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Nota do autor: Particularmente gostaria de deixar claro aos leitores que não cheguei a prestar o
serviço militar. Como se diz popularmente fui dispensado por excesso de contingente. Talvez a seqüência
dos cargos aqui descritos esteja incorreto. Se algum leitor deste conto acreditar que isso é algum tipo
de afronta à hierarquia militar saiba desde já que não é. Eu escrevi esse conto utilizando apenas meus
conhecimentos em patentes, sem pesquisar. Outra dica, utilizei-me aqui da convenção humana para designar
lapsos temporais, acreditei ser interessante se utilizar deste subterfúgio. Seria um pouco complicado
inventar novos lapsos temporais e ter de explicar tudo.Bem, com esse fato devidamente esclarecido vamos ao
que interessa.
Ninguém sabia mais o motivo daquela guerra. Ninguém sabia...
Ao completar 19 anos Balul foi encaminhado ao serviço militar. Este encaminhamento acontecia com todos os jovens recém saídos do ensino básico do planeta Sirgon. Os Sirgons são mamíferos, bípedes, onívoros. Sua estatura média é de 1,72 M, possuem seis dedos nas mãos e pés. A sua pele é azulada coberta com uma fina escama. Essa escama com o passar dos anos vai assumindo uma tonalidade alaranjada. Um Sirgon muito velho é uma ofensa aos olhos. Uma pele azulada com escamas laranjas. A natureza não foi bondosa com as cores para essa raça. Dos 19 aos 20 anos Balul foi submetido ao duro treinamento militar. Um sargento durão berrava com os recrutas o tempo todo. Não poderia ser diferente. Os jovens de Sirgon eram preparados para servir no fronte da interminável guerra travada contra os Beluks.
O bisavô de Balul também foi um recruta, assim como o avô e o pai. Balul não era casado, nem pensava nisso ainda, mas o futuro de um filho gerado por Balul também seria esse. Sair do ensino básico e passar um ano no duro treinamento militar, sendo designado então, findo o treinamento militar, a fazer parte de algum batalhão que estivesse em combate em algum dos mundos nos quais se fazia a guerra contra os Beluks.
Balul sempre fora um dos melhores alunos de sua turma no ensino básico. Sua matéria predileta era História. Mas no estudo de História Sirgon há uma grande falha. Nos livros se fala de como os Sirgons iniciaram a exploração espacial. O sistema Sirgon é composto por duas estrelas azuis. Denominadas simplesmente SARGON e SARGON II, os planetas são chamados de SIRGON, acompanhados do número que indica sua distância em relação a SARGON II, o sol interno. O que se encontra mais perto dos planetas. O sistema estelar que acompanha esses sóis é formado por 38 planetas. O planeta natal dos Sirgons é o quarto, a temperatura média deste mundo é de 23° C. Sua distância em relação ao sol interno é de 2,5 bilhões de quilômetros. Desde que iniciaram a exploração espacial a raça dos Sirgons colonizou os quatro planetas posteriores a sua órbita. Ou seja, os SIRGONS de V até VIII e respectivas luas. Os outros planetas não são passíveis de colonização. A temperatura é baixa demais.Apenas estações de pesquisa automatizadas foram construídas. Os Sirgons resolveram que era hora de explorar o sistema planetário vizinho ao seu. Assim o fizeram. Para sua surpresa encontraram uma outra raça neste sistema planetário vizinho. Encontraram os Beluks. Os Beluks são uma raça humanóide. São mamíferos, bípedes, onívoros. Sua estatura média é de 1,75 M, sua pele é de uma tonalidade marrom avermelhada. Em sua cabeça cresce uma enorme juba dourada. Uma juba como a ostentada pelos leões machos do planeta Terra. Até a idade adulta todos os Beluks possuem essa juba dourada. Com o passar dos anos a mesma adquire uma tonalidade mais clara. Em Beluks muito velhos se vê uma mistura de dourado desbotado com partes completamente brancas. As fêmeas da espécie também possuem a juba, mas nestas a cor é de um verde esmeralda. Também se observa nestas o mesmo fenômeno. O passar dos anos descora o verde da juba e aparecem trechos em cor branca. Uma fêmea Beluk invariavelmente gera dois filhotes. Raramente acontecem casos em que somente um filhote é gerado. Nestes casos a lei dos Beluks é severa. Mãe e filhote são exterminados sem a menor consideração. Mais raro é uma fêmea gerar três filhotes. Essas são louvadas como se fossem um oráculo ou uma sacerdotisa da criação.
Os Beluks, tal qual os Sirgons, exploravam o seu sistema solar. O sistema dos Beluks é composto por uma estrela Vermelha acompanhada por 10 planetas. Quando se encontraram com os Sirgons os Beluks estavam explorando o décimo planeta de seu sistema. Ali se deu o encontro. Foi um encontro pacífico. Ambos os povos não conheciam outras formas de vida inteligente que a sua própria. Ao saberem que eram vizinhos tão próximos um clima festivo e de confraternização tomou conta das duas civilizações.
Mas algo aconteceu. O clima cordial entre as duas civilizações se deteriorou. E uma guerra se iniciou entre as raças.
Aqui Balul sempre se perguntava. Qual a causa dessa interminável guerra? Os livros não traziam. Os professores não sabiam. Quando perguntou a um professor a razão daquilo a resposta que obteve é que quando estivesse formado pela Academia militar poderia perguntar a um sargento. Os militares saberiam lhe explicar como se iniciara aquele conflito interminável. Balul perguntou ao sargento que preparava sua turma. A resposta o decepcionou. O sargento lhe disse que somente os capitães teriam como responder àquela pergunta.
Ninguém sabia mais o motivo daquela guerra. Ninguém sabia...
Balul, tal qual fizera no ensino básico, se destacou na Academia militar. Se destacou principalmente em navegação. Como resultado foi designado piloto dos modernos caças espaciais LEN-05. Balul serviria no 15° Regimento de Caças LEN.
O recém formado Regimento de Caças foi designado para a nave capitânia Bella IV, esta por sua vez estava encarregada da defesa de SIRGON XXXVII. Os Beluks estavam em plena ofensiva. A órbita de SIRGON XXVIII já pertencia aos odiados inimigos que agora avançavam rumo a SIRGON XXXVII. Os regimentos de caça LEN-05 de números 15,16,17,18,19,20 foram enviados contra as naves Raio dos Beluks.
Essa guerra entre Sirgons e Beluks possuí características especiais. De um lado os caças LEN-05 possuem um armamento melhor do que as naves RAIO dos Beluks, mas os inimigos compensam isso com uma maneabilidade maior de suas naves. A grande falha das naves RAIOS é seu escudo de força que é fraco se comparado ao dos caças LEN-05. Para conseguir destruir um caça LEN-05 são necessários que duas naves RAIO ataquem simultaneamente. A sobrecarga de dois ataques causa pane no escudo protetor dos LEN-05 deixando os modernos caças expostos ao armamento inferior do inimigo. Por outro lado um disparo realizado por um LEN-05 consegue penetrar no escudo protetor dos RAIO. Nos combates travados na órbita de SIRGON XXXVII, os Sirgons sempre batalharam na base de dois adversários para cada caça.
O batismo de fogo de Balul foi uma violenta batalha travada na terceira lua de SIRGON XXXVII. Os RAIO apareciam como que em levas intermináveis. Para compensar a inferioridade de seu armamento os Beluks sempre empregavam grandes quantidades de naves. Os regimentos de LEN-05 do 15° até o 17°, cada um composto por 500 caças foram empregados na defesa. Balul se portou com maestria neste seu batismo. As silenciosas explosões de naves RAIO e caças LEN-05 agitavam o espaço tal qual um foguetório de São João. Mas as ondas de som não se propagam no espaço. O que fazia deste espetáculo dantesco um festival sem som. As naves RAIO tentavam forçar passagem para a nave capitânia Bella IV, sem sucesso. As perdas eram pesadas de ambos os lados. Ao fim de uma batalha que custou aos SIRGONS 1.200 caças e aos Beluks 2.500 naves RAIO estes se retiram. Os dizimados esquadrões de LEN-05 voltam triunfantes para sua nave capitânia.
Balul neste dia chora. Chora por ter visto tantos amigos pulverizados pelo fogo inimigo. Chora pela insanidade daquela guerra sem fim que dizima a juventude de dois povos vizinhos.
Os dias que se seguem marcam a chegada de reforços para os defensores. O alto comando SIRGON preparou uma contra-ataque. Com 10 naves capitânias cada qual com 3.000 caças LEN-05 os Sirgons partem para expulsar os Beluks de seu sistema planetário. Como já fora feito em diversas outras ocasiões. Esta guerra era cheia de alternativas. Ora os Sirgons se encontravam na ofensiva, tentando expulsar o invasor Beluk Ora estes é que se viam forçados a defender seu sistema planetário de uma invasão Sirgon.
Com um ataque combinado de 30.000 caças LEN-05 e mais 5.000 naves de porte variado os Sirgons lançam um ataque contra as linhas Beluks, as perdas são pesadas. De lado a lado. Enfim os Beluks são desalojados do sistema dos Sirgons e rechaçados para seu próprio sistema planetário. O sistema do Sirgons está livre dos invasores. Já recomposto, 15° batalhão se sobressai sobre os outros . Balul já era um veterano. Por dois meses participou de operações diárias, fustigando o inimigo. Sem descanso. A cada noite no entanto chora a morte de amigos. Por sua brilhante atuação naquela operação Balul foi indicado para ser promovido a Sargento. Ficou feliz, como sargento teria contato mais direto com o capitão. E pelo que seu antigo sargento da Academia dissera um capitão poderia lhe explicar o motivo daquela guerra.
O front da guerra se transferira para o espaço vazio entre os dois sistemas planetários. O alto comando Sirgon desta vez possuí um objetivo mais ousado. Desbaratar as linhas de defesa dos Beluks e iniciar a invasão aos planetas exteriores do inimigo.
Antes do início da nova fase da guerra Balul é promovido a sargento. Uma das esquadrilhas do 15° Regimento está sob suas ordens. E seu batalhão é o primeiro a atacar as linhas inimigas. Os Sirgons lutam com bravura. Apesar de sua inferioridade numérica fazem valer seu armamento superior. Mas tudo não passava de uma armadilha Beluck. Com um movimento de cunha os Beluks fazem os Sirgons entrar dentro de suas fileiras defensivas separando-se em dois. Deram a impressão de que o inimigo conseguira furar sua defesa abrindo um buraco bem no meio dela. O engano logo se demonstra mortal. Os Beluks acionam suas reservas e envolvem a frota atacante de maneira irreversível. Dos 40.000 caças LEN-05, 10.000 astronaves e 14 naves capitânias menos da quarta parte consegue voltar para suas linhas. O desastre fora completo.
Mesmo assim Balul combateu feito um demônio. Era costume dentre os pilotos de LEN-05 fazer uma marca na fuselagem de sua nave para cada nave RAIO abatida. Balul foi para o combate com 15 marcas. Voltou com mais de 50. Também se revelou um estrategista nesta catástrofe. Conseguiu tirar seu esquadrão do inferno desencadeado pelos Beluks perdendo apenas metade de seus homens. Uma verdadeira proeza.
Após esse ataque fracassado um período de relativa paz reinou na fronteira dos inimigos. Balul finalmente fez amizade com seu capitão e lhe perguntou, na esperança de finalmente Ter sua dúvida respondida, qual o motivo daquela guerra tão violenta. Para sua decepção o capitão respondeu.
Ninguém sabia mais o motivo daquela guerra. Ninguém sabia...
Talvez, lhe disse o capitão, o major soubesse responder. Afinal os superiores sempre possuem mais informações do que os subalternos.
Naquela noite Balul chorou, perdera muitos amigos. Matara muitos adversários. Mas não conseguia saber o motivo daquela guerra.
A paz finalmente acabou, os Beluks voltavam ao ataque. O esquadrão de Balul realizou proeza, após proeza. O sargento era um mestre da estratégia. Aos poucos sua capacidade de estrategista foi saltando aos olhos de todos. O capitão da Bela IV conversou com o major. Balul foi indicado para nova promoção. Foi indicado para capitão.
Dois anos se passaram antes da promoção. Mas Balul não se importava com a promoção. Só gostaria que alguém lhe respondesse a razão daquela guerra sem fim.
Finalmente o alto comando concedeu a merecido promoção ao jovem guerreiro. Balul agora, é capitão.
Com a mudança de cargo Balul foi retirado da Bella IV e passou a servir com a tropa de elite da frota de caças LEN-05. A nova nave capitânia na qual passou a servir se chamava ARVRON V. Era uma nova nave, maior do que a Bella IV, podia transportar dez esquadrões inteiros de caças LEN-05. Ou seja somente aquela nave transportava 5.000 caças LEN-05-A. Esse era uma versão aprimorada do LEN-05. Seu poder de fogo era superior ao seu antecessor.
O front da guerra se estabilizara agora no espaço vazio entre os dois sistemas planetários. Após o fracasso da última ofensiva os Sirgons temiam lançar novos ataques. Os Beluks por sua vez aumentavam suas forças diariamente. Logo uma ofensiva em larga escala seria desencadeada pelo inimigo. Das fábricas dos planetas dos SIRGONS mais e mais unidades de caças eram fabricados. Mas a Academia não conseguia suprir essas máquinas de guerra com pilotos altamente capacitados. Foi o capitão Balul quem arranjou uma medida paliativa para o caos que se iniciava nas linhas de defesa dos Sirgons.
Pensou o Capitão, e se as naves forem manejadas por robôs?
Até então, por incrível que possa parecer, nenhum oficial tivera essa idéia. Estava claro que no combate entre uma nave pilotada por um ser biológico e uma nave pilotada por um robô, a vantagem seria do ser biológico. Mas os Beluks nunca saberiam que pelo menos metade dos esquadrões de LEN-05-A estavam sendo controlados por robôs. Neste caso, ao verem a enorme quantidade de caças que os SIRGONS lançavam ao combate pesaria o fator psicológico. Afinal as naves RAIO eram inferiores ao LEN.
Isso poderia retardar a ofensiva Beluk, e a Academia teria tempo de formar os preciosos pilotos.
A ousada idéia foi levado ao conhecimento do Estado Maior de SIRGON.
Enquanto os estrategistas SIRGONS debatiam a idéia em seus tranqüilos e confortáveis escritórios, os batalhões de LEN-05-A, faziam o possível para manter os Beluks fora de seu sistema pátrio. As perdas Beluks eram na base de duas naves RAIO para cada caça LEN, mas mesmo assim os malditos avançavam.
Por três meses os SIRGONS enfrentaram uma situação desesperadora no campo de batalha. Bem, não havia como esperar mais. Balul, mesmo sem autorização do Estado Maior ordena que todos os caças que aguardavam pela formação dos piloto fossem ocupados por robôs programados para o combate.
E por sua iniciativa lançou essa formações nos combates encarniçados que se desenvolviam. Como por milagre as perdas em vidas humanas caíram. As naves RAIO concentravam seus ataques nos esquadrões robotizados, estes sofriam grandes perdas, por outro lado os esquadrões humanos conseguiam abater mais naves Raios, diminuindo a vantagem numérica dos atacantes. Por mais quatro meses essa estratégia funcionou. Finalmente a Academia conseguiu tempo para formar os tão preciosos pilotos.
O Major de Balul ficou em dúvida com seu capitão. Não sabia se lhe passava uma reprimenda e lhe aplicava uma corte marcial por desobedecer ordens. Ou se o parabenizava pela ousadia. Venceu a segunda hipótese.
Por dois anos a frente ficou estabilizada, assim como já estivera em outras ocasiões. Balul agora bem íntimo de seu major tomou coragem para a pergunta que há tanto tempo lhe atormentava. E finalmente perguntou. Qual o motivo daquela guerra interminável. Mas para sua decepção seu major lhe respondeu.
Ninguém sabia mais o motivo daquela guerra. Ninguém sabia...
O major aconselhou que Balul perguntasse ao Coronel. Os superiores sempre possuem mais informações que seus subalternos.
Novamente Balul chorou, estava no teatro de guerra há quatro anos. Combatia sem saber a causa, sem saber a razão. Chorou quando viu os jovens pilotos enviados pela Academia. Chorou tanto nas vitórias, como nas derrotas, pois independente de vencer ou ganhar todos os combates levavam para o reino da morte mais e mais jovens de ambas as raças.
Por mais alguns anos o capitão Balul permaneceu servindo a bordo da
ARVRON V, a frente de batalha permanecia quase inalterada, ora os SIRGONS lançavam alguma ofensiva capturando território Beluk, ora estes lançavam suas ofensivas e não só recuperavam seu território como ameaçavam território SIRGON.
Há muito tempo era assim. E milhares de SIRGONS e Beluks morriam a cada ano que se passava, em uma guerra funesta e sem fim.
Ninguém sabia mais o motivo daquela guerra. Ninguém sabia...
Ao completar seu oitavo ano como Capitão, de um total de 12 anos de serviço militar Balul têm um sério atrito com seu o Major que lhe comandava. O Major insistia em uma estratégia para tomar a Segunda lua do nono planeta do sistema Beluk, os SIRGONS estavam em mais uma das suas ofensivas rumo ao centro do território inimigo. Balul insistia em uma retirada estratégica para reorganização das tropas. O sistema de defesa adotado pelos Beluks lembrava a defesa em cunha já utilizada anteriormente com sucesso. O Major, queria uma vitória triunfante que deixasse o seu nome em evidência no Estado Maior. A ofensiva dos SIRGONS foi uma catástrofe. Contrariando ordens o Capitão Balul ordenou a retirada. Salvou com isso muitos pilotos e caças. O fato de desrespeitar as ordens de um superior o levou à Corte Marcial. Ambos foram chamados para SIRGON IV. Lá, perante o Estado Maior, na frente de Generais distantes do campo de batalha, com um sem número de estrelas em suas fardas,como a provar que eram grandes combatentes, quando a realidade era bem outra. A Corte Marcial do Capitão Balul foi acompanhada por todo o alto escalão. Os maiores estrategistas foram chamados para dar seu parecer. Nesta corte marcial encerrou-se a carreira do Capitão Balul. Balul foi promovido ao posto de Major. Seu antigo superior, o major que o levara a Corte Marcial foi gentilmente convidado a solicitar a baixa e viver o resto de seus dias como civil.
Balul ficou contente com sua promoção. Não pela promoção em si, mas pelo fato de comprovar que a retirada tática que ordenara poupara a vida de muitos SIRGONS. Também ficaria mais perto do Coronel. Seu antigo major havia lhe dito que um Coronel conseguiria lhe responder àquela pergunta que há tanto tempo fazia e ninguém lhe respondia. Qual o motivo daquele guerra.
Os Beluks desenvolveram uma nova versão das naves RAIO, uma versão mais versátil, melhor armada, mas permanecia o problema de seus escudos defensivos. A ofensiva agora era dos Belucks. Os SIRGONS foram expulsos do sistema Beluk e ficaram na defensiva. A situação ficou tão séria que o Major Balul mais de uma vez retornou ao combate pessoalmente, pilotando uma das novas LEN-05-B recém saídas das oficinas dos SIRGONS. O objeto da batalha agora voltara a ser o planeta SIRGON XXXVIII, O Major foi heróico e corajoso como sempre. Mas a ofensiva Beluk estava irresistível, mesmo os esquadrões robotizados não conseguiram, desta vez, fazer frente à ofensiva insana dos Beluks. Um a um os esquadrões SIRGONS são dizimados e vão recuando. Em três anos os Beluks avançam até SIRGON XXXII. À frente de suas tropas o Major Balul estava desanimado. Milhares de jovens morriam diariamente. O inimigo parecia ter reservas de sobra, pois a cada avanço milhares de naves RAIO eram abatidas, mas mesmo assim os Beluks não desistiam e atacavam, e avançavam.
Estudando o método de avanço dos Beluks, o Major Balul revela novamente o grande estrategista que é. Na órbita entre SIRGON XXXI e SIRGON XXII há um grande anel de asteróides. Um grave perigo para toda e qualquer nave que perambule por aquele pedaço do Universo. Arriscando tudo para defender sua pátria o Major ordena a seus batalhões que recuem até o anel de asteróides, uma vez lá façam uma cunha defensiva nas coordenadas enviadas. Sendo perseguidos tal qual uma gazela por um bando de hienas esfaimadas os esquadrões LEN obedecem àquela estranha ordem. Enquanto os esquadrões de LEN vão recuando as RAIO avançam ávidas para perpetrar um massacre. Então a ordem é dada, parar o recuo, avançar sobre o inimigo, pois neste instante 15.000 naves dos mais variados portes e modelos fazem um verdadeiro muro nas costas das naves RAIO, prensados entre as LEN, que na realidade fizeram uma formação de defesa que empurrou as RAIO para dentro do cinturão de asteróides. Ali aconteceuuma das mais maravilhosas vitórias dos SIRGONS naquela guerra sem fim. As baixas dos Beluks alcançaram o estratosférico número de 100.000 naves RAIO para 10.000 baixas dos SIRGONS. Os escudos defensivos das RAIO não suportaram os disparos dos LEN e das outras naves. Quando alguma RAIO conseguia escapar era abalroada por um asteróide.
Ao final daquele ano a frente de batalha voltara ao espaço vazio entre os dois sistemas vizinhos.
A cada 49 anos essa guerra sofria uma interrupção. Por um período de um ano não havia confrontos. Esse período finalmente chegou. Mas o Major Balul continuava insatisfeito. Neste período de relativa paz entre os vizinhos beligerantes era efetuada uma troca de prisioneiros. A ARVRON V foi encarregada de fazer a troca de alguns dos prisioneiros. Assim se fez, 500 Beluks capturados durante o conflito foram trocados por 500 SIRGONS. Mas antes da troca Balul, sem esperança que obtivesse a resposta à sua pergunta por intermédio de alguém de seu povo se dirige aos prisioneiros momentos antes da troca. E pergunta a estes o motivo daquela guerra sem fim. A resposta trouxe lágrimas à fronte do Major.
Ninguém sabia mais o motivo daquela guerra. Ninguém sabia...
Então era verdade, a guerra que durante milênios era travada não possuía um objetivo, não possuía um fim. Não possuía uma razão de ser.
Ninguém sabia mais o motivo daquela guerra. Ninguém sabia...
O período de paz esgotou-se, novo período de beligerância teve início. Por cinco anos o front permaneceu estabilizado no espaço vazio entre os dois sistemas vizinhos.
Balul resolveu arriscar novamente. Se tornara um amigo íntimo do Coronel que lhe distribuía as ordens. Então perguntou ao Coronel qual o motivo daquela guerra sem fim que ceifava a vida de tantos jovens SIRGONS e Beluks.
A resposta do Coronel foi chocante.
Ninguém sabia mais o motivo daquela guerra. Ninguém sabia...
Talvez, lhe disse o Coronel, o General poderia lhe responder. Afinal os Generais são muito mais instruídos e possuem mais informações do que os seus subordinados.
Balul não tinha mais lágrimas para chorar. Resignou-se com a resposta e como bom soldado cumpria seu dever.
Seu nome foi novamente lembrado para uma promoção. Dois anos depois o Major Balul foi substituído pelo Coronel Balul.
O Coronel Balul tinha sob seu comando 30 naves capitânias, cada qual equipada com as novas LEN -05-C, um desenvolvimento das LEN-05-B suas ordens, furar as linhas Beluks e se dirigir ao centro do sistema do inimigo. Não parar em nenhum planeta intermediário. Bombardear o planeta natal dos Beluks.
Ao todo o Coronel Balul estava com 100.000 LEN, 30 naves capitânias, mais 30.000 naves de auxílio. Principalmente naves de grande calado. Outras 30 naves capitânias, com outros 100.000 LEN e 50.000 naves de auxílio cuidariam de estabilizar a cabeça de ponte criada pelo Coronel. O General ao qual estava subordinado era o responsável por essa força de apoio.
Meticulosamente Balul prepara sua estratégia, um ataque direto seria suicídio em sua opinião. Seria conveniente um ataque de distração ao décimo e nono planeta dos Beluks. Quando a frota Beluk se deslocasse para defender essas áreas a força principal passaria pelo meio da defesa Beluk como um raio, indo parar apenas no planeta principal dos inimigos que seria vítima de feroz bombardeio.
O General discordou de Balul, as ordens do Estado Maior eram para um ataque frontal e decisivo. Balul tentou fazer seu General ver que um ataque frontal redundaria em uma grande derrota, mesmo com a brutal concentração de forças que os SIRGONS possuíam naquele momento.
Balul sempre fora um bom soldado, mas aquela ordem não poderia ser acatada. Irritado o General inverteu as posições, ele atacaria pelo centro da defesa inimiga e Balul viria atrás estabilizando as posições conquistadas.
Assim se fez. Como previra Balul a derrota dos SIRGONS foi clamorosa. Atacando pelo centro da linha de defesa Beluk os SIRGONS foram envolvidos em uma brilhante estratégia dos defensores. O General perdeu sua vida nesta loucura, ao todo os SIRGONS perderam 150.000 naves LEN, 50 naves capitânias, e 70.000 naves de auxílio. Só não perderam a totalidade da frota atacante pois Balul ordenou aos parcos sobreviventes que ao invés de baterem em retirada direto pelo espaço Beluk se dirigissem para fora do sistema destes.
A notícia da derrota acachapante caiu como uma bomba no meio do Estado Maior SIRGON. Os brilhantes estrategistas de pijama que comandavam a guerra tomaram uma lição que custou caro demais ao seu povo.
Irritado com aquela humilhante derrota Balul escreve uma carta aonde se dirige diretamente ao presidente dos SIRGONS. Essa raça possuí um sistema de governo democrático. O líder máximo do povo é escolhido a cada cinco anos, assim como um Congresso com 1.200 representantes, 600 de SIRGON IV, e 150 de cada um dos demais planetas.
O Velho mandatário acusa o recebimento da carta. Prometendo uma resposta em breve.
No front um novo General substituí o que tombou em combate. Esse novo General se demonstrava mais sábio e ponderado que o anterior. Balul achou que finalmente poderia repetir sua pergunta que tantas vezes ficara sem resposta. Aquele homem era sábio, ele tinha de saber. Balul novamente pergunta a razão daquela guerra que ceifava a vida de tantos jovens dos dois sistemas planetários.
O General olha profundamente nos olhos de seu subalterno e lhe responde.
Ninguém sabia mais o motivo daquela guerra. Ninguém sabia...
Estupefato com a resposta Balul se recolhe aos seus aposentos. Lá chora, chora para que aquela guerra sem fim termine. Chora para que as vidas de tantos milhões de SIRGONS e Beluks sejam salvas. Uma guerra sem fim, sem razão. Uma guerra travada há tanto tempo sem que se tenha um motivo. Não, pensou Balul, essa insanidade têm de acabar. Alguém, em algum lugar dos planetas SIRGONS ou dos mundos dos Beluks tinha de saber a resposta. Saber o motivo da guerra seria o ponto de partida para achar uma forma de acabar com a mesma.
Dois anos se passam e o Coronel Balul recebe uma correspondência do Presidente de seu povo. Sua presença é solicitada no Palácio Presidencial.
Sem entender bem a razão daquele chamado Balul no entanto parte para cumprir o chamado do mandatário máximo. E no gabinete presidencial o Coronel Balul é promovido a General Balul, tendo ainda a incumbência de fazer parte do Estado Maior dos SIRGONS.
General Balul. Um sonho realizado. Ali no Estado Maior Balul comprovou toda sua genialidade estratégica e militar. O front da guerra, que há séculos se mantinha circunscrito entre SIRGON XXVII e BELUCK IX, se deslocou para BELUCK V, mantendo-se então estável. Pela primeira vez o inimigo estava acuado em seu próprio território. Cinco anos se passaram. O velho presidente entregou seu cargo e o novo presidente já preparava as eleições que também lhe substituiriam do cargo. Balul, convencido pelos amigos se lança candidato por um partido de oposição. Seus feitos militares, acompanhados por um discurso político que ousadamente pregava o fim daquela guerra insana. Convenceram o eleitorado. O General Balul foi eleito em primeiro turno com 62,3% dos votos válidos.
O sistema de transferência de poder dentro da sociedade SIRGON era extremamente transparente. As campanhas presidenciais eram realizadas no primeiro semestre posterior ao quarto ano de mandato do presidente atual. Finda a eleição o candidato vitorioso passaria por um período de seis meses de aprendizado e adaptação dentro da estrutura governamental daquele ao qual iria substituir.
Balul passou os seis meses seguintes se preparando para dirigir seu sofrido povo. Iria fazer diversas e profundas modificações no sistema administrativo de seu povo. O trabalho era tanto que mesmo estando ao lado do ainda mandatário máximo de seu povo Balul por algum tempo se esqueceu daquela pergunta cuja resposta tanto o fizera chorar.
Finalmente chegou o dia da posse. Os novos e velhos ministros, secretários, e funcionários governamentais dos mais diversos escalões estavam ali. A faixa presidencial, seria passada ao General, uma nova fase se prenunciava.
Mas a pergunta sem resposta veio novamente à mente do grande General. Segundos antes da cerimônia o sofrido mas destemido guerreiro ousou, uma vez mais perguntar àquele que lhe passaria o poder.
- Qual a razão dessa guerra. Qual a razão de milhares morrerem a cada ano. O sargento não me respondeu, o capitão não me respondeu, o major não me respondeu, o coronel não me respondeu, meus colegas do Estado Maior não me responderam. Por favor Presidente, venho com essa pergunta em minha cabeça desde que me encontrava na Academia. Qual a razão dessa guerra. Após esses anos todos ninguém me respondeu.
O velho mandatário olhou fixamente nos olhos do Presidente eleito, sua resposta novamente arrancou lágrimas dos olhos de Balul.
Ninguém sabia mais o motivo daquela guerra. Ninguém sabia...
Dois meses após ser empossado Balul negociou com os Beluks um cessar fogo. Após quatro anos o cessar fogo se transformou em um acordo de paz definitivo. Ao entregar os destinos de seu povo para seu sucessor Balul tinha uma certeza, apesar de nunca ter conseguido ouvir a resposta correta para sua pergunta aquela maldita resposta nunca mais seria escutada
Ninguém sabia mais o motivo daquela guerra. Ninguém sabia...
Afinal, a guerra finalmente acabara.
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