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INFORMAÇÕES    
Autor: Aguinaldo I. Peres.
Título: Lux.
Publicação: 05/09/2006.
Categoria: Ficção Científica.
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Texto vencedor do Desafio de Fevereiro com Tema: Lux.
Escritores da Fábrica de Sonhos.

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OUTRAS OBRAS DO AUTOR
Brincando de Cartomante.
Cúpula de Cristal.
Das Sombras.
Sob a Proteção...
FICÇÃO CIENTÍFICA      
LUX.
Por: Aguinaldo I. Peres

Imagem da Internet

Vocês já sentiram aquele friozinho na barriga? Aquela sensação de que o tempo não avança? Querendo que aquele momento chegasse logo e ao mesmo tempo desejando que nunca chegue?

Pois é assim que estou me sentindo, ansioso por partir, com medo de partir.

Esta é a Lux, quase toda motor e sistema inercial, ainda um esboço do leviatã que virá a ser num futuro próximo quando receber os módulos de convivência e pesquisa. Mesmo com seu aspecto inacabado, ela é a nossa menina dos olhos, o orgulho da humanidade, o supra-sumo da ciência. Pronta para o seu primeiro vôo teste.

Olho para o Donald, meu colega engenheiro, que ergue o polegar em sinal de positivo acompanhado de um sorriso meio torto. Respondo no mesmo tom, torcendo para que minha aparência não estivesse tão ruim.

A contagem regressiva começa e termina, os motores são ativados, a fuselagem vibra sob a tensão criada pelo compensador inercial, provocando um zumbido desagradável. Alguém coloca a Sagração da Primavera de Stravinski para tocar nos alto-falantes.

Aos poucos a adrenalina se vai, deixando uma sensação de calma, de realização. Sorrio para meu companheiro, desta vez totalmente sincero, e começamos a checar o equipamento. Pelo sistema de som chegava a conversa entre os membros da tripulação, banal e tranqüilizadora.

Penso comigo mesmo; como o ser humano se adapta com facilidade as situações mais improváveis.

****

Qual a sensação de se chegar ao topo de uma montanha? De mergulhar até o fundo do oceano? Estar separado do restante da humanidade por uma distância inimaginável?

Êxtase e solidão, era assim que o pequeno grupo de engenheiros se sentia ao observar em silencio um céu estrelado mas desconhecido.

Eu sentia a necessidade de contato humano, abracei pelos ombros a garota ao lado e sussurrei algum gracejo em seu ouvido que a vez rir. Do fundo do salão veio o estouro de champanhe seguido de brindes alegres ao som das Bachianas Brasileiras de Vila-Lobos.

Em seguida começamos a brincar, apontando para monitor que cobria a parede do salão principal e tentando localizar sem muita confiança as antigas constelações, para o desespero dos astrônomos que começavam a chegar. Somente após muitas discussões, zombarias e ameaças, o professor Ludovido indicou o minúsculo ponto que seria o Sol e outro um pouco maior que seria Plutão. E Sirius da constelação do Cão Maior permanecia sendo a estrela mais brilhante no firmamento.

Tão rápido como começou, a festa terminou e retornamos aos nossos afazeres, afinal ainda havia o caminho de volta. Mas não havia mais a tensão da partida, agora éramos todos veteranos do espaço.

Precisamos de tão pouco para sermos felizes, mas mesmo assim continuamos avançando.

****

Como você se sentiria ao retornar para casa e descobrir que ela não mais existia? Que sua cidade está deserta? Que não há ninguém a esperar seu retorno?

Essa é nossa sensação neste momento, duas dezenas de cientistas, engenheiros e técnicos, olhando embasbacados para um planeta escuro, um planeta morto. O que antes brilhava como uma constelação de infinitas cidades agora não passava de uma sombra negra.

Nós, tão conscientes de nossa inteligência, tão confiantes em nossos cálculos, partimos numa simples viagem de teste, um vôo de vinte horas em aceleração exponencial até atingir o limite da velocidade da luz, manter a velocidade constante por duas horas e então desacelerar. Tudo tão simples, tão singelo. Mas agora, oitenta e oito horas depois, somos recebidos pelo silêncio, apenas a estática provocada pela voz do universo estala nos alto-falantes.

Enquanto a parte emocional da mente tenta assimilar a magnitude do ocorrido, a parte racional tenta encontrar uma justificativa. Sabíamos que o tempo passaria mais rápido na Terra, nossos cálculos apontavam para um lapso de trinta e dois dias. Mas então o que ocorreu na nossa ausência? Uma guerra, um cataclismo? Ou nossos cálculos estavam errados? Quantos séculos haviam realmente passado? Quantos milênios?

Alguém começa a soluçar, outros o seguem. A minha frente, em câmera lenta, vejo o professor Pardal se ajoelhar e começar a rezar. Assim como eu, outros permanecem de pé olhando fixamente a imagem no monitor sem poder aceitar a verdade. Egos tentando se agarrar à mais tênue das esperanças, desesperadamente procurando uma justificativa, uma desculpa para fugir da derradeira pergunta. Estamos sós?

Aos poucos noto os acordes da Nona Sinfonia de Beethoven acima das lamentações, em seguida os primeiros versos em alemão num crescendo. Uma luz se acende na fase escura do planeta. Pisco e chacoalho a cabeça incrédulo, mas a luz continua a cintilar, minto, são milhares de pontos que vão se acendo em seqüência. Em poucos segundos a palavra ‘welcome’ se forma sobre a superfície do planeta.

Um urro de alegria ecoa pela sala, alguém me abraça com força, sinto minha fase molhada sem saber como. Vejo dois jovens erguendo o velho professor ao mesmo tempo em que berram ao seu ouvido e apontam para o monitor. Choro, riso e blasfêmias se misturam as vozes do coral.

Só após vários minutos é que finalmente compreendo o que aconteceu, com certeza alguém da área de marketing iria perder o emprego.

Fim

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