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INFORMAÇÕES    
Autor: Vitor Hugo B. Ribeiro.
Título: Atron - Viver Outra Vez.
Publicação: 25/07/2006.
Categoria: Ficção Científica.
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FICÇÃO CIENTÍFICA      
Universo de Atron K-Rosam'vev - Livro I - Viver Outra Vez.
Por: Vitor Hugo B. Ribeiro

Imagem da Internet
Livro dividido por capítulos. Leia a introdução e aguarde a página carregar.

O Universo de Atron K-Rosam'vev foi criado por Vitor H.B. Ribeiro. Inspirado nos mais diversos segmentos da Ficção Científica ele criou um herói épico de proporções Galáticas. Atron, um ser imortal, que usa a fortuna adquirida por Rodrigo Maulson, seu último corpo, sua inteligência e coragem, para alcançar seu objetivo maior, encontrar sua verdadeira origem e o propósito de sua existência. Uni-se a esta trama, personagens cativantes e por vezes cômicos que ajudarão o herói na resolução de inúmeras intrigas, desencadeadas principalmente por seu mais ardiloso inimigo Jonas Carvalhosa. Nas aventuras de Atron podemos saborear um pouco de tudo, ação com pitadas de violência, amor com pitadas de sexo e amizade com pitadas de traição.

No Livro I - Viver Outra Vez, você caro leitor poderá delinear o perfil do personagem principal e deleitar-se com inúmeros personagens caricaturados ou não, que o cercam. Descobre como Atron usa seus poderes e como ele aproveita-se das situações mais inusitadas para alcançar seus objetivos. Também conhece sua namorada Janaina e toda a gama de vilões, que podem estar em qualquer parte da Galáxia e até mesmo no círculo mais próximo do nosso herói. Nesta primeira aventura Atron deixa o corpo de um Almirante falido chamado Guilherme Kirer e assume o corpo de Rodrigo Pereira Maulson.

No Livro II - A Busca, Atron com sua namorada Janaina e sua recém encontrada irmã Liany, embrenham-se em uma aventura há anos luz da Terra para solucionar um dos mistérios que envolvem a civilização que deu origem a Atron, todos seguem em busca de Martogh o Filho dos Deuses. Não faltará ação, emoção e toques de sensualidade.

No Livro III - Novos Caminhos, Vitor H.B. Ribeiro, em conjunto com a também escritora Sílvia S. Costa e a revisora e escritora Viviane N. Martins, dá continuidade a saga de Atron. Os conflitos intensificam-se. Nesta empreitada junta-se a ele sua irmã Liany, também imortal, a poderosa Orana Sylvia, a Capitã da UniCiv Adriana O'Riorke e seus antigos companheiros de aventura, todos a espera de uma ameaça desencadeada pela perigosa Ordem Zinédica enquanto eles buscam por Zonos. Será que ele terá as respostas para Atron? Fora isso Atron precisa livrar-se das normas e dos policiais da UniCiv - União das Civilizações.

No Livro IV - A Vitória do Inimigo, Vitor H.B. Ribeiro, em conjunto com a também escritora Sílvia S. Costa e a revisora e escritora Viviane N. Martins criam novos obstáculos para Atron. Atron e Sylvia, mais Liany, estavam preparados para localizar Kerian a base de Valéria e tentar chegar até Tirênia e destruir Zonos. Se falhassem, uma orana rebelde e o demônio encarnado iriam devastar nossa Galáxia e talvez outras, escravizando populações inteiras, destruindo planetas, torturando inocentes e tomando conta de cada faceta da vida de cada ser vivo nesta região do Universo... Seria o fim do mundo como o conhecemos... Estamos adentrando o ano-padrão de 2.770 da União das Civilizações, entidade politico-administrativa englobando milhares de planetas em 3.000 anos-luz cúbicos da Divisão Um da Galáxia da Via-Láctea, com sede em Zeta Hérculis e tendo como tripé governamental a Terra, Daryani e Thor, e como eminência parda, Oranus. Como semi-aliados os xyraxianos, e como ferrenhos inimigos os rominatenos. Sendo ameaçados de vez pela superior raça dos quibariis... Assim começa A Vitória do Inimigo!

O Futuro deste projeto é um mistério, contudo aqueles que tiverem oportunidade de ler as aventuras de Atron K-Rosam'vev poderão desfrutar de horas de diversão, em um mundo fantástico com criaturas bizarras, mulheres fortes e homens poderosos. Para aqueles que buscam aventura, encontrarão neste Universo um cativante personagem em um mundo cheio de possibilidades.

Vitor H.B. Ribeiro é Analista de Sistemas, tem 38 anos e mora em Sorocaba. Seus hobbies são: ler, escrever e ferreomodelismo. Adora ler Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e outros mestres da FC. O dom de escrever, ou pelo menos o gosto, herdou de seu pai, o seu maior incentivador, que tem vinte e seis livros publicados de não-ficção. Seu nome é João Ribeiro Jr. Adora criar, desde software até maquetes de cidades, e, claro, estórias como simples diversão. Leia outras obras do autor no Scriptonauta

Sílvia S. Costa é Bióloga tem 32 anos e mora atualmente em São José dos Campos. Escreve desde dos 12 anos e também é autora de vários fanfcitions inspiradas no universo de Jornada nas Estrelas e co-criadora do Universo da USS Atlantis. Também escreveu outras obras de Ficção Fantástica inspiradas no universo ficcional de Marion Zimmer Bradley. Leia outras obras da autora no Scriptonauta.

Um pouco mais de Atron K-Rosam'vev...

Em 2.763, Ano Padrão Solar, Atron K-Rosam'vev mudou novamente de corpo. De Guilherme Kirer passou a ser Rodrigo Pereira Maulson. Isso aconteceu em Morros Gêmeos, Subdistrito de Minas Gerais, Distrito do Brasil, Terra, Livro I - Viver Outra Vez.

O ser que nasceu em Marte, a cerca de quinze mil anos atrás, tinha este estranho poder. Fôra-lhe concedido por Martogh, Filho dos Deuses e desde então Atron tem pulado de corpo em corpo. Juntamente com sua irmã Liany, deveriam guardar a Chave da Prisão de Zonos, o Imperador Negativo. Porém, Atron/Rodrigo não mais podia lembrar-se, com detalhes, de sua primeira vida, da tal chave ou de quem foram Martogh ou Zonos. Tudo que sabia é que deveria procurar uma lendária estrela verde de nome Tarínia. Além disso, lembrava-se que fôra um dos reis de um imenso império que era governado por Marte, o Império Lemântico. E Marte, naquela época, era chamado de Leman, que significava A Fonte de Todo Poder. Tinha armazenado as memórias de todas as suas outras vidas, a partir de seu segundo corpo. Ficavam numa fenda entre o Universo e o Ante-Universo.

Desde sua segunda vida, como Kim Kay-War, no distante planeta de Tarrent, Rodrigo procurava a razão de poder pular de corpo, o motivo de seu império ter sido arrasado, quem eram aqueles com quem conviveu quando era Atron e também a localização de Liany, sua irmã gêmea, se é que ela ainda tinha sua alma neste Universo. Agora, depois de quinze mil anos, ele possuía o capital e a tecnologia para partir em sua busca...

Prólogo.

Em 2.763, Ano Padrão Solar, Atron K-Rosam'vev mudou novamente de corpo. De Guilherme Kirer um Almirante falido ele passou a ser Rodrigo Pereira Maulson, um tímido e franzino estudande de física quantica e herdeiro de uma grande fortuna, que tem toda a sua vida transformada depois de receber a alma de Atron. Isso aconteceu em Morros Gêmeos, Subdistrito de Minas Gerais, Distrito do Brasil.

O ser que nasceu em Marte, a cerca de quinze mil anos atrás, tinha este estranho poder. Fôra-lhe concedido por Martogh, Filho dos Deuses, e desde então Atron tem pulado de corpo em corpo. Ele, deveria guardar a Chave da Prisão de Zonos, o Imperador Negativo. Porém, Atron/Rodrigo não mais podia lembrar-se, com detalhes, de sua primeira vida, da tal chave ou de quem foram Martogh ou Zonos. Tudo que sabia é que deveria procurar uma lendária estrela verde de nome Tarínia. Além disso, lembrava-se que fôra um dos reis de um imenso império que era governado por Marte, o Império Lemântico. E Marte, naquela época, era chamado de Leman, que significava A Fonte de Todo Poder.

Tinha armazenado as memórias de todas as suas outras vidas, a partir de seu segundo corpo. Todas ficavam numa fenda entre o Universo e o Ante-Universo.

Na metade dos anos 2.700, a União das Civilizações, UniCiv, onde Rodrigo morava, era uma sinarquia. Englobava a Terra com os humanos, Thor com os thorianos e Daryani com os darys, além de centenas de outras civilizações e raças. Tendo sua origem na região do espaço de nome Cubo Alfa, expandiu-se rapidamente pelos Cubos Beta, Gamma, Exterior e partes dos Cubos Delta e Zeta. Mas encontrou inimigos poderosos, como os rominatenos e os quibariis. E tinha alguns aliados briguentos, como os ylsios e os xyraxianos. Leia a primeiro livro e entre neste Universo...


Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo I.

A chuva caía de forma consistente sem parar a horas, na noite fria, enquanto um rapaz franzino, ferido e de roupas rasgadas, caminhava cambaleante pelo cemitério. Estava encharcado e infeliz, desnorteado, e sua mente só se concentrava num assunto: matar-se.

Havia em seu coração um único sentimento, a tristeza. Seu mundo particular estava reduzido à cinzas. Sua vontade de viver se fôra para sempre.

As lápides dispostas de forma irregular o aturdiam: pareciam dizer-lhe para juntar-se à elas. Tombou na lama, machucando o braço, e tentou enxugar o rosto que misturava chuva e lágrimas.

Havia apanhado bastante, mais do que as últimas vezes. Sentia-se desamparado demais para raciocinar direito. Caiu novamente numa poça de água e recostou-se num túmulo, tentando esquecer a última hora, onde fora humilhado e espancado pelos amigos da faculdade, aqueles invejosos que não suportavam o pequeno mas brilhante gênio. E ele era mesmo um gênio, Q.I. altíssimo, expert em eletrônica, computação, astronomia, física, biologia, química e matemática. Tornara-se no entanto anti-social e chato, arrogante. E quando seus sentimentos humanos o guiaram à festa da república dos Malucos Safados, pensara em se enturmar, fazer alguns amigos, pois não tinha nenhum, porém só conseguira antipatia, humilhação e por fim, uma briga.

Agora estava ali, naquele cemitério, tarde da noite, desamparado e só. Ouvia a voz de seu pai dizendo: eu avisei: você não precisa daqueles inferiores. Esqueça-os.... Ou sua mãe, que não lhe dava muita atenção: querido, você está tão feinho, tão mau vestido...Seu pai não lhe dá dinheiro para comprar roupas melhores?.

Dinheiro nunca fôra problema para a família dele, mas seus pais...Totalmente omissos...E ele, frágil fisicamente, frágil de saúde, apenas com um cérebro privilegiado.

Chorava copiosamente. Dezenove anos e nunca tivera uma namorada...Uma amiga mais próxima sequer. Não era gay, alias, nem amigos gays tinha. Sentia-se completamente inútil. Sentia-se acabado. Queria por fim a tudo. Queria se matar.

Entrou num mausoléu abandonado e coberto de mato, para se abrigar da tempestade e tentar pensar num meio de acabar com sua vida. Sentou-se no chão frio de mármore. Estava escuro, mas tudo aquilo não lhe dava medo: afinal, o que importava? Seria melhor que viesse um fantasma e o levasse embora...

Algo se moveu a sua frente e ele rapidamente mudou de idéia: um fantasma? Estava arrepiado até o fundo da alma. Havia alguém ali.

- Ei, garoto, o que você está fazendo tarde da noite neste cemitério? - soou uma voz rouca e trêmula - Com uma chuva dessas...Está perdido?

Era a voz de um velho que a escuridão não deixava ver, logo à frente dele. Engoliu seco e respondeu inseguro:

- Estou...Perdido...

- Ah! Bom, me parece que está ferido também...E suas roupas estão rasgadas. Você foi assaltado ou algo assim?

A última coisa que Rodrigo queria era falar com alguém, ainda mais com um mendigo bêbado em um cemitério. Com esforço levantou-se e saiu, tentando correr. A perna falseou e ele caiu de cara numa poça de lama. Levantou-se, com ódio, e novamente tentou correr, caindo mais uma vez ao tropeçar numa lápide.

O velho ergueu-se com muita dificuldade. Curvado sob o peso da própria corcunda, olhou curioso de dentro do mausoléu o jovem que chorava naquela noite pouco hospitaleira. Rodrigo estava enlouquecido. Não suportava mais tanta humilhação. Lembrava-se de coisas antigas, da rejeição na escola primária, das surras, dos foras com as garotas...E então achou o que queria...

O velho estreitou os olhos embaçados pela idade para enxergar melhor aquele garoto maluco. Ele começou a rir freneticamente e gritou:

- Liberdade! Quero liberdade deste corpo horroroso e fraco!

E para a surpresa do mendigo, que não estava nem um pouco bêbado, o rapaz deu um salto e sumiu de sua vista.

O ancião entrou na chuva fria, forçando as pernas cansadas em direção ao precipício onde Rodrigo pulara, obviamente para o rio que ali passava. Que maluco! Que completo maluco!, pensava ele enquanto tentava correr. Acho que quer se matar.

O rio estava cheio, e mau se podiam ver as águas marrons que seguiam em velocidade. O velhote tentou achar Rodrigo, mas era quase impossível.

- Garoto, você está aí? - Gritou.

Se caiu na água, já deve estar se afogando - pensou. Se fosse vinte anos mais moço...Então viu algo mexer-se na escuridão: era o rapaz se debatendo na água, segurando num galho, quase sendo levado pela correnteza.

Rodrigo estava arrependido: não tinha coragem de morrer. Ao pular quase se afogara e por extinto agarrara-se ao galho...Mas a força da água o estava levando, e ele sabia que seria seu fim se soltasse. Viu o mendigo descendo com esforço o barranco, tentando chegar até ele. Vai morrer junto comigo, o idiota - pensou.

O velho conseguiu escorregar na lama até a margem e esticou o braço:

- Pegue aqui, seu maluco, pegue a minha mão!

- Não posso...Se eu soltar uma mão, não conseguirei segurar o galho!

- Tente! Pegue aqui e eu o puxarei!

Rodrigo estava em pânico. Berrou, as águas da chuva e do rio o castigavam:

- Não! Seu velhote bêbado, se eu pegar sua mão, vamos os dois juntos rio abaixo!

- Pega, seu merdinha!

Um barulho terrível de árvores e lama acompanhou um trovão e ambos viram uma enxurrada descer na direção deles. Não havia tempo. O ancião tentou com todas as forças agarrar a mão do rapaz, conseguindo no momento que a enxurrada os atingiu.

Sendo arrastados pela margem, cobertos de lama, parecia não haver modo de se salvarem. O velho enterrou as unhas na terra e num esforço sobre-humano levantou-se da enorme quantidade de barro e galhos que o assolava, ainda puxando a mão do rapaz.

A chuva continuava a cair forte, e aquele cemitério às margens do rio era iluminado vez ou outra por clarões de raios e relâmpagos. Trovões completavam o quadro, e não havia ninguém para acudir o velho.

Ele usava suas últimas energias para sair do rio, puxando Rodrigo, tentando se livrar das águas barrentas. Mas era muito velho, a dor da artrite comendo as juntas, o coração cansado batendo sem ritmo. Sentia que ia morrer, e o moleque suicida iria junto com ele.

O nome do velho era Guilherme Kirer. Um homem com um segredo. Um segredo que o fazia especial, diferente. Ali, naquela momento, achava que ia morrer, esperava, ansiava por isso já a algum tempo. Não era suicida como o rapaz que tentava salvar, mas já vivera tanto, tivera tantos momentos felizes e tantos outros tristes, que acabar ali, não seria ruim. Mas prezava a vida, a vida de inocentes, como aquele garoto parecia ser, então precisava ao menos salvá-lo.

Guilherme, esforçando-se para subir pelo barranco lamacento, lutando contra a enxurrada, olhou para trás: Segurava a mão e via o braço de Rodrigo seguir sob as águas marrons. Ele está se afogando! Não tenho forças para puxá-lo...Se largar, poderei sair daqui...

Mas Guilherme não largaria a mão daquele rapaz. O velho tirou forças de onde não existiam e puxou...Puxou...A água tentando levá-los...Puxou e se arrastou barranco acima, pela lama, quase sem conseguir respirar. Seu braço doía e formigava, a mão de Rodrigo estava gélida na sua...

Demorou uma eternidade, mas o velho conseguiu arrastar-se para a segurança puxando o garoto, que estava roxo. "Afogou-se!" - pensou Guilherme, tentando lembrar-se das técnicas de ressuscitação. Aplicou-lhe respiração boca-a-boca, mas era tarde demais. Rodrigo estava morto. Afogado.

Guilherme também estava ruim. Começou a tossir muito, e a tremer violentamente. Seu corpo atual já passara dos cento e dez anos e deixara de medicar-se há muito tempo, portanto sem poder usufruir de nenhuma droga rejuvenecedora.

Iria morrer provavelmente naquela noite, mas havia seu segredo, que compartilhara com poucos ao longo de sua vida, sua vida real. Então a dúvida que assolava sua mente era: iria seguir adiante ou deixar-se ir...

O ser que habitava o corpo de Guilherme não era o verdadeiro Guilherme, o que nasceu naquele corpo. Quem nascera naquele corpo morrera num acidente com uns quatorze e poucos anos. Agora a casca humana servia de moradia para outro ser. Um ser que em sua origem chamava-se Atron K-Rosam'vev, e que possuía a estranha habilidade de mudar de corpo, mantendo sua alma e sua memória fabulosa intactas.

Caiu ao lado do jovem rapaz, a observá-lo...Seu segredo, seu tão precioso segredo, seria a única solução...E Rodrigo estava morto mesmo. Mas será que valeria a pena recomeçar pela enésima vez? Tinha pouco tempo para decidir.

Sentiu-se morrendo, estava partindo. Resolveu pela vida.

A velha memória quase o traiu, mas lembrou-se das palavras, dos gestos e do ritual. O Ritual da Transferência começou. Como já acontecera tantas e tantas vezes, sentiu sua alma flutuar lentamente para fora do corpo de Guilherme, que deu um último suspiro. Percebeu forças que vinham de algum lugar tentando levá-lo para...Para onde? Um dia descobriria, mas queria voltar ao mundo dos homens. Ele podia ver o corpo morto de Rodrigo. Entrou nele. Sentia uma dor que não era uma dor, uma aflição que vinha de lugar nenhum. Um milagre que sempre acontecia operou-se no jovem rapaz. Sempre que Atron trocava de corpo, o corpo receptor se recuperava de qualquer ferimento ou doença que tivesse; mas isso só ocorria no momento da recepção da alma de Atron. Depois tudo seguia seu curso normal.

Atron/Rodrigo agora eram uma nova pessoa que adoeceria, se fereria e envelheceria normalmente e morreria, se Atron não pulasse novamente para outro corpo.

Ele abriu os olhos, olhando para a chuva, e respirou fundo. Sentir-se jovem e saudável era muito bom. Levantou-se lentamente e observou o seu antigo corpo, e sorriu:

- Você foi um bom companheiro. Mas agora é hora de recomeçar, velho amigo.

O rapaz franzino não tinha forças para carregar o velho Guilherme, então teve de puxá-lo pelos braços, através da lama e das lápides, até o mausoléu abandonado que lhe servira de moradia nos últimos meses.

Aos poucos a memória da vida de Rodrigo começou a permear a mente de Atron, e este não gostou muito daquelas lembranças; eram lembranças ruins.

Mas agora pertenciam a ele, pois era Rodrigo Pereira Maulson, brasileiro, dezenove anos, um pequeno gênio, virgem e muito rico. Atron suspirou: uma nova novela começava para ele, com variáveis um tanto intrigantes.

De qualquer forma iria aproveitar mais essa chance. Depois de milênios, não se cansara de viver. Mas decidiu que iria intensificar as buscas pelo seu passado e como adquirira aquele estranho poder de trocar de corpo, pois isso, seu começo, ele não podia recordar. Caminhando na chuva em direção à estrada, achou que deveria tentar descobrir o que acontecera em sua primeira vida. Era a única de que tinha apenas vagas recordações. Depois de tanto tempo, já era hora.

****

Alta madrugada, e a tempestade dera lugar a uma chuvinha incômoda. Os relâmpagos iluminavam um pouco da estrada que levava à Morros Gêmeos. Estava um pouco frio, mas Rodrigo não se importava em caminhar ali. Não tinha mais nenhum hematoma, porém suas roupas rasgadas e sujas de lama eram desconfortáveis.

Ao longe avistou a pequena cidade encravada entre dois morros, os gêmeos, e a grande Universidade de Minas Gerais, onde estudava. Aos poucos lembrava das humilhações que os Malucos Safados infligiam constantemente à ele. Lembrou-se dos pais, omissos, e da falta de amigos e amigas.

Vamos ter que dar um jeito nisso, Rodrigo. Você tinha uma vida danada de ruim, não é mesmo...Enfim, que vai ser divertido, isso vai..

****

Sentia-se muito bem, tão bem que decidiu subir um dos morros e admirar o nascer do sol. O nascer de uma nova vida, pensou, olhando a maravilha da natureza apresentar-se, num dia que se pronunciava bonito, sem relação com a noite passada. O ar puro entrou nos novos pulmões e Rodrigo sentia-se feliz.

Com o Sol brilhando, desceu, entre as brumas finas da manhã mineira, em direção à pequena cidade, cumprimentou os transeuntes, que, claro, estranharam, principalmente quem já o conhecia. Chegou à mansão Maulson, o porteiro eletrônico identificou-o e deixou-o entrar. Ele atravessou os exuberantes jardins sua mãe mais se preocupava com eles do que com seu filho, e entrou pela grande porta. Estava faminto, então seguiu à cozinha, onde ouviu barulho.

Seu pai o olhou zangado, com seu grosso bigode grisalho, cabelos do mesmo modo, roupa impecável e jornal holográfico à frente.

- Onde esteve, seu...Seu moleque! O porteiro avisou que chegou agora, seis da manhã! Esteve com aqueles seus amigos...Aqueles inferiores? Aqueles burros?

Sua mãe parecia não tê-lo notado, continuou a pintar as unhas, seu café esfriando na mesa. Rod estava calmo. Já passara muitas vezes por tudo isso. Agora se divertia.

- Desculpe-me, senhor. Só estava estudando os...inferiores, seus modos de agir. Infelizmente eles descobriram que eu os estudava e - abriu os braços - me rasgaram as roupas. Mas foi bastante...Educativo, senhor.

Armando Maulson levantou-se, furioso, apontando para o rapaz:

- O que pensa que eu sou, idiota?

Exatamente! - Pensou Rod.

- Vá se lavar, e vai estudar o dia todo, sem comer e sem dormir, como castigo!

- Ora, darling, não seja tão grosso com nosso filho...

Rod sorriu para sua mãe:

- Obrigado, mami.

- Obedeça! Agora!

Ele obedeceu, fingindo-se chateado e subiu para seu quarto. Entrou e o achou horripilante, definitivamente não era um quarto de um rapaz de dezenove anos, era formal demais, limpo demais. Os VDs eram todos de filmes antigos ou educativos, chatos, e os sounders eram de música erudita e ópera. Nem sequer um pôster de mulher pelada! Não que não gostasse de ópera ou de coisas instrutivas, mas como jovem, achava melhor agir como tal. Contudo, não era hora de grandes revoluções, teria que trabalhar escondido no novo Rod, desenvolver o físico, organizar um monte de coisa e...Mudar de curso na faculdade: nada contra Física Quântica, mas ele preferia algo como Astronavegação...Afinal ele não era mais o antigo Rodrigo...

Tomou uma turbo-ducha, vestiu roupas limpas - rídiculas - pensou - e saiu pela janela. Andou até a fazenda vizinha e pulou a pequena cerca, finalmente deitando-se sob uma frondosa mangueira. Dormiu sonhando com seu corpo jovem, sonhou em fazer sexo de novo, afinal nem se lembrava da última vez...


Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo II.

Douglas Sameros era um velho e animado senhor de quase noventa anos, mas muito saudável, e noventa anos naquela época não era muito. Perdera a esposa há algum tempo e seus filhos estavam longe, vivia então sozinho na grande fazenda, onde cultivava um pouco de tudo.

Era quase meio-dia, estava quente no sertão mineiro, e um céu azul irradiava prazer às aves e aos pequenos animais que habitavam as plantações. Douglas sorria ao admirar a natureza, feliz, e cantarolava antigas canções sertanejas.

Assustou-se ao ver o garoto dos antipáticos Maulsons dormindo debaixo de sua mangueira. Um garoto estranho, de tez alva, cabelos loiros, magro e feio. Tivera uma ou outra oportunidade de conversar com ele, e até onde se lembrava, era muito chato.

- Acorda, meu filho, já é hora do almoço! - Disse, em seu sotaque acaipirado mas culto, como os de todos os mineiros daquela época.

Rodrigo abriu os olhos e se espreguiçou, sorrindo para o homem que sua nova memória custou a identificar.

- Olá...Desculpe-me a invasão, mas esta sombra estava tão aconchegante...

- Ora, todos aqui são sempre bem-vindos, desde que não prejudiquem a fazenda.

- Obrigado - Rod levantou-se, batendo suas calças - sua fazenda é muito bonita.

Douglas sorriu:

- É, tenho orgulho dela...E nada de robôs, nada de máquinas, tudo pelas minhas velhas mãos - olhou para elas - adoro isto aqui!

- E com razão - o rapaz respirou fundo - parabéns, é bom saber que ainda existem pessoas como o senhor, simples, do campo...

O velho riu-se e colocou as mão no bolso do macacão surrado, olhando a extensão de sua propriedade:

- Garoto, confesso que estou surpreso, você me parece diferente.

- Em que sentido? - Rod estava com um sorriso nos lábios.

Sameros ergueu as sobrancelhas e sacudiu a cabeça:

- Não sei, parece mais simpático do que costumava ser...Quer almoçar comigo?

Rodrigo lembrou-se que estava de castigo e logo aceitou a idéia:

- Claro, será um prazer.

****

O delicioso almoço natural foi um deleite para o jovem rapaz, cujo corpo não agüentava mais comida sintética. Milho, carne de porco, e de sobremesa um belo pudim de leite. Estava satisfeito, e seu novo amigo também. Douglas Sameros estava contente em conhecer de perto Rodrigo Maulson, um rapaz alegre e simpático, diferente do grosso e fechado menino que vira antes. E depois de tantos anos de solidão, era bom ter uma companhia agradável.

- Venha, vou lhe mostrar a fazenda.

- Desculpe-me, teria muito prazer nisso, mas preciso dormir mais um pouco e depois fazer uns exercícios para este corpo sedentário, prometo que amanhã o acompanharei num tour. Posso deitar-me lá na mangueira novamente?

- Usa a cama do meu filho, no quarto dos fundos. Está vaga há tanto tempo que está até enferrujada...Ele nunca vem me visitar. Só a Dorinha, vez ou outra...Os outros nem lembram deste velho perdido em algum canto da Terra.

- A ingratidão dos filhos machuca como um ferro em brasa trespassando o coração.

- Nossa, onde aprendeu isso?

- Não me lembro, algo que eu li...Mas a vida é assim, senhor Sameros.

- Ara, que é isso, me chame de Doug.

- Pode me chamar de Rod. E muito obrigado pela comida.

****

Ao cair da tarde daquele dia, Rodrigo entrou no estábulo e admirou os dois cavalos que lá estavam. Achou-os bonitos, mas o que queria mesmo era montar um ginásio. Com pneus velhos e outras bugigangas montou aparelhos de musculação e exercitou-se até o anoitecer.

Estava escuro quando Doug apareceu, segurando um balde.

- Você está bem? Parece cansado.

- Este corpo está muito fora de forma...- respondeu o jovem, arfando - Agora, espero que não se incomode com o meu ginásio. Meu pai não quer que eu pratique esportes ou faça exercícios físicos...Então tive de fazê-los aqui. Como já lhe contei, Doug, meu pai acha que o ser humano é só mente.

O velho foi alimentar os cavalos nas cocheiras.

- Ora, ele não sabe de nada. Fique a vontade aqui, garoto, estou precisando de companhia mesmo...A fazenda é sua. Exercite-se, durma, só não mexa com as plantações e os animais.

- Pode deixar, e obrigado mais uma vez.

****

- Rodrigo, venha jantar! - Gritou Marlene Maulson.

O rapaz desceu as escadas com ar de inocente. Sentou-se à enorme mesa enquanto os robôs serviam a comida sintética, e olhou seus pais: sua mãe falava com uma amiga num VDcom flutuante, e seu pai lia o holo-jornal da noite. Ambos passaram a levar a comida lentamente e de modo desatento à boca, aqueles cubos verdes esquisitos, e estavam todos distantes entre si. Rodrigo sentiu-se pior do que quando viveu sozinho naquele cemitério, como Guilherme.

Estava faminto, então devorou tudo e pediu mais à robô-copeira.

Sua mãe percebeu, apertou o stand by do VDcom e virou-se para ele:

- Nada disso! A economia da Terra vai mau, temos de economizar massa alimentar! Sabe quanto está custando o quilo?

- Mas, mãe, a companhia do papai está dando rios de dinheiro...

Armando Maulson falou:

- Nunca é demais economizar, meu filho, você tem que aprender isso desde cedo. A-2, ignore o comando e recolha-se.

A robô-copeira A-2 saiu da luxuosa sala de jantar. Quem não gostou foi Rodrigo, que no entanto calou-se e observou seus novos pais. Odiava-os.

****

O fim de semana acabou rápido e era segunda-feira, mais um dia quente e azul. Entrando no campus da UMG, de prédios simples e baixos, Rod encaminhou-se para a Secretaria de Cursos e pediu sua transferência.

Cuidadosamente evitou os amigos de seu velho curso e esperou até a tarde para saber se haveria vagas e possibilidade de mudança. Felizmente tudo deu certo e começaria no segundo ano de Astronavegação na terça-feira, perdendo os dois anos e meio que já cursara de Física Quântica.

Voltando a pé para casa, já que a mansão Maulson não ficava longe, Rodrigo pensava em seus pais, que não poderiam saber da transferência. Teria de ocultá-la ao máximo.

Entrou na mansão, a casa estava vazia no meio da tarde, e seguiu para os fundos, indo para a fazenda Sameros. No estábulo, seu ginásio improvisado, voltou a treinar.

****

Entrou na sala de aula, uma sala de círculos concêntricos recheados de carteiras, onde no centro hologramas ensinavam através de um professor-computador. Sentou-se na carteira a ele designada e ligou seu computador. Alguns alunos olharam para ele mas logo o ignoraram: sou feio e uso roupas ridículas, mas esta situação vai mudar - pensou, e concentrou-se na aula. Já conhecia muito de navegação no espaço sideral (das suas vidas anteriores), mas era bom atualizar-se, e um diploma na área seria útil.

Após uma explanação complexa do computador, onde hologramas de naves espaciais, estrelas e planetas surgiam como ilustração, a seção de perguntas começou, e, claro, Rodrigo respondeu as que lhe couberam com perfeição.

No intervalo foi direto à biblioteca, evitando quem quer que fosse: ainda não é hora de me expor, e preciso estudar algumas coisas que este corpo desconhece - pensou Rod, e assim fez nos dias que se seguiram. E logo seis meses se passaram.

Estudava muito, se exercitava, alimentava-se bem, dormia bem, evitava as pessoas e ficava completamente passivo quando estava com seus pais. Douglas era seu único amigo, com quem conversava longamente, e na fazenda comia o que não podia em casa, praticava musculação e natação, corria. Em casa, estudava o comportamento de seus pais, e aos poucos mudava seu próprio quarto. Nunca Marlene ou Armando iam naquele cômodo, e o robô-mordomo A-1 era o único que o incomodava.

- Aquele robô é um pé-no-saco, Doug. Mas estou estudando um pouco de robótica e vou mudar aquela programação estúpida. Quero um quarto que combine comigo.

Doug riu, passando-lhe mais pão-de-queijo:

- É, essas máquinas só servem para atrapalhar. Pode deixar, garoto, vou arrumar uns pôsters bem legais para você. Ah, se eu tivesse sua idade...Em falar, nisso, e a namorada?

- Isso é questão de tempo. Não se preocupe. Aqui está o dinheiro que lhe devia - Rod deu a Douglas algumas moedas plásticas - para pagar as novas roupas. Obrigado mais uma vez, amigo.

O velho riu-se, como sempre:

- Bem, faço qualquer coisa para ajudar. E seus pais são...Terríveis, se me perdoa dizer isso.

- Claro que perdôo, Doug, eles são mesmo.

- Onde conseguiu esses creds? Seus pais tão..."econômicos", nem te dão mesada... - Disse o velho, sarcástico, virando uma xícara de café, de aroma delicioso.

Rodrigo passava manteiga natural num pãozinho fresco de queijo.

- Peguei emprestado da minha mãe.

- E ela não vai descobrir?

O jovem falou com a boca cheia:

- Espero que sim.

Ambos riram bastante.

****

Era uma manhã quente de sábado, e a mansão estava vazia, exceto por Rod e os robôs-servos. A-1 estava todo desmontado no chão do quarto do rapaz, que mexia em sua programação e cantava junto com a música dos Jumpers tocando num sounder.

- Prontinho, mister A-1. Agora você é meu escravo completo.

Ligou o robô. A estranha criatura flutuou:

- Sim, senhor, o que deseja? - Disse em sua voz masculina suave e agradável.

- Descubra a senha do computador de papai sem que ele perceba.

O robô saiu silencioso pelo ar e Rodrigo então levantou-se e esfregou as mãos uma na outra:

- Agora, vamos reformar isso aqui.

Colocou os posters que Doug lhe arrumara, lindas modelos nuas em posições sensuais, trocou o tapete por um de cor berrante, desenhou bigode e chifres na estátua do General Belar, desarrumou a cama, jogou fora os VDs que não gostava e colocou coisas mais interessantes, para jovens de dezenove anos, na VDteca.

Queimou suas roupas velhas no quintal e organizou novas em seu armário.

- A-3, a que horas meus pais devem estar de volta?

- Só amanhã, senhor Rodrigo. - disse a voz suave e feminina da robô-faxineira - Eles foram até Belo Horizonte, coisas da companhia.

- Ah, sei. Sempre saindo sem me avisar.

O robô-mordomo apareceu e falou:

- Senhor, a senha é XYZ-4345/a-9. Estava marcada num rascunho.

- Grande, A-1! Mas nunca diga que descobriu a senha à meu pai, certo?

- Sim, o senhor é o mestre-principal. Ouço e obedeço.

- Certo, então suba no escritório e acesse as contas bancárias da companhia. Use a holografia da íris de papai para que o scanner o identifique. E o DNA dele já está no computador, para abrir a segurança. Transfira para minha conta pessoal...Hummm...O suficiente para comprar um gravicar.

- Devo descobrir quanto custa um gravicar? E que tipo de...

- Descubra quanto custa um gravicar esporte, vermelho, super-equipado, modelo mais recente, etc, etc, etc.

O robô saiu flutuando. Rodrigo sorriu diabolicamente e, dando-se por satisfeito com a reforma em seu quarto, foi treinar na fazenda.

****

- Aqui temos um Panther Mark 2 com um motor gravítico de duplo irradiador, porta-sounder, VDcom, e grátis, gravado em seu computador-de-bordo, todas as ruas e estradas da Terra. - o vendedor sorria, feliz.

Rodrigo examinou, com as mãos para trás, o reluzente gravicar vermelho berrante que flutuava indiferente na concessionária.

- Quanto atinge numa highway?

- Cerca de oitocentos quilômetros por hora. É muito rápido!

- Hummm...Fico com ele. Quanto custa?

****

Estacionar o Panther no pátio da faculdade foi um prazer para Rod. Todos o olhavam com outros olhos. Sorriu para si, pensando: a humanidade nunca vai mudar, realmente!. Entrou em seu prédio e logo estava na sala de aula. Bem vestido, novo corte de cabelo, com outra postura (e muito melhor fisicamente por causa dos exercícios), Rodrigo sentou-se em sua carteira. Percebeu que atraía mais atenções, mas sabia que ainda não era hora de se expor. Faltava muito para chegar onde queria.

Ao sair ao fim do dia, descendo as escadas, pensando nos exercícios que ia fazer, Rodrigo foi abordado por uma bela garota de cabelos negros e olhos azuis:

- Oi, você é o tal gênio, o Rodrigo, não é?

- Oi, eu sou o Rodrigo, o tal gênio. Você é...

- Suzana. Estou na sua classe de Trigonometria. Você parece que sabe tudo, mesmo, hein? Respondeu certo a todas as questões da prova-oral...

- Eu gosto de Trigonometria.

- Mas você não parece um nerd.

- E precisa ser nerd para ser inteligente?

- Não...Claro que não...É que você tem mudado desde que começou na faculdade...Quer dizer, você estudava na Quântica, não é?

- Estudava, mas decidi mudar.

- Ah, bem, é que falaram umas coisa de você...Quer dizer...Riam de você...

- Sei, sempre riram dos grandes gênios, do Eistein, do Beethoven, do Bigode...

- Quem foi Bigode?

- Um palhaço. Riam dele também, mas era um gênio no que fazia.

A garota pareceu não entender e olhou-o, curiosa. Depois falou:

- Bom...É...Bom, me dá uma carona?

- Claro, para onde? Minha casa é perto daqui, mas te levo onde você quiser ir.

Ela pediu que a levasse à sua república, do outro lado da cidade.

O gravicar de Rod desceu à rua subterrânea e acelerou rapidamente. Em instantes emergiam no bairro onde Suzana estava morando e logo pararam em frente à velha casa.

- Seu carro é incrível! Puxa vida!

- Meu pai me deu...e baixinho: ele não sabe ainda, mas me deu.

- O quê?

- Bonita casa. Quantos moram com você?

- Três garotas e dois rapazes, além de mim, a melhor república mista de Morros Gêmeos! Venha, venha conhecer o povo. Você vai gostar deles.

- E eles vão gostar de mim?

Ela riu e entraram. Rod pensou: bem, as coisas começaram a acontecer. Viu, Rodrigo? Não precisava ter se matado! Bastava apenas um pouco de bom-senso.

Na sala estavam dois garotos assistindo à tridivision , tão concentrados que sequer perceberam a entrada de Suzana e seu novo amigo.

- Deixe-os, quando começam a assistir estes filmes antigos...Já assistiram mil vezes Viagem às Estrelas - A Velha Geração.

- Pois vou lhe dizer: é meu filme favorito!

- Eca! Aqueles efeitos especiais não me convenceram. E a tal estória da estrela verde...Que ridículo! Nós, que estudamos astronavegação, sabemos que é uma impossibilidade física...

Rod olhou-a com desdém:

- Mesmo? Pois eu acho que neste Universo tudo é possível...Até estrelas verdes.

Ele dizia isso lembrando-se das antigas lendas, de suas vidas passadas...Elas batiam com as recentes descobertas arqueológicas...Isso o intrigava. Precisava lembrar-se de investigar estas descobertas na biblioteca da faculdade, se tivesse tempo.

- Quer um WhiteCoffee?

- Sim, bem quente!

Beberam na mesa da cozinha, simples mas completa.

- Você gosta de morar aqui, em Morros Gêmeos, com seus pais? - Perguntou Suzana, sorvendo lentamente o café alcoólico.

- Bem, acho que sim. Meus pais são um tanto...

- Afastados? Eu nunca os vi na faculdade...Aliás, nunca os vi em lugar algum, apesar da fama de sua família. A Maulson Interplanets é imensa, não é?

Rodrigo deu de ombros:

- Bem, isso não me adianta muito...Meus pais são mãos-de-vaca!

- Você ganhou um Panther novinho, não é mesmo?

- Isso é. Mas...Foi complicado. Não quero falar sobre meus pais, vamos falar de você. Você veio de onde?

- São Paulo. Meus pais moram lá.

- E porque não fez astronavegação na Paulista Universal?

- Não, não! Ficar morando com meus pais? Never!

- Eu entendo...Entendo perfeitamente o que quer dizer...


Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo III.

Os exercícios estavam matando Rod. Já era noite e resolveu parar. Rino relinchou, como se risse dele, e o rapaz olhou feio para o cavalo:

- Sua peste! Venha aqui fazer o que eu faço, seu jegue superdesenvolvido!

- Falando com quem, Rod?

Rodrigo assustou-se com a chegada de Douglas ao estábulo, ele sempre com o velho macacão surrado, para dar a comida aos animais.

- O Rino é um gozador.

Douglas soltou uma sonora gargalhada.

- Ele deve achar engraçado um rapaz tão franzino erguer tanto peso, uai.

- Você disse uai?

- Disse sim, e não venha com essa de coisa de linguagem de mil anos. Eu digo uai, uai, a hora que eu quiser! Sou mineiro de coração...

- Certo, não está mais aqui quem falou. Preciso correr. Logo vão estar jantando, e pode acontecer um milagre e darem pela minha falta...

- Vou segurar o riso porque sei que você fala sério.

O rapaz voltou para a mansão, todo suado, escalou a parede levemente inclinada da moderna construção e entrou em seu quarto pela janela. Tomou uma turboducha rápida, vestiu-se discretamente para não chamar a atenção dos pais e desceu para a sala de jantar. Armando Maulson lia seu holo-jornal da noite, sem se importar com a estranha comida sintética. Marlene Maulson falava, como sempre, ao VDcom com alguma amiga, e nenhum deles respondeu ao olá que Rodrigo resmungou ao sentar-se à mesa. Olhou horrorizado os cubos verdes que A-2 colocara em seu prato, e lembrou-se feliz que ia jantar mais tarde comida de verdade com Douglas, na fazenda.

Comeu um pouco e saiu, dando um boa noite respondido com resmungos. Voltou à fazenda e logo estava sentado com o velho Sameros no velho casarão colonial de paredes caiadas de branco.

- Isso é que é comida: Frango assado e macarrão!

Douglas riu-se de boca cheia. Então perguntou:

- Seu pai não descobriu seu desfalque?

- Já se passou um mês e aparentemente ele não descobriu nada. E com o gravicar guardado aqui...Agora estou pensando em pegar uma gravibike.

- Acho que você quer que ele acabe descobrindo, afinal...Para que uma gravibike?

- Isso é complicado de explicar...Digamos que eu estive, nos últimos anos, impossibilitado de me divertir...De viver de verdade.

- Com os pais que tem, não duvido, mas se eles descobrirem, acho que a coisa vai pegar, de verdade...

- Humm...talvez, meu amigo, talvez...

- E a namoradinha, a Suzana?

- Nós ainda não estamos namorando, mas...É que tenho me encontrado pouco com ela, estamos na época de Avaliações Gerais. Amanhã é o último dia, então á noite vou pedir para namorar com ela...Estou um pouco enferrujado, mas acho que ainda me lembro como é...

Douglas serviu-se de suco de manga:

- Você às vezes fala como se tivesse cem anos!

Rod abriu um largo sorriso e serviu-se de mais um pedaço de frango.

- Acho que vou comer mais esta asinha...

****

- Quer namorar comigo?

- O quê? Que...Que pergunta mais ultrapassada! Esteve num cemitério nos últimos anos, é?

O rapaz estava sem jeito, dentro de seu Panther vermelho reluzente, naquela noite estrelada e de lua cheia.

- Como...Como eu deveria pedir você em namoro?

- Namoro? Isso é coisa dos vovôs. É, bem que disseram que você é um reliq!

- Reliq, é?

- É, pôxa, um reliq, uma relíquia. Ninguém mais namora, agora sociamos.

Rodrigo tentou usar sua nova memória, mais o antigo Rodrigo realmente era um reliq. Desistiu e resolveu que tinha de se adaptar:

- Bem, que tal sociarmos?

- Ok. Mas vou te avisando: nada de ciumeira! Moram dois caras lá na república e além disso meu grupo na faculdade só tem homem!

Rodrigo deu de ombros.

Romanticamente, e como tantos outros casais, em tantas épocas, eles se beijaram à luz do luar. Logo estavam num place, e Atron acabou com a virgindade de Rodrigo, descobrindo uma Suzana completamente louca. Ela, por sua vez, sentiu-se viajando pelo espaço enquanto faziam sexo selvagem noite adentro.

****

Estava amanhecendo em Morros Gêmeos. Rodrigo abriu os olhos, olhando para Suzana que o fitava na cama.

- Faz tempo que você esta aí, acordada?

- Faz. Você dorme um sono tranqüilo...Parece que está num mar calmo, delicioso.

- Sonhei com o que fizemos ontem à noite. Foi fantástico! Você não sabe como eu precisava disso!

Ela riu para valer, depois disse:

- E você...Bem, apesar de estar mais bonito, vistoso, do que costuma ser, achei que ainda...Bem, eu errei! Você é incrível! Olha, todos diziam que você, com dezenove anos, ainda eram virgem, mas tenho certeza que sabe muito bem o que faz...

Rodrigo riu-se malicioso e a abraçou, puxando-a para si. Rolando na deliciosa cama do place, voltaram a se amar, e só pararam na hora do almoço.

- E seus pais, Rod, não estarão preocupados?

- De duas, uma: ou vão me colocar de castigo pôr uns dois anos, ou nem perceberam nada.

- Colocar de castigo? Com a sua idade?

- Meu pai acha que eu devo ser só mente, e que não cresci. Minha mãe acha que eu devo vestir as roupas ridículas que ela compra para mim e...E só! Puxa!

- Mas você não usa mais aquelas coisas estranhas...

- Decidi que ia cuidar de mim mesmo. - Rod olhou o relógio dentro de si - Vamos, vamos para a faculdade! Tenho Astrometria às duas, e não quero perder nenhuma aula.

- Nerd!

- Não, apenas...Maduro. Quero ir para o espaço quando me formar.

- Eu também, aliás, todos que fazem astronavegação! Seu anta, você acha que vamos pilotar naves espaciais no mar? E não precisa exagerar com os estudos...

- Como no caso das estrelas verdes, tenho de discordar de você, meu amor.

- Ah, se você não fosse tão bom de cama...

- Espero que você não inclua na frase:"e tão rico...

Suzana ofendeu-se:

- Mas é claro que não! Sua grana não me diz nada! Pode enfiar no...

Rodrigo beijou-a na boca, um beijo de língua, depois esvaziou a garrafa de água mineral sintética que estava ali, entrou na turbo-ducha e logo estava em sua classe de aula, na UMG.

À noite descobriu que seus pais não deram pela sua falta. Jantou a comida horrível e subiu ao seu quarto. Não iria à fazenda: precisava pesquisar sobre a lenda das estrelas verdes, então usaria a solarnet.

- Computador - disse, colocando o capacete de realidade virtual - resumo geral sobre estrelas verdes, no índice do Sistema Solar.

Rodrigo agora flutuava no espaço, um espaço irreal, gerado pelo computador de seu quarto diretamente em seu cérebro. Se aproximava em velocidade vertiginosa de uma estrela fraca que brilhava em verde, um verde vivo. De modo quase real, Rodrigo desceu pôr uma estranha atmosfera até a superfície da estrela, uma superfície de temperatura quente, mas não excessivamente. Olhou ao redor e viu grandes florestas tropicais, e a luz vinha do chão, do ar, ao seu redor, mas não do céu: o céu era coalhado de estrelas, que brilhavam fracas através da espessa atmosfera. A luz era forte, que criava sombras fantasmagóricas em tudo: um lugar realmente estranho e incomum.

- Você está numa simulação da superfície de uma estrela verde, feita a partir de suposições científicas colhidas de lendas e outros dados existentes. Embora nenhuma delas tenha sido encontrada até agora, e os principais cientistas da UniCiv considerem sua existência uma impossibilidade física, as lendas sobre elas são muito populares e numerosas, além de relatos sobre encontros não intencionais pelo espaço.

O computador continuou com sua voz suave e masculina na cabeça de Rod:

- Alguns cientistas teorizam que as estrelas verdes são estrelas colapsadas, não tão grandes que pudessem virar um buraco-negro, ou uma anã-branca ou mesmo uma anã-marrom. Estes cientistas até mesmo afirmam que elas estão num ponto antes das anãs-marrons, de existência comprovada, e até deveriam ser chamadas de anãs-verdes. Ainda segundo estas teorias, estas estrelas queimam o que lhes resta de seu combustível nuclear gerando calor numa estreita faixa, fazendo com que floresça vida em sua superfície solidificada até que a ela se apague de vez, isso depois de milhões de anos agonizando. Os cientistas só não sabem explicar como, tendo a estrela uma densidade muitas vezes maior do que qualquer planeta, mantenha uma gravidade a níveis tolerantes, que permita o desenvolvimento e manutenção de seres vivos.

Fazia muito tempo que Rodrigo não perseguia a lenda das estrelas verdes, e na sua vida passada como Guilherme, depois dos problemas que tivera antes de morrer, deixara a busca de lado. Agora retomava com toda a força, pois o tema o intrigava.

- Computador, resumo das principais descobertas sobre estrelas verdes, nos últimos cinco anos.

- Deseja pesquisar em toda a UniCiv e seus links externos, na região estelar da UniCiv, ou apenas no Sistema Solar?

- Apenas no Sistema Solar, para começar, senão vai demorar muito.

- Aguarde...

Enquanto aguardava, sentado na solidão de seu quarto, com aquele pequeno capacete em sua cabeça, Rodrigo olhava extasiado a simulação ao seu redor e tentava lembrar-se de seu passado, consultando a Memória da Alma, a sua memória milenar. Tentava lembrar-se de sua infância como Atron, sua primeira infância, mas quase não conseguia. Havia algo sobre estrelas verdes, algum lugar onde fôra levado, algo haver com seu segredo sobre a troca de corpo que podia realizar.

- A principal descoberta no Sistema Solar vêm de ruínas em Marte, onde um terremoto há dois anos provocou a queda de uma parede do Palácio do Vórtex, revelando rolos de armazenamento que descreviam, com precisão, a viagem de dois marcianos à uma destas estrelas.

- Pare a pesquisa. Detalhe a descoberta. - Rodrigo estava ofegante.

- Os rolos estavam embutidos na rocha, por este motivo ninguém os havia achado depois de tantos anos de pesquisa. Descreviam a viagem de dois líderes marcianos, Atron e Liany, à uma estrela verde de nome Tarínia, morada dos deuses, onde receberiam a imortalidade...

- Pare, repita a última frase.

- Receberiam a imortalidade.

Rodrigo engoliu seco. Pediu, com a voz embargada pela emoção:

- Repita o nome dos líderes marcianos.

- Atron e Liany K-Rosam'vev.

Liany... Rod lembrava-se dela, vagamente... Era bela... Jovem... Vibrante... Uma fantástica guerreira... Falou ao computador:

- Os cientistas sabem que tipo de líderes eram? De onde?

- Eram regentes do Império Lemântico, que dominava o planeta Marte antes de alguma catástrofe desconhecida destruir o planeta e tôda sua civilização, cerca de quinze mil anos atrás, tempo da Terra.

Isso Rod se lembrava...E Liany, este nome estava em sua mente há muito tempo. Em todas as vidas que viveu, Rodrigo fizera mil coisas diferentes, mas no fundo havia uma busca, a busca de sua origem, perdida no tempo e apagada de sua memória. Queria saber mais sobre Atron, a única vida que lhe legara apenas traços, fiapos de uma época longínqüa. Fracas lembranças. A chave de tudo estava numa estrela verde, e agora sabia que esta estrela chamava-se Tarínia.

- Prossiga sobre a descoberta marciana.

O computador imediatamente continuou com sua voz sem emoções:

- Os rolos continham os mesmos símbolos binários da adiantada civilização que existiu em Marte, portanto tornou-se fácil decifrá-los. E pela primeira vez o nome dos líderes do antigo império foram revelados, o que torna este rolos de extrema importância arqueológica. Infelizmente boa parte deles está danificada, e os pesquisadores ainda não encontraram explicação para a catástrofe que destruiu Leman, o império que dominava todo o planeta Marte, e porque, embora tão adiantados tecnologicamente, os marcianos desapareceram por completo.

- Prossiga com a descoberta, computador, e ilustre-a.

Ainda na paisagem virtual da estrela verde, Rodrigo viu à sua frente as imagens tridimensionais, sólidas, das descobertas. O computador dizia em sua mente:

- Um pouco da organização política dos lemânticos foi esclarecida, assim como um pouco da geografia marciana antes da hecatombe. Contudo, muitos cientistas acreditam que os dados dos rolos são ficçionais, pois acham impossível a existência de uma estrela verde, como descrito.

Computador...- Mas seu capacete foi retirado violentamente.

****

Douglas falava com as galinhas, enquanto as alimentava na manhã quente e preguiçosa da fazenda:

- Não vejo o Rod à três dias...Que será que aconteceu com o garoto, hein?

As aves só cacarejavam em resposta.

Uma jovem de cabelos negros, lisos e de olhos azuis profundos, apareceu correndo, ofegante, vinda da entrada principal que dava para a pequena estrada de terra. Douglas a olhou e percebeu que ela correra muito para chegar até ali.

- O senhor...- ela fez uma pausa para se recuperar do cansaço - o senhor é o senhor Douglas, certo?

Ele concordou, olhando-a atônito.

- Sou a sócia do Rodrigo. Ele me pediu para vir até aqui. É urgente!

- Quer um copo d'agua, moça? Senta aí e descansa um pouco.

- Não! É urgente! Rodrigo precisa do senhor.

- 'Tá bem, diga lá, o que houve?

Suzana tomou fôlego e disse:

- O pai dele descobriu sobre o desfalque que ele fez para comprar o carro, o gravicar vermelho...

- Ah, sei...Xiii! Deve ter dado o maior pau!

- Pois é. Imagine só: o senhor Armando mandou prender o próprio filho!

Douglas ficou realmente surpreso e tirou o boné, coçando a testa:

- Meu Deus! Como pôde?! Então o rapaz está na delegacia?

Suzana confirmou com a cabeça, aflita.

- Fazem três dias! Só soube hoje, fui até ele, que me pediu para vir aqui, falar com o senhor.

- Então vamos lá, mocinha! Vamos pegar a caminhonete!

O gravicar com caçamba, preto e relativamente novo, flutuou com rapidez pela estradinha, a repulsão gravitacional levantando poeira, em direção ao centro da pequena cidade.

A praça de árvores gostosas viu Douglas e Suzana emergirem da boca do túnel, que dava para a rua subterrânea, e seguirem até um pequeno sobrado.

Uma robô recepcionista de último tipo os recebeu com muita gentileza e atenção:

- O senhor Rodrigo Maulson está detido na cela 3. O vigilante MGMG-7 os levará até ele. Por favor, deixem qualquer objeto perigoso na mesinha, ao lado da entrada para as celas, e observem todas as recomendações.

Ao passarem por um portal, um alarme soou e uma grossa voz disse, vinda das paredes:

- Senhor Douglas, deixe o canivete na mesinha, por favor!

- Ah, esqueci que eu estava com ele, desculpe...

Um robô-guarda flutuou insensível até a porta da cela 3 que se abriu automaticamente e os dois entraram, encontrando Rodrigo lendo um livro comum deitado numa cama confortável.

- Resolveu tirar umas férias, amigo? - Perguntou, rindo, Douglas.

- Não vejo muita graça na situação. Aqui não é ruim, mas estou perdendo aulas importantes na faculdade.

Sua sócia estava preocupada:

- Eu trouxe seu amigo fazendeiro para cá, mas e agora?

Rodrigo levantou-se, marcou o livro e o guardou.

- Bom, Douglas, Suzana, a situação é a seguinte: meu pai, meu amado e querido papai, vai me processar por desfalque. Meros vinte e cinco mil creds que peguei para comprar o Panther. Só me safo desta se devolver o dinheiro, com juros.

O velho bonachão deu uma sonora gargalhada.

- Só uma pergunta, quanto seu pai tira por mês da Maulson Interplanets?

- Sei lá, uns cem mil, acho.

Douglas olhou para Suzana, sacudindo a cabeça:

- Esse aí devia pedir demissão aos pais e cair noutra...

Ela tentou rir, mas sabia que a coisa era séria. Um processo destes podia custar à Rodrigo a expulsão da UMG.

- Deixa que eu pago tudo, Rod.

- Eu não posso permitir isso! Eu chamei você aqui para...

- Você paga trabalhando para mim. Eu lhe darei um salarião, e ganharei com sua companhia. Sabe, desde que Vilma morreu... - e virou-se para Suzana - Vilma era minha mulher - voltou-se para Rodrigo - bem, desde que ela morreu que não tenho alguém para conversar...Bom, tem o Rino, as galinhas, a Dorotéia...

A jovem morena sentou-se:

- Dorotéia?

- A principal das minhas vacas. Mas ela nunca responde...

Rodrigo finalmente abriu um sorriso e suspirou:

- O que seria de mim sem você, Douglas?


Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo IV.

Rodrigo fôra expulso de casa depois do desfalque e da descoberta que mudara de curso. Armando Maulson, seu pai, lhe dissera que era importante que seu único filho fosse um físico, pois sua empresa produzia e desenvolvia projetores wormholes, a base da economia da UniCiv, e um físico era fundamental para se lidar com eles. Além do mais, não gostaram da nova decoração de seu quarto.

- Você sente saudades do luxo que tinha, Rod? - Perguntou-lhe Douglas.

- Bom, não sinto saudades nenhuma. Se quer mesmo saber, estou adorando morar aqui. Só sinto falta de um computador...

- Bem, se a colheita deste ano for boa, e se a Dorotéia ajudar com o leite...

- Não, Doug, nada disso! Você pagou meu pai, e está pagando a faculdade, que mais posso querer? Além do mais, posso usar os da UMG, apesar das limitações...

O velho sorriu, apoiado na enxada. Olhou para a bela e vistosa fazenda que possuía, levada de modo totalmente antigo. Sentia-se feliz, ainda mais por ter ganho...Um filho. O Rodrigo era maduro, inteligente, e agora, sete meses depois que o encontrara dormindo debaixo daquela mangueira, era forte, muito forte.

O rapaz tirou-lhe do devaneio:

- Sabe, peguei um bom preço naquele Panther... E já quase quitei minha dívida com você, com o dinheiro. A faculdade não é cara, por isso acho que você podia abaixar meu salário, velho amigo. Está sobrando grana.

Douglas riu e fez sinal para irem à uma sombra, beber suco de laranja.

- Não, Rod. O que vou fazer com aqueles creds que tenho no banco? Vilma morreu há dez anos, e meus filhos foram embora muito antes disso...Dorinha vem de vez em quando, vem neste natal, mas já tem a vida dela...Não, fique tranqüilo. Use o dinheiro que sobra com sabedoria...

Naquela tarde de sábado, Rod resolveu limpar o velho depósito, nos fundos da enorme casa caiada de branco onde agora morava. Enquanto tirava o entulho acumulado ali por anos a fio, pensava em seus pais, Armando e Marlene.

Da grande e velha janela de vidro avistou os fundos da mansão, o quarto que fôra seu, a piscina que nunca nadara depois que assumira aquele corpo. Pensou no absurdo da situação: afinal, eles eram seus pais. Aquilo não estava certo... Não era justo, apesar de tudo... Que pessoas mesquinhas... E Douglas era exatamente o oposto deles.

Cinco meses sem trocarem uma palavra! Algo estava errado, nenhuma mãe ou pai, por pior que fosse, faria isso. As memórias do verdadeiro Rodrigo estavam cheias de tristes punições e privações que eles lhe impingiam, exceto quando era muito jovem. O rapaz percebeu que desde que assumira a nova vida estivera bloqueando aquilo...Aos poucos entendia o desespero do antigo dono daquela casca.

- Fodam-se! - Gritou para a mansão, em voz alta.

No meio da arrumação encontrou uma velha aeromoto, uma das predecessoras das atuais gravibikes. Com lugar para apenas duas pessoas, era como as antigas motocicletas de rodas, que em uma de suas vidas passadas, Rodrigo pilotara.

Não flutuava mais e estava toda suja e avariada. Ele a arrastou para fora...Tinha sido marrom, ou talvez verde escura...Agora era só riscos.

- O que tem aí, Rod?

- Oi, Suzana, não a vi chegar. É uma aeromoto antiga. Não é max?

Suzana estava mais bonita do que quando o rapaz loiro a conhecera. A república dela era seu segundo lar, e estavam agora realmente namorando.

- Hummm...Para mim não passa de ferro-velho. O que você está fazendo?

- Arrumando o depósito do Doug...

- Que tal irmos à uma sorveteria...Está fazendo um calor danado!

- Desculpe, Su...Mas prometi fazer isso hoje.

- Prometeu a quem?

- A mim mesmo. Devo muito ao velho para...

- Tudo bem, amor - deu-lhe um beijo de compreensão - mas a noite temos uma festa para ir. Fui convidada, e posso levar quem eu quiser, para a famosa festa de encerramento do ano letivo dos Malucos Safados!

Rodrigo estremeceu, meio sem saber porque. Suas novas memórias logo o lembraram daquela noite de chuva no cemitério...O sentimento de morte o aturdiu.

- Você está bem? - Suzana aproximou-se.

Rodrigo forçou-se a controlar-se e tentou sorrir para ela:

- Sim...Claro que sim. Estou um pouco cansado, só isso, e com o calor...Quanto à festa, pode contar comigo! É lógico que eu vou, com muito prazer!

****

Estava chovendo, como há sete meses, e o gravicar-caminhonete preto que Rod emprestou de Doug parou em frente a bela casa assobradada de estilo moderno.

- Vou estacionar, me espere lá dentro, Su.

Rodrigo parou sobre um Chevrord e desceu flutuando até o chão, sem se importar com a chuva, que não estava forte. Caminhou pelo agradável mas molhado jardim e entrou.

Riley, o americano arrogante que era o melhor amigo de Atílio, chefe dos Malucos Safados, o viu pela primeira vez desde que deixara a Física Quântica:

- Wait! Freeze! - Você não é o estrelinha Maulson?

Suzana ouviu e virou-se com raiva:

- Garanto para você que ele não é nenhuma estrela, não! É f.d. mesmo!

Rodrigo ficou confuso:

- Desculpem-me, vocês dois, mas eu estou por fora das gírias atuais, sou meio reliq, sabem...

- Estrela é gay! F.d. é ferro-duro! - Explicou Suzana.

Riley riu-se, de copo na mão:

- Então a estrelinha arrumou uma pézona? Dois homos na festa!

- Riley, Riley, que feio! - Disse Rodrigo, zombeteiro - preconceito contra a orientação sexual das pessoas dá cadeia...

O americano estava totalmente surpreso com o jovem Maulson.

- E quem vai me prender? Você, estrela? - disse, peitando o rapaz.

Com um sorriso malicioso, Rodrigo controlou-se:

- Está bem, você ganhou. Se me dá licença...

Foi empurrado para fora, na chuva, mas não caiu. Encarou seu algoz.

- Rico! Heiger! Venham ver quem está aqui! - Berrou Riley.

Os amigos de Riley chegaram. O Guatemalteco era uma massa de músculos.

- Da última vez a estrelinha saiu berrando...Hoje vamos virar este chato no avesso! - Grunhiu o gaúcho Heiger.

- Parem! - Berrou Suzana, desesperada. Não esperava uma briga, não estivera na festa onde Rodrigo fora humilhado e espancado, não estava entendendo nada.

- Su, vamos embora, não somos bem-vindos aqui.

- Você não vai escapar, menininha loira. - Ralhou Rico.

A namorada do jovem Maulson se interpôs entre ele e os três Malucos Safados, mas Heiger a empurrou para dentro, deixando Riley e Rico indo em direção à Rodrigo.

- Escutem, para que isso? Vamos embora e acabou, tudo bem...

- Tenho prazer em socar babacas como você, estrelinha. - Disse o americano.

Os dois avançaram sobre o rapaz, que por sua vez, ato contínuo, socou-os no estômago com uma força inesperada, tão rapidamente que nenhum deles reagiu. Caíram ambos no chão molhado do jardim, sem poder respirar. O gaúcho e a morena viram tudo e ficaram estupefatos.

- Venha, Su. Vamos embora. Eles não nos querem aqui.

Heiger avançou sobre ele jogando Suzana contra a multidão que chegava para ver o que acontecia. Passou por Riley e Rico, mas ao se aproximar levou uma voadora que o atirou sobre o tronco de uma árvore. Riley, por sua vez, atirou-se num golpe e viu-se atirado contra uma gravibike parada, virou no ar e caiu, aturdido, sentado no chão. Rico, o guatemalteco halterofilista, levantou-se e foi derrubado com um chute no queixo. Caiu desmaiado.

- Paremos por aqui, que rasguei o fundo das calças. Su, vamos embora, por favor, não quero me sujar de sangue hoje.

A garota livrou-se da multidão que se aglomerava na porta do hall e seguiu seu namorado. Riley esboçou uma reação, mas reconsiderou.

- Diga ao seu amigo, o Atílio, para ficar na dele, ok? - Advertiu Rodrigo.

Logo ambos estavam na caminhonete do Douglas, de volta à fazenda.

Suzana, tão chocada, só abriu a boca quando entraram na garagem.

- Como...Como você fez aquilo?

Sem querer responder, Rod desceu e olhou para a velha aeromoto que achara naquela tarde e arrastara para a garagem:

- Veja, Su. Já comecei a reformá-la. Vai ficar um cristal!

- Rod, este ferro-velho não me interessa. Quer me explicar como você ficou forte, assim, de repente? Quando o conheci você era um rapaz tímido e franzino...

O jovem virou-se para ela e sorriu:

- Muito exercício, uma alimentação adequada...

- Mas como é possível alguém mudar tanto em poucos meses? Parece outra pessoa! Mental e fisicamente, outra pessoa!

Não podia dizer que nascera em Marte há quinze mil anos atrás, e que não era o Rodrigo original.

- Você não me conhecia muito bem, cruzamos vez ou outra no campus, eu já era um pouco forte, e...

Suzana não se conformava:

- Ora, todos comentaram quando entrou na nossa faculdade. Lembro que a Soraya falou algo sobre você ter apanhado de uns caras da Quântica...E que você era um chato, ridículo e arrogante, isso era.

Rodrigo soltou uma sonora gargalhada e sentou-se na velha aeromoto:

- Nossa, eu estava tão mal cotado assim? Puxa! Agora, se quer saber, os caras da Quântica que me bateram eram os Malucos Safados, e o Atílio foi o que mais me humilhou, numa noite chuvosa há uns meses atrás. Depois disso decidi mudar, e a força de vontade pode fazer maravilhas...Hoje eu me vinguei, em parte. Falta o Atílio, e tenho o pressentimento que ele virá correndo atrás de mim, depois que seus amiguinhos lhe contarem o que aconteceu.

A chuva apertou e começou a relampejar. Entraram na casa principal e fizeram um lanche, conversando. Douglas deitara-se cedo e dava para ouvi-lo roncar. Estava esfriando, mesmo estando em dezembro no Brasil, e, naquele clima, ambos acabaram no quarto de Rodrigo. Suzana era maravilhosa, tinha um corpo moreno e liso. Rod desceu sua língua pela barriguinha doce, e suavemente tirou sua calça colante. Ela tirou o top. Ele tirou-lhe a calcinha, deixando-a nua, e a admirou. Ela lhe sorriu, e tirou as roupas do rapaz. Depois de um longo beijo molhado de língua, estavam se amando, juntos, fazendo sexo, e o velho Atron se satisfez três vezes seguidas antes de desfalecer ao lado da gatinha marota que era Suzana. Esta, por sua vez, sorriu de olhos fechados, muito feliz...

****

O dia seguinte amanheceu chuvoso, tristonho, e Rodrigo abriu os olhos e espreguiçou-se, sem pressa, pois estava de férias. Suzana, ao seu lado, dormia profundamente. Ele entrou na turboducha, depois vestiu roupas leves e foi para a cozinha antiga. Tomou café sem ver Douglas, que devia estar trabalhando na fazenda, olhou sua namorada, ainda dormindo, e seguiu à garagem.

Começou a trabalhar na velha aeromoto: abriu sua unidade geradora de antigravidade e notou que tinha recuperação. Contente, desmontou as outras partes e logo percebeu que tinha extrema facilidade com máquinas e com eletrônica, características obviamente herdadas do Rodrigo original. Feliz, trabalhou até a hora do almoço, quando sentiu o cheiro delicioso de bife acebolado.

Suzana acabara de acordar quando entrou. Douglas cozinhava, assobiando.

- Bons dias, amigos! - Disse Rod, bem humorado.

- Oi, amor, bom dia.

- Bom dia, garoto. 'Tá com fome?' Tô acabando de fritar esse trem e já vou servir.

A jovem morena riu-se e falou baixinho:

- Ele às vezes fala esquisito...

- Antigamente os mineiros falavam assim...Não diga nada, senão ele vira uma fera!

Almoçaram tranqüilamente, e depois de lavarem as louças Douglas não tinha robôs ou máquinas de espécie alguma, Rod levou Suzana para sua república.

A caminhonete vencia facilmente a estrada elameada em direção à cidadezinha, flutuando poucos centímetros do chão, quando cruzou com um Luke 345, branco, que logo deu um cavalo-de-pau e passou a seguí-los. O rapaz percebeu pelo retrovisor, e comentou:

- Muito estranho aquele gravicar. E é bem luxuoso, deve estar equipado com repulsor de sujeira, porque reluz nesta chuvinha e nessa lama.

Suzana olhou para trás. Ambos estavam à uns duzentos quilômetros por hora.

- Merda! É o carro do Atílio. Não dá para ver quem está dentro, mas é o Luke dele sim, presente do pai, no ano passado. Acho que vamos ter encrenca.

O gravicar branco emparelhou facilmente com a caminhonete preta e se chocaram. Ambos os computadores de segurança cortaram a energia dos veículos e fizeram com que parassem. Os campos anti-inércia impediram que alguém se ferisse. Rodrigo olhou sério para Suzana e desceu, dizendo:

- Fique aqui até a polícia chegar, se é que receberam o sinal automático de colisão. Eu me viro lá fora.

Do gravicar branco desceram Atílio, Riley e Heiger. Atílio, o líder dos Malucos Safados, era um rapaz negro, alto e forte, um colosso, e ostentava um MultiWatch de ouro, brincos masculinos de diamante, pulseiras com espinhos de aço, cravejadas de jóias. No cinto, o símbolo de sua família, em ouro, prata e pedras preciosas.

- Estrela Maulson, minha preferida...

Rod ouviu impassível as baixarias que os Malucos lhe dirigiram.

- Já desabafaram? Bom, se sim, quem vai pagar o amassado na lataria do carro do Doug? Você, Atílio?

- Depois que eu acabar com a sua raça, eu jogo uns trocos para você.

O grande rapaz se aproximou com confiança, e numa velocidade estonteante, desferiu um soco em Rod, que caiu na lama, sem ter tempo de reagir.

- Isso é pelo Rico, que está no hospital consertando o queixo.

O jovem rapaz esfregou o seu, sentindo que talvez tivesse de fazer o mesmo. Cuspiu sangue, e antes de se levantar, Atílio o ergueu pela camiseta e rosnou:

- Vou te quebrar inteiro, verme!

Suzana saiu na chuva fina e berrou a plenos pulmões:

- Não! Pare! Ele vai lhe pedir desculpas...E depois cada um para seu lado, o.k.?

Atílio riu, ainda erguendo um Rod passivo, que disse:

- Desculpe-me, Atílio, pelo estrago que vou fazer em você e em seus amigos...

O jovem musculoso parou de rir e encarou o rapaz:

- Eu odeio estrelinhas, Maulson. Ainda mais as que falam bobagens...

Rodrigo deu-lhe um chute nos testículos, fazendo com que largasse sua camiseta e curvasse para frente. Depois deu-lhe um soco que fez com que caísse para trás, na lama. Rod sentiu os dedos doerem muito, e antes que pudesse pensar no que acontecia, Heiger, o gaúcho de tez alva e cabelos loiros, puxou Suzana para si enquanto Riley, o americano de olhos azuis, sacava um PK e apontava para o jovem Maulson.

- Quieto, senão te abro um furo!

Uma sirene de polícia soou, aguda. Rodrigo não pode fazer nada além de observá-los entrar no carro branco, inclusive Atílio, levando Suzana. Enquanto aceleravam silenciosamente erguendo lama, um raio azul de PK passou raspando sua cabeça, destruindo o pára-brisas da caminhonete de Doug. Minutos depois uma viatura, toda iluminada, parava ao seu lado. Um homem e um robô-policial desceram. Rodrigo, desesperado, gesticulou:

- Corram atrás daquele luke! Eles raptaram minha namorada!

- Você está preso, Rodrigo Maulson. Por agressão.

****

Uma semana depois e era antevéspera de natal. Morros Gêmeos se enfeitara para as comemorações tradicionais, e na praça do centro uma enorme árvore se erguia, iluminada com efeitos holográficos. Douglas Sameros mancava um pouco, mas sentia-se bem, mesmo com seus noventa anos. Seguia para o Tribunal de Justiça da cidade, acompanhado de sua filha, Dorinha. O manhã estava quente e o céu, azul. Havia muita gente fazendo compras, e a agitação incomodava o velho fazendeiro.

- Pai, ainda acho um absurdo essa história. O senhor levar para a casa um garoto que mal conhecia, que os pais expulsaram de casa e que foi acusado de estelionato! Esse mesmo garoto agora vai ser julgado por agressão, além de ser suspeito de ter estuprado e assassinado a própria namorada!

- Dora! Que coisa, você não o investigou, não investigou tudo? Você não acredita mais no velho pai? Eu confio no garoto e sei que ele não fez nada. Além disso, quem é você para me julgar? Na segunda você chegou sozinha, vinda de Alpha-Centauri, e me contou sobre aquele seu marido...Eu bem que avisei...

Dorinha era baixinha, de cabelos escuros e queimada de sol. Estava contrariada, e ficou de frente para Douglas:

- Escute, eu errei! Sim, já lhe disse, ele me abandonou e fugiu com meus filhos, seus netos! - Apontou-lhe o dedo - Mas agora tenho medo de que esse garoto não seja o que parece ser.

Douglas a empurrou para o lado e prosseguiu:

- Ele é como um filho. Você, Douglas Jr. e Doriva foram embora. Vilma morreu. Rodrigo tem me ajudado muito, e é um grande amigo, afasta minha solidão. Atílio e os "Malucos" são uma doença que cresceu aqui, e sei que estão envolvidos nesta confusão, sei que compraram a polícia local, ou parte dela...

Dorinha suspirou e disse:

- Estive investigando e temo que o que o senhor diz seja verdade...E profissionalmente tenho de acreditar no Rodrigo...

O velho agitava os braços:

- Desde que Atílio montou aquela gang, dois assassinatos aconteceram. Os primeiros em seis anos! Atílio não presta, nem ele, nem os amigos dele. E o pior: o pai é muito rico e está trazendo um ótimo advogado.

- Eu sei. E a namorada do Rodrigo? Será que ela...

- Ela está apenas desaparecida. Os Malucos Safados espalharam o boato que foi estuprada e morta, e acusaram o coitado. Sei que você pode ajudá-lo nisso também, Dora, confio em você.

- E os pais dele?

- Incrível! Impressionante! O deserdaram! Não o consideram como filho.

Dorinha ficou chocada.

O tribunal era todo de liga de carbono transparente, e estava cheio para um dia vinte e três de dezembro. A luz do sol filtrada iluminava a sala número um do tribunal, onde os quatro Malucos Safados esperavam, cada um com seus respectivos pais.

Paulo e Guiomar Luciara, pai e mãe de Suzana, também estavam lá.

Douglas e Dora entraram e sentaram-se, observando. A sessão começou. Um robô bem equipado surgiu flutuando no ar e proferiu, gravemente:

- Estamos aqui para o julgamento de Rodrigo Pereira Maulson, acusado de agressão contra Mark Riley, Juan Rico, Alex Heiger e Atílio Carvalhosa.

O juiz entrou, realizou as formalidades de praxe e então disse:

- Senhor Rodrigo, o senhor tem advogado?

- Sim, meritíssimo. Dora Sameros.

A filha de Doug seguiu até o tablado e disse:

- Estou aqui defendendo Rodrigo Maulson. Ele se declara inocente e vítima de uma conspiração. Ele foi atacado e sofreu inclusive um disparo de um PK, cujo porte está restrito às autoridades. A perícia está no computador.

O juiz, um velhinho de cabelos grisalhos e ar benevolente, disse:

- Bem, primeiros ouviremos a acusação.

O advogado dos Carvalhosa levantou-se e leu um texto projetado à sua frente:

- O senhor Rodrigo é acusado de ter agredido fisicamente os aqui conhecidos como Malucos Safados, no dia dezesseis de dezembro do corrente ano, além de danificar o gravicar de propriedade do senhor Atílio Carvalhosa. Pedimos uma indenização de cem mil creds. Temos duas testemunhas, o policial Fraga e o robô policial MGMG-12.

Seguiu-se um estranho depoimento do policial Fraga, e então o robô 12 da cidade projetou imagens inverídicas, onde só se via Rodrigo socando Atílio.

O juiz suspirou:

- Senhora Dora Sameros, sua defesa.

- Meritíssimo, o réu é inocente. Computador, leitura do exame feito nos cabelos de Rodrigo Maulson pela Polícia Técnica de Belo Horizonte.

Uma voz suave encheu o recinto, enquanto imagens tridimensionais ilustravam o que era dito, no tablado à frente do tribunal apinhado de gente:

- Pequenos fios de cabelo, geneticamente identificados como sendo do acusado, foram queimados por um Personnal Killer, modelo MZ-22/A, usado pela polícia de Morros Gêmeos desde 2.746. O fato se deu em dezesseis de dezembro do corrente ano.

O eficiente advogado dos Carvalhosa, Adão Bregui, socou a mesa:

- Protesto! Isso não tem relação com a briga.

- Negado, prossiga a defesa.

Foi a vez de Dorinha:

- Tem, sim. Mark Riley, aqui presente, disparou contra Rodrigo. O momento exato e a posição da origem do tiro conferem com as marcas de repulsão antigravitacional provocada pelo Luke de Atílio na estrada. A posição de cada um dentro do gravicar, mostrada pelos acusadores em seus depoimentos, determina que o disparo veio do rapaz americano. Portar arma na Terra é um crime gravíssimo.

- Protesto! Não está em discussão o uso ou não de armas pelos meus clientes, e sim a agressão que aconteceu...

O Computador de Justiça interrompeu-o, com delicadeza:

- A acusação é grave, e já está programado um inquérito para dia vinte e seis de dezembro. Os Malucos Safados ficarão detidos para averiguação. Prossigamos com o presente julgamento, dentro do escopo da acusação contra Rodrigo Maulson.

Dorinha disse:

- A Polícia Técnica de Belo Horizonte deve estar terminando os testes que fez em MGMG-12, a pedido da corregedoria, acionada por mim anteontem.

- Eu não fui informado disso! - Berrou o advogado Adão.

- Eu liguei para o senhor várias vezes - argüiu a defensora - e o senhor não me atendeu. A corregedoria investiga o envolvimento de policiais de Morros Gêmeos em corrupção e adulteração de registros oficiais.

O juiz bateu o martelo:

- Vamos nos manter dentro da acusação de agressão!

O Computador de Justiça o interrompeu:

- Informações chegando via JudNet: o juiz-corregedor Manoel de Dantalzo se dirige neste momento para cá, e pede a anulação do atual julgamento. A Polícia Técnica de Belo Horizonte comprovou adulteração na gravação de MGMG-12, e recuperou um trecho apagado onde se vê claramente a abordagem e agressão à Rodrigo Maulson e a sua namorada, Suzana Luciara. Suzana foi seqüestrada pelos Malucos Safados, e como sabemos, está desaparecida desde o dia do ocorrido.

O juiz novamente bateu seu martelo:

- Soltem Rodrigo Maulson e limpem seus registros.

O computador prosseguiu:

- Acusações e investigações contra Rodrigo Maulson sobre um possível assassinato e estupro de Suzana Luciara estão retiradas e encerradas, e Atílio Carvalhosa, Alex Heiger e Mark Riley estão declarados sob suspeita, e devem ser detidos. A cidade de Morros Gêmeos também declara-os sob suspeita de porte ilegal de arma, tentativa de assassinato, e corrupção de nível A1. Juan Rico deve ser detido sob suspeita de participação em gangs e cúmplicidade.

Ouve uma exclamação de surpresa geral na platéia.

- Juiz, peço indenização de cem mil creds à Rodrigo Maulson, por agressão e danos morais! - Berrou Dorinha.

- Concedida! Deve ser paga imediatamente! Caso encerrado!

Jonas Paolo Carvalhosa olhou, irado, para seu filho Atílio:

- Você me envergonha, Ti! Envergonha a honra de sua família!

Deu um tick de cem mil creds para a advogada e saiu, seguido de sua esposa. Ele era alto e forte como seu filho, e sua esposa era bela, exibindo cabelos grisalhos iguais aos do marido. Ambos tinham suas peles de ébano molhadas de suor. Estavam exaustos e tristes. Rodrigo teve pena deles. Naquele momento não sabia que não deveria ter pena nenhuma.


Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo V.

A cela era confortável, mas não era o melhor lugar para se estar na véspera de natal. Atílio socou a parede:

- Eu mato! Eu juro que mato Rodrigo Maulson!

Riley sacudiu a cabeça:

- É melhor pararmos por aqui. Já estamos encrencados demais! O Fraga também está preso e tenho certeza de que vai revelar tudo.

Heiger concordou:

- Verdade, caras. Vamos abrir o jogo, o Fraga já está fazendo isso, e será melhor do que se continuarmos nessa...Eles já tem provas contra nós...

- Nunca! - Berrou o líder deles, levantando-se e olhando para a porta. - Vou fugir...E quem quiser, pode vir comigo. Vou destruir o Rodrigo, aquela estrela...Eu pensei que ele ia botar o rabo entre as pernas e pedir o money para os pais...

- Os pais o deserdaram, Ti. - Disse Heiger - Não querem mais saber dele. Está morando na fazenda daquele velho, e não tem dinheiro nem para pagar seu caixão.

Rico grunhiu:

- Estou contigo, chefe. Eu também não achava que iam descobrir tudo...O plano era bom, chefe.

- Era bom, mas aquela advogada que chegou segunda...A tal Dorinha...Ela descobriu tudo...Ela vai sofrer! Vingança!

- Tudo isso é tolice, e você devia saber disso, Ti. - Disse Riley.

- Você vai se destruir, chefe - completou Heiger - vamos revelar tudo e com certeza nossa punição será menor.

Atílio olhou para seus amigos:

- Idiotas, existem coisas que vocês não sabem, aqui em Morros Gêmeos. Coisas muito complicadas para vocês. Coisas muito complicadas!

E completou, olhando todos, raivosamente:

- Quem não está comigo...Está contra mim!

****

Rod olhava as notícias que, projetadas no ar, o desanimaram. Nada da Suzana. Desligou o jornal holográfico e suspirou. Dorinha o encarava:

- Fique calmo. Ela será encontrada, ou os Malucos Safados revelarão seu paradeiro. Ela deve estar bem, porque um crime de assassinato e estupro nos dias de hoje tem uma punição terrível!

- Eu sei, mas senti que o Atílio é mal, muito mal. Temo pelo pior.

Era noite de natal. Fazia muito calor. Douglas entrou na sala de jantar, com um delicioso peru natural, que ele mesmo criava:

- O rango está na mesa!

- O que está na mesa, Doug?

- A comida, garoto tonto. Venham, a ceia está pronta!

Comeram em silêncio. Nenhum deles estava feliz. Após o ótimo pudim de sobremesa, Rodrigo deu um presente para Douglas e outro para Dorinha.

- Descontei o tick. E vocês merecem.

- Obrigado, Rod, mas não precisava - disse, sorrindo, Dorinha - você já pagou meus honorários de advogada...E pensar que eu desconfiava de você...

- Minha própria advogada! Mas eu lhe devo muito...Obrigado mais uma vez. Bem, amanhã, mesmo sendo natal, vou sair atrás de alguma pista da Suzana.

Dora sacudiu a cabeça, experimentando as pulseiras que ganhara:

- Besteira! A Polícia Estadual está no caso, e trouxeram milhares de equipamentos e rastreadores para achar a sua namorada. E os Malucos terão de passar pelo scanner mental. Você não acrescentará nada...Só vai perder seu tempo.

- Talvez, mas não estou conseguindo nem dormir, eu tenho de fazer alguma coisa.

Douglas experimentou o novo macacão e sacudiu a cabeça:

- Desculpe, Rod, mas fico com o velho. A intenção foi boa.

- Ah, pai, deixa de ser chato...Parece até o Ricardinho...- Dorinha lembrou-se de seu filho. Suspirou...Disse, a voz embargada de emoção:

- Estamos no século 28 e ainda tem gente como o Atílio e como meu marido, o safado do Rodney. Onde será que eles estão agora? Será que ele está cuidando bem de meus filhos? É o primeiro natal desde que eles nasceram...snif..Que passo sem eles...

Ela começou a chorar. Douglas se irritou:

- Pare, garota, eu vou achar aquele desgraçado e seus filhos e...

- Não! Deixe como está, pai. Deixe tudo como está! Não quero mais falar nisso.

****

Ano novo, mas a vida continua...Assim pensava Rodrigo, olhando o calendário de papel, coisa rara, pendurado na porta do velho casarão da fazenda. Ele mostrava o antigo ano solar, e ao lado, o ano-padrão da UniCiv. Estavam iniciando 2.761 ou 2.764? Tanto fazia. O tempo é rápido e implacável. Suspirou olhando o dia quente e azul lá fora. Assustou-se quando Dorinha o tocou no ombro.

- Como você está hoje? Passou a depressão?

- Não...Nunca pensei que ela pudesse me fazer tanta falta...Será que está mesmo morta, Dora? Será que eu perdi a Suzana para sempre? - Disse isso estremecendo.

- Até agora não acharam nada, nenhuma pista dela, mas vão achar, vão achar. Há muito tempo que não se ouve falar de crime sem solução, Rod.

- Procurei por toda a cidade, mas nada...Nada!

- E olha que o pai do Atílio mandou gente para ajudar você a procurá-la...

- Isso foi mesmo incrível, ele mandou-me dois detetives, porém não tivemos sorte...E nem com o scanner mental conseguiram alguma coisa. Eles...

Douglas entrou, ofegante:

- Estava ouvindo o rádio e deram a notícia da morte de Alex Heiger...

- Um dos Malucos? - Surpreendeu-se Dora. - Como aconteceu?

- Foi assassinado na cela...Pelo Atílio Carvalhosa!

Dorinha e Rodrigo se entreolharam. O jovem perguntou:

- E agora? O que vai acontecer?

- O locutor disse que o chefão está isolado. Matou o coitado depois dele dizer que ia revelar o paradeiro de Suzana. Atílio soube que iam scannear a mente de Heiger na intensidade máxima segura...Vocês sabem, o limite para não causar danos...

- Sim - Rod estava nervoso - Continue...

- Bem, ele o estrangulou ontem à noite. O pai está desesperado, porque sabe que agora, provavelmente, o filho será morto da mesma maneira...Pena capital...

Rodrigo passou as mãos pelos cabelos, sentindo-se mal.

- E nenhum dos restantes vai dizer o que houve com a Suzana?

- O locutor disse que não, mas a polícia não parou de procurar...

Dorinha colocou a mão no ombro do jovem rapaz:

- Calma. Ela pode até estar em outro planeta agora...Viva!

- E se estiver em perigo? Passando fome? Meu Deus!

O rapaz não almoçou naquele dia, e a filha de Doug o viu com lágrimas nos olhos, enquanto trabalhava em silêncio em sua aeromoto, que estava, aos poucos, ressuscitando.

****

A noite de estrelas fortes encobriu a fazenda, encontrando Rodrigo falando com Rino, cansado após seus exercícios diários:

- Cavalos não tem estes problemas, amigo. Sinto-me oco!

Ele relinchou, como se entendesse.

- Ora, você vê uma égua no cio, faz o que tem de fazer e a esquece. Nós, humanos, não fazemos isso. Mesmo nascidos em Marte, nós nos apaixonamos, nós sentimos saudades da pessoa...Nós amamos... - Ele completou a frase com a voz embargada. Não vira Dora entrar no estábulo. Ela sentiu pena dele, e não encontrava palavras para dizer, e até considerou deixá-lo às sós com seu amigo eqüino. Mas então decidiu falar:

- Desculpe-me, Rod. É que o jantar está pronto...

- Não sinto fome...Quero ficar um pouco sozinho, não se ofenda.

- Não, mas, bem deixe-me dizer-lhe uma coisa: você não pode ficar aí, se lamentando. Já faz mais de um mês que a Suzana sumiu, e você só tem feito mexer naquela minha velha aeromoto e choramingar, além das suas buscas inúteis...

- Quando você fala, fala tudo que tem a dizer, não é? E eu não sabia que a aeromoto era sua...

- É sua agora. E eu estou tentando acordá-lo, Rod, acordá-lo dessa obsessão por Suzana. Porque não viaja...Porque não vai à Marte, rever o lugar onde nasceu?

- Marte?

- É, acabei de ouvi-lo dizer que veio de lá para o Rino.

- Marte...Não, eu sou brasileiro...Foi apenas..Não importa, a idéia é boa!

O jovem Maulson lembrou-se daquela consulta à Solarnet. Da descoberta dos rolos com informações binárias, da viagem que fez com Liany à uma estrela verde, milênios atrás...Sim, ele tinha de ir atrás disso, e tentar esquecer um pouco seu sofrimento.

- Vou à faculdade, diga ao seu pai para guardar um pouco do jantar...

E saiu, deixando Dorinha perplexa. A pé, seguiu pela noite clara e pelas ruas desertas até os prédios silenciosos da UMG.

Entrou com sua identificação de estudante e foi à biblioteca. Uma simpática atendente guiou-o até um cubículo, onde ele colocou um pequeno capacete.

- Computador, acesse à Solarnet. Informações sobre a descoberta, há cerca de dois anos, sobre rolos nas ruínas do Palácio do Vórtex. Referência: estrelas verdes.

- Aguarde. - Foi a resposta na suave voz masculina.

Rodrigo entrou num mundo virtual e viu-se no planeta vermelho, Marte, defronte às antigas construções lemânticas. Rolos de cristal ultrafino se desenrolaram à sua frente e um laser vindo do nada refletiu símbolos binários que se transformaram em caracteres rúnicos. Em roxo e dourado, eles se transformaram nas figuras multicoloridas que contavam uma história: a viagem de dois reis pelo espaço até uma estrela verde.

A forma desses reis era imaginária: os humanos não sabiam como os antigos marcianos eram. Enquanto exibia estas imagens tridimensionais, o computador dizia:

- Liany e Atron eram poderosos, e foram à Tarínia receber a imortalidade, concedida à eles por Martogh, filho direto dos deuses. Martogh concedeu-lhes a graça, mas poderiam morrer, se se descuidassem. Concedeu-lhes também a Chave da Prisão de Zonos, para que a guardassem. - O computador interrompeu-se e mudou de tom - neste ponto os rolos estavam danificados demais para leitura. O que mais deseja?

- Acesse qualquer agência de viagem e marque um pacote turístico à Marte, que inclua uma visita ao Palácio do Vórtex...O mais breve possível, aliás, se puder ser amanhã...

- Aguarde...Existe uma vaga para sexta-feira na Transportes e Turismo Brasil, com estadia em hotel categoria turística e café da manhã, translados em Marte, viajando em naves próprias MK-11, com guia humana. Preço à vista: 1.250 creds.

- Excelente. Faça a reserva. O número do meu crédito é BRMG.466.372/320-12, pagamento à vista.

- Reservado e pago. Código de VDcom, PC ou endereço na Solarnet?

- Código VDcom BRVD-MGMG-566-567474. Não tenho Personnal Communicator ou endereço na rede do Sistema Solar.

- Confirmado. Embarque às 13:40 da sexta-feira. Receberá uma ligação para posicionamento.

Rodrigo deixou a UMG só pensando em descansar, visitar a velha Marte e torcer para a polícia encontrar Suzana.

****

Sexta-feira, quase duas da tarde e o VDcom veio chamar Rod, que conversava com Douglas e Dorinha no estábulo. A imagem de uma bela mulher surgiu no vídeo do aparelho que flutuava à altura da cabeça do rapaz.

- Senhor Maulson, sou da TTB. Queira se posicionar entre a casa da fazenda e o estábulo. Abriremos um túnel para trazê-lo ao embarque.

- Estou indo, obrigado.

Pegou as malas, leves com os antigravs, e despediu-se dos amigos:

- Douglas, não deixe a Dorotéia te irritar, Dorinha, não perca as esperanças.

- Nem você, Rod. Suzana estará aqui, quando voltar, eu sei que estará.

- Garoto, não esqueça de mim, seu compadre, lá no hemorróidão...

Rodrigo ia saindo mas voltou-se para o velho:

- Lá onde?

- No vermelhão, naquele planeta vermelho que chamam de Marte...

- Ah...- O jovem riu e seguiu ao ponto indicado. Um túnel surgiu do nada, em pleno ar, e do outro lado havia muita gente, inclusive a mulher que lhe chamara da TTB. Rod, puxando sua bagagem, atravessou o túnel e sentiu um sobressalto. Do outro lado encontrou-se na famosa Space Station One, em órbita da Terra. O túnel desfez-se atrás de si, era um mini wormhole, buraco-de-verme, cujo projetor seu pai fabricava. Era um ótimo atalho, pena que era caro, perigoso e complicado. Fazia você atravessar quilômetros cortando caminho pelo ante-espaço. A mesma tecnologia que era usada pelas naves espaciais para viajarem de uma estrela à outra.

- Bem-vindo, seu ID, por favor - disse a moça, num solanês carregado de sotaque alemão. Checou o cartão e encaminhou o rapaz loiro.

- A nave para Marte sairá em vinte minutos. Fique à vontade, senhor Maulson.

Rodrigo passeou pelo grande salão, cujas imensas janelas de liga de carbono transparente exibiam uma Terra crescente fantástica. Olhando para aquele planeta maravilhoso, não segurou um suspiro.

Um robô enorme, flutuando, pegou sua bagagem com delicadeza, etiquetou-a e colocou-a em seu compartimento traseiro, junto com as outras, seguindo adiante. Rodrigo voltou novamente sua atenção à janela.

- Senhores passageiros da Transportes e Turismo Brasil, com destino à Marte, queiram embarcar no portão 23. Tenham uma boa viagem.

Junto com outras pessoas, inclusive alguns estranhos alienígenas, atravessou um tubo transparente, flutuando em pleno espaço, e entrou em uma nave de formato circular, como um pires invertido, com dois enormes tubos embaixo. Um mocinha delicada apontou-lhe um assento, ao lado de uma janela que lhe permitia ver a Lua brilhando de forma incrível.

Sua atenção à beleza externa foi quebrada quando uma espaçomoça falou:

- Senhor Maulson, importa-se de ter a companhia desta garotinha? Ela é brasileira também e está viajando sozinha.

- Claro que não - virou-se para a menina, de uns cinco anos, e perguntou - Como é o seu nome?

- Sandrinha. E o seu?

- Rodrigo - apertaram-se as mãos, e Rod ofereceu:

- Quer sentar aqui? Você poderá ver Marte, quando nos aproximarmos dele.

- Obâ! Quero sim. Que legal!

A nave deixou a estação silenciosamente, deslizando cada vez mais rápido pelo espaço, distanciando-se da Terra. A vertigem que muitos sentiram não era devido à velocidade, pois os amortecedores gravitacionais anulavam a inércia, mas sim a visão de tudo se afastando rapidamente. Uma voz suave e feminina soou nos alto-falantes:

- Estaremos chegando à Marte, quarto planeta do Sistema Solar, em pouco mais de dez minutos. Entraremos no túnel a qualquer momento.

- Tio, o que é um túnel?

Rodrigo sorriu, e educadamente explicou:

- É um buraco no espaço, feito pela imensa força gravitacional gerada por esta nave, para cortarmos caminho até nosso destino.

Sandrinha sorriu, com o nariz colado na janela:

- É o tal uarmrrole?

- Wormhole, buraco de verme, como dizem. Entenda o espaço como uma esfera, que normalmente permite andarmos em sua superfície...

- Sei, a tal curvatura do espaço que aquele velhinho linguarudo, o Einsten, dizia, aprendi no primeiro ano da escola. Teoria da Relatividade e essas coisas...

- Pois é, Sandrinha, o buraco que nós nos acostumamos a chamar de túnel nada mais é que um furo nessa esfera, cortando o caminho de um ponto da superfície à outro. Entendeu?

- Claro, tio, é simples.

O tal túnel surgiu em pleno espaço e engoliu toda a nave, que viajou no ante-espaço dentro da esfera até outro ponto, na superfície da esfera. Emergiu do outro lado e começou a desacelerar minutos depois, aproximando-se do planeta vermelho.

- Estamos entrando em órbita de Marte. Observem à direita Fobos, uma de suas luas. A nave fará uma rotação para que todos possam apreciar a paisagem.

Rodrigo e Sandrinha olharam a beleza do estranho e empoeirado planeta abaixo deles, e de uma de suas luas, além das belas estrelas faiscando do lado de fora.

Acoplados à Mars Passengers Station, desceram e tomaram um refri no bar, aguardando a descida. Através da mesma tecnologia que lhes permitia viajar no espaço através de distâncias imensas, desceram andando por um pequeno túnel à superfície terraformizada de Marte. Com o grupo de turista a que estavam designados, caminharam pelo belo jardim do Hotel Vista Tropical, até sua entrada.

- Ai, tio Rodrigo, que cheiro estranho é esse?

- É a atmosfera, Sandrinha. Embora, depois da terraformização...

- Terrafor...O quê?

- Terraformização é a transformação de planetas inóspitos em lugares iguais à nossa Terra. E depois que puseram ar que possamos respirar aqui e fizeram outras mudanças, puderam criar grandes cidades e viver sem capacetes...

- Mas e o cheiro?

Estavam agora no belo hall do hotel, fazendo o check-in.

- Nunca esteve em outro planeta? - Perguntou a guia, que ouvira a conversa dos dois e se intrometera. Um velho e sorridente travesti.

- Não, senhora.

- Bem, um planeta é sempre diferente de outro, o chão, a vegetação, a pressão, a gravidade...Tudo isso influi no ar e em outras coisas, por isso Marte cheira diferente da Terra...

- Então é por isso que me sinto mais leve? É a gravidade?

- Pois é, Sandrinha - disse Rodrigo, pegando seu ID e colocando no computador - aqui a gravidade é menor. Você se acostuma...

A guia, que tinha um enorme nariz, completou:

- E a pressão do ar também é menor, portanto nada de correrias, hein, mocinha?

****

Um pequeno e multicolorido aero pousou suavemente em frente à uma grande duna de areia vermelha. O céu também tinha essa cor, no meio da tarde, e fazia frio. Pequenas rochas, espalhadas pela superfície, completavam a paisagem.

O grupo de turistas de Rodrigo, bem heterogêneo, desceu. O travesti, vestido com roupas de cores tão berrantes quanto as do aero, começou a falar em solanês:

- Após esta duna vocês verão o famoso Palácio do Vórtex. Não é o nome que os marcianos lhe davam, Bakuskalli, e sim o nome dado pelos exploradores americanos Quincy Barrow e Michael Hugh, que o encontraram em 2.052. O nome marciano só foi descoberto vinte e cinco anos depois, com a tradução dos famosos rolos binários encontrados aqui pela primeira vez, e depois por todo este planeta.

Andaram em conjunto, subindo a duna, e se depararam com uma maravilha.

Rodrigo já estivera ali, em suas vidas anteriores, milhares de vezes. Quando era Atron, lembrava-se vagamente, morara ali. Mas mesmo assim acompanhou a exclamação de surpresa de todos, pois era um lugar belo, muito belo, belíssimo. A guia travesti prosseguiu na apresentação.

- Mais do que em qualquer outro lugar foi aqui que conhecemos melhor a antiga civilização marciana, que dominou por completo este planeta, outrora rico e verdejante, muito semelhante a nossa Terra atual, com rios e lagos caudalosos, e até oceanos. Os cientistas descobriram restos de imensas florestas tropicais e cidades, muitas cidades. Eles estavam no apogeu quando se autodenominaram lemânticos. Leman tornou-se o nome deste planeta para eles, e muitos arqueólogos acreditam que viajaram pelo espaço, milênios antes de nós, e dominaram boa parte desta região da galáxia.

Um gorducho de pele escura e cabelos azuis perguntou em russo:

- E a teoria da colonização da Terra? Eu acho que sou descendente de marciano...

- Bem, muitos acreditam que somos descendentes de marcianos, pois já sabemos com certeza que eles estiveram por lá...Pessoalmente acho isso uma bobagem. Teorias apontam a evolução humana como sendo totalmente terrestre.

De todos, apenas Rodrigo sabia que ambos tinham razão.

Um japonês fez uma pergunta à guia enquanto sua minúscula registradora saia do seu bolso e registrava tudo em realidade virtual, para diversão de seus amigos mais tarde.

- E sobre aquela estória que aqui seria a Atlântida?

Muitos do grupo riram.

- Essa lenda de Atlântida vêm desde a Grécia antiga, se não me engano - foi a resposta dela - e a colocaram em vários cantos da Terra, depois começaram a dizer que ela estaria na Lua...Acho que tudo não passa de bobagem também, embora os cientistas afirmem com certeza que muitas lendas terrestres da antigüidade originaram-se das visitas que os marcianos faziam à Terra, à mais de...Bem, não sabemos ao certo quando que eles desapareceram, e quando foram essas visitas...

Desceram pela areia em direção ao enorme palácio, todo verde-jade, que reluzia estranhamente mesmo à parca luz do Sol distante. Suas enormes torres tinham centenas de andares, com pequenas e espalhadas janelas retangulares. Varandas e sacadas estavam por todo lado, assim como plataformas que há muito tempo sustentaram jardins. As paredes eram de uma lisura tipo mármore, mas quando os turistas a tocavam, sentiam-nas quentes e suaves. O verde, escuro, meio-metálico, espalhava-se pelos altos muros e nichos. Tubos que outrora foram canhões dominavam o lado leste, e toda aquele imensa e incrível estrutura estava enfincada num vórtex de areia, numa estranha espiral vermelha, de um modo surreal. As pequenas formigas que eram os turistas e Rodrigo sumiram no colosso, entrando pela fantástica porta principal.

Tinha vinte e cinco metros de altura por quinze de largura a entrada, num formato curiosamente retangular. Tudo ali tinha cantos extremamente retos. As portas, há muito sem fechar, eram daquela delirante rocha que compunha as paredes, só que menos densa. Do salão de entrada de quinhentos metros quadrados subiram por uma larga rampa, que puxava o grupo de forma suave até um mezanino imenso, que dava acesso a rampas iguais para todos os lados. Tudo naquele aconchegante verde. A guia instruía:

- Os marcianos possuíam a mesma tecnologia antigravidade que temos hoje, portanto não estranhem as rampas que puxam. Os arqueólogos estão tentando descobrir a fonte de energia delas há séculos, sem resultado. Estimam-se que estas rampas estão em funcionamento, sem uma falha, há coisa de dez mil anos.

Rodrigo sabia que era mais...Dezesseis mil era o número certo, o palácio havia sido construído mil anos antes dele nascer, como Atron.

- Não sabemos também como, do dia para a noite, tôda essa tecnologia se perdeu, e porque os marcianos desapareceram por completo. Muitos planetas foram colonizados por eles no passado, mas sumiram de todos...Sem deixar vestígio. Até hoje não sabemos com o que um marciano se parecia.

Rodrigo riu-se por dentro, tinha vontade de revelar tudo, mas certamente seria tomado por louco, ou ririam dele como no caso da menção à Atlântida. Terrestres...Arrogantes demais...Enfim, agora era um deles, não era? Seria divertido contar que os marcianos não desapareceram por completo, mas apenas de Marte e de suas principais colônias. Muitas outras sobreviveram, apesar de tudo.

Sandrinha puxou a camiseta térmica de mangas longas e cor preta que Rod vestia:

- Tio Rodrigo, porquê os marcianos morreram?

Isso nem ele sabia. Não lembrava de nada...Sabia que Marte, ou Leman, havia sido destruída, varrida por completo, a antiga capital do imenso império. Antes disto, as colônias mais importantes foram saqueadas. Mas suas memórias estavam apagadas ou bloqueadas. Não lembrava o motivo, nem quem atacou seu mundo, há tanto tempo atrás. Sabia que o cataclisma fôra um ataque, e não uma coisa natural, como ouvia agora a guia dizer. Mas não sabia nada além disso.

- Tio, tio, presta atenção! Porquê os marcianos morreram?

- Não sei, Sandrinha. Mas bem que eu gostaria de saber...

No solanês perfeito de guia, o travesti descrevia os cômodos principais a medida que passavam por eles. Explicava:

- Aqui havia um centro de controle, restos de equipamentos foram encontrados.

Então Rodrigo sentiu o coração disparar.

- Esta é a Sala do Conselho. Naqueles painéis deviam ficar os reis de Leman.

Era isso mesmo - lembrou-se Rod - painéis onde ele e sua irmã sentavam-se e colocavam suas mãos, sentindo os administradores, controladores e supervisores, generais e almirantes. Onde comandavam o Império Lemântico, cuja capital, Leman, era o sistema nervoso de centenas de planetas. Onde imensas naves espaciais cruzavam o espaço em túneis como os atuais, onde novas civilizações eram encontradas e subjugadas...Um passado de glórias...E havia ainda um Império maior, que tentava conquistá-los...

Rodrigo recebeu essa enxurrada de memórias e desmaiou.


Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo VI.

Era noite e estava numa cama quando acordou. Um robô-enfermeira fez com que Rodrigo cheirasse alguma coisa estranha e logo sentiu-se melhor. Uma enfermeira humana surgiu, muito bonita, e perguntou:

- O senhor está bem? Sabe como é, atmosfera e gravidade diferentes...

- Sinto-me bem, obrigado...Onde estou?

- Na enfermaria do palácio. Pessoas que visitam outros planetas pela primeira vez podem ter estes problemas, fique tranqüilo, não é nada grave.

O corpo de Rod estava fora da Terra pela primeira vez, mas sua alma não. O problema não tinha sido Marte, mas as memórias...Apenas uma vez sentira-se como naquele dia: com uma torrente de imagens em seu cérebro, sem parar, e novas lembranças de quando fôra Atron. Estranhava o fato, pois, por muitas vezes, voltara ao Palácio do Vórtex, sem nada lhe acontecer.

Mas numa de suas vidas anteriores, esteve num planeta de nome Nishia.

Nishia...Lembrou-se que naquela vida ele era comandante de uma nave militar, e desceu ao planeta para acompanhar os testes que fariam num estranho objeto, um globo negro do tamanho de uma bola de futebol, descoberto nas ruínas de uma antiga cidade orbital, abandonada a milênios por seres desconhecidos.

Durante os testes, feitos num grande laboratório, a esfera negra, que não refletia a luz, emitiu uma vibração de baixa freqüência que o aturdiu. Imagens violentas vieram à sua mente, antigas lembranças, e ele desmaiou.

Nada se sabia sobre o globo, impossível de penetrar, e Rodrigo convivera com o mistério anos a fio. Guardado em Nishia, as pesquisas continuaram.

Agora estava ali, achando tudo estranho. Porque só agora uma visita ao palácio disparara aquela sucessão de imagens? Porque achava que a tal esfera negra tinha relação com ele, de alguma forma, anos depois de ter morrido naquela vida em que a viu pela primeira vez?

Deixou a cama e se arrumou. A enfermeira humana entrou de novo:

- Já vai? Sente-se bem?

- Sim, só um pouco zonzo. Meu grupo, eles ainda estão por aqui?

- Sinto, mas voltaram ao hotel há uma hora. A TTB mandou um aero para pegá-lo, ele está lhe esperando.

Rodrigo fez que não com a cabeça:

- Prefiro dar uma volta pelo palácio, afinal, seria um desperdício perder a melhor visita de Marte. Posso ficar?

A enfermeira deu de ombros:

- Claro, nunca fechamos. Só não dispomos de guias...

- Não precisa, apenas vou dar uma olhada por aí. Obrigado.

Rod saiu e foi para a Sala do Conselho, fácil de achar pelos terminais espalhados por todos os lados (o caminho ele não lembrava). A sala era imensa, tôda enfeitada, com frases escritas em caracteres rúnicos pelas paredes de verde-jade. Colunas quadradas e cantos retos não faltavam, e a plataforma onde ficavam as cadeiras moldáveis e os painéis dos reis era um retângulo de seis por quatro metros, num verde mais escuro. Os painéis eram lisos e nada se viam neles, mas as poltronas, que pareciam de rocha sólida como o resto, se adaptavam automaticamente ao corpo que se sentava e era macia. A luz do aposento que o livrava da noite parecia vir de todo lugar.

Rodrigo sentou-se e assustou-se quando ouviu um robô-guarda falar:

- É proibido sentar nas cadeiras dos reis. O senhor pode sentar-se nestas aqui em baixo, se quiser, projetadas para os secretários dos conselheiros. Todas as outras são proibidas. - Sua voz era aguda e irritante.

- Está bem, já estou saindo, já saí!

O robô desapareceu por uma das várias portas retangulares que davam para o aposento, e assim que ficou sozinho tocou um dos painéis. Nada aconteceu.

Rodrigo pensou consigo: O biocomputador deve ter morrido há centenas de anos, antes dos terrestres descobrirem o palácio. Não poderá me ajudar, como eu esperava. Mas, o que ativou minha memória daquele jeito?.

Um rapaz simpático, de pele marrom e cabelos pixaim, apareceu e disse:

- Posso ajudar? Sou um dos supervisores, Albert Mangis. Notei que estava sozinho perambulando por aí e...

Rodrigo respondeu, no mesmo solanês que seu interlocutor falava:

- Gostaria de poder ver os últimos rolos binários achados aqui, há dois anos.

- Ah, venha, vou lhe mostrar, estão na Sala do Computador.

O jovem Maulson seguiu o rapaz que devia ser pouca coisa mais velho que ele, e ambos desceram até um outro salão, do mesmo verde. Aqui, caixas interligadas por tubos tomavam quase todo espaço, caixas agora vazias, mas Rod sabia que um dia elas contiveram tecido e nervos vivos, pois formavam o mais fantástico biocomputador jamais construído. A tecnologia se perdera, e os terrestres nunca souberam dela.

- Por aqui, senhor...

- Rodrigo, e nada de senhor, me chame de Rod.

Entraram numa sala menor, mas não menos bela e decorada. Em redomas de liga de carbono transparentes, rolos de cristal ultrafinos. Albert falou, um leve sotaque inglês impregnava seu solanês:

- A parte não danificada já foi traduzida. Elas revelaram os nomes...

Albert explicou-lhe tudo que Rodrigo já sabia através de Atron ou pela Solarnet, portanto não prestou atenção, pensando apenas no que fazer para ir além. Recuperar os rolos? Só com computadores tão sofisticados quanto os que tivera, milênios atrás, em seu império. E quanto à Liany, sua irmã? Será que tinha o mesmo dom de mudar de corpo, e sua alma vivia em algum lugar deste imenso Universo?

- ...Além dos rolos, que caíram de dentro de uma parede no terremoto, acharam também uma estranha esfera negra, do tamanho de uma bola de futebol e pesadíssima...

O rapaz loiro sobressaltou-se:

- Uma esfera negra? Igual a de Nishia?

- Sim, igualzinha. Os cientistas estão começando a achar que a cidade orbital abandonada, onde acharam a primeira, fôra construída pelos marcianos.

- Preciso vê-la!

Albert levou-o à sala contígua. A esfera sem brilho estava lá, sobre um pedestal.

Rodrigo sentiu-se atordoado, e passagens de sua vida de Atron afloraram: via Liany, a bela marciana que fôra sua irmã, lhe dizendo:

- ...O ataque foi bem sucedido, destruímos a principal arma de Zonos...

Agora era outra pessoa, um velho:

-...A mensagem chegou tarde...Seremos destruídos se não...

Liany voltou a sua mente:

- ...A chave! Temos de guardar a Chave! Zonos não pode...

Explosões. Mortes, Batalhas no espaço. Quase desmaiou novamente, depois relaxou. Estava atordoado, ali, naquela saleta de paredes verdes.

- Rod, você está bem? Parece meio estranho...Está meio pálido.

- Estou bem, sim, estou bem, só preciso de um copo d'água.

Enquanto o supervisor saía, Rodrigo aproximou-se da esfera. Na vida passada em que encontrara uma pela primeira vez, não teve oportunidade de tocá-la. Agora não resistiu, porém nada aconteceu. Voltou à sala dos rolos e perguntou-se como leria a parte danificada deles, devia haver uma maneira. Achava que se pudesse recuperá-los totalmente, descobriria pelo menos algumas das respostas das questões que lhe afligiam.

Parado ali, em frente às redomas, o jovem Maulson lembrou-se que tinha uma mente privilegiada. Com o pouco de conhecimento que Atron lhe deixara, talvez pudesse construir um biocomputador...Mas precisaria de dinheiro, muito dinheiro. Aos poucos, de olhos fechados, repassou seus conhecimentos sobre computação eletrônica e o que lembrava de computação biológica...Podia dar certo, e com um biocomputador, leria os rolos danificados (afinal, os cristais em si não estavam destruídos, apenas seus dados estavam desorganizados nas moléculas). E se lesse o resto do que continha esses rolos, talvez pudesse descobrir o que houve com Liany, quem atacou e destruiu Marte e seu motivo, entre outras coisas. Talvez descobrisse a localização de Tarínia, a tão misteriosa estrela verde onde Martogh lhe dera aquele fantástico poder que lhe permitia trocar de corpo.

- Aqui está. Beba tudo e relaxe.

Ambos sentaram-se e Albert Mangis começou a falar sem parar. Rodrigo não prestava atenção ao linguarudo ao seu lado e matutava um jeito de conseguir seu intento.

- Sabe como é, a inflação na Terra está meio alta...

Rod pensava nas esferas negras, o que seriam?

-...Gastei todo meu salário em comida para camelos...

E a Suzana? Precisava ligar para Douglas ao chegar ao hotel...

-...E você viu aquele acidente, que horrível? O iate-estelar dos Maulsons explodiu, matando o casal...Sabe, os Maulsons, aqueles milionários sovinas...

Rodrigo voltou-se para Albert.

- O quê? O que aconteceu com meus pais? - Sua voz estava alta.

- Seus pais, os Maulsons? Ora, deixe disso, o que um ricaço como você estaria fazendo em uma excursão barata destas, o arroz-com-feijão do turismo?

Rod perdeu o controle, pegou o supervisor pelos colarinhos, deixando cair o copo:

- O que houve com MEUS PAIS? - Era mais o antigo Rodrigo falando do que o novo. Antes que Mangis respondesse, ele já estava se controlando.

- O iate de vocês, você sabe o ...Bem, não lembro seu nome agora...

- O Moeda de Ouro.

- Isso. Armando e Marlene Maulson estavam à bordo, indo checar a fábrica deles em Mercúrio, quando o iate-estelar explodiu misteriosamente. Estão investigando...

Rodrigo passou a mão pelos cabelos e murmurou:

- Não gostava deles, mas não mereciam isso.

- Acham que foi atentado - prosseguiu Albert - pois uma nave explodir deste jeito sozinha é quase impossível. Algo a ver com casos de corrupção policial lá na Terra, numa cidadezinha do interior do planeta. A Polícia do Brasil entrou no caso, parece ser muito sério, muita gente envolvida...Você não estava sabendo?

- Passei a tarde desfalecido na enfermaria...

- Ah, aconteceu às 1230 horas-padrão. Deu na tridivision, mas você estando apagado...Você é mesmo o filho deles?

Rodrigo Maulson sacou seu ID. Albert pediu desculpas, mas o jovem loiro já não lhe prestava atenção mais uma vez: sua mente estava tentando encaixar os fatos...

****

Desta vez sem a companhia da Sandrinha, Rodrigo olhava a Terra aproximar-se rapidamente. Cancelara seu passeio e retornava às pressas numa nave de linha, confuso. Douglas dissera para voltar o mais breve possível, porque havia polícia e advogados à sua procura. Estava pensativo quando desembarcou na Space Station One. Puxando sua bagagem, leve com os antigravs, não percebeu um senhor se aproximar. O homem chocou-se com ele e prosseguiu. Imediatamente após o choque Rodrigo sentiu-se tonto e caiu, desfalecido.

Não fosse a presteza do serviço de pronto-socorro, estaria morto. Um robô-médico que ficava no saguão detectou a substância tóxica em seu organismo e imediatamente aplicou-lhe um antídoto. Ali mesmo Rod despertou.

- O que houve?

Muitas pessoas estavam ao seu redor. O robô que o salvou disse:

- O senhor foi envenenado.

Um médico chegou e o examinou. Ajudou-o a se colocar de pé.

- Acho que foi um atentado. Alguém esbarrou em você?

- Sim, um homem com pressa, mas não prestei atenção, acho que não sei identificá-lo.

O médico imediatamente chamou a Polícia da Estação.

Em instantes Rodrigo estava na Ala de Segurança, bebendo um WhiteCofee e conversando com os detetives.

- Vocês acham que querem me matar? Porque?

- Senhor Maulson, estivemos em contato agora há pouco com a Polícia do Brasil, e eles acham que quem explodiu o Moeda de Ouro quer matá-lo também. Ainda ninguém sabe o motivo, mas tem a ver com a corrupção nível A da polícia de Morros Gêmeos. Os detetives de lá acham que Atílio Carvalhosa pode ser a chave de tudo, ainda mais depois que escapou da cadeia.

- Como ele conseguiu? - Perguntou um Rodrigo surpreso.

- Ajuda de dentro. Ele, Juan Rico e Mark Riley. Estão desaparecidos.

Rodrigo sorveu o resto de seu café alcoólico e levantou-se. Perguntou:

- E a Suzana, minha namorada?

- Nada ainda. Morros Gêmeos está em polvorosa com todos estes crimes, e a população tôda está procurando a garota. Mas não acharam nenhuma pista.

Depois de seu depoimento e um exame médico completo, Rodrigo foi aguardar sua descida para a Terra. O exame apontara uma pequena picada, feita no esbarrão, de uma letal injeção de veneno. Rod não lembrava do rosto do homem, não olhara para ele, porém agora estava em alerta máximo. Logo desceu por um túnel à superfície.

Estava quente, muito quente. A gravidade e todo o resto afetaram momentaneamente o rapaz loiro. Na entrada da fazenda, na pequena estrada de terra, sentiu-se em casa, embora enjoado.

- Rodrigo, meu caro filho postiço! - era Douglas, ao vê-lo.

Abraçaram-se. Rod permitiu-se sorrir. O velho o puxou para a velha e grande casa de paredes brancas, lamentando-se:

- As coisas estão feias, a cidade, agitadíssima. Sinto muito pelos seus pais...

- É, apesar da frieza, eles eram meus pais, e estou chocado. Será que os Malucos Safados estão mesmo envolvidos na explosão do iate? Como eles conseguiriam tal coisa? Não é nada fácil. E tentaram me matar...

Douglas virou-se para ele, perplexo. Dorinha se aproximava. Ela ouvira:

- Tentaram matá-lo? Quem?

- Um homem alto que não vi claramente, na estação. Será que foi mandado pelo Atílio?

Douglas sacudiu a cabeça, sem saber responder. Apenas disse:

- De qualquer forma, à males que vem para o bem. Você está rico, você era o único herdeiro de seus pais. Parabéns, Rodrigo.

****

Trabalhando na garagem, o rapaz estava distraído. Passara o carnaval brasileiro enfurnado com advogados, tratando da herança, e o resto do tempo dedicava-se à duas coisas: a aeromoto e seu projeto de biocomputador. Procurava não pensar em Suzana, mas era muito difícil.

As aulas iriam começar logo. Estava triste por seus pais, mesmo sabendo que teria creds suficientes para pesquisar a tecnologia da bioeletrônica. Não pensava muito em Armando e Marlene. Havia algumas lembranças involuntárias, é claro. Lembranças amargas, de uma infância...Não, a memória de Rodrigo mostrava pais felizes e atenciosos num passado distante. Sorriu e deixou cair uma lágrima. Porque mudaram tanto nos últimos anos? Problemas na empresa?

Agora a Maulson Interplanets era sua. Estudara sobre ela, e sabia que era uma grande indústria de projetores de túneis. Como único herdeiro, passara a controlar tôda a holding. Levaria alguns anos até ser o presidente da companhia, mas eventualmente alcançaria este posto.

- Não vai morar na mansão? - perguntou Dorinha, na porta da garagem.

- Bobagem. Gosto de estar aqui com vocês. Convidei seu pai para ir para lá e ele riu da minha cara. Ele está certo...Vou vendê-la. Traz lembranças tristes. Mas, Dorinha, você tem que falar para o seu pai aceitar o money que quero lhe dar.

Dorinha ajoelhou-se ao seu lado.

- Não ligue para ele, esqueça isso de nos dar dinheiro. Ah - suspirou - lembro-me quando que vocês eram muito felizes, você e sua família. Eu era apenas uma adolescente ingênua na época, parece que faz tanto tempo...

Rodrigo sorriu. Disse à ela:

- Prossiga, conte-me mais.

- Vi você como um bebê...E então seus pais se afastaram de nós, de todos, sem motivo aparente. Nunca mais o vi, Rodrigo, e foi uma surpresa reencontrá-lo.

Ele sorriu. Ela continuou:

- Vou voltar para Alpha-Centauri amanhã. Quero ver se encontro meu marido e meus filhos. Foi uma briga feia, mas acho que...

Estava morta antes de completar a frase. A bala explosiva jogou seus miolos sobre um Rodrigo em estado de choque, que demorou alguns segundos para reagir: outra estava em sua direção.

Seguia o calor do corpo, por isso quase acertou o rapaz, mesmo ele se escondendo atrás da caminhonete de Douglas. Uma terceira vinha zunindo, e sem demora o jovem subiu no gravicar preto e ligou-o, acelerando-o ao máximo. A bala entrou pela janela traseira, raspou seu ombro esquerdo, e explodiu com o pára-brisa. O carro atravessou a parede oposta da garagem e invadiu a cozinha, mandando velhos tijolos pelos ares e sobre o Rod.

Conseguiu pisar nos freios e aguardou, ferido, ofegante. O ataque parara. Douglas berrava, em algum lugar atrás de si, distante. Arriscou descer e olhou os estragos na casa, depois correu até Dorinha. Sentiu um arrepio ao vê-la ali, estatelada e morta. Ajoelhou-se, sangrando, ao seu lado. Levantou os olhos e viu Douglas, que matara o assassino, tremendo a sua frente, uma velha 22 de cano cerrado nas mãos, fumegando. Jogou a arma, pegou o corpo de sua filha e desatou a chorar.

****

O Coronel Davi Arreio Correia Colina era conhecido pela sua competência. Tinha quarenta anos, e uma carreira de sucesso na Polícia do Brasil. Tirou o quepe preto quando desceu de seu gravicar, no subterrâneo da delegacia de Morros Gêmeos, e caminhou até o elevador. A antigravidade suavemente depositou-o no térreo, onde, junto de sua secretária, aproximou-se de Ferrato, o delegado da cidade.

Sua alta estatura intimidava a todos, e cultivava um pequeno bigode. Com seu reluzente uniforme de oficial, sentou-se pomposamente. Janaína sentou-se ao seu lado e ativou o registrador.

- O senhor sabe quem é o rapaz que matou Dora Sameros?

Ferrato cruzou as mãos sobre sua mesa:

- Juan Rico, um halterofilista guatemalteco.

- Outro dos Malucos Safados. A coisa agora está ficando complicada, inclusive para o senhor, delegado. A corregedoria já mandou que prendêssemos metade de seus policiais e desativássemos quase todos seus robôs. Nem meu pai, que Deus o tenha, chegou a pegar tanta corrupção junta.

O coronel levantou-se, enquanto Ferrato engolia sêco.

- Pensávamos erroneamente que a corrupção fora erradicada do Brasil!

- Sinto muito, senhor Davi, mas, veja, a corregedoria não descobriu nada contra mim! Estou do lado do senhor, estou tentando ajudar...

O coronel apontou o dedo para o pobre delegado. Janaína apenas observava e checava o funcionamento do registrador. Era uma bela loira, que Colina escolhera a dedo, não pela aparência, mas pela eficiência.

- Então porque permitiu que aqueles dois detetives do Jonas, o pai do suspeito número um, xeretassem por aqui? Aliás, também não engulo o fato do senhor nada saber sobre a fuga dos Malucos! Como tudo isso foi possível?

- O senhor sabe, foi o Fraga. Ele soltou a todos, ele também fugiu, acertou o robô que o vigiava com um PK miniatura que escondia na testa.

Davi esmurrou a mesa do Ferrato com toda força. Ferrato pulou:

- COMO? Ele deveria ter sido totalmente scanneado!

- Eu sei, mas...

Janaína Ranadi sentiu pena do coitado. O coronel sacudiu a cabeça.

- Não importa, agora. Quero ver Douglas Sameros e o herdeiro dos Maulsons.

Eles estavam em outra sala prestando depoimento ao computador-escrivão. Um detetive humano supervisionava. Davi Colina entrou, com Janaína ao lado. O registrador flutuou atrás deles e prosseguiu gravando em realidade virtual.

- Senhores, podem parar um minuto? Sou o coronel Davi, da P.B.

Rodrigo deu de ombros.

- Já acabamos, mesmo. Mas, por favor, seja rápido. Estamos exaustos, e ainda precisamos cuidar do funeral da Dorinha.

O coronel e sua secretária sentaram-se ao lado do velho fazendeiro e de Rod. O detetive humano saiu quando o oficial da P.B. mandou.

- O senhor, senhor Douglas, fez um favor para a sociedade matando com aquela arma velha o assassino de sua filha, aquele tal de Juan. Não vamos prendê-lo por porte de arma, mas infelizmente a calibre 22 será confiscada.

- Leve-a, coronel, senão posso fazer alguma besteira...Como ir atrás do Atílio e matá-lo eu mesmo.

- Acha que ele está envolvido neste assassinato também?

O velho Douglas riu, uma risada sem graça. Não olhava para o coronel.

- Claro. Ele também deve ter matado a Suzana e os pais do Rodrigo.

O coronel coçou o bigode. Janaína falou, sua voz era suave, com sotaque baiano:

- Sabotar um iate-estelar é muito difícil, além do mais, como ele conseguiria ir ao espaço? Ninguém geraria túneis para ele ou qualquer outro Maluco...

Rod suspirou:

- Tem muito mais gente nessa, não sabiam sobre o atentado contra minha pessoa na SSO? Um homem que não conheço atacou-me.

- Sim, sabíamos, e estamos diante de algo grande - comentou o coronel - algo como há muito não víamos no Sistema Solar. Não é apenas brincadeira de gangs...

- Não, não é. - Afirmou Douglas. Depois bufou:

- Podemos ir? Temos muito o quer fazer. E preciso ligar para o Doriva e o Jr.

- Claro que podem, senhores. Sinto muito pelo que aconteceu.

Rodrigo notou a beleza de Janaína quando deixaram a sala. Notou depois um Douglas arrasado, mancando com angústia à sua frente. Um autotaxi os levou ao IML, e Rod ajudou seu velho amigo da maneira que pôde. Ao final da tarde houve um funeral, com VDcoms flutuantes mostrando os rostos de amigos ausentes e distantes junto com várias pessoas simples de Morros Gêmeos, que tinham ido ali consolar Douglas. O cemitério subterrâneo viu apenas tristeza naquela tarde tranqüila.

****

A primeira aula do terceiro ano de Astronavegação na UMG terminara, e Rodrigo Maulson despediu-se dos colegas e preferiu ir caminhando, sozinho, até a Fazenda Sameros. Passou pela frente da mansão que era sua e estava à venda, subiu a pequena estrada de terra batida e logo estava entrando na propriedade de Douglas. Fazia muito calor naquele mês de março, e tudo estava estranhamente quieto. Pensativo, olhando para o céu de poucas nuvens, o jovem foi até o estábulo, onde começou a se exercitar.

Praticou vários exercícios, fortalecendo os músculos já fortes, conversou com Rino e depois foi até a casa principal. Douglas havia saído e ainda não voltara, o almoço teria de esperar. Foi até a garagem e examinou a velha aeromoto que começava a parecer um veículo de verdade.

Ao invés de tomar uma turboducha, resolveu ir nadar no rio que cortava a fazenda, como costumava fazer de vez em quando. Lá tirou suas roupas e entrou na água refrescante e transparente. Nadou, mergulhou das pedras, relaxou.

O sol estava a pino e Rod flutuava de olhos fechados na sombra de uma árvore, sentindo a água fria e gostosa o envolvendo, quando algo tocou sua perna. Sem abrir os olhos Rodrigo afastou o que pensara ser um galho, mas este era...Peludo.

O rapaz assustou-se: era cabelo! Um corpo...Seu coração pulava como um sapo dentro de seu peito. Tirou a água do rosto e tentou ver mais daquele corpo boiando no rio, sem roupas.

Suzana...

Com medo de virar o cadáver e encará-lo, Rodrigo preferiu sair do rio e vestir-se, então aproximou-se da margem e olhou melhor...Não era um corpo de mulher, era um homem. Rodrigo, horrorizado, reconheceu o corpo mutilado e coberto de hematomas.

Saiu em desatino para a casa da fazenda, e chamou a Polícia.


Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo VII.

Era um maravilhoso FlyBoat flutuando nos céus de Morros Gêmeos, um barco voador sustentado por antigravitadores, com um luxuoso interior. Jonas Carvalhosa e sua mulher estavam qual tal reis em seus tronos, espalhados pela sala de estar. Diante deles Atílio, com ar humilde.

- Desculpe, pai. Eu sei que posso ter posto tudo a perder com a gang, mas...

- Mas o quê, seu imbecil? Se você e seus amigos não quisessem fazer tanta farra, nada disso teria acontecido. Agora tudo está fugindo do controle, e se não acharmos logo a tal Suzana, você tem idéia do que pode acontecer?

- Eu sei, pai, mas a Suzana não tem como se comunicar com ninguém naquele labirinto, e seus homens a acharão!

- Espero que sim, Atílio. Outra coisa: porque torturar aquele homem? Bastava matá-lo! Os policiais estão investigando cada milímetro desta cidade, e quando encontrarem o coitado, ficarão furiosos!

Jonas estava muito nervoso. Atílio rilhava os dentes. Jonas prosseguiu:

- Tive de liquidar aquelas marionetes dos Maulsons antes que percebessem o que fizemos...Mas estou sem poder controlar a companhia. Aquele garoto filho deles pode mesmo vir a assumí-la, talvez tenhamos de tratar dele também.

O jovem rapaz de pele escura chutou a mesa de centro.

- Aquele babaca não serve para nada!

- Foi outra idiotice mandar meu agente e depois seu amigo tentar matá-lo.

- Ele teve sorte, mas pegamos a advogada. Podem ter matado o Juan, mas ele não valia nada mesmo...

Jonas olhou para sua esposa, quieta e submissa. Voltou a olhar seu filho:

- Cacete, Ti! Não era para chamar tanta atenção!

- A advogazinha conseguiu trazer a corregedoria para cá, e até arrancou dinheiro do senhor. Achei que era melhor mandá-la para o inferno.

- Tive de pagar aquela indenização para não levantar suspeitas. Ti, seu idiota, talvez precisemos usar o filho dos Maulsons para retomar o controle da Maulson Interplanets. Pare de tentar matá-lo agora...Depois ele será seu.

Atílio riu e chutou um cadeira:

- Vou torturá-lo e esganá-lo!

Jonas olhou seu filho com raiva:

- Criei um monstro...Um maldito monstro sádico!

****

Janaína Ranadi serviu um WhiteCofee quente para Rodrigo, e também serviu-se de um. Ambos estavam olhando os policiais resgatarem o corpo do rio.

- Nunca pensei que isso pudesse acontecer com ele, senhor Maulson.

- Me chame de Rod, Janaína.

- Então me chame de Jan.

- Jan, então. Você tem um nome bonito...Como sua aparência.

Ela sorriu. Estava tentando se recuperar do choque por qual passara. Seu chefe, que pouco conhecia, mas admirava, estava morto. Como podiam ter matado o corajoso coronel Colina? E torturá-lo daquele jeito?

- Deve ter sido horrível quando o encontrou...

- Foi um susto e tanto. Acho que os Malucos Safados atacaram de novo, mesmo tendo sobrado só o Atílio e o americano, Riley.

Douglas se aproximou, ao fundo o corpo nu do coronel era posto numa ambulância. Bateu nos ombros de seu pupilo:

- Rod, vamos dar um tempo, viajar para bem longe...Estou começando a ficar com medo da máfia que apareceu aqui em Morros Gêmeos...

- Máfia? - Perguntou a bela loira. Seus olhos de um azul profundo e seus cabelos tipo samambaia atordoavam qualquer um. Rodrigo respondeu-lhe:

- Um termo antigo, que significa crime organizado. E está me assustando também, mas não quero perder minhas aulas. E por falar em aulas, estou achando a minha turma muito estranha, principalmente as meninas.

Jan serviu um WhiteCofee para Douglas e encheu a xícara de Rod.

- Como assim, estranha? - Ela perguntou.

- Estranha. Parecem que todos ficaram...Meio abobalhados.

Douglas sorveu seu café alcoólico com barulho:

- Todos? A universidade inteira?

- Não, apenas algumas meninas mais bonitas e alguns dos caras mais importantes, sabe, monitores, supervisores e até alguns dos professores humanos. Eu nunca havia me dado bem com ninguém da faculdade, mas eu mudei bastante neste últimos meses...e passei a conviver mais com eles, e daí senti uma mudança sutil...

Janaína encostou-se numa árvore. A ambulância foi embora.

- Tem certeza? Não deve ser nada, e com tantas coisas acontecendo...

- Olha, uma amiga, a Soraya, ela era chegada à mim e a Suzana. Agora um diálogo com ela é uma troca de monossílabos...Até parece as conversas que eu tinha com meus falecidos pais. Não, alguma coisa está errada...

Janaína suspirou:

- Calma, Rod. Você está assustado, afinal, não me lembro de um lugar com tantos assassinatos em tão pouco tempo no Sistema Solar. E você já sofreu dois atentados...Então fica desconfiado de qualquer coisa.

- Talvez, mas não sou apenas eu a notar. Alguns amigos também notaram, conversamos sobre isso ontem, na lanchonete. O Antônio, por exemplo: diz que a namorada o deixou sem explicações de um dia para o outro.

A loira levantou-se e bateu em seu traseiro para limpar as folhas.

- Não fique preocupado. Você sabe que a nata da Polícia do Brasil está aqui, investigando. O nervosismo faz todos imaginarem coisas...Mas você e Douglas estão seguros, eu garanto, vocês estão sendo vigiados!

Douglas foi irônico:

- Tão seguros quanto o pobre coronel Colina!

- Ei, Doug, não responda assim para a moça, é feio! - Rodrigo virou-se para a chateada Janaína: - Quer sair hoje à noite? Podemos ir à MGLanches e você verá com os próprios olhos o que estou dizendo.

- Só se você me mostrar a cidade depois. Chegamos a pouco tempo e eu fiquei enfurnada naquela pensão. O coronel, neste ponto, era um pouco chato...

Douglas levantou-se e seguiu para a casa principal:

- Vá Rod, e vê se esquece um pouco a Suzana.

****

Naquela noite Rodrigo e Janaína estavam flutuando em alta velocidade pela rua subterrânea em direção ao famoso bar da cidade, e Rodrigo dizia:

- Se os policiais estão me vigiando para garantir a minha segurança, porque não me viram no rio, hoje à tarde, na fazenda?

- Não sei, deviam estar lá. Amanhã prometo investigar isso.

O jovem Maulson olhava o computador dirigir.

- Você era apenas a secretária do coronel?

- Era, mas o cargo também vale como estágio na polícia, acabei de me formar na academia. Quero ser detetive.

- Então ajude-me a investigar tudo que acontece aqui em Morros Gêmeos. Não confio mais em ninguém, principalmente depois da fuga do Malucos. É impossível que ainda não tenham achado a Suzana, com tanta gente e tanto equipamento.

- Ok, pode contar comigo. Seremos parceiros...

A caminhonete preta subiu à superfície e entrou no estacionamento da MGLanches, que estava lotado. Pararam sobre um outro gravicar. Rodrigo deixou a antigravidade ligada e o automático para baixar o carro se o de baixo saísse primeiro, e então desceram flutuando e seguiram para uma grande plataforma sobre um belo lago, onde pequenas embarcações com namorados navegavam à luz da Lua. Janaína comentou:

- Veja, quanta gente rindo e se divertindo. Não parece ter nada de errado aqui.

- Não são todos que ficaram estranhos. Vamos pegar uma mesa.

Subiram à plataforma coberta através de uma pequena ponte e sentaram-se. No centro do bar um videoclip tridimensional dos Jumpers, e muito barulho de conversa. Pediram à mesa comida e bebida, que logo abriu-se no centro e os serviu. Rodrigo deu uma mordida no sanduíche e reclamou:

- Não consigo mais comer essas comidas sintéticas.

- Pudera, você está vivendo numa fazenda, com tudo natural...

- Que é muito melhor! - Largou o sanduíche e fez sinal para um amigo.

Um rapaz de cabelos encaracolados e roupas relaxadas, de copo na mão, sentou-se com eles. Rod fez as apresentações:

- Este é o Antônio. Antônio, esta é a Janaína.

- Oi, o Rod trouxe você aqui para ver os estranhos, certo?

- É, mas até agora não vi nada de anormal.

- Então esperemos. Mas, já vou lhe avisando: apenas um grupo continua vindo aqui. Muitos amigos nossos ficaram tão estranhos que não saem mais de casa.

Rodrigo o interrompeu:

- O Toni vem notando faz tempo essas mudanças...Eu só percebi nos últimos meses. Comentei com ele e ele me mostrou o comportamento errático dos estranhos, pessoas que não eram assim. Achamos que algo está acontecendo nesta cidade.

A loira bebeu um pouco de seu refri e deu de ombros:

- Com certeza, com tantos assassinatos e corrupção.

Antônio sacudiu a cabeça:

- Não sei se tudo está relacionado, mas você verá. Exatamente às vinte e uma e doze, hora local...

Quando o relógio do bar mostrou estes algarismos em seu painel, quatro estudantes subiram à plataforma. Dois rapazes e duas garotas sentaram-se mecanicamente numa mesa e fizeram seus pedidos, e depois comeram em silêncio.

- Vê? - apontou Toni - Estudantes comportados como estes não existem!

A ex-secretária do falecido coronel Colina estava céptica:

- É alguma nova religião. Não vejo nada de errado.

- Exceto que eles eram os mais pirados da UMG! Certo, Rod?

- Isso mesmo. E não sei de nenhuma nova religião instalada aqui...Haveria propagandas e esse tipo de coisa. Acho que tudo tem a ver com a corrupção. Algum tipo de lavagem cerebral, mas não entendo o motivo!

- Vocês estão imaginando coisas.

Mais tarde os três seguiram na caminhonete preta de Douglas, que Rod estava usando enquanto sua herança não estava disponível, até os prédios baixos da UMG. As aulas das turmas noturnas já haviam acabado mas como a universidade nunca fechava, entraram e foram à biblioteca. Numa saleta para grupos de estudo, colocaram capacetes e entraram no mundo virtual.

Estavam no campo, num dia quente de verão, e até o calor do sol virtual eles sentiam. Sentados na relva extremamente verde num círculo, discutiam os acontecimentos pouco comuns de Morros Gêmeos. Finalmente chamaram o computador.

- Computador, relacione todos os assassinatos e desaparecimentos nesta região nos últimos dez anos. - Pediu Janaína.

- Laís Pereira, afogada em 2.754. Haroldo Borges, esfaqueado em 2.755. Zanabo Tummasd, destruído por um tiro de PK em 2.757. Suzana Luciara, desaparecida desde dezembro de 2.763. No corrente ano, Alex Heiger, estrangulado, Dora Sameros, atingida por uma bala explosiva e o coronel Davi Colina, afogado.

Rodrigo tocou o braço de Janaína, pensativo:

- Laís Pereira...Era uma tia minha, irmã de minha mãe. Meu nome do meio é Pereira. Estou lembrado: ela foi encontrada morta na piscina, e o laudo da polícia técnica apontou assassinato. Todos ficamos muito chocados...Alguma relação com o que está acontecendo hoje? Espere! Foi nesta época que a família Carvalhosa mudou-se para cá!

Antônio coçou o queixo:

- Pensei que o Atílio morasse longe da família, na república.

- Apenas deixou a casa dos pais, que fica um pouco distante daqui. Não acha isso esquisito, Jan?

Ela pensou um pouco depois pediu:

- Computador, Relação das empresas ligadas à família Carvalhosa.

O computador demorou quase trinta segundos para responder.

- Empresa de robótica Robôs Carvalhosa ltda.

- Achei esse computador muito lento! - Exclamou Rodrigo. Antônio concordou:

- Computador, calcule quantos Mendez e Smiths existem em toda a Terra.

A resposta demorou exatos três segundos. A loira perguntou, em seguida:

- Computador, calcule a distância em metros da Terra até Plutão multiplicada pela distância da Terra à Júpiter, também em metros, e o resultado eleve à décima potência e extraia então sua raiz quadrada e dê o resultado até a milionésima casa decimal.

A resposta começou a ser dada logo após a última sílaba pronunciada por Janaína, que depois de alguns minutos pediu para o computador parar.

Rodrigo fez sinal para desativarem a realidade virtual. Sentiram frio ao retirarem os capacetes, os três agora se encontravam na escura saleta da biblioteca. Rodrigo disse:

- Vírus ou sabotagem. Um Guarani EP-40 completo como o da universidade não demoraria daquele jeito para uma pergunta tão simples como relacionar as empresas dos Carvalhosa.

- Você entende de computação mais do que eu, Rod - disse Antônio - mas acho que tem razão. Sabotagem dos próprios Carvalhosa?

A ex-secretária suspirou:

- Vamos até Selena. Estaremos longe da Terra e evitaremos usar a Solarnet, que pode estar grampeada. Em Selena poderemos acessar o Cíclope Lunar diretamente. Mas estou sem dinheiro para viajar.

- Eu tenho - disse o jovem Maulson, e recolocou seu capacete. Disse ao computador:

- Queremos um túnel para três. Destino: Space Station One, com conexão para a Lua.

****

Tinha esfriado, mas a noite estava estrelada. Rod, Toni e Jan estavam no pátio principal da UMG, aguardando. Rodrigo olhou para a Lua cheia e suspirou, pois era uma viagem tão rápida...Lembrava-se de quando o homem chegou pela primeira vez à Lua, em 1969. Ele tinha onze anos naquela vida passada, e ficara fascinado. Agora era tão comum, tão corriqueiro um passeio como aquele ao satélite natural da Terra. Um passeio pelas vizinhanças.

O wormhole surgiu na hora marcada e caminharam através dele, ficando por segundos no ante-espaço, até uma das várias salas de espera da grande estação orbital. As náuseas causadas pelo primeiro túnel logo passaram e em minutos estavam caminhando em outro, agora para a fabulosa cidade espacial de Lagrange 1, entre a Terra e a Lua. Mais um pouco de espera e atravessaram até Selena, a capital da Lua. Sem utilizar nenhuma espaçonave, foram da superfície da Terra até a Lua em vinte minutos.

O ar e sua pressão ligeiramente diferente do que estavam acostumados, somado ao sobressalto da passagem pelo ante-espaço, por três wormholes, e a gravidade menor deixaram Rodrigo, Antônio e Janaína aturdidos. Caminharam para um bar e beberam um refri restaurador.

- Acho estas viagens maravilhosas - comentou Jan - mas fico abalada com isso.

Toni e Rod concordaram, e sentaram-se um pouco para se recuperar no Portal de São Jorge, a entrada brasileira da Lua. Após passarem seus IDs pelos computadores da recepção, estavam numa das diversas abóbadas de liga de carbono transparente de Selena, que cobriam dezenas de quilômetros quadrados e protegiam os milhares de edifícios. Através delas se viam estrelas, muitas estrelas.

As luzes da cidade eram fortes, e parecia quase dia. A loira falou:

- Vamos de aero, é caro mas rápido. O terminais públicos do Cíclope ficam no Armstrong Cience Institute, na abóbada 34, do outro lado de Selena.

O aparelho de formato extremamente aerodinâmico e sem asas decolou da recepção de túneis brasileiros e subiu usando antigravidade, zunindo em alta velocidade através da cidade, passando por túneis de verdade construídos para ligar as abóbadas, por outros terminais (em que parava rapidamente), por edifícios colossais e por grandes parques artificiais até chegar ao monumental prédio do instituto, onde uma gigantesca estátua de dez andares de Neil Armstrong, com roupas espaciais, segurava a bandeira americana. O aero de passageiros pousou e Rod, Toni e Jan desembarcaram.

Antônio comentou, olhando a estátua pela primeira vez:

- Porque aquela bandeira está lá? Porque não a do Sistema Solar ou mesmo da UniCiv? Até a da Confederação Estelar do Comércio seria mais...Conveniente.

- Foram eles que puseram o primeiro terráqueo aqui, Toni - retrucou Rod - não vamos discutir política agora.

Entraram no saguão e fizeram a requisição de uso do supercomputador, que tomava dez quilômetros quadrados do subterrâneo da Lua e era o segundo mais sofisticado da UniCiv, perdendo apenas para o de Arcturus.

Os elevadores fizeram com que flutuassem suavemente para baixo até o nível das consultas públicas, onde puderam se conectar ao Cíclope através da realidade virtual.

Escolheram novamente aquele campo calmo e ensolarado, e o supercomputador provia até deliciosos aromas silvestres e pássaros cantando. Janaína pediu:

- Computador, relação das empresas da família Carvalhosa.

- Carvalhosa de Calisto, Alpha Centauri, Corial-Derena ou Terra?

- Terra. Da família residente em Minas Gerais.

- A lista é longa. As principais são Robôs Carvalhosa, Eletrônica C, Computadores e Programas CVL, MGLanches de Minas Gerais, Universidade de Minas Gerais e Instituto de Robótica Aplicada Carvalhosa.

Os três se entreolharam. Rodrigo pediu mais dados.

- O presidente desta holding é Jonas Carvalhosa. A sede fica no paraíso fiscal de Ceres. Todo o conglomerado esteve sob investigação de 2.758 até 2.762, mas nada foi registrado. A principal indústria do grupo está nos subterrâneos de Vesta, onde são produzidos diversos modelos de robôs, de domésticos a militares.

- Eles são poderosos, e não sabíamos...- comentou Rod. Antônio estava atônito:

- Devem ser donos de tôda Morros Gêmeos.

Janaína pediu ao Cíclope:

- Computador, os principais membros da família Carvalhosa têm viajado para fora da Terra nos últimos cinco meses? Se sim, para onde?

- Aguarde...Apenas Jonas e sua esposa, para Ceres, na virada do ano solar.

Rodrigo umideceu os lábios ressecados com a língua e perguntou:

- Computador, porque o governo quis investigar o conglomerado deles?

- Houve uma denúncia de produção de robôs ilegais.

- Estamos chegando perto de alguma coisa...- disse Jan, que prosseguiu - Computador, que tipo de robô ilegal eles foram acusados de fabricar?

- Os chamados cyborgs, que existiram a 500 anos atrás. Geravam um corpo através de clonagem, mas alteravam seu DNA para que este corpo se desenvolvesse acéfalo. No lugar do cérebro colocavam um computador molecular, muito menos sofisticado que os cérebros quânticos de hoje, e criavam uma criatura híbrida. Um outro tipo de cyborg era usado por terroristas, que raptavam pessoas importantes e substituíam seu cérebros por processadores que podiam controlar.

- Yes! - Berrou Antônio, pulando como doido. Rod fechou os olhos, pensando numa Suzana morta-viva com um computador na cabeça.

Janaína consultou a hora da Terra e disse:

- Vamos descansar um pouco e comer. Acho que tenho um palpite...E só uma polícia corrupta não perceberia as evidências. Não podemos confiar em ninguém! Rod, o que você acha de irmos para Ceres, ou até Vesta, se pudermos? Você tem creds?

- Irmos para o Cinturão de Asteróides? Dinheiro eu tenho, mas preciso avisar o Douglas...e as minhas aulas? Vamos voltar para a Terra e...

- Não! É arriscado demais! Podemos terminar como o coronel!

Antônio afirmou:

- Eu preciso mesmo voltar, mas ficarei de bico calado, não quero chamar a atenção, e muito menos virar robô! - sumiu do campo, havia retirado o capacete.

Eles se desconectaram. Janaína apertou a mão do jovem Maulson:

- Deixe o Antônio ir, e ele levará um recado para o Douglas avisando que você vai tirar umas férias. - virou-se para o rapaz de cabelos encaracolados - não fale com mais ninguém, ninguém mesmo, nem seus pais!

- Podem ficar tranqüilos. Serei um túmulo! - Disse Toni.

- E você, Rod, tem de vir comigo. Iremos à Titã, à casa de meus pais, onde posso falar com um amigo para embaralhar nossas pegadas na Solarnet. Acho mais seguro ninguém saber de nossa ida aos Asteróides. E com meu pai poderia pegar mais creds para custear todo este cruzeiro. Você tem de concordar!

- Ok, você é minha parceira, lembra? Nós iremos à Titã, mas deixa que eu pago!

****

Comiam uma especialidade lunar: peixe frito cósmico. Apesar de sintético, Rodrigo estava gostando, ainda mais por não ter aquelas desagradáveis espinhas. Da janela enorme do restaurante viam uma Terra crescente de perder o fôlego, mas era uma vista comum daquele lugar.

- Reservei um quarto numa espelunca da periferia...

- Porque, Jan? Já lhe disse que tenho creds suficientes...

- Rod, não devemos chamar a atenção! Podem estar atrás de nós...Não foi um homem desconhecido que te atacou na SSO? Será que o mesmo homem não está nos seguindo? Será que não vão explodir tudo aqui, como o iate de seus pais?

Rodrigo engoliu seco.

- Tem razão. Só espero que nada aconteça ao Toni, é um bom amigo...E me preocupo com o velho Douglas...Ele já está com noventa anos...

- Mas tem muita saúde e sabe se defender. Vamos pensar em nós! Já comprei as passagens para Titã, partiremos às onze, hora do Brasil. Podemos dormir sossegados.

O restaurante ficava no agitado centro de Selena, e após comerem cruzaram o calçadão, passaram pelos grandes jardins e pela catedral meliânica até a entrada do metrô. O elevador os deixou vários níveis abaixo, onde entraram num largo trem prateado.

Acomodaram-se nas confortáveis poltronas e o trem partiu suavemente, parando logo a seguir numa câmara fechada. O ar da câmara foi retirado e ela abriu-se; o metrô acelerou rapidamente, atingindo quase mil quilômetros por hora em segundos a céu aberto, na atmosfera sem ar da Lua, deixando para trás a enorme cratera onde ficava o centro da cidade. Parou suavemente em cinco outras estações com câmaras até que o casal desembarcou na sexta, saindo num bairro pobre da periferia.

A parede de uma das abóbadas terminava ali, e o prédio de três andares da velha e decadente pensão tinha seu teto encostado na curvatura transparente de liga de carbono.

- Não tinha uma melhorzinha? - Perguntou Rodrigo.

- Está com medo de que? Ladrões? Quase não existem aqui. Ratos? Na Lua?

- Estou com medo de dormir num colchão velho e acordar com dor nas costas.

Entraram no pequeno quarto, até que bem arrumado, mas simples.

- Vamos dormir juntos? - Perguntou Rodrigo.

- De roupa. E sem pensar besteiras, ok, mister Rod?

- Difícil...

Ela lançou um olhar feio para ele.

- Você é quem manda, só vou tomar uma turboducha e não pensar em nada...

- Não pensar em nada! E eu tomo banho primeiro.

****

Era começo de dia na UMG, e Antônio entrou na sala de aula. Sentou-se ao lado de uma bela garota, nova na Astronavegação. Quando saíram ao meio-dia, estavam conversando animadamente.

- Sou modelo, mas quando me formar quero ir ao espaço e largar tudo.

Antônio concordou:

- Eu também. A Terra é bonita, mas não é para mim. Quero pegar uma nave de exploração e sair pelos planetas afora...

- E eu quero pilotar uma nave de cruzeiro, daquelas bem luxuosas...

Toni sentia-se apaixonado. A mulata estonteante chamava-se Milena, e com sua extroversão arrasou o coração do rapaz. Ao final do dia estavam pescando juntos no lago, e se beijaram ao pôr-do-sol. Antônio e Milena estavam felizes, muito felizes.

Um Luke branco parou. Dois rapazes desceram e socaram Toni até ele quase perder os sentidos, depois o jogaram na água. Arrastaram uma histérica Milena para o gravicar de luxo e partiram, levantando poeira.


Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo VIII.

A nave espacial de passageiros da Transolar, TS-23, era pintada de vermelho e prata, e composta de três tubos paralelos, onde os dois laterais tinham poltronas e janelas e o do meio comportava a cabine de comando e o gerador de antigravidade. Ao final dos tubos, pequenos motores quarkiônicos empurravam o conjunto.

Ela deslizava suavemente através do ante-espaço, no que era mais um wormhole. Janaína dormia, sua cabeça apoiada no ombro de Rodrigo, que lia distraidamente um livro. A espaçomoça serviu-lhes pastéis e refri, e então Rod acordou Jan:

- Quanto tempo falta para chegarmos?

A loira consultou seu relógio:

- Mais dez minutos. Eu falei que era uma viagem rápida, não falei?

Saíram do ante-espaço e a visão de Saturno, com seus anéis, surgiu a frente deles. As grandes janelas e os vídeos mostravam todo o esplendor daquele mundo gasoso, e a TS-23 reduziu sua marcha e descreveu um arco para direita.

- Senhores passageiros, estamos chegando à Titã, maior lua de Saturno. Não esqueçam sua bagagem de mão. Esperamos sinceramente que a viagem tenha sido agradável. Passaremos rasante por Saturno para que apreciem a paisagem.

A TS-23 sobrevoou os anéis e atravessou pela Divisão de Cassini, deixando Rod maravilhado com as milhares de rochas e gelo a refletir a luz do Sol; a nave então reduziu mais ainda sua velocidade e em instantes estava em órbita de Titã. Manobrou suavemente até se conectar com o porto espacial. Na doca, todos os passageiros desceram e caminharam para a alfândega.

Em minutos estavam sendo despachados para diversas partes do mundo abaixo através de túneis, cortando milhares de quilômetros em segundos. Mais wormholes.

Um finíssimo cubo transparente de liga de carbono cobria Titânia, a enorme megalópole capital de Titã. Era praticamente invisível, e a estranha atmosfera parecia entrar pela cidade, pura ilusão. O céu, quase sempre noturno, mas azulado, tinha como diferencial o maravilhoso Saturno e seu séquito de anéis.

Rod e Jan atravessaram um túnel wormhole que dava no terminal de desembarque principal, uma plataforma de grandes lajotas brancas e pretas. Caminharam até as esteiras rolantes e seguiram através das belas e curiosas estruturas da cidade até um simpático bairro residencial. Desceram numa praça e andaram pelo calçadão, chegando num pequeno sobrado com um bem cuidado jardim.

- Pare de olhar para o céu e veja: esta é a casa de meus pais!

Rodrigo pouco se lembrava de Titânia, e de qualquer forma a beleza do céu de Titã era de tirar o fôlego. Estava com câimbras no pescoço quando entrou.

- Janaína! Minha filha! - Era o pai dela, um homem levemente gordo.

Abraçaram-se. Apareceram a mãe e os avós, depois tios e primos...Uma família grande surgiu como que do nada e houve grande distribuição de abraços.

Passaram a noite na casa da ex-secretária.

Após o café da manhã, onde o jovem Maulson soube que aquela família viera da Bahia, no Brasil, à dez anos para cultivar uvas saturnianas, ele e Janaína saíram em busca do amigo da loira.

Para eles eram nove horas, hora do Brasil, mas em Titânia eram quase três da tarde. Uma tarde de estrelas, que os encimava enquanto caminhavam pela avenida, onde charretes e cavalos (e robôs para manter a higiene) dominavam.

- Os cavalos daqui são estranhos...Tem olhos de gato! - Comentou Rod.

- Geneticamente engendrados para viver com pouca luminosidade. E eles não dormem.

- Mas há muita luminosidade vinda de Saturno, não acha?

- Sim, mas não é o mesmo que um dia ensolarado na Terra...Aliás, olhe, aquela estrela mais forte é o Sol...

Chegaram à um prédio baixo pintado de azul e repleto de estranhas plantas. Dentro, encontraram-se com o perito em computação Ivan Duchvisk. Depois de apresentações e conversas amenas, Janaína foi ao assunto, em solânes com sotaque baiano:

- Precisamos ir aos Asteróides incógnitos. Pode conseguir isso?

- Hummm...- sua voz era muito grossa - é difícil. Tenho de apagar os registros na Companhia Espacial, no Departamento de Transportes Estelares, no Controle de Viagens do Sistema Solar, no...

- Pare! Pode ou não? - Jan estava começando a se irritar.

- Posso, mas vai custar caro. Mil creds à vista.

- Eu pago - disse Rod.

- Não, eu pago. - E a loira pagou, dando à Ivan um tick.

Duchvisk falou:

- Podem comprar as passagens. Eu rastrearei a compra e a deletarei do sistema,

Rodrigo ia se levantando, mas Janaína o puxou, e ele voltou a sentar-se.

- E a informação que pedi ontem? Conseguiu?

- Claro. O ex-investigador das atividades ilegais das empresas Carvalhosa era Glenn Friasi. Pode encontrá-lo, aposentado, em Ceres, na Vila 22. Esta é de graça.

Ao saírem em direção à uma agência de viagens, Rod comentou:

- Que belo amigo! Mil solaris!

****

A TS-44b era um modelo menor da TS-23 em que Rod e Jan viajaram até Saturno, e parou em órbita do pequeno Ceres, permitindo que desembarcassem numa igualmente pequena, e pobre, doca. Só haveria túneis para a Vila Áurea, capital da antiga colônia de mineração, já desativada.

Emergiram num sobressalto, vindos de um wormhole, no prédio bonito mas antigo da Administração Central, de um luxo agora largado à própria sorte.

- Já esteve aqui antes, Rod?

- Já...Quer dizer, não, Janaína, só na virtual.

Rodrigo estivera ali como Guilherme Kirer, sua vida passada, há alguns anos...Quase dera com a língua nos dentes. A loira admirava o lugar:

- Parece que isso aqui já viu dias melhores...

Rodrigo concordou:

- Nos dias da extração de metais preciosos, Vila Áurea era extremamente próspera. Depois de quase deixarem este mundo oco, largaram tudo. Agora é uma região industrial bastante sem graça.

Tomaram um veículo que deslizava por um tubo transparente, sustentado por pequenas colunas em V, sobre a superfície rochosa. Através das grossas janelas, podiam ver as miríades de asteróides do cinturão. Ceres era o maior deles e a capital de onde outrora existiram minas e piratas.

Na Vila 22 encontraram um apartamento acanhado e tocaram a campainha. Um senhor negro, calvo, de ar cansado, abriu a porta manual e sorriu. Flutuava no ar, pois não tinha pernas.

Apresentaram-se como Mário e Míriam, irmãos, jornalistas.

- Entrem. Vocês são do Brasil, não? Mário e Míriam? Não parecem irmãos.

- É que o Mário aqui foi adotado. Podemos conversar, senhor Glenn?

- Claro, claro, é um prazer receber visitas...

Depois do café bem amargo, Janaína perguntou-lhe sobre as investigações no conglomerado dos Carvalhosa. O ítalo-selenita fechou a cara:

- Perdi minhas pernas por causa delas.

Rodrigo ficou nervoso:

- Atentado?

- Sim...Mas nada ficou provado. Decidi me retirar do caso, e logo depois encerraram as investigações. Uma ordem estranha de alguém da cúpula do governo. Alguém muito poderoso, para influir no Ministério da Polícia. Perdi tudo que tinha desde então...Não posso nem mandar gerar pernas novas para mim, geneticamente.

Janaína e o jovem Maulson se entreolharam. A loira perguntou:

- Nem com o dinheiro do Fundo de Saúde do governo?

- Bem...Eu não o recebo. Jonas Carvalhosa cuidou para que eu sumisse da folha da Previdência. Cuidou para que minha vida se transformasse nesse inferno...Gostaria de poder voltar para a Lua...

Rodrigo olhou para Janaína:

- Quando vi Jonas, lá no tribunal, ele me parecia uma pessoa de bem.

O ex-investigador ficou irado:

- Ele é um enganador! Um farsante! E o filho é um sádico! Afastem-se deles, porque tem amigos influentes, corruptos...Mesmo com tôda política anti-corrupção do governo, mesmo com a eficiente Polícia Solar, mesmo com o super-gerenciamento da UniCiv! Eu sou a prova viva disso! E eles não me querem morto, querem me ver murchar neste fim-de-mundo!

Jan acalmou o velho e depois perguntou:

- Onde supostamente fabricavam os cyborgs? Em Vesta?

- Sim, na imensa fábrica deles, na Área C, que usa as antigas instalações das minas de manganês. Cheguei a vê-los com meus próprios olhos...Clones de pessoas famosas controladas pelo computador que colocavam no lugar de seus cérebros! Porém, quando levei reforços para lá, não havia mais nada! Podem acreditar nisso?

Janaína olhou para Rodrigo:

- O que você acha? Vamos à Vesta? Nesta época está próxima da órbita de Ceres, será um pulinho até lá...Se houver transporte público.

- Tem, mas é muito controlado. Fariam mil perguntas para saber o que vocês iriam xeretar por lá...Afinal, não é um ponto turístico...Só tem fábricas! Trezentos e noventa quilômetros de superfície coberta de fábricas, mais tantas no subsolo. Vocês deviam alugar uma nave. Vão às docas secas e perguntem pelo Tião...É um velho amigo brasileiro, que conseguirá uma nave rápida para vocês...E fiquem com isso.

Glenn flutuou até uma escrivaninha e tirou um cartão, que entregou à Rod.

- É um passe que permite entrar na Robôs Carvalhosa. Está válido, mas só tenho um. Tome muito cuidado! Eu o usava em minhas investigações...

****

A pequena nave decolou da superfície de Ceres e ganhou o espaço coalhado de meteoritos, meteoros e asteróides do cinturão.

- Não sabia que você pilotava, Rod. Tome cuidado, andar por aqui é muito perigoso! Vá devagar!

- Não se preocupe - Maulson estava segurando as alavancas de controle, olhando os instrumentos multicoloridos da pequena lancha espacial - sei o que eu faço. Me ajude a calcular uma rota para Vesta.

Rodrigo sabia pilotar há muitos anos, aprendera em suas vidas passadas. O ex-dono daquele corpo não sabia dirigir um reles gravicar. Com a destreza da grande experiência adquirida, guiou-os até o asteróide esférico que continha algumas indústrias e fôra uma mina. Desacelerou os motores fotônicos e compensou a inércia, entrando pela enorme porta iluminada de um hangar, onde os instrutores de vôo de Vesta disseram para aterrissar. A nave-lancha parou suavemente e foi trazida à uma câmara, onde o ar foi pressurizado.

Desceram e tiveram de subornar um centauriano desajeitado para entrar sem mostrar nenhum ID. O labirinto de corredores que desciam os levou até uma highway, onde pesados caminhões zuniam a centenas de quilômetros por hora, centímetros acima do chão.

Num bus stop, aguardaram em silêncio. O enorme veículo, carregado de robôs-operários e alguns poucos humanos, parou, eles subiram. Seguiu acelerando vertiginosamente pela via subterrânea até um grande salão escavado na rocha. A portaria da maior indústria do asteróide. Ambos desceram do veículo amarelo sujo.

- Você espera aqui, Jan. Volto assim que puder.

Ela fez que sim com a cabeça e se misturou à multidão de robôs. Rodrigo passou pela portaria com o passe que ganhara de Gleen Friasi e logo estava seguindo por uma esteira veloz até a Área C da Robôs Carvalhosa. Chegando lá, caminhou por corredores repletos de canos e vapor d'água até os galpões de produção. Robôs eram montados ali, de todos os tipos. Mas nada de cyborgs ou algo que o valha.

Um capataz humano saiu de uma sala de controle no alto das linhas de montagem. Por escadas de metal Rodrigo subiu até lá, e avistou o que queria: um terminal de computador.

Colocou o minúsculo capacete e entrou na realidade virtual, um lugar que provavelmente o homem que acabara de sair gostava. Um bordel cheio de dançarinas nuas.

- Computador, está conectado à Solarnet?

- Negativo. Sou privativo da companhia. Seu nível de segurança, por favor.

Rodrigo tirou o capacete e leu os números e letras do passe de Glenn. Reentrou na virtual e os ditou; o computador aceitou a informação. Grato pela presteza do ítalo-selenita em dar-lhe aquele passe, Maulson perguntou:

- Computador, há algo sobre cyborgs em seus registros?

- Apenas informações comuns. Deseja alguma em particular?

Astuto, Rod recostou-se no balcão do bar do bordel. Uma garota maravilhosa, só de calcinha minúscula fio dental, se aconchegou a ele.

- Computador, se a Robôs Carvalhosa fossem fabricá-los, hipoteticamente é claro, onde os fabricariam?

O jovem torceu para que o computador não fosse muito inteligente.

- Na Terra. Em alguma pequena cidade esquecida do interior, de preferência pequena, a qual pudesse ser controlada e estivesse fora das vistas das autoridades. Além disso, na Terra as matérias-primas seriam encontradas com abundância.

- Mas como esconderiam uma indústria na Terra? São terminantemente proibidas por lá!

- No subterrâneo. No subsolo da cidade.

- Morros Gêmeos...

- Um lugar bastante provável. O subdistrito de Minas Gerais não é um lugar que atraía muitos fiscais.

É claro!

- Gere um datapaper com o que você acabou de me dizer...

Rodrigo assustou-se quando seu capacete foi violentamente retirado.

- Quem é você? SEGURANÇA! INTRUSO!

O capataz caiu com um soco do rapaz, que pegou o datapaper que saía da impressora e desatou a correr de volta à portaria por qual entrara. Pouco antes de poder sair, os alarmes soaram. Na saída, um guarda disparou uma arma sônica. Rodrigo caiu desmaiado, a poucos metros do portão.

****

Milena estava amarrada e amordaçada à uma cadeira, só de camiseta e calcinha. Na frente dela, Atílio e Riley conversavam sentados numa mesa. O americano olhou para ela:

- Vamos aproveitar dessa gostosa agora, depois mandá-la para replicação logo. Seu pai está furioso.

- Ele quer que paremos de seqüestrar as garotas, mas não! Não vamos parar!

- Talvez devêssemos ir embora daqui. Ainda não achamos a Suzana, e se ela escapar...

- Deve estar morta de fome naquele labirinto...Papai disse que alguns homens dele morreram lá embaixo, quando se perderam. Não se preocupe.

O americano aproximou-se da jovem modelo indefesa:

- E a tal secretária? Ela e o Maulson estão sumidos. O agente secreto do seu pai perdeu a pista deles em Titã. Acha que vão descobrir alguma coisa?

- Bah! Mataremos eles também...Meu pai mandou seqüestrarem o velho da fazenda, o tal Douglas, e espalhar a notícia para trazer a estrelinha do Maulson de volta. Assim que derem as caras, raptamos, torturamos e replicamos!

Riley sorriu para seu amigo:

- A baiana gostosona é minha primeiro!

Milena tremia e deixou escapar uma lágrima.

****

Os marcianos achavam Liany extremamente bela, e de fato era, para uma marciana. Atron a via ali, ao seu lado, na nau capitânia da frota espacial que iria atacar...Quem? Tudo estava nublado.

- Você está bem, Rodrigo? - O rapaz ouvia Liany falar, olhando-o com aqueles olhos de cristal...Encarou-a, à bordo da imensa nave que comandava no ataque à...A quem? E seu nome...Não seria Atron?...Estava num torvelinho.

- Rodrigo, você está bem?

Abriu os olhos e viu uma bela loira de olhos azuis. Janaína. Tentou sorrir, mas sua cabeça o impediu.

- Você recebeu uma descarga sônica...Deve doer um bocado...

- Minha cabeça está zunindo...Onde estamos?

- Num depósito. Eu salvei você, agora me deve uma.

Rodrigo levantou-se, ainda tonto. O ar era pesado e ouvia-se a vibração de grandes máquinas. Olhou para a ex-secretária:

- Como você me tirou de lá?

- Estagiárias da polícia tem porte de knockers. Derrubei o segurança mais próximo com ele, e distraí os outros dando curto-circuito nos robôs-operários que estavam na entrada. Foi um tumulto!

- Curto-circuito nos robôs? Como?

- Tenho porte de shockers também. Não imagina como foi divertido!

- Isto é ótimo, mas agora temos de voltar, imediatamente! Para Morros Gêmeos! Descobri que é lá que está a fábrica de cyborgs...

Janaína limpou-lhe a fuligem do rosto:

- Como você descobriu?

- Uma falha na segurança do computador deles, que também não é dos mais inteligentes. Podem ter colocado travas numa pergunta direta sobre cyborgs, mas quando contornei a questão, usando a velha tática do sider...

- Fantástico, Rod. Vamos tentar fugir daqui...Não vai ser fácil. Mas antes de sairmos deste depósito, tome esta pílula...O fará se sentir melhor.

Rodrigo a tomou e descansou por alguns minutos, respirando fundo o ar ruim, e assim que se sentiu recuperado, puxou sua amiga para os corredores.

Conseguiram se deslocar sorrateiramente até o hangar principal, onde haviam pousado, e a lancha estava livre.

Rod disse à Janaína, enquanto embarcavam:

- Não associaram nossa chegada à invasão da fábrica.

- Mas a Polícia deve estar atrás de nós. E as decolagens devem estar proibidas!

Rodrigo ligou os motores e a câmara onde estavam se despressurizou; a pequena nave foi erguida até a pista do hangar. As enormes portas estavam sendo fechadas e a voz do controlador de vôo soou:

- Retornem imediatamente à câmara! Imediatamente!

O rapaz loiro puxou uma das alavancas do painel bruscamente e subiram com a antigravidade; ato contínuo, Rod acelerou e a lancha deu meia volta e partiu num estrondo, passando de lado pelas portas quase fechadas e ganhando o espaço exterior, zunindo em direção às estrelas. O jovem Maulson sorriu e falou à companheira:

- Demoraram demais! Tivemos sorte, senão estaríamos presos lá embaixo.

- Não cante vitória! Veja os monitores: viaturas da polícia!

A lancha acelerava num raio de luz, perseguida de perto por duas naves pintadas de azul escuro com várias luzes piscantes. Ouviram pelo rádio:

- Parem imediatamente ou vamos atirar!

Rodrigo virou-se para Janaína:

- Vamos ver se essa velha nave é boa mesmo!

Deu tudo nos dois motores fotônicos que trepidaram, e a pequena lancha saltou entre os asteróides próximos à Vesta, quase esbarrando num deles.

- Merda! - Berrou Jan - Aqueles policiais devem conhecer bem a área, desviam dessas pedras espaciais com muita facilidade!

- Não se preocupe...Já ganhei corridas espaciais antes...

Rodrigo sentira que falara demais, e se concentrou nas manobras. Tiros zuniram ao lado e sacudiram a nave. Como um ás, Rodrigo ziguezagueou por entre os asteróides, e uma das viaturas teve de parar, danificada ao se chocar com uma rocha espacial. A outra, porém, estava logo atrás deles, e disparou certeiramente, danificando-lhe o casco.

Luzes vermelhas piscavam no painel. O computador de bordo relatava as avarias. Rodrigo fazia piruetas que a gravidade artificial da lancha não anulava, deixando uma Janaína enjoada. Mais tiros acabaram com os campos de força de proteção. Um dos motores começou a falhar.

- Vamos, lata velha, não me decepcione.

Algo atingiu a outra viatura, que parou. Uma outra lancha, maior e mais rápida, pintada de preto, emparelhou com a de Rodrigo. Ouviu no rádio:

- Somos nós, Glenn e Tião, às suas ordens! Uhuu! Estou de novo na ativa! Ihaaaa!

****

Milena suava frio. Era uma mulata realmente muito bonita, com seus cabelos encaracolados e seus olhos faiscantes. Estava olhando Riley abaixar as calças, e riria se sua situação não fosse tão crítica: o americano usava cuecas samba-canção com ursinhos pintados. Atílio subira para ver seu pai e eles estavam ali, naquela sala escura, sozinhos.

- Agora vamos festejar, garota!

Quando se aproximou da modelo, sentiu um frio no peito. Parou e se examinou, estranhando a grande mancha vermelha que aumentava, tomando sua camiseta.

- O que?? Que merda é essaaaaaaa??...

Caiu morto, sem peito, tinha levado um tiro de PK.

Uma Suzana ofegante e tremendo soltou as cordas que prendiam Milena. Suzana então olhou para trás e começou a chorar, ao ver o americano morto. Milena a abraçou:

- Obrigada...Meu Deus! Ele ia...Quem é você? E pare de chorar!

Suzana tentou se recompor, mas tremia muito.

- Ele...Ele morreu?

- Claro, com um tiro de PK, o que você esperava? - Milena parecia controlada, mas também tremia. - Vamos sair daqui, depressa, antes que apareça aquele tal de Atílio!

Elas desceram pelo buraco por onde Suzana entrara. Suzana estava suja e mal-vestida, os cabelos desgrenhados as vezes ocultando sua bela face.

Andaram por uma passagem estreita e baixa, até chegarem a um largo corredor repleto de canos nas paredes, que eram curvas. Uma rala luminosidade azul provinha de pequenas lâmpadas espalhadas pelo teto.

A morena e bela modelo perguntou:

- Quem é você, garota? De onde você veio?

- Eu sou a Suzana. Seu nome é Milena, não é? - A morena de cabelos lisos e olhos azuis estava ofegante.

- É. Onde estamos, Suzana?

- Não sei, aqui parece ser uma fábrica de robôs. Fui trazida para cá vendada, e não sei sair. Podemos até estar fora da Terra...Sabe, estou perdida aqui embaixo a mais de um mês, acho. Perdi a noção do tempo. Tenho vivido de roubar comida no refeitório e vagar por esses corredores. Isto aqui é imenso...

Milena olhou em volta.

- Eu também fui trazida vendada...Mas tem que ter uma saída! Já tentou pelo tal refeitório?

- Fica cheio de guardas...Eles comem e eu vou lá recolher os restos de comida e bebida, sem que me vejam. Você não imagina o que eu daria por um bom prato de comida decente!

- E o que mais existe aqui embaixo?

- Bem, tem os banheiros e uma sala grande, cheia de geladeiras com defuntos. Fora isso só salas, a maioria vazia, e corredores. Já tentei sair daqui várias vezes, mas é impossível!

Milena suspirou e recostou-se na parede fria, ajeitando os longos cabelos encaracolados:

- Você já andou por todo lugar? Procurou realmente uma saída?

Suzana irritou-se.

- Claro! Olha, eles iam me estuprar, todos os quatro Malucos Safados. Eles são sádicos! Mas consegui escapar roubando este PK do Riley, e me meti por este corredores, descendo até...Até bem lá embaixo. Fiquei quase um dia sem comer ou beber, andando de um lado para o outro em lugares iguais a este aqui. Quando achei o refeitório, entrei em delírio! Depois disso, nunca mais me afastei muito...Se nos perdermos neste labirinto, estaremos mortas!

- Então decidiu não ir atrás de uma saída...

- Milena, já falei! Podemos nos perder facilmente...Além do mais tenho medo! Medo que me achem e eu acabe como minha amiga Soraya, que está lá, numa daquelas geladeiras...- Suzana começou a chorar, Milena a abraçou, mas também estava com medo. Passou a chorar também. Disse:

- Escute, dos Malucos, só o Atílio está vivo. Portanto pode ficar mais tranqüila.

- Não vejo motivo para isso, o Atílio é o pior deles.

- Isso é. Venha, vamos sair daqui. - puxou Suzana pelas mãos e escolheu uma direção.

- Por aí não. Por aqui. Tem uma saletinha confortável onde eu estou dormindo, com alguns sofás velhos, descendo a escadaria depois da curva.

Seguiram até o lugar, onde Milena pode relaxar. Perguntou à sua amiga:

- Como você me achou?

- Ouvi a voz do filho da puta do Riley e fui espiar e vi o que queria fazer com você. Então resolvi atirar...Mas não queria matá-lo.

- Você fez bem! Ele merecia, ainda mais depois da surra que deu no pobre do Toni...Será que ele está vivo? - Milena sentiu uma dor no coração.

- Você conhece o Antônio?

- Claro, sociamos ontem. Sou nova na Astronavegação, e o conheci na classe.

- É mesmo? Eu também estudo Astronavegação!

E mataram o tempo conversando...Acalmando uma a outra.

Mas a imagem de Atílio, ameaçador, permanecia em suas mentes.


Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo IX.

Rodrigo comia uma sanduíche grande na cozinha, pois toda aquela ação lhe dera fome. Janaína Ranadi entrou no pequeno cômodo e serviu-se de um refri bem gelado. A baiana olhou para seu amigo, e comentou:

- Estou impressionada! Não sabia que você era tão bom em pilotar naves.

- Obrigado. Quero um gole, está gelado?

Enquanto Rod matava a sede, a bela loira de longos cabelos e queimada de sol admirava o jovem rapaz. O achava tão novo mas tão maduro...Não era exatamente bonito, mas tinha um caráter excepcional, além da coragem...Perguntou-lhe:

- Não sente saudades de seus pais?

- Um pouco, mas eles pareciam me detestar, então...- Deu de ombros.

O dono do apartamento onde estavam apareceu na porta da cozinha, não podia entrar pois não havia espaço. Flutuando, coçou a careca negra e sorriu:

- Vocês são mesmo malucos! E essa história de que são repórteres, e ainda por cima irmãos, eu não engulo. Fui investigador da P.S. por muitos anos para ser enganado tão facilmente. Quem são vocês?

Jan sorriu maliciosamente e respondeu:

- Você venceu. Eu sou uma reles estagiária e o meu amigo aqui é apenas um estudante, cuja namorada foi raptada e os pais assassinados, talvez pelos Carvalhosa. Como achamos que a Polícia do Brasil tem policiais corruptos nela, decidimos não confiar em ninguém e investigarmos tudo por conta própria. Meu nome real é Janaína e o dele é Rodrigo.

Glenn pegou um outro refri e abriu, bebendo com gosto. Arrotou e disse:

- Sinto muito pela sua namorada e seus pais, Rodrigo. Muito mesmo.

- Eu estou bem, senhor Friasi. Só quero pegar quem fez isso...Mudando de assunto, o senhor acha que as patrulhas sabem onde estamos?

Ele suspirou:

- É melhor que voltem para a Terra, antes que arrumem problemas de verdade. Quanto as patrulhas, fiquem tranqüilos, não identificaram as lanchas...Aliás, foi divertido irmos atrás de vocês, e depois tirar de combate aquela viatura. Senti-me como nos velhos tempos...

Rodrigo acabou seu sanduíche e também pegou uma lata de refri:

- Nós vamos voltar, e quanto mais rápido, melhor. Descobri que mudaram as fábricas de cyborgs para a Terra, numa pequena cidade do interior.

O ítalo-selenita arregalou os velhos olhos:

- O quê? Onde, como, quando? É o que preciso saber para contatar a Polícia Solar e pedir a reabertura das investigações...Quem sabe, até voltar à ativa, e acabar com aqueles palhaços dos Carvalhosa de uma vez por todas!

Janaína levantou-se e segurou no braço do senhor negro e calvo, e disse-lhe olhando-o nos olhos:

- Escute: deixe tudo comigo e com o Rod, ele parece apenas um garoto, mas sabe das coisas. Nós vamos descobrir o que está acontecendo e lhe daremos crédito, afinal, sem seu passe não entraríamos nas fábricas de Vesta e o meu amigo aqui não acessaria o computador privativo da empresa.

Ela o soltou e acabou sua bebida. Continuou:

- De qualquer forma, gravaremos um depoimento, mas você só deve levá-lo à P.S. quando tudo isso acabar.

Rodrigo desdobrou um papel plástico multimídia:

- Pegue esse datapaper...O computador da fábrica dos Carvalhosa imprimiu-o para mim. É uma prova...

- Bem - Glenn Friasi deu de ombros - já que é assim, eu esperarei. Agora, se querem ir mesmo rapidinho para a Terra, acho que posso ajudá-los mais uma vez. A próxima nave de linha só sai amanhã às cinco...Vocês sabem, aqui não é um ponto turístico, tem poucos horários.

Rodrigo acabou seu refri e jogou a lata no reciclador. Olhou para Glenn:

- Só Amanhã às cinco? Horário Solar Padrão?

- Horário daqui. Sei que esse monte de horários diferentes confunde, ainda mais para vocês, que estão rodando o Sistema Solar...

Ele acabou sua bebida, arrotou de novo e continuou:

- Existe uma linha via Marte, que sai dentro de duas horas, mas a viagem é mais longa e vocês ficam parados no planeta vermelho por um tempão; acabam chegando quase ao mesmo tempo que a linha direta. Mas tem um amigo meu que pode dar uma carona para vocês no cargueiro dele, e ele deve estar partindo em coisa de uma hora, porém ele cobra caro...

- Hoje estou pagando tudo... - disse Rodrigo, verificando sua conta bancária no computador de pulso.

Algum tempo depois estavam nas velhas docas, onde uma pequena nave de ligação os aguardava. As grandes janelas nas laterais do espaçoporto mostravam miríades de corpos celestes brilhando, e Rodrigo admirou aquele curioso céu, enquanto Jan se despedia:

- Obrigado por tudo, senhor Friasi. Garanto que vamos desmascarar aquele filho da puta do Jonas e o doente do Atílio. Tem certeza que não quer money para voltar à Lua? Ou pelo menos para gerar novas pernas?

- Na...Eu me viro, e se conseguir provar a culpa dos Carvalhosa, tenho certeza que ganharei minha credibilidade de volta e a P.S. me indenizará. Não se preocupem comigo. Façam uma boa viagem.

A baiana beijou a careca do ex-investigador, e Rod apertou sua mão. Embarcaram na pequena nave que, usando repulsão de gravidade, subiu vertiginosamente até o grande cargueiro em órbita.

Era pintado de verde, um grande corpo de metal plástico cheio de containers de mil toneladas, com um gerador de antigravidade em cima, uma esfera habitável à frente e seis motores quarkiônicos atrás. A naveta os deixou num pequeno hangar na esfera, onde foram recebidos pelo capitão Klamisbesh, um iaanduni extremamente educado. Rodrigo conhecera muitos daqueles alienígenas em suas vidas passadas: não estranhou a pele escura, o cabelo violeta, os quatro braços e as pernas muito grossas, sem pés. O rosto levemente de feições humanas, com olhos muito vermelhos e um nariz admirável também não o impressionou. E nem a atmosfera da nave, pesada, quente, embora respirável.

O que o jovem Maulson estranhou foi a gravidade, baixa para os padrões iaandunis. Perguntou isso ao capitão, que respondeu:

- Temos abarianos na tripulação. Eu posso agüentar qualquer gravidade, assim como meus conterrâneos, mas eles...Se não fossem tão bons em astrofísica e computação, chutaria todos para o espaço! Que chatos!

Sua voz saía muito grossa e baixa, e usou um solânes arcaico carregado de sotaque. Isso indicava que não usava tradutores automáticos.

- Partiremos daqui a quinze minutos. A Mukabay não é uma nave de cruzeiro, mas acho que vocês ficarão bem instalados numa das cabines de hóspedes. - Disse ríspidamente. Parecia que o mau humor era parte integrante dele.

Caminharam para o elevador. Klamisbesh prosseguiu:

- Iremos por fora do plano da eclíptica por causa do tráfego, portanto demoraremos um pouco para chegar à Terra. Estaremos lá em uma hora e meia. Se quiserem comer, a lanchonete da nave estará aberta tôda a viagem.

Subiram pelo tubo.

- Com licença, tenho de coordenar a partida. Meu robô-ordenança os guiará.

Desembarcou num dos níveis, eles continuaram subindo.

Na cabine, Janaína olhou para Rodrigo com ar cansado:

- Toda essa agitação acabou comigo. Faz uma massagem?

- Claro. Deita aí. - ele sorriu.

A baiana loira tirou a blusa térmica. O jovem rapaz admirou os seios firmes dela, e dedicou-se então a dedilhar suas costas suavemente.

- Mais embaixo...Aí...Ah!

Suzana apareceu em sua mente, mas fazia tanto tempo que não a via que a afastou do pensamento...E Jan era maravilhosa. Tinha atributos físicos de deixar qualquer humano macho desorientado. Caprichou na massagem, que se transformou em carícias suaves. A ex-secretária virou-se, e olhou para Maulson deitada de costas naquela parte de baixo de um beliche apertado. A atmosfera era quente e ambos estavam transpirando, então sob este pretexto Rod tirou sua camiseta. Seus músculos já estavam bem delineados. Ela os percorreu com os dedos, suavemente.

Olharam um para o outro. Aproximaram-se. Um beijo natural, um tocar de língua, as mãos do jovem percorrendo o corpo molhado de suor e trêmulo de uma Janaína quente, e então ele a despiu com rudez, e ela fez o mesmo com ele. Ela o fez deitar-se de costas e desceu sua língua por seu corpo até chegar em seu membro viril, fazendo-o delirar. Em seguida, Rodrigo retribuiu a gentileza. Janaína suspirou, ofegou e então gritou. As paredes da velha Mukabay não eram tão grossas e os tripulantes riram-se enquanto ouviam tudo...

Amaram-se no velho beliche com um extremo de prazer que os uniu ainda mais...E Rodrigo tirou Suzana de vez de sua mente...

Quentes, repetiram a dose pelo resto da viagem...

****

A Terra era um planeta azul e branco brilhando abaixo da Mukabay, que usava uma órbita longa, afinal, havia milhares de naves em torno da Terra, a todo momento, sem contar os portos, cidades, satélites e o que mais inventassem.

Rodrigo olhava tranqüilo pela janela.

Desculpe-me, Suzana. Não resisti.

Janaína abraçou-o por trás. Disse em seu ouvido, baixinho:

- Vamos nos arrumar. Chegamos, e aquele capitão estranho logo...

A campainha tocou. Era Klamisbesh:

- Vou gerar um túnel para vocês para qualquer lugar que quiserem. Meu velho amigo Glenn disse que era importante que chegassem logo aos seus destinos!

Eles se vestiram rapidamente, a turboducha ficaria para depois. Suadíssimos, acompanharam o iaanduni até o projetor wormhole, e pediram para descer nas coordenadas de Morros Gêmeos.

- Aguardem um pouco - disse o capitão, com seu vozerio - o Brasil ainda não está abaixo de nós. Saímos da geoestacionária e logo estaremos sobre ele.

- O senhor tem uma bela nave aqui - comentou Jan - é um cargueiro bem equipado.

- Obrigado, senhorita. Tenho orgulho da Mukabay. Vivemos muitas aventuras juntos...Já estive até numa estrela verde.

Rodrigo ficou lívido:

- Numa estrela verde?

- Ei, garoto, você pode não acreditar, está bem? Mas eu desci na superfície de uma estrela verde, sim...Era maravilhosa, diferente de qualquer planeta que você já tenha visto. Pena que a distorção gravitacional que ela causa tenha destruído nosso computador de navegação, senão eu o levaria até lá, para que pudesse ver com os próprios olhos.

- Mas, eu acredito! Conte-me mais...

- Era fantástica... - Klamisbesh gesticulou. - Espero achá-la de novo algum dia...Mas agora está na hora de descerem. Estamos alinhados com a América do Sul. Já pedi autorização ao Controle de Entradas e Saídas da Terra, vocês devem apresentar seus IDs na sucursal da cidade assim que chegarem.

O túnel apareceu no ar, e eles andaram através do ante-espaço, num sobressalto, saindo no centro de Morros Gêmeos, no final de uma bela e quente tarde de verão.

Viraram-se e acenaram para o capitão, na nave, e o túnel se dissolveu. O centro da cidade estava movimentado. Dirigiram-se até a sucursal do C.E.S.T., e deram entrada no planeta, depois seguiram de autotáxi para a Fazenda Sameros.

Não encontraram ninguém. Sem poderem resistir, tomaram banho juntos na turboducha do quarto de Rod, e se amaram mais uma vez. Não viram o bilhete impresso pregado na porta da cozinha, onde se lia que Douglas fôra seqüestrado.

****

O velho Sameros estava naquela cela apertada, bufando:

- Gertrude! Rino! Meus porcos! Meus patos! Eles devem estar morrendo de fome!

Um homem corpulento socou a porta:

- Pare, diacho. Porque num mandô os robô dar comida pros bichos?

- Eu não tenho robôs, seu, seu...Ignorante! Deixe-me sair daqui! - Douglas socou a porta de volta. O homem do lado de fora zangou-se:

- Pare, senão eu vou aí e te dou uma muqueta.

- Então venha, se é homem!

- Sô paraíba cabra macho sim senhô!

Abriu a porta da cela e entrou:

- Num'guento mais ouvi ocê gritando e batendo em tudo qué coisa!

Douglas jogou-se contra o homem, e ambos caíram do lado de fora.

- Vou acabar contigo, jagunço de uma figa!

Lutaram ferozmente, derrubando mesas e outras coisas do corredor, fazendo um estardalhaço. Metros dali, Suzana ouviu, pegou o PK roubado do Riley e tocou numa adormecida Milena:

- É a voz do Doug! Venha, Mi, vamos ver o que está acontecendo!

Encontraram o velho de noventa anos sobre o pobre homem.

- Peça água! Peça água!

- Pare, Doug! Ele está desmaiado! - Berrou Suzana.

- Suzana Luciara! Você está viva!

- E o senhor continua forte como um touro! Caramba! - Disse ela, de olhos arregalados vendo o nordestino grandalhão caído. - Venha, vamos nos esconder, porque se alguém mais ouviu essa briga...

Tinham ouvido. Era Atílio e dois robôs-capanga, enormes, que dispararam armas sônicas. Douglas, Suzana e Milena desabaram, inconscientes.

****

Janaína e Rodrigo secaram-se no vapor da turboducha e a loira saiu do box nua e se enrolou numa toalha. Foi até o quarto pegar uma pílula anticoncepcional em sua bolsa de braço, e depois mexeu no guarda-roupa de Rod procurando algo que servisse nela, afinal, desde que partiram só se trocara uma vez, na casa de seus pais (mantinha algumas roupas em seu antigo quarto). Não tiveram tempo de ir até a pensão onde ela e o coronel estavam hospedados, pegar a sua bagagem, mas fariam isso tão logo comessem alguma coisa.

Procurou roupas para Rodrigo também, ele estava com a mesma desde aquela noite em que foram ao MGLanches, não haviam levado nada na viagem. Separou alguma coisa e o chamou. A pessoa que entrou no quarto não era ele.

Rodrigo saiu do box e lavou o rosto com o tira-pelos Perereca, eliminando a barbicha de alguns dias e deixando seu rosto liso, e, cantando, nu, saiu do banheiro. Surpreendeu-se com o homem alto que apontava um PK para a cabeça de Janaína. Ele o reconheceu, apesar de achar que não o faria. Era o homem que tentara matá-lo na SSO.

- Vista-se, nós vamos sair. E nem pense em heroísmo! - Disse à Rod. A voz do sujeito era esquisita, arrastada, e ele era feio, extremamente feio.

- Tudo bem com você, Jan?

Ela fez que sim com a cabeça. Maulson colocou suas roupas.

- Saía e siga até o gravicar na porta. Estarei logo atrás de você, pronto para desintegrar a cabeça dessa moça, se tentar o que quer que seja.

O rapaz obedeceu, mas involuntariamente tropeçou no tapete e foi para o chão de madeira. O homem se distraiu e Janaína socou-lhe entre as pernas, ao mesmo tempo que com a outra mão erguia o braço que segurava a arma; esta disparou e abriu um buraco no forro e nas telhas; o raio azul subiu para as recém chegadas nuvens de chuva.

Com presença de espírito, Rodrigo pegou o tapete e jogou sobre o homem que se abaixava com a dor. O PK caiu e Janaína agarrou o sujeito, prendendo-o com o tapete. Rod arrastou-o por sobre a cama e o arremessou através da janela e este caiu, atordoado, na relva, após estilhaçar a vidraça. Começava a chover.

O casal pulou a janela e amarrou o homem com a próprio tapete. Maulson socou-o com ódio.

- Quem é você, desgraçado?

- É pena...- o homem cuspiu sangue - que não o matei na Space Station One!

- Uma pena mesmo - Jan chutou-o - mas agora é melhor ir abrindo o bico senão quem vai morrer é você!

O inimigo olhou a baiana:

- Ah! Sabe quem é meu chefe? O homem que controla grande parte da Polícia! E controla esta vilazinha lazarenta! É melhor que me soltem, senão ele matará a Suzana e o Douglas...- olhou para Rod - Sua namorada e seu pai adotivo!

Rodrigo o socou mais, enquanto Janaína pulava a janela e trocava a toalha por roupas mais decentes. O jovem rapaz se distraiu olhando a baiana e levou um chute, caiu e por sua vez foi esmurrado, deixando o agente de Jonas fugir.

- Janaína, pegue o PK. Atire naquele desgraçado!

Ela fez isso, o tiro azul detonou próximo, o homem mudou de direção e entrou no estábulo. Rodrigo se recompôs, saia sangue de seu lábio inferior.

- Vamos! Ele não pode fugir!

Seguiram até onde o homem entrara. De arma na mão, Jan olhava cuidadosamente entre os cavalos, agitados. Rino relinchou. Rod pegou a vara de um halteres sem peso que usava em seu ginásio improvisado, como arma.

- Saía! - Berrou a loira - Porque senão eu vou te matar!

Bem escondido, não o viram. Mas o agente irritou quem não devia. Saiu voando através das tábuas do estábulo, levando um coice de Rino.

Quando Jan e Rod saíram para socorrê-lo, era tarde demais. Uma das costelas se quebrou e perfurou o coração. Estava morto.

- Que beleza! - Rodrigo soltou a vara de metal - Espero que ninguém esteja nos vigiando, senão assinamos o atestado de óbito da Suzana...E do Douglas...

****

Estavam conversando na cozinha.

- Veja isso! - Jan mostrou à Rod o bilhete sobre o seqüestro do velho Sameros, coisa que já sabiam pelas palavras do agente morto. Rodrigo amassou-o:

- Vamos à prefeitura, parceira, ver se descobrimos uma pista sobre a fábrica subterrânea. Deve haver algum tipo de registro.

Pegaram a caminhonete preta de Douglas (que Antônio deve ter levado de volta ao retornar da Lua), e desceram pela estrada, através da chuva que ficara forte, em direção ao centro de Morros Gêmeos.

Com o para-chuva que encontraram no gravicar, emergiram na praça vindos da rua subterrânea, onde haviam estacionado. O aparelho que flutuava sobre o casal e desviava a água que agora caía torrencialmente, seguiu-os até o magnífico prédio da prefeitura. Quando chegou lá, secou-se aquecendo sua resistência interna, dobrou-se até ficar do tamanho de um maço de cigarros, um artigo extinto há séculos, e entrou no bolso de Rod, que o havia acionado. Estavam no belo hall de piso de mármore.

O edifício imitava algumas das antigas igrejas seiscentistas de Minas Gerais, e a recepção parecia um altar-mor. Uma bem programada robô de voz feminina adocicada os atendeu e os guiou até a sala de consultas.

A chuva e os relâmpagos, comuns no fim de tarde do verão brasileiro, se intensificaram. Logo seria noite. Uma noite que prometia ser longa, muito longa.

Na pequena saleta de paredes cinzas e quase vazia, colocaram capacetes e entraram na virtual, mas não podiam escolher o lugar: a programação padrão era obrigatória e então estavam numa biblioteca imensa.

Não se podia ver um fim em qualquer direção que se olhasse. Havia apenas estantes e livros. O computador da prefeitura era representado por uma velha bibliotecária rabugenta, algum tipo de gozação do analista de sistemas da cidade. Ela aproximou-se com seu vestido preto da mesa onde Rod e Jan estavam sentados. O ambiente era morno e muito, muito silencioso.

- Bem-vindos ao Centro de Informações de Morros Gêmeos. Em que posso lhes ser útil? - A voz feminina soava suave.

Janaína primeiro olhou para Rodrigo, depois para a bibliotecária virtual:

- Conte-nos um pouco da história da cidade.

- Foi fundada em 2.204 como moradia dos trabalhadores da Usina Geotérmica de Morros Gêmeos, que começou a ser construída nessa data e funcionou até 2.359, quando foi desativada por obsolência. A cidade definhou, e sumiria se não surgisse, em 2.400, a UMG, uma universidade regional que foi fundada por uma organização extraterrestre. Em 2.437 aconteceu...

Rodrigo a interrompeu:

- Como a usina foi construída? O que sobrou dela?

- Como era geotérmica, ou seja, usava o calor da Terra para gerar energia, foi construída no subsolo da cidade. Ela foi destruída por abalos sísmicos e não existe mais. Não tenho mais informações.

Rodrigo fez sinal à Jan para saírem do computador. Sem capacetes, o jovem Maulson disse, sussurrando, para a loira:

- Abalos sísmicos em Minas Gerais? Pois sim. A usina é a chave, mas não adianta perguntarmos para o computador daqui, ele foi sabotado. O da universidade também.

- E o que faremos? - Perguntou Janaína.

- Voltamos a consultar o Cíclope Lunar. Agora mesmo!

- Não acha que é arriscado demais? - Jan pegou na mão de Rod - Qualquer coisa que aconteça na cidade, eles podem saber, do contrário não mandariam aquele cara à fazenda para nos pegar.

Sacudiu a cabeça. Pensaram. A baiana suspirou, e continuou:

- Se sairmos do planeta, Jonas pode descobrir a morte do desgraçado do agente dele e acabar com Doug e Suzana.

- Tem razão...Estamos num beco-sem-saída...

Janaína olhou para os lados.

- Tenho uma idéia: vamos fuçar nos arquivos antigos. O coronel me disse que queria vê-los; ele era aficcionado por coisas antigas e descobriu que havia um desses por aqui, na própria prefeitura.

Saíram da sala e andaram pelo edifício. Com o fim do expediente, não havia ninguém exceto um ou outro robô de limpeza. E naqueles dias ninguém podia ser proibido de andar num prédio público, a qualquer hora, exceto nos gabinetes reservados.

Desceram e acharam um aposento no porão repleto de arquivos antigos. XVDs, cartuchos ultra-large-data de 500 terabytes, e até alguns históricos ZDs que provavelmente já estavam acabados.

Havia documentos em papéis, conservados em arquivos à vácuo. Para abri-los, só com código e ID. Ou com um PK utilizado corretamente.

- Afaste-se. Aprendi na academia de polícia a abrir essas coisas.

Janaína atirou com o raio na freqüência mínima no nanocomputador que controlava o arquivo e este se desativou, danificado, pressurizando as gavetas e as abrindo. Os papéis estavam disponíveis.

- É uma dó. Com esse ar podem se estragar facilmente, e devem ter centenas de anos. - Janaína pegou os documentos e os espalhou sobre uma mesa. A luz se acendeu automaticamente sobre eles. Olharam juntos: registros de nascimento antigos, declarações...Mas nada da usina. Acharam então, junto aos papéis, um velha pasta, que abriram. Havia dez antigos discos de 0,5 polegada. E o logotipo da usina, com seu nome embaixo. Janaína olhou um deles contra a luz.

- Será que existe algum computador que possa ler isso aqui?

Rodrigo respondeu-lhe, olhando outro:

- Duvido, isso é da pré-história. O último computador que podia fazê-lo deixou de ser fabricado há mais de quatrocentos anos! Mas, espere um pouco...No depósito do Douglas, lá na fazenda...Eu achei uma velha aeromoto, e havia muito lixo tecnológico por lá...

- Ora, mesmo que achássemos um computador antigo desses, depois de tanto tempo, é impossível que funcione. Parece que...

- Venha. Traga esses discos. Temos uma chance!

****

Havia um velho Centennial 22 naquela garagem, com gerador de imagens e tudo. Talvez até funcionasse se suas placas transparentes não estivessem corroídas, afinal fora construído na década de 2.200. Mas a tecnologia estava lá, e Rodrigo era um pequeno gênio em informática. E tinha as chaves da mansão de seus pais, que ainda não fôra vendida. Em seu antigo quarto, um microcomputador Compadre XB, o mais poderoso micro brasileiro doméstico que o dinheiro podia comprar naquela época, com memória quântica e processador neural simétrico de dez dimensões, realidade virtual de alta-definição e gerador de emoções, com capacidade de 40 stupidbytes de disco. Modificado e melhorado por Rod.

Estavam numa praia nordestina, sob um céu sem nuvens. Não sentiam o calor do Sol, um micro daqueles não podia provê-lo. Perto da virtual do Cíclope, aquele lugar programado por Rodrigo soava falso, mas agradava. Estavam sentados na areia.

- Computador, coloquei uma velha e danificada unidade leitora de VSD, com placas e tudo, e um disco do mesmo tipo, no scanner. Pode analisá-los, pesquisar em seu banco de dados de hardware e me dizer se pode ler as informações do disco?

- Estou desconectado fisicamente da Solarnet, devo usar apenas meus dados internos?

- Sim, fui eu quem o desconectou, por segurança.

- Aguarde...A unidade e o disco foram produzidos em 2.201 pela Medium Research Inc., empresa que...

- Esqueça essa parte. Pode ler o disco? Mostrar-me as informações?

- Aguarde...Posso simular em meus circuitos a estrutura da placa da unidade de leitura. Meu raio xaser pode ser modificado para atuar como um laser comum. O disco já era protegido com infinity, portanto, mesmo com mais de quatrocentos anos, ainda mantém seus dados...Aguarde...Posso lê-los, contém 20,5 terabytes de informação sobre uma usina geotérmica...Uma proposta de construção.

- Apenas proposta? Planta, tamanho?

- Negativo...Dados incompletos.

Rodrigo tirou o capacete e colocou todos os dez discos no scanner.

- Leia todos os discos VSDs que coloquei e diga-me se existe uma planta e onde fica a entrada principal...

- Cinco são cópias dos outro cinco. Encontrei um projeto descritivo...A entrada fica onde hoje se localiza o cemitério abandonado Nossa Senhora Aparecida, aqui em Morros Gêmeos. A usina deveria conter quarenta e dois subsolos, e dez turbinas que...

- Pare. Gere um datapaper com a localização exata da entrada principal, e sobreponha o cemitério.

- Pronto. Mais alguma coisa?

****

Haviam comido um rápido lanche, depois passaram na pensão onde Janaína e o coronel estiveram hospedados. Pegaram um senalis, pequeno aparelho também chamado de sensor-analisador, um estojo de primeiros-socorros, uma bomba de interferência (que emitia uma nuvem negra de radiação negativa, atordoando pessoas e robôs), lanternas, protetores auriculares contra armas sônicas, e uma caneta hipermídia para usar com datapaper. Colina não deixara armas, Jan então recarregou as suas: o knocker e o shocker que já havia levado na viagem com Rodrigo, e o PK que pegara do agente do Jonas, na fazenda.

Instantes mais tarde deixavam a estrada principal de Morros Gêmeos, na saída da cidade, e pararam na entrada de um velho cemitério abandonado.

Rod desceu da caminhonete acionando o para-chuva:

- Todos atualmente são cremados ou enterrados no cemitério novo, como a Dorinha, filha do Douglas. Pensei que era lá a entrada da usina, afinal, já está debaixo da terra mesmo...Mas na verdade o Nossa Senhora Aparecida é este aqui...

A loira examinou o lugar. A chuva prosseguia, impiedosa, densa e acompanhada de trovões e relâmpagos. Só o para-chuva os mantinha secos. O jovem abriu o datapaper gerado pelo seu micro e leu, depois disse:

- Olhe as lápides - apontou-as - são todas de trabalhadores da usina. E aquele mausoléu era da família de um gerente. - Rodrigo sentiu um arrepio, lembrando-se de sua vida passada, como Guilherme Kirer, de como perdera tudo e acabara como um mendigo vivendo exatamente ali. - Aquele mausoléu foi construído junto com este cemitério seis anos após a lacração da entrada principal. Este datapaper mostra que o gerente morreu de desgosto, desempregado, e a viúva, com o resto do dinheiro deles, mandou construir o mausoléu exatamente sobre a entrada principal. Segundo o computador, existe várias outras passagens, mas esta é a mais acessível...Há uma sob a fazenda dos Carvalhosa, é fácil deduzir que é por lá que entram e saem.

Janaína olhou para Rod e mostrou-lhe o caminho:

- Vamos? Está com medo de fantasmas?

fantasmas do passado

Havia um corpo em avançado estado de decomposição, cheirando mau, sobre o túmulo do gerente, que deixou a ambos arrepiados, cada um por um motivo diferente. Janaína pensou ser algum intruso que os Carvalhosa mataram e deixaram ali como aviso; Rodrigo viu o resto de uma "casca" que gostara de ter ocupado. Ele disse:

- Use o PK para abrir esse mármore sintético, neste local, que é onde o meu computador indicou que havia uma escadaria.

Janaína habilmente usou o aparelho e facilmente abriu um rombo no chão. A terra cedeu e viram degraus para a escuridão.

- Ligue as lanternas, Rod, e vamos em frente.

Ele o fez e as duas pontas de luz seguiram flutuando, iluminando a entrada. Cuidadosamente desceram e se encontraram num amplo salão deteriorado e com uma atmosfera pesada e tenebrosa.

- Que lugar horrível de se estar! - Comentou Janaína - No subsolo de um cemitério, onze e meia da noite, com chuva e relâmpagos do lado de fora!

- Venha, vamos ver o que encontramos neste labirinto.

- Pelo aspecto deste lugar, tenho a impressão que não existe mais nada aqui há quatrocentos anos!

Ledo engano. Após descerem por alguns túneis escuros e danificados pelo tempo, seguindo suas lanternas, chegaram num corredor iluminado por tênues luzes azuis. Rod engoliu seco e disse:

- Há atividade aqui, sem dúvida. Está usando o sensor-analisador do coronel?

- Claro. Veja: há muita atividade daqui para baixo. Um lugar perfeito para esconder uma indústria, pois já estamos cinco andares abaixo do solo do vale e só agora ele aponta alguma coisa. Qualquer satélite de fiscalização não detectaria nada!

Rodrigo recolheu as lanternas e prosseguiram com cuidado.

Seguindo os sinais mais fortes, desceram por muitos metros. O corredor curvo acabava no alto de um grande salão onde outrora funcionava uma das turbinas térmicas. Ela estava funcionando de novo, e gerava a energia da fábrica.

Calafrios estremeceram Rodrigo e Janaína com a visão do que havia no resto do salão.


Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo X.

Milena olhou para o pobre Douglas, jogado no chão e amarrado como um porco. Apanhara um bocado e sangrava, e estava inconsciente. Ela também estava mau: amarrada com os braços para cima, que doíam, e seus pés quase não tocavam o chão. Levara alguns bofetões do sádico Atílio. Estava nua e tremia de frio.

Mas sua preocupação maior voltava-se para Suzana, pois Atílio a levara. Estava assustada, sabia o que ele ia fazer com ela...E depois? Seria a sua vez? Tentou em vão soltar-se: as argolas de metal, feitas propositadamente como aquelas de antigos castelos medievais, estavam justas em seus pulsos.

Também pensava em Antônio, sentia-se apaixonada por ele. E esperava que não estivesse morto, depois daquela surra.

Com raiva, e com muita dor, forçou suas mãos, finas e delicadas, pelas argolas...Elas escorregaram, o metal arrancando a sua pele, mas conseguiu se soltar.

Esfregou os braços doloridos, e então soltou as amarras e tirou a camiseta de um Douglas desfalecido e a rasgou em tiras, improvisando um curativo para as mãos ensagüentadas, e se cobrindo com o que sobrou para não ficar totalmente despida.

Queria chorar mas então pensou que de nada ia servir: agora era com ela, tinha de salvar a Suzana e dar um jeito de sair dali. Mas, como?

Tentou acordar o velho fazendeiro. Ele abriu os olhos, mas estava muito ferido, cuspiu sangue quando tentou falar. A modelo olhou para ele com dó.

- Como o senhor está? Ah, meu Deus, não vá morrer!

Sameros conseguiu dizer, com dificuldade:

- Fuja daqui e tente achar meu amigo Rodrigo, Rodrigo Maulson.

- Mas é impossível sair daqui...e o senhor? Precisa de um médico...

- Deixe-me aqui. Vá depressa antes que apareça alguém, e tente sair de alguma maneira! Cof...Cof...Vá, menina, se não eles vão matá-la!

Milena resolveu puxar Douglas para fora dali, e embora ele fosse pesado, ela conseguiu. Deixou-o numa sala onde havia uma torneira que ainda fornecia água. Tratou-o da melhor maneira possível e deu-lhe de beber, depois decidiu ir procurar Suzana. Ela já a salvara antes, agora era sua vez.

****

O ex-policial Fraga fazia sua ronda na fábrica e viu um casal adiante, apoiado na amurada de metal. Sacou seu PK mas Rodrigo percebeu.

- Parem aí! - Fraga gritou.

Rodrigo Maulson abaixou-se, e atrás dele estava Janaína, com sua arma.

- Pare você, idiota, e largue a arma! - Berrou ela.

O ex-policial disparou, Jan esperava por isso, tivera um bom treinamento na academia, jogou-se para o lado e disparou de volta. O raio azul do xaser de alta intensidade do PK acertou a cabeça com um cérebro de computador do inimigo.

Mas o clone carregava bombas dentro de seu corpo.

Fraga explodiu destruindo a sacada. Esta despencou e ficou pendurada no ar com Rodrigo segurando a amurada e Janaína segurando sua perna, deixando cair sua arma.

- Agüente, Jan! Vou tentar subir até o corredor!

- Espere! Deixa eu alcançar esta amurada! Senão vamos cair os dois! - E ela, habilmente, subiu por ele e alcançou o piso da sacada caída, que agora estava na vertical.

****

Alarmes automáticos dispararam. Enquanto o jovem milionário Rodrigo Maulson e sua companheira, estagiária da polícia e ex-secretária Janaína Ranadi tentavam escalar pela grade de metal, Atílio, um nível acima, em seu quarto particular, distraiu-se com o barulho ensurdecedor.

Suzana estava nua, amarrada pelos braços na cama, mas com as pernas livres. Atingiu o rosto do líder dos "Malucos", que caiu sentado no chão. Ao tentar levantar-se, atrapalhou-se com as calças que estavam arriadas no joelho e caiu de novo, perdendo os sentidos ao bater a cabeça na quina da cama.

- Socorro! Milena, Douglas! Socorro! - Berrou a plenos pulmões. Milena ouviu, e seguiu pelo corredor onde o estridente alarme tocava.

Clones, ex-policiais de Morros Gêmeos, com nanocomputadores no lugar de cérebros, andavam armados de rifles TD-12, descendo até onde a Segurança indicara a explosão. Passaram pela assustada Milena mas não lhe deram atenção: sua prioridade era o salão da turbina e montagem de cyborgs.

Era lá que Rodrigo e Janaína esforçavam-se subindo pelo piso da sacada, em direção ao corredor por onde vieram, pendurados trinta metros acima do chão.

- Meu Deus, Rod! Vai depressa, porque se isso aqui cair...

- Estou fazendo...Puf...Fazendo o possível...

O rapaz loiro estava quase conseguindo chegar quando os cyborgs de Jonas apareceram num corredor do outro lado do salão e dispararam. A sacada despencou de vez no exato instante que Rodrigo e Janaína subiram pela borda da entrada do corredor e depois jogaram-se para dentro.

A baiana, por sua vez, levantou-se e puxou Rodrigo que estava sem forças, e ambos evitaram os tiros que arrancaram toda aquela entrada.

- O que faremos desarmados? - Berrou o rapaz.

- Fugimos. A velha retirada estratégica!

****

Milena entrou no quarto particular de Atílio e soltou Suzana, ajudou-a a se vestir e amarrou o rapaz, de calças abaixadas e tudo, no pé da cama, com as cordas que prendiam sua amiga. Ele estava começando a acordar.

- Depressa, Suzana, depressa! Vista-se logo!

- E você, Mi? Está quase nua só vestindo essa camiseta toda rasgada e enorme!

- É do Douglas, mas não importa, vamos depressa!

Elas saíram e a doce mulata de cabelos encaracolados puxou a morena de olhos azuis para a sala onde deixara Douglas. Suzana comentou:

- Esse alarme...ele disparou na hora H! O que será que é?

- Não sei, mas foi ótimo! Venha, Su, vamos pegar o Douglas e descer, nos esconder o mais profundo que pudermos nesse labirinto!

****

Glenn Friasi olhou pela janela da Mukabay a Lua que tanto adorava. Nascera no distrito da Itália, na Terra, mas sua família provinha da rica região do Sudão. Com doze anos, mudara-se com seu pai para Apolo Onze, na época uma nova cidade lunar que prometia grandes oportunidades.

Mas seu pai acabara morrendo num acidente na cratera Tycho e ele decidiu entrar para a Polícia Solar.

Flutuava sobre seu antigrav, sonhando com pernas novas.

A P.S. o convocara depois que lhes mostrara o datapaper que Rodrigo lhe dera e o depoimento gravado de Janaína. Houve um formal pedido de desculpas e a imediata abertura de um inquérito, apenas duas horas depois que criara coragem e abrira o jogo. Aproveitando a linha de cargas temporária que seu amigo Klamisbesh fazia entre Ceres e a Terra, vinha chegando de carona para descer em Roma, prestar depoimento.

Rezava para que não fosse tarde demais...Jan e Rod podiam estar precisando de ajuda! Tinha de convencer a P.S. a intervir em Morros Gêmeos o mais rápido que pudesse.

Rezava também para que o responsável pela sua exoneração e afastamento da investigação contra os Carvalhosa fosse descoberto. Quem quer que fosse, estava infiltrado na Polícia Solar.

Coçou a careca negra. Desde que fora exilado em Ceres, não tinha nada que pudesse fazer para atacar os Carvalhosa. Agora tinha o depoimento gravado do seus amigos, o datapaper e uma coragem renovada.

****

Rodrigo viu no minúsculo painel do sensor-analisador que os cyborgs estavam chegando, subindo pelas escadarias internas, em direção àquele corredor onde se encontravam. Estavam encurralados: não podiam seguir adiante nem voltar.

- Eu estava pensando numa coisa...

- E o que é, Rod? Rápido, eles estão armados de rifles e nós só temos um knocker e um shocker...E eles são cinco!

- O senalis aqui do seu chefe morto mostra que eles não tem blindagens...

- É claro que não! Aqueles cyborgs não tem blindagens no cérebro por que seriam facilmente descobertos em qualquer lugar onde houvesse um sensor de metal...Espaçoportos, shoppings...

- Então basta um pulso eletromagnético de alta intensidade para destruir aqueles computadores na cabeça deles...

Jan olhou para ele, irritada:

- Pô, Rod...Não temos tempo para divagações! Como emitiremos um pulso eletromagnético de alta intensidade?

- Com esse senalis! Um sensor-analisador emite pulsos eletromagnéticos, gravíticos, atômicos...Basta dar uma sobrecarga e tudo num raio de cinqüenta metros que seja eletrônico, positrônico e sei-lá-o-que-ônico será destruído...Desde que não esteja blindado...

- E o que você está esperando? Depressa! Eles estão chegando...

Estavam no corredor, e Rodrigo não pensou mais, apenas apertou os botões necessários e o sensor-analisador se sobrecarregou. O pulso invisível e totalmente inócuo para os humanos destruiu os cérebros dos cinco cyborgs, que caíram no chão como que desligados, de olhos arregalados, a olhar o teto de luzes azuis.

- Você os matou! - Disse a loira de olhos arregalados.

- Eles nunca estiveram vivos, Jan. São clones sem alma. Este senalis não serve para mais nada...- Jogou-o fora. - Venha, vamos descer por onde eles subiram...

- Antes, pegue um rifle! Estes TD-12 são fantásticos!

- Pegarei dois. Vamos, depressa!

Armados, percorreram trinta metros de escadaria até o nível da turbina e da linha de montagem de cyborgs: clones nascidos sem cérebros onde eram instalados nanocomputadores.

Lá estavam os braços cirúrgicos que faziam as conexões nervosas nos cyborgs, e os tubos com alguns clones em desenvolvimento.

Havia alguns já prontos para receberem os novos cérebros. Corpos de pessoas que provavelmente já estavam mortas...Inclusive um clone de Suzana Luciara.

Rodrigo abaixou os rifles e aproximou-se daquele tubo onde ela se desenvolvia. Engoliu seco. Destravou e mirou uma das armas em intensidade mínima e desintegrou o tubo.

Olhando o pó fumegante, Janaína disse:

- Porque fez isso? Era apenas...

- Esse era um clone da minha namorada...Suzana. Espero que ela ainda esteja viva...

- Depois de mais de três meses, acho díficil...Sem querer te desanimar... - Janaína na verdade exibia uma ponta de ciúmes.

Rodrigo fechou os olhos, triste...Suzana devia estar mesmo morta agora, depois de tanto tempo, e copiada daquele jeito. Olhou ao redor: muitos tubos, e reconhecia algumas garotas da faculdade...Era isso que Atílio e sua corja faziam, seqüestravam secretamente as meninas, abusavam delas e as matavam, substituindo-as por clones computadorizados...Com computadores bem ruins, pois elas viravam alguma coisa como zumbis...Um crime quase perfeito! E lá estavam também policiais, políticos...Todos sendo substituídos. Jonas Carvalhosa devia controlar muito do Subdistrito de Minas Gerais, e talvez até mais...Há quanto tempo ele e seu filho vinham fazendo isso? Quantas pessoas já haviam substituído?

Já acontecera algo parecido há séculos. Terroristas trocavam presidentes, governadores...Mas os computadores, imperfeitos, foram descobertos...Hoje, porém, com a tecnologia da informática, com a transferência de memória pessoal, com...

Meu Deus!.

As máquinas trabalhavam na linha de montagem, indiferentes. Rodrigo e Janaína estavam silenciosos, olhando o lugar. Cada um raciocinava a mesma coisa e cada um estava aterrorizado com a perspectiva do que estava acontecendo em Minas Gerais, no Brasil, talvez na Terra, talvez no Sistema Solar...Ou Jonas teria ido ainda mais longe?

E ocorreu ao jovem Maulson que seus pais, antes de explodirem naquele iate, nada mais eram que marionetes! Marionetes nas mãos de Jonas! Eram cyborgs!

- Vamos destruir tudo! Esta maldita fabrica dos infernos!

- Rod...Rod, eu bem que queria, mas não podemos...Isso tudo servirá de prova...

O jovem Maulson encarou a baiana. Entendeu o que ela lhe dizia. Tinham de provar à Polícia Solar que tudo aquilo era verdade, ou acabariam como Glenn Friasi. Mas tudo aquilo despertava o mais profundo ódio na dupla.

- Rod, vamos nos acalmar. Vamos sair daqui e procurar a P.B., a P.S...A coisa é grande demais para nós!

- Eu não sei...- O rapaz limpou o suor da testa - Concordo com você que é encrenca das grandes, mas não sei se podemos confiar na P.B., na P.S...Acho que deveríamos procurar o Senado. Acho que só um Senador para nos ajudar.

- Vocês não vão procurar ninguém!

Ambos olharam para trás. Era o delegado de Morros Gêmeos, Miguel Ferrato, com sua tropa de choque. Apontavam inúmeros rifles xaser para eles.

****

- Doug...Doug, não morra! O senhor não pode morrer!

Os olhos azuis de Suzana vertiam lágrimas. O velho de noventa anos estava bem ruim. Milena sacudia a cabeça.

- Precisamos sair daqui, Su, senão ele vai morrer...E nós também. Quando o Atílio conseguir sair daquele quarto, vai querer nos degolar.

- Devíamos tê-lo matado! Aquele porco doente!

- Su, vamos carregar o Doug e procurar uma saída. Vamos seguir por aquele corredor que você disse que nunca entrou e ver o que acontece.

Juntas, uma de cada lado, ergueram o pobre fazendeiro, que mau se mantinha consciente. Ele forçou-se a andar e abrir seus olhos roxos e inchados.

- Meninas, obrigado por não me deixarem aqui, para morrer! Cóf, cóf. - Cuspiu sangue.

- De nada...- Milena suspirou - Agora é melhor não falar. Vamos em frente.

****

- Larguem as armas! - Berrou Ferrato.

Jan soltou o rifle mas acionou o shocker, que ficava em seu pulso. Eram quinze clones, mais o delegado, porém estava disposta a tudo para não ser capturada por aqueles maníacos.

Rodrigo, sorrateiramente, aumentou a potência de um dos rifles, com o polegar girando o controle de intensidade. Era o que usara a pouco contra o tubo do clone de Suzana, e que estava destravado.

Soltou o travado, que quicou no chão. Tudo parecia em câmera lenta. Seu coração retumbava em seu ouvido. Soltou o outro e rezou para que quando caísse, seu cano não estivesse voltado para ele.

A arma caiu lentamente. Miguel percebeu no último segundo a trava aberta. O rifle de alta potência bateu no chão e o gatilho de solenóide foi acionado, disparando um grosso raio azul escuro de xaser concentrado. O tiro passou por cima da cabeça de Miguel, mas a radiação derreteu seu cérebro...Ele era humano. A parede atrás e acima dos outros quinze ex-policiais desintegrou-se e tudo além dela, num raio de cem metros, também. A radiação novamente ajudou a dupla: os cyborgs ficaram atordoados tempo suficiente para que pudessem pegar do chão seus rifles, mudarem para força detonadora e explodirem com todos.

O sangue dos clones voou sobre eles.

Rod puxou a loira pela mão e seguiram para a direita, ao longo da turbina geotérmica. Se depararam com mais cyborgs. Tiros azuis por todo lado, explosões de granadas, desintegrações e tubos de clones indo pelos ares.

- Abaixe-se! - Berrou o rapaz, dedos premidos nos gatilhos dos dois rifles que causavam um grande estrago. Deixando o ódio e a adrenalina tomar conta de seu corpo, e pouco se importando em manter provas, Rodrigo atirou em tudo ao alcance de seus rifles, que se esgotaram em dez minutos e muita destruição depois. Usou o lança-granada que possuíam e explodiu com a linha de montagem. Quando acabou toda a munição, ele os largou, fumegantes, e limpou o suor da testa.

- Calma, Rod, calma! Vamos sair daqui antes que viremos churrasco!

Janaína disse isso porque todo o salão estava em chamas.

- Espere! - ele voltou até onde Miguel estava caído, com seu cérebro orgânico a escorrer pelos ouvidos, e pegou sua arma. Juntou-se a loira e ambos seguiram até uma sala envidraçada, além dos incêndios que causaram. Havia corpos de cyborgs por todo lado.

Suados e tensos, entraram na sala de controle da linha de montagem, onde um robô-supervisor tentou atingi-los com um PK. Foi desintegrado.

- Ajude-me aqui, Jan. Ligue essas chaves no máximo. Faremos estes controles emitirem um pulso eletromagnético extremamente forte. Vamos detonar com esses clones de cabeça-de-vento!

Foi o que aconteceu nos arredores do salão da turbina. Cyborgs caíram por toda parte. Apenas os robôs-capanga, blindados, estavam imunes, mas a espera do comando de Jonas ou Atílio.

Atílio ainda não se desamarrara, espumando de ódio em seu quarto. Jonas estava dormindo em sua mansão, com o clone de sua falecida mulher ao seu lado. Eram duas da manhã de uma madrugada agitada, muitos metros abaixo da superfície.

****

A mansão dos Carvalhosa era imensa, construída como um castelo medieval, com fosso e tudo. O luxuoso FlyBoat de Jonas flutuava sobre ela. Localizava-se numa grande fazenda, há alguns quilômetros de Morros Gêmeos. E, claro, possuía uma entrada secreta para a antiga usina geotérmica.

O general reformado da Força Azul Lito Cabrello cuidava da segurança da mansão e da usina. E foi acordado por um clone seu subordinado, que o fez olhar os monitores e o fogo no salão da linha de montagem.

Os alarmes continuavam irritantes quando ele ligou para seu chefe na mansão, que desceu correndo, e o encontrou preparando robôs de ataque.

- O que está acontecendo, Lito?

- Não sei. Fraga está morto lá na fábrica. Ferrato também. A maioria dos cyborgs foi destruída, assim como a linha de montagem. Há fogo no salão principal.

- E meu filho, falou com ele?

- O VDcom do quarto do Atílio não está funcionando, e seu personnal communicator não pode ser acessado aqui em baixo.

- Mande os soldados para lá. E mande câmeras também!

E eles foram, muito bem armados, voando pelos corredores. Na vanguarda, câmeras-rôbos mostravam tudo para Jonas e Lito, que estavam na entrada da usina, na Sala de Segurança, debaixo da mansão.

****

Milena e Suzana penavam para carregar o velho Douglas. Estavam num corredor ovalado, e do lado direito delas havia janelas que davam para um imenso pátio subterrâneo cheio de máquinas. Este pátio estava a dez metros abaixo da onde passavam, e a bela e corajosa modelo, curiosa, olhou para baixo.

Lá avistou, correndo com rifles TD-12, Rod e Jan.

Cyborgs sobreviventes surgiram à frente deles, e iniciou-se outro tiroteio de raios azuis.

- Alguma coisa está acontecendo aqui! - Disse Milena, soltando Doug que uma exausta Suzana não conseguiu segurar, e ambos foram ao chão.

- Milena! Caramba, como você me dá uma dessa?

- Venha ver, Suzana, aquele casal lá embaixo!

Ela levantou-se, ajeitou um Douglas semi-consciente no chão e foi olhar. Olhou e seus pêlos se arrepiaram.

- É o Rodrigo Maulson, meu namorado!

- Ah, aquele cara que você e o Doug me contaram.

Lá embaixo, Jan e Rod acabaram com os últimos clones.

Suzana tirou sua botina e arrebentou o vidro com ela. Berrou o nome do rapaz que olhou para cima e teve seu coração estourado de emoção. Gritou de volta:

- Suzana! Suzana, você está viva!

Janaína olhou para cima também:

- É um truque! Estão mandando mais clones...

- Suzana, é você mesma?

Jan sacudiu a cabeça e pos a mão no ombro de Rodrigo.

- Você é mesmo um boboca, não é, Rod? Se ela for um clone...

- Sou eu, amor. Juro! - Suzana berrou lá de cima.

O rapaz virou-se para a loira:

- Pulso eletromagnético é a chave. Seu shocker serve. Ponha-o em ligação interna máxima e mire-o próximo à ela. Se ela não cair, é a Suzana.

Assim Jan fez e nada aconteceu, com exceção da arma se destruir nas mãos da baiana, que jogou o aparelho fora se lamentando. Rodrigo abriu o datapaper que seu computador gerara e tentou encontrar um meio de subir.

- Espere aí, Su! Vou dar um jeito de chegar até você! - Berrou.

Mas era tarde. Os robôs de combate de Lito chegaram disparando. Alguns atiraram no corredor suspenso, que explodiu próximo as garotas e ao fazendeiro, ferindo de leve Suzana e Milena. Outros atingiram Jan, arrancando-lhe seu braço direito, com rifle e tudo. Ela gritou e desmaiou.

Rod girou seu corpo no chão e revidou. Acertou um deles, mas um campo de força impediu que o destruísse.

O jovem Maulson arrastou-se sob os raios azuis e puxou a desfalecida e ensangüentada Janaína, pelo braço esquerdo, para debaixo de um imenso trator ali estacionado. Seguros pelo monstro de metal, blindado, atirou a bomba de interferência que trouxera consigo, atordoando os soldados artificiais o tempo suficiente para voltar sua atenção para a baiana, desfalecida ao seu lado.

Dois dos robôs subiram acima da nuvem negra de radiação negativa, ao nível do corredor suspenso, e atiraram em Milena, Douglas e Suzana, que estavam deitados no chão, mas por pura sorte atingiram uma viga e parte do teto caiu sobre os soldados de metal, destruindo-os.

Entre os restos cauterizados do lugar, a mulata, a morena e o velho fazendeiro fugiram se arrastando. Com a confusão, Douglas estava acordado mas respirando com dificuldade, tinha duas costelas quebradas, mas esforçou-se e com a ajuda das garotas, conseguiram chegar num ponto seguro daquele inferno.

Com o estojo de primeiros socorros do coronel, que haviam pego lá na pensão junto com a bomba de interferência e as outras coisas, o rapaz salvou a vida da baiana usando saradene no toco abaixo do ombro direito, onde estivera seu braço. A espuma siliconada estancaria a hemorragia, cuidaria da perda de sangue e do estado de choque da garota e provocaria uma rápida cicatrização do local.

Rodrigo então virou-se e, escondido ao lado de um enorme pneu de borracha plástica, aguardou a nuvem de fumaça se dissipar e começou atirar como louco nos seis robôs de combate que sobraram e circulavam em torno do imenso trator.

Mas eles tinham campos de força a protege-los. E atiravam sem parar, apesar de usar armas menos potentes que o rifle de Rodrigo. Este, por sua vez, viu um imenso container de 1000 toneladas preso no alto de um guindaste anti-gravidade, no teto daqule pátio interno, e disparou nele. A imensa massa de metal caiu sobre quatro dos robôs, destruindo-os por completo. Sobraram apenas dois.

Uma granada lançada por um deles destruiu parte do pneu, ferindo o rosto de Rod. Este revidou a queima-roupa e provocou a perda de controle do robô, fazendo-o chocar-se com um tanque de combustível celular, que explodiu. A força da explosão atingiu as baterias do último dos combatentes artificiais de Lito, destruindo-o também em outra forte explosão, que deixou todos os humanos próximos com um zumbido no ouvido.

Rodrigo e Janaína, embaixo do trator, Milena, Suzana e Douglas, nos restos do corredor, dez metros acima, estavam salvos..por enquanto.

****

Saindo atordoado de seu esconderijo, com cortes no braço e no rosto, o jovem Maulson avistou sua namorada, seu amigo Douglas e a bela mulata no corredor semi-destruído e acenou para eles, gritando:

- Vocês estão bem? Estão todos vivos?

- Eu...Acho que estou - disse o fazendeiro, mas logo caiu desmaiado.

Suzana arrumou seus cabelos desgrenhados. Tremia. O zumbido das explosões ainda circulava por sua cabeça; do corredor aos pedaços acenou de volta:

- Douglas precisa de ajuda urgente...Eu estou levemente ferida e a Milena também.

- Oi, Rodrigo, eu sou a Milena, prazer em conhecê-lo! Você é mesmo durão! - A bela modelo tentava esconder sua semi-nudez puxando a enorme camiseta de Douglas que vestia para baixo.

- Durão. - gritou Maulson sacudindo a cabeça, olhando a destruição ao redor. - Não, não sou durão...Você não imagina do que a gente é capaz com a adrenalina a mil... - Enxugou o suor, e virou-e para onde estava Janaína. - A minha amiga aqui também precisa de socorro urgente. Vou mandar o mapa desta usina aí para vocês...Estão mais perto da saída. Saiam correndo daqui e peçam ajuda! Eu vou tentar chegar aí...Ainda bem que esse corredor suspenso não desabou...

Pegando seu rifle, acionou a função lança-granada, prendeu o datapaper com o mapa na granada que desativou, e disparou próximo as garotas. Elas o pegaram e Milena gritou:

- Estamos indo. Você se vira?

- Claro!

Suzana berrou:

- Rod, eu vou descer! Eu vou aí te ajudar!

- Não! Obedeça, vá com a Milena e ajude-a a levar o Douglas para fora daqui, ela sozinha não vai conseguir. Estou armado! Estou bem e já tenho a minha amiga aqui para me preocupar. Vá agora!

- Venha - disse Milena, puxando Suzana pelo braço. - Ele sabe se virar, você o viu dar cabo de seis robôs de combate!

****

Glenn Friasi descera em Roma, a capital do planeta Terra, no Terminal Governamental, dentro do Senado. A Polícia Solar em pouco tempo descubrira a rede de corrupção e pessoas substituídas por clones controlados, e acionara o Senado por se tratar de um caso de extrema importância. O Senador Myrka Ovstok, um homem de tez pálida e atarracado, cultivador de um imenso bigode grisalho e de olhos verdes cintilantes, recebeu o ex-policial em seu gabinete:

- Estamos fazendo um levantamento do que está acontecendo no Distrito do Brasil. O senhor deveria ter nos procurado antes! Este caso é muito sério. Clones de corpos inteiros são expressamente proibidos, o senhor sabe, indústrias na Terra também...E uma polícia corrupta então...terei prazer em condenar os culpados à uma terrível morte!

Glenn engoliu seco, sabia do poder dos senadores.

- Desculpe-me, mas fui incriminado de algo que não fiz, exonerado e jogado num buraco em Ceres. Ninguém acreditava em mim. Só quando estes meus amigos conseguiram provas é que pude avisar o Senado. Sinto muito, senhor.

- Tudo bem, senhor Friasi. O senhor será indenizado e condecorado, e seus amigos também. Quero que assuma pessoalmente este inquérito como novo investigador da Polícia Solar!

O homem calvo e flutuando sem pernas suspirou, mas sorriu:

- Antes tarde do que nunca. Estou feliz por ouvir isso, senhor. Agora, gostaria de ir ao Brasil e ajudar Rodrigo e Janaína, eles podem estar correndo extremo perigo!

- Pode ir, Glenn Friasi. Todos os recursos da P.S. estarão a sua disposição. Pode inclusive levar toda a Divisão Águia e suas naves-patrulha.

****

Jonas Carvalhosa e Lito Cabrello viram cada detalhe daquela batalha onde seus robôs de combate foram postos fora de combate. Lito rangeu os dentes.

Seu patrão coçou os poucos cabelos grisalhos e com olhar de ódio disse:

- Esses seus autômatos imprestáveis! burros! Foram derrotados com muita facilidade por aquele garoto! Eram oito e não sobrou nenhum!

- Desculpe-me, mas foi o melhor que consegui. Hoje em dia, o senhor sabe, conseguir armas e robôs de combate é bem difícil...Não eram os melhores.

Um garoto de uns vinte anos, muito bonito e afeminado, de jeito afetado e com belos olhos amarelos, entrou na Sala de Segurança. Vestia um short apertado e um top. Era o secretário particular e amante de Jonas. Agitado, lhe mostrou um datapaper:

- Senhor, veja! Seu cyborg na P.S. em Roma informa que um tal agente deles, Glenn Friasi, está com provas contra o senhor! A P.S. está vindo para cá em peso. Satélites estão rastreando Morros Gêmeos em força máxima!

Lito olhou um nervoso e suado Jonas:

- Senhor, os campos de força e os dez subsolos acima da fábrica não deixarão que nos detectem. Não tão facilmente! Mas recomendo a destruição imediata da usina, e a utilização do nosso plano de fuga.

Jonas suspirou:

- Tem razão. Vamos explodir o reator da turbina geotérmica. Veja se acham meu filho, ele deveria estar em seu quarto particular...

Lito sacudiu a cabeça:

- Não há tempo! O reator levará menos de vinte minutos para superaquecer, e temos de partir agora. Não há mais ninguém na usina para procurar o Atílio, e todos os meus robôs e cyborgs foram destruídos!

O rude e forte homem negro lembrou-se de seu filho doentio e seus amigos malucos torturando, abusando, estuprando aquelas inocentes estudantes de sua universidade. Durante dois anos permitira aquele absurdo. Não mais! Atílio não merecia viver. Ele tolerara demais aquilo tudo, e isso culminou no fim de seus planos de dominar o Distrito do Brasil. Deixaria seu filho morrer...Tinha tido até um pouco de medo dele...Aquele sádico...Ele o deixaria lá. Poderia agora se livrar de seu tormento...

- Lito, desligue o resfriamento. Deixe a turbina e o reator superaquecerem...E explodirem.

Birmis Al-Vetar, o secretário homossexual de Jonas, ficou surpreso:

- Mas, e o Ti? Vai deixar o coitadinho morrer?

O chefe dos Carvalhosa o olhou, friamente:

E ele não merece?


Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo XI.

Milena e Suzana saíram para a chuva puxando Douglas. Se deliciaram com a água, caminhando através do velho cemitério, e chegaram na caminhonete preta que estava na entrada. Suzana a reconheceu, e ela estava aberta, com o keycard no contato.

- Você sabe dirigir, Mi?

- Claro, é fácil. Vamos direto à um pronto-socorro.

O gravicar seguiu flutuando pela estrada de plástico até a cidade.

Era uma madrugada abafada, mesmo com a chuva que não diminuía. Morros Gêmeos estava calma. Quando pararam defronte ao Hospital Municipal, robôs vieram buscar Douglas e o levaram para a Unidade de Terapia Intensiva. Milena arrumou um roupão, pois estava semi-nua, e foi com eles, pensando em Antônio. Suzana usou o VDcom da caminhonete e ligou para a Polícia Solar, e assustou-se quando, assim que desligou, um policial tocou o seu ombro:

- Mas que rapidez! - Exclamou.

- Acabamos de chegar de Roma, e pude ouvi-la falando com meu chefe - disse o policial - estamos procurando Rodrigo Maulson e Janaína Ranadi...E informações sobre uma fábrica de cyborgs subterrânea, como a que você estava descrevendo...

Suzana desceu do gravicar e fez sinal para que o policial a acompanhasse até a recepção do hospital. Falou para a robô-recepcionista:

- Douglas já está sendo atendido?

- Sim, e sua amiga está com ele. E posso dizer que o senhor Douglas ficará bem.

A morena de olhos azuis virou-se para o policial, pensando em seu namorado e no inferno em que o deixara.

- Venha, vou levá-lo até lá. Traga todos os reforços que puder!

****

Era fácil conduzir aquele trator gigante, o computador dava todas as instruções, mostrando mensagens na tela fina como uma seda. Rodrigo havia entrado na máquina que lhe servira de esconderijo, arrebentando tudo o que via pela frente, com a pá monstruosa. Derrubava paredes e salas, à procura de uma saída. Mas estava perdido. Suava frio, estava cansado e ferido. Preocupava-se com Janaína, desfalecida ao seu lado. Temia que ela não resistisse, apesar de ter-lhe aplicado saradene tão rapidamente quanto pode.

Estancou quando viu Atílio Carvalhosa parado à frente de sua máquina. Apontava um PK para a cabeça de uma garota que chorava, e era ladeado pelo seus dois robôs-capanga, que flutuavam, ameaçadores, com armas sônicas preparadas.

A cabine de controle do trator ficava muitos metros acima do chão, e a liga de carbono transparente era escura, de modo que Atílio não podia ver Rodrigo. Mesmo assim o rapaz de cor berrou:

- Joguem todas as armas que tiverem e desçam daí, senão vou desintegrar a cabeça dessa menina!

A estudante chorava copiosamente e Rod não a reconheceu, mas sabia que Atílio atiraria se não o obedecesse. Pegou apenas um dos rifles, abriu a porta e desceu pelo elevador. Jogou a arma aos pés do inimigo. O filho de Jonas estava surpreso:

- Puxa vida! O estrela Maulson! O que você está fazendo aqui, sua bicha?

- Destruindo tudo, seu idiota, ou você não notou?

O ex-chefe dos Malucos Safados encarou-o com raiva. Pressionou a arma mais forte contra a cabeça da garota, que começou a rezar. Ela estava semi-nua, maltrapilha, os cabelos desgrenhados emoldurando um rosto sujo.

- Idiota é você, estrela. Não sei como chegou aqui nem como aprontou tudo isso sem que meu pai acabasse com a sua raça, maldito filho-da-puta, mas você vai ver a cabeça dessa menina desaparecer, e depois vou desintegrá-lo aos poucos, para que sofra bastante antes de morrer...

- Deixe-a em paz, covarde. Escute, venha lutar comigo! Pare de se esconder atrás de um PK! Mostre-me se é homem ou não!

Atílio começou a tremer. Olhou com olhos de extrema loucura para Rodrigo:

- Não...Não sou bobo. Seja lá o que aconteceu com você, tornou-o muito mais forte...E rápido. Já apanhei uma vez de você, lembra? Não, nada de luta. Você vai se arrepender de ter saído daquele trator. Veja agora essa minha escrava morrer!

- NÃO! - A garota berrou e fechou os olhos.

A mão de Atílio e o PK desapareceram. Ele olhou seu pulso que jorrava sangue, e então olhou para a cabine do trator. A última coisa que viu foi uma loira sem um braço, disparando um rifle TD-12 na força mínima. E quem ficou sem cabeça foi ele.

****

Naves-patrulha, gravicars e aeros da Polícia Solar pararam em peso no velho cemitério e vários homens e mulheres, armados e equipados, entraram pelo buraco dentro da mausoléu. Suzana entrou junto, guiando-os através dos corredores até acharem um iluminado, cinco andares para baixo.

Pararam imediatamente. A voz vinda das paredes, impessoal e feminina, dizia:

- ...Reator da Turbina Geotérmica Um está superaquecendo! Emergência! Explosão iminente em doze minutos! Reator da Turbina...

O coronel Tirdo, em comando, berrou para o oficial de operações:

- O que o senalis diz?

- Diz que temos de sair daqui, agora! A explosão do reator vai mandar esta usina inteira para o espaço, junto com o cemitério e sabe-se lá quanto de Morros Gêmeos!

Deram meia-volta e o coronel puxou Suzana:

- NÃO! Vocês não podem deixar o Rodrigo lá embaixo para morrer!

- Venha, não podemos fazer mais nada! Levaríamos doze minutos só para chegar até a turbina!

- ...Explosão iminente em onze minutos...- Disse a voz do computador da usina.

- Shit! - O coronel agarrou a morena que se debatia e levou-a para fora, junto com sua tropa. Deixaram o cemitério com rapidez, avisando a cidade para se preparar para a explosão.

****

Antes de descer e ir enfrentar Rodrigo, Atílio havia se soltado da cama. Praguejando, percebera pelos monitores da segurança a confusão. Descobrira que não havia mais ninguém para protegê-lo além de seus capangas. Pegou uma das universitárias que poupara, para servir como refém.

Agora estava morto.

Os robôs-capanga tinham disparado suas armas sônicas, mas tanto Rod quanto Jan estavam com protetores auriculares. Permitiam ouvir as freqüências normais mas os protegiam das disparadas pelas armas. O jovem Maulson agradeceu a Deus por terem trazido tantos equipamentos da pensão.

Dois tiros dados por Janaína foram suficientes para destruir os robôs. Ela desceu pelo elevador e andou, cambaleante, até seu amigo.

Abraçaram-se. Rodrigo a examinou:

- Como você se sente?

- Péssima! Mas o saradene é um ótimo remédio...Acho que posso agüentar...

Ouviram a mensagem de advertência do computador da usina.

- Ah, não! - Berrou Janaína. - Essa agora não!

- Temos de sair daqui! Mas...como? - O jovem Maulson estava ficando muito nervoso. Olhou em volta sem saber o que fazer.

A baiana viu a universitária chorando...Os robôs-capanga não haviam mirado as armas sônicas nela, estava consciente, ajoelhada ao lado do corpo do Carvalhosa. Foi até ela, ajoelhou-se também, e perguntou:

- Você está bem? Está machucada?

- Obrigada por me salvar...Estou bem - Ela abraçou Jan. Tremia e chorava sem parar. Rodrigo estava impaciente...Tinham dez minutos.

- Vamos sair daqui, Jan!

Janaína ajudou a garota a se levantar.

- Quem é você? Porque está aqui?

- O Atílio, ele...Ele me manteve viva para ser sua escrava, junto com outras duas...

A loira olhou para Rod, que suspirou. Examinou a universitária, e percebeu porque Atílio a poupara: era extremamente bela, mais do que a maioria das pessoas daquela época, que eram sempre bonitas por causa dos aperfeiçoamentos genéticos.

Rod deu sua camiseta para que se cobrisse, perguntando:

- Onde estão as outras? Temos dez minutos para sair da usina...Ela vai explodir!

- Eu sei, estou ouvindo o computador! - Foi a resposta assustada e atravessada.

Ela se recompôs e fez sinal para que a seguissem, após vestir a camiseta de Rodrigo.

- Minhas amigas estão numa sala perto daqui, com um professor de Cálculo Quântico que o Atílio detestava e mantinha vivo para torturá-lo! Venham!

Desceram por uma larga escadaria, e as luzes azuis agora eram vermelhas e piscavam. Os alarmes soavam sem parar e já estavam acabando com os nervos de Rod. A voz feminina do computador avisava-os que o fim estava próximo. Correram por um largo e longo corredor, até um calabouço, muitos metros abaixo da superfície. Enquanto corriam, a universitária perguntou o que acontecera com a baiana, porque estava com um braço só, e como aguentava. Jan respondeu-lhe:

- Depois lhe conto. E eu tive um treinamento especial na polícia, sei controlar a dor. Estou bem, e o saradene faz milagres!

Chegaram nas celas ocupadas e foi uma felicidade quando libertaram as outras garotas e o professor. Mas não tinham tempo para banalidades e apresentações.

- Vamos! Vamos descer o mais que pudermos, para bem longe do reator. Faltam cinco minutos para que ele exploda! - Berrou Rod, para se fazer ouvir em meio as sirenes, alarmes e a voz monótona de aviso do computador, cada vez mais alta.

Rodrigo conhecia o professor de Cálculo Quântico, o Geraldo, um gênio em física muito excêntrico que lecionava na UMG. Estava em péssimas condições, mas disse-lhes que poderia seguí-los, sem ajuda. Foi duro agüentarem as reclamações que fazia enquanto desciam, mais e mais, aprofundando-se no labirinto da usina, entre corredores cada vez mais longos e largos, e cada vez mais escuros e quentes.

Dos seis, só Maulson ainda estava inteiro e, embora muito nervoso, procurava manter o sangue-frio de Janaína. As estudantes estavam muito machucadas, mas seguiam o casal em silêncio, chorando. Geraldo era o último, sem parar de praguejar, mancando.

Estavam correndo por um imenso corredor quando aconteceu.

O reator da Turbina Geotérmica Um explodiu, mandando o cemitério Nossa Senhora Aparecida pelos ares, além da estrada e de algumas casas da periferia de Morros Gêmeos.

Uma grande nuvem de poeira se elevou na noite chuvosa. Seguindo-se a ela, um terremoto sacudiu a cidade. Havia pânico e terror no interior de Minas Gerais.

Uma bola de fogo correu pelo corredor perseguindo Rodrigo e Janaína, as três universitárias e o professor. Eles se jogaram por um escorregador de lixo quando a bola os alcançou. O fogo atingiu o professor, que vacilou. Um corpo em chamas escorregou por aquele tubo desgastado atrás das pessoas em pânico, que gritavam de puro medo.

Desceram em ziguezague, deslizando em alta velocidade. O plástico oleoso ajudava. Geraldo estava morto antes que atingissem o chão sujo e escuro de uma câmara.

Rolaram pelo chão. Rodrigo pôs-se de pé assim que pôde e com a areia e pó apagou as chamas do professor. Com pesar viu que estava carbonizado.

Uma língua de fogo saiu do buraco por onde desceram, mas parou por aí. O terremoto que se seguiu, porém, foi pior. Tudo tremeu e todos foram cobertos de pedras e pedaços de concreto. Havia pó, muito pó. O teto veio abaixo. O tubo por onde vieram desapareceu. A escuridão era total.

****

Suzana chorava desesperadamente no gravicar da polícia, vendo esqueletos choverem pela cidade. As pobres almas dos trabalhadores da usina deviam estar furiosas vendo seus restos mortais serem espalhados por Morros Gêmeos.

Quando o terremoto parou, uma neblina espessa e marrom não permitia a visão por mais de alguns metros. Suzana sabia que Rodrigo estava morto. Chorou muito no peito do policial que a acompanhava desde o hospital. Ele, um rapaz alto e forte, procurou consolá-la. Abraçou-a ternamente e ela se aqueceu. Fechou os olhos e dormiu.

****

O hospital estava num frenesi sem precedentes. Na UTI, Milena olhava Douglas se recuperando. Ao lado dela estava Antônio, que deixara o quarto onde estivera internado. Olhou para a nova sócia e disse-lhe, baixinho:

- Você acha que o meu melhor amigo morreu? Será mesmo?

Milena suspirou, arrumando os longos cabelos encaracolados.

- Acho que sim, Toni...Eu sinto tanto...Mas nada podíamos fazer! Ele ficou lá, com a tal Janaína. O Rodrigo nos salvou...Gostaria de tê-lo conhecido melhor... Antônio sobrevivera à surra, e apesar de ganhar um braço e uma perna quebrados, estava bem. Mas lamentou-se...Ele tinha o jovem Maulson como um grande colega.

Glenn Friasi chegou de Roma uma hora depois da explosão, e viu o caos dominando Morros Gêmeos. Estava triste, pois sabia das notícias ruins. Seus amigos se foram. Estava triste também porque Jonas Carvalhosa fugira.

Pelo menos o cyborg no alto posto da Polícia Solar fôra descoberto, aquele que o prejudicara, e em minutos os outros substitutos seriam destruídos...Satélites do governo emitiriam um pulso eletromagnético de alta intensidade, acabando com todos na face da Terra...O pulso serie emitido numa frequência específica que só atingiria os clones computadorizados, poupando outros equipamentos eletrônicos, positrônicos, etc.

****

Liany K'Rosam'vev era marciana e irmã de Atron. Bonita para os padrões marcianos, e talvez até para os terrestres. Olhava seu irmão, que estava deitado numa cama dura, e que não conseguia levantar-se nem falar. Apenas lhe devolvia o olhar....Tudo estava turvo, confuso...Ouviu-a dizer na velha língua lemântica:

- Não desista...Ainda não é hora! Lute Atron!

Atron...Atrodigo...Rodron...Rodrigo!

Despertou. A escuridão e o silêncio eram completos.

- Jan! - Gritou. - Jan, você está viva?

- Não sei - foi a resposta - acho que não!

O rapaz riu, e tentou se mexer. Estava esfolado mas inteiro. Com o pouco de força que lhe restava, tirou as pedras e pedaços de concreto de cima de si e levantou-se. Ouvia Janaína gemer. Ela perguntou-lhe, as voz trêmula:

- Ainda está com as lanternas?

- Estou - ele ativou-as. A câmara se iluminou. Ouviam barulho de água corrente.

O jovem Maulson tirou as pedras de cima da sua amiga loira.

Uma das garotas estava morta, uma viga de concreto caíra sobre sua barriga. Olhava o vazio, com sangue bem vermelho a escorrer-lhe pela boca. Rodrigo tomou-lhe o pulso e lamentou. A universitária que fôra feita refém de Atílio viu o corpo de sua amiga e gritou, e teve de ser controlada por uma acabada Janaína. A outra estudante estava apática. Rod ouviu-a dizer:

- Vamos morrer como Tina e o professor...Eu sei que vamos!

Rodrigo fechou os olhos da morta e então examinou o lugar. Viu a água: entrava por uma fenda na parede oposta. Mandou suas lanternas entrarem por lá e viu uma passagem.

- Esperem aqui. Vou ver se podemos sair através desta fenda. É nossa única esperança.

A universitária apática, que segurava os joelhos e se movia para frente e para trás, disse de modo lúgubre:

- Vá! Vá e morra também...Eu quero morrer!

Janaína veio até ela e lhe deu um tapa com a única mão que lhe restara.

- Cala boca, tonta! Se não parar de falar em morte eu vou te matar!

Rodrigo esgueirou-se através da fenda, pela cachoeira que se formara no concreto. Subiu até uma caverna natural. A água vinha de um riacho subterrâneo...Rodrigo olhou as estalactites e estalagmites de calcário, as pedras lisas, as curiosas formações iluminadas pelas lanternas flutuantes.

- Venham! Vamos sair daqui! Achei uma caverna!

Mesmo sem braço Janaína conduziu as duas universitárias sobreviventes através da fenda.

- Onde...Onde estamos? - Perguntou uma delas.

- Não sei - disse Rodrigo - mas vamos escolher uma direção e seguir. Não temos outra opção...

Beberam da água pura e gelada, lavaram-se e depois caminharam para onde a caverna subia. O lugar era fantástico e fantasmagórico.

Subiram pelas rochas, passando por salões, cachoeiras véu-de-noiva, pedras bizarras. Passaram por túneis estreitos, sempre seguindo as lanternas. Foram horas de caminhada. Conversaram, escalaram, rastejaram...Rodrigo liderava. As duas universitárias estavam exaustas, mas Jan, incrivelmente, não denotava cansaço. Nem Rod. Ele prosseguiu sozinho quando elas pararam. Berrou quando viu luz natural.

****

Amanhecia em Morros Gêmeos. O Sol estava se levantando por trás das nuvens de chuva que iam embora. A poeira baixara. Havia muita confusão na cidade, ambulâncias, corpo de bombeiros, robôs, gravicars e aeros.

O prefeito decretara estado de calamidade pública, enquanto repórteres de toda a UniCiv compareciam em peso.

A entrada de quinze metros de altura da caverna era extremamente magnífica, e Rodrigo, caminhando pelo riacho raso, pelas pedras polidas, além de admirar o lugar, tentava achar um meio de escalar as paredes íngremes que formavam um U em torno da entrada. Estavam num imenso e verdejante buraco.

Ele estava suportando uma das garotas, exaurida, abraçada à ele. A outra, a que fôra refém, estava sendo carregada pela baiana sem braço direito.

- E agora? - Janaína olhava em volta, respirando profundamente o ar do belo amanhecer - Como vamos subir isso aí?

Delicadamente Maulson fez com que a universitária que suportava sentasse numa pedra...Ele arrumou seus cabelos e sorriu para ela, que devolveu o sorriso. Era tão bonita quanto à outra, que estava com Jan. Atílio podia ser doente, mas tinha bom gosto.

- Você vai ficar legal?

- Tudo bem. Só nos tire daqui...Meu herói.

Ele sorriu e olhou para cima, suspirando. Puxou de suas memórias uma das vidas em que fôra alpinista...E, de mãos nuas, escolheu um local e subiu pelas pedras até o topo.

- Ele é tão...Atlético...E corajoso...- Disse a ex-refém.

- Concordo. Estou com ele nos últimos dias e confesso que fiquei impressionada. - Comentou Janaína, pensando consigo mesma que Rodrigo tinha um belo bumbum, olhando-o escalar as rochas. Os últimos seis meses de exercícios fizeram bem ao rapaz.

A loira mordeu o lábio inferior lembrando-se da viagem na Mukabay.

Um campo verde circundava o despenhadeiro. Ao longe se viam ilhas de mata densa, e mais ao longe ainda havia plantações e robôs imensos tratando delas.

Olhou para baixo e gritou para as três mulheres:

- Descansem. Vou procurar ajuda e volto o mais rápido que puder.

Começou a caminhar. O dia esquentava, e o céu era azul. Rodrigo respirou fundo e sentiu-se aliviado. Era como se um grande peso tivesse saído de suas costas...Agora podia se dedicar à sua busca em paz. A busca pelo mistério de sua origem...

****

Douglas abriu os olhos e sorriu para Milena e Antônio.

- Obrigado por tudo, garota. É a menina mais corajosa que já conheci. Você e a Suzana salvaram a minha vida.

Um médico passou por ali e disse que tudo estava bem. Douglas ficaria em observação por um ou dois dias, mas mantinha sua saúde de ferro.

Depois de se despedirem do velho Sameros, Milena Almadori levou Antônio Varello para casa na caminhonete preta, e foi procurar Suzana Luciara.

Encontrou-a na delegacia de polícia, no centro de Morros Gêmeos. Um lugar muito agitado. Suzana conversava com Glenn Friasi e contava tudo o que vira na usina. Mostrava o datapaper que Rodrigo lhe arremessara e gesticulava. Contava sobre a fábrica de cyborgs e como faziam clones. Às vezes apertava forte a mão de um policial alto e forte, loiro como Rodrigo, o oficial Rarisom, o mesmo que encontrara no hospital durante a madrugada, e que a acompanhava desde então.

- Milena! - Soltou a mão do rapaz. Abraçou a nova amiga.

Trocavam informações. Apesar de feliz ouvindo as notícias sobre Douglas, Suzana choramingou o destino de Rodrigo e Janaína. Glenn, coçando a careca negra, olhava as duas amigas, que falavam sem parar.

A Polícia Solar agora investigava todos os planetas sob sua jurisdição. Links externos foram acionados, e havia investigações por toda a UniCiv. A UniNet, a Humanet e a Solarnet nunca tiveram tanto tráfego, através de sinais binários viajando pelo ante-espaço.

- Cada planeta humano está com sua investigação aberta. Veremos até onde Jonas Carvalhosa chegou. Aliás, ele está sendo procurado por cada canto dessa nossa parte da galáxia...- Disse um frio Glenn Friasi, nomeado Diretor de Investigações da P.S., no lugar de um daqueles cyborgs. Feliz pelo novo cargo, sentia pela perda dos amigos, afinal, foram os responsáveis por tirá-lo do marasmo em que vivia.

- Quando começará o resgate dos corpos, prefeito? - Perguntou Suzana ao reconhecer o político. O homem pigarreou:

- Já começaram. O governador mandou máquinas para remoção do entulho, e estão escavando, com cuidado, o local da usina. Mas ela é profunda, e estão indo devagar, vai levar semanas...

Suzana estava quase chorando de novo. Lembrou-se dos momentos bons que tivera com o jovem Maulson...Milena também pensava nele, a imagem de seu rosto fixa em sua memória. Pensava no que ele fizera para salvá-los...

Um VDcom apareceu flutuando: era o Chefe de Operações chamando. Glenn e o coronel Tirdo estavam no comando. Tirdo atendeu. Momentos depois virou o monitor para o pessoal que trocava lamentos naquela sala.

- Bem, povo, tenho uma surpresa para vocês.

A tela plana mostrava um sorridente e cansado Rodrigo Pereira Maulson.

- Meu Deus! - Esta foi a exclamação mais comum. Uma pontada de desapontamento surgiu no rosto de Rarisom. Suzana lançou lágrimas. Milena sorriu, ajeitando os longos cabelos encaracolados. Glenn deu uma gargalhada.

- Como está o Doug? - Foi a primeira pergunta que Rodrigo fêz.

Suzana adiantou-se:

- Está ótimo! E você? Como você está? Está ferido?

- Levando-se em conta o que eu passei...

Glenn aproximou-se:

- E a Janaína?

- A Jan está ferida, mas viva. Tragam socorro imediatamente, estou na fazenda Barra Alta, na Estrada das Pamonhas, 32. Venham depressa! Ah, e estou com duas sobreviventes...Duas universitárias que Atílio poupou.

Em pouco mais de cinco minutos estavam pousando lá.


Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo XII.

A dona entropia fizera o seu trabalho na Fazenda Sameros. Além de um corpo em decomposição perto do estábulo, tinha comida azeda no fogão, animais morrendo de fome e mato começando a crescer. A chuva adicionara água ao rio, que subiu e estragou o galinheiro.

Gertrude ciscava dentro da casa principal. A vaca Dorotéia entrara na garagem e fizera cocô no banco da aeromoto que Rod estava reformando. E Rino...Bem, Rino saíra do estábulo pelo buraco que ele mesmo fizera ao dar o coice naquele agente do Jonas. E voltara pela porta principal. Destruiu o ginásio improvisado que Rodrigo construíra. Ele sempre detestou aquilo.

O jovem Maulson chegara do hospital, um dia após tudo acontecer. Estacionou a caminhonete preta e flutuante, praguejou ao ver a bagunça em que estava a fazenda...E foi à luta. Não foi fácil por tudo em ordem novamente.

Só tarde da noite pôde tomar uma turboducha e, depois de um rápido lanche, dormiu. Sonhou com o agitado dia anterior. Após serem salvos, passara o dia com a polícia. Depois, à noite, visitara Douglas, as estudantes resgatadas, e Janaína. Visitara também Antônio em sua casa. Acabara a noite bebendo e comemorando com Glenn Friasi, Suzana Luciara, Jorge Rarisom e Milena Almadori.

Dormiu no hospital como acompanhante de Douglas e Jan.

Agora dormia de novo, na fazenda, em seu quarto. Sonhou com o que a baiana loira lhe dissera:

- Não quero um braço clonado. Sei que ficaria como se nunca o tivesse perdido. Mas, logo serei uma policial completa, uma detetive. Então quero aproveitar a oportunidade e colocar um braço biônico. Que ironia...Uma espécie de cyborg...

- Você não terá a mesma sensibilidade! - Rodrigo respondeu.

- Mas terei muita força...

Acordou no meio da madrugada com a campainha, que insistia em bater no seu ombro. Ele forçou a vista para olhar no monitor fino como papel. Era Milena.

- Desculpe tê-lo acordado...Posso entrar?

Rodrigo a recebeu. Ela estava com uma provocante mini-saia. Ele notou.

- Queria lhe agradecer mais uma vez pelo que fez lá na usina.

- Ah, tudo bem. Ontem você foi enfática nisso.

- Não entendo como a Suzana, depois de tudo o que você fez para encontrá-la e salvá-la, pôde ser tão indiferente contigo no bar...Foi constrangedor vê-la entre você e o Rarisom...E ela parecia dar mais atenção à ele do que a você...

Rodrigo deu de ombros. Agora só pensava em Janaína. Mas não disse isso à modelo. Ao invés, comentou:

- E seu namoro com o Toni?

- Bem, ele está se recuperando da surra...Gosto dele, mas...

- Mas?

- Queria agradecer-lhe de verdade, Rod.

Milena delicadamente abaixou as alças em seus ombros, da mini-saia, mostrando muito de seu corpo maravilhoso para o jovem Maulson, embasbacado.

A campainha era útil. Ficava quieta na cozinha até que alguém se aproximasse do portão. Então vinha voando até a pessoa mais próxima dentro da casa, e permitia tanto ao visitante quanto ao visitado verem-se mutuamente, a menos que se desligasse a função de exibir imagem.

Mas a função estava ligada.

E a campainha veio até Rod pela segunda vez naquela noite.

- Suzana!

Ela podia ver, no monitor do portão, Milena nua da cintura para cima e Rodrigo, desajeitadamente tentando desligar a campainha.

A estudante entrou. Na sala, olhou para um e para outro, deu um tapa no rosto de Rodrigo e outro em Milena, já vestida. O rapaz, surpreso, disse:

- O que você veio fazer aqui a uma hora destas?

- Eu vinha lhe dizer que...Que queria terminar nosso namoro. Estou sócia do Rarisom. Mas agora...- olhou para Milena, voltou-se para Rod. - Agora eu digo que realmente está tudo acabado entre nós! - E olhou de novo para a modelo.

- Sua traidora! - Apontou. E saiu.

****

Duas semanas depois e Douglas trabalhava febrilmente em sua adorada fazenda. Janaína tivera alta na noite anterior, e estava hospedada lá com seu novo braço artificial. A olho nu ou ao toque era impossível notar qualquer diferença em relação à um braço verdadeiro. Até as unhas cresciam.

A baiana ficaria lá até a investigação sobre os Carvalhosa acabar na cidade.

Continuaria no caso, assumindo o cargo de detetive da Polícia do Brasil, em Brasília, onde já estava morando desde que se formara na academia.

Ela olhava Rodrigo trabalhando em sua aeromoto.

- Pensei que você estava fazendo o projeto daquele...Como é mesmo?

- Biocomputador. E estou. Enquanto mexo nessas peças, minha mente está projetando aquela máquina...Uma máquina viva.

- Argh! Para quê? Se você quiser fazer uma nova vida, basta...

- É uma longa história, Jan. E você não acreditaria nela, se lhe contasse.

Ela ajoelhou-se ao lado dele. Virou seu rosto para o dela.

- Conte-me. Depois de tudo que passamos juntos, eu acredito em qualquer coisa...

Ele suspirou. Olhou para baixo, depois novamente para a bela loira.

- Não. Tenho alguns segredos que apenas revelarei na hora certa. E ela ainda não chegou. Desculpe-me.

Rodrigo começou a divagar. Em quinze mil anos contara a pouquíssimas pessoas o que era realmente. Pouca gente soube que sua Alma Imortal começou em um marciano, mais precisamente, um lemântico. Poucos souberam que podia trocar de corpo, e modelar este corpo para melhor. Suas memórias, memórias de muitas vidas, ficava armazenada não no cérebro do corpo que possuía, mas em fendas na estrutura do próprio Universo. Ele era quase imortal. Podia morrer, sua Alma podia se perder, ir para...Para onde?

Mas alguém muito poderoso lhe dera aquele poder. Ele não sabia direito quem. Pouco sabia de sua origem...Do paradeiro de sua irmã, Liany. Só tinha memórias de sua segunda "vida" em diante...O que ele era realmente? O que acontecera em Leman, afinal?

Quem é, ou era, Zonos...Ou Martogh? E as estrelas verdes? Havia apenas rasgos de informação...Afinal, quem fora Atron K-Rosam'vev?

Se construísse um biocomputador poderoso, como os antigos que existiram em Marte, se então pudesse ler aqueles rolos de cristal danificados, e se neles contivesse algo sobre Tarínia, a estrela verde onde recebera o seu dom especial...

Eram ses demais!

- Rodrigo, Rodrigo! Acorda! - Janaína o sacudia. Ele olhou para ela:

- Estava pensando numas coisas...Desculpe...

- Você está bem, Rod? Parece tão preocupado. É com o Jonas, que fugiu?

- Não, não é. Deixa para lá.

Ela levantou-se. Ele pediu uma ferramenta, ela lhe passou.

Após um longo silêncio, Rodrigo jogou o alicate no chão:

- Pô, Jan! Você vai mesmo para Brasília?

- Ei, amigo, eu tenho de ir. É a minha carreira, ok? Esta cidade não serve para mim...E você não quer sair daqui...

- Eu herdei uma grande companhia, você sabe, a sede é em Belo Horizonte. Gosto de morar nesta fazenda, e quero terminar meus estudos...Além do mais, você não teria tempo para mim.

- É, um relacionamento entre nós não daria certo...Temos muitas diferenças, apesar de que foi ótimo estar contigo nestes últimos dias. Ora, eu sou bem mais velha que você, colega, temos outras...Prioridades...

Se ela soubesse minha idade real, não diria isso...

Rodrigo sacudiu a cabeça.

- Vou sentir saudades de você.

- Eu também...E nunca me esquecerei daquela transa na Mukabay.

- Nem eu. - ele olhou para ela. - Nem eu!

****

Foi com pesar que, dois meses depois da explosão do reator, acharam a câmara onde ficavam os cadáveres das pessoas substituídas. Estavam lá policiais, políticos e pessoas importantes, além das inocentes jovens raptadas da faculdade. No Distrito do Brasil houve luto de três dias. Em tôda a Terra, homenagens aos mortos. Jonas Carvalhosa agora era o inimigo público número um da UniCiv. Havia muitos anos que um crime naquelas proporções não acontecia.

Morros Gêmeos estava calma. O susto havia passado e quase tudo voltara à normalidade. No antigo cemitério, Glenn Friasi acompanhava o resgate de provas e informações sobre as atividades ilícitas dos Carvalhosa, quando Rodrigo pousou a aeromoto vermelha ao seu lado. Abriu a viseira do capacete, também vermelho:

- Bom dia, Glenn. Vejo que já está de pernas novas!

- Sim, foram geradas e reimplantadas mês passado. Ei, a aeromoto ficou pronta?

- Terminei-a ontem. Voa como um pássaro.

- É bem antiga, mas você fez um ótimo trabalho. E a Janaína?

- Vai embora daqui à pouco, é por isso que estou aqui: vim pegá-lo.

O velho homem negro deu algumas ordens à seus comandados e depois subiu na garupa. Rodrigo decolou, numa curva ascendente vertiginosa. A cidade de Morros Gêmeos ficou abaixo deles. A aeromoto descreveu um longo arco e dirigiu-se até o terminal aéreo.

Pousou ao lado de uma fila de pessoas que embarcavam numa pequena nave roliça e com pequenas asas. Janaína aproximou-se, a sacola de mão a seguí-la, flutuando no ar.

- O aero para Brasília já vai sair. Pensei que não vinham. Suzana, Douglas, Milena e Antônio estão lá no saguão...E eu já me despedi deles...

- Desculpe-me, Jan - disse Rod, tirando seu capacete - estava acabando de fazer a transferência de curso na UMG.

A baiana sacudiu a cabeça:

- Vai trocar de novo?

O rapaz deu de ombros:

- Bem, sou o dono da Maulson Interplanets, porisso achei que estudar administração seria melhor. Não se preocupe, não mudarei mais!

Eles se abraçaram. Então a loira olhou para Glenn:

- Agora o senhor é meu superior. Não imagina como estou feliz...

- Nada de senhor fora do serviço, Jan. Chame-me de Glenn. E eu estou feliz também, por saber que você foi efetivada na P.B. Felicidades e boa sorte.

Abraçaram-se. Ela voltou-se para Rodrigo:

- Vê se vai me visitar, Rod. Apenas dez minutos de vôo nesta coisa.

Apontou para o aero. O rapaz loiro sorriu e depois suspirou:

- Eu irei. E você, venha nos visitar também...Quem sabe podemos arrumar algumas encrencas com bandidos por aqui.

Eles riram e se abraçaram novamente. Beijaram-se longamente, um beijo molhado de língua. Um pigarro do piloto da nave fez Janaína se desgrudar de Rodrigo.

- Tchau, amigo.

Ela embarcou. O aero subiu silenciosamente e seguiu em direção à Brasília, através do céu azul de poucas nuvens.

****

Ajudando com os pratos e talheres após o jantar farto, que se encerrava na Fazenda Sameros, Douglas conversava com Milena:

- Você é muito prestimosa, Mi. É incrível sua semelhança com a Dorinha.

- Sente falta dela?

O velho mineiro suspirou:

- Claro. Mas tudo bem...Temos que nos conformar, não é mesmo?

- O senhor matou o assassino dela...

- E daí? Isso não a trará de volta. Agora, o que eu queria saber é onde foi parar o desgraçado do marido dela com meus netos. Ele sumiu! Ele nunca foi coisa boa mesmo...Maldito!

- A Janaína disse que ia procurá-los, antes de ir embora, portanto não se preocupe. O pouco que conheço dela é suficiente para me dizer que ela tem muita competência, e vai acabar encontrando seus netinhos.

Douglas enxugou as mãos e encarou a mulata, ex-modelo profissional:

- Você é mais bonita e mais simpática que a Suzana. É bom que esteja sociando com o Rodrigo...Sabe, ele é como um filho para mim...

Ela sorriu. Rod entrou na cozinha antiga de azulejos azuis:

- Sim, é bom estarmos namorando. Só que eu e o Antônio não paramos de brigar. Ele não se conforma...

- Eu sei, a culpa é toda minha - disse Milena - e eu cheguei a estar apaixonada por ele. Mas ver você ali, naquele pátio subterrâneo, enfrentando meia dúzia de robôs de combate, com muita coragem...

- ...E muita loucura...

- Bom, você nos salvou, Rod. E, apesar de detestar dar entrevista para tudo que é tipo de repórter, você é um herói nacional.

Douglas riu-se:

- Que mudança! Quando eu conheci você, há muitos anos, era tão arrogante, que era insuportável. Viu, Mi, escute o que eu digo, ele era feio, raquítico, tímido, chato...!

- Ei! Calma aí, Doug!

Milena enxugou as mão como os antigos: num pano.

- Agora é milionário, forte, bonito, corajoso...

- Parem vocês dois!

Douglas ria, mas então bateu nas costas de Rod e disse:

- Mantenha a humildade, é tudo que eu peço. Bom, meninos e meninas, vou dormir. Boa noite para ambos! E Rodrigo, uma coisa eu lhe digo, você mudou mesmo nestes últimos meses!

Na verdade eu nunca mudei, amigo.

Milena olhou para seu novo sócio com um jeito bem malicioso. Esperaram Douglas começar a roncar e foram para o quarto de Rodrigo.

Beijavam-se na cama, com apenas a luz do luar entrando pela grande janela, ouvindo um sounder tocando algo romântico...Milena mordeu a orelha do rapaz, mas então viu uma estranha caixa de metal plástico verde num canto.

- Rod, pare, pare um pouco...

- O que foi?

- Aquela caixa ali...O que é?

- Milena, que hora para perguntar sobre...

- Mas o que é?

- Um ovo.

- Um o quê?

- Um ovo de computador. Depois eu explico...- Rodrigo a deitou na cama e fez-lhe cócegas nas costelas. Ela riu e pedia para parar, ambos brincando. Fizeram uma guerra de travesseiros. Caíra da cama ao lado da caixa, abraçados. Milena tocou-a.

- É quente! Parece...Viva!

- Está incubando meu biocomputador.

Milena soltou-se de Rodrigo e sentou-se na cama, abraçando-se a si mesma.

- É...Tétrica! Me dá medo!

- Não tem perigo nenhum...- Rod beijava o pescoço da garota.

- Não mesmo?

- Claro que não, Mi.

Beijaram-se. Rodrigo tirou a blusa térmica de Milena. Bem lá no fundo de sua mente, pensava em Janaína.

Acariciavam-se. Sentiram um arrepio ao ouvir uma risada de criança.

Rodrigo pulou da cama e abriu a janela, Milena atrás dele.

Uma menininha corria rindo em direção aos fundos da mansão que fôra de Rodrigo.

Milena e o jovem Maulson também riram. Ele disse:

- É só a filha daquele casal que comprou a mansão de mim...

A menina tropeçou e levou um tombo feio, rolando o pequeno barranco que dava para a piscina. Horrorizados, os dois viram a menina bater forte a cabeça numa das mesinhas com guarda-sol.

Mi e Rod pularam a janela e correram na noite enluarada até a criança.

Arfando, aproximaram-se. Ela estava caída de bruço nas pedras da beira da piscina, imóvel. O rosto estava virado para o lado que não podiam ver.

- Será que ela...Ela morreu? - Perguntou Milena. - Foi um tombo tão feio...

Devagar, chegaram perto. Rodrigo, muito preocupado, a virou.

Um choque de adrenalina percorreu os corpos de Rodrigo e Milena.

Da cabeça da pequena saíam fios e circuitos positrônicos...E um de seus olhos, amarelo vivo, era uma pequena câmera.

A câmera focalizou o casal.

Dentes enormes surgiram da boca da andróide.

Por: Vitor H.B. Ribeiro
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