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Livro dividido por capítulos. Leia a introdução e aguarde a página carregar.
O Universo de Atron K-Rosam'vev foi criado por
Vitor H.B. Ribeiro. Inspirado nos mais diversos segmentos
da Ficção Científica ele criou um herói épico de proporções Galáticas. Atron, um ser imortal, que usa
a fortuna adquirida por Rodrigo Maulson, seu último corpo, sua inteligência e coragem, para alcançar
seu objetivo maior, encontrar sua verdadeira origem e o propósito de sua existência. Uni-se a esta trama,
personagens cativantes e por vezes cômicos que ajudarão o herói na resolução de inúmeras intrigas, desencadeadas
principalmente por seu mais ardiloso inimigo Jonas Carvalhosa. Nas aventuras de Atron podemos
saborear um pouco de tudo, ação com pitadas de violência, amor com pitadas de sexo e amizade com pitadas de
traição.
No Livro I - Viver Outra Vez, você caro leitor poderá delinear o perfil
do personagem principal e deleitar-se com inúmeros personagens caricaturados ou não, que o cercam. Descobre
como Atron usa seus poderes e como ele aproveita-se das situações mais inusitadas para alcançar seus
objetivos. Também conhece sua namorada Janaina e toda a gama de vilões, que podem estar em qualquer
parte da Galáxia e até mesmo no círculo mais próximo do nosso herói. Nesta primeira aventura Atron
deixa o corpo de um Almirante falido chamado Guilherme Kirer e assume o corpo de Rodrigo Pereira Maulson.
No Livro II - A Busca, Atron com sua namorada Janaina e sua
recém encontrada irmã Liany, embrenham-se em uma aventura há anos luz da Terra para solucionar um dos
mistérios que envolvem a civilização que deu origem a Atron, todos seguem em busca de Martogh o
Filho dos Deuses. Não faltará ação, emoção e toques de sensualidade.
No Livro III - Novos Caminhos, Vitor H.B. Ribeiro,
em conjunto com a também escritora Sílvia S. Costa e a revisora
e escritora Viviane N. Martins, dá continuidade a saga de Atron.
Os conflitos intensificam-se. Nesta empreitada junta-se a ele sua irmã Liany, também imortal,
a poderosa Orana Sylvia, a Capitã da UniCiv Adriana O'Riorke e seus antigos companheiros de
aventura, todos a espera de uma ameaça desencadeada pela perigosa Ordem Zinédica enquanto eles buscam
por Zonos. Será que ele terá as respostas para Atron? Fora isso Atron precisa livrar-se
das normas e dos policiais da UniCiv - União das Civilizações.
No Livro IV - A Vitória do Inimigo, Vitor H.B. Ribeiro,
em conjunto com a também escritora Sílvia S. Costa e a revisora
e escritora Viviane N. Martins criam novos obstáculos para Atron.
Atron e Sylvia, mais Liany, estavam preparados para localizar Kerian a base de
Valéria e tentar chegar até Tirênia e destruir Zonos. Se falhassem, uma orana rebelde e o demônio
encarnado iriam devastar nossa Galáxia e talvez outras, escravizando populações inteiras, destruindo planetas,
torturando inocentes e tomando conta de cada faceta da vida de cada ser vivo nesta região do Universo...
Seria o fim do mundo como o conhecemos... Estamos adentrando o ano-padrão de 2.770 da União das Civilizações,
entidade politico-administrativa englobando milhares de planetas em 3.000 anos-luz cúbicos da Divisão Um da
Galáxia da Via-Láctea, com sede em Zeta Hérculis e tendo como tripé governamental a Terra, Daryani
e Thor, e como eminência parda, Oranus. Como semi-aliados os xyraxianos, e como ferrenhos inimigos os
rominatenos. Sendo ameaçados de vez pela superior raça dos quibariis... Assim começa
A Vitória do Inimigo!
O Futuro deste projeto é um mistério, contudo aqueles que tiverem
oportunidade de ler as aventuras de Atron K-Rosam'vev poderão desfrutar de horas de diversão, em um
mundo fantástico com criaturas bizarras, mulheres fortes e homens poderosos. Para aqueles que buscam aventura,
encontrarão neste Universo um cativante personagem em um mundo cheio de possibilidades.
Vitor H.B. Ribeiro é Analista de Sistemas, tem 38 anos e
mora em Sorocaba. Seus hobbies são: ler, escrever e ferreomodelismo. Adora ler Isaac Asimov, Arthur C. Clarke
e outros mestres da FC. O dom de escrever, ou pelo menos o gosto, herdou de seu pai, o seu maior incentivador,
que tem vinte e seis livros publicados de não-ficção. Seu nome é João Ribeiro Jr. Adora criar, desde software
até maquetes de cidades, e, claro, estórias como simples diversão.
Leia outras obras do autor no Scriptonauta
Sílvia S. Costa é Bióloga tem 32 anos e mora atualmente em
São José dos Campos. Escreve desde dos 12 anos e também é autora de vários fanfcitions inspiradas no
universo de Jornada nas Estrelas e co-criadora do Universo da USS Atlantis. Também
escreveu outras obras de Ficção Fantástica inspiradas no universo ficcional de Marion Zimmer Bradley.
Leia outras obras da autora no Scriptonauta.
Um pouco mais de Atron K-Rosam'vev...
Em 2.763, Ano Padrão Solar, Atron K-Rosam'vev mudou
novamente de corpo. De Guilherme Kirer passou a ser Rodrigo Pereira Maulson. Isso aconteceu
em Morros Gêmeos, Subdistrito de Minas Gerais, Distrito do Brasil, Terra, Livro I - Viver Outra Vez.
O ser que nasceu em Marte, a cerca de quinze mil anos atrás, tinha
este estranho poder. Fôra-lhe concedido por Martogh, Filho dos Deuses e desde então Atron
tem pulado de corpo em corpo. Juntamente com sua irmã Liany, deveriam guardar a Chave da Prisão de
Zonos, o Imperador Negativo. Porém, Atron/Rodrigo não mais podia lembrar-se, com detalhes, de
sua primeira vida, da tal chave ou de quem foram Martogh ou Zonos. Tudo que sabia é que deveria
procurar uma lendária estrela verde de nome Tarínia. Além disso, lembrava-se que fôra um dos reis de um
imenso império que era governado por Marte, o Império Lemântico. E Marte, naquela época, era chamado de
Leman, que significava A Fonte de Todo Poder. Tinha armazenado as memórias de todas as suas
outras vidas, a partir de seu segundo corpo. Ficavam numa fenda entre o Universo e o
Ante-Universo.
Desde sua segunda vida, como Kim Kay-War, no distante
planeta de Tarrent, Rodrigo procurava a razão de poder pular de corpo, o motivo de seu império
ter sido arrasado, quem eram aqueles com quem conviveu quando era Atron e também a localização de
Liany, sua irmã gêmea, se é que ela ainda tinha sua alma neste Universo. Agora, depois de quinze mil
anos, ele possuía o capital e a tecnologia para partir em sua busca...
Prólogo.
Em 2.763, Ano Padrão Solar, Atron K-Rosam'vev mudou
novamente de corpo. De Guilherme Kirer um Almirante falido ele passou a ser Rodrigo Pereira Maulson, um tímido
e franzino estudande de física quantica e herdeiro de uma grande fortuna, que tem toda a sua vida transformada
depois de receber a alma de Atron. Isso aconteceu em Morros Gêmeos, Subdistrito de Minas Gerais, Distrito do Brasil.
O ser que nasceu em Marte, a cerca de quinze mil anos atrás, tinha
este estranho poder. Fôra-lhe concedido por Martogh, Filho dos Deuses, e desde então Atron tem pulado
de corpo em corpo. Ele, deveria guardar a Chave da Prisão de Zonos, o Imperador Negativo. Porém,
Atron/Rodrigo não mais podia lembrar-se, com detalhes, de sua primeira vida, da tal chave ou de quem foram Martogh ou Zonos.
Tudo que sabia é que deveria procurar uma lendária estrela verde de nome Tarínia. Além disso, lembrava-se que
fôra um dos reis de um imenso império que era governado por Marte, o Império Lemântico. E Marte, naquela época,
era chamado de Leman, que significava A Fonte de Todo Poder.
Tinha armazenado as memórias de todas as suas outras vidas,
a partir de seu segundo corpo. Todas ficavam numa fenda entre o Universo e o Ante-Universo.
Na metade dos anos 2.700, a União das Civilizações, UniCiv, onde
Rodrigo morava, era uma sinarquia. Englobava a Terra com os humanos, Thor com os thorianos e Daryani com os
darys, além de centenas de outras civilizações e raças. Tendo sua origem na região do espaço de nome Cubo
Alfa, expandiu-se rapidamente pelos Cubos Beta, Gamma, Exterior e partes dos Cubos Delta e Zeta. Mas
encontrou inimigos poderosos, como os rominatenos e os quibariis. E tinha alguns aliados briguentos, como os
ylsios e os xyraxianos. Leia a primeiro livro e entre neste Universo...
Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo I.
A chuva caía de forma consistente sem parar a horas, na noite fria, enquanto um rapaz franzino, ferido e de roupas rasgadas, caminhava cambaleante pelo cemitério. Estava encharcado e infeliz, desnorteado, e sua mente só se concentrava num assunto: matar-se.
Havia em seu coração um único sentimento, a tristeza. Seu mundo particular estava reduzido à cinzas. Sua vontade de viver se fôra para sempre.
As lápides dispostas de forma irregular o aturdiam: pareciam dizer-lhe para juntar-se à elas. Tombou na lama, machucando o braço, e tentou enxugar o rosto que misturava chuva e lágrimas.
Havia apanhado bastante, mais do que as últimas vezes. Sentia-se desamparado demais para raciocinar direito. Caiu novamente numa poça de água e recostou-se num túmulo, tentando esquecer a última hora, onde fora humilhado e espancado pelos amigos da faculdade, aqueles invejosos que não suportavam o pequeno mas brilhante gênio. E ele era mesmo um gênio, Q.I. altíssimo, expert em eletrônica, computação, astronomia, física, biologia, química e matemática. Tornara-se no entanto anti-social e chato, arrogante. E quando seus sentimentos humanos o guiaram à festa da república dos Malucos Safados, pensara em se enturmar, fazer alguns amigos, pois não tinha nenhum, porém só conseguira antipatia, humilhação e por fim, uma briga.
Agora estava ali, naquele cemitério, tarde da noite, desamparado e só. Ouvia a voz de seu pai dizendo: eu avisei: você não precisa daqueles inferiores. Esqueça-os.... Ou sua mãe, que não lhe dava muita atenção: querido, você está tão feinho, tão mau vestido...Seu pai não lhe dá dinheiro para comprar roupas melhores?.
Dinheiro nunca fôra problema para a família dele, mas seus pais...Totalmente omissos...E ele, frágil fisicamente, frágil de saúde, apenas com um cérebro privilegiado.
Chorava copiosamente. Dezenove anos e nunca tivera uma namorada...Uma amiga mais próxima sequer. Não era gay, alias, nem amigos gays tinha. Sentia-se completamente inútil. Sentia-se acabado. Queria por fim a tudo. Queria se matar.
Entrou num mausoléu abandonado e coberto de mato, para se abrigar da tempestade e tentar pensar num meio de acabar com sua vida. Sentou-se no chão frio de mármore. Estava escuro, mas tudo aquilo não lhe dava medo: afinal, o que importava? Seria melhor que viesse um fantasma e o levasse embora...
Algo se moveu a sua frente e ele rapidamente mudou de idéia: um fantasma? Estava arrepiado até o fundo da alma. Havia alguém ali.
- Ei, garoto, o que você está fazendo tarde da noite neste cemitério? - soou uma voz rouca e trêmula - Com uma chuva dessas...Está perdido?
Era a voz de um velho que a escuridão não deixava ver, logo à frente dele. Engoliu seco e respondeu inseguro:
- Estou...Perdido...
- Ah! Bom, me parece que está ferido também...E suas roupas estão rasgadas. Você foi assaltado ou algo assim?
A última coisa que Rodrigo queria era falar com alguém, ainda mais com um mendigo bêbado em um cemitério. Com esforço levantou-se e saiu, tentando correr. A perna falseou e ele caiu de cara numa poça de lama. Levantou-se, com ódio, e novamente tentou correr, caindo mais uma vez ao tropeçar numa lápide.
O velho ergueu-se com muita dificuldade. Curvado sob o peso da própria corcunda, olhou curioso de dentro do mausoléu o jovem que chorava naquela noite pouco hospitaleira. Rodrigo estava enlouquecido. Não suportava mais tanta humilhação. Lembrava-se de coisas antigas, da rejeição na escola primária, das surras, dos foras com as garotas...E então achou o que queria...
O velho estreitou os olhos embaçados pela idade para enxergar melhor aquele garoto maluco. Ele começou a rir freneticamente e gritou:
- Liberdade! Quero liberdade deste corpo horroroso e fraco!
E para a surpresa do mendigo, que não estava nem um pouco bêbado, o rapaz deu um salto e sumiu de sua vista.
O ancião entrou na chuva fria, forçando as pernas cansadas em direção ao precipício onde Rodrigo pulara, obviamente para o rio que ali passava. Que maluco! Que completo maluco!, pensava ele enquanto tentava correr. Acho que quer se matar.
O rio estava cheio, e mau se podiam ver as águas marrons que seguiam em velocidade. O velhote tentou achar Rodrigo, mas era quase impossível.
- Garoto, você está aí? - Gritou.
Se caiu na água, já deve estar se afogando - pensou. Se fosse vinte anos mais moço...Então viu algo mexer-se na escuridão: era o rapaz se debatendo na água, segurando num galho, quase sendo levado pela correnteza.
Rodrigo estava arrependido: não tinha coragem de morrer. Ao pular quase se afogara e por extinto agarrara-se ao galho...Mas a força da água o estava levando, e ele sabia que seria seu fim se soltasse. Viu o mendigo descendo com esforço o barranco, tentando chegar até ele. Vai morrer junto comigo, o idiota - pensou.
O velho conseguiu escorregar na lama até a margem e esticou o braço:
- Pegue aqui, seu maluco, pegue a minha mão!
- Não posso...Se eu soltar uma mão, não conseguirei segurar o galho!
- Tente! Pegue aqui e eu o puxarei!
Rodrigo estava em pânico. Berrou, as águas da chuva e do rio o castigavam:
- Não! Seu velhote bêbado, se eu pegar sua mão, vamos os dois juntos rio abaixo!
- Pega, seu merdinha!
Um barulho terrível de árvores e lama acompanhou um trovão e ambos viram uma enxurrada descer na direção deles. Não havia tempo. O ancião tentou com todas as forças agarrar a mão do rapaz, conseguindo no momento que a enxurrada os atingiu.
Sendo arrastados pela margem, cobertos de lama, parecia não haver modo de se salvarem. O velho enterrou as unhas na terra e num esforço sobre-humano levantou-se da enorme quantidade de barro e galhos que o assolava, ainda puxando a mão do rapaz.
A chuva continuava a cair forte, e aquele cemitério às margens do rio era iluminado vez ou outra por clarões de raios e relâmpagos. Trovões completavam o quadro, e não havia ninguém para acudir o velho.
Ele usava suas últimas energias para sair do rio, puxando Rodrigo, tentando se livrar das águas barrentas. Mas era muito velho, a dor da artrite comendo as juntas, o coração cansado batendo sem ritmo. Sentia que ia morrer, e o moleque suicida iria junto com ele.
O nome do velho era Guilherme Kirer. Um homem com um segredo. Um segredo que o fazia especial, diferente. Ali, naquela momento, achava que ia morrer, esperava, ansiava por isso já a algum tempo. Não era suicida como o rapaz que tentava salvar, mas já vivera tanto, tivera tantos momentos felizes e tantos outros tristes, que acabar ali, não seria ruim. Mas prezava a vida, a vida de inocentes, como aquele garoto parecia ser, então precisava ao menos salvá-lo.
Guilherme, esforçando-se para subir pelo barranco lamacento, lutando contra a enxurrada, olhou para trás: Segurava a mão e via o braço de Rodrigo seguir sob as águas marrons. Ele está se afogando! Não tenho forças para puxá-lo...Se largar, poderei sair daqui...
Mas Guilherme não largaria a mão daquele rapaz. O velho tirou forças de onde não existiam e puxou...Puxou...A água tentando levá-los...Puxou e se arrastou barranco acima, pela lama, quase sem conseguir respirar. Seu braço doía e formigava, a mão de Rodrigo estava gélida na sua...
Demorou uma eternidade, mas o velho conseguiu arrastar-se para a segurança puxando o garoto, que estava roxo. "Afogou-se!" - pensou Guilherme, tentando lembrar-se das técnicas de ressuscitação. Aplicou-lhe respiração boca-a-boca, mas era tarde demais. Rodrigo estava morto. Afogado.
Guilherme também estava ruim. Começou a tossir muito, e a tremer violentamente. Seu corpo atual já passara dos cento e dez anos e deixara de medicar-se há muito tempo, portanto sem poder usufruir de nenhuma droga rejuvenecedora.
Iria morrer provavelmente naquela noite, mas havia seu segredo, que compartilhara com poucos ao longo de sua vida, sua vida real. Então a dúvida que assolava sua mente era: iria seguir adiante ou deixar-se ir...
O ser que habitava o corpo de Guilherme não era o verdadeiro Guilherme, o que nasceu naquele corpo. Quem nascera naquele corpo morrera num acidente com uns quatorze e poucos anos. Agora a casca humana servia de moradia para outro ser. Um ser que em sua origem chamava-se Atron K-Rosam'vev, e que possuía a estranha habilidade de mudar de corpo, mantendo sua alma e sua memória fabulosa intactas.
Caiu ao lado do jovem rapaz, a observá-lo...Seu segredo, seu tão precioso segredo, seria a única solução...E Rodrigo estava morto mesmo. Mas será que valeria a pena recomeçar pela enésima vez? Tinha pouco tempo para decidir.
Sentiu-se morrendo, estava partindo. Resolveu pela vida.
A velha memória quase o traiu, mas lembrou-se das palavras, dos gestos e do ritual. O Ritual da Transferência começou. Como já acontecera tantas e tantas vezes, sentiu sua alma flutuar lentamente para fora do corpo de Guilherme, que deu um último suspiro. Percebeu forças que vinham de algum lugar tentando levá-lo para...Para onde? Um dia descobriria, mas queria voltar ao mundo dos homens. Ele podia ver o corpo morto de Rodrigo. Entrou nele. Sentia uma dor que não era uma dor, uma aflição que vinha de lugar nenhum. Um milagre que sempre acontecia operou-se no jovem rapaz. Sempre que Atron trocava de corpo, o corpo receptor se recuperava de qualquer ferimento ou doença que tivesse; mas isso só ocorria no momento da recepção da alma de Atron. Depois tudo seguia seu curso normal.
Atron/Rodrigo agora eram uma nova pessoa que adoeceria, se fereria e envelheceria normalmente e morreria, se Atron não pulasse novamente para outro corpo.
Ele abriu os olhos, olhando para a chuva, e respirou fundo. Sentir-se jovem e saudável era muito bom. Levantou-se lentamente e observou o seu antigo corpo, e sorriu:
- Você foi um bom companheiro. Mas agora é hora de recomeçar, velho amigo.
O rapaz franzino não tinha forças para carregar o velho Guilherme, então teve de puxá-lo pelos braços, através da lama e das lápides, até o mausoléu abandonado que lhe servira de moradia nos últimos meses.
Aos poucos a memória da vida de Rodrigo começou a permear a mente de Atron, e este não gostou muito daquelas lembranças; eram lembranças ruins.
Mas agora pertenciam a ele, pois era Rodrigo Pereira Maulson, brasileiro, dezenove anos, um pequeno gênio, virgem e muito rico. Atron suspirou: uma nova novela começava para ele, com variáveis um tanto intrigantes.
De qualquer forma iria aproveitar mais essa chance. Depois de milênios, não se cansara de viver. Mas decidiu que iria intensificar as buscas pelo seu passado e como adquirira aquele estranho poder de trocar de corpo, pois isso, seu começo, ele não podia recordar. Caminhando na chuva em direção à estrada, achou que deveria tentar descobrir o que acontecera em sua primeira vida. Era a única de que tinha apenas vagas recordações. Depois de tanto tempo, já era hora.
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Alta madrugada, e a tempestade dera lugar a uma chuvinha incômoda. Os relâmpagos iluminavam um pouco da estrada que levava à Morros Gêmeos. Estava um pouco frio, mas Rodrigo não se importava em caminhar ali. Não tinha mais nenhum hematoma, porém suas roupas rasgadas e sujas de lama eram desconfortáveis.
Ao longe avistou a pequena cidade encravada entre dois morros, os gêmeos, e a grande Universidade de Minas Gerais, onde estudava. Aos poucos lembrava das humilhações que os Malucos Safados infligiam constantemente à ele. Lembrou-se dos pais, omissos, e da falta de amigos e amigas.
Vamos ter que dar um jeito nisso, Rodrigo. Você tinha uma vida danada de ruim, não é mesmo...Enfim, que vai ser divertido, isso vai..
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Sentia-se muito bem, tão bem que decidiu subir um dos morros e admirar o nascer do sol. O nascer de uma nova vida, pensou, olhando a maravilha da natureza apresentar-se, num dia que se pronunciava bonito, sem relação com a noite passada. O ar puro entrou nos novos pulmões e Rodrigo sentia-se feliz.
Com o Sol brilhando, desceu, entre as brumas finas da manhã mineira, em direção à pequena cidade, cumprimentou os transeuntes, que, claro, estranharam, principalmente quem já o conhecia. Chegou à mansão Maulson, o porteiro eletrônico identificou-o e deixou-o entrar. Ele atravessou os exuberantes jardins sua mãe mais se preocupava com eles do que com seu filho, e entrou pela grande porta. Estava faminto, então seguiu à cozinha, onde ouviu barulho.
Seu pai o olhou zangado, com seu grosso bigode grisalho, cabelos do mesmo modo, roupa impecável e jornal holográfico à frente.
- Onde esteve, seu...Seu moleque! O porteiro avisou que chegou agora, seis da manhã! Esteve com aqueles seus amigos...Aqueles inferiores? Aqueles burros?
Sua mãe parecia não tê-lo notado, continuou a pintar as unhas, seu café esfriando na mesa. Rod estava calmo. Já passara muitas vezes por tudo isso. Agora se divertia.
- Desculpe-me, senhor. Só estava estudando os...inferiores, seus modos de agir. Infelizmente eles descobriram que eu os estudava e - abriu os braços - me rasgaram as roupas. Mas foi bastante...Educativo, senhor.
Armando Maulson levantou-se, furioso, apontando para o rapaz:
- O que pensa que eu sou, idiota?
Exatamente! - Pensou Rod.
- Vá se lavar, e vai estudar o dia todo, sem comer e sem dormir, como castigo!
- Ora, darling, não seja tão grosso com nosso filho...
Rod sorriu para sua mãe:
- Obrigado, mami.
- Obedeça! Agora!
Ele obedeceu, fingindo-se chateado e subiu para seu quarto. Entrou e o achou horripilante, definitivamente não era um quarto de um rapaz de dezenove anos, era formal demais, limpo demais. Os VDs eram todos de filmes antigos ou educativos, chatos, e os sounders eram de música erudita e ópera. Nem sequer um pôster de mulher pelada! Não que não gostasse de ópera ou de coisas instrutivas, mas como jovem, achava melhor agir como tal. Contudo, não era hora de grandes revoluções, teria que trabalhar escondido no novo Rod, desenvolver o físico, organizar um monte de coisa e...Mudar de curso na faculdade: nada contra Física Quântica, mas ele preferia algo como Astronavegação...Afinal ele não era mais o antigo Rodrigo...
Tomou uma turbo-ducha, vestiu roupas limpas - rídiculas - pensou - e saiu pela janela. Andou até a fazenda vizinha e pulou a pequena cerca, finalmente deitando-se sob uma frondosa mangueira. Dormiu sonhando com seu corpo jovem, sonhou em fazer sexo de novo, afinal nem se lembrava da última vez...
Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo II.
Douglas Sameros era um velho e animado senhor de quase noventa anos, mas muito saudável, e noventa anos naquela época não era muito. Perdera a esposa há algum tempo e seus filhos estavam longe, vivia então sozinho na grande fazenda, onde cultivava um pouco de tudo.
Era quase meio-dia, estava quente no sertão mineiro, e um céu azul irradiava prazer às aves e aos pequenos animais que habitavam as plantações. Douglas sorria ao admirar a natureza, feliz, e cantarolava antigas canções sertanejas.
Assustou-se ao ver o garoto dos antipáticos Maulsons dormindo debaixo de sua mangueira. Um garoto estranho, de tez alva, cabelos loiros, magro e feio. Tivera uma ou outra oportunidade de conversar com ele, e até onde se lembrava, era muito chato.
- Acorda, meu filho, já é hora do almoço! - Disse, em seu sotaque acaipirado mas culto, como os de todos os mineiros daquela época.
Rodrigo abriu os olhos e se espreguiçou, sorrindo para o homem que sua nova memória custou a identificar.
- Olá...Desculpe-me a invasão, mas esta sombra estava tão aconchegante...
- Ora, todos aqui são sempre bem-vindos, desde que não prejudiquem a fazenda.
- Obrigado - Rod levantou-se, batendo suas calças - sua fazenda é muito bonita.
Douglas sorriu:
- É, tenho orgulho dela...E nada de robôs, nada de máquinas, tudo pelas minhas velhas mãos - olhou para elas - adoro isto aqui!
- E com razão - o rapaz respirou fundo - parabéns, é bom saber que ainda existem pessoas como o senhor, simples, do campo...
O velho riu-se e colocou as mão no bolso do macacão surrado, olhando a extensão de sua propriedade:
- Garoto, confesso que estou surpreso, você me parece diferente.
- Em que sentido? - Rod estava com um sorriso nos lábios.
Sameros ergueu as sobrancelhas e sacudiu a cabeça:
- Não sei, parece mais simpático do que costumava ser...Quer almoçar comigo?
Rodrigo lembrou-se que estava de castigo e logo aceitou a idéia:
- Claro, será um prazer.
****
O delicioso almoço natural foi um deleite para o jovem rapaz, cujo corpo não agüentava mais comida sintética. Milho, carne de porco, e de sobremesa um belo pudim de leite. Estava satisfeito, e seu novo amigo também. Douglas Sameros estava contente em conhecer de perto Rodrigo Maulson, um rapaz alegre e simpático, diferente do grosso e fechado menino que vira antes. E depois de tantos anos de solidão, era bom ter uma companhia agradável.
- Venha, vou lhe mostrar a fazenda.
- Desculpe-me, teria muito prazer nisso, mas preciso dormir mais um pouco e depois fazer uns exercícios para este corpo sedentário, prometo que amanhã o acompanharei num tour. Posso deitar-me lá na mangueira novamente?
- Usa a cama do meu filho, no quarto dos fundos. Está vaga há tanto tempo que está até enferrujada...Ele nunca vem me visitar. Só a Dorinha, vez ou outra...Os outros nem lembram deste velho perdido em algum canto da Terra.
- A ingratidão dos filhos machuca como um ferro em brasa trespassando o coração.
- Nossa, onde aprendeu isso?
- Não me lembro, algo que eu li...Mas a vida é assim, senhor Sameros.
- Ara, que é isso, me chame de Doug.
- Pode me chamar de Rod. E muito obrigado pela comida.
****
Ao cair da tarde daquele dia, Rodrigo entrou no estábulo e admirou os dois cavalos que lá estavam. Achou-os bonitos, mas o que queria mesmo era montar um ginásio. Com pneus velhos e outras bugigangas montou aparelhos de musculação e exercitou-se até o anoitecer.
Estava escuro quando Doug apareceu, segurando um balde.
- Você está bem? Parece cansado.
- Este corpo está muito fora de forma...- respondeu o jovem, arfando - Agora, espero que não se incomode com o meu ginásio. Meu pai não quer que eu pratique esportes ou faça exercícios físicos...Então tive de fazê-los aqui. Como já lhe contei, Doug, meu pai acha que o ser humano é só mente.
O velho foi alimentar os cavalos nas cocheiras.
- Ora, ele não sabe de nada. Fique a vontade aqui, garoto, estou precisando de companhia mesmo...A fazenda é sua. Exercite-se, durma, só não mexa com as plantações e os animais.
- Pode deixar, e obrigado mais uma vez.
****
- Rodrigo, venha jantar! - Gritou Marlene Maulson.
O rapaz desceu as escadas com ar de inocente. Sentou-se à enorme mesa enquanto os robôs serviam a comida sintética, e olhou seus pais: sua mãe falava com uma amiga num VDcom flutuante, e seu pai lia o holo-jornal da noite. Ambos passaram a levar a comida lentamente e de modo desatento à boca, aqueles cubos verdes esquisitos, e estavam todos distantes entre si. Rodrigo sentiu-se pior do que quando viveu sozinho naquele cemitério, como Guilherme.
Estava faminto, então devorou tudo e pediu mais à robô-copeira.
Sua mãe percebeu, apertou o stand by do VDcom e virou-se para ele:
- Nada disso! A economia da Terra vai mau, temos de economizar massa alimentar! Sabe quanto está custando o quilo?
- Mas, mãe, a companhia do papai está dando rios de dinheiro...
Armando Maulson falou:
- Nunca é demais economizar, meu filho, você tem que aprender isso desde cedo. A-2, ignore o comando e recolha-se.
A robô-copeira A-2 saiu da luxuosa sala de jantar. Quem não gostou foi Rodrigo, que no entanto calou-se e observou seus novos pais. Odiava-os.
****
O fim de semana acabou rápido e era segunda-feira, mais um dia quente e azul. Entrando no campus da UMG, de prédios simples e baixos, Rod encaminhou-se para a Secretaria de Cursos e pediu sua transferência.
Cuidadosamente evitou os amigos de seu velho curso e esperou até a tarde para saber se haveria vagas e possibilidade de mudança. Felizmente tudo deu certo e começaria no segundo ano de Astronavegação na terça-feira, perdendo os dois anos e meio que já cursara de Física Quântica.
Voltando a pé para casa, já que a mansão Maulson não ficava longe, Rodrigo pensava em seus pais, que não poderiam saber da transferência. Teria de ocultá-la ao máximo.
Entrou na mansão, a casa estava vazia no meio da tarde, e seguiu para os fundos, indo para a fazenda Sameros. No estábulo, seu ginásio improvisado, voltou a treinar.
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Entrou na sala de aula, uma sala de círculos concêntricos recheados de carteiras, onde no centro hologramas ensinavam através de um professor-computador. Sentou-se na carteira a ele designada e ligou seu computador. Alguns alunos olharam para ele mas logo o ignoraram: sou feio e uso roupas ridículas, mas esta situação vai mudar - pensou, e concentrou-se na aula. Já conhecia muito de navegação no espaço sideral (das suas vidas anteriores), mas era bom atualizar-se, e um diploma na área seria útil.
Após uma explanação complexa do computador, onde hologramas de naves espaciais, estrelas e planetas surgiam como ilustração, a seção de perguntas começou, e, claro, Rodrigo respondeu as que lhe couberam com perfeição.
No intervalo foi direto à biblioteca, evitando quem quer que fosse: ainda não é hora de me expor, e preciso estudar algumas coisas que este corpo desconhece - pensou Rod, e assim fez nos dias que se seguiram. E logo seis meses se passaram.
Estudava muito, se exercitava, alimentava-se bem, dormia bem, evitava as pessoas e ficava completamente passivo quando estava com seus pais. Douglas era seu único amigo, com quem conversava longamente, e na fazenda comia o que não podia em casa, praticava musculação e natação, corria. Em casa, estudava o comportamento de seus pais, e aos poucos mudava seu próprio quarto. Nunca Marlene ou Armando iam naquele cômodo, e o robô-mordomo A-1 era o único que o incomodava.
- Aquele robô é um pé-no-saco, Doug. Mas estou estudando um pouco de robótica e vou mudar aquela programação estúpida. Quero um quarto que combine comigo.
Doug riu, passando-lhe mais pão-de-queijo:
- É, essas máquinas só servem para atrapalhar. Pode deixar, garoto, vou arrumar uns pôsters bem legais para você. Ah, se eu tivesse sua idade...Em falar, nisso, e a namorada?
- Isso é questão de tempo. Não se preocupe. Aqui está o dinheiro que lhe devia - Rod deu a Douglas algumas moedas plásticas - para pagar as novas roupas. Obrigado mais uma vez, amigo.
O velho riu-se, como sempre:
- Bem, faço qualquer coisa para ajudar. E seus pais são...Terríveis, se me perdoa dizer isso.
- Claro que perdôo, Doug, eles são mesmo.
- Onde conseguiu esses creds? Seus pais tão..."econômicos", nem te dão mesada... - Disse o velho, sarcástico, virando uma xícara de café, de aroma delicioso.
Rodrigo passava manteiga natural num pãozinho fresco de queijo.
- Peguei emprestado da minha mãe.
- E ela não vai descobrir?
O jovem falou com a boca cheia:
- Espero que sim.
Ambos riram bastante.
****
Era uma manhã quente de sábado, e a mansão estava vazia, exceto por Rod e os robôs-servos. A-1 estava todo desmontado no chão do quarto do rapaz, que mexia em sua programação e cantava junto com a música dos Jumpers tocando num sounder.
- Prontinho, mister A-1. Agora você é meu escravo completo.
Ligou o robô. A estranha criatura flutuou:
- Sim, senhor, o que deseja? - Disse em sua voz masculina suave e agradável.
- Descubra a senha do computador de papai sem que ele perceba.
O robô saiu silencioso pelo ar e Rodrigo então levantou-se e esfregou as mãos uma na outra:
- Agora, vamos reformar isso aqui.
Colocou os posters que Doug lhe arrumara, lindas modelos nuas em posições sensuais, trocou o tapete por um de cor berrante, desenhou bigode e chifres na estátua do General Belar, desarrumou a cama, jogou fora os VDs que não gostava e colocou coisas mais interessantes, para jovens de dezenove anos, na VDteca.
Queimou suas roupas velhas no quintal e organizou novas em seu armário.
- A-3, a que horas meus pais devem estar de volta?
- Só amanhã, senhor Rodrigo. - disse a voz suave e feminina da robô-faxineira - Eles foram até Belo Horizonte, coisas da companhia.
- Ah, sei. Sempre saindo sem me avisar.
O robô-mordomo apareceu e falou:
- Senhor, a senha é XYZ-4345/a-9. Estava marcada num rascunho.
- Grande, A-1! Mas nunca diga que descobriu a senha à meu pai, certo?
- Sim, o senhor é o mestre-principal. Ouço e obedeço.
- Certo, então suba no escritório e acesse as contas bancárias da companhia. Use a holografia da íris de papai para que o scanner o identifique. E o DNA dele já está no computador, para abrir a segurança. Transfira para minha conta pessoal...Hummm...O suficiente para comprar um gravicar.
- Devo descobrir quanto custa um gravicar? E que tipo de...
- Descubra quanto custa um gravicar esporte, vermelho, super-equipado, modelo mais recente, etc, etc, etc.
O robô saiu flutuando. Rodrigo sorriu diabolicamente e, dando-se por satisfeito com a reforma em seu quarto, foi treinar na fazenda.
****
- Aqui temos um Panther Mark 2 com um motor gravítico de duplo irradiador, porta-sounder, VDcom, e grátis, gravado em seu computador-de-bordo, todas as ruas e estradas da Terra. - o vendedor sorria, feliz.
Rodrigo examinou, com as mãos para trás, o reluzente gravicar vermelho berrante que flutuava indiferente na concessionária.
- Quanto atinge numa highway?
- Cerca de oitocentos quilômetros por hora. É muito rápido!
- Hummm...Fico com ele. Quanto custa?
****
Estacionar o Panther no pátio da faculdade foi um prazer para Rod. Todos o olhavam com outros olhos. Sorriu para si, pensando: a humanidade nunca vai mudar, realmente!. Entrou em seu prédio e logo estava na sala de aula. Bem vestido, novo corte de cabelo, com outra postura (e muito melhor fisicamente por causa dos exercícios), Rodrigo sentou-se em sua carteira. Percebeu que atraía mais atenções, mas sabia que ainda não era hora de se expor. Faltava muito para chegar onde queria.
Ao sair ao fim do dia, descendo as escadas, pensando nos exercícios que ia fazer, Rodrigo foi abordado por uma bela garota de cabelos negros e olhos azuis:
- Oi, você é o tal gênio, o Rodrigo, não é?
- Oi, eu sou o Rodrigo, o tal gênio. Você é...
- Suzana. Estou na sua classe de Trigonometria. Você parece que sabe tudo, mesmo, hein? Respondeu certo a todas as questões da prova-oral...
- Eu gosto de Trigonometria.
- Mas você não parece um nerd.
- E precisa ser nerd para ser inteligente?
- Não...Claro que não...É que você tem mudado desde que começou na faculdade...Quer dizer, você estudava na Quântica, não é?
- Estudava, mas decidi mudar.
- Ah, bem, é que falaram umas coisa de você...Quer dizer...Riam de você...
- Sei, sempre riram dos grandes gênios, do Eistein, do Beethoven, do Bigode...
- Quem foi Bigode?
- Um palhaço. Riam dele também, mas era um gênio no que fazia.
A garota pareceu não entender e olhou-o, curiosa. Depois falou:
- Bom...É...Bom, me dá uma carona?
- Claro, para onde? Minha casa é perto daqui, mas te levo onde você quiser ir.
Ela pediu que a levasse à sua república, do outro lado da cidade.
O gravicar de Rod desceu à rua subterrânea e acelerou rapidamente. Em instantes emergiam no bairro onde Suzana estava morando e logo pararam em frente à velha casa.
- Seu carro é incrível! Puxa vida!
- Meu pai me deu...e baixinho: ele não sabe ainda, mas me deu.
- O quê?
- Bonita casa. Quantos moram com você?
- Três garotas e dois rapazes, além de mim, a melhor república mista de Morros Gêmeos! Venha, venha conhecer o povo. Você vai gostar deles.
- E eles vão gostar de mim?
Ela riu e entraram. Rod pensou: bem, as coisas começaram a acontecer. Viu, Rodrigo? Não precisava ter se matado! Bastava apenas um pouco de bom-senso.
Na sala estavam dois garotos assistindo à tridivision , tão concentrados que sequer perceberam a entrada de Suzana e seu novo amigo.
- Deixe-os, quando começam a assistir estes filmes antigos...Já assistiram mil vezes Viagem às Estrelas - A Velha Geração.
- Pois vou lhe dizer: é meu filme favorito!
- Eca! Aqueles efeitos especiais não me convenceram. E a tal estória da estrela verde...Que ridículo! Nós, que estudamos astronavegação, sabemos que é uma impossibilidade física...
Rod olhou-a com desdém:
- Mesmo? Pois eu acho que neste Universo tudo é possível...Até estrelas verdes.
Ele dizia isso lembrando-se das antigas lendas, de suas vidas passadas...Elas batiam com as recentes descobertas arqueológicas...Isso o intrigava. Precisava lembrar-se de investigar estas descobertas na biblioteca da faculdade, se tivesse tempo.
- Quer um WhiteCoffee?
- Sim, bem quente!
Beberam na mesa da cozinha, simples mas completa.
- Você gosta de morar aqui, em Morros Gêmeos, com seus pais? - Perguntou Suzana, sorvendo lentamente o café alcoólico.
- Bem, acho que sim. Meus pais são um tanto...
- Afastados? Eu nunca os vi na faculdade...Aliás, nunca os vi em lugar algum, apesar da fama de sua família. A Maulson Interplanets é imensa, não é?
Rodrigo deu de ombros:
- Bem, isso não me adianta muito...Meus pais são mãos-de-vaca!
- Você ganhou um Panther novinho, não é mesmo?
- Isso é. Mas...Foi complicado. Não quero falar sobre meus pais, vamos falar de você. Você veio de onde?
- São Paulo. Meus pais moram lá.
- E porque não fez astronavegação na Paulista Universal?
- Não, não! Ficar morando com meus pais? Never!
- Eu entendo...Entendo perfeitamente o que quer dizer...
Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo III.
Os exercícios estavam matando Rod. Já era noite e resolveu parar. Rino relinchou, como se risse dele, e o rapaz olhou feio para o cavalo:
- Sua peste! Venha aqui fazer o que eu faço, seu jegue superdesenvolvido!
- Falando com quem, Rod?
Rodrigo assustou-se com a chegada de Douglas ao estábulo, ele sempre com o velho macacão surrado, para dar a comida aos animais.
- O Rino é um gozador.
Douglas soltou uma sonora gargalhada.
- Ele deve achar engraçado um rapaz tão franzino erguer tanto peso, uai.
- Você disse uai?
- Disse sim, e não venha com essa de coisa de linguagem de mil anos. Eu digo uai, uai, a hora que eu quiser! Sou mineiro de coração...
- Certo, não está mais aqui quem falou. Preciso correr. Logo vão estar jantando, e pode acontecer um milagre e darem pela minha falta...
- Vou segurar o riso porque sei que você fala sério.
O rapaz voltou para a mansão, todo suado, escalou a parede levemente inclinada da moderna construção e entrou em seu quarto pela janela. Tomou uma turboducha rápida, vestiu-se discretamente para não chamar a atenção dos pais e desceu para a sala de jantar. Armando Maulson lia seu holo-jornal da noite, sem se importar com a estranha comida sintética. Marlene Maulson falava, como sempre, ao VDcom com alguma amiga, e nenhum deles respondeu ao olá que Rodrigo resmungou ao sentar-se à mesa. Olhou horrorizado os cubos verdes que A-2 colocara em seu prato, e lembrou-se feliz que ia jantar mais tarde comida de verdade com Douglas, na fazenda.
Comeu um pouco e saiu, dando um boa noite respondido com resmungos. Voltou à fazenda e logo estava sentado com o velho Sameros no velho casarão colonial de paredes caiadas de branco.
- Isso é que é comida: Frango assado e macarrão!
Douglas riu-se de boca cheia. Então perguntou:
- Seu pai não descobriu seu desfalque?
- Já se passou um mês e aparentemente ele não descobriu nada. E com o gravicar guardado aqui...Agora estou pensando em pegar uma gravibike.
- Acho que você quer que ele acabe descobrindo, afinal...Para que uma gravibike?
- Isso é complicado de explicar...Digamos que eu estive, nos últimos anos, impossibilitado de me divertir...De viver de verdade.
- Com os pais que tem, não duvido, mas se eles descobrirem, acho que a coisa vai pegar, de verdade...
- Humm...talvez, meu amigo, talvez...
- E a namoradinha, a Suzana?
- Nós ainda não estamos namorando, mas...É que tenho me encontrado pouco com ela, estamos na época de Avaliações Gerais. Amanhã é o último dia, então á noite vou pedir para namorar com ela...Estou um pouco enferrujado, mas acho que ainda me lembro como é...
Douglas serviu-se de suco de manga:
- Você às vezes fala como se tivesse cem anos!
Rod abriu um largo sorriso e serviu-se de mais um pedaço de frango.
- Acho que vou comer mais esta asinha...
****
- Quer namorar comigo?
- O quê? Que...Que pergunta mais ultrapassada! Esteve num cemitério nos últimos anos, é?
O rapaz estava sem jeito, dentro de seu Panther vermelho reluzente, naquela noite estrelada e de lua cheia.
- Como...Como eu deveria pedir você em namoro?
- Namoro? Isso é coisa dos vovôs. É, bem que disseram que você é um reliq!
- Reliq, é?
- É, pôxa, um reliq, uma relíquia. Ninguém mais namora, agora sociamos.
Rodrigo tentou usar sua nova memória, mais o antigo Rodrigo realmente era um reliq. Desistiu e resolveu que tinha de se adaptar:
- Bem, que tal sociarmos?
- Ok. Mas vou te avisando: nada de ciumeira! Moram dois caras lá na república e além disso meu grupo na faculdade só tem homem!
Rodrigo deu de ombros.
Romanticamente, e como tantos outros casais, em tantas épocas, eles se beijaram à luz do luar. Logo estavam num place, e Atron acabou com a virgindade de Rodrigo, descobrindo uma Suzana completamente louca. Ela, por sua vez, sentiu-se viajando pelo espaço enquanto faziam sexo selvagem noite adentro.
****
Estava amanhecendo em Morros Gêmeos. Rodrigo abriu os olhos, olhando para Suzana que o fitava na cama.
- Faz tempo que você esta aí, acordada?
- Faz. Você dorme um sono tranqüilo...Parece que está num mar calmo, delicioso.
- Sonhei com o que fizemos ontem à noite. Foi fantástico! Você não sabe como eu precisava disso!
Ela riu para valer, depois disse:
- E você...Bem, apesar de estar mais bonito, vistoso, do que costuma ser, achei que ainda...Bem, eu errei! Você é incrível! Olha, todos diziam que você, com dezenove anos, ainda eram virgem, mas tenho certeza que sabe muito bem o que faz...
Rodrigo riu-se malicioso e a abraçou, puxando-a para si. Rolando na deliciosa cama do place, voltaram a se amar, e só pararam na hora do almoço.
- E seus pais, Rod, não estarão preocupados?
- De duas, uma: ou vão me colocar de castigo pôr uns dois anos, ou nem perceberam nada.
- Colocar de castigo? Com a sua idade?
- Meu pai acha que eu devo ser só mente, e que não cresci. Minha mãe acha que eu devo vestir as roupas ridículas que ela compra para mim e...E só! Puxa!
- Mas você não usa mais aquelas coisas estranhas...
- Decidi que ia cuidar de mim mesmo. - Rod olhou o relógio dentro de si - Vamos, vamos para a faculdade! Tenho Astrometria às duas, e não quero perder nenhuma aula.
- Nerd!
- Não, apenas...Maduro. Quero ir para o espaço quando me formar.
- Eu também, aliás, todos que fazem astronavegação! Seu anta, você acha que vamos pilotar naves espaciais no mar? E não precisa exagerar com os estudos...
- Como no caso das estrelas verdes, tenho de discordar de você, meu amor.
- Ah, se você não fosse tão bom de cama...
- Espero que você não inclua na frase:"e tão rico...
Suzana ofendeu-se:
- Mas é claro que não! Sua grana não me diz nada! Pode enfiar no...
Rodrigo beijou-a na boca, um beijo de língua, depois esvaziou a garrafa de água mineral sintética que estava ali, entrou na turbo-ducha e logo estava em sua classe de aula, na UMG.
À noite descobriu que seus pais não deram pela sua falta. Jantou a comida horrível e subiu ao seu quarto. Não iria à fazenda: precisava pesquisar sobre a lenda das estrelas verdes, então usaria a solarnet.
- Computador - disse, colocando o capacete de realidade virtual - resumo geral sobre estrelas verdes, no índice do Sistema Solar.
Rodrigo agora flutuava no espaço, um espaço irreal, gerado pelo computador de seu quarto diretamente em seu cérebro. Se aproximava em velocidade vertiginosa de uma estrela fraca que brilhava em verde, um verde vivo. De modo quase real, Rodrigo desceu pôr uma estranha atmosfera até a superfície da estrela, uma superfície de temperatura quente, mas não excessivamente. Olhou ao redor e viu grandes florestas tropicais, e a luz vinha do chão, do ar, ao seu redor, mas não do céu: o céu era coalhado de estrelas, que brilhavam fracas através da espessa atmosfera. A luz era forte, que criava sombras fantasmagóricas em tudo: um lugar realmente estranho e incomum.
- Você está numa simulação da superfície de uma estrela verde, feita a partir de suposições científicas colhidas de lendas e outros dados existentes. Embora nenhuma delas tenha sido encontrada até agora, e os principais cientistas da UniCiv considerem sua existência uma impossibilidade física, as lendas sobre elas são muito populares e numerosas, além de relatos sobre encontros não intencionais pelo espaço.
O computador continuou com sua voz suave e masculina na cabeça de Rod:
- Alguns cientistas teorizam que as estrelas verdes são estrelas colapsadas, não tão grandes que pudessem virar um buraco-negro, ou uma anã-branca ou mesmo uma anã-marrom. Estes cientistas até mesmo afirmam que elas estão num ponto antes das anãs-marrons, de existência comprovada, e até deveriam ser chamadas de anãs-verdes. Ainda segundo estas teorias, estas estrelas queimam o que lhes resta de seu combustível nuclear gerando calor numa estreita faixa, fazendo com que floresça vida em sua superfície solidificada até que a ela se apague de vez, isso depois de milhões de anos agonizando. Os cientistas só não sabem explicar como, tendo a estrela uma densidade muitas vezes maior do que qualquer planeta, mantenha uma gravidade a níveis tolerantes, que permita o desenvolvimento e manutenção de seres vivos.
Fazia muito tempo que Rodrigo não perseguia a lenda das estrelas verdes, e na sua vida passada como Guilherme, depois dos problemas que tivera antes de morrer, deixara a busca de lado. Agora retomava com toda a força, pois o tema o intrigava.
- Computador, resumo das principais descobertas sobre estrelas verdes, nos últimos cinco anos.
- Deseja pesquisar em toda a UniCiv e seus links externos, na região estelar da UniCiv, ou apenas no Sistema Solar?
- Apenas no Sistema Solar, para começar, senão vai demorar muito.
- Aguarde...
Enquanto aguardava, sentado na solidão de seu quarto, com aquele pequeno capacete em sua cabeça, Rodrigo olhava extasiado a simulação ao seu redor e tentava lembrar-se de seu passado, consultando a Memória da Alma, a sua memória milenar. Tentava lembrar-se de sua infância como Atron, sua primeira infância, mas quase não conseguia. Havia algo sobre estrelas verdes, algum lugar onde fôra levado, algo haver com seu segredo sobre a troca de corpo que podia realizar.
- A principal descoberta no Sistema Solar vêm de ruínas em Marte, onde um terremoto há dois anos provocou a queda de uma parede do Palácio do Vórtex, revelando rolos de armazenamento que descreviam, com precisão, a viagem de dois marcianos à uma destas estrelas.
- Pare a pesquisa. Detalhe a descoberta. - Rodrigo estava ofegante.
- Os rolos estavam embutidos na rocha, por este motivo ninguém os havia achado depois de tantos anos de pesquisa. Descreviam a viagem de dois líderes marcianos, Atron e Liany, à uma estrela verde de nome Tarínia, morada dos deuses, onde receberiam a imortalidade...
- Pare, repita a última frase.
- Receberiam a imortalidade.
Rodrigo engoliu seco. Pediu, com a voz embargada pela emoção:
- Repita o nome dos líderes marcianos.
- Atron e Liany K-Rosam'vev.
Liany... Rod lembrava-se dela, vagamente... Era bela... Jovem... Vibrante... Uma fantástica guerreira... Falou ao computador:
- Os cientistas sabem que tipo de líderes eram? De onde?
- Eram regentes do Império Lemântico, que dominava o planeta Marte antes de alguma catástrofe desconhecida destruir o planeta e tôda sua civilização, cerca de quinze mil anos atrás, tempo da Terra.
Isso Rod se lembrava...E Liany, este nome estava em sua mente há muito tempo. Em todas as vidas que viveu, Rodrigo fizera mil coisas diferentes, mas no fundo havia uma busca, a busca de sua origem, perdida no tempo e apagada de sua memória. Queria saber mais sobre Atron, a única vida que lhe legara apenas traços, fiapos de uma época longínqüa. Fracas lembranças. A chave de tudo estava numa estrela verde, e agora sabia que esta estrela chamava-se Tarínia.
- Prossiga sobre a descoberta marciana.
O computador imediatamente continuou com sua voz sem emoções:
- Os rolos continham os mesmos símbolos binários da adiantada civilização que existiu em Marte, portanto tornou-se fácil decifrá-los. E pela primeira vez o nome dos líderes do antigo império foram revelados, o que torna este rolos de extrema importância arqueológica. Infelizmente boa parte deles está danificada, e os pesquisadores ainda não encontraram explicação para a catástrofe que destruiu Leman, o império que dominava todo o planeta Marte, e porque, embora tão adiantados tecnologicamente, os marcianos desapareceram por completo.
- Prossiga com a descoberta, computador, e ilustre-a.
Ainda na paisagem virtual da estrela verde, Rodrigo viu à sua frente as imagens tridimensionais, sólidas, das descobertas. O computador dizia em sua mente:
- Um pouco da organização política dos lemânticos foi esclarecida, assim como um pouco da geografia marciana antes da hecatombe. Contudo, muitos cientistas acreditam que os dados dos rolos são ficçionais, pois acham impossível a existência de uma estrela verde, como descrito.
Computador...- Mas seu capacete foi retirado violentamente.
****
Douglas falava com as galinhas, enquanto as alimentava na manhã quente e preguiçosa da fazenda:
- Não vejo o Rod à três dias...Que será que aconteceu com o garoto, hein?
As aves só cacarejavam em resposta.
Uma jovem de cabelos negros, lisos e de olhos azuis profundos, apareceu correndo, ofegante, vinda da entrada principal que dava para a pequena estrada de terra. Douglas a olhou e percebeu que ela correra muito para chegar até ali.
- O senhor...- ela fez uma pausa para se recuperar do cansaço - o senhor é o senhor Douglas, certo?
Ele concordou, olhando-a atônito.
- Sou a sócia do Rodrigo. Ele me pediu para vir até aqui. É urgente!
- Quer um copo d'agua, moça? Senta aí e descansa um pouco.
- Não! É urgente! Rodrigo precisa do senhor.
- 'Tá bem, diga lá, o que houve?
Suzana tomou fôlego e disse:
- O pai dele descobriu sobre o desfalque que ele fez para comprar o carro, o gravicar vermelho...
- Ah, sei...Xiii! Deve ter dado o maior pau!
- Pois é. Imagine só: o senhor Armando mandou prender o próprio filho!
Douglas ficou realmente surpreso e tirou o boné, coçando a testa:
- Meu Deus! Como pôde?! Então o rapaz está na delegacia?
Suzana confirmou com a cabeça, aflita.
- Fazem três dias! Só soube hoje, fui até ele, que me pediu para vir aqui, falar com o senhor.
- Então vamos lá, mocinha! Vamos pegar a caminhonete!
O gravicar com caçamba, preto e relativamente novo, flutuou com rapidez pela estradinha, a repulsão gravitacional levantando poeira, em direção ao centro da pequena cidade.
A praça de árvores gostosas viu Douglas e Suzana emergirem da boca do túnel, que dava para a rua subterrânea, e seguirem até um pequeno sobrado.
Uma robô recepcionista de último tipo os recebeu com muita gentileza e atenção:
- O senhor Rodrigo Maulson está detido na cela 3. O vigilante MGMG-7 os levará até ele. Por favor, deixem qualquer objeto perigoso na mesinha, ao lado da entrada para as celas, e observem todas as recomendações.
Ao passarem por um portal, um alarme soou e uma grossa voz disse, vinda das paredes:
- Senhor Douglas, deixe o canivete na mesinha, por favor!
- Ah, esqueci que eu estava com ele, desculpe...
Um robô-guarda flutuou insensível até a porta da cela 3 que se abriu automaticamente e os dois entraram, encontrando Rodrigo lendo um livro comum deitado numa cama confortável.
- Resolveu tirar umas férias, amigo? - Perguntou, rindo, Douglas.
- Não vejo muita graça na situação. Aqui não é ruim, mas estou perdendo aulas importantes na faculdade.
Sua sócia estava preocupada:
- Eu trouxe seu amigo fazendeiro para cá, mas e agora?
Rodrigo levantou-se, marcou o livro e o guardou.
- Bom, Douglas, Suzana, a situação é a seguinte: meu pai, meu amado e querido papai, vai me processar por desfalque. Meros vinte e cinco mil creds que peguei para comprar o Panther. Só me safo desta se devolver o dinheiro, com juros.
O velho bonachão deu uma sonora gargalhada.
- Só uma pergunta, quanto seu pai tira por mês da Maulson Interplanets?
- Sei lá, uns cem mil, acho.
Douglas olhou para Suzana, sacudindo a cabeça:
- Esse aí devia pedir demissão aos pais e cair noutra...
Ela tentou rir, mas sabia que a coisa era séria. Um processo destes podia custar à Rodrigo a expulsão da UMG.
- Deixa que eu pago tudo, Rod.
- Eu não posso permitir isso! Eu chamei você aqui para...
- Você paga trabalhando para mim. Eu lhe darei um salarião, e ganharei com sua companhia. Sabe, desde que Vilma morreu... - e virou-se para Suzana - Vilma era minha mulher - voltou-se para Rodrigo - bem, desde que ela morreu que não tenho alguém para conversar...Bom, tem o Rino, as galinhas, a Dorotéia...
A jovem morena sentou-se:
- Dorotéia?
- A principal das minhas vacas. Mas ela nunca responde...
Rodrigo finalmente abriu um sorriso e suspirou:
- O que seria de mim sem você, Douglas?
Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo IV.
Rodrigo fôra expulso de casa depois do desfalque e da descoberta que mudara de curso. Armando Maulson, seu pai, lhe dissera que era importante que seu único filho fosse um físico, pois sua empresa produzia e desenvolvia projetores wormholes, a base da economia da UniCiv, e um físico era fundamental para se lidar com eles. Além do mais, não gostaram da nova decoração de seu quarto.
- Você sente saudades do luxo que tinha, Rod? - Perguntou-lhe Douglas.
- Bom, não sinto saudades nenhuma. Se quer mesmo saber, estou adorando morar aqui. Só sinto falta de um computador...
- Bem, se a colheita deste ano for boa, e se a Dorotéia ajudar com o leite...
- Não, Doug, nada disso! Você pagou meu pai, e está pagando a faculdade, que mais posso querer? Além do mais, posso usar os da UMG, apesar das limitações...
O velho sorriu, apoiado na enxada. Olhou para a bela e vistosa fazenda que possuía, levada de modo totalmente antigo. Sentia-se feliz, ainda mais por ter ganho...Um filho. O Rodrigo era maduro, inteligente, e agora, sete meses depois que o encontrara dormindo debaixo daquela mangueira, era forte, muito forte.
O rapaz tirou-lhe do devaneio:
- Sabe, peguei um bom preço naquele Panther... E já quase quitei minha dívida com você, com o dinheiro. A faculdade não é cara, por isso acho que você podia abaixar meu salário, velho amigo. Está sobrando grana.
Douglas riu e fez sinal para irem à uma sombra, beber suco de laranja.
- Não, Rod. O que vou fazer com aqueles creds que tenho no banco? Vilma morreu há dez anos, e meus filhos foram embora muito antes disso...Dorinha vem de vez em quando, vem neste natal, mas já tem a vida dela...Não, fique tranqüilo. Use o dinheiro que sobra com sabedoria...
Naquela tarde de sábado, Rod resolveu limpar o velho depósito, nos fundos da enorme casa caiada de branco onde agora morava. Enquanto tirava o entulho acumulado ali por anos a fio, pensava em seus pais, Armando e Marlene.
Da grande e velha janela de vidro avistou os fundos da mansão, o quarto que fôra seu, a piscina que nunca nadara depois que assumira aquele corpo. Pensou no absurdo da situação: afinal, eles eram seus pais. Aquilo não estava certo... Não era justo, apesar de tudo... Que pessoas mesquinhas... E Douglas era exatamente o oposto deles.
Cinco meses sem trocarem uma palavra! Algo estava errado, nenhuma mãe ou pai, por pior que fosse, faria isso. As memórias do verdadeiro Rodrigo estavam cheias de tristes punições e privações que eles lhe impingiam, exceto quando era muito jovem. O rapaz percebeu que desde que assumira a nova vida estivera bloqueando aquilo...Aos poucos entendia o desespero do antigo dono daquela casca.
- Fodam-se! - Gritou para a mansão, em voz alta.
No meio da arrumação encontrou uma velha aeromoto, uma das predecessoras das atuais gravibikes. Com lugar para apenas duas pessoas, era como as antigas motocicletas de rodas, que em uma de suas vidas passadas, Rodrigo pilotara.
Não flutuava mais e estava toda suja e avariada. Ele a arrastou para fora...Tinha sido marrom, ou talvez verde escura...Agora era só riscos.
- O que tem aí, Rod?
- Oi, Suzana, não a vi chegar. É uma aeromoto antiga. Não é max?
Suzana estava mais bonita do que quando o rapaz loiro a conhecera. A república dela era seu segundo lar, e estavam agora realmente namorando.
- Hummm...Para mim não passa de ferro-velho. O que você está fazendo?
- Arrumando o depósito do Doug...
- Que tal irmos à uma sorveteria...Está fazendo um calor danado!
- Desculpe, Su...Mas prometi fazer isso hoje.
- Prometeu a quem?
- A mim mesmo. Devo muito ao velho para...
- Tudo bem, amor - deu-lhe um beijo de compreensão - mas a noite temos uma festa para ir. Fui convidada, e posso levar quem eu quiser, para a famosa festa de encerramento do ano letivo dos Malucos Safados!
Rodrigo estremeceu, meio sem saber porque. Suas novas memórias logo o lembraram daquela noite de chuva no cemitério...O sentimento de morte o aturdiu.
- Você está bem? - Suzana aproximou-se.
Rodrigo forçou-se a controlar-se e tentou sorrir para ela:
- Sim...Claro que sim. Estou um pouco cansado, só isso, e com o calor...Quanto à festa, pode contar comigo! É lógico que eu vou, com muito prazer!
****
Estava chovendo, como há sete meses, e o gravicar-caminhonete preto que Rod emprestou de Doug parou em frente a bela casa assobradada de estilo moderno.
- Vou estacionar, me espere lá dentro, Su.
Rodrigo parou sobre um Chevrord e desceu flutuando até o chão, sem se importar com a chuva, que não estava forte. Caminhou pelo agradável mas molhado jardim e entrou.
Riley, o americano arrogante que era o melhor amigo de Atílio, chefe dos Malucos Safados, o viu pela primeira vez desde que deixara a Física Quântica:
- Wait! Freeze! - Você não é o estrelinha Maulson?
Suzana ouviu e virou-se com raiva:
- Garanto para você que ele não é nenhuma estrela, não! É f.d. mesmo!
Rodrigo ficou confuso:
- Desculpem-me, vocês dois, mas eu estou por fora das gírias atuais, sou meio reliq, sabem...
- Estrela é gay! F.d. é ferro-duro! - Explicou Suzana.
Riley riu-se, de copo na mão:
- Então a estrelinha arrumou uma pézona? Dois homos na festa!
- Riley, Riley, que feio! - Disse Rodrigo, zombeteiro - preconceito contra a orientação sexual das pessoas dá cadeia...
O americano estava totalmente surpreso com o jovem Maulson.
- E quem vai me prender? Você, estrela? - disse, peitando o rapaz.
Com um sorriso malicioso, Rodrigo controlou-se:
- Está bem, você ganhou. Se me dá licença...
Foi empurrado para fora, na chuva, mas não caiu. Encarou seu algoz.
- Rico! Heiger! Venham ver quem está aqui! - Berrou Riley.
Os amigos de Riley chegaram. O Guatemalteco era uma massa de músculos.
- Da última vez a estrelinha saiu berrando...Hoje vamos virar este chato no avesso! - Grunhiu o gaúcho Heiger.
- Parem! - Berrou Suzana, desesperada. Não esperava uma briga, não estivera na festa onde Rodrigo fora humilhado e espancado, não estava entendendo nada.
- Su, vamos embora, não somos bem-vindos aqui.
- Você não vai escapar, menininha loira. - Ralhou Rico.
A namorada do jovem Maulson se interpôs entre ele e os três Malucos Safados, mas Heiger a empurrou para dentro, deixando Riley e Rico indo em direção à Rodrigo.
- Escutem, para que isso? Vamos embora e acabou, tudo bem...
- Tenho prazer em socar babacas como você, estrelinha. - Disse o americano.
Os dois avançaram sobre o rapaz, que por sua vez, ato contínuo, socou-os no estômago com uma força inesperada, tão rapidamente que nenhum deles reagiu. Caíram ambos no chão molhado do jardim, sem poder respirar. O gaúcho e a morena viram tudo e ficaram estupefatos.
- Venha, Su. Vamos embora. Eles não nos querem aqui.
Heiger avançou sobre ele jogando Suzana contra a multidão que chegava para ver o que acontecia. Passou por Riley e Rico, mas ao se aproximar levou uma voadora que o atirou sobre o tronco de uma árvore. Riley, por sua vez, atirou-se num golpe e viu-se atirado contra uma gravibike parada, virou no ar e caiu, aturdido, sentado no chão. Rico, o guatemalteco halterofilista, levantou-se e foi derrubado com um chute no queixo. Caiu desmaiado.
- Paremos por aqui, que rasguei o fundo das calças. Su, vamos embora, por favor, não quero me sujar de sangue hoje.
A garota livrou-se da multidão que se aglomerava na porta do hall e seguiu seu namorado. Riley esboçou uma reação, mas reconsiderou.
- Diga ao seu amigo, o Atílio, para ficar na dele, ok? - Advertiu Rodrigo.
Logo ambos estavam na caminhonete do Douglas, de volta à fazenda.
Suzana, tão chocada, só abriu a boca quando entraram na garagem.
- Como...Como você fez aquilo?
Sem querer responder, Rod desceu e olhou para a velha aeromoto que achara naquela tarde e arrastara para a garagem:
- Veja, Su. Já comecei a reformá-la. Vai ficar um cristal!
- Rod, este ferro-velho não me interessa. Quer me explicar como você ficou forte, assim, de repente? Quando o conheci você era um rapaz tímido e franzino...
O jovem virou-se para ela e sorriu:
- Muito exercício, uma alimentação adequada...
- Mas como é possível alguém mudar tanto em poucos meses? Parece outra pessoa! Mental e fisicamente, outra pessoa!
Não podia dizer que nascera em Marte há quinze mil anos atrás, e que não era o Rodrigo original.
- Você não me conhecia muito bem, cruzamos vez ou outra no campus, eu já era um pouco forte, e...
Suzana não se conformava:
- Ora, todos comentaram quando entrou na nossa faculdade. Lembro que a Soraya falou algo sobre você ter apanhado de uns caras da Quântica...E que você era um chato, ridículo e arrogante, isso era.
Rodrigo soltou uma sonora gargalhada e sentou-se na velha aeromoto:
- Nossa, eu estava tão mal cotado assim? Puxa! Agora, se quer saber, os caras da Quântica que me bateram eram os Malucos Safados, e o Atílio foi o que mais me humilhou, numa noite chuvosa há uns meses atrás. Depois disso decidi mudar, e a força de vontade pode fazer maravilhas...Hoje eu me vinguei, em parte. Falta o Atílio, e tenho o pressentimento que ele virá correndo atrás de mim, depois que seus amiguinhos lhe contarem o que aconteceu.
A chuva apertou e começou a relampejar. Entraram na casa principal e fizeram um lanche, conversando. Douglas deitara-se cedo e dava para ouvi-lo roncar. Estava esfriando, mesmo estando em dezembro no Brasil, e, naquele clima, ambos acabaram no quarto de Rodrigo. Suzana era maravilhosa, tinha um corpo moreno e liso. Rod desceu sua língua pela barriguinha doce, e suavemente tirou sua calça colante. Ela tirou o top. Ele tirou-lhe a calcinha, deixando-a nua, e a admirou. Ela lhe sorriu, e tirou as roupas do rapaz. Depois de um longo beijo molhado de língua, estavam se amando, juntos, fazendo sexo, e o velho Atron se satisfez três vezes seguidas antes de desfalecer ao lado da gatinha marota que era Suzana. Esta, por sua vez, sorriu de olhos fechados, muito feliz...
****
O dia seguinte amanheceu chuvoso, tristonho, e Rodrigo abriu os olhos e espreguiçou-se, sem pressa, pois estava de férias. Suzana, ao seu lado, dormia profundamente. Ele entrou na turboducha, depois vestiu roupas leves e foi para a cozinha antiga. Tomou café sem ver Douglas, que devia estar trabalhando na fazenda, olhou sua namorada, ainda dormindo, e seguiu à garagem.
Começou a trabalhar na velha aeromoto: abriu sua unidade geradora de antigravidade e notou que tinha recuperação. Contente, desmontou as outras partes e logo percebeu que tinha extrema facilidade com máquinas e com eletrônica, características obviamente herdadas do Rodrigo original. Feliz, trabalhou até a hora do almoço, quando sentiu o cheiro delicioso de bife acebolado.
Suzana acabara de acordar quando entrou. Douglas cozinhava, assobiando.
- Bons dias, amigos! - Disse Rod, bem humorado.
- Oi, amor, bom dia.
- Bom dia, garoto. 'Tá com fome?' Tô acabando de fritar esse trem e já vou servir.
A jovem morena riu-se e falou baixinho:
- Ele às vezes fala esquisito...
- Antigamente os mineiros falavam assim...Não diga nada, senão ele vira uma fera!
Almoçaram tranqüilamente, e depois de lavarem as louças Douglas não tinha robôs ou máquinas de espécie alguma, Rod levou Suzana para sua república.
A caminhonete vencia facilmente a estrada elameada em direção à cidadezinha, flutuando poucos centímetros do chão, quando cruzou com um Luke 345, branco, que logo deu um cavalo-de-pau e passou a seguí-los. O rapaz percebeu pelo retrovisor, e comentou:
- Muito estranho aquele gravicar. E é bem luxuoso, deve estar equipado com repulsor de sujeira, porque reluz nesta chuvinha e nessa lama.
Suzana olhou para trás. Ambos estavam à uns duzentos quilômetros por hora.
- Merda! É o carro do Atílio. Não dá para ver quem está dentro, mas é o Luke dele sim, presente do pai, no ano passado. Acho que vamos ter encrenca.
O gravicar branco emparelhou facilmente com a caminhonete preta e se chocaram. Ambos os computadores de segurança cortaram a energia dos veículos e fizeram com que parassem. Os campos anti-inércia impediram que alguém se ferisse. Rodrigo olhou sério para Suzana e desceu, dizendo:
- Fique aqui até a polícia chegar, se é que receberam o sinal automático de colisão. Eu me viro lá fora.
Do gravicar branco desceram Atílio, Riley e Heiger. Atílio, o líder dos Malucos Safados, era um rapaz negro, alto e forte, um colosso, e ostentava um MultiWatch de ouro, brincos masculinos de diamante, pulseiras com espinhos de aço, cravejadas de jóias. No cinto, o símbolo de sua família, em ouro, prata e pedras preciosas.
- Estrela Maulson, minha preferida...
Rod ouviu impassível as baixarias que os Malucos lhe dirigiram.
- Já desabafaram? Bom, se sim, quem vai pagar o amassado na lataria do carro do Doug? Você, Atílio?
- Depois que eu acabar com a sua raça, eu jogo uns trocos para você.
O grande rapaz se aproximou com confiança, e numa velocidade estonteante, desferiu um soco em Rod, que caiu na lama, sem ter tempo de reagir.
- Isso é pelo Rico, que está no hospital consertando o queixo.
O jovem rapaz esfregou o seu, sentindo que talvez tivesse de fazer o mesmo. Cuspiu sangue, e antes de se levantar, Atílio o ergueu pela camiseta e rosnou:
- Vou te quebrar inteiro, verme!
Suzana saiu na chuva fina e berrou a plenos pulmões:
- Não! Pare! Ele vai lhe pedir desculpas...E depois cada um para seu lado, o.k.?
Atílio riu, ainda erguendo um Rod passivo, que disse:
- Desculpe-me, Atílio, pelo estrago que vou fazer em você e em seus amigos...
O jovem musculoso parou de rir e encarou o rapaz:
- Eu odeio estrelinhas, Maulson. Ainda mais as que falam bobagens...
Rodrigo deu-lhe um chute nos testículos, fazendo com que largasse sua camiseta e curvasse para frente. Depois deu-lhe um soco que fez com que caísse para trás, na lama. Rod sentiu os dedos doerem muito, e antes que pudesse pensar no que acontecia, Heiger, o gaúcho de tez alva e cabelos loiros, puxou Suzana para si enquanto Riley, o americano de olhos azuis, sacava um PK e apontava para o jovem Maulson.
- Quieto, senão te abro um furo!
Uma sirene de polícia soou, aguda. Rodrigo não pode fazer nada além de observá-los entrar no carro branco, inclusive Atílio, levando Suzana. Enquanto aceleravam silenciosamente erguendo lama, um raio azul de PK passou raspando sua cabeça, destruindo o pára-brisas da caminhonete de Doug. Minutos depois uma viatura, toda iluminada, parava ao seu lado. Um homem e um robô-policial desceram. Rodrigo, desesperado, gesticulou:
- Corram atrás daquele luke! Eles raptaram minha namorada!
- Você está preso, Rodrigo Maulson. Por agressão.
****
Uma semana depois e era antevéspera de natal. Morros Gêmeos se enfeitara para as comemorações tradicionais, e na praça do centro uma enorme árvore se erguia, iluminada com efeitos holográficos. Douglas Sameros mancava um pouco, mas sentia-se bem, mesmo com seus noventa anos. Seguia para o Tribunal de Justiça da cidade, acompanhado de sua filha, Dorinha. O manhã estava quente e o céu, azul. Havia muita gente fazendo compras, e a agitação incomodava o velho fazendeiro.
- Pai, ainda acho um absurdo essa história. O senhor levar para a casa um garoto que mal conhecia, que os pais expulsaram de casa e que foi acusado de estelionato! Esse mesmo garoto agora vai ser julgado por agressão, além de ser suspeito de ter estuprado e assassinado a própria namorada!
- Dora! Que coisa, você não o investigou, não investigou tudo? Você não acredita mais no velho pai? Eu confio no garoto e sei que ele não fez nada. Além disso, quem é você para me julgar? Na segunda você chegou sozinha, vinda de Alpha-Centauri, e me contou sobre aquele seu marido...Eu bem que avisei...
Dorinha era baixinha, de cabelos escuros e queimada de sol. Estava contrariada, e ficou de frente para Douglas:
- Escute, eu errei! Sim, já lhe disse, ele me abandonou e fugiu com meus filhos, seus netos! - Apontou-lhe o dedo - Mas agora tenho medo de que esse garoto não seja o que parece ser.
Douglas a empurrou para o lado e prosseguiu:
- Ele é como um filho. Você, Douglas Jr. e Doriva foram embora. Vilma morreu. Rodrigo tem me ajudado muito, e é um grande amigo, afasta minha solidão. Atílio e os "Malucos" são uma doença que cresceu aqui, e sei que estão envolvidos nesta confusão, sei que compraram a polícia local, ou parte dela...
Dorinha suspirou e disse:
- Estive investigando e temo que o que o senhor diz seja verdade...E profissionalmente tenho de acreditar no Rodrigo...
O velho agitava os braços:
- Desde que Atílio montou aquela gang, dois assassinatos aconteceram. Os primeiros em seis anos! Atílio não presta, nem ele, nem os amigos dele. E o pior: o pai é muito rico e está trazendo um ótimo advogado.
- Eu sei. E a namorada do Rodrigo? Será que ela...
- Ela está apenas desaparecida. Os Malucos Safados espalharam o boato que foi estuprada e morta, e acusaram o coitado. Sei que você pode ajudá-lo nisso também, Dora, confio em você.
- E os pais dele?
- Incrível! Impressionante! O deserdaram! Não o consideram como filho.
Dorinha ficou chocada.
O tribunal era todo de liga de carbono transparente, e estava cheio para um dia vinte e três de dezembro. A luz do sol filtrada iluminava a sala número um do tribunal, onde os quatro Malucos Safados esperavam, cada um com seus respectivos pais.
Paulo e Guiomar Luciara, pai e mãe de Suzana, também estavam lá.
Douglas e Dora entraram e sentaram-se, observando. A sessão começou. Um robô bem equipado surgiu flutuando no ar e proferiu, gravemente:
- Estamos aqui para o julgamento de Rodrigo Pereira Maulson, acusado de agressão contra Mark Riley, Juan Rico, Alex Heiger e Atílio Carvalhosa.
O juiz entrou, realizou as formalidades de praxe e então disse:
- Senhor Rodrigo, o senhor tem advogado?
- Sim, meritíssimo. Dora Sameros.
A filha de Doug seguiu até o tablado e disse:
- Estou aqui defendendo Rodrigo Maulson. Ele se declara inocente e vítima de uma conspiração. Ele foi atacado e sofreu inclusive um disparo de um PK, cujo porte está restrito às autoridades. A perícia está no computador.
O juiz, um velhinho de cabelos grisalhos e ar benevolente, disse:
- Bem, primeiros ouviremos a acusação.
O advogado dos Carvalhosa levantou-se e leu um texto projetado à sua frente:
- O senhor Rodrigo é acusado de ter agredido fisicamente os aqui conhecidos como Malucos Safados, no dia dezesseis de dezembro do corrente ano, além de danificar o gravicar de propriedade do senhor Atílio Carvalhosa. Pedimos uma indenização de cem mil creds. Temos duas testemunhas, o policial Fraga e o robô policial MGMG-12.
Seguiu-se um estranho depoimento do policial Fraga, e então o robô 12 da cidade projetou imagens inverídicas, onde só se via Rodrigo socando Atílio.
O juiz suspirou:
- Senhora Dora Sameros, sua defesa.
- Meritíssimo, o réu é inocente. Computador, leitura do exame feito nos cabelos de Rodrigo Maulson pela Polícia Técnica de Belo Horizonte.
Uma voz suave encheu o recinto, enquanto imagens tridimensionais ilustravam o que era dito, no tablado à frente do tribunal apinhado de gente:
- Pequenos fios de cabelo, geneticamente identificados como sendo do acusado, foram queimados por um Personnal Killer, modelo MZ-22/A, usado pela polícia de Morros Gêmeos desde 2.746. O fato se deu em dezesseis de dezembro do corrente ano.
O eficiente advogado dos Carvalhosa, Adão Bregui, socou a mesa:
- Protesto! Isso não tem relação com a briga.
- Negado, prossiga a defesa.
Foi a vez de Dorinha:
- Tem, sim. Mark Riley, aqui presente, disparou contra Rodrigo. O momento exato e a posição da origem do tiro conferem com as marcas de repulsão antigravitacional provocada pelo Luke de Atílio na estrada. A posição de cada um dentro do gravicar, mostrada pelos acusadores em seus depoimentos, determina que o disparo veio do rapaz americano. Portar arma na Terra é um crime gravíssimo.
- Protesto! Não está em discussão o uso ou não de armas pelos meus clientes, e sim a agressão que aconteceu...
O Computador de Justiça interrompeu-o, com delicadeza:
- A acusação é grave, e já está programado um inquérito para dia vinte e seis de dezembro. Os Malucos Safados ficarão detidos para averiguação. Prossigamos com o presente julgamento, dentro do escopo da acusação contra Rodrigo Maulson.
Dorinha disse:
- A Polícia Técnica de Belo Horizonte deve estar terminando os testes que fez em MGMG-12, a pedido da corregedoria, acionada por mim anteontem.
- Eu não fui informado disso! - Berrou o advogado Adão.
- Eu liguei para o senhor várias vezes - argüiu a defensora - e o senhor não me atendeu. A corregedoria investiga o envolvimento de policiais de Morros Gêmeos em corrupção e adulteração de registros oficiais.
O juiz bateu o martelo:
- Vamos nos manter dentro da acusação de agressão!
O Computador de Justiça o interrompeu:
- Informações chegando via JudNet: o juiz-corregedor Manoel de Dantalzo se dirige neste momento para cá, e pede a anulação do atual julgamento. A Polícia Técnica de Belo Horizonte comprovou adulteração na gravação de MGMG-12, e recuperou um trecho apagado onde se vê claramente a abordagem e agressão à Rodrigo Maulson e a sua namorada, Suzana Luciara. Suzana foi seqüestrada pelos Malucos Safados, e como sabemos, está desaparecida desde o dia do ocorrido.
O juiz novamente bateu seu martelo:
- Soltem Rodrigo Maulson e limpem seus registros.
O computador prosseguiu:
- Acusações e investigações contra Rodrigo Maulson sobre um possível assassinato e estupro de Suzana Luciara estão retiradas e encerradas, e Atílio Carvalhosa, Alex Heiger e Mark Riley estão declarados sob suspeita, e devem ser detidos. A cidade de Morros Gêmeos também declara-os sob suspeita de porte ilegal de arma, tentativa de assassinato, e corrupção de nível A1. Juan Rico deve ser detido sob suspeita de participação em gangs e cúmplicidade.
Ouve uma exclamação de surpresa geral na platéia.
- Juiz, peço indenização de cem mil creds à Rodrigo Maulson, por agressão e danos morais! - Berrou Dorinha.
- Concedida! Deve ser paga imediatamente! Caso encerrado!
Jonas Paolo Carvalhosa olhou, irado, para seu filho Atílio:
- Você me envergonha, Ti! Envergonha a honra de sua família!
Deu um tick de cem mil creds para a advogada e saiu, seguido de sua esposa. Ele era alto e forte como seu filho, e sua esposa era bela, exibindo cabelos grisalhos iguais aos do marido. Ambos tinham suas peles de ébano molhadas de suor. Estavam exaustos e tristes. Rodrigo teve pena deles. Naquele momento não sabia que não deveria ter pena nenhuma.
Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo V.
A cela era confortável, mas não era o melhor lugar para se estar na véspera de natal. Atílio socou a parede:
- Eu mato! Eu juro que mato Rodrigo Maulson!
Riley sacudiu a cabeça:
- É melhor pararmos por aqui. Já estamos encrencados demais! O Fraga também está preso e tenho certeza de que vai revelar tudo.
Heiger concordou:
- Verdade, caras. Vamos abrir o jogo, o Fraga já está fazendo isso, e será melhor do que se continuarmos nessa...Eles já tem provas contra nós...
- Nunca! - Berrou o líder deles, levantando-se e olhando para a porta. - Vou fugir...E quem quiser, pode vir comigo. Vou destruir o Rodrigo, aquela estrela...Eu pensei que ele ia botar o rabo entre as pernas e pedir o money para os pais...
- Os pais o deserdaram, Ti. - Disse Heiger - Não querem mais saber dele. Está morando na fazenda daquele velho, e não tem dinheiro nem para pagar seu caixão.
Rico grunhiu:
- Estou contigo, chefe. Eu também não achava que iam descobrir tudo...O plano era bom, chefe.
- Era bom, mas aquela advogada que chegou segunda...A tal Dorinha...Ela descobriu tudo...Ela vai sofrer! Vingança!
- Tudo isso é tolice, e você devia saber disso, Ti. - Disse Riley.
- Você vai se destruir, chefe - completou Heiger - vamos revelar tudo e com certeza nossa punição será menor.
Atílio olhou para seus amigos:
- Idiotas, existem coisas que vocês não sabem, aqui em Morros Gêmeos. Coisas muito complicadas para vocês. Coisas muito complicadas!
E completou, olhando todos, raivosamente:
- Quem não está comigo...Está contra mim!
****
Rod olhava as notícias que, projetadas no ar, o desanimaram. Nada da Suzana. Desligou o jornal holográfico e suspirou. Dorinha o encarava:
- Fique calmo. Ela será encontrada, ou os Malucos Safados revelarão seu paradeiro. Ela deve estar bem, porque um crime de assassinato e estupro nos dias de hoje tem uma punição terrível!
- Eu sei, mas senti que o Atílio é mal, muito mal. Temo pelo pior.
Era noite de natal. Fazia muito calor. Douglas entrou na sala de jantar, com um delicioso peru natural, que ele mesmo criava:
- O rango está na mesa!
- O que está na mesa, Doug?
- A comida, garoto tonto. Venham, a ceia está pronta!
Comeram em silêncio. Nenhum deles estava feliz. Após o ótimo pudim de sobremesa, Rodrigo deu um presente para Douglas e outro para Dorinha.
- Descontei o tick. E vocês merecem.
- Obrigado, Rod, mas não precisava - disse, sorrindo, Dorinha - você já pagou meus honorários de advogada...E pensar que eu desconfiava de você...
- Minha própria advogada! Mas eu lhe devo muito...Obrigado mais uma vez. Bem, amanhã, mesmo sendo natal, vou sair atrás de alguma pista da Suzana.
Dora sacudiu a cabeça, experimentando as pulseiras que ganhara:
- Besteira! A Polícia Estadual está no caso, e trouxeram milhares de equipamentos e rastreadores para achar a sua namorada. E os Malucos terão de passar pelo scanner mental. Você não acrescentará nada...Só vai perder seu tempo.
- Talvez, mas não estou conseguindo nem dormir, eu tenho de fazer alguma coisa.
Douglas experimentou o novo macacão e sacudiu a cabeça:
- Desculpe, Rod, mas fico com o velho. A intenção foi boa.
- Ah, pai, deixa de ser chato...Parece até o Ricardinho...- Dorinha lembrou-se de seu filho. Suspirou...Disse, a voz embargada de emoção:
- Estamos no século 28 e ainda tem gente como o Atílio e como meu marido, o safado do Rodney. Onde será que eles estão agora? Será que ele está cuidando bem de meus filhos? É o primeiro natal desde que eles nasceram...snif..Que passo sem eles...
Ela começou a chorar. Douglas se irritou:
- Pare, garota, eu vou achar aquele desgraçado e seus filhos e...
- Não! Deixe como está, pai. Deixe tudo como está! Não quero mais falar nisso.
****
Ano novo, mas a vida continua...Assim pensava Rodrigo, olhando o calendário de papel, coisa rara, pendurado na porta do velho casarão da fazenda. Ele mostrava o antigo ano solar, e ao lado, o ano-padrão da UniCiv. Estavam iniciando 2.761 ou 2.764? Tanto fazia. O tempo é rápido e implacável. Suspirou olhando o dia quente e azul lá fora. Assustou-se quando Dorinha o tocou no ombro.
- Como você está hoje? Passou a depressão?
- Não...Nunca pensei que ela pudesse me fazer tanta falta...Será que está mesmo morta, Dora? Será que eu perdi a Suzana para sempre? - Disse isso estremecendo.
- Até agora não acharam nada, nenhuma pista dela, mas vão achar, vão achar. Há muito tempo que não se ouve falar de crime sem solução, Rod.
- Procurei por toda a cidade, mas nada...Nada!
- E olha que o pai do Atílio mandou gente para ajudar você a procurá-la...
- Isso foi mesmo incrível, ele mandou-me dois detetives, porém não tivemos sorte...E nem com o scanner mental conseguiram alguma coisa. Eles...
Douglas entrou, ofegante:
- Estava ouvindo o rádio e deram a notícia da morte de Alex Heiger...
- Um dos Malucos? - Surpreendeu-se Dora. - Como aconteceu?
- Foi assassinado na cela...Pelo Atílio Carvalhosa!
Dorinha e Rodrigo se entreolharam. O jovem perguntou:
- E agora? O que vai acontecer?
- O locutor disse que o chefão está isolado. Matou o coitado depois dele dizer que ia revelar o paradeiro de Suzana. Atílio soube que iam scannear a mente de Heiger na intensidade máxima segura...Vocês sabem, o limite para não causar danos...
- Sim - Rod estava nervoso - Continue...
- Bem, ele o estrangulou ontem à noite. O pai está desesperado, porque sabe que agora, provavelmente, o filho será morto da mesma maneira...Pena capital...
Rodrigo passou as mãos pelos cabelos, sentindo-se mal.
- E nenhum dos restantes vai dizer o que houve com a Suzana?
- O locutor disse que não, mas a polícia não parou de procurar...
Dorinha colocou a mão no ombro do jovem rapaz:
- Calma. Ela pode até estar em outro planeta agora...Viva!
- E se estiver em perigo? Passando fome? Meu Deus!
O rapaz não almoçou naquele dia, e a filha de Doug o viu com lágrimas nos olhos, enquanto trabalhava em silêncio em sua aeromoto, que estava, aos poucos, ressuscitando.
****
A noite de estrelas fortes encobriu a fazenda, encontrando Rodrigo falando com Rino, cansado após seus exercícios diários:
- Cavalos não tem estes problemas, amigo. Sinto-me oco!
Ele relinchou, como se entendesse.
- Ora, você vê uma égua no cio, faz o que tem de fazer e a esquece. Nós, humanos, não fazemos isso. Mesmo nascidos em Marte, nós nos apaixonamos, nós sentimos saudades da pessoa...Nós amamos... - Ele completou a frase com a voz embargada. Não vira Dora entrar no estábulo. Ela sentiu pena dele, e não encontrava palavras para dizer, e até considerou deixá-lo às sós com seu amigo eqüino. Mas então decidiu falar:
- Desculpe-me, Rod. É que o jantar está pronto...
- Não sinto fome...Quero ficar um pouco sozinho, não se ofenda.
- Não, mas, bem deixe-me dizer-lhe uma coisa: você não pode ficar aí, se lamentando. Já faz mais de um mês que a Suzana sumiu, e você só tem feito mexer naquela minha velha aeromoto e choramingar, além das suas buscas inúteis...
- Quando você fala, fala tudo que tem a dizer, não é? E eu não sabia que a aeromoto era sua...
- É sua agora. E eu estou tentando acordá-lo, Rod, acordá-lo dessa obsessão por Suzana. Porque não viaja...Porque não vai à Marte, rever o lugar onde nasceu?
- Marte?
- É, acabei de ouvi-lo dizer que veio de lá para o Rino.
- Marte...Não, eu sou brasileiro...Foi apenas..Não importa, a idéia é boa!
O jovem Maulson lembrou-se daquela consulta à Solarnet. Da descoberta dos rolos com informações binárias, da viagem que fez com Liany à uma estrela verde, milênios atrás...Sim, ele tinha de ir atrás disso, e tentar esquecer um pouco seu sofrimento.
- Vou à faculdade, diga ao seu pai para guardar um pouco do jantar...
E saiu, deixando Dorinha perplexa. A pé, seguiu pela noite clara e pelas ruas desertas até os prédios silenciosos da UMG.
Entrou com sua identificação de estudante e foi à biblioteca. Uma simpática atendente guiou-o até um cubículo, onde ele colocou um pequeno capacete.
- Computador, acesse à Solarnet. Informações sobre a descoberta, há cerca de dois anos, sobre rolos nas ruínas do Palácio do Vórtex. Referência: estrelas verdes.
- Aguarde. - Foi a resposta na suave voz masculina.
Rodrigo entrou num mundo virtual e viu-se no planeta vermelho, Marte, defronte às antigas construções lemânticas. Rolos de cristal ultrafino se desenrolaram à sua frente e um laser vindo do nada refletiu símbolos binários que se transformaram em caracteres rúnicos. Em roxo e dourado, eles se transformaram nas figuras multicoloridas que contavam uma história: a viagem de dois reis pelo espaço até uma estrela verde.
A forma desses reis era imaginária: os humanos não sabiam como os antigos marcianos eram. Enquanto exibia estas imagens tridimensionais, o computador dizia:
- Liany e Atron eram poderosos, e foram à Tarínia receber a imortalidade, concedida à eles por Martogh, filho direto dos deuses. Martogh concedeu-lhes a graça, mas poderiam morrer, se se descuidassem. Concedeu-lhes também a Chave da Prisão de Zonos, para que a guardassem. - O computador interrompeu-se e mudou de tom - neste ponto os rolos estavam danificados demais para leitura. O que mais deseja?
- Acesse qualquer agência de viagem e marque um pacote turístico à Marte, que inclua uma visita ao Palácio do Vórtex...O mais breve possível, aliás, se puder ser amanhã...
- Aguarde...Existe uma vaga para sexta-feira na Transportes e Turismo Brasil, com estadia em hotel categoria turística e café da manhã, translados em Marte, viajando em naves próprias MK-11, com guia humana. Preço à vista: 1.250 creds.
- Excelente. Faça a reserva. O número do meu crédito é BRMG.466.372/320-12, pagamento à vista.
- Reservado e pago. Código de VDcom, PC ou endereço na Solarnet?
- Código VDcom BRVD-MGMG-566-567474. Não tenho Personnal Communicator ou endereço na rede do Sistema Solar.
- Confirmado. Embarque às 13:40 da sexta-feira. Receberá uma ligação para posicionamento.
Rodrigo deixou a UMG só pensando em descansar, visitar a velha Marte e torcer para a polícia encontrar Suzana.
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Sexta-feira, quase duas da tarde e o VDcom veio chamar Rod, que conversava com Douglas e Dorinha no estábulo. A imagem de uma bela mulher surgiu no vídeo do aparelho que flutuava à altura da cabeça do rapaz.
- Senhor Maulson, sou da TTB. Queira se posicionar entre a casa da fazenda e o estábulo. Abriremos um túnel para trazê-lo ao embarque.
- Estou indo, obrigado.
Pegou as malas, leves com os antigravs, e despediu-se dos amigos:
- Douglas, não deixe a Dorotéia te irritar, Dorinha, não perca as esperanças.
- Nem você, Rod. Suzana estará aqui, quando voltar, eu sei que estará.
- Garoto, não esqueça de mim, seu compadre, lá no hemorróidão...
Rodrigo ia saindo mas voltou-se para o velho:
- Lá onde?
- No vermelhão, naquele planeta vermelho que chamam de Marte...
- Ah...- O jovem riu e seguiu ao ponto indicado. Um túnel surgiu do nada, em pleno ar, e do outro lado havia muita gente, inclusive a mulher que lhe chamara da TTB. Rod, puxando sua bagagem, atravessou o túnel e sentiu um sobressalto. Do outro lado encontrou-se na famosa Space Station One, em órbita da Terra. O túnel desfez-se atrás de si, era um mini wormhole, buraco-de-verme, cujo projetor seu pai fabricava. Era um ótimo atalho, pena que era caro, perigoso e complicado. Fazia você atravessar quilômetros cortando caminho pelo ante-espaço. A mesma tecnologia que era usada pelas naves espaciais para viajarem de uma estrela à outra.
- Bem-vindo, seu ID, por favor - disse a moça, num solanês carregado de sotaque alemão. Checou o cartão e encaminhou o rapaz loiro.
- A nave para Marte sairá em vinte minutos. Fique à vontade, senhor Maulson.
Rodrigo passeou pelo grande salão, cujas imensas janelas de liga de carbono transparente exibiam uma Terra crescente fantástica. Olhando para aquele planeta maravilhoso, não segurou um suspiro.
Um robô enorme, flutuando, pegou sua bagagem com delicadeza, etiquetou-a e colocou-a em seu compartimento traseiro, junto com as outras, seguindo adiante. Rodrigo voltou novamente sua atenção à janela.
- Senhores passageiros da Transportes e Turismo Brasil, com destino à Marte, queiram embarcar no portão 23. Tenham uma boa viagem.
Junto com outras pessoas, inclusive alguns estranhos alienígenas, atravessou um tubo transparente, flutuando em pleno espaço, e entrou em uma nave de formato circular, como um pires invertido, com dois enormes tubos embaixo. Um mocinha delicada apontou-lhe um assento, ao lado de uma janela que lhe permitia ver a Lua brilhando de forma incrível.
Sua atenção à beleza externa foi quebrada quando uma espaçomoça falou:
- Senhor Maulson, importa-se de ter a companhia desta garotinha? Ela é brasileira também e está viajando sozinha.
- Claro que não - virou-se para a menina, de uns cinco anos, e perguntou - Como é o seu nome?
- Sandrinha. E o seu?
- Rodrigo - apertaram-se as mãos, e Rod ofereceu:
- Quer sentar aqui? Você poderá ver Marte, quando nos aproximarmos dele.
- Obâ! Quero sim. Que legal!
A nave deixou a estação silenciosamente, deslizando cada vez mais rápido pelo espaço, distanciando-se da Terra. A vertigem que muitos sentiram não era devido à velocidade, pois os amortecedores gravitacionais anulavam a inércia, mas sim a visão de tudo se afastando rapidamente. Uma voz suave e feminina soou nos alto-falantes:
- Estaremos chegando à Marte, quarto planeta do Sistema Solar, em pouco mais de dez minutos. Entraremos no túnel a qualquer momento.
- Tio, o que é um túnel?
Rodrigo sorriu, e educadamente explicou:
- É um buraco no espaço, feito pela imensa força gravitacional gerada por esta nave, para cortarmos caminho até nosso destino.
Sandrinha sorriu, com o nariz colado na janela:
- É o tal uarmrrole?
- Wormhole, buraco de verme, como dizem. Entenda o espaço como uma esfera, que normalmente permite andarmos em sua superfície...
- Sei, a tal curvatura do espaço que aquele velhinho linguarudo, o Einsten, dizia, aprendi no primeiro ano da escola. Teoria da Relatividade e essas coisas...
- Pois é, Sandrinha, o buraco que nós nos acostumamos a chamar de túnel nada mais é que um furo nessa esfera, cortando o caminho de um ponto da superfície à outro. Entendeu?
- Claro, tio, é simples.
O tal túnel surgiu em pleno espaço e engoliu toda a nave, que viajou no ante-espaço dentro da esfera até outro ponto, na superfície da esfera. Emergiu do outro lado e começou a desacelerar minutos depois, aproximando-se do planeta vermelho.
- Estamos entrando em órbita de Marte. Observem à direita Fobos, uma de suas luas. A nave fará uma rotação para que todos possam apreciar a paisagem.
Rodrigo e Sandrinha olharam a beleza do estranho e empoeirado planeta abaixo deles, e de uma de suas luas, além das belas estrelas faiscando do lado de fora.
Acoplados à Mars Passengers Station, desceram e tomaram um refri no bar, aguardando a descida. Através da mesma tecnologia que lhes permitia viajar no espaço através de distâncias imensas, desceram andando por um pequeno túnel à superfície terraformizada de Marte. Com o grupo de turista a que estavam designados, caminharam pelo belo jardim do Hotel Vista Tropical, até sua entrada.
- Ai, tio Rodrigo, que cheiro estranho é esse?
- É a atmosfera, Sandrinha. Embora, depois da terraformização...
- Terrafor...O quê?
- Terraformização é a transformação de planetas inóspitos em lugares iguais à nossa Terra. E depois que puseram ar que possamos respirar aqui e fizeram outras mudanças, puderam criar grandes cidades e viver sem capacetes...
- Mas e o cheiro?
Estavam agora no belo hall do hotel, fazendo o check-in.
- Nunca esteve em outro planeta? - Perguntou a guia, que ouvira a conversa dos dois e se intrometera. Um velho e sorridente travesti.
- Não, senhora.
- Bem, um planeta é sempre diferente de outro, o chão, a vegetação, a pressão, a gravidade...Tudo isso influi no ar e em outras coisas, por isso Marte cheira diferente da Terra...
- Então é por isso que me sinto mais leve? É a gravidade?
- Pois é, Sandrinha - disse Rodrigo, pegando seu ID e colocando no computador - aqui a gravidade é menor. Você se acostuma...
A guia, que tinha um enorme nariz, completou:
- E a pressão do ar também é menor, portanto nada de correrias, hein, mocinha?
****
Um pequeno e multicolorido aero pousou suavemente em frente à uma grande duna de areia vermelha. O céu também tinha essa cor, no meio da tarde, e fazia frio. Pequenas rochas, espalhadas pela superfície, completavam a paisagem.
O grupo de turistas de Rodrigo, bem heterogêneo, desceu. O travesti, vestido com roupas de cores tão berrantes quanto as do aero, começou a falar em solanês:
- Após esta duna vocês verão o famoso Palácio do Vórtex. Não é o nome que os marcianos lhe davam, Bakuskalli, e sim o nome dado pelos exploradores americanos Quincy Barrow e Michael Hugh, que o encontraram em 2.052. O nome marciano só foi descoberto vinte e cinco anos depois, com a tradução dos famosos rolos binários encontrados aqui pela primeira vez, e depois por todo este planeta.
Andaram em conjunto, subindo a duna, e se depararam com uma maravilha.
Rodrigo já estivera ali, em suas vidas anteriores, milhares de vezes. Quando era Atron, lembrava-se vagamente, morara ali. Mas mesmo assim acompanhou a exclamação de surpresa de todos, pois era um lugar belo, muito belo, belíssimo. A guia travesti prosseguiu na apresentação.
- Mais do que em qualquer outro lugar foi aqui que conhecemos melhor a antiga civilização marciana, que dominou por completo este planeta, outrora rico e verdejante, muito semelhante a nossa Terra atual, com rios e lagos caudalosos, e até oceanos. Os cientistas descobriram restos de imensas florestas tropicais e cidades, muitas cidades. Eles estavam no apogeu quando se autodenominaram lemânticos. Leman tornou-se o nome deste planeta para eles, e muitos arqueólogos acreditam que viajaram pelo espaço, milênios antes de nós, e dominaram boa parte desta região da galáxia.
Um gorducho de pele escura e cabelos azuis perguntou em russo:
- E a teoria da colonização da Terra? Eu acho que sou descendente de marciano...
- Bem, muitos acreditam que somos descendentes de marcianos, pois já sabemos com certeza que eles estiveram por lá...Pessoalmente acho isso uma bobagem. Teorias apontam a evolução humana como sendo totalmente terrestre.
De todos, apenas Rodrigo sabia que ambos tinham razão.
Um japonês fez uma pergunta à guia enquanto sua minúscula registradora saia do seu bolso e registrava tudo em realidade virtual, para diversão de seus amigos mais tarde.
- E sobre aquela estória que aqui seria a Atlântida?
Muitos do grupo riram.
- Essa lenda de Atlântida vêm desde a Grécia antiga, se não me engano - foi a resposta dela - e a colocaram em vários cantos da Terra, depois começaram a dizer que ela estaria na Lua...Acho que tudo não passa de bobagem também, embora os cientistas afirmem com certeza que muitas lendas terrestres da antigüidade originaram-se das visitas que os marcianos faziam à Terra, à mais de...Bem, não sabemos ao certo quando que eles desapareceram, e quando foram essas visitas...
Desceram pela areia em direção ao enorme palácio, todo verde-jade, que reluzia estranhamente mesmo à parca luz do Sol distante. Suas enormes torres tinham centenas de andares, com pequenas e espalhadas janelas retangulares. Varandas e sacadas estavam por todo lado, assim como plataformas que há muito tempo sustentaram jardins. As paredes eram de uma lisura tipo mármore, mas quando os turistas a tocavam, sentiam-nas quentes e suaves. O verde, escuro, meio-metálico, espalhava-se pelos altos muros e nichos. Tubos que outrora foram canhões dominavam o lado leste, e toda aquele imensa e incrível estrutura estava enfincada num vórtex de areia, numa estranha espiral vermelha, de um modo surreal. As pequenas formigas que eram os turistas e Rodrigo sumiram no colosso, entrando pela fantástica porta principal.
Tinha vinte e cinco metros de altura por quinze de largura a entrada, num formato curiosamente retangular. Tudo ali tinha cantos extremamente retos. As portas, há muito sem fechar, eram daquela delirante rocha que compunha as paredes, só que menos densa. Do salão de entrada de quinhentos metros quadrados subiram por uma larga rampa, que puxava o grupo de forma suave até um mezanino imenso, que dava acesso a rampas iguais para todos os lados. Tudo naquele aconchegante verde. A guia instruía:
- Os marcianos possuíam a mesma tecnologia antigravidade que temos hoje, portanto não estranhem as rampas que puxam. Os arqueólogos estão tentando descobrir a fonte de energia delas há séculos, sem resultado. Estimam-se que estas rampas estão em funcionamento, sem uma falha, há coisa de dez mil anos.
Rodrigo sabia que era mais...Dezesseis mil era o número certo, o palácio havia sido construído mil anos antes dele nascer, como Atron.
- Não sabemos também como, do dia para a noite, tôda essa tecnologia se perdeu, e porque os marcianos desapareceram por completo. Muitos planetas foram colonizados por eles no passado, mas sumiram de todos...Sem deixar vestígio. Até hoje não sabemos com o que um marciano se parecia.
Rodrigo riu-se por dentro, tinha vontade de revelar tudo, mas certamente seria tomado por louco, ou ririam dele como no caso da menção à Atlântida. Terrestres...Arrogantes demais...Enfim, agora era um deles, não era? Seria divertido contar que os marcianos não desapareceram por completo, mas apenas de Marte e de suas principais colônias. Muitas outras sobreviveram, apesar de tudo.
Sandrinha puxou a camiseta térmica de mangas longas e cor preta que Rod vestia:
- Tio Rodrigo, porquê os marcianos morreram?
Isso nem ele sabia. Não lembrava de nada...Sabia que Marte, ou Leman, havia sido destruída, varrida por completo, a antiga capital do imenso império. Antes disto, as colônias mais importantes foram saqueadas. Mas suas memórias estavam apagadas ou bloqueadas. Não lembrava o motivo, nem quem atacou seu mundo, há tanto tempo atrás. Sabia que o cataclisma fôra um ataque, e não uma coisa natural, como ouvia agora a guia dizer. Mas não sabia nada além disso.
- Tio, tio, presta atenção! Porquê os marcianos morreram?
- Não sei, Sandrinha. Mas bem que eu gostaria de saber...
No solanês perfeito de guia, o travesti descrevia os cômodos principais a medida que passavam por eles. Explicava:
- Aqui havia um centro de controle, restos de equipamentos foram encontrados.
Então Rodrigo sentiu o coração disparar.
- Esta é a Sala do Conselho. Naqueles painéis deviam ficar os reis de Leman.
Era isso mesmo - lembrou-se Rod - painéis onde ele e sua irmã sentavam-se e colocavam suas mãos, sentindo os administradores, controladores e supervisores, generais e almirantes. Onde comandavam o Império Lemântico, cuja capital, Leman, era o sistema nervoso de centenas de planetas. Onde imensas naves espaciais cruzavam o espaço em túneis como os atuais, onde novas civilizações eram encontradas e subjugadas...Um passado de glórias...E havia ainda um Império maior, que tentava conquistá-los...
Rodrigo recebeu essa enxurrada de memórias e desmaiou.
Livro I - Viver Outra Vez - Capítulo VI.
Era noite e estava numa cama quando acordou. Um robô-enfermeira fez com que Rodrigo cheirasse alguma coisa estranha e logo sentiu-se melhor. Uma enfermeira humana surgiu, muito bonita, e perguntou:
- O senhor está bem? Sabe como é, atmosfera e gravidade diferentes...
- Sinto-me bem, obrigado...Onde estou?
- Na enfermaria do palácio. Pessoas que visitam outros planetas pela primeira vez podem ter estes problemas, fique tranqüilo, não é nada grave.
O corpo de Rod estava fora da Terra pela primeira vez, mas sua alma não. O problema não tinha sido Marte, mas as memórias...Apenas uma vez sentira-se como naquele dia: com uma torrente de imagens em seu cérebro, sem parar, e novas lembranças de quando fôra Atron. Estranhava o fato, pois, por muitas vezes, voltara ao Palácio do Vórtex, sem nada lhe acontecer.
Mas numa de suas vidas anteriores, esteve num planeta de nome Nishia.
Nishia...Lembrou-se que naquela vida ele era comandante de uma nave militar, e desceu ao planeta para acompanhar os testes que fariam num estranho objeto, um globo negro do tamanho de uma bola de futebol, descoberto nas ruínas de uma antiga cidade orbital, abandonada a milênios por seres desconhecidos.
Durante os testes, feitos num grande laboratório, a esfera negra, que não refletia a luz, emitiu uma vibração de baixa freqüência que o aturdiu. Imagens violentas vieram à sua mente, antigas lembranças, e ele desmaiou.
Nada se sabia sobre o globo, impossível de penetrar, e Rodrigo convivera com o mistério anos a fio. Guardado em Nishia, as pesquisas continuaram.
Agora estava ali, achando tudo estranho. Porque só agora uma visita ao palácio disparara aquela sucessão de imagens? Porque achava que a tal esfera negra tinha relação com ele, de alguma forma, anos depois de ter morrido naquela vida em que a viu pela primeira vez?
Deixou a cama e se arrumou. A enfermeira humana entrou de novo:
- Já vai? Sente-se bem?
- Sim, só um pouco zonzo. Meu grupo, eles ainda estão por aqui?
- Sinto, mas voltaram ao hotel há uma hora. A TTB mandou um aero para pegá-lo, ele está lhe esperando.
Rodrigo fez que não com a cabeça:
- Prefiro dar uma volta pelo palácio, afinal, seria um desperdício perder a melhor visita de Marte. Posso ficar?
A enfermeira deu de ombros:
- Claro, nunca fechamos. Só não dispomos de guias...
- Não precisa, apenas vou dar uma olhada por aí. Obrigado.
Rod saiu e foi para a Sala do Conselho, fácil de achar pelos terminais espalhados por todos os lados (o caminho ele não lembrava). A sala era imensa, tôda enfeitada, com frases escritas em caracteres rúnicos pelas paredes de verde-jade. Colunas quadradas e cantos retos não faltavam, e a plataforma onde ficavam as cadeiras moldáveis e os painéis dos reis era um retângulo de seis por quatro metros, num verde mais escuro. Os painéis eram lisos e nada se viam neles, mas as poltronas, que pareciam de rocha sólida como o resto, se adaptavam automaticamente ao corpo que se sentava e era macia. A luz do aposento que o livrava da noite parecia vir de todo lugar.
Rodrigo sentou-se e assustou-se quando ouviu um robô-guarda falar:
- É proibido sentar nas cadeiras dos reis. O senhor pode sentar-se nestas aqui em baixo, se quiser, projetadas para os secretários dos conselheiros. Todas as outras são proibidas. - Sua voz era aguda e irritante.
- Está bem, já estou saindo, já saí!
O robô desapareceu por uma das várias portas retangulares que davam para o aposento, e assim que ficou sozinho tocou um dos painéis. Nada aconteceu.
Rodrigo pensou consigo: O biocomputador deve ter morrido há centenas de anos, antes dos terrestres descobrirem o palácio. Não poderá me ajudar, como eu esperava. Mas, o que ativou minha memória daquele jeito?.
Um rapaz simpático, de pele marrom e cabelos pixaim, apareceu e disse:
- Posso ajudar? Sou um dos supervisores, Albert Mangis. Notei que estava sozinho perambulando por aí e...
Rodrigo respondeu, no mesmo solanês que seu interlocutor falava:
- Gostaria de poder ver os últimos rolos binários achados aqui, há dois anos.
- Ah, venha, vou lhe mostrar, estão na Sala do Computador.
O jovem Maulson seguiu o rapaz que devia ser pouca coisa mais velho que ele, e ambos desceram até um outro salão, do mesmo verde. Aqui, caixas interligadas por tubos tomavam quase todo espaço, caixas agora vazias, mas Rod sabia que um dia elas contiveram tecido e nervos vivos, pois formavam o mais fantástico biocomputador jamais construído. A tecnologia se perdera, e os terrestres nunca souberam dela.
- Por aqui, senhor...
- Rodrigo, e nada de senhor, me chame de Rod.
Entraram numa sala menor, mas não menos bela e decorada. Em redomas de liga de carbono transparentes, rolos de cristal ultrafinos. Albert falou, um leve sotaque inglês impregnava seu solanês:
- A parte não danificada já foi traduzida. Elas revelaram os nomes...
Albert explicou-lhe tudo que Rodrigo já sabia através de Atron ou pela Solarnet, portanto não prestou atenção, pensan |