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Éramos doze tripulantes naquela temporada, onze novatos e o Dr. Swensen. A estação fincada nas profundezas de Tritão era praticamente autônoma, mas os autores do projeto achavam necessária a presença humana, talvez para dar um toque de sensibilidade na missão.
Éramos doze tripulantes naquela temporada na estação lunar de Tritão...
Semana Alfa 23:00 horas. Segundo dia.
Júlia destravou seu console, automaticamente as luzes do painel ficaram verdes, solicitou ao computador uma visão holográfica dos compartimentos da estação. Do seu painel imediatamente surgiu a imagem do laboratório de botânica vazio, depois do laboratório de astrofísica e da cozinha, todos inertes naquele horário. Era duro pensar que um dia ela poderia estar assim tão só, tinha consciência que os demais estavam em sua hora de sono nos alojamentos, mas mesmo assim se sentiu só e abandonada. Havia duas semanas que Oliver não a procurava e isso criava em seu debilitado ego uma noção de rejeição e culpa.
Agora a imagem projetada pelos sensores de longo alcance mostrava uma holografia da superfície de Tritão, no horizonte Netuno era um espetáculo à parte, todo azul transbordando de energia eólica, para Júlia depois de quatro anos enfiada ali, Netuno já tinha perdido a graça, ainda restavam seis anos para completar a temporada depois todos seriam remanejados com exceção de Swensen, que já era considerado a relíquia viva da estação permanecendo ali há três temporadas, seu rosto anguloso de aparência jovial, escondia um cientista idealista e teimoso, suas rugas desenhadas pelo tempo por vezes podiam lhe conferir uma aparência sombria, dependendo da incidência da luz. Júlia confabulou com seus neurônios tentando descobrir o que ele estaria fazendo naquele momento: Dormindo ou traçando planos para um contato com visitantes que nunca chegavam? Talvez tentando desvendar o propósito dos artefatos...
Tentou adivinhar qual música ele colocaria no despertar da tripulação. Geralmente no café ele usava as barrocas e no almoço as clássicas, o jantar era uma miscelânea de estilos. Todos já estavam acostumados, música para acalmar os ânimos, Dr. Swensen repetia a todo instante.
Júlia ordenou ao computador que mantivesse a vigilância autônoma. Ela saiu da sala de controle geral da estação e foi em direção ao seu alojamento.
23:30 horas. Segundo dia.
Sami Fukuoka acordou ressabiado após um pesadelo, mas não conseguia se lembrar de nada, com certa moleza no corpo deixou a cama e foi em direção a pia no banheiro anexo, molhou um pequeno pano e esfriou a nuca, parecia ter suado muito durante o sono perturbador. Nas duas últimas semanas estava aflito, e tudo por causa dos artefatos encontrados por Oliver em uma das crateras de Tritão, todos estavam aflitos e isto estava aos poucos minando a auto-estima do grupo, que ainda não tinha encontrado uma explicação lógica para os estranhos artefatos.
Fukuoka deitou-se novamente. A meia luz do aposento dava uma falsa sensação de noite, mas Tritão estava tão longe do sol que era fácil imaginar noites eternas...
00:00 horas. Terceiro dia.
Júlia sentou-se na beira da cama, manteve seus aposentos no escuro, de supetão levantou-se tomada de susto.
- Você quase me matou de susto! - Ela pôs a mão na cintura ordenando ao computador luz.
Oliver estava nu sentando calmamente na beira da cama, sorriu brevemente a encarando.
- Então, hoje vai ser no claro?
Ela sorriu sentando-se ao lado de Oliver que a encarou com um sorriso matreiro.
- Nós temos um senso de humor um tanto estranho.
Ela riu gostosamente.
- Só se você está lendo mentes agora.
- Isso é algo que posso arranjar.
Eles se beijaram suavemente e depois avidamente, esquecendo a última briga que tiveram há duas semanas. Para passar momentos íntimos em uma tórrida troca de fluídos e carícias.
07:15 horas. Terceiro dia.
Kruber estava preparando sua especialidade, panquecas de maçã, a maçã não tinha propriamente o seu gosto característico, mas enganava bem, a estufa subterrânea era a culpada. Frutas e verduras criadas em ambientes artificiais se tornam para o subconsciente humano artificiais também.
- O que temos hoje? - Sônia Ortega chegava como sempre animada. Era a única astrofísica que Kruber conhecia que nunca falava em números.
- Inverno de Vivaldi... - Kruber sorriu enquanto colocava os últimos apetrechos na mesa, ele era um mestre cuca excelente e todos gostavam das semanas Alfas quando Kruber largava a matemática e se entregava aos prazeres da culinária...A melodia continuava...
Aos poucos foram chegando os demais. Todos sentavam em uma mesa retangular enorme com doze lugares. Júlia parecia alerta esta manhã, mas todos evitavam comentários, era evidente que tinha reatado com Benjamim Oliver, este já tinha saído para as pesquisas junto com Swensen ambos se debruçariam horas a fio sob os artefatos.
Quando começou o segundo movimento da melodia de Vivaldi, Yochenko sentou-se, sua barba ruiva contrastava com o azul dos olhos penetrantes, sorriu levemente ao ver o prato a sua frente. Olhando para Kruber repetia sem parar...Delicioso, delicioso...Yochenko era o botânico responsável pela maçã tritoniana como era apelidada...
09:30 horas. Terceiro dia.
Miloux tentou novamente agora ajustando a sonda para vasculhar um perímetro maior, mas o sinal sumiu tão rápido quanto apareceu. Deu um murro no painel indignado.
- Nada...Sumiu...Mon Dieu...- Soltou resignado então.
- Conseguiu algo? - Ele olhou para Cássia que deu uma negativa veemente.
- Estava lá, agora não está mais...- Ela refez o rabo de cavalo pela décima vez, cacoete característico dela quando perdia a paciência...
- Nada!...- Ela soltou contrariada.
- Aumente o perímetro Filipe
Filipe Miloux deu a ordem ao computador que refez toda a seqüência de cálculos. Esperava assim encontrar o sinal de comunicação que perdera repentinamente.
14:00 horas. Terceiro dia.
Luiz Paulo fez sua checagem rotineira nos corredores da estação na semana Alfa, era esta sua incumbência. Júlia cuidava da segurança e ele dos pormenores, nas outras semanas voltariam a ser físico e engenheira, mas na semana Alfa suas missões eram basicamente manter a estação subterrânea em segurança.
- E então?
- Bem... - Ela apertou alguns sensores no painel.
- Esse seu brilho no olhar...Não me diga nada...- Paulo sorriu.
- Tenho que aprender a fingir...-
- Não se preocupe minha querida, você aprende com o tempo -.
Júlia não sorriu e não disse nada.
Paulo a fitou com seus olhos negros, Júlia era desejável, mas suas possibilidades com ela eram mínimas, nunca foi bonito e nem queria tentar, começou a contestar o período longo da temporada e o por quê juntar doze pessoas tão diferentes em um ambiente subterrâneo por dez anos em um satélite ermo de um planeta distante do sol 4,5 bilhões de quilômetros. Começava a se frustrar com a missão de contato.
15:43 horas. Terceiro dia.
Helena sorriu ante as possibilidades que eram repetidas por Oliver. Dr. Swensen parecia sério observando os artefatos agora já ao alcance de suas mãos depois da descontaminação.
- Caixas de jóias...- Oliver falou rindo.
Dr. Swensen o encarou com uma careta, pegando um dos seis dodecaedros, passou a mão levemente na superfície e sentiu os vincos dos símbolos cravados no metal desconhecido chamado temporariamente de “tritânio”. Era uma espécie de escrita a qual não tinha sido decifrada ainda.
Ficaram um pouco desestimulados quando descobriram que não havia nenhuma fenda, nenhuma abertura, nenhum mecanismo de abertura. Os artefatos pareciam ocos, sem emendas e sem função aparente.
- Jogo de dados alienígena! -
- Cale-se - Helena perdeu a paciência. Afinal pegou outro dodecaedro com as mesmas inscrições e o colocou novamente sob o crivo do sensor.
Tudo o que descobriram era que tinham as mesmas proporções, todos os seis eram idênticos e certamente confeccionados por vida inteligente.
Oliver concentrou-se em seu painel agora refazendo sua decodificação criptográfica tentando descobrir, que tipo de mensagem estava impressa nos artefatos Já tentava isso há uma semana, não contou aos outros que já tinha perdido as esperanças com aquela missão...
22:00 horas. Terceiro dia.
Marjorie andou até o fim do laboratório de bioquímica, já havia remetido as amostras colhidas na cratera para Swensen, mas este não tinha dado retorno, na verdade não tinha descoberto nada de anormal, bactérias conhecidas impregnadas por acidente no processo de descontaminação, afinal Oliver teve contato direto com os artefatos antes de trazê-los para o laboratório central. Marjorie estava preparada para esses acidentes e descartou todas as possibilidades de vida no satélite. Se a missão ali era contatar novas formas de vida, ainda não houvera êxito.
Olhou ao longe um de seus vasos de feijão e notou que a planta estava morrendo, há dias o processo tinha começado, pensou que era a água reciclada, mas não tinha certeza. Levantou-se de supetão e colocou a planta na fila das análises prioritárias.
07:45 horas. Quarto dia.
Fukuoka instalou-se na enfermaria, ainda soava em seus ouvidos a melodia barroca de Vivaldi, essa semana Dr. Swensen estava repetitivo...
Colocou as amostras de sangue no hemosensor e esperou os resultados saltarem na tela holográfica, todos os três pacientes queixaram-se de cansaço e isso era preocupante, todos os três estiveram em contato direto com os artefatos...Fukuoka ponderou sobre a situação, era hora de uma reunião com o grupo.
10:00 horas. Quarto dia.
Júlia vestiu sua roupa protetora para entrar no compartimento de reciclagem do ar, a sala era mantida perto de zero graus Celsius e todos os dispositivos possuíam um computador independente do central, era hora de ver o por quê do mau funcionamento. Analisou os painéis, cinco de cada lado da sala, cada um controlando e filtrando 5.400 litros cúbicos de ar por minutos, aparentemente todos estavam em perfeitas condições.
- Júlia para Paulo -
- AQUI É PAULO NA ESCUTA.-
- Vou me demorar mais para tirar algumas dúvidas, comece a verificação na ala norte sem mim.
- TUDO BEM, PAULO DESLIGA. -
Júlia só esperava encontrar a solução. Fukuoka tinha sido um tanto alarmista a respeito do ar na reunião.
14:35 horas. Quarto dia.
Yochenko entrou espalhafatosamente no observatório, localizou sua vítima, ela tinha prendido o cabelo com uma trança e parecia atenta nas telas holográficas.
- Prove! -
Cássia o encarou com um sorriso.
- Ah...Essa é sua nova invenção? -
- Algo novo. -
- Brincando de Deus heim?-
- Mais ou menos -
Cássia levou o fruto vermelho do tamanho de sua mão a boca.
- Parece caqui. -
- Então está perfeito -
Yochenko observou a tela.
- E o ponto amarelo?-
- Nada ainda...-
Cássia fez um muxoxo e acabou a fruta, há uma semana o ponto amarelo vinha e ia ao sensor, não era uma nave, pelo menos ainda não. Mas ainda não podiam descartar que aquele ponto podia apenas ser um fenômeno da natureza e não um contato como todos ansiavam.
Yochenko a deixou levando o resto dos frutos para as demais cobaias. Era assim que ele via seus companheiros quando todos experimentavam suas novas frutas criadas na estufa.
19:00hs Quarto dia...
Júlia observou Sônia levando os pratos descartáveis para a recicladora, Kruber ajudava com os copos, Durante o jantar Dr. Swensen colocou Mozart, segundo movimento de Elvira Madigan, era uma música calma e ajudava na digestão segundo o próprio Dr. Swensen.
Paulo foi o primeiro a comer e a retirar-se. Fukuoka parecia mais calmo depois das explicações sobre o sistema de ventilação, realmente o ar parecia viciado, mas em um dia o sistema de filtros colocaria ar novo nos pulmões de todos. Filipe voltou para o laboratório sua busca incansável por contato o estava deixando irascível para com todos.
Os demais se recolheram aos seus alojamentos, Oliver cutucou o ombro de Júlia e sussurrou...
- Vou te mostrar algo...
Os dois levantaram-se e foram em direção ao laboratório central, Dr. Swensen não estava por lá e a enorme sala era rodeada de armários brancos, balcões com equipamentos diversos, havia também computadores em mesas anexas e na mesa retangular central estavam os artefatos, todos lado a lado, formando uma linha. Eles atiçavam a curiosidade de qualquer um, a primeira vontade que dava era tocá-los, acariciá-los e depois tentar abri-los. Mas isso ainda não tinha sido feito.
Oliver pegou o primeiro situado à esquerda o levou para perto dos olhos e passou a mão levemente em sua superfície, neste mesmo instante os demais que estavam inertes começaram a brilhar, no início uma luz tênue azul clara, e com o passar dos segundos a luz foi ficando mais clara, ela saia do interior vazando entre os símbolos impressos na superfície do metal.
Júlia não conteve-se e soltou um suspirou de surpresa e de encanto.
- Como...-
- Descobrimos esta tarde enquanto você estava nos tubos de ventilação...-
- Será alguma espécie de armazenador de informações?
- Dr. Swensen acha esta possibilidade viável, em minha mente simplista eles já davam um bom abajur...-
Ele colocou o artefato na mesa e longe do seu toque e os demais apagaram-se.
- Para cada um de nós a luz é parecida, ms a tonalidade depende da situação geral do organismo. Tente você...-
Júlia ficou um pouco ressabiada, sentiu na verdade um pouco de medo de tocar no artefato.
Pegou o mesmo que Oliver tinha pego momentos antes, o imitou parou no mesmo símbolo e começou a passar a mão de leve em direção horária... Uma tênue luz rosa surgiu, mas logo se apagou...
- É...Parece que não tenho jeito para isso. -
Oliver olhou aquilo e armazenou a informação não sabia se seria coerente dizer a Júlia que todos já haviam tocado o objeto, mas ela foi à única a emitir aquele tipo de luz fraca e rosa... Teria que discutir aquilo com Swensen.
9:00 horas. Quinto dia.
- Já conseguiu encontrá-lo? -
- NADA NA ALA SUL. - Filipe respondeu nervoso. Todos tinham parado seus afazeres para procurar Paulo que havia sumido e não tinha se comunicado.
- Continue a procura - Júlia seguiu para a ala oeste pensando nas inúmeras possibilidades, estresse, loucura, será que ele saiu para a superfície?
Na superfície só os robôs locomoviam-se eram os "veículos robôs", devido ao frio intenso era impraticável para um humano passear lá fora mesmo com roupas protetoras ou veículos adequados. O hangar era movido por um elevador assim quando a nave enviada da Terra pousava era logo tragada para o interior da base onde o desembarque era efetuado, ninguém ficava na superfície.
Até mesmo o achado dos artefatos tinham sido efetuado com "os veículos robôs" tudo monitorado por Oliver, que vendo as peças não hesitou em tocá-las sem descontaminação e Júlia não o poupou de ouvir um bom sermão a respeito...
Júlia voltou a si quando seu comunicador apitou...Era a voz de Kruber.
- O ENCONTREI...-
- Como ele está?-
Kruber ficou em silêncio antes de dizer algo que ninguém esperava.
- MORTO.-
14:00 horas. Quinto dia.
Ninguém tinha comido, com exceção de Yochenko, mas ninguém ligou para isso também.
Helena parecia a mais transtornada. Na câmara criogênica o corpo de Paulo seria mantido por anos mesmo morto, o estado de decomposição seria retardado ao máximo até mesmo estagnado. Isso daria tempo para a remoção quando chegasse a próxima leva de cientistas.
Dr. Swensen tinha colocado Bach para a ocasião bem baixo devido às circunstâncias. Ele sussurrou...
- Menos um físico...-
Helena o encarou com raiva.
- Você e suas esquisitices, não respeita nem o morto! - Ela gritou
Todos a fitaram
Ela saiu do recinto.
Marjorie e Júlia se olharam, mas todos tinham a mesma pergunta na mente, o que Paulo e Helena tinham em comum?
A cápsula foi introduzida em um compartimento na parede e foi a última vez que viram Luiz Paulo.
Todos voltaram aos seus afazeres refletindo sobre o ocorrido. Segundo a autopsia à causa da morte era de natureza desconhecida "ele simplesmente desligou...", foi à frase de Fukuoka...
Júlia não entendia o por quê , mas estava começando a desconfiar dos artefatos.
Oliver e Swensen defendiam os artefatos a todo custo criando uma relação de dependência com os seis dodecaedros.
Kruber, Marjorie e Sônia descartavam a culpa do artefato e a colocavam no acaso.
Cássia e Filipe estavam tão obcecados com o possível contato externo que não diziam nada.
Helena estava sob sedativos...Paulo era importante para ela.
Yochenko como sempre colocava a culpa na própria mente de Paulo.
De qualquer forma um relatório formal foi despachado para a Terra com as ondas de rádio em velocidade sub luz com sorte a mensagem chegaria em três meses...Mas Júlia sabia que ninguém seria mandado antes do fim da temporada.
19:00 horas. Quinto dia.
Depois do jantar acompanhado de “Clair de Lune” de Debussy, todos foram para seus aposentos, Júlia não via a hora da semana Beta começar, era a primeira vez que uma morte ocorria na estação lunar de Tritão e ela sentia-se culpada por isso. Nesta noite Oliver não viria ao seu quarto, ele estava ocupado demais com a criptografia dos artefatos para pensar em sexo, mas Júlia não queria sexo agora, queria apenas um ombro amigo, mas Oliver era muito egoísta para isso...
Ela caiu em um sono leve trazido por preocupações com o futuro da missão...
23:47 horas. Quinto dia.
Júlia foi acordada com o alarme do sensor da porta, pôs seu roupão e deu de cara com Fukuoka.
- É...Kruber...Ele está morto!-
- Como...? - Ela sentiu uma vertigem percorrer seu corpo e Fukuoka a amparou...
07:00 horas. Sexto dia.
- Eu proponho que os artefatos sejam devolvidos ao seu local de origem-
- Só porque houve mortes...! Prove cientificamente que os artefatos foram os causadores das mortes - Oliver encarou Júlia com raiva.
- Prove cientificamente que não o foram! - Júlia revidou.
- Calem-se - Swensen encarou a todos.
- Não levem isso para o lado pessoal, vamos analisar a situação friamente. Por que Kruber sairia a superfície? -
- Ele não chegou lá, lembre-se ele morreu enquanto o hangar subia...-
- Irrelevante, seu objetivo era sair da base. -
- Sim, mas isso não responde o por quê -.
- Não vejo ligação com a morte de Paulo - Cássia se meteu.
- Por que Helena não está aqui? -
- Achei melhor deixá-la fora disso - Fukuoka respondeu.
- Não estamos chegando a um consenso! - Júlia gritou ante a surpresa de todos.
- Não adianta ficarmos procurando o por quê temos que nos proteger e agora todos levarão consigo um desintegrador não é grande coisa, mas se é um agente externo nos atacando teremos uma forma de defesa.
- Posso até levar um desintegrador, mas sei onde está o culpado - Yochenko falou calmo. - O culpado está aqui! - E apontou para sua cabeça.
Todos entenderam e temeram o improvável...Uma histeria coletiva.
11:33 horas. Sexto dia.
Helena jogou-se no chão fechou os olhos e contemplou o silêncio, quando abriu os olhos um ser lindo estava ao seu lado, ele não tinha rosto nem sinais característicos, seu corpo parecia feito de um líquido viscoso parecendo metal líquido translúcido tinha a forma humanóide, mas sem pele conhecida. Era um todo sem começo e sem fim, não tinha boca ou olhos apenas vincos que pareciam orifícios, mas ela não podia definir o que eram. Ele aproximou-se, não era quente, nem frio, ele era acolhedor, amoroso, um ser que transmitia muita segurança. Sua cor de metal lustrado foi à última coisa que Helena viu...
12:00 horas. Sexto dia.
O almoço não era mais o mesmo, Kruber, Paulo e Helena se foram para sempre todos comeram rápido e calados enquanto o Primeiro movimento do Outono de Vivaldi tocava ao fundo...
14:23 horas. Sexto dia.
Filipe Miloux seguiu as coordenadas dadas pelo computador e "voilá"! Lá estava ele o ponto amarelo piscante, ele ficou tão feliz, começou a tamborilar os dedos na mesa, todos os sensores dispararam automaticamente.
- Cássia venha para cá agora! - Ele falou no comunicador...
Alguns minutos passaram-se e Cássia entrou calmamente com os longos cabelos soltos.
- Está lá...Está lá! Acho que agora vamos ter provas...- Ele falou todo animado a abraçando a encorajando a entrar no clima de comemoração...
Mas ela não estava mais lá ao seu lado Filipe afastou-se tomado de pânico o que via era um ser bípede com formas indefinidas sem característica cutânea definida...Acionou o comunicador.
- Emergência no laboratório de Astrofísica -
A criatura aproximou-se e ele calou-se para sempre.
15:00 horas. Sexto dia.
Júlia começou a chorar, não suportava mais, seus nervos estavam à flor da pele, diferente de Swensen não conseguia manter os nervos de aço dele. Oliver parecia apático e os demais chocados, já eram cinco mortos em dois dias, Fukuoka tentava dar explicações racionais para algo que não tinha explicação alguma. Todos estavam sofrendo de uma histeria coletiva, essa era a resposta...
16:00 horas. Sexto dia.
- Como você consegue trabalhar com tudo que está acontecendo?-
- As plantas falam comigo eu falo com elas e tudo se resolve -
Yochenko respondeu a Marjorie com um sorriso, que não dava para ver direito por causa da barba ruiva.
- Já notou como todos nós estamos desmotivados? -
- Com todas essas mortes é normal...-
- Não digo de agora, estamos assim desde que Oliver trouxe os artefatos -.
- Isso tudo é psicológico...-
- Para você pode ser, mas concordo com Júlia para mim aqueles brinquedos deviam ser devolvidos ao seu ligar de origem, acho que estamos brincando com fogo.-
Marjorie levantou-se e saiu.
- Bobagem - Yochenko deu um tchauzinho para ela...
Foi a última vez que Yochenko foi visto com vida...
17:00 horas. Sexto dia.
- Do jeito que vamos, até meio dia de amanhã estaremos todos mortos. - Fukuoka começou a falar depois de um prolongado silêncio na mesa da cozinha.
- Podemos nos trancar nas câmaras de criogenia pelo menos ficaremos livres de nossos próprios atos - Sônia encarou a todos.
Júlia parou de apertar a beira da mesa.
- Já não creio que isso seja uma espécie de histeria coletiva, creio que exista um agente externo.-
- Lá vem você de novo colocando a culpa nos dodecaedros...-
- Não é isso Oliver, talvez tenhamos pegado os artefatos de alguém. Já pensou nisso? -
- Impossível neste satélite perdido não há nada além de nós...-
- Perdido! Que discurso diferente para quem achava Tritão um paraíso para pesquisa -
- Estou cansado de tudo isso...- Ele olhou para suas mãos que tremiam levemente.
Fukuoka as observou de longe, mas logo virou os olhos, quando todos prestaram atenção neste fato.
- Eles são vazios...Sabia? -
- Vocês abriram os artefatos e não nos comunicaram? - Sônia bradou.
- Para que? Não tinham nada! -
Júlia notou como tinham ficado decepcionados Swensen não dizia nada, como se todo o esforço de duas semanas intensas tivessem sido jogadas no lixo.
Marjorie se empertigou - Acho que a criogenia uma boa idéia.
- Mas se o agente for externo? Ele pode nos “desligar...”
- Pelo menos morreremos dormindo.
Júlia pensou como Oliver podia ser tão egoísta...Estava começando a ter nojo dele, da presença dele, da ironia dele...
- Eu fico - Swensen finalmente falou. - Estou aqui há trinta anos, e vou descobrir o mistério destes artefatos, vocês podem ir...
Júlia começou a desconfiar até mesmo de Swensen.
- Se preparem então até amanhã estaremos todos dormindo, se alguém desistir comunique-me.
22:00 horas. Sexto dia.
Sônia escovou os dentes, sempre fazia isso antes da criogenia gostava de pensar que dormiria e logo mais acordaria então pegaria uma nave de volta para a Terra.
Vestiu seus trajes e seguiu para o setor de criogenia onde seis tripulantes já estavam dormindo o sono eterno. Lembrou da comida de Kruber, das piadas de Filipe, da amizade de Cássia, da ternura de Helena. Mas não conseguia se lembrar de nada interessante sobre Luiz Paulo, na verdade não eram muito chegados apesar de serem da mesma especialidade nunca compartilharam o mesmo laboratório. Sônia parou, algo a tocou, ela olhou para o lado e viu alguém andando no corredor perpendicular ao dela o seguiu.
- Ei você!
Ela fixou o olhar nele era Paulo em carne e osso, pensou estar vendo uma alucinação, mas não era. Era ele vivo, ele aproximou-se dela sem dizer nada, seus olhos negros a encaravam felizes um sorriso despontou de repente.
- Você está vivo...-
- Sim. – ele falou de uma forma aconchegante. Então ele a envolveu até que ela desfaleceu nos braços dele...
22:15 horas. Sexto dia.
Fukuoka acionou os sensores das seis cápsulas, elas estavam quase prontas à espera de seus hóspedes achou melhor deixar uma para Swensen caso ele mudasse de idéia.
Júlia chegou e fez sinal de positivo para ele, ambos estavam com as roupas protetoras.
- Vamos aguardar os outros...
- Tudo bem.
- Sônia não vem agora, parece que ela precisa tratar de alguns preparativos finais com Swensen antes de entrar na câmara. Ela Acabou de me avisar.
- Bem...Ela vai ter que agüentar a música de Swensen sozinha...- Fukuoka sorriu apesar de tudo...
22:45 horas. Sexto dia.
Oliver já tinha seguido para o setor de criogenia, Swensen estava acostumado com aquela base e a solidão. Por isso deu negativas evasivas aos pedidos dos outros para ficar em hibernação. Segurou um dos artefatos com carinho, talvez sozinho descobrisse o que eles significavam.
Acionou novamente a holografia do computador e acessou os últimos dados decifrados por Oliver, ordenou a concatenação dos dados com cruzamentos matemáticos, no visor uma palavra surgiu...
PARASITAS
Ele largou o artefato e pediu para que o computador seguisse o procedimento novamente e de novo a mesma palavra surgiu.
PARASITAS
Swensen sentiu algo apertando sua garganta não conseguia se virar completamente, mas com o canto do olho pode ver a imagem de Sônia desfocada. Ele não entendia como aquilo estava acontecendo e nem ao menos tinha forças para se desvencilhar das mãos da mulher. Aos poucos depois de debater-se por uns poucos segundos, fechou os olhos. A última palavra que viu foi parasitas.
23:30 horas. Sexto dia.
Fukuoka começou a sentir o torpor do sono lhe pegar, a química estava fazendo efeito, desligou-se de tudo e só viu a escuridão e o nada...
23:32 horas. Sexto dia.
Marjorie foi dormir logo após Fukuoka, sentiu um formigamento nos pés, sempre sentia isso quando estava entrando no estado de suspensão animada, sabia que quando acordasse anos teriam passado, só esperava que conseguisse passar por essa barreira, o sono a pegou sem mais nem menos, sem sonhos, sem nada, sem escuridão, sem luz...
23:40 horas. Sexto dia.
Oliver sentiu um tremor leve em seu braço e o torpor persistente em seu corpo era o sono gelado chegando, seu último pensamento consciente foi para Júlia...
23:45 horas. Sexto dia.
Júlia demorou mais para sentir os efeitos do sono, pois como responsável pela semana Alfa era a última a induzir-se a criogenia, quando seu subconsciente estava perdendo-se nas brumas uma luz vermelha começou a lhe incomodar, as brumas eram vermelhas e o chão era de sangue...
Sua cápsula foi movida para fora da parede e os sensores começaram a retroagir e a cúpula de vidro abriu.
Ela começou a abrir os olhos via o teto girar depois fixou um ponto no teto e tudo parou, sentou-se na cápsula tentando equilibrar seus sentidos.
Finalmente conseguiu levantar-se a tontura passou e notou que o sistema de condução de oxigênio de sua cápsula estava inoperante, andou até Fukuoka e depois foi até Marjorie e constatou o mesmo. Olhou para a cápsula embutida de Oliver, mas não queria aceitar que até mesmo para ele já era tarde, começou a chorar não sabia por que tinha ficado com tanta raiva dele nos últimos dias, mas agora arrependia-se, pois nunca mais o veria com vida.
Reuniu forças e saiu dali em direção ao laboratório central onde Swensen estava, passou pelo corredor da ala sul e encontrou um corpo estirado no chão era Sônia, parecia dormindo, mas Júlia sabia não precisava perguntar...Ela estava morta como os outros.
Júlia acelerou suas passadas e chegou ao laboratório central os mesmo armários, os mesmos equipamentos.
- Swensen - Sua voz saiu firme e isso surpreendeu até mesmo ela.- Swensen -
Não precisou chamar de novo viu o velho Swensen no chão. Seu aspecto estava pior que o usual seus olhos cerrados sua pela negra estava sem brilho era o "rigor mortis" chegando.
Sentou-se em uma cadeira, e ficou olhando para aqueles artefatos nada tirava de sua cabeça que eles eram os culpados por todas as mortes, pegou um deles e jogou contra uma prateleira de vidro e o som encheu a sala. Os vidros caíram no chão em pequenos pedaços, a luz fluorescente incidia sobre eles fazendo os cacos de vidro brilharem como diamantes no chão.
A primeira pergunta que vinha em sua mente era: Por que eu. Pergunta comum para o último sobrevivente...
Não conseguia chorar, não conseguia sentir nada.
00:00 horas. Sétimo dia.
Fechou os olhos e meditou sobre a situação, reuniria os registros, trocaria de cápsula, dormiria até a nave da Terra vir resgatá-la?
Podia matar-se, mas não tinha coragem para tanto.
- E no sétimo dia se fez homem...- A voz soou era fraterna e amorosa com um tom aconchegante e quente.
Ela abriu os olhos e ficou paralisada ao ver a criatura a sua frente.
Não tinha pele e parecia ser feita de metal líquido, não tinha características próprias e era surpreendente.
Aquela voz suave diferente ou era a voz de seu subconsciente?
- E do mar vieram muitas criaturas...
Mas por que ela ou ele dizia isso?
- Quem é você? - Júlia achou a pergunta razoável, aquilo certamente era um contato. Como a criatura podia falar minha língua? ...
Júlia não conseguia mover-se e a criatura zanzava em sua frente repetindo frases da criação segundo a bíblia e inventando outras segundo Darwin...
- E as criaturas foram para onde era seco...
- Pare com isso! - Júlia tentou agarrar a criatura, mas não conseguia sair do lugar.
A criatura de um modo inexplicável impedia seus movimentos uma espécie de rede neural talvez, o mais frustrante era que ela não conseguia livrar-se daquilo.
Ela moveu o braço alguns centímetros e sem muita esperança pegou outro dos artefatos e jogou na criatura, o dodecaedro traspassou o corpo volátil dela e atingiu um painel do computador central que automaticamente começou a tocar a Dança Turca de Mozart, Júlia sem esperança achou tragicômico morrer com essa música ao fundo.
A criatura parou de repetir as frases como um disco furado e tomou a forma de Oliver...
Era difícil para Júlia manter aquele olhar na imagem de Oliver...
Júlia caiu no chão desequilibrando-se, capturou uma grande lufada de ar, seus pulmões arderam com o ar que entrava, conseguiu finalmente mover-se, olhou para cima e a criatura “transvestida” de Oliver pegou os artefatos, que agora reproduziam o som da música e a encarou.
- Então eles inventaram a música...
A criatura continuava a olhando de forma gentil, mas agora não a paralisava mais, voltou a sua aparência natural.
Júlia levantou-se meio desajeitada, falou quase sem voz.
- Por que eu ainda estou aqui, viva?
- Porque você é uma de nós. -
"Éramos doze tripulantes naquela temporada na base lunar de Tritão..."
Semana Teta:
05:34 horas. Segundo dia.
Solicitação de relatório sob comando terrestre para transmissão a longa distância:
Computador central emitindo relatório base lunar Tritão:
Base Lunar ativada.
Sistemas autônomos operando 100%.
Acessórios humanos desativados.
Estatísticas:
11 humanos desativados.
1 humano não está ao alcance dos sensores.
Conclusão: Desaparecido.
Fim |