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INFORMAÇÕES    
Autor: Humberto Plínio Ribeiro.
Título: Advla
Publicação: 30/09/2005.
Categoria: Ficção Científica.
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OUTRAS OBRAS DO AUTOR
Em breve outras obras.
FICÇÃO CIENTÍFICA      
ADVLA
Por: Humberto Plínio Ribeiro Filho

Imagem da Internet
Novela dividida em vinte e dois capítulos. Aguarde a página carregar.

"Não sei como será a terceira guerra mundial,
mas a quarta será com paus e pedras
"
Albert Einstein

Finalmente a eles haviam conseguido. Os Foguetes de Fusão ficaram prontos para a primeira viagem tripulada. A humanidade finalmente iria se libertar das amarras do Sistema Solar. Os foguetes, altamente eficientes, permitiriam o alcance de distâncias extremas utilizando unicamente combustível capturado do próprio espaço. A primeira excursão, denominada Projeto Alfa do Centauro, foi planejada para levar o homem à estrela de mesmo nome. Esta que é a mais próxima estrela e que fica a aproximadamente um ano luz de distância. A viagem duraria um total de quatro anos para os tripulantes e cinco para as pessoas que ficassem na Terra.

Cinco anos após o lançamento todos os humanos se reuniram na expectativa do primeiro contato com tripulantes de Alfa do Centauro. Todos os canais de comunicação estavam focados no Centro de Controle, localizado na antiga China, em Beijing. Estavam transmitindo ao vivo para os espectadores de todo o Sistema Solar. Os apresentadores falavam das emoções do momento, das dificuldades do projeto, dos custos gigantescos... Finalmente, meia década depois os cientistas colheriam os frutos de seu trabalho. O homem conheceria o Sol vizinho. O sistema de comunicação quântico da nave permitia uma comunicação instantânea apesar da distância.

No momento esperado para o contato todos estavam atentos. A Terra tentou estabelecer o primeiro contato... Nada... Total silêncio. A tensão entre os funcionários do Centro parecia aumentar. Uma nova tentativa... Sem resposta. Depois de algumas horas de espera a humanidade chorou mais uma vez. Dias se passaram e ainda assim nenhum sinal de Alfa do Centauro retornou à Terra. Depois de alguns meses o fracasso do projeto ficou patente. Algumas teorias diziam que os tripulantes haviam morrido, outras diziam que havia uma falha no sistema de comunicação ou ainda que todos estariam perdidos e provavelmente morreriam em seguida. Todas concordavam num único ponto: Alfa do Centauro faria parte de mais um dos tristes capítulos das viagens espaciais.

No entanto, ao contrário do que a maioria imaginava, Alfa do Centauro não estava destruída. Esta continuou sua viagem por sete anos, três além dos inicialmente planejados. Todos esses anos a nave continuou com uma aceleração constante, alcançando velocidades cada vez maiores. Até que o sistema de hibernação foi desativado pelo sistema de segurança e os tripulantes foram acordados muito depois do esperado. Neste momento ninguém na Terra esperava por sinais de comunicação deles e a estação de comunicação já há muito estava desativada. Foi assim que esses se tornariam os primeiros humanos a colocarem os pés no planeta que decidiram denominar Alfa.

Apesar da bela historia do povo de Alfa, o que será aqui relatado não será sobre ele. Será sobre um outro povo, que vêem após este. São os advlenses que sem querer rebatizaram o nome do planeta de seus descendentes.

****

Capítulo I - Exame

O jovem, Iago Vipatsi, estudava minuciosamente aquele estranho objeto metálico respondendo, em seguida, cautelosamente a todas as perguntas de seu professor. Era um teste semestral do curso de Septologia. As perguntas, que se referiam a uma época do longínquo passado, eram relacionados a localização de objetos estranhos e dos costumes do povo que os construiu.

O curso de Septologia tinha a finalidade de estudar o passado do planeta Advla, mais precisamente o período Septal, e principalmente tentar entender o objetivo e funcionamento dos vários artefatos deixados pelos antigos. Era um curso que envolvia um grande número de pesquisadores já que as pesquisas nessa área foram responsáveis por grande parte do progresso dos advlenses.

As cidades modernas eram todas construídas com base nas antigas construções e o conhecimento da astronomia local só se tornou possível depois que Catone Wisan, um grande Septólogo, estudou profundamente o espaço em antigos observatórios. Wisan foi um grande gênio e seus estudos formaram a base da moderna Septologia. Uma de suas grandes teorias explica os primórdios da atual civilização. De acordo com esta teoria os antigos conseguiram um alto grau de desenvolvimento tecnológico, mas isso foi feito através de um grande sacrifício do meio ambiente, o que não era tão difícil de ocorrer em Advla devido às dimensões reduzidas que o planeta possuía. De repente explodiu uma grande guerra que castigou profundamente aquele mundo devido principalmente ao alto poder de destruição das armas utilizadas. Ao final do confronto as condições de vida se tornaram insustentáveis, a tal ponto que, através de um grande projeto denominado de Grande Viagem toda a população abandonou o planeta para um longínquo ponto do universo onde pudessem continuar o seu desenvolvimento numa situação mais amena. No entanto, durante esse processo um pequeno número de excluídos da antiga sociedade foram abandonados no planeta à mercê da própria sorte. A atmosfera tornou-se extremamente carregada de gases nocivos que perturbaram profundamente a mente dos remanescentes; tornando as informações desse tempo esparsas e confusas. Aos poucos esse pequeno grupo de sobreviventes, que vivia na antiga cidade de Austácia, cresceu e, com isso, uma nova civilização começou a nascer.

Civilização esta que possuía interessantes características como o fato de ser formada apenas de uma única raça e pela existência de apenas uma única pátria mundial. Inicialmente essas pessoas eram dependentes da infra-estrutura que havia no planeta, o que com o tempo começou a tornar-se impraticável e obrigou a população a desenvolver seus próprios processos e materiais. Com o passar dos anos a natureza do planeta Advla foi lentamente recuperando-se, os venenos se tornaram cada vez mais diluídos, e hoje, no século VII após a Grande Viagem, a atmosfera já está praticamente livre de todas toxinas.

Um dos maiores problemas que os estudiosos encontraram para entender a História de seu planeta foi a abolição quase que total dos papéis; os antigos possuíam outro método para armazenar suas informações e por isso o número de escritos deixados era mínimo.

Iago encontra-se no 3º ano do curso de Septologia da Universidade de Bortuca, uma das melhores do mundo não somente na área de Septologia, mas em vários outros ramos da Ciência. No momento, Iago está terminando os exames da Antiga Tecnologia Septal II, matéria em que se discute a finalidade e funcionamento de equipamentos encontrados em museus deixados pelos antigos. Certo momento o mestre pergunta ao aprendiz:

- De acordo com a teoria de Yuri qual a finalidade deste equipamento?

- A teoria de Yuri - responde o jovem - alega que tal equipamento deveria ter a finalidade de iluminação devido a posição central superior que ocupava em todos os cômodos das antigas residências. De algum maneira, ainda desconhecida, esses objetos teriam a capacidade de luminescer e talvez de aquecer...

Pausa...Silêncio...

- Continue, Iago.

Mais silêncio…

- Não tente me enrolar rapaz. De acordo com a teoria, esses objetos funcionavam através do extremo aquecimento de seus filamentos que então se tornavam incandescentes. Você deve ser lembrar que o maior problema dessa teoria está no fato de não conseguir explicar como tais filamentos eram aquecidos.

E o professor ainda acrescentou:

- De uma forma geral suas respostas estão muito boas. Pode chamar o próximo aluno para o exame Iago, e bom feriado.

O aluno então agradeceu, retirou-se da sala de exames, chamou o próximo aluno e desceu as escadas da Faculdade ainda um pouco zonzo depois da bateria de perguntas que lhe foi submetida. Enquanto saía repentinamente escutou uma voz:

- Iago, Iago, como foi o exame? O Prof. Walter perguntou alguma coisa à respeito das máquinas móveis, ou sobre os telescópios de Wisan?

Um pouco atordoado o nosso jovem não reconheceu de pronto o seu bom amigo Gustav Júnior, que lhe impunha um extenso interrogatório a respeito do exame oral. Gustav era filho do professor Antone Morris que lecionava no curso de Septologia da Universidade de Bortuca. Iago e ele eram colegas de sala e se tornaram amigos já no primeiro ano do curso. Depois de recobrar sua consciência Iago respondeu:

- Não, Gustav, o Prof. Walter se ateve mais às luminárias de Yuri e Terôncio, mas não quero mais falar sobre esse assunto. Eu estou faminto, e a única coisa que quero no momento é almoçar. Porque não vamos para a cantina da Faculdade de Literatura?

- Vamos sim... Mas, mudando de assunto, o que você vai fazer durante o feriado?

- Bem, seu pai não vai fazer aquela visita ao observatório de astronomia de Trinado? Será que nós poderíamos acompanhá-lo?

- Eu posso conversar com ele. Acredito que não deva ter nenhum problema - respondeu Gustav, enquanto eles saíam a passos rápidos pela calçada que deixa a Faculdade de Septologia.

****

Capítulo II - No Restaurante

A Universidade era muito arborizada e extensa; os prédios mais próximos da Septologia eram a Faculdade de Ciências Exatas que podia ser vista a esquerda e a Faculdade de Literatura que se encontrava um pouco mais distante, à direita. A Faculdade de Literatura era um prédio de três andares que era conhecido pelo nome de “Cubo” devido ao seu formato, nada arrojado. Após subir um pequeno morro os estudantes finalmente alcançaram a entrada do Cubo. Logo a sua esquerda encontrava-se um pequeno balcão onde, estava uma tabuleta escrita, “Informações”. O interior do prédio era constituído por uma infinidade de corredores que formavam um extenso labirinto para quem não estivesse habituado ao lugar. Logo no primeiro piso achava-se o restaurante onde os jovens almoçariam.

Ele era separado por uma divisória adornada por belos vasos de flores que davam um certo ar sofisticação ao ambiente. O local, na verdade, era freqüentado por vários estudantes e apreciado pelo cardápio diversificado e farta comida. As mesas circulares, forradas de azul claro, eram espalhadas uniformemente e, ao fundo, havia os banheiros e uma porta que dava para a cozinha. Através de um cartaz podia-se saber o prato do dia, que no caso era uma salada seguida de uma espécie de ave grelhada com molho de certa fruta cítrica e outros acompanhamentos; já a sobremesa poderia ser escolhida entre as diversas que ficavam catalogadas no cardápio. Os dois amigos sentaram-se em uma das mesas e, enquanto esperavam o atendimento, Gustav disse:

- Meu pai recebeu a pouco um livro que provêm da época Septal, esse foi achado recentemente em uma residência da antiga cidade de Potina. Atualmente o professor está muito envolvido na interpretação desses textos. Quando você passar em casa, se tiver interesse em...

- Mas claro que tenho interesse em poder conhecer esse livro Gustav. Eu ficaria extremamente agradecido se você pudesse fazer isso - disse Iago.

Em seguida Gustav mudou o tom de voz, falando agora de forma mais desconfiada como se estivesse receoso de alguém escutar.

- O grande interesse desse livro é que, pelo que meu pai disse, ele trata a respeito da energia usada pelos antigos. No entanto, o estudo do livro é extremamente complexo, com vários arabescos de sentido desconhecido, o que torna a sua interpretação algo quase impossível.

- Não posso acreditar! O Prof. Morris está com um livro sobre a energia, um dos maiores mistérios do planeta...

- Psiiiuuu! Não precisa falar tão alto, Iago. Você sabe que muitas pessoas têm interesse em desvendar esse mistério. Estou lhe contando isso apenas porque confio totalmente em você, e porque sei que tem muito interesse no assunto.

Neste momento chegou uma bela garçonete perguntando aos jovens, o que desejariam. Era uma mulher de estatura mediana, pele morena, e que trajava o uniforme do restaurante. Tinha os cabelos compridos, levemente anelados e de cor castanho escuro como ouro bruto, os olhos eram grandes e vivos, contrastando com a boca pequena e bem feita, como que traçada a lápis. Ela era uma estudante da Faculdade de Literatura que fazia turno no restaurante para obter os fundos educacionais.

Feito o pedido, a garçonete retribuiu graciosamente com um sorriso e então se retirou.

- Gustav - disse Iago - é claro que pode confiar em mim. Desculpe a minha falta de tato, é que não passou pela minha cabeça a... O fato de essa informação ser confidencial.

- Não é nada extremamente secreto, não. Apenas não gosto que este tipo de informação espalhe-se por aí. Você sabe que estes livros têm grande valor, esse então, devido as suas características singulares, é inestimável. Imagine se alguém fica sabendo que dentro da minha casa existe algo como isso.

Após uma pequena pausa Gustav acrescentou:

- Pode ter sido um pouco de exagero da minha parte ter falado com você dessa forma. Mas você sabe como eu sou extremamente cauteloso com essas coisas.

Quando Gustav terminou houve um silêncio entre eles, pois o almoço acabara de chegar. Como os estudantes ainda tinham uma prova neste dia eles se alimentaram rapidamente e saíram para discutir alguns pontos finais sobre a matéria. Ao final, então, combinaram de encontrar-se na casa de Gustav no dia seguinte, na hora do almoço.

****

Capítulo III - Breve História de Advla

O planeta Advla é extremamente diferente. Nele mesclam-se o passado, o futuro e também o presente. Essa sensação é causada devido ao brusco retrocesso pelo qual o planeta passou, o que trouxe um pouco do ar do passado para o futuro e que é o presente da nossa história. Isso está realmente ficando confuso, mas continuemos... A nova civilização encontrou muitos objetos que já haviam sido criados por uma geração perdida possibilitando um rápido desenvolvimento em certas áreas enquanto outras permaneciam totalmente obscuras. Não era incomum em Advla que uma descoberta viesse a ser compreendia muitos anos depois de ser exaustivamente utilizada pela população.

Uma das maiores fontes de informações para os Advlenses eram os museus. Neles os pesquisadores conseguiam acompanhar alguma linha de raciocínio que podia levar à compreensão da finalidade e funcionalidade dos objetos. Os automóveis, por exemplo, foram estudados em museus, já que o meio de transporte dos antigos era algo extremamente sofisticado e que estava muito além do entendimento dos atuais estudiosos. No entanto apesar desse advento à energia elétrica ainda estava em estado totalmente insipiente. Um dos fatos que ocasionou essa obscuridade era o modo pelo qual os antigos obtinham sua energia que consistia na fusão nuclear, um processo que demoraria muito tempo ainda para ser novamente dominado.

Outra importante característica do planeta é o fato de todas as grandes cidades atuais situarem-se ao lado ou sobre as antigas, já que estas provinham dos primeiros anos após a Grande Viagem, que foram marcados por uma forte dependência da infra-estrutura já existente no planeta. Uma grande vitória dos Advlenses foi o domínio dos combustíveis vegetais já que os fósseis não mais eram encontrados no planeta. Esses combustíveis eram a única fonte de energia realmente dominada nos dias atuais. Os Advlenses conseguiram até mesmo o desenvolvimento de motores à combustão, mesmo sem o uso de eletricidade! Estes motores utilizavam um elaborado sistema constituído de ignição por contato e de bombas mecânicas. Apesar de muito ineficientes, os motores conseguiam entregar razoável potência.

Acredito que agora o leitor já tem uma idéia da terra de Advla, à medida que se fizer necessário exporemos novos fatos que ocorreram neste longínquo ponto de nosso universo.

****

Capítulo IV - Trinado

Finalmente chegou o esperado feriado de Dardan, um feriado de três dias onde se comemora o renascimento da civilização. Este é um dos mais antigos costumes da era moderna e que encontra o seu ápice na passagem do segundo para o terceiro dia.

Iago acorda. O dia apresenta-se promissor, através de um céu cristalino a luz solar invade a cidade em abundância. Ao terminar sua rotina matinal o jovem encaminha-se altivo para o pequeno almoço. Chegando na sala de refeições repentinamente depara-se com uma mulher. Uma pessoa de idade já avançada, que aparenta compleição forte de quem já passou por várias provações durante a vida; mas ao mesmo tempo uma figura agradável que passa tranqüilidade e segurança. Ao encontrá-la Iago diz:

- Bom dia, Tia Ivety.

- Bom dia, Iago. Dormiu bem?

Ele responde acenando positivamente com a cabeça.

Ivety era irmã da mãe de Iago e, como não se casou, tratava-o como seu próprio filho. A família do rapaz era do interior. Devido a vontade de estudar Septologia teve que se mudar para Bortuca. Já vivia ali havia três anos e estava completamente adaptado à vida na cidade grande, ainda mais pelo ambiente interiorano que existia tanto na Universidade quanto no bairro onde morava. A casa de Iago não era longe da de Gustav, na verdade, eles viviam no mesmo bairro que se situava na região denominada Cidade Universitária. A casa era bastante calma, o que a tornava propícia para o estudo, tanto de Iago como de sua tia, que lecionava Literatura na Universidade.

- Iago - disse Ivety - conversei com seus pais e eles me confirmaram que virão passar a festa da Dardan aqui. Eles me prometeram ano passado que dessa vez viriam, então já está tudo acertado. Já faz muito tempo que seus pais não vêem a Bortuca, é bom eles darem as caras aqui de vez em quando para lhe ver, não acha?

O jovem parecia não ter acordado totalmente, estava um tanto disperso durante a conversa, mas conseguiu, após um pequeno instante, refazer sua compostura e respondeu:

- Claro, claro, tia... É... Estou ansioso pela chegada deles; quando será exatamente?

Neste momento Iago já não prestava atenção a nenhuma palavra do que lhe dizia a tia. Seus pensamentos estavam longe dali. Eles encontravam-se no livro que Gustav lhe confessara a existência no dia anterior. O estudante já conhecia cópias de antigos livros da era Septal, mas os poucos que existiam eram relacionados a romances escritos em épocas Pré-Septais. Nunca soube a respeito de nenhum livro que se trata de tecnologia ou de leis básicas que poderiam possibilitar progresso para a população. Como seriam os tais arabescos que Gustav citara? Quais seriam os seus significados? Qual o verdadeiro...

- Iago, Iago, você não está escutando o que eu digo? Onde está afinal de contas garoto? Hoje você está realmente estranho... - houve uma pequena pausa e então:

- Desculpe-me, tia Ivety, é esse período de testes semestrais que realmente me deixam fora de mim. Tia, você me dê licença agora, mas tenho que estudar para os próximos testes.

- Tudo bem - respondeu Ivety um tanto desapontada - eu também estou de saída. Esquente uma torta para você almoçar, pois vou para a casa da Gracy e só volto à tardinha.

- Pode ficar tranqüila tia, já combinei de almoçar na casa de Gustav. Nós devemos viajar hoje para Trinado em visita ao observatório, iremos com o Prof. Morris. Por isso certamente chegarei aqui já à noite.

O jovem então se retirou para o quarto. Sozinho, pegou o livro de Wisan sobre o movimento dos planetas. O livro intitulava-se “Princípios Celestes” e continham os minuciosos cálculos que descreviam as órbitas dos astros celestes, além de estabelecer um princípio básico para a força gravitacional.

No entanto, antes de Wisan chegar a esses princípios já existia teoria que descrevia a cinemática dos corpos. Essa teoria foi formulada por dois grandes gênios contemporâneos de Wisan: Stevens e Prokowski. Ambos eram matemáticos e foram responsáveis por uma verdadeira revolução. Eles criaram uma poderosa ferramenta de cálculo que era essencial para a descrição da cinemática, e em seguida estabeleceram as leis básicas do movimento. Leis essas que vieram depois a ser corrigidas e complementadas por Wisan. Após o desenvolvimento desses princípios o próprio Wisan então, aplicou-os a seus dados astronômicos e conseguiu deduzir a equação básica que resolvia as órbitas planetárias. A união dessas duas teorias constituía as leis básicas que regiam o universo!

No entanto, neste momento, não eram esses os assuntos que ocupavam os pensamentos do jovem Iago. Pelo contrário, o livro de que o estudante dispunha nem chegou a ser aberto. A curiosidade a respeito de outro livro simplesmente tomava conta de sua mente. E este estado de hebriedade permaneceu durante toda a manhã até chegar ao exato tempo de preparar-se para o almoço.

No final das contas acabou chegando a casa de Gustav uma hora antes do combinado, pois a angústia não o permitiu mais esperar. Ao aproximar-se da porta foi recebido com euforia pelo colega que o viu através da janela da sala:

Iago visitava a casa de Gustav com freqüência e por isso já era considerado como da família. O primeiro cômodo da casa era a sala: um ambiente amplo e ao mesmo tempo aconchegante. Os amigos sentaram-se nos sofás que existiam logo à direita da entrada.

- Diga-me Gustav, vou direto ao ponto, onde se encontra o livro sobre o qual comentamos ontem? Não consigo parar de pensar nele. A curiosidade está acabando comigo.

Neste momento, antes que o nosso amigo pudesse responder, o Prof. Morris apareceu na sala.

- Iago, você por aqui. Já faz algum que você anda sumido. Como estão as coisas?

- Tudo vai bem, obrigado professor. E com o senhor?

- Com muitos problemas, graças a Deus - essa era uma das famosas frases do Professor Morris, e ele acrescentava que deveria ser assim, pois caso contrário à vida perderia o gosto.

- O Júnior - continuou - disse me que você gostaria de nos acompanhar a Trinado? Será um prazer tê-lo conosco... Espere um momento. Falando em Trinado lembrei-me de algo que lhe interessará muito. Talvez o Júnior até já tenha comentado com você, Iago. Eu estou me referindo a um determinado livro que se encontra em meu poder no momento.

- Eu já comentei com ele pai, além de pedir, é claro, total discrição no assunto.

- Ah, perfeito. Então venha meu amigo, vou lhe apresentar essa magnífica obra do passado. Algo realmente surpreendente e totalmente assombroso diante de nossos olhos.

Encaminharam-se então por um pequeno corredor e atravessaram a última porta que levava ao escritório do professor. O escritório possuía uma pequena biblioteca particular onde se podia encontrar vários tratados científicos e romances, que eram muito apreciados pelo Prof. Morris. Ao lado das estantes, mais ao fundo, encontrava-se um cofre para onde os três dirigiram-se. Depois de tê-lo aberto o professor pegou um pequeno pacote que levou para a mesa ao centro e disse:

- Iago, observe que magnífico - e abrindo o pacote mostrou o tão aguardado livro.

A capa era feita de material plástico, algo que resistiu ao tempo sem perder o seu brilho. A foto da capa dava uma idéia do quão misterioso deveria ser o seu interior; nesta encontravam-se duas esferas metálicas e entre elas havia algo como que uma descarga atmosférica, isso mesmo um raio que parecia deixar uma das esferas e simplesmente mergulhava na outra. Essa imagem por si só demonstrava o poder das informações ali contidas. O livro intitulava-se “As leis de Maxwell e Aplicações”.

- A capa - disse o professor - foi um dos motivos que nos levou a acreditar que este livro tratava a respeito da energia dos antigos, e a medida que estudo este livro convenço-me cada vez mais disso. A sua leitura é particularmente difícil, não sei se você já tentou ler algum desses livros da Antigüidade, Iago. Apesar da raiz da nossa língua ser a mesma da dos antigos ocorreram grandes mudanças durante todos esses anos. Por isso trabalha juntamente comigo um grande conhecedor da língua do período Septal, o Dr. Richard Mackenzie.

Os olhos de Iago estavam simplesmente fascinados diante daquele objeto. Ele sentia-se como que hipnotizado. Ao abrir o livro o estudante encontrou o que realmente esperava uma enorme quantidade de expressões e símbolos totalmente desconhecidos. O professor voltou a falar:

- Uma das maiores dificuldades que estamos encontrando é a grande diferença entre a matemática do passado e a atual. Não possuímos informações no que diz respeito não somente a simbologia empregada, mas também com relação às expressões literais. É incrível como esse conhecimento se perdeu no tempo...

E dessa forma a conversa se desenvolveu por muito mais tempo até que de repente alguém entrou no escritório. Era a Sra. Wendy, mãe de Gustav, ela cumprimentou Iago e chamou os cavalheiros para a mesa, pois o almoço já havia sido servido. O livro então foi cuidadosamente colocado de volta em seu local de origem e os estudiosos retornam para a sala. A sala de refeições era conjugada com a de visitas e localizava-se ao fundo em um plano inferior.

No almoço foram servidas costelas de catuca, animal muito difundido no planeta Advla, refeição das prediletas do Dr. Morris. Já sentados à mesa a Sra. Wendy fala:

- Iago, não sabe o que tenho passado desde de que este bendito livro chegou aqui em casa. Parece até que não tenho mais marido - disse em tom zombeteiro.- Você também me parece que foi enfeitiçado pelos poderes alucinantes desta coisa. Não estou certa?

- Realmente - responde Iago - não posso discordar da Senhora. Para nos afastar deste livro só mesmo um delicioso almoço como este. Não concorda professor?

O Dr. Morris parecia então ter acabado de acordar com este chamado e um pouco fora do assunto comentara:

- O que? O que disse Iago?

- É inacreditável - interrompe a mulher - você está entendendo o que digo meu jovem? Esse homem parece que não consegue pensar em mais nada, nem mesmo no almoço que você acabou de elogiar. Acho que terei que tirar umas férias na casa de meus pais para sair um pouco...

- Não exageremos Wendy - interpelou o professor. - Peço desculpas se estava um pouco desligado da conversa, mas foi apenas isso. Na verdade meus pensamentos estavam voltados para a viagem de Trinado, ainda tenho que resolver alguns pequenos detalhes antes de partir. Meu calendário está realmente apertado hoje; tenho que agendar tudo corretamente para voltar no máximo amanhã de manhã. Mas mudando de assunto... Iago, esta é a primeira vez que você entra na cidade experimental de Trinado, não é?

- Isso mesmo Professor.

- Por isso então vou lhe dar alguns conselhos para que não tenhamos problemas lá. Primeiro: nunca, mas nunca mesmo, perca-se de nós. A cidade é muito bem vigiada como você já deve saber e a sua situação pode ficar delicada caso alguém o encontre vagando sozinho por lá. Em segundo lugar, não toque em nada a menos que lhe seja dada à permissão. Você sabe, nós temos que manter tudo na máxima ordem possível. Bem... Acho que o mais importante é isso. De resto acho que essa viagem será um excelente passeio. Eu estou acertando os cartões de permissão para nós três. Acredito que não haverá problemas já que vocês são estudantes de Septologia e estão acompanhados da minha pessoa.

- Pai - disse Gustav - a que horas exatamente iremos sair daqui? Se vamos passar a noite em Trinado, então precisamos arrumar alguma bagagem.

- É melhor vocês dois arrumarem uma pequena bagagem. A possibilidade de nós passarmos a noite lá está se tornando cada vez maior. Aliás, é até melhor, assim sobra mais tempo para que possamos visualizar com mais calma alguns astros com o novo telescópio. Já o horário de partida será assim que eu levantar do meu repouso após o almoço.

Ao final do almoço então os nossos jovens estudantes foram rapidamente arrumar sua bagagem antes que terminasse o repouso do Professor que era de aproximadamente uma hora.

Trinado só foi descoberta muito tempo depois da Grande Viagem, para ser mais exato, isso ocorreu no século VI. Essa demora se deve ao fato da cidade se encontrar numa ilha. Quando ela foi encontrada estava completamente deserta, como seria de se esperar. E ainda não havia sido tocada pela nova civilização e por isso um grupo de cientistas do período resolveu isolá-la somente para grandes estudos científicos que estariam bem documentados e permitiriam sempre saber como era a essência da antiga estrutura da cidade. Desde então Trinado vem sendo mantida sob constante vigilância e, graças a isso, vários importantes estudos foram possíveis de ser realizados. No período Septal essa cidade deve ter sido uma das maiores do planeta; ela é uma das poucas que não foram completamente destruídas nos primórdios da nova civilização. O observatório de Trinado para onde os nossos estudiosos estão indo foi considerado como um dos mais poderosos de Advla. Ele se localiza no topo da grande montanha que se situa no centro da ilha. Esta grande construção foi completamente modificada de forma que só se tirou proveito de suas poderosas lentes. Sobre o gigantesco telescópio os cientistas construíram um intrincado sistema de engrenagens em conjunto com um motor a combustão que permitem a sua movimentação. Como essa pesquisa exigiu grandes modificações demorou muito tempo para que fosse permitida a sua realização. E é por esse motivo que o Professor Morris vai a cidade, para que possa utilizar, pela primeira vez, este grande desenvolvimento científico.

Após Iago ter arrumado um pequeno molho de roupas e ter deixado um recado para a sua Tia dirigiu-se rapidamente de volta a casa de Gustav. Chegando lá encontrou os dois companheiros de viagem a sua espera. E Gustav disse:

- Vamos, Iago! Papai resolveu acordar mais cedo hoje. Estou achando que ele está mais animado que nós para fazer esta viagem.

- Puxa! - respondeu Iago - vocês estão mesmo com pressa.

Então eles entraram no carromóvel do professor que rapidamente dirigiu-se para o porto da cidade.

Iago já havia viajado algumas vezes de navio. A primeira vez foi quando teve que comparecer ao leito de morte do seu avô paterno, a segunda foi para passar as férias em uma paradisíaca ilha do planeta e agora era a terceira vez que utilizava esse meio de transporte.

Quando chegaram ao porto logo foram recebidos por um homem que usava um elegante uniforme, certamente alguém da segurança de Trinado. Ao aproximarem ele disse:

- Sejam bem-vindos. O Senhor deve ser o Prof. Morris?

- Sim, eu mesmo.

- Professor, aqui estão os cartões de permissão, conforme o senhor havia requerido. Os senhores já podem se acomodar no navio 18A. Aquele ali no início do porto. Já se encontra a sua espera o capitão que os levará a Trinado. Desejo-lhes boa viagem.

- Obrigado - respondeu o professor que logo em seguida se retirou para o navio.

O tempo não podia estar melhor para a viagem que não deveria demorar mais do que três horas. Ao aproximarem-se do navio os visitantes já conseguiam avistar o capitão que parecia estar checando alguns detalhes com a tripulação.

- Bela tarde para uma viagem, não é mesmo? - perguntou o desconhecido.

- Está sim, espero que não tardemos a chegar a Trinado.- Em seguida estendendo a mão, o professor, acrescentou - Muito prazer, eu sou o Prof. Morris. E o senhor é?

- Andanti, Thiago Andanti. Muito prazer professor. Quem são esses que lhe acompanham?

- São estudantes de Septologia. Este aqui é meu filho Gustav e o outro é seu amigo Iago.

Em seguida os universitários sem demora fizeram as devidas apresentações. Não tardou para que eles já saíssem em a pleno vapor. Andanti já era um homem de meia idade, tinha a barba ainda por fazer e roupas bem diferentes do senhor que encontraram na entrada do porto. Podia-se perceber que era alguém que não ligava muito para os preconceitos da sociedade. Algo que certamente tinha relação com o tipo de trabalho que ele possuía. No entanto a característica mais marcante desse capitão era o seu falatório que parecia interminável. No decorrer do tempo acabaram por começar a falar sobre qual a pior viagem que ele havia feito. Ao que o capitão respondeu:

- Não me esquecerei nunca daquela viagem. Eu estava levando dois cientistas à Trinado que precisavam chegar com urgência ao local para terminarem um certo experimento que estavam desenvolvendo. O tempo estava fechado, mas não havia chuva. Resolvemos partir na esperança que esta não ocorresse ou que pelo menos fosse branda; ai cometemos um grande erro. Quando estávamos em alto mar iniciou-se uma tempestade tal que o navio mal obedecia aos meus comandos, apesar disso ainda consegui mantê-lo no curso por mais uma hora. Já podíamos começar a avistar a ilha de Trinado, mas de repente a fornalha do motor explodiu. O navio agora estava totalmente fora de controle, é incrível como tudo se passou tão rápido. Só sei que fui acordar três dias depois no hospital da ilha, infelizmente um dos passageiros não tivera a mesma sorte que eu. Depois desse episódio demorei um mês para voltar a navegar.- ao fim de uma rápida pausa Andanti continuou - No próximo mês já terá decorrido um ano e meio desde que ocorreu este episódio. Hoje eu posso dizer que com essa história aprendi uma lição: nunca mais me deixo convencer a fazer o tipo de viagem que parece querer desafiar as forças da natureza. Existe outro capitão que conheço que também passou por coisa semelhante. Foi quando ele ia fazer uma viagem para...

E dessa forma o homem mantinha um monólogo durante quase toda a viagem. De repente Iago observou um pequeno pontinho que começava a aparecer no horizonte. Finalmente ele poderia conhecer Trinado. Todo estudante de Septologia tinha vontade de ter essa experiência que só seria possível na metade do quinto ano do curso; quando então era realizada uma excursão via barco onde os estudantes conheceriam uma verdadeira cidade do período Septal totalmente conservada. Quando Andanti realizou uma pequena pausa na sua conversa o jovem aproveitou e perguntou ao professor:

- Professor, o senhor não teria um mapa da cidade para poder nos mostrar qual será o nosso percurso.

- Infelizmente, não tenho nenhum aqui comigo. Você tem algum senhor Andanti?

- Tenho sim. Está dentro dessa minha bolsa ao lado do extintor. Não fique acanhado de abri-la, professor, ai só tem um kit de primeiros socorros, o mapa e algumas ferramentas.

Olhando-se no mapa podia-se se ter uma idéia da dimensão da cidade que era bastante extensa se comparada com os padrões atuais de Advla. O porto onde atracariam não ficava distante do litoral da ilha. Dali eles pegariam um carromóvel com o respectivo motorista da segurança que os conduziria diretamente ao observatório, onde deveriam passar durante toda a estada.

Neste momento a ilha já ocupava toda a janela do navio e podia-se inclusive observar o porto que ia se aproximando cada vez mais. A vista da cidade era uma visão única no planeta. Iago já conhecia algumas casas feitas pelos antigos, mas a reunião de todas aquelas estruturas fornecia uma paisagem inimaginável. Existiam prédios gigantescos que pareciam desafiar as leis de Wisan e a arquitetura produzia efeitos e sombras que dificilmente conseguiriam ser reproduzidas com a atual tecnologia. A rústica montanha ao centro da ilha contrastava com toda essa atmosfera tornando-a ainda mais bela.

Não houve nenhum problema durante a viagem, pelo contrário esta foi bastante tranqüila. Ao descerem havia vários homens trajando o mesmo tipo de uniforme do senhor que os recepcionou no porto de Bortuca. Um deles dirigiu-se rispidamente ao professor:

- Identificação e o cartão de permissão, por favor.

Essa primeira impressão com certeza não foi nada agradável. No entanto após a conferência de todos os documentos o homem tornou-se repentinamente mais agradável.

- Muito prazer, sou o oficial Schmidt e irei acompanhar os senhores durante a sua estada aqui em Trinado. De acordo com os prospectos o senhor, professor, está aqui com o fim de trabalhar no observatório, não é mesmo?

- Isso mesmo, oficial. Fui convidado pelo Mestre Jankowski, que é o pesquisador encarregado do observatório no momento, de tal forma que podemos nos dirigir imediatamente para lá.

- Certo, professor, mas antes me diga: os senhores pretendem dormir aqui?

- Pode estar certo disso oficial Schmidt. Hoje devo observar alguns astros para conhecer as potencialidades deste novo telescópio e por isso faz se necessário que pernoitemos.

Demorou uns vinte minutos para que os nossos estudiosos chegassem ao local de destino. Durante o caminho Iago e Gustav que não conheciam a cidade ficavam cada vez mais maravilhados com o que viam. De perto as estruturas se tornaram ainda mais gigantescas. No decorrer daquele passeio de tempos em tempos podia-se observar diversas estruturas se repetiam como, por exemplo, alguns semicírculos feitos de estranho material e que ficavam distribuídos lateralmente às ruas. Quando finalmente alcançaram o topo da montanha o tempo já estava começando a escurecer; de repente eles viram aquela obra monstruosa construída através da inteligência dos antigos e que agora fora adaptada para que pudesse ser utilizada para o benefício da nova civilização. A vista da cidade daquela altura e durante o crepúsculo dava um espetáculo ainda mais belo do que do navio. O observatório ficava completamente isolado do restante de Trinado. Era formado por uma enorme abóbada de onde projetava o imenso telescópio. Na verdade essa é uma estrutura ideal para a construção de tal equipamento e por isso os observatórios feitos pelos antigos do distante planeta Advla se assemelham tanto com os do nosso planeta. É incrível como a unicidade das leis naturais provoca tão incríveis semelhanças em povos que se distam de milhares de anos luz.

Entraram, então, dentro da imensa construção. O interior do observatório ainda possuía vários equipamentos dos antigos que ficavam distribuídos lateralmente no primeiro andar. Ao lado havia também uma escada metálica que dava acesso a três andares. O segundo e terceiro andares eram formados apenas por corredores que seguiam o contorno da gigantesca abóbada e no decorrer destes existiam várias portas que certamente davam acesso às dependências necessárias para a permanência indefinida dos pesquisadores no local. No primeiro andar ao centro havia uma cadeira regulável acoplada a estrutura do telescópio aonde chegava a objetiva. A primeira vista parecia não haver ninguém ali. O professor, então, chamou com veemência:

- Professor Jankowski! Professor Jankowski.

Repentinamente uma das portas do segundo andar se abriu e dela saiu uma pessoa já com idade avançada e que andava com o auxílio de uma bengala.

- Finalmente chegaram.- disse o estranho euforicamente para os visitantes enquanto descia através de uma espécie de elevador.

- Caro Antone Morris há quanto tempo não nos encontramos. Achei que você havia desistido desta empreitada; já está quase noite e ainda não tinha nenhuma notícia de vocês.

- Queria me desculpar, Professor Jankowski, mas alguns problemas me detiveram por mais tempo que o planejado em Bortuca. Ah... Trouxe aqui comigo dois curiosos que estavam loucos para conhecer isso aqui. Esse é meu filho, o Gustav, e o outro é seu colega Iago.

O velho se aproximou bem para observar os estudantes e os cumprimentou alegremente, acrescentando logo em seguida:

- Por favor, sigam-me, vocês devem estar mortos de fome. E quanto a você oficial já está dispensado.

- Sim, senhor Professor.

O oficial então se despediu e combinou que voltaria no outro dia após o almoço.

- Acompanhem-me até o elevador, por favor. – disse Jankowski, acrescentando - Esse sistema foi construído especialmente para a nossa utilização. Não sei se vocês repararam, mas ao fundo do observatório existe um peso que está acoplado a esta estrutura, quando esse peso é liberado para descer a montanha nós somos puxados para cima. Funciona como um relógio: ao final da corda, o que significa no nosso caso que o peso chegou a parte plana da ilha, eu ligo o motor para “dar corda” novamente. Para descer simplesmente isola-se essa parte do sistema e então usamos outro onde ocorre um amortecimento da queda do peso e conseqüentemente a nossa elevação.

- Realmente por isso eu não esperava - respondeu o professor Morris que estava admirado com aquilo.

- Espere mais um pouco que isso é só o começo Antone. Os seus quartos são respectivamente as últimas três portas do corredor. Arrumem suas coisas e depois me encontrem aqui na cozinha.

Após um delicioso jantar o Dr. Morris foi diretamente ao ponto que o trouxe a Trinado. Assim todos se dirigiram para o telescópio que foi focalizado em uma das duas belas luas de Advla. Para a movimentação do instrumento era utilizado outro motor de combustão. Terminado o ajuste o telescópio que possuía um sistema de auto-regulação através de engrenagens e grandes micrômetros que estavam ligados ao eixo motriz. Foi uma inesperada surpresa a existência de todo este complexo sistema. Por muito tempo tentou-se entender o sistema usado pelos antigos, mas nunca se consegui lançar uma luz sobre o problema e por isso optou-se por realizar essa imensa reforma.

O professor Jankowski explicou aos garotos que devido à potência do telescópio em questão e ao movimento do planeta em torno de seu eixo era imperativo a construção desse sistema que exigiu anos de estudo e dedicação. A potência do telescópio era algo que com certeza merecia atenção, com aquele enorme conjunto de lentes era possível até mesmo mapear as luas do planeta. As leis universais de Wisan com certeza iriam passar por sérios desafios com o que ali ainda seria descoberto.

Durante toda a noite os dois professores ficaram estudando os confins universais. Já os dois estudantes foram dormir duas horas depois do jantar, eles não compreendiam como aquela monotonia conseguia manter a mente dos pesquisadores em tão grande agitação e euforia. Quando os jovens acordaram já não havia mais ninguém no salão principal do observatório; estavam todos dormindo nos quartos hermeticamente fechados contra a luz solar. Enquanto Gustav foi preparar algo para comer Iago resolveu sair para respirar um pouco do ar fresco da montanha. A manhã estava gelada e o orvalho cobria tão densamente a vegetação que dava a impressão de ter chovido durante a noite. Mais uma vez aquela estranha cidade cheia de mistérios fora deslumbrada pelo estudante. Sozinho ele pensava como seria o período em que ali viviam os antigos e esta foi a primeira fez em que sentiu uma profunda necessidade de desvendar esse gigantesco desafio que se erguia diante dele. Neste instante sentiu pela primeira vez este estranho sentimento que no futuro se tornaria sua grande obsessão.

De repente o estudante teve uma vontade de descer e andar pela cidade para conhecer mais sobre o que se passou ali no passado. Como seria a rotina dessas pessoas? Onde elas estariam no momento? Será que através do telescópio conseguiríamos observar a atual morada dos irmãos advlenses? Aquelas perguntas não cessavam de surgir na mente do rapaz. Até que Gustav depois do lanche saiu do observatório e aproximou-se de seu amigo que permanecia sentado em uma rocha e olhava fixamente para a cidade. Quando Iago o percebeu disse:

- Gustav o que você acha de nós darmos um rápido passeio pela cidade?

Com o rosto transfigurado diante de tal idéia e como um bom seguidor de regras Gustav rapidamente tentou trazer Iago à razão.

- Você está louco! Não escutou o que meu pai lhe disse em casa. Nunca podemos nos perder da presença dos pesquisadores. Essa cidade está muito bem vigiada, Iago, e com certeza existe alguém bloqueando a estrada que vai para a cidade.

- Bem, se existe alguém na estrada acredito que não deva ter problema trocar algumas palavras amigas com ele. E nós não vamos nos perder é apenas uma pequena volta.

- Que o Grande Jesus1 nos ajude Iago. Não sei como deixo você me convencer a fazer essas maluquices, mas preste atenção será apenas um pequeno passeio no máximo até encontrarmos o guarda da estrada.

Começaram, então, a descer a colina andando calmamente pela estrada. Inicialmente acreditavam que encontrariam alguém já nas primeiras curvas do percurso, no entanto como este encontro estava demorando ocorrer os estudantes começaram a se preocupar cada vez menos com o fato. Estavam totalmente descontraídos batendo papo e até mesmo correndo. O morro começava a chegar ao final e ainda não havia nem sinal de qualquer pessoa fosse. A cidade começou a aproximar-se rapidamente até finalmente encontrarem uma grande construção que ficava a esquerda da estrada.

- Não posso acreditar - disse Gustav - não havia nenhum segurança durante todo o trajeto que percorremos.

- Não é possível... Que incrível!! Gustav vamos entrar!!

A construção era feita de um material que a primeira vista parecia porcelana totalmente branca, por causa disso passava uma impressão de frieza e de esterilidade. No momento em que falou Iago percebeu que a única porta era feita de um estranho vidro fosco e ficava a três metros de altura! Ao lado desta havia uma pequena janela coberta também pelo mesmo vidro. Na impossibilidade de alcançar tal altitude os jovens resolveram dar a volta, talvez aquilo, na verdade, fosse o fundo da casa. Quando chegaram do outro lado encontraram o que procuravam, mas surgiu outro desafio: não havia maçaneta. Iago aproximou-se da porta e ao tocar-lhe percebeu que esta parecia querer afundar para o interior da casa. Forçando mais ela deslizou naturalmente para a direita após ter penetrado apenas o suficiente para ficar rente à superfície da parede. O jovem assustou-se quando percebeu que não existiam trilhos onde o porta pudesse deslizar. Como isto pode ocorrer? Olhando mais de perto percebeu um finíssimo sulco que acompanhava o traçado do percurso. Na emoção do momento não tentou entender o fenômeno; ao entrar ficou estupefato. A casa estava completamente vazia! Aproveitou para conhecer o que estava ali. Observou que a divisão dos cômodos não era tão diferente de uma casa qualquer. Após ter explorado toda a residência os amigos constataram com espanto que não existia um acesso ao segundo andar da residência. Percebia-se apenas que no primeiro cômodo havia um buraco no teto, mas sem uma escada não se podia alcançá-lo, fato este que lembrava a porta da frente da casa.

De repente os jovens escutaram um barulho que parecia um motor de carro que se aproximava cada mais.

- Iago, você está escutando, deve ser o oficial Schmidt. Vamos embora logo daqui. Já se passou muito tempo e até chegarmos em casa o meu pai já estará acordado. Oh Jesus, o que acontecerá conosco. Não sei como deixei você me convencer de tal tolice!

O carromóvel tomou então outro caminho que não o da montanha. O alívio foi imediato. Após o susto Iago disse:

- Calma Gustav... Tudo bem, vamos embora. Mas como faremos para fechar esta porta agora?

- Sei lá, Iago. Tente dar um forte impulso inicial.

Foi mais fácil do que imaginavam. Impulsionada a porta deslizou, como se não houvesse atrito, e fechou suavemente. Os jovens saíram correndo morro acima para chegarem antes que o professor acordasse.

1 - Jesus - Era um dos deuses do planeta Advla. Essa crença foi uma dos poucos conhecimentos que não se perderam na perturbada mente dos progenitores da nova civilização.

****

Capítulo V - As Luas de Advla

Chegaram em Bortuca já ao fim da tarde. A aventura, para a sorte dos estudantes, terminou bem, pois explorações não permitidas na ilha são severamente punidas. Iago nunca se esqueceu daquele que foi o primeiro dia em que viu Trinado. Iago teve sempre claro em sua mente os momentos em que esteve sozinho observando o amanhecer da misteriosa cidade.

O professor Morris resolveu permanecer por mais tempo na cidade. No outro dia ele parecia diferente como se durante a noite algo o tivesse perturbado até o mais profundo interior de sua medula. O homem estava agitado e sem mais explicações disse aos rapazes que voltassem sozinhos com o oficial. Escreveu um bilhete a Sra. Wendy, para que Gustav lhe entregasse assim que estivesse em casa. Iago achou estranha aquela atitude e tentou contemporizar com o amigo. Este, desgostoso, disse que o pai andava muito estranho ultimamente, muito ausente com relação à família e que por isso não queria falar no assunto. Dessa vez o falatório do Sr. Andanti foi bem-vindo. Conseguiu distrair um pouco os jovens durante a viagem. Quando chegaram trocaram poucas palavras e se despediram à porta da casa de Gustav.

Iago passou o restante do feriado de Dardan comemorando com a família. Depois a rotina universitária começara a se instalar novamente, mas o estudante estava mudado. A viagem desencadeara alguma transformação no interior dele. Agora passara a ter uma visão melhor do que estava aprendendo no curso. Antes tudo parecia vago e distante: dando a impressão de não ser real. Este fenômeno muitas vezes isso ocorre com um estudante de ciência abstrata: os princípios parecem distantes da realidade, o aprendiz não confia neles; não acredita que se raciocinar puramente com relação a tais leis consegue entender e prever a realização de vários fenômenos. O jovem Iago agora definitivamente acreditava na verdadeira existência dos povos antigos, ele conseguia enxergá-los verdadeiramente usando e construindo seus aparatos.

O professor Morris chegou na noite do dia seguinte; devido a sua permanência em Trinado só pode estar com a família durante o último dia das festas de Dardan. No entanto Gustav Júnior não parecia estar aborrecido com isso pelo contrário nos últimos dias ele andava em estado de pura excitação. Comentou rapidamente com Iago que seu pai estava envolvido juntamente com o professor Jankowski em um grande projeto relacionado àquele dia de Trinado e o melhor é que o pai também o envolvera nesta pesquisa. Quando Iago tentou entrar em pormenores com Gustav recebeu a única resposta que não imaginaria poder escutar. Gustav: este disse que infelizmente no momento não poderia entrar em detalhes com o amigo. Iago não se conformou com a falta de confiança depositada na sua pessoa e Júnior tentando acalmar um pouco a situação terminou falando que devido as dimensões do projeto, até agora o maior de toda a vida de seu pai, ele teria que se manter calado mesmo para o melhor amigo, assim como prometera. E foi com essas parcas informações que Iago voltou para a casa.

****

O professor Morris voltara para Trinado após ter requisitado uma licença das aulas. Os últimos dias foram de grande exaustão para o pesquisador que não conseguia nem dormir direito devido ao volume de trabalho em que estava envolvido. O que seria uma rápida visita ao observatório acabou se tornando para o professor a maior descoberta que já havia feito até então e que iremos narrar agora. Voltemos um pouco no tempo, mais precisamente voltemos a Trinado. Logo após o jantar...

Os estudantes estavam observando os astros juntamente com os pesquisadores. O primeiro local para o qual apontaram o enorme instrumento foi a maior das luas de Advla também conhecida como a Grande Lua. Era impressionante a enorme definição com que se conseguia visualizar a superfície do astro. Os pesquisadores resolveram aproveitar a oportunidade para iniciarem o mapeamento da enorme esfera. Após algumas horas a monotonia do processo entediou os estudantes que acharam melhor dormir. Os pesquisadores, no entanto, continuaram ali ainda por muitas horas até o momento em que o professor Morris redirecionou o telescópio para a próxima região a ser definida e observou algo extremamente estranho enquanto regulava o instrumento. Quando resolveu investigar o que havia sido rapidamente focalizado encontrou o mais inesperado dos objetos. Ao mostrar ao Mestre Jankowski, este simplesmente não conseguia acreditar no que acabavam de fazer. Os pesquisadores encontraram a mais fantástica obra feita pelos antigos e já visualizada pela nova civilização. A Grande Lua guardava em seu terreno uma grande cidade espacial! Após a descoberta uma onda de enorme euforia tomou conta dos professores que mais pareciam meninos, que haviam acabado de ganhar um novo presente do pai.

Já mais calmos, os pesquisadores estabeleceram uma estratégia para formularem um artigo sobre a “Cidade X”, como resolveram denominá-la. O primeiro passo tomado nesta direção foi à procura por outras cidades que porventura poderiam vir a existir, o que se tornou verdadeiro ao final das buscas. Havia outra cidade espacial, mas dessa vez ela encontrava-se na outra lua conhecida como Lua Menor. No dia seguinte quando o professor acordou dispensou os estudantes para discutir com Jankowski os pormenores da publicação.

Há muito tempo que os estudiosos prediziam que tais cidades deveriam existir; o que seria lógico para um povo que dominava a tecnologia que permitia grandes viagens espaciais. Durante muito tempo tentou-se provar esta teoria, mas nada foi conseguido neste sentido. Chegando-se a ponto de poucos cientistas levarem a possibilidade a sério. A dificuldade da observação agora estava clara para os professores. A potência dos telescópios empregados para o estudo era insuficiente, pois as cidades encontravam-se no interior de crateras. Fato que diminuía consideravelmente a luz incidente além do que, tal possibilidade, não foi sequer cogitada pelos estudiosos.

O artigo só ficou pronto um mês depois do dia da descoberta. Durante este tempo a relação de Gustav Júnior e de Iago ficou um pouco abalada devido a desconfiança. O amigo de Iago estava mudado também; o envolvimento dele no projeto revelou uma energia que até então o jovem não apresentara. A universidade não mais vinha em primeiro plano para Gustav, durante as aulas não era difícil encontrá-lo perdido em seus pensamentos. A cada dia se afastava mais e mais de Iago. Naturalmente era embebido por diversas pesquisas que o pai requisitara e nas quais trabalhava durante até os mais diminutos períodos de folga. Os amigos há muitos dias não travaram mais aqueles costumeiros bate papos após as aulas e a situação permaneceu assim até o momento em que Iago, resolvido a esclarecer a situação, ao final de um dia de aulas disse:

- Hei! Gustav! Espera um pouco. Quero conversar com você.

- Iago, claro! Do que se trata?

- Gustav, você anda muito estranho nos últimos dias, muito fechado. Seria bom se você tivesse um pouco mais de confiança em mim. Há vários dias que trocamos apenas palavras de cumprimento e você parece sempre evitar encontrar-se comigo.

- Meu amigo, você deve ter um pouco mais de paciência. Não demorará muito para que fique sabendo todos os detalhes do artigo.

- Ah... Quer dizer que vocês estão escrevendo um artigo? Percebe como você está me isolando, nem disso eu sabia. Definitivamente a última coisa que eu gostaria era intrometer-me nas descobertas que seu pai realizou. Acredito que nunca traí a confiança que você depositava em minha pessoa, não é mesmo? Não consigo entender então porque todo este mistério agora.

- Não existe mistério algum meu amigo. Simplesmente não posso me abrir neste momento com você, não por falta de confiança, mas por aquele excesso de precaução que me é peculiar e que conhece. Além do mais o projeto não é meu e sim de meu pai. Todas essas circunstâncias me impedem de estender as explicações sobre o assunto. Mas, por favor, não deixe que tais fatos coloquem uma sombra em nossa amizade.

A verdade por trás dessas palavras é que a concorrência científica atingira nossos amigos e a tal sombra instalara-se entre eles desde o primeiro momento que os segredos começaram. Iago ainda tentou entender a posição de Gustav até o dia em que resolveu visitar a casa do amigo numa última investida para salvar a amizade. Chegando lá foi atendido pelo professor, que o tratou com toda a cortesia.

- Há quanto tempo Iago. Deve fazer dez dias que não o encontro, é bom revê-lo novamente. Júnior já deve ter comentado com você que estamos muito ocupados aqui com o estudo das luas, não é mesmo?

- Sim professor. Ele me disse que vocês estão muito ocupados, mas não entrou em pormenores. Só agora que o senhor disse é que fiquei sabendo que o assunto está relacionado com as luas.

- Você está certo, Iago. Eu pedi para que Júnior mantivesse o máximo sigilo possível sobre o assunto. Sabe este projeto ainda vai revolucionar a nossa idéia sobre os antigos. Não deverá demorar muito para o artigo sair agora. Esse projeto tem uma importância extremamente elevada para mim e por isso pedi todo esse segredo para meu filho. O que eu não imaginava era que ele manteria segredo inclusive de você. Essa excessiva desconfiança do Júnior vem da mãe. Mas a culpa é minha; acho que por causa do turbilhão em que se encontra minha rotina acabei me esquecendo de falar com ele para contar para você Iago.

- Tudo bem, professor. O senhor não deve importar-se com isso. Mas mudando de assunto onde está o Gustav?

- Ele foi à universidade pegar alguns livros relacionados à pesquisa. Não deve demorar a chegar. Porque você não me acompanha até a biblioteca para esperarmos por ele lá.

Na biblioteca o professor colocou Iago à parte dos estudos que estavam sendo desenvolvidos. Os nervos do estudante ficaram vibrantes durante a explanação do Dr. Morris. A notícia com certeza chocaria toda comunidade científica. O primeiro impulso que Iago teve foi o de poder visualizar uma imagem da cidade. Infelizmente o professor não possuía nenhuma no momento, mas prometera-lhe mostrar um esquema que estava sendo realizado por um exímio desenhista em Trinado.

Não demorou muito para que Gustav Júnior chegasse. Quando ele viu que Iago encontrava-se na biblioteca tratou com uma frieza inesperada. Tentou dissimular um pouco os seus sentimentos, mas o que o jovem tinha de bom para a pesquisa não tinha para a representação artística. Ele não queria dividir com ninguém a atenção do pai, que no momento tinha alta consideração da parte do filho. Não que Gustav fosse pessoa má, ele apenas estava fascinado pelo companheirismo que surgira entre ele e o pai nos últimos dias. Depois desse triste evento a amizade... Acredito que nem em amizade pode-se falar agora, a relação entre os estudantes se tornou distante permanecendo somente uma vaga lembrança dos tempos passados.

Assim que o artigo fora publicado, imediatamente houve uma gigantesca onda de excitação em todo o mundo. Com a localização das cidades bem definida podia-se observar as cidades com telescópios menos poderosos, mas conseguia-se ver apenas um minúsculo ponto que facilmente passaria despercebido. A descoberta foi considerada uma das mais importantes dos últimos anos e a fama dos professores Morris e Jankowski estourou no meio dos Septólogos. Eles foram convocados para várias palestras em todas as universidades de Advla. O telescópio de Trinado tornou-se uma grande sensação e para alguém conseguir uma aprovação para utilizá-lo além de possuir um bom projeto tinha que enfrentar um fila de espera que poderia durar até meses. Durante as primeiras semanas era praticamente impossível para pesquisadores que não detinham uma vasta fama conseguirem acesso ao observatório.

Pouco tempo depois o trabalho dos professores fora indicado para concorrer ao grande prêmio “Amigos de Wisan”. Esse acontecimento foi extremamente importante para o professor Morris, pois assim que confirmou a vitória no concurso entrou para um seleto grupo de pesquisadores que possuíam total prioridade em seus estudos além dos trabalhos futuros, com certeza, terem uma predisposição para se tornarem consagrados perante a sociedade. Graças a isso ele pode permanecer com o livro das leis de Maxwell por tempo indeterminado, ao invés de tê-lo de repassar para um novo pesquisador que aguardava sua vez de poder estudá-lo.

Apesar de ter podido continuar com o livro o professor já não se interessava tanto por ele. Estava mais envolvido com outros estudos relacionados com o observatório que agora estava sobre o supervisionamento seu e também do professor Jankowski.

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Capítulo VI - As Leis de Maxwell

Já se passaram seis meses desde que o professor Morris tornou-se um homem consagrado. Iago ficou extremamente alegre pela bem afortunada descoberta do cientista; várias vezes ele ainda o encontrou nos corredores da universidade, e sempre se cumprimentaram efusivamente demonstrando o profundo respeito que tinham um pelo outro. O professor depositava uma grande fé no futuro de Iago e por isso sempre tentou incentivá-lo à pesquisa; sentimento este que não se abalou nem mesmo quando Iago parou de visitar sua casa e afastou-se de seu filho. O jovem percebia essa confiança e era grato por ela.

É incrível como um evento como o da Cidade X muda os rumos dos estudos das Universidades. Ele deu uma impulsão no estudo de várias áreas relacionadas que se tornaram as vedetes do momento e para as quais muitos estudantes acabavam se especializando. Na universidade de Bortuca não foi diferente a maioria dos estudantes, e inclusive Gustav Júnior, estavam se especializando nos estudos astronômicos que faziam parte do currículo principalmente por causa da forte influência que o pai da Septologia, Wisan, teve na área.

Iago, apesar de tudo isso, não se dispunha a seguir essa onda. Estava interessado em outro mistério do planeta: o estudo da energia dos antigos. Ele gostava muito da astronomia, mas a sua vontade de entender o processo energético que estava perdido no passado era sua verdadeira paixão. Depois que voltou de Trinado relembrou várias vezes a imagem que teve na casa do professor do livro das leis de Maxwell. A única maneira que o jovem pensava para aproximar-se da solução do mistério era através daquela obra. Mas não havia como chegar até ela, ainda mais agora que não mais visitava a casa de Gustav.

O estudo da energia já esteve muito em voga há alguns anos atrás, mas fora sendo deixado de lado a medida que não se conseguia lançar nenhuma luz sobre o problema. Ao entrar em uma usina de fusão nuclear os estudiosos não sabiam nem por onde começar. A enorme penumbra que circundava o assunto não permitia que se pudesse avançar muito sobre o estudo na usina de Trinado que foi conservada até o dia em que se pudesse ter uma visão mais clara sobre o objetivo que deveria ser seguido.

Os advlenses já conheciam há muito tempo diversos fenômenos da eletrostática como as curiosas propriedades que certos materiais adquiriam quando eram atritados com outros; também sabiam sobre os fenômenos magnéticos: sabiam que algumas pedras eram naturalmente capazes de atrair determinados materiais. A magnetização dos metais fora muito estudada e deu origem ao primeiro tratado na área, que era, na verdade, um meticuloso compêndio sobre o assunto. Mas a despeito de tudo isso os pesquisadores nunca chegaram a fazer alguma correlação entre essas diferentes experiências. A grande dificuldade de se realizar esta tarefa consistia no fato de em nenhum dos processos conhecidos ocorrer algum fluxo significativo de corrente elétrica, o que tornaria a verificação da interação entre esses diferentes campos da ciência, Elétrica e Magnetismo, mais fácil. Devido à insipiência dos advlenses nessa área, a energia dos antigos era considerada como que algo mágico e fantasmagórico. Jamais fora imaginado que fenômenos aparentemente tão banais, como a atração de papelinhos e pedras, pudessem ser a base desse fantástico enigma.

Nem mesmo o aguçado espírito de observação de Iago poderia imaginar tal coisa. No entanto agora que era sabida a existência de um livro que poderia trazer alguma ajuda sobre tais questões era excitante. O triste da estória era que o acesso a tal tratado era praticamente impossível a nosso amigo. Ou pelo menos ela imaginava que era...

A manhã tinha sido agradável principalmente por causa da aula de Introdução a Energia Septal que era lecionada por um excelente professor chamado Dr. Berman. Naquele dia Iago resolveu almoçar na Faculdade de Literatura que não visitava desde a vez que foi com Gustav. Chegando lá foi diretamente para o restaurante que hoje estava com um grande movimento. Assim que se sentou em uma daquelas mesinhas azuis foi atendido pela bela Clara. Aquilo o fez lembrar dos bons tempos que tinha passado com Gustav trazendo uma ponta saudades do passado ao jovem. Enquanto esperava o almoço decidiu dar um lida na matéria que acabara de aprender e que o interessava extremamente. De repente sentou-se um professor em uma mesa exatamente ao lado da de Iago. Juntamente com ele chegou um aluno que logo conquistou a antipatia de Iago e, com certeza, de outros estudantes, isso porque conversava muito alto, como se quisesse que todos ali soubessem do assunto:

- Professor, estou muito entusiasmado com esse romance que pretendo escrever. A estória será a respeito de uma típica família do período Septal e é por isso que venho lhe pedir auxílio.

- Verei o que posso fazer meu jovem - respondeu o professor.- Mas agora vou almoçar. Vamos fazer o seguinte, encontre-me hoje à tarde na minha sala para discutirmos o assunto.

- Oh Professor Mackenzie! Muitíssimo obrigado.- respondeu o aluno que em seguida retirou-se.

Diante desse comentário Iago tomou um susto. Esse nome lhe era familiar. Sim, no dia em que viu o livro das leis de Maxwell o professor Morris havia citado que estava trabalhando com outro professor, um especialista na língua do período Septal. Será que este homem era o mesmo citado pelo Dr. Morris? Iago se lembrava bem agora o nome completo do pesquisador era Richard Mackenzie. Será que ele era aquele homem franzino sentado logo a seu lado? Talvez ele tivesse uma cópia do livro? Com certeza essa era uma possibilidade. O primeiro impulso que o jovem teve era o de se apresentar imediatamente aquele senhor, mas uma idéia fez com que ele desistisse dessa empreitada. Resolveu aguardar mais um pouco, talvez a sua tia Ivety pudesse conhecer o professor; isso facilitaria muito as coisas. Definido o plano começou a executá-lo.

Quando chegou em casa encontrou a tia sentada no sofá da sala lendo algum romance. Ansioso por discutir com Ivety disse:

- Tia, preciso conversar com você?

- O que Iago? - respondeu a Tia - Você está tão sério.

- Preciso de um grande favor - continuando Iago disse: - Você conhece um professor da Faculdade de Literatura chamado Richard Mackenzie.

- Conheço sim - respondeu. - É considerado um grande estudioso da Universidade, mas sempre o achei excessivamente rigoroso com tudo o que faz. Inclusive, gosta muito de sua área; de vez em quando acho até que ele queria ser um Septólogo. Mas que tem o professor?

Iago explicou a situação a sua parenta, não escondendo nem mesmo as desavenças com seu amigo Gustav e a impossibilidade de tratar o assunto diretamente com o professor Morris devido a essas intempéries. Ao final do colóquio a tia prometeu conversar a respeito do assunto com o Dr. Richard. Os dois então combinaram de encontrar-se na hora do almoço no restaurante do “cubo” para que ela pudesse informar Iago o que ficara acertado com o professor.

No outro dia quando o jovem encontrou a tia no local combinado ela lhe disse:

- Iago, conversei com o professor Mackenzie e acertei com ele um encontro para hoje à tarde, logo após o almoço. Espero que você consiga o que está querendo meu filho.

- Oh, tia, não sei como agradecê-la. Estou muito ansioso para poder conhecer o professor.

- Cuidado meu jovem - preveniu a mulher.- O Dr. Richard é uma pessoa extremamente fechada; essa sua afobação pode fazer com você ir com muita pressa. Aconselho você a deixar que ele fale mais, para conhecer melhor a pessoa com quem está lidando.

- Obrigado por me alertar, tia. Mas mudando de assunto você não gostaria de aproveitar que estamos aqui e almoçar comigo.

O almoço foi extremamente agradável a ambos, eram raras às vezes que se encontravam na universidade. Esse objetivo comum acabou fortalecendo a relação maternal existente entre os dois. Quando terminaram ainda permaneceram conversando por um bom tempo. Ivety tentava preparar da melhor forma possível a entrevista do sobrinho, contando-lhe as poucas experiências que tivera com o professor. Até o momento em que o estudante não mais podia delongar o diálogo. Saiu apressado e esperançoso para o encontro com o Professor Mackenzie. A sua sala ficava no segundo andar localizado ao final do corredor das salas do colegiado. Respirou fundo e bateu na porta esperando uma imediata resposta que não veio, acanhadamente tentou novamente e escutou bem ao fundo uma voz:

- Pode entrar!

A sala do professor tinha um formato retangular bem estreito, mas que uma relativa profundidade, na verdade, era dividida entre dois professores. No momento apenas o professor Mackenzie encontrava-se. Ao avistá-lo Iago disse:

- Muito prazer, professor. Meu nome é Iago Vipatsi. Sou estudante de Septologia, acredito que minha tia já tenha falado a meu respeito para o senhor.

- Sim, claro - respondeu.- Ivety me disse que você está muito interessado em meus estudos sobre os escritos intitulado “As leis de Maxwell e suas Aplicações” que provavelmente são relativos a energia do período Septal. Trabalho que por sinal estou realizando juntamente com o professor Morris do seu curso de septologia. Antes de discutir com você meus estudos gostaria de saber o que você entende por energia do período Septal.

O jovem, que devido ao interesse na área, discursou com facilidade algumas teorias que haviam sido propostas para o problema e como algumas máquinas devido aos efeitos causados por esta energia. Na verdade, as teorias elaboradas para a energia eram vagas e mais místicas do que científicas. Eram sempre relacionadas a éteres que fluíam pelos cabos e que quando se encontravam produziam às vezes calor, luz ou movimento dependendo do tipo de éter usado e das combinações existentes. Essas propostas tornavam o problema mais misterioso do que antes; elas não explicavam como os éteres eram produzidos e os diversos problemas gerados por tais hipóteses levaram a outras ainda mais infundadas para tentar explicar as anteriores. Enquanto Iago discursava o professor o interrompeu dizendo:

- Tudo bem meu jovem, pode parar por ai mesmo, já tive uma idéia do interesse que possuí na área. O meu estudo aqui está mais voltado não para desvendar o problema da energia diretamente em si. O que realmente estou tentando fazer é decifrar o livro das leis de Maxwell; é bom que fique claro desde o princípio que o problema da energia é apenas um fruto desse trabalho. No momento estou precisando de um ajudante nos meus trabalhos e caso você continue interessado o cargo poderá ser seu.

- Claro que continuo interessado professor. Não poderia me ocorrer nada melhor.

- Então volte amanhã na mesma hora e traga-me o seu horário e o histórico também.

Iago deixou radiante a sala do professor. Não demorou para que começasse a devanear sobre os últimos acontecimentos:

Que sorte a minha conseguir ser ajudante do professor Mackenzie nos trabalhos com o grande livro. Mas será que ele está com os escritos das leis de Maxwell? Não comentou nada a respeito... Deixa para lá amanhã quando trouxer meu histórico as coisas devem ficar mais claras“.

No outro dia após o almoço voltou à sala do professor Mackenzie. Quando entrou encontrou justamente o professor com o livro de Maxwell nas mãos. Ao se encontrar novamente com esta obra o sangue simplesmente parece ter parado por milésimos de segundo de correr em suas veias. As palavras lhe fugiram da boca e não conseguia pronunciar nada. O professor então perguntou:

- Vipatsi, você trouxe-me o seu histórico? Preciso imediatamente dele para preencher sua ficha na secretária.

Voltando a si com essa interpelação o jovem redargüiu:

- Claro professor Mackenzie. Aqui está, e estendendo o documento entregou-o ao tutor.

Este ficou a estudá-lo por um momento e enfim disse:

- Muito bem. Eu você deve apresentar esse documento a Sra. Vanessa na secretaria e diga a ela que será você o meu ajudante.

- Sim professor. Mas antes o senhor poderia me responder a uma pergunta. Esse ai é o livro das leis de Maxwell? Ele não estava com o professor Morris?

- Estava sim, mas há um mês requisitei-o do professor para poder realizar alguns estudos e desde então ele encontra-se em meu poder. Neste momento que você entrou eu estava tentando estabelecer alguns padrões na tentativa de descobrir o significado de algumas palavras que não nos são familiares - e complementou dizendo. - Quando terminar essa burocracia com a Vanessa quero que você leia uma obra de minha autoria denominada “Raízes de Nossa Língua”. Acredito que este conhecimento já lhe fornecerá uma boa base para começar os nossos estudos. Quando este livro foi descoberto houve uma grande animação entre os grandes estudiosos. No entanto seu estudo que a princípio parecia simples se mostrou quase que impossível. Encaro este trabalho como um grande desafio e para você me ajudar nisso antes precisa de um mínimo de ferramentas.

Em seguida o professor apanhou em sua estante um exemplar de seu livro e deu-o ao jovem. A princípio Iago ficou um pouco desanimado. Em seus pensamentos imaginava que já iria começar trabalhando com diretamente com o livro de Maxwell. No entanto percebeu que ele realmente pouco entendia da língua antiga, sabia apenas o que aprendera em seu curso. Resolveu então que rapidamente realizaria esta tarefa que lhe fora delegada para começar logo à parte que verdadeiramente o interessava.

Ao chegar da faculdade em casa a primeira coisa que fez após o jantar foi iniciar seus estudos sobre a língua dos antigos. Não demorou a perceber o quão chato seria esta tarefa, mas sua vontade de ir adiante em seu projeto o fez continuar. Passou vários dias estudando o livro. À medida que se aprofundava no assunto aquela antiga resistência parecia se esfumaçar e começava até mesmo a ter algum interesse pelo assunto. Nunca imaginou em sua vida que um dia se interessaria por temas puramente literários. Ele simplesmente não havia parado para perceber o quão interessante e misterioso era aquele mundo das letras. O livro do professor Mackenzie era extremamente didático e procurava sempre mostrar a lógica que existia por trás das conclusões ali apresentadas. Por isso quando o jovem se assustou já estava terminando o livro de professor Mackenzie; pode ser até que ele tenha ficado um pouco chateado por isso.

Voltou, então, a sala de seu orientador para discutir sobre o que aprendeu. Lá encontrou novamente seu tutor debruçado sobre papéis e o livro. Incrível será que ele não fazia mais nada, além disso. Assim que o viu o professor disse:

- Caro Iago, porque demorou tanto para estudar esse pequeno livro? - e acrescentou em seguida. - Tudo bem, deixa para lá. Muito bem, pelo seu horário vejo que não tem mais nenhuma aula hoje, não é mesmo?

Não acredito” pensou Iago, e continuou... “Após todo o trabalho que tive o que ganho como recompensa é isso? Porque demorei tanto. Calma Iago mantenha a calma; isso só pode ter sido alguma espécie de brincadeira”. Após esse pequeno monólogo respondeu:

- Exatamente professor, por hoje minhas aulas acabaram. Podemos discutir sobre os tópicos do seu livro sem problemas.

- Excelente! Vamos fazer isso sim Iago, mas faremos em minha casa porque preciso estar lá para resolver alguns problemas logo que terminarmos a nossa conversa.

E foi exatamente isso que fizeram. Pegaram o carromóvel do professor Mackenzie e quando chegaram Iago percebeu aliviado que não estava longe da sua própria casa. A casa do professor possuía belo jardim a sua entrada e era de dois pavimentos. De fato não parecia grande quando se olhava de fora. À esquerda da casa desciam desde o teto até o chão grandes trepadeiras assemelhando-se a uma espécie de cortina viva. À direita existia um dente que adentrava na casa formando dessa forma a garagem. Era uma garagem espaçosa sendo que em seu canto esquerdo encontrava-se a porta da entrada principal. Enquanto entravam o professor perguntou:

- De uma forma geral, o que você achou da leitura que lhe indiquei Iago?- acrescentando em seguida. - Por favor, não vá exagerar nos elogios... E claro que também não recomendo descuidar-se deles demasiadamente – disse gracejando.

- Professor, falando francamente no início não estava gostando, mas assim que aprofundei na matéria esta me pareceu tão boa quanto os meus estudos em Septologia. Bem talvez eu tenha exagerado um pouco, mas digamos que foi bem melhor do que podia esperar.

Iago falava descontraidamente não imaginando o que esperava por ele no interior daquela casa. Assim que entraram se depararam com uma grande sala muito bem mobiliada e com uma escada que seguia à direita rente a parede. De repente o olhar de Iago se fixou em uma das poltronas onde estava sentada uma linda jovem. Assim que os viu ela se levantou. Tinha o corpo esbelto e sua pele era alva e delicada. Usava um vestido de tecido fino onde se percebiam seios bem delineados e voluptuosos. Seu cabelo era preto e liso indo até o quadril; e os olhos eram de verde tão vivo como as águas rasas do oceano levada em ondas pelo vento. Usava um pequeno colar de pedras brancas que se assentava sobre seu colo, e as maçãs de suas faces eram de um leve rosado, e Iago nunca antes vira traços tão finos. Quando ela se aproximou seu coração começou a bater tão intensamente que ficou corado e seu rosto parecia estar em brasas. Permanecera sem realizar qualquer reação ficando ali apenas calado e parado. Então o professor os introduziu dizendo:

- Iago essa é minha filha, Nemis - e voltando-se para ela continuou.- Este é meu novo ajudante, Iago, um estudante do curso de Septologia.

Ela então disse enquanto se dirigia para a escada.

- Muito prazer, Iago. Dêem-me licença, por favor, e dessa forma seguiu para o andar superior da casa.

Sua voz possuía uma doçura e languidez que embriagaram os ouvidos do jovem. Mas foi o suave perfume que ela emanava que o deixou de tal forma perturbado que quando viu já sumira pelos degraus da escada e ele não havia ainda nem retribuído ao cumprimento. Naquele dia não voltou a encontrar com Nemis, mas sua mente dificilmente concentrava-se em algo que não você naqueles rápidos momentos. Durante o resto da tarde discutiu com o professor sobre diversos tópicos tratados pelo livro que havia estudado. Quando acabou de discutir foi um alívio; porque no caminho de casa pôde relembrar calmamente todos os segundos e detalhes do inesperado encontro.

****

Capítulo VII - Nemis

Os dias se passaram e nosso herói continuava trabalhando com o professor Richard no mesmo ritmo; e sem perceber ele aprofundava cada vez mais nos conhecimentos lingüísticos, descobrindo as raízes de seu idioma. Uma analogia com o nosso mundo seria comparar o português ao latim, assim fica claro para nós que apesar de existir uma certa ligação existe uma substancial distância entre os dois idiomas. Para os nossos amigos havia ainda o agravante da linguagem técnica utilizada pelo livro que era totalmente desconhecida.

Com o caminhar de seus estudos Iago percebia cada vez mais a dificuldade de seu trabalho apesar do pouco contato que teve com o livro de Maxwell. Durante esse período não voltou a encontrar com Nemis, mas imagem dela ainda pairava na sua mente apesar da intensidade não ser a mesma.

Certo dia o professor passara um trecho do livro de Maxwell que ele havia transcrito para Iago tentar refletir sobre seu possível significado. O estudante passara toda a semana trabalhando sobre esse pequeno texto e quando achou que já tinha material suficiente para discutir foi procurar o professor. O caminho da Faculdade de Literatura se tornou algo usual para o jovem que agora sempre estava passando por ali.

Ao entrar na Faculdade parou repentinamente como se tivesse tomado um susto. Nemis se encontrava sentada em uma das mesas do restaurante; estava linda e radiante com da outra vez em que a vira. Era em uma das mesas próximas do corredor e como o restaurante era separado por uma parede de vidro podia vê-la claramente. Na mesa havia vários papéis e um livro, com certeza estava estudando para alguma disciplina. Ele não sabia que ela assim como o pai também estudava Literatura, mas era o que agora supunha. Ao se aproximar ela o viu por um relance e reconhecendo-o chamou-o. Neste momento um leve calafrio passou pela espinha de Iago e um pouco trêmulo entrou no restaurante. Através de enorme esforço conseguiu gesticular algumas palavras dizendo:

- Nemis... O que você está fazendo aqui?

- Olá Iago - disse ela.- Ora você não sabia que eu faço o curso de Literatura?

- Não - respondeu ele timidamente.- Nunca vira você antes por aqui.

- Ah! Certamente alguém está querendo nos manter a distância.

Devido a essa inesperada resposta Iago corou e sem entender redargüiu:

- Não entendo. Como alguém pode nos querer manter a distância se nunca nos encontramos antes; e quem seria esta pessoa?

- Seu bobinho - respondeu ela.- Essa minha expressão foi um modo de dizer. O que eu queria falar era que nossos destinos certamente são diferentes e nos mantêm a distância um do outro.

- Pode até ser que eles sejam diferentes, mas hoje eles quiseram que nos encontrássemos não foi mesmo?

- É... Também deve ser muito difícil para eles ficarem nos desencontrando tanto, já que passamos muito tempo dentro desse mesmo prédio.

Esse assunto chateou um pouco Iago. Ela afirmar dessa maneira, com tanta certeza, que os destinos dos dois eram assim diferentes. Resolveu então mudar de assunto, perguntando:

- O que é que você está estudando?

- Infelizmente, Iago, estou fazendo este semestre a matéria lecionada pelo meu pai. Ele realmente não dá nenhuma trégua para gente; não sei como você consegue trabalhar com ele.

- Bem... Em uma coisa eu tenho que concordar com você: seu pai não é moleza mesmo. No entanto, eu me dou muito bem com ele e estamos conseguindo desenvolver um interessante trabalho.

Neste instante Iago reconheceu o livro que estava sobre a mesa. Era o livro do professor Richard que ele havia estudado no início dos trabalhos.

- Ora, mas vejam só se não é o livro do professor que você está estudando ai. Este eu recomendo; é realmente uma boa leitura, não acha?

- Você deve estar brincando, não é?- respondeu ela em tom zombeteiro.- Acho que a excessiva convivência sua com meu pai está fritando os seus miolos. Eu não estou conseguindo passar nem do índice direito de tanto tédio.

Aquele conversa que parecia natural, na verdade, exigia de Iago tremendo esforço. Ele gostaria apenas de ficar ali apreciando Nemis e os momentos enquanto ela falava e gracejava com ele. Poderia ficar todo o tempo escutando aquela doce voz e sentido aquele suave perfume que permeava o ambiente em a sua volta. Para prolongar mais aqueles momentos ele continuava:

- A primeira coisa que seu pai me passou para estudar quando o conheci foi este livro. Posso lhe garantir que no início eu achava esse estudo ainda mais entediante que você. Mas vencida essa primeira barreira acabei me interessando pelo estudo.

- Tudo bem Iago, acredito em você. Agora você poderia me deixar estudar um pouco, por favor? Tenho ainda muito que fazer e não posso ficar conversando o dia todo.- a redargüiu já em tom de impaciência.

- Claro!... Balbuciou ele pálido de terror por tê-la aborrecido.

E retirou-se um tanto preocupado com esses últimos acontecimentos. Não se perdoando por não ter conseguido manter o assunto interessante para sua adorada. Dessa forma seguiu até a sala do professor Richard. Lá começou a discutir os resultados de seu estudo. Iago havia se preparado muito para essa entrevista; com isso queria mostrar o empenho com que se dedicava a sua tarefa. No entanto ao encontrar com Nemis seu pensamento se tornara disperso. À vontade de discutir aqueles assuntos pareciam já não fazer tanto sentido para ele como antes. Tinha apenas um único pensamento fixo e que fazia questão de monopolizar sua mente. Por isso quando apresentou suas idéias para o professor não conseguiu se expressar com clareza. Quando, então, o professor pediu para que o estudante resumisse o que havia entendido do texto Iago um tanto confusamente respondeu:

- Basicamente as informações que consegui extrair desse texto foram as seguintes: existem pequenos objetos que o texto denomina de...Cargas. Também está claro que esses objetos são basicamente de dois tipos: os positivos e...- o jovem se esquecendo teve que olhar no texto para relembrar-se da palavra utilizada e, então continuou: - Negativos. Isso mesmo as cargas podem ser positivas e negativas. O texto realmente é de extremamente difícil professor.- o jovem estava envergonhado por não se lembrar de mais nada que podia dizer sobre o texto, mas através de um esforço tremendo continuou.- As informações são bastantes confusas a partir desse ponto. Eu sei que estes objetos estão relacionados com alguma espécie de força. Não sei, infelizmente não consegui desenvolver muito mais idéias nesse texto professor.

Quando terminou um silêncio reinou na sala por uns instantes. Parecia que o professor Richard ainda esperava que seu aluno complementasse um pouco mais. Como Iago permanecera calado e cabisbaixo o Sr. Mackenzie disse:

- Posso ver que você pouco conseguiu fazer com esse texto. Iago, diga-me uma coisa você não estudou realmente a fundo, não é mesmo. Pelas suas palavras posso ver que deve ter começado a estudá-lo ontem, no máximo anteontem. Digo isso porque sei que você é um jovem inteligente e se tivesse se empenhado verdadeiramente poderia me dizer muito mais coisas do que apenas essa curta análise.

Iago ficou extremamente chateado com estas palavras. Depois de todos os dias em que ele passara estudando aquele texto novamente tinha esse tipo de recompensa. No entanto não teve coragem de dizer nenhuma palavra a seu favor. Acreditava que merecia aquilo por não ter conseguido algo altura de seu orientador justamente na hora em que ia apresentá-lo. Como Iago permanecia em silêncio o professor continuou:

- Tudo bem, acredito que você deva ter alguma explicação para o que aconteceu aqui hoje. Para dar-lhe uma idéia do que poderia ter extraído desse texto vou lhe apresentar algumas informações que tirei. Primeiramente quero dizer que se você observar bem irá ver que esses objetos tem na verdade um formato bem específico, eles são pequenas esferas como pode ver pelos esquemas. Acredito que os antigos através de algum processo químico tenham conseguido criar estes interessantes objetos. Você verá que eles ainda aparecerão em outros lugares do livro, como na capa. Infelizmente o livro não cita como construir essas pequenas esferas. O homem que descobriu essas pequenas estruturas era chamado Hanway. Ele conseguiu estabelecer alguma estranha relação entre essas partículas que no momento nos é impossível compreender qual seja, já que não compreendemos essa matemática. O trecho ainda nos mostra que as pequenas esferas têm propriedades bastante estranhas. Elas podem realizar uma força ora atrativa ora repulsiva. Basicamente era isso que queria acrescentar ao que você disse. Hoje estou lhe entregando um novo trecho e acredito que você não irá me desapontar novamente.

E essa foi a maneira como decorreu essa primeira reunião sobre o livro das idéias de Maxwell. Quando Iago deixou a sala do professor não sabia o que sentia: era uma mistura de vergonha pelo que acabara de ocorrer; mas ao mesmo tempo algo queimava dentro dele com a imagem de Nemis ao fundo de seu pensamento.

Não imaginava o que aquele dia ainda aguardava para ele. Ao sair da Faculdade de Literatura escutou alguém que o chamava. Aquela voz ele reconheceria em qualquer lugar por mais atenuada que ela estivesse. Virando-se para trás viu Nemis que corria apressadamente em sua direção. Seus cabelos soltos pareciam brincar com a brisa que os cariciava. Suas finas vestes também participavam dessa dança acompanhadas dos rijos seios que abrigavam. O coração do jovem parecia fundir-se diante dessa visão. Quando ela se aproximou parou um pouco ofegante e disse:

- Iago, desculpe-me por ter sido um pouco rude com você hoje. Acontece que eu estou muito preocupada com a matéria de meu pai. Você o conhece e imagina o quão ele faz questão que eu esteja entre os melhores da turma nesta área.

O estudante não ousava fitá-la para que sua beleza não lhe travasse a língua.

- Claro que entendo. Imagino que essa pressão deva ser muito difícil.

Novamente aquele perfume se difundira pelo ambiente entorpecendo Iago. Os lábios de Nemis estavam levemente pintados e neles deitavam pequenas gotículas como se fosse o orvalho sobre uma rosa numa manhã de inverno. Eles começaram então a andar em direção ao prédio da Septologia e enquanto isso ela mudando de assunto disse:

- Como foi a reunião com meu pai? Mais uma vez ele lhe parabenizou pelos seus trabalhos?

- Acredito que dessa vez as coisas foram um pouco diferentes. Não sei o que ocorreu comigo, mas não consegui me desenvolver bem a minha explanação. - redargüiu ele lembrando com pesar o que ocorrera.

- Essas coisas acontecem - disse ela tocando agora afavelmente na cabeça dele.

Um frêmito passou pela espinha de Iago, que permaneceu em silêncio. O seu corpo parecia estar em chamas. Ela continuando dizendo:

- Iago, eu estava pensando se você não poderia me ajudar nos estudos já que leu todo esse livro?

Diante dessa inesperada pergunta Iago levantou a cabeça e seus olhos rapidamente se encontraram com os de Nemis. Não pôde evitar que face lhe queimasse e enrubescesse.

- Se estiver ao meu alcance ajudá-la, pode ter certeza de que basta você querer para que eu faça.

Nemis deu um pequeno grito de alegria.

- Muito obrigado Iago, não sei o que faria sem você. O que acha de nós começarmos amanhã mesmo, assim podemos aproveitar o fim de semana.

- Se você assim quer, então está combinado. A que horas?

- As duas da tarde, lá em casa. Está bom para você assim? - perguntou ela.

- Para mim está certo.

Já haviam chegado ao prédio de Septologia, Iago estranhando que sua companheira o havia acompanhado até ali argüiu:

- Um momento, Nemis, o que você veio fazer aqui no prédio da Septologia? Não me diga que também está fazendo algumas matérias aqui?

- É óbvio que não seu tolinho.- disse ela carinhosamente.- Vim encontrar-me com meu namorado, Jerry Frenzel. Você o conhece?

O coração de Iago parou por um segundo ante esta revelação. Para ele era inconcebível que qualquer mortal pudesse possuir a deusa que se apresentava diante dele. Ninguém poderia estar à altura dessa glória, muito menos Jerry. O perfil do jovem ficara branco como se fosse feito de cera.

- Sim, conheço.- disse ele secamente e saiu por um corredor apenas acenando uma rápida despedida.

Era como se o chão faltasse sobre seus pés, sua mente estava como um turbilhão. Naquele instante a vida não lhe fazia mais o menor sentido: nada mais do seu trabalho lhe interessava, tudo o que estudara não tinha a menor importância. E o pior era que o namorado de Nemis era aquele tal de Jerry. Iago já tivera algum contato com esse estudante que estava um ano na sua frente no curso. O que ele não entendia era como Frenzel, um tipo totalmente comum de estudante, tinha conseguido realizar semelhante proeza. Jerry nunca se destacara em nada na universidade, possuía um pequeno grupo de amigos e deve ter passado totalmente desapercebido para maioria das pessoas do curso. Inclusive ele Iago só o conhece por acaso devido ao curso de Introdução a Energia Septal em que Jerry passou a ser seu colega depois de ter sido reprovado. Desde o início do curso o sujeito permaneceu calado, sentando sempre em um canto na última carteira.

Depois disso Iago não conseguiu permanecer por muito mais tempo na universidade. Ele sentia uma vontade tremenda de sair daquele prédio para andar um pouco e refletir sobre os últimos acontecimentos. Enquanto saia viu Jerry com o braço em volta da delicada cintura de Nemis e para não ter que cumprimentá-los apressou o passo fingindo que não os via. Assim que se estava livre sentiu um alívio e dirigiu-se apressadamente para sua casa.

As horas seguintes foram as piores que Iago já havia passado. Esteve muito tempo refletindo sobre todos os acontecimentos que ocorreram naquele dia e arrependera-se do momento em que conhecera a filha de seu orientador. Devido a esse martírio que castigava seu coração mal conversou com sua tia e dormira já nas primeiras horas da noite, ainda não sabia o que faria no dia seguinte.

****

Assim que o dia amanheceu Iago começou a fixar os trechos do livro do professor que estudaria com Nemis naquele dia, porque apesar de tudo que ocorrera ele havia firmado um compromisso. Às duas horas como combinado se dirigiu para a casa do professor.

Nemis recebeu-o com a delicadeza e alegria de costume. Durante àquelas horas Iago tentou passar o máximo das informações sobre o livro, buscando sempre fazer com que ela compreende-se a lógica que existia por trás daquelas técnicas. A principio apesar dele tentar se manter a mesma pessoa de antes, não conseguia porque algo se quebrara por dentro e naturalmente ele agia de maneira mais distante. Ficara receoso de que Nemis notasse o que se passava no seu interior, mas para sua felicidade a inocente menina parecia alheia a qualquer mudança. Gradativamente a medida que o tempo foi passando essa neblina foi se desaparecendo e cada vez mais a imagem de Nemis se aproximava e a de Jerry ao contrário parecia mais e mais distante. Pensamentos e esperanças começavam a surgir na mente de Iago: “Talvez, afinal, Jerry seja apenas uma pequena aventura na vida de Nemis; o relacionamento deles deve estar tendo problemas, bom deve ser por isso que Jerry não impeça que ela estude comigo. Caso contrário como ele poderia tranqüilamente permitir que sua namorada passasse tanto tempo assim com um outro; e principalmente no fim de semana”.

No dia seguinte Iago voltou a casa de Nemis como novamente havia combinado, quando ela atendeu-o à porta estava usando um leve vestido azul, feito de tecido de onde se transpareciam delicadamente o umbigo, o ventre, e as curvas dos ombros que se prolongavam encontrado-se suavemente com os traços suaves das saboneteiras que se mostravam apenas envoltas em uma tênue névoa deixada pela roupa. Na altura do colo as nuvens do tecido gradativamente se tornavam mais densas encobrindo os seios, que, no entanto, tinham sobressaltadas as formas pelo tecido que se encontrava rente ao corpo.

- Você está linda Nemis. Vai sair?

- Seu engraçadinho... Estou aqui sozinha te esperando há mais de meia hora, viu.

- Desculpe-me Nemis. Mas cadê o professor.

- Ele foi a Universidade; parece que tinha que estudar alguns artigos. Entre logo Iago, vamos começar a estudar.

Foram diretamente para a sala de estudos, conversando animadamente durante o percurso. Iago parecia que estava mais acostumado à presença de Nemis e não se deixava perturbar tanto. Sentaram-se à mesa um permanecendo ao lado do outro e com o livro aberto sobre a mesa. Iago tentava interpretar as passagens e explicava-as a Nemis pedindo que ela repetisse alguns trechos com suas próprias palavras. De repente começou a perceber uma certa quietude perturbadora na casa. Sua pele ligeiramente encostada em Nemis parecia hipersensível, suas pernas roçam levemente e as palavras suaves saiam da boca de Nemis quase como um sussurro, mas mesmo assim seu som propagava-se límpido pelo silêncio. Ela falava a poucos centímetros dos lábios de Iago o começou a perturbar-se profundamente com aquela situação. Esses centímetros que pareciam diminuir a cada momento simplesmente acabaram. Iago não sabe de quem foi a iniciativa, tudo parecia tão natural, tão puro assim como era Nemis.

Em pouco tempo os dois estavam com os corpos nus e entrelaçados. Os seios de Nemis voluptuosos e rijos descobriram uma aureola rósea como um pêssego aveludado esperando ainda amadurecer; seus lábios eram como mel escorrendo do favo; Iago esquecera o ambiente a sua volta e sentia-se como se estivesse no campo acompanhado do delicioso aroma de ervas desconhecidas que inundavam o ar. As faces avermelhadas de Nemis pareciam queimar e o calor, que emanavam era como um incêndio envolvendo-os em labaredas do mais adusto dos sóis. Os olhos verdes hipnotizavam-no e ele não cansava de olhá-los, neles mergulhava, deixava-se afogar naquele pântano, enleava-se em suas algas fibrosas.

A fricção dos corpos era como uma música, única tradutora daqueles sentimentos incompreensíveis para a mente; e ela tocava incessantemente, numa cadência egoísta como se nada mais tivesse importância.

****

Novo dia; Iago não conseguira descansar nem um minuto, passara toda a noite com a mente torturada pelos acontecimentos. Repetia os mesmos pensamentos um número infinito de vezes e por mais que estivesse cansado não conseguia parar, na verdade o processo era independente de sua vontade. Assim que acordou seu único pensamento era encontrar com Nemis para conversar sobre tudo o que ocorrera, pois no dia anterior não trocaram a mínima palavra. Assim que Iago pensou em dizer algo Nemis fez com que ele fosse embora quase o expulsando e, dizendo que seu pai já deveria estar chegando e, que não seria bom encontrá-lo.

Após um rápido lanche dirigiu-se diretamente à Faculdade de Literatura, não se importando sequer com a aula de Introdução a Energia Septal que teria. A sua ansiedade fez com que fosse um dos primeiros a chegar no prédio. Sentou-se então em um dos bancos na entrada e esperou. Nemis chegou de carro junto com o Professor Mackenzie. Os dois passaram por Iago sem notá-lo, e entraram sem dar a menor chance para ele aproximar-se de Nemis. Ele ainda os seguiu com os olhos enquanto o Professor e sua filha subiam as escadas. Foi então ao prédio da Septologia e voltou novamente no período do almoço.

A cena que presenciou só lhe trouxe ainda mais dúvidas e tormento. Jerry estava sentado com Nemis em uma das mesas do restaurante, onde os dois conversavam e riam com uma euforia que parecia até exagerada. O que é que estava acontecendo afinal de contas?- pensava Iago sem conseguir entender mais nada. Seus sentimentos estavam completamente confusos, o calor da paixão deu lugar ao do ódio, não por Nemis que seria impossível odiar, mas sim por Jerry. Sua cabeça rodopiava e ele devaneava, parecia estar tomado por uma espécie de labirintite que fazia com que tivesse dificuldade em se equilibrar. Sentou-se ao longe e ficou observando os dois durante toda a refeição que durou mais de trinta minutos. Quando finalmente acabaram se beijaram e Jerry saiu em direção à Faculdade de Septologia. Iago percebeu, então, que teria uma chance de falar com Nemis que agora estava sozinha na mesa do restaurante vagando com o olhar.

- Srta. Nemis, como vai?- disse Iago assim que se aproximou.

- Iago! O que você está fazendo aqui? Por acaso estava me espionando?

- Vim para conversar com você sobre o que aconteceu conosco na noite anterior e de repente encontro você aos beijos com Jerry.

- Não sei do que você está falando, Iago. O que ocorreu já passou e devemos esquecer. Eu sou uma mulher comprometida e vou me casar com Jerry assim que ele terminar o curso. Se por acaso algo aconteceu entre nós foi porque eu precisava conhecer outro homem antes do casamento para provar a mim mesmo o quanto amo Jerry. Espero que você entenda que não existe nada entre nós nem nunca houve... Iago desde o dia em nos conhecemos notei que tinha uma certa atração por mim; da mesma forma você também me agradou; percebi que tinha muita energia e era um sonhador com grandes ideais. Não vi nenhum problema para que aquilo ocorresse já que nós dois queríamos. No entanto devido a sua atitude vejo que estava errada.

É impossível, ela não é assim, não pode ser...“ - pensava ele. Diante dessa revelação Iago perdeu toda a força espírito; ele sucumbia àquelas palavras. Sem Nemis nada mais fazia sentido...

- Não, Nemis, é tudo mentira o que diz. Você me ama... E nós vamos ficar juntos.- desabafou o jovem quase gritando.

- Pare! Silencio, não precisa dizer para todo mundo dessa forma. Por acaso está querendo me humilhar... Vamos sair daqui.

Os dois levantaram e seguiram para o pátio na área externa da Faculdade de Literatura. Quando já se encontravam a uma boa distância Nemis disse:

- Iago, vou ser bem clara nesse assunto para que não reste mais nenhuma dúvida. Está tudo errado, você não compreendeu nada do que aconteceu. Acho que o melhor agora é nos afastarmos e deixarmos de nos encontrar até que tudo volte ao normal.

E virando às costas Nemis seguiu de volta ao “cubo”. A única reação que o jovem teve foi observá-la sumir de sua vista. O sangue parece ter lhe fugido da cabeça fazendo com que novamente uma leve e continua tonteira se apoderasse dele.

****

Capítulo VIII - Novos Ares

Ivety voltou para casa muito cansada esse dia; tivera vários problemas durante o dia. Quando chegou notou que seu sobrinho não veio cumprimentá-la como de costume e que também a mesa de lanche não estava posta. Quis ir vê-lo, mas ao se aproximar do quarto vendo que a luz estava acesa desistiu da empreitada com receio de perturbar o estudo de Iago. Certamente deve ser alguma prova que o perturba – pensou ela. Não dando importância ao acontecimento esquentou uma pequena refeição com o que havia sobrado do dia anterior.

Há uns dois quilômetros dali encontrava-se Iago. Ao contrário do que Ivety pensara, ele não estava em casa. Simplesmente esquecera de apagar a lamparina do quarto quando saiu. Não conseguindo ficar em casa por muito tempo resolveu ir conversar com Nemis novamente. No entanto assim que saiu viu que não faria o menor sentido continuar levando isso em frente. Acabou vagando sem rumo pelas redondezas da Cidade Universitária. Estava agora cruzando a ponte que definia o limite entre o bairro universitário e o bairro conhecido como Brejo. Parou no centro e ali ficou observando o rio que corria suave e despreocupado; corria sem nenhuma necessidade e nem vontade própria; seu único fim era obedecer às leis naturais. Desejou Iago também não ter nenhum tipo de vontade na vida. Todas as que tinha só lhe traziam sofrimento.

Ficou ali observando aquela cena por mais meia hora; pensava. “Há tanto tempo conheço esse rio e nunca soube exatamente para onde ele segue. Sei apenas que passa por grandes quedas d’água no Brejo o que torna o bairro famoso pela beleza e dali segue para fora da cidade. Ouvi dizer também que em determinado trecho existe um pequeno poço onde algumas pessoas vão fazer piquenique e pescar. O poder e a calma misturados ao mesmo tempo em um único ente. Como eu queria estar no seu lugar meu amigo... Minha vida já não tem sentido, vivo apenas pela inércia do processo. Seria melhor acabar logo com isso, juntar-me a você e juntos corrermos por esses caminhos afora, sem preocupações, sem vontade, ora calmos, ora bravios; mas sem sentimento algum, fazer apenas por fazer...”.

Apesar de todas essas conjecturas voltou resignado, sentindo-se como um covarde. A noite já estava alta quando chegou em casa; assim que entrou seguiu direto para o quarto e não se encontrou com sua tia que já dormia. Fechou a janela, apagou a lâmpada e deitou-se com a mesma roupa sobre a cama ainda por fazer. Não conseguiu dormir imediatamente, apenas permanecera em estado de torpor. Na verdade sua mente transtornada demorara muito para enfim se entregar a um sono intranqüilo. Muitos sonhos o perturbaram, no entanto teve um mais marcante que reunia em si um caricatura de seus sentimentos:

Tido como louco foi colocado em um hospital psiquiátrico. Era um lugar frio e que expelia odor úmido e sufocante; uma mistura do acre de desinfetantes e suores de loucos e enfermeiros. Iago fora colocado em um grande quarto com umas vinte camas colocadas lado a lado no decorrer das paredes assemelhando-se a um longo corredor. Já estava de noite e os pacientes estavam sendo colocados para dormir. Na cama vizinha a de Iago ficara uma histérica; a mulher não parava discutir com os outros internos. No entanto assim que a deitaram ela dormira imediatamente como se a houvessem dopado. Aos poucos uma leve sonolência também foi tomando conta dele; começou a sentir que algo estranho o dominava. Uma espécie união passou a se formar entre ele e sua vizinha. Começou a reviver momentos da vida da histérica como se eles fossem a mesma pessoa. Ela ainda criança quando um vulto negro entrou em seu quarto, era seu pai. Homem alto e de constituição forte que se aproximava dela com hálito de bebidas alcoólicas. Através da ligação psíquica entre eles Iago sentia o medo e a repugnância da mulher sem, no entanto poder fazer nada para impedir o malfeitor. Era como se seu espírito estivesse ali vivendo, mas impotente para interferir nos fatos. O homem se aproximava cada vez mais; sentiu então o toque do corpo daquele estranho que deitava sobre a mulher”.

Repentinamente Iago acordou, percebeu que estava completamente molhado pela transpiração tensa do sonho. Não teve forças para se levantar. Teve curiosidade em saber o quanto dormira, ainda era noite mas que horas seriam. O pior era que assim que voltava a dormir o sono recomeçava do momento aonde havia parado. Não agüentando mais se levantou e foi a cozinha beber um pouco de água, eram duas horas como pôde verificar pelo relógio na parede. A noite passava lenta, quanto tempo duraria ainda esta tortura - pensara.

Depois de vários sonhos finalmente percebeu alguns raios de sol que atravessavam as pequenas imperfeições de sua janela. Não tendo interesse em nada mais, permaneceu deitado ainda por muito tempo apenas se entregando. Durante esse período pensava nas possibilidades que tinha; chegou mesmo a se imaginar assassinando Jerry para ficar com Nemis. No entanto sabia que nunca poderia realizar um ato de tal tipo. Decidiu então que nunca mais se encontraria com ela, seu único desejo era sumir dali. Finalmente! Encontrou a solução, então resolveu levantar-se. Abriu a janela, o tempo previa uma leve chuva e a temperatura difundia um leve frescor. Pegou suas antigas malas e iniciou a arrumação das bagagens.

Ivety percebendo a movimentação no quarto do sobrinho bateu na porta. Ao que Iago respondeu:

- Quem é? Tia Ivety pode entrar!

- Iago! Que é isso. Para que está fazendo a sua mala?- disse Ivety

- Resolvi viajar um pouco Ivety. Estou muito cansado neste semestre do curso; não me leve a mal, mas preciso sair um pouco daqui. Estou passando por um momento de pressões muito fortes e agora só quero descansar. Tudo é temporário, só até eu melhorar um os ânimos.

- Mas Iago!- exclamou Ivety - Você parecia estar tão bem. Não acha que está exagerando. Seria melhor pensar um pouco melhor sobre essa decisão; afinal você vai simplesmente abandonar um semestre do seu curso... Estou ficando preocupada, meu filho, os seus pais o que irão achar disso?

- Não me importo.- redargüiu Iago - Meus pais com certeza entenderão e apoiarão minha decisão. Além do mais não acredito que um semestre vá fazer muita diferença em minha vida... Pode ser até melhor, voltarei com idéias mais maduras, e mais animado para realização de meus trabalhos. Por favor, não tente me convencer do contrário, pois já estou decidido.- e continuando ele acrescentou - Gostaria, aliás, de lhe pedir um grande favor. Preciso que você avise ao Professor Mackenzie que não vou mais trabalhar com ele. Diga que motivos particulares me obrigaram a voltar por uns tempos para a minha cidade natal.

- Tudo bem Iago, falarei com o professor.- disse Ivety já em lágrimas -Também não insistirei mais para que você fique; vejo está realmente decidido. Quero apenas dizer-lhe que sentirei muita falta da sua companhia e que as portas da minha casa estarão sempre abertas para você.

E assim Iago despedira-se de sua Tia. Ele também emocionado abraçou-a, era muito grato por todo o carinho que ela lhe ofereceu. Terminada a arrumação das malas foi para a estação ferroviária. Já se sentia melhor só em saber que dentro em pouco estaria longe dali. Precisava transferir seu pensamento para outras coisas, sabia que nada melhor do que uma mudança de ares. Talvez fosse até bom, sua vida estava começando a perder o controle. Fazia suas tarefas sem raciocinar para onde aquilo o levaria. Ele sempre sonhara quando criança em ser tornar um grande Septólogo e, no entanto ultimamente parecia mais um robô sendo guiado pelo sistema - assim pensava enquanto seu trem partia.

É interessante o que essas viagens fazem com as pessoas. Ali Iago sentia-se como se estivesse indo para o desconhecido. Seu destino que antes lhe aparecia tão tediosamente claro agora era totalmente incerto, totalmente livre. Nada ainda estava escrito.

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Capítulo IX - Retorno ao Lar

De longe avistou a estação da sua cidade. Então teve a noção que havia muito não voltava ali. Enquanto estava longe esquecera de quão bons foram os momentos da inocência de sua infância: dos odores da sua terra, da comida da sua mãe, dos seus irmãos. Agora tudo isso voltava a sua mente de repente, como represa que acaba de ser rompida gerando enorme enxurrada. Não pensava que tivesse todos esses sentimentos guardados dentro do peito; sua alma sangrava um sangue forte e dolorido. Lágrimas vieram ofuscando-lhe a vista, lavando a face, o corpo, a mente, o espírito.

Já era noite quando chegou à pequena estação. Ela mantinha os tradicionais costumes advlenses de se deixar lampiões ligados durante todo o tempo numa demonstração de boas vindas ao viajante.

Devido a sua decisão impulsiva nenhuma carta pôde ser enviada a tempo por isso ninguém esperava pela sua chegada. Assim mesmo, sozinho, dirigiu-se com sua pequena bagagem pelas estreitas ruas de Gresnile. Repentinamente parou de andar e pensou: “O que estou fazendo aqui. Não tenho nada para conversar com essas pessoas, eles já não fazem parte da minha vida. A muito que deixamos de ter algo em comum para poder compartilhar. No entanto tenho que manter o controle, vou ser rápido e em pouco tempo já me encontrarei sozinho na fazenda... Mais um pouco Iago e você realizará o que planeja... Paciência”.

Sua casa não ficava longe, era uma das últimas da rua e ocupava quase meio quarteirão. Pouco depois dos primeiros passos Iago já fora reconhecido por seu primo Gallus. Há vários anos que eles não se encontravam; quando crianças eram grandes amigos. Aproveitaram este momento para colocarem em dia todos os assuntos pendentes, mas Iago não falou um só momento o que o trazia ali.

Chegando à porta da sua casa Gallus aproveitou para ir correndo avisar a chegada do inesperado visitante. Não demorou para que a mãe de Iago chegasse dizendo um tanto aflita:

- Meu filho! O que o traz aqui tão de repente? Aconteceu alguma coisa com sua Tia?

- Acalme-se minha mãe, não houve nada. Deixe-me ao menos chegar um pouco em minha casa e descansar da viagem que esclareço qualquer das suas dúvidas. No momento quero apenas tomar um bom banho e trocar essa roupa.

E assim ele fez. Depois deu como motivo para a viagem o extremo cansaço que sentia no curso de Septologia devido às inúmeras pressões. Prometeu que voltaria assim que recuperasse um pouco as energias na fazenda da família. A mãe assim que escutou o motivo não discutiu mais e fazia de tudo para proporcionar a maior tranqüilidade ao filho. Disse inclusive que o visitaria de tempos em tempos.

No dia seguinte Iago, que nem desfez sua mala, partiu rumo ao campo como havia programado. Ali pretendia esquecer um pouco tudo o que passara em Bortuca, queria esquecer até que ele era, entregar-se por completo como faz o rio no seu leito. Pretendia deixar-se levar naturalmente pelo estudo dos livros pensando neles como único alento para todos os seus problemas. As notas que redigira enquanto estava com o Prof. Richard também estavam com ele.

A fazenda ficava num vale, o local perfeito para alguém que quisesse se isolar da sociedade. A sede era um antigo casarão construído pelo seu avô e aonde seu pai nascera e morara durante muito tempo. O trajeto foi feito em uma carroça e novamente Iago chegara apenas no início da noite. As luas imponentes sobrepujavam a todos os outros astros e iluminavam o caminho como se fossem pequenos sóis que representavam o chefe enquanto este descansava.

A primeira pessoa que encontrou quando chegou foi o caseiro Burkot. Homem de compleição forte, castigado pelas intempéries do dia. Assim que Iago o encontrou disse:

- Burkot, há quanto tempo meu amigo. Como estão as coisas?

- Tudo igual à última vez que você esteve aqui Iago. Você sabe. As coisas aqui não mudam muito.

- Ah, como é bom sentir esse cheiro de campo, natureza. Era disso que eu estava precisando para melhorar meus ânimos. Isso aqui é a melhor coisa que poderia acontecer para mim, agora.- e com uma ligeira contração dos lábios, lembrando um sorriso Iago acrescentou - E o meu quarto... Ainda existe ai?

- Ao que me parece tudo está em ordem senhorzinho. É como se você nunca tivesse deixado isso aqui. – e continuando - Deixe-me ajudá-lo com a bagagem.

E assim Iago estava de volta às raízes da sua família. Ali se sentia mais forte como nos sentimos quando estamos em casa. A primeira coisa que fez foi tomar um banho frio e deitar-se na cama para descansar das cansativas viagens.

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Acordou com uma predisposição renovadora. Queria sair, correr, transformar tudo a sua volta. Decidiu que ajudaria na fazenda com melhorias e novas tecnologias. Usaria seus parcos conhecimentos de administração para gerenciar corretamente aquele lugar esquecido. As idéias surgiam em sua mente aos montes como bolhas em água de sabão. A primeira providência que tomou vou ir com Burkot ao rio para ver a possibilidade de construir um sistema de irrigação por gravidade utilizando um de tubos e aspersores ao invés do antigo método de caneletas escavadas na terra. Combinaram também de construir uma grande caixa d’água para as estações de maior seca.

Rodaram o dia inteiro demarcando o melhor traçado e calculando os metros necessários para a tubulação. À noite Iago sentia-se completamente exausto mais ao mesmo tempo estava bem. O trabalho refresca a mente do homem, o corpo cansado relaxa os neurônios, beneficia a saúde. E assim se renovou durante oito meses...

A sensação era a de uma ferida que se cicatrizava aos poucos. Durante esse período ele decidiu não pensar nos seus antigos problemas. Deixou de lado até mesmo os seus estudos em busca da energia. O trabalho intenso tornava mais fácil esse processo. No entanto se notasse no fundo de seu âmago veria que nunca abandonou por completo os seus verdadeiros objetivos. Por isso que, sem que ele percebesse, começara gradativamente a retomar os seus antigos projetos.

Quando percebeu, seu grande desejo de buscar a solução dos mistérios já estava novamente instalado na sua pessoa. Só que dessa vez voltara com força renovada. Graças ao descanso que teve e ao ambiente propício Iago manteve durante meses um poder de concentração paranóico em seus estudos. Neste período largou totalmente todas as atividades que exercia na fazenda.

Ainda bem que trouxera consigo seus livros e as notas que fizera em quanto estava com o professor Mackenzie. Esmiuçava-se em cima dos mais complexos símbolos e expressões durante horas a fio. Apesar do esforço colossal que empregara percebia que suas tentativas pouco avançavam. A penumbra continuava pairando sobre o assunto com a mesma força de antes. Percebera que seu método estava fracassando e que se continuasse assim não chegaria a lugar algum. Mas ao invés de desanimar e desistir Iago resolveu assumir que precisava atacar o problema por outro enfoque.

Foi quando percebeu que instintivamente agia como o Professor Mackenzie. Ele não estava tentando resolver o problema da energia dos antigos, mas, sim, decifrar o livro. Agia de modo a obter, como um resultado indireto de seus esforços, a solução que realmente queria. Decidiu então mudar de estratégia; iria atacar o problema diretamente e usar o livro apenas como uma ferramenta auxiliar.

Resolveu tentar construir algum dos experimentos descritos no livro mesmo sem saber ao certo do que se tratava. Caso conseguisse uma conciliação dos resultados continuaria adiante.

Tentou desenvolver primeiramente o experimento que discutiu com o Professor Mackenzie. Onde esferas positivas e negativas se atraem e repelem quando são aproximadas. O principal problema era tentar criar tais estruturas. Passou dois dias pensando unicamente do que elas poderiam ser feitas. Como essas coisas podiam interagir se elas nem se tocavam. Pensou em tudo o que poderia constituí-las até que certo momento teve um estalo. Lembrou-se vagamente de uma aula que teve ainda no princípio do curso sobre o efeito de atração de certos objetos quando esses eram fortemente atritados. Era a única coisa que conhecia que tinha esse poder à distância, isso se for descartada a atração das massas já descoberta por Wisan.

Decidiu então estudar esses fenômenos. Sabia que não poderia fazê-lo com a profundidade necessária ali isolado do resto do mundo. Teria que voltar a Bortuca e enfrentar novamente o que deixara para trás já há quase um ano.

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Capítulo X - O Reencontro

Iago novamente instalou-se na casa de sua Tia Ivety. Ela sempre o recebeu da melhor forma possível. Ele ainda tinha de esperar por três meses para poder retornar aos estudos na faculdade. Era exatamente disso que precisava. No momento não tinha interesse de cair na rotina exaustiva do curso. Não, o que gostaria agora era criar o seu próprio curso, poder definir o seu caminho. Tinha uma idéia e precisava colocá-la em prática.

Desobrigado de cumprir qualquer tarefa, ele pôde sentir-se à vontade para seguir o que havia se proposto a fazer. Os únicos lugares que passou a freqüentar eram a biblioteca e sua casa. Estava feliz por conseguir se concentrar tão bem em sua meta. Sentia-se como uma flecha que invariavelmente seguia a rota predefinida no instante do seu lançamento. Iago vasculhava todos os materiais que poderiam ter alguma relação com os fenômenos que estava pesquisando. Em seus estudos percebeu que estes fenômenos atrativos já eram conhecidos há muito tempo. Descobriu uma lista de materiais em que eles eram classificados de duas formas: os tipo A e os tipo B. No século passado um estudioso chamado Sr. Mentus descobriu também o fenômeno da repulsão. Repulsão entre os materiais de tipos iguais e atração entre os materiais de tipos diferentes. Isso foi para Iago de grande valia, pois era exatamente como se comportavam as cargas positivas e negativas descritas no livro. Iago sentiu-seeufórico com esta descoberta. Tinha agora a mais absoluta certeza que estava no caminho certo. Deveria continuar seguindo esta mesma linhagem. Nem tudo estava ainda definido talvez aprendesse outros fenômenos sobre esses materiais que descartariam totalmente a possibilidade inicial. Alem do que ate o presente momento não percebia a menor ligação que tais fatos poderiam ter com a produção de energia. Esses pareciam, na verdade, tão corriqueiros e meio que inofensivos, pois as forcas envolvidas eram tão fracas. De qualquer modo as semelhanças pesavam mais do que diferenças.

Assim que a capacidade de repulsão se revelou, Iago teve como primeiro impulso ir falar imediatamente com o Prof. Mackenzie. Decidiu que era exatamente isso que faria, mesmo sabendo que poderia encontrar-se novamente com Nemis. Ele não podia correr disso pelo resto de sua vida. Seria melhor enfrentar os seus sentimentos e colocá-la no passado de uma vez por todas. Ele sabia que um encontro com ela não seria fácil de enfrentar, não sabia ao certo qual seria na verdade sua própria reação diante dela. No entanto, já decidido, pegou todas as notas que conseguiu reunir sobre o assunto e preparou-se para falar com o Professor.

No dia seguinte foi até a sala dele para apresentar o que havia desenvolvido nestes últimos dias. Estava um pouco nervoso; talvez não tivesse analisado todas possibilidades. Muito provavelmente não tinha, mas como duas cabeças pensam melhor do que uma... Era preciso comunicar ao professor suas recentes descobertas.

Quando entrou foi otimamente recebido. Nenhum dos dois tocou no motivo pelo qual ele havia abandonado os estudos tão repentinamente. O Professor era uma pessoa discreta e não entrava facilmente em assuntos pessoais. Inicialmente discutiram superficialmente sobre o que cada um fez durante o período. Iago disse que visitara os seus pais e passara algum tempo em sua fazenda descansando a mente. Apos este prelúdio inicial, Iago disse:

- Professor, o motivo que me trouxe de volta a Bortuca é o nosso velho problema sobre o livro de Maxwell.

- Oh, e mesmo. Achei que tivesse voltado por causa de seus estudos? – disse o Professor em tom zombeteiro.

- Isso também – respondeu Iago sorridente – Mas continuando… Eu estava descansado na fazendo quando resolvi dar uma olhada nas nossas anotações. Pensei em tentar reproduzir o experimento da página 17, mesmo sem saber ao certo como fazê-lo. Comecei a pensar em tudo o que conhecia e que tivesse características semelhantes às descritas ali. Até que repentinamente veio a minha mente que talvez pudesse haver alguma relação com os materiais atritados do tipo A e B. Decidi estudar mais aprofundadamente...

E assim Iago continuou explicando todo o processo que havia feito. À medida que suas idéias foram sendo expostas as feições do Sr. Mackenzie se deformaram de tal maneira que Iago receou pelo professor. “É incrível como isso sempre esteve na minha cara e, no entanto nunca enxerguei” – assim pensava ele. Estava entusiasmado com o que ouvia. Sabia, como experiente pesquisador que era, que tudo não passava de mera especulação. No entanto, para ele as pecas do quebra-cabeça pareciam se encaixar claramente.

A verdade é que, diante das constantes modificações pelas quais os Advlenses sempre estavam passando, os fenômenos eletrostáticos nunca tiveram significativa atenção. A tecnologia crescia a passos largos no planeta o que acabava exigindo um enorme esforço de todos os estudiosos. A busca das leis básicas que regiam o universo tinha muito pouca importância dentro deste contexto. A tecnologia vinha em primeiro lugar. O próprio artigo no qual Iago ficou sabendo sobre as forças atrativas e repulsivas quase não chegou a chamar a atenção do meio científico até porque, por coincidência, a descoberta de um novo combustível vegetal mais eficiente ocorreu praticamente no mesmo momento. Em Advla o fator tecnologia era realmente muito acentuado, já que era mais fácil aprender sobre a natureza usando os equipamentos deixados pelos antigos do que estudando experiências puras da natureza.

Outro fator que legou esses fenômenos ao esquecimento foram as fontes de produção de cargas; muito rudimentares e todas unicamente à base de fricção. Infelizmente as fontes usadas pelos antigos não ajudaram muito os advlenses nesse ponto. Principalmente devido ao fato de que sua utilização não era algo trivial. Exigia um mínimo de conhecimento para saber o que fazer e o que esperar como resultado.

Mas agora a situação era diferente, a descoberta da relação entre esses fenômenos e a energia dos antigos poderia desencadear uma verdadeira corrida ao ouro. Após alguns segundos o Professor Mackenzie recuperou novamente as suas faculdades mentais e disse:

- Iago! Você é um gênio, meu jovem. Um verdadeiro gênio. Temos que preparar um artigo imediatamente. Para mim a relação está clara, no entanto ainda precisamos refinar um pouco mais as suas descobertas. Para eliminar toda e qualquer dúvida que ainda possa existir. Se quisermos causar um maior impacto podemos ainda chamar o Prof. Morris para participar conosco da publicação. Na sua explanação tudo se encaixa perfeitamente, mas apesar disso devemos estar preparados para as mais severas críticas. Por isso um nome como o de Morris poderia facilitar muito a aceitação de todas essas novas idéias. As pessoas têm muita aversão ao novo e revolucionário e você sabe disso. Em nossa História não é difícil encontrar os mais diversos exemplos que comprovam este fato. Um nome de peso poderia facilitar as coisas e abrir caminhos. Alem disso acredito que alguém de mente aberta como o Prof. Morris não teria dificuldades de perceber que você conseguiu desvendar a direção correta que devemos continuar seguindo. Não seria difícil convencê-lo a entrar conosco nesta empreitada. O que pensa do assunto?

- Isso seria excelente, trabalhar com o Prof. Morris para mim seria uma grande honra. Mas peço-lhe que trate o assunto com a maior discrição possível. Digo até que seria conveniente que o Professor Morris não comentasse nem mesmo com as pessoas mais próximas. Temos que, no momento, restringir ao máximo a circulação desta informação. Quanto menos pessoas souberem melhor, ou seja, somente nós três. Depois que tivermos algo estabelecido mais solidamente poderemos ser menos cuidadosos, mas agora acho melhor nos fortalecermos primeiramente.

Assim então combinaram. No dia seguinte deram a notícia ao Dr. Morris. Este por sua fez teve uma reação não tão espantosa quanto à do seu colega. Estava bestificado com o que aquilo poderia significar à sociedade se as suposições fossem confirmadas. No entanto permaneceu um pouco cético. O professor Morris era o tipo de pessoa que só se convencia depois que ele pessoalmente tivesse estudado o caso. Teria que gastar algum tempo sozinho pensando sobre o assunto.

A primeira coisa a se fazer seria juntar o maior grau de informações possíveis sobre o assunto e tentar estabelecer a mais próxima analogia possível com o livro. Iago já havia feito bastante, mas eles teriam que esgotar o assunto completamente, pelo menos no que referia a teoria básica. Enquanto estudavam descobriram outras características interessantes relacionadas aos fenômenos da eletricidade. Certa professora de Filosofia de uma pequena Universidade estudou a fundo esses problemas e desenvolveu uma teoria para explicar os processos de atração e repulsão. Ela começou definindo a existência de um certo fluido natural a toda matéria. Este poderia ser transferido, entretanto, de um corpo para o outro através de movimentos de fricção. Os materiais fracos teriam a tendência de perder este fluido quando atritados e os materiais fortes o absorveriam. A falta ou excesso desse estabelecia o tipo do material. A mesma professora em outro artigo discursou sobre a fluidez desse éter.

Usando seus princípios ela determinou que um material depois de atritado com outro poderia se tornar do tipo A, no entanto, se aquele for atritado com um terceiro, que seja mais fraco, poderia passar a ser do tipo B. O tipo do material não era algo intrínseco a este, mas algo resultante da experiência. Realizando alguns experimentos ela conseguiu demonstrar com sucesso a sua suposição. Em seus experimentos ela demonstrou também que existem determinados materiais que tem a capacidade de conduzir esses fluídos.

Além do que Iago ja havia feito isso foi tudo o que encontraram sobre o assunto. As informações eram, na verdade, escassas. A maioria proveniente de um passado distante, de um tempo quando os modernos modelos de pesquisa e investigação não eram ainda aplicados.

Através dessas informações eles escreveram então o artigo. Acrescentando também alguns trechos do livro para efeito de comparação. Ao final reuniram todo o restante do conhecimento que obtiveram numa forma de conclusão. Após todo esse esforço e com a ajuda dos conhecimentos lingüísticos do Prof. Mackenzie e das idéias de Morris o texto final ficou uma verdadeira obra-prima. Quando viu o artigo finalizado Iago ficou entusiasmado com o tanto que haviam conseguido desenvolver desde de sua primeira idéia que ainda não estava totalmente desenvolvida e explorada. Era interessante para ele poder também observar o seu primeiro artigo. O mais curioso era ver o seu nome no meio daqueles outros de tão grande peso. Ele sentia-se feliz por ter podido participar daquilo.

Com todos os argumentos colocados claramente no papel, a sua suposição inicialmente frágil agora tomava corpo e se solidificava. Estavam preparados para apresentar a idéia à comunidade cientifica. Estavam também preparados para defendê-la. Os argumentos eram claros e, apesar de não formarem uma prova definitiva, tornavam a suposição extremamente forte e bem sustentada.

Por esses motivos os estudiosos não esperavam muitos confrontos por parte dos colegas. Imaginavam que alguns teriam, como sempre haveria de acontecer. Mas a aceitação parecia natural diante dos fatos, pelo menos para eles. Depois de tanto estudarem o assunto, estava claro em suas mentes que a verdade estava ali e que não haveria muito espaço para contestações.

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Capítulo XI - A Lei de Coulomb

Quando o artigo foi lançado, a primeira reação da comunidade científica foi de desconfiança total, deixando os autores estupefatos. Não esperavam nunca tal aversão as suas idéias. O envolvimento do Prof. Morris em nada ajudou. As críticas foram severas mesmo que grande parte do artigo fosse condizente com o livro. A questão era que a base permanecia mal estruturada. Muitos foram os buracos revelados pelos colegas da comunidade. O estudo não passava ainda de uma suposição.

A grande contribuição da publicação, entretanto, foi alertar os pesquisadores sobre algo ainda impensado – aqueles fenômenos simples de atração e repulsão podiam esconder a grande força dos antigos.

Ao mesmo tempo em que algo traz pesadas críticas e grandes combatentes, traz também grandes defensores. Formara-se desde então duas linhas de pensamento. Ambas tentando demonstrar os pontos de suas teorias.

Nesse ínterim outro Septólogo que se interessou pelo assunto resolveu deixar de lado aquelas discussões e pesquisar a fundo os fenômenos descritos. Desenvolvendo ao final de um meticuloso trabalho uma lei que quantificava a força de interação entre essas estruturas. O artigo teve grande repercussão e incentivou mais estudos na área. As idéias de Iago ganharam mais força do que nunca e essa lei ficou conhecida como a Lei de Coulomb, mesmo nome pela qual era denominada no livro de Maxwell.

Iago ficou maravilhado com todo aquele movimento que ele desencadeara. Sua fama logo se espalhou por toda a Universidade. Foi decretado então uma reunião especial à elevação de Iago ao status de Septólogo. No entanto numa conversa sua com o Prof. Mackenzie ele disse:

- Ainda não estou totalmente contente com os resultados por nós obtidos. Até agora não temos a menor idéia da relação que tais fenômenos possam ter com a Energia. Receio que estamos esquecendo o objetivo principal de toda essa pesquisa.

- Tenha calma Iago – redargüiu o Prof. Mackenzie. Acredito que demos um importante passo para a solução do problema, mas muitos outros ainda faltam para que tudo seja esclarecido.

Essas palavras, porém, pouco aliviaram a angústia que consumia o jovem pesquisador.

- Já pensei em todas as formas possíveis de se tentar aproveitar essas forças para alguma finalidade e nada consegui desenvolver.

Quando a Lei de Coulomb foi publicada logo ficou patente para todos a sua grande semelhança com a lei da gravidade desenvolvida por Wisan. Naquele mesmo ano o descobridor desta foi homenageado com o prêmio “Amigos de Wisan” – o mesmo que antes havia sido concedido ao Prof. Morris. O nome do pesquisador era Kamnan. Iago conheceu-o no dia do recebimento do prêmio e ali já se percebeu a grande afinidade que existia entre ambos. Desde então se estabeleceu uma freqüente correspondência onde eles trocaram muitas idéias e auxiliarem-se mutuamente em suas pesquisas. Kamnan dedicou seu prêmio a Iago: “a pessoa que tornou possível toda esta descoberta” como ele declarou em seu discurso.

Iago continuava seus estudos na área com total concentração. Estava desenvolvendo o que denominaríamos aqui de Doutorado. Apesar de estar feliz com seu trabalho começou a se sentir muito isolado. Decidiu então ver Kamnan na cidade de Douala.

A viagem foi feita de trem. Iago sempre gostara de trens. Não sabia bem porque, mas sempre pensava com mais clareza quando estava nestas máquinas de aço. O som constante e repetido dos vagões passando pelos trilhos acalmava os seus nervos e esvaziavam sua mente.

Iago percebia agora quão solitária sua vida se tornou nos últimos meses. Não tinha mais amigos entre de sua idade e permanecia todo o tempo enclausurado em seus estudos.

À noite durante a viagem e ele lia o artigo que Kamnan havia publicado mais uma vez. Gostaria de ter tido esta idéia também, no entanto seu forte nunca foram os números. Era mais voltado para a prática e a experimentação unicamente qualitativa dos fenômenos.

Chegou a Douala ao amanhecer e já avistou Kamnan que o aguardava na estação. Dali seguiram primeiramente para os laboratórios onde se realizou o grande experimento que culminou na descoberta da lei. Inicialmente Iago espantou-se com a simplicidade do local; bem diferente de Bortuca onde recursos jorravam com abundância.

Kamnan estava terminando seu Doutorado. Sua pesquisa era voltada para a área da Energia Septal. Depois da publicação de Iago e de sua teoria seus estudos ganharam novos rumos. Agora estava tendo enorme trabalho para reestruturar sua tese para a nova direção que seus estudos tomaram.

No laboratório Iago conheceu outros colegas de seu recente amigo. Todos estavam entusiasmados e orgulhosos com os resultados ali obtidos. Exultavam Kamnan como um grande gênio, do mesmo porte de Wisan.

Em seguida caminharam pela cidade, passando pela praça, colégio e pelo parque. Durante este tempo conversaram sobre assuntos diversos pouco se atendo a qualquer dos tópicos discutidos.

Após boa noite de sono, na qual Iago pode recuperar-se do cansaço da viagem, ele foi novamente ao laboratório. Lá encontrou seu companheiro concentrado em diversos papéis. Parecia-lhe inclusive que ali mesmo ele passara toda noite. Até porque trajava as mesmas roupas do dia anterior. Quando se aproximou percebeu em cima da bancada o seu artigo cercado lateralmente de anotações. Um grande círculo destacava uma transcrição do livro de Maxwell onde se discutia a Lei de Coulomb. Percebendo a presença do amigo Kamnan disse:

- Já percebeu qual deve ser o próximo passo para desvendarmos este livro?

Iago permaneceu calado... Estupefato com a inesperada pergunta logo no principio da manhã. Após o susto inicial começou a pensar: “Como assim próximo passo? Talvez tentar desvendar os próximos experimentos?”. Sem esperar pela resposta Kamnan continuou:

- Agora pela primeira vez podemos comparar os símbolos matemáticos dos antigos com os nossos.

Realmente! Agora Iago percebia nas anotações da mesa que era isso que este louco tentava fazer. Agora ele via com clareza a genialidade e obstinação daquele homem. Notara também a sua própria apatia quando comparada com aquela ebulição de novas idéias. Após a publicação do seu artigo Iago se acomodara e apesar de estar trabalhando muito estava realizando um trabalho mais mecânico. Ele havia parado de questionar efusivamente tudo quanto lhe apresentavam. Não mais investigava os porquês, nem instigava sua imaginação. Estava perdendo espaço para outros que como Kamnan buscavam a glória da verdadeira descoberta. Repentinamente o pensamento de Iago foi interrompido:

- Confesso-lhe até que consegui estabelecer as relações entre a soma, multiplicação e divisão. Estas descobertas estarão descritas em meu próximo artigo.

No entanto ao final foi outro pesquisador quem acabou publicando os mesmo resultados de Kamnan antes que este tivesse chance de fazê-lo. O fato era que uma grande corrida pelo conhecimento da Energia Septal havia começado e a competição era tremenda.

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Capítulo XII - As Esferas Metálicas

Iago, ao voltar de sua viagem, havia acordado de um sono breve, mas profundo. Algo que o envolvera nestes últimos dias com Kamnan o acordara novamente.

Incrível foi o grande avanço realizado no rumo da eletrostática nesse pequeno período de alguns meses. Enorme foi o número de artigos e tratados publicados abordando o assunto. As novas idéias foram rapidamente incorporadas às disciplinas relacionadas ao assunto nas Universidades. Alguns pesquisadores acompanhando o raciocínio de Iago no primeiro artigo tentaram solucionar o segundo experimento do livro de Maxwell. Entretanto todas as tentativas neste sentido fracassaram até então.

Um dia pensando sobre os mistérios que envolviam este segundo experimento Iago seguiu despretensiosamente pela Universidade de Bortuca. Quando estava próximo da Faculdade de Literatura reconheceu Nemis. Estava linda como sempre. Assim que a viu Iago soube que ainda estava apaixonado por ela. Não conseguia explicar aquela situação. Ao mesmo tempo em que a detestava por tudo quanto lhe causou, sentia uma profunda atração.

Quando ela o viu aproximou-se e o cumprimentou. Parabenizando-o também pelo sucesso de seu artigo. Iago gostaria simplesmente de ignorá-la, mas foi fraco e agiu com ela como se nada tivesse ocorrido. Naquele momento eram iguais a bons e velhos amigos. Depois Iago arrependeu-se de ter levado a situação daquela forma. Ele ainda estava enfeitiçado por aquela bruxa e pensava que nunca se libertaria. Sua maldição teria de carregar para sempre. Estava decidido a nunca mias envolver-se novamente.

E foi isso que Iago fez. Nos anos seguintes dedicou-se profundamente à pesquisa. Terminou o seu Doutorado com uma tese regular e sem destaque que se baseava primordialmente no livro de Maxwell, mas sem grandes descobertas. Ao final conseguiu um cargo dentro da própria Universidade como Professor Auxiliar. Ganhava pouco, mas pelo menos podia desenvolver tranqüilamente seus experimentos.

Iago percebia que seria muito difícil no momento obter novas informações no livro. Por isso começou a dedicar-se a experimentos independentes. Desprendendo-se totalmente dos antigos escritos. Começou a relacionar-se com outro grupo de pesquisadores. Numa conferência ficou conhecendo o Prof. Saltzmann. O trabalho deste muito interessou Iago que começou a aproximar-se do novo colega.

O Prof. Saltzmann era um homem muito alto e magro. De olhos castanhos, tinha o cabelo meio crespo e sempre bem cortado. Nunca largava o seu cachimbo e tinha dois filhos que às vezes o ajudavam nos experimentos. Era um homem extremamente meticuloso e frio. Realizava seus cálculos utilizando-se da mais rígida matemática e gostava de manter tudo sobre seu total controle. Trabalhava como professor titular na pequena Escola Técnica de Bortuca.

Certo dia Iago foi fazer-lhe uma visita para conhecer o trabalho do professor. O Sr. Saltzmann ganhou uma pequena fortuna do falecido tio e com isso montou um excelente laboratório em sua própria residência. Iago encantou-se com o estabelecimento assim que chegou. Aquilo seria o sonho de todo pesquisador de Bortuca. Um laboratório sobre encomenda e sem a constante preocupação em sempre justificar os gastos.

No entanto o que mais interessou a Iago era a pesquisa que o professor estava desenvolvendo. Tanto que ofereceu-se prontamente como um ajudante sem exigir qualquer remuneração.

Prof. Saltzmann estava realizando experimentos com diversas esferas metálicas, ocas e concêntricas. Estudava basicamente os efeitos denominados de indução de cargas. Os trabalhos, porém estavam apenas começando.

A partir deste instante a rotina de Iago se dividia entre as aulas e os dias que passava no laboratório. A princípio o trabalho parecia cheio de entusiasmo, mas com o passar do tempo aquela contínua rotina de medições começara a tornar-se cansativa. Saltzmann, entretanto parecia impassível diante das repetitivas tarefas. Seu objetivo principal consistia na catalogação de características específicas de diversos materiais. Procurava encontrar e medir uma nova constante elétrica intrínseca a cada material.

Foi num desses dias, enquanto saía da Universidade para o laboratório que se encontrou com o Prof. Morris. Durante a conversação o Prof. convidou-o dizendo:

- Estou indo amanhã para Trinado. Vamos em uma expedição de professores visitar a central de fornecimento de energia dos antigos. O que você acha de nos acompanhar?

- Seria um prazer Sr. Morris – replicou Iago. Há tempos que estou querendo visitar esta construção. Esta será uma ótima oportunidade. Gostaria, também, de convidar o Prof. Saltzmann, caso não haja problemas.

- Quanto mais melhor, Iago. Até porque poucas são as pessoas cadastradas. Acredito que a busca da energia está novamente saindo do interesse da maioria. Muitos estudiosos acreditam que ainda serão necessários muitos anos para novos avanços.

Na mesma noite Iago convidou seu colega Saltzmann que recusou polidamente o convite dizendo que pretendia realizar no próximo dia ainda algumas importantes medições.

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Capítulo XIII - Passeio em Trinado

No dia seguinte aprontou-se pela manhã partindo cedo para o local de encontro. A viagem seria por navio, que já encontrava-se a espera no porto.

Iago estava ansioso porque há muito tempo que não voltava à cidade de Trinado e nunca mais esqueceu daqueles poucos dias em que esteve lá com o Prof. Morris e Gustav.

Assim que chegou ao navio encontrou Morris e Gustav. Gustav agora era também Professor Auxiliar da Universidade de Bortuca. A amizade entre os dois ficou perdida no passado, mas ao menos não existia nenhum rancor entre eles. Simplesmente perderam os pontos em comum que tinham no passado assim que um decidiu-se pelos estudos astronômicos enquanto o outro enveredou pela área da energia Septal.

Pouco depois a viagem começou. O navio era uma embarcação especialmente projetada para estes tipos de excursões. Era nele que os alunos também viajavam para conhecer a mais famosa ilha do mundo. Logo à entrada havia um grande salão com várias mesas onde vários professores já estavam sentados. Ao redor existiam salas privadas de leitura e discussão. Os corredores levavam às cabines que nesta curta viagem se faziam desnecessárias. No convés também havia mais algumas mesas para quem preferisse permanecer ao ar livre.

Os três professores seguiram para uma das mesas no grande salão onde se acomodaram. A conversa logo seguiu para o assunto padrão discutido por todos os Septólogos – conversaram sobre teorias e os últimos eventos da comunidade científica. Repentinamente Iago reconheceu o Prof. Mackenzie em uma das mesas. Realmente havia se esquecido de convidar o seu antigo orientador. Aproveitou a oportunidade para ir cumprimentá-lo.

Na mesa do professor havia mais outras duas pessoas que Iago não conhecia. Quando Iago cumprimentou-o, o professor em seguida o apresentou aos seus companheiros: o Sr. Luís e a Senhorita Annya. Iago sentou-se à mesa depois de ter sido convidada pelos novos colegas. Morris e Gustav já estavam com novas companhias e por isso não viu problema em conversar um pouco. O Professor Mackenzie então disse:

- Esse garoto à frente de vocês é quem foi o grande precursor da corrida pela descoberta da Energia Septal. Acredito inclusive que ele foi merecedor do prêmio “Amigos de Wisan”.

- Não exagere, professor – respondeu Iago.

- Não acredito que o Professor Mackenzie tenha exagerado em nenhum momento - disse Annya. Ele sempre fala muito bem do trabalho que você realizou.

Annya era professora de Literatura da Escola Técnica de Bortuca. Fora convidada por Mackenzie para conhecer a Cidade Experimental que nunca antes visitara. Ela era uma mulher baixa, com grandes olhos verdes, cabelos bem negros e suavemente encaracolados.

- Cara professora, não acredite em tudo que este homem diz. Graças a ele e ao Sr. Morris que nosso artigo ganhou a sólida consistência necessária para ser apresentado à comunidade científica. Isso tenho certeza que ele não fala.

Neste momento Iago observava Annya mais atenciosamente. Percebera nela algo que lembrava-lhe Nemis, mas que mesmo assim era totalmente diferente. Durante a conversação viu que se tratava de uma mulher inteligente e com pontos de vista bem estabelecidos.

No decorrer da viagem discutiram muito sobre a energia dos antigos e sobre o que esperavam encontrar na Central de Energia. Em determinado momento foi servido um almoço aos pesquisadores. Assim se ganharia tempo para a visita dos estabelecimentos. Como o Professor Luís já visitara a Central anteriormente e era um dos organizadores da expedição, adiantava alguns detalhes.

Após uma viagem de aproximadamente quatro horas desembarcaram no porto de Trinado. Dois grandes carromóveis esperavam o grupo para levá-los ao destino. Assim como o observatório, a Central era localizada em um ponto distante da cidade. Por isso os visitantes tiveram a oportunidade de cruzar Trinado de um ponto a outro. Da mesma forma que na primeira vez, Iago maravilhava-se com aquelas construções.

Finalmente chegaram a Central Energética. Esta era constituída de um grande complexo de prédios. A construção central era o coração de toda a estrutura. Aos visitantes foram distribuídos folhetos com uma visão geral da usina. A primeira parte da visita foi apenas uma explanação teórica-expeculativa do processo ali desenvolvido. Os cientistas, no entanto, estavam completamente perdidos com relação a tudo aquilo. Já que qualquer assunto relacionado com a fusão nuclear ou geração elétrica lhes era completamente desconhecido.

Numa segunda etapa os visitantes andaram pelas construções. Durante esta Iago ficou próximo de sua mais nova companheira, Annya. Nunca vira antes mulher como aquela, pensava ele. Na verdade, a fibra e vontade dela lembravam-lhe um pouco a própria mãe.

No percurso os estudiosos passaram então por uma grande sala onde se encontravam gigantescas turbinas. Conectadas a elas estavam os geradores que constituíam total mistério aos advlenses. O contato direto com tais equipamentos provocou um arrepio na espinha de Iago. Mais uma vez aquilo aguçava a sua curiosidade. Entretanto desta vez estava dividido entre as grandiosidades de tais equipamentos e a da mulher a seu lado. Ele notava que ela também se sentia emocionada diante daquelas estruturas e que prestava enorme atenção a tudo o que o guia dizia. De soslaio ele então aproveitou para apreciar demoradamente as curvas de sua colega. Surpreendeu-se então com o fato de mais uma vez sentir-se sinceramente atraído por uma mulher. De uma maneira diferente do que lhe aconteceu com Nemis, o sentimento que sentia não era tão agressivo e destruidor quanto anteriormente. Outra diferença era que este agora se dividia tanto entre a atração física quanto mental. De tempos em tempos Annya olhava-o com aqueles olhos verdes com que lhe perguntando o que estava achando de toda a viagem. Iago apenas respondia-lhe com um sorriso.

Ao fim da tarde a excursão foi finalizada com um rápido lanche. Voltaram novamente ao porto de onde zarparam imediatamente para Bortuca. Na volta havia uma pequena recepção no navio em que todos discutiam animadamente sobre os detalhes do passeio.

Iago mantinha-se durante todo o tempo ao lado de Annya. Certo momento saíram para andar pelo convés da embarcação. A noite era de lua cheia, o que apresentava uma linda visão do oceano. Uma brisa fresca trazia de longe o cheiro salgado daquelas águas. Ambos conversavam sobre aquela imensidão e a impactante força que aquela visão causava. Repentinamente permaneceram alguns instantes em silêncio. Os dois então ficaram ali parados durante aqueles segundos que pareceram eternos. Perceberam ali, abraçados pelo som do mar, que estavam completamente isolados do grupo. Annya já com as bochechas rosadas disse:

- Acho melhor voltarmos agora. Estou sentindo um pouco de frio aqui fora.

- Sim, claro! - respondeu Iago um pouco desapontado.

Ao voltarem para o salão foram de encontro ao Prof. Mackenzie com quem permaneceram até o fim da viagem.

****

No dia seguinte Iago seguiu sua rotina normalmente, mas durante todo o tempo não parou de pensar em Annya. Gostaria de vê-la novamente. Entretanto no dia anterior despediram-se de maneira apressada e superficial, por isso agora não sabia como faria para encontrá-la. Achou melhor esquecer um pouco o assunto e seguiu para o laboratório do Prof. Saltzmann como rotineiramente fazia.

Chegando lá o viu o professor trabalhando na sua incansável tarefa de medição com as esferas. Desta vez procurava preencher os espaços vazios entre as esferas com água. Tarefa um tanto quanto complicada porque o líquido teimava em vazar por entre as frestas do imperfeito sistema. Iago ajudou o professor de todas as formas, mas a única coisa que conseguiu foi voltar todo molhado em casa. Amanhã tentariam novamente, mas desta vez planejaram melhor o experimento. O professor trabalharia primeiro em algumas adaptações antes de continuarem.

A noite estava fria e para as coisas melhorarem Iago acabara pegando uma forte gripe. Estava cansado daqueles experimentos amalucados do professor Saltzmann. Em breve pretendia discutir em mais detalhes com ele quais os objetivos pretendia alcançar com esses experimentos, pois até então Iago estava mais preso ao trabalho puramente braçal e alheio aos detalhes científicos da questão.

Por causa da gripe permaneceu sem sair de casa durante todo o dia podendo voltar ao laboratório somente no dia seguinte. Quando chegou o professor não se encontrava. Fora Escola Técnica pegar alguns utensílios que não possuía em seu laboratório particular; era costume dele fazer isso sem nem ao menos consultar os outros colegas da Escola. Ele sentia como se aquilo fosse, na verdade, uma extensão de sua própria casa.

Iago, que não conseguia mais esperar resolveu seguir de encontro ao professor. Quando chegou, no entanto percebeu que não sabia bem por onde começar por procurá-lo. Ele conhecia parcamente aqueles grandes corredores com grande número de salas e laboratórios. Resolveu pedir informações para a primeira pessoa que encontrasse. Os corredores estavam desertos já que o período de aulas havia terminado. Viu, então, dentro de uma das salas uma mulher sozinha. Aproximando-se para perguntar reconheceu Annya. Esta feliz coincidência aproximou novamente os dois que relutavam em se procurar apesar de mutuamente desejarem. Iago que começou declarando que procurava pelo professor Saltzmann esqueceu-se dele pouco depois que começaram a conversar. Annya que sabia onde se localizava a sala dele acompanhava Iago na tentativa de encontrarem quem, na verdade, não queriam encontrar.

- Infelizmente não pudemos nos despedir mais demoradamente depois da excursão – disse Iago. Eu gostaria de ter pedido pelo seu endereço para quem sabe combinarmos um dia de conversar mais a respeito da Energia Septal.

- Claro! Seria excelente podermos sentar juntos novamente para conversarmos – replicou Annya um pouco sem jeito com o estranho convite.

Conversar sobre Energia Septal? É verdade que ela havia ido em visita à Central de Energia, mas também não era tanto assim o seu interesse pelo assunto. No final achou até engraçado. Resolveu então marcar logo uma hora para se encontrarem no dia seguinte antes que encontrassem o professor e tudo fosse novamente por água abaixo. Uma coincidência como esta não acontece sempre.

Quando chegaram à sala do Professor Saltzmann, ele havia finalmente conseguido o que queria, achara uma espécie de massa que usaria na vedação das esferas.

Como já estava tarde Iago e o professor acharam melhor continuar este experimento apenas no dia seguinte. Desta vez estariam mais preparados para a tarefa. Chegada à hora os pesquisadores se viram novamente à volta com montes de água e completamente encharcados, mas ao menos desta vez conseguiram montar todo o conjunto e vedaram as frestas o mais rápido possível fazendo com que a estrutura perdesse o mínimo de água. O professor Saltzmann ainda completou o pouco que havia faltado acrescentando a água pela parte superior das esferas, o que demorou tempo considerável já que o pequeno orifício permitia que apenas pequena quantidade entrasse dentro da estrutura. Era incrível, para o líquido sair era realmente fácil, mas para entrar as frestas pareciam diminuir. Quando finalmente foram medir a carga induzida na esfera externa tiveram enorme surpresa. Nada! Não havia nenhuma carga induzida na esfera. A princípio acharam o fenômeno fantástico, havia algo de novo naqueles resultados. No entanto quando desmontaram a estrutura perceberam que a esfera interna também estava descarregada. Assim o professor Saltzmann descobriu que a água é um meio condutor de cargas elétricas, não sabia ele, porém que o efeito só era observado em águas que estavam misturadas com sal.

Depois de publicado, o artigo ganhou pouca repercussão dentro da comunidade, mas muitos dos colegas parabenizaram o professor pela interessante descoberta. O nome de Iago também foi citado como co-autor e este ficou muito gratificado com a honraria. Há algum tempo ele não publicava nada nas revistas científicas.

No dia seguinte Iago seguiu para o encontro com a Annya, tendo avisado o professor de que não apareceria naquela noite. O local acertado ficou sendo um pequeno restaurante situado no centro da cidade, ambiente agradável e discreto. Iago chegou cedo e ocupou uma das mesas enquanto esperava sua convidada, ou será que foi ela quem o convidou? Ao fundo escutava-se uma música agradável tocada por um músico que se situava a um canto do bar. A mesa de Iago localizava-se no outro canto à esquerda do mesmo. Pouco depois Annya chegou. Arrumada como estava aparecia ainda mais bonita do que das outras vezes que a havia visto. Seu perfume também era agradável e combinava bem com sua pessoa.

Naquela noite conversaram sobre muitas coisas agradáveis. Iago não deixou de citar sobre a Energia Septal e Annya num dos seus impulsos de sinceridade lhe confidenciou o quão interessante havia achado aquele estranho convite.

- Nunca ninguém antes havia me convidado para conversar sobre Energia Septal ou assunto semelhante. Disse ela entre risos carinhosos.

Iago ficara um pouco sem jeito diante da situação, mas ao final acabou também achando graça. Gostava da presença de Annya, gostava quando conversavam e da espontaneidade da moça.

Pediram um vinho e para acompanhar uma pequena porção de queijos. Aquela noite foi muito agradável e por isso resolveram marcar um novo encontro para o fim de semana.

Após esse pequeno período de contato Iago já se encontrava completamente apaixonado por Annya. Não conseguia parar de pensar nela. Ele que antes acreditava que nunca iria se ver livre do maléfico amor de Nemis não conseguia agora compreender como tinha tido tanta atração por aquela mulher. Enxergava o quão tolo havia sido. A paixão cega o homem de toda a racionalidade e impinge-lhe um regime de escravidão mental. Agora que a penumbra tinha passado enxergava com maior claridade, o que, aliás, não impediria que pudesse vir a cometer as mesmas atitudes tolas diante de Annya.

Apesar de todo esse movimento emocional a cabeça de Iago também andava concentrada no trabalho que estava desenvolvendo, se dividindo assim entre duas diferentes preocupações. No outro dia voltou ao laboratório do Professor Saltzmann, este andava animado com os últimos resultados. Ficou-se então decidido que parariam um pouco com o experimento principal para investigar o que havia acontecido no dia anterior. Iago, inclusive, gostou muito destes dias onde pode se dedicar mais à investigação pura ao invés daqueles experimentos repetitivos e maçantes. Aproveito para se inteirar mais sobre o objetivo que o professor pretendia com o projeto que estavam realizando.

O artigo foi desenvolvido em pouco tempo e assim ficou-se determinado que a água também conduzia as cargas elétricas. Futuramente os pesquisadores se desapontariam um pouco com a falta de cautela com que levaram o assunto, pois descobriu-se que, na verdade, a água pura era um bom isolante e só conduzia quando misturada a outros sais.

Depois de publicado os pesquisadores voltaram a se concentrar no objetivo principal. O professor Saltzmann parecia inabalado com a pouca repercussão alcançada pelo artigo anterior e levava seu projeto com a mesma obstinação de sempre. Iago ficara admirado com aquela atitude, quisera ele também poder ser tão alheio à opinião dos seus colegas. A situação acabou por animá-lo e os dois seguiram a mesma linha de desenvolvimento de antes com afinco e persistência. Os novos experimentos geraram muitos números que foram sendo arquivados em diversas tabelas.

Com o decorrer do tempo várias novas idéias também foram surgindo e que levaram a alguns variações no experimento inicial. Uma das primeiras coisas que observaram é que se poderia diminuir em muito o tamanho das esferas o que significava maior facilidade no manuseio e menores custos.

Analisando os dados que obtinham os pesquisadores notaram já desde de cedo que independentemente do meio dielétrico colocado a carga induzida na esfera exterior tinha sempre o mesmo valor da carga da esfera interna. A princípio o resultado era pouco satisfatório ainda mais para Iago que não conseguia entender como sua busca à energia dos antigos o havia levado até ali. Naqueles últimos dias não estava tão interessado nos resultados que obtinham e sim pensava em Annya.

Desde algum tempo começaram a sair juntos com freqüência e Iago pode então saber o significado de um relacionamento com um sentimento bem correspondido. Os dois estabeleceram pontos afins em várias características, diferindo, entretanto, em outras que não causavam mal estar algum e, ao invés disso, se complementavam.

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Capítulo XIV - Annya

A tia Ivety de Iago conhecera Annya num dia em que o rapaz a levara em casa para um lanche. Logo a princípio ela gostou muito da acompanhante. Sentiu que ela fazia bem ao seu sobrinho e isso bastava para que a apreciasse. Desde esse dia vários outros encontros foram marcados, sempre nas refeições o que permitia Annya ajudar no preparo das iguarias demonstrando grande talento. Às vezes trazia de casa mesmo alguma sobremesa já preparada. Iago estava gostando muito daquela vida de mordomias e atenções a que nunca tivera direito anteriormente.

Certo dia foi convocado para sua promoção de Professor Auxiliar para Professor Efetivo, com isso seu salário subiria consideravelmente assim como também aconteceria com suas obrigações. As visitas ao laboratório do professor Saltzmann tiveram que ser reduzidas, perdendo espaço para aulas e para os encontros com Annya.

Apesar disso a paixão pela busca continuava acesa dentro do coração de Iago. A maioria das pessoas se deixaria seduzir por aqueles momentos de estabilidade e paz. No entanto Iago parecia não deixar levar-se totalmente, durante os fins de semana dedicava-se avidamente à pesquisa com o professor Saltzmann, sentia que ainda deveria fazer algo na vida e que seu objetivo final não havia sido alcançado.

Começou então em casa a desenvolver uma teoria que explicasse matematicamente o que estavam observando nos experimentos. Havia aprendido no passado a não deixar que outros, como Kamnan, ganhassem os créditos posteriormente com a apresentação de cálculos precisos. Descobriu logo que para o desenvolvimento de sua teoria teria que desenvolver novos conceitos e abstrações. Aos poucos introduziu o professor Saltzmann àquelas idéias. Este por sua vez sem perceber começou a encarar tudo aquilo como fruto apenas de seu trabalho, tendo Iago sempre como um auxiliar. O jovem não se importou com a condição e ficou até feliz que o professor se sentisse dono dos créditos, pois desta forma era-lhe mais fácil impingir as novas teorias que não eram tão triviais e evidentes como estavam sendo colocadas.

Uma coisa, sim, mudara nesses últimos tempos. Iago já não tinha aquela precipitação juvenil de se atirar com tudo na primeira brecha que os experimentos pareciam mostrar para a imaginação. Ou seja, ele tornou-se mais séptico e desconfiado de todo e qualquer resultado. Seu relacionamento com Annya foi uma das coisas que o ajudaram neste ponto. Sua situação confortável, emocional e financeiramente, já não demandava obrigatoriamente que grandes feitos fossem realizados; estava satisfeito com a atual vida que levava. Esta estabilidade gerava confiança e frieza durante a análise dos resultados experimentais.

Certo dia Iago foi convidado para ir a um almoço na casa de Annya, conheceria finalmente os pais dela. De certa forma o convidado achava-se nervoso e toda aquela pseudo-estabilidade parecia não conseguir ajudá-lo naquele momento. A mãe já era conhecida do jovem. Encontraram-se umas duas vezes na Escola Técnica, pois filha e mãe eram colegas de trabalho, ambas professoras da área de letras. Nesses rápidos encontros Iago se deu tão bem tanto com a filha quanto com a mãe. Esta parecia aprovar o relacionamento.

No entanto agora seria diferente. Iago iria conhecer os homens da casa: o pai e o irmão. Quando aceitou o convite tudo parecia tranqüilo, mas agora que a hora estava próxima a situação era diferente.

Ao chegar na frente da porta tocou o sino já desejando nunca ter tido aquela idéia maluca de aceitar a esse convite. Conheciam-se há tão pouco tempo afinal de contas, ainda não tinha completado um mês. Quem o recebeu a porta foi um homem corpulento e de barba cheia. Pela aparência este parecia também não estar apreciando muito aquela situação e mostrou sério e cerimonioso. Isso era tudo o que Iago estava esperando para tornar-se ainda mais intimidado diante da situação. Suas respostas tornaram-se monossilábicas desde então.

- Você deve ser o Iago. Por favor, vamos entrando. – disse o homem sem ao menos ter se apresentado.

Em seguida, encaminharam-se para os sofás dispostos na ampla sala de visitas. Estes estavam dispostos entorno da lareira que no momento encontrava-se apagada, mas que durante os dias mais frios era utilizada no aquecimento da casa. Na verdade o local era bem simples, na verdade, prático. Uma dona de casa de meio expediente com a ajuda dos filhos conseguia cuidar bem do estabelecimento. Annya chegou logo em seguida. Sorridente perguntou:

- Quer dizer que você já conheceu o meu pai? Hoje ele está um pouco sério, mas nem sempre é assim.

- Muito prazer, Iago. – adiantou-se o jovem formalizando assim as apresentações.

- O prazer foi meu, Markus. O que você faz mesmo, é professor da Universidade de Bortuca? – antes mesmo de esperar por uma resposta acrescentou. Professor de qual disciplina?

- Energia Septal II.

Iago sentia-se pouco confortável ali. Esperava que durante o almoço o ambiente tornar-se-ia mais descontraído. Dona Katja, mãe da Annya, havia preparado um bom assado. Tudo estava indo muito bem até que o irmão ciumento chegasse em casa. Falava secamente e Iago percebera logo de início que seria mais complicado do que ele pensava. Annya era mais velha e por isso muitas vezes repreendeu o irmão que tentava dar um ar de superioridade. Imediatamente já declarou em alto e bom tom que não gostou de Iago.

- Parece-me um homem fraco e indeciso - assim disse.

Durante o almoço ele quase não conversou e o assunto discutido foi sempre impulsionado pelas duas mulheres. A situação só veio melhorar após a refeição, quando Iago foi conversar sozinho com o pai de Annya, pois o irmãozinho havia seguido direto para o quarto. Ali discutiram mais sobre a Energia Septal e outros pontos. O pai da garota era homem culto que dirigia uma importante Companhia de Tecidos na cidade. Ela havia se formado em Matemática, mas conversava indistintamente sobre os mais diversos assuntos.

Ao final Iago chegou até mesmo a gostar de ter tido a oportunidade de conhecer os familiares de sua nova namorada. Agora o relacionamento entre eles havia sido efetivamente firmado. Depois de terminado a arrumação da cozinha que estava sendo realizada pelas mulheres, Annya seguiu-se ao encontro de Iago. Saíram então um pouco depois que as despedidas foram gentilmente dadas.

- Acredito que você causou muito boa impressão lá em casa. – disse a jovem.

- Você acha mesmo. Acredito que seu irmão não pense a mesma coisa.

- Aquele moleque. Ele vai ver só uma coisa quando eu voltar para casa. Vou falar umas boas para ele. Onde já se viu tratar uma visita desta maneira. Não sei de onde veio esse ciúme bobo dele, na verdade, nunca ligou para mim.

- Isso é normal... Da próxima vez trago um presentinho para ele, quem sabe não melhora assim. Quando eu era pequeno qualquer presentinho sempre me fazia os olhos brilharem.

- Talvez funcione, mas agora tenho que voltar para dentro de casa.

Neste momento Iago teve outra apreensão. Ele tinha que tentar logo dar um beijo em sua nova namorada. Afinal eles já se encontravam há um mês e agora já conhecia até mesmo os familiares dela. Sua mão estava suando, um suor gelado, e seu coração se acelerou. Até mesmo no último segundo não se decidia se deveria tentar ali ou depois. Estavam muito próximos da casa, talvez fosse melhor em outro dia. Não quis mais saber de elocubrar sobre o assunto quando viu havia simplesmente tentado.

Agora seus lábios estavam se tocando, e Iago sentia aquele toque delicado e carinhoso. Naquela posição também sentia melhor o perfume dela. Misturado a isso tudo teve uma sensação de glória por ter conquistado aquele momento. Agora queira apreciá-lo ao máximo. Foi um toque leve e nem tão demorado, mas para Iago valeu por uma eternidade de tempo. Assim se despediram.

No outro dia lá ia ele novamente para a sala de aula. Teria que dar aquele dia aula para ainda mais duas turmas. Muitas vezes gostava daquelas explanações. Aprendia muito naqueles momentos e dessa forma mantinha uma base de conhecimentos bem sólida. As discussões também geravam interessantes resultados, às vezes detalhes que haviam passados desapercebidos pelo jovem professor eram abordados de forma surpreendente.

O pior, no entanto, era a preparação das aulas que consumia muito tempo. “Ano que vem com todo o material já pronto será melhor”, pensava ele. Outro trabalho que pouco o agradava era a correção dos testes que na maioria das vezes era um serviço puramente mecânico.

À noite seguiu para o laboratório do professor Saltzmann. Estava cansado e a única coisa que queria ter feito, encontrar-se com Annya, não poderia fazer. Teria, sim, que esperar ainda pelo dia de amanhã. Aquele momento delicioso que tiveram no jardim da casa dela estava impingido na sua memória como uma marca ainda fresca. Podia até sentir os lábios dela junto aos seus.

O trabalho no laboratório ao menos pode acalmá-lo um pouco e fazê-lo esquecer a impaciência de esperar por um novo encontro. Discutiu vários aspectos como professor Saltzmann sobre os novos conceitos de fluxo energético e densidade de fluxo que eles haviam elaborado para melhor explicarem os fenômenos relatados pelos experimentos.

Dentro de alguns meses publicaram novo artigo onde discutiam um pouco mais profundamente estes tópicos. Uma coisa que Iago aprendera com o passado era que melhor seria que as idéias fossem sendo colocadas aos poucos para a comunidade científica. Não rápidas demais, pois tornaria difícil sua aceitação e não lentas demais, pois outros pesquisadores que estivessem seguindo a mesma linha poderiam ficar com os louros dos próximos desenvolvimentos.

A nova série de artigos chamou a atenção e o professor Saltzmann foi muito elogiado pelo trabalho. Os novos conceitos estabelecidos nesses artigos vieram a complementar as idéias de campo elétrico e potencial que haviam sido estabelecidas por outros pesquisadores. Uma nova notação parecia surgir rapidamente para auxiliar nos estudos das cargas elétricas. Muitos estudiosos também tentavam demonstrar que no livro de Maxwell esses mesmo conceitos estavam ilustrados. Um dos diagramas lá desenhados foi imediatamente interpretado como um instrumento para auxiliar na visualização dos tais Campos Elétricos. Em todos os artigos do professor Saltzmann Iago aparecia como co-autor mesmo que ele em muitos pontos tenha sido mais idealizador das idéias que o próprio Saltzmann.

Essa situação subalterna nunca havia incomodado Iago antes. Ele até era muito agradecido ao professor por tê-lo iniciado nesses experimentos. No entanto agora decidiu desenvolver alguns projetos no laboratório da própria Universidade.

Como seu prestígio estava em alta não foi difícil conseguir verbas para montar uma estrutura semelhante a do professor Saltzmann na Universidade de Bortuca. Durante o primeiro mês seu principal trabalho se resumiu mais na organização da infra-estrutura necessária do que qualquer outra coisa. Sua idéia era seguir a mesma linha que eles vinham fazendo até então, mas desta vez decidiu fazer algumas modificações mais profundas nos experimentos que iria executar, logicamente não disse uma palavra ao professor sobre seus planos. Ao contrário deixou que ele permanecesse em sua busca incessante não se sabia bem do que. Como da outra vez o resultado positivo surtido pelos novos artigos também não havia causado nenhuma mudança no comportamento do professor em relação ao seu experimento. Ele tinha uma idéia fixa na cabeça e seguia incansável e imperturbavelmente.

Iago ao contrário não era de se prender tanto a um único experimento. Gostava de variar e já estava contente com muitos dos resultados que haviam obtido daqueles testes. Sua idéia era no fundo bem simples, agora iria variar as formas esféricas utilizadas até então para retangulares. Primeiro mantendo a esfera interna e mudando a externa por um retângulo e depois vice-versa.

Annya, entretanto não estava gostando muito da distância do namorado. Sabia que ele estava desenvolvendo um trabalho importante, mas acreditava que ela também merecia um pouco de atenção. Como prezava muito pelo companheiro achou uma solução que lhe pareceu interessante. Iria auxiliá-lo nos experimentos, assim pelo menos os dois poderiam passar mais tempo juntos e isso não o prejudicaria. Desde então ela passou a acompanhá-lo durante os experimentos. Nem sempre fica o tempo todo já que muitas vezes Iago tinha que permanecer em seu laboratório até mais tarde.

O experimento com os retângulos geraram um interessante resultado: o mesmo que o anterior. Isso encabulou Iago e este resolveu usar outras formas diferentes e sempre obteve o mesmo. Não conseguia explicar aqueles resultados. Annya que também estava interessada no assunto, já que Iago a havia colocado à par de tudo aconselhou-o:

- Você deveria procurar pessoas mais experientes, talvez pessoas com uma maior base teórica.

- Não vejo quem eu poderia procurar, talvez o Prof. Morris. No entanto não imagino o que ele possa acrescentar aqui já que atualmente ele se encontra mais voltado aos estudos astronômicos e eu estou totalmente dedicado a este único assunto.

- Você é quem citou o Morris. Eu estava pensando talvez em alguém da área de matemática. Vejo você sempre fazendo muitos cálculos, sempre tentando traçar as tais linhas de fluxo e sem muito resultado. Desculpe o meu comentário, mas parece-me que esta faltando um pouco de método nesses seus estudos. Talvez um matemático puro possa auxiliá-lo melhor nesses cálculos.

- Talvez você esteja certa. Conheço alguns colegas do ramo da matemática avançada que poderiam me prestar bons auxílios. O que eu não gosto é do fato de nunca conseguir desenvolver sozinho uma teoria analítica. O único dom que pareço ter mesmo é conseguir elaborar experimentos que gerem resultados interessantes. Às vezes também consigo analisá-los bem do ponto de vista descritivo. No entanto quando vou para o mundo dos números sempre me senti meio perdido.

- Iago, não seja duro demais consigo mesmo. Não vá ficar chateado por estar indo pedir auxílio a alguém. Você fez um excelente trabalho até então. Conseguiu interessantes resultados e é chegada a hora de compartilhar isso com outra pessoa.

- Você tem razão, Annya. Amanhã procurarei o Prof. Bohinski.

No dia seguinte, Iago fez o que havia dito. Durante um período de folga entre duas aulas foi encontrar-se com o colega. O Bohinski também era um jovem professor como ele. Foram admitidos praticamente ao mesmo tempo como Efetivos. Ao ser consultado Bohinski achou o assunto muito interessante. Discursou alguns pontos com Iago e disse-lhe que problema semelhante parecia-lhe já ter aparecido nos Anais da Ciência.

- Iago, você se lembra sobre algumas considerações feitas sobre a atração gravitacional entre dois corpos esféricos. Os corpos podiam ser considerados como um ponto no centro das esferas que tivesse a mesma massa de todo o conjunto. Aqui podemos levar a mesma coisa em consideração: a esfera interna pode ser substituída por um ponto em seu centro que tenha a mesma carga que a esfera original.

- Sim, estou lembrando-me disso agora, mas aonde você quer chegar com essas abstrações? Com o retângulo definitivamente não podemos fazer a mesma coisa!– disse Iago.

- Sei que não, mas podemos decompor esse retângulo em infinitos pontinhos distribuídos em sua superfície, todos com uma carguinha pequena que somadas dariam a carga total contida no retângulo. Ainda não sei bem aonde quero chegar com essas considerações. Estou apenas especulando um pouco. Hoje à noite desenvolverei mais o assunto e amanhã a gente conversa melhor.

Iago saiu um pouco chateado daquela situação. Seu projeto agora lhe parecia já começar a fugir de seu controle. Gostaria de estar ao lado do Bohinski para ver cada passo que ele iria seguir. Durante aquela noite contou a Annya a conversa que teve com o colega. Estava ansioso pelos resultados que amanhã o Bohinski lhe apresentaria, por isso não consegui fazer mais nada dentro do laboratório e achou melhor dar uma saída. Convidou Annya então para irem a casa do Prof. Saltzmann seria bom dar uma olhadinha no que ele estava fazendo. Apesar de não ser muito difícil de adivinhar.

Chegando lá encontrou justamente o que imaginava, lá estava ele fazendo experimentos com novos materiais, às vezes alguns tipos de óleos, outras vezes uma espécie de espuma ou tecido. O Prof. Tomas gostou da visita, já há algum tempo não se encontravam. Discutiu com Iago alguns pontos sobre os experimentos que estava fazendo ultimamente, Iago em retorno também confidenciou-lhe os seus projetos. Saltzmann ficou profundamente espantado com os resultados que ele obteve usando os retângulos, como ele não havia pensado nisso antes. Em seguida acrescentou:

- Iago, esses resultados fazem até um certo sentido. Não acho que de todo estranho esses fenômenos, afinal todas as linhas de fluxo elétrico estão confinadas ali naquele encapsulamento fechado. As linhas de fluxo não perdem força com a distância como vimos nos experimentos onde variamos o raio da esfera exterior, mas, no entanto a configuração das linhas deveria ser diferente. Talvez isso afetasse em algo, talvez não. Gostei muito desse seu experimento Iago, gostaria de fazer mais alguns cálculos sobre o assunto. Apresento-lhe depois o que obtive, quem sabe não publicamos mais um artigo juntos?

Iago ficara um pouco arrependido depois de todo esses entusiasmo e da torrente de conhecimento que o professor demonstrou ter. Ele sabia que Saltzmann era um excelente matemático, homem sempre muito meticuloso. Decidiu então fazer o oposto do que o professor lhe sugerira. Ao invés dele fazer parte do artigo do professor faria desta vez o oposto:

- Eu ficaria contentíssimo professor, no entanto estou trabalhando no momento com o Prof. Bohinski justamente nesse assunto. Estamos desenvolvendo uma teoria matemática muito interessante, seria ótimo se o Sr. entrasse para a nossa equipe. Tenho certeza de que seu auxílio seria precioso.

O professor Saltzmann não teve como recusar a proposta. Combinaram então de se encontrarem no laboratório da Universidade de Bortuca. Iago gostaria de deixar claro quem chefiava o projeto e por isso as reuniões não poderiam ser feitas no laboratório do colega. No entanto, disse como justificativa ao professor que seria mais fácil executar tudo lá, já que o experimento estava montado em seu laboratório e que mais fácil seria um se deslocar do que dois. Assim ficou então acertado.

No dia seguinte encontraram-se os três colegas na local acertado. O Prof. Bohinski fizer importantes deduções no decorrer da noite passada faltaram-lhe, entretanto algumas informações devido ao fato de não conhecer profundamente o comportamento físico do sistema. Nesse ponto Saltzmann entrou com um importante auxílio. No meio de toda aquela discussão só Iago sentia-se um pouco deslocado. As idéias estavam borbulhando ali na sua frente, mas ele não conseguia em um só momento levantar pontos de vista interessantes, pelo menos assim pensava ele. Sua matemática tinha algumas falhas e por isso era-lhe difícil acompanhar os colegas.

O que havia sido desenvolvido até então foi distribuído entre todos. Retornariam para suas casas com a finalidade de pensarem um pouco mais sobre o assunto. Muitos dos cálculos do Bohinski acabaram se mostrando incorretos devido a sua falta de compreensão física do problema. Com os esclarecimentos do Saltzmann a situação parecia que se tornaria diferente.

Iago voltara um chateado para casa aquela noite e decidiu que não desistiria enquanto não tivesse desenvolvido algo, nem que tivesse que passar toda noite acordado. Dessa forma, começou uma longa jornada. Ao final realmente não dormira praticamente nada. Somente quando o sol começara a se levantar no horizonte foi que dormiu sobre os papéis. Aquele dia acabara perdendo as primeiras aulas. Quando acordou sobressaltado teve que fazer sua rotina matinal rapidamente e conseguiu chegar a Universidade somente no horário do almoço. Sentia um sono imenso, após a refeição então esse parece ter ganhado força maior. Teve ainda que lecionar duas aulas: uma de laboratório e outra teórica. Aquele estado de torpor acabava fazendo com que olhasse de forma diferente para as coisas, percebia com outros olhos a sua rotina e percebeu que não gostava do modo como suas aulas eram lecionadas. Qual a finalidade em ser ficar mostrando no laboratório aquelas velharias feitas pelos antigos da era Septal e conjecturar sobre sua finalidade e funcionamento. Isso não se encaixava com sua proposta, preferiria levar os alunos ao seu laboratório e mostrar-lhes o que estava desenvolvendo naquele momento, mostrar-lhes alguns artigos sobre o que estava sendo feito. Acreditava que seria possível passar aquelas idéias avançadas se ele extraísse da explicação o teor matemático e teórico mais pesado. “Aquilo sim seria muito melhor que essas especulações absurdas”, pensou.

Quando chegou à noite já se sentia um pouco melhor, o efeito do almoço parecia ter passado. Atormentava-o somente uma pequena dor de cabeça. À hora de se reunir com os colegas já não estava tão animado, pelo contrário gostaria mesmo era de ir deitar-se em sua cama e descansar profundamente até o outro dia. Bohinski foi o primeiro a começar a discussão assim que sentaram. Mostrou os cálculos e suposições que havia feito até então. Iago achou muito interessante o tudo o que havia sido explicado e depois revelando o que havia feito mostrou que era exatamente igual às suposições do amigo. Foi quando então o Prof. Saltzmann também disse, já com um sorriso quase um pequeno riso, que ele também chegara as mesmas conclusões. Interessante e inusitada foi à situação. Os pesquisadores, entretanto estavam satisfeitos, pois tudo parecia indicar que o caminho em que caminhavam estava na direção correta.

Em relação à próxima reunião Iago disse que no próximo dia estaria muito ocupado com suas funções de professor e que por isso seria melhor deixarem para o outro dia. Todos concordaram com a proposta.

Para Iago melhor do que todo aquele sucesso seria a noite de sono tranqüilo que teria finalmente. Desta vez ele ficara satisfeito com o que havia desenvolvido sozinho, entretanto os outros colegas não pareciam tão cansados como ele. Teve saudades de Annya aquela noite, já não se encontravam há dois dias. Gostaria até de ficar um pouco com ela antes de ir deitar-se, mas àquela hora ela já estava em casa e uma visita tão tarde não seria bem vinda. No próximo dia decidiu que iria pegá-la na Escola Técnica, poderiam ir tomar um doce gelado.

Essa noite ao chegar em casa pensava ainda nela. Aos poucos seus pensamentos foram se tornando mais turvos e lentos. Dormiu como há muito tempo não fazia antes, um sono merecedor depois daquele dia estafante. Um sono depois de um dia de cansativo em que se tem a sensação que um bom trabalho foi realizado é mais reconfortante que muitas horas de um sono preguiçoso.

Acordou completamente recuperado. Sentia-se bem disposto e contente por aquela estranha sensação de constante sonolência ter passado. Seus planos hoje incluíam primordialmente um encontro com Annya. Gostava muito de conversar com ela e de poder beijá-la. Assim que a noite caiu foi imediatamente encontrá-la na Escola Técnica. Quando chegou lá ela ainda estava lecionando a última aula do dia. Ali no corredor pode contemplá-la sem que ela percebesse. Estava linda e parecia esforçar-se muito para prender a atenção dos estudantes. Lembrou-se então de como ele sempre detestara as aulas que não estavam diretamente relacionadas a seu curso. Ele e seus colegas sempre comentavam sobre a inutilidade e perda de tempo que aquilo lhes causava, principalmente quando tinham que estudar outras matérias “mais importantes”. Agora vendo sua namorada naquela insistência sem retorno tinha outra idéia sobre o assunto. Percebia que mais do que formar um profissional era importante a formação do homem dentro daquelas instituições. Sabia que ela lutava uma causa perdida e que provavelmente a maioria dos estudantes não tinham o menor interesse no que ela falava. Percebeu então que ele também gostava nela essa característica idealizadora e de luta, mesmo nas piores condições.

Ao encontrarem-se Annya mostrou-se a princípio surpresa, mas contente pela visita. No entanto logo seu semblante tornou-se mais fechado.

- Pensei que não fossemos mais nos encontrar - atirou-lhe de supetão. Quero dizer-lhe logo que caso eu esteja lhe incomodando em alguma coisa ou atrapalhando os seus planos, por favor, fale-me.

Iago que se encontrava desarmado naquele momento ficou um pouco atordoado com aquela recepção.

- Annya, você sabe muito bem que não me incomoda em nada. Sabe que eu te adoro.

- Não sei, não. O que aconteceu nesses últimos dias que nem notícias me deu. Não sabia nem se você estava ainda vivo ou não.

- Desculpe-me. Eu estive muito ocupado e por isso não pude aparecer. – disse ele de modo conciliatório.

- Por isso mesmo que estou falando que caso eu esteja lhe atrapalhando é só você falar. Não quero ser nenhuma pedra no seu caminho. Eu admiro-lhe demais para isso. Quero que você vá em frente na busca de seus objetivos.

- O único problema que meus objetivos não teriam o menor sentido se você não estivesse comigo. Por favor, vamos parar com isso. Hoje vim aqui para convidá-la para um doce gelado. O que você acha?

Assim foi a primeira discussão que surgiu entre o casal. Muitas ainda viriam, mas assim como elas eram certas a reconciliação também. Durante o doce, Iago pode contar os últimos acontecimentos. Disse-lhe também sobre o terrível dia que passara. Hoje se sentia um pouco frustrado por estava claro para ele que tinha que se esforçar muito mais para chegar aos mesmos resultados dos colegas. Annya tentou confortá-lo dizendo que ele não era um especialista em matemática e que a disputa por isso mesmo era desigual, com o passar do tempo muito provavelmente ele iria também ganhar mais agilidade na resolução dos problemas.

No outro dia ao reunir-se com os amigos novamente decidiram que o material levantado já era suficiente para a publicação de um artigo. Esse com certeza seria especial, pois relatava uma lei física bem generalizada, na verdade, era uma generalização dos últimos artigos do professor Saltzmann e Iago. Esta lei poderia se enunciar da seguinte forma: “O fluxo elétrico que atravessa uma superfície fechada é independente da geometria da mesma, este depende exclusivamente da quantidade de carga por ela englobada”.

Aproximadamente um mês após essa reunião o artigo foi enviado para uma importante revista científica. Imediatamente conseguiram uma publicação de capa para a próxima edição. Muitos pesquisadores se interessaram pela questão e assim mais uma lei da eletrostática foi lançada dentro do mundo de Advla.

Os três pesquisadores foram posteriormente agraciados com importantes prêmios científicos, mas perderam o “Os Amigos de Wisan” para outro grupo de pesquisadores que fizeram revelações no setor da astronomia. Posteriormente descobriu-se que esta lei também estava descrita no livro de Maxwell, mas no momento isto não seria detectado devido às grandes diferenças de notação matemática.

Annya ficou muito feliz com os resultados positivos obtidos por seu namorado, até porque agora ele parecia estar ainda mais carinhoso. Por um tempo largara aquela obsessão do laboratório, ao contrário do Prof. Saltzmann que continuava o mesmo. A diferença era que para Iago a vida era algo mais do que aquilo. Depois de algum tempo resolveu visitar o Prof. Mackenzie, já não o via há algum tempo e quem sabe esses novos progressos também não resultariam novos avanços no entendimento do livro de Maxwell. Até então essas duas coisas pareciam andar juntas.

O Prof. Mackenzie ficou muito satisfeito com a visita do antigo pupilo e relembrando-lhe a referência que fizera na viagem a Trinado disse:

- Essa publicação foi a maior prova do que eu disse na nossa viagem a Trinado, não se lembra. Que você é um pesquisador de futuro e só não ganhou o prêmio “Amigos de Wisan” até hoje por uma grande injustiça, mas penso que isso não ficará por muito tempo assim, sua fama já está correndo longe. Talvez você não tenha percebido, mas atualmente é admirado por muitas pessoas e instituições.

- Volto a afirmar Prof. Mackenzie que tudo isso é um grande exagero. Todas essas publicações que fiz nesses últimos tempos foram, na verdade, decorrentes da minha feliz escolha em trabalhar com o Prof. Saltzmann. Ele, sim, merece os créditos por sua obstinação e persistência. Aprendi muito na convivência com ele.

- Entendo perfeitamente, o que você está dizendo, mas só tem um ponto que você não está levando em consideração. Coincidências e acasos neste ramo são coisas raras e quando ocorrem só acontecem com as grandes mentes, nunca com alguém que esteja despreparado para reconhecê-los. E você já participou de duas grandes descobertas.

- Não penso que foram duas – replicou Iago. O artigo que nós fizemos só ganhou aquela enorme proeminência graças a você e ao Prof. Morris. Analisando o fato friamente, também, percebe-se que foi somente uma análise do que já estava descrito no livro do Maxwell.

O professor Mackenzie para não estender mais sobre o assunto preferiu mudar de conversa. Iago então o colocou a par de seu namoro com Annya revelando-lhe que ela também era uma grande força que lhe impulsionava. Agradecia ter podido descobri-la naquela viagem que fizera a Trinado. O professor sem querer fora à peça fundamental que tornou aquele relacionamento realidade, mais uma fez ele lhe era grato.

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Capítulo XV - Férias Escolares

Finalmente as férias escolares estavam chegando. Este momento era altamente esperado tanto pelos alunos quanto pelos professores. Iago não via a hora de poder tirar uma folga de suas aulas. Ele estava ali na Universidade por causa de sua aptidão à pesquisa e não pelo prazer em lecionar. Entretanto concordava que o exercício proporcionado pelas constantes revisões tinha influência muito positiva em sua pesquisa.

Durante as férias, porém poderia se dedicar mais à pesquisa pura e poderia encontrar-se mais vezes com Annya também. Esse último pensamento era-lhe extremamente agradável. O tempo estava excelente para caminhadas nos parques e clubes. Isso, sim, gostaria de ir em algum clube com ela, poderia assim talvez vislumbrar melhor suas curvas.

Ao encontrar-se com Annya ficou sabendo que o pai dela estava planejando viajar para uma pequena cidade litorânea próxima a Bortuca e ele estava convidado para acompanhá-los. Tudo ficou acertado para saírem já na próxima semana. A idéia soava muito boa. Nos últimos tempos o relacionamento com o irmãozinho mais novo havia melhorado muito. Os doces que ele trazia sempre que fazia uma visita pareciam estar dando efeito.

Para a viagem ele arrumou tudo bem organizadamente. Empacotando em sua bagagem inclusive alguns livros e artigos que pretendia estudar enquanto estivesse por lá. Iago sabia que ultimamente ele estava muito ligado aos trabalhos que andava desenvolvendo e que deveria aproveitar a oportunidade para descansar um pouco, mas mesmo assim acreditava que não conseguiria de desconectar completamente. Nem que estivesse levando aquele material apenas para acalmar sua consciência era preciso levá-lo.

Enfim quando chegou o esperado dia partiram num grande automóvel público com vários lugares. O pai da Annya, o Sr. Markus havia alugado um pequeno chalé próximo à praia. O dono era um grande amigo seu e fizera um preço especial. Ao chegarem perceberam que o lugar era um pouco menor e mais rústico do que imaginavam. A água parecia ter um estranho cheiro de peixe, ninguém soube explicar porque, mas lhes garantiram que aquilo era normal na região e que a qualidade da mesma era considerada excelente.

O melhor para Iago foi irem à praia. Adorava apreciar Annya em roupas de banho alegre como uma garotinha de sete anos. Para onde quer que fossem o irmão sempre estava com eles. Certamente os pais de Annya lhe deram ordens expressas de não os perder de vista. Parecia também que ele estava gostando, pois não ficava ali o tempo todo sozinho e sempre acabava ganhando alguns doces.

Não era a primeira vez que Iago vinha à praia, mas nunca antes tinha passado tanto tempo em uma. A casa onde estavam ficando era pequena por isso ele tinha que dormir em um pequeno colchão estirado na sala de estar. Logo pela manhã o sol iluminava totalmente o seu improviso de quarto e por isso não conseguia dormir até mais tarde. A isso se somava o problema daquela água que era insuportável e também a constante presença dos pernilongos. Apesar de tudo isso o clima era de total descontração. Os momentos em que se reuniam para jogar ou bater papo furado eram agradabilíssimos e superavam os desconfortos. O cheiro da maresia e os passeios pela praia completavam o gostoso ambiente.

Depois da primeira semana de euforia e de muito exercício físico Iago resolveu dar uma olhada nos livros que havia trazido. Estava próximo do horário do almoço e por isso Annya ajudava a mãe na cozinha. Após aqueles momentos de descontração e desligamento olhava para aquelas fórmulas e cálculos com outros olhos. Percebia a incrível filosofia que existia por trás de tudo aquilo. Lembrou-se de certa frase que escutara que se referia a como era fantástico aquele conhecimento. Poder explicar o movimento dos corpos e desvendavam o mundo das partículas carregadas, tudo isso através de fórmulas. Quem ditou que seria assim? Quem disse que tais fórmulas regeriam as leis do universo? Era um incrível presente deixado por Deus aos povos de todos os mundos. Iago sentia que Ele apresentou aqueles desafios justamente esperando que sua criação os descobri-se e revela-se. Olhando mais um pouco viu novamente as equações desenvolvidas por Kamnan sobre a Força Elétrica. Porque se assemelhava tanto com a Força Gravitacional desenvolvida por Wisan. Essa coincidência incomodava um tanto a ele que não conseguia explicar. “Talvez algum dia alguém venha a entender”, pensou.

Começou a questionar o que havia feito com que ele tivesse entrado naquele estado de meditação. Geralmente isso conseguia somente quando estava fazendo alguma longa viagem por trem. O trem tinha também esse poder de dispersão. Percebeu então que nos dois casos ele estava completamente desligado de todas as questões menores do dia-a-dia. Tanto ali na praia quanto no trem seus únicos objetivos eram simplesmente nenhum.

- Iago, venha almoçar que já está na mesa – chamou Annya.

Achou melhor fechar mesmo aqueles livros. Seu semblante que andara sempre tão alegre e descontraído estava agora ligeiramente fechado. Ali não era lugar para se preocupar com nada. Durante toda a viagem esse foi o único momento em que Iago havia aberto seus livros.

Ele estava contente quando finalmente chegaram de volta para Bortuca. Não que a viagem tivesse sido desagradável, mas estar de novo em casa é algo sempre bom. Assim que arrumou seus pertences seguiu logo para encontrar-se com o professor Saltzmann. Estava curioso para saber quais eram as novidades e como estava caminhando a pesquisa.

Ao chegar ao laboratório viu que o professor estava novamente fazendo experimentos com a água. Isso aguçou ainda mais a curiosidade do jovem, pois já haviam estudado o assunto anteriormente e até publicaram um artigo. O professor então explicou:

- Acabou de ser publicado um artigo onde um grupo de pesquisadores demonstrava que a água era não condutora. O experimento deles acredito, foi mais cauteloso que o nosso, pois primeiro eles destilaram a água. Ficarei extremamente chateado caso a teoria deles seja efetivamente comprovada já que tornaria patente a nossa ineficiência em levar um experimento sério adiante.

- Professor, acredito que o senhor esteja exagerando um pouco. No entanto eu também ficarei chateado por termos cometido erro tão básico. O líquido que usamos e supusemos como água era na verdade um composto com várias impurezas. Apesar dessa nossa falha não penso que seja necessário um julgamento tão duro sobre nossa eficiência. Esse seria o maior erro que eu já cometi até o presente momento e espero que continue assim.

- Eu também, Iago… Estou ainda inconformado com nossa inocência. A pesquisa sempre nos tenta pregar peças e por isso devemos ter a máxima atenção e ceticismo. Isso deve servir de lição para nós dois.

Iago permaneceu o dia inteiro com o Professor Saltzmann. Fizeram todos os experimentos e comprovaram que realmente o antigo artigo estava errado. Agora deveriam retratar-se em um novo artigo corrigindo o que antes haviam afirmado. Situação bastante constrangedora, principalmente para eles que estavam tão bem conceituados diante da comunidade científica.

No outro dia contou chateado tudo a Annya. Ela por sua vez tentou consolá-lo. Essas coisas acontecem; ainda mais no ramo dele que estava sempre na ponta dos descobrimentos científicos. Erros são muitas vezes mais do que naturais.

Nos dias seguintes Iago ficou preparando junto com o professor o artigo de retratação. Era de se esperar que pouca atenção fosse dada ao pequeno artigo. No entanto devido à fama e ao alto nível dos pesquisadores durante vários dias o artigo foi um dos assuntos prediletos da comunidade. Gerou inclusive outros artigos onde se discutia a questão da genialidade versus a normalidade. Mesmo grandes mentes muitas vezes podiam errar mesmo quando lidando com os assuntos mais simples. Era até mesmo muito possível que leis efetivamente corretas pudessem ficar escondidas durante muitos anos devido a um fato como este; ficando a verdade à sombra de uma teoria baseada unicamente na fama de seus autores.

Iago ficou muito desapontado durante esse período e até mesmo um pouco desestimulado de suas pesquisas. Mesmo o professor Saltzmann que parecia alheio aos comentários ficara um pouco abalado.

Depois dessa publicação achou melhor se desligar um pouco do mundo científico. Estava cansado daquela concorrência onde todos tentavam se mostrar mais inteligentes que os outros. Preferiu passar o restante das férias na companhia de Annya. Fazendo constantes visitas a ela e passeando bastante pela cidade. Já próximo do fim das férias Iago achou que seria interessante apresentá-la para sua família. Um dia convidou-a para a viagem. Após ela ter comunicado a família acertaram os detalhes da viagem.

Iago não era muito ligado aos familiares, mas achou importante apresentá-los a mulher com quem gostaria de passar o resto de sua vida. Novamente voltaria a sua cidade natal, Gresnile. Como da outra vez que esteve por lá ficou pouco tempo. Todos os familiares gostaram muito de Annya. Seria excelente pessoa para aumentar-lhes a família. Ela também teve excelente impressão de todos a quem conheceu, não entendia como Iago podia ser tão desligado de seus parentes.

Ao retornar para Bortuca Iago decidiu que antes das aulas começarem ele iria preparar uma aula sobre a Energia Septal diferente das que até então eram normalmente ministradas. Desta vez iria apresentar os experimentos e fatos científicos sem fazer referências aos artefatos dos antigos. Também não ficaria discutindo sobre as muitas teorias não comprovadas e sem fundamento sólido sobre o funcionamento desses velhos instrumentos.

No outro dia começou a reunir os instrumentos que usaria nas suas demonstrações. Annya também o auxiliou nas montagens que deveria fazer. Ela era tinha muito jeito para os trabalhos manuais. Graças a ela as montagens de Iago não eram estruturas completamente rústicas, mas que também serviriam para a finalidade do projeto. Ela não se conformou unicamente com isso e preferiu fazer instrumentos não apenas úteis, mas também bem trabalhados. Ao final eles haviam reunido diversas substâncias que seriam usadas durante a aula e modelaram os pedaços dessas para a finalidade pretendida. Iago, além disso, elaborou manuscritos descrevendo detalhadamente o que falaria aos alunos e selecionou alguns experimentos que apresentaria.

Ao final gostou do que eles haviam feito. Pensou que seria bem mais interessante apresentar o problema por esse ângulo ao invés de ficar confundindo e martirizando os alunos com aquelas idéias maçantes sobre os antigos. Sabia que essas idéias haviam interpretado papel fundamental no desenvolvimento de sua sociedade e não desprezava sua importância, mas pensava que no caso da eletricidade esse caminho parecia não ter surtido muito efeito e por isso seria interessante variarem um pouco. Reuniu todo o equipamento que eles haviam produzido em uma caixa e juntou ali os seus manuscritos.

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Capítulo XVI - Uma Aula sobre Eletricidade

No primeiro dia de aula então como havia planejado levou seus apetrechos para a sala de aula. Assim que chegou, os alunos estranharam aquela caixa que o professor trazia. Iago após cumprimentar a turma começou a montar silenciosamente os seus instrumentos em cima da mesa. E assim começou:

Hoje iremos ter uma aula um pouco diferente ao que estamos acostumados. Vocês estão aqui para aprenderem sobre a Energia Septal e é isso que iremos fazer. Antes porem de apresentar-lhes instrumentos estranhos e teorias diversas sobre o assunto irei introduzir-lhes alguns experimentos que demonstram a natureza desta incrível energia.

Todos aqui já conheceram os teoremas de Wisan que tratam sobre a Força da Gravidade. Esta, porém não é a única força de nosso universo que atua a distância sobre os objetos. A ela se junta a força da Eletricidade, assim foi batizada essa energia. À pouco tempo muito progresso foi feito no seu entendimento mas ainda acredita-se que muito mais se tem por fazer, principalmente porque muitos cientistas hoje acreditam que a Energia Septal baseia-se exclusivamente nesta tal Eletricidade. Devido a isso hoje discutiremos sobre esse assunto.

Essa estranha força assemelha-se em muitos pontos com a gravidade, mas por outro lado diverge grandemente. Principalmente devido a sua característica dual que demonstraremos mais tarde. Além disso, acrescenta-se que diferentemente da gravidade a eletricidade não é algo intrínseco das substâncias e sim deve ser estimulada.

Agora peço a atenção dos senhores para este balão suspenso por este fio. No momento encontra-se este parado ao não por um pequeno vento que às vezes o perturba. Agora irei pegar esta pequena esfera de uma determinada goma. Quando aproximo esta do balão percebemos que nada assim como antes não há atração, ao não ser da gravidade que nesse caso é desprezível e do vento que está tentando atrapalhar minha demonstração. Apesar disso está bem claro que não existe nem uma força aparente entre os dois materiais.

Neste momento irei esfregar firmemente a esfera de goma com esta flanela. Aproximando-se agora a esfera do balão observamos uma atração entre eles. Esta energia pode, no entanto, ser drenada pelas mãos quando esfregamos a esfera suavemente entre elas. Vemos que a atração desaparece quando novamente aproximadas.

Veremos agora o que acontecerá quando esfrego este bastão de vidro contra este pedaço de seda. Novamente observamos que o balão é atraído e quando atritamos este levemente com a mão mais uma vez observamos o desaparecimento daquela força. Esses fatos vêm demonstrar que esse fenômeno difere um tanto da gravidade e também do magnetismo que discutiremos em outra aula, mas que penso, algum de vocês já conhece.

Outra interessante experiência pode ser feita usando novamente esta bola de goma. Irei atritá-la novamente de encontro à flanela. Utilizarei esta pequena tira para mantê-la suspensa, podendo ela desta forma mover-se livremente. Na minha caixa tenho esta outra bola de goma praticamente idêntica a primeira. Neste momento repito a mesma experiência que havia feito anteriormente para a primeira. O que vocês acham que irá acontecer então quando aproximá-la da primeira…

Como vemos desta vez foi observada uma forte repulsão, parecendo inclusive atuar mais fortemente que a atração antes observada. Isso caracteriza a dualidade desta incrível energia, que a muitos anos desafia os cientistas. Ao mover esta esfera ao redar da outra, que permanece suspensa, percebemos que a repulsão é constante não importando a direção. Como veremos este fato também difere do magnetismo. Neste ponto a eletricidade também é totalmente diversa da gravidade que exerce uma força unicamente atrativa.

Mantendo a nossa esfera de goma suspensa e usando desta vez a haste de vidro vermos o que acontecerá. Primeiro, devo friccioná-la contra a seda criando a excitação. O que deverá acontecer desta vez? Aproximando a haste percebe-se que novamente a força atrativa, no entanto desta vez a esta força apresentá-se bem mais intensa do que nos primeiros experimentos.

A mais incrível das experiências aparece, no entanto, neste outro exemplo. Para esta experiência utilizaremos mais uma vez as duas esferas de goma. A primeira delas permanecerá suspensa como antes. Essa como sabemos já se encontra excitada. A segunda esfera encontra-se sem nenhuma excitação no presente. Irei embrulhá-la nesta flanela e friccionarei-a sem removê-la, simplesmente girando-a dentro deste tecido. Ao invés de separamos a flanela da esfera e aproximá-la da outra faremos diferentemente. Aproximaremos todo o conjunto, a esfera coberta pela flanela, da primeira bola de goma.

Desta vez como vocês vêem a força de atração é nula. Efeito realmente surpreendente. Tirarei então a esfera da flanela e a aproximarei sozinha, mais uma vez observamos o efeito da repulsão. Ao aproximarmos a flanela observamos, no entanto uma força atrativa, como podem ver. E se novamente envolvê-las a força passa a ser nula.

Os alunos pareciam estupefatos diante daquelas explicações. Todos estavam de olhos fixos nos mínimos movimentos do professor. Nunca antes haviam tido uma aula como aquela. Iago empolgava-se também, pois percebia que conseguira a atenção de seus estudantes. Todos, inclusive Iago, pareciam completamente abismados diante daqueles incríveis fenômenos. O último dos experimentos era o mais fascinante. Iago continuava suas demonstrações:

"Estes fenômenos são então o que hoje denominamos por eletricidade. Esta aula apresenta uma breve introdução sobre o assunto. Muita teoria foi desenvolvida no estudo desta energia e muito ainda está sendo atualmente desenvolvido.

Antes de finalizar porem gostaria de apresentar-lhes mais uma experiência. Essa foi a pouco observada por alguns cientistas e que vem confirmar os resultados obtidos pelo famoso cientista Kamnan que foi quem quantificou o valor das forças elétricas.

Primeiro eu colocarei esta pequena xícara metálica carregada sobre este suporte de barro. Mergulho toda essa estrutura neste pote cheio de água e deixo inclusive que um pouco de água entre dentro da xícara. Enquanto faço isso gostaria de pedi-los que aproximassem, pois dificilmente poderão ver o experimento da cadeira. Muito bem, agora colocarei esta pequena rolha na área externa a caneca e bem próximo da mesma. Vemos que a rolha começa vagarosamente a aproximar-se até tocar-se à caneca. Ela neste instante deve ter se carregado com a energia da caneca e por isso vemos que uma força de repulsão começa a atuar sobre a mesma e a afasta. Neste segundo experimento farei diferente, colocarei esta outra rolha sem carga no interior da caneca. O que acontecerá desta vez? O resultado é um pouco desapontador como vocês podem ver, simplesmente a atração é nula.

Esse fenômeno só ocorre devido ao fato da força elétrica cair com o quadrado da distância. Wisan no passado havia demonstrado o mesmo fenômeno para a força da gravidade no caso de uma esfera oca. Ele demonstrou matematicamente que a gravidade no interior dessa esfera oca é nula e isso ocorre unicamente pelo motivo que lhes disse. Isso demonstra então, como Kamnan havia anteriormente feito, que a força elétrica cai como o quadrado da distância. Esta é uma interessante coincidência que existe entre essas duas grandes forças, eletricidade e gravidade.

Agora quero que vocês vão para suas casas e pensem neste experimento e no da esfera de goma dentro da flanela. Amanhã me tragam então soluções para o fato da força ser nula quando o conjunto esfera / flanela é aproximado da outra esfera carregada.

Desta forma Iago terminara sua discussão sobre o assunto. Os alunos que haviam permanecido calados durante todo o tempo não perderam mais nenhum momento para lançarem milhares de perguntas ao professor. Iago permaneceu resolvendo as questões ainda por mais 30 minutos.

A mesma aula foi lecionada por ele em outros dois cursos. A reação dos estudantes foi bem parecida com a anterior. Desta forma começou a circular pela Universidade rumores sobre aquela diferente aula de Energia Septal. Alguns professores não gostaram quando souberam da notícia. Ainda não havia uma ligação concreta entre a energia elétrica e a energia Septal. O mais que se podia afirmar era que a energia elétrica era a mesma que o livro das Leis de Maxwell discursava. Isso, no entanto, estava muito longe de poder-se afirmar que ela era a verdadeira fonte que os antigos utilizavam para funcionar os seus fabulosos equipamentos.

Alguns dias depois Iago foi avisado pela Diretoria sobre este fato e que por isso deveria ter mais cautela com o que ali lecionava. Poderia estar confundindo os conceitos e fugindo assim do objetivo principal de suas disciplinas. Apesar destes contratempos, outros professores apreciaram muito a iniciativa do colega. Decidiu-se então que o melhor seria previamente avisar os estudantes de que a conexão de todos aqueles fenômenos com a energia Septal era incerta, mas que mesmo assim seria interessante instigar-lhes um pouco da vontade pela busca científica.

Após todos esses comentários Iago resolveu que seria interessante elaborar outra aula seguindo a mesma filosofia, mas demonstrando desta vez os fenômenos magnéticos. Os alunos tiveram reação semelhante quanto lecionou este outro tema. Algo que Iago nunca imaginou começou a acontecer com ele, começou a ter verdadeiro prazer em transmitir seus conhecimentos aos alunos. Desse convívio mais próximo conseguiu descobrir estudantes muito inteligentes e interessados. Dois haviam se disponibilizado para auxiliar o professor nos seus trabalhos de laboratório.

Outras instituições também tiveram notícia sobre os cursos que Iago estava dando e resolveram convidá-lo para algumas palestras. Iago começava desta forma a viajar por várias Universidades apresentando tanto a alunos quanto a professores alguns interessantes experimentos que caracterizavam as forças elétricas e magnéticas. Preferiu ele não se aprofundar nas questões da força gravitacional já que outros cursos cobriam muito bem a matéria e os fenômenos já eram bem conhecidos e explicados pela atual ciência.

Com o passar do tempo as palestras do jovem professor foram sendo aprimoradas e novos experimentos acrescentados. O novo repertório agora também incluía experimentos famosos como o feito por Kamnan na descoberta da Lei de Coulomb. Ao final havia preparado um bom material didático tanto experimental quanto teórico. Sem perceber ele se afastava cada vez mais de seu laboratório, gastava cada vez menos tempo com pesquisa e publicava cada vez menos. Parecia que ainda estava magoado com a comunidade científica devido as propaladas críticas referentes ao erro que havia cometido. Ele preferia poder dedicar-se a área do ensino que era bem mais segura do que a constante exposição ao erro característico do trabalho com pesquisa pura.

A fama de suas palestras foi tal que aquele ano ele foi indicado ao grande “Prêmio Anual Professor Stevens”, fornecidos somente aos mais destacados professores de septologia. Iago sentiu-se altamente prestigiado com aquela indicação. Dentro de um mês seria feita a escolha do ganhador. Com ele concorriam outros professores das áreas de Astronomia, professor Morris, e de Mecânica, professor Guzek.

Iago percebia como era interessante o ciclo da vida, mais uma vez iria ele encontrar-se com o professor Morris, só que desta vez estariam de lados opostos. Aquilo era algo surpreendente para Iago, nunca imaginou disputando algo com um dos homens que ele mais admirava. Não sentia que aquilo estava correto.

No dia que recebeu a notícia ele foi correndo contar a novidade para Annya. Afinal foi ela quem o auxiliou no princípio daquela jornada. Assim que ficou sabendo ela disse:

- Eu sabia que mais uma vez você estaria provocando uma revolução no seu meio de trabalho, Iago. Você tem o dom de fazer isso, mesmo sem querer. Tudo o que faz parece tão natural a princípio e no final transformam-se em experiências de fato inovadoras. Disso não tem como você fugir, mesmo que queira. Acredito que Deus deva gostar muito de você, pois sempre lhe auxiliou muito nos trabalhos.

- Annya, realmente não sei como explicar essas coincidências que acontecem comigo, mas penso que Deus não tem nada a ver com isso. Acredito que seja fruto apenas de um trabalho sério e consciente.

- Pode até ser – redargüiu ela. Mas sem a ajuda Dele nada é possível. Por favor, não tente pegar todos os créditos para si. Um pouco de humildade nunca fez mal a ninguém.

- Não entendi essa agora – disse ele já um pouco nervoso. Não sabia que você me achava uma pessoa arrogante e orgulhosa. Se pensa isto esta enganada, ao meu ver minha indicação foi totalmente inconseqüente e injusta. Nunca pude me imaginar competindo em pé de igualdade com grandes homens como o professor Morris. Sempre o tive na mais alta escala e agora essa de estarmos no mesmo palanque soa-me altamente estranho.

- Iago, como às vezes seu pensamento é estranho. Primeiro você desacredita Deus, afirmando que seus créditos não devam ser divididos com Ele. Depois eleva o professor Morris como um ente da mais alta categoria. Preste atenção na sua incongruência. Por mais que o professor seja um grande homem, ele sempre será apenas um homem, não muito diferente de você. O Criador, no entanto está muito acima de tudo isto.

- Acho que você tem razão.

Iago estava cansado daquela discussão. Viera até ali para contar com entusiasmo a novidade e agora já nem sabia como haviam chegado àquela discussão. Esses acontecimentos apesar disso não iam muito longe porque o amor entre os dois professores tornava-se maior a cada dia. Estavam cada vez mais próximos e Iago já não podia conceber sua vida longe dela.

Na semana da premiação ele teria ainda de fazer uma apresentação para um corpo de jurados. Por isso fez várias modificações no seu texto e caprichou mais nos aparatos que utilizaria para desenvolver as experiências. Annya ajudou-o muito neste ponto, sempre jeitosa na construção dos instrumentos. Quando a peça exigia trabalhos mais sofisticados, como fundição, era ela também que projetava os desenhos.

O chegar da esperada semana fez com que Iago torna-se nervoso. Toda expectativa gerada durante aqueles dias culminava agora na sua apresentação, que foi a primeira a ser executada. Depois dela o trabalho foi grandemente elogiado e percebia-se que efetivamente havia agradado muito aos jurados. No outro dia apresentou o professor Morris. Iago como participante também pode assistir à aula do conceituado cientista. Desacreditou totalmente de suas chances ao perceber o excelente trabalho desenvolvido por seu mentor. Annya que o acompanhava tentou acalmá-lo lançando sempre palavras de apoio e esperança. A vontade de Iago, no entanto era ir embora naquele mesmo dia de volta a Bortuca e esquecer tudo. Já não mais se importava com qualquer fosse o resultado, era na verdade o medo que lhe provocava este sentimento. Ele só não conseguia distingui-lo na confusão das suas sensações. A terceira é última apresentação sobre Mecânica feita pelo professor Guzek também foi muito interessante. Para Iago o seu único problema era o tema, um assunto já altamente discutido e conhecido da comunidade científica; não tinha o mesmo apelo ao desconhecido que as outras duas apresentações.

A apresentação do resultado foi feita somente no segundo dia após a última apresentação. Aqueles dias para ele foram realmente cansativos, suas esperanças diminuíam cada vez mais. No último instante acreditava até mesmo que o trabalho de mecânica fora superior ao seu em termos didáticos. Ao final, no entanto, o trabalho escolhido foi o da Força Elétrica, considerado entre os favoritos por todos e desacreditado unicamente pelo autor do mesmo.

Na mesma noite houve uma recepção para a comemoração dos prêmios. Iago recebeu muitos cumprimentos. Até se encontrar com o professor Morris que disse:

- Meus parabéns, Professor Iago. Seu trabalho foi absolutamente irrepreensível e acredito que qualquer outro resultado teria sido profundamente injusto.

- Professor Morris, para mim é um enorme honra receber o seu cumprimento – disse Iago emocionado com seu reconhecimento. Acredito, no entanto, que seus elogios estejam sendo exagerados.

- Exagero algum… exagero algum, repetiu o professor. Sempre lhe disse que o considerava um estudante de sucesso, não se lembra. Hoje mais uma vez você vem confirmar minha afirmação. Infelizmente, no momento, parece encontrar-se um pouco afastado da verdadeira pesquisa. Espero que não tenha se abalado com os tristes acontecimentos relativos a suas experiências com a condutividade da água. Esses fatos são os mais comuns dentro do nosso meio. Diria até que alguns passam desapercebidos e que este só teve a esta proeminência devido ao grande peso que seu nome hoje representa.

Iago agradeceu as palavras do amigo. Muitos outros convidados estavam ainda tentando parabenizá-lo e por isso os dois se dispersaram. O professor Morris entendeu que aquela não seria a melhor hora para conversarem, mas não saberia quando voltariam a se encontrar. Sabia que ainda tinha algumas palavras para dizer a seu antigo companheiro de pesquisas. Durante todo o tempo Annya permaneceu ao lado de Iago que no seu discurso de agradecimento fez menção várias vezes a sua pessoa como alguém que o ajudou e incentivou profundamente durante todo o período em que esteve elaborando aquele projeto, por isso dedicava-lhe aquele prêmio.

Outra boa surpresa que Iago teve foi a presença do professor Mackenzie durante as comemorações. Ele pode conversar bastante com Iago e Annya, pois durante o jantar sentou-se ao lado dos dois. Enquanto conversavam disse:

- E vocês dois quando se casam?

Iago recebera aquela pergunta como um supetão, não esperava por algo tão direto. Ainda não havia pensado seriamente sobre o assunto. Imaginava que um dia realmente se casaria com Annya, mas nunca se altera muito ao projeto que parecia distante. Após uma pequena pausa respondeu um pouco constrangido:

- Ainda nem nós mesmos sabemos, professor. Melhor aguardamos mais um pouco. Acredito que somos muito jovens.

- Nem tão jovens assim, Iago – acrescentou o professor. Vocês já são duas pessoas maduras, dois professores com plenas condições de manterem uma família.

- Professor Mackenzie, acho que agora não é o momento oportuno para discutirmos o assunto. Melhor hoje nos atermos ao prêmio hoje muito bem merecido ganho por Iago – disse Annya salvando o namorado da desconfortável situação.

****

Capítulo XVII - Casamento na Família

No outro dia Iago acordara no hotel já na hora do almoço. Quando se aproximou do restaurante encontrou Annya que o esperava lendo um livro. Era incrível como a pele e o rosto dela não deixavam nenhuma marca da festa do dia anterior. Parecia que havia dormido o melhor dos sonos durante horas a fio. Já Iago estava mal disposto e cansado, a noite havia sido intranqüila. Sentaram se a mesa para o que seria o desejum de ambos. Annya então disse:

- Você parece não ter dormido muito bem, Iago. Demorou ainda muito se acalmar de ontem e conseguir dormir?

- Fiquei rolando no colchão ainda por pelo menos uma hora e meia, mas você parece que já chegou desmaiando, não é? Está com uma cara de quem dormiu profundamente.

- Na verdade, também demorei um pouco pegar no sono. Não se deixe enganar pelas aparências, estou muito cansada. Ainda fiquei algum tempo pensando no que o Professor Mackenzie disse.

- O que ele disse que te deixou assim? Nós conversamos sobre tantas coisas – disse Iago que em seguida já imaginava a resposta, mas não teve coragem de arriscar.

- Acho que você já sabe o que quero dizer – redargüiu ela passando a vez de volta a ele.

- Não, não faço a menor idéia. Discutimos tantos assuntos diferentes.

- Então deixa pra lá – respondeu ela já impaciente.

- Isso também não acho certo. Agora gostaria de saber. Seria por um acaso a respeito daquela história… de casamento – conseguiu ele finalmente dizer.

- Não era isso. Mas porque você citou este assunto? – Annya havia conseguido o seu intento e agora tinha que segurar o assunto sem se comprometer.

Iago por sua vez sentia-se numa bem desconcertado naquela posição que se encontrava. Caíra na armadilha que havia sido cautelosamente preparada. Não podendo mas manter o seu silêncio disse.

- Por nada, não sei porque comentei isso… Achei que talvez este assunto tivesse lhe chamando a atenção, mas se não era isso o que era então?

Ela agora não podia facilitar. Ele estava tentando escapar-lhe.

- Não importa mais, era bobagem. Fiquei curiosa por você ter imaginado que você este assunto do casamento, eu nem lembrava mais disso. Porque pensou que eu poderia ter interessado por isso.

- Não sei, porque? Você não tem nenhum interesse em se casar comigo? – disse ele um pouco nervoso.

- Meu bem, o que é isso? Você, por acaso, está me fazendo uma proposta?

- Não – disse ele secamente. Estava apenas curioso para saber se você tinha algo contra. Você nunca pensou nisso?

- Pensei, sim. Acredito que seria algo verdadeiramente bom se acontecesse conosco. O que você acha? – respondeu Annya achando sua única oportunidade em abrir-se agora.

- Annya… não imagino nenhuma outra pessoa com quem me casaria. Acho que realmente nossa relação foi longe demais para ter volta. Só penso que a melhor hora não seria por agora.

- Porque não?

- Ainda não nos conhecemos o suficiente, penso eu. Melhor seria darmos mais um tempo.

- Iago, já estamos saindo há mais de um ano. Sei que não é muito, mas acredito sinceramente que o conheço bem. Nossa idade já está ficando também avançada. Eu, por exemplo, não encontro mais amigas minhas solteiras. Não vejo empecilho algum para nossa união; a não ser, é claro, que você não queira.

- É claro que quero, meu bem. Só não sei se estava preparado para o momento, mas sei que ele seria sem dúvida com você. Dê-me mais um tempo para pensar sobre o assunto.

- Claro, afinal só comentei isso porque foi você quem puxou o assunto. – disse ela descaradamente.

Annya amava sinceramente a Iago. Achava no entanto que estava ficando muito velha. Até mesmo seu irmão caçula havia se casado no ano passado. Por isso pensava logo em manter um relacionamento mais sério. Não elaborou estas artimanhas por ser uma pessoa ardilosa. Fez isso unicamente para acelerar um pouco os passos de Iago que andavam muito vagarosos, no ponto de vista dela.

Logicamente ao voltar para Bortuca Iago continuava pensando sobre o assunto. Algo que antes ele nunca havia cogitado agora andava as voltas em sua mente. Casar-se? Isso era um fato novo. No entanto percebia aos poucos que os companheiros de sua idade estavam realmente todos ou já casados ou se casando. Nemis por exemplo já tinha data marcada para unir-se em matrimônio com Alex, não sabia quando, mas tinham. Kamnan já havia casado há algum tempo. Poderia citar muitos outros exemplos, só mesmo Gustav e ele pareciam manter-se solteiros.

Com o passar do tempo a idéia foi sendo aos poucos amadurecida na cabeça de Iago por Annya. Ela como sempre não gostava de dar a impressão de estar muito interessada. Ele sim deveria ter a iniciativa de pedir-lhe em casamento. Assim havia sido com sua mãe e também deveria ser com ela. Os meses foram se passando e o professor ainda não tinha tomado uma decisão. Annya já começava a se preocupar.

Iago, no entanto, não tinha se esquecido do assunto que permanecia em sua mente. Ele sabia que nunca tomaria tal decisão sem antes consultar sua família. Não tinha muito contato com os familiares, mas nesses momentos de decisão considerava de extrema importância o parecer dos pais. Decidiu, portanto enviar-lhes uma carta. Gostaria de ter podido ir pessoalmente perguntar-lhes sobre o assunto, mas estava muito atarefado com as atribuições do ano letivo. Não poderia deixar seus alunos sem as aulas nos próximos dias. O período de provas já se aproximava.

Em resposta a sua correspondência Iago teve uma surpresa muito maior do que a esperada. Certo dia repentinamente encontrou sua mãe em visita na casa da Tia Ivety. Ao vê-la ele ficara muito surpreso e feliz. Gostava muito de conversar com sua mãe e já há muito tempo os pais não lhe faziam visita. Durante os primeiros dias parecia até mesmo uma visita normal. Não se tocou no assunto da correspondência e muito menos sobre casamento. Certo dia entretanto quando chegou em casa e foi conversar sozinho com sua mãe, ela lhe disse:

- Meu filho, você sabe porque vim, não?

- Pelo menos pensei que sabia, mãe. No entanto, desde que você chegou aqui conversamos sobre os mais diversos assuntos e por isso agora estou na dúvida a respeito do que realmente a trouxe aqui.

- Não há nenhuma dúvida. Estou aqui mesmo devido a sua carta de recebemos a aproximadamente uma semana.

- Porque você não disse nada até hoje então? – perguntou Iago confuso.

- Mais uma vez você pergunta algo que já sabe a resposta. Este assunto deve ser tratado somente entre a família e de forma discreta. Como imagina, não gostaríamos de tratar disso na frente da sua Tia.

Depois de uma pequena pausa ela ainda acrescentou:

- Estou aqui unicamente para apoiar a sua decisão. Ficamos muito contentes quando conhecemos a Annya, e ela pareceu-nos alguém que gosta verdadeiramente de você e o apóia em seus objetivos. Não poderíamos desejar nada melhor.

- Mas, minha mãe. – interrompeu Iago. Ao enviá-la a carta ainda não disse estar totalmente decidido quanto ao assunto. Pensei apenas em saber da opinião da família caso o casamento venha um dia mesmo a efetivar-se.

- Você pareceu me estar mesmo na defensiva na carta. Imaginei que estava sendo apenas discreto mas percebo agora que ainda existe alguma dúvida em relação a sua escolha. Com relação a este ponto não posso ajudá-lo muito, meu filho. Cabe a você saber se realmente ama esta mulher ou não.

- Nesse ponto não tenho dúvidas, mãe. Eu a amo muito e não sei com quem mais poderia casar-me se não fosse com ela.

- Então não sei qual é o problema. – respondeu a mãe confusa. Idade os dois já tem, estão até mesmo passando da hora. Eu estava até imaginando que talvez você não fosse casar-se nunca.

- O problema é que não sei se esta é a hora certa.

- Acho que o melhor que você tem a fazer é discutir isso abertamente com ela. Tente ver o que ela acha da idéia. Talvez possam chegar em um consenso.

Ao final desta conversa Iago acabou mesmo é ficando ainda mais confuso. Nem ele mesmo entendia o que queria esperar. Porque não se sentia ainda pronto? Decidiu que não comentaria nada com Annya até descobrir isso.

No outro dia ao encontrar-se com ela agiu normalmente, como se aquelas dúvidas não o estivessem remoendo por dentro. Tiveram um dia excelente onde conversaram sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Curtiram-se um ao outro apenas. Naquele dia Annya disse-lhe que teria que fazer uma pequena viagem para um curso oferecido aos professores pela Escola Técnica. Ficaria uma semana assistindo a diversas palestras sobre o que estava acontecendo nos meios da literatura moderna. Seria muito bom, acrescentou ela. Principalmente porque iria com a mãe e dessa forma não se sentiria muito sozinha. Iago não gostou muito da idéia de ficarem uma semana inteira sem se encontrar, mas logicamente não poderiam ficar grudados um ao outro o tempo todo. Este curso tinha tudo para ser excelente para Annya. Ela parecia muito entusiasmada.

Dessa forma então saiu ela em viagem. Iago foi a casa dela para despedir-se. Estava um pouco chateado com a situação. No primeiro dia em que não pode encontrá-la ficou um pouco perdido, não sabia o que fazer. Achou que seria interessante voltar as suas experiências no laboratório para passar o tempo.

O laboratório estava uma bagunça quando chegou, há algum tempo ele não entrava mais ali para realizar experimentos. A primeira providência que resolveu fazer foi limpar o local. Organizou os instrumentos em determinados locais, limpou o chão e os móveis, organizou papeis e livros. Aos pouco o laboratório foi novamente tomando a antiga forma. Ainda não estava muito bom, mas pelo menos já havia feito melhoras significativas.

No segundo dia voltou novamente ao laboratório. Agora que a fase de arrumação estava praticamente terminada. Decidiu testar os equipamentos novamente. Colocou para funcionar o seu gerador de eletricidade estática, reproduziu algumas experiências de indução, condução e forças elétricas. Repetiu alguns interessantes experimentos envolvendo um conjunto de esferas metálicas cortadas ao meio que demonstravam que as cargas elétricas se concentram na superfície exterior à mesma. Isso havia sido demonstrado há algum tempo por um jovem pesquisador. O fenômeno era realmente interessante.

Durante o terceiro dia começou a sentir muita falta de Annya. Ele estava gostando de estar de volta aos experimentos, aquela antiga vontade adormecida parecia novamente se acender dentro dele, mas apesar de tudo isso algo lhe parecia faltar. Para não pensar mais sobre o assunto começou a dedicar-se mais profundamente aos seus trabalhos. Iago não havia ficado de todo fora do meio científico até porque sua posição de professor impedia que isso ocorresse.

Finalmente recebera uma carta de Annya no quarto dia. Dizia ela que estava gostando muito do curso. Encontrara professores incríveis com enorme conhecimento teórico e prático, já que muitos deles eram também escritores. Acrescentava ainda que sentia muita falta dele. Seria excelente o dia em que pudessem novamente se abraçar. Essas palavras ao invés de trazerem alívio a Iago pareciam aumentar-lhe ainda mais a saudade. Ele não entendia porque afinal eram apenas sete dias.

No último dia da espera ele já não agüentava mais de expectativa. Não conseguiu se concentrar em nada no laboratório, por fim decidiu que o melhor seria visitar o professor Saltzmann para conversarem um pouco.

Quando chegou lá o professor estava trabalhando com afinco em alguns interessantes experimentos. Ele ao contrário de Iago não parara um segundo sequer de estudar os fenômenos elétricos. Quando viu o seu colega de tantas publicações chegar depois de tanto tempo ficou extremante contente. Conversaram sobre muitos assuntos. Discutindo inicialmente o que havia cada um feito nos últimos tempos. O professor depois da última publicação que teve com Iago continuou investigando os fenômenos de indução e fluxo elétrico. Obteve alguns resultados interessantes a respeito dos materiais, mas nada de grande prestígio. Há algum tempo resolvera mudar um pouco a linha de seu trabalho. Estava preferindo focar nas questões relativas as forças elétricas induzidas. Algumas interessantes experiências conseguiam até mesmo provocar a levitação de objetos leves. A medida que foi discursando Iago percebia o quanto havia perdido neste tempo em que ficara parado. O professor ainda relatou outra interessante experiência. Ele disse-lhe:

- Um renomado professor de Ciências Biológicas apresentou um experimento extremamente interessante. O experimento acabou chamando tanto a atenção dos pesquisadores de Eletricidade quanto de seus colegas Biólogos, de qualquer forma acredito que o fato interessa muito ambos os lados. De acordo com seus resultados alguns animais produzem Energia Elétrica em seus músculos…

- O que?- disse Iago espantado com a notícia.

- Confesso que o fato é realmente surpreendente. O fato é que ele percebeu a contração dos músculos de certos animais quando ele fechava um circuito formado com seus tecidos. O mais surpreendente ainda está por vir. Ele disse que mesmo com a criatura morta o fenômeno era observado.

- Toda essa estória me parece um pouco confusa e estranha, professor. Como são os detalhes do experimento afinal.

- Isso ainda não sei lhe informar. O artigo por ele submetido, mas ainda não foi publicado. O que sei veio apenas de alguns colegas que assistiram a algumas palestras realizadas pelo próprio Professor Augusto.

Iago gostara da visita que fizera, pelo menos conseguira descontrair-se um pouco. Esquisito, no entanto, foi aquela última estória que ele contou. Não entendia como ele pudera acreditar em tamanha balela. Certamente aquele homem deveria ser alguém se utilizando de truques para conseguir um pouco de atenção.

Àquela noite Iago dormira intranqüilo. Estava muito contente de que iria encontrar-se finalmente com Annya. Aquela semana pareceu-lhe uma eternidade, uma verdadeira tortura esperá-la passar morosa e sem pressa. Teria que esperar ainda mais um pouco já que ela chegaria à noite. Como haviam combinado, ele iria para a casa dela naquele dia para encontrá-la.

Ao cair da tarde daquele dia seguiu diretamente para casa. Queria arrumar-se antes de poder rever a namorada. Assim que terminou seguiu para o ponto de encontro, a casa dela. Na porta foi recebido pelo Sr. Markus que já o aguardava. Assim que entrou percebeu a situação que estavam passando. Por causa do curso as duas mulheres da casa acabaram viajando, o que veio a tornar-se um transtorno para a rotina. A casa largada aos cuidados do pai e do filho estava totalmente bagunçada. Melhor será arrumar tudo antes que elas cheguem, disse Iago. Ficou então acertada uma distribuição de tarefas onde cada um faria uma parte do serviço. Para Iago coube a cozinha, o filho ficaria com os quartos e o Sr. Markus cuidaria da sala e banheiros. Quando finalmente terminaram sentaram-se os três, contentes por terem conseguido terminar a tempo. Não estava excelente, mas pelo menos muito melhor. Ficaram então os três reunidos na sala conversando sobre a semana.

Pouco depois chegaram as duas mulheres. Annya não gostou nem um pouco do desleixo com que seu namorado a estava esperando. Ele não havia percebido que por causa da arrumação acabara se sujando, e estava também suado. Seu perfume já não era perceptível e seu cabelo encontrava-se todo emaranhado. O Sr. Markus teve que intervir explicando o que havia ocorrido para acalmar a situação.

Tirando o desentendimento inicial causado pelo estado de Iago os casal de namorados estava muito contente por se reencontrarem. Ficaram conversando isolados do resto da família por algum tempo. Annya contando todos os detalhes. Iago gostaria de dar-lhe um beijo naquele momento, mas não se atreveria ali na frente dos pais dela. Depois do jantar finalmente tiveram um tempo sozinhos. Aquela saudade acumulada durante todos aqueles dias até que enfim pode ser drenada. Uma mistura de alívio e felicidade tomava conta do coração de Iago. O medo do comprometimento se desfez então neste caldeirão de sentimentos apaixonados. Na verdade ele não se desfez, apenas transformou-se, agora o medo era de perdê-la, de ficar mais um minuto se quer longe dela.

Poucos dias depois Iago pediu-lhe a mão em casamento. A cerimônia foi realizada com toda a simplicidade e durante a lua-de-mel viajaram pelos belos lugares de Advla. Quando chegaram instalaram-se em uma pequena casa nas redondezas da Universidade de Bortuca.

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Capítulo XVIII - A Bioeletricidade

A lua-de-mel de Iago durara em torno de duas semanas. Quando chegou sua vida rapidamente voltou ao normal. Com a diferença de que agora seguia para sua casa ao invés da casa de sua Tia. Chegando lá Annya estava sempre a sua espera para poderem fazer o lanche da noite. Durante muito tempo ele continuou fazendo a sua rotina de sempre. Depois das aulas permanecia algumas horas em seu laboratório e ia para casa. O número de instrumentos utilizados para o estudo da Eletricidade foi com o tempo gradativamente aumentando. Já possuíam vários modelos de geradores eletrostáticos, armazenadores de energia, diversos materiais condutores, isolantes, esferas metálicas, pêndulos elétricos e geralmente nestes laboratórios era também comum encontrarem os chamados magnetos. Apesar dos estudos dos magnetos ser outro ramo da Ciência este sempre esteve muito próximo dos experimentos Elétricos.

Para quebrar um pouco esta rotina às vezes Iago também seguia para a casa do Professor Saltzmann. Foi lá que recebeu a notícia de outra grande descoberta da Eletricidade.

- Iago, você ficou sabendo da última publicação que saiu? – disse Saltzmann.

- Não, não fiquei sabendo de nada extraordinário.

- Bem, seria também um exagero de minha parte se dissesse que o artigo tivesse tido uma enorme repercussão, mas pelo menos foi considerável. Trata-se de um trabalho que tenta refutar os resultados sobre a Bioeletricidade descobertos pelo professor Augusto. Lembra-se de quando lhe citei o fato?

- Sim, agora estou me lembrando. Como eu havia lhe dito esse Augusto estava querendo apenas querendo causar alguma repercussão. Acho mais do que natural que tenha sido rapidamente desmentido.

- Poderia até ser, mas até o presente momento isso ainda não foi conseguido. O fato é que os interessados pelo assunto estão divididos entre as duas teorias. Por um lado o professor Augusto tentando demonstrar a existência da Bioeletricidade e por outro o professor Ramires dizendo que o fenômeno foi causado por uma descarga elétrica no corpo morto do animal.

- Não sei porque este assunto está te interessando tanto professor Saltzmann.- disse Iago já um pouco irritado. Eu pessoalmente nunca gostei destas experiências com animais vivos ou mortos. Se tivesse gostado estaria estudando na área de humanas.

- O fato não é esse, mas sim de que devemos estar sempre atentos para as mínimas coisas que acontecem em nossa área, e você já deveria saber disso. Mas quero apenas continuar um pouco mais a explicar-lhe sobre o experimento agora que consegui mais detalhes. O professor Augusto pelo que me parece sempre se interessou muito pela área de eletricidade além da Biológica. Ele estava realizando vários testes onde aplicava choques em animais mortos utilizando um armazenador de energia. O professor queria na verdade estudar as contrações musculares causadas por estas experiências. Os choques eram aplicados tanto nos músculos quanto nos nervos dos animais. A partir dessas experiências alguns pesquisadores começaram a se utilizar desses animais para a detecção de eletricidade. O professor Augusto, entretanto continuava tentando descobrir uma teoria que explicasse aquelas contrações. Ele tinha certeza de que ali encontraria a reposta para o funcionamento dos músculos. Um dia um aluno relatou-lhe um interessante fenômeno que observara enquanto tentava reproduzir algumas experiências do professor. Ele havia colocado o animal sobre uma bandeja de latão e conectado a ela um fio de cobre, outro fio estava ligado aos nervos do animal. Um dos fios ele iria colocar na terra para formar um bom contato e o outro levaria para ligá-lo ao armazenador, por descuido curto-circuitara os dois fios e por mais incrível que pareça os músculos do animal se contraíram sem mesmo precisar da fonte de energia. O professor repetiu as experiências e elaborou a hipótese da Bioeletricidade onde ele explicava sobre o funcionamento dos músculos. Alguns tecidos seriam capazes de produzir eletricidade e assim ativar os músculos. O professor Ramires porém pensou em outra explicação para o fenômeno, a utilizarão dos dois metais diferentes seriam quem na verdade estava produzindo a eletricidade e assim causavam a contração dos músculos do animal.

- A história é realmente interessante. Acho que eu neste caso estou mais de acordo com o Ramires. Essa, dos tecidos produzirem essa tal de Bioeletricidade me parece muito estranho. – respondeu Iago.

- Penso que você esta sendo precipitado em suas conclusões. O professor Augusto anda tentando realizar outros experimentos para comprovar sua teoria. Eu estou mais a favor do ponto de vista dele. Afinal já conhecemos certos peixes que parecem causar choques quando tocados. Choques estes semelhantes aos causados pelos armazenadores.

- Confesso que não estou em posição de defender bem meu ponto de vista. Precisaria estudar mais sobre o assunto.

- Eu tenho alguns artigos aqui que possam interessar-lhe. Acredito que é muito boa literatura. Você pode achar mais procurando em outras revistas também. Quando tiver sua conclusão volte para podermos conversar. Acredito que vá mudar sua posição e concordará com a Bioeletricidade que me parece uma fantástica teoria que nos auxiliará na compreensão de nós mesmos. Poderá, quem sabe, talvez no futuro até mesmo ser usada na cura de diversas doenças.

Iago voltou aquele dia para casa com mil suposições sobre o assunto rodando em sua cabeça e vários papéis debaixo do braço para serem estudados. A princípio o tema não era de grande interesse para ele. Essa bioeletricidade era um estudo de outra ciência, mas se por um acaso Ramires estivesse certo poderia vir a ser muito interessante. No entanto Saltzmann mesmo dissera que tudo indicava que o professor Augusto ganharia aquela batalha. Aquela noite ele começara a estudar os papeis pouco antes de ir dormir. Mas o que acabou acontecendo estava totalmente fora de seus planos. O assunto começou a ganhar real interesse e ficou a noite inteira acordado lendo e relendo aqueles tratados.

No outro dia estava decidido a refazer aqueles experimentos para entender mais sobre o assunto. Precisaria, entretanto, arranjar alguns daqueles animais e isso não lhe agradava em nada. Nunca suportara ver sangue e não gostava de saber que causaria mal a um ser vivo, mas desta vez não teria como escapar disso. A melhor solução que encontrou foi pedir o auxílio de algum estudioso de anatomia animal que desse aulas na Universidade de Bortuca. Perguntando aos colegas ficou sabendo que poderia tentar com um homem chamado Aurélio, muito conhecido na Faculdade de Ciências Biológicas por suas experiências em anatomia animal. Tinha fama de ser um exímio dissecador e já catalogara a anatomia de diversos animais.

À noite Iago seguiu para encontrar-se com o citado professor Aurélio. A princípio teve dificuldade para achá-lo. Quando chegou perguntando a um grupo de estudantes se saberiam informar-lhe onde estava o professor, eles responderam:

- O açougueiro? O Senhor deve encontrá-lo certamente na sala de dissecação. Basta seguir este corredor até a última porta à direita.

Como não podia deixar de ser aquela recepção estranhou um pouco Iago. O açougueiro, quem era esse homem afinal? O corredor estava escuro devido a fraca iluminação do local. Ao entrar pela porta viu apenas um homem gordo, baixo com um garrafão de vinho ao lado, iluminado apenas por um lampião e extremamente concentrado na dissecação de um pequeno animal que estava estirado sobre sua mesa.

- Professor Aurélio? – chamou ele, no entanto não obteve resposta. Decidiu tentar novamente.

- Professor Aurélio!

Mais uma vez o homem continuara sem respondê-lo. Aquilo não o estava agradando em nada. Ali naquele local sombrio diante deste homem que permanecia impávido diante de seus chamados. Achou que seria melhor aproximar-se mais. Quando repetiu sua pergunta o homem levantou a cabeça sobressaltado. Aproveitou para perguntar-lhe:

- O Senhor é o professor Aurélio?

- Como? – disse o homem com uma voz grossa. O que você disse?

- O Senhor é o professor Aurélio? – repetiu Iago.

- Oh, sim, sou eu mesmo. Desculpe-me, mas tenho um grave problema de audição no ouvido esquerdo. A quem devo a honra?

- Meu nome é Iago. Sou professor do prédio de Septologia e não tenho muito prática em experimentos que lidam com animais. Estou aqui para pedir-lhe auxílio em alguns experimentos que pretendo realizar. Gostaria muito se você pudesse trabalhar comigo…

- Senhor Iago, desculpe-me, mas estou muito ocupado em meus próprios estudos. Além disso, não gosto de trabalhar com outras pessoas. Já tive muitos problemas com antigos parceiros de pesquisa meus.

Iago pensou que talvez fosse melhor desistir de tentar convencer aquele homem estranho. A razão lhe dizia que melhor seria procurar outra pessoa mas algo no modo de agir daquele homem parecia dizer-lhe que ele seria um grande companheiro de pesquisas. Resolveu tentar mais uma vez.

- Mas professor, o Senhor nem ao menos quis escutar de que se tratava o meu estudo.

- Não escutei porque acho muito difícil algo me convencer a parar com os estudos desta espécie de roedor na qual atualmente estou envolvido. Você, entretanto, me pareceu ser uma boa pessoa. Então se quiser falar agora, enquanto termino com este animal estarei escutando atenciosamente o seu projeto.

O ambiente não era dos mais agradáveis para Iago. Sentia-se agoniado com todo aquele sangue e o animal ali estirado. O homem a sua frente cortando cautelosamente órgãos e tecidos da criatura. Tentou olhar para outra direção, pois não agüentaria por muito tempo aquela cena. Começou falando:

- Não sei se o Sr. ouviu falar dos experimentos do professor Augusto. Ele realizou certos experimentos em que diz comprovar a existência de uma energia denominada Bioeletricidade que explicaria a capacidade motora dos músculos. Outro professor, o Sr. Ramires, derivou uma teoria diferente. Ele acredita que o que ficou efetivamente comprovado com os experimentos foi uma nova fonte de Eletricidade. Eu sou professor do curso de Septologia, especializado em Energia Septal e Eletricidade, por isso gostaria de refazer os experimentos do professor Augusto e tentar estabelecer alguns fundamentos sobre o assunto. No entanto nunca lidei com experimentos envolvendo seres vivos e meu conhecimento de anatomia é mínimo. Por isso estou aqui requisitando sua ajuda para que possamos trabalhar juntos nessa pesquisa.

Quando terminou houve um silêncio na sala, o professor Aurélio parecia mais uma vez não ter escutado o que ele havia dito. Ficara apenas ali continuando a dissecar o animal como se nada tivesse sido dito. Então levantou a cabeça para Iago e disse:

- Professor, você acabou de tratar de um assunto de meu alto interesse. Acredito que formaremos uma bela dupla de trabalho. No entanto não vou para com essa outra pesquisa que estou fazendo no momento. Por isso poderei me dedicar aos experimentos somente após as 18:00h. Se quiser trabalhar comigo deverá aceitar estas condições.

As condições impostas pelo professor, na verdade, eram as mesmas para Iago já que até aquele horário ele estaria dando aulas, por isso não houve problemas. Decidiram que começariam já no próximo dia a preparar os experimentos que seriam realizados no laboratório de Iago. Isso não lhe agradou nem um pouco, não seria muito bom ter que ficar de repente à volta com animais no seu laboratório, mas seria mais fácil acomodar pequenos animais ali do que transportar os equipamentos elétricos e alojá-los no bagunçado laboratório do professor Aurélio.

No outro dia começaram a realizar as adaptações para os experimentos. Gastaram todo o tempo somente organizando e rearranjando o local em que trabalhariam nos próximos meses. Já no segundo dia começaram a fazer a primeira dissecação. Iago passou mal duas vezes durante o processo e teve até ímpeto de desistir de tudo, mas o professor Aurélio recobrou-lhe o juízo. Ele começou então a explicá-lo a beleza do funcionamento do corpo de um ser vivo. Citou nome de nervos e comparou a anatomia com a de outros seres e até mesmo dos seres humanos. Para realizar o experimento cortaram então o animal ao meio e expuseram o seu nervo principal, com a ajuda do gerador estático e do acumulador de energia injetaram o fluxo de eletricidade causando a contração dos músculos. Assim estava realizada a primeira experiência. Nos dias seguintes seguiriam com as próximas.

No terceiro mês já haviam realizado todos os experimentos do professor Augusto e chegaram a conclusões completamente opostas. O professor Aurélio tornou-se um ferrenho defensor das teorias de Augusto enquanto Iago apoiava as idéias de Ramires. Isso gerava discussões eternas entre os dois, mas nunca houve um desentendimento real, ao contrário eram muito bons amigos quando não estavam tratando do assunto.

Já por aquela época nasceu o primeiro filho de Iago, um rapaz que recebeu o nome de Bernardo. Durante a celebração do nascimento do primogênito os professores Aurélio e Saltzmann se conheceram. Tornaram-se imediatamente grandes amigos, já que compartilhavam as mesmas idéias em relação a Bioeletricidade. Os dois uniram suas forças e colocaram como meta convencer Iago da veracidade das conclusões de Augusto.

- Iago, o que você me diz sobre o fato de que alguns animais aquáticos possam dar choques quando tocados. Não será isso a produção da Bioenergia em grande quantidade para defesa? – disse o professor Saltzmann.

- Caro Saltzmann, o que posso afirmar-lhe é que esses animais são extremamente específicos e não podemos generalizá-los para todos os outros seres. Além do que acho muito precipitado vocês se basearem apenas no fato da contração muscular do animal para dizer que ele gerou um fluxo de eletricidade. Acredito que essa teoria do Sr. Augusto careça de bases sólidas para se firmar.

- Assim como carece a teoria de Ramires de uma base grande para afirmar que o contato entre dois metais diferentes seja capaz de gerar um fluxo. Essa de que o fluxo é tão pequeno que não possa ser facilmente medido é difícil de se acreditar. Mesmo utilizando-se pedaços maiores de metal não se consegue nada observável, como explica isso?

Essa pergunta era realmente um tanto desconfortável para Iago. Felizmente Annya chegou para mais uma vez lhe salvar.

- Hei, vocês! Venham se juntar aos outros e parem de discutir sobre trabalho. Estamos numa festa aqui. Iago venha ver o seu filho, você parece ser o único que não dá a mínima bola para ele.

- Eu, eu adoro meu filho. Deixa-me dar um abraço nele. Cadê?

Dessa vez ele escapou por pouco, mas essa situação não iria durar muito tempo. Cada vez mais os aliados da teoria de Ramires iam diminuindo em número. Vários pontos não podiam ser bem explicados. Carecia-se de fundamentos de outra teoria, a eletroquímica. Mas isso estava apenas começando. O fato começaria a ficar efetivamente complicado quando um dos colaboradores do professor Augusto realizou uma experiência onde se observava a contração do músculo animal e dessa vez utilizando-se apenas um tipo de metal. Com isso a teoria da Bioeletricidade parecia ganhar cada vez mais força, em detrimento de Ramires. No entanto ainda existia uma última esperança em se manter a teoria. As contrações musculares observadas quando se utilizava um único metal eram muito menores do que quando se usava dois. Desta forma Ramires continuava firmando sua teoria, sem, no entanto poder prová-la.

Depois desta última jogada Iago ficara mesmo em posição desvantajosa em relação a seus amigos. Entretanto assim como Ramires não daria o seu braço a torcer. Iria ele buscar uma forma de provar que a união dos dois metais efetivamente produzia um fluxo de eletricidade. O problema era a necessidade de se ter um sensor que fosse capaz de medir esse tão pequeno fluxo.

Iago voltara ao tempo em que permanecia horas a fio dentro do laboratório que agora estava com um cheiro insuportável daqueles animais. Pediu ao professor Aurélio que levasse de volta aqueles bichos, pois pretendia mudar sua área de pesquisa. Aurélio também ficara contente, pois gostaria de voltar ao seu pequeno laboratório e continuar seus antigos processos de dissecação. Os dois voltavam com bom conhecimento sobre o assunto que estudaram e por isso o tempo não foi de todo perdido, apesar de não terem feito nenhuma publicação.

Com o laboratório de volta ao normal Iago pode se concentrar melhor nos seus experimentos. Pretendia conseguir demonstrar a produção da energia através dos metais sem precisar de nenhum tecido animal para isso. Confidenciou sua idéia ao professor Saltzmann que o aconselhou a desistir dessa velha teoria que desmoronava cada dia mais. Melhor seria que ele encara-se os fatos. Disse ainda que ouvira dizer que até mesmo Ramires estava desgostoso com sua suposição e que ainda não tinha se retratado perante a sociedade científica por mero orgulho, mas que no entanto ele não fazia mais nada na tentativa para afirmar suas idéias. O único problema era que Iago estava decidido e que iria até o fim. Só depois que tivesse certeza de que estavam errados desistiria do projeto.

As experiências do professor, entretanto pareciam não levar a lugar algum. Sempre que tentava observar o fluxo elétrico dos metais falhava. Com isso foi tornando-se mais desgostoso além de permanecer pouco com sua família. Chegava sempre tarde em casa, sua aulas também não eram mais preparadas e perdiam muito em qualidade. Annya discutiu o assunto com o professor Saltzmann, pois estava preocupada com o marido e decidiram que o melhor seria ele dar umas férias para seus experimentos.

No dia seguinte o professor Saltzmann fez uma visita a Iago no laboratório. Encontrou-o com a barba ainda por fazer e mal cheiroso. Não imaginara que a situação estivesse tão crítica. Foi recebido, entretanto com alegria pelo amigo. Quando a conversa começou a encaminhar para o lado das experiências que estavam fazendo no momento Saltzmann achou melhor mudar de assunto. Pensou que o melhor era tentar fazer Iago esquecer essas idéias amalucadas ao invés de enfatizá-las através da conversa. Sabia que também não poderia tocar no assunto de desistir do projeto diretamente, o amigo era animoso, e cortaria rapidamente qualquer tentativa racional de diálogo. Resolveu então dizer:

- Iago, o que você acha de fazermos uma visita a algumas peças fechadas ao público do museu de Energia Septal amanhã à noite? Ouvi dizer que eles têm interessantes instrumentos por lá.

- Gostaria muito professor Saltzmann, mas infelizmente tenho muito trabalho que fazer aqui ainda. – respondeu Iago secamente.

- Como eu disse, eles possuem instrumentos muito interessantes por lá. Talvez você pudesse achar alguma coisa que encaixasse em seus experimentos. Este tipo de interação é muito positiva para a pesquisa e penso que seria bom para você. Não pense que encontraremos apenas instrumentos fantasmagóricos e incompreensíveis. Existe muita coisa que já conseguimos explicar. O que você acha? Vamos lá, um dia não lhe fará mal, eu garanto.

Depois de pensar um pouco Iago concordou. Achou que estava mesmo na hora dele sair um pouco daquelas quatro paredes e tentar obter alguma ajuda de fora. O professor Saltzmann em seguida acrescentou que ele poderia levar Annya, seria um passeio muito bom para ela também. Ao final tudo ficou acertado para o dia seguinte.

Iago gostou muito da visita ao museu. Ali eles puderam ver expostos vários artefatos usados pelos antigos. Supunha-se que todos eram movidos pela chamada energia Septal que cada vez mais se comprovava era nada mais do que energia elétrica. Um estudo recentemente realizado em Trinado havia demonstrado que os cabos utilizados para conectar as centrais de energia até as cidades eram constituídos de condutores, isso era mais um forte ponto de apoio para se firmar a conexão entre a Eletricidade e energia Septal.

Dentre os muitos aparatos havia uma sessão especial fechada aos visitantes normais. Ali se encontravam os equipamentos que estavam expostos nos museus dos antigos povos, estes por serem mais rudimentares facilitavam a vida dos pesquisadores. Esta sessão atraiu muito a atenção de Iago que antes nunca a havia visitado. Encontrou vários rolos de condutores conectados a eixos móveis, pode ver, o que se supunha, seriam os iluminadores de ambiente e outros artefatos que eram de finalidade completamente desconhecida. Para Iago a idéia de a eletricidade ser a grande fonte para tudo aquilo era um mistério enorme. Até o presente momento ela não tinha nenhuma finalidade prática e era estudada somente por causa dos progressos que prometia. Durante a visita encontrou muitos outros pesquisadores elaborando estudos em cima daqueles dispositivos. Nesse momento ele percebeu que seria uma bobagem não aproveitar o que talvez estivesse ali já feito. Através de uma concessão previa os equipamentos eram emprestados e os estudiosos poderiam elaborar trabalhos mais minuciosos sobre ele. No entanto estes deveriam ser feitos dentro do próprio museu que possuía uma ala com várias bancadas.

O passeio foi bom não somente para Iago, mas para Annya que saiu um pouco de casa e pode ver o marido sentindo-se feliz o que também a agradava. A partir daquele dia o pesquisador passou a fazer visitas constantes ao museu e com isso começou a socializar-se melhor com outros colegas. Dessa forma as coisas começaram a voltar mais ao normal. Ele voltava novamente para dentro de casa, para sua família e aos poucos foi esquecendo aquela antiga obsessão.

Meses depois mais uma vez o inesperado ocorreu no estudo da Eletricidade. Um estudante de doutorado da própria Universidade de Bortuca conseguiu finalmente demonstrar a teoria de Ramires. Mais uma vez a controvérsia que envolvia a Bioeletricidade estava levantada. A notícia caiu como uma bomba sobre a sociedade científica que já considerava o assunto por encerrado. Iago ficou excitadíssimo com os resultados e não parou de afirmar durante dias a fio que tinha certeza que Ramires estava correto. Ele mesmo poderia ter descoberto se não tivesse afrouxado seus estudos no que considerava já a reta final. O experimento realizado era na verdade de fundamento bem simples, o que havia sido feito era nada mais do que um sensor de alta precisão que permitia detectar a presença de um pequeno fluxo de eletricidade e sem a necessidade de se utilizar nenhum tipo de tecido animal. Era o que ficou conhecido como Eletrômetro de Folhas. A origem do nome surgiu por causa da estrutura do equipamento que utilizava finíssimas folhas metálicas para detectar a presença da eletricidade. As folhas eram suspensas por um fio metálico e permaneciam fechadas, uma em contato com a outra. Quando alguma carga era transmitida através do fio, as folhas se carregavam e repeliam. Através do ângulo que elas faziam poderia se ter uma idéia da magnitude da energia que estava sendo medida. Com esse simples equipamento era possível detectar a presença das cargas geradas pela simples união de dois tipos diferentes de metais.

Mais uma peça do grande quebra-cabeça que levaria a descoberta de uma das mais incríveis energias havia sido descoberta. Uma nova onda de euforia foi gerada, o jovem estudante da noite para o dia saiu do anonimato completo para se tornar um dos mais respeitados estudiosos, sendo inclusive agraciado com o prêmio “Amigos de Wisan”.

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Capítulo XIX - O Último Adeus

Nos últimos tempos Iago estava de bem com a vida. A reviravolta acontecida a pouco levantara o seu ânimo. Todos que antes se mantiveram contra as teorias de Ramires tiveram agora que admitir a sua veracidade. Ficou claro, então, que na verdade estavam corretas tanto a teoria da Bioeletricidade quanto à da produção de fluxo elétrico pelo contato de dois diferentes metais. Até mesmo o professor Aurélio fez uma visita ao Iago para confirmar as hipóteses que o colega apoiava.

Os meses seguintes foram de tranqüilidade. Com o aumento da certeza de que a energia elétrica responsável por enormes revoluções o montante das verbas para a pesquisa cresciam grandemente. Devido a este fato Iago conseguiu mais financiamentos para melhorar e aumentar seu laboratório. Contava ele agora com dois ajudantes para auxiliá-lo nas pesquisas. O laboratório de energia elétrica ganhou novamente mais um aparelho através da nova descoberta, era o Eletrômetro de Folhas, usado como sensor. A grande revolução deste novo equipamento era sua capacidade de medir precisamente diminutas cargas elétricas.

Por este tempo a rotina do pesquisador se dividia entre seu laboratório e as idas ao museu onde estava sempre acompanhado pelos ajudantes. Num desses dias em que estava no museu Annya veio lhe visitar. Iago a princípio estranhou a atitude da mulher e assim que a viu percebeu que algo de errado havia acontecido. Quando ela aproximou-se lhe disse em tom sério:

- Meu Bem, preciso contar-lhe algo.

- O que aconteceu? – perguntou ele assustado.

- Infelizmente recebi a notícia de que sua mãe encontra-se muito doente. Acho melhor nós viajarmos o quanto antes para sua cidade.

- Mas o que ela tem afinal?

- Não se sabe ao certo. Ela repentinamente teve um ataque e metade de seu corpo estava agora paralisado. Os médicos dizem que existe tanto a possibilidade de voltar como de permanecer assim. Falaram ainda que, no entanto, a família não precisa se preocupar, pois ela está fora de perigo. No entanto acho que mesmo assim nossa visita é muito importante.

Saíram imediatamente para casa para arrumar as malas. Pegariam ainda o trem da noite. A mensagem com certeza dia pelo menos dois dias de atraso já que esse era o tempo levado pelo correio. Viajaram em um vagão dormitório durante um dia inteiro e chegaram em Gresnile na noite do outro dia. O tempo todo ele estava muito preocupado pois apesar de não encontrar-se muito com seus pais os amava profundamente. Sua mãe sempre lhe dera muita força e incentivo.

Quando chegou a sua casa encontrou um ambiente extremamente triste. A mãe estava deitada numa cama e o seu estado teve mais complicações desde o dia em que a carta havia sido enviada. O problema foi que a doença viera seguida de outras recaídas e tudo indicava que ela não teria muito mais tempo de vida. Iago entrou no quarto dela e a encontrou tranqüila mas sua fisionomia estava estranha. A sensação era causada devido à paralisia que lhe tomava metade do rosto, por isso sua expressão facial nunca era completa. Conversaram durante muito tempo e sua mãe disse-lhe:

- Meu filho, sei que não nos encontramos muito nos últimos tempos mas quero dizer-lhe que sempre tive muito orgulho de ser sua mãe. Você já realizou muitos grandes feitos para a população de toda a Advla. Agora você está dando continuidade a nossa família com uma grande mulher ao seu lado. Por isso penso que se o meu momento for este irei feliz encontrar-me com Deus. A Ele tenho somente que agradecer pelos maravilhosos presentes que sempre me deu. E você foi um desses grandes presentes.

Iago nesta hora desmanchava-se em lágrimas somente e não conseguia mas pronunciar palavras. Tinha muita coisa para dizer-lhe, o quanto a amava e estava grato mas infelizmente nada saia naquela hora de desespero. Apenas conseguiu balbuciar:

- Mãe, ainda não é sua hora. Você ainda tem muito que fazer conosco.

- Não acredito, meu filho.- disse ela calmamente. Penso que minha missão aqui está cumprida e sinto o chamado do Mestre. Não se preocupe com nada tudo continuará como antes.

Essa foi a última conversa que eles tiveram. Na mesma noite ela falecera. A notícia foi como um tiro certeiro que atingiu Iago. No entanto quem parecia mas sofrer com a situação era seu pai. Ele era um homem sisudo e conversara sempre muito pouco. Esta foi a primeira e única fez que Iago viu ele chorar. Derramou uma lágrima solitária que lhe escorreu seca pelo rosto. A sensação que passava era a de que gostaria de ir junto com ela, mas Iago não iria deixá-lo.

Ao voltarem para Bortuca trouxeram o pai com eles, para que não ficasse sozinho naquela casa grande. Seu Homero, pai de Iago, não fazia mais nenhuma objeção a nada. Parecia ter se desligado completamente do mundo externo. O filho dele estava também muito abatido tanto pela perda da mãe como pelo estado do pai, que antes sempre fora um homem muito ativo. Os jantares passaram a ser sempre silenciosos, somente o essencial era discutido.

O filho de Iago já estava por essa época com um ano de idade e começava a dizer as primeiras palavras. Neste período a disposição de Iago para a pesquisa era mínima e por isso passou a chegar mais cedo em casa. Apesar disso parecer bom Annya não estava gostando pois a alegria de sua marido parecia ter se esvaído com a morte da mãe. Como as coisas pareciam não estar melhorando com o passar do tempo um dia ela disse-lhe:

- Iago, isso não pode ficar mais assim. Sei que a perda de sua mãe trouxe grande dor para você. Mas tenho certeza de que ela não gostaria de ver você e seu pai neste estado. Vocês passam horas sentados no sofá, lendo e sem trocar ao menos uma palavra. Ninguém poderia pensar que a pouco tempo esta era um casa cheia de alegria e vida.

- Meu anjo – disse ele. Sei que isso não pode mais continuar assim mas não sei o que fazer. Não tenho mais forças para lutar, não sei o que ocorreu.

- Eu sim. Acho que a primeira atitude que você deveria ter para tentar melhorar as coisas é voltar as suas pesquisas. Não que eu não esteja gostando de você chegar cedo em casa, na verdade adoro, mas vê-lo assim me deprime. Por isso prefiro que nos encontremos menos, mas que pelo menos eu tenha de volta aquele jovem cheio de vontade com quem me casei. Volte aos seus estudos e ao laboratório, tenho certeza que aos poucos sua energia fluirá novamente. Falo isso porque sei que não pode viver sem a ciência e que é no fundo movido unicamente por causa dela. Às vezes sinto até uma ponta de ciúmes…

- Que estranho este conselho você está me dando. Você parece não se decidir. Quando antes eu ficava o tempo todo no laboratório vivia reclamando e agora quer que eu saia de casa.

- Não, não quero que você saia de casa. Quero apenas que volte a ser a pessoa que sempre foi. Quero apenas que continue sonhando e mantendo seus ideais de vida. Você ainda tem muito pela frente.

- Querida, eu já tentei muito desvendar os mistérios da ciência. Acredito até que tenha tido alguns poucos e insignificantes sucessos, mas já passei da idade de manter aquelas pesquisas malucas. O homem quando chega em certo ponto da vida perde aquela força e vontade características a sua juventude, por isso acredito que já dei o melhor de mim e tanto faz ficar aqui ou no laboratório.

- Não é verdade o que está dizendo e sabe muito bem disso. Você ainda tem muita vontade e muitos sonhos só está muito abalado para ver isso. Por favor, peço-lhe mais uma vez tente voltar. Passe esse mês indo todos os dias ao laboratório e se nada mudar não tocarei mais no assunto.

- Tudo bem – respondeu ele. Irei este mês todos os dias ao laboratório e passarei duas horas lá, mas vou logo lhe avisando. Estou fazendo isso unicamente por você e a partir do primeiro dia que eu voltar peço que cumpra o que disse e não volte a tocar no assunto.

Annya sabia que ele estava falando sério, mas como aquela era sua única chance aceitou a proposta. Iago então, todos os dias, passava duas horas no laboratório realizando suas pesquisas. Convocou novamente os seus ajudantes, mas desta vez apenas um deles aceitou voltar ao trabalho, era o César. O jovem continuava muito animado com a busca pela Eletricidade e ficara extremamente chateado quando o professor resolvera desistir das experiências que estavam realizando.

A última pesquisa que estavam realizando era um estudo para medir os diferentes fluxos energéticos produzidos pela junção de dois metais. Eles começaram a perceber que dependendo dos metais que eram unidos a deflexão do Eletrômetro de Folhas também variava. Realizavam um trabalho de catalogação destas medidas. O trabalho, entretanto não era inédito e outros pesquisadores já haviam publicado várias tabelas sobre o assunto.

Aos poucos aquele trabalho no início tedioso foi envolvendo Iago novamente nas malhas da ciência. Sem perceber começara novamente a discutir os assuntos com os colegas. Passou a visitar semanalmente o professor Saltzmann que gostou muito do trabalho que ele estava desenvolvendo e decidiu juntar-se mais uma vez a ele nesta pesquisa. Eles pretendiam conseguir os resultados mais precisos possíveis e para isso realizaram pequenas modificações no aparelho de leitura na tentativa de aumentar ainda mais sua precisão.

Com esse movimento a vida de Iago ia lentamente voltando ao normal, a vontade de viver ia crescendo, sem que ele percebesse, novamente dentro de seu coração. O pai dele acabara ficando também muito ligado à neta, o que foi de grande ajuda dentro de casa já que Annya estava ultimamente muito ocupada com as atribulações do serviço. O tempo nestes casos é o melhor e único remédio.

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Capítulo XX - A Pilha e os Primeiros Circuitos

A descoberta de que a junção de dois metais diferentes foi algo de enorme repercussão, mas sua utilidade prática era praticamente nenhuma. A quantidade de energia produzida era ínfima e por isso os cientistas continuaram utilizando-se principalmente dos geradores estáticos para a elaboração dos experimentos. Alguns novos grupos, como o de Iago, começaram, entretanto a estudar as particularidades daqueles fenômenos. Um desses grupos viria realizar outra grande descoberta diretamente ligada a este fato. Eles desenvolveriam a primeira bateria elétrica que seria capaz de produzir eletricidade continuamente e permitira alimentar um circuito. Para que possamos entender melhor o que aconteceu transferiremos nossa estória para outro ponto.

Tudo começou quando um pesquisador chamado José interessou-se particularmente pelo fenômeno. Ele que antes havia sido um ferrenho defensor da teoria da Bioeletricidade ficou maravilhado com os últimos desenvolvimentos feitos na área. Terminara sua graduação no ramo da Biologia, mas os últimos estudos que acabara realizando no ramo da Eletricidade acabaram fazendo com que se convertesse totalmente para o novo ramo. Era filho de uma família tradicional e abastada, vivia na pequena cidade com seus parentes. Por ser uma das poucas pessoas que terminaram um curso superior sua fama de homem culto espalhou-se rapidamente pela região. Os comentários a respeito de seu laboratório Bio-elétrico eram um dos principais atrativos da cidade.

Certo dia seu primo consultou-o, como era de praxe, para um fenômeno extremamente curioso que lhe acontecera. Ele havia requisitado na cozinha um suco de certa fruta cítrica muito popular em Advla, mas como a casa estava vazia ele mesmo preparou e serviu em um copo de prata com alguns os pedaços da fruta ainda dentro. Foi seguindo para o quarto, mas ao provar percebeu que o gosto estava terrível e como não tinha nenhuma colher por perto, utilizou-se de um pequeno bastão utilizado como enfeite. Macerou a fruta e misturou bem o suco, no entanto, como o gosto permanecera péssimo, desistiu e deixou de lado aquela substância. No outro dia ao olhar para o seu preparado percebeu que o enfeite, que estava ainda dentro do copo, estava completamente deformado e no copo formara-se uma crosta grosseira. O jovem levara os dois materiais para que ele estudasse o fato. José percebeu logo que os metais utilizados eram diferentes. Durante o questionamento descobriu que provavelmente o enfeite ficara isolado do fundo do copo por estar encostada na polpa da fruta e o único contato existente era na parte superior. Ao repetir o experimento obteve o mesmo resultado, o fato era definitivamente curioso. Repentinamente teve a idéia de utilizar o Eletrômetro de Folhas na tentativa de observar algo. Quando não percebeu que as folhas se abriam em um ângulo muito superior do que quando se utilizava os metais sem o suco. O fato foi apresentado para a comunidade científica como um gerador contínuo de eletricidade.

Mais uma vez os pesquisadores não conseguiram explicar o porque daquele fenômeno, mas mais um novo instrumento foi acrescentado ao laboratório de Eletricidade, a pilha. Apesar da pilha ter sido descoberta sua capacidade era ainda reduzida, pois a ligação em série que permitira a obtenção de maiores tensões ainda não fora desenvolvida. Essa descoberta partiria de outro pesquisador.

Um dos muitos estudiosos que estavam estudando alguns artefatos da era Septal no museu de Bortuca ateu-se a um interessante equipamento de finalidade desconhecida. O dispositivo era constituído de diversas placas metálicas que se encontravam deformadas e eram dispostas aos pares dentro do compartimento seco. O dispositivo nem seria trazido para ali não fosse o fato de estar conectado na rede de condutores de determinada residência. O fato foi que este pesquisador imediatamente percebeu a semelhança entre estas placas e o que ocorria com as pilhas. Voltou ao museu e começou a estudar mais detalhadamente o artefato. Percebeu que os metais eram cobre e zinco. Além disso, o detalhe de como estas placas estavam interligadas era também curioso. Decidiu reproduzir o artefato e preenchê-lo com o tal suco que também era utilizado na pilha. O resultado foi incrível, as folhas do medidor alcançavam graus extremamente elevados. Desta forma ele pode construir equipamentos que produziam tensões efetivamente elevadas. Chegando até mesmo a ser capaz de produzir descargas elétricas através do ar quando utilizado em conjunto com um acumulador de energia.

Iago que novamente estava novamente realizando pesquisas com o professor Saltzmann achou incrível a descoberta. Os dois mais que depressa recriaram o dispositivo para utilizá-lo nos experimentos. Finalmente a energia elétrica começava a se assemelhar com algo que pudesse ser um dia útil ao homem.

- Saltzmann, acredito que agora estejamos próximos de uma verdadeira revolução não só científica, mas de nossos próprios costumes. Eu sinto dentro de mim que grandes mudanças ainda irão ocorrer em todo o planeta. Essa energia pode ser a salvação para nosso povo, para eliminação de um pouco da nossa ignorância, mas também pode ser a nossa destruição. Tenho certeza que a dominação de um poder tão grande como este é capaz de muitas transformações.

- Iago, você pode estar até correto, mas por enquanto ainda estamos longe de obter os resultados que você tanto alardeia. – redargüiu Saltzmann.

- Não sei, não sei meu amigo. O progresso parece andar mais rápido a cada dia que passa. Agora já temos uma fonte de energia elétrica contínua que parece inesgotável, muito melhor do que ter que ficar girando a manivela do gerador eletrostático para produzir uma ínfima parte do que conseguimos com as pilhas.

- Concordo, mas mesmo assim o único efeito real que conseguimos produzir com isso é a deflexão de pequenas lâminas metálicas, a contração dos músculos e os raios elétricos produzidos no acumulador.

- E você acha que isso é pouco – respondeu Iago. Através destes fenômenos conseguimos entender melhor sobre nos mesmos, nossos músculos, sobre os raios e sobre a energia em si. Se nosso organismo, que considerarmos como a grande criação da natureza, utiliza-se desta energia é porque ela certamente é a melhor que existe, a mais fundamental.

- Pode até ser mas agora você saiu da ciência para o mundo puramente especulativo, meu amigo – disse enfaticamente o professor Saltzmann.

O fato é que independentemente da discussão de nossos amigos em pouco tempo começaram a surgir os primeiros circuitos elétricos. A princípio utilizados apenas para medir efeitos ainda eletrostáticos. Até o momento que começou a grande febre de tentar utilizar a pilha para alimentar os alguns equipamentos dos antigos. A maioria dos instrumentos parecia, no entanto, não sofrer nenhuma reação. A princípio a idéia de tentar fazer funcionar os dispositivos dos antigos virou uma grande febre. Até mesmo Iago e o professor Saltzmann fizeram várias tentativas. Com o passar do tempo a frustração começou a aumentar. Os pesquisadores começaram até mesmo a acreditar que a Energia Septal utilizada pelos antigos não era a mesma coisa que a Energia Elétrica. Talvez algo semelhante, mas com algumas diferenças. Os experimentos realizados pareciam não causar a menor reação nos equipamentos.

Iago revoltou-se com esta hipótese porque ele havia sido o primeiro a identificar a relação entre Energia Septal e Energia Elétrica. No entanto, logo surgiu o experimento que viria em socorro a teoria de Iago. Um pesquisador restava fazendo experimentos com as luminárias de Yuri quando repentinamente esta se acendeu durante alguns segundos apagando-se novamente em seguida. O problema era que após isto o pequeno filamento contido dentro da luminária se quebrava e a experiência não voltava a se repetir. Foi feita uma pesquisa minuciosa a respeito destas luminárias e houve um enorme esforço na tentativa da sua reprodução. Percebeu-se depois de um tempo que existia vácua dentro dos bulbos luminosos só que este estava reduzido, certamente devido ao grande tempo decorrido desde a Grande Viagem. A primeira tentativa foi reforçar a vedação das luminárias e refazer o vácuo utilizando-se um sistema de bombas manuais há desenvolvido. O efeito foi incrível, o filamento resistira várias horas iluminando sem se partir. Esse foi o primeiro grande feito em Advla gerado pela eletricidade, bem ao contrário de nosso planeta onde a lâmpada só foi desenvolvida muito tempo depois da descoberta da pilha.

Apesar de todo este desenvolvimento o não funcionamento dos outros dispositivos permanecia um mistério. Outra utilização da eletricidade que logo foi desenvolvida era a possibilidade de se produzir aquecimento. Isso veio em direta decorrência das lâmpadas. Percebeu-se que as pilhas logo se degradavam e tornavam-se inúteis na alimentação dos dispositivos. Por isso a maioria dos dispositivos estava confinada apenas aos laboratórios.

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Capítulo XXI - Iago e as Novas Descobertas

Todo este rápido desenvolvimento fez bem ao ego de Iago que já havia predito isso em conversa com o Professor Saltzmann. Acompanhar este processo exigia grande esforço dos pesquisadores que tinham que se atualizar constantemente.

Os pesquisadores passavam agora mais tempo do que nunca no Museu de Energia Septal da Universidade de Bortuca. Outro grande atrativo eram os documentos que tratavam da topologia dos dispositivos que foram pesquisados durante muito tempo por vários homens. Iago encontrava-se mergulhado neste meio borbulhante tentando desesperadamente encontrar algo que pudesse ter algum significado. Ele havia reproduzido alguns dispositivos e tentara observar algum fenômeno quando conectado a uma pilha, entretanto não conseguira resultado algum. Outro sério problema era que certos artefatos eram impossíveis de serem reproduzidos, devido ao fato de sua estrutura ser completamente incompreensível. Alguns eram liberados para que se fizessem testes diretamente, mas todos sempre foram mal sucedidos e o máximo que conseguiam eram danificar o equipamento.

Iago durante este tempo já era professor da tradicional da Universidade de Bortuca responsável pela cadeira de Energia Septal. Por isso foi selecionado neste semestre para acompanhar os alunos que acabaram de se formar em Septologia para uma excursão em Trinado. Ele mesmo sempre gostara de viajar para esta cidade e assim aceitou a incumbência com prazer. Dentre os vários pontos que visitariam encontrava-se uma ida a Central de Energia Septal, a mesma que Iago conhecera quando encontrou Annya. Visitariam também o observatório do professor Jankowski, onde o grande professor Morris descobrira as Cidades Lunares.

Poucos dias depois partiram para a excursão. Juntamente com o professor Iago foi o seu ajudante, César, apesar dele ainda não estar no último período do curso e por isso não fazer oficialmente parte da viagem. Iago que já estava acostumado com a burocracia de Trinado ficou responsável pela liberação das licenças. Esse momento era sempre muito esperado por todos os estudantes e era comentado desde o início do curso. Ao chegarem ao destino houve a habitual reação dos visitantes que se maravilhavam com aquelas estruturas. Para Iago, no entanto, a circunstância exigia uma total atenção para que nenhum aluno mais atrevido resolvesse realizar excursões não autorizadas ou tocar em algum objeto.

O observatório causou grande impacto pelo seu tamanho e pela modernidade dos equipamentos. Principalmente os estudantes de astronomia ficaram profundamente admirados. A disputa por uma vaga ali como ajudante do Professor Jankowski era disputadíssima. Além do observatório em si a vista da cidade também era esplêndida, dali era possível se ter uma visão global da cidade. Pena que ainda estava de dia e por isso não pudesse aproveitar para visualizar algum corpo celeste, ou as Cidades Lunares. Alguns daqueles estudantes, no entanto, teriam futuramente ainda algumas oportunidades de voltarem ali.

Visitaram algumas moradias típicas dos antigos. Iago discursou a respeito de alguns pontos sobre o modo de vida dos antigos, mas ele próprio não pode dizer muito. Compensou, entretanto, quando visitaram a Central Elétrica. Aproveitou para enfatizar o paralelo entre a Eletricidade e a Energia Septal que agora estava mais confirmado do que nunca. Quando chegou a sala das turbinas para discutir sobre sua topologia e funcionamento parou por uns segundos e um estranho silêncio tomou conta do ambiente. Naquele instante ele havia tido uma grande idéia, ou o que talvez pudesse ser uma grande idéia. Não sabia como não havia antes pensado nisto. Foi-lhe difícil continuar a excursão porque queria voltar imediatamente para Bortuca e avaliar melhor suas suposições. Pouco depois conseguiu recobrar-se e novamente voltou a explicar sobre as turbinas:

- A Usina, como podem ver é extremante complexa. Ao centro temos este enorme círculo oco, como uma rosquinha. Não sabemos explicar bem o seu funcionamento mas ali parecia emergir alguma energia estranha que era responsável pela rotação dos geradores. Podemos também pensar no problema olhando-se para a direção reversa. Talvez girando-se as turbinas algo fosse gerado neste círculo. O fato é que aqui ainda existe muita especulação e pouco conhecimento. Um dia esperamos compreender bem o funcionamento destas estruturas para utilizá-las para o nosso próprio benefício.

Assim ele continuou falando ainda por muito tempo. Gostava de ver os olhos daqueles jovens cheios de vontade e completamente estupefatos diante daquelas maravilhas, como seus próprios olhos ficaram antes muitas vezes e como eles estavam naquela hora. Iago sempre gostava muito da sensação que uma idéia nova lhe causava. Era um momento de muita excitação e expectativa. Não podia ver a hora de colocar em prática o que pensara. Na maioria das vezes a idéia não levava a nada mas a sensação que causava valia a pena, renovava-lhe o espírito de pesquisador. Quando teve um tempo livre Iago pediu a César que conversasse com o oficial para fazer algumas cópias grosseiras das estruturas das turbinas. O rapaz ficara um pouco decepcionado pois queria continuar a excursão com os colegas mas obedeceu ao professor.

Na verdade a visita não duraria muito mais. Após mais uma hora terminara a volta completa no parque da Central de Energia e nos setores de distribuição. César chegou acompanhado de um oficial pouco depois e em pouco tempo já estavam de volta a Bortuca. A noite já havia caído quando estavam novamente na Universidade. César ficou extremamente curioso em saber para que aqueles desenho mas Iago disse-lhe que contaria apenas no dia seguinte. Estava muito cansado da jornada que tiveram.

No dia seguinte a primeira coisa que Iago fez foi ir diretamente para o Museu de Bortuca. Lá encontrou os colegas de sempre estudando diversos objetos. Ele já estivera ali várias vezes mas agora tinha um objetivo muito claro. Pediu a liberação de um instrumento que antes já estudara mas não conseguira compreender sua verdadeira função. Era um objeto que se assemelhava a aquelas turbinas que vira na Central de Energia em Trinado. Quando a vira ali não fizera a conexão mas ao visitar a sala das Máquinas lembrara-se imediatamente daquele aparato. Ele estava convencido que aquilo tinha um importante papel na produção da Energia Septal ou Energia Elétrica só não sabia ainda como fazer para demonstrar isto.

Nas próximas semanas passou os dias descrevendo detalhadamente aquele instrumento. Iria tentar construir algo que fosse o mais semelhante possível. Logo percebeu a dificuldade da tarefa. O objeto tinha dois rolos de fios, um externo e outro interno. O interno era móvel, através de um eixo, que lhe permitia girar livremente dentro do segundo, externo, que tinha uma forma cilíndrica oca como se estivesse abraçando o outro. O primeiro problema que Iago se deparou foi o número de voltas que os fios davam para constituir os rolos. Após algumas tentativas percebeu rapidamente que lhe seria impossível contar aquelas voltas.

O protótipo de Iago só ficou pronto meses depois graças muito a ajuda de César que ficou responsável por confeccionar os rolos. Assim que tudo estava terminado ele não sabia bem o que fazer. Pelo menos havia aprendido muito sobre a constituição do dispositivo durante sua reprodução. Uma coisa que ele estranhou desde o começo era o fato do equipamento possuir quatro conectores. Como todos sabiam uma pilha precisava somente de dois e assim os outros dois ficavam sobrando. De qualquer maneira começou os testes no intuito de ligar o objeto através de todas as combinações possíveis. Ele imaginava que provavelmente aquilo iria girar e de alguma forma poderia alimentar os círculos da Central Energética. Houve uma grande expectativa dele e do César quando foram fazer a primeira das tentativas, a que para eles parecia a mais óbvia, alimentar o rolo interno para que este girasse. A frustração de ambos foi grande quando nenhum movimento pode ser observado. Rapidamente Iago refez as conexões para completar as outras combinações e mais uma vez o dispositivo parecia não fazer o mínimo movimento. O pesquisador já impaciente juntou mais pilhas em série na tentativa de colocar mais potência, mas ainda assim nada parecia funcionar.

- Este é o grande problema de se realizar estes experimentos com os aparatos do museu - desabafou Iago. Passamos meses para tentar reconstruir esta porcaria e para que. Para no final não conseguirmos absolutamente nada. Eu já deveria ter aprendido com meus outros colegas que este caminho é extremamente arriscado e na maioria das vezes o fracasso é certo.

- Professor - respondeu César - eu também não entendo como isto não funcionou. Fizemos um trabalho tão bem feito, eu diria que nossa reprodução é de altíssima qualidade, quase idêntica ao original. A única coisa que consigo imaginar é o número de voltas que o fio tem nos rolos. Talvez exista uma configuração muito específica que não conseguimos identificar.

- Eu vou tentar ver com esses hipócritas do Museu, que dizem estar do lado da Ciência, se podemos utilizar o original para nossos testes. Provavelmente eles demorarão meses para me dar uma resposta e exigirão uma farta documentação descrevendo a estrutura do equipamento. E para que, para fazermos os testes em poucos minutos aqui no laboratório.

- Ainda assim eu acho que isso é uma boa tentativa, acho que vale a pena. Sua idéia foi realmente incrível e vimos pelos meus desenhos que as turbinas da Central Energética são idênticas a isso. Tenho certeza de que temos um trunfo em nossas mãos.

- Calma César, por enquanto não temos nada. A única coisa que temos é que pensar mais sobre nossa experiência. Devemos está fazendo algo errado. Amanhã faremos novos testes. O melhor agora é ir para casa.

Iago parecia não se acostumar nunca com as frustrações que muitas vezes a busca pela Ciência lhe trazia. Apesar disso ele sabia que a alegria de ver algo funcionar era maior que todas essas frustrações e por isso continuava lutando. No entanto aquela noite estava muito chateado com os últimos acontecimentos. Estava decepcionado com sua falta de percepção em investir tanto tempo em um único experimento que provavelmente não funcionaria. “Mesmo assim não posso desistir”, pensava ele. “Tenho que continuar; preciso agora esfriar a cabeça e agir de forma fria e calculada. Algo está errado: o que? Antes de responder a esta pergunta vou ordenar todas as variáveis e possibilidades que tenho. Analisarei o problema em cima destes pontos”.

Assim ele fez e passou toda a noite debruçado sobre seus papéis tentando descobrir quais outros testes poderia fazer. Decidiu que utilizaria da próxima vez duas fontes de alimentação, usaria dois conjuntos de pilhas e alimentaria os quatro conectores em todas as combinações possíveis. Usaria também conjuntos de pilhas de tamanho razoável já que observou que o dispositivo parecia suportar bem as tensões. Caso isto não desse certo pensaria depois em outra solução.

No dia seguinte novamente um clima de suspense pairava sobre Iago e César. A idéia parecia fazer sentido, afinal os quatro conectores seriam necessários para duas pilhas e não apenas uma. Como no dia anterior fizeram a primeira conexão fechando um circuito com a bobina interna a mais uma vez nada ocorreu. Ao conectarem, no entanto, a segunda bateria o eixo girou um pequeno ângulo e depois parou. Os dois tomaram um susto quando isto ocorreu. No entanto a máquina parou e mais nenhum movimento acontecia. Iago achando que o equipamento talvez estivesse danificado pela potência das baterias removeu um dos conectores para verificar. Ao fazer isto percebeu que o eixo mais uma vez realizou um pequeno movimento. Refez a conexão, o cilindro girava em pequenos ângulos. Iago tentou forçar dar um impulso inicial e percebeu que existia uma força tentando impedi-lo de movimentar a peça. Ela tinha a tendência de sempre voltar para a posição original. Aqueles momentos que Iago estava experimentando eram incríveis e aquela força misteriosa que contrapunha a sua era-lhe completamente inexplicável. Ao desligar o equipamento o eixo estava novamente livre para ser movimentado. César permaneceu boquiaberto durante todo o tempo, nunca antes vira algo tão fantástico.

Mais uma vez Iago precisava redigir um artigo, mais uma vez tinha aquela sensação de estar fazendo algo grande, algo diferente. Primeiro queria tentar entender um pouco mais do que ocorreu. Sabia que os cálculos das interações entre as cargas elétricas que giravam nos fios dos dois rolos seria algo extremamente complexo, mas ele tentaria começar pelo mais simples. Antes de qualquer coisa seria melhor tentar desenvolver um modelo mais simples para o seu equipamento, rolos de fios com menos voltas, começando por uma. Iago ainda não entendia o fenômeno que se passou e achava que era algo puramente elétrico sendo que, na realidade, era eletromagnético. As bobinas geravam campos magnéticos quando alimentadas por uma corrente elétrica e era a interação entre os campos magnéticos e elétricos que produzia os movimentos.

Os testes com bobinas de poucas voltas todos frustraram, principalmente porque o campo magnético gerado por elas era muito fraco e disperso. Quanto mais Iago estudava o problema mais misterioso este parecia. Isto começava por chateá-lo pois mais uma vez ele era incapaz de entender os fenômenos que suas experiências geravam. Certo dia fez uma visita ao professor Saltzmann e disse:

- Saltzmann, há alguns dias atrás realizei uma experiência inédita utilizando a Energia Elétrica para produzir movimento.

- Não é possível!!! Você conseguiu, meu jovem. Você desvendou finalmente a peça que faltava para a solução do mistério envolvendo a Energia Elétrica. – exclamou o professor.

- Gostaria de que isto fosse verdade, mas infelizmente estou muito longe de desvendar qualquer coisa. Primeiro, a utilização prática do fenômeno que descobri é extremamente limitada e, segundo, por mais que eu estude o fenômeno não tenho a menor idéia de como ele funciona. Acredito que os cálculos que o envolvem sejam muito complexos para mim.

- Iago, estou extremamente curioso para conhecer esta sua experiência. No momento todos os meus projetos têm frustrado. Tenho certeza de que mais uma vez poderemos ajudar-nos mutuamente.

Assim o professor Saltzmann ficou sabendo do experimento. No mesmo dia os dois foram ao laboratório de Iago para repetir os mesmos resultados que ele antes havia obtido. Agora pelo menos eram dois cientistas trabalhando em conjunto para a solução do problema. Durante algumas semanas eles permaneceram mergulhados em papéis e cálculos. Porém, como era de se esperar, não conseguiram nenhum resultado efetivo que pudesse explicar o fenômeno.

Com o passar do tempo Saltzmann estava cada vez mais convicto de que deveriam realizar uma publicação apresentando apenas os resultados e acompanhada de algumas especulações. Talvez alguém pudesse jogar alguma luz sobre o problema. Mas Iago era completamente avesso a idéia, ele queria pelo menos uma vez apresentar um trabalho que consideraria completo, onde discursasse tanto sobre a parte experimental quanto sobre a parte teórica do problema. Mesmo que para isso corresse o risco de que outra pessoa divulgasse um trabalho semelhante anteriormente a ele. Por isso o trabalho permaneceu ainda alguns meses desconhecido da comunidade científica.

A primeira idéia sobre a resolução do problema só viria depois que um pesquisador publicou um artigo onde ele demonstrava que uma corrente elétrica passando por um condutor era capaz de gerar um campo magnético a sua volta. Limalhas de ferro, como as usadas para traçar as linhas dos imãs, também ilustravam bem a forma dos campos gerados. Eram campos magnéticos circulares que se fechavam concentricamente entorno do fio.

Iago e Saltzmann logo perceberam a conexão deste fenômeno com o experimento que estavam lidando. Depois disso em poucas semanas de dedicação exclusiva ao trabalho de redação publicaram um artigo em que apresentavam os resultados que obtiveram e discutiam a interação dos campos magnéticos ali gerados. O artigo por eles publicado foi muito importante para a afirmação do eletromagnetismo que estava começando a nascer.

Agora o nome de Iago e Saltzmann voltava a circular entre o nome dos grandes cientistas da atualidade. Mais uma vez eles conseguiram se destacar com um artigo de peso. César também se sentiu orgulhoso por ter participado de tão grande empreendimento. Claro que Iago não pode deixar o seu nome de fora e o acrescentou como colaborador. Para comemorar ele saiu para um jantar com Annya, coisa que há muito eles não faziam.

Foram a um restaurante muito conhecido em Bortuca. Tinha um enorme salão principal com várias pilastras brancas caneladas distribuídas em diversos pontos. Ao centro havia um grande candelabro dourado rodeado de pequenos cristais que refletiam a luz do arco-íris em todas as direções. Em um pequeno palco tocava um instrumento semelhante a um piano, acompanhado de outras cordas.

- Quero desejar a você todos os méritos que receber por este artigo. Principalmente pela paciência que tem tido comigo nos últimos tempos. Sei que tenho sido muito ausente com relação a família mas agora já estou cansado da Ciência. Já fiz o meu papel e agora quero ter outras prioridades - disse Iago a Annya.

- Iago, se você quiser me dar os méritos eu os aceito com muito prazer. No entanto, a respeito de ter já cumprido o seu papel na Ciência acredito que isto esteja muito longe da verdade. Penso que precisamente agora o seu papel esteja começando, sei que você ama o que você faz. Este é o momento no qual pode começar a divulgar e socializar a Ciência. Nada de deixá-la fechada em pequenos grupos. Este é o papel que você deveria assumir em sua carreira.

- Isso pode ser mesmo uma boa idéia, mas acho melhor falarmos de outras coisas.

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Capítulo XXII - As Novas Bibliotecas

Ao contrário do que Iago pensava sua vida Científica ainda não estava no fim. Em sua mente ainda se encontrava a sede do conhecimento e ele estava muito envolvido em todo aquele turbilhão para poder simplesmente sair. Não que ele quisesse, mas era sempre levado de uma onda a outra que o impulsionavam cada vez mais longe. Quando se cruza determinado limite e se passa a viver na borda do conhecimento tudo pode acontecer, principalmente em tempos de instabilidade como esse.

Após a publicação do artigo de Iago uma enormidade de pessoas recriou o dispositivo na tentativa de confirmar os fenômenos. Muitos fizeram diversas adaptações mudando formas e tamanhos. Todos estavam tentando conseguir algo que gerasse um movimento contínuo mas as tentativas sempre falhavam. O máximo que conseguiam eram pequenos giros que rapidamente se estabilizavam.

O primeiro que conseguiu produzir alguma rotação pareceu não muito satisfeito com o que havia feito. Ele girava uma manivela que tinha a função de constantemente inverter os pólos de ligação do equipamento. Desta forma este se mantinha sempre girando. O autor, no entanto, não reconheceu sua grande descoberta pois qual a vantagem em se produzir um movimento de rotação de natureza elétrica utilizando para tal já uma outra fonte de movimento mecânica. O fato era que este homem descobrira a corrente alternada e seu instrumento de rotação fez enorme sucesso dentro de um pequeno grupo de pessoas já que demorou vários anos para ser efetivamente publicado.

A próxima descoberta que invadiu os domínios da Eletricidade no entanto foi devido a outro estudioso. Que utilizando a Máquina de Iago, como foi denominada, conseguiu produzir eletricidade ao invés de utilizá-la como uma espécie de motor. Para tal bastava girar-se o eixo enquanto aplicava-se energia em dois pólos de um rolo de fios. A publicação foi no entanto meramente descritiva. Vários meses se passaram sem que uma teoria conseguisse descrever quantitativamente o fenômeno.

O problema da geração foi algo que perturbou os cientistas durante algum tempo já que era de difícil explicação. Foi Iago, que estava completamente imbuído do que se passava e já tinha estudado muito sobre o assunto, quem sugeriu a primeira explicação. Esta parecia bem consistente, mas a verdade era que tudo o que girava entorno da Eletricidade estava altamente confuso. Ninguém mais conseguia entender nada e os fenômenos eram pobremente entendidos pelos estudiosos. Como já havia acontecido antes em Advla a Ciência mais uma vez metia os pés pelas mãos e não conhecia mais nem a si própria. Existia apenas um movimento desordenado que estudos que geravam mais dúvidas do que esclarecimentos.

Demoraria ainda vinte anos para que viesse alguém chamado Giusepe ordenar todo esse conhecimento nas leis fundamentais do Eletromagnetismo. Só então os advlenses puderam contemplar toda a Eletricidade e o Magnetismo como um todo. Por esta época Iago já era um professor renomado da Universidade de Bortuca e responsável pela Central Energética de Trinado. Nos últimos tempos este passara a ser um local de muita atenção de um enorme grupo de cientistas. Era de interesse construir uma Usina Elétrica e nada melhor seria do que finalmente observar os equipamentos que estavam dispostos na Cidade Experimental. Foi criada toda uma teoria para a explicação do que deveria ocorrer ali. Muita coisa ainda era totalmente desconhecida mas parte onde a ocorria a efetiva geração já estava bem dominada.

A Central esperara várias décadas para poder finalmente ser aproveitada. Iago já não mais lecionava aulas, estava contratado pelo governo para coordenar o grupo de estudiosos na construção da nova Usina. Foram um total de aproximadamente dois anos de um meticuloso trabalho de observação e produção de relatórios. Iago tinha a certeza de que eles haviam catalogado tudo o que havia de mais importante sobre os detalhes da Central. Foi ai que alguém, ninguém sabe direito quem, talvez todos em conjunto, deu a idéia de se colocar a própria Central de Trinado em funcionamento. Tudo começou como uma brincadeira que aos poucos foi tomando a forma de um novo projeto.

Seria algo semelhante ao que foi feito no Observatório de Trinado, esta bem sucedida experiência foi fundamental para que houvesse a liberação para as necessárias adaptações. Os geradores seriam isolados e ligados em um sistema de grandes motores a combustão construídos a parte. Além disso, seria necessária a utilização dos geradores primários construídos a partir de imãs permanentes e que alimentariam os campos dos geradores secundários. Ao final o projeto acabou por se tornar algo monstruoso, seria necessário realizar uma gigantesca construção e enormes somas de dinheiro foram envolvidas. Vários órgãos financiadores foram envolvidos, mas o interesse de todos era enorme.

Depois que tudo foi arranjado os trabalhos finalmente começaram. Várias famílias tiveram que se acomodar em Trinado e para isso casas especiais foram construídas nas redondezas da Central Elétrica. Além do grupo de Septólogos trabalharam vários Doutores das Letras, como o Professor Mackenzie, que eram especializados na língua Septal. Por estes dias os avanços tanto na língua dos antigos como em sua matemática também haviam sido enormes. Muito devido ao próprio desenvolvimento da Teoria Eletromagnética como nós mesmo observamos no princípio das descobertas.

Iago também se mudou para Trinado, mas não pode levar sua família consigo, pois Annya tinha seu trabalho e seu filho não podia parar com os estudos. No princípio ele nem podia dormir direito de tanta excitação e por isso saia às vezes andando por Trinado. Podia circular somente numa área restrita, mas a vista do céu e do mar eram recompensadoras. As luas iluminavam brilhantemente as águas e os caminhos por onde ele andava. Olhando agora para o passado ele não sabia como chegara até ali, sua caminhada sempre foi tão natural. Movida unicamente pela curiosidade do que estava além.

Muitos equipamentos que estavam conectados a Usina eram ainda desconhecidos dos cientistas, mas o que lhes deu força para continuar foi o fato de terem conseguido as especificações para o bom funcionamento dos geradores em um manual que fora encontrado no que se supunha a cabine de comando. De acordo com o escrito aquilo era um Guia de Procedimentos em Caso de Emergências. Estudando o processo perceberam que não poderiam utilizar os motores a combustão e teriam sim que utilizar-se de caldeiras para gerar vapor. O vapor impulsionava as turbinas, como os antigos antes produziam o vapor era algo inexplicável, mas pelo menos eles tinham meios de produzir semelhantes condições com as fornalhas.

Os trabalhos se desenvolviam em uma grande velocidade e graças ao domínio da teoria do Eletromagnetismo conseguiram obter uma compreensão cada vez maior sobre o que estavam fazendo. Foi o maior projeto científico já realizado até então em Advla. Anos de serviço foram necessários e uma soma gigantesca de dinheiro. No final Iago não era mais o Coordenador Geral, mas o Coordenador Científico do projeto. Depois que terminaram tudo estava pronto para os primeiros testes. Ninguém sabia bem o que iria acontecer, mas eles queriam religar a força de energia de Trinado mais uma vez.

Já era noite quando começaram a aquecer as caldeiras e as turbinas começaram a girar. No entanto os geradores principais estavam desconectadas dos secundários, feitos de imãs permanentes, e por isso ainda não produziam energia. A velocidade total foi atingida, agora era preciso mantê-la o mais estável possível, dentro das faixas especificadas no manual. Foi dado o sinal para que todos se retirassem da sala. As pessoas foram evacuando aos poucos e quando se teve certeza de que não havia mais ninguém foi dada a ordem para se ligar o campo dos geradores principais. Nada ocorreu… De repente alguém observou uma luzinha vermelha acesa em um dos painéis da Central de Controle.

O que veio em seguida foi o maior espetáculo de que já se teve notícia em Advla. Não todas, mas várias lâmpadas da Central se ligaram, além disso o painel estava completamente iluminado mas o mais fantástico era os enormes telões onde se podia observar os símbolos da Escrita Septal por todos os lados. Desenhos se movimentavam e alguém viu ao lado que algumas coisas estavam flutuando, não eram necessárias cadeiras. Todos estavam estasiados achando que observavam o melhor do espetáculo até escutarem alguém gritar lá fora. Neste momento os cientistas se deram conta de que muito melhor do que na Usina devia ser a Cidade.

Via-se uma enormidade de pontinhos luminosos espalhados por toda a Cidade Experimental. Alguns letreiros gigantescos pareciam flutuar em pleno ar mostrando imagens tridimensionais, com belas mulheres e rapazes. Era fantástico, mas não durou mais do que alguns minutos. Em seguida um alarme soou por toda a Central Elétrica. Os pesquisadores não faziam a menor idéia do que estava acontecendo, mas eram um som ensurdecedor. O pânico foi geral, alguém então disse:

- Desliguem os geradores, desliguem os geradores!!!

Mais que depressa estes foram desconectados dos geradores secundários e uma enorme faísca pulou no ar. O circuito não se abriu e a corrente continuou fluindo através da enorme faísca, até os equipamentos derreterem os pólos e a corrente novamente se extinguir. A escuridão novamente voltou a reinar sobre Trinado, a Central estava mais uma vez iluminada apenas pelas lamparinas.

- Todos estão bem? – alguém perguntou.

- Tem um homem caído próximo aos geradores.

Quando chegaram os colegas logo reconheceram o corpo de Iago completamente carbonizado e lançado a alguns metros dos geradores. Em sua mão havia uma enorme haste de madeira. Todos entenderam que fora ele quem havia aberto o circuito do gerador primário já que os conectores não queriam se abrir. Infelizmente ele não podia imaginar que a tensão era tão alta que até mesmo aquela haste de madeira se tornaria condutora.

Sua missão havia sido completada no mundo de Advla. Ele foi enterrado no Cemitério da Universidade de Bortuca na região dos Grandes Gênios. Depois daquela experiência o planeta nunca mais foi o mesmo. O estudo da Energia Septal continuou avançando cada vez mais. Graças aos estudos realizados em Trinado os cientistas conseguiram colocar em funcionamento a maioria dos equipamentos. Percebeu-se que ao contrário da impressão inicial causada em Trinado a maioria deles estavam defeituosos e desgastados pelo tempo.

No entanto o grande legado que a Energia Elétrica trouxe para os Advlenses foi a chave que ela representou. A chave para uma entrada triunfante nas Bibliotecas dos Antigos. Iago infelizmente não pode ver o grande desfecho que de seu projeto energético. Alguns anos depois o domínio da língua era total e desta forma foi possível abrir os livros misteriosos da era Septal.

O povo acabou com isso descobrindo um pouco mais de sua própria História. Advla havia sido colonizada há muitos anos atrás por um povo que tinha então vindo de um longínquo planeta chamado Terra. A enorme tripulação perdera-se nos confins do universo e por sorte encontraram um planeta habitável. Este seria posteriormente denominado Advla. Os antigos, no entanto, cometeram os mesmos erros que haviam tido na Terra e destruíram por completo as condições de vida.

Essa foi mais uma peça do quebra-cabeça do povo de Advla que ainda procura por muitas respostas. Onde será a Terra? Poderiam eles um dia voltar ao seu planeta original? Onde estariam agora o povo que eles denominavam de Antigos? Teria ainda alguém vivendo nas Cidades Lunares?

Algumas destas perguntas seriam respondidas mais tarde, outras talvez nunca...

FIM

Humberto Plínio Ribeiro Filho

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