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Não sabia o nome da mãe sequer o do pai. Sabia, apenas, que a velha senhora havia lhe encontrado numa noite escura, chuvosa, esquecida embaixo de uma árvore, coberta pelo sangue do parto, tremendo sem emitir um único som. Contavam-lhe que a velha senhora havia tropeçado em seu pequeno cadáver úmido e, assustada, pegou-a no colo, ergueu-a para a luz da lua iluminar seu rosto e, chorando, pediu clemência aos deuses por aqueles que a haviam abandonado, assim tão indefesa, no meio da floresta de Lion.
Cresceu entre pássaros, macieiras, lebres e galinhas que a velha senhora criava. Nunca chamou um ser vivo de pai ou mãe, desde cedo lhe foi ensinado que não habia isso em seu destino. Aprendeu a nadar, correr, colher, cantar e ouvir os barulhos da vida que a cercava. Não aprendeu a ler nem escrever, pois a senhora não sabia nem achava esse conhecimento de alguma valia.
Vestia roupa de lua, andava livre pelos caminhos, escapando dos olhares curiosos, brincando com o vento que lhe acariciava os cabelos e desafiando o sol a lhe revelar por inteira. Não acreditava em nada que não visse: a realidade era uma ilha natural que a tornava cruel e pura, como toda mulher.
Foi feliz até a manhã do solstício. Caminhava pela mata e encontrou um estranho que, vestido de uma forma nunca vista, descobriu-a entre os arbustos ímpares e minúsculos que mal tapavam seu rosto. Ele se aproximou e ela recuou. Aproximou-se mais e mais ela recuou. Até que uma árvore trancou seu caminho e ela teve que ceder ao intruso.
Depois disso, refugiou-se na casa.
A velha senhora chorou e rogou praga ao desconhecido.
Ela nunca mais quis sentir o vento nos cabelos.
Após nove meses pariu uma menina escura como a noite, cujos olhos pareciam feitos de sementes de algodão. Criou-a com medo, ensinando-a a cobrir seu corpo e a evitar os homens. A velha senhora ensinou à criança o manuseio das facas e pediu-lhe que nunca saísse desarmada.
Em dez anos, a menina caçou sete invasores. E elas os devoraram com repulsa e nojo. Mas não condenaram a matança. Um dia, a menina não retornou. E a mãe, desesperada, foi em busca dela pelo mundo.
Encontrou-a morta na beira de um carvalho.
Chorou lágrimas de estrelas e enfeitou seus cabelos com flores arrancadas.
Sangrou o próprio peito com o punhal e partiu, usando as roupas da filha e carregando consigo o instrumento de matar.
Por longos anos rodou o mundo em busca de vítimas. Tantos fez que perdeu-se a conta. Até encontrar o pai da menina que, leviano, passeava na cidade com a esposa e duas crianças suas.
Sobrevoou a família em busca de alimento. Emitiu um guincho quando alcançou a primeira criança. Levou-a para o ninho. Retornou e buscou a segunda. O casal tentou impedir, mas ela cravou a faca no coração do homem e arrancou os olhos da mulher com as garras afiadas.
As crianças choravam, assustadas, abraçadas. Ela que pensava mata-las, penalizou-se e levou-as para a floresta. Ao chegar em casa, descobriu a velha senhora morta sobre a cama e enterrou-a no fundo do mais fundo poço que jamais abriu. Jogou flores sobre a terra cansada e despiu as meninas resgatadas.
Com o tempo, as pequenas esqueceram o passado. E começaram a acreditar, piamente, nas histórias que ela contava. De como as havia encontrado com o sangue do parto cobrindo seus corpos, embaixo de um gigantesco carvalho. As meninas arregalavam os olhos, assustadas e depois se derretiam em sorrisos agradecidos. Juntas, elas dançavam com a cabeça resvalando nas nuvens, o vento tocando seus cabelos e a poeira mágica no transe da meia-noite lhes soprava que o amor é a única lei que há.
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