Parte I
PRELÚDIO DA ETERNIDADE.
Terminei de ditar meu relatório para o computador de bordo, utilizei-me do terminal de meu aposento. Parei em minha mesa, pensando seriamente nas decisões que havia tomado. A bordo da GALÍPOLI, um clima tenso permanecia. Nos corredores os tripulantes passavam de relance me enviando olhares de desaprovação. Eu havia negado a todos, inclusive a mim mesmo, uma dádiva muito procurada pelos seres humanos ao longo dos milênios de história das mais diversas e variadas raças e povos.
Lembrei-me dos gregos e suas lendas maravilhosas A Ambrosia, o manjar dos deuses negado aos humanos. Lembrei-me dos obscuros alquimistas, a viver décadas trancados em seus laboratórios tentando alcançar aquilo que estivera em nossas mãos.
Também me lembrei dos antigos cientistas dos séculos XIX até o XXI procurando em vão pela molécula de DNA que poderia brindar nossa espécie com aquele tão decantado segredo.
Lembrei-me de nossa partida, há 10 anos atrás. Nossa missão era explorar o cosmos. Com uma tripulação composta por 600 pessoas, homens e mulheres, iniciamos uma missão cuja duração seria de 100 anos. A intenção era que nossos filhos ou netos terminassem a missão retornado á nossa velha e querida Terra.
Todos sabiam que nunca voltariam a ver nosso planeta natal. Mesmo assim houve dificuldades para se formar a tripulação desta nave. A quantidade de inscritos atrasou o lançamento da nave o em 01 ano. Todos os inscritos foram analisados e testados, apenas os melhores foram os escolhidos. No período que antecedeu a partida centenas de testes foram realizados. O novo conceito de deslocamento hexadimensional nos permitia acelerar infinitamente. A velocidade final era desconhecida. Somente ousamos acelerar até 34.560 vezes a velocidade luz.
A pesquisa em nosso sistema solar não faria parte de nossa missão. Outras naves estavam programadas para isso. Iiniciamos em Alfa Centauri, aonde descobrimos, para nosso espanto, uma infinidade de planetas habitados. Os contatos foram amistosos. Os povos que descobrimos, na grande maioria, ou estavam em estágios muito atrasados no seu desenvolvimento, nos confundindo com deuses e outras entidades. Ou estavam muito acima, apresentando uma cultura muito mais antiga que a nossa, alcançando um ponto em que a necessidade do corpo físico se faz desnecessária. Utilizando apenas as fontes mentais e espirituais de existência.
O primeiro ser humano gerado fora de nosso sistema solar nasceu quando nossa viagem completou 02 anos. A felicidade foi completa, o jovem casal que gerara aquela linda menina estava entusiasmado e mostrava com orgulho a rebenta fruto de seu amor.
Nossa odisséia em Alfa Centauri demorou exatos 05 anos Fizemos diversos catálogos. Estes seriam objeto de interesse e estudo aprofundado por parte de nossos cientistas. Estavam programadas mais vôos além do nosso. Mas a única nave cuja viagem seria tão longa era a nossa. Além disso as informações que gravamos nos registros dos computadores sobre os povos desta região dariam material para estudos demorados e reveladores.
A próxima região visitada era o que chamamos sistema estelar Vega. Também encontramos alguns planetas habitados e uma infinidade desabitados nos quais havia matéria prima em abundância. Um futuro e promissor campo para a exploração espacial. Os planos da futura colonização espacial daquele setor seriam traçados tão logo nossa nave voltasse para a Terra Uma coisa nos chamou a atenção. Descobrimos um sistema planetário cujos nativos se autodenominam Tetras Os Tetras eram um povo gentil, cordial e para nossa surpresa muito velho Percebemos que não havia crianças entre os tetras. Pelos padrões humanos acreditamos ser essa uma raça que estaria condenada á extinção. Nosso tradutores, em pouco tempo, conseguiram traduzir o seu idioma , descobrimos que os tetras não tinham mais crianças por vontade própria.
Perguntados sobre o futuro de sua raça, visto que não havia renovação, estes nos disseram que os antigos deuses haviam oferecido condições para essa perpetuação concedendo aos tetras a benesse da vida eterna.
Aquilo nos chamou a atenção, vida eterna? Mas como isso? Mas o segredo nunca poderia ser divulgado pelos tetras A única indicação que nos deram é que a resposta estaria no sistema estelar tríplice dos deuses antigos. Lá, segundo se dizia, nossas perguntas seriam respondidas pelos próprios deuses.
Bem, anotamos isso como curiosidade em nossos registros e fomos em frente. Demoramos demais naquele planeta. A cordialidade daquele povo fora surpreendente. Quando partimos sentimos uma certa amargura, pois provavelmente a grande maioria de nós não poderíamos ver novamente aquele povo tão gentil. Ou todos ou a maior parte de nós estaria morta. Na volta seriam nossos filhos e netos que passariam por ali. Anotamos para a geração futura que em caso de necessidade encontrariam entre os tetras um povo amigo e cooperativo.
A continuação de nossa viagem nos levou a um planeta paradisíaco, com condições de suportar a vida humana e totalmente desabitado. Somente descobrimos vida animal e vegetal, nenhum resquício de vida inteligente A beleza do lugar, ao qual demos o nome de PARAÍSO, era tanta que não tive dúvidas em aceitar o pedido da tripulação e pousar a nave naquele idílico paraíso perdido Pousamos perto de um lago excepcionalmente belo e piscoso. Os deuses do Universo estavam muito bem humorados quando construíram aquele mundo A vegetação apresentava um colorido tão espetacular, que não nos demos conta, de imediato, do perigo que havia ali.
O plano era para ficarmos apenas 02 dias ali Acabamos ficando 02 semanas. Se não desse ordens enérgicas acredito que lá estaríamos até agora.
No prosseguimento de nosso vôo iniciaram-se os problemas. Uma estranha epidemia foi aos poucos tomando conta de nossa nave. Os primeiros afetados foram exatamente aqueles tripulantes que mais se aprofundaram nos ermos de PARAÍSO Nossa equipe médica estava as voltas com um mistério. Os sintomas iniciavam-se com uma aceleração acentuada do batimento cardíaco, seguido de espasmos fortes e vômitos de um líquido negro. A partir do vômito negro os infectados entravam em um estado catatônico que durava até 04 semanas. Definhavam aos poucos, perdendo líquidos e peso. Até morrerem em um estado deplorável sem que nenhum dos conhecimentos de nossa medicina conseguisse debelar a doença.
Longe de nosso planeta natal, nos defrontando com uma doença que aos poucos acabava com os nossos, minha equipe sugeriu a volta ao planeta dos Tetras. A esperança era que os Tetras tivessem algum conhecimento sobre a doença misteriosa ao qual demos o nome de mal de PARAÍSO. A viagem não iria demorar mais do que 15 dias acabei concordando.
Voltamos ao planeta e fomos conversar com os líderes locais. A essa altura já estávamos com 160 tripulantes infectados. E com 15 funerais efetuados.
Novamente fomos bem tratados pelos líderes locais. Mas a informação que nos deram minou nossas esperanças. Somente junto aos deuses antigos encontraríamos a cura daquele mal No mundo dos deuses estaria a cura para a praga que ameaçava a vida da tripulação da Galípoli. Mas os Tetras se mostravam relutantes em nos fornecer as coordenadas cósmicas daquele planeta de deuses. Foi com muito sacrifício que convencemos seus líderes a nos fornecerem essas coordenadas. Enquanto as negociações se arrastavam mais quatro tripulantes faleceram. Colocados frente a frente com a realidade de seres mortais. Colocados de frente com a morte, que há tempos imemoriais não fazia parte do cotidiano de sua raça. Os líderes Tetras se comoveram. A confrontação com a mortalidade de nossa tripulação, em contraste com a imortalidade de que sua raça gozava decidiu. Os Tetras finalmente cederam as coordenadas cósmicas do planeta de seus deuses antigos. Lá, segundo diziam, se encontrava a cura do mal de Paraíso.
Era a nossa única e desesperada esperança Seguimos para as coordenadas indicadas. O que encontramos foi uma gigantesca formação de poeira espacial Decerto o planeta dos deuses tetras havia sido destruído por algum cataclismo Mas para nossa surpresa, nossos sensores teimavam em indicar a existência de uma massa de terra no meio daquela confusão de poeira e partículas Ficamos alguns tempo apenas nas imediações daquela nuvem, sem nos aventurarmos a entrar. O avanço da doença que vitimou mais 05 tripulantes e a contaminação de mais 20 pessoas me fez tomar a atitude mais desesperada de minha carreira. Dei ordens para irmos em frente, e guiados apenas pelos sensores fomos entrando naquele turbilhão de poeira que se descortinava ante nossos olhos.
Nossos sensores ainda indicavam massa compatível com um planeta á frente Por dias vagamos naquele lugar Estava para desistir e mandar ordens para retornar. Mas o milagre aconteceu. Entramos em uma área limpa de poeira e para nossa surpresa um planeta se destacava nessa área. Não possuía nenhuma estrela que o suprisse de calor, mas nossos instrumentos indicavam temperatura média de 27 graus Também foi confirmada a presença de água, oxigênio, vida selvagem e uma gigantesca cidade que provava definitivamente que alguma raça inteligente havia se desenvolvido neste planeta. Demos ao mesmo o nome de ESPERANÇA.
Bem, os tetras não nos enganaram. O planeta existe, e se lá não fosse encontrada a cura do mal de PARAÍSO que ceifava minha tripulação não haveria sobreviventes dentre os nossos.
Enviei uma equipe de reconhecimento. Eles pousaram nas proximidades da cidade e seguiram o resto do percurso a pé. O relatório que nos enviavam deixava a todos maravilhados. ali embaixo, confirmando os registros dos sensores, era ainda mais belo do que as paisagens encontradas em PARAÍSO.
Meus homens foram recebidos por uma comissão dos habitantes daquela cidade. Seu aspecto físico era humanóide, duas pernas, dois braços, cabeça com olhos, ouvidos, nariz, boca, apenas algumas diferenças eram notadas nas mãos e braços, todos terminavam em quatro dedos ao invés dos cinco de nossa raça. Eram gentis, mas o contato era difícil, Aqueles seres não se comunicavam conosco.
Acabei descendo para junto dos nossos que lá estavam, precisava encontrar algum meio de fazer com que nossos anfitriões emitissem algum tipo de som para que os tradutores tentassem fazer a tradução da língua daqueles seres. Nem sabíamos se estávamos no planeta certo.
Desci em um pequeno jato e me juntei á minha equipe que se encontrava na superfície de ESPERANÇA Tentei por todos os meios falar com aqueles seres. Eles nos olhavam com compaixão e benevolência, mas era claro, pelo menos para nós, que não nos entendiam, ou se entendiam não possuíam vontade de se comunicar verbalmente com os nossos.
Foi quando um de meus oficiais caiu ao chão, vitimado por uma forte e constante dor de cabeça. Os nossos médicos agiram rápido e iniciaram o tratamento de meu oficial ali mesmo na superfície do planeta. Outros tripulantes também deram mostras de sofrer deste mal. Inclusive eu. Para nossa surpresa a dor de cabeça na realidade era a maneira encontrada pelos esperantinos, como os chamamos, para iniciar uma comunicação com os nossos. Na verdade estávamos recebendo emanações telepáticas daqueles seres. O cérebro humano tinha certa dificuldade em reconhecer esse tipo de comunicação. Mas os esperantinos foram cuidadosos Aos poucos foram como que ensinando nossas mentes a se adaptarem àquela forma de comunicação.
O processo de nosso aprendizado acabou demorando 02 dias. Neste meio tempo tivemos mais 05 mortes. Mais da metade de minha tripulação apresentava sinais do mal de PARAÍSO.
Finalmente os esperantinos se deram por satisfeitos com o nosso aprendizado. Os contatos se iniciaram. Nossa mente conseguia captar os pensamentos daqueles seres. Uma perfeita telepatia. Fomos levados para dentro da cidade Seríamos apresentados formalmente aos líderes daquele povo.
A sede de governo daquele povo ficava na praça central daquela bela cidade. A arquitetura dos esperantinos era magnífica. Mas não havia como aprofundar o estudo da arquitetura daquele povo. Minha intenção era salvar minha tripulação.
Os esperantinos eram um povo jovem, todos pareciam estar na faixa de 20 a 30 anos, encontravam-se poucas crianças neste povo. Mas ao nos comunicarmos telepaticamente com qualquer um deles percebia-se um saber e experiência que destoava muito com a suposta faixa etária dos mesmos.
Os líderes esperantinos nos receberam muito bem, e nos contaram sua história. ESPERANÇA, na realidade era chamado pelos seus habitantes de TRAJOL Em sua língua natal significava PAZ. Nem sempre se localizara naquela nuvem de poeira cósmica.
Há muito tempo atrás, os ascendentes deste povo eram uma raça bélica e conquistadora. Sua ciência e tecnologia não encontrava igual na galáxia de 1.600.000 ( hum milhão e seiscentos mil ) anos atrás. Os esperantinos foram então conquistando e pilhando todos os planetas habitados que encontravam pelo seu caminhos de morte e destruição.
A história dos esperantinos era fantástica. Por milhares de anos conquistaram e escravizaram uma infinidade de povos. Seus feitos militares eram impressionantes. A tecnologia e ciência superior dava-lhes grande vantagem no constantes confrontos, isso perdurou até cerca de 600.000 anos atrás. Foi quando os esperantinos se encontraram pela primeira vez com os ORBONS. Uma raça de respiradores de metano e amônia. Era a primeira vez que um povo com essas características era encontrada. Os primeiros contatos não foram nada amistosos, mas neste momento as beligerâncias dos dois povos ainda não chegou a desencadear uma guerra.
Alguns séculos depois dos primeiros confrontos um ataque dos esperantinos contra um mundo colonizado pelos orbons desencadeou o confronto. A guerra foi declarada, e durante milênios as duas raças se confrontaram pelas imensidões da galáxia Bilhões de vidas foram perdidas, tanto pelo lado dos esperantinos como pelo lado dos orbons. Nunca um confronto daquelas dimensões sacudiu o espaço, se do lado dos esperantinos havia uma tecnologia melhor, do lado dos orbons as incríveis quantidades de naves e material bélico de que este povo dispunha prolongou a guerra por milênios sem fim Até que finalmente a técnica superou a quantidade. A vitória dos esperantinos foi total. Nem uma só colônia orbon foi poupada, esse povo desapareceu da galáxia. Lutaram até o último dos seus , sem medo, esse povo não conhecia o conceito da palavra rendição. A extinção da espécie Orbon foi o prêmio pela sua inacreditável combatividade.
Finda a guerra, algo mudou na sociedade esperantina. A vitória custara bilhões de vidas. Por toda parte destruição, morte, medo, nunca o Universo sofrera tão séria destruição. Algo mudou.
Nos planetas dos esperantinos uma corrente filosófica que prezava a vida, a harmonia, o espírito floresceu. Por toda parte o instinto belicoso foi sendo sutilmente substituído pelos preceitos da nova corrente filosófica Nem todos concordaram com isso. Uma parte da antiga aristocracia e da classe guerreira insurgiu-se contra o novo rumo que a civilização estava tomando. Em poucas décadas o confronto foi inevitável. Uma violenta guerra civil varreu os fragmentos do império que ainda não se recuperara da guerra contra os orbons. Divididos e enfraquecidos os esperantinos ainda sofreram o golpe de misericórdia. Uma gigantesca coalizão de povos outrora subjugados insurgiu-se contra o domínio militar.
A civilização esperantina desmoronou. Na guerra civil a vitória foi da corrente filosófica. Mas os vitoriosos não levaram seu prêmio. Nas grandes batalhas que sacudiam o império os povos antes subjugados quebravam os grilhões dos outrora invencíveis conquistadores. Do antigo império que chegara a ocupar mais de 40.000 anos luz acabou sobrando apenas o planeta principal, mesmo este ainda era ameaçado pelos antigos povos subjugados.
Aproveitando-se de sua tecnologia e ciência superior os esperantinos procuraram um novo lugar para viver. Encontraram aquela nuvem de poeira e fragmentos cósmicos, um excelente refúgio, quem iria procurar um planeta, uma civilização, naquele caos? Com o seu refúgio encontrado o próximo passo foi deslocar o planeta de seu eixo e utilizar o mesmo como uma espaçonave. Tecnologia para isso havia. Muitos milênios depois o planeta finalmente alcançou sua nova órbita, a falta de uma estrela natural que aquecesse seu mundo foi facilmente resolvida com a construção de três centenas de pequenos sóis artificiais que circulavam á volta do planeta. Estes faziam a temperatura do planeta permanecer em constantes 27 graus Celsius.
Então aconteceu. Sem a constante preocupação militar. Com seu povo preocupado apenas com a paz e o espírito a ciência dos esperantinos deu sua melhor contribuição para esse povo. Eles descobriram o segredo da regeneração e conservação celular, ou seja, um esperantino somente poderia morrer através de morte violenta ou acidental. A regeneração constante de suas células garantia aos mesmos a vida eterna, Livre de todos os problemas decorrentes do envelhecimento, a descoberta trouxe como outra contribuição o fim das doenças, pois o processo de conservação celular dava aos esperantinos imunidade contra qualquer tipo de doença conhecida ou que viesse a ser conhecida no futuro.
As informações chocaram a mim e a meus tripulantes. Atrás da cura de uma doença que ceifava a vida de minha tripulação, havíamos descoberto o que sem dúvida era o maior segredo do Universo. Uma raça que enganava a morte. Descobríramos a VIDA ETERNA, muitos da raça humana haviam dedicado sua vida na tentativa infrutífera de descobrir esse segredo. Bilhões de seres humanos dariam a própria alma para estar de posse deste segredo. E lá estávamos, sendo muito bem recebidos pelos autores dessa proeza sem igual no Universo. Nossas pesquisas de exploração nos revelara que muitas das raças que habitavam o cosmos podiam viver muito mais que a nossa. Mas a morte biológica era inevitável para todos.
Ao final da exposição fiquei perplexo, sem reação, o maior do cosmos. A existência da VIDA ETERNA nos fora revelado ali, naquele local. Na posse de um povo pacífico e filosófico, estava ao alcance de nossas mãos. A imortalidade.
Então foi nossa vez de contar a eles a nossa história. Contamos nosso desenvolvimento, nossa tecnologia, nossos sonhos e desejos.Citamos nossos períodos negros, citamos nossas infindáveis guerras do passado, citamos o início da conquista do espaço. Falamos de nossos famílias, nossos amigos, dos cientistas que ficaram na Terra e da missão que nos lançara tão longe de nosso planeta.
A tudo os esperantinos escutaram calados e atentos, e ao término da exposição falamos do mal do PARAÍSO, e do povo dos Tetras que nos revelara a posição cósmica de ESPERANÇA.
Terminada nossa explanação, um curioso silêncio imperou por alguns momentos. Um dos líderes esperantinos se levantou e gentilmente solicitou que todos os doentes fossem desembarcados. Com certeza a ciência deles poderia debelar o mal que assolava nossa tripulação. Mandei pousar a nave. A esta altura mais da metade da nossa tripulação estava com sintomas da doença. Os que estavam em situação mais delicada foram transportados em macas antigravitacionais, todos foram bem recebidos pelos nossos anfitriões, todos foram alvos de cuidados especiais.
Tal qual acontecera no planeta dos Tetras, os esperantinos se demonstraram chocados com a morte. Há mais de 30.000 dos nossos anos que nenhuma morte ocorria naquele mundo. Solicitaram que os nossos mortos lhes fossem mostrados. Resolvemos conceder aos seus pedidos. Levamos os líderes para as sala criogênicas onde estavam os últimos 20 tripulantes mortos. Os restantes foram lançados ao espaço. Tal qual os antigos marinheiros mortos eram lançados ao mar. Nosso cemitério somente possuía capacidade para 20 pessoas. A visão da morte abalou seriamente aquele povo. Sua imortalidade, seu isolamento, sua nova filosofia de vida que renegara o passado de guerras e destruição não encontrava meios de assimilar isso.
Por um mês ficamos naquele planeta. Finalmente os últimos dos nossos estavam fortes e sadios, os esperantinos trataram a todos. Não houve um só óbito, mesmo naqueles que apresentavam-se em estado terminal.
Agradecidos, preparamos nossa nave para a partida, mas era inevitável que antes disso fosse colocada a pergunta crucial, qual era o segredo da conservação celular? Esse era o pensamento de todos na tripulação, fomos tão bem recebidos e tratados por aquele povo que duvidada que nos negassem essa dádiva. Ainda mais depois do forte efeito psicológico que a raça sofrera. Os esperantinos precisavam apenas que lhes fosse solicitado o segredo. Não nos negariam isso. A decisão, como capitão era minha.
Verifiquei nos rostos dos tripulantes uma prece muda. Mães e pais me olhavam como que suplicando que eu solicitasse aquele segredo.
Na maternidade da nave o choro dos bebês se fazia mais infernal do que nunca.
Deuses, o que poderia fazer nessa situação. Pedir a imortalidade, esquecer a morte, não mais perder entes queridos. A pressão era imensa.
Resolvi marcar uma reunião com a tripulação. Não me sentia forte o suficiente para aquela decisão.
O clima da reunião foi angustioso. Alguns insistiam no pedido. Outros mais ponderados nos lembravam os séculos e décadas anteriores de nossa existência. Das destruições e mortes que nossa raça já fora capaz. De um lado me lembravam da vida de poetas, músicos, da arte de escultores e artistas de diversas áreas que diginificaram a raça humana.
Outros nos lembravam as atrocidades dos séculos passados. Átila, Gengis Khan, Hitler, do maquiavélico Benur, líder muçulmano da Federação islâmica do século XXI que promovera uma Jihad contra o mundo não islâmico. Milhões de pessoas morreram nessa loucura.
Ao lembrar de Benur um calafrio me percorreu. Benur instigara o mundo árabe contra os ditos infiéis apregoando que os mortos nesta guerra seriam anjos do profeta. Imaginei um líder carismático de posse do conhecimento da verdadeira vida eterna. Seus discípulos lutariam com muito mais ímpeto e furor e não havia como prever o resultado disso tudo.
Mães e pais em desespero chegaram a propor que sua vida fosse tirada, desde que a imortalidade fosse concedida a seus rebentos. Alguns mais histéricos ameaçaram uma revolução dentro da nave.
Alguém propôs que uma votação fosse realizada. A sugestão foi aceita.
Os esperantinos assistiam àquela exposição de nossas dúvidas e angústias não entendendo bem o que se passava. Eles já haviam dividido seu segredo com os Tetras. Seria natural dividirem também com a nossa raça.
A votação foi realizada.
O resultado daquela votação foi um incrível empate. Coube a minha pessoa dar o voto de Minerva. Minhas prerrogativa de capitão me garantia isso. Todos concordaram. Votei no NÃO.
Diário de Bordo
Dentro da Galípoli temos uma nova sistemática de marcar o tempo. Marcamos o tempo tendo como base a data de lançamento da nave. Portanto hoje é o terceiro dia, do segundo mês do décimo aniversário de lançamento da Galípoli. Continuamos em frente em nossa missão de 100 anos. Há ainda 90 anos pelas frente. Um período bem longo. Estou gravando após uma interrupção em nossos registros de 89 dias. Neste período ficamos com uma grave anomalia em nossos sistemas de gravação. Faço o relatório condensado dos acontecimentos verificados neste período......
Diário particular do Capitão.
Os acontecimentos em ESPERANÇA, TETRA E PARAÍSO foram apagados do computador central. Meu status de capitão me confere essa prerrogativa. Para a posteridade esse período constará como se a nave estivesse com algum problema nos computadores. Pode ser que alguém não creia nisso e resolva investigar. Mas não vai encontrar nada. Guardo apenas esse registro particular que destruirei quando estiver no limiar da morte. Não, minha decisão foi dura, foi cruel. Talvez tenha sido até injusta para com aqueles homens e mulheres que me acompanham nesta odisséia. Mas o receio de tornar os seres humanos uma raça que possa reviver as crueldades e os horrores do antigos esperantinos me levou a isso.
Ponderei muito sobre os prós e contras. Me lembrei de todos os seres humanos que tanto fizeram em prol da nossa espécie. Mas somente há quarenta anos o ser humano conseguiu se livrar dos seculares conflitos. Não, a minha opinião é que a espécie humana somente estaria preparada para a imortalidade daqui a alguns milênios.
Muitos tripulantes ainda me olham com rancor. Em alguns se verifica ódio. Graças aos deuses não houve nenhuma rebelião a bordo.
Temos 90 anos pela frente.
Parte II
PONTO DE VISTA.
- Diário de Bordo do primeiro Oficial. Hoje comemora-se o vigésimo aniversário do lançamento da Galípoli. A situação permanece a mesma, nosso capitão ainda está hospitalizado e os médicos dão como pouco provável que o mesmo sobreviva. A situação a bordo é delicada. Todas as facções se encontram exaltadas e apesar de esforços solitários de alguns líderes não se consegue entrar em acordo para encerrar as divergências. Incrível, quando do lançamento desta nave os cientistas nos garantiram que todas as probabilidades que se poderia encontrar em uma viagem de 100 anos haviam sido antecipadas, estudadas e solucionadas. Brilhantes cérebros humanos e os mais sofisticados computadores foram usados em cálculos intrincados. Mas essa situação não fora prevista. O pobre capitão tentou equacionar e resolver os problemas. Mas somente o que conseguira foi um disparo de laser à queima roupa. Os médicos já o desenganaram. Todo conhecimento médico atual ainda não é suficiente para salvar a vida deste homem. Quando acontecer o inevitável serei automaticamente alçado à condição de capitão desta nave. Espero que esteja à altura desse cargo. Desligo.
O primeiro oficial Alecsander Houston levantou-se de seu console. Por alguns momentos ficou ali, em pé, olhando para o painel de comunicação de seu quarto que insistia em piscar, indicando uma ligação. Alecsander não estava com vontade de atender. Mas era seu dever. Com um peso no coração apertou o botão que liberava a transmissão, pondo-se na escuta.
- Capitão, nossos sensores nos indicam a existência de um planeta classe humana neste setor do espaço. As sondas já foram enviadas e estão fazendo a checagem. Sua presença é solicitada na ponte de comando.
- Ok Breno, estou indo.
A locomoção de Alecsander de seu aposento até a ponte se transformara em um martírio. O primeiro oficial não conseguia andar três passos sem ser parado por um membro da tripulação que gostava de esclarecer sua posição particular em relação aos últimos conflitos. O oficial escutava pacientemente o reclamante esclarecendo que o assunto ainda não fora devidamente estudado e que quando os oficiais e médicos da nave tivessem alguma resposta aquele tripulante seria o primeiro a saber. Na ponte de comando havia um alerta. Se Alecsander não conseguisse se apresentar à ponte em 15 minutos os oficiais que se encontrassem de plantão poderiam pressionar a tecla de alarme amarelo. Isso facilitava as coisas para Alecsander se desvencilhar do tripulante que porventura o estivesse retendo.
Os 15 minutos se esgotaram, como o primeiro oficial não conseguiu chegar até a ponte o alarme amarelo foi acionado. Alecsander deu graças ao ver o tripulante que lhe tomava o tempo se despedir apressadamente, liberando o oficial para que este conseguisse cumprir suas atribuições que não eram poucas.
Com o rosto cansado e a fisionomia claramente demonstrando as poucas horas de sono dos últimos dias, finalmente Alecsander chega à ponte. Suas preocupações aumentaram ainda mais quando o oficial de plantão grita a plenos pulmões.
- Capitão na ponte.
Apesar de não ser oficialmente o capitão Alecsander já começava a se acostumar com esse título.
- Muito bem. O que está acontecendo. O planeta é classe humana mesmo?
Sem desviar os olhos de seus equipamentos Breno, que acumulava no momento as funções de segundo oficial e exogeógrafo responde de forma clara e sem apresentar nenhuma dúvida.
- Sim capitão. O planeta é classe humana mesmo. Tamanho aproximado ao planeta Mercúrio senhor. Rica flora e fauna, sem resquícios de vida inteligente. Há água em abundância. O lugar ideal para recarregar os nossos reservatórios de água.
Água, a nave encontrava-se com a água racionada desde que os últimos confrontos armados entre aquelas facções beligerantes acabara danificando o aparelho de reciclagem de água. A equipe de manutenção estava quase concluindo os reparos necessários, mas água pura sempre era bem vinda.
- Muito bem senhor Breno. Rume a Galípoli para lá. Alguém já deu um nome para o planeta.
- Senhor, tomei a liberdade de batizá-lo como Delta Nilo.
- Delta Nilo, nome estranho para um planeta.
- É em virtude da escassez de água senhor. Na Terra o delta do rio Nilo é uma região fértil, servida pelo maior rio do mundo.
- Estou a par da Geografia de nosso planeta mãe oficial Breno. Não precisa me relembrar.
Estava claro que Alecsander se encontrava no limite de um esgotamento físico e psíquico. As palavras anteriores foram proferidos em um tom duro e com muita aspereza.
Sentado na cadeira de capitão Alecsander solicitou a Breno mais alguns dados das sondas enviadas para Delta Nilo. Neste momento a luz que indicava que alguém da nave estava em um holorádio tentando entrar em contato com o capitão piscou insistentemente. Com um misto de cansaço com desânimo Alecsander aciona seu holorádio.
A figura que se forma à sua frente é do reverendo Muller, um dos líderes da facção luterana.
- Capitão, gostaria de poder lhe falar, tão logo tenha tempo.
- Olhe reverendo, sei que precisamos conversar, mas agora é impossível. Descobrimos um planeta classe humana e vamos entrar em órbita do mesmo. Como sabe desde que seus homens fizeram aquela tola demonstração de força nosso reciclador de água está sem funcionar. Vamos tentar conseguir água neste planeta.
- Olhe capitão, não precisa ficar me lembrando daquele lamentável incidente. O que tenho a relatar é que os ditos cristãos de Roma cadastraram mais uma operação de aborto. Esse comportamento agressivo para com a vida precisa acabar capitão. Nós não toleraremos mais assassinatos nesta nave. Até agora consegui controlar meus homens, mas não posso ser responsável se algum grupo mais radical agir por conta própria.
Dito isso o reverendo desliga o holorádio, sem ao menos se despedir de Alecsander.
Bem, esse assunto teria de esperar mais um pouco. O objetivo de Alecsander agora era Delta Nilo. Mesmo que a manutenção conseguisse consertar a contendo o reciclador de água os estoques necessitavam, e com urgência serem recompostos. De que adiantava um reciclador se não houvesse o que reciclar?
- Capitão
- Sim Oficial de Segurança Marcellus.
- Enviei uma patrulha para a frente das dependências médicas senhor. Um grupo de muçulmanos xiitas está protestando contra o grupo de cristãos de Roma.
- Ok Marcellus, cuide disto para nós está bem.
A Galípoli se aproximava cautelosamente de Delta Nilo. Todos os sensores e sistemas de localização da nave estavam ligados em sua capacidade máxima. Até agora todos os alienígenas descobertos nessa viagem exploratória eram seres gentis e pacíficos que receberam muito bem os terranos, mas nunca se podia negligenciar na vigilância.
A nave chegou até a órbita estabelecida sem problemas. Delta Nilo se prenunciava como sendo um planeta belíssimo.
Até ali, naquela órbita alta se podia ver com nitidez os três continentes, e os pólos. Afora os continentes uma grande quantidade de ilhas de bom tamanho podiam ser vistas.
- Breno, prepare uma equipe, vamos enviar algumas pessoas pousar neste planeta. Não se esqueça de enviar o instrumental necessário para analisar a composição da água deste mundo.
- Sim senhor, tomei a liberdade de já preparar a equipe quando da confirmação das sondas senhor. A equipe já se encontra a bordo da nave auxiliar somente me aguardando.
Alecsander soltou um sorriso cansado. Olhou o segundo oficial com um misto de admiração e respeito. As vezes Alecsander se julgava no posto errado, estava claro que Breno se sairia um capitão melhor do que ele jamais poderia ser.
- Autorização concedida Sr. Breno. Vá lá e veja se nossa procura por água teve um fim, ou se devemos voltar á procura.
No exato momento que Breno desaparecia pelo elevador pneumático de encontro à nave auxiliar o alarme vermelho interno tocou estridentemente pela ponte de comando. O holorádio piscava ininterruptamente indicando haver pelo menos três ou quatro ligações para o capitão. Bem, Alecsander era um só, atenderia os chamados na seqüência de chamado.
- Alecsander. O que diabos está acontecendo?
A figura robusta de Marcellus se forma na frente do capitão. Percebia-se nitidamente que o mesmo fora ferido muito levemente por um laser.
- Capitão, confronto nas dependências médicas. Eu e meus homens estamos tentando colocar ordem neste caos mas os ânimos estão muito exaltados senhor.
- Droga, já vou para aí. Capitão para todos da segurança, se dirijam o mais rápido possível para as dependências médicas. Autorizado uso de lasers para tonteio.
Desligando a primeira chamada Alecsander imaginou que as outras três que se encontravam em sua lista tinham relações com os acontecimentos verificados nas dependências médicas.
- Alecsander falando.
Do outro lado a figura inconfundível de Murresh Abdan, líder espiritual dos muçulmanos islâmicos da nave, se apresentou com seus olhos negros e profundos.
- Capitão. Os cristãos de Roma estão nos desafiando abertamente. Não estou mais conseguindo controlar o ímpeto dos filhos do profeta. Um grupo de membros mais exaltados está atacando as dependências médicas, não posso ser responsabilizado pelos acontecimentos.
- Sr. Murresh, veja o que consegue fazer, daqui a pouco estarei nas dependências médicas.
Ao desligar o chamado de Murresh, de maneira autônoma e imediata entrou a terceira das ligações para Alecsander. Padre Dave estava ali naquela projeção holográfica olhando de maneira assustada e confusa para seu interlocutor.
- Capitão, por favor venha logo, estamos em uma situação de alto risco aqui nas dependências médicas. Não há mais como protelar a resolução desta situação.
- Ok Padre Dave, tenho mais uma ligação, no mínimo é o reverendo.
Alecsander tinha razão. A sóbria figura do reverendo Muller novamente se materializava pelo holorádio.
- Capitão, foi avisado do que poderia acontecer. A resolução dessa situação não pode mais ser postergada.
- Sim Reverendo, sei disso. Estou me dirigindo para as dependências médicas. Vamos resolver isso de uma vez por todas.
A vontade do primeiro oficial que já há dez dias desempenhava as funções de capitão era deixar para trás seus problemas atuais e se dirigir para o belo Delta Nilo refugiando-se neste bucólico paraíso.
No entanto as responsabilidades falavam mais alto do que a vontade de Alecsander. Havia ali naquela nave 1.000 seres humanos que de uma forma ou de outra dependiam das decisões do capitão para poderem sobreviver. Havia ainda o restante da missão, seriam mais 80 anos de exploração até que os descendentes daqueles homens e mulheres de agora conseguissem voltar ao planeta Terra. O planeta mãe. A situação estava insuportável, das decisões que fossem tomadas agora dependia o futuro não só dos atuais homens e mulheres da nave, como também de seus filhos e netos.
No entanto tudo parecia conspirar contra Alecsander, da superfície de Delta Nilo vinha mais uma ligação para o capitão.
Ao ser completada a mesma a imponente figura de Breno vai se materializando no holorádio.
- Breno para Galípoli. Capitão temos boas novas.
- Continue senhor Breno.
- Senhor, a água do planeta é limpa e cristalina. As análises espectrais indicam composição na base de duas partículas e meia de hidrogênio para cada partícula de oxigênio. O grau de pureza da água é de 99,99%. Não foram encontrados nenhum tipo de bactéria, vírus ou micróbios que possam colocar em risco a vida dos tripulantes senhor. Sugiro que a nave desça diretamente no lago em que estamos. Esse lago é grande e podemos carregar os reservatórios diretamente no lago, sem necessidade de passar pelos purificadores.
- Ótimo Oficial Breno. Aguarde minhas ordens. Estamos com sérios problemas a bordo da Galípoli. Há uma confusão dos infernos perto na frente das dependências médicas, parece que o nosso mundo vai ruir. Aguarde novas ordens. E Breno, bom serviço.
- Obrigado capitão.
Dito isso Alecsander desliga o holorádio e se dirige com toda pressa possível em direção às dependências médicas da nave. O fato de em Delta Nilo haver grandes reservas de água potável lhe deu uma idéia, mas outros fatos necessitavam ser levados em consideração. Enquanto se locomovia pelos corredores da nave Alecsander se dirige para uma cabine fechada de holorádio, informa ao computador de bordo que a conversa é prioridade Gama, ou seja não deve ser gravada, somente o capitão da nave e seu interlocutor poderiam estar a par do assunto tratado. Após a confirmação por parte do computador Alecsander novamente entra em contato com Breno na superfície de Delta Nilo solicitando mais algumas informações.
A ligação foi efetuada e por vinte minutos Alecsander conversou com seu segundo oficial. Finalmente deu-se por satisfeito e continuou na direção das dependências médicas.
Ao chegar nas dependência médicas Alecsander encontrou a situação parcialmente serenada. Marcellus e um forte contingente da segurança haviam conseguido dominar a situação. O problema é que dirigentes e representantes de diversos credos religiosos aguardavam o capitão para expor e esclarecer suas opiniões sobre os últimos incidentes.
Visivelmente esgotado Alecsander conversa com os diversos líderes religiosos ali presentes e marca uma reunião com todos para dali a duas horas. Afirmava o capitão que neste meio tempo teria pelo menos uma sugestão para tentar resolver os conflitos religiosos que abalavam a Galípoli.
Com relutância os líderes ali presentes acabaram por concordar com a solicitação do capitão. Afinal os conflitos iniciaram-se há dois anos, de forma tênue e somente nos últimos dois meses é que adquiriram esse caráter litigioso e de confrontação que existia. Duas horas não iriam fazer diferença.
Contente com a concordância à sua solicitação Alecsander entra em um cabine de holorádio e solicita que a segunda nave auxiliar seja preparada para ir até Delta Nilo.
A nave é preparada rapidamente e Alecsander pessoalmente resolve pilotá-la dispensando qualquer acompanhamento. O pouso foi efetuado na mesma região em que Breno se encontrava. Ao desembarcar Alecsander se surpreende com a bela visão que o planeta proporciona. O lago perto do qual se encontrava é belo, águas límpidas e bem piscoso. Ao fundo daquela região vislumbrava-se uma cadeia de montanhas totalmente tomadas por espessa floresta. Na direção contrária das montanhas se destacava uma ravina enorme e verde.
Breno recebe o capitão com alegria. Alecsander resolve não estragar a alegria de seu segundo oficial com os problemas encontrados a bordo da Galípoli. A conversa entre os dois gira em torno do planeta, da composição atmosférica, da água, da flora e fauna. Breno até se assusta com a torrente de perguntas do capitão. Todas girando em torno do planeta.
Faltando somente 20 minutos para findar o prazo que solicitara aos líderes religiosos da Galípoli, Alecsander finalmente se mostra satisfeito com as respostas e parte novamente em direção à nave.
Ao adentrar-se à sala de reuniões Alecsander já se encontrava pelo menos com 10 minutos de atraso.
A reunião é longa e tensa. Cada um dos líderes religiosos expõe sua versão dos últimos acontecimentos e expõe a maneira como acha que deve ser solucionado o problema. As divergências de opinião entre os diversos participantes daquela reunião logo se fazem presentes. Alecsander a tudo escuta pacientemente. As vezes solicita ao computador de bordo que analise esta ou aquela colocação de alguma das pessoas ali presentes.
Por longas seis horas a reunião se arrasta, e novamente, como de outras vezes não se consegue chegar a um verdadeiro acordo entre os participantes. Alecsander então resolve tentar sua última cartada.
Por mais uma hora expõe seu plano aos seus ouvintes. Pondera sobre essa ou aquela colocação anterior e ao final da sua exposição vislumbra nos rostos dos homens e mulheres ali presentes uma fisionomia nova. Pela primeira vez em dois anos uma tênue esperança surge como que por encanto.
Alecsander solicita aos seus interlocutores que analisem com carinho sua colocação e lhes dá o prazo de 24 horas para pensar e dar sua resposta.
Finda a reunião Alecander se dirige para seus aposentos, e pela primeira vez em mais de 12 dias consegue dormir profundamente sem ter seu sono interrompido por qualquer conflito interno.
O dia seguinte começou com tremenda agitação dentro da nave. Os corredores se encontravam totalmente tomados por homens e mulheres que corriam de um lado para outro se preparando para cumprir mais um estafante dia de serviço. Mas havia uma novidade no ar. Sentia-se que o clima de animosidade reinante há dois anos amainara.
Os presságios eram confortadores. Alecsander autoriza o pouso da Galípoli em Delta Nilo. Se utilizando dos recursos de bordo os tanques de água da nave seriam abastecidos com a preciosa água descoberta naquele planeta.
O pouso ocorreu sem problemas. O carregamento da água duraria em torno de cinco horas, durante esse período Alecsander autorizou aos tripulantes que descessem no planeta. Após o longo período em que permaneceram no espaço, sem pousar em nenhum planeta, a tripulação recebeu com muita festa aquela licença inesperada.
Alecsander, no entanto, ainda tinha sérios problemas para resolver. A reunião com os líderes religiosos estava marcada para dali a duas horas.
Na hora de reunião, apesar do clima de animosidade entre os participantes ter sofrido uma alteração, para melhor ainda havia riscos de confrontação.
Alecsander pacientemente aguardou as últimas exposições dos diversos representantes religiosos da tripulação e esperou a resposta para a sugestão que fizera no dia anterior.
- Diário de bordo, hoje é o terceiro dia do quarto mês do vigésimo aniversário de lançamento da Galípoli. Hoje faço o registro como capitão da Galípoli. Nosso capitão anterior faleceu há dois dias. A nossa tripulação encontra-se recomposta pelos dias de descanso em Delta Nilo. O que pensávamos ser apenas uma operação de carregamento de água se transformou em uma permanência de cinco dias naquele idílico planeta. Registro neste diário um alerta aos viajantes futuros. Nossos cientistas nos informaram quando do lançamento desta nave que todas as hipóteses de ocorrências que de alguma maneira poderiam prejudicar o relacionamento dos homens e mulheres da tripulação foram pensados, analisados, e revisados pelas melhores equipes de psicólogos da Terra. O planejamento antecipado, as simulações feitas por computadores de última geração garantiam que qualquer problema de relacionamento humano poderia ser devidamente equalizado. Ledo engano. A Galípoli foi lançada para uma missão de exploração de longa duração, 100 anos. É lógico que a tripulação original poderia não estar viva para completar tão longo tempo de vôo. Portanto nossa nave foi tripulada por homens e mulheres com idades entre os 25 e 45 anos. Os filhos gerados pelos tripulantes logicamente seriam inseridos no contexto da nossa viagem e obrigatoriamente fariam parte da tripulação. Pelos cálculos dos cientistas os netos da tripulação original é que encerrariam a nossa viagem. Retornando enfim ao planeta mãe. Nossa parte foi realizada. Uma vistosa e saudável geração de adolescentes se espalha por todos os recantos da nave, confirmando as previsões de nossos cientistas. Mas uma variável do comportamento humano não fora devidamente pesquisada. Quando juntamos em um espaço confinado jovens com faixa etária entre 15 e 16 anos despertamos nestes o instinto humano do sexo. Este se faz presente e fala alto. E mesmo com a existência de um sem número de métodos anticonceptivos o instinto humano muitas vezes relega para segundo plano esses pequenos detalhes. Resultado há dois anos tivemos um número até exagerado de jovens grávidas em nossa nave. Por motivos diversos algumas das futuras mamães resolveram que não queriam o filho gerado. Inúmeras operações de aborto foram marcadas nas dependências médicas da nave. A Constituição de nosso planeta mãe, a Terra, autorizava esse direito a qualquer mulher. Mas entrou em ação a segunda variante não programada por nossos cientistas. A tripulação original foi formada por homens e mulheres de diversas raças, e principalmente, diversos credos religiosos. Alguns destes não permitem a prática do aborto. Os primeiros confrontos entre as facções religiosas foram apenas no nível de idéias, mas em todas as épocas sempre existiram os fanáticos religiosos. Os confrontos iniciais que se faziam a nível de discussões sobre os ensinamentos desta ou daquela religião degenerou em uma série de conflitos entre os mais fanáticos. Já haviam se registrado muitos feridos e o nosso capitão acabou sendo a primeira pessoa morta. Algo precisava se feito antes que esse fanatismo acabasse levando à destruição de nossa nave. Após muito ponderar, cheguei à conclusão de que Delta Nilo seria um mundo ideal para uma colônia humana. Ao expor essa idéia na penúltima reunião com os líderes religiosos algumas facções se demonstraram interessadas.
O resultado é que a primeira colônia terrana fora de nosso sistema solar original foi fundada em Delta Nilo com representantes dos luteranos e islâmicos de nossa nave. Em nenhum momento a missão de nossa tripulação foi instalar algum tipo de colônia. Mas a necessidade de cumprir a missão, aliadas às intolerâncias religiosas, morais e éticas nos levaram a fugir da programação original. Os islâmicos e luteranos aceitaram de bom grado a idéia de se estabelecer no planeta e se prontificaram a fundar uma colônia. Espero que não haja problemas futuros entre essas duas facções pois daqui para a frente estarão por sua própria conta e risco. Ao todo 300 pessoas ficaram no planeta.
Este é o alerta que faço às futuras naves exploradoras. Antes de enviarem novas expedições tentem contornar essas variáveis de liberdade sexual e fanatismo religioso. Nós conseguimos uma solução, talvez paliativa para o fato, mas graças ao todo poderoso, nós conseguimos. Pode ser que outras naves não consigam.
Me despeço aqui, deixando para todos a análise se nossa decisão foi certa ou errada. Convém lembrar que as facções que permaneceram em Delta Nilo assim o fizeram de livre e espontânea vontade. Tal desprendimento dessas facções nos permite continuar em nossa missão.
***
Nota do Autor - Esse conto é um alerta que tento fazer para o futuro. A idéia de um vôo tripulado de longa duração pode ser viável em um futuro não muito distante. Uma nave que saia de nosso planeta para uma viagem de 100 anos pode muito bem ser possível daqui a algumas décadas. Uma viagem dessas obrigatoriamente seria terminada por filhos ou netos da tripulação original. Os riscos de uma expedição deste porte sofrer algum tipo de problema motivado por comportamentos exagerados de adolescentes e fanatismo religioso é real. Aos que lerem este esclareço ser uma pessoa que segue a religião Católica Apostólica Romana, sem ser no entanto fanático ou mesmo um grande praticante da religião que abracei. Em hipótese alguma quero me indispor com islâmicos, luteranos, judeus ou seguidores de qualquer religião, seja ela qual for. Também esclareço ser contra o aborto. Mas respeito a opinião das pessoas que apoiam essa prática. Apenas não me encontro entre elas. Não quero aqui passar a idéia de ser o dono da verdade. Fiz apenas um conto de ficção científica entrando talvez em uma área pouco explorada até então. Não sei se consegui fazer uma boa história. Era essa minha intenção. O fato de usar dois assuntos considerados tabus pela cultura ocidental (aborto e religião ) foi motivado apenas pela necessidade que senti de usar temas polêmicos na composição desta pequena e insignificante obra de minha autoria.
Novamente peço desculpas se não consegui tratar temas tão polêmicos com o tato necessário de modo a não me indispor com ninguém. Tenham certeza que a intenção não foi essa.
Parte III
AS AMAZONAS.
A bela jovem contorcia-se, totalmente entregue e lânguida. Sob seu corpo o amante lhe proporcionava o melhor sexo oral que já experimentara em sua vida.
O êxtase se aproximava. Os sussurros dos amantes não eram ouvidos no corredor, o material isolante com que era construído os aposentos não deixavam passar qualquer som.
Os gemidos aumentam, conforme o ritmo dos amantes fica mais frenético. O orgasmo é inevitável.
Neste momento o computador de bordo, em sua voz inflexível, automatizada e totalmente impessoal, emite o sinal de alerta vermelho findando o programa do amante virtual.
Uma enfurecida capitã, se recompõe como pôde, se dirigindo para a frente do intercomunicador.
- Jennie, o que está acontecendo?
- Capitã, nossos sensores captaram a presença de uma nave desconhecida nas coordenadas 4-4-Beta-Gama-5. Distância 4 anos luz, velocidade no momento 3/4 da velocidade luz. Estão se dirigindo para o sistema 045.
- O.k. Jennie, estou indo para a sala de comando. A sacerdotisa já foi chamada?
- Sim capitã a sacerdotisa já está aqui na sala de comando.
- O.k., Marceille desligando.
A Galípoli se aproximava cautelosamente daquele estranho sistema planetário. Alecsander dera ao sistema o nome de Amazhing. Era formado por um sistema duplo de sóis, um sol verde e outro azul. Fato estranho, pois normalmente a classe das estrelas de um sistema planetário apresentavam semelhanças entre si. O sistema Amazhing passava a idéia de que uma das estrelas se formara muito depois da outra. Orbitando aquelas estrelas tão díspares um total de 04 planetas. Os dois primeiros com temperatura média de 600° C, devido sua proximidade dos sóis. O terceiro era um mundo de amônia, totalmente inviável para manutenção de vida nos moldes humanos. Mas o quarto planeta apresentava-se como um autêntico planeta classe H ( classe humana ). Sem dúvida um bom local para estudos.
- Capitão.
- Sim Willi
Willi fora promovida a oficial de rastreamento há pouco tempo, seu antecessor morrera em uma missão.
- Senhor, os sensores estão captando uma nave desconhecida nas coordenas 3-3-2-Alfa-Bravo. Distância da nave 3,8 anos luz. Se dirigem para o sistema Amazhing.
- O que me diz Marcellus?
O forte oficial de segurança da Galípoli sempre se mostrava arredio.
- Bem senhor, sou de opinião que devemos enviar alguma sonda para pesquisar essa nave alienígena. Devemos ter muito cuidado. A segurança da nave em primeiro lugar, afinal somos 1.500 seres humanos a bordo e o bem estar...
- Sempre desconfiado Marcellus. É isso que lhe faz de você um excelente oficial de segurança. O bem estar da nave em primeiro lugar. Essa frase é famosa.
- Breno, acompanhe a rota da nave alienígena, e faça-nos entrar na órbita do quarto planeta. As sonda enviadas para o sistema já enviaram alguma coisa?
- Sim senhor, o quarto planeta é classe H, gravidade 1,089 G, rotação de 28 horas, 32 minutos e 14 segundos, temperatura média 45° C, um pouco quente para nossos padrões, mas os climatizadores dos trajes espaciais dão conta do recado. Fauna e flora com poucos espécimes senhor. No hemisfério norte do planeta, dois graus ao acima da linha imaginária do Equador se localizam ruínas que indicam que este mundo já foi habitado. Não há nenhuma indicação de que atualmente o planeta tenha alguma forma de vida inteligente.
- Breno, prepare uma equipe para descer neste mundo. Vamos chamá-lo Amazhing IV. Marcellus instrua a 3ª esquadrilha de caças para ficarem de sobreaviso, para o caso de nossos amigos desconhecidos terem alguma má intenção para com nossa nave. Alerta amarelo em toda nave.
- Jennie, as sondas já enviaram algum dado sobre a nave dos desconhecidos.
- Sim capitã, pelos dados enviados a nave desconhecida é tripulada, nossos sensores registraram 1558 seres a bordo. Sistema de propulsão e formato da nave desconhecidos. Eles respiram uma mistura de gases nas quais se destaca o geiser ( oxigênio ). Estão em órbita no quarto planeta do sistema, e enviaram duas sondas para analisar nossa nave.
- Sacerdotisa, o que a filha de Ghaia sugere?
- Entrem em contato, talvez os estranhos não sejam agressivos.
- Judith, tente entrar em contato com os estranhos. Ligue os tradutores, vamos ver se é possível manter contato com esses seres.
- Capitão.
- Sim Willi.
- A nave estranha está tentando contato.
- Ligue os tradutores, ponha o sinal na tela holográfica.
A figura de uma bela mulher se forma na tela holográfica, provocando um ligeiro frenesi nos tripulantes que se encontram na ponte de comando.
- Willi e os tradutores?
- Estão trabalhando no máximo senhor.
- Bem, vamos saudar essa jovem.
- Aqui nave exploratória Galípoli, planeta Terra, sou o capitão Alecsander, nossa missão é explorar a galáxia de maneira pacífica. Com quem falamos?
A mulher começou a responder à saudação, os tradutores levaram alguns minutos em seu trabalho, e finalmente.
- Sou a centuriã Marceille do sistema Trindade, minha nave é a Ceres, vocês violaram espaço sob nossa jurisdição, ordenamos que se retirem imediatamente sob pena de ataque.
- Centuriã, somos uma nave exploratória, não sabíamos que este sistema era sua jurisdição, solicitamos permissão para estudar o quarto planeta deste sistema.
- Capitão Alecsander, uma permissão para estudos só pode ser dada pela sacerdotisa de Ghaia.
- Bem e onde está essa sacerdotisa?
- Capitão, a sacerdotisa de Ghaia somente fala com mulheres, aonde se encontra a sua dona?
- Dona? Não temos dona, não pertencemos a ninguém.
- O quê? Homens que dirigem a si mesmos? Sem seguir as ordens das mulheres? Que heresia é essa?
- Centuriã, em nossa sociedade homens e mulheres são iguais, aliás todos são iguais.
- Um momento capitão, vou consultar a sacerdotisa, suas palavras soam estranhas. Aguarde que faremos novo contato. Enquanto isso não enviem ninguém para o planeta que estão orbitando, qualquer movimento neste sentido será interpretado como um ato de guerra. Lhe garanto capitão que não vai querer provar do poder de fogo de nossa nave. Desligo.
- Sacerdotisa, como isso é possível? Homens no comando.
- Oráculos muito antigos nos lembram de uma época em que homens e mulheres eram iguais, mas as deusas nos provaram que isso era impossível de continuar.
- Pela grande Ghaia . Será que esses seres são os reprodutores que os oráculos falam.
- E surgirá o dia em que os reprodutores se apresentarão e um novo sistema de vida prosperará em Clatom. O oráculo assim diz.
- O que a sacerdotisa de Ghaia nos sugere. Devo mandar destruir os estranhos?
- Não centuriã, o oráculo pode estar certo, vamos investigar esse estranhos, preparem a nave de transporte, vamos nos encontrar com eles.
- A grande Ghaia falou por sua boca sacerdotisa, assim será. Façam contato com a nave dos estranhos.
- Capitão.
- Sim Willi
- Novo contato da nave alien. Passando para tela holográfica.
- Capitão, estamos enviando uma comitiva para tratarmos do assunto com vocês.
- Nos sentiremos honrados com a visita Centuriã Marceille.
- A sacerdotisa de Ghaia me acompanhará, uma coisa que devem saber capitão, nunca um macho deve dirigir a palavra para a sacerdotisa, nem servi-la de algum modo, nossa sociedade somente admite que a sacerdotisa tenha contato com mulheres. Espero que consigam entender essa peculiaridade de nosso povo.
- Assim será feito centuriã, garanto que à bordo da Galípoli a sua sacerdotisa será bem recebida e atendida por nossas mulheres. Desligo.
- Breno, Marcellus, me acompanhem, Willi, como mulher mais graduada é bom que venha também, afinal a sacerdotisa somente se relaciona com mulheres. Todos em trajes de gala sim. Afinal estamos recepcionando uma pessoa que em seu mundo possuí alta patente, vamos demonstrar a elas que os humanos sabem receber.
- Senhor, nave de transporte alienígena solicitando permissão para pouso.
- Conceda permissão, doca 23. Senhores, senhora.
Na doca 23 a nave de transporte do povo de Clatom pousa suavemente. Lentamente a comporta se abre, a equipe de recepção da Galípoli já devidamente postada aguarda aquele primeiro contato. Os oficiais, em seus trajes de gala, esperam pacientemente.
Finalmente a comporta da nave se abre totalmente saindo de seu interior quatro mulheres loiras que se postam em fila dupla, erguendo objetos estranhos ao ar. Após a saída das loiras duas mulheres totalmente diferentes entre si surgem pela abertura. Uma altiva morena, com cerca de 1,82 M de altura, uma mulher de beleza arrebatadora, ao lado dela uma figura menor e ligeiramente encurvada, um manto a proteger sua face.
- Willi, por favor faça as honras da casa.
- Sim capitão.
A oficial de rastreamento em sua farda de gala adianta-se ao grupo dos demais oficiais.
- Centuriã Marceille que sua comitiva seja bem vinda a bordo da Galípoli. Me chamo Willi, sou a oficial de rastreamento da nave.
- Então você é a dona de todos esses homens?
- Não centuriã, sou uma oficial, em nossa cultura não há donos ou donas. Somos todos iguais. Gostaria de lhe apresentar o capitão e demais oficiais de nossa nave.
Dito isso Willi se dirige ao local aonde o capitão e os demais oficiais se encontravam.
- Centuriã, esse é o capitão Alecsander, nosso primeiro oficial Breno e aquele é o oficial de segurança Marcellus.
- Encantada capitão. Meu nome é Marceille, essa que me acompanha é a sacerdotisa de Ghaia, seu nome não pode ser dito para homens, faz parte de nossos dogmas religiosos. Somos do planeta Clatom, fica há 16 anos luz daqui. Esse setor do espaço pertence ao grande império Clatom e vocês o estão invadindo sem permissão, espero que tenham uma boa desculpa a apresentar ao Conselho Supremo das Sacerdotisas de Ghaia.
- Bem Centuriã Marceille, não foi nossa intenção invadirmos seu espaço vital, mas temos certeza de que poderemos discutir isso durante o jantar. Espero que não tenham problemas com nossa comida.
O capitão acompanha as duas representantes daquela estranha raça pelos corredores da Galípoli em direção ao elevador.
Mais tarde no jantar.
- Então em seu planeta homens e mulheres possuem os mesmos direitos e deveres? Muito diferente de nossa cultura capitão. Em Clatom algumas lendas muito antigas dizem que as coisas já foram assim. Mas uma guerra fratricida praticamente dizimou nossos homens. Hoje eles representam apenas 5% da população total de Clatom. São mantidos por nossa sociedade em reservas biológicas especiais, somente são tirados dessas reservas para fins reprodutivos. Conhecemos as técnicas de reprodução artificial, mas nossa religião não permite essa blasfêmia.
- Reservas biológicas especiais para homens? Mas há essa necessidade centuriã?
- Capitão, a guerra foi feita e comandada por homens, graças a eles a cultura e civilização de Clatom quase foi extinta. Finda a guerra as mulheres ficaram com a árdua tarefa de reconstruir nosso mundo, os homens sobreviventes não eram suficientes para isso. Então descobrimos que eles, na verdade, eram animais sanguinários assim sendo os mantemos em reservas biológicas. Quando nossas jovens atingem a idade reprodutiva elas são enviadas para as reservas e lá escolhem aquele que será o seu reprodutor. Quando a jovem está grávida o homem é devolvido para a reserva. Mantemos a proporção de 95 mulheres para 05 homens por razões de segurança. Caso permitamos que eles aumentem sua quantidade não sabemos qual pode ser o destino de nosso planeta capitão. Em Clatom mantemos um museu com muitas relíquias da guerra, é um alerta para as gerações futuras de nosso mundo. Para que elas não esqueçam o que os homens foram capazes de realizar.
- Essa guerra foi há muito tempo centuriã?
- Utilizando-se da contagem de tempo que vocês fazem foi há mais de 11.407 anos capitão.
- Nunca mais tentaram reorganizar sua sociedade de modo que homens e mulheres possam viver conjuntamente?
- Capitão, se puder, vá até Clatom, visite nosso museu, veja os horrores que nossos animais fizeram. Somente vendo isso vai conseguir entender o que aconteceu com nosso mundo. Fizemos isso por necessidade de sobrevivência, se algum acaso permitir que os homens voltem a dominar Clatom nossa sociedade sem sombra de dúvida será extinta.
- Alerta vermelho, armar escudos infotônicos, Galípoli perspectiva de ataque de naves desconhecidas. Alerta vermelho........
O alerta do computador veio interromper a conversa entre a centuriã e Alecsander. Usando de seu comunicador pessoal o capitão se dirige à ponte.
- Alecsander falando, o que está acontecendo?
- Oficial de plantão Deméter falando capitão, a nave da centuriã está sob ataque cerrado de uma frota de naves desconhecidas, o computador já ergueu os escudos infotônicos. Aguardamos instruções.
- O que está acontecendo capitão.
- Melhor me acompanhar centuriã, sua nave está sob ataque. Willi cuida de levar a sacerdotisa para algum alojamento, não se esqueça que ela não fala com homens, instrua algumas mulheres para que possam atendê-la, e depois volte para a ponte. Marcellus, Breno, vamos, centuriã, nos acompanhe.
Ao chegar à ponte de comando da Galípoli, ainda foi possível ver o final da transmissão holográfica enviada pela nave Ceres.
- Me ponha em contato com nossa centuriã, estamos sob ataque de uma frota de caças dos Silvanos.
- Jennie, qual a atual capacidade dos escudos?
Ao ver sua líder no holograma vindo da Galípoli a oficial pareceu sentir um certo alívio.
- Centuriã, escudos a 34%, são 12 caças Silvanos, o computador de bordo não está conseguindo calibrar os disparadores de peretrônio, e.....
Uma forte baque foi sentido na Ceres, Jennie caí da cadeira que ocupa, uma luz vermelha e mortiça fica como a piscar ao fundo da ponte de comando, indicando a gravidade das avarias na nave Clatom.
- Jennie, Jennie.....
A centuriã, visivelmente preocupada grita para sua oficial.
Jennie se levanta lentamente, um profundo corte sangra de sua cabeça, revelando aos terranos o sangue azul turquesa das clatonianas.
- Centuriã, escudos a 12%, não, por Ghaia.
A invocação à sua deusa foi a última coisa que a pobre oficial conseguiu dizer. Na ponte de comando da Galípoli os aparelhos de rastreamento ótico mostram a explosão da nave Ceres. Com os olhos arregalados a Centuriã, solta um grito, revelando uma mistura de espanto, agonia, terror e ódio, caindo desmaiada na frente de Marcellus.
Com a explosão da Ceres, os caças Silvanos desaparecem no espaço hexadimensional sem importunar a Galípoli.
Vinte minutos depois.
- Capitão.
- Sim Dra. Kátia?
- A Centuriã está acordando senhor.
- Estou a caminho. Willi, me acompanhe. Breno, Marcellus fiquem na ponte e muita atenção para o caso daqueles malditos voltarem.
Ao abrir os olhos, a primeira coisa que a centuriã consegue ver é a sacerdotisa, mais ao fundo as quatro tripulantes que a acompanharam até a Galípoli.
As mulheres se aproximam ainda mais do leito da centuriã, a sacerdotisa pega as mãos de Marceille, apertando a ambas com força falando algo em um idioma que os tradutores não conseguiram verter para a língua terrana.
Um pouco mais afastados Alecsander, Dra. Kátia e Willi aguardavam silenciosamente pelo final daquela espécie de comunhão das alienígenas.
Foi a própria centuriã, que sentando-se em seu leito, se dirigiu aos oficiais da Galípoli.
- Capitão, minha nave, minha tripulação, houve alguma sobrevivente?
Com uma cara séria e compenetrada Alecsander responde a centuriã.
- Não centuriã Marceille, não houve sobreviventes, os atacantes reentraram no espaço hexadimensional tão logo foi confirmada a destruição de sua nave. Não sabemos para onde se dirigiram.
Novamente a centuriã se dirige à sacerdotisa conversando no mesmo idioma indecifrável de antes.
- Capitão, em nome da imperatriz de Clatom, solicito sua benevolência. Se puder nos levar para Clatom. Precisamos informar ao Conselho das Sacerdotisas que os Silvanos voltaram à ativa. Nossa navegadora, se for instruída em seu sistema de coordenadas poderá indicar a rota para Clatom.
- Bem centuriã, vou convocar meus oficiais para uma reunião deliberativa de emergência. Acredito que terei uma resposta em cerca de 1 hora.
- Estaremos aguardando a deliberação capitão, sinceramente agradeço em nome da imperatriz à acolhida. Nunca pensamos que homens pudessem ser tão receptivos e amáveis.
Na sala de reuniões dos oficiais, vinte minutos depois.
- Bem capitão, são apenas 16 anos luz, não vejo inconvenientes em atender ao pedido da centuriã.
Alecsander olha nos olhos negros de seu primeiro oficial
- Senhor.
- Sim Marcellus.
- Precisamos tomar cuidado, não conhecemos nada destas alienígenas. Se formos para o sistema planetário delas estaremos colocando em risco toda a nave. Precisamos pensar no bem estar de nossa tripulação.
- Senhor.
- Sim Willi.
- Poderíamos deixar a Galípoli na órbita de algum sol, nas imediações do sistema Clatom, e faríamos o restante do percurso em uma das naves exploratórias. Assim a Galípoli ficaria protegida.
- Uma boa idéia Willi. Senhores, mais alguma colocação?
O silêncio foi a resposta.
- Muito bem. Willi, leve a navegadora das clatonianas para a ponte. Coloque a mesma à par do sistema de coordenadas que usamos e vamos em direção a esse planeta Clatom.
O vôo para Clatom seguiu sem problemas. Após percorrerem 15,8 anos luz a nave sai do espaço hexadimensional retornando ao espaço normal. Com os sensores em sua capacidade máxima logo é encontrado uma estrela solitária, um refúgio ideal para a Galípoli. A centuriã protesta contra as medidas de segurança tomadas por Alecsander, mas acaba concordando após ser admoestada pela sacerdotisa. Com a Galípoli circulando a estrela, que recebeu o nome de Refúgio, em uma órbita bem estreita uma das naves exploratórias é preparada para finalizar o percurso. Marcellus alertou o capitão para que a nave exploratória fosse seguida por uma das três esquadrilhas de caças da Galípoli, mas Alecsander rejeitou a idéia.
À GE-01 vai se deslocando pelo espaço rumo a seu destino final. O sistema Clatom. À bordo Alecsander e Willi, transportando a centuriã, a sacerdotisa e as outra quatro acompanhantes. No semblante da centuriã um misto de alegria, por voltar para casa, e medo, afinal, perdera a Ceres e toda a tripulação para os odiados Silvanos.
- Capitão.
- Sim Willi.
- Sensores indicam grande concentração de naves nas coordenas 6-7-8.Gama-9.
Ao escutar as coordenadas, a centuriã dá um grito.
- Se o tradutor verteu corretamente estas coordenadas para minha língua é onde se localiza uma das bases de nossa frota capitão. Quanto tempo até chegar lá?
- Mais 15 minutos centuriã.
Quanto mais se aproximavam daquelas coordenas mais ansiosas ficavam as amazonas.
Ao chegaram às coordenas, os tripulantes da nave exploratória terrana ficam abismados com o que vêem. Uma gigantesca concentração de naves, dos mais diversos tamanhos combate encarniçadamente uma frota de atacantes que não deixam a menor dúvida de sua origem. Trata-se de naves daqueles que as Amazonas chamam Silvanos.
Ao fundo daquela batalha podia-se perceber a imensa estação espacial, definida pela centuriã como sendo uma base da frota de Clatom. Gigantescas concentrações de caças Silvanos faziam ataques rasantes sobre a estação. Explosões silenciosas marcavam o sucesso dos atacantes. As pesadas naves de combate das amazonas se moviam com certa lentidão, se comparado à mobilidade dos atacantes.
Dois caças silvanos, abandonam sua formação e rapidamente se dirigem para a GE-01.
- Capitão, dois caças Silvanos estão vindo para cá.
- Ligar escudos infotônicos, preparar baterias...
O restante da frase perdeu-se sob o impacto causado pelos tiros dos atacantes. A nave somente se salvara da destruição graças à agilidade de Willi que conseguira ligar os escudos no último instante.
A resposta da nave terrana foi rápida, de suas baterias de costado saem dois tiros certeiros, os caças silvanos desintegram-se totalmente.
- Willi, entre em contato com a Galípoli, peça para Marcellus enviar as esquadrilhas 1 e 2 para cá.
- Capitão.
Outro impacto balança violentamente a nave terrana.
- Rápido Willi, essa nave não foi projetada para combates, não teremos como resistir muito tempo.
- A primeira esquadrilha acaba de sair do espaço hexadimensional senhor, acho que estavam nos seguindo.
Do espaço hexadimensional a primeira esquadrilha de combate da Galípoli surge inesperadamente. Sob o comando de Marcellus as quinze naves se precipitam sob os atacantes Silvanos, disparando a morte .
- Marcellus, você me desobedeceu.
- Bem Capitão, acreditei que poderia precisar de alguma ajuda, principalmente depois que nossos sensores registraram os acontecimentos nesta região.
- Conversaremos sobre isso depois. Agora vamos tratar de ajudar as amazonas. As naves delas são pesadas e com pouca mobilidade.
- Sim senhor.
Uma saraivada de tiros disparados pelos Silvanos saúdam os novos combatentes. Mas as naves terranas são bem coordenadas e rápidas. A resposta da primeira esquadrilha da Galípoli destrói cerca de 30 caças em poucos segundos.
A frota das Amazonas, animada por aquela ajuda inesperada consegue, enfim, lançar seus próprios caças no combate que fica mais encarniçado do que antes.
A própria GE-0l participa ativamente do combate trazendo em seu bojo a morte silenciosa sobre os atacantes. Aos poucos o ímpeto dos atacantes vai diminuindo, ainda mais quando a segunda esquadrilha da Galípoli surge reforçando ainda mais a frota amazona-terrana. Ao final de três horas de morte e destruição, com pesadas baixas de lado a lado os sobreviventes silvanos se reúnem e empreendem a fuga.
- Capitão, mensagem vinda da base das amazonas.
- Passe para a holotela Willi.
A figura enigmática de uma mulher de olhos negros se apresenta na tela.
- Quero falar com sua dona homem. Rápido. Aqui centuriã Nanethe.
A centuriã Marceille se adianta ao capitão.
- Aqui centuriã Marceille, comandante da Ceres, esses homens nos ajudaram, a Ceres foi destruída pelos Silvanos. Humildemente pedimos permissão para pouso na estação.
- Centuriã Marceille, sua presença será permitida, mas sem esses homens.
A tela neste instante fica totalmente escura, demonstrando que a interlocutora desligara abruptamente.
- Capitão, agradeço sua ajuda, se puder pousar na base vou ver se consigo acomodações para o senhor e para sua oficial. Não posso garantir que poderá se locomover pela base, os sentimentos contra os machos de nossa cultura estão muito enraizados.
- Mas você centuriã está me tratando muito bem.
- Capitão, eu comandava uma nave de combate. É claro que temos contato com muitas raças nas quais os machos dominam. Mas esses contatos com machos ficam restritos ao espaço aberto. Aqui no sistema Clatom as leis são muito rígidas.
- Entendo.
- Capitão, Marcellus pede instruções.
- Diga-lhe para voltar para a Galípoli com as duas esquadrilhas, mas que permaneça em alerta amarelo.
- Sim senhor.
Com as ordens de seu capitão as esquadrilhas terranas se reagrupam e voltam para Galípoli.
- Bem centuriã, e agora?
- Agora capitão, vou entrar em contato com a centuriã que comanda a base e vamos ver o que posso fazer. Seria interessante que a sacerdotisa de Ghaia pudesse ficar ao meu lado.
- Willi, vamos para o fundo da cabine. Acho que agora a centuriã Marceille terá de usar de muita persuasão para conseguir autorização para atracarmos na base.
A GE-01 foi escoltada por uma pequena esquadrilha das Amazonas, atracando enfim dentro da base militar. A centuriã e a sacerdotisa, acompanhadas de sua guarda pessoal desceram da nave. A recepção foi fria e formal.
- Centuriã Marceille, comandante da Ceres, viemos informar que os Silvanos estão novamente ativos.
- Sua mensagem chegou um pouco tarde centuriã, já descobrimos isso. Qual o destino de sua nave, a Ceres?
- Destruída pelos Silvanos. Devemos nossa vida a esses estranhos que nos acolheram.
- O quê? Devem sua vida a esses, esses machos?
A sacerdotisa de Ghaia que acompanha a centuriã Marceille, resolve, enfim se utilizar de sua influência.
- Sim centuriã Nanethe, esse homem é capitão de uma nave alienígena, eles inadvertidamente invadiram o sistema 045, pelo que pudemos apurar até agora eles podem ser os reprodutores que nos falam as antigas lendas dos oráculos.
Ao escutar a menção às antigas lendas a centuriã Nanethe pareceu ter arrefecido a inamistosidade com que recebera a GE-01.
- Os reprodutores, têm certeza sacerdotisa. Há muitos milênios esperamos por essa raça, mas nunca, nunca....
- Ainda não sabemos centuriã Nanethe, precisamos estudá-los mais.
- Bem, é melhor então deixar o macho sair da nave. Os reprodutores. Pela grande Ghaia, se forem eles o futuro de nossa espécie está garantido.
- Capitão Alecsander, você e sua oficial possuem autorização para sair da nave, mas somente poderão se locomover pela base acompanhados. Alguma objeção?
- Isso é realmente necessário centuriã? Veja que...
- Te garanto que é para seu próprio bem capitão. Uma de nossas guerreiras poderia matá-lo sem pestanejar tão logo o visse circulando por esta base sem estar acompanhado de uma de nós.
- E quanto a Willi?
- Sua oficial pode se locomover livremente. Apenas aconselho a colocar este uniforme. Pela cor do uniforme e por este símbolo as nossas saberão que se trata de uma alienígena que está em visita.
- Willi, alguma objeção.
A oficial da Galípoli pega em suas mãos o uniforme ofertado pela centuriã Marceille, fazendo um cara de quem não gostou muito.
- Bem senhor, as cores são horríveis, o modelo não é o de minha predileção, mas dentro das atuais circunstâncias.
- As alternativas são poucas oficial Willi, se não colocar esse uniforme não posso garantir sua integridade física. Afinal todas sabem que você vive com machos. Isso em nossa cultura é muito mal visto.
Sem ter alternativa Willi pega o horroroso uniforme laranja e se dirige para o pequeno alojamento da GE-0l para vesti-lo.
- Bem centuriã, e quanto a mim?
- Capitão, você poderá andar pela base, desde que devidamente acompanhado. Eu e minha guarda pessoal somos responsáveis pelo senhor. A sacerdotisa de Ghaia está entrando em contato com o Conselho das Sacerdotisas para conseguir uma autorização especial para que possa ir a Clatom.
- Uma autorização especial? Centuriã, devo lembrá-la que salvamos sua vida, salvamos essa sua base e mesmo assim sou tratado como um ser inferior. Como representante de uma raça inteligente devo formalizar meus protestos contra esse tipo de tratamento.
- Capitão, o fato de não ter sido morto quando pousou aqui, em nossa cultura, já é motivo mais do que suficiente para que possa se considerar um felizardo. Deve se lembrar que homens são considerados como animais irracionais em nossa civilização.
- Diário de bolso do capitão. Já se vão três dias desde que pousamos nesta base. Garanto que entendo cada vez menos a mentalidade dessas Amazonas. Salvamos uma comandante de uma de suas naves, lutamos ao lado delas contra um forte inimigo, tratamos elas como iguais e agora, como retribuição, fico como um prisioneiro dentro da GE-01. Há dois dias não vejo Willi, duas amazonas ficam diuturnamente à frente da comporta de saída da nave, não estou autorizado a dar nenhum passo dentro da base, sem estar acompanhado pelas guardas. Por enquanto ninguém me explicou nada. Sei que essa raça possuí uma aversão ancestral por machos de todas as espécies, algo a ver com uma guerra fraticida que por pouco não destruiu a civilização delas. Os tradutores conseguiram captar um diálogo entre as guardas que cita algo como os reprodutores, lendas antigas. Não sei do que se trata. A centuriã Marceille não me deu qualquer explicação, e nem apareceu para conversar comigo. Ainda bem que a Galípoli se encontra segura. Conforme a instrução de segurança SE-01, se eu não voltar em dez dias eles partirão reiniciando a nossa missão. Tenho certeza de que Breno e Marcellus não vão desobedecer essa norma de segurança. Tenho receio do que essas mulheres poderiam fazer à parte masculina de nossa tripulação.
- Diário do Primeiro Oficial. 16 de Outubro do ano 23 A.L.G.*, Há quatro dias não temos notícias do capitão e da Oficial Willi. Segundo o plano que foi traçado, se ele não aparecer em mais seis dias teremos de colocar em ação a medida de segurança SE-01, mas sinceramente não sei se serei capaz de deixar meu amigo para trás. Marcellus está traçando planos para efetuar um resgate, caso Alecsander não dê nenhum sinal de vida. Nossos sensores estão captando uma tremenda movimentação de naves, ao que parece as amazonas estão à caça dos tais silvanos. Nossa nave permanece em alerta amarelo, se formos descobertos na proteção desta estrela, e porventura atacados, mostraremos a essas mulheres do que os terranos são capazes. Espero não ter de acionar nossos destacamentos militares para resgatar nosso capitão, até o momento nossa missão têm sido pacífica, os povos que encontramos são cordiais, a única exceção são essas amazonas e os tais silvanos.
A bordo da nave reina um clima de crescente expectativa. Existem muitas possibilidades de que tenhamos de abrir caminho à força. As mulheres da nave não se deixaram influenciar pelas crenças das Amazonas e o clima de cordialidade permanece entre os sexos. Aguardaremos mais dois dias, Marcellus está traçando um plano para uma necessidade de resgate. Não queremos nenhuma confrontação militar, mas se for o caso iremos às últimas conseqüências.
- Capitão.
- Willi, até que enfim, você está bem?
- Sim capitão, a centuriã Marceille me encarregou de informar que sua presença em Clatom foi autorizada pelo Conselho das Sacerdotisas de Ghaia. Amanhã uma nave das amazonas nos levara para seu planeta natal.
- O que elas querem Willi. Estou sendo tratado como um animal dentro desta base. Há dias você não aparece. O que está acontecendo?
- Capitão, em breve você saberá. Tenha um pouco mais de calma.
Alecsander olha fundo nos olhos cor de mel de sua oficial, percebendo uma mudança profunda. Willi falava como uma amazona, não se aproximara muito dele para lhe passar a notícia. Nos olhos de Willi percebia-se um certo desdém para com o capitão.
- Willi, o que essas mulheres fizeram com você? Está diferente.
- Nada capitão, elas não fizeram nada, apenas me mostraram a superioridade das mulheres sobre os machos. Vocês homens, ou machos, como queira, são seres sorrateiros e perigosos. Os conflitos armados de nossa Terra demonstra isso. Algum dia teremos que nos dirigir para a Terra e libertar as mulheres do jugo masculino.
- Willi, o que é isso, há séculos que homens e mulheres são iguais na Terra. Que tipo de lavagem cerebral fizeram com você menina?
- Nenhum tipo de lavagem cerebral capitão. Apenas abriram os olhos de minha mente para a verdade. Os machos só servem para procriar. A presença de vocês em altos postos de comando coloca em risco toda a existência da vida em nossa mundo.
Dito isso Willi se dirige para a comporta de saída, deixando um estupefato capitão Alecsander para trás.
Um dia depois.
- Capitão, temo lhe trazer más notícias. Os Silvanos aumentaram suas ações, o Conselho voltou atrás em suas determinações e você não poderá mais ser enviado para Clatom, mas conseguimos que as sacerdotisas lhe concedam uma conferência pelo holorádio. Considere-se honrado capitão. Desde o final da guerra fraticida que nenhum homem, ou macho de qualquer espécie têm o direito de se dirigir ao Grande Conselho das Sacerdotisas de Ghaia.
- O que vocês fizeram com Willi? O que está acontecendo aqui? Quem são esses Silvanos, qual a razão dos seus ataques? O que pretendem fazer comigo?
- Calma capitão, antes da conferência você terá essas respostas. Acreditamos que sua mente é capaz de suportar o psico-aprendizado. Em menos de uma hora sua mente absorverá todas as respostas capitão. Espero que após isso possa entender nosso procedimento.
- Ao inferno com esse psico-aprendizado, que quero minha oficial de volta, quero sair daqui.
- Tudo a seu tempo capitão.
- Marceille, eu salvei a sua vida, te recebi a bordo de minha nave, é assim que as clatonianas tratam quem lhe ajuda?
Os olhos da centuriã apenas fitaram Alecsander de maneira fria e indecifrável. Sem responder a nada a centuriã sai da GE-0l. Logo depois duas amazonas sobem a bordo da nave exploratória solicitando ao capitão que as seguisse.
- Marcellus, não vou esperar mais, prepare a primeira e a segunda esquadrilhas, vamos resgatar nosso capitão.
- Assim que se fala Sr. Breno. Vamos dar uma lição nessas amazonas.
Breno olhou para seu oficial de segurança com confiança. No entanto antes que as providências fossem tomadas o alerta vermelho soou por toda nave.
- Breno falando, o que está acontecendo.
- Oficial Deméter senhor, os sensores indicam uma gigantesca concentração de naves saindo do hexa-espaço nas imediações da base das amazonas.
- São os Silvanos?
- Sim senhor, mas desta vez eles não estão apenas com caças, uma grande quantidade de naves de diversos tamanhos os está acompanhando.
- Deméter, tente entrar em contato com os Silvanos, talvez esteja aí nossa chance de resgatar o capitão.
Durante uma hora Alecsander ficara preso a uma mesa, tendo sua cabeça envolta por um aparelho desconhecido. Ali Alecsander, enfim, começou a descobrir os segredos das Amazonas.
A história daquela raça se iniciara há mais de 20.000 anos. As amazonas não eram naturais de Clatom, e sim de um outro mundo distante a 242.558 anos luz . A explosão do sol de seu sistema planetário natal fizera com que os sobreviventes se lançassem pelo espaço à procura de um novo lugar. Encontrado, enfim, no sistema Clatom. A civilização das amazonas, nesta época ainda vivia em harmonia, sem distinção entre os sexos. Essa harmonia fora desfeita há mais de 11.400 anos quando uma violenta guerra fraticida quase acabou com toda a civilização, dentre os remanescentes desta guerra, grande maioria de mulheres, que a partir daí tomaram as rédeas da civilização relegando os homens a um sistema de subserviência, que acabou degenerando na atual situação. Para guardar viva na memória de seu povo as atrocidades cometidas um grande museu da guerra foi construído pelo Conselho das Sacerdotisas de Ghaia, com o tempo esse Conselho acabou se tornando o próprio governo daquela raça de mulheres. O Conselho instituiu os grandes oráculos de Ghaia. Promessas que as sacerdotisas afirmaram vir da própria boca de Ghaia foram divulgadas para o povo. Desde então as amazonas viviam esperando o dia em que os reprodutores apareceriam. Os reprodutores tomariam o lugar dos homens originais do planeta e da miscigenação da raça das amazonas com os reprodutores nasceria uma nova raça na qual homens e mulheres voltariam a conviver junto. Um grande futuro esperava essa raça, o domínio do Universo, isso segundo as sacerdotisas.
Para Alecsander o psico-aprendizado deixava em aberto muitas lacunas. De onde essa raça era original? Como elas se pareciam tanto com a raça terrana? E os Silvanos, aonde entravam nesse intrincado e conturbado período? Na realidade o psico-aprendizado deixara mais dúvidas do que soluções para Alecsander.
A holotela estava totalmente preenchida pela robusta figura de um Silvano, Jarek , conforme ele mesmo se apresentou.
- Então as bruxas prenderam seu capitão na base espacial. Bem nossa frota está se reunindo para um ataque. Mas se os ajudarmos o que teremos em troca? Vocês possuem mulheres com as quais possam negociar?
A frase do Silvano pegou a todos de surpresa.
- Negociar mulheres? Não, isso é inegociável. Podemos negociar algumas esquemas de nossas armas que se demonstraram superior às suas no ataque inicial.
- Bem, para falar a verdade preferimos mulheres, nosso mundo é carente de mulheres oficial Breno. Muito carente, o ataque que fazemos contra o mundo das clatonianas é exatamente para capturar fêmeas para procriação.
- Vocês nunca tentaram se aproximara delas sem ter de atacá-las.
- Ah, ah, ah, vê-se bem que não conhecem as clatonianas, essas fêmeas não suportam machos. Já tentamos sim, afinal os machos delas são poucos e a cada geração ficam mais estéreis. Assim como as mulheres de nosso planeta. Nós as capturamos para perpetuar a espécie.
- Não conseguimos entender isso, vocês precisam de mulheres para perpetuar sua espécie, e afirma que elas também estão em dificuldades de perpetuar a espécie por causa da esterilidade dos homens delas. Será que nunca ninguém pensou em fundir as duas espécies de maneira que ambas consigam se perpetuar?
- Oficial Breno, se você tiver alguma idéia de como fazer isso estamos dispostos a tentar. Não nos agrada esse conflito sangrento. Acreditamos que algumas delas também não estão muito satisfeitas com essa guerra sem esperança para ambas as espécies.
- Bem, podemos tentar algo, mas será necessário um ataque em grande escala ao planeta Clatom.
- Um ataque? Saiba oficial que neste momento uma grande concentração de nossas naves se encontra nas proximidades de Clatom. Isso é fácil, conte mais.
Alecsander, terminado o psico-aprendizado, é escoltado para a ponte de comando da base espacial. Ao chegar já encontrou a centuriã Marceille, a centuriã Nanethe e Willi sentadas em volta de uma grande mesa oval, mais algumas mulheres estavam ali reunidas, entre elas a sacerdotisa. De uma maneira indelicada Alecsander foi levado até uma cadeira vazia e forçado a sentar. Uma grande tela holográfica iniciava a transmissão, que decerto vinha do mundo das amazonas, o misterioso Clatom.
Finalmente a grande tela foi totalmente preenchida pela figura enigmática de uma mulher morena, de meia idade, olhos negros, feições graves. Sob sua testa um símbolo que lembrava vagamente a anatomia dos seios femininos.
- Quem fala pelo macho?
- Eu falo pelo macho.
- E quem é você?
- Sou a centuriã Marceille, da nave Ceres.
- Sua sacerdotisa está presente? Ela lhe dá os poderes da palavra com o Conselho das Sacerdotisas de Ghaia?
- Sim, a centuriã Marceille, está autorizada a falar, eu lhe dou os poderes.
- Muito bem, então fale centuriã. O Conselho das Sacerdotisas está todo presente.
- Obrigado sacerdotisa da criação, minha nave se encontrava nas imediações do sistema 045 quando rastreamos a nave dos estranhos...
Marceille continuava a relatar os acontecimentos, enquanto Alecsander tentava entender qual seu papel naquela conferência, estava proibido de falar qualquer coisa, pois para machos não era permitido falar com uma sacerdotisa.
-.....e assim grandes sacerdotisas, acreditamos que os machos dessa espécie podem ser os reprodutores prometidos por nossa deusa Ghaia há tanto tempo.
- Os reprodutores? Outras espécies masculinas já foram confundidas com os reprodutores, nenhuma delas se portou conforme os ensinamentos de Ghaia.
- Esses machos são diferentes grande sacerdotisa da criação. Eles nos receberam em sua nave, eles nos acompanharam até esta base, e lutaram contra os Silvanos por nós. Eles dizem que em seu mundo fêmeas e machos possuem a mesma posição social. Os indícios coincidem. Esses machos são os reprodutores.
- Eu posso falar por mim mesmo.
O grito de Alecsander pegou a todas as presentes de surpresa, nos olhos da interlocutora, a grande sacerdotisa da criação, percebeu-se, claramente, o descontentamento com o aparte inesperado.
- Calem a boca deste macho, ele não pode falar com as sacerdotisas, calem a boca desse macho...
O alarme vermelho tocado com grande sonoridade interrompeu a reunião.
- Alerta, alerta, todas para seus postos de combate, os Silvanos estão atacando, alerta....
Clatom. Quinto planeta de um sistema estelar com dois sóis azuis e oito planetas, as clatonianas chamam seu sistema de Sistema Vhestia. Tamanho aproximado ao do planeta Marte, temperatura média 25° C, gravitação 1,075 G, atmosfera rica em oxigênio, sendo também encontrado hidrogênio, gás carbônico e resquícios de outros gases nobres. A capital deste planeta se chama Gharaia, é lá se que localiza o templo da criação, dedicado pelas clatonianas a Ghaia, que em sua mitologia é a deusa da vida e da criação. O Conselho das Sacerdotisas de Ghaia é composto por 17 mulheres, quatro de cada uma das castas ( loiras guerreiras/ morenas administradoras / ruivas e negras são operárias e construtoras ), a última representante do Conselho é totalmente albina, pele extremamente clara, o que lhe impede de circular durante o dia, olhos vermelhos, é a sacerdotisa suprema. Nos casos em que o Conselho não consegue decidir alguma questão, a sacerdotisa albina é convocada, sua palavra é lei, as clatonianas consideram essa sacerdotisa a forma física de Ghaia. Ela vive afastada das demais, pois segundo a mitologia clatoniana, a forma física de Ghaia deve ser protegida, deve ser resguardada de toda e qualquer impureza física ou espiritual, somente assim ela conseguirá discernir corretamente nos momentos em que sua presença é solicitada.
Também se encontra associado à suprema sacerdotisa o atual sistema vigente em Clatom. Foi uma sacerdotisa albina que, finda a guerra, aglutinou a seu redor os sobreviventes e reconstruiu a sociedade clatoniana do modo como ela é hoje com esse sistema de castas e segregação sexual para os poucos homens sobreviventes.
Dentro da base clatoniana, as amazonas corriam para seus postos de combate, a frota dos Silvanos já iniciara o ataque, desta vez os atacantes estavam melhor equipados, além dos caças velozes, já conhecidos das clatonianas, a frota atacante também apresentava um enorme número de naves de diversos tamanhos e formas. O escudo da base refletia os ataques, até então, com relativa facilidade. A frota dos Silvanos ainda tinha unidades saindo do hiper-espaço. O negrume do espaço, de repente, se encontrava iluminado pela profusão de raios disparados por Silvanos e pelas defensoras clatonianas. A cada nave Silvana atingida e destruída surgia um pequeno sol artificial de vida efêmera e fugaz. A frota da base é alçada para o espaço e o festival de luzes se intensifica. Naves explodem por todos os lados, o escudo defensivo da estação clatoniana se encontra perto do colapso total. A centuriã Nanethe solicita reforços, a resposta é inesperada. Os Silvanos estavam fazendo um ataque total contra as bases clatonianas e também atacavam com vigor ao próprio planeta Clatom. As notícias dos ataques Silvanos se sucediam nas holotelas da base clatoniana, enquanto os encarniçados combates se desenrolavam no espaço.
- Terranos, nossas forças já estão atacando Clatom, é a sua vez de cumprir o acordo. As coordenadas com a localização do Templo da Criação vocês já possuem, seu comando de desembarque não terá muitas facilidades nesta empreitada, as clatonianas são lutadoras hábeis e muito corajosas, e lutarão como bestas quando verem que seu objetivo é o Templo.
- Muito obrigado comandante Visher. Faça suas tropas distraírem as defesas delas. Nós faremos nossa parte.
- Esquadrilha pronta para ataque senhor.
- Ótimo Marcellus, lembre-se, faça o menor estrago possível, precisamos capturar a sacerdotisa albina viva. E Marcellus.
- Sim Sr. Breno.
- Cuidado, há muitas vidas preciosas em jogo nesta empreitada. Se falharmos...
- Terei cuidado amigo, terei cuidado.
Dito isso Marcellus se dirige para seu caça de combate.
O plano dos terranos era simples. Aproveitando-se da confusão reinante em Clatom, por causa do ataque em larga escala dos Silvanos, eles pousariam um comando de desembarque no Templo da Criação, com uma missão, capturar a regente máxima daquela mundo, a sacerdotisa albinas. Os terranos pensavam em usar essa refém como moeda de troca no intuito de recuperar ao capitão Alecsander e a oficial Willi.
Com Marcellus à bordo a primeira esquadrilha de caças da Galípoli decola do hangar, entrando imediatamente no hexaespaço. Se as coordenadas dos Silvanos estavam corretas o vôo duraria apenas 15 minutos e eles reentrariam no espaço normal já na atmosfera de Vhestia a apenas um minuto do Grande Templo da Criação. Na verdade era uma manobra extremamente ousada, qualquer erro nos cálculos e os caças explodiriam de encontro a superfície do planeta Clatom.
A reentrada no universo normal ocorreu sem problemas. As coordenadas estavam corretas.
A bordo da estação espacial clatoniana, Alecsander estava sendo escoltado de volta para a GE-01, suas guardas estavam apressadas e preocupadas, no espaço em volta da base os combates atingiam seu ápice, acompanhando a escolta do capitão, a oficial Willi seguia com passos lentos, seus olhos demonstrando um certo torpor, como que alheios à realidade dos fatos. As guardas se encontravam armadas com pistolas de raios fotônicos, pelo menos era esse o nome com que apresentaram suas armas quando a bordo da Galípoli. Na proximidade da GE-01, Alecsander resolveu que era hora de arriscar. Em um movimento rápido imobiliza a clatoniana que está mais próxima, utilizando uma velha técnica de pressionar a têmpora da adversária, interrompendo por alguns segundos o fluxo de sangue para o cérebro, ao fim destes poucos segundos a guarda desfalece, Alecsander se apropria da arma desta e, com um tiro preciso, mesmo com uma arma desconhecida, consegue atingir o braço esquerdo da segunda clatoniana. Willi olha aquela cena com certo horror em seus olhos, mas não têm tempo de reagir. Com um gesto rápido Alecsander imobiliza sua oficial e a carrega para dentro da GE-01, colocando a inconsciente mulher na cadeira do co-piloto da nave, por sorte os combates com os Silvanos estavam atingindo tais proporções que naquele momento não havia mais nenhuma clatoniana no hangar, o que, de certa forma, acabou possibilitando aquela atitude arrojada e arriscada de Alecsander.
Dentro do Templo da Criação, as sacerdotisas acompanhavam, através um intrincado sistema de telas holográficas, os combates que estavam sendo travados. Nunca um ataque daqueles odiados inimigos atingira tamanhas proporções, em Clatom todas as naves em condições de combate se encontravam no ar lutando contra os atacantes, ou então já haviam sido enviadas para as diversas bases que clamavam por reforços. O aparecimento da pequena frota terrana, ali, nas imediações do Templo da Criação causou um alvoroço total na guarda do Templo. Os terranos pousaram quatro naves, saindo de seu interior o grupo tarefa que fora escolhido por Marcellus para aquela empreitada. O próprio Marcellus participou do comando de desembarque, pegando totalmente de surpresa as amazonas que nunca esperavam tal audácia.
O avanço terrano era facilitado por uma planta holográfica, que mostrava as instalações do Templo da Criação, de que forma os próprios Silvanos conseguiram ficar de posse dessa planta holográfica permanecia um mistério.
Em menos de 05 minutos o comando avançado consegue chegar até a sala aonde as 16 sacerdotisas estavam reunidas, mas o objetivo não era esse. Mais dois minutos e finalmente chegaram ao real objetivo, a sacerdotisa albina.
Alecsander arrisca tudo em uma única cartada, liga os motores da GE-01 se dirigindo para a saída do hangar que permanecia aberto, afinal as clatonianas não esperavam que nenhuma nave Silvana conseguisse furar o escudo defensivo da base, mas esse escudo permitia a saída das naves por dentro. Acelerando ao máximo o hábil capitão da Galípoli consegue enfim sair do hangar, ganhando o conturbado espaço em volta da base clatoniana.
Do lado de fora da base um festival de luzes denunciava a ferocidade da batalha que se desenvolvia. Duas naves leves clatonianas mudam bruscamente sua rota de ataque a uma nave média Silvana, e indicam claramente sua disposição de atacar a nave terrana. Alecsander se desvia com maestria dos disparos dos perseguidores, procurando a melhor maneira de entrar no hexaespaço. Ao lado da GE-01 um caça Silvano explode espetacularmente, a onda de choque causada pela explosão atinge a nave terrana em cheio, somente a perícia do capitão consegue evitar a perda total da navegabilidade da nave. Finalmente, no meio de um festival de tiros, Alecsander consegue entrar no hexaespaço, deixando a beligerância de clatoniana e Silvanos para trás, o destino: a boa Galípoli.
Marcellus e a equipe de desembarque finalmente voltam para suas naves, nos céus de Gharaia o festival de raios e explosões se sucediam em um ritmo assustador. A sacerdotisa albina não protestava, não falava nada, seguindo fielmente os preceitos de sua religião que lhe proibia falar com machos, seja de que espécie forem. As naves terranas, da força tarefa, sobem aos céus no meio de um pesado fogo das baterias de terra das clatonianas, a subida é vertiginosa, todos os estabilizadores de gravidade são exigidos ao máximo, na perseguição aos terranos um esquadrão das clatonianas. Mas Marcellus estava confiante que as amazonas não atirariam se soubessem que a sacerdotisa albina estava em poder deles. A reentrada no hexaespaço, rumo à Galípoli seguiu sem maiores problemas.
Duas horas depois, sala de reuniões da Galípoli.
- Capitão, esse é o comandante dos Silvanos Visher. Foi graças ao ataque das tropas dele que conseguimos entrar em Vhestia e capturar a sacerdotisa albina.
- Obrigado pela apresentação Sr. Breno, comandante Visher, é um prazer conhecê-lo, gostaria de lhe informar que o que a minha tripulação fez é algo que viola o código de ética e conduta de nossa espécie. Nossos preceitos nos proíbem, tacitamente, de nos envolvermos de qualquer forma nos assuntos particulares dos povos que descobrirmos durante nossa longa viagem.
- Capitão Alecsander, sua tripulação é formada pelos homens e mulheres mais corajosos que já vi. Não os admoeste capitão. São excelentes soldados. Mas como comandante do Grande Sheva, nosso regente, gostaria de lhe solicitar a guarda da sacerdotisa albina. Seus homens a capturaram com o intuito de troca-la pelo senhor. Como conseguiu escapar sozinho eu no uso de minhas atribuições, solicito que este pedido seja atendido.
- Comandante Visher, quais as suas intenções para com a sacerdotisa. Não temos o costume de entregarmos prisioneiros para que sofram.
- Nada acontecerá com a sacerdotisa albina capitão, queremos trocá-la por um grande número de mulheres clatonianas. O mal que assola Clatom, falta de homens reprodutores, também assola Shilva, nosso mundo. Lá nossa fêmeas estão perdendo a capacidade reprodutiva. Precisamos de mulheres para perpetuar nossa espécie.
- Comandante, se entendi corretamente, o que seu mundo têm, homens em condições de reproduzir é o que falta em Clatom. E vice-versa, suas mulheres estão ficando estéreis. Não há como suas raças sanarem esses problemas sem necessidade de recorrer às armas.
- Se me permite capitão.
- Sim Sr. Breno.
- O comandante Visher nos contou uma estória interessante senhor. Posso reproduzi-la para o senhor.
- Comece logo homem.
- Bem senhor, o comandante Visher nos afirmou que os antepassados dos Silvanos são, na verdade, descendentes de espécimes masculinos do mundo das clatonianas. Quando a guerra civil das amazonas acabou e as mulheres começaram a se sobressair sobre os homens, algumas naves com clatonianos machos fugiram do planeta, algumas poucas mulheres, ainda não influenciadas pelas idéias da nova religião, os seguiram. Esses homens e mulheres são os antepassados dos Silvanos senhor.
- As clatonianas sabem disso? - Alecsander.
- Capitão, quando nossa civilização já estava constituída, nossos antepassados enviaram algumas naves para Clatom. No total enviamos 17 naves capitão, somente uma retornou. Estava em piloto automático e dentro todos os homens da tripulação estavam mortos. Quanto às mulheres nenhum sinal, acreditamos que as clatonianas as tenham preso, elas são muito hábeis em, como se diz em seu idioma, lavagem cerebral. A partir daquilo vimos da impossibilidade de qualquer contato. Somente agora, por motivos puramente de perpetuação de nossa espécie é que estamos retornando aos contatos. Mas somos obrigados a lutar com elas, o objetivo é capturar o maior número possível para servirem de reprodutoras. Não há como dialogar com elas capitão. Você foi prisioneiro delas, sabe do que estou dizendo.
Alecsander estava a ponto de retrucar o comandante silvano quando o computador de bordo emitiu o característico alerta vermelho.
- Alerta vermelho, alerta vermelho, frota desconhecida saindo do hexaespaço e atacando frota silvana.
- Alecsander para ponte, o que está acontecendo.
- Aqui oficial substituto Pheter senhor. Frota desconhecida atacando os silvanos, não são as clatonianas, repito, não são as clatonianas
Phainor, oitavo planeta do sistema Thesa, distância da Terra, 113.433 anos luz, distância de Clatom, 345 anos luz, seus habitantes são uma raça humanóide reptilinea. Gravida 7,5667 G, distância dos pólos 56.321 Km., a linha imaginária do Equador possuí uma circunferência de 65.332 Km, órbita elíptica que o leva a passar pelo imaginário centro conseguido ao se projetar a órbita dos três sóis do sistema. Seus habitantes são uma raça antiga, muito antiga mesmo. Se contado pelos padrões humanos, a história dessa raça atingiria aproximadamente 2,56 milhões de anos. Ao atingir a navegação espacial esses seres se depararam com uma raça extremamente agressiva que conquistou e dominou Phainor por milênios. Somente há 23.056 anos os phainorianos conseguiram expulsar os invasores, retornando ao estado de liberdade. Como profunda chaga desta longa dominação os phainorianos decidiram que dariam guerra e exterminariam toda raça que fosse assemelhada à raça de seus antigos opressores. Os opressores dos phainorianos abandonaram seu sistema natal há mais de 20.000 anos. Desde então os phainorianos estão caçando pelos descendentes deste povo. Ao encontrarem as clatonianas e os silvanos identificaram nestes os descendentes de seus algozes. O imperador de Phainor prometeu a seu povo e aos seus deuses que reuniria uma grande armada e destruiria os inimigos de seus ancestrais. Finalmente uma das maiores frotas já vistas no universo fora reunida. O ataque estava começando.
As holotelas do Templo da Criação estavam todas ligadas, uma infinidade de informações, provindas de todos os cantos do império clatoniano chegavam sem parar. As sacerdotisas da Criação estavam sem ação. Primeiro o ataque dos Silvanos, depois o rapto da sacerdotisa albina, e agora um ataque em larga escala dos phainorianos. A vertiginosa escalada de todas esses acontecimentos deixavam todas em desespero. Ghaia as teria abandonado?
Ao redor da Galípoli o inferno reinava soberano. Do hexaespaço saíam levas e mais levas de naves phainorianas, atacando sem descanso à frota dos Silvanos reunidos ao lado da nave terrana. As três esquadrilhas de caça da Galípoli já se encontravam no espaço dando combate ao novo inimigo.
O comandante silvano acompanha os combates à bordo da nave terrana sofrendo com cada explosão de alguma de suas unidades. Os phaironianos atacavam demonstrando um forte desprezo pela sua própria vida, O negrume do espaço se encontrava salpicado pelas constantes explosões de naves, cada qual acendendo uma pequena e fugaz fogueira atômica de curta duração.
- Com todos os demônios quem são esses loucos? - Alecsander
- São phaironianos capitão, eles juraram que destruiriam todos os povos assemelhados a uma raça que em tempos antigos os escravizou, bem capitão, eles acham que nós os silvanos e as clatonianas somos os descendentes deste povo.
- Ótimo, há alguma forma de conversar com eles.
- Eles somente entendem a conversa das armas capitão. Este ataque só vai parar quando a última nave for destruída. Meu segundo em comando já solicitou o retorno da frota que estava atacando as clatonianas. Acredito que em velocidade máxima consigam chegar aqui em duas horas, segundo sua contagem de tempo.
- Se resistirmos até lá comandante, se resistirmos.
- Não temos outra alternativa. É resistir ou morrer.
Na base estelar clatoniana, a centuriã Nanethe repreendia severamente às duas guardas incumbidas da guarda do prisioneiro. Ao seu lado a centuriã Marceille também se sentia culpada, se as lendas estivessem corretas ela deixara escapar um representante dos reprodutores. O ataque Silvano cessara repentinamente com todas as naves atacando entrando no vórtex espacial, como se chamadas urgentemente.
- Centuriã - Oficial de comunicação.
- Sim Dejanira, o que é dessa vez? - Centuriã Nanethe.
- Nossos sensores conseguiram captar a reentrada dos silvanos no espaço normal, nossa frota pode atacar e acabar com esses malditos.
- Coordenadas?
- Cinco-sete-quatro-Teta-Gama, os sensores indicam uma gigantesca concentração de naves no local centuriã.
- Reuna a frota, alimente os computadores com as coordenas. Preparem a minha nave, vou acabar com estes malditos pessoalmente. Me acompanha centuriã Marceille?
- Sim centuriã Nanethe, vou acompanhá-la
Quinze minutos após a entrada da frota clatoniana no hexaespaço, uma grande frota phaironiana surge inesperadamente, atacando não só a base como o próprio sistema Vhestia e o planeta Clatom.
A chegada da frota silvana equilibrou, momentaneamente aquele combate dantesco. Mas novas levas de phaironianos ainda saíam do hexaespaço.
A Galípoli, uma nave construída originalmente apenas para exploração, no entanto, acabou demonstrando sua espetacular capacidade militar. Os canhões de laser da nave disparavam sem parar causando tremendos claros nos esquadrões adversários, os phaironianos, por sua vez, não conseguiam furar o escudo defensivo da grande nave terrana. As três flotilhas de caças também conseguiam abater muitos oponentes, até aquele momento, dois caças terranos haviam sido destruídos e outros três avariados, mesmo assim estes três continuavam a luta, os phaironianos pareciam não dar atenção ao volume excessivo de suas próprias baixas.
- Capitão.
- Sim
- Naves clatonianas saindo do hexaespaço senhor.
- Entre em contato, vamos precisar de todo auxílio possível contra esses malditos.
A jovem Willi, já recuperada da lavagem cerebral tratou imediatamente de cumprir as ordens recebidas.
- Centuriã Nanethe na holotela senhor.
- Chegaram na hora correta, como pode ver estamos com alguns problemas.
- Insistimos na retirada das sacerdotisas, não teremos como conter o ataque dos phaironianos por muito mais tempo.
Na sala do Conselho Supremo reinava uma estranha paz agora. Outras cidades clatonianas já haviam sido totalmente destruídas pelo insano inimigo, apenas os escombros de Gharaia ainda testemunhavam alguma resistência das bravas amazonas.
- Evacuar o planeta, tentem colocar o maior número possível de sobreviventes nas naves de transporte e saiam daqui, utilizar os remanescentes da frota para escoltar a frota de transporte.
- Mas o Templo, as sacerdotisas!
- Não discuta, essa é a ordem do Conselho. Evacuar o planeta.
A holotela se apaga. As dezesseis sacerdotisas formam um círculo no meio da sala de oração do Templo, entoando uma antiga canção, uma canção que lembrava o sofrimento deste povo, tanto na explosão do sol de seu planeta original, também lembrava a guerra fraticida que por pouco não destruíra a civilização. Enquanto o canto enchia o recinto os céus em volta de Gharaia se escureciam assustadoramente. O avanço da frota phaironiana não podia mais ser contido. Algumas poucas naves cargueiras e de passageiros, devidamente escoltadas pelas poucas naves bélicas que ainda existiam, saíam em disparada rumo ao cosmos. Pela segunda vez aquela raça tinha de fugir de um planeta.
Lutando lado a lado clatonianas, silvanos e terranos resistiam bravamente à destruição sem piedade desencadeada pelos phaironianos. A luta seguia encarniçada e sem descanso.
- Capitão.
- Sim Willi.
- A sacerdotisa clatoniana senhor.
- O que diabos ela quer? Pensei que ela não falava com outros que não fossem de sua raça.
- Bem senhor, ela fez ver à vigilante que se encontra em seus aposentos que pede permissão para vir até a ponte de comando.
- No meio de um batalha. Era só o que faltava.
- Naves phaironianas iniciando entrada no hexaespaço senhor.
- O quê? Eles estão fugindo.
- Isso é impossível, esses seres lutam até a morte sua ou do adversário, devem estar se reagrupando. - Visher.
O comandante phainoriano acompanhava com orgulho a matança que suas naves faziam no planeta Clatom. O inimigo finalmente sentiria na sua própria pele o que era ser dominado por uma outra raça. Seu entusiasmo era tanto que ao ser informado, por um de seus oficiais, que a frota Pan necessitava de reforços, enviou uma ordem inversa, a frota deveria seguir para Clatom, para ajudar na destruição das clatonianas, finda a resistência a frota seguiria para as coordenadas indicadas e daria perseguição ao restante da frota inimiga localizada naquele setor.
Dentro da sala de contemplação seguia o canto místico das Sacerdotisas da Criação, um canto melódico, harmonioso, mas que trazia um significado drástico. As sacerdotisas purificavam sua alma para o encontro com Ghaia, purificavam as almas das amazonas. A decisão fora tomada de comum acordo. Clatom seria destruído, e com o planeta também a frota invasora encontraria seu fim.
- Não, nããããoooooooo..........por Ghaia.........
Na sala de comando da Galípoli os presentes olham assustados para a sacerdotisa albina. Como que em transe aquela que era a mulher mais respeitada pelas clatonianas repetia assustada, e seguidamente.
- Por Ghaia, não façam isso, não.....Por Ghaia, não.......Ahhhhhhhhhhhhh!
Após este último grito a mulher cai desacordada, sendo imediatamente amparada por Willi e mais duas mulheres.
- Senhor, uma onda de distorção está se formando há três anos luz daqui e vêm nesta direção. - Breno
- Uma onda? De que magnitude?
- Magnitude onze senhor. - Breno
- Mas isso é impossível, somente a destruição de um corpo cósmico de grandes proporções pode causar uma onda dessas. Previsão de chegada
- Dez minutos senhor.- Breno
- Comandante Visher, entre em contato com sua frota, siga para as coordenadas 3-6-7-8-Gama. Entrar em contato com a frota das clatonianas, informar o ocorrido e as novas coordenadas. Recolham as nossas naves. Depressa homens, uma onda dessas pode destruir a Galípoli e tudo que está em volta.
- Escute aqui capitão, só nos aliamos para combater os malditos phaironianos. Nos devolvam nossa sacerdotisa e saiam daqui junto com estes malditos silvanos. Ou se preparem para o combate. - Centuriã Nanethe.
- Olhe seus instrumentos centuriã, é uma onda de distorção, magnitude onze, não vai sobrar nada no caminho. - Alecsander.
- Ele está certo senhora, a onda se originou...não, não pode ser, a origem da onda é Clatom.
- O quê, Clatom?
- Não há nenhum engano centuriã, é Clatom.
- Base na holotela centuriã.
Na holotela uma amazona com a face triste e ao mesmo tempo conformada, ostentando o escudo de guerra das clatonianas estava sentada na cadeira de comando.
- Centuriã Nanethe, essa comunicação é para informar da destruição de Clatom. O planeta foi violentamente atacado pelos phainorianos e as sacerdotisas acionaram o Julgamento de Ghaia, a onda deve passar pela base em 10 segundos.
Todas as naves da frota clatoniana estavam com suas holotelas focadas na mensagem que fora transmitida sem código, Clatom, o segundo mundo daquela raça, não existia mais. Um sentimento de impotência tomou conta de todas as sobreviventes.
Todas viram quando a figura a oficial que fizera a transmissão informou simplesmente.
- Adeus, a onda chego......
A frase ficou no meio do caminho. A base não existia mais.
À bordo da Galípoli e mesmo a bordo das nave dos silvanos permaneceu um silêncio absoluto, como se todos estivessem de alguma forma oferecendo uma oração para todas as clatonianas mortas. Um povo bravo e lutador que agora, pela segunda vez em sua existência se encontrava sem um planeta que pudessem designar de lar.
Foi Alecsander o primeiro a se recuperar do choque, neste momento o terrano de maneira sutil e não declarada acaba se investindo do poder de comandante supremo daquelas duas frotas que estavam estacionadas ali perto da Galípoli.
- Rápido, todas as naves para as coordenas apresentadas. Breno, calcule uma rota alternativa e envie sondas para o planeta Clatom, Centuriã Nanethe seria aconselhável enviara algumas naves para tentar contato com eventuais sobreviventes.
Pela primeira vez em milênios as clatonianas aceitaram, sem retrucar, as ordens de um homem.
Dois dias se passaram desde que a sacerdotisa albina desmaiara, somente agora a mesma voltava a se recuperar. O choque que ela sentira quando da destruição de Clatom por pouco não ceifara sua vida. Ao abrir finalmente os olhos ela reconheceu, com satisfação, duas centuriãs de sua raça postadas ao lado de seu leito. Mais ao fundo, fora do angulo de visão da sacerdotisa, Alecsander e Visher olhavam consternados à cena que se desenvolvia.
As duas mulheres clatonianas se abaixam em direção a sua líder espiritual e choram, choram copiosamente, enquanto a sacerdotisa põe uma mão na cabeça de cada uma, como a acalentar as duas mulheres que neste momento demonstram toda sua fragilidade feminina que a sociedade clatoniana escondera durante tantos milênios.
Ao lado de Alecsander, Visher, e outros oficiais terranos e silvanos, também apresentava os olhos lacrimejantes, o destino de seu planeta fora o mesmo de Clatom, os phaironianos conseguiram enviar uma bomba fototônica que explodiu no centro do planeta, após perfurar as camadas de terra e rocha que protegiam o núcleo do planeta. As duas raças que durante tantos milênios se odiaram e lutaram com fúria entre si, agora não passavam de náufragos espaciais, sem um mundo, sem um lar, enfim, jogados ao negrume do espaço, agrupados em naves não muito adequadas para servirem de morada. E pior, sendo perseguidos por um inimigo mortal e sem piedade.
O espanto foi grande quando se ouviu uma voz melodiosa e afinada, como a cantar uma canção. O idioma não era o mesmo utilizado pelas clatonianas, a surpresa foi maior quando Visher acompanhou a melodia. O momento de pesar se transformava em uma contemplação da vida, pois apesar do idioma estranho Alecsander e seus oficiais que ali estavam, compreendiam que a melodia falava de vida, falava de fertilidade, de amor. Um momento mágico estava se desenvolvendo ali.
Finda a canção a própria sacerdotisa albina, já sentada em seu leito toma a palavra.
- Meu nome é Gharata, traduzindo para a linguagem dos terranos é algo como filha da terra, na linguagem dos silvanos é filha da fertilidade, meu mundo não existe mais, minhas companheiras do Conselho não existem mais e fomos salvas por homens. A canção que acabaram de ouvir é o lamento das clatonianas, que vocês também chamam de amazonas. Nós nos lamentamos com Ghaia pelas perdas de vidas, e pela destruição de quase tudo que conhecemos. Com isso somos uma raça condenada à extinção pois com Clatom pereceram todos os poucos machos de nossa raça. Capitão, entrego a você o destino de minhas filhas, sim filhas, pois para uma sacerdotisa de Ghaia, toda clatoniana deve ser tratada como uma filha, não permita que esses malditos silvanos nos aprisionem.
- Saiba sacerdotisa que meu mundo também não existe mais, os phaironianos conseguiram explodi-lo e pelo que soube as colônias que vocês mantinham também foram atacadas e destruídas. Nas poucas naves que sobraram de meu povo também há escassez de mulheres. Também somos uma raça sem lar, condenada a extinção.
Diário do Capitão, 28 de Novembro A.L.G - ANO DE LANÇAMENTO DA GALÍPOLI.
- Devo confessar que nosso envolvimento neste confronto galáctico, nos levou a violar muitas das normas que norteiam nossa missão. Usamos nosso poder bélico em combates, arriscamos a vida dos tripulantes não militares ao usar a própria Galípoli como nave de combate, interferimos no desenvolvimento de duas raças diferentes, enfim, a essa lista podem ser adicionados mais algumas violações, mas isso não importa.
Conseguimos garantir a vida de duas raças que daqui a algumas gerações serão uma só. Fizemos ver às clatonianas, que também chamamos de amazonas, que as diferenças que elas possuem em relação aos machos não podem ser aplicadas indistintamente. Sei que o convívio entre Silvanos e Clatonianas não será muito fácil, mas a sacerdotisa nos garantiu que controlará seu povo, obtive a mesma promessa de Visher, com o fim do planeta dos silvanos esse comandante acabou sendo a maior autoridade viva dentre os sobreviventes. Mas uma coisa devo confessar, apesar de nossos esforços tudo teria falhado se não fosse Willi, essa oficial fez ver à sacerdotisa que homens e mulheres efetivamente podem viver juntos, com amor, sem se destruírem mutuamente. Nossa nave acabou servindo como sede de uma espécie de conferência de paz entre silvanos e clatonianas, mas todos são unânimes em dizer que a reunião somente conseguiu se desenvolver após a conversa reservada de Willi com a sacerdotisa e as centuriãs, o que se passou entre elas ninguém sabe. Willi prometeu às suas interlocutoras não comentar e segue firme nesta disposição, não posso força-la. Mas seja lá o que for o importante é que conseguimos dar esperança a duas raças que pensavam ter chegado ao fim de sua odisséia pela vida.
- Sr. Breno!
- Sim Capitão.
- Retome a rota, ainda temos 77 anos pela frente e muito serviço para fazer...
A Galípoli volta a sua rota anterior e segue, rumo ao infinito e desconhecido do espaço cósmico, trazendo a odisséia da humanidade para lugares onde nenhum ser humano jamais esteve...
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