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Naquele dia ver o nascer do sol tinha sido um momento especial em
minha vida. Saímos de Brasília logo pela manhã. Pegamos um veículo coletivo desgastado pelo tempo,
porém era a única opção naquela ocasião, estávamos na esburacada BR 242, indo em direção ao estado da Bahia.
Nosso consolo era que nossa volta seria muito mais confortável.
Eu particularmente estava ansioso para visitar a Chapada Diamantina
e nem ligava para os solavancos, aos quais eu estava um tanto desacostumado. Estava louco para chegar em meu
destino e ver aquelas paisagens e seus recantos pitorescos. Durante a viagem também podíamos ver belas paisagens
e pessoas exóticas.
Chegamos em Palmeiras, uma pequena cidade, na noite do segundo dia.
Depois de vasculhar as redondezas eu e Milton nos misturamos aos nativos, paramos em uma espécie de restaurante
de estrada onde desfrutamos gostos inusitados e testamos nosso paladar. Milton aprovou bem a comida local,
fazendo algumas observações sobre o número de calorias que eu estava digerindo. Logo depois pegamos nosso equipamento
e acampamos em uma clareira desabitada próxima a pequena cidade, não tínhamos muitos recursos financeiros, por
isso ele era reservado apenas para as necessidades.
Milton montou a barraca, um modelo comprado em Brasília, logo depois
estávamos em repouso ao som de grilos e do vento manso daquela região.
Acordamos um pouco antes do nascer do sol, sentamos em frente à barraca
e observamos o horizonte. Eu assisti ao mais lindo nascer de sol da minha existência, um céu multicolorido com
vários tons de azul e amarelo que tendiam para o alaranjado. Esta imagem seria arquivada em minha memória para sempre.
Depois desta rara emoção tomamos um rápido café da manhã, recolhemos nossas
coisas e nos pusemos a caminhar. Pegamos uma trilha e depois de cerca de oito quilômetros chegamos a uma cachoeira linda,
sua queda era enorme, segundo Milton, trezentos e quarenta e dois metros e vinte e cinco centímetros de profundidade,
eu nem liguei para estes detalhes, fiquei encantado com a paisagem e registrei o máximo que pude. Todas as sensações
novas de ter aquela visão estonteante das montanhas e do fundo do abismo com um pequeno lago que captava a chuva difusa
e enfumaçada da cachoeira. Quando focalizei o pequeno lago lá em baixo um pequeno arrepio percorreu meu corpo.
Não estava acostumado com aquela espécie de altura assim em meio à natureza, sem nenhuma proteção externa.
Depois destes momentos solitários e de silêncio eu e Milton, seguimos para
Itaetê, nossa meta era ver a gruta da Lagoa Encantada, tão afamada em sua beleza rara, a notícia de sua existência
já percorria longas distâncias a muito tempo.
No caminho não falamos muito, uma das poucas características de Milton era
o de sempre ficar quieto, até mesmo ante as grandes belezas da Terra, que ele prestativo registrava em minúcias.
Na manhã seguinte depois de observarmos o nascente, coisa que eu
nunca me cansava, chegamos a gruta. Em sua entrada nos misturamos com outros nativos e turistas, pagamos uma
taxa e entramos, não era uma caminhada muito fácil, segurávamos em uma corda que se tornava uma espécie de
corrimão, enquanto pisávamos em uma trilha estreita no meio da escuridão total da caverna, Milton não sentia
muita dificuldade se adaptando a escuridão mais facilmente do que eu, depois de ter meu joelho ralado em uma
pedra, fixei meu olhar em uma estranha luminescência. Então ela apareceu. Um azul turquesa, tendendo para o
claro, luminoso, quase cegando a todos, surgiu então uma lagoa convidativa que possuía criaturas únicas,
peixes albinos e felizes, nadando de um lado para outro em um balé único. O grupo ficou quieto e imóvel ante
aquela visão, como que em adoração contemplando a beleza da natureza, um dos raros momentos onde os humanos
uniam-se em emoção e contemplação, homenageando a natureza da Terra.
Eu só torcia para que aquele refúgio da natureza continuasse
intocado pelo homem mais hostil.
Ficamos lá cerca de meia hora, só olhando imóveis e calados,
alguns registravam o momento. Eu também fazia minha parte sem ser notado, Milton me auxiliava. Todos meus
conhecidos ficariam com uma ponta de inveja quando vissem aquelas imagens.
Saímos de lá e nos separamos do grupo maior, pegamos uma nova
trilha, segundo nosso mapa estávamos a caminho de Lençóis, antiga cidade voltada à captação de diamantes,
agora não era muito importante economicamente, tornando-se uma cidade turística.
Encontramos uma linda cachoeira de médio porte e deserta, quando
saímos da estrada e entramos por uma trilha pedregosa. Montamos uma barraca junto à cachoeira, tomei um banho
e aproveitei para pescar. Uma sensação única em minha existência. Milton como sempre prestativo me ajudou,
preparamos o peixe e comemos, um gosto novo para nós. O meu amigo Milton soltou uma de suas poucas palavras
em toda a viagem: - Bom... - Foi um som gutural, mas se ele tinha falado era porque estava realmente
bom.
Fomos repousar.
Novamente acompanhamos o nascer do sol. Seria a última vez, pois
logo estaríamos partindo. Recolhemos nossos equipamentos, limpamos o local e nos preparamos para nossa marcha
diária.
Chegamos na clareira à noite, o céu estava limpo e as estrelas eram
um mar de pontos brilhantes. Ao nosso redor tudo era silêncio e o vento estava parado. Milton me alertou da
proximidade do nosso veículo, afinal seus recursos eram mais avançados do que os meus. Enfim observei a luz
aproximando-se. Ficou a uns duzentos metros de nós. "Em um piscar de olhos", ditado local, estávamos
em segurança no nosso veículo, que chegou na hora exata da programação.
Instalei Milton-395 em seu nicho no painel central e liguei os
sensores da nave, ativando seu escudo refletor, em seguida registrei minha chegada:
- Anorax Dilael. Oficial Alpha da Armada Celestial. -
Assumi meu posto depois da confirmação do sensor da nave mãe.
O sistema de empuxo moveu a nave para fora da atmosfera terráquea, atingimos velocidade sub luz e deixamos
o Sistema Solar para trás, agora estávamos nos preparando para o hiperespaço...Olhei para Milton que
repousava afinal.
"Era uma pena que eu só tinha cinco dias terrestres em cada
século para visitar aquele planeta encantador, com recantos belíssimos e cheios de mistério. Espero que na
minha próxima viagem o planeta ainda esteja inteiro...”
Fim |