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A prisão de Doothyr-Van-Sy-Mierr não é como as prisões
convencionais conhecidas. Considerada de segurança máxima, foi construída de acordo com a tecnologia
mais avançada e sofisticada da qual se tem conhecimento e envolveu as mentes mais brilhantes do
Universo. A sua criação representou o alívio geral para muitos planetas e numerosos mundos, que se
viram livres dos elementos mais perigosos e nocivos de suas sociedades e da Via Láctea. Considerada
inexpugnável devido ao seu processo de enclausuramento circular com celas oclusivas por aposição
centrífuga, onde cada prisioneiro se encontra num espaço distendido numa pequena e exígua fração de
tempo oposto ao movimento orbital externo à estação. Esse limite de espaço/tempo envolve o prisioneiro
num vórtice negativo de energia, no qual nenhuma reação coincide com uma ação contrária e em caso de
alguma tentativa de fuga, as pétalas deflexivas externas se fecham num imenso casulo, ou ovo de Van-Sy,
gerando em seu interior uma corrente de gases magnéticos próximos às descargas cósmicas. E devido à
complexidade do formato circular das celas que se afunilam para o centro, essa massa gasosa vai
comprimindo, sob uma pressão muito alta e absurda, os prisioneiros em seus cubículos, até chegar no
centro, onde se encontram aqueles seres considerados de alta periculosidade.
A sua localização era mantida em total segredo e representava
um mistério para os navegadores estelares. Somente uns poucos é que sabiam da sua verdadeira localidade,
mas evitavam comentar tal assunto, só para não mencionar Ang-licon, a estrela morta, obscurecida pela
zona de tempestade e pela corrente compacta de meteoritos enegrecidos do que fora, segundo a lenda, o
planeta Saron-th; onde habitaram milhões de vidas, cujas energias negativas ainda eram pressentidas. Em
meio a esse espaço repleto de despojos, dejetos cósmicos e fedendo a morte milenar, se encontrava a
prisão de Doothyr-Van-Sy-Mierr que, vista de longe, era apenas um imenso bolor sem vida.
Às vezes uma das pétalas externas coincidia suas lâminas com
o brilho longínquo de alguma estrela cadente e podia se perceber furtivamente outras milhares de pequenas
pétalas presas por pistilos de aço e cristais esbranquiçados. No mais, tudo se encontrava em constante
penumbra.
Dentro da prisão a organização era mecânica; não existindo a
presença de guardas; apenas sondas sentinelas que interagiam com cada prisioneiro, liberando para cada
um suas reservas de alimentos de acordo com a espécie ou raça detida. Nas áreas externas e médias ficavam
os presos cujas sentenças não ultrapassavam períodos muito longos, mas à medida em que se aprofundava
para estágios de celas menores e mais isoladas no núcleo, percebia-se uma mudança radical. Todas as
celas oclusivas terminavam em uma onde se encontrava, possivelmente, o ser mais hediondo, repugnante,
selvagem e animalesco de Doothyr-Van-Sy-Mierr. Oriundo de um planeta pouco conhecido chamado apenas
de Ulhir, pertencente à nuvem galáctica EL-Bhaa, bifurcado no meridiano de Sheenun a 170 graus do
conglomerado de Ats-Hoc. Trigésimo astro de um grupo de 83, com atmosfera de 78% de partículas de
ácido gefranium, 12% de oxigênio, 5% de hidrogênio líquido e 10% de outros gases mutantes. A união
daqueles elementos, mais a participação de alguma forma rústica e estranhíssima de natureza animal
local, gerou Vlossxlon, aquele ser imerso em consistência plasmática e soro protéico congestionado
em subdivisões dimensionais. Subjugado por potentes cargas de “Nurión”, que paralisavam seus circuitos
cerebrais, impossibilitando-o quaisquer formas de imagens, projeções temporais alucinógenas ou reações
psicomotoras. As sondas sentinelas que vigiavam essa criatura, que dependendo do ângulo incidental de
luz se confundia com o licor plasmático, acrescentavam continuamente química de alto contraste através
dos plasmodesmas umectantes, garantindo assim sua plena visibilidade. Nas celas anteriores os
procedimentos eram menos rígidos do que daquela, contudo, mantinham o padrão e organização disciplinar
idênticos. Cada sonda sentinela estava conectada às pétalas externas, num sistema único de segurança
e vigilância constante e exemplar.
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A nave autômata de manutenção e reposição nucléica - como
mandava o regulamento -, deveria seguir até Ang-Licon, soltar os contâineres em local já pré-determinado
e partir, de acordo com a rota previamente programada. Mas um dia, durante essa operação, enquanto
descarregava o restante dos vasilhames das profundezas da estrela morta, de repente, emergiu uma bólide
incandescente que atingiu a nave cargueira, partindo-a ao meio e desencadeando magníficas explosões, já
que dentro da mesma encontravam-se tanques cheios de combustíveis, além de tonéis estocados para
reposição e outros a serem distribuídos pelo caminho. E milhares de restos metálicos se arrojaram pelo
espaço feito projéteis, como setas candentes. E uma densa onda de energia foi se alargando, carregando
tudo à frente e arremessando os pedaços do que fora outrora o planeta Saron-th contra a prisão de
Doothyr-Van-Sy-Mierr.
Quando os primeiros petardos se chocaram contra as pétalas
externas, soaram os alarmes de segurança e os gases magnéticos foram ativados. As lâminas deflexivas se
abriram por completo encerrando, em seu interior, os prisioneiros que começaram a sofrer a forte pressão
da atmosfera interna. Toda essa situação tinha um limite calculado que inibiria qualquer tipo de rebelião,
e em determinado momento tudo voltaria aos procedimentos normais; aliviando a pressão dos gases
magnéticos as pétalas externas se fechariam e a prisão desligaria o alarme. Mas quando estava para se
iniciar a rotina de Mierr, como chamavam esse processo mecânico, a prisão foi sacudida violentamente
para todos os lados e os gases voltaram a agir, só que de forma descontrolada. As descargas elétricas
percorriam os corredores se aprofundando para o interior, pondo em circuito as sondas sentinelas. As
pétalas externas estavam completamente destruídas depois do novo impacto das pedras, seguido da onda
de energia desprendida da estrela Ang-licon que estertorava, arrojando para o espaço lavas
incandescentes e o que restava da sua crosta. O seu núcleo interno era uma imensa fornalha nuclear
exposta, e tudo ao seu redor se transformara.
A prisão de Doothyr-Van-Sy-Mierr também passava por maus
momentos com o despertar dos prisioneiros dentro das celas oclusivas. Algumas sondas sentinelas
conseguiram travar as alavancas de segurança a tempo, contudo, mais da metade dos presos procuravam o
caminho da fuga antes que todo o complexo se reestruturasse e as sondas sentinelas saíssem em seus rastros.
Quando a faísca elétrica tocou os plasmodesmas, o líquido
plasmático entrou em ebulição instantânea e a criatura abriu os olhos repentinamente, desperto. Depois
seus braços se distenderam com força para baixo elevando o seu corpo quase volátil para fora do êmbolo.
Em seguida, visualizou uma movimentação próxima ao corredor, e, sorrateiro, camuflado pelas sombras foi
se aproximando. Precisava de energia, do calor vital, da essência que habitava naqueles corpos... Viu
sondas sentinelas que buscavam através das ondas cerebrais aqueles que haviam escapado... Num impulso
encontrou-se entre vários seres de mundos diferentes. Nem se preocupou em escolher a vítima. Cada contato
seu com os corpos, recebia deles um “insight” de luz, e seu corpo fortalecia... Era rápido e preciso.
Momentos depois havia um vazio ao seu redor, e muitos presos fugiam precipitando por caminhos e buracos
que viam pela frente em desespero.
Pisoteando cadáveres pelo chão e recolhendo ainda últimas chamas
de vida, saiu à caça de mais vítimas. Sentia-se muito esfomeado. O seu instinto de preservação estava ativado
e precisava de mais energia para saciar-se e manter o controle. Percebeu dezenas de sondas sentinelas
vindo em sua direção, escorregou pelo tubo de ar abaixo dele e caiu dentro de um imenso salão repleto de
prisioneiros escondidos. Atacou todos ao mesmo tempo, e aqueles que não sucumbiram ao seu simples toque
caíram rasgados ou esfacelados pelas suas garras afiadas.
A prisão de Doothyr-Van-Sy-Mierr estava prestes a se
transformar num cemitério caso não se iniciasse a auto-reestruturação, com a recuperação dos
prisioneiros em suas celas oclusivas e a criatura no seu êmbolo de plasma. A Sonda Central já tomara
conhecimento das mortes ocasionadas pela criatura Vlossxlon, e quanto mais rápido fosse encontrada,
menos corpos seriam vistos pelos canais. Com todos os prisioneiros detidos, ela não teria mais vítimas
e quando a fome apertasse novamente, sairia à procura de comida e, então, seria capturada.
Aos poucos, com a auto-suficiência da prisão de
Doothyr-Van-Sy-Mierr sendo restabelecida, tudo voltava ao normal. As mortes não eram lamentadas e
os cadáveres eram destruídos para dar espaço a outros novos prisioneiros. A prisão se tornara exposta,
mas, mesmo nas piores condições, ainda permanecia incógnita, pois era desconhecida para muitos a
sua existência e a rota mercantil passava a milhares de anos-luz dali.
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Mas o que fora transformado em regra número um e que dizia
não ser permitida a entrada de estranhos, não sendo prisioneiros em Doothyr-Van-Sy-Mierr, estava para
ser quebrada por um grupo de militares do planeta Kwand, no desejo de capturarem a criatura Vlossxlon.
Haviam rastreado uma informação a respeito, vinda da Sonda Central. Era um tremendo desafio que poderia
transformá-los em heróis e render-lhes altas patentes e prestígios... Ou não. Como possuíam o
D.A.T.M.C.M.A.: Decodificador Anacâmptico de Transformação Molecular com Codex Multiserial Acoplado,
podiam acessar qualquer parte da prisão, sem nenhuma interferência das sondas sentinelas. Cientistas
Kwand haviam participado na construção da prisão, por isso os militares Kwand tinham esse privilégio.
Os seres do planeta Kwand faziam uma mistura muito estranha
de três raças extintas. Verdadeiros brutamontes sobre dois troncos que se locomoviam fazendo ruídos de
juntas desarticuladas. Quando andavam, eram ligeiros, rápidos e ágeis, apesar do corpanzil; sobre os
ombros uma pequena cabeça dividida em três gomos ósseos, protegida por um capacete semitransparente
cheio de pequenas armas mortíferas, acionadas pela pressão do globo ocular, que lhes servia como alça
de mira, fixa no objetivo. Todos mantinham o mesmo padrão de uniforme azulão e com as mesmas patentes.
Não havia nenhum superior entre eles. Chefe supremo, somente o grande “Taffyr”! Os vinte
militares Kwand presentes conheciam muito bem o que significa caçar um Vlossxlon. Criatura cruel e
assassina. Aquela que estava na prisão demonstrava ser a pior de todas! Já haviam caçado outras
criaturas da mesma espécie e consideravam-se “experts” no assunto. A estratégia foi traçada obedecendo
às múltiplas entradas de acesso aos corredores das celas oclusivas. Todos partiriam do mesmo ponto
checando tudo e chegariam ao centro na mesma hora. Quaisquer movimentos suspeitos acionariam a trama
antifuga e todos se voltariam para o mesmo corredor, cercando a criatura. As sondas sentinelas ao
pressentirem a presença de estranhos na prisão, acenderam luzes de perigo, entretanto permaneceram
paradas.
A criatura ficou em silêncio durante a passagem dos militares
Kwand. Bem alimentada, a sua metamorfose funcionava perfeitamente. Um militar ao passar rente ao seu
corpo teve um ligeiro calafrio e perdeu um pouco de energia. Ele titubeou, parou, voltou atrás meio
desconfiado e depois prosseguiu caminhada. Se tivesse olhado para o alto, teria visto o Vlossxlon
espreitando-o. Analisava os pontos fracos antes da fome apertar. A criatura não se sentia acuada nem
intimidada, muito pelo contrário, tinha uma prisão imensa à sua disposição para se esconder e
alimentar-se à vontade. Só devia se preocupar com as sondas sentinelas, que possuíam o seu padrão
cerebral e podiam prendê-la novamente.
Da primeira passada dos militares nada aconteceu, e assim
sucessivamente em outros túneis até o nível AKW1P9R8A0. Os corredores repletos de celas oclusivas
mantinham as aldravas estanques vigiadas pelas sondas sentinelas. A partir do retorno seqüencial do
corredor periférico interno, localizado na junção principal que se abria para um imenso Salão de
Julgamentos desativado, um militar Kwand foi envolvido pela escuridão momentânea do local. Ao ativar
a célula de iluminância do seu traje, deparou-se, repentinamente, frente a frente com a criatura
Vlossxlon. Ficou paralisado, hipnotizado, gélido, enquanto ela o rondava, analisando-o. Sabia que
estava perdido. Apesar de ser maior que ela, não era mais ágil, nem o instinto tão aguçado, nem o
dom de matar como aquele ser. Começou a suar, a sentir um frio muito intenso, como se estivesse se
desnudando às margens congeladas do Fãlho. Suas pernas bambearam de fraqueza, seus olhos orbitaram
vazios, sua mente foi perdendo o foco e nem sentiu quando tombou pesadamente contra o chão e seu elmo
rodopiou à distância, acionando uma minúscula luz intermitente. Instantes depois os outros militares
Kwand surgiram dentro do salão, teletransportados.
Aproximaram-se cautelosos do companheiro estatelado no chão.
Após constatarem que estava morto, observaram algumas características típicas deixadas pela criatura.
-Ela não está com fome, apenas acumula energia... Prepara-se
para escapar. – disse um dos militares num idioma embolado.
-Fugir daqui sem um D.A.T.M.C.M.A. é impossível! – considerou outro.
- Ela possui um, e tanto pode sair da prisão como pode abrir qualquer
cela oclusiva para se alimentar... Esse Vlossxlon é diferente! É muito mais inteligente e esperto do que
os outros...
- Não é à toa que esteja presa aqui... – disse outro. - E se
mudarmos a senha freqüencial do D.A.T.M.C.M.A. nós é que ficaremos encurralados neste fim de mundo.
- Vamos agir pelo Plano B; em duplas e com os protetores
deflexivos ligados. A cada “Yartz” conferimos nossas posições... Temos autonomia para solicitar ajuda
da Sonda Principal do Complexo.
- Ainda é cedo para alardearmos nossa posição. Vamos manter
o Plano B e a rotina Padrão... Como a criatura está com um D.A.T.M.C.M.A. será fácil obtermos a sua
localização. Há males que vêm para o bem...
- Nem tanto... – disse um outro militar Kwand caindo no meio
do grupo, morto.
Ao acionarem o “Localizador” com os parâmetros da criatura,
ficaram perplexos. Identificaram-na misturada entre eles. Naquela escuridão, o Vlossxlon bem alimentado
podia confundir-se com o ambiente. Ativaram as células de iluminância dos trajes ao máximo. Viram a
criatura e mais três corpos acesos no chão. Pressionaram as armas oculares automaticamente, mas o
Vlossxlon foi mais rápido e debandou-se por um corredor lateral, desaparecendo...
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A princípio a sonda sentinela capturou as ondas cerebrais do
Vlossxlon e ativou o seu sistema de segurança, prendendo-o entre as barras alumínicas, mas quando ia
enviar as cargas de “Nurión”, impossibilitando-o de qualquer fuga, captou as ondas sonoras do
D.A.T.M.C.M.A., então cancelou todas as ordens anteriores, libertando a criatura que entrou na cela
oclusiva mais próxima, escondendo-se. Tinha fome, precisava comer; quando se encontrava acuada seu
metabolismo digeria em dobro. Precisava sempre de alimentos. E simplesmente sugou todo o conteúdo do
alengholiano, deixando apenas uma carcaça esverdeada na cela aberta. Passou para outro labirinto de
corredores ascendentes com iluminação feérica. Na seção mais próxima, as celas oclusivas se dispunham
em ângulo vertical, e as portas eram transparentes, deixando à mostra seres com aspectos humanóides,
musculosos e massa volumosa.
Uma sonda sentinela colocou-se de prontidão diante à cela,
em defensiva, mas ao reconhecer o sinal sonoro do D.A.T.M.C. M.A. se afastou.
O corpo do humanóide escorregou para o chão com todo o
conteúdo gelatinoso que o protegia. E Vlossxlon alisou suavemente com suas garras afiadíssimas aquela
textura que foi se abrindo, expondo as camadas gordurosas de carne. Escutou ruído. Do seu D.A.T.M.C.M.A.
escorria uma luminescência intermitente. Tirou um naco de carne e comeu. Foi como se estivesse
degustando um “Glotty”, uma iguaria do seu mundo. Agiu rapidamente. Se existia uma sonda sentinela
com todas as suas referências, aquela ali deveria também possuir as referências daquele ser. O DATMCMA
possuía um anel acoplador para as sondas, e aquela sonda sentinela foi encaixada nele. O Vlossxlon
fugiu no mesmo instante em que chegavam várias outras sondas sentinelas e militares Kwand.
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As naves militares Kwand foram projetadas especialmente para
desenvolverem ações dentro e fora do espaço cósmico. Levando em consideração os limites dimensionais da
estrutura atômica de massa e energia conhecidas, os cientistas paramilitares Kwand haviam criado uma
teoria baseada no “Princípio Anacâmptico de Decocção Ativa da Energia Negativa” pela qual impulsionavam
suas naves em hipervelocidades através das dimensões. Atravessar uma galáxia, de um lado ao outro,
requeria apenas estender o mapa cosmográfico no filamento ótico e traçar a rota.
E a sonda sentinela com as referências do humanóide aneladas
ao D.A.T.M.C.M.A., encaixado no painel frontal, fez com que a nave se colocasse no sistema automático,
e o computador de bordo coordenou as novas diretrizes espaciais. O Vlossxlon hibernaria por um bom
bocado de tempo, mas, antes, encerrou as portas com travas de segurança para garantir a sua
sobrevivência, enquanto a nave se afastava da prisão de Doothyr-Van-Sy-Mierr.
Terra em qualquer lugar época recente...
O mundo científico se mostrava bastante preocupado com os
acontecimentos ocorridos em diversas partes do planeta. Primeiro em épocas passadas, e agora, no
presente, voltavam a se repetir dentro do mesmo padrão. Qual o motivo, a razão para o surgimento
repentino de seres humanos mutilados e outros completamente idiotas? E todos, sem exceção, sofriam
dos mesmos sintomas identificados pelos médicos: Hipalgesia ou Neutropenia! Um quadro clínico
assustador e aterrorizante. Por mais que se investigasse não encontravam uma explicação plausível,
e, em pouco tempo, ver-se-iam impelidos a solicitar aos governantes de cada país, que fizessem uma
espécie de rastreamento com equipes médicas especializadas, em cada cidade dos seus estados, na busca
do elemento causador daquela situação, antes que o mundo se transformasse numa calamidade. Não tinha
o aspecto de doença, pois não existia nenhum foco localizado, somente estilos semelhantes já
identificados pelos peritos policiais e médicos legistas, que deduziam serem ocasionados por alguma
mente doentia, um psicopata, ou por algum cientista louco fazendo experiências com seres humanos. Mas
existiam muitas perguntas sem respostas: Como ele conseguia fazer aqueles cortes cirúrgicos com tamanha
precisão sem seccionar nenhum órgão importante e a tal profundidade? Como ele conseguia drenar a energia
quase que completa dos corpos humanos, deixando apenas uma ínfima descarga neurônica, sem acontecer
nenhuma alteração interior? Por que os ferimentos abertos não sangravam, mesmo com os órgãos
completamente expostos? O mundo científico analisava todas as possibilidades, até de um animal
predador. Ontólogos pesquisavam o comportamento de determinadas criaturas noturnas... Acreditando que
uma alteração no biossistema estaria afetando seus comportamentos...
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Para o Vlossxlon, a criatura humana era algo inexplicável
para si. Possuía a energia mais pura que até então apreciara. Muito próxima à energia cósmica! Uma
concentração de forças animadas que geravam uma coisa que eles chamavam de vida: um mecanismo muito
complexo era o corpo, estrutura que protegia essa essência, contudo, muito fácil de tirar.
A sua vinda para o planeta Terra exigiu mudanças quase
radicais no seu comportamento e na sua forma física. Não simbolizava a perfeição terráquea; muito pelo
contrário, seu aspecto repugnante, asqueroso, com tegumento escamoso, parecia um monstro aos olhos
humanos. Mas qual humano que o vendo, sobreviveria para contar o que vira? Independente da sua forma
monstruosa, sob o ponto de vista terrestre, desenvolvera outras características que lhe permitiam
se alimentar satisfatoriamente. Seu olhar era cativante, sedutor, hipnótico; inibindo as reações de
pavor e desespero quando visto pela primeira e única vez. Apesar de serem apenas dois riscos
esbranquiçados em toda a órbita... A sua aproximação dos humanos exercia uma espécie de atração
irresistível, seu feromônio agia rapidamente e era muito forte como um magneto. O seu ambiente
era as trevas que caíam sobre o planeta a cada determinado período. Detestava os raios solares
que aqueciam em demasia as suas escamas protetoras, causando desconforto e desencadeamento
progressivo de energias internas, que o deixavam quase morto. Na verdade, era completamente
sugado das suas forças quando se expunha durante o dia. A própria claridade o afetava. Ao
contrário das criaturas terrenas que se reabasteciam e acumulavam em seus corpos aquele calor.
Detestava o sol e o dia para si, contudo, amava-os com a mesma intensidade quando se referia
aos humanos! Dias de sol, noitadas de prazeres intensos e inesquecíveis! Era muito difícil não
se alimentar uma noite sequer. Aprendera que naquele mundo podia de tudo, menos matar! Isso
despertava desconfiança, intranqüilidade, e exigia mudanças bruscas de rotina e novas estratégias.
Vez ou outra, no meio das calamidades ou guerras – fatos corriqueiros no planeta -, se dava ao
luxo de brincar com a comida, mas somente quando tinha absoluta certeza de que não seria
importunado, caso contrário, mudava-se para outro local mais apropriado. Gostava de experimentar
até onde ia a sensibilidade à dor física de suas vítimas. Deixava-as obsecrando pela vida até o
limite máximo de suas resistências, para depois poupá-las, sugando-lhes somente pequenas porções
vitais das suas simplórias existências.
Havia diferenças gritantes entre as reações humanas: aqueles
que eram levados para o abatedouro sem nenhuma resistência e doavam-se de corpo e alma a toda espécie de
atrocidades a que fossem submetidos; e aqueles outros rebeldes, que resistiam de todas as maneiras:
física e psicológicamente e ao pleno controle da mente. Estes eram os melhores, pois conseguiam suportar
calados quando suas unhas afiadas rasgavam-lhes a carne em profundidade, enquanto o sangue jorrava a
distância. Quando finalmente começavam a urrar de dor, libertava um pouco da sua saliva sobre as feridas
abertas, diminuindo-lhes assim o sofrimento. Porém, via nos humanos algo que nunca percebera em outras
criaturas pela galáxia: eles falavam pelos olhos, e suas almas aflitas imploravam, numa súplica muda,
a compaixão, a piedade... Às vezes, se surpreendia atendendo àqueles pedidos.
E o Vlossxlon ia deixando por onde passava, um rastro de
despojos humanos acéfalos, descerebrados, seres com feridas enormes, profundas e incuráveis, que nunca
se cicatrizavam, rostos marcados pela dor e pela agonia. Um verdadeiro exército de mentecaptos e
parasitas que pareciam ter saído de um pesadelo macabro...
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Certa noite de verão quando à espreita da sua próxima vítima,
algo lhe despertou a atenção. O D.A.T.M.C.M.A., que carregava sempre preso à cintura, adquirira vida e
suas luzes alternantes pareciam querer lhe dizer alguma coisa. Mas o quê? Nunca, em todo o tempo que
estivera naquele planeta, aquele sinalizador funcionara, agora todas as suas células brilhavam intensa
e intermitentemente. Tirou o D.A.T.M.C.M.A. do cinto e começou a mexer nele. As luzes imediatamente
mudaram de cor e um raio azulado partiu de um orifício. Em seguida, o aparelho tremeu todo e emitiu
um ruído sonoro. Ele escutou, ao longe, uivos e latidos de animais, como se aquele som estivesse em
outra sintonia... A persistência dos latidos e ganidos indicavam que eles estavam em perseguição de
uma caça! Seus olhos lampejaram! Pressentiu o perigo iminente. O sinalizador denunciara a sua presença
naquele planeta. Mas quem viria até aquela galáxia atrás dele? Isso mudava a sua estratégia. Precisava
voltar à nave Kwand e fugir dali. O quanto antes melhor. Requeria também uma reserva de energia... Isso
não era o problema principal. Humanos existiam aos montes pelo caminho, mas se começasse a devorar suas
almas, estaria marcando a sua trilha...
Um grupo de pessoas alegre passava perto dele naquele
momento. Atacou-as de modo rápido, tirando apenas suas fontes vitais... Desta vez não teve piedade,
e quando partiu só restaram corpos encarquilhados com expressões faciais paralisadas de terror. O calor
era intenso, e a noite de lua cheia deixava perceber o espectro sorrateiro do Vlossxlon se ocultando
nas sombras enquanto retornava ao passado. Pelo mesmo caminho que fizera há muito tempo atrás, quando
chegara àquele lugar cheio de delícias! Não sabia o quê, nem quem o perseguia, entretanto, deduzia que
podiam ser militares Kwand, ou caçadores de recompensa... Mas podiam ser também as sondas sentinelas...
Mas não entendia por que viriam de tão longe para caçá-lo! Não se sentia tão importante assim. Aquele
estado de excitação abaixava a sua reserva de proteína, e justamente quando enveredava por um caminho
onde não havia presenças humanas! Mas mesmo assim foi deixando um rastro de mortes... Só que ao invés
de criaturas humanas, eram animais de todas a espécies, desde pequenos insetos até pássaros, cavalos,
gados, cachorros, gatos e tudo o mais que tivesse vida e estivesse próximo, e que pudesse fortalecê-lo
até chegar à nave, era morto. Esse estado de tensão constante em adquirir energia estava deixando-o
obcecado e descuidado. Ao se aproximar de uma pequena cidade, a primeira casa que viu, invadiu-a
eliminando seus moradores e permaneceu no local, escondido, pois amanhecia. Foi seu erro fatal após
deixar uma trilha de mortes pelo caminho. Ocultou-se debaixo do assoalho. Considerava o lugar mais
seguro e escuro. Tão logo se acomodou para aguardar a noite, uma parede lateral da casa ficou
transparente, e em seguida entrou um militar Kwand todo precavido. Portava uma arma de grosso calibre
e, acima, uma espécie de canhão de luz que ativado deixava ver os cômodos da casa. Atrás dele vieram
mais dois Kwand e umas quatro sondas sentinelas.
Vozes humanas fizeram os militares Kwand e as sondas
sentinelas recuarem por onde vieram, retornando tudo ao normal. Vlossxlon agora se sentia acuado.
Não podia impetrar uma fuga porque ainda era dia e seria fatal. Foi se arrastando para frente e
encontrou um buraco por onde se esgueirou até um lugar empoeirado, úmido e cheio de coisas velhas
e mofadas. A sua excitação naquele instante atingia ao limite máximo, e todo o seu ser era um ímã
atraindo para si toda energia possível. Ao passar rente à parede ou tocar em algum animal, pequenas
fagulhas de luz se projetavam para o seu corpo. Precisava devorar a alma dos humanos... Somente eles
podiam salvá-lo da morte!
Novamente ele escutou um ruído elétrico por sobre a sua
cabeça e pressentiu a presença de dois militares Kwand. Um foi revistar os cômodos da casa, enquanto
o outro desceu para o porão. Vlossxlon sabia que se fosse descoberto seria o seu fim, mas não podia
deixar aquele ser incólume. À sua aproximação, aprofundou-se ao máximo na escuridão, e quando o
militar Kwand chegou próximo o suficiente, atacou-o silenciosamente, drenando toda a energia do
brutamontes. Tão logo o corpo se arriou no chão como um saco vazio, o militar que estava revistando
a casa veio desembalado em socorro do companheiro, ao mesmo tempo em que comunicava o ocorrido aos
outros através do aparelho vocal. Todavia, não teve tempo de investigar o lugar como pretendia; a
vida esvaiu-se do seu corpanzil como num sopro.
Começava a escurecer e assim Vlossxlon via aumentarem as
suas chances de chegar à nave e escapulir daquele planeta, antes que não tivesse outra oportunidade.
E mal a noite chegou, partiu numa fuga apressada, deixando a casa cheia de cadáveres. De repente o
D.A.T.M.C.M.A. vibrou e abriu uma tela onde se via um grupo de sinais cercando um pequeno ponto isolado.
Vlossxlon estancou. Aquele ponto o representava sendo cercado. Prestes a cair numa cilada! Ao invés
de se esconder nos prédios da cidade, fugiu para o meio do mato. Pelo decodificador viu quando o grupo
se reorganizou procurando cortar-lhe qualquer rota de fuga. Mas ainda havia um pequeno espaço aberto,
deixado durante o estratagema em formação, com somente dois militares Kwand à sua frente. Avançou
célere atacando-os de surpresa... Recebeu um tiro da arma eletrônica que lhe arrancou o braço esquerdo
e, mesmo assim, conseguiu liquidar com o Kwand, aproveitando-o para recompor suas energias. Desta
forma, o braço decepado se regeneraria rapidamente. Continuou avançando para adiante sob uma saraivada
de ondas eletrônicas vindas dos seus perseguidores. Por ser mais leve, ágil e habituado com a gravidade
do planeta Terra, se desvencilhou, escapou das armadilhas e viu os militares Kwand desistirem
momentaneamente da caçada. Foi o suficiente para obter uma dianteira confortável, e através de atalhos
se aproximou cautelosamente de onde havia ocultado a nave Kwand a centenas de anos no passado. Tão logo
as diretrizes do D.A.T.M.C.M.A. coincidiram com os parâmetros de segurança de bordo da espaçonave, ela
foi se erguendo do meio do pântano, como um monstro aterrador, e emitindo um pequeno silvo. Uma luz
brilhante envolveu Vlossxlon e ele, de repente, viu-se na cabine diante dos controles no interior da
nave Kwand. Rapidamente colocou o D.A.T.M.C.M.A. no painel deixando os controles automáticos escolherem
a rota para um planeta qualquer. Em breve, muito breve, estaria novamente saciando a sua fome em outras
almas...
Preparava-se para os procedimentos de hibernação quando ouviu
um barulho mecânico conhecido, bem à suas costas. Sua essência gelou. Seus olhos se abriram desmesuradamente.
Voltou-se rapidamente no mesmo instante em que surgiam ao seu redor as barras alumínicas:
“Fugitivo Vlossxlon, considere-se preso e restituído à cela
biológica NDPO19J52K26-YM3 da prisão Doothyr-Van-Sy-Mierr, para pagar por todos os seus crimes”
Em seguida, foi subjugado por cargas de “Nurión” que o
deixaram completamente paralisado.
A espaçonave Kwand apenas flutuou sobre o solo e partiu num
raio em direção ao espaço infinito. Quanto mais rápido aquela criatura estivesse na prisão, melhor seria
para o Universo.
Nota do Navegador:
"Após o episódio acontecido com a prisão de
Doothyr-Van-Sy-Mierr, com a explosão da estrela Ang-licon e das sérias conseqüências advindas,
relacionadas à fuga da criatura Vlossxlon para o planeta Terra, os construtores transportaram a
prisão para uma dimensão fractal, distendida no interior de um Buraco Negro, com a implantação de
um sistema bioenético de ampliação anacâmptico. A prisão de Vlossxlon aconteceu por um erro fatal
dele próprio ao deixar o D.A.T.M.C.M.A. entregue aos controles automáticos que triangulou toda a
região local detectando as sondas sentinelas que trocaram informações sinérgicas entre elas, e as
referências cerebrais da criatura passaram para a sonda sentinela levada por ele durante a sua fuga."
Fim
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