada aos viajantes estava iluminada apenas pelas lamparinas. Quatro mercadores, com suas túnicas brancas e mantos riscados em branco e azul, conversam em torno de um prato de frutas secas sentados em almofadas colocadas sobre um grosso tapete.
- Maldita tempestade! Já viram uma tempestade assim?
- Nunca! Parece até que o Sol e o Céu não existem mais.
- Já estávamos dois dias atrasados, e agora essa tempestade...
- Acalme-se, chegaremos a Temi a tempo para as festas.
Um servo entrou no salão segurando um lampião, sendo seguido por um novo hospede – um peregrino loiro com uma vasta barba e vestindo um manto negro sobre a túnica branca. O servo guiou o homem até uma mesa aonde encheu uma bacia com água limpa para que o viajante lavasse as mãos e o rosto. Só após se purificar foi que o homem se dirigiu e cumprimentou os mercadores, o mais jovem cedeu seu lugar ao recém-chegado.
- O que o traz a este local de repouso? – perguntou o mais velho dos mercadores, um senhor de barbas brancas.
- Estou indo para o sagrado Monastério de Temi em peregrinação.
- Nesse caso estava fugindo da tempestade.
- Pode-se dizer que sim.
- Em Kalgor, eles costumam dizer que as tempestades são provocadas pelos demônios que correm furiosos pelo deserto – comentou um dos mercadores.
O servo retornou ao salão trazendo uma chaleira com água quente que foi entregue para o peregrino. Ele então derramou a água num recipiente cheio com uma mistura de ervas, ajeitou uma piteira de prata e a ofereceu à pessoa a sua direita. Os mercadores experimentaram a infusão e elogiaram o gosto suave e o delicado perfume das ervas até o recipiente retornar ao seu dono.
- Pois os monges negros contam outra estória...
E o peregrino narrou a seguinte lenda:
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Há muitos anos atrás, antes mesmo que os primeiros niranos chegassem à Península de Yuracan, a jovem Ariella – que viria a se tornar uma das mais ferozes sacerdotisas da deusa Guerra – deixou seu lar nas montanhas Ittaci e partiu sozinha para o Deserto Vermelho à espera de um sinal da deusa.
Assim que a jovem deixou a segurança das montanhas a adentrou no deserto, ela foi notada por Seret, o Inimigo, que odiava todos os humanos e em especial aqueles que eram benquistos pelos deuses de Yuracan.
- Lezzet! Venha até mim Lezzet. – gritou Seret, o Maligno.
A criatura invisível se aproximou de seu senhor.
- O que posso fazer por vossa senhoria? – murmurou o demônio.
- Veja Lezzet, aquela patética criatura ousa pisar nas areias vermelhas, nas minhas areias vermelhas! – bradou Seret, o Furioso – Vá e perturbe a mente daquela humana, faça com que ela se perca e vague pelo deserto até morrer de fome e sede. E deixarei que você se alimente de toda a dor e sofrimento.
Lezzet, o Mentiroso, partiu com o vento e em instantes caminhava ao lado da jovem ittaciana sem ser notado. E ele sussurrou palavras falsas e verdadeiras, de coragem e vergonha, de solidão e amor, de prazer e dor, de vida e morte. Mas a jovem nada ouvia, pois uma grande paz inundava seu coração. Então o vento veio e carregou consigo as mentiras e o demônio.
- Lezzet, seu inútil! – maldisse Seret, o Arrogante – Se palavras não a atingem, então que o próprio deserto a destrua.
E das chamas eternas que são a essência do senhor dos demônios, um braço de couro vermelho surgiu e da mão em forma de garra de águia escorreu um punhado de areia vermelha.
- Veetrnyy, erga-se das areias escaldantes e arranque a carne dos meus inimigos até sobrar apenas ossos.
E das profundezas do deserto, Veetrnyy, o Turbilhão, surgiu para atender o chamado de seu mestre. O demônio criou um redemoinho de vento que levantou a areia do deserto, transformando-as numa chuva de pequenas agulhas capazes de lixar até o grosso couro de um camelo. Os fortes ventos atingiram a jovem Ariella fazendo-a cambalear, impossibilitada de andar, a guerreira agachou-se sobre a areia e cobriu sua delicada pele negra com o manto. E o poder de sua vontade foi tão forte que o vento e a areia não foram capazes de atingi-la. Mesmo o poder dos demônios nunca foi infinito, e com o tempo a tempestade findou.
O frio olhar de Seret, o Tirano, passou sobre seus filhos demoníacos que se encolheram de medo, não encontrando nada que lhe agrada-se, ele olhou para fora de seus domínios até que encontrou uma criatura maligna o suficiente para seus propósitos. E sua vontade levou-o até os confins do pântano salobro de Ziilrite ao sul do Deserto Vermelho.
- Acorde Kruttas, Senhor do Pântano.
Mergulhado no lodo, a gigantesca serpente de duas cabeças abriu os olhos.
- O que o Senhor do Mundo deseja do Senhor do Pântano? – sibilou o monstro.
- Façamos um pacto, eu lhe darei o dom de andar entre os humanos e em troca você destruirá todos aqueles que ousarem atravessar meu deserto.
A serpente aceitou o acordo e em instantes estava percorrendo o deserto com a pele de um humano. E foi uma questão de tempo para Kruttas encontrar sua presa, aproveitando-se de sua forma humana, a serpente se aproximou de Ariella e então para a surpresa da jovem ele retornou à sua verdadeira forma. Suas línguas bipartidas saborearam o acre cheiro de suor e medo. Apesar da jovem guerreira enfrentar corajosamente o monstro de espada em punho, o destino dela estava selado.
Porém a deusa Guerra nunca abandonou aqueles que lhe serviam com coragem. Ela apontou sua lança para um de seus leais generais.
- Vá e elimine da face da terra essa criatura maldita.
E Nottavon, o Terrível, caiu como um raio entre o monstro e a donzela, o gigante de bronze bradou seus quatro braços. Diante daquele ser poderoso, Kruttas acovardou-se e fugiu sendo então perseguido pelo gigante.
Seret, o Traiçoeiro, ao ver seu aliado em perigo, lançou sobre o deserto uma forte tempestade de areia, permitindo que a grande serpente fugisse para o pântano. Mas as ordens da deusa são absolutas, e o gigante permaneceu no Deserto Vermelho sob a forma de um enorme rochedo, aguardando que Kruttas ousasse abandonar seu esconderijo nos pântanos de Ziilrite.
Ariella orou e ofereceu seu sangue para a deusa, cumprida sua provação ela retornou as montanhas Ittaci para tornar-se a sacerdotisa da deusa Guerra.
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- ...e é por isso que os monges negros dizem que as tempestades de areia são enviadas por Seret, o Senhor do Mundo, para ocultar Kruttas, o Senhor do Pântano, dos olhos do gigante de bronze.
O peregrino dá uma última tragada na infusão. Saciado, ele aprecia o silêncio após o fim de sua estória. Percebendo que a fúria da tempestade estava diminuindo, ele se despediu.
- É hora de partir. Obrigado pela atenção e pela refeição.
Então ele deslizou seu enorme corpo serpentino deixando para trás um salão vazio.
Fim |