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INFORMAÇÕES    
Autor:John Dekowes.
Título: Até Deus Perdoa.
Publicação: 05/11/2006.
Categoria: Ficção Científica.
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FICÇÃO CIENTÍFICA      
Até Deus Perdoa
Por: John Dekowes

Imagem da Internet

Arvhorx é o décimo terceiro planeta do Sistema Solar. Oculto atrás do Sol, se encontra subjugado a uma disfunção dimensional que o torna quase invisível, entretanto, a sua presença nos céus do leste é observada quando ocorre o alinhamento dos nove planetas conhecidos, com um possível eclipse solar; porém, somente do hemisfério sul é que se pode vislumbrá-lo com mais clareza encoberto por um brilho avermelhado dentro do chamado "perímetro urbano estelar”. O planeta Arvhorx é encoberto por uma pálida névoa violeta amarelada puxada para o tom chumbo. Possui dezesseis anéis com intensidades diferentes que rotacionam em velocidades irregulares, em virtude das partículas magnéticas, gelo, plasma alumínico e metano. Ao seu redor, ainda giram três satélites artificiais: Galfhur, Annyr e Liggyll. Sendo que Galfhur é habitado pelos Dryons, raça humanóide decadente. Estão perdendo massa óssea em conseqüência da radioatividade originada pela exploração indiscriminada do minério ascumm. O produto principal é transformado em pó amarelado e misturado a um acidulante sintético. A massa então quando diluída com outros compostos é vendida a peso de taffya no mercado negro como alucinógeno.

HўnnåĎ’ēllệ é cidade capital, uma megametrópole cercada por torres de aços e vidros, que se perdem nas alturas, numa simetria axial; tendo ao centro, como corpo que sustenta os tentáculos da urbe, a potestade, numa construção coniforme gigantesca, de onde partem continuamente em disparada, naves imensas em formas de cubos marmóreos rajados de verde e amarelos. No interior um gigantesco salão, e ao centro, uma cúpula coberta com milhares de visioramas que monitoram cada recanto da cidade, quase que envolta em constante nevoeiro. É nesse local que todas as manhãs por algumas horas – quando o sol desponta pra lá dos Jardins de G’sell, permitindo aos horxianos apreciarem um fenômeno atmosférico místico: a abertura do portal cósmico e a fusão dos anéis planetários, enquanto o lago argênteo se mescla de cores sanguinolentas vivas e vibrantes. -, a Soberana Beh-trixx chega para participar com o seu séqüito, convidados e o povo, daquele momento sagrado: as proeminências solares liberam potentes descargas de energias eletromagnéticas que ativam os inúmeros instrumentos posicionados no espaço sideral, que transformam os visioramas num descomunal écran, onde então, todos, aos milhares, se extasiam maravilhados com o cenário surreal, divino e espetacular, que vai surgindo bem devagar: o céu azul profundo e límpido aos poucos toma conta de tudo, em seguida, os visioramas adquirem características holográficas polidimensionais, e tem-se a impressão de poder caminhar para dentro da paisagem envolvente. Uma voz metálica a meio tom, inicia uma narração bem pousada, como entoando uma oração, apenas interagindo o necessário para não desconcentrar os horxianos deslumbrados.

O Sol vai nascendo e a claridade da luz cobre toda a natureza, com um manto dourado e reluzente. Todos mantinham-se extasiados e boquiabertos. Quase podiam sentir a brisa morna do vento matutino em seus rostos; e de repente, a paisagem foi se ampliando e subindo para um plano geral, bem das alturas. E aquela estátua de braços abertos, parecia abraçar o mar e a cidade a seus pés. Beh-trixx não agüentava manter-se em silencio ao ver aquelas imagens. Seus olhos tão azuis quanto aquele oceano, estavam intranqüilos. Suas lembranças surgiam num ímpeto. Prendeu as madeixas esverdeadas e aneladas dos cabelos dourados, quase prateados entre os dedos, procurando escutar o que o narrador dizia.

"A nossa Soberana, expôs a sua adolescência ao sacrifício de viajar por este Universo procurando um novo planeta para o seu povo morar. Das milhares de civilizações que visitou, do outro lado do sol, encontrou o verdadeiro paraíso: o planeta Terra. E um dia, seus olhos avistaram uma das cidades mais bela daquele mundo, cercada por montanhas e rochas, e mais tarde, ela conheceu o Pão de Açúcar e o Corcovado. E durante a sua estadia naquele mundo, foi se enamorando por aquele lugar, e numa tarde de verão, num arroubo de divina poesia, cingiu manualmente, com seu cinzel radiante toda a sua emoção e o seu estado de espírito. Hoje, na face da pedra chamada Gávea, os versos soldados no magna enegrecido e esverdeado pelo limo revelam o seu amor por aquela cidade denominada de Rio de Janeiro

"Ma-i-osk ss vert-in da le mar-ishu-t

Aconteceu um silêncio entre os milhares de horxianos quando escutaram uma outra voz, muito melodiosa, quase num sussurro, recitar em outro idioma desconhecido, frases com muita suavidade e ardor. A soberana Beh-trixx considerava uma honra tudo aquilo, e principalmente uma homenagem ao seu querido trisavô, do qual tinha carinhosa recordação dos seus tempos de infância, de quando ainda era pequena, e recebia seus ensinamentos através das cânulas temporais. E depois adorava quando recitava os versos diotrôpticos compostos em quadras sextantes com rimas analécticas e estrofes triolés do poeta Hogïrdor. Toda aquela composição estava em línguas triglotas do antigo império:

"As asas batendo não alcançam o tempo...

Como uma poetisa divina, ela adivinhou que com o tempo, aquela montanha rochosa seria altiva, enigmática, e o local exato para externar toda a sua emoção.

"V-Lande rüri das-h-n y-kar-tn Darñ yrn...

A imagem da cidade contornava toda a orla da praia de areias alvíssimas. A voz surgiu mais emocionada e vibrante, entoando cada sílaba. Sabia como interpretar o pensamento melódico das palavras.

"O coração pulsando não semeia emoção...

Os efeitos de luz, a incidência dos raios prateados na formação rochosa e sobre as vidraças dos prédios davam a impressão de um colar de pérolas, e despertava em Beh-trixx uma forte vontade de retornar. Voltar no tempo...

"Nic-tur i-mand-lss var de-vla de-vlai i-putã-mi...

Os horxianos estavam estáticos, hipnotizados, extasiados; e foram ludibriados pelo entardecer... E lutaram bravamente para despertar do transe a que foram acometidos, ao verem o sol refrescar-se no mar de águas mais azuis do que os seus olhos mutantes, e depois aquela letargia... A voz explodiu como um grito abafado, cheia de paixão desenfreada, contudo, com serenidade...

"A liberdade existe e grito para me libertar...

Beh-trixx despertou totalmente a sua essência. Lembrar daquela cidade, dos humanos, de tudo o que poderia acontecer aquele planeta, aquele mundo, aquele lugar...

"Mas-cha-la no-lur de-lay Lur-lury y mãn-re Nikctur i-shu-t y vern...

Que existência teriam depois de tudo? Que recordações teriam quando o seu povo invadisse aquele lado do Sistema Solar? Não conseguia imaginar outra realidade... Apenas desolação.

"Porque o coração tem asas que não sabem voar além de mim...

Beh-trixx gostaria de transcender cósmicamente de Arvhorx e voltar ao planeta Terra em busca de respostas. Seu povo precisava viver, já haviam alcançado o limite máximo da existência... E tão simplória, instantânea, momentânea era o caminho do ente humano.

"De-vlay ss ky-ort Yn dros-mi as-chã-lar tri-nür
Gl-ãsk-bori-nŏr ver-t-lai-î I-kõsz-anük
Far-lurÿ-yn Mar-s-chã dur y an-tlo-venr-k...

Rio de Janeiro. Uma emoção muito forte a envolvia. Seu coração pulsava violentamente. As lágrimas inundavam-lhe os olhos, seu corpo tremia tomado de uma sensação desconhecida. Viver sem nunca tocar, saciar ou mergulhar naquela imensidão líquida onde via os humanos se deliciarem... E aquela figura expressiva, estática de braços abertos, esculpidas no dorso da montanha, parecia compreender muito bem o seu dilema. Aquele olhar pétreo lembrava-lhe, vagamente, as feições rígidas do seu trisavô. Sua voz soou triste, como se buscasse forças num passado distante e para não sofrer de tanta paixão.

"Gritar...
Para que o grilhão do nada quebre-se sobre o mar...
Fazendo o pássaro gigante surgir na eternidade...

As dimensões existem para criar as fronteiras através do tempo, e cada Universo é apenas uma falha onde jamais se encontra o fim; com raras exceções a ordem cósmica se nivela, fazendo a essência da criação se perpetuar através dos seres.

Todos os horxianos estavam mais descontraídos. Pareciam conhecedores daquele lugar e passeavam livremente pelo interior das imagens holográficas da cidade. Subiam no Corcovado, andavam no Bondinho, mergulhavam nas águas do mar... Como se realmente estivessem apreciando com todo prazer.

"Rặs-z y mor-lu
Dar-ñ dev Dro-vas-k z-ãtu-n i-shu-tn ver-dor-lu
Va-s i-temi-ra lo-rur lo-rur...

Beh-trixx sabia que existem momentos e instantes. O seu momento fora quando estivera na Terra, e deixara que os raios vermelhos da caneta sangrassem os caracteres, gravando para a eternidade a sua mais profunda expressão do seu íntimo:

"O existir, então, naufragado na imensidão do universo,
consumirá aos poucos as verdades inexistentes...

A entrada silenciosa dos soldados de Tollur, armados com pistolas eletrônicas causou um certo desconforto no salão. Eles nunca apareciam daquela maneira tão acintosa diante da realeza. Ao comandante Tollur desagradava a idéia revolucionária da Soberana Beh-trixx, sempre muito intempestiva e apaixonada. Os guardiões faziam parte de um passado muito distante que precisa ser esquecido. Arvhorx agora tinha outra realidade! Não era de todo contra a invasão do planeta Terra, afinal HўnnåĎ’ēllệ já não comportava seus habitantes, contudo, a exploração dos subprodutos do ascumm começava a render frutos além das fronteiras do Sistema Solar, e menosprezar aquilo tudo naquele momento era loucura. Algo precisava ser feito.

"Horxianos, o comandante Tollur, tem um comunicado a fazer”. – A voz grave e fria rompeu no salão, enquanto uma luz violeta inundava todo o recinto, moldando uma gigantesca silhueta, até surgir uma imagem envolta em trajes reluzentes e metalizados.

"Arvhorxianos, a partir deste momento, o planeta Arvhorx se encontra sob comando militar até a deliberação sobre o destino da Soberana Beh-trixx. Durante muito tempo, ela vem incutindo em suas mentes, uma realidade falsa, baseada numa paixão irreal, puramente platônica e egoísta! Se esquecendo dos interesses reais do seu povo, aponta-nos uma solução para a nossa sobrevivência. Mas poderemos viver naquele planeta? Ela esteve lá, nos mostrou as imagens daquele mundo, daquela cidade maravilhosa, todas as possibilidades, porém uma pergunta se faz necessária: e devemos indagar a nossa Soberana Beh-trixx: Em algum momento, estando lá, ela retirou a membrana dérmica para deixar o seu corpo sentir a pressão daquela atmosfera? Ou por acaso mergulhou naquele mar? Sentiu o calor na pele? Bebeu do líquido chamado água?” – Milhares de rostos voltaram-se para a face angustiada projetada no écran. Ela abaixou a cabeça. Tollur estava coberto de razão. Deixara-se levar por sentimentos pessoais e se esquecera do seu compromisso com o reino... Mas, o seu povo poderia um dia adaptar o seu metabolismo àquela atmosfera. Já fizera isso antes, afinal, o planeta Terra e Arvhorx possuíam as mesmas distâncias do Sol... Mas não adiantava questionar agora. De repente, lá dentro de si, algo rompeu transformando-se em imensa alegria. Toda a sua angústia se apaziguava. O comandante na sua sede do poder solucionara tudo. - A imagem voltou para Tollur. – "Arvhorxianos, devemos perdoá-la, afinal, até Deus perdoa, contudo, por medida de precaução e segurança da Soberana Beh-trixx, ela será levada para Galfhur onde ficará confinada aguardando a decisão do Tribunal Militar!”.

Os soldados de Tollur avançaram abrindo caminho por entre o povo. A imagem mostrava a cidade sob um céu tomado de vermelhado escuro, e subindo na linha do horizonte a Lua prateada. E Beh-trixx foi levada prisioneira por uma rua que se perdia no infinito cravejada pedras de brilhante que reluziam banhadas pelos fogos de artifícios.

Fim

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