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As estrelas brilhavam naquela noite quase eterna que se abatia sobre a Lua. Hagan as observava sempre que algo lhe incomodava. Novamente, após anos de pesquisa, Hagan seria novamente remanejado para outras instalações científicas, desta vez em Marte.
-Estrelas! Hagan começava a divagar sobre o destino da humanidade.
Já fazia quase duzentos anos que o homem se lançara ao espaço em busca do desconhecido, para obter respostas as suas perguntas, para obter o conhecimento, para crescer com ele. Em 1969 o homem pisou na Lua. A sorte estava lançada. Com este grande evento a humanidade se lançaria ao que foi chamado de “Conquista do Espaço”, e que hoje não passava de história. Cinqüenta anos mais tarde o homem finalmente realiza um de seus maiores sonhos : a primeira colônia lunar, que na época era apenas um pequeno complexo científico isolado capaz de manter vinte pessoas durante cinco anos.
Não demorou muito e o homem alcançou Marte, que também foi colonizado com o intuito de se criar um ambiente onde se pudesse viver como na Terra. Anos depois seria a vez das luas de Júpiter.
A pequena colônia científica da Lua já havia aumentado e se tornado quase uma grande cidade. Protegidos por uma grande cúpula transparente que absorvia os raios do Sol e abastecida por um grande jardim hidropônico capaz de sustentar qualquer tipo de vida conhecida, surgiu o que hoje é um dos grandes orgulhos de nossa raça, e um bom lugar para se fazer turismo nas férias. Os minerais encontrados na Lua são amplamente explorados e utilizados na colônia, e parte deles são escoados para a Terra.
Marte também esta em fase de crescimento, e já era hora de se atualizar as instalações científicas e conseqüentemente os seus integrantes. Hagan seria transferido para Marte dentro de alguns dias. Estava muito nervoso, pois sempre que se adaptava a um novo ambiente e conseguia se estabelecer era transferido para locais mais longínquos da Terra. Hagan já não achava isso tão interessante quanto a dez anos atrás, quando ainda era um jovem cientista ávido por novas descobertas e por explorar o desconhecido. Sentia saudades de sua terra, de sua família.
Eram quase nove horas. Hagan voltou-se para seu quarto, deixando as estrelas de lado. Sentou-se em sua pequena escrivaninha e procurou encontrar os papéis de transferência que havia recebido no dia anterior.
- Diabos, onde foi que os coloquei.
Seu computador pessoal, alojado em seu quarto dava sinal de chamada. Hagan levanta-se e aproxima-se de sua tela. Dá autorização ao computador para receber a chamada. Em segundos surge na tela um rosto. Era de um homem já de meia idade, com cabelos grisalhos e um bigode branco.
- Olá Kerfs. Já soube da transferência?
- Acabo de saber, e creio que é um absurdo. Você está aqui a mais tempo do que todos nós, conhece esse lugar melhor que qualquer um, e agora querem transferi-lo apenas porque estão inaugurando novas instalações cientificas em Marte. Isso é ridículo.
- Calma. Também não gostei desta transferência, mas o que posso fazer ? Pedir a eles não irá mudar nada. Continuarão querendo que eu vá para Marte. E ainda por cima virão com aqueles elogios tentando me convencer de que eles dão algum valor a alguém.
-Deve haver outro meio...
-Não, não há. Creio que não há nada a fazer. Tenho de terminar uns relatórios. Nos vemos amanhã.
-Tudo bem. Até amanhã.
A tela se torna preta novamente. Hagan senta-se novamente na escrivaninha. Começa a remexer nos papéis sobre sua mesa, procurando pela ordem de transferência.
- Relatórios... Ah... Finalmente achei!
O documento estava bem claro em seus dizeres e não deixava dúvidas, Hagan seria transferido e não poderia fazer nada quanto a isso.
- Eu não preciso acatar isso. Vou ficar aqui, quer queiram, quer não.
Hagan dirigiu-se para a porta de seu quarto, que se abriu automaticamente quando ele se aproximou. Começou a andar pelo corredor, em direção das instalações do Conselho Central da Lua, o corpo de governadores do mesmo. Sabia que talvez eles não o ajudassem, mas ele precisava tentar. Não queria ser transferido e também não queria ficar a mercê de outros, levando-me para lá e para cá só. Ele era um cidadão e merecia ser tratado como tal.
Adentrando a sala principal do Conselho, Hagan se vê no meio de um grande círculo. Em suas bordas estavam posicionados os membros do Conselho da Lua. Hagan aproxima-se do Governador central.
-Senhor, eu gostaria de solicitar o cancelamento de minha transferência para as instalações científicas de Marte.
-Isto não será possível senhor Hagan. As ordens vieram diretamente do Conselho Científico da Terra.
-Mas eu já estou a muito tempo aqui, por que me transfeririam agora ? O que há de tão importante em Marte que precise exatamente de mim e que não aceite o cancelamento de uma ordem de transferência?
-Infelizmente não posso lhe dar esta informação.
- Mas...
-As ordens são irrevogáveis. Neste mesmo momento o Governante central aponta para a porta de saída. Hagan sai lentamente da sala do Conselho. Caminha em passos firmes de volta para seu quarto.
-Quem eles pensam que são, acham que podem mandar em todo mundo e ainda por cima sem dar satisfação!!!
Hagan deitou-se em sua cama e começou a pensar. Já era hora de ele tomar a decisão que iria Ter grandes conseqüências em sua vida. Estava decidido. Não iria embora, não acataria as ordens de transferência, ficaria recluso em seu quarto até que aceitassem suas condições e o deixassem decidir o rumo de sua vida.
Os dias se passaram e Hagan não deixou o quarto. No dia em que deveria ser transferido nem se preocupou muito. Ficaria ali. Estava observando seus relatórios sobre experiências no vácuo, quando a porta de seu quarto abriu. Adentraram em seu quarto dois homens devidamente uniformizados e com postura disciplinar.
-Viemos buscá-lo senhor. Hagan. Seu transporte para Marte já está pronto.
- Não adianta, não irei, ficarei aqui.
Um dos homens retirou de seu uniforme um pequeno objeto metálico, que Hagan reconheceu como sendo um sonífero. Tentou escapar, mas foi seguro pelo outro homem. O sonífero foi-lhe aplicado no pescoço. Tudo se apagou, restou apenas o escuro...
Hagan abriu seus olhos lentamente. Ainda estava meio zonzo, talvez devido ao tempo de efeito do sonífero. Estava em uma cama, num complexo bem iluminado e com inúmeros aparelhos médicos. Uma mulher com uniforme de enfermeira aproxima-se com um copo de água.
-Bom dia Dr. Hagan está se sentindo bem?
-Estaria se não fosse este maldito sonífero que me aplicaram. Quanto tempo estive em repouso?
-Três dias Dr.
-Três dias!!!! Mas como...
-Foi-lhe aplicada uma dose extra do sonífero.
Hagan observa novamente ao seu redor. Não reconhece o local, apenas sabe que é uma instalação médica, mas não da Lua.
- Onde estou?
- Em Marte Dr. O senhor esteve em repouso durante toda a viajem.
Neste mesmo instante um homem já um pouco de idade, adentra a sala, vestido em roupas brancas, com o emblema do Conselho Científico em seu peito.
- Bom dia Dr. Hagan. Eu sou Dr. Lecof, e estou encarregado de lhe mostrar nossas novas instalações científicas. Creio que o senhor irá se surpreender.
Hagan já estava aborrecido com o fato de lhe terem trazido a força para Marte. Mas não havia mais nada a fazer. Lecof fez um sinal com as mãos para que Hagan o seguisse. Este levantou-se da cama e o acompanhou. Andaram por alguns corredores sem trocar uma palavra. Começaram a sair do complexo. Hagan estranhou, pois não existia forma de se sustentar vida em Marte fora dos complexos terrestres. Observou ao seu redor, e pode constatar que ainda estavam dentro do complexo, que tornara suas paredes transparentes para que se pudesse contemplar a superfície marciana sem ter de se preocupar em utilizar trajes espaciais específicos. Hagan acompanhou Lecof até um penhasco marciano que ficava bem a sua frente.
Olhou para baixo e seus olhos se arregalaram tamanha a surpresa diante do que via. Uma grande floresta, de quilômetros de extensão, abrigando várias formas de vida encontradas na terra se desenvolvia em pleno ambiente marciano, sem a ajuda de nenhum sistema de suporte, sem mesmo estar dentro do perímetro do complexo terrestre. Hagan estava espantado.
-O que é isso?
Doutor Lecof observa a expressão de espanto no rosto de Hagan, volta-se para a imensidão da floresta e observa o vôo dos pássaros.
- O futuro senhor Hagan, o futuro...
Inspirado em contos de Isaac Asimov.
Fim
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