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INFORMAÇÕES    
Autor: Aguinaldo I. Peres.
Título: Cúpula de Cristal.
Publicação: 05/09/2006.
Categoria: Ficção Científica.
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Texto vencedor do Desafio de Junho com Tema: Severina do The Mission.
Escritores da Fábrica de Sonhos.

Você pode copiar o material apenas para uso privado e de acordo com a lei de direitos autorais.

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FICÇÃO CIENTÍFICA      
Cúpula de Cristal
Por: Aguinaldo I. Peres

Imagem da Internet

2065/03/05 - Texas/EUA

Num bar para cowboys no centro da cidade de Dallas.

- Trouxe o vídeo? - perguntou num inglês perfeito o italiano loiro de cabelos compridos.

O homem gordo do outro lado da mesa esticou a mão sem parar de chupar barulhentamente o conteúdo de um copo tamanho família de refrigerante verde.

Baldi colocou um cartão de e-money na mão do informante, que conferiu o valor com um sorriso. O gordo se contorceu todo até encontrar um micro-disco do tamanho de uma moeda de um centavo.

- Aqui está sua encomenda, colocamos uma micro-câmera na sala de controle, a imagem não está boa, mas o som está ótimo.

Baldi pegou sua encomenda e se levantou.

- Você devia comer algo mais saudável.

- Bullshit! Quando eu quiser paro numa clínica de Beverly Hills e fico mais fino que você.

****

Apenas quinze minutos após deixar a lanchonete, Baldi reencontrava seus companheiros de armas. Apesar dos dois quartos, o apartamento era pequeno e simples. Mas estava perto dos seus principais contatos dentro da NASA.

Zeppo estava deitado no sofá da sala - pele morena pelo sol do oriente médio, cabelo preto e arrepiado, vestia uma camiseta preta e jeans surrados - e lia num finíssimo e-book a versão em italiano do livro "O Coração das Trevas".

Sentada à mesa, a pequena Anita operava um personalizado computador MacT2 que se espalhava literalmente pela mesa. Seus cabelos lisos e negros escorriam pelas costas do vestido branco, seus pés nus balançavam alegremente. À sua frente, um finíssimo monitor de LCD exibia um intricado conjunto de formas geométricas multicoloridas semelhantes a um caleidoscópio que se movimentavam a alta velocidade, enquanto as mãos da garota bailavam sobre a placa de sensor de movimento que substituíra os obsoletos teclado e o mouse.

- Ciao Zeppo.

- Ciao Baldi.

Baldi se aproximou da garota e deu duas pancadinhas na cabeça dela.

- Toc toc, tem alguém em casa.

A jovem se voltou na cadeira giratória, sobre seus olhos um dispositivo de lentes que permitiam que ela tivesse uma visão 3D do universo virtual criado pelo sistema de busca que ela estava manipulando no MacT2. Anita trocou a imagem virtual pela das câmeras bi-oculares embutidas nos 'óculos' e fez uma careta.

- Seja uma boa menina e vamos assistir ao filme.

Anita pegou o micro-disco e o inseriu numa das ranhuras do dispositivo de multi-leitura que parecia um pão de forma high-tech. Zeppo se reuniu ao grupo.

- Pleiando... - avisou Anita.

2065/02/21 - Cúpula de Cristal/Lua

A sala de controle era na verdade uma estação móvel, do tamanho de um container de carga, que estava sendo usado para monitorar as atividades dentro da Cúpula de Cristal.

Havia seis pessoas na sala, os quatro operadores vestindo uniformes do exercito americano, um homem alto e calvo usando roupa civil e outro usando o uniforme de coronel que, assentado numa cadeira mais afastada, aguardava calmamente.

- Controle, Equipe Dancer a postos. - chegou a voz metálica pelo alto-falante.

- Cel. Willkinson?

- Pode proceder com a operação, Dr. Taunzer.

- Apague a iluminação na cúpula. - pediu o doutor a um dos operadores.

- Equipe Dancer, libere o experimento e deixem a cúpula.

- Controle, retiramos as algemas. Estamos deixando a cúpula.

Alguns segundos depois.

- Mudança nos números biomédicos; pulsação em 85/min, respiração em 17.5/min, temperatura do corpo em 38ºC... dados aumentando...

- Pressão barométrica caindo para 990 milibares, temperatura ambiente caindo para 16ºC...

- Ela está consumindo o oxigênio mais rapidamente que da outra vez. - comentou o cientista para si mesmo. - Compense a pressão barométrica.

- Injetando ar comprimido na cúpula.

- Pulsação em 115/min, respiração em 19/min, temperatura do corpo em 40ºC...

- O satélite Eagle-4 detectou um forte fluxo de neutrinos em direção à Terra.

- Coronel, relatório da Estação de Sismografia de Riad. Foi detectado um tremor sísmico na placa tectônica do oriente médio, epicentro a 10.000 km sob a Cidade de Bagdá. Tremores atingindo a 3.5 na escala Ritcher e aumentando...

- Pulsação em 130/min, respiração em 22/min, temperatura do corpo em 45ºC...

- Temperatura ambiente em 5ºC e caindo, compensando perda de pressão...

- Tremores em 4.2... 4.7... 5.2...

- Pode interromper a operação, Dr. Taunzer.

- Sim Coronel. Liguem todos os holofotes da cúpula. Equipe Dancer, entre com a equipe médica e recupere o experimento.

- Equipe Dancer entrando.

- Excelente trabalho doutor. Já tem alguma teoria.

- Infinitas, de magia negra a bio-nano-tecnologia, mas nada que explique a capacidade dela de gerar um feixe de neutrinos.

- Já pensou em realizar uma biopsia?

- Somente as não-intrusivas, não quero correr o risco de danificar a espécime.

- O senhor está sendo muito brando com a garota. Segundo os relatórios médicos não temos muito tempo.

- Bem, se essa é a posição do Pentágono... irei preparar uma bateria de teste mais agressivos. Porém a Profª. Penari não ira concordar.

- A Profª. Penari também tem suas obrigações, se ela não conseguir resultados em um mês a espécime será toda sua.

2065/03/05 - Texas/EUA

Baldi olhou para o amigo que estava pálido ao fim do vídeo.

- Cara, às vezes você me dá medo. - comentou Baldi.

- Você se esquece que eu estava em Bagdá cobrindo as manifestações por eleições livres quando ocorreu o primeiro tremor em janeiro? Daquela vez eu senti que a causa estava em cima e não em baixo da terra.

- Como eu disse, você me dá medo.

- Não entendi, o que está acontecendo? - perguntou Anita.

- Os americanos descobriram uma forma de causar terremotos artificiais.

- Não! Isso é impossível! A senhorita Zanini é americana e nunca concordaria com isso. - disse a indignada garota de 14 anos.

- Tem razão, não foram os americanos, foi apenas o pessoal do Pentágono. - sorriu Baldi - Agora se acalme e encontre as fichas do Dr. Taunzer, do Cel. Willkinson e da Profª. Penari.

Enquanto a garota retornava ao programa de busca, Baldi perguntou:

- E agora, o que faremos?

- Não é obvio? Vamos para a Lua.

- Eu também vou.

- NÃO!!! - responderam os jovens em uníssono.

2065/03/11 - Luna City/Lua

Apesar dos constantes esforços do ILEWG (Grupo de Trabalho de Exploração Internacional da Lua) foi somente em 2010, com a adesão da CAST (Academia Chinesa de Tecnologia Espacial) e da NASDA (Agência Nacional de Desenvolvimento Espacial do Japão) ao pool de agências espacial ocidentais, que o projeto de criação da primeira base lunar permanente começou a sair do papel.

Em 2018 foi inaugurada a primeira cúpula na Cratera Peary próximo ao pólo norte lunar utilizando a mesma tecnologia já aprovada nas bases subaquáticas, com a diferença de ser totalmente auto-sustentável graças aos painéis solares montados nas bordas da cratera.

Durante as duas décadas seguintes, outras cúpulas foram sendo montadas conforme as necessidades dos governos envolvidos no projeto, como a Estação de Monitoramento Terrestre em Mare Vaporum. Posteriormente foi erguida uma segunda cúpula, menor e feita num único bloco de cristal de carbono industrial, que recebeu o nome de Cúpula de Cristal, de onde era possível observar a Terra a olhos nus.

Com a crise econômica na década de 50, a ILEWG foi obrigada a diversificar suas atividades acrescentando o turismo lunar às suas fontes de renda. Assim surgiu a cidade turística de Luna City no Mar da Serenidade em 2058. Em 2059 a Cúpula de Cristal foi transferida para as imediações de Luna City e se tornou num dos seus principais pontos turísticos.

****

Zeppo e Baldi estavam quase sem fôlego, se movimentar na gravidade lunar era mais difícil do que parecia, apesar da sensação de peso ser menor, a massa cobrava seu tributo inercial e sem o contraponto da gravidade normal, ambos tinham que forçar músculos que nem sabiam que existiam.

- Eu pensei que você tinha dito não! - comentou irritado Baldi.

- É, NÓS dissemos.

Por mais que se esforçassem, eles eram incapazes de alcançar a jovem Anita que saltará do ônibus-orbital e deslizava por entre os turistas como se fosse a coisa mais natural do mundo. Só parando diante do funcionário da alfândega.

- É incrível como as crianças se adaptam depressa na gravidade lunar. Ela parece uma verdadeira selenita.

- Está mais para lunática. - Baldi entregou os passaportes falsos.

Após conferir os passaportes no terminal o funcionário liberou o trio, que se afastou até um lugar mais calmo onde Anita tentou chutar a canela de Baldi, mas esse já conhecendo o humor da garota se desviou.

- Chega Anita. - pediu Zeppo.

- Mas ele me chamou de lunática!?!

- Eu disse 'chega', agora localize os alvos.

Apesar de bufar contrariada, a garota puxou da manga da jaqueta de náilon vermelha um tubo metálico do qual desenrolou uma tela flexível de bio-LCD até ouvir o clique do mecanismo travando.

- O coronel e o cientista ainda estão na Estação de Monitoramento Terrestre. A professora está aqui em Luna City.

- OK, vamos seguir o plano, eu estou indo para a estação e vocês cuidam da professora.

Baldi se afastou para dentro do espaço-porto enquanto os 'irmãos' saiam pelo portão principal.

****

A Profª. Susan Penari tinha 45 anos, era descendente de hindu-americanos - pele levemente morena, cabelos escuros e lisos, olhos amendoados - e estava um 'pouco' acima do peso. Ela era especialista em educação para surdos-mudos, por isso havia sido contratada para ensinar noções básicas da língua de sinais aos operários que trabalhavam do lado de fora das cúpulas. Era um trabalho agradável até que o Cel. Willkinson surgirá com uma proposta 'irrecusável'.

Ela estava sentada a uma mesa afastada num café na área comercial de Luna City, naquele momento tentava controlar as mãos que tremiam de raiva e impotência, foi quando sentou do outro lado mesa uma garota de cabelos negros e olhos verdes, impossivelmente verdes.

- É lente?

A menina apenas sorriu de volta.

- Profª. Penari? - perguntou o rapaz moreno que serviu uma xícara de café para professora e um copo de milk-shake de chocolate para a garota. - Sou Zeppo Leone, correspondente do Jornal AnarqNET.

- Sinto muito, mas não posso falar com a imprensa. - e se levantou.

- Por favor, não deixe ela morrer. Ela está morrendo não está? Foi isso que o coronel quis dizer com 'o tempo dela está acabando', não foi? - a professora olhou assustada para a garota que tinha lágrimas nos olhos verdes.

- Como vocês sabem? - e se sentou novamente.

- Nós não sabemos professora, é por isso que precisamos de sua ajuda.

A mulher pegou a xícara com as duas mãos e sorveu lentamente o liquido escuro.

- Obrigada. Eu estava precisando disso. - Ela exibiu um sorriso cansado e começou a contar sua estória.

2064/12/01 - Estação de Monitoramento Terrestre/Lua

A Estação de Monitoramento Terrestre era composta por varias cúpulas interligadas e estava sob controle direto do Pentágono. Não era segredo para ninguém que uma das funções da estação era a espionagem militar.

O Cel. Willkinson e o Dr. Taunzer acompanhavam a Profª. Penari pelos corredores da estação.

- Devo lembrá-la novamente que esse assunto está sobre segredo de estado e o que a senhora ouvir ou ver nos próximos meses não poderá ser comentado fora deste grupo, ou será considerado como espionagem e traição.

- Eu compreendo, coronel.

- Não entendo o porquê de mandar uma lingüista neste momento, afinal já descobrimos como utilizar os poderes da alienígena.

- As ordens vieram de baixo, Dr. Taunzer. Afinal num dos seus relatórios o senhor supôs que a alienígena se comunicasse por sinais, já que não possuía cordas vocais. E o Pentágono acredita que se estabelecermos um elo de comunicação poderemos descobrir novos usos ou até mesmo uma explicação para suas habilidades.

O grupo parou defronte a uma porta com tranca especial.

- Soldado, diminua a iluminação do corredor.

- A alienígena é sensível à luz, por sinal foi assim que ela foi capturada, ela estava na Cúpula de Cristal quando uma equipe de manutenção acendeu as luzes. - o cientista explicou sorrindo.

A primeira impressão da Profª. Penari foi de uma garota normal encolhida num canto do quarto, mas então ela notou os olhos totalmente prateados.

- Impressionante não? Funcionam como os olhos de um gato, eles refletem e concentram a luz ambiente num ponto.

- O cabelo dela...

- Oh! Isso? Há dois meses atrás depilamos todo o corpo para podermos fotografar sua pele. Mas já está crescendo como pode ver.

O Dr. Taunzer não se importou com o olhar de reprovação da mulher e continuou, agora, empolgado.

- Observe a pele da espécime e você irá ver finíssimas linhas cruzando toda a superfície. No inicio pensamos que eram apenas uma característica natural da pele, mas então descobrimos que possuíam propriedades eletromagnéticas. Simplificando, imagine a pele dela como um enorme circuito eletrônico.

A professora não prestava atenção à explicação. Ela tocou suavemente a pele macia e quente, e depois os finos cabelos brancos que começavam a crescer. Foi quando ela reparou nas munhequeiras de couro unidas entre si por uma fita de aço com não mais do que um palmo de comprimento.

- O que são essas coisas???

- Inteligente, não? No começo usávamos algemas de metal, mas elas machucavam os pulsos da esp...

- Pois eu quero que as tire imediatamente, como posso lhe ensinar a língua de sinais com as mãos presas dessa forma!

O cientista deu de ombros e olhou aborrecido para o coronel.

- Soldado, libere as mão da espécime de acordo com o procedimento de segurança.

O soldado se aproximou da cama, mas para a aflição da mulher ao invés de se dirigir aos pulsos da alienígena, o soldado a empurrou para o lado e puxou lhe os pés exibindo as tornozeleiras de couro. O soldado então prendeu as duas tornozeleiras com uma fita de aço.

- Pare! O que você pensa que está fazendo?

- Esses são os procedimentos de segurança. A alienígena não deve ficar com os braços e as pernas livres simultaneamente. Lembre-se disso, Profª. Penari.

Após confirmar que as tornozeleiras estavam ligadas firmemente, o soldado retirou a fita de aço que mantinha os pulsos unidos.

- Estaremos esperando pelos resultados, professora.

Os três homens saíram do quarto, e a humana abraçou a alienígena e começou a chorar.

2065/03/11 - Luna City/Lua

A garota havia largado o milk-shake e estava abraçada à mulher que chorava. Encabulado e sem saber o que fazer, Zeppo foi buscar uma nova xícara de café.

- Algum problema? - perguntou a atendente.

- O marido da minha tia... morreu num acidente na Terra.

- Oh! Sinto muito, esse é por conta da casa.

- Obrigado.

Quando retornou à mesa, o jovem já tinha tomado sua decisão.

- Profª. Penari, não se preocupe, nós vamos libertá-la.

- É impossível invadir a Estação de Monitoramento. Aquilo é área de segurança militar.

- Não será necessário, está marcada uma nova manifestação em Bagdá para daqui a três dias, então eles a trarão para a Cúpula de Cristal.

- Sim seria possível, a cúpula fica a apenas alguns metros da cúpula principal poderíamos ir pelo lado de fora. Mas, e depois? É impossível sair ilegalmente da Lua.

- Não irei sair, darei cobertura para a senhora retornar à cúpula principal e depois irei me entregar.

- Não! Você será fuzilado como terrorista ou como sabotador!

Zeppo apenas sorriu, afinal essa não seria a primeira vez, e quem respondeu foi Anita.

- Não se preocupe, as duas especialidades dele são: salvar donzelas em perigo e escapar da morte.

2065/03/14 - Bagdá/Iraque

E o sol brilhou sobre a capital do Iraque naquele pacífico sábado. As pessoas saíram às ruas em silêncio, vestindo suas túnicas brancas ou listradas enquanto as mulheres cobriam a cabeça com lenços de algodão. No coração eles traziam o desejo por eleições e o fim da ditadura militar que já durava dez anos.

No dia anterior, na sexta-feira, os imãs haviam pregado. Alguns diziam que os tremores eram a resposta de Alá aos desejos do povo islâmico, outros diziam que era a divina irá d'Ele para com aqueles que desejavam mudar as tradições.

A população silenciosa de Bagdá se juntou à frente do palácio presidencial protegido pelo exército. O povo, os soldados, o mundo - todos aguardavam ansiosamente uma intervenção divina.

2065/03/14 - Cúpula de Cristal/Lua

Os dois transportes articulados que haviam deixado a Estação de Monitoramento se aproximaram da Cúpula de Cristal que estava fechada para manutenção. O menor dos veículos se conectou a cúpula, enquanto o maior permaneceu estacionado ao lado.

Um soldado armado de metralhadora entrou na cúpula, verificou a segurança dos corredores e fez sinal para o resto do grupo. O grupo então seguiu pelo corredor - à frente o soldado armado, na seqüência outros dois soldados traziam a alienígena com os pulsos presos, depois os dois médicos com seus equipamentos e por fim outro soldado armado - até pararem de fronte à porta dupla que dava para o salão central da cúpula.

- Controle, Equipe Dancer a postos. - informou um dos guardas.

- Equipe Dancer, libere o experimento e deixem a cúpula.

Os guardas levaram a jovem até o centro do salão que era a razão de ser da Cúpula de Cristal. O salão era grande, mais de 60 metros de diâmetro, o piso forrado com um tapete grosso, vários bancos e poltronas estavam encostados às paredes junto com alguns telescópios, deixando a área central livre. Apenas a Terra, com seus azuis, brancos e verdes, iluminava o salão através do teto de cristal.

A jovem parecia magra a abatida para seus 1.80m, seu cabelo já estava comprido o suficiente para parecer despenteado. O guarda retirou os óculos escuros que protegiam seus olhos prateados, e depois lhe soltou os pulsos.

- Controle, retiramos as algemas. Estamos deixando a cúpula.

Assim que os soldados deixaram a cúpula ela chutou para longe as sapatilhas, retirou a bata e deixou que a luz terrestre lhe iluminasse seu corpo nu. As munhequeiras e tornozeleiras ainda a incomodavam, mas não havia como retira-las. Então ela abriu os braços e começou a dançar.

****

Os guardam aguardavam displicentemente no corredor.

- Estou atrasado para o baile?

Antes que os soldados pudessem reagir, Zeppo disparou o extintor de incêndio contra eles. Em instantes todos estavam inconscientes.

- Nada como uma boa mistura de fosfato de amônia com diacetil-morfina. Já podemos retirar a máscara.

- Eles estão bem? - Perguntou a professora que também retirava a sua máscara de oxigênio.

- Eles acordarão daqui a algumas horas. Agora é com a senhora.

****

Na sala de controles o Dr. Taunzer e o Cel. Willkinson acompanhavam os procedimentos da operação.

- Senhor! Alguém entrou na cúpula!

- Equipe Dancer! Equipe Dancer? Responda Equipe Dancer?

Um confuso Dr. Taunzer se voltou impotente para o coronel, que se ergueu para assumir o comando.

- Mande a equipe de apoio.

- Senhor, alguém bloqueou a estrada para a cúpula.

- Mande-os usar a entrada lateral. Operador, ligue os holofotes da cúpula, não vamos deixá-la escapar.

O soldado se pós em pé, colocou as mãos na lateral do painel e o puxou com toda a força, arrancando fios e rompendo circuitos.

O coronel, furioso, apontou sua pistola para o soldado.

- Quem raios é você?

O saldado se voltou com os braços erguidos, retirou o boné exibindo os cabelos loiros cortados curtos à moda militar.

- Baldi Atalanti, correspondente do AnarqNET. Gostaria de entrevistar o senhor, Cel. Willkinson. Será que o atual governo militar do Iraque conseguira se manter no poder sem seu apoio divino?

- Desgraçado!

O oficial ficou roxo de raiva e começou a pressionar o gatilho quando foi interrompido por um soldado.

- Coronel, ligação do Pentágono.

****

A Profª. Penari passou pela porta, correu para dentro do salão e abraçou a espantada alienígena. Enquanto a professora pedia através de sinais que a jovem fosse embora, o Zeppo sacava de um alicate de corte e retirava as munhequeiras e tornozeleiras.

- Você entendeu? Você está livre. E precisa ir embora agora! Está me entendendo?

A jovem confirmou com um aceno de cabeça e com gestos agradeceu à amiga. Por fim, as duas mulheres juntaram as palmas das mãos na frente do peito e fizeram uma breve mesura. Despedidas feitas, Zeppo puxou a Profª. Penari em direção à porta aonde parou deslumbrado.

A dançarina bailava pelo meio do salão, sua pele nua brilhava à luz da Terra enquanto linhas azuis brilhantes se formavam sobre a pela. Aquilo era algo visto apenas em sonhos. Quanto mais ela dançava, mais o salão ia ficando gelado e o ar era sugado para o centro. A poeira subiu do tapete e começou a girar em torno dela, cintilando como pequenas estrelas. Por fim, num sopro de vento mais forte, a dançarina desapareceu.

- Uau! - foi o único comentário de Zeppo.

- Agora é a vez da senhora desaparecer, logos os outros soldados vão conseguir chegar aqui. - Ele pegou uma das metralhadoras e trocou o pente de munição diante dos olhos aflitos da professora.

- Podemos fugir juntos.

- Eles logo nos alcançariam. Agora vá!

Mal a mulher havia sumido por um corredor, Zeppo ouviu o som de pesadas botas. Ele entrou no salão, colocou o cano da metralhadora para fora e disparou uma rajada de tiros de festim para o teto.

2065/03/14 - Virgínia/EUA

Numa pequena sala na ala leste do Pentágono, o Secretário Drake observava com atenção seu monitor. Uma janela exibia a manifestação ainda pacífica em Bagdá, numa outra estava o relatório que acabara de receber com nomes, dados comparativos das atividades da Estação de Monitoramento Terrestre com os recentes terremotos no Oriente Médio, e com a conclusão da existência de um canhão de neutrinos. Uma conclusão falsa, porém mais crível do que uma 'dançarina' alienígena.

- Cel. Willkinson na escuta. - a voz chegou pelo viva-voz.

- Qual a situação do Projeto D, coronel?

- A operação de hoje foi com cancelada, senhor. Capturamos dois sabotadores de origem italiana.

Drake suspirou e se preparou para o pior.

- Qual a situação da alienígena?

- Ela está desaparecida, senhor.

- Cel. Willkinson, o Projeto D está cancelado. Retorne para a Terra com o Dr. Taunzer e todas as anotações, ele poderá continuar sua pesquisa na base no Colorado.

- E os sabotadores? Devo retornar com eles para serem julgados?

- Não, libere-os e os expulse da Lua.

- Como senhor? Eles não serão julgados?

- Por mim você poderia meter uma bala neles e jogá-los numa cratera, mas infelizmente isso não será impossível, e nem há mais motivo para novos desgastes.

- Mas senhor, eles...

- Eles não são amadores, Cel. Willkinson. Execute minhas ordens. Desligo.

Drake releu a última parte do relatório: "Se meus colegas jornalistas não forem soltos imediatamente, o conteúdo desse relatório será divulgado ao público. Assinado: Princesa da Lua". Ao chegar à assinatura não conseguir evitar que um sorriso surgisse em sua face dura de olhos cinza e com a barba de dois dias. Ele ligou para sua secretária e a imagem dela substituiu a do relatório.

- Senhora Drew, envie aquele meu memorando, aquele sobre a retirada do pessoal não essencial da nossa embaixada no Iraque, para o Secretário da Defesa.

- Estou enviando Sr. Drake. E a agente Zanini está em outra linha.

- Pode transferir.

O rosto da jovem agente do FBI, a ítalo-americana Anne Zanini, apareceu na tela junto com o logo do Aeroporto Internacional de Fort Worth, Dallas.

- Bom dia, Sr. Drake.

- Bom dia, Agente Zanini. O que a trás a Dallas?

- Vim buscar a jovem Anita Leone e levá-la de volta para sua casa na Itália.

- Muito descuido da parte deles.

- Como senhor?

- E onde estão nossos dois problemáticos jornalistas?

- É por isso que eu liguei. Não sei por que, mas eles estão em Luna City.

- Excelente trabalho Agente Zanini, mandarei o escritório local do FBI investigar.

- Obrigado senhor.

- Aproveitando, como vai a pequena Anita?

- Como pode ver...

A agente saiu da frente da câmera, que automaticamente ajustou o foco na garota de longos cabelos negros e olhos verdes que conversava animadamente com um guarda do aeroporto. O coração de Drake deu um salto, mas em seu rosto nada transpareceu.

- ...ela está bem animada. O FBI já conseguiu informações sobre seus verdadeiros pais?

- Infelizmente ainda não, por isso continue vigiando eles. Algum dia conseguiremos mandá-los para a cadeia por seqüestro.

- Com certeza, senhor Drake. Vou desligar agora, o vôo está chamando.

A imagem sumiu sendo preenchida pelas imagens de Bagdá, onde os manifestantes, agora mais confiantes, começavam a se agitar. Mas não era a provável queda de um governo aliado no Oriente Médio que ocupava os pensamentos do funcionário do governo Willian Drake.

Fim

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