|

Livro dividido por capítulos. Leia a introdução e aguarde a página carregar.
O Universo de Atron K-Rosam'vev foi criado por
Vitor H.B. Ribeiro. Inspirado nos mais diversos segmentos
da Ficção Científica ele criou um herói épico de proporções Galáticas. Atron, um ser imortal, que usa
a fortuna adquirida por Rodrigo Maulson, seu último corpo, sua inteligência e coragem, para alcançar
seu objetivo maior, encontrar sua verdadeira origem e o propósito de sua existência. Uni-se a esta trama,
personagens cativantes e por vezes cômicos que ajudarão o herói na resolução de inúmeras intrigas, desencadeadas
principalmente por seu mais ardiloso inimigo Jonas Carvalhosa. Nas aventuras de Atron podemos
saborear um pouco de tudo, ação com pitadas de violência, amor com pitadas de sexo e amizade com pitadas de
traição.
No Livro I - Viver Outra Vez, você caro leitor poderá delinear o perfil
do personagem principal e deleitar-se com inúmeros personagens caricaturados ou não, que o cercam. Descobre
como Atron usa seus poderes e como ele aproveita-se das situações mais inusitadas para alcançar seus
objetivos. Também conhece sua namorada Janaina e toda a gama de vilões, que podem estar em qualquer
parte da Galáxia e até mesmo no círculo mais próximo do nosso herói. Nesta primeira aventura Atron
deixa o corpo de um Almirante falido chamado Guilherme Kirer e assume o corpo de Rodrigo Pereira Maulson.
No Livro II - A Busca, Atron com sua namorada Janaina e sua
recém encontrada irmã Liany, embrenham-se em uma aventura há anos luz da Terra para solucionar um dos
mistérios que envolvem a civilização que deu origem a Atron, todos seguem em busca de Martogh o
Filho dos Deuses. Não faltará ação, emoção e toques de sensualidade.
No Livro III - Novos Caminhos, Vitor H.B. Ribeiro,
em conjunto com a também escritora Sílvia S. Costa e a revisora
e escritora Viviane N. Martins, dá continuidade a saga de Atron.
Os conflitos intensificam-se. Nesta empreitada junta-se a ele sua irmã Liany, também imortal,
a poderosa Orana Sylvia, a Capitã da UniCiv Adriana O'Riorke e seus antigos companheiros de
aventura, todos a espera de uma ameaça desencadeada pela perigosa Ordem Zinédica enquanto eles buscam
por Zonos. Será que ele terá as respostas para Atron? Fora isso Atron precisa livrar-se
das normas e dos policiais da UniCiv - União das Civilizações.
No Livro IV - A Vitória do Inimigo, Vitor H.B. Ribeiro,
em conjunto com a também escritora Sílvia S. Costa e a revisora
e escritora Viviane N. Martins criam novos obstáculos para Atron.
Atron e Sylvia, mais Liany, estavam preparados para localizar Kerian a base de
Valéria e tentar chegar até Tirênia e destruir Zonos. Se falhassem, uma orana rebelde e o demônio
encarnado iriam devastar nossa Galáxia e talvez outras, escravizando populações inteiras, destruindo planetas,
torturando inocentes e tomando conta de cada faceta da vida de cada ser vivo nesta região do Universo...
Seria o fim do mundo como o conhecemos... Estamos adentrando o ano-padrão de 2.770 da União das Civilizações,
entidade politico-administrativa englobando milhares de planetas em 3.000 anos-luz cúbicos da Divisão Um da
Galáxia da Via-Láctea, com sede em Zeta Hérculis e tendo como tripé governamental a Terra, Daryani
e Thor, e como eminência parda, Oranus. Como semi-aliados os xyraxianos, e como ferrenhos inimigos os
rominatenos. Sendo ameaçados de vez pela superior raça dos quibariis... Assim começa
A Vitória do Inimigo!
O Futuro deste projeto é um mistério, contudo aqueles que tiverem
oportunidade de ler as aventuras de Atron K-Rosam'vev poderão desfrutar de horas de diversão, em um
mundo fantástico com criaturas bizarras, mulheres fortes e homens poderosos. Para aqueles que buscam aventura,
encontrarão neste Universo um cativante personagem em um mundo cheio de possibilidades.
Vitor H.B. Ribeiro é Analista de Sistemas, tem 38 anos e
mora em Sorocaba. Seus hobbies são: ler, escrever e ferreomodelismo. Adora ler Isaac Asimov, Arthur C. Clarke
e outros mestres da FC. O dom de escrever, ou pelo menos o gosto, herdou de seu pai, o seu maior incentivador,
que tem vinte e seis livros publicados de não-ficção. Seu nome é João Ribeiro Jr. Adora criar, desde software
até maquetes de cidades, e, claro, estórias como simples diversão.
Leia outras obras do autor no Scriptonauta
Sílvia S. Costa é Bióloga tem 32 anos e mora atualmente em
São José dos Campos. Escreve desde dos 12 anos e também é autora de vários fanfcitions inspiradas no
universo de Jornada nas Estrelas e co-criadora do Universo da USS Atlantis. Também
escreveu outras obras de Ficção Fantástica inspiradas no universo ficcional de Marion Zimmer Bradley.
Leia outras obras da autora no Scriptonauta.
Um pouco mais de Atron K-Rosam'vev...
Em 2.763, Ano Padrão Solar, Atron K-Rosam'vev mudou
novamente de corpo. De Guilherme Kirer passou a ser Rodrigo Pereira Maulson. Isso aconteceu
em Morros Gêmeos, Subdistrito de Minas Gerais, Distrito do Brasil, Terra, Livro I - Viver Outra Vez.
O ser que nasceu em Marte, a cerca de quinze mil anos atrás, tinha
este estranho poder. Fôra-lhe concedido por Martogh, Filho dos Deuses e desde então Atron
tem pulado de corpo em corpo. Juntamente com sua irmã Liany, deveriam guardar a Chave da Prisão de
Zonos, o Imperador Negativo. Porém, Atron/Rodrigo não mais podia lembrar-se, com detalhes, de
sua primeira vida, da tal chave ou de quem foram Martogh ou Zonos. Tudo que sabia é que deveria
procurar uma lendária estrela verde de nome Tarínia. Além disso, lembrava-se que fôra um dos reis de um
imenso império que era governado por Marte, o Império Lemântico. E Marte, naquela época, era chamado de
Leman, que significava A Fonte de Todo Poder. Tinha armazenado as memórias de todas as suas
outras vidas, a partir de seu segundo corpo. Ficavam numa fenda entre o Universo e o
Ante-Universo.
Desde sua segunda vida, como Kim Kay-War, no distante
planeta de Tarrent, Rodrigo procurava a razão de poder pular de corpo, o motivo de seu império
ter sido arrasado, quem eram aqueles com quem conviveu quando era Atron e também a localização de
Liany, sua irmã gêmea, se é que ela ainda tinha sua alma neste Universo. Agora, depois de quinze mil
anos, ele possuía o capital e a tecnologia para partir em sua busca...
Livro II - A Busca - Capítulo I.
Olhando pela imensa janela de seu escritório, no alto do edifício da Maulson Interplanets em Belo Horizonte, Rodrigo admirava o fantástico pôr-do-sol. Suspirou, pensando em como ultimamente estava só. Ele gostaria de compartilhar aquela vista com alguém especial naquele momento, mas não havia ninguém assim. Sua vida atual estava em um marasmo que Rodrigo, ou Atron, não gostava de jeito nenhum, e agora ele pensava em uma maneira de mudar as coisas.
Lembrou-se de Milena, e em como quase morreram naquela armadilha preparada por Jonas Carvalhosa. Uma família de andróides, imitando com perfeição os humanos, havia comprado sua mansão. Ele estava morando na fazenda de seu amigo Douglas Sameros, que era como um pai para ele, e estava namorando Milena Almadori.
A jovem mulata e Rodrigo estavam conversando em seu quarto, cuja janela dava para os fundos da mansão, quando viram aquela criança cair e foram socorrê-la. Mas eles não sabiam que era uma andróide programada para matá-los.
Ela os atacou com dentes enormes de aço inoxidável e arrancou a perna da ex-sócia de Rod, que gritou e quase morreu. Depois houve uma intensa luta entre o jovem milionário e a androíde, onde Maulson acabou muito ferido e teria sido morto se Douglas, ouvindo os gritos, não tivesse chegado a tempo de destruir a máquina com uma velha garrucha.
Milena, ex-modelo e ex-estudante da UMG teve a perna reconstruída e reimplantada, mas foi embora de Morros Gêmeos com medo e deixou Rodrigo, que ficou algum tempo no hospital, entre a vida e a morte. Mas sobreviveu. Se morresse, como estava em coma, não poderia fazer o ritual de Transferência da Alma e não poderia encontrar outro corpo, terminando ali sua jornada de quinze mil anos.
Contudo estava bem, de pé, inteiro. Rico, vivia uma vida de prazeres, mas também de muito trabalho, desde que se formara em administração na mesma UMG onde conhecera seu grande amigo, Antônio Varello, sua também ex-namorada, Suzana Luciara, e o atual vice-diretor de sua empresa, o mexicano Herberto Fontes.
Caminhou até seu barzinho particular e serviu-se de um WhiteCoffee bem quente, para lhe aquecer a alma solitária. Sentou-se na grande mesa cheia de monitores mostrando imagens e gráficos multicoloridos, informações estatísticas e mensagens, de onde comandava a grande indústria que possuía. Continuou a lembrar-se dos últimos anos, quando deixou Morros Gêmeos após a formatura e comprou aquele enorme apartamento flutuante. Convidou Douglas para vir com ele, mas o velho de mais de noventa anos não quis saber de deixar sua fazenda, mas, afinal, nem poderia, a Fazenda Sameros sempre fôra seu lar.
Começou a pensar em suas vidas passadas. Como os seres humanos amadureceram! Desde que chegara a Terra como Aron de Varg, observava-os. Após doze mil anos, vira-os vencer a fome, a poluição, a superpopulação e alcançarem o espaço, criando colônias e desenvolvendo uma fantástica tecnologia, uma tecnologia melhor da que conhecera no passado distante do Império Lemântico.
Bem, pensou, sorvendo o líquido branco e alcoólico, agora era um deles. Onze mil anos como humano (pois quando chegara a Terra era kapricano, e depois foi um hopyt, um mendor, um...). Era impossível não ter se tornado um deles, a despeito de sua origem.
Vivera grandes aventuras, suas vidas sempre foram muito agitadas, e ele sempre foi um personagem importante da História da Galáxia e, principalmente, da História dos Humanos.
Então precisava fazer alguma coisa diferente para sair da rotina: odiava rotinas. Suas pesquisas a respeito de sua origem não estavam dando em nada, então tinha de, mais uma vez, sair a campo, ou seja, viajar pelo espaço a procura de respostas. Respostas para as questões que mais lhe afligiam: quem realmente era, porque e de que forma foi lhe dado o dom de mudar de corpo e o que aconteceu em sua primeira vida. E onde estava Liany, sua "primeira" irmã? Morta ou também vivendo em outro corpo?
Rodrigo decidiu: iria retomar sua busca e abandonar a rotina. Como? Compraria uma nave e sairia pelo Universo. Afinal, era o que fazia em suas últimas vidas passadas: explorava o espaço.
Ficou entusiasmado com a idéia e começou a caminhar pelo seu enorme escritório, com as mãos para trás, alimentando seu cérebro com saborosas imagens de aventuras, de mundos distantes e de seres bizarros. Pensava: e a Maulson Interplanets? Deixaria a cargo do Herberto, que era de muita confiança. Além do que, não se sentia bem sendo apenas um rico empresário. Queria voltar a ser como Joshua Kirok, capitão estelar, uma das "vidas" que mais gostou experimentar. Como não tinha mais paciência de seguir a carreira militar e galgar tudo de novo até o posto de capitão, achou que, agora milionário, podia comprar sua própria nave espacial e sair por aí fazendo o que bem entendesse. E era o que faria!
- Ligue-me com a maior revendedora de iates estelares que existe aqui na Terra, imediatamente! - Disse Rodrigo, pressionando um círculo luminoso em sua mesa de trabalho. A secretária-robô respondeu quase que imediatamente:
- Na linha o senhor Rovilson da Yanomura Veículos Espaciais.
- Senhor Rovilson - disse Rod para o ar - gostaria de adquirir seu melhor e mais veloz iate espacial, e tenho pressa para recebê-lo. O que o senhor me oferece?
- O senhor é...?
- Rodrigo Maulson, presidente da Maulson Interplanets.
- Ah, senhor Maulson, temos equipamentos de sua fábrica aqui na loja! É um prazer falar com o senhor! Temos as melhores naves do Sistema Solar e região a preços imbatíveis!
Rodrigo pensou que, em milhares de anos, os vendedores não mudaram nada.
- Quero algo confortável, bem equipado e rápido. Preço não importa.
- Ora, tenho aqui o maravilhoso Senegal 3000...Ou talvez o Oiapoque KA-56...Não, acho que o que o senhor quer mesmo é o Spirit da Wonka. Porque o senhor não vem até nossa loja dar uma olhada sem compromisso?
- Estou indo imediatamente. Por favor, passe o endereço para o meu gravicar.
****
Havia um iate que chamou a atenção de Rod: grande, aerodinâmico, poderoso. Era preto com filetes dourados, inponente. Era o Spirit Phase IV GLX da Wonka. O jovem Maulson olhava o luxo interno junto com o vendedor Rovilson:
- Ele vem com gerador de mini-wormhole?
- Este é um item opcional bastante caro.
- E quanto a geradores próprios para viagen interestelares?
O jovem de poucos cabelos e ar nervoso pensou um pouco e respondeu:
- Bem, normalmente quem compra estes iates usa os Portais. Mas a Avery Transportation vende geradores para iates, posso indicá-los para o senhor. E, claro, a sua fábrica produz alguns dos melhores...
- Mas não do jeito que eu quero. E a computação?
- Ele vem com um Uirapuru PCA feito no Maranhão com semi-senciência.
Rodrigo olhou mais um pouco e gostou, então pediu:
- Coloque todos os opcionais e veja o preço...Vamos negociar...
****
A semana passou rápido com o rico empresário licenciando sua nova aquisição e passando por um treinamento na revenda sobre a operação básica do iate. É claro que precisaria de uma tripulação, mas naquele momento estava preocupado em fazer sua fábrica construir um gerador wormhole de grande potência, além de envenenar os motores fotônicos normais de sua nova nave.
Nas oficinas de sua propriedade em Contagem, Rodrigo acompanhava as mudanças que pedira no Spirit e aguardava a chegada de um gravinhão. Ele chegou e Maulson mandou que seus funcionários, entre eles alguns robôs, retirassem com o máximo de cuidado pesadas caixas de seu interior e as levassem para a área do núcleo do computador do iate. Ordenou ao seu capataz:
- Deixe minhas ferramentas junto dessas caixas. Vou trabalhar lá no núcleo e não quero ninguém bisbilhotando, entendeu? Nem você! Se eu for incomodado por alguém, despeço na hora!
- Sim, senhor, farei isso imediatamente.
Sozinho, longe da agitação em torno dos motores e outros sistemas da nave, num compartimento apertado, Rodrigo abriu as caixas e lá estavam, pulsando e brilhando, pedaços de seu biocomputador particular, que criara segundo suas velhas lembranças de quinze mil anos atrás. Aquele equipamento tecnológico vivo era único, pelo menos na UniCiv. Ele o instalaria na nave, o que a tornaria muito especial...
****
- Rovilson, você parece assustado...Não foi seu gerente quem sugeriu que você viesse testar o iate comigo no espaço? - Perguntou um feliz Rodrigo Maulson.
- Sim - o vendedor engoliu seco - mas sempre tive medo de viagens espaciais...
- Ora, que é isso! Um vendedor de naves que tem medo do espaço exterior?
Ele deu uma risada sem graça e olhou para o outro lado enquanto Rod, habilmente, testava a manobrabilidade de seu novo iate. Em órbita da Terra, ele virava a nave de todas as maneiras possíveis, acelerava, freava e admirava a beleza daquele planeta azul debaixo deles. Então a virou abruptamente para a direita e saiu de órbita:
- Vamos para a Lua! - Pressionou uma tecla luminosa no painel multicolorido - Central de Tráfego, permissão para ir à Lua através de Portal.
- Aguarde...Portais congestionados...
- Merda! O trânsito aqui na Terra está cada vez pior!
Tiveram de esperar quase quinze minutos, então o controlador de vôo, em um solanês carregado de sotaque nordestino, disse pelo rádio:
- Iate estelar WDS-34569, pode usar o Portal TL-5, após a nave nigeriana.
Em instantes estavam em órbita lunar, e Rod se deslumbrou, como sempre fazia, com a cor prateada do imenso satélite natural da Terra. O contornou e então olhou divertido para Rovilson ao seu lado, com cara de enjoado:
- Não está gostando? Ei, abra esses olhos e veja a beleza que está abaixo de nós...
O vendedor não respondeu e o empresário deu de ombros. A ponte, luxuosa, confortável e equipada da nave não era muito grande, mas era perfeita para um iate daquele porte. Os painéis de comando faziam um semicírculo em torno da janela-vídeo extremamente inclinada. As poltronas se adaptavam ao corpo e transmitiam uma sensação de segurança. O Spirit era fácil de pilotar e Maulson não teve problemas, usando a experiência acumulada em suas vidas passadas. Saiu de órbita de novo, tendo o cuidado de não esbarrar em nenhuma outra nave, satélite, estação ou qualquer outra coisa que flutuava pelo espaço naqueles dias e entrou em espaço profundo.
Suave e silenciosa, a WDS-34569 parecia parada, mas Rod a acelerava para mais de nove mil quilômetros por segundo, três por cento da velocidade da luz, sua velocidade máxima. Se não fossem os geradores wormhole, demoraria anos até chegar a estrela mais próxima do Sol...
Rovilson se agitou:
- Vamos ter problemas relativísticos a essa velocidade! Ei, você envenenou os motores fotônicos! Pode perder a garantia...
- Não se preocupe, já estou desacelerando e só queria ver se esta beleza está funcionando bem. Rapaz pode falar para seu gerente que este Wonka é ótimo!
Rovilson, meio tremendo, concordou e então, olhando para os lados, perguntou:
- Seu computador está quieto demais...Será que o Uirapuru está com problemas?
- Não, não...Fiz algumas mudanças no computador também; não se preocupe.
Rodrigo sabia que seu biocomputador estava se integrando e assimilando o computador da nave e que logo, logo ele despertaria. Fazia já cinco anos que ele, seu biocomputador, "nascera", mas ele o manteve "dormindo" até achar uma oportunidade de usá-lo. Agora o Bio, como ele o chamava, estava se tornando parte integrante de seu iate.
- Vamos voltar a Terra. Minha equipe de Contagem já deve ter posto em órbita o módulo de geradores wormhole que vou usar com esta nave. Quero testá-los indo até Vênus!
Enquanto o jovem empresário fazia meia volta, o igualmente jovem vendedor se empertigava todo na poltrona e gemia:
- Por favor, deixe-me na Terra! Não quero mais viajar fora da atmosfera dela!
Rod riu. Ao chegar ao planeta-mãe dos humanos, testou o gerador de mini- wormholes interno e pessoal do iate e produziu um túnel por onde Rovilson caminhou até a revenda onde trabalhava, "cortando caminho" pelo ante-espaço, e despediu-se.
Depois, sentindo-se muito feliz, encontrou os geradores de grande porte produzidos por sua fábrica que estavam em órbita geoestacionária sobre Minas Gerais e, com ajuda de seus engenheiros, os acoplou ao iate. Eram com um grande V invertido, cada gerador em formato de barril emanando uma luz azul bruxuleante. À parte de cima do V invertido se encaixava na parte de baixo da nave e, embora aquele conjunto parecesse estranho, poderia sozinho viajar rumo às estrelas mais distantes, sem precisar dos Portais estáticos que esburacavam o espaço.
Normalmente naves pequenas usavam estes túneis fixos, a maioria artificiais, mas para ir além do espaço conhecido, ou para planetas distantes ou ainda para civilizações não-aliadas, só mesmo escavando o Universo com recursos próprios, e era isso que Rodrigo queria.
Após a permissão do Controle de Tráfego, suas unidades abriram o conhecido torvelinho à frente da espaçonave e o conjunto entrou no ante-espaço, com a curiosa luz leitosa tomando conta de tudo, pontilhada de estrelas negras. Quanto emergiu, estava a apenas dois mil quilômetros de Vênus, o planeta que a humanidade tentava domar a séculos. Desconectou o iate do módulo dos geradores e, habilmente e com um certo prazer, guiou sua nave através das nuvens que tomavam conta do planeta até Afrodite, a bela capital em meio a um mar sulfúrico artificial e vulcões inescrupulosos.
Suavemente voou por entre as miríades de edifícios protegidos contra o calor tórrido de Vênus, que, mesmo tendo diminuído muito à custa do trabalho de terraformização, ainda beirava os 80 graus, isso ao ar livre, no equador.
Passando por um enorme portal em estilo gótico, Rod pousou o iate num dos vários espaçoportos da cidade. Desceu pela rampa frontal e admirou a beleza aerodinâmica de sua nova posse, suspirando, após o que seguiu em direção ao transporte público. Não fôra à Vênus simplesmente por ir, e sim procurar uma pessoa. Uma pessoa muito querida.
****
Janaína Ranadi era uma baiana lindíssima. Queimada de sol, tinha os cabelos na cor do trigo e um corpo escultural. Seu novo braço artificial, biônico, era perfeito e não se distinguia do outro, normal. Seus olhos eram de um azul profundo. Como agente da Polícia do Brasil, em cinco anos mostrou-se tão eficiente que agora atuava na Polícia Solar e estava numa missão importante em Afrodite. Desde que conhecera Rodrigo Pereira Maulson, se comunicava com ele, através de um pc ou videofone. Mas não se viam pessoalmente desde que Jan saíra de Brasília há dois anos, quando fôra promovida. Mesmo namorando a Milena, Rod não esquecera de Jan e daquela curta viagem na Mukabay.
Ela olhou-o com óbvia felicidade e pediu que entrasse em seu apartamento, no alto de um belo edifício, em um bairro residencial de luxo.
- É alugado - explicou ela a um curioso Rod - você sabe que estou numa missão demorada por aqui. Aliás, o que o trouxe à Vênus?
- Vim vê-la e ao mesmo tempo testar meu novo iate...
- Ah, nada como ser milionário num planeta rico como a Terra. Um iate, uma nave espacial pessoal para levá-lo Universo afora. Sabe, espero que não tenha apenas vindo exibir-se para mim...Sou alheia a coisas materiais...
- Não, Jan...Vim vê-la, entendeu?...Estava morrendo de saudades, estava maluco para ver-te novamente, não por uma tela de vídeo, mas pessoalmente...Você é maravilhosa, mais linda ainda ao vivo!
- Uau, que elogio! Bem, sente-se que vou pedir um WhiteCoffee.
O servo-robô trouxe o café alcoólico para ambos que conversaram banalidades até Janaína relembrar os fatos desagradáveis de cinco anos atrás:
- Jonas Carvalhosa podia tê-lo morto naquele atentado, não é mesmo? E está desaparecido desde então. Onde andará?
- Aquela família de robôs que ele plantou ao lado da fazenda Sameros era assustadora. Sorte nossa que a menininha caiu e bateu forte a cabeça, revelando o que realmente era. Mas quase nos matou com aqueles dentes enormes...Fiquei quase dois meses no hospital e a Milena deve estar tendo pesadelos com ela até hoje.
- Sim, eles estavam lá para matar a todos na fazenda, e se não fosse o Douglas socorrer vocês...O que ele fêz para salvá-los, afinal?
- Ele tinha uma garrucha ilegal escondida e com ela explodiu as cabeças dos robôs antes que trucidassem eu e a Mi. O cara é demais...
- Tem visto ele?
- Bem, você sabe que tenho trabalhado muito, a M.I. tem tomado todo o meu tempo, mas sempre que posso pego meu aero e vou visitá-lo. Continua o mesmo.
- É, morro de saudades dele, mas meu serviço na P.S. não permite uma visitinha a Terra, e olha que é aqui pertinho...
- Vênus é um subúrbio da Terra, Jan, caramba, é só uma viagem de uns dez minutos até lá...
- Ok, assim que der eu vou. Mudemos de assunto. O que pretende fazer com seu novo iate?
O rosto do rapaz se iluminou.
- Sair por aí. Vou deixar a empresa na mão do Herberto e fazer um cruzeiro.
Maulson pensou que o certo seria "exploração". Janaína resmungou:
- Bem que eu gostaria de largar tudo e ir com você! Se não fosse essa merda de missão neste planeta quente! Sabe, eu gostaria de conhecer mundos como Folson, Phoenix, Novo Caribe, os museus de Arcturus, Vega IV, e até os cassinos de Aldebarã.
- Ah, bem, pensei em ir mais longe um pouco, começando com Nishia.
- Nishia? Além de longe, é um planeta de pesquisa. Apenas cientistas...
Rodrigo levantou-se e foi olhar a paisagem venusiana da janela. O mar ácido ao longe burbulhava entre as nuvens.
- Quero ver a misteriosa esfera negra que está em estudo por lá. A de Marte foi roubada, e você conhece o fascínio que tenho por artefatos estranhos e alienígenas.
Fôra o próprio Rodrigo Maulson, a cerca de um ano, que roubara a esfera do Palácio do Vórtex, porque sabia que ela tinha algo haver com seu passado marciano ou lemântico. A examinou tocando-a com ambas as mãos, mas nada aconteceu. Rodrigo achava que a esfera era algum tipo de armazém de informações que estavam corrompidas com o tempo. Queria experimentar tocar da mesma maneira a esfera de Nishia e ver se ela estava em melhores condições. Rodrigo ainda roubara os rolos de cristal ultrafinos achados nas paredes do palácio e pretendia decifrá-los com seu biocomputador, aquele que estava prestes a acordar em sua nave.
Ele lembrou-se como fôra difícil roubá-los e sair do planeta sem ser pêgo. Da excitação que sentiu, da adrenalina nas veias...Janaína tirou-o de seu devaneio:
- Acorda, rapaz...O que você está pensando?
- Nada, nada, é que não vejo hora de partir...E gostaria que você fosse comigo...
Ela riu alto, mas de repente ficou séria:
- Sabe, desde que me formei na academia de polícia que não tenho um namorado, um sócio ou algo que o valha. E você é mais que um simples amigo para mim, mas minha carreira vem antes...Considero-a mais importante, no momento, que qualquer relacionamento. Mas eu iria se pudesse, se estivesse, sei lá, de férias. Não gosto muito de tirar férias, mas como a lei obriga a pararmos de vez em quando...Eu iria, Rod, mas não posso, obrigada. Mas podemos nos falar pela rq se você não for muito longe ou para lugares muito malucos.
"Este é o problema." - Pensou Rod, que na verdade não tinha idéia de onde iria parar. Suspirou e concordou com sua mais que amiga. Beijaram-se e se despediram. O milionário saiu, cabisbaixo.
Janaína ficou com pena dele, mas seus sentimentos mudaram quando seu VDcom apareceu atrás dela e na tela o rosto de seu chefe: havia uma nova missão, uma missão que a faria sair do Sistema Solar, sem dúvida.
****
Rodrigo Pereira Maulson estava de volta a Terra. Teria de recrutar uma tripulação. Colocou um anuncio na Solarnet e foi dormir, exausto pela excitação do dia. Sonhou com Liany, com o império que os habitantes de Marte formaram um dia e que, por algum motivo, foi devastado. Não dormiu bem e acordou na manhã seguinte atordoado, com dor de cabeça. Tomou um comprimido qualquer e pediu ao computador de sua casa o jornal, que flutuou até ele exibindo em sua tela ultra-fina as manchetes do dia.
Tocou em uma que interessava e ela se expandiu: não havia guerras ou disputas dentro das fronteiras da UniCiv, e aquela parte da galáxia estava calma. Os principais inimigos da União das Civilizações estavam ocupados com outras coisas. Era o momento ideal para sair para o espaço profundo.
O computador disse com uma voz feminina e suave:
- Existem 18 mensagens gravadas para o senhor.
- Toque-as para mim, por favor.
E no meio daquelas mensagens uma chamou-lhe a atenção. Não acreditou e pediu que o computador a repetisse, o que ele fez imediatamente:
Rod, sou eu, Milena, espero que não tenha se esquecido de mim. Tudo bem? Sei que você está procurando uma astronavegadora, e eu acabei me formando na UNICAMP, depois de sair de Morros Gêmeos. Estou precisando de emprego, o que acha de contratar sua ex?
O rico empresário achou que era uma boa idéia. Havia outra mensagem, de um rapaz que queria deixar de pilotar naves de minério decadentes nos asteróides para pilotar para ele.
Selecionou-os e pediu que seu computador marcasse uma entrevista com eles em seu escritório na Maulson Interplanets. Começaria a formar sua tripulação.
Livro II - A Busca - Capítulo II.
A vida no espaço não era fácil, Milena bem o sabia. E seria horrível viver numa nave pequena como um iate estelar por tanto tempo, mas a oferta salarial de seu ex-namorado era irrecusável, e ela estava desempregada. Além disso, no fundo sabia que não era uma grande astronavegadora. Aquele emprego talvez fosse o melhor que conseguiria, e, por fim, estaria de novo perto de um homem que ainda gostava...Um pouco.
Já Irineu Barracos não pensava em nada disso. O rapaz loiro de pele extremamente alva e olhos verdes apenas queria pilotar naves velozes e sair pelo Universo. Tinha um espírito agitado, notara Rodrigo, e era indisciplinado, na verdade um completo maluco, no entanto era um profundo conhecedor de naves espaciais e sabia muito bem domá-las. O jovem Maulson, um ano mais velho do que ele, entendia seu novo contratado e juntos, mais Milena, foram testar o iate indo até Saturno.
- Precisaremos de um mecânico!
- Você quer dizer um engenheiro, não é, Iri? - Perguntou Milena, já íntima do piloto, gostando de seu jeito amalucado. Ambos vasculhavam o painel intrincado do iate, enquanto, de pé atrás deles, Rodrigo apenas observava. Na grande janela-vídeo frontal estava o magnífico planeta Saturno e seu séquito de anéis.
- Senhor Barracos, leve-nos até Titã.
- Senhor Doutor Ilustríssimo Capitão Estelar Supremo, estamos indo para lá agora mesmo...A propósito, o senhor já foi capitão de nave, ou serviu na Força Azul?
- Digamos que já tive minhas experiências, sim...Mas não fui capitão, não.
"Não nesta vida" - pensou Rodrigo, mas de qualquer forma ele estava se divertindo. Titã estava abaixo deles e o rico empresário estava impressionado com a facilidade de navegação de seu iate. Achou que devia dar um nome à ele, pois chamá-lo de WDS-34569 era um bocado ruim. Resolveu perguntar à seus novos empregados. Irineu respondeu primeiro:
- Chame-o de Luxo das Estrelas!
Milena fêz uma careta:
- Horrível. Chame-o de Luz das Estrelas!
- Sabe quantas naves se chamam assim no Universo? Bulhentas!
- Ah, Iri, é que é um nome bonito. Bem, que tal Negra Beldade?
O piloto e o dono do iate riram a valer, Milena deu de ombros. Fôra chamada assim quando era modelo. Rodrigo sentou-se na poltrona de comandante e disse, pondo os pés em seu painel de controle e as mãos atrás da cabeça:
- Vamos chamá-lo de Tubarão. Sem mais nada, sem apêndices como das estrelas ou do espaço...Não creio que exista alguma nave com esse nome, além do mais, sem os geradores wormhole, este iate parece justamente isto, um tubarão...
Irineu, testando os controles, disse distraidamente:
- Melhor: Squalus. Um tipo de tubarão.
- Taí, gostei - disse Milena, também se familiarizando com o complexo painel de controle. Estavam agora novamente em órbita de Saturno, se aproximando bastante para admirar a beleza do planeta gasoso que tomava tôda a janela. Rodrigo deu seu parecer final:
- Será Squalus. E vamos tocar esta beleza para El Dorado, o que vocês acham de começarmos nosso cruzeiro nos divertindo...E lá existem ótimos engenheiros, realmente precisaremos de um...E quem sabe até um médico...
El Dorado era uma cidade estelar enorme. Fantástica, fenomenal, maravilhosa eram adjetivos usados mais antigamente, porém só seu centro, o Núcleo, poderia ser chamado assim nos dias atuais. Tudo começou com a descoberta de um cometa cujo principal componente era o ouro. O Núcleo foi construído com este metal.
Depois surgiram os condomínios de luxo em volta, tudo no espaço interestelar. Mais tarde vieram parques e cassinos. Por fim, indústrias, quando parte da população rica seguiu para colônias planetárias, cansada de viver em pleno espaço. Subúrbios de uma classe menos favorecida foram construídos, alienígenas de pouca confiança lá se instalaram, pois era o mais perto da Terra que conseguiam chegar.
Afinal, El Dorado ficava na orla do Sistema Solar, bem além da órbita de Plutão, a caminho de Alpha Centauri, a estrela mais próxima do Sol. Ficava no Cinturão de Kuiper.
O Squalus era um dos mais imponentes iates estacionados no Porto das Ásturias e Rodrigo o admirava de sua poltrona no veloz monotrilho que os levava ao Cassino Dourado, onde se hospedariam. Quando o espaçoporto atulhado sumiu de vista, puderam ver o Núcleo, onde haviam construções brilhantes de ouro puro contra o fundo de estrelas.
A luz não provinha do Sol, que nada mais era que um pontinho qualquer, mas de poderosos holofotes espalhados estrategicamente ao longo da cidade espacial.
- Pagarei a estadia e as refeições como combinamos. Amanhã, Irineu, volte à Terra com Milena para se prepararem, pegarem suas coisas e se despedirem dos parentes e amigos. Saíremos para nosso cruzeiro até Nishia na sexta.
Irineu pareceu concordar, mas estava mais preocupado em chatear um alienígena esquisito que estava sentado à frente dele. Milena virou-se para Rod:
- Vamos abastecer aqui? Na Terra é mais caro...
- Sim, encham os tanques, mas tem coisas que são mais baratas na Lua. De qualquer forma deixem o Squalus totalmente preparado para uma longa viagem.
No grande saguão do cassino-hotel, de um luxo impressionante e com pé-direito de dez andares, havia um pequeno lago cheio de cisnes-robôs. Os três visitantes seguiram para o check-in e um carrinho-robô os levou ao belo quarto com vista para o centro do Núcleo. Irineu logo saiu, dizendo que ia conhecer as redondezas e paquerar, deixando Rodrigo Maulson e Milena Almadori à sós. Não haviam trazido nada, pois a viagem fôra inesperada, então o rico empresário sugeriu comprarem algumas roupas, para passear e dormir.
- Antes quero...Relembrar os velhos tempos...- Milena disse isso e despiu-se da micro-saia. Continuou: - Você tem muitos defeitos, mas sabe tratar uma mulher como poucos...- tirou a calcinha, ficando nua diante de um Rodrigo malicioso.
- E você ainda mexe comigo. - Respondeu, despindo-se rapidamente enquanto Milena admirava o corpo escultural que Rodrigo adquirira nos últimos cinco anos. Ela ajoelhou-se diante dele e olhou-o de baixo para cima:
- Você me lembra um deus grego...!
Amaram-se de uma forma bem selvagem e elouqüente. As estrelas, horrorizadas, se tivessem olhos os fechariam, mas estavam ali, testemunhando dois corpos unindo-se de maneiras impossíveis, através das janelas ovais.
Em todas as posições, Rodrigo e Milena se fundiam, um dando prazer ao outro, mas o jovem rapaz tinha, lá no cantinho escuro do cérebro, a imagem de Janaína...
****
O homem à sua frente era extremamente polido. Devia ter uns quarenta ou cincoenta ou até sessenta anos, mas naqueles dias era difícil saber a idade de alguém só de olhá-lo, todos pareciam muito mais novos do que realmente eram. Era negro e de olhar firme. Muita experiência em engenharia de naves espaciais, pedia um salário alto, mas Rodrigo dispôs-se a pagá-lo. Seu nome era Frank Mugama, marciano descendente de africanos.
Estavam sentados num barzinho do Porto das Astúrias.
- Você será bem-vindo à Squalus, mas talvez nossa viagem seja longa. Saíremos sexta às quatorze, horário universal, em direção à Nishia.
- Desculpe-me a curiosidade, senhor Maulson, mas Nishia não passa de um planeta de pesquisas, e é muito longe...
- Quero ver a esfera negra restante, igual a que havia em Marte. E não sou um turista comum, quero conhecer lugares...Diferentes. Então, estamos acertados?
O tradicional aperto de mãos entre humanos se deu no momento em que Milena e Irineu apareceram, de volta da Terra. Houve troca de apresentações e cumprimentos. A astronavegadora então disse:
- O iate está pronto. E nós também, então que tal jantarmos?
- Isso mesmo - concordou Rodrigo - Toda esta minha tripulação está convidada a comer no Supremo.
De monotrilho seguiram em direção à um magnífico prédio no Núcleo, através de um tubo transparente que contornava as paredes externas da cidade estelar. No edifício dourado subiram de elevgrav até o salão panorâmico onde um dos mais famosos restaurantes da UniCiv, o Supremo, fôra construído.
Em qualquer direção que se olhasse via-se a cidade e as incontáveis janelas de seus prédios. Naves e outros objetos flutuavam e obscureciam as estrelas que serviam como pano de fundo. Um cometa qualquer aparecia quase sem calda, pois ainda estava distante do Sol, iluminado pelos potentes holofotes dos mineradores. Além de uma das últimas torres de El Dorado, via-se uma elegante nave de cruzeiro e atrás dela, havia uma imensa indústria espacial.
Milena, que nunca vira coisa igual, ficou sem folêgo.
Um garçom humano, um inglês muito simpático, os atendeu e logo saborearam uma refeição dos deuses. Milena estava bebendo seu vinho tinto quando comentou:
- Acho que o computador da nave está com defeito. Ele funciona, mas não fala e tem algumas reações estranhas, como emitir assobios e estalidos. Também fêz variar a energia dos sintetizadores várias vezes.
- Acho que devo examiná-lo. - Disse Mugama.
Maulson balançou a cabeça negativamente:
- Não, ele está em ordem, deixem ele comigo...Não é o computador original da nave. É um protótipo especial, que depois será...ah...apresentado à vocês.
Todos se entreolharam e deixaram a conversa seguir outros rumos. Rod esperava que não ficassem muito surpresos quando conhecessem o Bio.
A deliciosa noite acabou com Mugama indo dormir cedo, Irineu e Milena se divertindo no turbo-fantasies, e Rod passeando sozinho, pensativo, pelos magníficos jardins do Núcleo.
****
A procura por suas origens tornara-se uma obsessão para Rodrigo Maulson/Atron K-Rosam'vev e ele seguiria as pistas onde quer que elas o levassem. Numa galáxia como a Via-Láctea com duzentos bilhões de estrelas, era como procurar uma minhoca amarela num calderão de macarrão, mas ele sabia que era quase imortal, então dispunha de tempo. Sentado à frente de seu computador, em sua cabine na Squalus, o rapaz de muitas vidas descansava sob o sol da realidade virtual. A nave estava a caminho de Nishia, cortando o ante-espaço em velocidade de cruzeiro.
Bio ainda não falara nada, mas já produzia imagens fantásticas para seus usuários, e meditando debaixo de uma árvore que só existia em sua mente, Rodrigo lembrou-se do tempo em que fôra um rei na antigüidade da Terra, quando acumulou poderes e riquezas formidáveis.
Depois ele foi um guerreiro valente, mais tarde um pobre mercador.
Navegava pelos mares como descobridor quando foi assassinado num motim, e teve de incorporar uma escrava sexual que foi vendida na Fenícia.
Conhecia tão bem as mulheres porque várias vezes já fôra uma delas, mesmo sendo sua vida original masculina. Sabia que no fundo eram iguais, mas tinham desejos e anseios diferentes. Pensar com cérebro feminino era totalmente diferente do que pensar com o masculino, mas chegavam a respostas semelhantes. Era curioso como o Todo Poderoso dispusera as coisas: afinal um completava totalmente o outro.
Mas também já incorporara homossexuais, tanto homens quanto mulheres em suas vidas ao longo de quinze mil anos. E era estranho como não podia, não conseguia controlar os desejos do corpo. Estava preso naquilo que a pessoa fôra, embora, aos poucos, pudesse moldâ-la. Se o indivíduo, antes de morrer, era um crápula, ele também o seria até impor, em parte, sua personalidade, seu eu. Se a pessoa era egoísta, também o seria, se era sádica, mesmo com seus pudores não poderia evitar, num primeiro momento, de torturar alguém...
De qualquer forma o ser humano o fascinava: que maravilhosa obra de engenharia de Deus ele era. Seu ser Atron, da primeira vida, não era humano, embora fisicamente se parecesse com um. Mas um humano pensava e agia diferente, sentia de modo diferente, ele bem o sabia. E ele gostava de ser humano!
Forçou-se a lembrar-se de Marte: um planeta maravilhoso. E os marcianos - lemânticos - viviam na prosperidade até seu planeta ser atacado, ser devastado, ter sua atmosfera arrancada, ter sua gravidade alterada...Por quem? Como?
Começava a achar que não queria saber a resposta...
Saiu da realidade virtual de seu computador quando ouviu o alarme da nave tocar e socou o botão do comunicador.
- Senhor Mugama, o que houve?
- Um defeito no hidrocoletor da fase invertida do setor de terminação flutuante! Isso acontece em motores de fótons novos mal-regulados. Teremos de parar, é melhor voltarmos ao espaço normal e procurarmos uma oficina!
Malson bateu no seletor e ordenou:
- Milena, tire-nos do ante-espaço imediatamente. Onde emergiremos?
- Não tenho idéia...Estou calculando...
Rod ouviu a voz de Irineu pelo comunicador:
- Mi, veja se faz direito senão saíremos no meio de uma estrela e eu sou novo demais para virar churrasquinho...
A Squalus emergiu, mais por sorte do que competência, longe de qualquer estrela. De novo no nosso espaço positivo, o iate cortou o éter a dois por cento da velocidade da luz e Milena recebeu ajuda de Irineu para se localizar na Galáxia...Ela entendeu as imagens em uma de suas telas e informou ao "capitão" da nave:
- 'Driguinho, estamos perto de um sistema habitado...Não muito longe de...Hummm...Metra. É, é isso, um planeta chamado Metra...Aquele da cidade que toma o mundo todo e tem a atmosfera toda poluída...
Rodrigo rosnou impaciente:
- Milena, esqueça esse apelido horrível que você me deu, e me chame de...Capitão. Gosto disso. Atenção à um aviso importante! A partir deste momento toda a tripulação do iate estelar Squalus deve-me chamar de capitão Rodrigo...E senhor Mugama, acha que dá para chegar até Metra?
- Melhor desligar os motores e deixar a inércia fazer o seu trabalho. Podemos danificar o pseudo-hogranífolo se insistirmos demais...
E assim foi feito, sendo que levaram duas horas para entrar em órbita de Metra. Rodrigo, agora na ponte de comando, olhava o planeta cinzento e cheio de nuvens abaixo deles e comentou:
- Que lugar horrível, e o pior é que os nativos gostam dele. Não viajam para o espaço, e se no passado respiravam o ar como o nosso, agora não vivem longe da poluição...Gás carbônico, enxofre...
Irineu Barracos, sentado à frente de seu painel super-colorido e cheio de botões, disse:
- Pois é, melhor mesmo é consertarmos essa joça e darmos o fora daqui rapidinho...Já achei uma oficina e o Muga lá trás está tentando fazer um dos motores pegar para podermos descer...
- Mugama! - Berrou o engenheiro pelo comunicador, enquanto trocava algumas placas e apertava alguns botões. O iate se desconectou dos geradores wormhole. O motor número 4 acendeu e o jovem piloto guiou a nave atmosfera adentro em direção à um bairro terráqueo na imensa cidade alienígena.
Aligomurda era como se pronunciava o nome do planeta na língua nativa e Metra era uma corruptela de Metropolitana, ou Civilização Metropolitana, nome dado pelos humanos. Na cidade que entrava milhares de metros pelo subterrâneo e subia aos céus com edifícios monumentais, tomando todo o planeta, viviam muitos humanos da Terra.
E era na oficina de um deles, autorizada da Wonka, que o iate aportou. Ficaram sabendo que teriam de passar a noite (Horário Universal) ali, e Tommio Nomura, o dono da oficina, indicou um hotel do bairro. Os metranos não saíam do lugar onde nasciam, não viajavam, porisso não existia hotel para os nativos, nem restaurantes ou boates, mas os milhões de humanos que viviam lá criaram tudo isso para uso próprio. Eram pessoas que gostavam de viver na poluição, e no caos, de uma cidade que lembrava as antigas megalópolis da Terra.
Hospedaram-se no Metra Hilton e Milena quis ficar no mesmo quarto de Rodrigo Maulson, enquanto Irineu optou por ficar sozinho, deixando Frank Mugama voltar ao iate. O engenheiro de meia-idade preferia dormir na nave e acompanhar o conserto.
Eram onze da manhã naquela região e tarde da noite para eles. A astronavegadora, o piloto e o capitão jantaram no restaurante do hotel e depois Irineu foi passear pela cidade, enquanto Rod e Milena iam para o quarto. Podiam ver a oficina da janela, com uma entrada enorme que se abria a milhares de metros do solo sujo e morto. Podiam ver prédios e mais prédios de todos os jeitos e tamanhos, trens, naves, e "ruas" por onde milhares de carros flutuavam no ar em diferentes alturas em enormes congestionamentos, e havia buzinas irritantes e gente gritando, sirene e tudo o mais.
Rodrigo abraçou Milena por trás e ambos olhavam aquele caos. O homem das muitas vidas lembrou-se do século XX e XXI onde chegou a morar em cidades como aquela. Só não eram tão grandes. A garota virou-se para ele e o encarou:
- Voltamos à namorar?
- Vamos só socializar por enquanto, está bem? Lembra-se do que você fez para mim?
- Sim, claro, mas naquela época da faculdade viver com você era correr risco de morte. Aquele tal de Carvalhosa queria nos matar, e quase conseguiu. E eu quase fui violentada pelos Malucos Safados, lembra-se? Depois do ataque da menina-robô, achei melhor ficar longe de você...
- Mas eu fiquei entre a vida e a morte no hospital, em coma, e você nem foi ver-me. Depois que recriaram sua perna, você sumiu!
- Fui para Campinas, acabar meus estudos e tentar esquecê-lo, porém isso foi impossível. Pensava em você todos os dias, juro! E quando vi seu anúncio...
- Ok, ok, deixa para lá. Não importa, Mi. Estamos juntos agora, e, acredito, livres do Carvalhosa. Toda a polícia da UniCiv está a procura daquele bárbaro...
Trocaram um delicioso beijo de língua. As mãos de Rodrigo desceram pelas costas da doce mulata até apertarem suas nádegas firmes. Num salto, Milena abraçou com as pernas o corpo do jovem milionário, que a levou para a cama. Deixando-a nua, admirou-a. Ela sentiu-se nas nuvens em ser admirada. Amaram-se de forma extremamente prazeirosa durante um tempo que lhes parecia infinito, e por fim dormiram por quase dez horas.
****
Quando acordaram, ouviram o som da voz de Irineu pelo interfone:
- Ei, morreram aí? Estão em lua-de-mel? A nave está pronta!
- Não enche, Irineu! Vá para o iate e comece a ligá-lo! - respondeu Rod.
Milena, nua, saiu da cama e Rodrigo não pôde deixar de admirá-la.
- Você ainda me mata, Mi. Que bunda você tem!
- É? Depois de ontem, 'Diguinho, quem me mata é você!
- Só me chame disso quando estivermos sozinhos. Com os outros sou capitão ou senhor Rodrigo Maulson, por favor.
Ela riu-se, mostrando os lindos dentes brancos, e entrou no chuveiro terráqueo do banheiro. Rod resolveu unir-se a ela e acabaram se amando mais uma vez. Ao se arrumarem para deixar o quarto, Milena, escovando os longos cabelos encaracolados, disse à imagem do jovem Maulson pelo espelho:
- Que tal se pré-casarmos? Por uns dois anos, depois a gente...
- Não, Milena, não é isso que eu quero agora. Por favor! Talvez eu não devesse ter me envolvido com você de novo...Estou numa busca...
- Está bem, então...Vamos ver o que vai acontecer daqui para frente...Eu não desisti de você ainda, mas também não fique com ciúmes se eu mudar de idéia e arrumar outro...
- Não ficarei...Bem, vamos logo embora deste planeta poluído!
A nave estava na garantia e não foi preciso pagar nada. Irineu a levou em órbita e logo encontraram os seus geradores wormhole e se conectaram à eles. Deixaram Metra e foram para o ante-espaço, novamente a caminho de Nishia.
Livro II - A Busca - Capítulo III.
O planeta Nishia era quase igual a Terra, porém menor e mais distante de seu sol. Porisso era frio e só seu equador era perfeitamente habitável. Nesta região construiu-se a Vila dos Pesquisadores, os Laboratórios Nishianos, o Zoológico Universal e outras estruturas. Serviam principalmente aos milhares de cientistas das várias raças que compartilhavam aquele mundo. Era um planeta da ciência.
De seu posto de comando, Rodrigo observou Nishia aproximar-se velozmente da Squalus e indagava-se se desta vez a esfera negra que lá estava funcionaria, uma vez que a roubada de Marte estava com defeito. Se pudesse apenas tocá-la, talvez obtivesse algumas respostas...
Irineu habilmente colocou o iate em órbita e assim que foram liberados para pouso se desconectaram dos geradores e desceram através da densa atmosfera até a única cidade do planeta. No aeroporto da Vila dos Pesquisadores, a nave pousou suavemente.
Pegaram sacolas, colocaram casacos e tomaram comprimidos ajustadores de gravidade, pressão do ar e atmosfera, e desceram pela pequena rampa de desembarque no frio cortante daquele mundo. O céu era azul e violeta rasgado por pequenas nuvens, os prédio baixos eram de alvenaria. Estavam num vale e havia uma imensa represa visível para além da cidade. No horizonte, enormes montanhas cobertas de neve eterna.
- Está frio aqui...Como boa brasileira preferiria estar num planeta bem quente...- Disse Milena acompanhando o grupo com dificuldade. Maulson respondeu:
- Não ficaremos muito tempo aqui, espero. Há uma boa hospedaria no centro da vila. Mugama, leve todos até lá e consiga um quarto. Quero ir agora mesmo para o Museu Arqueológico. Encontro com vocês depois.
Rodrigo separou-se de sua tripulação e seguiu por um caminho de pedras através de um jardim bizarro até um edifício térreo. Ao entrar, procurou a seção marciana e logo a encontrou. Havia painéis tridimensionais explicativos sobre a civilização lemântica, mostruários com artefatos familiares à Atron, maquetes de antigas cidades e finalmente, protegida por uma redoma, a esfera negra.
Câmeras ocultas eram os olhos de computadores vigias, e Rod sabia disso, portanto não se atreveu a mexer, só olhar. Levou um susto quando alguém falou com ele.
****
Milena arrumara suas coisas no quarto da hospedaria e decidiu ir atrás de seu capitão. Não estava gostando daquele planeta estranho e queria convencê-lo à ir para algum mundo paradisiáco que não fosse tão frio, afinal estavam num cruzeiro!
A Vila estava vazia, estavam num período de férias, e a doce mulata não encontrava ninguém para perguntar sobre seu ex-namorado. Onde ele estaria?
Foi quando viu Rodrigo e uma garota muito bonita andando próximos à um laguinho. Enciumada, apertou o passo em direção à eles.
- Milena, esta é a doutora Érica Ranan, que por coincidência é da Terra, e melhor ainda, do Brasil.
- Muito prazer, eu soube que vocês estão nos visitando como turistas...
Fuzilando, a astronavegadora respondeu:
- Sim, mas não estamos fazendo turismo sexual...
- Milena! - Rodrigo pareceu surpreso. A doutora riu-se e não se abateu, balançando seus ricos cabelos negros tipo samambaia ao retrucar:
- Acho que você é a sócia do Rodrigo, não é?
- Ela não é minha sócia, é uma impertinente que trabalha para mim. - o jovem Maulson estava irritadíssimo - Milena, por favor, comporte-se como uma astronavegadora profissional e seja educada!
A garota olhou para baixo, mordendo os lábios. Desculpou-se. A doutora sorriu mais uma vez e deu de ombros.
- Não se preocupem, eu sou do tipo que leva tudo na brincadeira - disse a morena - e você, mocinha, tem razão em ter ciúmes de um rapaz tão belo, e rico, como Rodrigo.
Milena pensou: "ela nem o chama de senhor, já é Rodrigo, assim, como se fossem íntimos!". A morena fuzilou o olhar mas se conteve. O capitão da Squalus percebeu tudo e fez sinal para continuarem o passeio em torno do pequeno lago.
Érica comentou, suspirando:
- Rodrigo estava me contando sobre o cruzeiro espacial que estão fazendo...Puxa, como eu gostaria de poder largar tudo e seguir com vocês...Todos estão de férias por aqui e minha pesquisa não chega a lugar algum...Seria ótimo poder conhecer povos e mundos diferentes!
Milena retrucou com desdém:
- Ora, você detestaria ficar dias presa num iate apertado só vendo estrelas distantes ou o branco leitoso do ante-espaço, sem poder desfrutar de um sol de verdade te esquentando...
- Não acho tão ruim, e eu vi o iate de vocês no aeroporto, não é nada modesto...Além do mais, existe a realidade virtual, não é mesmo?
Maulson teve uma idéia e virou-se para a doutora:
- Você é médica aqui em Nishia, certo?
- Sim, mas trabalho somente com pesquisas...
- Gostaria de ser nossa médica na Squalus?
Milena irritou-se ainda mais e os interrompeu:
- Não precisamos de uma médica! Não vamos assim tão longe...
O capitão deteve o passo e segurou o braço de Milena:
- Escute, talvez aconteça de sairmos do espaço da UniCiv, e eu quero ter alguém para nos socorrer em caso de problemas. Lembra-se, Milena, que quando a contratei disse-lhe que poderíamos ir muito longe?
A morena deu um suspiro e balançou a cabeça:
- Achei que Nishia já era longe o suficiente. Mas...
- Nada de mas, Milena... - Rod virou-se para Érica - E então, gostaria de vir conosco, eu posso pagar-lhe bem.
A doutora olhou para o céu violeta e sorriu:
- Eu vou pensar um pouco e ver se posso deixar minha pesquisa aqui...Posso lhe responder no jantar? Quer jantar comigo no Refeitório dos Cientistas?
Milena grunhiu quando Rodrigo respondeu que sim.
****
Uma pílula e um sono profundo ajustaram um pouco a hora do jantar de Rodrigo com a hora de jantar da doutora Érica Ranan, afinal o capitão ainda estava vivendo no fuso horário do Brasil, na Terra. Não havia escurecido na Vila dos Pesquisadores, mas o frio havia aumentado e todos que iam ao amplo salão do Refeitório dos Cientistas estavam bem agasalhados. Lá chegando, Rod tirou o blusão térmico e sentou-se na mesa da morena sorridente que o esperava. O capitão notara a beleza incomum dela, as sobrancelhas bem definidas, os olhos de um verde profundo lembrando um pouco os de Janaína, o corpo bem delineado naquele vestido justo. Ela estava elegante e charmosa, e indelicadamente já iniciara sua refeição.
- Sei como é horrível adaptar-se à um planeta assim que se chega à ele, com gravidade, atmosfera e tudo o mais diferentes, mas você está muito bem, parece que vive em Nishia a anos! - disse ela.
Teclando seu pedido no menu automático, Rodrigo sorriu:
- Já estou acostumado a viajar entre mundos diferentes, adapto-me rápido a qualquer um deles. E então, já decidiu se quer viajar conosco?
- Sim, eu irei com vocês com prazer. Como eu havia lhe dito, minha pesquisa aqui está parada, e eu sempre quis viajar Universo afora. Gostaria de saber quanto você pode me pagar...
Ela aceitou de pronto a oferta do capitão e passaram a conversar sobre diversos assuntos enquanto comiam. Rod sentia-se atraído por aquela mulher exuberante, e não percebeu quando Milena entrou no refeitório com Irineu. Assustou-se quando sentaram-se na mesa e Milena foi logo dizendo, após os cumprimentos:
- Sabem, eu e o Irineu nos sociamos!
Rodrigo tomou um gole de seu refri e riu-se:
- Você é uma criança, Milena.
****
A noite gelada trouxera estrelas brilhantes ao céu de Nishia e Rodrigo Maulson, após comunicar-se com o diretor de sua empresa, Herberto Fontes, desceu até o aeroporto verificar seu iate. Na Maulson Interplanets tudo corria bem, os lucros estavam bons e o jovem capitão não precisaria preocupar-se com a parte financeira.
Procurando seu engenheiro, Frank Mugama, Rodrigo notou uma nave com bandeira venusiana parada à alguns metros da Squalus. Deu de ombros, lembrando-se de Janaína, mas logo em seguida achou o fato um tanto estranho. Era uma nave particular, comum, e naves assim em Nishia eram tão raras quanto ao fato de seu iate estar pousado ali. Nishia nada tinha de atraente para turistas ou particulares...E uma nave de Vênus?
Mugama ajustava o alinhamento dos motores e checava se a nave estava totalmente abastecida para uma longa viagem, como seu capitão queria. Cumprimentou Rodrigo com um aceno de cabeça quando este entrou na Sala de Máquinas. Estava sério como sempre.
- E então, como estão as coisas? A nave está operacional?
- Sim, senhor. Quando quiser partir, é só ordenar. O conserto em Metra foi excelente e a Squalus está perfeita, exceto pelo computador de bordo que não fala.
- Fico contente com isso, e não se preocupe com o computador. Agora eu gostaria que você fosse falar com Dabansky no Setor 5. Consegui com ele armamento pesado para podermos sair do espaço da UniCiv sem medo.
O engenheiro arregalou os olhos, assustado:
- Armas? Que tipo de armas? Como as conseguiu?
Rod bateu no ombro do belo homem negro, mais alto do que ele, imponente:
- Tenho meus contatos. E são armas "quase" legais. Xasers, torpedos de ante-matéria e emissores de partículas. Fale com Dabansky, pegue as caixas e instale tudo, não se preocupe com policiais ou fiscais...Os primeiro não existem aqui e os segundos estão de férias, exceto um velho amigo meu. E, repetindo, são armas "quase" legais!
Contrariado, Mugama saiu deixando Rodrigo admirando a sofisticada maquinaria de seu iate. Tudo novo, limpo, brilhando. Subiu por uma escada vertical na parede até a saleta do computador, e lá verificou o funcionamento da parte eletrônica: tudo certo. Mas a parte biológica ainda não reagira. O jovem empresário e capitão estava ficando preocupado, Bio já devia estar falando, já deveria estar..."vivo". O que dera errado? Mas ele tinha outras coisas no que pensar e iria agora executar seu plano para roubar a esfera negra de Nishia.
****
As câmeras do museu exibiam para um segurança humano imagens sem movimento algum, e o computador de vigilância selecionava os pontos principais sem nada detectar, com exceção de um ou outro inseto. Na verdade, há mais de vinte anos que não havia um crime no planeta, de forma que a segurança estava um tanto relaxada. Sem dificuldade alguma Rodrigo Maulson entrou no subsolo da Estação de Força da cidade e vagou entre os corredores examinando cada disjuntor até descobrir o do museu. Bastou desligá-lo para que na construção térrea o sistema de no-break tentasse entrar em funcionamento...Mas horas antes Rod havia sabotado as baterias...
O computador de vigilância alertou a Segurança Central, pois funcionava com gerador próprio, e o vigia humano correu com suas lanternas flutuantes atrás dele para o museu. Desmaiou ao cheirar um gás que provocava sono.
Quando vários outros homens da Segurança Central chegaram, a única peça que havia sumido do Museu Arqueológico de Nishia era a esfera negra de Marte.
****
Milena acordou assustada, embora não lembrasse o que estava sonhando. Irineu dormia ao seu lado, tranqüilo, e ela não quis acordá-lo, embora sentisse alguma coisa estranha. Saiu da cama e vestiu-se, e foi olhar pela janela do quarto no pequeno sobrado que era a hospedaria.
De lá enxergava o aeroporto e ao longe notou um leve brilho azulado sobre o iate de seu ex-namorado. Um arrepio a fez estremecer, era algo inusitado que estava vendo, algo que nunca tinha visto antes, e decidiu então ir até lá. Desceu as escadas e tomou a rua de pedras, descendo até o pequeno aeroporto com rapidez, fixando o olhar no estranho brilho que a Squalus emanava.
Ao aproximar-se notou que toda a nave estava coberta por um véu de luz suave, sob o céu dominado pelas estrelas e pelos três minúsculos satélites de Nishia. Mas a luz não era o reflexo das luas e sim algo sobrenatural, de um azul cintilante. Milena começou a tremer, porém sua curiosidade aguçada a fez subir pela rampa de acesso e entrar no iate.
As luzes automáticas não se acenderam mas a morena conseguia ver lá dentro através do brilho azul. Cuidadosamente subiu as escadas e seguiu pelo corredor acarpetado até a ponte de comando, e todos os painéis estavam desligados, exceto o de manutenção, como deveria ser. Mas as luzes não se acendiam nem que ela pedisse ao computador ou pressionasse os interruptores. Foi quando deu um grito e um pequeno salto ao ouvir uma voz grave:
- Senhorita Milena, o sistema de iluminação foi desligado pelo capitão Maulson.
Era uma voz masculina imponente que soava das paredes com firmeza. Ela quase ajoelhou no chão apoiando-se num painel, assustada, e então gaguejou:
- Q-Quem é você?
- Meu criador chamou-me de Bio. Sou o computador da nave. Estou às suas ordens.
Milena suspirou de alívio, se recompôs e perguntou:
- O que está acontecendo aqui? O que é esta luz azul?
- O que está acontecendo é um fenômeno ainda não compreendido por mim, e a luz é gerada por um distúrbio na estrutura do espaço/tempo provocada por um dispositivo em funcionamento no camarote do capitão. Ele lá se encontra e informou-me estar tudo sob controle. Porém posso detectar neste momento que está inconsciente.
- Desmaiado ou dormindo? Ele está bem?
- Impossível dizer, solicito sua intervenção, a saúde do capitão pode estar em perigo.
Milena correu em direção à cabine de Rodrigo e quando as portas automáticas se abriram ela o viu deitado em sua cama segurando a esfera negra, que emitia a estranha luz azul. Aproximou-se dele, ofegante, e o tocou, ele estava muito quente, como que com febre. Assustadíssima, sem querer tocou a esfera e então uma tontura a assolou, derrubando-a sobre seu ex-namorado, e ela entrou em profundo transe, sentindo-se atirada num túnel tortuoso em alta velocidade.
Desta vez a luz dominante não era azul, era verde. Milena estava numa densa floresta tropical num mundo esverdeado e muito quente, de atmosfera pesada e gravidade forte. A tontura aumentou e ela ia cair ao chão quando Rodrigo a acolheu.
- Relaxe, garota, estamos num mundo virtual. Apenas relaxe.
Ela não conseguiu dizer nada. Apenas fechou os olhos. O capitão disse, mais para si mesmo do que para a astronavegadora:
- Preciso descobrir como sair daqui. E simplesmente não sei como.
Ele limpou o rosto agora suado de sua tripulante, e ela abriu os olhos com dificuldade:
- O-Onde estamos?
- Virtualmente estamos numa estrela verde de nome Tarínia. Venha, vamos ver se encontramos algo que possa nos ajudar a voltar ao iate.
- Não é só pedir ao computador para desativar a realidade virtual?
- Não estamos na realidade virtual de um computador, estamos na realidade virtual criada na estrutura entre "cordas" do espaço-tempo...Não importa, venha...
Rodrigo Maulson lembrava-se que Tarínia era a estrela verde onde Martogh, o ser que lhe dera o poder de mudar de corpo, vivia. Lembrava-se também que estivera ali há quinze mil anos atrás com sua irmã Liany, ambos ainda em seus primeiros corpos marcianos. Sabia que recebera naquela ocasião a Chave da Prisão de Zonos, sabe-se lá o que isso significava. Mas já estava ali a meia hora e nada encontrara.
Puxando Milena com uma mão, afastando as folhagens com a outra, suando em bicas sob um céu verde carregado com nuvens negras e roxas, ele procurava o castelo de Martogh. Estava ofegante, seu corpo pesava quase o dobro devido a gravidade. A luz provinha de todo o lugar, não havia um sol a brilhar no céu. Eles estavam numa improbabilidade física que era a estrela verde, uma estrela que emanava energia suficiente apenas para aquecer e iluminar sua superfície. De onde vieram a atmosfera, a fauna e a flora? Provavelmente artificiais, Rod pensava enquanto caminhava.
Então surgiu um imenso rio, e do outro lado, como uma ferida na densa floresta, uma enorme e horrenda construção, disforme e arruinada pelo tempo. Suspirando forte, o capitão lembrou-se vagamente dela. Um trovão o fez olhar para o céu e por entre as nuvens roxas avistou, em quarto-crescente, um planeta imenso e colorido, com muitos anéis, talvez iluminado por outro sol que não Tarínia. A estrela verde não teria luz suficiente para fazê-lo brilhar daquele jeito.
O planeta era belo, tinha mais anéis que Saturno, e estava próximo. Devia ser imenso, um gigante gasoso.
Naquele momento tudo a volta deles pareceu esfacelar, a realidade desfez-se em milhares de fragmentos e eles acordaram na cabine refrigerada do capitão, em Nishia.
Molhados de suor e cansados, entreolharam-se confusos. Rodrigo foi o primeiro a se recuperar. Disse à sua ex-namorada:
- Vá tomar um banho e relaxar. E esqueça o que você viu aqui. É segredo!
Enquanto ela ia à sua cabine, atordoada, o capitão embrulhou a esfera negra num pano e levou ao analisador do computador da nave. Ordenou:
- Bio, faça uma varredura completa deste artefato e depois dê-me um relatório impresso em hieróglifos egípcios.
- Imediatamente, senhor.
- Já terminou de analisar os rolos de cristal ultrafinos que lhe dei?
Rod referia-se aos rolos que ele roubara em Marte.
- Sim, senhor. Sinto muito, mas só consegui salvar fragmentos.
- Vou tomar um banho. Imprima o que conseguiu salvar em egípcio, também - O capitão queria certificar-se que ninguém leria aqueles relatórios, e em uma de suas vidas passadas ele vivera no Egito antigo...
Livro II - A Busca - Capítulo IV.
O iate espacial Squalus estava pronto para uma longa viagem e Mugama regulou os geradores wormholes, em órbita, e os aqueceu para partirem imediatamente após atingirem a estratosfera de Nishia. Ouviu a voz do capitão pelos alto-falantes ordenando os preparativos finais da nave a seus subordinados, que já estavam todos à bordo.
Rodrigo Maulson, agitado pelo que acontecera à algumas horas, naquele simulacro de estrela verde, sentara-se ao painel principal e aguardava a liberação do controle espacial do planeta para ordenar a decolagem. Ela veio logo e Irineu rapidamente fêz a bela nave subir suavemente ao céu violeta.
O capitão, silencioso em seu posto de comando, admirava a beleza da vista além das janelas frontais mostrando a curvatura de Nishia, a linha delgada de sua atmosfera e o negro espaço pontilhado de estrelas prateadas. Irineu reduziu a velocidade, virou em 180 graus e emparelhou com os geradores da nave. A conexão feito pelo computador foi rápida e suave.
- Saía de órbita, Irineu, e entre no ante-espaço na direção que lhe dei.
- Sim, senhor, imediatamente - e executou o comando - o senhor sabe o que está acontecendo com a Milena?
- Ela ficara bem, foi só um susto na realidade virtual...Você, sabe, Irineu, às vezes acontece...
Irineu deu de ombros, enquanto o iate girava em direção ao espaço profundo. Em pouco mais de uma semana estariam atravessando a fronteira da União das Civilizações, e entrariam numa área considerada de ninguém...
****
Com exceção do capitão, que estava comendo em sua cabine, e de Milena, que não estava se sentindo bem, todos os tripulantes da Squalus almoçavam no refeitório e quase não se falavam, preocupados com a viagem que haviam iniciado rumo à um destino que só Rodrigo Maulson sabia. Sair do espaço da UniCiv era muito perigoso, e, mesmo bem equipados e armados até os dentes, aquela nave era apenas um iate.
- O que será que o capitão está querendo? - Perguntou Irineu, sério pela primeira vez desde que deixaram a Terra. - As coordenadas que implantei nos levam diretamente à Nebulosa do Escaravelho! Só falta ele querer atravessá-la...
Mugama respondeu após engolir um bocado de sua refeição:
- O capitão deve ter seus motivos para isso, e ele nos avisou quando nos contratou que iríamos muito longe, até deixar as fronteiras...Talvez ele tenha espírito de explorador...Eu, por mim, não me importo. Queria deixar El Dorado de qualquer maneira e não tinha dinheiro nem emprego...O senhor Rodrigo me arranjou ambos!
A doutora Érica concordou. Suas feições estavam mais suaves, ela estava curiosa para saber em que se metera...
- Eu também não me oponho - disse ela, ajeitando os cabelos escuros e encaixeados - e para falar a verdade, sempre quis sair para explorar o espaço. Sabe, ver aqueles documentários na tridivision abre o apetite da gente para conhecer novos mundos, novas civilizações, audaciosamente...
- Pare! - disse Irineu - chega de clichês! Muita gente acha que sair por aí explorando o Universo é fácil...Mas não é! Tem alienígenas de tudo quanto é jeito, mostrengos horrendos...Planetas horríveis, buracos negros, supernovas...Sem contar com os rominatenos com suas naves de guerra querendo matar todo mundo, os karetsianos, os quibariis...
- Ora, pare com isso - disse Érica - estamos longe de todos eles. Você é o piloto, e também o astronavegador desta nave, porque a Milena é...Bem, você sabe que eles estão todos longe desta parte da Galáxia. Estamos saindo do Cubo Exterior em direção à extrema periferia, numa região pouco explorada...Não é facinante?
Irineu engoliu o que mastigava e finalmente abriu um sorriso.
- É, você até que tem razão. Pouca gente já atravessou a Nebulosa do Escaravelho...Mas, ainda assim, o que o Rodrigo quer tão longe?
A doutora e o engenheiro derão de ombros. Mugama respondeu:
- Talvez só um pouco de aventura...Ele parece meio maluco, mesmo.
****
O jovem milionário e dono daquele iate que cortava o ante-espaço a três por cento da velocidade da luz, meditava pescando em um lago virtual, que só existia dentro de sua cabeça. Bio proporcionava uma paisagem bucólica para Rod. Estavam já há três dias viajando desde Nishia, e fazia mais de um mês que deixaram El Dorado.
E "navegar" a 9.000 quilômetros por segundo pode causar problemas relativísticos, mas todos na nave sabiam que, ao voltar, voltariam um pouco no tempo também e a diferença temporal entre os planetas e a nave seria praticamente anulada...Se voltassem...
Einstein gostaria de ver o ante-espaço: leitoso e cheio de estrelas negativas, que emitiam ante-luz e ante-gravidade. Ficaria contente em saber que as pontes de Einsten-Rosen podiam até ser criadas artificialmente! Mas não era em nada disso que Rodrigo estava pensando enquanto pescava.
Ele apenas olhava o lago. Decidira seguir até a Nebulosa do Escaravelho segundo as instruções conseguidas dos rolos de cristal ultrafinos. Bio decifrara parte deles. O mapa celeste estava lá, incompleto. Em algum lugar além daquela nuvem de gás interestelar se escondia a estrela verde Tarínia, ou assim parecia. Rod iria arriscar, que outra opção tinha?
Do nada surgiu a doutora Érica, que entrara na realidade virtual do capitão. Sorriu ao olhar em volta:
- Caramba!...Seu computador é mesmo bom...Meus sentidos me dizem que estou num campo, numa manhã ensolarada, na Terra, à beira de um lindo lago azul!
- O Bio é especial. O que a traz aqui, doutora?
- Bem, recebemos uma mensagem pela rq. É da nave de pesquisas Aristóteles. Eles estão com uma mensagem importante do Comando Espacial da UniCiv para nós.
- Deve ser bem importante, ou não mandariam uma nave da Espiral nos procurar. Peça ao Irineu para emergir. Estou deitado semi-nu em minha cabine, mas assim que me vestir irei para a ponte.
****
A Aristóteles era enorme. Cheia de antenas, torres, docas, lanchas pequenas em seu interior, era uma das melhores naves de pesquisa da UniCiv. A Squalus, emparelhada à ela em espaço normal, não passava de uma sardinha próxima a uma baleia.
Com autorização da capitã Nazirah Hassein, Rodrigo atravessou um mini-wormhole pessoal entre as duas naves e desembarcou na Sala de Recepção. A bela mulher de nariz adunco e origem árabe o comprimentou, e depois das formalidades de praxe, conduziu o jovem Rod até sua cabine, onde conheceu o cientista negusta de nome Az-dur Der-Ar.
- Não posso apertar-lhe as mãos, neazu, mas é um prazer conhecê-lo.
Um negusta de Antares não tinha mãos. Usava ventosas ao longo do corpo para manusear objetos.
- O prazer é todo meu. - Sentou-se quando a capitã ofereceu-lhe uma poltrona a frente de sua mesa. Os outros se sentaram. - Bem - disse - gostaria de saber porque me chamaram. Já obtive autorização de deixar a UniCiv, então não entendo o que querem de mim.
A capitã cruzou as mãos sobre sua mesa.
- O Comando Espacial pediu-me que o alcançasse...Estamos muito longe para uma comunicação direta. Pediram-me para avisar-lhe...Atualmente é muito perigoso entrar na Nebulosa do Escaravelho.
- Porque? Ela é calma e outros já o fizeram...Além disso minha nave está bem equipada.
- Não se trata disso - disse o alienígena com sua voz estranha sendo traduzida simultaneamente pelo tradutor da nave. - O perigo é outro. Já ouviu falar no brilhante cientista Michael Snaker?
- Sim, claro. Se não me engano, ele estava trabalhando num aprimoramento dos sensores das naves em relação a formas de vida.
- Exatamente! E ele trabalhava aqui, na Aristóteles. - Disse a capitã. Ela recostou-se e suspirou: - Ele era um de meus melhores cientistas. Era genial, mas algo ou alguma coisa o fez...Endoidar!
- Endoidar?
O negusta tomou as rédeas da conversa:
- Ele estudou a fundo uma maneira de fazer nossos sensores detectar vida de uma maneira mais fácil e objetiva, tentando reduzir a margem de erro...O senhor deve saber que o conceito de "vida" é algo ainda muito controverso. O que é "vida"? Algo que se reproduz, se locomove, se alimenta? Nossas máquinas detectam com facilidade animais e plantas superiores, mas o que me diz de uma enzima que devora outra e se parte em duas? Ela está viva? - O cientista de pele azul, de três olhos e sem braços, não queria resposta.
Rodrigo apenas ouvia, sabendo serem as perguntas do seu interlocutor apenas de retórica. O negusta prosseguiu:
- O doutor Snaker descobriu algumas coisas estranhas, como algo que definiu como "evidência da existência da alma". Disse-nos existir coisas misteriosas no campo onde trabalhava, a física bioquântica. Disse-nos que conseguiu detectar algo como um karma, uma alma, uma zstot, em tudo que possuia vida!
Rodrigo balançou a cabeça:
- Não estou entendendo...Michael Snaker descobriu a existência da alma? "Que a alma imortal existia eu já sabia muito antes dele nascer", pensou.
- Sim, mas ele foi além - prosseguiu o cientista de Antares. - Descobriu, ou afirma que descobriu, que toda - eu disse toda - forma de vida tem alma, seja uma árvore, um pássaro, uma ameba...Ou uma pedra!
O jovem dono da M.I. fez cara de incrédulo, mas segurou o riso, afinal estava entre gente séria, e conhecia a fama de Michael Snaker.
- O senhor tem certeza disso? Parece-me uma grande balhofa!
A capitã assentiu:
- Sim, senhor Maulson, mas ele fez-nos uma palestra bem ilustrada falando sobre tudo isso, com entusiasmo...Não preciso dizer que ficamos atordoados...Sou cética quando se trata de questões um tanto quanto...religiosas...
Az-Dur prosseguiu, agitando seu tronco azulado e os olhos na ponta de astes:
- Meu caro colega Snaker disse que tudo o que forma um conjunto, como a cadeira em que está sentado ou esta nave, está viva e tem alma. Ele mostrou através de complicadas fórmulas matemáticas...Que, confesso, não consegui acompanhar...A existência de vida até mesmo em uma caneta! Afirmou ainda que: assim como nós, seres complexos, cheios de células vivas, somos superiores na cadeia evolutiva em relação à um vírus, uma nave estelar é um ser vivo superior à uma mesa. Mas todos vivem, e tem alma! O que acha disso jovem neazu?
"Ele realmente ficou louco" - Rodrigo estava atônito:
- Concordo que estas idéias são malucas, aliás, bem malucas, mas o que tem tudo isso a ver com o perigo na Nebulosa do Escaravelho?
A capitã apertou uma tecla e uma imagem tridimensional quase sólida surgiu sobre sua mesa:
- Veja, isto é o que sobrou da Avenger IV. Era uma nave da Força Azul enviada à caça do doutor Snaker. Ele, junto com meia-dúzia de malucos, seus assistentes pessoais, roubou um cargueiro em Sirius Uno, equipou-o com um laboratório científico, e fugiu para a nebulosa. O Comando enviu esta nave cujo destroços pode ver...
Rodrigo avaliou os restos do cruzador de combate. Nazirah prosseguiu:
- Todos a bordo morreram. Havia uma mensagem de Snaker dizendo que o mesmo aconteceria a qualquer um que entrasse na nebulosa.
O jovem Maulson engoliu seco. Mas não queria desistir de Tarínia:
- Bem, dar a volta por cima ou por baixo da nebulosa é quase inviável, estou sabendo dos problemas gravitacionais para geração de túneis. Contornar lateralmente uma nebulosa de trinta e cinco anos-luz de diâmetro é fácil, difícil é saber onde emergir do outro lado, já que não há mapas daquela região.
- Sim, - concordou a capitã - as laterais não foram exploradas. O senhor teria de ir de sistema em sistema até chegar...Onde o senhor quer chegar, senhor Maulson?
- Naves da Espiral já atravessaram a nebulosa, não é mesmo? O caminho está mapeado, e o outro lado, a região logo adjacente, também. Desejo ir a um sistema conhecido apenas como CCEN-3456. Meu interesse neste sistema estelar é pessoal.
Rodrigo/Atron não poderia dizer que estava a procura de uma estrela verde, seria tratado como um louco até pior que o doutor Michael. O seu biocomputador não conseguira analisar a esfera negra, mas decifrara muito dos rolos, coisa que a UniCiv e seu braço científico, a Espiral, não conseguiram. E naqueles rolos de cristal ultrafinos estava escrito que naquele sistema em particular se encontraria o "Portal" para Tarínia.
- Entendo. - suspirou Nazirah. - Não posso impedí-lo, senhor Maulson, o senhor é um cidadão livre da UniCiv. Mas devo avisar-lhe que estará por sua conta e risco. Se for atacado, mesmo eu estando por perto com a Aristóteles, nada poderei fazer. Esta é uma nave de pesquisa, não um cruzador de combate. E tenho ordens expressas de não atravessar a fronteira.
- Acho que sei o que estou fazendo, mas vou perguntar a cada um de minha tripulação se quer continuar comigo. Contudo, deixe-me perguntar-lhe: porque o Comando Espacial não envia uma frota da Força Azul completa para cá? E como um cruzador da União pôde ser destruído por um cargueiro roubado com uma tripulaçao de cientistas?
O negusta Az-Dur Der-Ar sacudiu-se todo, seus olhos de um intenso verde-limão brilharam encarando um preocupado Rodrigo:
- Naves-Cone quibariis foram detectadas no Cubo Gamma e o Comando enviou toda a Primeira e Segunda Divisões Espaciais para lá. Não podem mandar ninguém aqui por enquanto.
- Além disso - emendou a capitã - uma nave pega de surpresa, enquanto procura outra que deveria ser amigável, pode ser abatida...Agora escute: nada do que foi dito aqui pode ser comentado lá fora, senhor Maulson. A notícia dos quibariis rondando a UniCiv poderia espalhar pânico, e a estória de Michael Snaker poderia causar muita polêmica. O Comando, eu inclusive, pedimos a sua discrição.
- A senhora a tem, capitã; porém vou consultar meus amigos e, se ainda tiver alguém que queira me ajudar no iate, irei a despeito do perigo. Preciso ir ao outro lado!
Nazirah Hassein pressionou uma tecla e um robô entrou levitando os aposentos da capitã trazendo um cheiroso WhiteCoffee. Serviu a todos e logo estavam sorvendo o líquido incrivelmente saboroso. Finalmente a mulher de meia-idade disse:
- Não vou tentar convencê-lo a não ir - fez uma pause, pensativa - mas seria errado não oferecer-lhe ajuda. Verei o que posso fazer para melhorar ainda mais seu iate. Em troca, se conseguir voltar, traga-me o que puder sobre o doutor Snaker e sua tripulação.
Rodrigo Pereira Maulson estremeceu ao ouvir "...se conseguir voltar...".
****
Demorariam dez dias para instalar um novo sistema de escudos quânticos, novos "venenos" nos motores fotônicos, um economizador de energia, novos sintetizadores, alimentar e de atmosfera, novas armas (mais poderosas), e um novo sistema de sensores. De um simples iate de luxo, o Squalus estava se tornando uma nave de pesquisa e combate aprimorada. Uma nave exploratória. O próprio Rodrigo, com ajuda de Mugama, deitou fora os artigos supérfluos e ajudava na reforma. Desnecessário dizer que perdera a garantia da Wonka. Mas naquela estranha economia social-capitalista, não precisaria pagar nada pelos adendos em sua nave.
O jovem milionário estava feliz. Ninguém de sua tripulação o deixaria. Nem mesmo a assustada Milena, que por pouco não decidira ficar, mas como estaria longe de Rod e Iri, seus grandes amores, resolveu arriscar-se. E ela era corajosa, disso ninguém duvidava.
Durante as "obras" na Squalus, que estava aportada dentro da barriga da Aristóteles, viajaram através do ante-espaço até a fronteira da UniCiv.
Ali, a mais de 2.500 anos-luz da Terra, no limiar do espaço conhecido, estava a estranha Nebulosa do Escaravelho. Vista do Sistema Solar, a nuvem de gás brilhante, púrpura, azul e verde, com nesgas de amarelo, parecia mesmo um enorme besouro, porém de perto era apenas um amontoado de matéria ionizada colorida.
Emergiram em sua entrada. Não poderiam "cortar caminho" pelo ante-espaço através da nebulosa, pois pouco sabiam da configuração da Galáxia dentro e além dela. Havia poucos mapas, e ninguém poderia usar telescópios ou qualquer outra coisa para saber com exatidão a posição das estrelas ali, na periferia do Cubo Exterior. Sem dados precisos, poderiam emergir dentro de um planeta! Além do que havia a interferência vinda da grande quantidade de radiação que a nebulosa emanava.
Só restava a Rodrigo Maulson atravessá-la em espaço normal, exceto quando encontrasse "clareiras" dentro da nebulosa.
Faltavam dois dias para a Squalus ficar pronta, enquanto isso o jovem rapaz loiro de quinze mil anos passeava pela nave científica, a fim de conhecê-la melhor. Ficara surpreso com a qualidade dos laboratórios, das pessoas afáveis da tripulação, dos renomados cientistas que ali trabalhavam. E da enormidade da Aristóteles. Tinha cincoenta e dois decks, levava uma tripulação de 1.500 pessoas e 3.000 cientistas. Era uma cidade! Seus poderosos motores, movidos a fissão de quarks, levava aquela superestrutura a viajar a seis por cento da velocidade da luz. Seus depósitos de energia e de suporte de vida duravam um ano sem precisar de reabastecimento. Rod ficou pasmo, pois nem sabia que uma nave daquelas existia. Fazia tempo que estava na Terra. A última vez que estivera em contato com a Força Azul e a Espiral tinha sido à quase sete anos, quando ainda estava no corpo de Guilherme Kirer.
Passando pela Sala de Navegação, deparou-se com um sujeito de cabelos desgrenhados, moreno, atlético mas descuidado: seu velho amigo Antônio Varello.
- Não acredito! Pelas Galáxias se não é o estrela Rodrigo Maulson!
- Tony, seu laqueiro d'uma figa! Dê aqui um abraço!
O rapaz loiro e rico abraçou-se com o sujeito de uniforme da Espiral. Eles haviam sido grandes amigos na UMG, brigaram por causa de Milena (sempre ela!), fizeram "as pazes" e não se viam desde a formatura, em 2.766, dois anos atrás.
- Está perdido nesta baleia de cientistas, Tony?
- Estagiando...Sou estagiário em astronavegação. Mas vou ser efetivado no mês que vem, fui aprovado com louvor em todas as minhas tarefas... - O rapaz empinou o nariz.
- Pudera, você foi o melhor aluno da nossa turma...
- Só depois que você mudou de curso...Aliás, o que um ótimo astronavegador foi fazer no curso de Administração de Empresas?
- Bah...Você ainda finge que a Maulson Interplanets não é minha. Amigo, virei empresário. Agora eu pago para alguém fazer a navegação da minha nave.
- Nojento! E 'cê pensa que eu não sei nada disso? Agora, me diz uma coisa, que diacho faz um cara como você, estrela, na fronteira nordeste da UniCiv?
Rodrigo não respondeu, apenas ficou pensativo. Antônio bateu em seu ombro:
- E aí, mano brother? Aposto que veio explorar kilemita. Turismo é que não é, porque tem nebulosas mais bonitas, e mais perto, do que essa que está aí fora. Pegar mulher também não, a menos, claro, que goste de cientistas...Bem, a capitã não é de se jogar fora...
- Senhor Antônio Varello!
O estagiário deu um pulo. A voz firme de Nazirah se fez ouvir por toda a sala. Antônio engoliu sêco, virou-se e desculpou-se. A mulher de traços do Oriente Médio da Terra tirou de seu rosto a seriedade e sorriu. Seus dentes, perfeitos, brilharam.
- Até que estou honrada, senhor Varello. No entanto, na próxima vez que me desrespeitar, mando-o caminhar por um túnel wormhole para dentro de um buraco negro!
Antônio tremia, Rod apenas ria baixinho. Disse à capitã:
- Não se preocupe com meu grande colega aqui. Eu e ele estudamos juntos no Distrito do Brasil, na Terra. Conheço-o bem, é um excelente astronavegador.
- Isso eu já sabia - respondeu Nazirah, batendo no ombro de um corado Antônio.
- Bem... - Rodrigo virou-se para seu amigo. - Gostaria de saber se gostaria de vir comigo, numa aventura maluca...E já aviso que podemos morrer no caminho...
O quê? - Enquanto o estagiário procurava entender, Nazirah Hassein fez sinal para que os dois fossem conversar em particular. A tripulação não deveria saber nada do que Rodrigo ia fazer e o que acontecera a Michael Snaker, afinal ele era uma espécie de ídolo na Aristóteles.
****
Milena Almadori não acreditava em seus olhos: diante dela seu ex-namorado na UMG, Antônio Varello. Abraçaram-se. Irineu gemeu de ciúme, mas Rod o cutucou e cochichou em seu ouvido:
- Não ligue, a Mi é vóluvel assim mesmo.
- Se ela não fosse tão gos...
Rod tapou-lhe a boca.
Estavam na entrada da rampa para subir ao iate negro de filetes dourados. Antônio fôra contratado a peso de ouro por Rodrigo para ser seu astronavegador, porque Milena desistira, não tinha jeito para a função. Antes que batessem em algum corpo celeste, a maravilhosa mulata iria ser a efermeira da nave, trabalhando junto à doutora Ranan, que lhe ensinaria o ofício.
- Boa sorte, vão precisar. E, neazu, tome cuidado. Michael Snaker não é apenas um brilhante cientista, também é muito esperto, é um exímio piloto, luta zarioa, tem uma memória fantástica e é um galã; tem um carisma formidável...
- Ok, ok, amigo negusta. Já ouvi bastante sobre esse maluco. Mas vou tentar ficar bem longe dele.
A capitã também estava no hangar para se despedir.
- Sua nave está muito bem preparada, e é pequena, leve e rápida. O doutor Snaker tem com ele um pesado e antigo cargueiro siriano. Fuja, é melhor. Apesar do seu amigo na Polícia Solar, o Glenn Friasi...
- O velho Glenn?... - Rodrigo lembrou-se do amigo policial.
- Sim, ele mesmo. Apesar dele ter dito que você foi brilhante na elucidação do caso com os Carvalhosa em Minas Gerais, e ter destruído quase sozinho todo o esquema de clones dele, tome cuidado com o doutor. Ele é muito bom em tudo que faz.
Rod suspirou:
- Puxa, como gostaria que a pessoa que me ajudou lá na Terra, a Janaína, estivesse ao meu lado agora. Janaína, Janaína... - Rodrigo suspirou de novo, - Foi ela a responsável pelo fim dos planos de Jonas Carvalhosa...Bem, não importa, está na hora. Adeus e obrigado, capitã Hassein, doutor Der-Ar, estamos partindo.
Subiram a bordo, Milena e Antônio conversando sem parar. Irineu, enciumado, sentou-se a frente do painel multicolorido na ponte da Squalus e fez o iate deixar a Aristóteles. Virou a nave, conectou-se com os gerados wormholes que estavam do lado de fora, e seguiu em direção a entrada da nebulosa que os aguardava, impávida.
Livro II - A Busca - Capítulo V.
Lendo em um datapaper gerado pela capitã Hassein, Rodrigo ficou sabendo que Michael Snaker tinha aloprado havia dois meses; roubara o cargueiro e equipamentos de pesquisa num depósito da Espiral e tinha vindo, junto com amigos que se juntaram à ele, para a Nebulosa do Escaravelho. Segundo fontes confiáveis, Michael e seus amigos queriam realizar pesquisas de campo.
Rebatizaram a velha nave siriana de Beagle, o mesmo nome do navio que levara Charles Darwin em torno da Terra para pesquisar a diversidade biológica de nosso planeta, entre 1831 e 1836. Como iriam fazer algo semelhante, só que no caso pesquisar a "vida em objetos ditos inanimados", auto-denominaram-se os Filhos de Darwin.
Já fazia uma semana que haviam entrado. Logo no início, todos a bordo ficaram boquiabertos com a beleza do lugar. Formações curiosas de gás de diversas tonalidades, formando nuvens que pareciam bezerros, borboletas (multicoloridas!), castelos, praias agitadas, peixes, aves, deuses mitológicos. A despeito de tudo, realmente aquela nebulosa parecia estar viva, pulsando. O que se apresentava nas janelas do Squalus era de uma beleza formidável, que o Homem só pode ver in loco a partir das viagens espaciais.
Todas as cores, de uma ordem que apenas uma competente decoradora poderia colocar, se exibiam nas nuvens de gás interestelar da nebulosa. Depois de horas fitando aquela beleza, cansaram-se. Sete dias depois, aquilo era lugar-comum.
Rodrigo jogou o datapaper de lado e olhou a imagem na tela ultrafina de seu computador, o Bio, em sua cabine. Era o mapa celeste, com a Nebulosa do Escaravelho em baixo, o sistema estelar binário CCEN-3456 no centro e a borda da Galáxia da Via-Láctea acima. A incrição "Portal de Tarínia" piscava em vermelho sobre um planeta que circundava as duas estrelas do sistema, uma anã vermelha e uma azul gigante.
- Sinto muito, senhor Rodrigo. É tudo que consegui recuperar dos rolos. Eles estavam danificados demais. Não há indicação de nenhuma estrela verde na região.
A voz de Bio era grave e formal. O jovem milionário disse:
- Chame-me de Rod. E tente ser mais...Jovial. Não quero pessoas muito sérias em minha tripulação, gosto de brincadeiras, desde que...Responsáveis. Conseguiu alguma coisa com a esfera negra de Nishia?
- Negativo, Rod. Ela é impenetrável. A de Marte também.
- Não tire as proteções que as recobrem, do contrário ficarei atordoado com sua radiação, como aconteceu comigo no Palácio do Vórtex, cinco anos atrás. Algum sinal de Michael e da Beagle?
- Não, Rod, nada. Mas, também, no meio de uma nebulosa destas, nossos sensores não podem ir além de 1.500 a 1.800 quilômetros.
- Pois é, não temos escudos quânticos, nenhum sensor útil, nada de wormholes. E temos de ir devagar. A que velocidade estamos?
- Cerca de 10.000 quilômetros por minuto. Estamos devagar quase parando.
- E a barreira de micro-satélites?
- Está funcionando bem e nos protegendo do lixo internebular. Antônio informa que chegaremos numa clareira em duas horas, onde a nuvem é menos espessa, e talvez possamos submergir em um wormhole.
Milena pediu para entrar na cabine. Rod deixou.
- Podemos conversar agora? - A garota colocou as mãos na cintura. - Desde que deixamos a Aristóteles que quero conversar com você em particular. Queria me desculpar. Sabe, você indo jantar com aquela doutora gostosona, lá em Nishia, me deixou maluca...
- Mi, você às vezes me surpreende. Precisava correr para o Irineu? Você deveria saber que eu estava apenas contratando a Érica.
- Bom, eu agora estou confusa...
Rodrigo levantou-se da poltrona e foi até a mulata, abraçando-a.
Beijaram-se. Milena suspirou e baixou os olhos.
- Ainda gosta de mim, 'Driguinho? Ou está com a Érica?
O rapaz loiro apertou-a contra si:
- Sim e não. Gosto demais de você, embora a ache...Imatura.
Ela soltou-se dele:
- Mas eu não sei, Rod. Gostei de ficar com o Irineu...E gostei demais de rever o Antônio. Fui apaixonada por ele, você sabe disso. 'Driguinho, o que eu faço? Gosto de vocês três!
O capitão da Squalus ia responder, mas não deu tempo.
Sua cabine ejetou-se, derrubando Rodrigo e Milena e acelerando para o interior desconhecido da nuvem de gás a grande velocidade, enquanto alarmes soavam pelo quarto.
****
A Nebulosa do Escaravelho era um berçario: lá estavam nascendo dezenas de sóis. Alguns destes sóis já tinham proto-planetas. Muitos eram gigantes gasosos que não tinham massa suficiente para virar uma estrela. Num desses proto-planetas, uma nave bastante grande, antiga e sisuda estava em órbita.
Pintado na proa às pressas, o nome Beagle identificava o cargueiro. O cientista e agora oficial de sensores Toshio Kato avisou seu comandante:
- Senhor, detecto pelos sinais de rq do nosso sistema especial de sensoriamento um estranho objeto cerca de um ano-luz daqui. Está em velocidade relativa de uns 12.000 quilômetros por minuto. Parece algo como um salva-vidas.
Michael Snaker era um sujeito grandalhão. Quem o visse não diria tratar-se de um renomado exobiólogo e físico bioquântico. Com cabelos longos, barba e bigode negros, de olhos castanhos penetrantes e voz poderosa de tenor, o sujeito impunha respeito.
- Acha que é algo vindo da Tristalla? - Perguntou, virando-se para o japonês.
- Humm...Negativo. Meus sensores indicam a presença de perônia na composição do casco, portanto deve ser de alguma nave da Terra. Parece um modelo comercial...Hummm...É o camarote principal de um iate fabricado pela Wonka...O computador diz que é de um Spirit Phase IV GLX.
- Então não é um salva-vidas da Avenger IV. Mas o que diabos uma cabine de um iate de luxo estaria fazendo aqui, neste lugar?
O senhor Toshio deu de ombros. Michael ordenou ao piloto:
- Leve-nos até esta cabine salva-vidas, senhor Parkyv. Espero que não seja uma armadilha dos darys.
O cargueiro deixou a órbita do gigante gasoso envolto nas nuvens que o formavam e seguiu até a cabine-salva-vidas onde Rodrigo e Milena tentavam entender o que acontecera.
Em meio a luz vermelha de emergência, o jovem milionário levantou-se e chamou por Bio, que não respondeu. Quem repondeu foi o computador portátil da cabine:
- Este quarto foi programado para ejetar-se automaticamente em caso de perigo extremo de destruição do iate. Como um grave problema estrutural foi detectado, devido a causas externas, não havia outra opção.
Rodrigo olhou pela janela: só era possível ver as cores da nebulosa.
- Mas, o quê aconteceu com a Squalus?
- Não sei informar, senhor, sou apenas o computador de emergência da cabine. A última informação que tenho é que a nave foi atacada. Pode estar destruída.
Milena fez cara de choro:
- Não! Não, não pode ser! Isso não pode ser verdade! Diga que não é, Rod!
Maulson passou as mãos pelos cabelos e sentou-se em sua cama. O pequeno aposento estava todo rubro devido as luzes de emergência. Mandou o alarme parar.
- Calma agora, Milena! Não vamos entrar em pânico. - Olhou novamente pelas janelas, mas só via nuvens coloridas de gás.
- Computador, a alguma maneira de saber onde estamos, onde está a Squalus, e de enviar alguma mensagem?
- Os meus sensores são limitados e nada detectam nesta nebulosa, senhor. Não é possível saber onde está o iate. Comunicações externas abertas e na potência máxima. Pode falar. Desde que ejetamos, estou enviando um sinal automático de socorro.
Ocorreu a Rod que, se a Beagle atacou a Squalus, não era boa idéia nem mandar aviso de socorro, nem mensagens. Arrepiou-se ao lembrar das palavras da capitã Hassein: "...Todos a bordo morreram...". Mandou o computador parar de enviar socorro, fechar as comunicações e apenas tentar captar alguma mensagem.
- Faça uma varredura completa, mesmo com os sensores limitados, computador.
Milena estava chorando, agachada num canto. Mas estava quieta.
O jovem rapaz foi até ela, ajoelhou-se e a abraçou:
- Calma, Mi. Vai dar tudo certo. Fique calma e em silêncio, ok?
A doce mulata olhou-o nos olhos:
- O que houve? Como isso aconteceu?
- Alguma coisa atingiu a Squalus. Não dá para saber o que é...
- Será que o tal Snaker...
Um túnel wormhole pequeno tragou a cabine. O melhor quarto da Squalus materializou-se dentro de um dos compartimentos de carga da Beagle. Notando o transporte, Rodrigo olhou pelas janelas: Viu um ylsio aproximar-se com arma em punho, um xaser.
O rapaz humano pegou sua própria arma da gaveta da cômoda e mandou Milena entrar debaixo da cama:
- Não faça nenhum movimento ou barulho, Mi.
Ele abriu a porta da cabine que assoviou quando as atmosferas, do pequeno quarto e da nave onde estava, se equalizaram.
Rod sentiu o cheiro estranho do ar e a gravidade alterada. Escondeu-se atrás de uma coluna, numa das paredes curvas do aposento. O ylsio entrou, enorme, com cara de poucos amigos, os quatro olhos minúsculos varrendo o lugar.
Maulson disparou, a onda de luz concentrada estava programada apenas para atordoar, e o ylsio caiu. Mas o jovem rapaz loiro sabia que eles deveriam estar escaneando sua cabine. Deveria haver mais como aquele que abatera. E, sabendo que os ylsios não pertenciam à UniCiv, coisa boa é que não viria até ele. Engoliu sêco.
A voz no rádio foi poderosa:
- Largue a arma, rapaz. Somos amigos. Saia com as mãos na cabeça e peça para sua amiga debaixo da cama sair também, ou terei de mandá-los para o espaço com porta aberta e tudo. Não tente nada, estamos escaneando vocês!
Rodrigo achou melhor obedecer e puxou Milena de onde ela estava. Largou a arma e sairam. A respiração dos dois era acelerada, também devido a menor pressão do ar. Esperaram próximos a porta o que parecia ser uma eternidade, temerosos do que ia acontecer.
Quem falara no rádio da cabine era o próprio Michael Snaker, e o jovem Maulson reconhecera sua voz. E o reconheceu ao vê-lo chegar, ladeado por uma linda alfana de cabelos curtos cor-de-rosa.
- Não estou armado, mas aviso que a Dirana aqui está, e é rápida no gatilho. Podem abaixar os braços. Afinal, quem são vocês e o que estão fazendo aqui?
Milena aproximou-se, tremendo:
- Por favor, senhor, não nos mate. Estamos só...Passeando...Fazendo um cruzeiro!
****
O cientista comandante da Beagle simplesmente não acreditava no que ouvia. Um cara milionário, com uma tripulação inexperiente (com exceção do engenheiro), fazendo turismo fora da UniCiv, no meio de uma nebulosa afastada de tudo.
Além do mais, eles vieram com a estória de que ele era perigoso e de que ele destruíra a Avenger IV, como se isso fosse possível, quase sem armas num velho cargueiro.
Só podia ser coisa do Inus.
Michael sabia que a nave da UniCiv havia sido destruída, mas não esperava que aqueles malditos terroristas darys poriam a culpa nele. "Que situação!" - pensou. Olhou para seus assustados visitantes:
- Olha, eu não sou nenhum...Pirata. Podem me chamar de maluco, mas eu não ataquei ninguém. Nós roubamos esta nave porque ela estava parada no espaçoporto de Sirius Uno e ia ser descomissionada. Não ferimos ninguém. Nem mesmo quando pegamos nossos equipamentos nos depósitos da Espiral em Arcturus!
Rodrigo Maulson o encarou:
- A capitã Hassein exibiu-me as imagens do que restou da Avenger IV.
- Escute: acha que eu e meus seis amigos aqui, nesta lata velha, poderíamos atacar um cruzador de combate classe martelo? Para falar a verdade, nem sei porque a UniCiv mandaria uma nave dessas atrás de mim. Tudo isso por um velho cargueiro e alguns equipamentos...Mas eu lhe digo: foram os terroristas darys comandados por Inus!
Milena olhava ao redor a decrépita nave onde estavam: devia ter uns cincoenta anos. Olhou de novo para seu comandante. Suspirou ao admirar-lhe a beleza. Nos idos de 2.700, só era feio quem queria, devido a engenharia genética.
Já Rodrigo, sentado naquele refeitório mau cheiroso, estava era preocupado com a Squalus, mas não deixara de notar as igualmente belas Dirana de Santívia, de Alpha Centauri, e a médica, Allis Zeldor, de Daryani. Com esta última, falou:
- Parece-me então que seus patrícios estão querendo aprontar alguma...
Ela era muito bonita, para os padrões darys, não tanto para os humanos:
- Estes terroristas são contra a Terra e Negatta-Iliova, por causa da Grande Guerra. Por isso têm atacado sistematicamente os humanos e os ylsios.
- Mas essa guerra foi há 300 anos!
A dary, de pele azulada e olhos vermelhos, suspirou.
- Sabemos disso. Mas uma facção rebelde vinda do Ocidente Sul, a Ordem Zinédica, cultua a total independência de Daryani e a reconstrução da glória do Império Dary.
Milena assobiou:
- Uau! Quanta asneira! O melhor que aconteceu à Terra, a Thor e a Dary é a criação da UniCiv!
A segunda-em-comando, a alfana Dirana, concordou:
- Até meu sistema estelar sabe disso, mesmo que tenha sido atacado e conquistado pela Terra. Somos prósperos hoje devido à União. Só faltava os alfanos e proximanos se rebelarem e resolverem que querem os antigos reinos de volta...Que absurdo!
Parkiv, o piloto thoriano, disse, sério:
- Se bem que você, Dirana, é descendente de humanos. Os verdadeiros alfanos, aqueles homenzinhos de seis braços, talvez não concordem com seu ponto de vista...
A alfana mostrou-lhe a língua como resposta.
Michael levantou-se:
- Bem, vocês todos aqui deveriam saber o que o fanatismo faz, seja ele patriótico ou religioso. Torna as pessoas cegas. Elas não enxergam o que é verdadeiramente bom para elas ou seus semelhantes, são tomados por uma fúria - por assim dizer - egoísta!
Rodrigo se manifestou:
- Isso é verdade. Os darys devem estar armando alguma coisa em segredo, aqui, neste "fim de mundo", e não querem que ninguém saiba. Porisso puseram a culpa no doutor Snaker. Vocês precisam me ajudar a encontrar a Squalus e juntos, temos de voltar e sair daqui; temos de avisar o Comando Espacial e a Força Azul!
Os seis tripulantes da Beagle, os Filhos de Darwin, olharam seu comandante. Ele suspirou.
- Está bem. Já fugimos deles uma vez, podemos fugir de novo. E nossos sensores especiais, que nós mesmos melhoramos, são mais potentes que os deles, com um raio de atuação de mais de um ano-luz. Não vamos perder tempo. - Virou-se para Clóvis Ribeiro, seu astronavegador. - Clóvis, traçe uma rota seguindo o caminho feito pela cabine do capitão e dono da Squalus; vamos tentar achá-la na região de onde veio. - Virou-se para seu piloto: - Parkiv, vire a nave e junto com o Toshio tente encontrar qualquer sinal...Seja da Tristalla, seja do iate do senhor Maulson. - Virou-se novamente, agora para sua médica: - Prepare a enfermaria para receber feridos.
Este último comando fez estremecer Rodrigo e Milena. Michael prosseguiu:
- Lor-ti-neé, fique de olho nestes motores antigos e não os deixe explodir!
O ylsio levantou-se, mas antes de sair, virou-se para o jovem milionário:
- Você me paga pela tontura e dor de cabeça que eu estou sentindo!
Rod deu de ombros e desculpou-se:
- Como eu ia saber que você era "de paz"? Sinto muito pelo tiro.
No refeitório ficaram apenas o comandante, Dirana, Maulson e Milena.
A segunda-em-comando, de corpo escultural e olhos rosados como seus cabelos, aproximou-se de Rodrigo e colocou a mão sobre seu ombro:
- Amigo, espere pelo pior...Se a Tristalla destruiu uma nave de combate da UniCiv, imagine o que pode ter feito com seu iate.
- Dirana! - Esbravejou Michael, chocado com a franquesa da alfana.
Mas tanto Rod quanto Milena sabiam que era verdade. Lágrimas saíram dos olhos da mulata, que olhou para baixo, pensando em Irineu, Antônio e os outros.
****
Com sensores poderosos, a Beagle podia entrar e sair de wormholes curtos e viajar alguns anos-luz em minutos, dentro da nebulosa. Toshio podia dizer onde emergir, ao contrário dos navegadores da Squalus e da Tristalla, que só podiam "ver" alguns milhares de quilômetros adiante, exceto em "clareiras". Era uma grande vantagem.
Emergiram onde deveria estar o iate.
O oficial de sensores captou destroços a frente. Quando ia analisá-los, um alarme tocou. Ele deu um pulo:
- Comandante, a Tristalla está a quinze mil quilômetros! Não pude detectá-la antes porque estava atrás de um proto-planeta...
Michael ergueu a sobrançelha esquerda, surpreso. Sentado no posto de capitão, olhou seu painel: eles deviam estar detectando a Beagle nesse exato momento.
- Vamos fugir, senhor Parkiv, o mais longe daqui que puder!
Rodrigo e Milena estavam sentados em cadeiras de postos vazios na ponte do cargueiro siriano, e assistiam a tudo. O jovem rapaz sentiu a mão da mulata apertar a sua quando ouviram Toshio dizer que captara vários destroços...
A velha nave ia mergulhar num outro wormhole quando mísseis de ante-matéria surgiram em altíssima velocidade e explodiram próximos, tumultuando as nuvens e toda a nebulosa. Não poderiam entrar no ante-espaço. A Beagle sacudiu-se, os amortecedores gravitacionais seguraram os tripulantes no lugar. Clóvis virou-se para Michael:
- Comandante, danos estruturais no casco, na proa ...Compartimento de carga 4.
- Vede a sessão imediatamente! - apertou algumas teclas em seu painel, verificando a situação. Na frente deles, as janelas exibiam as nuvens ionizadas da nebulosa dançando rapidamente, agitadas pelas explosões. A Tristalla vinha rápida e já era visível.
Parkiv foi sêco:
- Senhor, nesta nebulosa os escudos quânticos não funcionam e esta nave não tem blindagem. Um impacto direto vai destruir-nos completamente.
- Estou a par disso, piloto. - Michael apertou os olhos, traçando uma estratégia. - Acelere o máximo que puder, vamos nos camuflar atrás daquela nuvem de cobalto. Depois faça meia volta e tente ficar atrás deles...
Os motores antigos rangeram assustando Lor-ti-neé, que estava na Sala de Máquinas. Ele berrou pelo interfone:
- Ei, povo da ponte, esse treco vai arriar!
- Que solanês mais estranho desse ylsio - comentou Milena para Rodrigo. - Que vocabulário engraçado!
A nuvem azul encobriu os passos do cargueiro. A Tristalla era mais rápida, mas com sensores fracos não pode continuar seguindo a Beagle. Esta, conforme o comando de Snaker, virou 180 graus contornando a nuvem de cobalto e surgiu de surpresa atrás da nave dos terroristas darys.
- Ejete o compartimento de carga 4 ao meu sinal, senhor Toshio! - Berrou o comandante.
- Mas eu não sei fazer isso! Sou um cientista pesquisador de sensores!
Rodrigo levantou-se e foi até o painel à direita do japonês. Apertou as teclas certas - em uma de suas vidas passadas estivera em um cargueiro igual ao Beagle - e ejetou todo o compartimento danificado que ficava à proa da nave. Pegos de surpresa, sem escudos quânticos para protegê-los, a Tristalla levou uma pancada e tanto na traseira, entre seus motores quarkiônicos, e o estrago só não foi maior porque tinham uma blindagem poderosa, própria de naves de combate.
- Ache um lugar tranqüilo para mergulharmos, senhor Clóvis!
O astronavegador traçou a rota, Parkiv a implementou, e o velho cargueiro siriano logo entrou num túnel wormhole.
O capitão Inus Horona rilhou os dentes ao ver as cenas daquilo tudo, por uma das três telas gigantes que contornavam a ponte da Tristalla. Recostou-se em sua poltrona de comando. Seus olhos ficaram mais vermelhos do que já eram. O pastor Asus Moder olhou para ele, sentado diante de seu painel espiritual:
- Aquele cientista maluco é bom mesmo, não acha, Inus?
- Sim, ele é. Nós estamos num moderno cruzador de batalha dary, superequipado, e não conseguimos pegá-lo por duas vezes.
O oficial de sensores Binus Aduba virou-se também para seu capitão.
- Eles tem sensores muito bons. Essa é a vantagem deles sobre nós...
- Temos de pegá-los. E ao iate também, a UniCiv não pode saber que estamos aqui em hipótese alguma! - O capitão virou-se para o oficial de estratégias e imediato, Sanis Amum:
- Sanis, traçe um plano para capturar ambas as naves. Aquele iate não deve ter ido longe, todo danificado...E aquele Michael Snaker...Precisamos dele vivo!
****
A Squalus estava no meio de mais nuvens ionizadas, desta vez tão densas que não se enxergava nada além das janelas da nave e os sensores, mesmo melhorados pela Aristóteles, não tinham resolução nenhuma além de mil metros. Estavam fora de rota, perdidos e cegos. E danificados.
Irineu, que já passara apuros semelhantes quando trabalhava nos asteróides do Sistema Solar, não estava nervoso:
- Pois é, Antônio, o camarote do capitão foi ejetado automaticamente milissegundos após aquele torpedo ter atingido os motores 3 e 4; o sistema de segurança não foi calibrado, e achou que o iate inteiro iria explodir. Só que com as modificações que fizeram nesta nave, ela aguentou o impacto!
Antônio Varello estava tremendo. Ele, por sua vez, nunca enfrentara nada parecido. Pensava que nem mesmo o "salarião" que seu amigo Rodrigo lhe pagava compensava o que estava passando. Assustou-se quando a médica, Érica Ranan, entrou de supetão na ponte.
- Frank Mugama está gravemente ferido! Está com hemorragia interna e não sei o que fazer.
Irineu virou-se surpreso para ela, depois olhou para Tony, que também estava perplexo. Perguntou:
- Ué, você é a médica, se você não sabe, o que um piloto e um astronavegador podem fazer?
Érica mostrou-lhes um distintivo:
- Sou Janaína Ranadi, detetive da Polícia Solar!
Os dois rapazes ficaram sem fôlego. Jan olhou para cima:
- Bio, tem alguma idéia de como voltarmos e saírmos da nebulosa?
- Negativo. Estou estudando os arredores desde que fomos atingidos, mas Frank, mesmo ferido, acelerou as máquinas com força total, com a nave rodopiando, de modo que não posso traçar um curso de volta. Estamos perdidos e é melhor ficarmos parados por hora. Estamos muito danificados.
- E quando a cabine do Rodrigo?
- Não há nenhum sinal dela. Estou prosseguindo as buscas, mas as nuvens impedem até mesmo de lançar uma sonda.
Irineu engoliu sêco. Perguntou para a baiana que estava sob disfarce:
- O senhor Mugama vai morrer?
- Quando fomos atingidos, além dos motores 3 e 4, o reator B explodiu levando parte da Sala de Máquinas com ele. Frank foi ferido. Salvou-nos, acelerando além do limite os outros dois motores, mas agora está em coma. Bio ajudou-me a estabilizá-lo, mas ele precisa de ajuda médica urgente. O que vamos fazer?
Irineu, Antônio e Érica, agora revelada Janaína, ficaram olhando o exterior nebuloso, cada um tentando pensar numa saída. Irineu olhou a baiana de cima a baixo:
- Mas, me diga: o que uma detetive da P.S. espionava aqui, neste iate?
- O patrão de vocês é suspeito de ter roubado algumas relíquias valiosas em Marte. E suspeito que roubou outra em Nishia. Meu chefe mandou-me investigá-lo, pois sou...Amiga pessoal dele.
- Mas a P.S. não tem jurisdição fora do Sistema Solar.
- Estou trabalhando com autorização do Ministério da Segurança Pública da UniCiv. Roubos assim são raros hoje em dia, e as peças desaparecidas são muito valiosas, tanto do ponto de vista arqueológico quanto do financeiro.
Antônio balançou a cabeça:
- Eu me lembro de você, Jan. Lembra-se de mim?
- Claro, desde que o vi no hangar da Aristóteles.
- Acha que nosso amigo Rod, que era, ou é, apaixonado por você, fez uma coisa dessas? E porque faria, se ele é milionário?
- Não sei...Simplesmente não sei responder a estas perguntas, Tony. A verdade é que eu gosto muito do Rodrigo, mas tenho minhas obrigações.
Irineu mostrou-se supreso:
- E vai prendê-lo, se ele roubou mesmo as peças?
- Vou. Infelizmente, é isso que vou fazer.
Livro II - A Busca - Capítulo VI.
Rodrigo alisava os cabelos encaracolados de Milena, que estava com a cabeça deitada em seu peito. Do outro lado do quarto apertado com paredes cinza, de cantos sujos, estava outro casal.
- Obrigado por ceder parte de sua cabine, doutor Snaker. - Disse Rod.
- Sinto muito por seu iate, senhor Maulson. - respondeu ele. Dirana de Santívia estava deitada junto ao cientista. Ela disse:
- Vimos quando aqueles terroristas destruíram a Avenger IV. São muito poderosos.
- Talvez aqueles destroços não sejam toda a minha nave. Pareciam poucos. Eles podem ter conseguido fugir. Meu iate foi modificado, tem quatro motores poderosos...Se bem que o computador de bordo ainda não está inteiramente formado, de modo que não agiria numa emergência...
Michael ergueu a sobrançelha esquerda, como era seu costume:
- Seu computador...Não estava formado?
- Depois eu explico. Preciso dormir um pouco, estamos acordados a quase vinte horas. Estou exausto e Milena dormiu. Nosso fuso horário é o de Nishia.
- Estamos na parte da manhã. - Disse a alfana, levantando-se. Beijou os lábios de Michael. - Tomem uma pílula de adequação de fuso horário e durmam, acordarei vocês daqui a doze horas, a menos que tenhamos alguma notícia da Squalus. O senhor Toshio a está procurando, estamos fazendo uma varredura em círculos.
- Acorde, Mi. Vamos tomar um remedinho...
Michael levantou-se também e pediu licença. Saiu da cabine com a garota de cabelos e olhos cor-de-rosa. No corredor apertado e cheio de longarinas, pintado de cinza e não muito limpo, Dirana perguntou ao seu marido:
- Acha que o iate deles está inteiro?
- Porque não? Havia realmente poucos destroços naquele lugar, como o senhor Maulson disse.
- E vamos ajudá-los? Não é melhor fugirmos daqui?
Snaker ficou de frente para a alfana, sua mulher:
- Sempre ajudo alguém que precisa de mim, amor. Você sabe disso. E você sabia que seria perigoso virmos pesquisar aqui, nesta nebulosa. Está com medo?
- Você sabe que o capitão Inus é muito esperto. Ele pode nos pegar facilmente, e se isso acontecer, com certeza vai querer nos torturar...É isso que ele mais gosta, torturar qualquer um que não seja dary. Você vai arriscar-nos a isso? Por um casal que nem conhece? Vamos embora desta nebulosa, Mike!
Rodrigo apareceu na porta:
- Onde tem água? Nesta cabine não tem nenhum bebedouro...
- Vou pegar para você...- Disse Michael. Ele seguiu na direção oposta da que estava indo, e passou por Rodrigo. Esse, por sua vez, olhou Dirana, parada no corredor.
Ela devolveu-lhe o olhar. Um olhar mordaz. Rod admirou-a. Numa roupa de látex cor-de-rosa que toldava suas formas de maneira extremamente sensual, a alfana parecia uma femme fatale, insinuante e perigosa.
****
Frank Mugama estava internado na enfermaria da Squalus. Aquele iate, só com dois motores funcionando, com a Sala de Máquinas parcialmente destruída e sem a cabine do capitão, flutuava entre nuvens cada vez mais sólidas, com seus tripulantes cada vez mais desesperados. Mas Janaína resolveu tomar conta da situação.
- Não adianta ficarmos aqui esperando. - Disse, com Irineu e Antônio sentados junto com ela no refeitório limpo e brilhante.
O piloto levantou-se e admirou o quadro da "Santa Ceia" pendurado na parede.
- Bem, então a minha idéia é virar a nave e acelerar até acharmos algum ponto de referência. Estamos voando pela inércia, e cada vez mais para dentro desta nebulosa!
Antônio estava quase em pânico:
- E se o tal Michael atirar na gente de novo? E se acabar a comida? E se...
- Cale a boca, porque "e se" eu lhe der um murro, você não vai gostar... - Janaína estava irritada, tudo que não precisava era um medroso ao seu lado. Ela disse à Irineu:
- Faça isso, vire essa joça e acelere em linha reta. Bio - olhou para cima, fazia sempre isso, embora não fosse necessário quando se falava com um computador. - Bio, enquanto voltamos, analise tudo o que puder e veja se é possível sairmos daqui!
- Farei isso. Senhor Irineu, quer que eu vire a nave para o senhor? Estamos numa área perigosa da nebulosa.
Irineu assentiu e o iate virou. Os dois motores fotônicos restantes acenderam e o iate preto e dourado singrou por entre as nuvens de gás em linha reta.
****
A bordo da Tristalla, o pastor Asus Moder estava no templo, orando. Ele tinha poderes que poucos sabiam, e os estava utilizando agora.
O capitão entrou:
- Estou atrapalhando, Asus?
- Você sempre me atrapalha, Inus.
- Nossos sensores estão perdidos, não acham um monstro gigante num deserto ao meio-dia. Nosso range é de apenas mil e quinhentos quilômetros no momento. Dependo inteiramente de você, Asus.
- Misteriosos os caminhos da fé, meu amigo. Nada da Beagle, mas pude sentir o tal iate. Está próximo. Creio que posso guiá-lo até ele. Quatro pessoas, todas humanas, estão à bordo. Uma está muito ferida, as outras duas são jovens e inexperientes, mas há uma agente da Polícia Solar, da Terra, entre eles.
- Da Polícia Solar? Que coisa mais estranha! Precisamos descobrir o que ela faz aqui...Será que suspeitam de alguma coisa, Asus?
O velho dary sacudiu a cabeça negativamente:
- Nada sei sobre isso, Inus.
No aposento escuro, o capitão mal podia ver os olhos do pastor. Virou-se para sair, gesticulando:
- Passe as coordenadas para a ponte, Asus...
Depois disse para si mesmo, enquanto caminhava pelo corredor:
- Polícia Solar? Porque um policial e não algum agente secreto? O que sabem sobre nossas atividades? Que merda!
****
No laboratório montado dentro de um compartimento de carga da Beagle, Michael Snaker mostrava alguns holo-filmes para Rodrigo e Milena. Ambos haviam dormido bem e estavam no fuso horário da nave, tendo jantado com todos naquele refeitório horrível.
- Vejam. - Disse o cientista, apontando para a imagem de uma barra de chumbo. Quando ele digitou algo, o espaço em torno ficou quadriculado em amarelo. - Observem. - Ele digitou mais alguma coisa e o tempo na imagem fluiu mais rapidamente. O cronômetro logo abaixo mostrava horas como se fossem segundos. E os quadriculados tridimensionais flutuavam, distorciam-se e voltavam ao normal várias vezes. - O que vêem é a prova de que até uma simples barra de chumbo pode conter alguma coisa parecida com a vida. Uma vida diferente, é claro, diferente da nossa, mas ela "vive". Uma simples barra de chumbo pode afetar a estrutura do Universo como qualquer um de nós.
Milena sacudiu a cabeça:
- Tudo bem, mas creio que devemos chamar de "vida" aquela comparável à nossa. Objetos inanimados podem até ter alguma coisa assim, mas com outro nome...
Michael sorriu, caminhando em torno deles e olhando em volta:
- Decerto. Mas há algo que descobri além disso. É como se houvesse algo "preso" dentro do objeto...
- Uma "alma"? - Perguntou Rodrigo. Ele abraçava Milena por trás.
- Algo como uma alma, sim. É como se estivesse dormente, esperando alguma coisa, talvez passar para um corpo realmente "vivo", ou talvez, como várias crenças dizem, "morrer" e atingir o paraíso...Estas questões metafísicas são muito complicadas, mas através da matemática pura descobri que a solução única é a existência da alma.
- Sem dúvida é um assunto delicado e vai dar muito pano para manga. - Disse Rodrigo, olhando a imagem holográfica em cima da mesa de estudos.
- Mesmo agora, em pleno Século 28, questões como essa causam muito preconceito, indignação, e...Bem, até repúdio. Alguns colegas de trabalho na Aristóteles queriam que eu deixasse a nave, por elaborar teorias tão malucas...Mas o que é verdadeiro e falso neste Universo? Nas viagens que o Homem tem feito pelo espaço, foram descobertas coisas antes consideradas impossíveis...Nas pesquisas feitas nas últimas centenas de anos, nas áreas da biologia, computação e principalmente da física, foram descobertas maravilhas sequer imaginadas pelos nossos ancestrais...
- Mas alguns grandes mistérios permanecem, não é mesmo, doutor? - Inquiriu Rodrigo. Michael olhou para ele, sorrindo:
- Sim...O que há depois da morte? Deus existe? Quem ou o quê criou o Universo? O que havia antes do "Big Bang"?
Rodrigo Maulson refletiu com seus botões que tudo aquilo sempre o intrigara, embora tivesse vislumbres de algumas respostas àquelas perguntas. Havia algo além daquele Universo onde viviam, algo impossível de se imaginar, isso o próprio Rod, ou Atron, sentia toda vez que mudava de corpo. E Deus, ou uma Força controladora do Universo, ou de todos os Universos, esse sim, ele realmente podia sentí-lo. Algo unipresente, algo que estava sempre ao seu lado.
Das vezes que encarnara personagens maus, e lutara contra o caráter da pessoa que habitara aquele corpo, sentira o Universo agitar-se de modo negativo, ruim. Mas aquela incrível Força, Deus, ou o nome que as inúmeras raças do Universo davam à Ele, estava lá para ajudá-lo. E a alma? Esta ele sabia existir, a alma de cada pessoa era única, do contrário ele, Atron, não poderia estar existindo a quinze mil anos...
O cientista tirou-lhe de seu devaneio:
- O senhor, senhor Maulson, parece aceitar bem minhas idéias. E, vendo um jovem rapaz de apenas 24 anos com uma incrível sabedoria, eu até diria que os indianos, aqueles da Terra, estavam certos sobre reencarnação.
- Chame-me de Rod, doutor Snaker. Talvez o senhor tenha razão. Diziam que voltar no tempo era impossível, agora sabemos que, de certa forma, isso é possível, sim. Da mesma maneira, porque não acreditar que os objetos tem "vida"? Tive um gravicar que parecia ter vida própria: às vezes ele pegava, às vezes não...
Todos riram. O doutor disse, gesticulando:
- Chame-me de Michael, Rod. Você também, Milena. Bem, acho que o maior exemplo que posso dar de minha teoria são os computadores com inteligência artificial.
- Sim. - Concordou Milena. - É claro! Esses computadores são montados a partir de placas eletro-positrônicas inanimadas. Passam a rodar programas sofisticados, que no fundo não passam de simples códigos, simples símbolos. E a maioria torna-se senciente, sem que saibamos a verdadeira razão disso.
- É isso! - Apontou o doutor. - Um objeto inanimado, mas "vivo"!
- Mesmo nós... - disse Maulson - ...Não passamos de um amontoado de matéria orgânica. O que nos dá "vida"? A posse da alma? Creio que estamos invadindo o campo da filosofia. Mas, de qualquer forma, sua teoria, doutor Michael, parece-me bem interessante.
O comandante da Beagle era todo sorrisos. Ao contrário de sua mulher, que entrou no laboratório naquele instante, acompanhada de Parkiv e da médica, Allis Zeldor.
- Queremos falar com você, Mike. Queremos voltar! Ir embora!
Os outros três entreolharam-se. Dirana prosseguiu, apontando o dedo para fora:
- Não somos páreo para um cruzador de combate dary. Com exceção do Toshio, todos nós queremos voltar agora!
A dary Allis disse, seus olhos incrivelmente vermelhos:
- Ouvi muitas estórias horríveis sobre a Ordem Zinédica. Por trás da religião, pregam o racismo puro! Há 300 anos, inúmeros ylsios inocentes foram chacinados sem motivo, ao final da guerra, por membros da Ordem. Soube de humanos sequestrados e torturados de maneiras inimagináveis. Thorianos foram jogados no espaço apenas por serem thorianos. - Ela fez uma pausa para respirar. - Não concordo com o ponto de vista desses meus patrícios terroristas, nem o governo de meu planeta. Se eu for capturada, serei executada apenas por pensar diferente daqueles que pertencem à Ordem!
Parkiv, sério como todo thoriano, falou sem alterar a voz:
- O que a doutora Zeldor diz é verdade. Vamos embora. Avisar o Comando o mais rápido possível. Não podemos ficar à mercê de Inus e sua tripulação.
Michael olhou para a mulata e o jovem milionário com cabelos cor de trigo. Colocou as mãos para trás e disse, firme:
- Eu estou no comando aqui. Vocês sabiam dos riscos ao concordarem em seguir-me neste "inferno". Mas eu não sou tolo. Não podemos combater diretamente a Tristalla, portanto, creio que o melhor a fazer é suspender as buscar e sair daqui.
Parkiv disse, sêco como sempre:
- Clóvis já conseguiu encontrar uma rota de fuga. Posso implementá-la imediatamente, se o senhor quiser.
Snaker olhou para o casal da Squalus, ambos com feições de desamparo.
- Sinto muito...Como vêem, estou prestes a enfrentar um motim - ergueu os braços - Se acreditam mesmo em uma Força Divina, só resta rezarem...A Squalus estará entregue a própria sorte até alguém da Força Azul chegar aqui.
Milena fez cara de choro. Rodrigo suspirou:
- Eles não tem nenhuma chance, mas você está certo. Além do risco para os tripulantes da Beagle, que nem nos conhece direito, creio que a prioridade é avisar alguém de fora...O mais rápido possível. Inus não deve ter boas intenções, escondido nesta nebulosa.
Michael tomou fôlego e ordenou:
- Parkiv, implante a rota de fuga - e virou-se para sua mulher: - Satisfeita?
****
A Squalus deu de cara com a Tristalla, ao sair das nuvens mais densas. No controle da nave, Irineu nada pôde fazer. Estavam tão próximos que não podia disparar uma arma sequer sem serem também atingidos.
As ordens eram para desligarem os motores e se deixarem acoplar. Mini-túneis wormhole os recolheram. Com exceção de Frank Mugama, em coma na enfermaria, o piloto, mais Antônio Varello e Janaína Ranadi, estavam na Sala de Entrada e Saída da nave inimiga. Examinando-os, junto com seus seguranças, estava Inus Horona.
- Levem a policial para a Sala de Interrogatório. Os outros dois, levem para a prisão.
Assim os seguranças executaram a ordem dada pelo dary gorducho, capitão da Tristalla. Tão logo foram levados, pressionou um botão na parede e ordenou que outros soldados fossem à bordo e revistassem todo o iate, e desligassem os aparelhos que mantinham vivo o humano ferido na enfermaria, afinal, o que ele ia fazer com aquele moribundo?
Depois seguiu para interrogar a policial humana. Na Sala de Interrogatório, mandou que despissem Janaína, mas ela mesmo tirou suas roupas, não deixando os darys se aproximarem. Foi presa à uma parede de metal bastante fria, com os braços para cima, e as pernas, abertas, presas pelos calcanhares, ficando assim numa posição bem desconfortável.
- Quero que saiba que adoro torturar humanos - disse o capitão, mandando seus soldados saírem todos. - Mas se cooperar, talvez eu tenha pena de você.
Janaína Ranadi fôra muito bem treinada, e não se deixava abater:
- Pergunte o que quiser, não tenho nada a esconder. Nem precisava me amarrar aqui, assim. Se quisesse me ver nua, bastava pedir.
Inus ficou surpreso, mas então lembrou-se que era uma policial da P.S. que estava ali. Colocou as mãos atrás das costas e caminhou de um lado à outro:
- Eu não acho as fêmeas humanas atraentes. Só a deixei nua para intimidá-la. O que quero saber é o que você e os outros estão fazendo aqui, nesta nebulosa, num iate de luxo? Estão à minha procura?
- É claro que não. Vou lhe contar a verdade: o dono do iate é Rodrigo Maulson, um milionário excêntrico que resolveu vir fazer turismo aqui. Ele é do tipo aventureiro. Eu estava sob disfarçe para investigá-lo, pois suspeita-se que tenha roubado algumas relíquias valiosas da UniCiv.
O capitão parou defronte à ela. Encarou-a.
- Bem...Apesar de estranha, sua estória é bastante verossímil. Não vou perder tempo com você agora. Não sei porque, mas acredito no que disse. - Liberou-a das amarras e ela desceu, agradecida, e vestiu-se.
Por causa da jovialidade e franquesa da policial, e por se sentir superior aos humanos, o velho dary cometeu um pecado mortal, e por instantes deu as costas à baiana.
A bela mulher, de cabelos escuros mas loira de nascença, não perdoou: socou-lhe as costas com o braço biônico que possuía, e ele caiu. Terminou o serviço quebrando um aparelho qualquer que estava numa mesa sobre sua cabeça. Inus desmaiou.
- Agora você vai provar do seu remédio, dary idiota!
Janaína tirou-lhe as roupas, e torcendo o nariz para o corpo gorducho e azulado, puxou-o e o amarrou na chapa de metal como ele havia mandado amarrá-la. Só que o amordaçou também. Pegou sua arma, um tipo de xaser, e saiu com a maior naturalidade.
Do lado de fora da sala, os dois guardas ficaram tão surpresos que foram abatidos - atordoados e não mortos - por uma agente policial especialista em armamentos, sem sequer terem tempo de piscar. Esperta, a baiana seguiu sorrateiramente pelos corredores até capturar um tripulante que passava e apontar-lhe a arma para sua cabeça:
- Diga onde fica a prisão desta nave, ou eu mato você!
- Nunca, humana - o soldado disse "humana" com extremo desprezo, e tentou reagir, mas ele não conhecia a garota, e logo estava caído, demaiado também.
- Não sei porque não mato todos nesta naves, seus darys nojentos!
Seguiu em frente. Capturou outro. Com esse foi diferente:
- Ei, espere, não atire! Eu te levo até lá, humana, mas não atire! Sou do bem!
Segurando o braço do guarda de uniforme vinho para trás e apontando o xaser para sua cabeça, Janaína disse:
- Não importa se é "do bem" ou "do mal". Leve-me à prisão agora mesmo!
- Claro, claro, venha, eu lhe mostro. Sabe, eu estou aqui por engano, minha avó sem querer inscreveu-me na Ordem Zinédica, pensando que era um curso de culinária, porque eu vivia sozinho com ela, e cozinhava para ela, e ela detestava, então...
- Quer calar a boca e me levar até lá?
O dary de jeito esquisito, sem se importar muito com o xaser, puxou a detetive pelo braço e desceram por escadas e atravessaram corredores, ovalados como de todas as naves feitas no planeta Daryani, até chegarem numa sala circular onde três soldados montavam guarda. O tripulante que estava com a baiana sussurou, à beira da porta:
- Vou desativar o computador de segurança. Quando eu der o sinal, você abate os três com um raio disperso, assim - regulou a arma de uma Janaína perplexa. - Aja rapidamente, porque temos apenas dois minutos até perceberem que a prisão foi invadida!
- Espere um pouco! Quem diabos é você e porque está me ajudando?
- Já lhe disse quem eu sou. E eu quero dar o fora daqui! Leve-me contigo, humana, e eu a ajudo a sair desta nave. Eu sei que vocês vem do iate acoplado lá fora. Eu não concordo com esses racistas malucos! Eu...
- Cale a boca e aja!
Assim ele fêz; ato contínuo Janaína atordoou os seguranças e libertou Irineu e Antônio que estavam numa cela apertada. Irineu quis lutar com o dary, mas a detetive o segurou:
- Por incrível que pareça, ele está do nosso lado. - Virou-se para o alienígena: - Como é seu nome, seu maluco?
- Sou Parus Dorms, antigo alfaiate e atual subcadete do espaço, recrutado sem saber pela Ordem e metido numa encrenca daquelas, tendo de confraternizar com terroristas...
- Se não ficar quieto, reduzo você à um monte de cinzas! - Berrou Janaína, ameaçando-o com a arma. Ele sacudiu a cabeça, concordando, e fêz sinal para que o seguissem. Os quatro foram sorrateiramente, mas rapidamente, para a Sala de Entrada e Saída. Um alarme disparou por toda a Tristalla.
****
- Mas onde está Inus? - perguntou um confuso Asus Moder para o imediato Sanis Amum, que estava no comando, na ponte.
- Ele está interrogando a policial. - O dary socou o botão do intercomunicador: - Chefe da Segurança Interna, mande uma tropa para a prisão! Os detentos fugiram! E mande outra para a Sala de Interrogatório, averigüar o que houve com o capitão! - Virou-se para uma dary que controlava os wormholes pessoais:
- Ijus, trave o gerador para que ninguém saía da nave!
- Senhor, Ludsas, da S.E.S., está inconsciente...Alguém bloqueou meu acesso direto ao gerador...Espere! Um dos nossos está operando o circuito e gerando um túnel para o iate, ele e mais três humanos se transportaram para lá!
- O que? - O imediato ficou de pé. - Mande...
Neste momento Binus Aduba, dos sensores, berrou:
- A Beagle materializou-se há dez mil quilômetros, na direção da saída da nebulosa, e meus sensores indicam que está fazendo cálculos para um novo mergulho...Ela vai sair!
Sanis era um ótimo imediato, quase um capitão. Pensou rapidamente. Disse ao piloto:
- Desacople o iate, Kallis, e siga atrás daquele cargueiro! Força total!
- Mas, senhor...
- Aquele iate não vai longe, e não podemos atacar com ele acoplado. O Michael é mais importante! Execute!
****
- A Tristalla está a cinco mil quilômetros e aproximando-se, senhor! - Berrou Toshio, no painel dos sensores.
- Não precisa gritar, eu vi. - Disse um calmo doutor Snaker. - Lançe nossos últimos mísseis de defesa, Rod, já que está aí, no painel de segurança externa.
Rodrigo obedeceu, mas sabia serem inúteis. Misséis assim só serviam para asteróides em rota de colisão ou talvez pequenas naves piratas, mas eram totalmente ineficazes contra um cruzador de batalha dary.
Com muita facilidade a Tristalla destruiu os mísseis com seus canhões de partículas. Estava alcançando a Beagle. Maulson e todos os outros na ponte seguraram a respiração.
Mísseis de ante-matéria foram disparados.
- Táticas de dispersão, senhor Parkiv, agora! - Ordenou Michael.
Habilmente o thoriano executou manobras com o cargueiro, visando evitar os mísseis, mas eles detonaram muito próximos e as ondas de choque viraram o cargueiro, que deu um giro sobre seu próprio eixo de 360o. Os amortecedores gravitacionais impediram que as pessoas à bordo sentissem o efeito da virada. Torpedos de refusão, lançados pela Tristalla, arrebentaram com vários compartimentos de carga à bombordo da Beagle.
- Lor, coloque os motores no máximo! - Ordenou Michael.
- Não me chame de Lor, meu nome é Lor-ti-neé - Berrou o cientista engenheiro, da Sala de Máquinas. Mas os velhos motores não estavam aguentando e iam fundir ou explodir, disso o ylsio sabia.
O cruzador dary passou próximo do cargueiro siriano e os raios de partículas ionizadas arrebetaram com boa parte de seu casco. Os amostecedores não aguentavam mais e os tripulantes estavam sendo sacudidos a todo instante, para cima e para baixo. Milena, que estava na enfermaria com Allis, sentiu-se enjoada e estava assustada. Allis estava com muito medo, e as duas se abraçaram, escondidas debaixo de uma mesa.
- Lá se vai nosso laboratório... - Lamentou Toshio, ao vê-lo explodir.
O laboratório ficava no centro da nave, no compartimento 9. A ponte ficava sobre o "castelo", como nos antigos cargueiros marítimos, e de lá toda a frente da nave era visível. O que viam agora era desolador: a Beagle estava se desfazendo.
Era inútil qualquer tentativa de combater a Tristalla. Dirana saiu de seu posto, na Sala de Carregamento e Desembarque, e subiu rapidamente à ponte. Abraçou seu marido Mike por trás da poltrona do capitão. O doutor estava tenso. Rodrigo o viu estremecer, coisa que lhe parecia impossível.
O milionário decidiu tentar alguma coisa.
Olhou seu painel à procura de um recurso que sabia existir naquela classe de cargueiro, pois o conhecia muito bem. Sua Mémoria da Alma, armazenada numa fenda na estrutura do Universo, não o deixou na mão, e ele lembrou-se do ejetor do núcleo de fusão de fótons, recurso de emergência caso este viesse a oferecer risco de explosão. Teclou alguma coisa enquanto falava com o ylsio na Sala de Máquinas:
- Lor-ti-neé, saia daí agora! Sem perguntas! Agora!
Michael não era bobo. E reconhecia em Rodrigo uma grande força. Ordenou:
- Saia agora, Lor! Faça o que o senhor Maulson mandou!
****
Na ponte da Tristalla, Sanis pensou consigo mesmo que, apesar de seu capitão querer Michael Snaker e seus cientistas vivos, o melhor era acabar com todos agora mesmo. O doutor era muito perigoso, e suas teorias malucas...Afinal, o que Inus e o pastor amigo dele queriam com um cientista que falava que havia "vida" em tudo? Já que vieram atrás dele, neste lugar nos confins da Galáxia, então era melhor destruí-lo de uma vez por todas.
- Mire na ponte, senhor Krustas. Mate todos!
O armeiro Krustas Darkevo virou-se, assustado:
- Mas o capitão quer o doutor Snaker vivo!
O pastor Asus levantou-se de seu painel, surpreso. O cruzador vinha para o embate final contra um cargueiro moribundo, quase a deriva, aos pedaços, lançando destroços por entre as nuvens de gás.
- Obedeça minha ordem, senhor Krustas, ou o executo aqui mesmo! - Disse o imediato, sacando seu xaser, e levantando-se. Asus segurou seu braço.
- NÃO! Temos de pegar Michael Snaker vivo! Ele é de extrema importância para nós. Viemos aqui para isso. Precisamos dele!
Sanis empurrou - e derrubou - o pastor. Krustas não tinha outra opção senão obedecer. Mirou seus torpedos para a ponte da Beagle.
- Fogo! - Ordenou o imediato.
Rodrigo, naquele instante, ejetou o núcleo de fusão de fótons do velho cargueiro. Era aquele maquinário enorme que possibilitava o funcionamento dos motores fotônicos da nave. Através do teto da Sala de Máquinas, que se abriu, o núcleo voou, evidentemente em sobrecarga provocada pelo próprio Rod, para que explodisse. Era como uma bomba fotônica. Aquilo explodiu na parte inferior do casco de uma Tristalla que vinha com toda a velocidade de ataque, transformando um quarto do cruzador em pedaços menores que uma agulha. O restante da parte inferior, onde ficavam os camarotes, os refeitórios, a prisão, a Sala de Interrogatório, os ginásios e salas de treinamento, além dos hangares, foi invadida pelas nuvens da nebulosa. Portas automáticas se fecharam, mas muitos terroristas viraram pó ao contato com o gás ionizado.
A poderosa nave dary estava ferida. A Sala de Mísseis e Torpedos e o Centro de Defesa foram completamente destruídos. Sobraram só os canhões superiores, como arma. O sistema de gravidade vascilou e derrubou todos a bordo. Os motores titubearam.
Na despedaçada Beagle, todos respiraram aliviados. Dirana olhou diferente para Rodrigo, desta vez. Michael Snaker respirou fundo. Seus ombros retesados puderam descansar. Ele virou-se para o jovem Maulson:
- Nem sei como lhe agradecer...
Livro II - A Busca - Capítulo VII.
O capitão Inus Horona, da importante família Inus do Ocidente Sul de Daryani (o sobrenome primeiro, depois o nome próprio, era assim em todo o planeta), tinha sobrevivido à explosão. Libertado pelas tropas de segurança, estava subindo à ponte quando aconteceu o contra-ataque da nave inimiga.
A Tristalla agora estava estabilizada. A gravidade voltou, as luzes de emergência deram lugar às normais e os motores foram religados. Quando Inus entrou na ponte, seu amigo pessoal e pastor, Asus Moder, correu até ele e, logicamente, contou-lhe tudo o que se passara. O imediato da nave, Sanis Amum, aguardava, cabisbaixo, ao lado de seu posto. Largara sua arma e estava ladeado por dois seguranças.
O capitão então aproximou-se dele. Todos na ponte, Binus, Kallis, Tonas, Ijus e Krustas, além do próprio Asus, temiam o que ia acontecer. Sanis também, e engoliu sêco.
- O senhor sabia o tempo todo que a Ordem quer Michael Snaker vivo. Por quê então quis matá-lo, destruindo a ponte da Beagle?
- Achei melhor acabar com aquele cientista louco de uma vez por todas...
- Aqui você não acha nada sem meu consentimento, senhor Sanis!
Sacou seu xaser pessoal. Sanis ajoelhou-se e implorou:
- Por favor, senhor, sempre lhe servi bem...Sou um ótimo...
- De nada adianta ser um ótimo imediato, se é insubordinado e tem idéias próprias...Na Ordem, ninguém pode ter idéias próprias, temos de pensar como um todo.
- NÃO!
O raio azul profundo produziu um som grave acentuado. Desfez o corpo do imediato como faca quente na manteiga. No lugar onde ele se encontrava, sobrou apenas pó e um chão danificado. Um painel próximo teve seu canto derretido. Tudo fumegava. Todos ali, exceto o capitão, sentiam medo. Alguns se perguntavam: "o que faço aqui?"
- Senhor Binus, qual é a nossa situação?
O chefe dos sensores e controle da nave descreveu a situação caótica da Tristalla.
- E quanto à baixas?
- Setenta e cinco mortos e vinte e sete feridos, sendo sete em estado grave.
O capitão sentou-se em sua cadeira de comando e suspirou. A situação era ruim.
- E quanto à Beagle? E o iate?
- O cargueiro do doutor Snaker estava bem danificado, e sem o núcleo de fusão de fótons não poderá ir longe. O iate foi levado pelos fugitivos, não sabemos onde poderá estar.
Inus recostou-se. Pensou um pouco e ordenou:
- Vamos atrás do doutor Snaker agora mesmo!
****
Na ponte do cargueiro siriano, único lugar ainda íntegro da nave, todos se reuniram. Michael, de seu posto, perguntou à Toshio qual era a situação deles no momento.
- Sem o nosso núcleo, só temos os motores de manobra disponíveis, e não dá para ir a lugar algum com eles. Estamos a cerca de 1.000 quilômetros por minuto, pela inércia, mais por causa da contra-reação à ejeção do maquinário. Metade da nave está destruída. O suporte de vida está falhando e os geradores de gravidade vão entrar em colapso a qualquer momento.
- Uma situação nada agradável - comentou Dirana, sentando-se numa cadeira e pondo a mão na cabeça. Lor-ti-neé completou o quadro:
- Os geradores wormholes foram destruídos. Estamos à deriva.
Toshio notou um sinal em seu painel. Era a Squalus.
- Parece que encontramos seu iate, senhor Maulson. - Disse o japonês.
Rodrigo configurou seu painel para as comunicações e abriu um canal:
- Squalus, aqui é Rodrigo Maulson. Quem está à bordo?
Uma voz conhecida surgiu nos alto-falantes.
- Olá, Rod. Lembra-se de mim?
- Janaína!
A detetive não usava mais o modulador de voz, para o seu disfarçe; ela sorriu na ponte do iate, contente por saber que o jovem rapaz estava vivo. Irineu manobrou e emparelhou com os restos do cargueiro.
- Janaína, o que está fazendo aí? Como chegou aqui, em primeiro lugar?
- Depois eu lhe explico. Mas estou feliz em saber que você está bem.
Michael levantou-se e olhou para todos, depois para o milionário:
- Bem, parece que vai ter de nos dar uma carona, Rod.
- Vai ficar um pouco apertado, mas vamos lá. - Então disse para Jan:
- Todos estão bem? Como está a Squalus?
- Com exceção do Frank, estamos bem. Temos apenas os motores 1 e 2 funcionando, mas o resto da nave está inteiro. Venham à bordo, antes que aqueles terroristas voltem.
- O que houve com o Frank?
- Ficou gravemente ferido quando a Tristalla nos atacou, mas salvou-nos acelerando a nave. Entrou em coma, eu o estabilizei, depois, quando fomos capturados, desligaram as máquinas que o mantinham vivo, mas ele sobreviveu.
- Ele sobreviveu? E como está agora?
- Logo que retomamos o iate, matamos os dois darys filhos-da-puta que estavam aqui, e o estabilizamos de novo. Está bem, mas em estado grave.
Irineu observou:
- Assistimos a batalha entre vocês e aqueles terroristas e estávamos vindo ajudar...
- Bem, chegaram um pouco tarde. - Disse um irônico Lor-ti-neé. - Mas o senhor Maulson aqui se virou bem e é o herói do dia.
****
Os mini-túneis wormhole abriam curtos caminhos entre um ponto e outro do espaço normal, passando pelo ante-espaço. Você podia atravessá-lo sem nenhum equipamento especial, "pulando" quilômetros, pois ficaria apenas milissegundos em contato com o Universo Negativo, mas mesmo assim sempre haveria o risco de alguma partícula de ante-matéria chocar-se contra seu corpo. Porisso e pelo fato de consumir muita energia, os túneis pessoais eram evitados. Mas naquele momento era melhor do que tentarem acoplar o iate ao cargueiro. Uma abertura no ar surgiu brilhante na ponte da Beagle, e do outro lado via-se a ponte da Squalus. Primeiro Clóvis, depois Toshio, Lor-ti-neé, Allis Zeldor, Parkiv e Milena atravessaram o túnel. Dirana de Santívia puxou o marido:
- Venha, Mike. Nosso sonho acabou...Por enquanto. Não há mais nada a fazer nesta carcaça velha.
- Vá indo, amor. Vou ver se alcanço nossa cabine para tentar pegar algumas anotações e nossas roupas.
Ouvindo isso, Toshio, Clóvis e Lor-ti-neé voltaram. Com Dirana e Michael, desceram pela escadaria principal do cargueiro em direção aos camarotes, deixando Rodrigo sozinho na ponte.
- Venha, Rod. A Tristalla pode voltar a qualquer momento. Aqueles malucos estão se arriscando à toa. - Disse Janaína. Rodrigo olhou seu painel:
- Irineu, você está no controle do gerador de mini-wormhole?
- Sim, chefe, a Sala de Túneis está conectada ao meu painel.
- Pode transportar minha cabine para próximo do lugar dela no iate?
- Onde ela está?
- Num dos dois únicos compartimentos de carga que sobraram, no número 2.
- Localizei. Vou gerar um túnel móvel e capturá-la.
Assim fêz. O camarote luxuoso ejetado da Squalus foi deixado próximo ao seu lugar no iate. Com pequenas manobrar laterais, Irineu o conectou novamente à nave. Bio terminou o serviço, reintegrando o aposento totalmente. Ainda bem que a porta fôra fechada, do contrário o gás exterior o teria destruído por dentro.
Após pegarem tudo que podiam, todos, por último Michael, passaram para a Squalus. O pequeno iate estava lotado. Irineu pilotando, deixaram o cargueiro seguir seu curso à deriva, deram meia-volta e aceleraram em direção à saída da nebulosa, iriam voltar à UniCiv e avisar sobre os terroristas darys.
Levariam mais de uma semana, com apenas dois motores. Como não tinham os sensores melhorados instalados na Beagle, não podiam usar wormholes para "cortar caminho". Teriam de voar em espaço normal.
****
Allis Zeldor era uma excelente médica e foi ver o estado de Frank Mugama. Contente com os ótimos equipamentos da enfermaria da Squalus, tratou de operar o engenheiro e salvar-lhe a vida, que estivera por um fio.
Enquanto se acomodavam e dividiam os aposentos, Janaína explicou ao seu amigo milionário que se disfarçara de Érica Ranan apenas para espioná-lo. Este a levou para sua cabine recém reinstalada. Desembrulhou duas bolas do tamanho das de futebol.
- Aqui estão de volta as esferas de Marte e Nishia. Não tire as capas protetoras, do contrário a radiação me afetará, sou sucetível ao tipo de onda que elas emitem... - Entregou-lhe também uma caixa: - Aqui estão os rolos de cristal de Marte.
A detetive da P.S. recolheu os objetos. Olhou Rodrigo nos olhos:
- Bem, pode explicar-me porque fêz isso? Porque roubou essas relíquias?
O milionário deu de ombros:
- Tenho alguns segredos que lhe contarei no momento apropriado. Vai prender-me?
- Diante das circunstâncias, não. Mas você terá de enfrentar o Tribunal de Justiça, quando voltarmos. Afinal, existe o fato que você as roubou.
- Vamos nos preocupar com isso quando voltarmos. Bem, seu disfarçe estava perfeito. Nem imaginei que era você, mas agora estou muito, muito, feliz de vê-la aqui.
Ela o abraçou, ele retribuiu o abraço. Foi um abraço forte. Eles se beijaram.
- Sabe, Rod, eu nunca me esqueci daquela curta viagem na Mukabay. Foi o melhor sexo que eu tive, e não estou dizendo isso apenas para inflar seu ego, e olha que não sou de ficar elogiando ninguém...
- Foi o melhor também para mim, Jan, querida. Foi fantástico.
- Mas, e a Milena?
- Neste momento está com o Antônio, consolando-o na cabine dele. Ela é muito volúvel...Eu gosto dela, mas não a amo. Creio que amo você, Janaína.
Eles novamente se olharam. Sorriram um para o outro. Ela estava quase sussurrando:
- Antônio está muito assustado, também, pudera...O que passamos e o que ainda podemos passar aqui, nesta nebulosa do fim da Galáxia...Venha, venha aqui...
Eles novamente se abraçaram e deitaram na cama. Jan mostrou-lhe suas algemas de detetive da P.S.
- Vamos fazer alguma coisa diferente...Sabe, aquele maluco do capitão Inus amarrou-me nua para poder me interrogar, e aquilo de alguma forma não me assustou e sim deixou-me excitada...Prenda-me, e faça o que quiser comigo...Eu disse o que quiser...
- A toda poderosa agente da Polícia Solar, Janaína Ranadi, quer ser subjugada?
- A qualquer momento gosto de ser dominadora...Mas na cama, com um homem, adoro ser submissa...
****
O hidrocoletor da fase invertida do setor de terminação flutuante dos motores da Squalus falhou novamente. A última vez tinha sido perto de Metra, e tinha sido reparado pela oficina de Tommio Nomura.
A nave prosseguiu apenas pela inércia, sem acelerar. Uma luz vermelha piscou no painel de controle de Lor-ti-neé, que havia assumido o posto de engenheiro na Sala de Máquinas semi-destruída.
Ele bateu no botão do intercomunicador:
- Senhor Irineu, os motores pararam...Deu um problema aqui em baixo, mas, olha, estes motores são tão modernos que eu não sei o que fazer para arrumar...
Irineu, na ponte e no controle da nave, verificou o que ocorrera, e comunicou-se com seu patrão, que há horas estava em sua cabine com Janaína.
- Desculpe atrapalhar, chefe, mas aquele probleminha que tivemos em Metra reapareceu. Estamos só na inércia. E o ylsio não sabe arrumar...
Rodrigo estava sorrindo na cama. Lentamente apertou o botão para falar com seu piloto:
- Ora, temos sete cientistas na nave, um dary alfaiate, uma detetive, você, Antônio, Milena e Frank. Ninguém sabe consertar isso?
- Só o Muga, que aprendeu com o tal Nomura, em Metra. Esses motores usam fusão de fótons sob altíssima pressão, são muito modernos...
O jovem rapaz loiro disse ao ar:
- Bio, e você, não pode nos ajudar?
- Meu banco de dados sobre motores fotônicos está ainda em formação, incompleto. Não posso fazer nada, Rod. Sinto Muito.
Pressionando o seletor do intercom, o milionário falou:
- Doutora Allis, como está Frank Mugama?
- Está se recuperando bem, senhor Maulson - respondeu a dary, na enfermaria. - Mas ainda está inconsciente.
- Precisamos dele para consertar nossos motores. Só ele pode fazer isso.
- Sinto muito, mas creio que ainda vai demorar para recobrar a consciência...E, talvez tenha alguma seqüela, seu cérebro ficou sem oxigênio por algum tempo, quando desligaram os aparelhos. Não posso fazer nada, senhor Maulson.
Janaína, deitada ao lado de Rodrigo, apertou seu braço:
- A Tristalla não foi destruída, e deve estar operacional agora....E como um animal ferido, ela virá nos devorar com todo seu ódio...
O dono do iate levantou-se, tomou uma turbo-ducha rápida e vestiu-se. Seguiu até a Sala de Máquinas. Encontrou-se com Lor-ti-neé e conversaram, não chegando a nenhuma conclusão. Rodrigo então acionou os manuais da nave, na tela ultra-fina do computador, e passou a estudá-los.
O ylsio o deixou sozinho, dizendo que ia descansar um pouco, estava muito cansado. Já era tarde da "noite" para todos, que estavam no mesmo horário padrão agora. A maioria dos tripulantes e passageiros da nave estava dormindo.
Mesmo com os conhecimentos incríveis de Atron, acumulados no espaço de quinze mil anos, aquilo que estava escrito e mostrado no manual era muito complicado. Os motores da Squalus possuíam uma tecnologia totalmente nova para a fusão de fótons. Passou a "madrugada" ali, lendo e manipulando os circuitos do reator A, onde ficava o núcleo. Foi assim, em meio à placas transparentes eletro-positrônicas e painéis desmontados que Michael Snaker encontrou o dono daquele iate.
- Parece que você está bem enrolado. Sinto não poder ajudar, mas minha especialidade não é engenharia de motores... - O cientista sentou-se no chão ao lado de Rod.
- Hummm...Acho que não vou poder consertar isso. - Largou as ferramentas que tinha em mãos. - Só mesmo Frank para dar um jeitinho aqui. Que merda!
- Estive pensando na batalha com a Tristalla...Quando você ejetou o núcleo de fusão de fótons da Beagle, como você sabia que atingiria nosso inimigo?
- Eu não sabia...Bem, eles estavam sempre atacando por trás, tentando destruir nossos motores...Achei que iriam passar bem próximos da Sala de Máquinas...E foi o que aconteceu...Foi pura sorte!
- Há quem diga que uma Força Superior, Deus, poderia ter ajudado...
- Quem sabe? O fato é que estamos aqui, a salvos por enquanto...
Michael virou o rosto de Rodrigo para ele e olhou-o nos olhos:
- Você é bem mais do que parece, não é, Rod? Um rapaz de 24 anos, formado em administração de empresas, não poderia conhecer a fundo um cargueiro que deixou de ser fabricado à mais de trinta anos. Quando conversamos, percebo que possui uma extrema sabedoria...Você diz coisas que eu, com anos de estudo, só aprendi recentemente. Quem é você na verdade, Rodrigo Maulson?
O jovem rapaz suspirou e ajeitou-se no chão bagunçado da Sala de Máquinas, recostando-se na parede quente do reator. Admirou, sobre sua cabeça, os enormes tubos brilhantes de fluxo de fótons.
- Ninguém mais do que você acreditaria que eu tenho quinze mil anos.
Michael ergueu a sobrançelha esquerda, como sempre fazia. Cofiou a barba:
- Então você é um alienígena?
- De certa forma. Sou um marciano...Um lemântico de origem. De alguma maneira que nem eu mesmo sei explicar, posso mudar de corpo. Minha alma tem quinze mil anos, e fui passando de ser em ser até chegar aqui. Porque? Não sei! Como, bem, eu sigo o Ritual de Tranferência, mas só funciona para mim.
- Um marciano do antigo Império Lemântico...
- Eu era um dos reis. Foi me dado esse dom por alguém chamado Martogh, numa estrela verde de nome Tarínia...Só me lembro disto. Eu tinha uma missão: guardar a Chave da Prisão de Zonos...Mas não a tenho mais, nem sei quem foram Martogh ou Zonos...
- Incrível! - Michael estava perplexo. Rodrigo prosseguiu:
- Passei por vários corpos de alienígenas até chegar à Terra, cerca de doze ou treze mil anos atrás; desde então estou muito contente em ser um humano, o corpo em que me sinto melhor. Já fui de tudo: mulher, homem, branco, preto, gay, lésbica, guerreiro, amante, rei, escravo, trabalhador, ladrão, torturador, herói, presidente, estuprador, navegador, explorador, astronauta...
- E como pode lembra-se de tudo? Nosso cérebro não é tão grande assim...E esse Ritual, o que ele faz com as memórias...
- Não as guardo em minha mente, e sim no espaço vazio entre o nosso Universo e o Ante-Universo, numa "fenda" estrutural. Como não há nada lá, absolutamente nada, posso armazenar bósons com as informações de minhas vidas passadas.
O doutor Snaker assobiou:
- Eu daria tudo para poder ser como você...Viver tudo o que viveu...
- Bem, tem a parte triste. Amei milhares de pessoas que morreram, enquanto eu prossegui...Encarnei personagens maus, e detestei.
- Personagens maus?
- Quando assumo um corpo, demora um certo tempo para eu controlar seu caráter, impondo-lhe o meu. Às vezes matei, fiz coisas horríveis, que não queria. Contudo, quando assumo o total controle da pessoa, tento reparar da melhor maneira possível.
Michael procurava assimilar tudo aquilo. Era incrível:
- Mas você escolhe quem vai assumir?
- Às vezes não. Nunca matei ninguém inocente ou bom para assumir seu corpo...E umas das condições para assumir é que a pessoa esteja morta. Mas já matei pessoas ruins para isso, quando eu não tinha escolha e meu corpo anterior iria morrer.
- Quando você ia morrer, então "pulava" para outro corpo, que deveria estar morto? Eu não estou entendendo...Se os dois morreram...
- Bem, acontece só quando eu "pulo"...O outro corpo se reestabelece totalmente. Mas nunca posso voltar ao corpo que possuí. Não sei explicar isso, não fui eu quem fez as regras...
Rodrigo fêz uma pausa. Estava recordando suas vidas passadas.
- Uma das vantagens é que não tenho preconceitos de espécie alguma, pois já vivi de tudo. Sei tudo o que qualquer um sente, porque já fui igual à qualquer um...Sem contar o enorme conhecimento e a memória de coisas por que passei maravilhosas, e também tristes...Mas a vida é isso, felicidade e infortúnio, do contrário, que graça teria?
Michael respirou fundo:
- Existe mais alguém como você?
- Talvez minha irmã gêmea, Liany. À ela foi dado o mesmo dom de mudar de corpo que eu possuo, mas quem pode saber se ela ainda está neste Universo? E se está, como saber em quem encarnou? Se morrermos estando inconscientes, ou não acharmos outro corpo em coisa de quinze minutos, então iremos para onde as almas vão quando todo mundo morre...Que eu não sei explicar onde é, nem o que é, mas que é algo inimaginável, isso já pude sentir inúmeras vezes...
- Mais uma coisa...Pode "encarnar" em um animal? Ou em algum objeto?
- Não, apenas em seres com um mínimo de inteligência.
- Rodrigo, eu faria tudo, tudo, para ter este dom...
- Sinto muito. Já ensinei o Ritual para outros, mas nunca ninguém conseguiu...Mas se quiser tentar, basta arrumar um cadáver fresco...
****
Asus Moder estava orando no templo da Tristalla e ao mesmo tempo tentando "sentir" a Squalus. Tinha este poder estranho. Ele "via" as coisas à distância. A nebulosa o atrapalhava, e o alcançe de sua "visão" estava limitado, mas era mais poderosa que os sensores danificados do cruzador.
Não demorou para localizar o iate preto e dourado em meio às nuvens de gás. Estava voando apenas pela inércia, e estava próximo agora.
Ao deixar sua concentração e suas orações de lado, deparou-se com seu amigo e capitão, Inus. Ele o observava sentado à sua frente, fumando um negorne. O pastor assustou-se.
- E então, os achou? - Perguntou o dary gorducho.
- Sim, senhor. Estão com problemas. Seus motores estão parados. Michael Snaker está a bordo...E sinto também uma estranha energia naquela nave, algo...Diferente...
- Diferente...Como?
- Não posso explicar. É como se um ser ancestral estivesse lá. Ele é poderoso. É um dos humanos.
Inus Horona levantou-se. Ordenou ao pastor enquanto saía:
- Passe as coordenadas do iate à ponte.
Asus segurou-o pela manga, na penumbra do templo:
- Por favor, Inus, não execute mais ninguém...Foi horrível o que você fez com Sanis. O Grande Ütarash não poderá perdoá-lo...
- Fique quieto, Asus. Temos uma missão importante a cumprir para a Ordem, e só ela pode falar em nome do Grande Ütarash, nosso deus. Se Sanis matasse Michael Snaker, jamais encontraríamos alguém com a capacidade de decifrar as fórmulas da Estátua Zidrah.
- Bem sei que ele parece ser o único com capacidade para tal. Suas teorias sobre a existência da alma e de "vida" em objetos inanimados foram formuladas sobre uma matemática aguçada...Ele é um gênio. Mas isso não quer dizer que devemos sacrificar tudo apenas para capturá-lo...
- Levar Michael Snaker para Daryani é a nossa prioridade, e Sanis falhou...Além do mais, somos terroristas...A morte deve ser aplicada quando necessário. Não me questione e não me peça o que eu não posso dar-lhe...Cuidado: posso esquecer nossa amizade, Asus!
O pastor resolveu se recolher e ficar quieto. Iria orar...Para que todos saíssem daquela vivos, e que a sanidade retornasse ao seu amigo capitão.
****
Janaína estava tomando um WhiteCoffee no agora tranqüilo refeitório. Haviam passado por lá, como loucos, todos os famintos Filhos de Darwin. Ainda bem que tinham trazido bastante massa alimentar para sintetizar todo o tipo de comida.
Porém, com quatorze pessoas à bordo, o limite do iate, teriam de retornar logo, ou não teriam o que comer.
Numa micro-saia atraente, entrou Dirana.
- Olá...esse líquido branco está quente?
- Claro. - A detetive apontou a cafeteira. - Sirva-se. Acabei de passar.
A alfana sentou-se ao lado da baiana com a xícara fumegando. Provou do café alcoólico, sentindo o prazer do sabor e do aroma do líquido em contato com sua boca e nariz. Suspirou. Então olhou para Janaína. Disse-lhe:
- Você é muito bonita, garota. E muito esperta. Ouvi sobre a fuga de vocês. - Ela alisou o cabelo pintado de preto da detetive, que estava de olhos arregalados segurando sua xícara.
- Bo-Bom...- Guaguejou. - Fiz o melhor que pude...
- Você derrotou Inus. Adoro mulheres inteligentes e fortes como você...
Beijou os lábios de uma confusa Janaína, virou seu WhiteCoffee e saiu. A baiana pensou, ainda perplexa: "Mas o que foi isso?"
Dirana cruzou com Maulson no corredor, na entrada do refeitório, e deu-lhe um sorriso discreto. O milionário retribuiu e entrou. Serviu-se da bebida. Notou a detetive ainda confusa.
- O que foi que houve, Jan?
- Ainda estou tentando enten...
Os alarmes soaram. Ouviram a voz de Irineu Barracos, berrando pelos alto-falantes:
- A Tristalla nos alcançou!
****
O tiro de raio iônico, disparado por um canhão na parte superior do cruzador dary, atingiu o camarote onde estavam Clóvis Ribeiro e Parkiv. Sem escudos quânticos por causa do gás da nebulosa, o raio rasgou o casco do iate com facilidade, matando na hora os dois. Outros cinco raios passaram zunindo pela Squalus, que balançou, e só não foram certeiros por causa da radiação dominante, que desequilibrava a pontaria.
O cruzador, chegando com toda sua gana, não parava de disparar. Irineu, habilmente, usou os motores de manobra, os únicos que lhe restavam, para ziguezaguear e tentar escapar de seus algozes.
Rodrigo deixou a xícara cair e correu à ponte. Janaína o seguiu. Michael acordou com a explosão, que destruiu a cabine contígua à sua, e tratou de vedar o corredor. Dirana foi ajudá-lo. Lor-ti-neé caiu da cama, e sacudiu as antenas. Seus quatro olhos ficaram arregalados ao ver uma fenda abrindo-se na parede, deixando entrar gás da nebulosa.
Aquela parede dava para a cabine destruída de Clóvis e Parkiv, que ficava entre a do engenheiro e a de Snaker. Colocou-se de pé rapidamente e usou o spray de emergência do compartimento para vedar a fenda. Depois, em meio a sacudidelas, seguiu para a Sala de Máquinas.
Milena e Antônio dormiam abraçados e levantaram-se assustados. Vestiram-se e foram ajudar na ponte, encontrando com Michael e Dirana no corredor.
A Tristalla investia com raiva, seus canhões superiores disparando sem parar. Ultrapassou o iate, deu meia-volta, atacou de novo. Irineu não conseguiu evitar que um dos raios destruísse o compartimento de bagagem, no deck inferior da Squalus.
A nave inimiga passou por eles novamente. Iria voltar e seus tiros podiam liqüidar com o iate. Maulson sentou-se na poltrona de comando, à ponte, e ligou os canhões de partículas instalados em Nishia. Quando a Tristalla estava ao seu alcançe, disparou.
Os terroristas darys não sabiam que aquele iate de luxo possuía armas de ataque. Os tiros de Rodrigo danificaram a lateral dele, ao se cruzarem. Alguns tripulantes morreram na explosão. A Sala de Entrada e Saída foi destruída.
Binus berrou:
- Eles estão armados até os dentes! Captei a ativação de dois torpedos de ante-matéria!
Da cadeira de comando, Inus ordenou:
- Táticas evasivas, senhor Kallis!
"Filhos-da-Puta! Como podem estar armados???..." - Pensou.
Dois dos quatro torpedos da Squalus perseguiram o cruzador. Foram detonados por seus canhões iônicos, mas as ondas de choque abalaram ainda mais a nave.
Rod bateu no intercomunicador:
- Doutora Allis, preciso do Mugama acordado agora!
A médica levantou-se de sua mesa, onde acompanhava a batalha pelo computador, e foi olhar o monitor sobre a cama de Frank. Sacudiu a cabeça negativamente e ativou o intercom da enfermaria:
- Sinto muito. Ele não está em condições...
- Doutora, desculpe-me, mas ou é ele, ou somos nós! Estamos enfrentando um poderoso cruzador de batalha dary. Se não fugirmos, estaremos mortos...Ou capturados, o que é pior, e a senhora sabe muito bem disso!
Allis mordiscou seu lábio inferior. Correu para sua bancada, pegou uma injeção de pentafiblina, e aplicou em Frank Mugama.
O homem de meia-idade agitou-se. As batidas cardíacas aumentaram.
- Vamos, homem, reaja, precisamos de você! - Disse a médica.
A nave balançou, os amortecedores gravitacionais estavam tendo dificuldade em anular as manobras malucas de Irineu, feitas apenas com os motores auxiliares. A Tristalla investiu novamente, disparando à queima-roupa seus vinte canhões iônicos. A "barbatana" de cima da Squalus, que fazia a nave parecer um tubarão e era a principal antena de comunicações, foi destruída.
Os outros raios só chamuscaram o casco, e o cruzador passou próximo.
- Irineu, você é demais! - disse Milena Almadori, chegando à ponte junto com Antônio Varello, Michael Snaker e Dirana de Santívia.
Rodrigo Maulson falou para Lor-ti-neé pelo intercom:
- Tente ligar essas merdas aí embaixo de qualquer jeito, Lor!
- Meu nome...- disse o ylsio, agitando as antenas - ...É Lor-ti-neé!
Ele bem que tentou, mas os motores falhavam a cada tentativa. Na enfermaria, o engenheiro negro abriu os olhos. Allis abriu um sorriso:
- Graças à Ütarash... - Bateu no intercom: - Ele acordou!
- Graças à Deus! - Exclamou o doutor Snaker.
- Assuma, Mike. - Disse Rod, pulando de sua cadeira e dirigindo-se ao corredor. O milionário passou pelas cabines, desceu as escadas, passou pela refeitório, pela cozinha, desceu mais um pouco e estava na Sala de Máquina. Bateu no intercom:
- Frank, pode me ouvir?
Na enfermaria, deitado, Mugama gemeu:
- S-Sim...A doutora aqui explicou-me a s-situação...Siga minhas i-instruções...Pegue a placa de dianegação fotopropílica de reserva...
Na ponte, pela janela-vídeo via-se a Tristalla aparecer novamente. Os raios de partículas ionizadas de cor laranja explodiam em torno do iate. Michael ativou um dos dois últimos torpedos. Disparou. Conseguiu impedir que uma dezena de tiros acabasse com a ponte da Squalus.
Inus berrou para o armeiro Krustas:
- CUIDADO! Se destruir o iate e matar Snaker, você e sua família serão torturados até a morte!!!
O dary magrinho das armas tremia e transpirava.
O duelo prosseguia entre as nuvens de gás da nebulosa.
- Dirana, assuma o painel dos sensores. Dispare os xasers externos nos pontos mais sensíveis do cruzador! - ordenou seu marido.
A alfana de cabelos rosa obedeceu e disparou, mas era difícil mirar no meio de tanta interferência. Errou todos os tiros.
Na Sala de Máquinas, transpirando junto com o ylsio, Rod ouvia - e seguia - as instruções de Frank. O homem negro esforçava-se para falar, e Allis tinha pena dele, mas nada podia fazer. Todos à bordo dependiam do engenheiro humano.
- ...Senhor M-Maulson, após...Cóf, cóf...Após religar a conexão 23b do reator, ative...Cóf, cóf...Ative a circulação de luz. Os fótons entrarão no núcleo. Q-Quando o medidor A-72...Cóf...O A-72 entrar no normal, tente religar os motores...
Rod observou o ponteiro virtual atingir a faixa verde, no mostrador do painel principal do reator. Pressionou os enormes botões que estavam vermelhos, e eles ficaram amarelos. Os motores titubearam, rangeram, tremeram...E funcionaram!
- Ufa! - Exclamaram juntos Lor-ti-neé e Rodrigo. O milionário deixou à Sala de Máquinas aos cuidados do ylsio e seguiu para ponte. No caminho disse ao intercom do corredor:
- Obrigado, Frank! Você nos salvou!
A nave sofreu um impacto direto de um raio, e perdeu a Sala de Túneis, o equivalente à grande Sala de Entrada e Saída da Tristalla, onde o gerador de mini-wormholes ficava. Rod caiu no corredor. Michael, no comando, disparou o último torpedo. Este explodiu próximo do cruzador, que atacava, abrindo-lhe um buraco a estibordo e matando mais vinte e dois homens de Inus.
****
O capitão gorducho transpirava junto com todos na ponte:
- Binus, qual a situação?
- Eles não tem mais torpedos. O banco de xasers deles está descarregado. Estão com menos de um terço de força nos canhões iônicos. Estão danificados e com vários buracos no casco.
- E nós?
- Estamos bem mal. Contabilizamos cento e trinta e seis mortos, inclusive os feridos da enfermaria, que foi destruída no último ataque. Nossos motores ainda estão plenamente funcionais, mas temos menos de meia carga nos canhões.
- Vamos atacar novamente. Quero Michael Snaker de qualquer jeito!
Binus não gostou do que viu em seus monitores:
- Os motores principais que restaram ao iate foram religados!
****
Na Squalus, Rodrigo chegara à ponte e ordenara a Irineu que acelerasse para longe da Tristalla. Michael cedeu o posto de capitão para o dono do iate. Eles viraram na direção contrária à saída para UniCiv. Estavam indo mais para dentro da nebulosa. Atrás deles vinha o cruzador. Os canhões de ré da Squalus disparava contra a Tristalla, que por sua vez disparava no iate. Ninguém conseguia acertar ninguém em meio a tanta interferência.
- Chefe. - Disse Irineu, sem tirar os olhos de seu painel. - Estamos indo para o outro lado da nebulosa. Mas a Tristalla está atrás de nós...E vai nos alcançar...Eles tem motores quarkiônicos, senhor, e estão todos funcionais!
Um dos tiros atingiu parte do motor fotônico 1 da Squalus. Este parou. O cruzador iria alcançar a qualquer momento o iate. Acabou-se toda a munição que Rod comprara em Nishia e recebera da Aristóteles. Estavam indefesos. Rodrigo recostou-se na poltrona e pensou: "O que vamos fazer agora?"
Livro II - A Busca - Capítulo VIII.
Um dary é bem parecido com um humano ou um thoriano. Porém sua pele, isenta de pigmentação, é rica em vasos sanguíneos, porisso é azulada, embora seu sangue seja vermelho. Como os thorianos, os darys não tem o mesmo número de cromossomos que os humanos. Portanto, não é possível humanos e darys terem filhos, embora possam ter relações sexuais. Fecundação, só através da engenheira genética, e isso acontecia com certa frequência desde que August Sherway, humano, casara-se com a princesa Fianna, dary, nos idos de 2.400. Fôra o primeiro casamento entre seres de raças diferentes na História recente.
As subraças darys são duas: as de olhos vermelhos e as de olhos amarelos, mas todos com cabelos escuros e pele azulada. As orelhas são pequenas. De resto, assemelham-se aos humanos em tudo. Os cientistas, naqueles dias, não sabiam se uma raça humanóide colonizara a Galáxia inteira e deixara povos parecidos para trás ou se, mesmo tendo evoluído em planetas diferentes, as raças ficaram parecidas no decorrer dos anos (pouco provável). Havia uma corrente de antropólogos que afirmava ser o aspecto humano (duas pernas, dois braços, nariz, boca, dois olhos e duas orelhas), a melhor opção da natureza para o sucesso de uma raça.
De qualquer forma, Inus odiava os humanos porque eles tinham pele rosa, branca, vermelha, negra, amarela...Mas nunca o belo azul de Daryani. E odiava os thorianos, veganos, ylsios e as outras raças pelo mesmo motivo. Para ele, apenas os darys importavam no Universo.
Mas precisava de Michael Snaker. Fracassar diante da Ordem Zinédica seria falhar diante de Ütarash. Ele não podia voltar sem aquele...Humano fedido.
Estavam próximos do iate. Iriam pegá-los, estavam indefesos agora, só com um motor e sem munição.
Na Squalus, Rodrigo Pereira Maulson, sentado na poltrona de comando, no centro da ponte, olhou para todos à sua volta: Michael, Dirana, Milena, Janaína, Antônio e Irineu.
Ele tinha de salvá-los. Mas como? A Tristalla estava quase os alcançando.
Teve uma idéia. Seria loucura, mas era a única saída.
****
Enquanto isso, Toshio acordou assustado. Bateu no ombro do dary, na parte de baixo do beliche. Era Parus Dorms, o alfaiate e subcadete que fugira do cruzador terrorista.
- Ei, amigo, acorde...Que horas são?
- E eu sei lá? Depois que você me deu aquele calmante, eu apaguei...
- É, eu também, era muito forte, ainda estou zonzo...
Com rídicos pijamas, Toshio saiu atordoado de sua cabine. Nem percebera que foram atacados e estavam à um passo de serem capturados. Achou o refeitório uma bagunça e foi arrumá-lo. Parus Dorms foi atrás. Ajudou seu novo amigo japonês:
- Nossa, parece até que ouve uma briga aqui, colega humano...Quando minha avó ficava brava, nós também nos pegávamos e destruíamos tudo...Lembro quando ela arremessou um prato na minha cabeça só porque...
- Quer calar a boca, sim? Você fala demais, dary linguarudo!
****
- Antônio, pode dar-me uma rota qualquer pelo ante-espaço agora mesmo?
O rapaz de cabelos desgrenhados e assustado olhou seu patrão.
- Você ficou maluco? Não podemos abrir um túnel aqui. Não sabemos o que há à frente...Podemos dar de cara numa proto-estrela ou emergir num proto-planeta...
- Não importa! Pode calcular um curso para um wormhole curto ou não?
- P-posso...Mas...
Michael havia entendido o que Rod queria:
- Antônio, você é excelente em astronavegação. Faça o que seu chefe está mandando, porque se formos capturados, seremos torturados das piores maneiras...Além disso, Inus adora empalar humanos...
O rapaz engoliu sêco. Virou-se para seu painel e calculou uma rota curta, a mais curta possível, mas mesmo assim não sabia onde iam emergir, os sensores nem sequer estavam funcionando direito.
- Pronto, meu capitão. Espero que saiba o que está fazendo...
- Ora, amigo Tony, você me chamava de estrelinha...Mas pare de tremer, se não eu vou chamá-lo de estrela daqui para frente. - Rodrigo virou-se para Irineu:
- Implante o curso de Antônio ao meu sinal.
O rapaz fez que sim com a cabeça, e disse, mãos nas teclas:
- Ou a gente se safa ou se estrepa!
****
Inus sorriu de seu posto. Ordenou à Krustas:
- Quando estivermos à mil metros, ative o Atrator Gravitacional. Cuidado para não despedaçar o iate, eles estão com o casco avariado.
- Sim, senhor!
Quando a Tristalla chegou a um quilômetro da Squalus, Inus deu o sinal de ativação. No mesmo instante, uma luz piscou no painel de Rod, indicando que a onda de grávitons iria puxar seu iate. Apontando para frente, comandou:
- Engate!
Para surpresa dos tripulantes do cruzador, a pequena nave preta e dourada mergulhou em um túnel wormhole que surgiu à sua frente. Os geradores, conectados abaixo do iate, estavam intactos e executaram o comando com perfeição.
- Como, por mil demônios drazianos!!!!! - Berrou Inus, erguendo-se de sua cadeira.
Binus olhou seu equipamento e disse, incrédulo:
- Eles são malucos! Não sabem aonde vão! Mergulhar numa nebulosa repleta de estrelas em formação, com distâncias de menos de um ano-luz uma das outras...
O capitão estava mais do que furioso. Virou-se para Kallis:
- Siga-os! Gere um túnel e siga o rastro de energia da nave deles agora mesmo!
O dary virou-se, receioso, para seu líder:
- Senhor, por favor! A possibilidade de emergirmos em um local inapropriado é de...
- Eu sei quais são nossas chances! Mas eles não podem fugir de mim! Siga-os no ante-espaço ou o desintegro aqui mesmo! - Horona puxou seu xaser.
Kallis calculou a rota, seguindo o rastro da Squalus.
O capitão apertou o botão do intercom em sua poltrona.
- Asus, venha à ponte! E ore bastante, porque estamos nas mãos de Ütarash...
****
No ante-espaço leitoso, cheio de pontinhos pretos que eram as ante-estrelas, Antônio tremia. Dirana apertava a mão de Michael, ambos na expectativa. Milena passava a língua nos lábios ressecados. Janaína rezava. Apenas Irineu e Rodrigo estavam concentrados a ponto de esquecerem o perigo. A ponte estava silenciosa, em suspense.
- Estão nos seguindo, senhor Maulson, entraram por um túnel logo atrás de nós! - A alfana de corpo escultural e olhos cor-de-rosa ainda estava sentada à frente do painel dos sensores.
Rodrigo prendeu a respiração. Seria um jogo de pura sorte. E, como diria seu amigo Michael, "Que Deus nos ajude"!
- Não vamos emergir ainda...Prossiga, Irineu.
Milena agitou-se:
- Rod, 'Driguinho, vamos sair logo daqui...
- Saindo agora ou não - disse Michael, sem se virar. - Podemos bater numa estrela ou qualquer outra coisa e o risco é o mesmo...Deixem Rodrigo concentrar-se e comandar.
- Isso mesmo! Irineu, só saia para o espaço normal quando eu der o sinal. Todos quietos!
Na Tristalla, Inus percebia a tensão na ponte. Agora era um jogo de vida ou morte. Tinha de capturar o iate, e tinham de emergir em espaço vazio, ou tão vazio quanto uma nebulosa podia oferecer. Estavam cegos, não sabiam, não tinham mapas da região adiante...
Silêncio na ponte do cruzador. Silêncio na ponte da Squalus. A tensão estava no ar, no escorrer do suor de cada um, mesmo aqueles que só assistiam, em partes distintas das duas naves. Os únicos alheios a tudo isso eram Toshio e Parus.
Não havia perigo no ante-espaço. Mas uma hora teriam de sair dele. E o que havia no espaço normal, naquela região, era uma incógnita. Prosseguiam.
Novamente a Tristalla estava alcançando a Squalus. A baleia atrás do tubarão. Irineu olhou Rodrigo. Michael olhou Rodrigo. Inus olhou para Asus. Disse à ele:
- Amigo pastor...Pode ver aonde sairemos? Seus poderes...
- Meus poderes...- respondeu Moder, suspirando e fechando os olhos... - Não funcionam no ante-espaço...Mas sinto que o futuro é negro...
- Você não pode prever o futuro, amigo Asus...
- Não é difícil prever nosso futuro na situação em que estamos, amigo Inus...
Binus Aduba disse sem se virar, olhando seus sensores:
- Estamos quase no ponto de captura, capitão.
- Krustas, tão logo seja possível, pegue aquele iate!
Rodrigo falou, olhando além da janela-vídeo, para Irineu:
- Tão logo eles nos alcance, volte ao espaço normal.
- Sim, meretíssimo capitão.
O cruzador os alcançou. O piloto da nave preta e dourada, chamuscada, não esperou a ordem de Rodrigo. Emergiu. Todos na Squalus fecharam os olhos...Ou morreriam ou estariam livres da Tristalla...
O iate emergiu longe de qualquer corpo celeste, embora ainda dentro da Nebulosa do Escaravelho. Rodrigo, Irineu, Antônio, Michael, Dirana, Janaína e Milena respiraram aliviados e deixaram-se cair em suas poltronas. Lor-ti-neé, que via tudo na Sala de Máquinas, limpou as antenas. Embora triste, Allis Zeldor relaxou na enfermaria. Toshio e Parus tomavam um lanche, indiferentes, no refeitório.
****
No exato momento em que o iate sumiu das vistas do cruzador dary, entrando num túnel, Inus berrou:
- SAIR! SAIR DO ANTE-ESPAÇO!
O piloto e o co-piloto da nave, Kallis Alaed e Tonas Taniat, foram rápidos, mas não o suficiente. Mesmo que a operação de gerar um túnel e sair por ele tenha levado segundos, aquilo equivalia a quase dois anos-luz na região do Universo em que se encontravam.
Não tiveram a mesma sorte da Squalus.
Emergiram muito próximos à uma estrela em plena formação, onde sua fusão nuclear estava começando e nuvens de gás a encobriam. O choque de adrenalina percorreu cada um dos cento e onze tripulantes sobreviventes da nave. Souberam que iam morrer em segundos...
Inus segurou-se em sua poltrona. Kallis, Tonas e Krustas berraram. Ijus era mãe a pouco tempo e só pensou em seu filhinho, em Daryani. Binus fechou seu olhos e rezou como Asus.
Asus Moder era o único completamente tranqüilo. Estava preparado para aquela hora, pois sentira que ia acontecer, embora nada tenha dito. Apenas pediu ao Grande Ütarash que o acolhesse bem no paraíso...
A Tristalla começou a se desfazer. Os tripulantes da ponte ainda tiveram tempo de ver as paredes sendo queimadas ao mesmo tempo que o cruzador caía em direção à estrela.
Enquanto sentia seu corpo ser incinerado, Inus gritou:
- Humanos desgraça...
Do outrora orgulho da Armada da Ordem Zinédica, sobraram apenas cinzas...E nem isso, quando o calor e a gravidade imensa da estrela desagregaram por completo seus átomos...
****
A alfana, linda mulher de olhos rosados e cabelos curtos, observou o painel dos sensores:
- Estamos no meio do nada...Numa clareira...Poucas nuvens de gás...Estamos próximos à saída da nebulosa!
Antônio Varello confirmou, sorrindo pela primeira vez desde o primeiro ataque dos terroristas:
- Estamos numa clareira, o range dos sensores, mesmo danificados, é enorme, e posso detectar o fim da nebulosa à um ano-luz...Mas é a saída que dá para a Borda da Galáxia, para a região pouco explorada...A UniCiv fica do outro lado!
- Era esse o nosso destino quando entramos aqui. - Comentou Rodrigo, também sorrindo. - Bem, parece que, pelo menos por enquanto, estamos livres de Inus...
Michael ajudou Dirana no painel dos sensores e fizeram uma varredura completa da região. O doutor Snaker e sua mulher trocaram olhares divertidos. Michael deu a notícia:
- Bem, Rod, acabou...Captamos os sinais restantes da Tristalla...Desintegrou-se de encontro à uma estrela cerca de dois anos-luz daqui.
Foi a festa. O milionário sentiu-se feliz...Embora a situação deles não fosse tão boa assim...
- Senhor Maulson, pode vir à enfermaria, por favor...
Era Allis Zeldor. Rodrigo sabia que algo ruim havia acontecido.
Ele foi, seguido de Janaína, Milena e Irineu.
Ao chegarem, encontraram a doutora cobrindo o corpo de Frank Mugama.
- Ele não resistiu. Forçei muito seu organismo aplicando-lhe pentafiblina. Sinto muito, senhor Maulson...Tentei de tudo...
A doce mulata virou-se para Irineu e ele a acolheu. Ela chorou. Rod, a baiana e o piloto suspiraram...O engenheiro fôra um bom amigo, e salvara a Squalus por duas vezes.
Janaína abraçou Rodrigo Maulson.
Nas horas que se seguiram, todos rezaram e discursos foram proferidos em homenagem à Frank Mugama, Clóvis Ribeiro e Parkiv.
Exaustos, deixando Toshio e Parus Dorms de vigia, todos se recolheram às cabines restantes do iate. Dormiriam o sono do justos...
****
Janaína Ranadi, já sem seu disfarçe, retirou o tingimento dos cabelos e voltou a ser loira. Sorriu para o espelho, admirando-se. Ela era magnífica. Estava só de top e calcinha. A porta da cabine principal do iate não estava trancada e abriu-se. Dirana de Santívia entrou.
A alfana de olhos cor-de-rosa encostou-se num pilar e cruzou os braços.
- Você é mesmo muito bonita, Janaína.
A detetive levou um susto. A mulher de Michael Snaker aproximou-se. Jan estava acuada, encostada na penteadeira.
Dirana ajeitou os cabelos cor de trigo de Janaína atrás da orelha. A baiana não sabia se saía correndo ou gritava, ou dava um soco na cara daquela abusada com seu braço biônico...Ou ainda, se...
A garota de cabelos rosados beijou Janaína na boca, que deixou-se levar...
Ficou olhando perplexa a alfana sair, com sua roupa de látex grudada ao corpo.
****
Michael ajudava Rodrigo e Lor-ti-neé a consertar o motor 1. O estrago era apenas nos dutos, e foi possível repará-lo...Ainda bem, pois Frank Mugama estava morto.
Ele foi religado sem problemas...Pelo menos tinham dois motores novamente.
- A nave está operacional, dentro das possibilidades. - Disse o cientista ao amigo milinário, ambos deixando a Sala de Máquinas. Foram tomar um WhiteCoffee no refeitório.
Michael perguntou, já sentados na grande mesa:
- O que pretende fazer?
Rod passava manteiga num pãozinho sintetizado.
- Temos um bocado de massa alimentar. Os coletores de fótons estão operacionais, combustível não vai faltar. A Squalus até que está inteira, em vista das circunstâncias...Sabe, eu preferiria continuar minha busca.
- Quer achar a tal estrela verde...Tarínia?
- Sim...- Rod bebeu um gole de seu café alcoólico. - Como havia lhe dito, o mapa que obtive indica que um sistema, próximo à saída da nebulosa, tem o título de "Portal de Tarínia". É um sistema estelar binário só mapeado, não explorado.
- Bem, Inus não é mais problema...Mas minha mulher, sim. Ela quer voltar.
- Voltar? Agora que estamos tão perto? Não...Olha, Mike, é um trabalho danado vir aqui, além dos limites da UniCiv, além de uma nebulosa complicada e num local pouco explorado...O planeta que quero ir nem tem classificação! Eu não vou voltar agora, ainda mais depois do sacrifício de Frank Mugama...
Snaker acabou seu café esbranquiçado e recostou-se, suspirando:
- Amo minha mulher. Ela tem razão...Perdemos três pessoas! Além do mais, estamos com uma nave danificada longe de qualquer ajuda...Podemos dar de cara com uma civilização hostil...
- A última nave de exploração da Espiral que esteve aqui não achou vida inteligente num raio de quarenta a cincoenta anos-luz...Não vamos além disso. O sistema que quero ir fica a cinco anos-luz do fim da nebulosa.
Dirana de Santívia entrou no refeitório, lançando um olhar enigmático para Snaker e Maulson. Serviu-se de WhiteCoffee e sentou-se à mesa com eles:
- Bem, se estão discutindo se prosseguimos ou voltamos, eu voto para voltarmos, e Mike também...
Rodrigo colocou o braço em torno da alfana:
- Bem, querida, isso aqui não é uma democracia e seu marido não é seu escravo.
Michael riu-se. Dirana fuzilou a ambos com seu olhar fatal.
- Não posso impedí-lo, senhor Maulson, isso é verdade...Mas prosseguir é loucura...Podemos ficar sem comida, a nave não está inteira, a moral...
- Os meus tripulantes estão comigo...E os Filhos de Darwin estão aqui de carona. Eu mando nesta nave, que aliás é minha, e eu digo que vamos seguir em frente...Se quiser descer e voltar à pé, eu peço para o Irineu parar...Bem, podemos achar um ponto de aerobus e, quem sabe, passe um...
Pláf!
O tapa na cara de Rodrigo foi bem dolorido, e uma revoltada Dirana de Santívia deixou o refeitório, não sem ouvir seu marido rindo atrás dela.
Milena entrou em seguida. Michael deixou-os a sós, seguindo sua mulher.
- Sabe, Mi, o Mike é um gênio, é carismático, é tudo...Mas vai como um cachorrinho atrás daquela alfana...
- Ora, 'Driguinho... - Ela sentou-se ao lado dele, pegando em sua mão. - ...Até parece que você não conhece o poder da mulheres...
"Você não tem idéia de como eu conheço" - Pensou Rodrigo.
- Ainda mais quando a mulher tem um braço biônico e gosta de dar soco na cara de putinhas que dão em cima de tudo quanto é homem!
Era Janaína, que acabara de entrar e não gostara nem um pouco de ver Milena tão próxima de seu namorado, e ainda pegando em sua mão...
- Vocês duas parem agora mesmo! - Disse, enérgico, o milionário. Levantou-se. Milena também.
- Olha aqui, sua...
Rod tapou a boca da mulata. Falou a ambas com sua voz mais poderosa:
- Escutem! A moral está baixa, perdemos entes queridos, fomos atacados, quase morremos, estamos num iate apertado...Eu entendo tudo isso. Não quero brigas aqui!
Olhou Milena nos olhos:
- Mi! Escolha: Antônio ou Irineu - só um deles! - E deixe-me em paz! Agora eu sou de Janaína...Não é por mal...Não precisa chorar, eu...
Milena Almadori tirou a mão de Rod de sua boca.
- Tudo bem...Somos amigos!
A mulata saiu pisando duro. O jovem Maulson virou Jan para ele e a beijou, um beijo de língua estalado que fêz a baiana tremer dentro de suas roupas.
****
Bio estava amuado. Ficara danificado no ataque. Quase não falava. Mas a realidade virtual que proporcionava à Michael Snaker e sua mulher era fantástica.
Estavam numa praia em algum lugar paradisíaco da Terra. Haviam feito amor nas areias, e era como se estivessem realmente lá, e não numa cama de casal em uma cabine do iate. Sentindo o calor do sol em suas costas, suspirando, Dirana disse à seu marido:
- Sabe, Mike, acho que o Maulson está maluco...Não podemos continuar assim...Numa nave toda perfurada, com...
- Amor, Rodrigo não é uma pessoa comum. Ele tem motivos fortes para estar nesta busca...Além do mais, simpatizo com a idéia de explorar um planeta desconhecido. Não quero voltar. Temos condições de prosseguir, e é isso que o dono desta nave quer.
A alfana da cidade de Santívia levantou-se. O cientista de barba, bigode e cabelos longos e escuros admirou sua mulher e sorriu. Nua, ela mergulhou no mar virtual. Embora estivesse deitada numa cama com um capacete minúsculo na cabeça, sentia a mesma coisa que nadar em águas aquecidas e claras de algum lugar do nordeste do Brasil.
Michael à seguiu. Quando a alcançou, ela lhe disse, de olhos fechados, boiando na água:
- Vamos tomar a nave à força. Tenho certeza que convencerá Lor-ti-neé, Toshio e Allis a nos ajudar, e...
- Você ficou maluca? Esqueça! Rod é meu amigo e vou ajudá-lo em sua busca! E não se fala mais nisso!
****
Rodrigo Pereira Maulson estava se sentindo bem. Agora na ponte, aguardava o fim dos cálculos de Antônio para um mergulho final no ante-espaço. Na clareira, com poucas nuvens e pouca radiação, os sensores funcionavam bem e eles podiam "ver" o fim da Nebulosa do Escaravelho.
- Pronto. Já tenho a rota. Entrando em um wormhole, sairemos da nebulosa e seguiremos por cinco anos-luz até o sistema estelar CCEN-3456. - Varello estava feliz. Rod se perguntava porque ele nunca penteava os cabelos.
Irineu Barracos ajeitou-se em sua poltrona. Ao comando de seu patrão, implantou a viagem calculada pelo seu novo amigo astronavegador.
Na janela-vídeo, os três puderam admirar um buraco brilhante se abrir diante deles, em meio às parcas nuvens rosáceas. O iate acelerou com seus dois únicos motores e entrou elegantemente no ante-espaço. Em menos de três horas estariam chegando ao seu destino.
****
Faltava apenas uma hora e meia para chegarem ao sistema CCEN-3456, e estavam todos no refeitório, almoçando.
A conversa estava até animada. Com exceção de Kallis, triste por perder seu grande amigo e amante Parkiv, e de Dirana, por motivos que ela não escondia, a tripulação e os passageiros da Squalus nem pareciam ter enfrentado os terroristas da Ordem Zinédica.
A comida sintetizada era quase boa. Milena, vez ou outra, trocava farpas com Janaína. O dary Parus Dorms falava tanto que as vezes tinham de jogar alguma coisa nele para que ficasse quieto. Ninguém mais agüentava as estórias da "vovó".
Toshio Kato só sorria, mas quase não falava, assim como Antônio, que sentia-se inseguro. Varello ainda não entendia como pudera aceitar aquele trabalho perigoso, além disso, estava com ciúmes...
Irineu estava abraçado à Milena. Brincava o tempo todo e falava gesticulando bastante. Às vezes tocava sem querer nas antenas sensíveis de Lor-ti-neé, e este lhe dava um empurrão e disparava palavrões em sua língua natal. Seu solanês era péssimo, mas com Bio danificado, o sistema de tradução universal não estava funcionando.
Bebericando um suco de uvas, Rodrigo relaxava abraçado à sua namorada baiana, após comerem bem. Michael contava piadas sujas e divertidas e até Allis sorriu com uma delas.
Finalmente o dono do iate e líder de todos naquele momento levantou-se:
- Bem, vamos brindar à Frank Mugama, Clóvis Ribeiro e Parkiv.
Todos brindaram e observaram um minuto de silêncio em homenagem à eles.
- Agora, uma surpresa... - Rod foi à cozinha e abriu um dos compartimentos refrigerados. Trouxe para todos um delicioso sorvete natural.
- Não é sintetizado! Aproveitem!
Enquanto distraía-se servindo à todos, Dirana, ao lado de Janaína, passou-lhe a mão pelas coxas. A baiana respirou fundo e cochichou no ouvido da alfana:
- Não tenho nada contra lésbicas...Mas deixe-me em paz! Prefiro homens!
A garota de olhos rosados apenas sorriu. Rod notou algo entre elas, mas ficou quieto, divertido. Jan não tinha segredos para seu namorado.
****
O iate estelar preto de filetes dourados Squalus emergiu de um túnel wormhole próximo ao planeta sem nome com a identificação CCEN-3456/2. Era o segundo planeta daquele sistema binário, e tinha uma órbita oval em torno das duas estrelas que, próximas, trocavam jatos de fogo entre si.
Observando a beleza da gigante azul e de sua companheira anã vermelha, Rodrigo Maulson suspirou. Da ponte, olhando a janela-vídeo, o jovem milionário dizia a si mesmo que nunca se cansaria de admirar o louco balé cósmico de duas estrelas, trocando matéria uma com a outra, como se fizessem amor.
Seu devaneio foi quebrado pela voz de Irineu, nos controles principais:
- Estamos entrando em órbita do planeta, chefe.
Rod virou-se para Toshio, que assumira os sensores:
- Pode descrever-me o mundo abaixo de nós, senhor Kato?
- Boa notícia, Mauson san. É um planeta classe 3, parecido com a Terra...Gravidade, pressão atmosférica, oxigênio, nitrogênio...Pode sustentar vida com facilidade. Aguarde...Posso detectar animais, florestas, vida de todo tipo, mas não há indícios de...Espere.
Todos na ponte naquele momento prenderam a respiração: Michael, Dirana, Rodrigo, Irineu e Antônio, além do próprio Kato.
- Cidades! Posso captar cidades...Mas estão abandonadas...Não há vida inteligente no planeta até onde posso detectar. Varredura deste hemisfério terminada...Bem, só ruínas...
O rapaz loiro dono do iate ordenou à Irineu:
- Contorne todo o planeta, senhor Barracos... - E virando-se para o japonês: - Faça um escaneamento completo do mundo abaixo, e verifique se há alguém com quem possamos conversar por lá.
- Entendido!
Assim foi feito, e por longos trinta minutos todos aguardaram a varredura dos sensores de Toshio. Finalmente o veredicto:
- Nada. Existem inúmeras cidades, mas são só ruínas. Até onde posso ver, estão abandonadas a milênios...
Michael Snaker assobiou:
- Caramba, creio que descobrimos um parque arqueológico completo! O pessoal da Espiral vai se morder de inveja quando souber...
Até Dirana de Santívia estava contente...Ela era uma exobióloga, e um mundo assim seria um prato cheio para suas pesquisas...
Livro II - A Busca - Capítulo IX.
Sem a Sala de Túneis, a única maneira de chegar à superfície do planeta era pousando o iate. Não havia como gerar mini-wormholes. Só que Rodrigo ainda não sabia onde descer, Bio apenas conseguira lhe fornecer o mapa celeste.
Seu computador biológico não pôde ler mais nada dos rolos de cristal ultrafinos de Marte, e nem acessar o que quer que estivesse dentro das esferas negras. Portanto, Rod só sabia que aquele mundo abaixo deles estava designado como "Portal de Tarínia".
Mas um planeta é um planeta. E um planeta do tamanho da Terra tem milhares de quilômetros quadrados para serem investigados...Onde descer, então?
O jovem milionário coçou a cabeça. Disse à Toshio:
- Qual é a maior cidade que pode detectar?
- Bem, fica próxima ao equador. É enorme.
Michael Snaker estava excitado:
- Senhor Kato, que tipo de construções há lá embaixo?
- Prédios de concreto plástico como o que usamos hoje em dia, metal, pedras...São como as nossas cidades, só que foram construídas há mais de quinze mil anos...E, por enquanto, com o sistema de sensores amador deste iate, e não totalmente operacionais, não posso dizer que tipo de raça viveu nesse mundo...
Rodrigo irritou-se:
- Sistema de sensores amador? Foi melhorado pela própria Aristóteles...
Toshio sorriu, olhando o capitão do iate:
- Mesmo assim...Bons mesmo eram os sensores que construí para a Beagle...
Michael interveio:
- Estávamos trabalhando com super-sensores quando deixamos a Aristóteles, um projeto secreto do Comando Espacial. - Virou-se para o japonês: - Nossa nave está à deriva em qualquer lugar daquela nebulosa, senhor Kato, portanto, vire-se com o que tem...
O jovem oriental deu de ombros.
Rodrigo decidiu:
- Irineu, pouse naquela cidade. A maior delas.
Depois de desconectar-se dos geradores wormhole, a nave embicou e entrou na atmosfera igual à da Terra. Através das nuvens, podiam ver a linha do horizonte agigantar-se. O casco já chamuscado do iate avermelhou-se com o atrito do ar. Logo estavam cortando um céu azulado.
Todos na Squalus estavam admirados.
Irineu desacelerou. Após uma volta completa em torno do planeta, aproximaram-se da cidade, e naquela região era noite.
Sob um céu estrelado, com a Nebulosa do Escaravelho a cortá-lo de leste à oeste, o iate pousou em uma praça enorme, bem no centro da cidade ancestral.
Os resfriadores lançaram uma nuvem de vapor, enquanto tiravam o calor das paredes externas da nave.
Após Toshio e Allis Zeldor certificarem-se de que não havia organismos vivos prejudiciais à saúde, a rampa dianteira baixou. Rodrigo desceu, acompanhado de duas lanternas voadoras.
Vestira trajes quentes de proteção, que trouxera especialmente para uma ocasião como essa. Fazia um pouco de frio. O ar era estranho à suas narinas.
Juntaram-se à ele Michael Snaker, Dirana de Santívia e Janaína Ranadi, segurando seu xaser.
Olharam em volta. Obras de arte colossais circundavam a praça, esculturas retorcidas e ao mesmo tempo belas. As lanternas subiram e iluminaram a cidade, bem do alto. Todos puderam admirar os prédios, templos, casas, numa arquitetura feita de linhas extremamente retas. Rodrigo/Atron reconhecia aquele estilo: era lemântico! Estavam no caminho certo. O jovem rapaz andou alguns passos, estupefato, e embora tentasse, não conseguia lembrar-se daquela colônia marciana - lemântica. Estavam tão longe...Seu império teria sido maior que a própria UniCiv?
Vencendo a inércia da surpresa, examinaram os prédios próximos, abandonados a milênios. Ao toque, as paredes eram agradáveis, quentes. As linhas dos edifícios eram de uma beleza invulgar. Nos interiores, móveis espartanos e sinais de uma fuga rápida.
O ar de cheiro pouco familiar e a gravidade diferente não os incomodava: estavam fascinados com aquelas ruínas. Olhavam para as janelas retângulares, os alpendres de formado trapezoidal, as plataformas que deveriam ter possuído belos jardins e agora estavam tomados de um mato estranho.
Olhando para o céu, Rod pediu para as luzes se apagarem.
Contemplou uma noite de poucas estrelas, pois estavam próximos a borda da galáxia. Mas havia a nebulosa de onde vieram a cruzar o céu, com sua maravilha de cores. Satisfeito, Rodrigo pediu as luzes de volta, e prosseguiram em suas explorações.
Tanto Michael quanto Dirana utilizavam sensores-analisadores, senalis, ligados via rq com os sensores de Toshio, que ficara a bordo da nave. Foi a alfana que percebeu a anomalia.
- Algo estranho à trezentos metros, nesta direção...- Apontou o sul. - Flutuações quânticas iguais as que deveriam ocorrer apenas no vácuo...Mas com grande intensidade. Existe uma interação entre o Universo e o Ante-Universo aqui mesmo, nesta cidade...Totalmente anormal...
Sacando seu xaser, o jovem milionário pediu a Dirana que os guiasse na direção do sinal. Allis monitorava, da enfermaria, os quatro lá fora, percebendo que seus corações estavam acelerados. A linda mulher de cabelos e olhos rosáceos seguiu na frente, tendo Rod, Janaína e Michael logo atrás.
Milena mordiscava o lábio inferior, ao lado de Irineu, na ponte da Squalus.
- O que será que está havendo...Ai, meu Deus, quero ir embora daqui!
****
As lanternas, voando com repulsão de gravidade, iluminavam as ruas por qual passavam, afastando-se da nave. Ao descerem por uma larga escadaria, ficaram fora do alcance da visão. Num círculo em meio à uma rua, uma estátua: um ser lemântico.
Aproximaram-se. Rodrigo/Atron leu as inscrições no pedestal.
- Este cara foi o fundador desta colônia.
Janaína surprendeu-se, assim como Dirana:
- Como pode ler essa escrita, senhor Maulson?
Michael entendeu porque Rod pudera ler as inscrições. Tentou consertar o deslize de seu amigo:
- Rodrigo deve estar confundindo esta escrita com a escrita cuneiforme...
- Não. Isso aqui é demanedo. Estamos numa distante colônia do antigo Império Lemântico...O ser representado nesta estátua é um marciano, e como vocês nunca viram um, e não tinham idéia de como eram...Aí está.
A baiana sacudiu a cabeça:
- Ei, Rod, espere aí. Como você sabe disso tudo?
Michael colocou a mão no ombro de Rodrigo:
- Vai contar para elas? Talvez seja melhor, então entenderão o que estamos fazendo aqui, afinal...
O jovem milionário desligou a comunicação com a nave.
Diante daquela estátua, Atron K-Rosam'vev, no corpo de Rodrigo Maulson, explicou as duas mulheres como nascera igual ao ser representado ali, em Leman - Marte - e como tinha o poder de trocar de corpo, etc, etc, etc...
Com o rádio desligado, evitou que os outros soubessem...Já era gente demais compartilhando seu segredo. Janaína e Dirana estavam perplexas, e demoraram a acreditar, até Rodrigo dar provas de sua sabedoria imensa acumulada ao longo de quinze mil anos...
****
- Eles estão demorando. - Disse Toshio Kato, preocupado. - Porque o senhor Maulson quis desligar o rádio?
Na ponte do iate, Antônio estremeceu ao ouvir o japonês:
- Devem ter encontrado algo tão perigoso, que não querem nos dizer...Estou com a Milena, devíamos ir embora deste lugar, desta cidade-fantasma!
****
-...Quer dizer então que...Você não é Rodrigo Maulson? - Janaína engoliu sêco e instintivamente ergueu seu xaser. O jovem milionário manteve-se calmo.
- Para todos os efeitos, sou sim. Meu corpo, meus genes, são de Rod. Meu cérebro é o de Rod. Apenas minha alma, minha alma imortal, é o de Atron. Bem, o doutor Snaker aqui provou que a alma existe através de simples equações matemáticas...
- De simples elas não tem nada, amigo. - Disse Michael, divertido. - De qualquer forma, explicações dadas, acreditem nelas ou não, vamos prosseguir...Acho que nós quatro aqui queremos saber o que são essas flutuações quânticas...Estamos perto do local de onde elas estão ocorrendo.
Rodrigo religou o rádio e avisou que estavam em ruínas lemânticas, que iam prosseguir nas explorações e que estavam bem.
Janaína ficou contrariada. Seu espírito prático a impedia de entender ou acreditar em tudo aquilo que estava acontecendo...Vivera sempre na região do Sistema Solar...Agora estavam a milhares de anos-luz de casa, numa cidade em ruínas, e, como se não bastasse, descobriu que o homem por quem estava apaixonada era alguma espécie de alienígena...
Mas ficou quieta. Rod e Michael seguiram na frente, Dirana atrasou seus passos, acompanhando a baiana, e ambas se distanciaram.
- Acredita mesmo no seu namorado, Janaína?
Ela evitou o olhar da outra.
- Não sei, mas neste Universo louco, tudo é possível... - Suspirou. - Acho que ele realmente é o que diz ser...Se ele já foi até mulher, pode muito bem nos conhecer a fundo...Talvez por isso seja tão bom de cama!
A alfana de cabelos curtos sorriu. Então disse suavemente:
- O que aconteceu entre nós na nave...
- Não tem problema. Esqueça.
- Não posso. Amo o Michael, amo-o muito...Mas você...Não sei, Jan. Lá em Santívia, eu tive uma namorada...Isso foi há anos. Pensei que essa parte de mim morrera, mas ao vê-la...
Janaína sorriu para a alfana. Beijaram-se...
****
Michael olhou o mostrador colorido de seu senalis.
- É aqui. Dentro deste edifício estranho. Há algo muito incomum acontecendo, e eu não sei dizer o que é.
Rodrigo examinou a construção atentamente.
- Aquilo lá no alto...Parece-me uma enorme antena parabólica.
- Vamos entrar?
Rodrigo concordou. Olhou para trás: Dirana e Janaína os alcançaram. Entraram pelo pórtico baixo todos os quatro.
****
Na enfermaria da nave, Parus Dorms conversava com sua conterrânea, Allis.
- O que foi doutora, porque está preocupada?
- Não deve ser nada, mas notei nos monitores que os batimentos cardíacos, a respiração e a temperatura de Janaína Ranadi e Dirana de Santívia aumentaram muito de repente...Mas já estão normais...Não deve ser nada...
- Não se preocupe - disse Parus, caminhando pela pequena sala com quatro camas. - Minha avó, já de idade, vivia tendo crises de asma. Tossia como uma maluca...
- Senhor Dorms, por favor, o que o senhor disse não tem nada a ver! Deixe-me em paz!
****
Lor-ti-neé desceu da nave e foi checar o lado externo da Squalus. Havia enormes buracos no casco, como aquele onde ficava a cabine de Parkiv e Clóvis. Outro, imenso, tinha acabado com o compartimento de bagagem. Contudo, o engenheiro ylsio não se preocupou: estavam bem vedados e a estrutura do iate continha muita perônia.
Milena apareceu ao seu lado, dando-lhe um susto:
- Oh, menina! Assim 'cê acaba comigo!
- Desculpa, Lor...Só estou admirando esse lugar...Tenebroso...
- Meu nome é Lor-ti-neé. No meu planeta, Negatta-Iliova, um nome sozinho assim mostra que o cara é bastardo. Eu sou da família Ti-Neé. Meu nome deve ser pronunciado completo: Lor-ti-neé...Que mania de vocês da Terra tem de diminuírem os nomes...
Milena sorriu, aquele seu sorriso lindo de dentes perfeitos.
- Desculpe-me. Lor-ti-neé. Pronto!
O ylsio a achava horrível, portanto desviou o olhar e continuou, com seus quatro olhos minúsculos, a examinar o casco do iate. Milena sentou-se no chão de concreto plástico:
- Gostaria de ir embora...Voltar para casa. O que será que o Rodrigo quer aqui, nesse lugar que até Deus esqueceu?
O ser de pele escura agitou as antenas, o equivalente humano a "dar de ombros".
- Eu só sei que estou me divertindo...Adoro o espaço, adoro conhecer novos mundos...Você tem idéia da importância arqueológica deste planeta?
Milena fez cara de desdém.
- O que me importa? Só queria estar de biquini numa praia, agora, numa praia bem deserta, segura e tranqüila do Rio de Janeiro...
****
Parecia-lhes um templo: embora de linhas retas, o local tinha nichos em todos os cantos. Xasers em punho, Rodrigo e Janaína iam na frente, adentrando o edifício estranho. Michael e Dirana seguiam atrás, examinando tudo com os senalis.
Finalmente chegaram a um enorme salão, com pé direito de uns três andares. Em seu centro, um painel cheio de caracteres cuneiformes lemânticos. Na frente deste painel, uma infinidade de tubos transparentes.
- Onde estamos, Rod? - Perguntou a baiana, sem se virar.
- Não tenho idéia. Nunca vi um lugar assim antes.
Dirana olhava atentamente o painel colorido de seu sensor-analisador:
- Ué, você não se disse lemântico? Como não sabe o que é isso aqui?
Sem parar de olhar à sua volta, o jovem milionário suspirou:
- Minhas memórias, como já lhe disse, só estão perfeitas a partir de minha segunda vida...Nesta época o Império Lemântico já havia sido arrasado. Sequer posso lembrar-me desta colônia. E nunca vi um edifício como este e com equipamentos iguais a este. Vou tentar decifrar o que está neste painel.
Rodrigo Pereira Maulson surpreendeu-se com o que leu.
- Não posso acreditar! - Todos se aproximaram. O rapaz de cabelos loiros leu em voz alta:
- "Teletransportador espiritual: configure nos botões abaixo a posição do receptor, lembrando-se que muda a todo instante. Destrave o sistema de segurança. Entre no tubo, e quando estiver pronto, pressione o botão grená."
Michael ergueu sua sobrancelha esquerda:
- Teletranportador espiritual? O que vem a ser isso?
Rod balançou a cabeça.
- Não tenho a mínima idéia. - Sem querer, olhou para cima. Havia uma enorme placa dourada e verde, pendurada numa viga. Ele a leu:
- "Portal de Tarínia"! - Ele deu um pulo: - Achei! Finalmente!
Michael não conseguia entender:
- O Toshio rastreou tudo num raio de doze anos-luz, o alcance dos sensores danificados da Squalus, e nem sinal de uma estrela verde...Como, então, pode ter achado o que queria?
Dirana riu-se:
- Estrela verde! Pois sim. É uma impossibilidade física, senhor Maulson, o senhor precisa convencer-se disso!
- Matéria inanimada ter vida também o é, e nem por isso fico achando que a teoria de vocês é furada...O Universo é grande demais, tudo é possível!
Rod afastou as três pessoas a sua volta e foi ler uma placa presa no que parecia um armário. Na verdade, o rapaz logo percebeu, era a caixa que continha as células vivas de um biocomputador.
A respiração de Rodrigo tornou-se rápida. Allis, na nave, o notou, e ficou preocupada.
Após ler o que estava escrito, tocou o "armário": estava quente. Estava vivo!
Olhou em volta. Apertou alguns botões. Luzes se acenderam, dando um susto nos outros três. Janaína exclamou:
- Rod, Atron, sei lá, o que diabos você está fazendo?
- Ligando esta máquina. É um teletransporte. Para onde, ainda não sei, mas tem um alvo fixo, e é longe daqui. Suspeito que é Tarínia. Só pode ser.
Dirana olhou seu senalis.
- Eu não sei o que está fazendo, senhor Maulson, mas há um mini-buraco negro formando-se além da parede onde estão aqueles tubos...Uma singularidade quântica!
Michael ergueu novamente sua sobrancelha esquerda:
- Fabuloso! Parece que há uma intensa atividade aqui, agora, em todo este edifício. A antena parabólica gigante do alto desta construção girou em 60 graus. É incrível!
O doutor Snaker ligou seu rádio.
- Senhor Kato, pode detectar a agitação deste lugar da cidade?
Na nave, na ponte, em seu painel, o japonês estava surpreso:
- Sim, nunca vi nada igual! O que é isso, Michael san?
- Não sei, algo como um sistema de teletransporte de longa distância. Continue monitorando e gravando tudo, senhor Kato!
Repentinamente as telas de Toshio ficaram as escuras: era como se nada, absolutamente nada, houvesse naquele lugar onde instantes antes Michael transmitira aquela mensagem. Num círculo perfeito com cincoenta metros de diâmetro, nem um átomo dava sinal de vida nos sensores.
O nipônico examinou os arredores: tudo normal. A cidade inteira registrava na tela, menos aquele lugar. Toshio suava frio: nunca vira, em toda sua vida de cientista de sensores, coisa semelhante.
Olhou pelas janelas. Até onde exergava, nada de diferente.
Antônio percebeu a agitação do jovem oriental:
- O que foi? O que houve? Problemas? - Disse, quase choramingando.
No rádio da ponte, a doutora Allis berrou:
- Eles sumiram! Não há sinais vitais de nenhum dos quatro!
****
Para quem olhasse de fora, estava lá. Nada parecia ter mudado em volta do edifício com uma imensa antena parabólica, ou algo parecido, no telhado.
Dentro, havia cheiro de ozone no ar, além de uma forte vibração. Os senalis não registravam mais nada. Dirana olhou para seu marido, Michael:
- Você é o gênio. Já que o senhor Maulson ali só aperta botões, será que você poderia explicar-me o que está acontecendo aqui?
Janaína estava sentindo algo que poucas vezes sentira: medo. Sua especialidade era a investigação criminal, era atirar, enfrentar facínoras...Mas estar no meio de ruínas, num lugar maluco daqueles, longe de tudo...Ela sentia medo do que não entendia e não podia controlar. Abraçou-se e percebeu que tremia.
Já Rodrigo não continha a excitação. Agora sabia onde estavam, e o que era o teletransporte. Lera ali mesmo, escrito na antiga língua lemântica demanedo.
- Senhoras e senhores: estamos numa máquina capaz de transportar nossa alma para outro lugar. Lá do outro lado existe um receptor, outra máquina, que vai gerar, a partir de matéria orgânica armazenada para este fim, corpos idênticos aos nossos. E vai fixar temporariamente nossas almas nesses corpos, para que possamos "viver" no nosso destino, e explorá-lo.
Michael era o menos surpreso e logo perguntou:
- O destino deste teletransporte seria Tarínia?
- Sim. Finalmente! E, pelos mapas astronômicos que examinei agora a pouco, Tarínia fica muito, muito longe daqui. Fica na Pequena Nuvem de Magalhães!
****
Irineu estava no banheiro, com desinteria. Transpirava fazendo força, com um datapaper na mão, mas nem o lia, não conseguia. Ficou furioso quando Bio falou com ele:
- Estão à sua procura, senhor Barracos. Rod mandou-o ficar no comando, certo?
- Sim...Ufa! Aquele sintetizado de linguiça toscana apimentada me fez mau...Ai!
- Mas precisam do senhor. Rod, Michael, Jan e aquela chata da Dirana, sumiram!
Irineu sacudiu a cabeça, em desespero:
- Merda, Bio! Logo agora? Eu não posso sair daqui...Ufa!
- Merda é exatamente o que o senhor está fazendo.
Irineu ralhou os dentes:
- Bio, vou pedir para o chefe desligar você! Seu insuportável!
- Ora, ele mesmo pediu-me para ser informal e jovial. Agora, depressa, isso é sério, eles sumiram. O senhor Kato gravou em meu banco de memórias o que houve. Eles sumiram no meio do nada. Precisamos de você!
Irineu sabia que era verdade, e estava no comando ali, delegado por Rodrigo. Mas sua barriga doía. O que fazer?
****
Quatro tubos estavam abertos. Rod entrou num deles e deitou-se. Ele era levemente inclinado. Dali, olhou para os outros:
- Vocês vêm?
Dirana suspirou fechando os olhos:
- Esta minha curiosidade ainda me mata! Eu vou.
Michael ajeitou sua esposa num dos tubos vazios e abertos. Olhou para Janaína:
- E você, garota? Quer arriscar?
Rodrigo sorriu para sua namorada:
- Venha, Jan. Não tem perigo. Esta maquinaria usa energia do centro do planeta...E ainda está funcionando, mesmo depois de quinze mil anos, como a maioria das máquinas do Palácio do Vórtex, em Marte. Você vai gostar de conhecer Tarínia.
Ela guardou seu xaser na cintura, e a contragosto deixou Michael acomodá-la num tubo ao lado de Rod.
- Gostar de conhecer Tarínia...Já estou quase é detestando ter conhecido você!
O doutor Snaker deitou-se no último tubo. Todos apertaram o botão grená. Os tubos fecharam-se. Um líquido branco começou a cobrí-los. Os tubos, como esquifes, tornaram-se opacos. Com exceção de Rod, todos entraram em pânico quando o líquido os cobriu. O jovem milionário sabia que aquilo era completamente normal. Os outros pensavam estar se afogando.
Logo perderam os sentidos. O teletransporte entrou em operação. O rapaz que incorparava Atron regulara a antena na direção exata do receptor: uma estrela próxima ao centro da pequena galáxia satélite da Via Láctea, de formato irregular, situada à mais de 200.000 anos-luz de onde estavam. Estavam indo para a galáxia que os terráqueos batizaram de Pequena Nuvem de Magalhães, nome do navegador português que a avistou pela primeira vez enquanto buscava o caminho para as Índias.
****
Sonhavam. Era um sonho realista e surreal: parecia-lhes um túnel imenso, colorido, cujo fim era um caleidoscópio. Viajavam por este túnel a uma velocidade escabrosa. Deixaram-se levar: tinham morrido e estavam indo para o paraíso? Seus sentidos nada mais diziam agora. Flutuavam. Não havia mais corpo, não havia nada. Só exaltação. Ouviram cânticos? O túnel estava cada vez mais apertado...Agora caíam. Onde? Lindas bolhas coloridas com a essência do tempo ultrapassou-os. O céu apareceu, cheio de estrelas. Formas. Estrelas transformando-se em nuvens com formato de unicórnios. Musas. Mulheres maravilhosas. Homens guerreiros. Dragões de gelo. Anjos celestiais. Aquela imagem se estilhaçou.
A realidade apareceu.
Rod abriu os olhos. Sentia-se como uma criança, forte, vigorosa, cheia de energia.
Era um novo corpo gerado pela máquina, igual ao seu. Sua alma, esta era a mesma.
O esquife onde estava abriu-se. Estavam em outro lugar. Gravidade maior, sentia-se pesado. Pressão do ar, enorme. Muito calor. Respirou fundo, com um pouco de dificuldade, até acostumar-se. Estavam em Tarínia?
Levantou-se.
O lugar pareceu-lhe grande, maior que o edifício que deixara para trás. Andou com um pouco de dificuldade: pernas novas e gravidade bem maior que a da Terra.
Janaína levantou-se de seu tubo. Os corpos eram novos em folha: ela não estava queimada de Sol, nem Rodrigo. Eram como bebês adultos. Estavam nus, pois a máquina não fôra programada para gerar roupas.
- O-Onde estamos...O que aconteceu comigo?
- Nosso bronzeado ficou na Via Láctea, Jan. Não se preocupe: quando retornarmos, teremos nossos velhos corpos de volta.
Dirana, saindo de seu esquife:
- Nunca me senti tão bem. Que tecnologia!
Janaína concordou. Olhou em volta. Michael saiu de seu tubo:
- Nossa! Nunca pensei que algum dia iria viajar assim. Isso é mais fantástico do que tomar negorne puro!...Minha barba e meu bigode...Sumiram!
Estavam com os cabelos curtos e com poucos pêlos. Rod não deixara de reparar que Dirana realmente tinha seus cabelos cor-de-rosa, assim como seus olhos. Segurou um sorriso ao reparar também em seu monte de vênus, da mesma cor.
- Gostou, senhor Maulson?
- Posso ter nascido lemântico, mas agora sou um representante macho da espécie humana. - Virou-se para seu amigo cientista: - Desculpe-me, Michael.
- Bem, não vou dizer que não olhei também para sua namorada, ainda mais que nós, todos de corpos "saídos do forno", estamos até que...Engraçados! E você, Janaína, é muito bonita, mesmo com essa tez totalmente alva.
Janaína sorriu-lhe de volta, com seu olhos azuis brincalhões. Agora estava se divertindo. Que coisa mais maluca estava acontecendo com ela!
- Há caracteres que não reconheço... - Disse Rod, lendo as inscrições nas paredes. - Porém, vejo que existe escrita lemântica aqui...Hummm...Numa tradução livre, essa placa enorme diz: "Bem-vindos à Tarínia"!
Livro II - A Busca - Capítulo X.
Quando chegaram ao estranho prédio, não encontraram ninguém. Os sensores diziam que nada mais havia de errado ali, exceto pelas flutuações quânticas. Nas telas de Toshio, tudo voltara ao normal.
Mas a pergunta para os que ficaram era: onde foram Rodrigo, Janaína, Michael e Dirana? Irineu, um tanto abatido, comandou as buscas por toda aquela região da cidade abandonada.
Na nave ficaram apenas Allis Zeldor, monitorando a todos da enfermaria, e Antônio Varello, vigiando o iate. Os outros, em grupos, separam-se. Não sabiam que os corpos semi-mortos de seus companheiros jaziam ali mesmo, sem suas almas, nos tubos agora opacos dentro daquele salão.
Algumas pessoas da tripulação já estavam entrando em pânico...
****
Caminhavam, nus, por um longo corredor, e as paredes pareciam feitas de pedra. A luz vinha de estranha lâmpadas oblongas presas ao teto. Fazia muito calor, e a gravidade de 1,5g os deixava 50% mais pesados. Transpiravam.
Michael e Rodrigo conversavam um pouco destacados de Dirana e Janaína. Rod gesticulava:
- Estou nervoso. Depois de tanto tempo, creio que minha busca chegou ao fim. Não imagina minha curiosidade: o que, afinal, aconteceu aqui há quinze mil anos? Não vejo hora de descobrir!
- Mas será que Martogh ainda está vivo? Afinal, Martogh era marciano também?
- Não, Mike. Era um ser estranho, "Filho dos Deuses" era seu título. Posso lembrar-me de que tinha um corpo de lesma com um único grande olho na parte de cima.
- O que mais pode lembrar-se?
- Eu e Liany em seu castelo, ele dizendo que teríamos de guardar para a eternidade a Chave da Prisão de Zonos. E é só...Com respeito à Tarínia. Do resto de minha vida como Atron, lembro-me de batalhas, naves enormes, planetas maravilhosos. Lembro-me que eu e minha irmã gêmea erámos os reis do Império Lemântico e que Zonos, o "Imperador Negativo", era danado de ruim, mal. Apenas isso.
- Não é muito. Mas também estou curioso. Como cientista, essa nossa experiência tem sido muito interessante!
- Ainda bem que acha isso. Sem a sua ajuda e dos Filhos de Darwin, dificilmente chegaríamos aqui.
- Não fale assim. Creio que se não estivéssemos na nebulosa, a Tristalla também não estaria lá, e vocês teriam chegado aqui antes, sem contar que inteiros. E seu engenheiro estaria vivo.
Rodrigo olhou seu amigo de modo surpreso:
- Porque acha isso? Estariam atrás de você?
Michael deu de ombros:
- Não sei, mas suspeito. Logo após eu publicar minha teoria na UniNet, recebi um chamado de um dary que se dizia cientista do Centro de Ciências Universais. Pediu-me para ir à Daryani fazer uma palestra. Ao investigar o sujeito, descobri que simplesmente não existia...Nome e cargos falsos, e o endereço que deu-me para procurá-lo era de uma casa na periferia de Karew, a capital do Ocidente Sul.
- Ocidente Sul...Onde a Ordem Zinédica tem maior domínio. Terroristas iguais à Inus Horona costumam vir deste lugar. Talvez tenha razão, Mike.
Um pouco mais afastadas, Dirana conversava com Janaína:
- Fico feliz em viver nos dias de hoje. Homens fortes, lindos e maravilhosos como meu marido e seu namorado. Viva a engenharia genética!
A policial de cabelos loiros sorriu, admirando junto à sua nova amiga alfana os corpos atléticos dos dois rapazes que seguiam à frente:
- Pensei que você gostasse de garotas, Dirana, mas tem toda razão. - Suspirou. - Pena que, agora que descobri o que de fato Rodrigo é, eu não sinta mais o que eu sentia por ele.
- Gosto de garotas...E rapazes também. Amo o Michael. Mas, diga-me, porque esse súbito preconceito sobre a verdadeira identidade de seu namorado?
Jan balançou a cabeça lentamente.
- Não sei. Realmente não sei. Talvez por ele nada ter me contado antes.
- Possivelmente você não acreditaria. Eu acho que deveria perdoá-lo. Sabe, eu o considero arrogante demais, mas posso sentir que você o ama. Sou uma cientista muito observadora.
A baiana sorriu. Era verdade, ela não acreditaria se Rod contasse tudo antes, além disso, porque o pavor de saber que o rapaz por quem se apaixonara não era...Normal?
Chegaram à uma enorme porta de algo parecido com madeira. Estava fechada.
- Batemos? - Perguntou Michael olhando para Rodrigo.
O jovem milionário de cabelos loiros e olhos verdes reparou numa espécie de aldrava. Segurando-a, socou a porta com força. Então ela abriu-se lentamente e os quatro personagens nus seguraram a respiração. Dirana e Janaína deram um passo para trás, assustadas com o que viram.
****
Irineu desistira. Já faziam quatro horas que estavam na busca dos desaparecidos. Nada. De volta à nave, reuniu-se com todos no refeitório, que fazia às vezes de sala de reuniões. Sentia-se bem no comando, apesar de ser um dos mais jovens ali, junto com Milena e Antônio.
- A situação é a seguinte: não sabemos o que houve com eles, não sabemos o que estamos fazendo aqui e porque o chefe queria vir até este planeta , além do fato que não termos comunicação com a UniCiv.
Toshio levantou-se:
- Perdemos a antena principal na batalha contra a Tristalla, e mesmo que ela estivesse funcional, a Nebulosa do Escaravelho está no caminho. Portanto estamos sós no meio do nada. Mas não vou abandonar o doutor Michael e a doutora Dirana aqui, de jeito nenhum!
Antônio levantou-se também:
- Eu voto por voltarmos. Estamos correndo perigo. Nossa massa alimentar não vai durar muito, e a viagem de volta é longa, eu calculo duas semanas e meia até o posto de fronteira mais próximo. Só temos dois motores, lembram-se?
Lor-ti-neé agitou muito suas antenas:
- Acalme-se, senhor Varello. Não se esqueça que seu chefe Maulson está perdido aqui. E além de chefe, é seu amigo.
- Belo chefe e amigo, Lor. Sumiu e nem deu instruções sobre o que fazer e para onde ia, só deixou esse maluco do Irineu no comando!
- Meu nome é Lor-ti-neé!
- Eu não sou maluco, Tony! E estou no comando, portanto nada de votos! Belo amigo você é, seu covarde. Não vamos deixar ninguém para trás!
Milena também levantou-se e gritou:
- Isso mesmo! Nós vamos ficar! Vamos virar este planeta de cabeça para baixo, mas vamos achá-los! - Virou-se para Antônio. - Quanto a você, de agora em diante fique quieto!
Parus Dorms, sempre ele, deu uma sonora gargalhada:
- Escutem todos! Não corremos perigo imediato, este planeta é bem agradável, temos bastante comida, e podemos pegar mais lá fora. Minha avó sempre dizia: numa crise, o melhor e sentar e não fazer nada. Mas não precisamos ficar parados, vamos fazer o que a Milena disse, esquadrinhar cada prédio desta cidade-fantasma, olhar debaixo de cada pedra, observar os galhos de cada árvore, vasculhar cada...
- Cale a boca, Parus! - Disseram todos os outros juntos.
****
Um maithen era uma gosma verde, cheia de tentáculos minúsculos, com um olho enorme que se sobressaía na parte de cima. Este olho agora encarava os quatro humanos.
- O que será isso? - Perguntou uma enojada Dirana.
- Isso... - Disse Rod, aproximando-se. - ...É Martogh.
Enquanto os outros observavam, o jovem milionário falou algumas palavras em demanedo. A "gosma" ficou verde claro, depois escuro. Finalmente ouviu-se uma "voz" na cabeça de cada um:
- Eu não sou Martogh, embora pertença à sua raça. Sou Asdro, um maithen.
Michael, Janaína e Dirana não entenderam nada, o ser "falou" em suas mentes na antiga língua lemântica. Apenas Rodrigo entendeu. O jovem milionário respondeu-lhe:
- Fico feliz que possamos conversar. Creio que está usando uma forma de telepatia... Bem, pensei que fosse um antigo ser que encontrei aqui à muito tempo. Ele era igual à você.
- Martogh foi um grande triskaj. Mas ele foi um dos primeiros a morrer quando a Grande Doença sobreveio. Sinto muito. Não conheço a sua raça...Usaram o velho teletransporte que construímos para os lemânticos?
Rodrigo olhou seus perplexos amigos: todos com cara de que não estavam entendendo nada. Virou-se novamente para a "coisa". Estavam à soleira da grande porta:
- Somos humanos originados da Terra, um planeta vizinho à Leman. E eu sou Atron, antigo rei do Império Lemântico, encarnado como Rodrigo Maulson.
O olho do ser pareceu arregalar-se.
- Atron? Atron K-Rosam'vev? Não posso crer!
- Isso mesmo. Voltei aqui pois pouco posso lembrar-me de minha primeira vida, e gostaria de respostas.
- Sim, claro! Você esteve aqui há mil e duzentos querberts. A guerra! Pelos deuses asdretj de latttasg! Você ainda tem a chave que lhe foi destinada?
Rodrigo sacudiu a cabeça. Falou ainda em demanedo:
- Não. Sequer posso lembrar-me o que foi feito dela.
Os tons de verde da "gosma" sucederam-se rapidamente, indo do mais claro ao mais escuro. Era assim que se comunicavam, com sutis mudanças de tons de verde, a maioria só percebidas por eles mesmos. A única maneira de Asdro "falar" com qualquer outro ser era através da telepatia. Agora o maithen estava nervoso:
- Como se não bastasse! Além de todos esses milênios sofrendo nas mãos dos Ti-lemânticos, ainda descobrimos que Zonos pode escapar! Trush Asdf!
- Quem são os Ti-lemânticos? - Rod então fez sinal com as mãos para que o maithen parasse e virou-se para seus amigos:
- Pessoal, a coisa é mais complicada do que eu imaginava. Vamos nos acomodar, arrumar alguma coisa para vestirmos e tentar extrair o máximo do nosso amigo aqui, o maithen Asdro.
****
Rodrigo Pereira Maulson agora estava vestindo uma tanga minúscula. O calor imenso, a gravidade de 1,5g e a pressão do ar enorme não permitia que colocasse qualquer outra roupa. Michael Snaker também se vestira daquele modo, e olhava para seu amigo, intrigado:
- Pelo que entendi, você não podia ter perdido a chave, e se Zonos fugir de sua prisão, ele se tornará uma grave ameaça para toda a Via-Láctea e para a Pequena Nuvem de Magalhães?
Rod concordou com a cabeça:
- A chave está sumida. A minha. A outra deve estar com Liany...Espero.
Dirana de Santívia, assim como Janaína Ranadi, havia optado por uma tanga um pouco maior e algo que lhe cobrisse os seios. Todos transpiravam muito pelo calor e sentiam-se incomodados pelo ar pesado e estranho.
Estavam sentados numa sala enorme de paredes de pedra. Não estavam no castelo de Martogh, e sim no esconderijo de Asdro e dos remanescentes maithens em Tarínia.
Dirana ajeitou os cabelos cor-de-rosa e curtos:
- Quanta incopetência! Mas, depois de todos estes anos, acho que esse Zonos morreu, como o tal Martogh.
- Não... - O semblante de Rod demonstrava preocupação. - Ele não pode morrer. Asdro explicou-me que Zonos é o que chamaríamos na Terra de...Demônio. Imortal. Ele veio do Ante-Universo, daí o apelido "Imperador Negativo". Ele é o mal encarnado!
Janaína enxugou o suór da testa e bebeu mais da água que as "lesmas" haviam lhes dado. Então disse:
- Onde está esse Zonos? O seu amigo asqueroso lhe contou?
- Sim. Ele está preso numa outra estrela verde...Outra estrela que você - apontou a alfana - disse que era impossível existir. Pois existem várias estrelas verdes no Universo, embora sejam raras. A que Zonos está fica próxima ao centro da nossa galáxia. Seu nome é Tirênia. Ele foi aprisionado durante uma grande batalha com Martogh e sua tropa de maithens, que foram salvar os lemânticos da destruição.
Michael ergueu sua sobrançelha esquerda:
- Eles foram salvar os seus semelhantes?
Rod fêz que sim com a cabeça:
- A colônia em que estivemos recebeu a visita de uma nave maithen enquanto eu governava Leman. - Não me lembrava disso, foi Asdro quem contou-me. - Então o meu império estabeleceu um contato feliz e produtivo com essa raça que teve origem aqui, nesta galáxia.
Rodrigo respirou fundo e continuou:
- Os maithens eram muito mais avançados, e logo construíram o teletransporte, para que em apenas algumas horas pudéssemos ir e vir. E eles também usavam nossa colônia como base. Até que Zonos, que havia conquistado os outros reinos e impérios que haviam na Via Láctea, decidiu nos atacar. É a guerra da qual posso recordar fragmentos.
Dirana olhou nos olhos de Rodrigo:
- Caramba! Quer dizer então que havia civilizações por todos os planetas da nossa galáxia?
- Sim, claro. Ou você acha que, com a idade que tem o Universo, nenhuma civilização existiu até surgir a Humana, a Thoriana, a Dary? Mas a guerra do Império de Zonos contra nós foi arrasadora. Ele não queria nos conquistar. Queria nos destruir, pelo simples fato de sermos aliados dos maithens. Vejam: Zonos foi expulso do Ante-Universo, sabe-se lá por quem. Emergiu aqui, na Pequena Nuvem de Magalhães. Os nossos amigos gosmentos dominavam cada mundo daqui, e depois de muita briga o fizeram fugir. Não sabiam que ele fôra para a nossa galáxia. Quando descobriram, já era tarde. E nós estávamos no meio da briga. Briga de cachorro grande.
Michael Snaker caminhou pelo aposento. O calor estava insuportável.
- Então foi isso. Zonos quase arrasou com seu império, você e sua irmã, os reis, ficaram responsáveis pelas chaves da prisão dele, e em troca deram-lhes a imortalidade?
Rodrigo recostou-se e limpou o suor da testa. Asdro estava demorando. Queria sair dali. Queria voltar ao planeta onde se encontrava a Squalus.
- Sim, mais ou menos isso. Martogh achou que eu e Liany seríamos os melhores guardiães possíveis das chaves. Mas algo deu errado. E então veio a Grande Doença e acabou com quase três quartos da civilização maithen.
Neste instante três daqueles seres parecidos com lesmas de um olho só entraram. Asdro disse à Maulson através da telepatia, em demanedo:
- Vocês precisam voltar agora! O sinal do teletransporte tocou no palácio do rei Visten. Os Ti-lemânticos vão achar este esconderijo. Depois de milênios, finalmente chegou a nossa hora. Sua majestade Atron, foi um prazer conhecê-lo e morrer por vossa excelência. Agora vão, depressa, e tentem descobrir onde estão as chaves da prisão de Zonos. Ficaremos aqui e tentaremos deter aqueles alucinados.
Mas era tarde demais. Depois de dois mil e setecentos anos, os descendentes dos marcianos que colonizaram o planeta CCEN-3456/2 encontraram os seres que julgavam seus inimigos. Ouviram uma porta cair. Algazarra. Antes que pudessem deixar o aposento, enormes lemânticos apareceram, era uma turba enfurecida.
****
A última coisa que Rodrigo vira fôra um enorme pedaço de madeira ser jogado sobre ele. Agora despertava com dor de cabeça. Estavam numa minúscula cela, quente como o inferno. Transpirava em bicas e sua boca e língua pediam água.
Colocou a mão à testa, havia um enorme galo. Michael não estava em melhor situação. Olhava para ele ainda tentando entender o que acontecera.
Dirana e Janaína estavam caídas e desmaiadas ao seus pés. Snaker levantou-se com muita dificuldade e testou as grades de ferro puro.
- Não conseguiremos sair daqui. Porque os seus compatriotas nos atacaram?
- Não sei, não estou entendendo nada. São descendentes de lemânticos, só que muito maiores...Devem ter evoluído nesta estrela verde, com gravidade maior e tudo. Mas eu não sei o que eles querem. Não era para ser assim.
O chefe da segurança era um sujeito atarracado. Como todos os marcianos antigos, tinha duas pernas, dois braços, duas mãos, mas cara de formiga e pele cor de vinho. Só não tinha antenas e seus olhos eram de um violeta profundo. Olhava os pobres humanos em sua cela.
- O quê são vocês, seres esquisitos? Porque usaram o Transporte Sagrado?
Como ele falava em demanedo, foi Rod quem respondeu:
- Somos humanos. Precisávamos vir aqui para saber o que houve com Martogh. Eu sou Atron K-Rosam'vev! - O rapaz disse isso com esperança de impressionar seu algoz.
Mas o que ouviu foi uma sonora gargalhada.
- Como um ser de pele rosada, feio e fraco como você pode dizer que é o grande Atron, o salvador, o explêndido, o pastor de nossa raça, que veio nos salvar do demônio Zon e libertar nosso povo daqueles seres gosmentos?
Michael, novamente sentado no chão, olhou Rodrigo erguendo sua sobrançelha esquerda:
- Bem, seja o que for que você está dizendo, ele não está acreditando.
Com dificuldade, Rod levantou-se:
- Escute: eu sou Atron vivendo no corpo de um humano. Senão, como saberia falar sua língua?
- Bah! Você nem fala direito. Sua pronúncia é horrível. Vocês irão para o Jogo da Vida amanhã. E assistirão seus amigos gosmentos demoníacos morrerem em breve.
Rod segurou-se às grades e colocou seu rosto encostado nelas. Estava exausto e ferido. Aquela gravidade...E o que estava acontecendo? De qualquer forma, era normal o soldado achar sua pronúncia horrível. Fazia quinze mil anos que falara pela última vez o demanedo, e ainda assim estava feliz da língua quase não ter mudado em todo esse tempo.
Foi examinar Jan e a alfana. Elas também foram feridas. Janaína abriu os olhos. Sorriu à Rodrigo. Ele a levantou e a abraçou:
- Desculpe-me. Eu não queria colocá-los nesta situação, eu não tinha idéia do que encontraríamos aqui, em Tarínia. Sinto muito.
Ela o abraçou.
- Está tudo bem, Rod. Eu é que peço desculpas. Fui rude com você. Não importa que não seja totalmente da minha raça; eu ainda...Ainda amo você. Desculpe-me.
Ele a beijou. O beijo de língua revigorou a ambos. Michael, com muito esforço, saiu de seu lugar e tentou despertar sua mulher. Mas ela não estava bem.
- Rod, o que acontece com nossos corpos na Via Láctea se morrermos aqui?
- Morreremos lá também. Sem alma, nosso casco irá parar de funcionar.
Snaker abraçou forte uma Dirana inerte. Uma lágrima escorreu-lhe pela face:
- Se ela morrer, será o fim para mim. Eu a amo, e muito. Ela é tudo na minha vida!
O jovem rapaz de cabelos loiros e agora de tez muito alva com seu corpo novo, deixou Janaína e colocou as mãos nos ombros de seu amigo:
- Eu sei que você nunca me perdoará, Mike, se ela morrer. Quero, do fundo do coração, lhe pedir desculpas...
O doutor, agora sem barbas e de cabelos curtos, virou-se para Rod:
- Pare com isso. Viemos porque quisemos. Não é sua culpa. Além do mais, eu e Dirana não somos de ficar vendo tridivision no sofá ou ficar sonhando na realidade virtual. Gostamos de ação e coisas reais. Ela sabia dos riscos ao acompanhar-me na Beagle.
Janaína também estava muito preocupada com Dirana, e lhe acariciou o rosto:
- Não morra, amiga. Você é muito especial para mim...
- Ninguém aqui vai morrer, pelo menos por enquanto. - Disse a alfana de Santívia, sem abrir os olhos. Todos sorriram e, com exceção de Rod, abraçaram-se e choraram. Rodrigo Maulson estava era preocupado com outra coisa, agora: iriam executar os maithens? E o que seria o Jogo da Vida?
****
Era quase meia-noite, horário da nave, e Toshio estava cochilando diante de seu painel de sensores. O dia lá fora começava, e naquela região do planeta CCEN-3456/2 deveria ser cerca de cinco da manhã. Fazia frio, mas não muito. O orvalho cobria o casco danificado do belo iate.
Milena Almadori, sonhadora, olhava o nascer dos sóis. Juntas, a estrela gigante azul e sua companheira, a anã vermelha, surgiam lentamente no horizonte, provocando sombras estranhas. Era um espetáculo maravilhoso, pensou a mulata vestindo uma roupa térmica, sentada do lado de fora, apoiada no trem de pouso. Não conseguia dormir, preocupada com Rod e os outros. Onde eles estariam?
Irineu Barracos melhorara de sua indisposição intestinal e estava entrando na ponte quando notou uma luz piscando no painel de seu novo amigo japonês.
Ao mesmo tempo, Milena viu uma luz no céu. Assustada, ela levantou-se e foi olhar de um lugar melhor. Era algo veloz e aproximava-se rapidamente. Contra as estrelas que se apagavam pela luz dos sóis, o que quer que fosse vinha na direção deles. Correu para dentro do iate.
Irineu ficou boquiaberto. Uma nave!
- Toshio, Toshio, acorde! Veja no seu painel! Uma nave vem chegando!
Ele acordou atrabalhoado, e assim que pôs as idéias em ordem, olhou para a tela. Pressionou algumas teclas e a nave surgiu, imponente.
- É uma nave da UniCiv, Irineu san!
****
Foram levados, depois do que lhes pareceu uma eternidade, para uma sala horrorosa. Fedia e tinha paredes de pedra enegrecidas e sujas. Estavam com as mãos amarradas às costas. De pé, aguardaram. Havia vários soldados Ti-lemânticos. O chefe da segurança apareceu, Rod o reconheceu. Com seus olhos violetas e do alto de seus dois metros, o ser cuspiu no rapaz loiro.
- Ainda não sei como você pôde ter a audácia de dizer que é o Grande Atron! Mas vai ver seus amigos morrerem, um por um, no Jogo da Vida! Além disso, você vai ver seus aliados gosmentos serem destruídos em profunda agonia...Ouçam... - Eles ouviram muita agitação do lado de fora. - O povo está feliz! Depois de tantos querberts, os últimos demônios maithens serão mortos!
Quando o líder dos soldados afastou-se, Rodrigo cochichou para Michael:
- Eles não acreditam mesmo que sou Atron. Merda! Eu não queria provocar isso tudo...Como vamos evitar que executem os maithens?
Mas o jovem milionário nada podia fazer. As cordas eram muito resistentes, e havia muitos soldados ali. Foram levados para fora.
A luz verde e forte, que provinha de todo lugar, ardeu nos olhos do grupo humano. Mas assim que puderam, viram-se numa plataforma elevada a metros do chão. Dali, podiam vislumbrar um enorme, imenso estádio, com milhares de Ti-lemânticos a gritar e agitar bandeiras das mais diversas cores. No centro do estádio, estavam, imobilizados, os três maithens que ficaram escondidos durante os últimos milênios no prédio do teletransporte. Jan encostou sua cabeça no ombro de Rod e fechou os olhos. Este, por sua vez, passou a língua pelos lábios ressecadíssimos, estava morrendo de sede. Olhou para cima: o planeta de muitos anéis, que vira na realidade virtual da esfera negra, estava lá.
Era a confirmação que estavam mesmo em Tarínia. Mas nunca imaginara que a situação naquela estrela verde chegaria a este ponto. Não estava entendendo como os descendentes de seu império puderam transformar-se naquele estranho povo.
Em demanedo, ouviu o terrível anúncio:
- Agora teremos o melhor show do dia! Finalmente a execução dos últimos maithens de Tarínia! E com a palavra, o nosso amado e grande rei, Visten D-Mor´gy!
Um soberbo lemântico, ou Ti-lemântico, subiu num pedestal. Se eles estavam a cerca de dez andares de altura, o rei ficava mais cinco acima, à direita deles. Sua fala foi grave:
- Depois de muitos querberts a procura do lendário Transporte Sagrado e de seus guardiães, os últimos maithens, acabamos por encontrá-los!
A multidão aplaudiu, entusiasmada. Rod traduzia para o solanês tudo o que falavam. Seus amigos estavam inquietos. O rei prosseguiu com seu discurso:
- Para os nossos cientistas e para todos aqueles que afirmavam serem apenas lendas fantasiosas, a existência do Transporte Sagrado para a Terra Prometida, eis a resposta! Um sinal em meu biocomputador milenar indicou-me a sua localização, hoje cedo. E o achamos finalmente!
O povo gritava em êxtase. Visten se divertia:
- Aqueles seres horríveis de pele rosada vieram até nós através do Transporte. Vocês, meus amados súditos, terão o prazer de vê-los serem trucidados no Jogo da Vida!
Mais aplausos.
- Agora, sem mais demora, a execução! Não podemos nos arriscar a manter esses maithens conosco um rerler sequer!
A multidão entrou em delírio.
Rodrigo Maulson engoliu sêco. Sal foi derramado sobre os três pobres maithens, que nada mais eram que lesmas muito inteligentes. Eles morreram derretidos entre lamentos agoniados. Todos os quatro humanos ficaram chocados.
Livro II - A Busca - Capítulo XI.
Os Ti-lemânticos, descendentes dos lemânticos, mantinham suas tradições por milhares de anos. Porisso a linguagem pouco havia mudado, assim como a maioria de seus costumes. Mas como Rodrigo viera a saber depois, algumas coisas ficaram deturpadas na História desse povo. O rei Visten D-Mor'gy estava em seu palácio, olhando o céu esverdeado. Já era "noite" em Tarínia, embora nunca escurecesse. Uma parte da luz e do calor provinham das fusões nucleares do interior da estrela, escapando por fissuras em sua superfície solidificada.
Da sacada enorme e cheia de plantas, o soberano olhava também a imensa metrópole que se estendia abaixo da colina de seu palácio. Não se virou para cumprimentar a general Dulcídia, que acabara de chegar.
- São seres estranhos, não são? - Perguntou à sua subordinada.
A fêmea da raça Ti-lemântica concordou com a cabeça.
- Sem dúvida, são muito estranhos. O chefe da segurança disse-me que um deles afirmou ser Atron!
- Eu soube. Já devem estar trazendo-o para cá, quero interrogá-lo pessoalmente. Um atrevido deste calibre terá o que merece.
- Deixe-me divertir-me com ele. - A general mantinha um sorriso nos lábios.
- Está bem, querida. E eu irei divertir-me com as fêmeas rosadas.
Os dois contemplaram a visão magnífica do planeta repleto de anéis, em quarto mingüante, no céu verde e de nuvens roxas. O rei disse:
- Nós teremos de ser cuidadosos desta vez. O povo já está farto de notícias sobre nossas bestialidades.
- Aquele jornal da Oposição adora reportagens sobre o que fazemos com os seres capturados para o Jogo da Vida. Não creio que o povo dará muita atenção a mais uma.
O rei sacudiu a cabeça lentamente de modo negativo:
- Agora não são mais os macacos semi-inteligentes da floresta. São seres do além. Vieram pelo Transporte Sagrado, e eram amigos dos maithens. Os conselheiros queriam sua execução imediata!
A general e amante do rei o abraçou por trás.
- Mas não é isso que vai impedir que usufruamos deles, não é, majestade? Eu adoraria experimentar um daqueles machos...Aquele que diz ser Atron é bem interessante.
- Nosso prazer pela bestialidade ainda vai nos destruir, Dulcídia. Mas não resistirei em obter prazer com aquelas duas estranhas criaturas que se autodenominam...Humanas...
Um sino tocou. Entraram para a enorme Sala de Audiências do rei. Puxando um cordão dourado pendurado no teto, Visten abriu a imensa porta de madeira.
Amarrado com as mãos às costas, Rodrigo Maulson foi trazido à eles pelo chefe da segurança, que fêz uma referência e os deixou com pressa.
Rod estava calmo. Abatido com os últimos acontecimentos e com as condições ambientais da estrela, mas ainda sim, calmo. Admirou a general Dulcídia de Fa-Gorns. Como Atron, reparou na extrema beleza da Ti-lemântica, embora como o humano Rodrigo a tenha achado um tanto repugnante. Seus olhos lilás faíscavam retribuindo o olhar.
O rei sentou-se em seu trono de ouro puro, acolchoado com almofadas rubras, e perguntou solenemente:
- Porque diz ser o Grande Atron K-Rosam'vev, se não passa de um...Humano?
- Sou mesmo Atron. Meu espírito é o de Atron, embora no corpo de um humano. Posso prová-lo!
O rei pôs-se de pé:
- Blasfêmia! O nosso Grande Atron partiu para aprisionar o demônio Zon a muitos querberts atrás, e agora está a vigiá-lo, e assim o fará por tôda a eternidade!
Rodrigo suspirou:
- Olha, não sei quem lhe disse isso, mas a verdade é que eu tinha mesmo a chave da cadeia dele, e a perdi. Não posso lembrar-me do que houve após eu deixar esta estrela, cerca de...Bem, não sei expressar-me em sua unidade de tempo, mas seriam coisa de quinze mil anos atrás.
A general aproximou-se de Rod e acariciou seu rosto:
- Você é bem inteligente. Vou poder divertir-me bastante. Estou cansada de brincar com aqueles seres que capturamos além de nosso país.
O rei sentou-se novamente:
- E mais divertido ainda será vê-lo no Jogo da Vida. Finalmente o povo terá um adversário à altura dos baraks. A luta durará um pouco mais.
O calor e a pouca água que lhe deram fazia Rod sentir-se péssimo:
- Já que não acredita que sou Atron, poderia pelo menos dizer-me porque executou aqueles maithens tão cruelmente?
O rei riu-se:
- Se você diz ser Atron, como pode desconhecer o perigo que aqueles seres gosmentos representam? Há vários querberts atrás, nossos ancestrais foram trazidos à força, pelo Transporte Sagrado, por esses demônios. Tiveram de deixar a Terra Prometida, o Paraíso, e viver em novos corpos. Tiveram de se reproduzir aqui, sem poder voltar. Então a Grande Doença, mandada pelo espírito do próprio Atron, dizimou os maithens. Os que sobreviveram, caçamos sem piedade. Os últimos que sabíamos estarem vivos foram aqueles do Templo do Transporte Sagrado! E agora estão mortos!
A general caminhou em volta de Rodrigo:
- Alguns dizem que existe um castelo mal-assombrado onde o antigo líder maithen viveu, e que outros ainda se escondem por lá....
O rei deu uma sonora gargalhada:
- Você sabe que isto é lenda, Dulcídia. Este castelo não existe! Não existe vida civilizada além das fronteiras de Ti-Leman! Só aqueles macacos semi-inteligentes!
O jovem rapaz de cabelos loiros estava surpreso com o que ouvia em demanedo. Um castelo...Seria aquele que vira na realidade virtual da esfera negra? Seria aquele onde se lembrava de ter recebido a chave e o dom da transferência da alma? Onde vivera Martogh? O aperto em sua nádega direita pela general o tirou do devaneio.
- Majestade, deixe-o agora comigo. Vou estudá-lo melhor.
- Vá, leve esse...Humano. - As palavras pareciam cuspidas pelo rei. - Eu vou descansar. Mas não o machuque, quero-o inteiro para o Jogo da Vida.
****
Michael estava abraçado a Dirana. Janaína segurava-se às grades da pequena cela, de pé, sedenta.
A detetive reparou nas celas contíguas: estavam todas vazias, mas cheiravam muito mau. Estava exausta e não conseguia dormir. E Rod? Estaria bem?
O chefe da segurança trouxe água e comida: uma comida estranha e desagradável, mas famintos que estavam, devoraram tudo. O chefe ria-se ao ver a cena.
- Você, macho humano, será o primeiro, amanhã. Lutará contra um bom e enorme barak. Vou adorar vê-lo sendo devorado pelo monstro.
Deixou-os pensativos. Michael Snaker limpou as mãos na tanga e levantou-se. Forçou novamente as grades, mas não havia como fugir. E, com a gravidade enorme da estrela, mesmo que fugissem, não poderiam correr muito. Lutar contra os Ti-lemânticos? O menor deles parecia-lhe um guarda roupa.
- Espero que esse tal barak não aprecie carne humana... - Disse, desanimado.
****
Nos aposentos da general Dulcídia de Fa-Gorns, Rodrigo estava nu. Esforçando-se para ser apenas Atron, pensou que seria boa idéia dar todo prazer possível àquela Ti-lemântica. Como a general era bela para os padrões marcianos, não foi difícil. Na verdade, seduziu-a antes que ela pudesse perceber, e de dominadora passou a dominada. Como Atron K-Rosam'vev, Rodrigo fêz a fêmea delirar, afinal eles não eram tão diferentes assim.
Mesmo exaurido, o jovem milionário deu tudo de si por toda aquela "noite". Feliz, a general alimentou-o muito bem, e o deixou dormir num quarto refrigerado. O rapaz desmaiou de pura exaustão e sonhou com Janaína...
****
Devia ser uma bela tarde, embora em Tarínia a luz fosse sempre igual no céu o tempo todo. Para Michael Snaker, Dirana de Santívia e Janaína Ranadi, cujo o fuso horário os deixava sem ter noção do tempo, isso não importava.
Comendo aquela comida gordurosa e com aquelas condições ambientais, sentiam-se uns trapos velhos. O cientista foi levado à arena, de novo naquele imenso estádio. As duas mulheres ficaram, ainda amarradas, na plataforma em que estiveram no dia anterior.
A multidão de Ti-lemânticos urrava. Snaker foi desamarrado e deram-lhe uma enorme espada. Com a gravidade de 1,5g, mal conseguia sustentá-la.
Ele devia estar pesando uns 120 quilos. A espada, uns trinta. Mas esqueceu-se disso ao ver o barak, enorme, entrando na arena.
O povo aplaudia. O monstro de dez metros de altura, de garras afiadas e corpo cheio de escamas, urrava. Seus dentes malévolos vertiam saliva de pura fome.
Michael engoliu sêco.
O rei apareceu. A multidão entrou em delírio. Ao lado dele, Janaína pôde ver a general Dulcídia e, com uma coleira, Rodrigo. A Ti-lemântica segurava a corrente que prendia o rapaz pelo pescoço.
- Veja, Dirana. É Rod!
- Bem, pelo menos ainda está vivo...Mas eu acho que meu marido não estará por muito tempo...O que vamos fazer, Jan...Eu estou desesperada!
- Povo de Ti-Leman! - Disse o rei em demanedo. - Agora chegou a hora! Vejam, um dos seres que profanaram o Transporte Sagrado vai lutar o Jogo da Vida! E logo, vocês, meu adorado povo, poderão sentir o prazer de vê-lo ser devorado pelo nosso melhor barak!
A multidão urrava, e o monstro preso à frente de Snaker também.
"Que merda! Como fui me meter nessa?" - Pensou Michael.
- Que soltem a fera! - Disse Visten.
O enorme lagarto carnívoro avançou. O cientista, só de tanga e brandindo a espada, correu em direção ao barak e cravou-lhe a lâmina em sua pata direita. O bicho gritou de pura dor.
"Aí, Mike!" - Pensou Rod. Ele e Dulcídia tinham um segredo.
O monstro virou-se. O doutor, ágil, sabendo lutar zarioa, voltou jogando-se no chão e, desviando-se das garras que tentavam apanhá-lo, retomou a espada.
O jovem milionário observou sua namorada e Dirana na plataforma abaixo. A alfana chorava e virara o rosto. Jan lançou-lhe um olhar de súplica, como se pedisse que fizesse alguma coisa. "Calma, amor, eu já fiz"!
Michael conseguiu atingir novamente o lagarto gigante. O barak berrou. Um líquido amarelo saia das feridas do monstro. Com destreza, o doutor cortou-lhe a ponta da cauda.
O enorme lagarto urrou com raiva. Snaker não conseguiu desviar do seu rabo imenso. Foi atirado longe. Agora não conseguia levantar-se. A torcida berrava de prazer. O monstro aproximou-se e ia pegar o cientista com suas garras.
Michael virou-se e enfiou a espada na palma da pata do barak. Escapou rolando na terra batida do chão da arena. Mas não precisou lutar mais.
O barak grunhiu. Seus olhos ficaram vidrados. Desabou com todo seu enorme peso, calando o povo nas arquibancadas.
A general deu um sorriso malicioso para Rodrigo, que retribuiu.
"O veneno na lâmina funcionou. Ainda bem que Michael é um grande lutador e enfiou a espada naquele animal. Ficou fácil". - Pensou Rod.
Muito a contra-gosto, e de acordo com as regras, o rei anunciou:
- O macho humano está livre. Venceu o barak!
A multidão de Ti-lemânticos vaiou ruidosamente.
****
A nave de nome Tirreno estava pousada à frente e de frente com a Squalus. Era um iate semelhante. Irineu, logicamente armado, esperava que alguém descesse.
Como não tinham mais a antena principal, destruída na batalha com a Tristalla, não puderam comunicar-se com seus visitantes.
A rampa da proa baixou. Da astronave branca com faixas azuis desceram uma mulher muito bonita e um homem muito forte, ambos de xasers em mãos.
Estava amanhecendo em CCEN-3456/2.
- Sejam bem-vindos...- Disse Irineu com uma reverência. - ...Não pudemos nos falar pelo rádio... - Mostrou seu iate. - ...Como podem ver, estamos bem danificados.
A linda morena de olhos castanhos faiscantes sorriu e guardou sua arma. Fêz sinal para seu acompanhante fazer o mesmo. Aproximaram-se.
Ela estendeu a mão delicada:
- Sou Miriam Adrialli, do Distrito da Itália, na Terra. Venho de Florença.
- E eu sou Irineu Barracos, dos Asteróides. Da Vila Áurea.
A linda mulher olhou em volta e para a Squalus.
- O que fazem aqui, tão longe da UniCiv?
O piloto deu de ombros.
- Sei lá...O mesmo que vocês, acho.
- Ah! Um cruzeiro. Que belo.
- Sim, e acabamos descobrindo esta cidade...
O homem que acompanhava a italiana, um negro enorme e bem vestido, disse com uma voz grave de tenor:
- Detectamos vocês na supefície deste planeta e decidimos descer aqui. E estamos muito surpresos em encontrar estas ruínas. Parece que fizeram uma grande descoberta.
- Sim, isso mesmo! - Disse Irineu, orgulhoso. - E além de tudo, este planeta já foi uma colônia marciana...Lemântica!
O rosto da jovem e bela italiana ficou lívido.
- Q-quer dizer que isto aqui era de Leman...Oh, gracie. Tornou nossa excursão melhor do que já estava! Que emoção!
O piloto da Squalus não deixou de notar o solanês esquisito daquela garota excêntrica. Mas o que lhe deixava nervoso era pensar na possibilidade de uma nave de passeio, da Terra, pousar naquele planeta, nos confins da Galáxia...
Achou que tendia a zero. Um setor não explorado, só mapeado...Ainda se fosse uma nave de pesquisas...
****
- Está livre, macho humano... - Disse, rosnando, o chefe da segurança. - Agora venha comigo que teremos de levá-lo para fora de Ti-Leman. Você não pode ficar aqui, seu sortudo!
Michael tinha as mãos amarradas atrás das costas. Foi puxado por dois guardas enormes para fora da arena. Debateu-se, mas estava exausto:
- O que querem comigo? Eu não entendo o que vocês falam!
Foi jogado num veículo movido a combustão e com rodas. Saíram em disparada pelas ruas da capital de Ti-Leman. Queriam ver-se livres daquele ser profano e esquisito.
A general Dulcídia explicou à Rodrigo o que aconteceria a Snaker, então o jovem milionário não se preocupou com seu amigo. Ser expulso daquele país de lunáticos e ter de sobreviver na selva além da fronteira provavelmente não seria um problema para o pródigo doutor.
As atenções do rapaz agora estavam voltadas às duas mulheres.
No gabinete da general, Rod estava sentado e solto. A Ti-lemântica travou a porta de madeira e sentou-se à sua enorme mesa em semi-círculo.
- Bem...?
- Dulcídia, estou eternamente agradecido. Nesta estrela de gravidade enorme, meu amigo Mike jamais venceria aquele lagarto gigante.
- Apenas lhe paguei pela noite de ontem...Sabe, nunca havia sentido o que senti...Foi maravilhoso... - A general estava com ar sonhador.
"Ainda bem que conheço a fundo a anatomia lemântica" - Pensou Rodrigo, enquanto punha-se de pé e olhava pela janela retângular. A cidade abaixo deles era esplêndida. Rod suspirou:
- Não quero abusar de sua bondade, Dulcídia, mas agora precisa ajudar-me com as mulheres...
A general soltou uma lenta risada.
- Pensa que sou tola? Eu ia usá-lo, mas você foi mais esperto e usou-me. Porém, não sou ingrata, afinal eu gostei. Coloquei o veneno na lâmina da espada de seu amigo, não foi? Mas agora chega! Além do mais, sinto um certo ciúme delas em relação à você...Quero-o só para mim. Deixe-as com o rei.
Maulson voltou seu rosto para a general com cara de desdém:
- Não tenho relações com elas. Gosto de lemânticas...Contudo, não posso deixá-las desamparadas. São minhas amigas.
Dulcídia levantou-se e massageou os ombros de seu novo amante:
- Deveras...Mas mesmo assim, o rei as quer...Nada posso fazer...
- Mas ele é seu amante...
- Sou quase uma escrava dele. Assim como você tirou vantagens de mim usando o sexo, eu faço o mesmo com ele...Além disso, ele sempre tratou-me bem, embora peça certas coisas que desgosto. E como sempre sobra algum ser estranho para minha diversão, antes de ser mandado para o Jogo da Vida, o suporto.
Rodrigo Maulson voltou a olhar a janela. Estava receioso do que poderia acontecer à Janaína e Dirana. Ele teria de salvá-las, ir buscar Mike fora dos limites daquele reino, e voltar pelo teletransporte, afinal já descobrira o que queria descobrir.
- Está pensando num meio de tirar as duas do aposento particular de Visten? Esqueça! É o quarto mais bem guardado de Ti-Leman!
- Ajude-me. Faço o que quiser por você, mas ajude-me!
A general Dulcídia de Fa-Gorns sorriu maliciosa.
- Está bem...Mas depois fará o que eu mandar...Além disso, se for pego, eu nada tenho a ver com isso, entendeu? Traição neste país dá pena de morte...E uma morte horrível!
****
Janaína e Dirana estavam de pé diante do rei Visten D-Mor'gy. Amarradas com as mãos para trás, e temerosas. Haviam sido bem alimentadas e lhes foi concedido um banho.
- Então não entendem nada do que eu digo...Bem, não faz mal. Humm...Porque será que aquele macho humano que está com Dulcídia nos entende?...Só faltava ele ser mesmo Atron...Pelos deuses da Leman Original!
Ele caminhava em torno delas. Jan pensava em como seria bom se estivesse com seu braço biônico: com ele, ela acabaria com aquele ser metido a besta. Porém, estavam com corpos novinhos em folha. Seu braço artificial ficara na Via Láctea.
O rei fez um sinal. As duas vestais que serviam sua majestade desamarraram Dirana de Santívia e Janaína Ranadi. Depois, delicadamente, as despiram.
- Não reaja, Jan. Vai ser pior! - A alfana agora tinha a respiração acelerada. - Enquanto tomava banho, um guarda engraçadinho ficou a olhar-me e parti para cima dele; tomei um choque horrível. Eles tem um tipo de bastão elétrico muito desagradável...
A baiana de cabelos loiros tipo samambaia e profundos olhos azuis nem piscava:
- Bem, eu não sei quanto a você, mas eu não vou ficar quieta sendo estuprada por um alienígena de cabeça grande.
O rei sorriu ao vê-las nuas, não porque achava aqueles corpos excitantes, mas justamente pelo contrário, era louco em sua bestialidade. Fez sinal para suas vestais deixarem o aposento. As criadas Ti-lemânticas fizeram uma reverência e saíram, horrorizadas.
- Agora vocês são minhas.
Visten babava. Despiu-se também. Pegou um daqueles bastões elétricos e ligou-o, aplicando-o atrás do joelho de cada uma das humanas, fazendo-as caírem; ficando assim ambas ajoelhadas e a tremer, no chão frio.
- Bom, Dirana, se tem alguma idéia, é bom dizê-la agora, porque eu vejo que o nosso amigo com cara de formiga está bem animado!
- Onde estará o Michael? E o idiota do teu namorado?
- O idiota chegou!
Foi Rodrigo Pereira Maulson quem falou. Não pretendia um ataque frontal, ainda mais contra o rei, porém Dulcídia e ele perderam-se nas passagens secretas do palácio e chegaram muito tarde. Na verdade, Rod prometera à general não causar alvoroço. Mas agora isso era impossível.
Atirou com destreza a faca que sua nova amante lhe entregara.
A lâmina afiadíssima decepou o pênis enorme do rei, que gritou como louco.
- Isso acaba com suas bestialidades, majestade. - Disse, em demanedo, irônico.
Janaína e Dirana sentiram-se aliviadas, alegres por terem sido salvas na hora H. O jovem rapaz de cabelos cor de trigo pegou as roupas que vestiam e as ajudou.
- Rod! Não posso acreditar! Você está legal?
- Estou ótimo. Vistam-se, depressa, vamos sair daqui antes que...
- Não se preocupem. - Era Dulcídia. - Este quarto está isolado. Isso porque o nosso rei agonizante ali provoca muitos berros. Tsc, tsc, tsc...Majestade, creio que sua situação é lamentável...
Visten D-Mor'gy só gemia de dor, caído em posição fetal, no chão.
- Vamos embora daqui. - Disse Rodrigo, enquanto ajudava as duas a se recompor. - Esta é a general Dulcídia de Fa-Gorns, e é muito minha amiga. - Disse, apontando a Ti-lemântica.
Saíram pela passagem secreta na parede atrás da enorme cama de dossel do rei. As paredes lúgubres do interior do palácio levaram os quatro seres para baixo, para as catacumbas.
Dirana de Santívia deteve Rod pelo braço:
- Onde está meu marido? Eles o mataram?
- Ele está bem. Foi levado para fora deste país, mas vamos buscá-lo e voltar para casa. Já sei quase tudo o que queria saber, portanto podemos ir embora.
Desceram por uma escadaria úmida. Estava escuro, as lâmpadas oblongas emitiam uma fraca luz verde, presas às paredes de pedra.
Dulcídia liderava, e falou em demanedo sem se virar:
- Agora vou ter de fugir também. Se Visten colocar as mãos em mim eu estou perdida! Que situação eu fui arranjar por uma noite de prazer com um ser de pele rosa!
Rodrigo era o último:
- Farei o que puder por você, general. Pode voltar conosco se quiser.
- Usar o Transporte Sagrado? Não é má idéia. Só estando no Paraíso para o rei não me alcançar...
Desceram bastante. Estava muito quente. Ficaram em silêncio até chegarem aos porões do palácio. Desceram mais. Jan lançava olhares de dúvida à Rodrigo.
Estavam nas catacumbas. Um calor infernal os deixava suando em bicas, menos a Ti-lemântica, já habituada. Estavam exaustos.
A baiana detetive foi ter com seu namorado. Abraçou-o.
- Que coisa...Achei que seria estuprada por aquele monstrengo tarado...
Rod a apertou nos braços e viu os olhos lilás da general cintilarem de raiva.
- Aquele monstrengo era o rei deles, e a nossa situação não é boa. Mas temos de achar o Michael e depois voltar ao templo do teletransporte.
- Espero que realmente esteja satisfeito, senhor Maulson. - Era Dirana, tirando o suór da testa. - Colocou todos nós em riscos inimagináveis. Ainda bem que nos salvou, porque se aquele cara de formiga fizesse alguma coisa comigo...Além do mais, se Michael morrer, eu juro que o mato! E pensar que passamos por tudo isso só porque você queria saber das suas origenzinhas...
Janaína virou-se para a alfana:
- Ei, dá um tempo. Não sabíamos o que ia acontecer aqui. Todos nós viémos porque queríamos. Você devia agradecer à Rod por nos salvar...
- Agradecer? Nem que uma vaca santiviana tussa.
- Não sei o que discutem tanto, mas precisamos ir, Rod. - Disse a general em demanedo. Ela estava séria, não estava gostando nada de ver seu amante abraçado com uma fêmea humana.
Caminharam entre os túmulos de lemânticos mortos, eram antigos reis e nobres de Ti-Leman. O ar estava pesado e o cheiro, ruim. Desceram mais ainda. Prosseguiram através de um corredor estreito de tijolos quentes, onde só passava um por vez. A luz era escassa e provinha de lâmpadas presas às paredes. O chão estava molhado, e os três humanos, descalços desde que chegaram à Tarínia, sentiam-se incomodados com a água quente.
- Ei, Rod, onde ela está nos levando? - Perguntou Jan, segurando a mão dele.
- Dulcídia. - O rapaz falava em demanedo. - Onde vamos?
- Há uma estação de trem abandonada logo à frente. Seguindo os trilhos, poderemos alcançar o Parque Real. De lá, poderemos dar um jeito de fugir da capital.
Rodrigo traduziu a fala para as duas mulheres. Dirana estranhou os termos:
- Trem? Você disse trem? Trilhos?
- A tradução é exata. Na minha época de Atron, tínhamos trens por todos os planetas, com vagões e locomotivas. Só que eram bem mais largos que aqueles que vocês conhecem.
Chegaram. A plataforma estava danificada, os aposentos subterrâneos que haviam por ali estavam destruídos e abandonados. Pularam nos quatro trilhos paralelos sobre uma base de concreto plástico e seguiram. Felizmente o túnel estava iluminado, embora parcamente, e andar descalço por ali não era agradável.
Depois de uma hora caminhando com rapidez, pararam para descansar em outra estação abandonada. Os pés dos humanos doíam e estavam muito cansados. Rod perguntou:
- General, acha que os guardas do rei estão vindo atrás de nós?
Ela sacudiu a enorme cabeça de formiga lentamente, piscando os olhos lilás:
- Não se preocupe. Só descobrirão o que houve com o rei amanhã; as ordens são para não incomodá-lo em hipótese alguma, nem mesmo se ouvirem gritos...As criaturas que levava aos seus aposentos sempre faziam muito barulho enquanto eram abusadas...
Rodrigo explicou o que ouvira de Dulcídia às duas garotas. Jan deitou sua cabeça no colo de seu namorado. Dirana sentou-se afastada. Estavam sedentos.
Prosseguiram por mais meia hora e finalmente encontraram uma passagem que levava para cima, em meio à escadas deterioradas e perigosas. Quando saíram, estavam num belo parque, e a luz verde ardeu nos olhos de todos. Mesmo sendo "madrugada", nunca escurecia na superfície de Tarínia. Beberam água de um bebedouro próximo.
A general Dulcídia de Fa-Gorns olhou em torno.
- Estamos perto do aeroporto. Podemos roubar um avião e sair do reino antes que percebam que Visten está ferido...Se ele não morreu de hemorragia. Eu sei pilotar, posso levá-los onde quiser.
- Espero que sua majestade não tenha conseguido disparar o alarme. - Rod havia saciado sua sede e lavado seu rosto suado.
Dirana sentou-se numa pedra:
- Estou exausta, não posso mais continuar. Sinto-me pesada demais...
- É... - Janaína lavava a nuca. - Essa gravidade e essa atmosfera...
Rodrigo suspirou.
- Temos de prosseguir. Quanto antes melhor. A general disse-me que pode pegar um avião e levar-nos para fora de Ti-Leman, fugiremos e procuraremos Michael.
Não havia ninguém na rua àquela hora da "noite" convencionada. Chegaram com facilidade à um local repleto de aparelhos com asas e motores com hélices apontando para trás. Eram de diversos tamanhos e cores, e pareciam-se vagamente com os aviões da metade do século 20 da Terra. Com o crachá de general, Dulcídia, que também era conhecida por todos, não teve dificuldade em entrar. Entrou, levando os humanos "como prisioneiros".
Escolheu um avião rápido e embarcaram. Todos sentaram-se e logo estavam alçando vôo na densa atmosfera. Além das nuvens esparsas roxas e negras, o céu era todo verde. Podiam ver o planeta de vários anéis com facilidade agora, e havia, a iluminá-lo e a iluminar Tarínia, outra estrela, um sol por onde a estrela verde e o planeta orbitavam.
Lá embaixo, observavam a capital, enorme. Depois só áreas verdes entrecortadas por estradas. Um lago imenso, Dulcídia disse ser de água salgada. Mais verde. Outra cidade, não tão grande. Vilas e aldeias espalhadas por entre morros não muito altos.
A superfície de Tarínia era quase plana. Vez ou outra, vislumbravam as fendas por onde o calor e a claridade emergia. Aquelas fendas perigosas levavam para a fornalha atômica que era o centro da estrela.
Depois de um certo tempo, Jan e Dirana dormiram. Rod não queria tirar os olhos da paisagem. A general pilotava a partir do assento central e estava perdida em pensamentos.
O jovem rapaz loiro estava maravilhado com o que via. Apoiada em seu ombro, a baiana de cabelos iguais aos seus dormitava e babava. Rodrigo ria-se e continuava a olhar a a beleza além da janela. Achariam o Mike logo? Segundo Dulcídia, os (raros) vencedores do Jogo da Vida eram deixados sempre na Estrada Ancestral, logo além da fronteira oeste.
Quanto ao que fazer para voltar, achar e entrar no templo do teletransporte, era problema para depois.
O barulho monótono dos motores a combustão fêz o jovem milionário cochilar, a cabeça encostada no vidro da vigia.
Acordou assustado. Tiros!
- A Força Aérea está atrás de nós! Fomos atingidos! - Era a general, desesperada.
Rod alcançou a poltrona do piloto:
- Podemos fugir deles?
- Negativo. São caças da guarda real. Os motores pararam! Vamos cair!
O avião mergulhou. Dulcídia puxava a enorme alavanca de controle para ela, mas eles só podiam ver a mata abaixo aproximar-se a grande velocidade.
Rod engoliu sêco, enquanto ouvia Dirana e Janaína gritarem.
Não havia o que fazer; as balas já estavam perfurando a cabine. Rod segurou-se à sua cadeira de couro e rezou. Jan pulou sobre ele e o abraçou forte. No momento em que viu que iam estatelar-se contra as árvores, ouviu sua namorada gritar:
- Vamos morrer!
Livro II - A Busca - Capítulo XII.
A curiosa Miriam Adrialli examinava o casco danificado da Squalus.
- Puxa, ainda bem que não encontramos nenhum terrorista na nebulosa. Passamos sem problemas. Vocês tiveram sorte, que eu saiba, naves de guerra de Daryani são bem poderosas...
Irineu sorriu. A manhã começava bela naquele planeta distante, embora no fuso horário de todos fosse começo de madrugada.
- Tivemos sorte, sim, mas também nosso capitão e patrão, Rodrigo Maulson, teve grandes idéias para vencê-los.
A italiana olhou-o de soslaio e prosseguiu em seu exame.
- Rodrigo Maulson...É o dono da Maulson Interplanets, não é? O mesmo que ajudou a Polícia Solar a encontrar e destruir a fábrica de clones de Jonas Carvalhosa...
Milena Almadori os acompanhava:
- Ele mesmo! O cara que sabe tudo e sempre tem uma idéia brilhante para nos salvar. - Suspirou. - Pena que é muito volúvel.
Antônio criara coragem de sair e também estava no passeio em torno do iate negro:
- Ele, volúvel? Milena, se eu conheço alguém que muda de namorado como muda de roupa, esse alguém é...
- Quieto, senão quiser levar uma muqueta.
Parus Dorms os alcançou:
- Belo iate você tem ali, senhorita Miriam. Sabe, minha avó sempre dizia que se você tiver um iate, pode-se considerar realizado, porque então poderá viajar para o planeta que quiser, a qualquer hora, pode fazer cruzeiros incríveis, pode...
Irineu irritou-se:
- Fique quieto, seu dary falastrão! Calado!
Parus encolheu os ombros. A italiana riu-se. Mas então perguntou, séria:
- Afinal, o que fazem aqui? Achei que eu já era maluca o suficiente de vir até esta região da Galáxia, e me deparo com uma turma bem heterogênea como vocês, no meio do nada. É de se estranhar. Aliás, onde está o tal Rodrigo Maulson?
Irineu deteve-se, e todos com ele estacaram. O piloto de cabelos cor de trigo e de tez muito alva virou-se para olhar a Tirreno.
- Também acho maluquice estar aqui. E também lhe digo que achei fora do normal vê-la aqui. Agora, mais incomum ainda é o fato de seu iate estar tão bem equipado quanto o nosso. - Instintivamente segurando o coldre de seu xaser, Irineu prosseguiu: - Você realmente veio até este "fim de mundo" à passeio?
A jovem e bela italiana olhou-o curiosa:
- Há algo aqui, não há? Vocês vieram aqui atrás de algum tipo de tesouro? E onde está Rodrigo Maulson?
Estava esquentando em CCEN-3456/2. Milena tocou o ombro da "visitante":
- Dona Miriam, se quer mesmo saber, nosso chefe estava atrás de uma estrela verde. Eu mesma a vi, em Nishia, numa realidade virtual...
Os olhos de Miriam Adrialli se arregalaram.
- Você disse estrela verde?
- Isso mesmo. Bom, Rod pediu-me para esquecer o episódio, mas como? Foi uma experiência e tanto. Quando toquei sem querer naquela esfera negra...
- Esfera negra? - A italiana estava lívida. - Esperem! Esperem! Onde está esta esfera? Aliás, onde está Rodrigo Maulson?
****
Michael Snaker estava desorientado. O calor, a pressão do ar e a gravidade estavam literalmente acabando com ele. Aquela velha estrada de pedras parecia não levar a lugar algum. Quando os guardas Ti-lemânticos o abandonaram, ele estava vendado. Como a luz vinha de todo lugar, não havia sol a seguir. No céu, só aquele unipresente planeta e a luz de uma estrela distante, e ambos não mostravam qualquer direção. Estava perdido.
Beirando os dois lados da antiga estrada, só uma floresta tropical muito densa.
E ninguém passava por ali.
O cientista caiu de joelhos. Tinha fome...Mas pior que isso, tinha muita sede.
Foi então que ouviu um ruído no meio da mata. Pôs-se de pé rapidamente. Surgindo entre as folhagens, um enorme ser aparentado com o gorila. Depois outro e mais outro, todos de tanga e segurando lanças.
- Mas o que diabos...
Foi atingido por uma pedra e tombou, inconsciente.
****
O que aconteceu foi muito rápido. O avião em que estavam a general Dulcídia de Fa-Gorns, Rodrigo Pereira Maulson, Janaína Ranadi e Dirana de Santívia passou rasante pelas copas das árvores altas da floresta tropical. As asas se fragmentaram. A cabine rachou no meio, atirando Dirana ao ar. A Ti-lemântica ainda tentou alguma coisa, mas nada podia fazer, e o que restou da aeronave caiu pesadamente no chão, se arrastando até chocar-se com o tronco imenso e grosso de uma árvore milenar. Na frente, na cadeira de piloto, a general recebeu o choque frontal e morreu instantaneamente. Rodrigo e Janaína, abraçados, foram jogados contra a proteção dos passageiros, acolchoada, e só sofreram pequenas escoriações. Mas estavam bastante aturdidos.
Tentando se recompor, Rod ouviu os caças fazendo meia-volta. Sabia que tinham de deixar rapidamente os restos do avião. Foi ver o estado de Dulcídia e não gostou do que viu.
- Ela está bem? - Perguntou sua namorada, bastante confusa.
O rapaz a segurou, não deixando que olhasse.
- Ela morreu estatelada na árvore. Vamos, antes que os caças voltem!
Eles voltaram, e dispararam contra o local em que estavam. Os tiros detonaram na mata, mas o casal refugiou-se na folhagem densa e estavam à salvo.
- Vamos procurar a Dirana. Ela caiu lá atrás! - Rod puxou Jan.
- Meu Deus! Espero que ela esteja bem... - O coração da detetive estava disparado.
Correndo na floresta, seguindo os destroços, o jovem milionário puxava pela mão a bela baiana. Logo pararam, ofegantes. Rod engoliu saliva.
- Veja. É a Dirana! No alto daquela árvore!
A alfana estava desacordada, caída sobre um enorme galho, cerca de sete metros de onde eles estavam. Rodrigo pulou no tronco e iniciou uma lenta escalada, segurando na casca estriada e cheia de musgo. Janaína torcia.
Muito cansado, o rapaz de quinze mil anos chegou na garota de cabelos curtos cor-de-rosa. Tocou-a.
- Está viva!
A baiana sorriu. Dava pulinhos de puro nervosismo.
Rod verificou se podia tirá-la de lá. Mas ela tinha quebrado as pernas, pois ele viu fraturas expostas na altura dos joelhos. Um braço fazia um ângulo impossível. E sua coluna...
- Jan, ela está seriamente ferida. Não posso movê-la. Nem sei como respira ainda...Creio que sua vida está por um fio...
- Ai, não...Rod, faça alguma coisa...Meu Deus, estamos a quilômetros de qualquer ajuda, alías, as únicas pessoas que podem nos ajudar querem nos matar...
O rapaz não sabia o que fazer. Dirana podia morrer a qualquer momento, e ele não poderia tirá-la dali sem comprometer ainda mais seu estado de saúde.
Nesse momento viu algo andar rápido entre as folhagens, e gritou:
- Jan! Saia daí!
Mas não deu tempo. Os mesmos seres que capturaram Michael Snaker apareceram num piscar de olhos e agarraram a loira. Ela berrou. Rod pulou sobre o seu captor, mas ele tinha dois metros e meio de altura, e o humano estava em gravidade 1,5g...Foi arremessado contra um tronco e perdeu os sentidos.
****
Quando acordou estava amarrado numa árvore. Seu corpo inteiro doía. Sua boca estava sêca. Seus olhos, inchados, focalizaram Janaína também amarrada em outra árvore, Michael Snaker na seguinte e uma fogueira enorme ardendo no meio de um acampamento. Havia cabanas de pele de algum animal, e por todo lado seres que se pareciam com gorilas de rosto humanóide, vestindo tangas. Tinham pêlos castanhos avermelhados e olhos da mesma cor. Deviam ser os "macacos semi-inteligentes" que Rod escutara os Ti-lemânticos falar.
Observou Michael. Estava desacordado, mas parecia estar inteiro. Janaína debatia-se e também parecia estar inteira. O jovem rapaz loiro experimentou as amarras, mas eram cipós fortes e bem apertados. E Dirana?
A alfana foi trazida por um deles. Estava em seu ombro. Se estava viva, era um milagre. O meio-gorila tombou-a sem cuidados próximo a fogueira.
"Meu Deus...Parece que a Dirana já era..." - Pensou Rodrigo, ainda fingindo-se de desacordado e olhando com os olhos semi-cerrados.
Porém logo viu que ela ainda respirava...Embora seu corpo estivesse em ruínas. O enorme ser peludo pegou algo como um espeto. Rod podia ouvir Janaína chorar e gritar impropérios. Pensava em uma maneira de livrar-se...Usou a força que sobrara para torcer sua mão. Lembrou-se, com sua memória prodigiosa, de uma técnica de quebrar o pulso para livrá-lo de amarras. Era bem dolorido, mas naquela situação, isso não importava.
Mordeu os lábios quando ouviu um téc surdo. Doeu mais do que previra, contudo sua maior preocupação era com Dirana. Outro daqueles "gorilas" chegou para ajudar o amigo. Arrancaram com desprezo as parcas roupas da alfana, e começaram a perfurá-la com o espeto de madeira...iriam devorá-la.
Conseguindo livrar a mão de pulso partido, Rodrigo ouvia sua namorada gritar. Livrou-se discretamente dos cipós que o seguravam. Correu e jogou-se contra o meio-gorila que espetava Dirana, arremessando-o contra a fogueira. Ele berrou alto. Jogou cinzas na cara do outro, tirou o espeto da pobre mulher que agonizava e o arremessou com precisão no olho de um terceiro que vinha acudir seus companheiros.
Mas foi só o que conseguira fazer. Era um contra uma tribo.
****
- Aí está, senhorita Adrialli. Foi neste prédio que os vimos pela última vez, mas já o reviramos inteiro e não encontramos ninguém.
Era Irineu, servindo de cicerone para a italiana e seu segurança e amigo, Merkov, o grandalhão de pele escura. Os três entraram. A manhã estava quente e os dois sóis faziam sombras azuis e vermelhas. Todos os outros estavam nos iates.
Quando a bela morena de olhos castanhos claros olhou a parafernália do salão, explodiu em alegria. Observou tudo à sua volta, enquanto Alan Merkov de Copernicus e Irineu Barracos dos Asteróides olhavam um para outro, sem entender.
Ela pressionou uma tecla num painel. O que se viu a seguir deixou todos surpresos.
Os tubos onde estavam os corpos inertes de Rodrigo, Janaína, Michael e Dirana ficaram novamente transparentes, revelando seu conteúdo.
- Pelas estrelas do céu! Estão mortos? - Perguntou o piloto da Squalus.
Miriam Adrialli aproximou-se. Seu segurança, erguendo um xaser, ficou de prontidão. Então a italiana disse lentamente:
- Seu patrão lhe contou que estava procurando uma estrela verde de nome Tarínia?
- Não. Para mim, ele apenas falou que iríamos fazer um cruzeiro. Nem sabia dessa estória de estrela verde, que, para mim, não existe...
A garota de ar jovial suspirou.
- Pois ele a achou. E eu o achei. Preciso ir para lá...
Merkov e Irineu estavam completamente confusos.
****
Saber lutar bem Rodrigo sabia, mas estava num corpo que não treinara, numa estrela de gravidade 50% maior que a que estava acostumado e acabou sendo derrubado com facilidade. Janaína viu seu namorado ser colocado de costas no chão pelos quase gorilas.
- Ai...nããão!...Rod...Não, não, por favor, não o matem!
Um deles ergueu uma pedra imensa. Outros dois seguravam Rodrigo Maulson pelos braços e mais outros seguravam suas pernas, ele deitado esperando ser morto com a cabeça esmagada.
"Merda! Não queria deixar de ser Rod. E em que corpo vou pular? No de Dirana? Será que ela morreu?"
O jovem milionário não fechou os olhos. O meio-gorila arremessou com força a pedra contra a cabeça do rapaz.
****
Um macho Ti-lemântico, assim como um macho humano, tem sempre orgulho de seu "instrumento". E perdê-lo pode ser a razão de um ódio violento. Castrado, o rei Visten D-Mor'gy recuperou-se rapidamente por pura sede de vingança. Acionou o alarme do palácio. Permitiu um rápido curativo. Agora estava na caçada daquele humano que lhe desferira o golpe fatal.
Com um grupo de soldados especiais, chegara até o avião caído. Não lamentara a morte de sua general e amante, Dulcídia.
"Ela bem que mereceu! E Também não ia servir para mais nada!"
Não revelou seus pensamentos para seu capitão. Apenas disse:
- Quero o humano vivo! Vou cortar o que ele mais preza bem devagarinho...
O tenente da guarda voltou:
- Seguimos as pegadas deles até uma árvore. Há sangue por lá. Então verificamos a existência de marcas dos iriks.
- Aqueles macacos estão sempre por aqui! Depressa, antes que os comam!
Sua majestade sabia que, se os humanos fossem capturados pelos iriks, seriam devorados vivos. Era assim que acontecia quando um infortunado Ti-Lemântico caia nas mãos de uma das tribos. Apressou-se. Entraram na mata fechada com facões. Ele e seus soldados tinham metralhadoras automáticas de grosso calibre e estavam vestidos para combate.
Nuvens negras e roxas encobriam o céu verde.
Avançaram rapidamente. Logo avistaram a tribo.
O timming do rei foi exato. Rodrigo Pereira Maulson ia ter seu crânio esfacelado. Mas seu carrasco foi metralhado sumariamente, deixando cair a enorme pedra de lado. Invadindo, os soldados Ti-lemânticos chacinaram todos os meio-gorilas do acampamento, não poupando nem velhos, fêmeas ou crias.
Rod ficou chocado. Começou a chover forte. Entre trovões, os humanos presenciaram a matança. Uma fêmea, implorando de joelhos, teve sua cabeça cortada pelo facão de sua majestade, que ria satânicamente.
A chuva aumentara. Enquanto o rei se "divertia", Rodrigo arrastou-se até Dirana, segurando seu pulso quebrado. O céu estava escuro pela tempestade. A alfana abriu os olhos e gemeu.
Era incrível que ainda estivesse viva. Mas não por muito tempo.
- Ah! Aí está você, seu grande filho-da-puta!
O xingamento em demanedo tinha o mesmo significado do palavrão humano. O rei apontava para Rodrigo. Este sentiu um cano de metralhadora em sua têmpora direita. Não havia como escapar.
- Levem-no! Matem os outros humanos, quero-os esquartejados!
Rod tentou lutar, mas como? Foi arrastado ouvindo os gritos de Jan e quando o levaram para o meio da floresta, sob uma chuva torrencial, ele berrou e se debateu o mais que pode. Foi jogado dentro de um dos veículos de combate da guarda especial.
A porta foi trancada. Com o pulso quebrado e doendo, todo molhado, com cortes por todo o corpo, Rod deixou-se desanimar. Estava exausto!
****
- Quero que vá para fora e leve o senhor Barracos com você, agora mesmo!
- Mas...Mas...
- Você me ouviu, Alan!
O enorme humano negro e calvo arrastou um Irineu injuriado:
- Ei, o que está acontecendo aqui? Eu não quero sair...O que vai fazer, senhorita? E meu chefe? Ele morreu? Todos morreram?
Mas o segurança era muito forte e o piloto da Squalus nada pôde fazer. Trancando a porta atrás de si, o homem estilo "guarda-roupa" cruzou os braços e disse:
- Fique quieto. A chefa sabe o que faz.
Irineu jogou seu corpo contra o segurança e secretário de Miriam Adrialli.
Ele não se moveu um centímetro sequer.
- Não pode me impedir de entrar aí! O que ela vai fazer? Quem são vocês, afinal?
Irineu Barracos estava entrando em desespero. Merkov permaneceu quieto.
Vendo que não havia saída, o rapaz de tez alva saiu em disparada em direção ao lugar onde estavam pousadas a Squalus e a Tirreno.
Miriam olhou os instrumentos. Como Liany, sabia ler em demanedo. Ajustou o teletransporte para a Pequena Nuvem de Magalhães, deitou-se num tubo transparente vago e pressionou o botão grená. Em instantes sua alma estava partindo para Tarínia.
****
Só podia pensar no reencontro com Atron, seu irmão gêmeo, depois de longos quinze mil anos...Então agora ele era Rodrigo Pereira Maulson...Que coincidência estranha ambos estarem vivendo na Terra como humanos...Ou talvez não fosse coincidência...
Olhou em volta, curiosa. O novo corpo era agradável. Respirou fundo o ar denso, e levantou-se. Percebeu que estava nua, mas, claro, o teletransporte fora construído pelos maithens, e aquelas "lesmas" não usavam roupas...Riu-se.
O novo corpo de Miriam Adrialli era rosado e sem pêlos, os cabelos agora estavam mais curtos. Caminhou por um longo corredor até uma enorme porta de madeira, aberta. Assustou-se ao ver dois lemânticos entrando. Apontaram-lhe armas. Um deles disse em demanedo:
- Está presa! Não se mova ou será morta!
****
Rodrigo acabara por dormir de pura exaustão. Quando foi acordado aos pontapés, jogaram-lhe água. Depois o arrastaram pelos corredores do palácio, e podia ver Ti-lemânticos a olhar para ele. Alguns riam, outros estavam chocados, a notícia vazara, e a população de Ti-Leman já sabia que ele castrara o rei.
Foi levado para uma cela imunda, na ala da prisão política. Amarraram-no em X na parede, com correntes, e seu pulso partido elevava a dor que sentia por todo o corpo.
O rei apareceu sem demora, pois queria a vingança o quanto antes.
Olhou o pobre farrapo humano em que Rodrigo se transformara.
- Não os mate. Por favor, majestade, não mate os outros humanos, eles...
Visten deu-lhe uma bofetada e Rod sentiu a face arder.
- Eles já estão mortos! Uma das fêmeas talvez ainda esteja agonizando, pois mandei que a estuprassem sem parar e depois a empalacem. O outro macho e aquela toda machucada seriam esquartejados vivos e dados de comer para os iriks.
Rodrigo Maulson sabia o porquê de tanta crueldade e percebera o enorme erro que cometera ao deixar o rei vivo. Lágrimas rolaram pela sua face suja, e a dor que sentia, não a física, que superava, mas sim a dor de saber o que acontecera com seus amigos, o carcomia e tirava-lhe as últimas energias. Jan...Mike...Mesmo Dirana...Ele os convencera a viajar até Tarínia...
Jan...Janaína. Ele a amava muito. Chorou copiosamente.
- Ah! O ser que diz ser Atron mostrou o quanto é covarde!
Visten fêz um sinal e guardas arrancaram a tanga do jovem rapaz; o rei então pegou um enorme e afiado facão e alisou sua lâmina com alegria.
Rod nada fêz. Ser emasculado daquele jeito não importava, sua mente estava concentrada em sair de alguma maneira dali, ou morrer e se transferir. Mas não havia nenhum cadáver por perto.
Olhou Visten D-Mor'gy nos olhos. O rei de olhos violeta sorriu-lhe sadicamente. O sorriso permaneceu em sua face enquanto sua cabeça girava, após ser separada de seu corpo. Os outros guardas foram metralhados. Rod viu Ti-lemânticos vestidos com roupas carmesim entrarem na prisão atacando. Houve tiroteio com os soldados reais, baixas de ambos os lados, mas a superioridade numérica dos rebeldes acabou por permitir sua vitória.
Um Ti-lemântico de óculos engraçados aproximou-se, vindo detrás das linhas de ataque. Examinou Rodrigo de alto a baixo.
- Você diz ser Atron K-Rosam'vev?
- Eu sou Atron K-Rosam'vev. Solte-me. Posso prová-lo.
O baixinho fêz um sinal e um rebelde abriu as correntes. Rodrigo Maulson caiu pesadamente no chão. Colocou-se de pé, num salto, e observou o corpo do rei:
- Ainda bem que alguém acabou o serviço. Afinal, quem são vocês?
- Somos a Oposição. Castrando o rei, e deixando-o descuidado com sua segurança, você permitiu que nós pudéssemos atacá-lo e matá-lo. Estamos tomando o poder.
- Um belo golpe de estado. - Rod enxugou a lágrimas. - E meus amigos humanos?
- Não sei. Sinto muito... - o Ti-lemântico franzino e intelectual colocou a mão no ombro do rapaz loiro. - ...Creio que os soldados acabaram com todos lá na selva. Ninguém foi trazido ao palácio...Agora quero saber se é mesmo Atron.
Rodrigo empurrou o ser esquisito de lado mas dois rebeldes cruzaram suas metralhadoras à frente dele. Ele virou-se para o Líder da Oposição:
- Escute: provarei tudo o que quiser, farei tudo o que quiser, mas deixe-me ir atrás de meus amigos...Por favor!
O Ti-lemântico ajustou os óculos.
- Está bem. Mas estamos no meio de uma guerra civil, a capital está sofrendo um levante, todos querem saber como nosso poderoso rei foi castrado por um ser que diz ser Atron...A notícia espalhou-se depressa. Eu não sei como fazer para levá-lo à floresta. Os vôos estão suspensos, e as estradas estão bloqueadas.
Rod passou as mãos pelos cabelos e só então deu-se conta que estava nu. Vestiu sua tanga e disse ao pequeno Líder:
- Darei um jeito. Arrume-me vestimentas melhores, sandálias, e uma metralhadora, o resto é comigo! Bem, antes preciso comer e beber alguma coisa...
****
A chuva estava fraca e o céu estava encoberto. As nuvens negras e roxas se estendiam até onde a vista de Rod podia alcançar. Ele estava perdendo as esperanças, admirando a capital, da sacada onde outrora o falecido rei ficava. O palácio estava agitado, e não podia deixá-lo por enquanto, pois os soldados de Visten estavam atacando. As catacumbas foram tomadas. Não havia como sair dali.
Rodrigo podia divisar a cidade em guerra. Chamas espalhadas, agitação, explosões, gritaria, sirenes. Mas em sua mente havia apenas a imagem de Janaína. E Mike. E Dirana também.
Engoliu sêco. Sentia-se impotente. Detestava sentir-se impotente.
Suspirou e disse em voz alta olhando para o céu:
- Jan, se você soubesse o quanto eu a amo...
Alguém tocou-lhe o ombro. Quando virou-se, recebeu um beijo de língua.
- Jan!
Ela o abraçou apertado, ele retribuiu. Olharam-se nos olhos.
- Você está viva! Como, se o rei...
- Seus soldados o traíram. Souberam da estória em que você diz ser Atron, e isso aumentou quando souberam que castrara o rei. Ao invés de machucar-me e ao Michael, nos soltaram e nos trouxeram para cá. Eclodiu uma guerra civil em Ti-Leman, e o responsável é você!
Outro longo beijo. Depois, passando as mãos pelas faces macias da baiana, Rod perguntou:
- E quanto à Dirana? Ela morreu?
- Resistiu. Para-médicos a salvaram. Ela foi levada à um hospital, aqui mesmo, na capital, e Mike ficou com ela. Seu estado é grave!
- Mas...Espere um pouco! Você não fala demanedo, como pode saber de tudo isso?
A linda mulher de cabelos alourados e olhos azuis sorriu-lhe intensamente:
- Tenho uma enorme surpresa para você: sua irmã!
- MINHA IRMÃ???!!!
Janaína apontou a Sala de Audiências do antigo rei. Lá estava Miriam Adrialli.
- Oi.
Boquiaberto, Rodrigo aproximou-se e apertou os olhos, como se assim pudesse ver a alma de Liany dentro daquele belo corpo de garota italiana.
- Sim, Atron, sou eu...E, como você, encarnada num ser humano.
- Li... - Sua respiração estava forte. - Li, depois de...
- Quatorze mil, novecentos e setenta e dois anos, dois meses e...
Ele a abraçou e novamente naquela manhã, chorou. Apertou-a com força. Miriam chorou também, e finalmente Janaína ofereceu suas lágrimas.
Rodrigo admirou o bem formado rosto da italiana, e limpou suas lágrimas com os dedos. Ela lhe deu seu melhor sorriso.
- Temos tanto para nos falar...- Ela disse.
- Jan...Jan, é ela. Minha irmã, Jan...
A detetive sorriu e aproximou-se:
- Ela veio à meia hora atrás. Foi solta quando a traziam para cá, e ela explicou tudo em demanedo para os rebeldes da Oposição. Nos encontramos e nos conhecemos...Sabe, apesar de sua aparência ser totalmente diferente da sua, seu modo de falar e agir é igual ao seu...Só pode ser sua irmã. E eu estou feliz!
Rodrigo não tirava os olhos de Miriam:
- Não tanto quanto eu, Jan...Não tanto quanto eu!
****
Coversaram bastante durante quase uma hora, naquela sala onde outrora o rei concedia audiências aos seus súditos, até a chegada do Líder da Oposição, o Ti-lemântico de óculos. Ele veio salvaguardado por dois de seus soldados.
- Vencemos. Sem a general Dulcídia e Visten, o exército legalista estava desorganizado. Tomamos a capital e as principais cidades...O resto do país é uma questão de tempo.
Rodrigo estava sentado despreocupadamente no trono do rei decapitado. Sorriu:
- Meus parabéns. Só espero que você e seus amigos da Oposição saibam governar Ti-leman com sabedoria, e evitem torturas e execuções...
- Estas palavras não existem no meu dicionário!
Janaína ajeitou o vestido florido que arrumaram para ela, melhor que a tanga que vestia antes. Após ouvir a tradução de seu namorado das palavras do Líder, pediu que perguntasse à ele sobre a continuidade do Jogo da Vida.
- Ah, esse... - O Ti-lemântico ajeitou os óculos. - ...Todos nós gostamos de ver aqueles macacos lutarem e serem devorados pelos baraks. Afinal, quando nos capturam, são eles quem nos devoram. Merecem morrer, todos!
Rodrigo levantou-se, obviamente chocado:
- Então acha justificável o genocídio dos iriks?
- Claro! Eles devem morrer da pior maneira possível. Porque a surpresa? Você e seus amigos humanos estiveram à um passo de serem comidos por eles!
- Mas não são como o rei Visten, que matava e torturava por prazer. Seguem instintos, têm pouca inteligência, somos apenas presas para eles. Não possuem maldade.
- Ainda não sei se você - apontou Rod e olhou-o com raiva - é Atron K-Rosam'vev ou não, mas mesmo se for, não tem o direito de interferir em nosso país. O Jogo da Vida existe há mais de cem querberts e diminuiu a violência nas cidades, e vem um estrangeiro dizer o que é bom para nós? Mesmo se for Atron, o que eu não acredito, seu reinado acabou à muito tempo. Aliás, esta lenda de Atron é boa para o povão, eu mesmo acho que ele nunca existiu. Agora, com licença...
E saiu junto com seus seguranças, deixando Rod e Miriam entreolhando-se embasbacados.
****
Irineu chegara com Antônio, Toshio e Lor-ti-neé, todos armados. Alan Merkov, tranqüilo, deu-lhes um ligeiro sorriso.
- Você vão me matar?
O piloto da Squalus, no comando, ergueu seu xaser.
- Atordoar. Saia, se não quiser ficar com uma tremenda ressaca depois.
Miriam Adrialli tinha o copernicano como seu fiel escudeiro há anos, e não era para menos, ele sabia obedecê-la muito bem. E foi isso que fêz: sacou a pistola que estava em sua cintura, às suas costas, e disparou antes que Irineu tivesse chance de apertar o contato de sua arma.
O xaser de Merkov estava regulado para raio disperso, apenas aturdir. Os quatro cairam no chão, inconscientes. Voltando a sua postura anterior, o segurança negro, do alto de seus dois metros e dez, sorriu feliz.
Allis Zeldor monitorava os tripulantes da Squalus, e viu quando caíram. Nervosa, tocou no comunicador e avisou a ponte, onde estavam Milena e Parus Dorms.
Parus:
- O que faremos agora? Será que esse iate foi mandado pela Ordem Zinédica? Por Ütarash! Se minha avó estivesse aqui, ela atiraria nesse iate na nossa frente e sairia deste planeta na velocidade máxima!
- E por acaso sua avó sabe manejar uma nave espacial? Ora, vamos, Parus, preciso de alguém com um espírito prático e corajoso!
- Bem, se quer coragem, não é comigo. Minha avó...
- Sua avó que se fo...
A mulata levantou-se e abriu o armário de armas, pegou uma pistola xaser e saiu da ponte, em direção à rampa da proa. Desceu por ela e deu de cara com dois seres armados, um thoriano e um venusiano, e este último disse:
- Volte para sua nave e fique bem quietinha. Nosso comandante, Merkov, pediu-me que não deixasse mais ninguém sair. Não tente nada ou a faremos dormir!
Milena Almadori sabia que tomar um tiro atordoante de xaser era bem desagradável, pois você acordava algumas horas depois com uma dor de cabeça e um enjôo terríveis...
Livro II - A Busca - Capítulo XIII.
Um hospital Ti-lemântico era parecido com um hospital humano ou thoriano, ou de qualquer outra raça que precisasse de um centro para atender seus doentes e feridos. O veículo terrestre de rodas e combustão interna deixou Rodrigo Maulson, Janaína Ranadi e Miriam Adrialli na porta do edifício todo magenta.
Entraram, e após explicarem tudo em demanedo à recepcionista, esta os levou até o aposento onde se encontravam Michael Snaker e, sendo operada, Dirana de Santívia.
- Ela está mau...
Mike abraçou Rodrigo, e este lhe deu tapinhas nas costas.
- Ei, cara, não desanime. Eu soube que os médicos daqui são bem competentes. - Rod, no entanto, sabia que não eram...
O cientista assustou-se ao ver a italiana com eles:
- Quem é ela??!!! Uma humana!!!
- É Liany, minha irmã, no corpo de Miriam Adrialli. Achou o teletransporte e veio até aqui, mas depois eu lhe explico com detalhes...
Michael Snaker estava aturdido. Então Atron encontrara sua irmã gêmea!
Miriam perguntou para uma das enfermeiras qual o estado de Dirana, em que esta respondeu, sempre na antiga lingua lemântica, que sua situação era crítica.
A irmã de Atron puxou-o para o lado:
- Você ouviu, sua amiga de cabelos cor-de-rosa pode não sobreviver...
Rod suspirou. Cochichou:
- Se ao menos tivéssemos a tecnologia da UniCiv por aqui...E se a levássemos para o teletransporte? Seu corpo, são, está esperando na Via Láctea...
- Não, sua alma se perderia pelo caminho. Não leu todas as instruções do teletransporte? Só é possível transportar o espírito de quem está consciente! E ela está em coma!
- Sim, agora lembro-me de ter lido isso em algum lugar, quando ainda estávamos na nossa galáxia. E agora? Não posso permitir que morra, pois fui eu quem a trouxe para cá.
Miriam puxou Rodrigo mais afastado ainda de Janaína, Michael e os Ti-lemânticos operando Dirana.
- Nas conversas que tive assim que cheguei com os rebeldes, perguntei-lhes sobre o castelo de Martogh. Disseram-me que existe uma construção mal-assombrada que abriga maithens não muito longe daqui. Embora tratem essa estória como lenda, tenho certeza de que é o castelo dele. E se lá existem maithens, eles podem salvar sua amiga.
- Mas é claro! Vamos, temos de achar este castelo.
Virou-se e cochichou toda a idéia para Michael e Janaína. Snaker teve sua face alegre restaurada em instantes:
- Quer dizer que ela tem uma chance?
- Sim, Mike. Vamos. Só os maithens podem salvá-la, agora. Os médicos Ti-lemãnticos são muito atrasados em medicina, e eu só lhe disse que eram competentes para animá-lo.
Michael Snaker olhou sua esposa deitada na cama, rodeada de Ti-lemânticos.
- E quanto a voltarmos e trazermos Allis Zeldor? Ela é ótima! Além do mais, essa estória de buscar um castelo perdido é muito...
- Mike! - Rod segurou-o pelos braços. - Allis só poderá vir até aqui nua, sem nada. Tudo o mais fica na nossa galáxia, na Via Láctea. Lembra-se? O teletransporte só traz almas, e o corpo é clonado aqui com as informações de nosso DNA.
- Sim, é claro. Sem equipamentos...
- ...Ela nada pode fazer. - Completou Jan. - Eu vou com você e a Miriam, Rod, deixe o Mike aqui, cuidando para que esses curandeiros atrasados não acabem matando a Dirana...
Rodrigo assentiu:
- Sim, fique aqui, amigo. Faça com que a mantenham respirando. Voltaremos o mais rápido que puder...O Líder da Oposição pode não gostar muito de mim, mas não vai arriscar ser contra mim, depois do que fiz com o rei...Ele vai nos ajudar a chegar à este castelo.
Janaína completou:
- O tal Líder não vai querer mexer com quem o povo pensa ser Atron K-Rosam'vev...
****
Dito e feito. Em menos de uma hora, um veículo de combate dos rebeldes veio buscá-los no hospital, e os levou até o aeroporto, próximo ao Parque Real. A capital agora estava calma, e o povo começava a festejar o fim da ditadura do rei Visten D-Mor'gy. Rodrigo, Janaína e Miriam desembarcaram e foram recebidos pela tenente da Oposição Ivar Ti-Adef. Ela os conduziu para uma sala onde lhes mostrou roupas melhores e armas.
- O grande Líder mandou-lhes este equipamento. Vou levá-los até a Orla Boroeste, próximos ao rio Gangil, local provável da existência do antigo castelo mal-assombrado.
O jovem milionário estava com o pulso engessado, mas sentia-se bem. Sabia ser uma corrida contra o tempo, pois Dirana estava nas últimas. Agradeceu à tenente:
- Obrigado. Quero que diga ao grande Líder que iremos embora assim que voltarmos, e que ele pode ficar sossegado em seu governo.
Embarcaram num vistoso bombardeiro pintado de verde para ser confundido com o céu, com as insígnias de Ti-Leman. Enquanto preparavam-se para decolar, os humanos trocaram de roupa e aprenderam a usar as metralhadoras. No compartimento traseiro havia um veículo de rodas e motor a combustão interna de óleo vegetal, onde a tenente explicou o funcionamento e o uso à Rodrigo, pois ela não iria acompanhá-los após o pouso.
O avião decolou sem problemas, alcançando um céu que estava ainda encoberto com as nuvens escuras de chuva. Comeram, beberam e dormiram até chegarem à Orla Boroeste, onde uma pista de pouso abandonada e de terra batida os esperava. A tenente desceu o bombardeiro e deixou os humanos e o veículo no chão, logo em seguida despediu-se rapidamente e sumiu no horizonte, onde agora o céu verde começava a aparecer por entre as nuvens.
Rodrigo acompanhou a aeronave até ela sair de seu campo de visão. Fêz um sinal para as duas mulheres e todos embarcaram naquela espécie de "jeep", sem teto e de bancos desconfortáveis de couro de barak. Acionou o motor, usou o acelerador manual para movimentar o veículo com a mão esquerda e o guiou através de uma estrada estreita, com a alavanca que segurava com a direita. Estava sentado no banco central, e as garotas atrás.
Seguiram aquele caminho em silêncio, apenas admirando a paisagem, sentindo o vento quente nos rostos, preocupados. O veículo camuflado de verde, pertencente aos rebeldes, seguiu com vontade, vencendo os buracos e a lama deixada pela chuva recente.
Chegaram às margens do rio em menos de vinte minutos, e agora a estradinha seguia ao seu lado, mas era muito estreita e as rodas do "jeep" estavam a centímetros da borda que dava para a água quente. Rod controlava o carro e olhava a visão à sua frente, mata densa de um lado e rio do outro. E aquela visão lembrou-lhe de quando estivera em Nishia, tocando a esfera negra. Lembrou-lhe da realidade virtual que ela lhe proporcionara, ele e Milena naquele mesmo lugar, com aquela mesma paisagem. Estavam no caminho certo.
Foram quase duas horas de viagem ao lado do rio caudaloso, parando apenas para um xixizinho básico e um lanche fugral.
Finalmente chegaram. O rapaz apertou o botão do freio na alavanca do acelerador e pararam. Lá estava, como uma ferida na densa floresta, uma enorme e horrenda construção, disforme e arruinada pelo tempo.
Rodrigo Maulson e Miriam Adrialli falaram quase ao mesmo tempo:
- O castelo de Martogh!
Desceram. Armados por garantia, seguiram até uma ponte em condições lamentáveis. Janaína foi a primeira a testá-la.
- Bem, parece que ninguém passa por aqui há um bom tempo, e não sei se conseguiremos atravessá-la.
Miriam olhou para o rio, quase oito metros abaixo deles.
- Descer aqui é difícil, e pelo borbulhar e pela fumaça, a água desse rio deve estar bem quente...Se quisermos salvar a Dirana, vamos ter de arriscar...E eu vou, porque além da saúde da amiga de vocês, estou louquinha para conversar novamente com um maithen.
Ela seguiu, cuidadosa, pisando em cada tábua com atenção. Havia poucas, a maioria podre. Os cabos de aço estava num estado de misericórdia. Engolindo sêco, Janaína também entrou na ponte, tendo logo atrás dela seu namorado.
O pulso engessado de Rodrigo o incomodava. À frente deles, na outra margem ainda distante, estava a estranha obra. Miriam avançava cada vez mais devagar. O rio, nada calmo, de águas profundamente azuis e quentes, esperava para engolir qualquer um deles a qualquer momento. A tensão era visível entre os três humanos.
E eles sabiam que morrer ali era morrer na Via Láctea, onde seus corpos originais esperavam.
****
Michael Snaker agora só rezava. Estava debruçado sobre o corpo inerte de Dirana, e já havia chorado. Ele amava a garota de Alpha Centauri, amava tanto que faria qualquer coisa por ela. Já estava lamentando o fato de terem vindo. Estava lamentando até a própria loucura de abandonar a Aristóteles, roubar aquele cargueiro siriano e se meter com Dirana naquela nebulosa.
- Amor, eu estou aqui. Resista!
Dirana de Santívia, com seus belos cabelos cor-de-rosa, ainda respirava, mas com a ajuda de aparelhos. Sua coluna estava partida, as pernas, arrebentadas, um dos braços amputado pelos incompetentes médicos Ti-lemânticos. A operação fôra um fracasso total, e ela estava em coma profundo. Sua única esperança era o êxito de Rod, Jan e Miriam.
****
O almoço saiu um pouco cedo na Squalus: ainda eram onze e meia no horário da nave. Irineu Barracos, Antônio Varello, Milena Almadori, Toshio Kato, Parus Dorms, Lor-ti-neé e Allis Zeldor estavam todos no refeitório.
Comiam em silêncio. A tripulação da Tirreno, sob o comando de Alan Merkov, impedia a saída de qualquer um. A moral estava baixa. Antônio e Parus queriam voltar para avisar a UniCiv. O engenheiro ylsio e Allis estavam indecisos. Irineu, Milena e Toshio não queriam deixar Rodrigo e os outros para trás. O clima estava tenso.
Irineu, mastigando um pedaço de frango sintetizado, disse com a boca cheia:
- Eu estou no comando aqui, delegado pelo próprio dono deste iate. Se vocês tentarem alguma coisa será considerado um motim pelas leis da navegação espacial.
Antônio estava irritado:
- Eu sou muito amigo de Rod. Mas não adianta ficar aqui, de braços cruzados. Se os caras lá fora quisessem nos matar, já teriam feito isso, então acho que não vão se preocupar em deixar-nos ir embora. Vamos buscar ajuda, Irineu, seu cabeçudo!
Milena interveio:
- Negativo. Rodrigo não iria gostar nem um pouco de saber que o deixamos para trás. Eu gosto demasiado dele para deixá-lo dentro daquele tubo!
Lor-ti-neé agitou as antenas:
- Talvez já estejam mortos. Talvez aquilo seja algum tipo de armadilha que os pegou e os matou. Ficaremos aqui até quando? Até aquela humana esquisita voltar e mandar atirar em nós?
Toshio era o mais calmo de todos:
- Não acho que estão mortos. Não pude analisá-los, mas parece-me que estão em algum tipo de hibernação...Está acontecendo alguma coisa aqui maior do que possamos compreender, portanto o melhor que temos a fazer é esperar...
Bio resolveu manifestar-se:
- Tenho algumas informações que o capitão não permitiu que eu revelasse a vocês, mas através delas posso deduzir que ele e os outros estão bem e que devemos esperar o desfecho desta situação pacientemente.
Irineu terminou de comer:
- Está decidido! Ficaremos à espera, e não se fala mais nisso!
****
A ponte rangia e balançava lentamente de acordo com o vento quente e o movimento de cada um. O piso faltante em alguns lugares obrigava Miriam, Janaína e Rodrigo darem pulos e se segurarem nos cabos pouco confiáveis.
Avançavam demoradamente, pois o perigo era grande.
Foi quando Janaína pisou em uma tábua podre e esta arrebentou, fazendo com que ficasse pendurada no cabo de aço.
Rodrigo a puxou para si e ela o abraçou. Sorriram um para o outro.
- Puxa, Rod, não sei porque, mas você está sempre me salvando...
- Apenas estou cumprindo com a minha obrigação...
Ela fêz que o empurrava e ambos riram. Miriam lembrou-lhes que era preciso continuar, e com cuidado redobrado. Assim o fizeram, e estava cada vez mais difícil atingirem a outra margem.
No céu não havia mais nuvens e o calor estava quase insuportável.
- Sinto-me como uma lagosta num caldeirão fervente... - Miriam transpirava em abundância.
Finalmente chegaram ao outro lado. Olhando para cima, os três humanos admiraram a estranha construção, que parecia ilógica. Escadas sem amuradas subiam mas ao mesmo tempo pareciam descer, rampas não levavam à lugar algum, corredores retos pareciam curvos, aquilo era como um desenho de M. C. Escher.
- Acho que estamos vendo um edifício que transcede as três dimensões que podemos enxergar. - Rodrigo não se lembrava com exatidão do castelo. Estava surpreso.
Havia uma abertura oval por onde entraram, e imediatamente sentiram o ar gelado a refrescar-lhes. A luz provinha de todo lugar e era difusa, o ambiente era um corredor estranho que parecia não ter fim, com paredes curvas pintadas de azul celeste e o teto de branco. De repente, como que do nada, uma porta abriu-se à frente deles e estavam num enorme átrio em forma de globo, com as paredes sendo janelas de cristal, trabalhadas com ornamentos estranhos, mostrando a selva do lado de fora.
No teto, um estranho lustre de pingentes azuis que brilhavam, e havia no aposento estranhos espelhos que refletiam tudo como se fossem feitos de água corrente.
Rodrigo aproximou-se de um deles e viu...Atron. Ficou estático, surpreso.
Miriam olhou outro...Era Liany.
Janaína viu-se como uma mulher lindíssima de corpo perfeito.
- São espelhos da alma, meus caros visitantes...
Era um maithen de um verde esmaecido e com o olho opaco como de um ancião.
- Sou o mestre Ladrig, o Último Nascido, filho do triskaj Martogh. Sejam bem-vindos à minha morada, Atron e Liany K-Rosam'vev. Você também é muito bem-vinda, ser de cabelos amarelos que desconheço.
Rod traduziu a "fala" telepática do maithen para sua namorada.
- Olá, eu sou a detetive Janaína Ranadi, da Terra. Uma humana.
O jovem rapaz desta vez traduziu o que Jan disse e completou:
- Sim, mestre, estamos em corpos humanos. Então o senhor nos reconhece?
- É claro. Eu era pequeno quando vocês cá estiveram. Foi quando meu pai lhes concedeu o dom da transferência da alma. Estou surpreso em vê-los aqui, pois deveriam estar vigiando a prisão de Zonos.
Miriam Adrialli adiantou-se:
- Perdemos as chaves, e a memória da primeira de nossas inúmeras "vidas". Cá estamos a procura de respostas. Eu e Atron no final percorremos caminhos semelhantes e depois de muitos querberts finalmente nosso destino convergiu para este ponto.
- Perderam a chave? Isso é muito grave. Se Zonos fugir, conquistará a sua galáxia e a nossa. Minha raça está quase extinta e éramos os únicos que podíamos combatê-lo. Se ele fugir - surgiu do nada uma imagem de um planeta sendo desintegrado lentamente - coisas como esta podem acontecer...Raças dizimadas apenas pelo prazer dele, sofrendo em agonia enquanto se desfazem. Zonos é o mal puro. As chaves nunca deviam ter sido perdidas!
Rodrigo aproximou-se e encarou o maithen, que falava em demanedo na mente de todos.
- Algo aconteceu quando deixamos Tarínia, e só agora tivemos a tecnologia e o capital para voltarmos aqui. Acha que Zonos pode escapar?
- Sim - imagens surgiram no centro do salão ilustrando cada dizer do ancião - talvez vocês não se lembrem, mas foram feitas cópias das chaves, as esferas brancas.
- Esferas brancas? - A italiana olhou o jovem milionário, que perguntou:
- Espere aí...As nossas chaves, a que perdemos, eram duas esferas negras?
- Exato. Cada esfera ficou com um de vocês, e só as duas juntas podem abrir a prisão; mas um ser ganancioso chamado Ütarash conseguiu fazer uma réplica das chaves e pretendia abrir a prisão e libertar Zonos. Queria associar-se à ele. Martogh, meu pai, mandou que o matassem...Eu não sei se conseguiram. A Grande Doença sobreveio e acabou com nosso império.
Rodrigo Maulson estava aturdido e trocou olhares com Miriam Adrialli, que também estava. Janaína Ranadi não estava entendendo nada, não falava demanedo.
Na mente de todos, o mestre Ladrig prosseguiu:
- Vou lhes dizer tudo o que vi naquela época, já que não podem lembrar-se, e na ordem certa para que não fiquem confusos: Zonos viera até nós, expulso do Ante-Universo. Tentou nos dominar, mas o expulsamos daqui, e ele foi para sua galáxia. Uma vez lá, conquistou civilizações e raças até se deparar com o Império Lemântico, onde vocês eram os reis. Zonos quis destruí-los porque eram nossos aliados, e ele nos detestava. A guerra foi terrível, seu império foi arrasado, o planeta capital de vocês teve a atmosfera arrancada e a superfície queimada, seus oceanos vaporizaram.
Sem ser interrompido pelos dois perplexos irmãos, Ladrig prosseguiu:
- Resolvemos ajudá-los, e nessa época meu pai era o triskaj, mais ou menos o nosso imperador, e comandou a vitória sobre Zonos, prendendo-o numa prisão especial numa outra estrela verde, próxima ao centro de sua galáxia, de nome Tirênia.
O maithen olhou para cima. Prosseguiu num suspiro:
- A chave e a guarda daquele ser malévolo ficou confiada à vocês, como sabem, e deveriam vigiar Zonos para o resto da eternidade, pois ele não podia ser morto. O dom de trocar de corpo lhes foi concedido com o intuíto de permitir que cumprissem suas missões. Mas alguma coisa aconteceu, e eu não sei o quê. Após a partida de ambos, soubemos que Ütarash conseguira copiar as chaves, as duas esferas brancas, e meu pai então, não conseguindo contactá-los, mandou um agente nosso, maithen, matar aquele ser.
Rodrigo pediu para Ladrig aguardar e traduziu tudo para Janaína, que também estava perplexa com toda aquela estória. Como não havia cadeiras (um maithen era como uma lesma, e alguém já viu uma lesma sentar-se?), os humanos sentaram-se de pernas cruzadas no chão agradável daquele lugar. Miriam pediu para o mestre prosseguir.
- Não soubemos mais o que houve porque a Grande Doença sobreveio. Quase todos morreram, e meu pai foi um dos primeiros. Fiquei todos estes querberts sozinho aqui, sem importar-me com o que acontecia lá fora, sem querer saber dos outros sobreviventes, de pura tristeza...E acabei por achar que vocês, Atron e Liany, estavam bem e guardando Zonos. É isso. O resto da minha estória pessoal é apenas a solidão e a espera da morte.
Desta vez foi a italiana que traduziu tudo à Jan. Rod encarou o maithen.
- A solidão é o pior veneno da alma...Mas, diga-me, mestre Ladrig, o que vem a ser a Grande Doença?
- Sabe, somos uma raça muito, muito antiga, de antes de suas civilizações existirem. Houve um tempo que nós nos reproduzíamos como vocês...Mas então descobrimos uma maneira de trocar de corpo conservando a alma. Com o tempo, deixamos de nos reproduzir, quero dizer, passamos a gerar apenas corpos sem almas.
Houve uma pausa como se o velho ancião tomasse fôlego.
- Então já não conseguíamos gerar corpos com almas novas. Ficaram somente nós, as almas antigas. Eu sou o último ser com um espírito totalmente novo, o Último Nascido. Rodrigo ergueu a sobrançelha esquerda como seu amigo Michael Snaker fazia:
- Quer dizer que suas almas envelheceram?
- E morreram. Isso nós chamamos de a Grande Doença. Apenas alguns ficaram para trás, e olha que dominávamos tôda esta galáxia!
Rod e Miriam entreolharam-se e depois traduziram tudo para a baiana da Terra, que cada vez mais ficava boquiaberta com tudo aquilo que ouvia...Pensava consigo mesma como o Universo era fantástico em si mesmo...
Rodrigo virou-se para Ladrig:
- Havia três maithens no teletransporte que nos trouxe aqui, mas os Ti-lemânticos os executaram...Porquê?
- Não sei. Ti-Lemânticos? Como vocês, em seus corpos originais? Aqui, em Tarínia?
- Isso mesmo, e não consigo entender porque eles tem tanta raiva de sua raça. Aliás, há apenas alguns milênios, aconteceu alguma coisa que fêz esses Ti-lemânticos virem para cá e formarem um estranho reino. Não importa, agora... - Rodrigo lembrou-se de Dirana. - viemos mesmo para pedir que nos ajude a curar uma humana igual à nós...Pelo que posso lembrar-me, vocês tinham poderes milagrosos...
- Mas sequer conheço a anatomia de um humano! É a primeira vez que vejo uma espécie como vocês, apesar de se parecerem com os lemânticos.
Rodrigo não podia conformar-se. Não deixaria aquele que se transformara em seu melhor amigo, Michael Snaker, ficar viúvo. Passou as mãos pelos cabelos:
- Uma grande amiga nossa vai morrer, mestre, o senhor tem de nos ajudar!
- Mas eu não disse que não posso.
Miriam ficou confusa:
- Mas se não conhece a anatomia humana...
- O corpo dela pode estar perdido, sua alma não. Você, Atron, tem um dom a mais do que sua irmã. Meu pai lhe concedeu o poder de, por um curto período de tempo, carregar outra alma consigo. Você pode, e eu lhe explicarei como, capturar o espírito de sua amiga em seu corpo e levá-la de volta à sua galáxia o mais rápido possível.
Rodrigo Maulson pôs-se de pé e levantou os braços olhando para cima:
- Era só o que faltava! Agora vou ter de dividir meu corpo com a Dirana! Essa é boa!
Explicou tudo à Janaína, que colocou a mão à frente da boca para conter o riso.
Após as explicações de Ladrig, o jovem rapaz soube também que só poderia dividir seu habitáculo uma vez em cada "vida". Isso significava que, nesta encarnação, como Rodrigo, não poderia mais "carregar" o espírito de ninguém consigo.
- Agora quero lhes passar mais uma coisa...E, para falar a verdade, o Grande Deus do Universo deve ter interferido para que vocês, Atron e Liany, tenham voltado para cá, e eu tenha sobrevivido para lhes contar...
A italiana aproximou-se do milionário e pegou em sua mão. Ambos prestaram muita atenção ao velho maithen.
- Pouco antes de morrer, meu pai descobriu uma maneira de destruir Zonos.
Os dois antigos reis lemânticos se entreolharam.
- Sim, isso mesmo. Quando apareceram, fiquei feliz em poder lhes contar, pois jamais sairia deste castelo para procurá-los. Mas fiquei aturdido quando soube que perderam as chaves...
- Não perdemos as chaves, na verdade - disse Rod, naquela conversa telepática em demanedo. - Eu tenho as esferas negras, só não sabia que elas eram as chaves.
- Isso é bom. - Se pudesse sorrir, Ladrig estaria sorrindo.
- Mas... - Ele prosseguiu rastejando pelo recinto, deixando uma "gosma" para trás, como uma lesma. - Mas...As esferas brancas estão perdidas. E elas podem abrir a prisão de Zonos como a de vocês. Se caírem em mãos erradas...
- Agora temos de achá-las. - Foi a conclusão de Miriam Adrialli.
- Isso mesmo, e mais. Como lhes disse há pouco, existe uma maneira de destruir Zonos. Será extremamente difícil, mas enquanto ele existir, existirá uma grave ameaça sobre todos nós.
- E eu não estou a fim de bancar a babá do demônio pelo resto da eternidade. - Riu-se a italiana, e, soltando-se de seu irmão, sentou-se novamente. Janaína só observava.
- Para destruir Zonos, o "Imperador Negativo", vocês terão de encontrar o exato oposto dele. Um ser do bem supremo!
Rodrigo sentou-se também, no chão, de pernas cruzadas.
- O bem total contra o mal total! Bem poético!
- Isso mesmo. Esse ser é quase indestrutível, como Zonos. Ele deve estar em algum lugar em sua galáxia, e essa será a missão de vocês: Encontrá-lo e convencê-lo a ir até Tirênia. Uma vez na prisão, ele deve ser convencido a jogar-se contra Zonos.
- Procurar alguém numa galáxia de 200 bilhões de estrelas? - Rod estava aturdido.
- Eu não disse que seria fácil.
Miriam levantou-se, achando tudo aquilo um absurdo.
- Espere um pouco, mestre Ladrig...O ser do bem supremo também será destruído?
- Sim. É um preço baixo a se pagar pela paz em nosso Universo...Pensem: se Zonos fugir ou for libertado, além da galáxia de vocês e da nossa, todas as outras próximas, que devem estar pululando de vida inteligente, também serão subjugadas, pois o tal "Imperador Negativo" é praticamente indestrutível e imortal.
Rodrigo Pereira Maulson passou as mãos pelos cabelos.
- Uau! Estaremos salvando o Universo!
Miriam Adrialli, de Florença, riu-se:
- Calma, calma, estaremos salvando apenas o Grupo Local...O aglomerado de galáxias em que vivemos...Não deixe o seu ego inflar. - E virou-se para o maithen. - está bem, mas pode nos dar alguma pista?
- Sim. Já que o mal supremo está incorporado numa criatura bestial, monstruosa, o bem supremo pode ser encontrado em um ser angelical...Talvez uma criança. E ela só estará realizando atos extremamente puros. Porisso não será difícil convencê-la a dar a vida em troca de salvar as raças de inúmeras galáxias. E a chance de ela estar na parte onde existira o antigo Império Lemântico é grande, porque ela veio do Além-Universo para conhecer e pesquisar as civilizações daqui. Foi assim que a conhecemos.
Depois de Rodrigo traduzir tudo à Janaína, esta resolveu caminhar um pouco, aquilo estava sendo demais! A detetive, com seu espírito prático e de pés no chão, desistira de tentar acompanhar aquela estória tôda de salvar galáxias, e voltou por onde vieram, indo experimentar o ar quente e abafado de fora do castelo.
Miriam ajeitou os cabelos castanhos curtos e suspirou. Aquela conversa a deixara cansada e com fome. Mas esperou o mestre Ladrig concluir:
- Encontrem o ser do bem supremo. Encontrem as esferas brancas. Viajem até Tirênia e destruam Zonos...Isso, se quiserem evitar que algum dia ele consiga fugir ou que alguém consiga libertá-lo.
Rodrigo Maulson sentia o mesmo que sua irmã. Levantou-se e olhou para além das janelas de cristal:
- Está bem. - Suspirou profundamente - Faremos isso, concorda, maninha?
- Plenamente...Que outra opção nós temos? E não existe ninguém que possa fazer isso pela gente.
Rodrigo perguntou, sem se virar:
- Mas onde fica Tirênia?
- A única coisa que sei é que fica perto do centro de sua galáxia.
Miriam ficou ao lado de Rodrigo, imaginando o que teriam pela frente...Não seria nada fácil. Ficaram em silêncio olhando a selva por alguns momentos. A italiana comentou:
- São 30.000 anos-luz de distância da Terra ao centro da Via Láctea. A nave mais rápida da UniCiv levaria quase dois anos para chegar lá...Isso se houvesse um mapeamento adeqüado. Mas não há...
Seu irmão concluiu:
- Quer dizer que, nas condições que possuímos, levaríamos mais ou menos...Hummm...Chutando por baixo, cem anos para poder ir mapeando o caminho, em pequenos mergulhos...É um bocado de tempo.
Rodrigo virou-se para Ladrig.
- Bem, a missão que nos passou é quase impossível, mas isso vai ser...Divertido. Agora precisamos partir. Obrigado, mestre...
Janaína Ranadi entrou correndo no átrio do castelo.
- Bombardeiros e caças Ti-lemânticos estão vindo! Rod, creio que fomos traídos pelo vermezinho de óculos da Oposição!
Livro II - A Busca - Capítulo XIV.
Michael Snaker era muito esperto. Notara a agitação incomum fora do hospital e vira pelas janelas a chegada dos tanques e veículos de combate da Oposição. Desconfiado, tratou de levar a cama onde estava Dirana, e os aparelhos que a mantinham viva, para o elevador. Desceu ao subterrâneo e dirigiu-se à uma estação vazia de trem. Empurrando sua mulher, seguiu pelo túnel parcamente iluminado e quente. Estava começando a achar que seus amigos corriam perigo e que os Ti-lemânticos os estavam traindo.
Janaína Ranadi lhe explicara tudo o que acontecera desde que fôra deixado na selva, após sua participação no Jogo da Vida (que para ele devia chamar-se Jogo da Morte), e agora o cientista pensava numa maneira de enconder-se até que seus amigos voltassem.
Encontrou uma oficina desativada e, entre velhas locomotivas, colocou a cama de Dirana ajeitadamente num local seguro e sentou-se sobre uma caixa de ferramentas, tentando relaxar.
Será que conseguiriam salvar sua mulher? E conseguiriam voltar à Via Láctea?
- Pois é amor...Que situação...Aguente firme! Você pode não gostar do Rod, mas tenho certeza que ele vai nos tirar daqui...De alguma maneira.
Agora só restava torcer para que as baterias, que faziam os aparelhos que mantinham Dirana viva funcionar, durassem o suficiente.
****
As explosões atingiram o castelo de Martogh, onde agora vivia Ladrig, derrubando as torres principais. Um míssil derrubou o teto do átrio, e o lustre de pingentes azuis caiu sobre o velho maithen. As janelas estilhaçaram-se, uma viga atingiu Miriam Adrialli, uma parede desabou.
Logo após uma coluna enorme caiu, quando o segundo míssil atingiu a construção, e ia matar Rodrigo esmagado se uma Janaína rápida não o salvasse. Um incêndio irrompeu no salão, forçando-os para fora, porém o corredor por onde vieram deixara de existir.
Mais explosões e rajadas de metralhadoras. Os caças atacavam sem perdão, enquanto os bombardeiros atiravam bombas que incendiavam a floresta.
Rodrigo Maulson arrastou-se até o velho maithen:
- Mestre Ladrig, o senhor está bem?
- Não... - A "voz" em sua mente estava fraca. - Finalmente, depois de milhares de querberts, minha alma vai partir para o Além-Universo.
- Espere, o senhor não pode morrer!
Mas o Último Nascido apagou-se, o verde deu lugar à um cinza opaco, e seu enorme olho vidrou, sem vida. Rodrigo socou o chão. Janaína puxou-o pelos pés:
- Olhe a sua irmã, ela precisa de ajuda. Essa "lesma" já era!
Juntos, entre as chamas e os pedaços do teto que caiam, Rod e Jan socorreram Miriam, tirando-a dos escombros. Ela estava inconsciente e sangrando.
A última explosão abrira uma saída para a selva, que também ardia num fogaréu imenso, mas não havia opção. Seguiram por ali e correram, a detetive segurando a italiana de um lado, e o milionário segurando-a do outro, ela desmaiada. O calor das chamas castigava a pele dos humanos, porém parar ali seria morte certa, então seguiram em frente pela mata densa.
Mais explosões.
Uma torre caiu próxima à eles, jogando-lhes detritos.
Árvores milenares com parasitas enormes e galhos vultuosos desabaram, quase os atingindo. A gravidade e o calor fazia seus corações baterem descompassados, as pernas falharem e o corpo hesitar. O suór caia nos olhos de cada um, e o sangue de Miriam os sujava.
Porém não pararam. Amparados pela mata densa, os caças não puderam vê-los e continuaram atacando o castelo.
E a antiga construção perecia, desabando em chamas, encerrando de vez o ciclo de poder dos maithens, e satisfazendo o ódio dos Ti-lemânticos.
Com os cabelos chamuscados, feridos, sedentos, chegaram às margens do rio caudaloso e quente.
- Vamos pular? - Janaína estava exausta.
- A correnteza é forte e a minha irmã está desacordada, não conseguiremos nadar!
- Eu posso nadar, estou bem... - Miriam despertou. - Mas aquelas águas são muito quentes!
Rod olhou de um lado e de outro.
- Tem alguma idéia melhor?
Um caça os viu, ali naquela margem, e mergulhou para atacá-los.
Sem opção, os três pularam os oito metros que separavam o local em que estavam do rio, escapando por muito pouco dos tiros de metralhadora.
A água estava fervendo, e os cozinhava vivos. Nadando bem fundo, as balas passavam por eles lançando bolhas.
Rodrigo e Miriam eram exímios nadadores, e Janaína tivera um ótimo treinamento na Polícia Solar, do contrário não sobreviveriam. Atravessaram a correnteza enquanto desviavam dos tiros que entravam mergulhando, chegando, obviamente exauridos, à outra margem.
Estavam sem as armas, que haviam deixado no átrio do castelo.
Na superfície, os três humanos cuspiam água, puxavam o ar para os pulmões e tentavam deixar o rio fervente. Estavam todos queimados, sangrando, com os cabelos chamuscados e sem forças. A adrenalina corria solta em seus corpos. Seus corações batiam de uma forma extremamente rápida.
Os caças atiravam no rio sem ainda terem visto nenhum deles. Tiveram segundos para se recompor, e subiram o barranco até a mata acima.
Temporariamente salvos, abriram caminho na selva, espetados com plantas espinhosas, livrando-se de enormes aranhas entre as árvores, pisando em insetos desagradáveis, mas sem hesitar, em direção ao veículo que haviam deixado perto da ponte.
Conseguiram alcançá-lo, então todos embarcaram rapidamente. Rodrigo ligou o motor e voltaram por onde vieram, só que agora em grande velocidade.
Derrapavam e às vezes parecia que o "jeep" despencaria no rio, porém Rod, em mais de uma de suas vidas passadas, fôra piloto de rallye, e controlava o veículo com habilidade naquela estrada estreita e lamacenta.
Não demorou muito para a tenente Ivar Ti-Adef, que pilotava um dos caças, ver os três humanos fugindo. Deu meia volta e avisou pelo rádio:
- Localizei o inimigo na estrada à beira do rio. Vou interceptá-los.
O coronel líder do esquadrão ordenou:
- Pode destruí-los. A ordem do Líder da Oposição foi bem clara!
O avião monomotor à hélice, de combate da Força Aérea rebelde, mergulhou em direção à Rod, Jan e Miriam. Tiros das metralhadoras da tenente ladearam o veículo, e quase os acertaram. O caça deu meia volta e atacou os humanos novamente, sem piedade. Acertou um tiro no pára-brisa e outro, de raspão, no ombro de Janaína.
Novo ataque. A tenente mirou bem, e não iria errar. Mergulhou. Seu dedo sobre o contato das metralhadoras, na alavanca de controle do leme. Quando disparou, Rodrigo freou e evitou as balas de grosso calibre. A Ti-lemântica ralhou os dentes de raiva. O jovem milionário acelerou novamente.
- Não vou conseguir enganá-la por mais tempo. Vamos ter de entrar na mata, é a única saída! - gritou.
- A Jan levou um tiro! - Foi a vez de Miriam gritar.
- Estou bem. Pare este carro, rápido! Vamos para a floresta!
Foi o que Rod fêz. Pularam para a mata densa. Escondidos, ouviram os tiros passar longe, Ivar não mais podia vê-los. O rapaz de cabelos cor de trigo usou seu lenço para estancar o sangue no ferimento de sua namorada. Outros caças se uniram ao da tenente para atirar na selva, e agora os tiros passaram a cair mais próximos. Correram desembestadamente através das folhagens, mesmo feridos do jeito que estavam.
Ouviram um barulho diferente.
- Parece um helicóptero! - Disse Miriam Adrialli.
- É um helicóptero, ou algo parecido com um... - Rod divisara por entre as copas das árvores um estranho aparelho com uma enorme hélice em cima e outra, pequena e colocada lateralmente, na cauda.
Janaína, que nascera no século 28, nunca tinha visto aquilo, e perguntou:
- Do que é que vocês estão falando?
- De um aparelho que existiu nos séculos 20 e 21, na Terra, e ainda existe em muitos outros lugares...Veja, Jan... - Seu namorado apontou a estranha aeronave pintada de verde. - Aquilo parece o que chamávamos helicóptero...Mais ou menos. E parece que vai pousar por aqui...Deve estar cheio de soldados que logo, logo, estarão à nossa procura!
Miriam concordou. Resolveram voltar, sorrateiros. Foi quando Rodrigo sentiu algo andando em sua cabeça...
A irmã gêmea de Atron aproximou-se dele e o segurou:
- Calma, fique imóvel. Tem a maior aranha que eu já vi andando pelos seus cabelos.
Rod sequer respirava, sentindo as patas peludas enrrolarem-se nos fios loiros. Com um pedaço de pau, habilmente, Miriam acertou o aracnídeo, mandando-o longe e arrancando alguns cabelos chamuscados de seu irmão.
Janaína o abraçou:
- Nossa, essa foi por pouco...Nunca vi nada igual, aquele bicho era quase do tamanho da sua cabeça!
Prosseguiram com mais cuidado. A pele de todos coçava, talvez pela reação alérgica à alguma planta. Voltaram escondidos à estrada. O estranho aparelho de hélice em cima pousou verticamente ao lado do veículo que Rod guiava.
Tal como previram, soldados desceram armados, e estavam se embrenhando na mata. Eram Ti-lemânticos com pinturas de camuflagem em suas caras de formiga e com fardas verdes.
Rod deu instruções às duas mulheres, murmurando, e subiu em uma árvore. A bala passara de raspão no ombro de Janaína e esta não teve dificuldade nenhuma em subir por outro tronco. Numa terceira árvore, Miriam também escalou nervosa e apressadamente.
Eram quatro. Seguravam as metralhadoras prontos para disparar e avançavam devagar pela selva.
Rod pegou dois, que caminhavam próximos, pulando sobre eles. Como antigo lemântico, sabia que um bom soco na nuca de cada um os poria fora de combate, e foi isso que fêz. Menos dois. Mas o ato o deixou mais dolorido do que já estava.
Miriam pulou sobre outro. Lutaram e a italiana levou a pior, estava com as costelas fraturadas, porém Rod acabou com ele ao metralhá-lo.
Janaína eliminou o quarto acertando sua cabeça com uma fruta que parecia um coco, do alto de sua árvore.
Ainda bem que nenhum dos soldados usava qualquer tipo de capacete.
Com um sinal, Jan desceu e juntou-se aos irmãos gêmeos, armou-se, e o trio seguiu até o "helicóptero".
No céu acima deles, os caças davam rasantes e enxameavam o local. Os bombardeiros voltavam para a capital, pois o castelo de Martogh estava completamente destruído.
O piloto não viu o macho humano entrar. Nunca mais veria nada, pois foi morto com os tiros dados através de sua poltrona. Foi jogado para a mata.
- Por acaso você tem alguma idéia de como se pilota isso?
Janaína sentara-se atrás de Rodrigo, que estava agora na cadeira central de comando. O rapaz milionário examinou os controles e leu as indicações em demanedo do painel. Experimentou o manche, os pedais e as alavancas.
Miriam fechou a porta do "helicóptero".
- E aí, vamos? Não temos outra alternativa...Estamos longe de tudo, e acho que este aparelho é o melhor para nos levar de volta à capital rapidinho...
Rodrigo Maulson decidiu arriscar-se, pois lhe parecia que voar naquele aparelho não era diferente de voar nos antigos helicópteros dos séculos 20 e 21 da Terra...E, claro, ele já os tinha pilotado antes.
Tentou subir. A "coisa" elevou-se no ar e depois caiu pesadamente no chão.
Miriam comentou acidamente:
- Ei, você não vai ter tempo de tirar brevê. Suba!
Nova tentativa. O aparelho titubeou, errolou, mas seguiu a estradinha, voando baixo.
Em demanedo, a voz da tenente Ivar Ti-Adef soou no rádio:
- Ei, porque está subindo? Os humanos já foram mortos?
Rod nada disse, concentrando-se febrilmente em guiar uma aeronave que nunca guiara antes, e tentando evitar o rio de um lado e as árvores do outro.
Tremia. Estava cansado e ferido. As mulheres também estavam.
As hélices podaram as copas das árvores próximas, contudo e por muita sorte, o "helicóptero" não era assim tão diferente dos aparelhos que Rod já conhecia, e puxando pela Memória da Alma, o jovem milionário conseguiu soerguer a aeronave além da floresta e acelerar rumo à capital, que devia estar na mesma direção na qual os bombardeiros seguiram quando foram embora.
Descobrindo o acelerador, voando rente as àrvores, o jovem Maulson deixou os confusos caças para trás e seguiu os rastros de fumaça escura dos motores à combustão dos aviões que retornavam à base.
Demorou para que o coronel que comandava a operação descobrisse a fuga dos humanos. Quando descobriu, elouquecido, organizou sua esquadrilha de caças, que logo puseram-se em marcha atrás dos fugitivos.
Mas o "helicóptero" era muito rápido, e agora tinham uma grande vantagem. Rod subiu mais um pouco e relaxou. Seus dedos doíam por causa da força com que segurava a alavanca do leme e a do acelerador.
As duas mulheres aplaudiram, e depois deixaram-se cair nos bancos de couro de barak, exaustas. Todos estavam sedentos, e quando descobriram um cantil guardado por ali, fizeram a maior festa.
Janaína molhou Rodrigo, que agradeceu. Suas feridas ardiam, seu pulso quebrado estava doendo muito, principalmente depois que o gesso se perdera, e estava demasiadamente cansado. A baiana, sua namorada, mordia os lábios com a dor do ferimento no ombro. Miriam, atingida por uma viga durante o ataque no castelo, sentia que trincara uma ou duas vértebras.
Com a adrenalina baixando, as dores atacavam o trio sem piedade.
****
Dois soldados rebeldes Ti-lemânticos vasculhavam o antigo túnel do "metrô" da capital, desativado já há algum tempo. Entraram, para o azar deles, no depósito de locomotivas.
Quando se depararam com a cama de Dirana de Santívia, não tiveram tempo nem de assimilar a informação em seus cérebros. Estavam fora de combate, desmaiados, atingidos por uma viga que Michael Snaker soltou sobre eles.
Cuidadosamente, o cientista escondeu os dois, e os amarrou com fios que existiam ali, amordaçando-os com velhas flanelas.
Voltou para vigiar sua esposa:
- Bem, amor, já sabemos que fomos traídos. Só espero que aqueles três consigam voltar, e voltar com uma cura para você...
****
Rodrigo Pereira Maulson pilotava o aparelho semelhante a um helicóptero, em alta velocidade, já alcançando os bombardeiros que voltavam.
Um deles saiu da formação e estava dando meia-volta.
- Parece que já descobriram o que aprontamos. Os caças não conseguem nos alcançar, então estão mandando aquele avião enorme.
Miriam Adrialli e Janaína Ranadi postaram-se, uma de cada lado, junto à cadeira central de comando. Além das janelas, podia-se ver o céu verde com algumas nuvens roxas, a mata densa abaixo, e o avião de guerra voltando.
- Armas? - Rod olhava o painel. - Vejamos...Misséis!
Estavam com muita sorte. Os bombardeiros Ti-lemânticos só carregavam bombas para serem jogadas durante um ataque, e não tinham mísseis, apenas metralhadoras. Somente os caças tinham mísseis, e estes estavam longe.
O jovem rapaz de olhos verdes determinados pressionou o botão de lançamento. Tiros vindos do avião destroçaram as janelas e os pedaços minúsculos de vidro cortaram o rosto dos três humanos, que além disso foram bafejados com lufadas de vento quente.
Mas antes que as duas aeronaves se cruzassem, o míssel lançado por Rod atingiu uma das asas do bombardeiro. Atravessando as chamas, que invadiram a cabine por segundos, o "helicóptero" passou entre a ponta da asa partida e o resto do avião.
O bombardeiro virou para o lado e caiu na floresta, explodindo numa bola de fogo.
Todo ensangüentado, Rod não conseguia quase olhar para fora enquanto pilotava, pois não havia mais pára-brisa no aparelho. Mas também ele sabia que não poderia diminuir de velocidade, sob pena de deixar os caças alcançá-lo.
Os outros aviões da formação subiram mais, e sabiam que seria loucura tentar atacar novamente o "helicóptero", pois não estavam preparados para isso.
Sobrevoavam agora o lago de água quente salgada.
Janaína limpou o rosto de Rodrigo e depois o seu. Havia cacos de vidro por todos os lados. Miriam estava sentindo-se mal. Calmamente, a baiana também limpou o rosto dela, tirando com cuidado os pedaços minúsculos de vidro que deformaram a fronte da italiana.
O jovem milionário segurava o manche com sofreguidão, tremendo, rilhando os dentes para agüentar de olhos abertos e manter a aeronave estável, e isso estava ficando quase impossível no decorrer dos quilômetros.
Sorriu ao avistar a capital.
Mas sua boca curvou-se para baixo ao avistar...Caças!
Dezenas deles. Era demais. Por um momento, Rod pensou em largar os controles e deixar o aparelho estatelar-se nos campos abaixo.
Sentiu as mãos de Janaína a massagear-lhe os ombros. Relaxou e encontrou novas forças para prosseguir. Tinha de arquitetar, em segundos, um plano...
Um míssil vinha em sua direção, depois outro e mais outro.
- Segurem-se! - Gritou, e mergulhou o "helicóptero" em direção ao chão.
Havia uma estrada, serpenteando pelos morros, e Rodrigo mau teve tempo de visualizar a boca de um túnel...Era a única chance que tinham.
Com habilidade, entrou com o "helicóptero" dentro daquele túnel rodoviário, as lâminas das hélices passando a centímetros das paredes. Acelerou, rezando para que nenhum veículo aparecesse. O sistema de direção dos misséis não era tão bom, e eles explodiram na boca do túnel, um atrás do outro, lançando um paredão de chamas.
O ângulo de visão dos pilotos, das duas esquadrilhas que atacavam os humanos, não permitia que vissem a entrada do túnel, e com a velocidade em que estavam, deu-lhes a impressão que o "helicóptero" tinha explodido no chão junto com os mísseis.
Todos os vinte e dois aviões passaram...E não viram o aparelho controlado por Rod sair na outra boca daquele túnel rodoviário. Como não possuíam nenhum sistema de radar, ficaram todos em júbilo comemorando a destruição que não acontecera.
Havia um sistema de radar de grande porte na capital, agora próxima de Rodrigo, Janaína e Miriam. Mas ele era arcaico, e não podia detectar uma aeronave voando tão baixo como estavam.
O rapaz de quinze mil anos só tinha em mente chegar ao hospital, onde deveriam estar Mike e Dirana. Voava rente ao solo, desviando-se de pequenas casas de subúrbio, caixas d'água, árvores isoladas e alguns veículos. A cidade que era a capital de Ti-Leman já era visível em sua plenitude, faltavam apenas alguns quilômetros...
A mulher de Florença e a outra da Bahia sequer respiravam, num suspense sem fim.
A cidade cheia de construções grandes começou a passar debaixo deles. Voavam tão perto destas construções, que às vezes viam os olhos arregalados de Ti-lemânticos. Rod levava a aeronave por entre os edifícios cada vez mais altos, tentando enxergar o prédio magenta do hospital, na direção do centro.
- Lá está! Vejam! O hospital! - Gritou, apontando. Jan e Miriam sorriram.
Rodrigo Maulson diminuiu a velocidade. Não havia um "heliporto" sobre o edifício, talvez porque aparelhos como aquele em que estavam fossem raros, talvez protótipos de alguma espécie. Todavia, naquela altura, o rapaz de cabelos loiros pousaria até em cima de um puleiro, se fosse necessário, e desceu de qualquer maneira no telhado de telhas amarelas. A estrutura de cumeeiras ruiu com o peso da aeronave e caíram sobre o piso do sotão, que servia de depósito.
Pedaços das hélices voaram enquanto chocavam-se contra as paredes, até Rodrigo desligar os motores.
Quando tudo parou, relaxou reconstando-se em sua poltrona de couro de barak. Estava sentindo-se completamente acabado.
****
Eram aviões diferentes e rápidos. Passaram pelos caças rebeldes como se estes estivessem parados, e em minutos estavam na capital. Sobrevoaram a cidade, assustando a população, circundaram o Palácio Real e voltaram.
O Líder da Oposição olhava tudo da sacada da Sala de Audiências. Temeroso, chamara o Estado-Maior para uma reunião, e agora, atrás dele à espera, estavam seus generais.
O Ti-lemântico de óculos virou-se para seus subordinados:
- Nunca vi aviões tão rápidos! Quem são eles?
O segundo em comando na hierarquia dos rebeldes aproximou-se:
- Ainda não sabemos. Nossos cientistas afirmam que eles são de outros...Reinos.
Ao contrário do rei Visten, que julgava não existir vida civilizada além das fronteiras de Ti-Leman, o líder oposicionista que agora era o governo sabia que existiam outros lemânticos espalhados por Tarínia. Afirmou, olhando os aviões afastando-se da cidade:
- Creio que cometi uma enorme besteira em bombardear o castelo de Martogh.
- Porquê? - Foi a pergunta de seu braço direito, o general Artigh A-Zot.
- Deixando que os humanos descobrissem onde aquele castelo ficava, pensei em acabar de vez com aquela construção malévola...Se ela existisse mesmo. E, como vimos, o castelo não era lenda...Mas creio que atraímos as atenções de outros...Outros que, como pudemos ver, são mais poderosos do que nós...
Os generais e coronéis do Estado-Maior rebelde que tomara o poder em Ti-Leman passaram a discutir fervorosamente na Sala de Audiências. O Líder da Oposição fêz um sinal e todos aquietaram-se.
- Temo que nosso país esteja em perigo, agora...As esquadrilhas já estão de volta?
O general Artigh respondeu:
- Sim, senhor. Todas elas, inclusive os caças que ajudaram no ataque ao castelo.
- Ótimo. Quero que mande o fracassado coronel que liderava a esquadrilha de ataque e que deixou os humanos fugirem seja jogado aos baraks. Quanto a tenente Ivar Ti-Adef, a primeira a atacar o veículo daquele ser que diz ser Atron, quero-a sob correntes em meus aposentos...Vou puní-la pessoalmente!
O Estado-Maior ficou agitado. Artigh A-Zot tentou argumentar:
- Senhor! Estamos agindo como o rei! Não podemos...
- Cale-se, se não quiser ser jogado aos baraks também! Obedeça! E quero que descubra tudo o que puder sobre aqueles aviões estrangeiros...Além disso, quero saber se as tropas já invadiram o hospital!
O general usou seu rádio pessoal para falar com o tenente que invadia o prédio magenta onde Rodrigo, Janaína e Miriam tinham acabado de pousar. Depois informou ao Líder:
- Senhor, os humanos não estão mais no sotão do hospital, estamos fazendo uma busca completa. Aquele outro macho humano que ficou com a fêmea ferida também está desaparecido...Mas vamos achá-los!
O Ti-lemântico de óculo virou-se para Artigh:
- Se eles fugirem de novo, você será jogado aos baraks!
****
Michael Snaker não era bobo e deixara um aviso camuflado no quarto onde estivera no hospital, indicando para onde seguiria. Escreveu em solanês na parede, com uma caneta lemântica, que tomaria o elevador e que estava achando que foram traídos...O que era verdade. Quando os três humanos feridos lá chegaram, assustaram-se com a possibilidade do cientista e de sua mulher terem sidos capturados ou mortos pelos rebeldes. Mas Janaína, com sua visão aguçada e seu espírito de policial, atenta à detalhes, achou o recado:
- O Mike não iria ficar parado vendo os soldados entrarem aqui como doidos. Mas como será que a Dirana está?
Fazendo um sinal para descerem as escadas, Rodrigo comentou:
- Pode ver que não há tomadas elétrica em nenhum lugar...Tudo aqui funciona na base de baterias. Os aparelhos que mantinham viva a Dirana devem ser portáteis, porisso creio que o Mike a levou com cama e tudo. Vamos, não temos tempo a perder...
Mesmo cansados e muito feridos, com as metralhadoras preparadas, desceram correndo as escadas. Ouviam a agitação do lado de fora, sabiam que tropas rebeldes estavam chegando e que o hospital logo se transformaria em um campo de guerra.
Conseguiram atingir o subsolo antes que os Ti-lemânticos descobrissem para onde foram. Chegando na estação de trem subterrânea abandonada, ficaram num dilema: para onde seguir?
- Vocês duas vão pelos trilhos à direita. Eu procuro à esquerda.
Dividiram-se assim. Rod logo viu o depósito de velhas locomotivas e lá estava, acenando para ele, Michael. O rapaz de olhos verdes sorriu e correu até seu amigo.
- Quando o vi chegar, nem pude acreditar! Você está péssimo!
Rodrigo o abraçou rapidamente e foi olhar Dirana de Santívia, em coma na cama.
- Você nem imagina as coisas por qual passamos, mas depois eu o atualizo. Como está ela?
- Nem sei como ainda está viva...E então, pode ajudá-la?
O rosto do cientista denotava profunda ansiedade.
- Posso. Segure aqui.- Rod deu sua metralhadora à Mike - Não estranhe o que eu vou fazer...Ah, vá chamar a Miriam e a Jan...Elas seguiram para o outro lado.
Michael Snaker deixou Rodrigo Maulson com sua mulher e foi chamar as outras duas. Rod colocou as mãos espalmadas sobre a cabeça da alfana e começou a dizer:
- Astigard...Madkar...Isdriiash...
****
- Senhor, nosso sistema de radar capta uma imensa quantidade de aviões...Estrangeiros. Estão vindo de algum lugar além do castelo de Martogh em alta velocidade. - Quem informava era o Chefe das Operações Aéreas.
O Líder da Oposição apenas o encarou, sem nada dizer. Seu braço direito, o general Artigh A-Zot, suspirou:
- O que faremos, senhor? Nossos caças não podem combatê-los...
- Quero todas as esquadrilhas no ar, atacando em peso!
- Mas senhor...
- Nada de "mas", general! Não quero sua opinião! Mande tudo o que temos contra esses...Esses...Esses invasores, seja lá quem forem. Agora, com licença...
Artigh e o Chefe das Operações Aéreas se entreolharam.
Enquanto observava o Líder deixar a Sala de Audiências, o general tomou uma decisão. Afinal, era claro que aquele sujeitinho de óculos ficara louco!
- Tente entrar em contato com os estrangeiros, e ordene que todos os nossos aviões de combate retornem às bases.
O outro Ti-lemântico ficou indeciso:
- General, o Líder...
- Creio que até você percebeu que ele não está em seu normal. Agora, obedeça!
- Sim, senhor!
Artigh A-Zot saiu para a sacada e ao longe pôde divisar os aviões estrangeiros chegando...Depois de anos, um novo contato com os lemânticos que se dispersaram por tôda Tarínia. Muitos em Ti-Leman não acreditavam que existiam, mas parecia que a destruição do castelo de Martogh despertara a atenção deles...
O poder havia subido à cabeça do Líder da Oposição. Agora, com a chegada de forasteiros mais poderosos e sem saber suas intenções, era hora de assumir. O general convocaria o Estado-Maior dos rebeldes e explicaria a situação, afinal todos estavam descontentes com o comando do Líder deste a morte do rei Visten.
- Localizamos os humanos! - Foi o que ouviu pelo rádio.
Livro II - A Busca - Capítulo XV.
Para Dirana de Santívia era como um despertar. Tentou respirar fundo e olhar em volta...E percebeu que isso era impossível. Parecia-lhe que não tinha nenhum controle sobre seu corpo. E não tinha mesmo. Tentou olhar para si: não conseguia! Começou a ficar desesperada quando ouviu uma voz dentro de sua mente:
- Acalme-se e relaxe. Você não pode fazer nada. Está dentro de mim, Rodrigo Maulson.
Rod olhou para o cadáver de Dirana de Santívia, falecida à poucos minutos.
Ela tomou um choque. O jovem rapaz sentiu também, estavam juntos dentro do mesmo "invólucro" biológico.
- Ei, calma. Você não morreu ainda...Só esse corpo clonado. Seu corpo original está lá na Via Láctea, lembra-se? Tive de capturar sua alma para poder levá-la de volta...Você caiu do avião quando nos acidentamos na floresta...
Era muita coisa para a alfana assimilar. Ela "apagou".
- Bem, pelo menos agora você vai ficar quieta por um tempo. - O jovem falou em voz alta. Estava achando que Mike, Jan e Miriam estavam demorando muito. - É hora de irmos embora deste país de malucos!
Porém uma tropa rebelde avançava em sua direção. Eram muitos.
- Merda! Tomara que Mike e as garotas tenham fugido!
Rodrigo Pereira Maulson subiu em uma locomotiva abandonada. Na cabine, olhou para o painel. Não era tão velha assim e fazia pouco tempo que fôra desativada, mas suas baterias ainda continham energia. Uma luz piscava mostrando isso. E havia bastante combustível vegetal nos tanques.
- Mas que sorte! Bem, o Grande Deus do Universo quer mesmo que eu volte para a Via Láctea e vá destruir Zonos! Vejamos se eu consigo por essa coisa para andar...
Rod leu as informações do painel em demanedo. Ouvia a aproximação dos soldados e sabia que tinha pouco tempo. Deixara as feridas, a sede e o cansaço de lado e experimentou os comandos. Apertou um botão azul e o motor rangeu...Mas não pegou.
- Aí é querer demais!
O rapaz loiro falava sozinho. A alma de Dirana estava dentro dele, mas "apagada". Rod examinou os fios, olhou em volta, e já ouvia a conversa dos rebeldes.
- Vamos, máquina! Minha metralhadora ficou com o Mike! Vamos, pegue!
Tentou de novo. A enorme locomotiva rangeu e estrebuchou, chamando a atenção da tropa que estava na entrada do depósito. Entraram correndo de armas em punho. Dois rebeldes aproximaram-se da máquina, e esta os deixou pretos com uma lufada de fumaça.
A "engenhoca" andou para trás, batendo em outra locomotiva e as duas derrubaram uma parede.
- Oops!
Rodrigo empurrou uma alavanca para a frente e o conjunto voltou, fazendo os soldados atirarem e fugirem em desespero. Engatadas, as duas máquinas deixaram o depósito, e as metralhadoras furaram a carroceria de ambas e quebraram seus vidros. Escondido, o jovem milionário ria-se e acelerava cada vez mais, na direção onde Mike e as garotas deveriam estar. Aquele "trem" era alvo agora de todos os rebeldes.
Uma granada destruiu a cabine da segunda locomotiva.
Maulson arriscou-se a olhar e viu os trilhos serem desocupados rapidamente. Acendeu as luzes frontais e acelerou ainda mais. Onde estariam os outros?
Na plataforma da estação do hospital, Michael Snaker aproveitou-se da distração de seus captores. Três Ti-lemânticos haviam capturado Miriam, Janaína e ele, mas agora todos ficaram surpresos com a aparição daquele "trem" inusitado. O cientista, sabendo lutar como ninguém zarioa, derrubou um dos rebeldes nos trilhos, tomou a metralhadora de outro e metralhou-os. O último foi dominado e posto a nocaute por Janaína Ranadi, excelente policial, e Miriam Adrialli, que era como um Rodrigo de saias.
Rodrigo Maulson vira tudo. Passou por cima do corpo do soldado metralhado. Parou a locomotiva. Abriu a porta:
- Todos à bordo! Destino: teletransporte! Mantenham suas passagens em mãos!
Entre risos, os três humanos embarcaram na cabine. Rod acelerou. Atrás deles, as tropas de rebeldes disparavam sem parar. Uma granada explodiu na plataforma.
A segunda locomotiva servia-lhes de escudo. Saiu dos trilhos com outra explosão. O "trem" estremeceu.
Lendo o painel em demanedo, o rapaz milionário aprendeu a desengatar a outra máquina e assim o fêz. Acelerou tudo que podia e os humanos desapareceram pelo túnel.
- Dirana...Ela...Ela... - Mike não sabia o que esperar.
- Ela está dentro de mim. Sua alma. Eu posso, uma vez em cada "vida", transportar alguém dentro de meu corpo, e Dirana agora vai de carona até a Via Láctea.
Janaína olhava para traseira da locomotiva, pela janela, com uma metralhadora tomada de um rebelde:
- Mas, como você sabe o caminho para o teletransporte?
- Eu não sei. Não tenho idéia. Mas fugimos, não fugimos?
Michael ficou olhando para Rodrigo. Este riu-se:
- Não, Mike, você não vai vê-la. Além do mais, ela está...Hummm...Desacordada. Assustou-se com tudo isso. Mas estará bem se voltarmos logo.
Atravessaram a capital de Ti-Leman por baixo. Não tinham idéia de onde aqueles trilhos os levariam...Ao menos conseguiram deixar para trás os soldados rebeldes.
****
O general Artigh A-Zot era justo, e o Estado-Maior dos rebeldes agora o apoiava. Mandara libertar todos os oficiais que o desequilibrado do Líder da Oposição, agora ex-líder, prendera e queria mandar executar. Inclusive a tenente Ivar Ti-Adef, que estava ao seu lado no aeroporto, esperando que algum dos estrangeiros descesse.
Os aviões, que não eram Ti-lemânticos, haviam pousado há pouco. O maior deles teve sua porta aberta e uma escada retrátil abriu-se. Um lemântico desceu, e fêz uma reverência quando aproximou-se. Disse em demanedo:
- É um prazer redescobrir a Cidade do Transporte Sagrado.
O general o olhou de cima a baixo: era ligeiramente diferente dos Ti-lemânticos.
- Eu sou o líder deste país no momento, general Artigh A-Zot ao seu dispor.
Ambos cerraram os punhos, que era o equivalente humano a "apertar as mãos".
- Há querberts que procuramos esta cidade, porém tínhamos medo de atravessar o castelo principal dos maithens. Mas vocês tiveram coragem e o destruíram...Seguimos seus aviões e os achamos, finalmente!
- Sejam bem-vindos à Ti-Leman! De onde são?
- Somos do reino de Lyter-Leman!
A tenente ouviu seu rádio e depois murmurou no ouvido do general:
- Senhor, os humanos conseguiram fugir pelo subway.
O general Artigh era um ser ponderado. Não desejava mais mortes, execuções e torturas em seu país, e até pensava em acabar com o Jogo da Vida...Porém os humanos representavam um risco. Sob o ponto de vista religioso, poderiam conturbar a sociedade de Ti-Leman...Ainda mais se um deles fosse mesmo Atron K-Rosam'vev. Não queria matá-los...Apenas deportá-los para além de suas fronteiras, e jamais permitir que usassem o Transporte Sagrado novamente. Não podia deixar que aqueles profanos voltassem ao Paraíso!
A tenente Ivar tirou-o do devaneio:
- Senhor, senhor...Estamos sendo indelicados com nossos visitantes!
- Ah, sim, desculpe-me. - Colocou a mão no ombro do novo amigo. - Mande seu pessoal desembarcar. Hoje será um grande dia! O reencontro de lemânticos espalhados por Tarínia!
- Ficamos contentes em sermos bem recebidos! - Disse o Lyter-lemântico.
- Vamos festejar! Ainda mais agora, que tomamos o poder...Nova vida para os lemânticos!
Todos sorriam. Enquanto o estrangeiro chamava seus companheiros, o general puxou a tenente de lado:
- Mandou que caçassem os humanos? Quero-os vivos...Se for possível.
- Sim, estão cercando todas as estações. Não fugirão!
- E quanto ao ex-Líder, aquele vermezinho de óculos?
Ivar ficara furiosa em ser presa a mando daquele Ti-lemântico horroroso.
- Todos os oficiais que ele mandou executar estão à sua procura, mas ele sumiu.
- Desgraçado! - O general mordeu o punho. - Só vai haver mais uma única execução em Ti-Leman...E será a dele!
****
Exausto, Rod explicara o funcionamento da locomotiva à Michael e deitara no colo de Janaína, que estava sentada no chão, apoiada na parede do fundo da cabine. Miriam dormira de puro cansaço, ao lado dos dois.
A baiana de cabelos loiros encaracolados fazia um cafuné em Rodrigo:
- Durma um pouco...
- Vou tentar, mas cada milímetro do meu corpo dói.
Ela sorriu para ele e trocaram um toque de lábios.
Michael olhava o túnel à frente, iluminado com esparsas lâmpadas verdes e pelo farol da frente da locomotiva.
- Rod, o que faremos? Para onde vamos? Já deixamos para trás duas estações cheias de soldados...
O jovem rapaz deu de ombros, de olhos fechados, e murmurou alguma coisa que o cientista não ouviu, ainda mais com o barulho enorme dos motores.
Mike suspirou. O que fariam para encontrar o prédio do teletransporte? A capital de Ti-Leman era imensa. E quantos mais teriam de matar para fugir...Não gostava de matar, e já havia acabado com dois...
- Sabem... - Disse, ainda olhando para frente, para o túnel. - Eu estou muito arrependido de ter metralhado aqueles dois soldados...Talvez eles fossem boas pessoas. Talvez...Sei lá. A vida deve ser preservada, não acham? Eu não queria atirar em ninguém, porém que opção nós tínhamos? E a adrenalina, a fúria e o nervosismo...
Virou-se. Os três estavam dormindo. Voltou a olhar para frente.
- É...Talvez eles tenham merecido mesmo...
Michael não sabia ler em demanedo, claro. Viu as placas em verde fosforescente seguirem-se uma após a outra e não deu atenção. Aquilo era grego para ele, portanto não reduziu a velocidade. Ignorou os avisos. E a última estação surgiu, esta pelo menos não tinha soldados armados na plataforma...Mas sim um paredão onde acabavam os trilhos.
Foi com um choque de adrenalina que Michael Snaker acionou os freios, que felizmente Rodrigo tinha mostrado onde era ao cientista. A locomotiva teve suas rodas de metal paralisadas e com faíscas ela deslizou até chocar-se contra o fim da linha.
Os pára-choques frontas amorteceram a batida e o único porém foi provocar o lançamento de Mike contra o pára-brisa, e o arremesso dos três adormecidos contra o painel frontal.
Rodrigo levantou-se assustado:
- Atire! Atire em todos!
- Calma...Calma...Foi só uma pequena batida. Todos estão vivos? - Perguntou Michael, também atordoado.
As duas mulheres responderam que sim, ambas a se levantar com mais dores do que já tinham. O jovem Maulson olhou em volta:
- Onde estamos?
- Deve ser a última estação. Passamos por sua plataforma e demos com o fim da linha. Mas não se preocupe, não vi soldados por aqui.
- Então vamos descer e investigar! - Disse Janaína, pegando sua metralhadora. Agora ela era a única armada do grupo.
Desembarcaram na estação. Era grande, com uma enorme escadaria dividida por três colunas, e obras de arte esculpidas nas paredes de pedra. Estava bem iluminada e o piso era de mármore, de um luxo inexistente nas outras estações.
Miriam foi a primeira a caminhar até a escadaria:
- Será que estamos no Palácio Real?
Janaína adiantou-se à ela e começou a subir lentamente segurando a metralhadora:
- A estação que vimos quando fugimos do rei, pelas catacumbas, estava em petição de miséria...
Rodrigo seguiu as duas junto com Michael. Também admirava o lugar:
- Deve ser outra, talvez a estação particular do rei.
Subiram lentamente. Os degrais eram revestidos de mármore azul, e o teto era de gesso trabalhado.
Rod começou a sentir seu pulso quebrado doer muito e agora o segurava. Mike tinha um galo na cabeça pelo choque da locomotiva e levava uma das mãos à testa. Miriam estava com o rosto deformado pelos cortes dos vidros do "helicóptero" e as costelas fraturadas que lhe provocavam intensa dor. Janaína, com seu ombro sangrando atingido de raspão por um tiro, também estava a um passo de se sentar ali e desistir de tudo.
Porém a única opção que tinham era continuar. Estavam sedentos, famintos, feridos e cansados. Embora já houvessem se acostumado com a gravidade maior e a atmosfera densa, seus corpos clonados estavam em seus respectivos limites.
Mas subiram a longa escadaria. Janaína então estacou, ela que liderava o grupo:
- Esperem! Ouçam...Estão cantando...Ou rezando...
- Sim. - Rodrigo emparelhou com ela. - Estranho...
Subiram mais. Finalmente saíram em um imenso salão, com teto abobadado, colunas ricamente trabalhadas, pinturas fantásticas nas paredes e...Ti-lemânticos, centenas deles, ajoelhados e rezando, cantando, de punhos fechados para cima e olhos vidrados.
- Onde estamos? - Michael Snaker ergueu sua sobrancelha esquerda.
- Não sei...- Respondeu-lhe Rodrigo. - Mas garanto que no palácio não é!
****
Milena, Irineu e Antônio estavam usando a realidade virtual que Bio lhes proporcionava. Amaram-se os três na lagoa de águas refrescantes banhados por uma maravilhosa cachoeira que não existia de verdade. Estavam cansados agora, depois de muita farra, e conversavam deitados numa pedra cheia de musgo.
- Acha mesmo que Rodrigo e os outros estão em alguma espécie de experiência, Iri?
- Não sei, Mi. Mas tenho certeza que entraram naqueles tubos porque queriam. Talvez seja algum tipo de realidade virtual mais elaborada, como aquela em que os sentidos são isolados...
Antônio ficou de lado com a cabeça apoiada na mão esquerda:
- Isso não se usa há muito tempo...Para falar a verdade, tôda esta estória está mau contada. Primeiro: o que viemos fazer aqui? Como Rodrigo sabia que íamos achar estas ruínas?
Milena:
- Ele não sabia. Está atrás de uma estrela verde.
- Não tem nenhuma por perto.
- Mesmo assim. Para que preocupar-se, Tony? O 'Driguinho sabe o que faz.
Irineu levantou-se e preparou-se para mergulhar.
- Olha...Eu acho que ele está numa virtual dessa estrela verde, atrás de algum tesouro ou sei lá. Vamos dar mais um dia, depois fugimos daquele iate italiano e voltamos para a UniCiv pedir ajuda. O Rod deixou-me no comando e não disse mais nada, porisso acho que ele não ia querer que o largássemos aqui.
O piloto da Squalus mergulhou. Quase não distingüia o prazer da água gelada em torno de seu corpo na realidade virtual, de um mergulho de verdade.
- Segundo... - prosseguiu Antônio - acho simplesmente impossível ser coincidência aquela tal de Miriam Adrialli ter vindo aqui.
Milena ficou de bruços na pedra, deixando o sol virtual acalentar seu corpo.
- Olha, que me importa se ela veio atrás de algum tesouro também...Na verdade, acho que nem ela, nem sua tripulação, querem nos machucar...Só estão protegendo seja lá o que for naquele prédio. Para falar a verdade, minha opinião é que devemos esperar...Foi o que o Bio disse. E o Toshio também, ele mesmo revelou que uma das últimas coisas que Michael disse era que descobriram algum tipo de teletransporte...
Tony suspirou.
- É...Deixa para lá...Vamos esperar. Enquanto isso, venha, minha neguinha querida...
- De novo? Ah, não, deixa eu descansar, vocês dois são insaciáveis...
****
Novamente a capital de Ti-Leman estava agitada. A população queria conhecer os estrangeiros, e além disso já conclamavam a liderança do general, esquecendo-se rapidamente do problemático ex-Líder da Oposição.
O povo estava em festa.
Todavia os soldados rebeldes continuavam as buscas pelos humanos. Havia uma bifurcação na linha do subway...E para sorte (mais uma vez) dos humanos, a tropa seguiu o caminho errado. Outros rebeldes tomaram a última estação...Da linha errada. Só quando os que vinham pelo túnel encontraram os que estavam na plataforma, é que se deram conta do erro. O tenente, no comando da operação, falou para seus sargentos:
- Esqueçemos da antiga estação do Templo Atrônico! Eles só podem estar lá!
****
E estavam. Os quatro humanos, Rod, Jan, Mike e Miriam, só perceberam que estavam num templo quando viram o altar, e nele, comandando os cânticos e as orações, um sacerdote, um Ti-lemântico de dois metros de altura, de pele negra, olhos escuros e muita empatia.
Erguia os braços e fazia invocações.
Olhando em torno do templo, Rodrigo admirou a obra-prima que era: um luxo e um bom gosto indescritíveis. Mas então Miriam o tocou no braço:
- Veja de quem são as imagens no altar.
A boca do jovem milionário caiu. Lá, imensa, estava a estátua de Atron e ao seu lado, a de Liany.
- Não, não pode ser! - Rod sacudia a cabeça.
- Mas é!
Michael aproximou-se:
- O que foi?
- Veja. Aquelas estátuas enormes no altar. Atron e Liany K-Rosam'vev. Era assim que éramos em nossas primeiras vidas, lemânticos majestosos...
Mike olhou para ele, incrédulo.
- Bem, amigo - disse, colocando a mão no ombro de Rod - acho que você e sua irmã viraram alguma espécie de deus.
Tentando não chamar a atenção, seguiram sorrateiramente até uma porta que dava para a parte detrás do altar. Não foi difícil: a multidão estava perdida em orações.
Havia uma sala bem decorada, com almofadas azuis confortáveis e obras de arte diversas: esculturas maravilhosas e afrescos brilhantes. Uma música suave estava ao fundo e incenso era queimado.
Michael foi o primeiro a entrar no aposento. Estava admirado com a semelhança das coisas Ti-lemânticas com as humanas, mas logo lembrou-se que os antigos marcianos haviam estado na Terra e ensinado os humanos em muitas coisas...Rodrigo lhe contara que a Terra era quase uma colônia de Leman na época em que os seres humanos ainda nem sequer tinham uma civilização.
Os outros entraram. Na parede oposta havia uma porta, e esta dava para uma pequena cozinha. Havia algo como uma geladeira, e de lá pegaram coisas que pareciam apetitosas. As comidas Ti-lemânticas eram gordurosas mas a fome de todos era grande, e devoraram tudo que encontraram, beberam tudo que era líquido.
Como os corpos clonados não possuíam relógios eletrônicos implantados em seus cérebros, não sabiam que horas eram, ainda mais que naquela estrela verde sempre parecia ser meio-dia a qualquer horário.
Porém, pela fome e o cansaço, já devia ser tarde da "noite". Após se regalarem na cozinha, procuraram algum lugar para poderem descançar e acharam um quarto com uma enorme cama de casal de dossel, no fundo daquele templo. Trancando a pesada e trabalhada porta de madeira, todos se acomodaram e desmaiaram de pura exaustão.
Dormiram pesadamente durante horas, sem saberem que eram vigiados. Estavam feridos e cansados demais para se importarem com qualquer coisa, e só foram despertar pela "manhã".
Michael Snaker era o mais "inteiro" de todos e foi o primeiro a despertar. Olhou a sua volta e tomou um susto ao ver um ser parado, de pé, a observá-los. Era o sacerdote que viram na noite anterior, o Ti-lemântico de pele negra e olhos escuros. Ele lhe sorriu e disse alguma coisa em demanedo que, obviamente, Mike não entendeu. Acordou Rodrigo sacudindo seu corpo:
- Ei, temos companhia. Veja.
Rod esfregou os olhos e olhou para o sacerdote.
- Olá! E você, pode entender-me?
- Sim. - Rodrigo levantou-se preparado para brigar. Olhou em volta, mas aquele sujeito era o único Ti-lemântico do recinto. - O que você quer? -Perguntou em demanedo.
- Quem de vocês é o grande Atron? E quem é Liany?
O jovem rapaz de cabelos loiros, agora desgrenhados, levantou-se e ficou diante do sacerdote. Bateu em seu peito:
- Sou eu. Atron K-Rosam'vev, antigo rei do Império Lemântico. Quem quer saber?
- Sou Inck Jo-wan, sacerdote do templo Atrônico e Liônico. - Disse isso e ajoelhou-se.
Rodrigo Maulson o fêz levantar-se e lhe disse:
- Quer me explicar o que se passa neste templo?
- Pois não. Você e sua irmã são os reis ancestrais do Império Lemântico, os semi-deuses que nos salvaram do demônio Zon e aqui é onde os veneramos. Soubemos de sua chegada e queríamos vê-lo, e também à sua irmã, porém o Líder da Oposição disse-nos que vocês não queriam nos ver, porque éramos indignos de sermos recebidos.
O milionário riu-se. Liany já estava acordada e ouvira tudo. Juntou-se ao seu irmão, e disse cruzando os braços:
- Olha, caro senhor, somos agora simples seres humanos, não somos semi-deuses e deixamos de mandar nos lemânticos há milênios.
- Isso mesmo! - Completou Rodrigo. - Somos pessoas comuns agora, e só queremos voltar para nossa galáxia.
O último termo o sacerdote não compreendera e pedira para repetirem. Continuou sem saber, o termo "galáxia" perdera o sentido para os Ti-lemânticos no decorrer dos querberts. E Tanto Rod quanto Miriam não conseguiram explicar-lhe, pois para ele aquilo não tinha nexo. Desistiram afinal. O jovem Maulson por fim disse-lhe:
- Olha, só queremos voltar ao...Paraíso, como vocês chamam. Pelo...Transporte Sagrado.
- Ah, claro. Aqui em Tarínia o povo não é digno de vocês, porisso querem voltar...
A italiana estava perdendo sua paciência:
- Não é nada disso. Acho que nós não somos dignos de vocês...Só queremos partir.
O sacerdote coçou a careca em cima da cabeça de formiga que possuía:
- Vocês, meus reis, são muito modestos e humildes. - Ajoelhou-se de novo. - Quero venerá-los pela eternidade, guardiães de Zon....
Rodrigo o fêz levantar-se mais uma vêz:
- Escute! Primeiro: é Zonos, e não Zon, e segundo, nem sequer fomos capazes de quardar a prisão daquele demônio como deveríamos. Pare com isso! Já lhe disse que não somos semi-deuses ou qualquer outra coisa...Somos apenas...Seus amigos...
Inck sorriu e resolveu calar-se. Para ele, os "semi-deuses" o estavam tratando com deferência.
Rodrigo Maulson caminhou até a janela retângular e alta e afastou as grossas cortinas, deixando a luz verde de Tarínia invadir o quarto, despertando Janaína. O rapaz então observou que o templo ficava um pouco afastado da capital, num morro, em meio à um gracioso bosque. Abriu as janelas e respirou o ar puro da atmosfera densa. No céu, o planeta de vários anéis estava em sua fase cheia, e se mostrava em toda sua plenitude.
Sem se virar, Rod perguntou ao sacerdote:
- Pode nos levar ao Transporte Sagrado? Precisamos voltar ao...Paraíso.
Inck Jo-Wan uniu as mãos:
- Claro. Mas é melhor esperarmos até o anoitecer, porque os soldados estão atrás de vocês. Não posso entender o porquê, contudo parece-me que o novo Líder, o general Artigh A-Zot, quer conversar com vocês...Porém, nunca confiei na Oposição, e, para falar a verdade, pessoalmente eu preferia o rei Visten.
- Novo Líder? - Janaína levantara-se e ajeitava os cabelos.
- Sim, o ex-Líder, o rapazinho de óculos, sumiu, fugiu. O general agora comanda as operações. Mas não vou deixá-lo falar com vocês...Nós, do templo, não gostamos dele.
- Ótimo! - Disse Rodrigo. - E eu não o conheço, mas sei que não gosto dele também. Ficaremos aqui então, até à noite. Pode nos acomodar?
- Mas é claro! Será um prazer...O povo irá reverenciá-los...
- NÃO! - Disseram juntos Rod e Miriam. - Queremos discrição. Não conte para ninguém que estamos aqui, está bem? - Completou a italiana.
- Está bem, então. Mas será uma grande pena. Porém, o desejo de vocês é uma ordem!
E retirou-se com uma reverência.
Livro II - A Busca - Capítulo XVI.
Janaína fôra tomar um banho enquanto Michael e Miriam resolveram explorar aquele templo magnífico. Rodrigo, deitado na cama, fechou os olhos, suspirou e relembrou aquela aventura tôda desde que chegaram à Tarínia. Sentia-se exausto, mesmo depois de uma "noite" de sono, simplesmente porque seu corpo clonado estava acabado.
Haviam almoçado bem, e agora a "tarde" estava avançada. Os soldados rebeldes foram iludidos por Inck Jo-Wan e não revistaram o templo, que consideravam sagrado. Com isso, Rod pôde relaxar.
Foi quando Dirana falou com ele:
- Rodrigo Maulson! Como minha alma foi parar dentro de seu...Corpo?
Na verdade, a conversa passava-se apenas em pensamentos. Quem olhasse de fora, veria somente um rapaz de cabelos loiros deitado na cama de olhos fechados.
- Era a única forma de salvá-la. Melhor do que explicar-lhe cada pormenor desta delicada operação, peço que acesse minhas memórias...Use-as como se fossem suas...E verá como você foi parar dentro de mim...
Dirana assim o fêz e logo entendeu o que se passava, além de compreender um pouco mais de Rodrigo Pereira Maulson, uma vez que agora eram uma só pessoa. Perguntou:
- Mas, como eu posso lembrar-me de tudo em minha vida, se minhas memórias se perderam quando meu corpo clonado morreu?
- Foram copiadas dentro de sua própria alma. Como acha que vieram de seu corpo original, que ficou na Via Láctea? Os circuitos sinápticos que gravam as memórias fisicamente no cérebro são facilmente acessíveis e podem ter seus dados copiados com facilidade.
- Impressionante! Jamais sequer pensei que algo assim fosse possível...Aquelas coisas de possessão demoníaca, fantasmas e...
- Tudo possível. Na verdade, tudo tem explicação científica, mas não a explicação normalmente dada pelos nossos cientistas. Como já dizia Shakespeare, "existem mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia". Na verdade, até a definição de realidade é uma coisa esquisita...Já existe realidade virtual criada em nossas mentes por computadores tão evoluídos que não podemos mais saber o que é real ou não.
Dirana usava as conexões nervosas do cérebro de Rod para pensar, e Rod sentia isso. Ela pensou e disse:
- É tão estranho viver a vida tôda como mulher e agora estar num corpo de um homem...
- Então você sabe o que passei nesses últimos quinze mil anos...Mas assim como minha irmã, que nasceu mulher, prefere estar em um corpo de mulher, eu, que nasci homem, prefiro corpos masculinos...Mas a alma não é masculina ou feminina, nós é que temos um determinado costume...
Dirana queria olhar-se, mas não tinha controle nenhum sobre Rodrigo.
- Ei, calma garota! - Tudo o que ele falava era apenas em pensamento. - Espere, vamos até aquele espelho...
Dirana olhou-se e sentiu-se estranha. Riu-se.
- O que foi? Porque está rindo?
- Eu sinto tudo o que você sente...Sinto até...Aquilo lá embaixo...
- Ah, bem...Isso é normal. Logo você se acostuma. Não, não, na verdade não haverá tempo de acostumar-se...Voltaremos hoje à noite e você terá seu belo corpo de volta.
Dirana de Santívia observou os pensamentos de Rodrigo Maulson.
- Espere aí! Você sente uma certa atração por mim, não sente?
- Eu amo a Janaína...O que você observou é apenas uma reação da parte mais primitiva de meu cérebro, pela sua beleza física. Quando lembrei-me de você...
- Estou ficando confusa! Pare, segure seus pensamentos!
Rod relaxou e pensou em outra coisa. Dirana então riu-se novamente.
- Posso lhe pedir uma coisa?
- Claro, se for algo que eu possa fazer...
- Tire a roupa!
O jovem rapaz riu-se a valer e despiu-se. Dirana observou o espelho e experimentou sensações que nunca sentira antes. Estava assombrada com o que acontecia, e aqueles sentimentos conseguiram acelerar o coração de Rodrigo e excitá-lo.
- Ei, garota, vá com calma!
Ocorreu uma idéia maluca à alfana:
- Você ama mesmo a Janaína, não ama?
- Claro que sim... - Então o jovem milionário teve acesso aos pensamentos e à memória de Dirana, e relembrou com ela os momentos íntimos que teve com Jan.
- Bem... - Rod disse, cauteloso. - Minha baianinha contara-me à respeito de vocês duas, mas eu não pensei que tivessem chegado às vias de fato desse jeito...E na Squalus! Que traição! Enquanto eu dormia...
- Ela nunca o traiu. Ela o ama demais. E agora eu só queria lhe pedir uma coisa...E prometo que jamais colocar-me-ei novamente entre você e ela...
O rapaz passou as mãos pelos cabelos e admirou os próprios olhos verdes no espelho. Ele sabia o que Dirana queria. E ela sentiu, "ouviu", os pensamentos dele.
- Sim. Não é pedir muito, é?
Rodrigo disse ou invés de só pensar:
- Mas será que a Jan vai concordar?
- Concordar com o quê? - Ouviu-se uma terceira voz.
A baiana linda e maravilhosa, com os cabelos molhados e envolta em uma toalha roxa lemântica, sorria para Rodrigo. Ela aproximou-se e trocaram um beijo caloroso de língua.
Dirana sentia o que Rod sentia. Era tudo que ela queria.
Deitaram-se na grande cama de dossel. A alfana agora saberia o que era ser um rapaz...Com a mulher que gostava tanto...Na pele do homem que amava essa mulher...
Rodrigo, ou Atron, jogou longe a toalha. Tomou-lhe os seios em forma de pêra nas mãos e depois desceu a língua pela barriga lisinha e de pêlos dourados até a parte mais quente de Janaína. Ela gemeu como uma completa maluca. Dirana também. Rodrigo deitou-se de costas na cama e Janaína retribuiu-lhe a gentileza, aplicando-lhe sua boca com destreza. O rapaz, por fim, ficou sobre ela e a possuiu selvagemente, enquanto Dirana multiplicava-lhe o prazer, sentindo coisas que jamais sentira na vida. O primeiro tempo daquele jogo acabou quando os três viajaram na velocidade da luz, sem sair do lugar. E olha que aquilo tudo foi só o primeiro tempo...
****
Era "noite". Michael Snaker e Miriam Adrialli haviam explorado todo o templo fantástico e quando voltaram ao quarto, já o dia tinha se findado. Com sorrisos marotos, olhando pela grande janela e conversando, Rodrigo Maulson e Janaína Ranadi trocavam idéias casualmente.
O cientista estava animado com o que vira e falava sem parar. Miriam também, e disse que lêra, em demanedo, o que havia acontecido ali milênios atrás.
- Estava tudo naquele livro antigo, gravado em suas páginas de metal. - Disse a italiana. - Foi a poluição! A colônia, aquele planeta que os daqui chamam de Paraíso, e onde a Squalus e a Tirreno estão pousadas, era a maior nação lemântica sobrevivente à destruição de Zonos.
Rodrigo estava interessado. Dirana ouvia de lambuja:
- Quer dizer que a colônia inteira resistiu e desenvolveu-se por si mesma?
- Exato! Por causa da Nebulosa do Escaravelho, Zonos não atingiu o planeta, cujo nome original era Mneman. Só que ficaram isolados, sozinhos, e sem a tecnologia para manter as naves espaciais que sobraram, quando o Império Lemântico caiu, começaram a regredir. As usinas de força que usavam o calor do planeta eram poucas, e o desenvolvimento deu-se com fontes de força baseadas em carvão e petróleo. Logo as indústrias, veículos à combustão e outras coisas poluentes acabaram com o meio-ambiente do planeta. Os lemânticos tiveram de abandonar em peso Mneman, e como não tinham mais as naves, migraram para cá através do teletransporte, isso há milhares de anos...Pelas minhas contas, foi há 2.700 anos atrás, mais ou menos.
Michael Snaker sentara-se na cama e tirara as sandálias, descansando os pés.
- Incrível, mas jogaram o planeta às traças e vieram incomodar os moribundos maithens.
Miriam assentiu com a cabeça e prosseguiu:
- Agora, depois de tanto tempo, o planeta recuperou-se sozinho. Mas os lemânticos que aqui vieram, e que largaram seus corpos em milhões de tubos nos subterrâneos das cidades abandonadas, invadiram Tarínia...E houve um choque com os remanescentes maithens. Porisso criou-se o ódio por eles. Então os lemânticos espalharam-se por esta estrela, depois entraram em guerra...Conhecimento e História se perderam...E agora as coisas estão como estão.
Janaína estava perplexa:
- Quer dizer que existe um montão de tubos com corpos de lemânticos mortos debaixo de todo aquele planeta? Como se chama...Mneman?
- Isso mesmo. O nome do Paraíso...E a lenda acabou sendo criada. Imaginem! O Paraíso era uma planeta que não mais suportava vida...
Rodrigo suspirou, enquanto olhava o bosque lá fora:
- Pois é! O tempo pode deturpar a História de um povo, ainda mais se existiram muitas batalhas no decorrer dos anos. Que coisa!
O sacerdote Inck Jo-Wan adentrou o recinto.
- Bem, senhores humanos, chegou a hora de voltarem à Mneman, o Paraíso.
Os quatro ajeitaram-se da melhor forma possível e seguiram o Ti-lemântico negro e pomposo até um veículo terrestre de janelas escuras. O próprio sacerdote guiou o carro pelas ruas em festa da capital, até uma estrada sinuosa e de terra que subiu um morro com árvores esparsas.
- Nunca imaginamos que esta velha construção poderia abrigar maithens e o teletransporte. - Disse Inck. - Quando vieram, um sinal tocou no palácio do rei Visten e todos ficamos sabendo a verdade.
O céu agora era de um verde intenso e sem nuvens.
Rodrigo Maulson desceu do carro e admirou a construção do teletransporte. Quando chegaram, não tivera essa oportunidade, pois fôra posto fora de combate na invasão da turba de Ti-lemânticos enfurecidos.
Havia a mesma antena, quase parabólica, no alto. E se fosse possível ver-se estrelas no céu, haveria de vislumbrar a espiral da Via Láctea.
Subiram a cumprida e estreita escadaria e passaram pela porta de madeira aberta. Surpreendentemente, não havia soldados rebeldes ali, todos estavam na festa. O encontro dos lemânticos e a tomada do poder pela Oposição estava sendo comemorada.
Passaram pelo mesmo corredor em que estiveram quando chegaram. E tiveram uma desagradável surpresa ao atingirem a câmara dos tubos.
Um deles estava ocupado. Um corpo com cabeça de formiga, sem antenas, revelou-se quando Miriam Adrialli pressionou o comando que tornava o tubo transparente. Usava óculos. Era o ex-Líder da Oposição.
- Devemos destruir o tubo e mandá-lo para o inferno? - Perguntou Janaína.
Rodrigo sacudiu a cabeça de forma negativa:
- Não. O corpo dele morre aqui, mas sua alma viverá em um corpo clonado na Via Láctea. Só se sua alma perder-se e seguir para o Além-Universo é que estará realmente morto.
Michael deitou-se em um tubo aberto e vazio.
- Bem, então vamos pegá-lo em Mneman. Voltemos ao...Paraíso!
Inck Jo-Wan segurou firme o braço de Rodrigo.
- Atron, veja! - E apontou um aparelho onde corriam símbolos estranhos.
O rapaz aproximou-se e examinou a coisa presa à parede.
- Parece...Uma bomba! O filho-da-puta do verme de óculos deixou uma bomba aqui! Mas não posso saber quanto falta...
O sacerdote tinha seus olhos arregalados:
- Faltam apenas quatro rerlers para explodir! Vão, acabou-se o tempo de vocês!
O Ti-lemântico correu em direção à saída. Rodrigo ajustou os controles do teletransporte enquanto Janaína e Miriam entravam em tubos vazios. O rapaz fêz o mesmo em seguida. Os tubos fecharam-se e o líquido branco os encobriu.
Foi o tempo de Inck Jo-Wan deixar o edifício. A bomba explodiu, e o teletransporte, do lado de Tarínia, não existia mais.
****
Quando, após acostumar-se com a gravidade e a pressão do ar menor, o ex-Líder da Oposição saiu do prédio em CCEN-3456/2, ou Mneman, deu de cara com Alan Merkov.
Um olhou para o outro, e ambos assustaram-se. Mas o segurança e secretário de Miriam Adrialli fôra treinado na melhor academia de Copernicus, e com uma rapidez impressionante disparou contra o Ti-lemântico.
Esta caiu inconsciente.
- Mas o que diabos será essa...Coisa? - Alan Perguntava à si mesmo.
Resolveu entrar no edifício do teletransporte.
****
O primeiro a "chegar" foi Michael Snaker. Quando seu tubo abriu, uma onda de vapor quente secou seu corpo e suas roupas. Sentindo-se meio "amarrotado", levantou-se e tentou andar, mas caiu meio curvado e atordoado. O segundo tubo a abrir-se em meio a uma nuvem de fumaça branca foi o de Janaína. Enquanto ela tentava levantar-se, assustou-se com a visão de Alan Merkov.
O segurança olhava os dois atônito. Mas segurava firme seu xaser contra eles.
Miriam Adrialli foi a próxima. Quando seus pensamentos entraram em foco, disse:
- Ei, Alan, está tudo bem. São todos amigos. Abaixe essa arma e chame ajuda pelo rádio, podemos precisar de um médico por aqui.
Michael estava na expectativa: será que Dirana estaria bem? Ela viveria?
Enquanto Alan Merkov obedecia às ordens da italiana, o quarto tubo abriu-se soltando muito vapor. Com seus cabelos cor-de-rosa curtos, seu corpo escultural e seus olhos rosáceos, Dirana de Santívia espreguiçou-se e levantou-se.
- Olá, Mike!
Abraçaram-se e beijaram-se. Miriam sorriu e olhou para Alan, que fêz sinal de que não estava entendendo nada.
O último tubo liberou Rodrigo Maulson.
- Que bom! Parece-me que todos estão a salvo! - Ele tentou ficar de pé, titubeou, mas conseguiu. Estava atordoado também. Respirou fundo, e percebeu com alegria que estavam de volta à Via Láctea, em Mneman. A gravidade menor e o ar melhor, além da ausência dos inúmeros ferimentos adquiridos em Tarínia, o fizeram sentir-se tão bem que puxou Janaína para si e a beijou.
Miriam Adrialli sacudiu a cabeça satisfeita e aproximou-se de Alan Merkov. Teve de ficar na ponta dos pés para beijar o rosto do grandalhão, que ainda inclinou-se um pouco.
- Só faltava você, meu protetor, ganhar um beijo...
A baiana de cabelos dourados foi a primeira a lembrar-se doLíder da Oposição.
- Arre! Aquele verme de óculos deve estar aqui em algum lugar...
Todos olharam em volta, apreensivos. Miriam perguntou ao seu segurança:
- Ei, você por acaso não viu um monstrinho de cabeça de formiga, grandes olhos cor de violeta e óculos colossais?
- Apaguei um alienígena assim na entrada, mas ele estava nu e não usava óculos...
Todos riram. Logicamente o teletransporte não gerava nada além de um clone.
Michael afagava sua tão prezada barba e estava feliz em tê-la de volta.
- Vamos, vamos aprisionar o verme e voltar para nossa nave...Comi bastante antes de deixarmos Tarínia, mas este meu corpo original está faminto...
****
A tarde era linda e transcorria tranqüila em Mneman, onde ambos os sóis estavam a iluminar o céu azul e de poucas nuvens, deixando a cidade antiga e em ruínas brilhante e maravilhosa.
De onde estava, no alto de um prédio, Rod admirava os sóis a trocar matéria no céu, os sinais fracos da Nebulosa do Escaravelho, a imensa cidade fantasma dos lemânticos estendendo-se até o horizonte e os dois iates, um preto de filetes dourados e outro branco de faixas azuis, pousados na praça central.
Para ele, que estava no fuso horário de sua nave, eram pouco mais de nove da manhã. Tinha dormido bem e se alimentado. Sentia-se feliz, mesmo sabendo que ele e sua irmã, Liany, ou Miriam Adrialli, tinham uma missão bem difícil pela frente.
Michael Snaker juntou-se à ele:
- E então? Quando vamos partir? Já catalogamos tudo o que pudemos, e a Squalus está preparada para a longa viagem de volta. Tenho certeza que a Espiral vai ficar contente com os dados que coletamos sobre Mneman.
- E vai adorar explorar este planeta.
- Vai. Mas veja: aqueles sóis estão agonizando. Eu dou apenas mais alguns milênios de vida para este sistema estelar. É uma pena.
Rodrigo concordou. Disse sem se virar, ainda admirando a paisagem:
- E o que vamos fazer com o Ti-lemântico?
- A Espiral já conhece boa parte do demanedo, de modo que é provável que consiga se comunicar com aquele ser...Eu acho que no final ele pode revelar seu segredo.
- Também acho. E agora, mais do que nunca, preciso manter sigilo sobre eu ser Atron e Miriam ser Liany. Se alguém, além de você, da Jan e da Dirana, souber sobre Zonos, pode ser que queira libertá-lo...Você sabe, ser aliado do "Imperador Negativo" pode trazer grandes vantagens.
Michael cofiou a barba preta:
- O melhor que temos a fazer é manter seu segredo, e o de Miriam, ocultos...O risco é grande demais, se a estória vazar, com certeza haverá alguém ganancioso o suficiente para tentar chegar até Zonos. Eu creio que temos...de nos livrar do ex-Líder da Oposição.
Rod suspirou:
- Não vejo outra saída, porém não sou um assassino. Não quero matar ninguém!
Michael o encarou:
- Tem alguma idéia melhor? Lembre-se: o Grupo Local inteiro está em risco, bilhões, talvez trilhões de estrelas poderiam cair nas mãos de Zonos...
O jovem milionário ficou pensativo.
- Eu tenho uma idéia...Mas, primeiro, preciso descobrir uma coisa...
Levantou-se, Michael, perplexo, o seguiu. Rodrigo desceu pelas escadarias do edifício abandonado e seguiu em direção ao teletransporte, sempre com o cientista ao seu lado. No salão onde estavam os tubos e os controles, já dentro do prédio com a antena parabólica em cima, Rod procurou ler as instruções que estavam exibidas na tela do biocomputador do lugar.
Os lemânticos usavam um tablado de tungstênio que exibia informações conforme o arranjo molecular em sua superfície, ao contrário das telas ultra-finas a gás da UniCiv. O milionário leu os caracteres cuneiformes em arranjos binários da linguagem demanedo e tentou descobrir se aquela maquinaria tôda podia transportar almas para algum outro lugar que não Tarínia.
Pretendia "matar dois coelhos com uma cajadada só": Queria enviar a alma do ex-Líder para outro lugar, bem longe das mãos da Espiral, e ver se poderia ser teletransportado para Tirênia, a estrela verde próxima ao centro da Via Láctea, onde deveria estar Zonos. Mas nada disso era possível. Explicou o que procurava a Mike e completou, desanimado:
- Este teletransporte só funcionava com a conexão em Tarínia. Agora que o lado de lá está destruído, não serve para mais nada.
- Seria muita sorte que pudesse atingir Tirênia a partir daqui. Bom...isso nos deixa ainda com uma questão: o quê faremos com o Ti-lemântico?
- Creio que vocês não precisam mais se preocupar com ele. - Era Janaína Ranadi.
Sorrindo para os dois homens surpresos, ela ajeitou os cabelos encaracolados e olhou em torno do salão, admirando-o.
- Estamos esperando uma explicação... - Disse Rod.
- Dirana resolveu o problema sozinha: deixou-o escapar e descobrir a verdadeira natureza do "Paraíso" que ele imaginava existir por aqui. Bem, quando o pobre coitado percebeu que estava numa galáxia onde os lemânticos não existem mais, e que Mneman nada mais era que um planeta repleto de cidades em ruínas, ele fêz o que qualquer covarde faria...
- Suicidou-se... - Completou Michael.
- Isso mesmo. Jogou-se do alto de um prédio. Não será mais problema para nós.
Rodrigo sacudiu a cabeça:
- A Dirana sempre acha um jeito para tudo...
****
Estava na hora de partirem. Miriam, à frente da Tirreno, e Rod, à frente da Squalus, conversavam. A italiana olhou para seu iate:
- Nossa nave está intacta, porisso vamos na frente. Chegaremos bem antes à UniCiv, e eu pretendo ir direto para Daryani, investigar sobre o deus deles, Ütarash. Talvez eu consiga descobrir alguma pista sobre as esferas brancas.
- Ótimo. Eu voltarei para a Terra. Tenho de ver como andam meus negócios na Maulson Interplanets, e aproveitarei para começar uma investigação sobre o ser do "Bem Supremo". Depois entraremos em contato...Creio que a Espiral vai ter muitas perguntas para nós, sobre este planeta.
Irineu aproximou-se dos dois:
- Posso lhe fazer uma pergunta, senhorita Miriam?
- Claro.
- Onde foi parar seu sotaque italiano? Sim, porque seu solanês era pontuado de palavras...
- Estava só disfarçando. Falo solanês perfeitamente. E desculpem-me pelo transtorno causado pelo Alan e pela minha tripulação...Não queríamos que ninguém interrompesse a nossa pesquisa.
Conforme haviam dito à todos que não os que foram para Tarínia, aquele prédio não era um teletransporte, e sim um sistema de arquivos avançado com realidade virtual. E o tempo que passaram nos tubos foi gasto numa pesquisa sobre Mneman. Não era a melhor das mentiras, mas os tripulantes aceitaram bem e todos queriam mesmo era voltar para casa.
Com um beijo de irmãos, Rod e Miriam despediram-se. Irineu e seu chefe ficaram observando a Tirreno decolar suavemente, por repulsão de gravidade, e silenciosamente alçar vôo tomando os céus com entusiasmo.
- Bem, vamos embora. Minha busca acabou.
"A primeira, pelo menos" - Pensou Rodrigo.
Embarcaram na Squalus, cuja rampa dianteira fechou-se em seguida, e o iate levitou, aprumou-se e subiu rapidamente, ganhando o espaço exterior em poucos minutos.
Conectou-se com seus geradores wormhole em órbita. Deixou CCEN-3456/2, ou Mneman, para trás e singrou o ante-espaço até entrar na Nebulosa do Escaravelho. Estavam voltando para a UniCiv. Levariam duas semanas e meia para chegar até a Estação de Fronteira mais próxima, pois só tinham dois motores funcionando.
****
Não foram duas semanas e meia tão ruins assim. Bio podia não estar totalmente operacional, mas gerava ótimas realidades virtuais à todos que o procuravam. A massa alimentar da nave esgotava-se com rapidez, mas foi suficiente para não passarem fome até a E.F. 352, o posto da UniCiv mais perto da nebulosa que encontraram. No tempo todo em que estiveram voltando, Dirana de Santívia evitou Rodrigo e Janaína. Sentia-se um tanto envergonhada, além disso, após ter acesso as mémorias recentes do jovem milionário, não mais o julgava arrogante e chato, mas não queria dar o braço a torcer.
Ficou mais tempo com Michael na virtual do que deu as caras pela pequena nave. Mike, feliz e satisfeito, disse à Rod que estava curtindo "uma nova Lua de Mel"...
Antônio e Milena se acertaram, e Irineu preferiu afastar-se dos dois. O piloto da Squalus decidiu que havia outras garotas pela galáxia por quem se interessar. Allis Zeldor sentia-se bem em estar naquele iate, mas estava deprimida pela morte de Parkiv.
Lor-ti-neé ficou feliz em viver aquela aventura, e também sentiu-se contente em ajudar na descoberta de Mneman. Cuidava da Sala de Máquinas sem se preocupar.
Toshio Kato e o dary Parus Dorms ficaram muito amigos: um era oposto do outro, sendo que o japonês pouco falava enquanto Parus...
Outro casal que viveu um idílio foi Janaína e Rodrigo. Curtiram umas férias num chalé ao sopé de uma montanha enevada, na realidade virtual, é claro...
****
A Squalus deixou a Nebulosa do Escaravelho e aproximou-se da Estação de Fronteira 352 da UniCiv. Rodrigo Maulson, no comando, sentado à frente do painel central da ponte, pressionou a tecla do comunicador auxiliar, reparado por Lor-ti-neé para comunicações de curta distância:
- Iate estelar WDS-34569 chegando do Espaço Exterior com apenas dois motores, sem mais massa alimentar e danificado. Peço permissão para atracar.
- Permissão concedida. Já estávamos à sua espera, o iate estelar Tirreno nos informou sobre vocês...E sobre a descoberta de ruínas lemânticas num mundo além da nebulosa. Sejam bem-vindos!
Irineu manobrou a nave e atracou ao lado da estação, com seus anéis de aposentos circundando o eixo central cheio de janelas. Mesmo com a virtual, todos os tripulantes e passageiros da Squalus sentiram-se aliviados ao deixar o iate.
O comandante da estação em pessoa veio recebê-los. Um homem calvo e de barbas brancas, com um sorriso agradável. Apertou a mão de todos, depois virou-se para Rod:
- A descoberta de vocês foi fantástica. A Aristóteles está vindo para cá, e a capitã da nave, Nazirah Hassein, quer falar com o senhor.
- Será que demoram? Assim que meu iate estiver em condições, quero voltar para à Terra...
- Bem, é importante que fale com ela. A Espiral quer saber de todos os detalhes e a localização do planeta. Além do mais, existe um problema...
- Esse problema refere-se à mim? - Perguntou Michael Snaker.
O comandante da E.F. 352 suspirou:
- Sim...Eu o reconheci de imediato, doutor. A Polícia da União está à sua procura...E, mais uma coisa: fui informado que existe uma investigação pairando sobre o senhor, senhor Maulson. Bem, por tudo isso, não posso deixá-los partir.
Janaína adiantou-se e mostrou seu distintivo.
- Sou detetive da Polícia Solar, e encarregada da investigação sobre Rodrigo Maulson. Posso afirmar que é totalmente inocente.
- De qualquer forma não posso liberá-los, mas são bem-vindos aqui. Aproveitem as facilidades da estação. Garanto que serão muito bem tratados! Mas estou de mãos atadas até a chegada da Aristóteles e de alguém da UniPol ou da Força Azul.
- Ok, ok. - Disse Rod em tom apazigüador. - Pelo menos pode mostrar-me onde fica o sistema de rq mais próximo? Preciso saber como anda minha empresa.
- Claro. Venha por aqui.
Rodrigo virou-se para seus amigos:
- Podem se acomodar, creio que passaremos um bom tempo nesta estação até tudo se esclarecer. Por favor, dêem-me licença um momento.
Todos que estavam ali sentiram-se desanimar um pouco. Todos queriam voltar às suas vidas normais. Dirana disse à Rod antes de sumir pelo corredor com Mike:
- Ainda quero conversar bastante com você. Temos muito o que falar.
- Assim que for possível, se seu marido não se importar.
- Ora, Rod, vá logo falar com sua empresa...
Rodrigo acompanhou o comandante até o posto de rq público. Como estavam a cerca de 2.500 anos-luz da Terra, havia uma demora de quase uma hora e meia nas comunicações, de modo que Rod disse tudo o que queria de uma vez e aguardou no bar pela resposta.
Quando chegou, o rapaz de cabelos dourados sentou-se à frente da câmara holográfica. No cubículo escuro cheio de gás, a aparência quase real de uma sala dos escritórios da Maulson Interplanets surgiu, mas não era Herberto Fontes que estava ali.
Era o Gerente Geral de Operações, o venusiano Gonçallvez. Cofiando seu longo bigode grisalho, ele disse sem rodeios:
- Chefe, a situação está preta: seu braço direito, ele mesmo, o Herberto, aproveitou sua ausência e cometeu um desfalque de 200 milhões de creds na empresa. Podemos estar falidos, senhor Maulson! Volte para cá o mais rápido que puder! Rodrigo Pereira Maulson caiu de joelhos quando a mensagem se apagou.
Por: Vitor H.B. Ribeiro Direitos Reservados.
ATENÇÃO! - Esta obra de Ficção Científica é destinada ao público adulto recomendamos a leitura para
maiores de 18 anos. Qualquer cópia integral ou em trechos dos textos desta página e do conteúdo da obra,
para outra home page ou site é PROIBIDA. Qualquer dúvida, divergência ou esclarecimento entre em contato!
Todos os textos são protegidos pela lei 9.610/98* de Direitos Autorais em nome de Vitor H.B. Ribeiro -
Universo de Atron. Este arquivo é para uso privado e não visa lucro e nem venda.
|
|