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PRÓLOGO
Segundo Ishtar V'Tal, renomado sociólogo tamoi, a comunidade interplanetária é uma evolução natural da sociedade planetária. Em seu estudo “Evolução, sociedade e destino”, defende que o comércio é o elo de união que aproxima tribos, cidades, nações e, conseqüentemente, mundos. Em sua obra, aponta o mercado interplanetário como o prelúdio de uma sociedade ainda maior, com conceitos mais abrangentes e limites cada vez mais amplos.
O fato é que o mercado entre os diferentes mundos estreitou os laços entre seus povos, criando naturalmente até mesmo uma linguagem comum a todos. Os mercadores precisavam viver e os governos necessitavam negociar. Não houve guerras, mas essa comunidade não era nenhuma utopia. Alguns gêneros, como narcóticos, escravos e tecnologias eram ilegais e, por isso mesmo, vendidos a preços exorbitantemente altos. Um mercado ilegal estabeleceu-se e alguns enriqueceram com isso. Seres de espécies diferentes, mas de caráter bem semelhante, tornaram-se poderosos o suficiente para não serem mais “incomodados” pelos governos a quem “serviam”.
Esses ricos contrabandistas se autoentitularam “jacais”, nome original de um animal predador do planeta desértico Darr. Assim como a besta da qual emprestaram o nome, os jacais não poupavam nada que ficasse em seu caminho e o número de mortes começou a crescer. Alguns eram vítimas diretas do tráfico, como policiais e concorrentes, outras morriam pela violência e ignorância crescentes. Sim, pois para manter seu poder os jacais precisavam de armas para defenderem-se, de viciados para consumir seu produto, de matéria-prima ignorante para o mercado escravagista, de uma sociedade ignorante para não perceber o caminho que todos estavam trilhando e para manter no governo os “líderes” que os favoreciam.
Kazar, Imperador de Kaird, tentou reunir alguns governantes de planetas aliados para criar uma polícia interplanetária. Uma força que fiscalizaria as naves mercantes no espaço, onde teriam força e independência para erradicar as mercadorias da morte. A notícia correu acima da velocidade da luz e caiu como uma bomba nos ouvidos mesquinhos dos Jacais. Foi como a pincelada final no quadro desgraçado que a tanto tempo estava sendo pintado. Os Jacais uniram-se e, com traição, força armada e muita covardia, tomaram o poder de seus mundos e impuseram uma nova ordem naquela sociedade. Uma nova ordem baseada em interesses egoístas, dinheiro fácil e ausência total e formal de qualquer decência, caridade ou moral.
Nascia o Império Jacal, formado por planetas inteiros governados pelo que havia de pior entre seus criminosos. Alguns povos rebelaram-se, mas foram apaziguados... Alguns exércitos foram eliminados por completo. Mas, os jacais haviam apenas começado. Afinal, nem todos os planetas tinham criminosos fortes o bastante e mantiveram-se fora do império que nascia. Esses eram os próximos alvos. Quando toda a civilização conhecida estivesse unida sob a nova bandeira, estaria formado o Domínio Jacal.
E tudo ocorreu sob os olhos de todos. Cada passo, cada milímetro percorrido em direção ao abismo foi vivido pelos cidadãos conscientes de uma sociedade tecnologicamente avançada.
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Capítulo I.
BRISA.
Mesmo nas lembranças mais distantes de sua infância, quando ainda auxiliava seu pai no antigo cargueiro, Nira já sonhava em um dia guiar sua própria nave. Montava seu terminal de comando com caixas, papéis coloridos e cola e, enquanto seu pai passava horas estudando rotas, revendo preços e concertando as persistentes panes nos instrumentos da nave enferrujada, sonhava acordada em singrar o infindável espaço a conhecer novas espécies e seus fascinantes costumes. Em seu universo de faz-de-conta, cada viagem era uma nova e empolgante aventura. Ela e seu pai, única tripulação do cargueiro, inventavam muitas atividades para aproveitar os tempos livres, mas aquela brincadeira era sua preferida, a única que tinha graça quando estava só, solta nos corredores da astronave que foi o único lar que conheceu. Agora, enquanto conferia o trajeto de sua nova nave, esse sentimento de alegria a preenchia totalmente. Sentada em sua cadeira finamente acabada, ainda com cheiro de recém-fabricada, comparava sua recente aquisição com o cargueiro em que crescera e que, após o recolhimento de seu pai, pilotara durante cinco anos. Através das rotas comerciais mais conhecidas, comprou e vendeu sem quase parar ou voltar para seu planeta natal. Foram viagens que em nada assemelhavam-se com a idéia romântica que acalentara por toda a vida, mas a economia de dinheiro e conforto, mesmo de sonhos, valera a pena. Ajustando com o indicador o colarinho de seu traje artificialmente umedecido, um cacoete que já desistira de evitar, lembrou sem saudades da antiga ponte de comando, uma simples cabine de piloto, e dos apertados corredores... a desleal comparação chegava a ser hilária.
Após revisar os novos procedimentos de atracação e entrada em órbita, lembrou que, em uma astronave daquele tamanho, não poderia mais permanecer sozinha. Era um modelo complexo e moderno que exigia muito mais atenção. Teria que recrutar uma tripulação de, pelo menos, umas sete pessoas. Depois de tanto tempo “falando com as paredes”, teria que compartilhar suas viagens com estranhos. Será que funcionaria? Provavelmente seria até divertido, mas com certeza mudaria por completo o ritmo de vida a que tinha se acostumado. Sorriu consigo mesma pelo temor tolo e, com um brilho divertido nos olhos, voltou a analisar sua ponte de comando. Era um modelo bem atual, seguindo o padrão adotado pela maioria das naves de médio porte, com três postos à frente e um na centro-retaguarda. Os frontais possuíam cadeiras independentes, mas tinham seus consoles ligados, formando uma grande mesa vítrea de cor negra e forma retangular. Nela, três painéis com telas monitoras e controles, que mais pareciam desenhos coloridos e luminosos, reagiam ao toque e exibiam informações. De bombordo para estibordo - da esquerda para a direita - possuía o “posto de navegação”, responsável pelas rotas, mapas e comunicações; o “posto de operações”, responsável pelos sensores, defesas e armamentos; e o posto reservado para o imediato, segundo-em-comando na nave e responsável pela segurança interna, pela tripulação e supervisão dos sistemas. O quarto posto era o que agora ocupava, reservado para o comandante da astronave, com seu próprio console incorporado à poltrona. Que nave! Comprara-a a poucas semanas de mercadores humanos em um dos satélites “desabitados” do planeta Lar. Embora de costumes estranhos, os humanos eram excelentes produtores de gás carbônico e de tecnologia de transporte espacial. É lógico que, como de costume, a nave teve que sofrer algumas mudanças para tornar-se confortável, luminosa e úmida, atrasando sua saída em três dias, mas seu motor e blindagem faziam valer o preço e o grande risco que correu em sua aquisição. Após os recentes acontecimentos políticos, estava cada vez mais arriscado o comércio livre. Felizmente, quando o mercado atravessa dificuldades, o preço da mercadoria sobe. E ela esperava conseguir um bom lucro com suas sementes fertilizadas de alitáceas.
Imersa em seus pensamentos, deixou a ponte e rumou pelo corredor principal dirigindo-se à popa da nave para checar o estado da carga. Seguia sua rotina quando, próxima ao acesso do elevador de carga, sentiu uma alteração no ambiente. Era algo semelhante a um início de tempestade elétrica. – Não pode ser chuva, mas também não é uma descarga da nave. – Pensou, parando para estudar o inesperado fenômeno. Acostumada a sentir nuanças atmosféricas com precisão, ficou apreensiva com uma ocorrência dessas no meio do corredor de acesso. Não pôde conter um pequeno grito de susto quando algo grande surgiu aparentemente do nada. O lugar em que ocorria “aquilo” parecia se expandir, empurrando o ar que soprou a folhagem da capitão da nave. Não havia qualquer som ou luminosidade, mas Nira sentia campos eletromagnéticos se chocando e um cheiro de ozônio tomou conta de todo o setor. Aconteceu tudo muito rápido e, em uma fração de segundo, a “coisa” já tomara uma forma conhecida. Era um karile armado... e dos grandes.
“Originários de Kaird, sétimo planeta do nosso sistema estelar (Uni-Tonn), os kariles são uma espécie inteligente caracterizada por um aspecto cascudo, lembrando o de um artrópode. Embora possuam o mesmo número de membros que nós, seu resistente exoesqueleto quitinoso cor de terra lhes dá uma silhueta bem distante da humana. Seus globos oculares negros e brilhantes são protegidos por sobrancelhas que se alongam e se projetam para cima e para fora do crânio, formando dois pontiagudos chifres. A resistente couraça que recobre a região de cada ombro e braço é larga e elipsóide. Suas mãos são semelhantes às humanas no formato geral, mas seus cinco dedos são pontiagudos. Em cada antebraço, um ferrão permanece recolhido em um alojamento proeminente que termina em um espinho na direção pulso-cotovelo. Esses ferrões, uma vez acionados, deixam seu alojamento e chegam a um comprimento que supera o tamanho da mão. Embora sejam aeróbicos, possuindo fossas nasais e aparelho respiratório, não sentem odores. Medem cerca de dois metros de altura e sua visão lhes possibilita ver objetos a uma distância que humanos só veriam utilizando binóculos.” – Enciclopédia Êxito, Editora Ostrander – Planeta Lar.
O karile estava tonto, com a visão bem turva e um enjôo forte. Instintivamente apontou sua pistola para o pequeno ser verde à sua frente, que permaneceu estático. Após alguns instantes nessa situação, ainda desorientado, mas retomando o controle de suas ações, guardou no cinturão sua arma e o pequeno diário que carregava para tentar um contato pacífico...
– Tenha calma, não vou feri-lo. – O karile abrandou sua voz para parecer o mais amigável possível. Procurou agir normalmente, tentando não demonstrar que mal divisava os borrões coloridos à sua frente. Sua visão teimava em não focalizar, o que o colocava em arriscada desvantagem em um possível confronto com o desconhecido.
– Quem é você? De onde veio? E “como” veio parar aqui? – Fuzilou Nira ainda atônita. A folhagem verde-escuro de sua cabeça estava eriçada, reforçando sua expressão de espanto.
– Meu nome é Guiner, e vim em paz. Ainda... não sei bem como cheguei aqui. – Guiner sentiu um alívio, pois, embora aquela espécie fosse desconhecida para ele, pelo menos falava a linguagem universal do Domínio Jacal. Este detalhe, com certeza, seria de grande valia quando sua mente parasse de rodar. Encostou – Praticamente desabou. – suas costas na parede e tentou mudar de assunto. – Esse “carpete” verde que cobre o chão, o teto e as paredes da estação... é... grama de verdade?
– Bem, senhor Guiner... é nefácea, uma gramínea que se adapta bem ao composto que usei para preparar o interior da “nave”. Meu nome é Nira. – Mais calma, percebeu a óbvia mudança de assunto, mas optou por ignorar. Sua curiosidade sobre o intruso e sua inusitada façanha havia sido aguçada e imprudentemente já superava seu receio.
– Você é fêmea? Perdoe-me, não estou familiarizado com sua espécie. – Disse Guiner, tentando disfarçar o quanto estava desnorteado.
– Não é exatamente o que uma garota gosta de ouvir, mas vou perdoar desta vez. – Declarou divertida.
– Desculpe, estou meio confuso... pode me dizer exatamente onde estamos?
– Você está na Brisa, minha nave mercante. Estamos transportando sementes para Kaird. Seu planeta natal, eu suponho. – Disse, exagerando na autoconfiança e no sorriso.
Guiner sorriu, rendendo-se à contagiante atitude bem humorara da alienígena.
– Você já vai descer ao planeta? Não me sinto bem e agradeceria se pudesse contar com sua hospitalidade por mais alguns minutos.
– Faltam algumas “horas” ainda para chegarmos ao seu sistema estelar. Você está mesmo perdido, não? O que houve, afinal? Invadiu a nave errada?
Guiner tentou forçar um sorriso, mas o enjôo piorara e teve de segurar o vômito. Suas pernas cederam tomadas por exaustão. Nira convenceu-se do estado debilitado de seu visitante.
– Siga-me, eu o levarei até os alojamentos.
Já seguindo sua anfitriã pelos corredores iluminados, Guiner tentava entender como podia ter ido parar tão longe de Kaird... Horas! Estava até mesmo fora de seu sistema estelar! No fim do corredor, Nira apertou em uma placa junto à porta e estendeu o braço para dentro do alojamento, em uma atitude de apresentação teatral.
– Não é bem um hotel de luxo, afinal estamos em uma nave simples de mercadora, mas vai poder ficar um pouco mais à vontade e descansar... até retomarmos nossa conversa! – Disse, enfática.
– Em que data estamos... em Kaird?
– Que dia é hoje pelo calendário karile? Vejamos...
Nira foi até o meio do corredor para consultar um terminal do computador da nave. Guiner, com sua visão quase plenamente restaurada, a analisava. Ela era uma espécie de vegetal, como os keplets que oxigenavam sua nave, mas muito mais articulada e... “macia”. Sua pele lembrava a casca de um pêssego lareano, mas de cor verde. Em alguns lugares podia ver filamentos semelhantes a raízes formando desenhos pelo seu corpo. Em determinados pontos, como o antebraço, em volta do pulso e principalmente na cabeça, saíam folhas, ou algo similar, que variavam de formato de acordo com a região onde se encontravam. As do antebraço formavam uma linha que ligava a mão ao cotovelo e eram finas e longas, esvoaçando com o movimento. As do pulso eram curtas e formavam um grupo espesso, como uma verdadeira “pulseira moita”. No crânio, algumas eram duras e alongadas, formando desenhos sobre os olhos e se projetando para os lados da face, enquanto outras mais longas, mas bem mais maleáveis, saíam da nuca e caíam pelo pescoço até os ombros. Sua face tinha pequenas variações de tons, que mudavam constantemente de lugar, parecendo espelhar suas emoções, ressaltando suas expressões faciais. Mas, o que chamou mesmo a atenção de Guiner foi seu aspecto, definitiva e ilogicamente humanóide, com detalhes aparentemente inúteis para um vegetal, como dentes e língua, em um ser que, a princípio, realizava fotossíntese. Agora, com a mente um pouco mais clara, podia perceber até mesmo uma certa “sensualidade animal” em seus movimentos... Manfred, seu amigo lareano vendedor de minério de ferro, chamava isso de “rebolado” ou algo assim... com sua aproximação, interpelou-a:
– Por que uma vegetal tem tantas características animais?
– Para quem responde pouco você pergunta muito, não? Nunca viu uma límite? – Colocou as mãos na cintura e parou um instante analisando a reação do karile. – Já vi que não... Bem, eu não sou exatamente uma estudiosa do assunto, mas até onde me lembro ainda há muitas dúvidas quanto a isso. A corrente mais aceita é a de que nós herdamos este aspecto de alguma espécie animal enquanto evoluíamos para vegetais. Como deve ter percebido, há grande semelhança entre nós e o que os lareanos batizaram – Presunçosamente, em minha opinião – de “padrão humanóide”. Mas essas semelhanças entre espécies civilizadas não são exatamente uma “novidade”!
– É verdade, internamente nós, kariles, também somos muito semelhantes a esse padrão, mas sua silhueta é muito mais parecida que a nossa! É estranho ver certas características em um ser com “necessidades” tão diferentes. Pelo que conheço de evolução natural, detalhes inúteis vão se perdendo...
– Olha, essa sua “entrada triunfal” à qual você insiste em não se referir me deixou meio... bem, digamos que simplesmente não estou com cabeça para psicobiologia e demais ciências. Agora, eu não falei de herança genética, nossos cientistas referem-se a uma “herança psíquica”. – Fez uma careta. – Enroladinho, né? – O risinho de Nira conseguia quebrar a seriedade de seu misterioso hóspede.
– Verdade, e que dia é hoje?
– Ah, sim. Em Kaird estamos no dia quinze do mês das brumas.
– Quinze do... de que ano?
– Que ano? Isso eu nem precisava consultar, no calendário de vocês estamos em 5.037. Você não sabe nem o ano em que estamos? É algum tipo de náufrago?
O ar faltou para Guiner, as imagens dos últimos acontecimentos pipocaram em sua mente transformando-a em um caleidoscópio frenético.
– Preciso muito de descanso.
– Tudo bem. – Nira percebera o golpe que Guiner tinha recebido ao saber da data. Sua vontade era insistir nas perguntas até descobrir o que estava acontecendo, mas aquele karile parecia mesmo estar exausto. – Descanse, eu vou começar a verificação da Brisa, é uma nave grande... mas...
– Sim?
– Preciso ficar com sua arma. – Fez uma pausa para analisar a reação do karile – Sabe como é, hoje em dia uma menina precisa se cuidar...
– Lógico... você está certa. – Disse Guiner entregando sua pistola e tentando esboçar um sorriso. Acompanhou Nira com o olhar enquanto esta se afastava e só fechou a porta quando ela sumiu no corredor. Jogou-se na cama de ferro que rangeu forte. Sua cabeça parecia querer explodir. Antes de dormir, mas já se rendendo à enorme fadiga, murmurou com rancor: "Maldito Risc'n. Maldito cientista incompetente!"
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Capítulo II.
PIRATARIA LEGALIZADA.
Mnar fumava em seu largo leito despreocupadamente, apreciando o quadro que mandara colocar em seu alojamento. Era uma inestimável pintura com mais de três séculos que, em vários tons rubros, retratava a histórica batalha de Eidon, na qual os kariles dizimaram impiedosa e covardemente os ultrins remanescentes depois de uma guerra de sessenta anos, eliminando toda essa raça da existência. Era uma cena muito forte. Em alguns cantos podiam-se ver crianças e mulheres armadas de instrumentos cortantes em um último e inútil esforço pela sobrevivência de sua espécie. Como parte do passado ancestral de seu povo, a obra era cercada por misticismo e lendas, sendo a mais famosa a que afirmava que o vermelho que tingia a tela de tecido vinha do próprio sangue dos ultrins e os poucos tons azuis de suas derradeiras lágrimas oleosas. Para os seguidores do deus vivo “Gn”, era a representação máxima da desonra da qual seu mestre os salvara com seus mandamentos de honra e moralidade. Por isso mesmo, antes do golpe do novo governo, ela pertencia a uma grande e valiosa coleção religiosa muito visitada pela elite karile. – E imaginar que esse quadro ia ser queimado junto com aquelas velharias do museu! – Pensava o atual comandante da nave “Invicta”, nau capitânia da Armada Imperial Karile. Cortando seus pensamentos, o alarme de seu cinturão tocou, informando que precisavam de sua presença na ponte de comando. Ele ainda percorreu os olhos pelo chão, procurando suas roupas em meio à bagunça em que seu alojamento se tornara durante a noite, mas desistiu e ligou para a ponte através do comunicador em sua cabeceira.
– Aqui é o Capitão Mnar, o que houve?
– Mn... quer dizer, capitão! Detectamos uma nave não cadastrada em rota direta para Kaird!
– Assuma uma rota de interceptação, estou indo para aí. – Antes de se levantar, reservou um instante para avaliar com os olhos sua nova escrava. Sem dúvida, tinha sido uma boa aquisição. Era muito jovem e bonita. Agora dormia profundamente, enrolada nos lençóis e abraçada a um travesseiro. Parecia até uma criança. Ele a usaria enquanto mantivesse aquele ar de inocência e a atitude rebelde, pois tornava a diversão noturna mais interessante, depois a daria para a tripulação e compraria outra. Com este pensamento, riu e começou a se arrumar. O dia já começara com boas notícias. – "Uma nave não cadastrada! Com sorte é um cargueiro! Vamos ao saque!" – Mnar, embora fosse já a duas semanas capitão da Armada Karile, tinha sido pirata por toda sua vida e não pretendia mudar seu modo de pensar. Uma nave não cadastrada pelo recém instaurado Domínio Jacal em Kaird era considerada fora-da-lei, até que realizasse seu cadastro e passasse a pagar seu tributo a Têner, o Imperador Jacal. Mnar iria cadastrá-la, era perigoso demais contrariar os interesses do Imperador de Kaird, mas só o faria depois de se apossar da sua carga. Afinal, ela ainda não estava legalizada.
– Dê-me boas notícias, Vzar. – Ordenou a seu imediato logo que chegou na ponte de comando da Invicta.
– O alvo já está ao alcance dos sensores de curto alcance, senhor. Sua assinatura é a de um cargueiro classe Galápago.
– Ótimo! Prepare o gancho de atracação e inicie procedimentos de aproximação. Se dermos sorte é um carregamento de drogas!
– Gancho em posição, iniciando procedimentos. – Vzar avisou a tripulação, pelo sistema interno de som, para que assumissem seus postos de batalha e ficassem alertas. Desligou as comunicações, para diminuir as chances de serem detectados, e aumentou ao máximo a blindagem de força da nave para resistir a disparos. – Contato visual!
– Posicione-nos à retaguarda deles e ponha-os na tela principal!
– Feito, senhor. Aí está ela! – Na grande tela da ponte, localizada à frente da tripulação como se fosse um pára-brisa, um cargueiro pôde ser visto envolvido pelo plasma azul cintilante característico da propulsão em fase.
– Quantos são no interior do alvo?
– Detecto cerca de vinte seres, senhor. – Respondeu Berm, responsável pelo posto de combate.
– Muito bem, emita um pulso interferente para tirá-los de fase, caia para velocidade de cruzeiro e dispare o gancho!
As duas naves saíram de fase, o plasma que as envolvia retornou à sua condição de campo e, antes que a tripulação do cargueiro se desse conta, da parte inferior da nave de Mnar um potente magneto, atrelado a um resistente cabo rebocador, foi disparado em direção a seu casco.
– Alvo preso, Mnar. Estão tentando se comunicar conosco.
– Me chame de capitão, ou vai inaugurar a cadeia! Emita um pulso eletromagnético baixo para embaralhar seus sensores e depois jogue o chamado deles na tela. Vamos tentar a diplomacia. – Mnar terminou sua afirmativa com um sorriso confiante e debochado.
– Sim senhor. Executado. Na tela! – Anunciou Vzar.
– Aqui é Mnar, capitão da Armada Imperial Karile. Entrar em nosso espaço sem estar cadastrado como cargueiro autorizado pelo Imperador Jacal Têner é crime. Abordaremos sua nave para apreender sua carga e vocês não resistirão.
– Capitão Mnar, aqui é Romeu, capitão da Aketom. Não estamos a par dessas mudanças nos protocolos comerciais de Kaird e teremos satisfação em acompanhá-los para realizar este... cadastro. Não há necessidade de uma abordagem. – O capitão era humano e transparecia muito nervosismo.
– Você não entendeu. Já estamos iniciando a abordagem. – Virou-se para Berm e, na linguagem nativa karile, continuou. – Corte a comunicação e dispare dois mísseis dez metros a estibordo deles. Vão perceber com quem estão lidando.
– O senhor manda.
Na tela, a imagem mudara para a visão do cargueiro. A tripulação da ponte pôde acompanhar as duas explosões e as manobras de sua nave emparelhando com sua presa, de forma a permitir que as portas de abordagem de ambas as astronaves se conectassem. Estas portas eram um dispositivo padrão em muitas naves espaciais. Através delas as espaçonaves podiam trocar tripulantes ou ligarem-se a bases espaciais, permitindo o livre trânsito sem a necessidade de trajes especiais.
– Acoplagem concluída.
– Ligue-se com o rádio do grupo de assalto e diga para eles só matarem quem resistir.
– Capitão! Os sensores identificaram um outro cargueiro não cadastrado em rota para Kaird.
– Parece que os lucros apenas começaram...
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A bordo da Brisa, Guiner abrira os olhos após uma noite de sonhos muito estranhos. Sonhara, como se vivesse mesmo a experiência, com batalhas de um incrível exército formado por seres de diversos mundos. Algo utópico, provavelmente desenterrado de seus sonhos de criança. Agora, começava a esquecer os detalhes tão nitidamente vividos, mas lembrava vagamente de aventuras, de brilhantes uniformes azuis, de sua fé e determinação em cumprir sua missão. Esse tinha sido o sonho bom. Também sonhara com seu planeta sendo arrancado de órbita diante de seus olhos, como se uma tesoura invisível tivesse cortado as cordas que o sustentavam...
Lembrando-se do estado em que estava quando se deitou, ficou satisfeito em perceber que seu corpo estava novamente em forma. A imagem de um continente de Kaird tomado pelo mar fustigou sua mente e o fez lembrar do desastre que viera evitar. Lembrou também que, de alguma forma que fugia de sua compreensão, havia chegado atrasado. – Cheguei tarde ao passado! Já estou pensando como um louco... – Mas era, da maneira que entendia, o que havia ocorrido. Pelos cálculos a ele passados, chegara pelo menos duas semanas atrasado para deter a tomada do poder em Kaird pela força jacal.
E agora? O que fazer? Dar tudo por acabado, aceitar a derrota e levar a sua vida do melhor jeito possível até a morte? Mesmo sabendo que não haveria futuro para o universo? Ou devia persistir no objetivo e pedir ajuda? Será que ainda havia alguma real possibilidade de mudar a situação? Haveria como mudar um futuro que para ele era passado?
Em meio a esse conflito de pensamentos e sentimentos, ele precisava traçar uma rota, decidir em que direção apontaria sua vida. Nesse momento, lembrou-se do diário que recebera e, vencendo o nervosismo, começou a lê-lo. Afinal, pensou, precisava de informações para ver em que enrascada havia se metido.
Horas depois, Guiner teve sua leitura interrompida por um chamado no sistema interno de som da Brisa:
“Guiner, se tiver alguma experiência em combates espaciais, venha para a ponte rápido. Temos visitas!”
Com um salto, Guiner pôs seu cinturão e em pouco tempo já estava na ponte de comando da nave da límite.
– O que houve? Não há nada nas câmeras! – Guiner referia-se à tela principal da pequena ponte, que no momento mostrava apenas o espaço.
– Não em alcance visual, mas há algo lá fora. Em fase os sensores de curto alcance ficam prejudicados e os de longo alcance não estão captando ninguém, mas veja esses registros de radiação. – Nira apontava para os sensores à sua frente, mostrando-se muito agitada.
– Sensores de baixa radiação em uma nave mercante? – Estranhou Guiner, por ser um item permitido, pelo menos em seu tempo, apenas em naves de guerra. – Bem, essa pode ser a radiação de uma nave que passou por aqui a pouco tempo... Mas acho que está certa. Fique com o posto de operações que eu assumo a navegação. – Guiner se ofereceu para pilotar, pois conhecia bem os controles direcionais daquele modelo “novo” de nave. Era muito semelhante a seu próprio cargueiro, no qual ele mesmo implementara diversas modificações. O console, um pouco inclinado em relação ao piso, só diferenciava do que conhecia por ter algumas pequenas funções a menos. Até os sinais e a localização dos monitores eram os mesmos. Era como estar em casa.
– Hei! Eu sou a capitão desta nave! Eu distribuo as funções, está bem? – Eles entreolharam-se e sem o menor aviso foram sacudidos por um solavanco.
– Pois bem, capitão... estamos saindo de fase... uma espécie de pulso está interferindo em nossas bobinas e impedindo a sintonia do motor. – A nave dá uma nova estremecida. – E acho que temos um gancho na traseira da nave. Não dá para ter certeza, pois estão embaralhando nossos sensores.
– Pelo contrário, agora temos certeza. São provavelmente piratas trabalhando para o novo Imperador Jacal de Kaird, eles agora são a – Fez uma careta – “guarda imperial”. Vou para o posto de operações para preparar o armamento, fique com o painel de navegação.
– Fico com... sei... seu senso de humor ainda vai te matar. Vou estabelecer um canal com eles para ganharmos tempo. Qual a nossa capacidade real de combate? – Guiner estava à vontade com a navegação da nave, já que o progresso tecnológico a partir do estabelecimento do Domínio Jacal só foi, ou só seria, aplicado nas belonaves jacais, que praticamente pensavam por si mesmas. Mas os controles de armas da Brisa, para sua surpresa, eram mais complexos que os do seu tempo.
– Esta é uma galápago bem modificada. – Foi dizendo Nira ao perceber a surpresa de Guiner enquanto bisbilhotava o armamento – Temos dez mísseis plote programáveis e vinte de contato, além de uma blindagem nível três com salto de modulação. Os mísseis precisam ser armados antes de disparados, pois ficam armazenados fora dos silos. O salto de modulação obedece a um algoritmo próprio e individualizado pelo capitão da nave.
– E pelas marcas do monitor, vejo que nossa blindagem rivaliza com a de uma pequena nave de combate... é tecnologia metam?
– Não, é humana. Os metans jamais venderam tecnologia. Eu mesma tentei um acordo, mas eles parecem confundir ciência com religião. Uns chatos metálicos!
– Vender? – Guiner recordava algumas passagens pesarosas do diário, mas não havia tempo para isso agora. Um sinal na tela de comunicações mudou de forma. – Eles aceitaram o contato. Vai falar, "capitão"?
Nira instintivamente ajeitou um pouco a roupa – Vestia um macacão pardo sem mangas que, mesmo colado ao corpo, parecia não tolher seus movimentos – e preparou-se para a comunicação jogando os ombros para trás e abrindo um sorriso. Guiner se perguntou se ela achava que ia participar de algum programa de entrevistas.
– Eu vou chegar um pouco para o lado, para não roubar a sua cena... – Brincou Guiner indo para o canto da ponte e saindo do alcance da câmera interna, que enviava a imagem do capitão em comunicações nave-a-nave. Aproveitara-se da deixa para não mostrar-se. Ainda era muito cedo...
– Aham! – Pigarreou Nira, fuzilando o karile com o olhar. – Aqui é Nira Deflares, capitão da Brisa, estamos transportando sementes para Kaird. Lorde Têner com certeza deve estar precisando delas depois do triste incidente que queimou tantas lavouras.
Na tela principal da ponte de comando de Nira, a imensidão do espaço sideral deu lugar à imagem de um karile mais corpulento e velho que Guiner. Seu casco era mais escuro, com diversas cicatrizes aparecendo nos braços e uma única na sobrancelha esquerda. Estava vestindo um uniforme branco com o símbolo jacal no peito e em um adorno metálico no pescoço.
– Aqui é Mnar, capitão da Armada Imperial Karile. Entrar em nosso espaço sem estar cadastrado como cargueiro autorizado pelo grande Imperador Jacal é crime. Abordaremos sua nave para apreender sua preciosa carga e vocês não resistirão.
– Hummm... Belo uniforme... O senhor também vem?
– Sinto muito, meu negócio é carne, não gosto de salada!
– Cortaram a ligação, devem estar se preparando para a abordagem. – Informou Guiner que, embora estivesse preocupado, quase riu da careta que Nira fez.
– Certo. Estou indo para a câmara de abordagem. De lá lhe darei um sinal para acionar a blindagem. Esta salada pretende ser bem indigesta! – Nira saiu gritando mais alguma coisa enquanto corria, mas Guiner já estava revendo os procedimentos de sua tática. Brisa era rápida, mas pouco manobrável. Como piloto, teria que compensar essa vulnerabilidade com talento. Felizmente, no comando da Pégasus, já enfrentara piratas antes.
Nira pôs as mãos na porta de abordagem e começou a concentrar-se no tato de seus dedos. Em segundos parou de sentir seus pés e gradativamente foi perdendo o tato nas outras regiões do corpo. Fechando os olhos para eliminar também o sentido da visão, encostou o orifício auditivo esquerdo e em menos de um minuto já convertera seu corpo em um potente sensor à espera da investida de seus pretensos captores. Não teve de aguardar muito, logo pôde sentir o túnel de abordagem arranhar o casco da Brisa até se acoplar na porta. Mas ainda era cedo. Sentiu as vibrações causadas pelos passos dos soldados no corredor, mas ainda não era o momento. Então, quando finalmente sentiu o arranhar de dedos na fechadura externa da porta, energicamente apertou o botão de acionamento do sistema de som interno e gritou para Guiner: “Blindagem agora!”. Na ponte, Guiner deu início ao plano acionando as bobinas de campo de força que geraram instantaneamente a blindagem, criando um escudo de energia em torno de toda a nave a dez centímetros da superfície do casco. Como conseqüência imediata, os cabos do gancho foram cortados e o corredor automático que unia as portas de abordagem foi rompido, lançando no frio do espaço três dos quatro guardas que estavam na câmara de abordagem da nave karile. O quarto, que ainda não havia saído da nave, fechou a porta interna da câmara, evitando a descompressão de sua nave. Enquanto isso, Guiner ejetou dois mísseis com seus relógios de acionamento travados para cinco segundos e, apontando a nave noventa graus para baixo em relação a sua posição inicial, entrou em fase e partiu exigindo tudo que suas bobinas de sintonia podiam lhe dar. Na nave jacal, Mnar berrava sem esconder sua frustração:
– Vzar, o que houve? Que tranco foi esse?
– Eles acionaram uma blindagem nível três e partiram em fase, senhor! Nosso cabo se foi e perdemos três tripulantes na rampa de abordagem!
– Mas é um cargueiro civil, sua blindagem não deveria superar o nível um! Acione a nossa blindagem, entre em fase e alcance-o!
– Acionando blindagem, Mnar. Iniciando procedim...
Vzar foi interrompido por um novo e mais forte solavanco, causado pela explosão dos dois mísseis deixados pela Brisa. Mnar, que se apoiava em sua cadeira apenas com uma das mãos, caiu ao chão.
– Quem rir pode se considerar morto. Espero que já estejamos em perseguição a esse “surpreendente” cargueiro! – Mnar estava furioso e se levantou com seus ferrões à mostra. Estes, reforçados cirurgicamente com uma liga de aço, chamavam a atenção da tripulação por seu frio e ameaçador brilho metálico.
– Senhor, perdemos as bobinas de campo da proa – Frente da nave – e, bem, estamos perdendo algum tempo para descobrir em que direção o cargueiro fugiu... – A voz de Vzar saiu sem força. Eram péssimas notícias. Sem as bobinas de campo dianteiras, não havia como gerar a blindagem em toda a frente da nave e, nervoso por medo da reação de Mnar, não conseguia entender como o cargueiro havia sumido. Não poderia ter sido destruído pelas explosões, pois, se fosse o caso, deixaria destroços.
– Mande uma equipe reparar as bobinas e me diga logo... como assim? Não sabe em que direção foram?
– Errr... não há nada à nossa frente, capitão... pelo menos segundo os sensores.
– À nossa frente? Expanda o raio dos sensores para varrer em todas as direções.
– Estão abaixo de nós, capitão... – Confessou a Mnar após ligar todos os sensores externos para uma varredura total. Essa não era uma configuração padrão de sensoriamento, pois alimentava-se das reservas de energia, normalmente poupadas para reforçar a blindagem.
– Incompetente! Acha que isso aqui é o quê? Estamos no espaço, raciocine com três dimensões! Ponha-nos em rota de perseguição imediatamente. E Berm... – Mnar aguardou alguns segundos enquanto Vzar implementava a nova rota e, posicionando-se à retaguarda de seu imediato, varou covardemente sua cabeça com o ferrão esquerdo. – Assuma o posto de imediato e chame outro oficial para substituí-lo no posto de operações. – Sentando-se pesadamente em sua cadeira, olhou o corpo de Vzar. – E já mande recolher esse lixo daqui antes que empesteie o ar!
– Sim senhor. – Berm chutou o corpo do antigo imediato e assumiu o posto na pequena ponte de comando. – Capitão, o cargueiro está em rota de colisão conosco!
– Ficaram loucos? Espere... volte para velocidade de cruzeiro, assuma uma rota paralela ao alvo e prepare-se para disparar dois mísseis. Não quero mais a carga deles, quero seu sangue!
– Saindo de fase e... senhor! – Berm só teve tempo de olhar para a tela da ponte e confirmar o que os sensores de proximidade lhe informavam. Havia dois mísseis de impacto diretamente à frente.
– Gire a nave! Nossa blindagem de popa – Traseira da nave – ainda está intacta! Rápido, seu imprestável! – Berm sentou-se para iniciar os procedimentos e conseguiu girar a nave o suficiente para que um dos mísseis atingisse a área protegida pela blindagem, mas a explosão balançou a nave desestabilizando seu movimento e deixando uma parte desprotegida da proa na direção do segundo míssil. O impacto foi inevitável. A ponte foi tomada pelas chamas, Berm foi lançado contra seu painel e perdeu a consciência, enquanto Mnar reocupava sua cadeira apenas para ver mais dois mísseis chegando. Em uma seqüência de explosões, o casco da nave karile foi rompido. A nave estava à deriva...
– Bom show, mas não achei essa tentativa de suicídio um bom plano... – Brincava Nira, fracassando na tentativa de esconder sua euforia pela vitória e pelo desempenho de sua nave.
– Em situações como essas não precisamos de um bom plano, apenas de um que funcione. – Disse Guiner saboreando a vitória. Depois de passar as últimas semanas imerso em lamentações, era como se recobrasse um pouco o controle sobre sua vida.
– Olhe, não sei qual é a sua. Aparecer do nada e coisa e tal. Mas... estou sem tripulação e você, embora meio louco, parece ter intimidade com navegação. O salário é modesto, mas com essas novas leis jacais, a diversão é garantida!
– É engraçado como você faz tudo parecer um passeio no parque. Não, minha amiga. Eu já tenho um objetivo. Posso ter aparecido do nada, como diz. Mas não vim sem um propósito. Na verdade, se não começar a agir logo, muitas vidas vão se perder sem razão.
– Um salvador? E afinal, qual é sua missão? – Nira se divertia tentando encabular o brutamontes a sua frente, mais para disfarçar sua simpatia que para implicar.
– É meio complicado... basicamente vim evitar que Têner destronasse Kazar, o imperador de Kaird por direito. Eu deveria ter chegado aqui “antes” do golpe. Agora, no entanto, a única saída para nós é destronar os imperadores jacais e substituir seu domínio dos planetas habitados pela sua organização política original... – Guiner coçou a cabeça ao notar o quanto sua colocação soava insana... talvez fosse.
Nira ficou um instante olhando para o karile sem saber o que pensar, até que riu divertida ao perceber que ele realmente falara “aquilo” a sério.
– É mesmo? Todos os imperadores? Como? Vai apontar sua pistola para eles e pedir que se rendam? Olha, perdoe meu... “ceticismo”, mas você pareceu tão surpreso quanto eu ao aparecer aqui e... sejamos realistas, os jacais realmente são violentos e autoritários... radicais até, mas, com poucas exceções – Se é que existem –, os governantes que foram substituídos não eram pilares de virtude. Pelo que sei, em sua maioria eram corruptos que sugavam a sociedade e enriqueciam com impostos e taxas que nunca eram aplicadas em benefício do povo. Aliás, no planeta Lar havia dezessete governantes, dezesseis nas faixas de terra e um tirano naquela nação submarina. Eu mesma visitei algumas localidades e sou testemunha viva da miséria e da violência que as assolavam. Vai resolver isso também?
– Você ainda não conhece esses “novos governantes”... daqui a dois dias eles reunirão todas as armadas imperiais em uma verdadeira frota de aniquilação para investir contra o planeta Mezz. Seus habitantes, os metans, serão praticamente aniquilados, sobrando pouquíssimos sobreviventes que permanecerão sendo caçados em outros mundos. Sua cultura será destruída simplesmente porque sua tecnologia é necessária aos planos jacais e, como você mesma citou, eles não a vendem. Não aceitam que outras raças tenham acesso a seu conhecimento sobre propulsão, combustível ou mudança de forma. E é só o começo, essa frota não mais se dissolverá! Logo os crors vão ser escravizados em minas, algumas raças vão ser completamente extintas... em pouco tempo eles vão estar tão embriagados com o poder que se julgarão deuses! Aí você vai ver que eles não são só governantes autoritários, mas então será tarde demais...
– Gente... você é muito pancada das idéias...
– Pancada? Pancada... na cabeça?
– Não, grandão... – Nira riu. – Maluco! Já reparou que você fala do futuro como se ele já tivesse acontecido? Sou forçada a mudar minha proposta. Eu deixo você em Kaird e você procura um médico, está bem? – Nira, que tinha o hábito de falar muito próxima das pessoas, afastou-se de Guiner amedrontada pelo seu poder de convencimento. Ela já estava começando até a levar a sério aquela história sem pé nem cabeça...
– Desculpe, eu... me empolguei e acho que falei demais. – Guiner esboçou um sorriso, mas sabia que perdera a confiança de sua nova amiga. Talvez fosse até melhor assim. Ela não se encaixaria nas suas atividades futuras. Sim, ele ia realmente tentar derrubar os imperadores jacais. Era o único que tinha noção de como eram perigosos e inconseqüentes e de onde ia dar o caminho imprudente que trilhavam...
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Capítulo III.
PLANOS JACAIS.
Planeta Lar, origem da controversa raça humana. Historiadores, sociólogos e outros estudiosos se confundem e se perdem na análise das diversas características conflitantes dessa espécie. Analisando-a, vê-se uma raça que se subdivide em nações independentes, em ideologias conflitantes, religiões semelhantes, sub-raças com diferenças mínimas desconsideráveis, divergentes formas de governo, guerras internas e grande progresso intelectual com mínimo avanço moral. Uma conclusão lógica, baseada no estudo de outras espécies, é de que esta civilização se autodestruiria antes mesmo do período pré-industrial. Mas, mesmo sendo uma das mais jovens civilizações conhecidas, alcançou as estrelas. Na verdade, foi um humano que descobriu que o vácuo do espaço era preenchido pelo tênue fluido universal e que um campo portador vibrando harmonicamente com este fluido poderia atingir velocidades até então consideradas fisicamente impossíveis. A humanidade possui grande responsabilidade pelo início do comércio interplanetário, que se tornou viável até para produtos perecíveis, com a possibilidade das naves desenvolverem velocidades muito maiores que a da luz.
Hoje, a tomada de poder pelos jacais sofria com essas peculiaridades humanas. Enquanto nos demais planetas havia apenas um imperador jacal, Lar possuía três tentando impor seu poder a várias outras pequenas lideranças políticas, religiosas e do crime organizado. Para apaziguar os ânimos entre os próprios jacais, que já trocavam ameaças, Sarath, o Imperador Jacal dos daranes, vinha ao planeta. Mas este era um objetivo secundário. A razão maior de sua visita era acertar os últimos detalhes da tomada de Mezz, que, assim como Lar, era um dos objetivos considerados cruciais para o sucesso dos planos de conquista e consolidação do Domínio.
A nave de Sarath desceu no pátio em frente ao Castelo de Brighman, uma fortaleza que abrigara por mais de quinhentos anos a família real de Veracruz, o maior e mais rico país lareano. Durante o pouso suave, trombetas e clarins dourados saudaram o visitante. A porta principal da nave abriu-se e o jacal arrastou-se agilmente, chegando à rampa de desembarque. Ali, parou um momento para apreciar a vista. Afinal, os preparativos para a sua chegada impressionavam. Várias bandeiras vermelhas tremulavam com o símbolo do punho amarelo fechado estampado, cada uma a dez metros de altura e com pelo menos quatro metros de comprimento. Uma banda de música, com uniformes ornamentados nas mesmas cores das flâmulas, estava à esquerda do dispositivo de espera. Ele avaliou que ali deviam estar uns cem músicos. À direita, uma guarda de honra em trajes de gala aguardava imóvel e ao centro estavam Andal Ehm Phir, Jobe e Romiander, os imperadores de Lar. Um tapete de flores havia sido plantado para sua passagem até o castelo e duas naves de segurança flutuavam acima da sua com a dupla função de escoltar a autoridade visitante e conferir maior brilho à cerimônia.
Sarath Sflagarthe estava sibilando de contentamento. Embora não se deixasse enganar pelo falso clima de paz, via que seus colegas haviam entendido como os jacais se mostrariam ao povo. No entanto, a causa de sua vinda era outra e ele pôs-se a deslizar pela rampa rodeado por seus seguranças. Ao tocar o solo, a música substituiu as trombetas e dezenas de crianças cercaram a guarda balançando pequenas bandeirolas. O jacal ignorou as câmeras flutuantes, bem como as demonstrações e dirigiu-se aos novos líderes do planeta. Jobe, o primeiro a apertar em silêncio a mão do visitante, era um homem esguio e muito branco, com um nariz aquilino, cabelo ralo e uma olheira escura e funda. Romiander cumprimentou Sarath com uma reverência. De olhos amendoados, suas maiores características eram a obesidade e um olhar frio e cruel. Parecia haver uma aura invisível de maldade à sua volta. Alguns diziam mesmo que ao se aproximar de Romiander Zaturo, ficava difícil de se respirar. Andal Ehm Phir era um típico homem do deserto, fazia o tipo ríspido e objetivo. Conquistara e unificara dez países com seu exército, mas agora procurava se controlar para conseguir apertar a mão viscosa de seu “colega” do planeta Darr. Não que Andal fosse preconceituoso ou tivesse alguma rixa pessoal contra Sarath, mas o aspecto ofídico dos daranes lhe causava demasiado desconforto. Pela religião de seu povo, o deus da morte era uma cobra negra de olhos vermelhos, e, embora ele não fosse realmente religioso, sua infância havia sido preenchida com pesadelos terríveis envolvendo a figura mitológica de Diar, o deus serpente. Sua mãe o ameaçara em diversas vezes com a figura implacável e demoníaca do terrível Diar e agora ele estava ali se confraternizando com uma serpente azul com braços. Aliás, essa era uma boa descrição dos daranes, répteis muito semelhantes a ofídios. Possuidores de uma epiderme coberta por escamas e duas presas retráteis capazes de inocular um forte tranqüilizante, arrastavam-se sobre a parte posterior do corpo, mantendo a parte anterior, onde se localizavam seus braços, ereta. Sua língua dava às suas palavras um som sibilado, o que aumentava o nervosismo de Andal. – Paresssce que o sssenhor dassss terrasss desérticasss não ssse sssente bem, vamosss logo tratar dosss motivosss de minha vinda... – Disse Sarath a Jobe, que concordou com um movimento de cabeça. Os quatro imperadores rumaram para o interior do castelo.
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Guiner não se demorou em Kaird. Mesmo com a emoção de encontrar seu planeta inteiro e fervilhando de vida, logo deparou-se com as bandeiras jacais nas ruas e sentiu como se alguém tivesse roubado sua energia vital. O plano original era chegar a seu planeta antes da tomada jacal e evitá-la através do emprego das forças armadas, mas era tarde. Não havia mais militares e, nas ruas, diversos boatos se multiplicavam com as explicações mais absurdas sobre o fato. Em uma breve consulta ao diário que carregava, lera que todos os militares haviam se rendido sob a ameaça de que seu verdadeiro imperador e supremo comandante Kazar seria degolado na praça da desonra se assim não procedessem. Após desarmados, foram todos mortos em segredo pelos homens de Têner. Fosse qual fosse a verdade, sua ausência era uma perda imensurável para a esperança de resistência à tomada do poder... Apenas a presença positiva de Nira evitou que Guiner cedesse ao desalento frente à situação política de Kaird. Além de mostrar-se uma companhia mais que agradável, a límite ainda lhe conseguiu pousada e algum dinheiro. Ela também o impressionara como vendedora ao conseguir um ótimo preço em seu carregamento. Desistindo de lamentar-se, o karile decidiu não perder mais seu tempo chorando pela batalha perdida e iniciar os preparativos para ganhar a guerra... ou guerrilha. Abandonou sua idéia inicial de combater Têner em seu próprio terreno e deixou seu mundo para trás, partindo para o planeta Lar. Lá ainda havia uma chance de prejudicar ou até mesmo arruinar o ainda volátil governo jacal humano. Conseguiu carona em uma nave de carga pertencente a um humano, mais um favor que ficou devendo a Nira... Um pensamento ilógico e desconcertante lhe ocorreu durante a viagem, mas afastou-o por lhe parecer inadequado. Não era hora para devaneios e procurou focalizar sua atenção em amadurecer seu plano de ação. Sabotaria a nave de transporte do jacal darane de forma que, quando fosse deixar o planeta, o ilustre visitante fosse pelos ares. Isso deveria ser o suficiente para criar uma confusão diplomática entre os tiranos jacais, retardando assim o ataque a Mezz. Com alguma sorte, ainda estaria plantada entre os imperadores a desconfiança de que um dos três jacais humanos pudesse ser o mandante do assassinato de Sarath.
Não era exatamente um bom plano... havia muitos “fios soltos”... mas podia dar certo... A idéia de “plano suicida” lembrou novamente a Guiner de sua recente amizade com Nira e ele acabou abrindo um sorriso. Mesmo sem acreditar em uma palavra de sua história, sua nova amiga verde concordara em guardar em sua nave uma cópia de todos os registros históricos de seu povo, comprometendo boa parte do banco de dados do computador da Brisa. Não se faziam amizades assim todos os dias...
Antes de começar a roubar os equipamentos que precisaria para sua sabotagem, iria ler alguns jornais e compará-los aos relatos do diário que trouxera. Precisava se convencer da veracidade das informações contidas naquele caderno. Se ele fosse fiel aos fatos, ficaria fácil entender a trajetória inicial do Domínio Jacal... e evitá-la!
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No Castelo de Brighman, uma reunião a portas fechadas decidia justamente os caminhos da expansão jacal:
– Para que bombardear só no final do ataque? – Perguntava Andal, achando que não utilizar todo o poder bélico da Frota Jacal logo na primeira ofensiva era uma falha que poderia comprometer o sucesso da operação.
– Pense homem! – Cortava Jobe – Não podemos correr o risco de destruir o centro tecnológico metam antes de obtermos seus estudos sobre adaptabilidade sistêmica e metamorfose! Os corpos dos metans são feitos de zínio! E esse metal é praticamente igual ao de nossas naves. Se aprendermos como eles adicionam armamento a seus corpos e os controlam com tanta facilidade, não haverá limite para a quantidade de armas em nossas belonaves!
– Droga, Jobe. Acha que eu não li os relatórios ou que sou burro? Eu entendi o parecer dos cientistas! Assim como entendi que esses mesmos estudiosos brilhantes não conseguiram descobrir como funciona o sistema nervoso desses metans, mesmo analisando os corpos que eu “adquiri”.
– Há! Bem se vê que você não compreendeu as conclusões parciais... O sistema nervoso e seja lá o que forem aqueles nódulos intermediários dos metans se desfazem com sua morte... Viram uma “geléia”... Eles não são robôs, são meio orgânicos... como ostras usando conchas de metal. Tentaram até analisá-los com as cobaias ainda vivas, mas qualquer amostra retirada perdeu suas características bioquímicas antes de poder ser analisada!
– Calma Sssenhoresss. – Sarath tentava conter os dois – Esssa discusssão perdeu o objetivo. Eu entendo o resssceio de Andal ao atacar asss defesasss de Mezz poupando forsssça de combate. O que essspero dosss sssenhoresss é uma opsssção.
– Porque não separamos os objetivos em duas missões diferentes? – Romiander interviu pela primeira vez.
– Esssxplique melhor.
– Nossos objetivos são dois: obter os segredos da fisiologia metam “e” eliminá-los, já que não conseguimos aliciá-los e eles são perigosos demais para permanecerem livres.
– Aliciá-los, não. Convencê-los das infinitas vantagens de pertencer ao Domínio Jacal. – Emendou Jobe, provocando Romiander.
– Que seja. – Continuou Romiander no mesmo tom de voz frio e constante. – Podemos enviar uma pequena equipe de espectros infiltrar-se nesse centro científico para subtrair a informação desejada e, após seu sucesso, atacar com toda a nossa frota da forma que o Sr Andal deseja.
– Não essstou familiarizado com essses “essspectrosss” que ssscitou... O que sssão?
– São um misto de espião e guerrilheiro, agentes treinados em todas as formas sigilosas de aquisição de informação e em técnicas de comandos. Ou seja, meu serviço de operações de inteligência.
– Isssto essstá sssoando muito bem... – Os olhos de Sarath brilharam enquanto sua mente ágil começava a traçar uma nova estratégia. – Essse grupo de essspiõesss pode ainda tessstar uma ssscerta “ferramenta” experimental que meusss ssscientissstasss desenvolveram... ssse elesss não exageraram, acreditem... talvez nem nessscesssitemosss de bombardeio!
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Capítulo IV.
PRIMEIRO ATAQUE.
Guiner repetia uma reza popular enquanto preparava o rádio-detonador improvisado que usaria para acionar sua bomba caseira. Ele a havia fabricado a partir da célula de combustível, do computador interno secundário e de módulos do transceptor de uma nave do serviço de mensagens governamentais – Correio. – lareano. Em uma mochila de couro bem forrada com isopor e papelão, alojara o explosivo. Por fora do forro, espalhou uma grande quantidade de pregos e parafusos de dez centímetros que seriam espalhados a grande velocidade pela explosão, aumentando o seu poder destrutivo. O artefato em si não era muito potente. A matéria prima para um bom explosivo seria mais difícil de adquirir e levantaria suspeitas cedo demais. O que mostrara-se muito fácil fora subjugar um mensageiro e sua nave, principalmente com a queda drástica de salários desde que os jacais tomaram o poder. Foi necessária apenas uma boa ameaça. Fechou a caixa do detonador e, olhando para a mochila agora fechada, convenceu-se de que, uma vez posicionada no local certo da nave darane, causaria o efeito desejado. Agora, era só aguardar o caminhão de limpeza em que se escondia levá-lo ao castelo. A recepção a Sarath tinha causado sujeira suficiente para que fossem contratadas companhias de limpeza independentes para reforçar a equipe militar responsável pela faxina do palácio. O pátio do castelo precisava amanhecer limpo para a partida do “ilustre visitante”. Ele levara o dia inteiro preparando tudo, mas, para sua sorte, a providencial limpeza seria realizada à noite. Seu deus Gn parecia estar finalmente a seu lado.
Jiryadne Maes Struth, ou Jiry, como era conhecida no bairro de Nova Fé, finalmente estava voltando para casa. Depois de passar o dia inteiro arrumando a casa de sua patroa, aquela afetada, ainda arranjara tempo para passar na papelaria e comprar uma lancheira nova para o pequeno Zine. A última ele destruíra ao arremessá-la pela janela. Mesmo com as pernas cansadas, Jiry ri ao lembrar da cena. Na hora zangara-se, é óbvio, mas agora esse pensamento a acalentava enquanto rumava para o transporte coletivo. Estava com pressa, pois ainda tinha que apanhá-lo na creche da casa de caridade, e resolveu tomar um atalho para a Avenida Kandia. Era um caminho escuro e meio deserto àquela hora, mas economizaria uma longa caminhada.
– Hei, Paulão! Olha só o que temos aqui! – Gritou uma voz masculina rouca rasgando o silêncio e acelerando o coração de Jiry.
Não podia ser com ela. Acelerando o passo e abaixando a cabeça para frente ainda pôde ver as janelas e cortinas à sua volta se fechando. Parecia que os moradores daquela rua permaneciam vivos por não tomarem conhecimento de nada que ocorria nela, e pretendiam continuar na ignorância. Estava por sua conta, como sempre. Apertando seu casaco com uma mão e segurando a bolsa de compras com a outra, Jiry estancou ao ver grandes sombras fecharem seu caminho a uns vinte metros. Virou-se de imediato e topou com um homem grande e barbudo cheirando a álcool.
– Belas pernas, dona. Cê é jeitosa! Tá sacando que a parada vai rolar? Num é sempre que uma mina vem alegrá minha turma... – Disse o homem, vendo Jiry recuar com os olhos arregalados.
Atrás do grandalhão, vultos apareciam. Era como um pesadelo que piorava a cada instante. Seu coração parecia querer sair pela boca e suas mãos e pernas tremiam. O homem imundo ainda falava, mas ela não conseguia mais ouvir. Seu medo era quase palpável, ali, cercada no meio das trevas... Só saiu daquele transe quando sentiu sua bolsa ser arrancada de si por alguém que aparecera à sua direita. Nesse momento, Jiry deu vazão a todo seu pavor e angústia saindo correndo e gritando por ajuda.
Tropeçando, ela foi logo alcançada por aqueles monstros, encurralada entre dois furgões e uma parede alta. Já sem seu sapato esquerdo e ofegante, ela agora gritava desesperadamente. O homem barbudo a segurou pelo antebraço direito e, gargalhando, puxou-a para mostrar seu rosto aos outros. Jiry agora só chorava... Com os olhos fechados, pedia a seu deus que protegesse o filho, preparando-se para o pior.
Nesse instante, um ruído à sua direita desviou a atenção do homem que parou de balançá-la. Limpando os olhos com a mão, pôde ver, ainda com a vista embaçada pelas lágrimas, algo escuro e grande sair de dentro do veículo. Ela não tinha mais voz para gritar ou controle para agir ou pensar com clareza, restava apenas olhar.
– Soltem-na! – Gritou o karile, imponente em seus dois metros, após saltar do caminhão.
– Olha aí... Tá se achando, heim grilão? – Falou o homem que segurava Jiryadne, sacando uma faca. Os outros cinco imitaram-no, aproximando-se vagarosa e cautelosamente. – Aqui mando eu, filhote de cruz credo! Segue teu caminho enquanto pode, mané!
Guiner saltou por cima do homem, caindo pesadamente à sua retaguarda já com os ferrões à mostra. O homem jogou Jiry para um dos outros. – Ratão, segura a vaca! O resto da galera chega junto!
– Deixe-nos ir, seu tolo. – Guiner precisava seguir com a sabotagem, mas para isso não podia perder tempo e aquela situação tinha que ser superada logo.
– O papo acabou. Pau nele! – Gritou o homem de barba que demonstrava ter alguma liderança sobre o grupo, enquanto se virava já tentando esfaquear o ventre de Guiner. Não escolhera o local ao acaso, pois, juntamente com o pescoço, virilhas e palmas das mãos, ele não era coberto pela couraça karile, dando acesso livre à carne.
Guiner desviou-se e aproveitou o movimento desajeitado do oponente para rasgar-lhe o braço com a ponta de seu ferrão. Três dos homens o alcançaram enquanto um quarto, mais franzino, foi socorrer o chefe, que segurava o braço tentando estancar o sangue. Guiner segurou o primeiro pelo braço, que empunhava um canivete, e chutou a cabeça do segundo, mas não antes que um terceiro conseguisse golpeá-lo pelas costas com uma corrente que, felizmente, não acertou sua mochila. Cercado, Guiner deu um novo salto, saindo do meio de seus atacantes. Estes mostravam não ter experiência alguma em lutar contra kariles e, ao invés de atacarem de uma mesma direção, procuravam encurralá-lo, envolvendo-o. O que lhe dava alguma vantagem, já que mesmo um karile destreinado pode saltar sua própria altura sem muito esforço.
O homem da corrente tentou um novo golpe, que acertou o antebraço de Guiner. Este aproveitou para segurá-la e puxar seu agressor em sua direção, socando-o no rosto e quebrando seu nariz. Girando na perna direita, arqueou o corpo e chutou o último que ainda estava de pé. Com os três atacantes fora de combate, dirigiu-se ao chefe. O homem que ficara com seu líder, e que já tinha improvisado um curativo com sua camisa, saiu correndo com a aproximação do karile. O chefe do bando levantou com seu braço enfaixado e encarou Guiner.
– Mande seu homem largar a mulher, já perdemos muito tempo aqui. – Antes de obter alguma resposta, Guiner foi cegado por holofotes. Eram os faróis de rastreio terrestre de naves da guarda jacal, novo serviço de policiamento nacional. Alguém devia ter ligado para as autoridades.
– São os patrulha! Cada um por si! – Gritou Ratão, largando Jiryadne, que a tudo assistira e se encolheu no chão tentando refazer-se da situação.
Guiner teve o ímpeto de ir ver o estado da moça, mas, ao ver vários soldados descendo das naves, resolveu não confiar na guarda e iniciou uma fuga seguindo a rua. Infelizmente, sua saída foi logo fechada por mais policiais que, ao serem atacados por outros arruaceiros, começaram a atirar. Um holofote o iluminou totalmente e um alto-falante chamava os guardas para apanharem o alienígena suspeito. Para criar uma distração, Guiner retirou sua mochila e, em meio a um salto de quase três metros, arremessou-a na direção da nave mais próxima. Assim que tocou o chão, acionou seu rádio-detonador ativando o artefato. Como resultado da explosão, uma chuva de pregos atingiu a nave, destruindo seus holofotes e a maioria dos sensores externos, forçando-a a descer. Aproveitando-se da confusão criada, o karile traçou uma rota de fuga e correu o mais rápido que pôde, amaldiçoando sua sorte e lamentando a perda da bomba e da oportunidade.
Ao cruzar a esquina, Guiner trombou violentamente com uma equipe de repórteres e todos acabaram caindo vergonhosamente no chão. A mídia tinha recebido ordens do governo para cobrir as ações heróicas da guarda jacal e mostrar ao público como a nova polícia era superior à anterior, que havia sido “desmobilizada”. Quando Guiner levantou-se, a guarda já o havia alcançado, pondo-o sob a mira de várias pistolas e alguns fuzis. Sem documentos, sabia que seu destino não seria outro senão a prisão, mas morrer não era uma opção. Sua missão tinha prioridade. Controlando-se, recolheu seus ferrões e levantou as mãos em meio à gritaria desnecessária dos guardas.
Já de madrugada, após um interrogatório e um “pequeno abuso da força”, foi deixado em uma cela já ocupada por outros dois suspeitos. A noite havia sido um verdadeiro show para a mídia, com ele e mais seis suspeitos sendo capturados por quatro naves e pelo menos trinta guardas bem armados. Não houve preocupação alguma com a verdade, nem a fêmea que tinha sido ataca foi ouvida pelos repórteres, que apenas comentavam a todo o momento a presteza e eficiência da força jacal. Os prisioneiros foram levados a diferentes celas, sem nenhuma informação.
Guiner deitou-se, refletindo sobre seu total fracasso... Um simples imprevisto havia sido o suficiente para transformar seus esforços em uma piada. Decidiu aproveitar sua prisão para analisar toda a situação. Os metans seriam vítimas de um verdadeiro genocídio, e não seria um karile com uma pistola e uma bomba caseira que fariam alguma diferença. Gn, ele mal dera conta de meia dúzia de bêbados... Nira estava certa, seus planejamentos careciam de sanidade. Sua abordagem da situação era, na falta de um termo melhor, ingênua. Ele estava seguindo um plano desesperado de um cientista que o enviara para um local ermo do espaço e nem a data acertara. E se a Brisa não estivesse naquele local? Ele teria se materializado no espaço e morreria sem nem saber o que aconteceu! Definitivamente, Risc'n o tinha enviado em um último ato de desespero. Devia estar mais preocupado em aliviar sua consciência com uma tentativa tola de reverter o desastre do que em realmente empreender uma ação séria com alguma esperança de sucesso.
Os jacais passaram anos ganhando poder e se preparando para a tomada formal de vinte planetas. Eles tinham um plano bem projetado e estruturado, com objetivos definidos e estabelecido em passos progressivos. Pelo que se deduzia do diário, muitas ações até iriam falhar, mas havia linhas de ação secundárias, planejadas para garantir os mesmos objetivos em prazos maiores.
Os metans garantiriam a tecnologia que, utilizada conjuntamente com o conceito de inteligência artificial em desenvolvimento em Lar, geraria as A.N.A.-17 (Armaduras Neurocomandadas de Ataque – Versão 17), com armas de mira e munição inteligentes, comandos através de ondas neurais e capazes de mudar sua forma entre um modo aéreo e um terrestre. Essas armaduras, usadas largamente pelas guardas jacais na época de Guiner, devastariam as duas últimas espécies que se negavam a unirem-se ao domínio jacal: a draconita e a límite... Descobrira, em sua breve visita a Kaird, que esta última, original do planeta Fantis, era a espécie vegetal de Nira. Por isso ele não a conhecia, porque em seu tempo ela a muito já havia sido extinta.
Q'tum, conselheiro do imperador Têner e autor do diário, não comentava os ataques militares diretamente, mas, como as tropas de Kaird compunham a Frota Jacal, podiam-se extrair algumas informações de vulto e, o mais importante, algumas datas e horários. Guiner passou três dias meditando sobre toda a situação, levantando mentalmente muitos aspectos e se inteirando de suas necessidades. Digeria cada trecho do caderno, fazendo conjecturas e correlações entre os vários episódios ali sumariamente descritos. Finalmente vencido pela exaustão, dormiu.
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Capítulo V.
FURTO.
Em Mezz, oitavo planeta do Sistema Marconiam, a vida inteligente floresceu coberta por frias e sólidas camadas de zínio, uma liga mineral muito assemelhada ao aço. Outros materiais e sistemas, normalmente só encontrados em máquinas artificiais criadas por outras espécies, compunham as formas de vida do planeta, conferindo-lhes uma aparência robótica. Mas, apesar da aparência artificial, sua espécie sapiente, os metans, ressalvadas algumas características próprias, comportava-se cultural, reprodutora e sentimentalmente à semelhança das espécies humanóides que povoam os planetas da comunidade. Politicamente, foi a primeira civilização conhecida a estabelecer com sucesso o regime democrático. Adotava como representante de todo o povo um único presidente, eleito indiretamente no intervalo de dez anos. Tecnologicamente, não dava prioridade à criação de utensílios e mecanismos independentes e externos, e sim ao aperfeiçoamento cirúrgico do próprio corpo. Conseguiam verdadeiros prodígios neste campo, modificando, com inacreditável facilidade, membros inteiros e até sistemas internos de seus corpos para aumentar sua utilidade ou mesmo criar novas funções. Assim, se um metam quisesse poder de fogo, dificilmente empunharia uma arma, preferiria adaptá-la ou embuti-la a seu antebraço. Estas alterações podiam ser executadas diretamente em seus corpos ou no seu próprio código genético, permitindo que uma melhoria passe hereditariamente às novas gerações. Dessas melhorias, a considerada mais incrível pelas demais espécies era a sua capacidade de mudar de forma. Os metans mudam com naturalidade de sua forma humanóide para uma forma voadora bem assemelhada a uma nave, ganhando assim os céus a até 400 Km/h. Infelizmente, as incríveis qualidades desta raça são hoje as causadoras de seu possível extermínio.
Enquanto a Frota Jacal tomava posição nos limites do Sistema Marconiam, uma nave negra, sem qualquer iluminação externa, preparava-se para sair de fase na órbita de Mezz. Em seu interior um orgulhoso capitão conferia as medidas padrão para missões dos espectros.
– Imediato, relatório. – O capitão Mateus seguia à risca o protocolo. Acreditava que em missões que exigiam precisão, a formalidade crescia de importância.
– Propulsão em noventa e oito por cento de operacionalidade, campo inibidor de radiação acionado, blindagem ligada, absorvedores e refratores de sinal ativados, luzes apagadas desde já, comunicações e sensores de médio e longo alcance desligados, sensores de curto alcance não detectam nenhuma aproximação. Nave pronta, senhor. Iniciando distribuição de dados. – Diogo terminou seu relatório, ajustou o visor de luz residual e começou a transferir os dados do processador tático da nave para os computadores de pulso da equipe.
– Operações, relatório!
– O satélite de vigilância estará saindo de alcance em trinta e cinco segundos. Temos cinco minutos até o próximo satélite se posicionar. Estamos prontos para pousarmos na posição alfa uno. – Disse Maerto, após checar pela terceira vez os sensores e o novo curso.
– Implementar. – Ordenou o capitão, ciente da premência de tempo. Por trás do visor que emanava uma fraca luz verde, seu olhar era desprovido de qualquer emoção.
– Implementado. – Com um acionar de tecla, Maerto ordenou que o processador de navegação pilotasse a nave no curso previamente programado durante os treinos. Em três minutos a Camaleão estava em um pequeno bosque no terreno do alvo: o “Complexo Ofnam”, centro tecnológico dos metans.
– Equipar. Aguardo-os prontos na câmara de abordagem. – Cada segundo contava agora e, mesmo sabendo que a equipe estava praticamente pronta, Mateus não perdia a oportunidade de cobrar a presteza de sua tripulação. Em poucos minutos os seis homens já assumiam posições no bosque fora da nave, a seu comando. Maerto sinalizou para o capitão, que à retaguarda do grupo aproximou-se para constatar que sua chegada não passara totalmente desapercebida. Dois metans aproximavam-se voando a baixa velocidade. A cem metros dos espectros, um deles começou a baixar e, a cinco metros do solo, iniciou uma seqüência de desencaixes e encaixes rápidos e aparentemente desordenados, tocando o chão já em sua forma humanóide. Com 2,5 m de altura, dois canos de plasma no antebraço esquerdo e diferentes monitores, provavelmente de sensores, no direito, o metam se aproximava com cautela.
– Eles desconfiam de algo, mas ainda não sabem o que procuram. – Informou o capitão. – Diogo, vá com Lorna e Wil e neutralize o soldado. Maerto, adote com Zir e Marau uma formação triangular bem aberta. Sua responsabilidade é o voador. Dêem preferência à nova arma de pulso. Não podemos fazer barulho.
A nova pistola criada pelos daranes havia sido desenvolvida especialmente para embaralhar as sinapses de cérebros metans, mas seu alcance era curto, necessitando que o pulso fosse emitido a menos de cinco metros do alvo. O metam que caminhava foi surpreendido e, após receber um pulso, caiu em espasmos. O segundo metam desceu para procurar seu parceiro, tombando morto após ser atingido por novo disparo.
– Nossa, instalaram essas armas nas naves da frota? A julgar pela eficiência destes protótipos, a força de invasão não encontrará muitos problemas... – Comentou Marau, exteriorizando sua surpresa com o resultado fatal de seu tiro.
– Concentre-se em nossa missão, Marau. – Interrompeu o capitão, já apontando para indicar o local por onde pretendia invadir a cúpula do Centro.
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Em Lar, ainda preso, Guiner acordou com a mente envolta em sombras e fantasmas. Depois do seu deslocamento temporal, seus sonhos, que costumavam ser vagos e desaparecer da mente logo ao despertar, tornavam-se cada vez mais vivos e ricos em detalhes, deixando uma forte impressão de realidade. Algumas vezes, os sonhos terminavam em uma noite para continuar em outra, como capítulos de uma mesma história. Desta vez sonhara com sua primeira e única namorada, revivendo em detalhes a emoção do dia em que se encontraram. Aquele momento mágico ocorrera logo depois que abandonara a casa de seus pais, ainda muito jovem. Foi uma época muito conturbada e dolorida de sua vida, em que deixara para trás as eternas discussões com seu pai. O velho nunca aceitara sua honestidade ou seus ideais e sua mãe sempre se mantivera distante. Jamais esqueceria a sensação boa de saber que alguém realmente se importava com ele, com o que ele pensava e gostava. Já próximo do despertar, mesmo com seu consciente já sabendo de como toda aquela história iria terminar, sentiu novamente, e com toda a intensidade, a decepção dolorosa de descobrir que a jovem – Seu nome era Loriam – estava deixando-se cortejar por outro karile, mais velho e de situação econômica muito mais estável que a sua, que dependia de pequenos trabalhos no espaçoporto de sua cidade. A escolha de sua amada era lógica e irrepreensível, mas quem queria saber de lógica com aquela angústia no coração? Para aumentar sua revolta, Loriam ainda mencionou, com surpreendente naturalidade, que poderiam permanecer como amantes. – Como pude amar alguém como ela? – Era a pergunta que se fazia, revoltando-se contra seus próprios sentimentos, que independiam de sua vontade. Por opção, entregou-se à tristeza e à solidão, enterrando emoções que queria nunca ter descoberto. Olhando agora para as barras de sua cela, tentava arrumar suas idéias, mas sua mente permanecia confusa, ainda sob o efeito desconcertante do sonho. Não tocara na alimentação a ele destinada, o que explicava sua fraqueza mesmo após o sono. Um de seus companheiros de cela havia sumido e o outro notara seu despertar.
– E aí, caranguejo? Não come, não fala... Não que eu reclame, sabe? Eu aproveitei tuas refeição e aquele branquelo almofadinha aproveitô teu caderno, mas o silêncio às vezes enche... – Ia dizendo o preso.
Guiner levantou com um salto e bateu a mão no cinturão procurando o diário...
– Sumiu... O diário sumiu... – Com a mão esquerda apertou o pescoço do seu agora desesperado companheiro. – Onde está o diário?
– Tu é surdo, chefia? Eu num disse que o ôtro cara pegou enquanto tu puxava um ronco? Sacô? Enquanto você dormia! Me solta, só comi a bóia por achar que tu tava deixando ela estragar!
Guiner tentava segurar a ira que o consumia quase irresistivelmente. Amassar o pescoço daquele humano com seus próprios dedos seria fácil e o ajudaria a externar sua frustração por ter cometido um erro tão infantil e irremediável. Para resistir à tentação, resolveu falar, tentar deixar aquele momento passar.
– Como era o sujeito?
– Cê não viu ele quando chegô? Não tinha cara de pobre e falava universal desse jeito difícil que você fala, mas sem sotaque. Sujeito estranho, leu o livro todo interessado e na mesma noite foi solto. Ele... – O assustado homem engasgou, mas não vendo qualquer reação em Guiner, continuou seu relatório. – Ele só me disse que tinha sido pego por roubo e que seu nome era Vanish, ou Vashir ou coisa assim. Não sei mais nada! Me solta!
Guiner foi afrouxando os dedos até soltar o homem. Este coçou o pescoço e se afastou resmungando baixo. Nesse momento, um dos guardas surgiu na porta da cela.
– Hei, grandão! É seu dia de sorte, tua fada madrinha veio te soltar. É bom você valer a pena, ela investiu bem na tua soltura. – O guarda abriu a porta e Guiner, já na sua frente, estancou.
– E meus pertences?
– Ela não pagou tanto assim... – Guiner, já prevendo que não conseguiria nada daquele elemento, resolveu arriscar. – Quem soltou o outro prisioneiro que estava comigo?
– Olha, não sei de quem está falando, mas sei que você já está me enchendo... – O olhar significativo do guarda fez Guiner desistir e dirigir-se à saída da delegacia. Para sua surpresa, a mulher a quem salvara o aguardava na saída.
– Obrigado. Meu nome é Guiner e gostaria de agradecê-la por pagar a minha fiança. – Ele sentia que ela estava amedrontada, talvez pela lembrança do incidente, e procurou ser amistoso.
– Que fiança? Eu paguei foi uma propina para o carcereiro! Vamos logo sair daqui que essa gente não é confiável. – Disse Jiry apressada.
Os dois se encaminharam para a estação local de trens subterrâneos.
– Você está bem?
– Estou faminto, mas bem. Infelizmente eles ficaram com minha pistola e me roubaram alguns pertences na cela.
– Pistola? Você estava armado? E porque não usou naquela noite?
– Eu... – Na verdade, Guiner não utilizou sua arma por julgar, naquele momento, que assim tornaria a luta mais justa, já que sempre achou os kariles melhores combatentes que os humanos. Porém, agora via que provavelmente poderia ter resolvido mais rapidamente a situação, evitando, assim, muitos de seus atuais problemas. – Eu fui pego de surpresa e agi com orgulho. Perdoe-me a imprudência.
– Perdoar? Você me salvou daqueles porcos!
– Sim, mas poderia tê-lo feito de maneira mais eficiente. – Os pensamentos de Guiner em sua falha o lembraram de que a esta hora o ataque a Mezz já devia ter terminado e de que ele nada fizera para impedir o avanço jacal. Seu arrependimento só não era maior por aceitar que sua idéia de sabotar sozinho a nave imperial era, apenas, um ataque desesperado. Ele precisaria de uma boa equipe de planejamento e de um exército, se quisesse oferecer alguma resistência real à implantação do Domínio Jacal. E, graças a sua leitura do diário, já sabia onde iniciar sua busca. Havia em Lar alguns movimentos de resistência ao novo governo. Naquela mesma cidade, no bairro de Juruá, um movimento, que seria desbaratado em três dias, poderia ser seu primeiro contato. A partir de agora precisava correr, pois com o diário em mãos desconhecidas o governo local poderia logo obter essa e muitas outras informações.
– Alô! Hei! Tá me ouvindo?
– Na verdade, não. Desculpe, estou com alguns problemas de natureza particular.
– Nossa, como seu sotaque é carregado! Você tem pra onde voltar? Não é má vontade, entenda. Eu posso te conseguir uma refeição e queria poder ajudar mais, mas gastei minhas economias procurando a delegacia em que estava e pagando o guarda para soltá-lo.
– Você já fez muito por mim, eu adoraria recusar essa refeição, mas... – Guiner abriu um sorriso divertido. – Eu realmente estou faminto! – Ambos riram e rumaram para a casa de Jiry, que no caminho ia contando as aventuras de seu filho. Surpreendentemente, era fácil confiar naquele alienígena.
Marcus Augustus era o chefe da célula local do movimento conhecido como “Resistência”. Como delegado de polícia de Estrela Nascente, dedicara sua carreira à tentativa de esfacelar a organização criminosa de Jobe, responsável por praticamente todo o narcotráfico em seu país. Mas, apesar de seus esforços e de algumas empreitadas de sucesso contra grandes carregamentos, jamais conseguira uma vitória real, pois o nome de Jobe permanecia incólume. As ligações políticas do jacal eram poderosas e Marcus amargou sob a pressão da mídia e do prefeito, que era um dos fantoches do criminoso. Sem jamais aceitar a derrota, seguiu investigando e estudando seu alvo até finalmente juntar provas e evidências incontestáveis das atividades criminosas, algumas até hediondas, do miserável. Qual não foi sua surpresa ao ver Jobe e mais dois patrões do crime internacional anunciarem em cadeia global de holovisão o seu golpe de estado. Ouvir que, a partir daquele dia, a palavra “jacal”, gíria usada para designar os grandes chefes do crime organizado, passaria a significar imperador... imperador não de Lar, mas muito, muito mais... imperador representante de um império maior, uma organização descentralizada, que estava se impondo pela força, naquele momento em vários mundos da comunidade de livre comércio... Uma atrocidade política que aqueles delinqüentes davam o pomposo nome de “Domínio Jacal”. Sua reação foi instantânea, mas, naquele momento, as principais delegacias e todos os quartéis estavam cercados por guerrilheiros a serviço dos jacais. Os militares também quiseram reagir, mas não tiveram chance. Agentes infiltrados em suas próprias fileiras já haviam sabotado seu armamento e instalações. As explosões também foram transmitidas e, em todos os lugares, holovídeos mostravam a destruição de naves e bases militares inteiras. Vários heróis da polícia e das forças armadas tiveram seu fim naquele dia, mas ele não. Marcus sabia reconhecer o momento de retrair e não deixaria sua boa equipe morrer em uma reação inútil. Quando sua delegacia foi atacada, apossou-se de um protótipo da nova classe Nídia, uma belonave de combate urbano que a força policial estava testando para emprego em ações de choque e comandos, e abriu caminho para que seus subordinados escapassem. Ainda esperançoso e motivado, manteve seu objetivo montando uma pequena milícia com os militares e policiais sobreviventes. A milícia cresceu com os muitos lareanos prejudicados pelo governo jacal, tornando-se uma guerrilha bem organizada e interligada a outras cidades. Hoje, no entanto, Marcus sentia a vitória cada vez mais distante de seu alcance, pois Jobe começara a receber apoio dos jacais de outros planetas... O tal “Domínio” começava a parecer algo possível...
– Marcus, nosso último investidor comunicou que não vai mais contribuir com o movimento. – Avisou Rício, tirando Marcus de seus pensamentos.
– Eu já esperava por isso... Covarde! Agora é o fim. Sem patrocínio não temos chance alguma contra as tropas jacais. – Marcus socou sua mesa com os dois punhos e baixou a cabeça. – Reúna todos os homens no galpão, Ric.
– O que vai fazer? – Rício temia a chegada desse momento. A Resistência perdia o apoio financeiro e sem dinheiro não conseguiriam munição, armamento ou manutenção. A guarda jacal havia destruído muitas de suas bases, eliminando poucas vidas, mas desarticulando toda sua logística. Podia entender o desânimo de seu chefe, pois o via diariamente nos semblantes de seus homens.
– Vou liberar o pessoal, não há motivo para que continuem se arriscando...
– Como? Eles acreditam em você, e se arriscam suas vidas é para retomar o governo dos criminosos que o usurparam, delegado! O que vai dizer a eles?
– A verdade. Vá chamá-los.
Rício fechou o cenho e dirigia-se à porta quando Marcus o chamou.
– Ric!
– Sim?
– Eu não sou mais delegado...
Rício cerrou mais o cenho e saiu sem nada comentar. Marcus caiu pesadamente em sua tosca cadeira de madeira e, olhando para a parede onde um grande mapa da cidade estava pregado, perguntou-se onde tinha errado e se algum dia tivera alguma chance.
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Capítulo VI.
DRAGÕES.
A sala é pequena. Não há decoração. Suas paredes são lisas e brancas. A janela cumpre o papel de renovar o ar, mas suas persianas de bambu fino mantêm o ambiente na penumbra. No chão, há apenas um tapete redondo de palha trançada. Nesse ambiente projetado para a meditação, mestre Kmalkim permanecia há três dias em jejum. Não se movia desde que começara a concentrar-se. De fato, mal se notava o leve movimento de sua respiração. Mas, contrastando com a inércia que seu corpo demonstrava, sua mente se mantinha em grande atividade.
No primeiro dia de transe o jovem entrara em contato com as mentes de outros mestres, também em meditação, trocando fraternos votos de sucesso na busca que se iniciava. No início do segundo dia passou a entrever algumas experiências de seus “antecessores” e pôde concentrar toda sua atenção no nome que buscava. Aprofundando-se nesse estágio da meditação, o mestre ouviu várias vozes que lhe pareceram familiares... Pronunciavam o nome procurado, o que era um bom sinal.
A técnica que usava era praticada a milênios e exigia total concentração, pois abria o acesso da mente às memórias completas de determinados draconitas do passado. Era uma experiência muito íntima e valorizada, pois, uma vez que se vivessem essas memórias, elas se anexavam às lembranças pessoais do mestre, passando a fazer parte de sua própria memória. Literalmente, era como somar as memórias de outra pessoa às suas próprias, com toda a riqueza sensorial, os pensamentos e sentimentos de cada momento vivido, do mais cotidiano ao mais decisivo. Surpreendentemente, não havia necessariamente uma ligação familiar entre o mestre e os seres a quem podia ter acesso, chamados antecessores, embora houvesse uma certa convergência de interesses e caracteres da personalidade. Era um método fantástico de aprendizado intelectual e moral, pois o mestre passava a saber tudo o que os antecessores “visitados” sabiam, aprendendo com seus erros e acertos como se ele próprio os tivesse experimentado. Entre várias características sem explicação, uma bem curiosa era a de que o período de vida desses draconitas jamais coincidia, permitindo que se estudasse sempre uma época diferente da história, desde poucos séculos atrás a até mesmo milênios, quando os corpos dos draconitas eram mais brutos, seus hábitos mais rudes e suas mentes menos “iluminadas”. Com este recurso, um jovem obtinha a sabedoria e maturidade milenar conforme crescia como ser, ao trazer aquelas vidas esquecidas à tona.
Desta vez, no entanto, Kmalkim não procurava exatamente um antecessor seu em especial. Vasculhava as lembranças de todos os seus antecessores à busca de qualquer informação sobre uma draconita chamada Niam. Na verdade, grande parte dos mestres no planeta executavam agora a mesma atividade por solicitação do Grã Conselho. Na manhã de hoje, Kmalkim descobrira surpreso que a médica Niam era uma de suas antecessoras e começara a “viver” suas venturas e desventuras.
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Em Lar, Marcus foi avisado de que sua tropa estava pronta no galpão e, cabisbaixo, caminhou para lá sem saber o que faria depois de convencer seus homens a abandonarem aquela luta infrutífera... O barulho natural de uma reunião com tantos soldados cessou com sua chegada à porta do galpão e transformou-se em um burburinho enquanto ele subia no palco improvisado com tábuas. Dando uma passada de olhos pelos rostos da tropa, ligou seu megafone com dois toques no lado direito do pescoço e cruzou os braços ainda acertando as últimas idéias na cabeça.
– Senhores, cada um de nós tem seu próprio motivo para estar aqui. Alguns se juntaram à nossa causa por ideal, outros para garantir seus direitos, alguns por estarem sendo caçados como eu e outros até por vingança. Começamos o movimento acreditando em nossas chances, com apoio financeiro dos empresários prejudicados pelo novo sistema político e razoavelmente bem armados. Treinamos, – Agora ele andava pelo palco, olhando cada rosto como se estivesse falando apenas para aquela pessoa – atacamos, nos preparamos e atacamos novamente. Algumas vitórias foram boas, ah se foram! Mas o financiamento acabou, meus amigos. E... as células do movimento em outras cidades têm seus próprios problemas, não podendo nos ajudar... Ninguém mais do que eu quer tirar Jobe do poder, mas tenho a vida de vocês sobre meus ombros e, no momento, não posso pedir que se arrisquem sem a mínima chance de vitória... – Marcus fez uma pausa para conter a raiva que parecia esmagar sua garganta.
– Covarde! – O grito acusatório foi ouvido em todo o galpão. Os soldados da resistência se entreolharam procurando a origem do som, mas sem sucesso. Nesse momento, Rício entrou perplexo no galpão tentando falar com Marcus, mas este estava furioso demais para ouvir alguém e com um gesto brusco o afastou e saltou do palco procurando seu acusador.
– Quem disse isso? – Marcus quase rosnava. Aquele ataque havia lhe deixado totalmente alterado. A resposta veio das vigas metálicas do teto do galpão.
– Fui eu. – Respondeu Guiner, sentado na viga principal de sustentação, enquanto jogava uma corda para baixo e iniciava sua descida.
– Um intruso! Mas será que nós não conseguimos manter nem a segurança do perímetro? – Marcus andou até o local onde a ponta da corda balançava. Os soldados abriram um círculo em volta do local. Muitos sacaram suas armas. Mesmo vendo isso, Guiner continuou descendo até chegar ao meio da corda, de onde deu um salto e caiu de pé imediatamente à frente de Marcus.
– Eu mataria você agora, mas confesso que estou curioso para saber o que faz um karile se esgueirar até minha base para me chamar de covarde!
Eles se olharam nos olhos enfrentando-se, medindo-se, analisando-se...
– Eu vim lhe dizer com quem estão lutando e porque devem continuar a lutar. E parece que eu cheguei no momento certo.
A resposta de Marcus foi uma risada desdenhosa.
– É mesmo? Pessoal, estamos salvos! O karile aqui vai nos mostrar o caminho! Escute aqui, cara de grilo, porque acha que nós vamos ouvir um alienígena totalmente desconhecido que invadiu nossa base? Quem me garante que você não veio a mando daqueles criminosos?
– Eles são mais que criminosos. Escute-me, depois de amanhã haverá um banquete com cinco dos maiores jacais aqui mesmo nesta cidade. Eles estarão embriagados com sua vitória, não tomarão o cuidado necessário com a segurança. É uma chance de ouro para aplicar um golpe fulminante neles e em sua imagem de intocáveis. Pense! É o tipo de vitória que reacenderá a crença de todos na possibilidade de uma resistência!
Marcus desviou o olhar para pensar melhor, Guiner tinha um poder de convencimento impressionante, e ele decidiu ouvir mais.
– Sei. E porque eles haveriam de fazer um banquete? Para comemorar o seu aniversário, karile?
– Eu sou Guiner. E eles vêm comemorar sua vitória sobre Mezz. Eles chacinaram todo o povo metam por este não aceitar pertencer ao Domínio Jacal e ainda se apoderaram de seus segredos tecnológicos. – Guiner foi seco, ressaltando a seriedade daquela notícia.
O silêncio dos soldados desapareceu, dando lugar a novo burburinho.
– Mezz? O mundo dos robôs-jato? Acha que eu vou acreditar que uma batalha como essa ocorreu e não ficamos sabendo de nada?
– Sobre isso ele fala a verdade! – Rício, com a cara fechada e pesarosa, veio aproximando-se devagar. – Era o que eu ia lhe comunicar quando você “gentilmente” me atirou de lado. E não foi bem uma batalha. Segundo nosso informante, uma Frota Jacal, unindo naves dos doze planetas dominados, utilizou uma nova arma de pulso que “indisponibilizou” os centros nervosos dos metans. Foi uma espécie de lobotomia em escala global. – Um silêncio total traduziu o pesar de todos. – E Marcus... – Este olhou firme para Rício. – Eles não eram robôs, eram tão vivos quanto nós...
– Como eu ia dizendo, vocês não sabem com quem estão lutando. Mas agora devem ter uma noção de porquê lutar. – Guiner cruzou os braços. O próximo passo tinha que ser de Marcus.
– Senhores! – Marcus fechou o cenho e deu uma pausa, aguardando a atenção de todos. – Voltem a seus postos. Quem estiver no turno de descanso aproveite, e quem estiver de serviço melhore a guarda. Nunca se sabe quem vem invadir nosso território! E você...
– Guiner. – Guiner completou com um tom calmo, beirando o sarcasmo.
– Isso! Ainda acho que é uma armadilha, mas você ganhou minha atenção. Acompanhe-me.
Os dois seguiram para o escritório de Marcus, enquanto Rício repassava as ordens com a guarda. Ainda naquela noite, descobriria como aquele karile burlou a segurança...
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Em Darcos, cidade capitânia da nação draconita, localiza-se a sala de reuniões do órgão decisório máximo daquele povo, o Grã Conselho Darcom. Este conselho é formado pelo ancião mais antigo de cada um dos sete condados e decide os caminhos de seu povo em nível planetário. Deve ainda assessorar, quando solicitado, os conselhos de cada condado, bem como resolver eventuais discordâncias entre eles.
Após pesquisar a vida de uma antecessora a pedido do conselho, o jovem mestre Kmalkim apresentou-se ao Groa, nome ancestral dado ao guardião do salão Darcom. Kmalkim postou-se ao centro dos pesados portões do salão, que possuem cinco metros de altura e tradicionalmente só são abertos pelo Groa. Originalmente, a milênios atrás, guerras eram comandadas dali por draconitas enormes e impulsivos. Em seus noventa e cinco anos de vida, Kmalkim jamais havia chegado sequer próximo da entrada desta caverna. Hoje procurava entender as histórias contadas pelas gravuras cravadas nas paredes, no portal e nos próprios portões para não concentrar-se na ansiedade que tentava minar sua harmonia. Após vinte minutos de espera, um ruído característico de correntes sendo enroladas anunciou a abertura dos portões que, lentamente, revelaram um salão circular, talhado em uma rocha única, de piso liso e polido que refletia as sete torres, nas quais os anciões aguardavam em silêncio. Era uma construção que ostentava bem o orgulho característico do povo da época de sua construção, ainda muito materialista. Kmalkim adentrou lentamente, observando a decoração das paredes e ornamentações de diferentes séculos, avaliando as relevantes decisões que ali foram tomadas e sua importância nos rumos da história de sua espécie.
– Jovem Kmalkim Shonam Makivol Yar, seja bem-vindo. Agradecemos sua presteza e solicitamos que relate de maneira sucinta o que Niam Stroner Tiriam sabia sobre as trevas que avançam rapidamente sobre as civilizações irmãs a nossa volta. Não se preocupe com a forma do relatório, pois este servirá apenas para que nossas mentes possam mais facilmente perscrutar suas memórias sobre o assunto. – Disse Jansir, voz do conselho, de forma objetiva e polida.
– Grã Conselho Darcom, Niam Stroner Tiriam, filha primogênita de Argor e Dinam, minha antecessora, nascida a 3347 anos atrás, foi avisada , pouco antes do seu ducentésimo quarto aniversário, sobre a chegada deste momento por um forte foco de luz que lhe apareceu em sonho. Naquela época, ainda nos dedicávamos à ciência, e não dominávamos o estado de concentração necessário para que Niam pudesse discernir o que lhe ocorria. – Nesse ponto, à frente de Kmalkim formou-se uma imagem tridimensional, mostrando uma fêmea de sua espécie deitada em um leito de madeira e granito e coberta até a cintura por um lençol fino e leve de cor verde clara. A cena, em meio à escuridão do ambiente, era iluminada por um ponto luminoso que irradiava uma luz esbranquiçada forte o suficiente para iluminar, mas fraca o suficiente para não ferir a vista de quem o olhava diretamente. Este ponto de luz não tinha forma ou um objeto que o criasse, apenas existia como luz, brilhando a uma altura de um metro e trinta centímetros do chão e localizado a dez centímetros da cama, próximo aos pés de fêmea que todos já entendiam ser Niam. Kmalkim parou de falar e apenas pensava alto em seu relato, lembrando-se bem do ocorrido para que o Grã Conselho captasse todos os detalhes. Niam abriu os olhos e mostrou em seu semblante surpresa e temor, murmurando um fraco “o que é isso?” e maldizendo-se por morar sozinha. Nesse instante uma voz moderada e firme se fez presente no aposento – Irmã, não tenha medo. Sou um amigo que lhe vem falar. Acompanho-a a muito tempo e devo agora transmitir-lhe conhecimento para que se prepare para o que virá. Nosso povo já passou por penosas transições na estrada que segue no progresso, embora ainda não tenha alcançado o conhecimento maior e consolador que outras civilizações ainda em sua aurora já intuem. Que seja, nossa evolução prossegue por caminho próprio. O que venho lhe dizer tem haver com todos, pois o mal não combatido alimentar-se-á faminto da indiferença e da ganância, expandindo-se entre nossos irmãos distantes a espalhar o caos e a incompreensão. Cegas pela falsa sensação de poder, as forças trevosas desencadearão a destruição de seus próprios agentes, podendo engolfar toda a civilização em sua onda de morte, lágrimas e sofrimento. Se assim for, um filho das trevas nascerá – Esse o grande perigo. – e deverá ser vencido. Ele seguirá sempre envolto pelos servos da escuridão, podendo assim ser reconhecido por quem tiver visão para enxergar seus acompanhantes invisíveis. Escuta e transmite esse aviso fraterno, pois só com ajuda “externa” – Frisou. – Poderemos passar por mais esse obstáculo em nosso caminho para a luz. – Nesse ponto a luz apagou-se e com ela a imagem. Mestre Kmalkim completou em voz alta. – O fato foi reportado ao governo da época, que a orientou a voltar para casa e não se preocupar...
– Foi reportado a um de meus antecessores, jovem mestre, o que nos permitiu começar esta busca. Não critiques as decisões de nossos antepassados. Nosso povo estava ainda na infância e, com certeza, daqui a mais três mil anos, nossas ações, agora sábias, serão consideradas pueris e ignorantes. Voltemos ao foco desta reunião, pois sentimos as forças da entropia formando nuvens negras cada vez mais densas nas atmosferas dos planetas da comunidade comercial. Parece que as previsões desse “foco luminoso” estão realmente tornando-se realidade. Mesmo em nosso mundo, há interferência nos fluidos harmônicos estabelecidos por todos nós... Temos o dever de afastarmos essas sombras com nossa vibração. Agradecemos seu auxílio, irmão. Prepararemos uma resistência vibracional organizando grupos de mestres para irradiar a luz do pensamento equilibrado. Evitaremos as trevas e essa “criatura” não chegará a nascer. Pode seguir seu caminho, Kmalkim.
Kmalkim congelou. A cultura draconita possuía uma das mais ricas e tradicionais artes marciais entre as existentes na comunidade interplanetária e recursos mentais que podiam ser muito úteis em uma atitude ativa contra as forças criminosas e eles iam limitar-se a atuar no plano fluídico? Não lhe parecia o suficiente... E ainda existia a menção a uma ajuda externa... Ao mesmo tempo, sua disciplina, cultura e lealdade o compeliam a aceitar a decisão do conselho sem hesitação. Até mesmo porque ele bem sabia do caráter imprescindível do afastamento das trevas para que os bons pensamentos pudessem equilibrar o ambiente. Mas... unir os mestres de todo o planeta em um esforço único e harmônico levaria semanas ou meses de preparação e, enquanto isso, o “mal” estaria livre para agir, tanto no plano material quanto no etéreo.
– Vejo que está em dúvida, meu jovem...
– Senhor... – Quem era ele para por em dúvida a decisão daqueles seres? O ancião mais novo tinha mais de quinhentos anos e ele não havia atingido nem seu primeiro século. – Eu... sinto muito, mas meu caminho não está claro.
– Entendemos isso. Na verdade, essa é uma excelente oportunidade para seu aperfeiçoamento.
– Como? Não estou compreendendo...
– Prepare-se, você irá unir-se ao esforço das forças da luz no plano material. Aproveite bem a oportunidade.
– Sim, senhor. – Várias emoções quase vieram fortes à tona, mas a disciplina de Kmalkim já era bem desenvolvida e ele mesmo mal as percebeu. O título de mestre não era concedido sem critério.
– Agora vá, nós também temos de nos preparar. – Disse Jansir, dando por encerrada a reunião. Kmalkim retirou-se em silêncio e os portões foram novamente fechados.
– O que acha Jansir? – Perguntou Iavol, olhando para o porta-voz do conselho. Sua voz era um sussurro, saindo com dificuldade.
– Ele é jovem, mas está preparado. Vê algo no futuro, Ansur? – Perguntou Jansir a um ancião já cego pela idade avançada.
– Vejo pouco... muitas trevas... ódio... vaidade... um grande egoísmo... mas... há chance... o visitante abriu novas possibilidades...
– Não vê com clareza, Ansur? – Indagou Ruana. – O futuro nos é uma incógnita novamente? Eu confesso que estava com saudades dessa sensação...
Ruana era considerada a anciã mais sábia do conselho. Era a única que possuía dois antecessores que, em seu tempo, participaram do Grã Conselho Darcom.
– Por mais forte que o egoísmo possa ficar... devemos nos lembrar que ele, assim como o orgulho e a vaidade, é uma fraqueza... – Pronunciou-se o sereno Quedhar, para recuperar o rumo e a vibração daquela conferência.
– Entendo... Meditemos, irmãos... – Solicitou Jansir, no que foi prontamente atendido.
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Capítulo VII.
O SEGUNDO ATAQUE.
No escritório, Marcus e Guiner aguardavam a chegada de Rício. O karile esperava impaciente o momento de expor suas informações e idéias, ainda ansioso por saber como elas seriam recebidas. Entre um pensamento e outro era assombrado pela lembrança do furto do diário e de como isso transformara uma singular vantagem em uma possível vulnerabilidade... Marcus mexia seu café, perdido em insondáveis considerações. Rício, que chegou tomando uma caneca de vinho e um grande pedaço de queijo, cochichou algo no ouvido de seu chefe e sentou-se.
– Pois bem, karile... Você chegou aqui com informações que, se forem verdadeiras, podem nos dar a chance de chutar aqueles bastardos... A pergunta é: como vou saber se não é uma armadilha? E mais, como você teve acesso a tudo isso?
Guiner pensava em uma resposta, mas o que deveria dizer? Citar sua real fonte de informação seria contar sua origem, e ela já soava como loucura até para ele mesmo... e mentir não daria muito certo. Como mercador, perdera vários clientes para concorrentes por não saber "exagerar" na descrição da mercadoria. Era um péssimo mentiroso. Assim, resolveu “sair pela tangente”.
– E então? – Insistiu Marcus, inquietando Guiner.
– Marcus, não sei se posso convencê-lo de que não é uma arapuca para pegá-los. O que sei é que esses conquistadores pretendem extrair de Lar a tecnologia de inteligência artificial para, juntamente com as informações roubadas dos metans, transformar seu exército na mais bem armada força de combate e destruição. – Guiner levantou-se e andava lentamente gesticulando quando se exaltava. – Eles vão eliminar a cultura de cada povo, transformar as pessoas em mão-de-obra barata ou escrava e tornar qualquer pesquisa, que não seja capitaneada por um de seus cientistas, totalmente ilegal. O que aconteceu com Mezz vai se repetir em cada planeta habitado que simplesmente resolver não aceitar fazer parte do Domínio. – Guiner parou um instante, analisando o que disse e o impacto causado. Eles prestavam atenção sem demonstrar qualquer emoção. – Você quer saber como sei isso tudo? Eu é que pergunto como você conseguiu sobreviver até agora sem saber o que acontece à sua volta! Você fala em derrotar Jobe... Pense grande, homem! O problema é bem maior que ele! Só em Lar temos três líderes jacais, e lá fora outros estão se fortalecendo para montar um grande império tirânico! Acha mesmo que adianta derrotar apenas um deles? Saiba que preservarei minhas fontes até o momento em que confiar inteiramente em você! – Mudando para um tom mais conciliador, Guiner sentou-se e continuou. – Não tenho a pretensão de conquistar sua confiança de uma hora para a outra, mas considere uma prova de minhas boas intenções o fato de que eu vim até aqui desarmado, em “sua” base, cercado por “seus” soldados. Estou disposto a seguir nessa missão sozinho, se for preciso. Mas... com seu auxílio, as chances de sucesso seriam bem maiores...
– Marcus, não precisamos atacar com tudo, podemos realizar apenas uma missão de infiltração. Duas pessoas podem dar cabo dela sem que ninguém mais precise se arriscar. Deixe-me ir com ele! Se for uma armadilha, e ele for muito mais esperto do que aparenta, perderemos apenas um soldado.
– Ora, Rício... você mesmo acabou de me informar que esse cara não existe em registro nenhum... Tá na cara que é um espião!
– Acho que começo a entender... Você não tem medo de que eu o esteja levando para uma armadilha... – Guiner, com o ânimo exaltado, resolveu arriscar tudo provocando Marcus.
Marcus fixou seu olhar em Guiner. Os olhos eram alienígenas, mas o olhar era tão significativo quanto o de qualquer um de sua própria espécie. Ele quase riu por achar tempo para pensamentos filosóficos, mas não era o momento para bom humor.
– Você tem medo é de que eu esteja dizendo a verdade. Não é? Medo de acreditar que há uma chance, de que ainda há lugar para a esperança... – Completou Guiner.
– Ora, seu psicólogo de holovídeo! – Marcus ia para cima do karile com os punhos cerrados, mas Ric o segurou quando tentava subir na mesa de reuniões.
Rício era um homem corpulento, de tez bem bronzeada e um semblante que espelhava bem seus anos de experiência em combate contra o crime na equipe de operações especiais da polícia.
– Droga, Ric! Estamos nesta guerra injusta a vida toda, perdendo bons homens, sempre limitados de alguma forma frente a um inimigo equipado e bem pago! Então, em um “belo dia de verão”, vem o senhor maravilha aí com essa visão binária arcaica de bem e mal me dizer que eu não tenho “esperança”! Esse cara está fora da realidade! E você quer segui-lo pelo “caminho das fadas” e enfrentar um castelo bem guarnecido? Sem apoio algum?
– Quero. Esta é a melhor chance que já me apareceu. Francamente, a idéia de voltar a agir livremente ao invés de pajear os guris durante os ataques é bem-vinda. – Rício disse isso já abrindo o armário que guardava suas armas para limpá-las como fazia todas as noites.
– Existe mais um fator de extrema importância nessa missão... – Disse Guiner ao ver que a situação caminhava para onde queria.
– Sim... Fora o fato de o castelo possuir uma companhia de guarda com mais de cem homens bem armados e duas naves de combate a localidades... – Marcus já vira que não poderia impedir a ida de seu amigo junto com o intruso. Por um breve momento, chegou a se perguntar se suas reservas quanto a esse ataque não estavam fundamentadas apenas em seu orgulho ferido por não ser ele a trazer aquelas informações. Se fossem verdadeiras, poderiam dar uma nova força ao movimento de resistência ao “governo” jacal.
– Isso vocês já sabem, o que talvez ignorem é que possuem um ou mais informantes dos jacais entre os seus comandados. Há a forte possibilidade de que em até dois dias as tropas jacais invadam esta instalação...
Os dois humanos se entreolharam.
– Não chega a ser grande novidade. Já desconfiávamos disso... e é sempre uma possibilidade. De fato, em nossas últimas ações as nossas baixas foram bem além da quantidade estimada. Logo após a sua “chegada”, ordenei a desmobilização desta base e preparação para ocupar um novo local, bem como o estabelecimento, por alguém de minha inteira confiança, de um sistema de rastreamento para verificar se alguma mensagem está partindo desta base. – Respondeu Rício olhando o karile através do cano longo da arma, baseada em pólvora, em que passava uma finíssima camada de óleo.
– Procedimento lógico, já que você, com toda sua sabedoria, comentou sobre a possibilidade de um ataque nosso à tal festinha na frente de todos! Se esse espião conseguir avisar o governo, eles estarão posicionados, preparados para um ataque! – Marcus olhava para Guiner, aproveitando a oportunidade de exaltar a falha cometida.
– Realmente citei o banquete... você teria me ouvido se não o fizesse? Mas procurei não falar dos detalhes, como minha idéia de nos infiltrarmos na cozinha... e de como conseguiremos os passes para entrarmos no banquete.
– Já bolou um jeito para burlar a segurança interna do castelo? Que conveniente! Uma solução completa que caiu do céu! – Instigou Marcus. – E querem que eu não desconfie de nada?
– Calma, senhores. Marcus, por favor! Já que está tão incomodado, e não estou dizendo que lhe faltam motivos para isso, pode nos deixar aqui planejando essa operação e ir verificar se Studs teve sucesso na localização do espião ou coordenar a mudança da base...
– Não, Rício! – Marcus negou com fúria, ofendido com a atitude impertinente do amigo de afastá-lo. Socou a mesa com o punho direito derrubando sua xícara de café. – Studs nos avisará de seu progresso! E se quiser, chame um tenente e passe a ele suas orientações! Vamos planejar “juntos” essa operação! Até porque... – Baixou bem o tom de voz fitando o café escorrendo. – Vamos os três participar dela.
– Marcus, Jobe o conhece. Sua presença pode por tudo a perder... – Advertiu o karile, mas em um tom condescendente.
– Ituro trabalhava em um estúdio de holonovela. Ele é um maquiador tão bom que pode deixar Marcus parecido até com você, Guiner! – Disse Rício sorrindo.
Sem dizer mais nada, Marcus pôs a mão no ombro de Rício, demonstrando com esse gesto seu apoio e agradecimento ao amigo de várias situações difíceis e desculpas por sua própria atitude. Rício apenas olhou-o rapidamente para demonstrar que entendera sua intenção e convidou Guiner a sentar-se. Havia muito a ser planejado e preparado.
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Marcel jogava nervosamente seus discos, dinheiro e demais valores na bolsa aberta sobre a cama. Enquanto isso, seu executável limpava todos os seus arquivos locais e ainda caçava possíveis rastros deixados na rede. Havia muito a remover. Sua vida sempre fora vivida mais na infovia que no mundo real. Começara a desenvolver seu executável aos seis anos e já naquela época conseguira penetrar nos sistemas governamentais e apagar-se dos registros oficiais. Aos dez anos, prestara serviços simples na rede, como isentar uma pessoa dos impostos ou eliminar juros de prestações. E como nunca fora descoberto, nem mesmo pelos seus clientes mais assíduos ou amigos virtuais, convencera-se de que era invisível. Não que ele não fosse realmente bom. Era tão eficiente que passara a buscar informações sigilosas simplesmente pelo desafio de burlar as caríssimas defesas implantadas por programadores profissionais ou rebuscadas armadilhas desenvolvidas por outros gênios como ele, outros “aranhas”! Mas, convencido de sua superioridade, não tinha se preparado para o momento que vivia agora. Em meio a uma investigação, percebeu que seu executável havia sido descoberto. Em poucos minutos a guarda jacal estaria ali, e ele, sempre com a ferramenta certa pronta para ser usada no melhor momento no universo virtual, não tinha preparado nenhum plano de fuga para um momento de contingência no plano material. Seu coração pareceu querer pular para fora do peito quando ouviu o ruído de chamada da porta anunciando um visitante. Com as mãos tremendo, fechou a bolsa e copiou para um disco seu executável atualizado com os dados dessa última operação. Procurando se controlar, tentou encadear seu raciocínio na busca de alguma escapatória, mas nem janela seu pequeno apartamento possuía! Ele nunca vira necessidade de ver o mundo lá fora. Era muito mais interessante se manter anônimo e investir seu crédito bancário fantasma em novas tecnologias de interface e armazenamento. Sua única saída era a porta... Como trunfo, restava seu choque palmar, um aparelho que utilizava para autodefesa nos raros momentos em que saía à rua. Com um toque, podia tirar a consciência de um homem adulto com um forte choque elétrico. Respirou fundo e foi para a porta. Novo ruído de chamada, acionado agora com maior insistência. Engolindo em seco, ligou o visor da minicâmera que instalara na porta e tomou novo susto. Não era a guarda. Para sua surpresa havia um karile e dois homens suspeitos, mas civis, na porta. Seriam clientes? Mas como o encontraram? E logo naquele momento, quando havia sido descoberto pelo novo governo?
– Quem está aí? – Perguntou em um dialeto local de Veracruz, forçando para engrossar sua voz fina e estridente.
– Não consegui entender o que ele disse. – Informou Guiner.
– A idéia dele foi essa. Vamos ver se suas informações estão atualizadas. – Voltando-se para a porta, Rício continuou. – Somos fregueses que têm uma nave em condições de levá-lo para um local seguro! Não temos ligação com a... – Rício foi interrompido pelo som das quinze eletrotrancas da porta se abrindo ao mesmo tempo.
Quando a porta abriu, Rício, Marcus e Guiner puderam ver um rapaz franzino, medindo cerca de um metro e sessenta centímetros, de pele bem negra e cabelo curto. Seu olhar era nervoso e desconfiado. Atrás dele, viram um emaranhado de fios, conexões, interfaces e um biocomputador de última geração, muito comum em bancos e espaçoportos.
– Negócio fechado! Aguardem aqui que eu vou pegar minha bolsa! – Falou Marcel com pressa, já sumindo em meio à bagunça do pequeno apartamento.
– Bem, Rício... o aranha prometido pelo karile está mesmo aí. E pelo que vejo, louco para ajudar... Eu vou lá para baixo coordenar a segurança para nossa saída... Guiner! – Chamou Marcus já se dirigindo para o elevador.
– Sim? – Respondeu Guiner, que olhava curioso para as pilhas de quinquilharias do apartamento de Marcel.
– Ainda existem muitas informações quentes como essa em suas fontes misteriosas? – Perguntou Marcus parando para ouvir a resposta.
– Algumas informações imprecisas podem ainda nos ser úteis, mas há apenas mais uma “quente” que pode ser decisiva em nossa missão.
– Nossa missão? Você não é mesmo deste mundo, caranguejo. – Murmurou Marcus enquanto as portas do elevador se fechavam.
– Esse aranha pode mesmo nos colocar na festa dos jacais? – Perguntou Rício, já estranhando a demora de Marcel.
– Se eu estiver certo sobre o motivo do interesse do governo sobre ele, pode ter certeza de que ele pode isso e muito mais. Se o convencermos a nos ajudar, ele pode nos apontar o caminho para o centro nervoso do plano jacal! – Os olhos de Guiner pareciam brilhar.
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Capítulo VIII.
TRAIÇÃO.
Gracur olhava quase enfeitiçado para a linda ruiva que, seminua, dançava no palco entre outras seis beldades humanas. Embora não possuíssem a sedosa pelagem das fêmeas prekes, esbanjavam uma sensualidade que, unida ao seu odor animal, o hipnotizavam. A ruiva seria sua ainda essa noite, mas infelizmente não poderia ser levada para seu mundo. Suas fêmeas a devorariam na primeira oportunidade! Fêmeas são ciumentas... Com um sorriso divertido ele deu mais um grande gole na bebida humana e chamou aquele garçom karile para pedir mais carne. E ai dele se não a trouxesse crua e sangrando desta vez!
– Todos já beberam. – Cochichou Rício para Marcus.
– Todos mesmo? Inclusive os repórteres?
– Sim, cuidei para que até os cozinheiros provassem. Logo o sonífero fará efeito, utilizei uma boa concentração, uma bomba poderá estourar sem que eles acordem. – Ria Rício, já confiante.
– Não me tente... – Disse Marcus, irreconhecível em seu disfarce.
A droga forte utilizada pelo trio de falsos garçons logo colocou todos para dormir no grande salão de festas do palácio jacal. Guiner checava o estado dos guardas da segurança enquanto Rício preparava o equipamento de holovídeo dos repórteres.
– Pronto, Guiner! Os sensores de mídia estão posicionados. Deixe a mensagem que eu opero. – Chamou Rício, iniciando nova fase do plano.
– Pois bem... Estou pronto. – Confirmou Guiner após se posicionar de pé em frente aos cinco jacais que perfilara em um sofá justamente para esta gravação. Estavam ali Jobe, Romiander e Andal do planeta Lar, Gracur de Premer e Zar do planeta Fav.
– Gravando! – Sussurrou Rício.
– Irmãos da comunidade comercial, como podem ver, à minha retaguarda estão os senhores jacais de três mundos. Imperadores que se impuseram a povos livres através de violência e carnificina. Esta festa que interrompemos comemorava a destruição de toda a vida no planeta Mezz. Ricos, pobres, cientistas, professores, operários e crianças foram chacinados por uma arma covarde que não lhes deu a menor condição de defesa. Mais de sete bilhões de seres foram sumariamente assassinados. Esse suposto governo jacal precisa acabar! E para mostrar que isso é possível, nós, da Resistência, estamos aqui hoje lhes mostrando esses jacais totalmente subjugados por sua própria incompetência e fraqueza! É possível resistir! Podemos vencer! Retomemos as rédeas de nossas vidas! Lembremo-nos dos reais significados de “vida” e “liberdade”, e de que vale a pena lutar por nossa felicidade!
Guiner fez um pequeno sinal para que Rício interrompesse a gravação e parou um momento para pensar em suas próprias palavras. Perguntava-se se havia esquecido algum argumento, se podia melhorar de alguma forma a mensagem. Mas, nesse instante, foi sacudido por um disparo certeiro que, violentamente, o lançou ao chão.
– Marcus! Ficou louco de vez? – Gritou Rício correndo para ver a condição do karile.
– Calma, peguei esta arma de um guarda e diminuí sua emissão para apenas colocar nosso amigo inconsciente.
– Idiota! O disparo conseguiu perfurar seu casco! Ele está inconsciente e sangrando muito. – Disse Rício, improvisando com roupas um curativo para fechar o furo no casco de Guiner.
– Droga, Ric! Eu não podia arriscar que esse idealista se impusesse em meu caminho na finalização deste ataque. Ele parece que vive num conto-de-fadas e não numa guerra!
– Idealista, Marcus? – Rício tremia em fúria, de pé com Guiner nos braços. – Impondo-se no "seu" caminho? Pois eu vou levá-lo às pressas para Kuslov, para ver se dá para salvar a vida de alguém que luta por valores reais. Fique com sua vingança! – Rício partiu para encontrar Kuslov, um dos médicos fiéis à Resistência que os estava esperando, juntamente com a força-tarefa de reforço, fora do castelo.
Marcus ainda tinha intenção de dizer algo, mas Rício partiu sem lhe dar chance. Não ia poder se demorar e começou logo a preparar sua dramática finalização. A gravação de Guiner ia sofrer um pequeno acréscimo de argumentos...
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Na mesma semana, no único espaçoporto do planeta Fantis, Nira sorvia alegre um fluido amarelo conhecido como “ramore”, comemorando com a tripulação a venda de mais um carregamento de sementes.
– Mais uma rodada, capitão? – Perguntou Lau, seu engenheiro.
– A última! Temos que carregar a Brisa ainda esta tarde!
– A imediato não vem mesmo? – Jeny, a técnica em biocomputadores, perguntou fazendo cara de quem provou algo amargo, referindo-se à única tripulante que não era um límite.
– Indira insistiu em fazer nova revisão externa na Brisa. – Nira adotara uma postura mais séria. Afinal, a hierarquia precisava ser mantida para que a tripulação permanecesse operacional, evitando surpresas desagradáveis no espaço. E, embora não fosse exatamente agradável, sua imediato e navegadora era bem eficiente. Além do quê, ter uma karile na tripulação tinha se mostrado muito útil em suas relações comerciais com Kaird... embora o modo como Indira entrara para a tripulação da Brisa a incomodasse. Tinha recebido sua imediato como um “presente” do setor aeroespacial da guarda karile, como uma “troca de favores”...
Perdida em pensamentos, Nira só voltou à realidade quando alguém gritou reclamando do televídeo do bar.
– Estas máquinas de segunda categoria não funcionam, Neraf! Falei para comprar um holovídeo! – Reclamava Inar, segurança da tripulação da Brisa, ao ver a imagem do popular jogo de aquabola desaparecer em meio a uma forte interferência.
No televídeo alojado sobre o balcão do bar, um estridente barulho cedeu lugar à imagem de um karile à frente de uma espécie de estofado onde seis seres bem vestidos jaziam inertes. O áudio levou algum tempo para ficar claro, indicando o sinal compactado de uma transmissão ilegal. Nira sentiu a folhagem de sua cabeça, o que um límite considera seu cabelo, se eriçar levemente ao reconhecer Guiner, e uma das flores que desabrochava acima de seu ouvido desprendeu-se e caiu com o forte movimento que fez ao ficar de pé. A tripulação e os outros clientes do bar estranharam sua atitude, mas as atenções estavam voltadas para o apelo do desconhecido karile.
Mesmo os mais rudes sentiram um desconforto interno ao ouvirem sobre a chacina da raça metam. Quando Guiner terminou seu rápido discurso, a imagem mudou, focalizando as cabeças dos cinco jacais, agora “soltas” de seus corpos, sobre uma grande bandeja. Uma voz diferente fez nova locução: “Este é o futuro da escória marginal que pensa que tomou o poder de nossos mundos. Estas foram as primeiras de muitas baixas!”. A voz de Marcus emudeceu, mas a imagem repugnante permaneceu ainda trinta segundos na tela antes da transmissão cessar.
Após breve ruído, a partida de aquabola retornou enquanto um burburinho de dúvidas, revolta e raiva tomou conta do ambiente. Nira moveu os olhos pra baixo, introspectiva, e foi levemente baixando até sentar-se novamente.
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Darr, sétimo planeta do Sistema Vlarhk, um mundo com sua superfície tomada por vulcões ativos e desertos de clima escaldante. Neste planeta semi-estéril, as áreas férteis são raras e normalmente castigadas por tempestades e furacões. Sua vegetação é baixa, forte e resistente, mas ciliar. Neste local amaldiçoado, os daranes sobreviveram por muito tempo em pequenas tribos, sem condições de higiene, vendo suas crianças morrerem de diarréia e os velhos de dor de dentes. Assim permaneceram até travarem contato com raças alienígenas cientificamente mais avançadas, como a humana e a prek. Com o acesso à tecnologia, aquele povo vislumbrou a chance de melhorar sua condição miserável de vida e entregou-se à permuta, dando origem aos mais proeminentes mercadores da sociedade comercial que nascia.
Cidades foram erguidas vencendo as dificuldades naturais e uma república federativa uniu-as em um governo que prosperou por anos. Porém, enebriada com esses tempos de conforto, a sociedade darane não vigiou os rumos que a política tomava e, pouco a pouco, foi deixando que cada cargo de seu governo fosse sendo ocupado pelos dissimulados, corruptos e hipócritas mandantes das mais rendosas atividades ilegais.
Sarath Sflagarthe, eminente economista da capital, foi eleito pelo povo para por fim à galopante inflação instaurada no mandato do primeiro-ministro anterior. Sarath era, na verdade, um dos maiores chefes de contrabando de drogas de toda a comunidade interplanetária, tirando daí toda sua influência e fortuna. Com poucos meses de governo, aproveitando-se da imoralidade instaurada e apoiado por focos idealistas de esquerda, tomou para si todo o poder, anunciando-se ao mundo como o primeiro imperador jacal. Alguns poderosos se ergueram contra aquele despropósito, mas, fossem políticos, generais ou empresários, desapareceram vitimados por acidentes, doenças ou vergonhosos escândalos.
Hoje, no castelo jacal, as atenções estavam voltadas para os acontecimentos em Lar e Sarath dava guinchos de ódio!
– Como? Como aquelesss humanosss idiotasss deixaram issso acontecer? – Gritava o jacal em seu escritório.
– Sssenhor, essse inssscidente não muda nada. O primeiro protótipo de inteligênssscia artifissscial já alcansssçou a última fase de desenvolvimento com sssucessso e a tecnologia metam essstá abrindo posssibilidadesss jamaisss sssonhadasss na integrasssção de mente e componentesss eletrônicosss. Nósss... – Cadir, assessora técnica sênior do jacal, foi interrompida por outro guincho de seu imperador.
– Não muda nada? Não muda nada? Ssserá que sssó eu vejo o perigo que uma declarasssção pública de resissstência pode representar? Ssserá que toda a resssponsabilidade tem que ficar sssobre osss meusss ombrosss? Ninguém maisss ssse esssforça pelo nossso império? Por nosssasss conquissstasss? Vocêsss acham que para dominar esssesss mundosss basssta por governantesss no trono? Não, incompetente, para alcansssçar e manter o poder que almejamosss é necesssário “essscravizar” a mente do povo! Vocêsss acabam com meu essstômago! – Dizia dando estocadas no abdome com a mão direita. – Vossscês tem que ver o todo, e não apenas asss partesss! Comportem-ssse como conquissstadoresss! Temosss que “eliminar” sssua cultura, enfraquessscer ssseusss essspíritosss! Elesss pressscisam nosss ver como criadoresss, como ssseresss essspesssciaisss inalcansssçáveisss, e a sssi messsmosss como criaturasss desssprovidasss de luz própria! Pressscisamosss transssformá-losss em pequenosss sssatélitesss vagando ao nossso redor, iluminando-ssse com nosssa alva luz! Do contrário... – Sarath fez uma pausa e olhou bem dentro dos olhos de Cadir. – Do contrário cada um delesss ssserá um perigo em potenssscial. Veja o que acontesssceu em Lar... Osss essspectrosss do falessscido Romiander informaram-me que os “resissstentesss” essstavam infiltradosss na equipe de cozinha do tal banquete... Maisss! Que osss humanosss idiotasss sssabiam da posssibilidade de um ataque e a única medida que adotaram foi dobrar a guarda! Maisss nada!
– Entendo, sssenhor. Pesssço desssculpasss. Masss... se essses essspectrosss sssão tão efissscientesss quanto o sssenhor havia comentado, como deixaram que essses rebeldesss chegasssem a essse ponto? E onde essstavam durante essse ataque?
– É... Até que talvez você ainda tenha sssalvasssção... é asssim que ssse rasssciossscina. Elesss informaram que já levantaram e eliminaram váriosss focosss de resissstênssscia, masss que esssta em particular funciona desarticulada e mudando continuamente o local de sua base. Dissseram ainda que Jobe não admitia essspectrosss em seu cassstelo, o que imposssibilitou sssua presensssça no evento. Jobe, é claro, não está mais aqui para confirmar essa afirmação. Eu compartilho de sssua desssconfiansssça quanto a esssa falha gritante dessses essspiõesss humanosss... Podem ter deixado acontecer por algum motivo de interessse delesss. Talvez eliminar osss atuaisss jacaisss. Eu messsmo tenho algumasss idéiasss para aproveitar o ocorrido em nossso proveito...
– Fico feliz, Lorde Sssflagarthe. – Cadir Zatur regozijava-se com o elogio do jacal. Sua posição e prestígio dependiam inteiramente da opinião de seu chefe sobre seus serviços.
– Não é hora para issso. Chame a Sssihar enquanto me ligo com Lar. Temosss uma operasssção de “passscificasssção” para executar. Essse tipo de “contratempo” tem que receber uma resssposssta rápida e pelo menos dez vezesss maisss forte!
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Capítulo IX.
A RESPOSTA.
– Hei, Carlos! Você ainda tem um cigarro? Minha cartela ficou no armário. – Perguntava Antony, escorando-se em seu fuzil automático.
– Droga, você não sabe que não podemos fumar quando estamos de guarda aqui fora? A chama do cigarro denuncia nossa posição. Ou acha que nossos postos noturnos de vigilância ficam no escuro à toa? – Respondeu Carlos, mantendo o fuzil cruzado em seu peito com o cano voltado para a sua esquerda.
– Ihhh. Ô marrento... E você, sabichão, acha que vão atacar uma base de controle aeroespacial? – Desdenhou, deixando o fuzil no chão com o cano encostado no grande portão de entrada de carga para por as mãos na cintura. – Aqui não tem nada! E, além dessa droga de visor residual machucar a minha nuca, essa pasmaceira me dá nos nervos. Me dá um cigarro!
– Silêncio, Tony. Acho que estou ouvindo um assobio...
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"Um Ester-F62 é um míssil simples, sem computador interno ou qualquer outro sistema de correção de trajetória. Não possui sensores de calor, como o modelo Roth-127G, ou reconhecimento de alvo por holografia, como o Plote-IVH. Todo o processo de mira ocorre antes do seu disparo, realizado por um microcomputador de tiro que calcula matematicamente seu caminho até o alvo escolhido. Mas, uma vez que acerte seu objetivo, seu poder de destruição não deixa nada a dever para os mísseis mais avançados." – Revista Militar, Editora Ear – Planeta Premer.
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– O portão frontal, os dois guardas e a seção norte do muro de contenção foram destruídos, Marcus. – Informou Ituro, do posto de operações. De cabelos cor de sangue, na plenitude de seus dezessete anos, perdera os pais a poucos dias nessa guerra e continuava no combate para dar algum sentido à sua vida. – Devo ligar os faróis agora?
– Ligue, nossas tropas já vão desembarcar e o sigilo da operação já foi quebrado pela explosão. – E virando-se para Adix. – Navegador, nos dê altitude e nos leve até a frente da base. – Marcus sorria divertido com o sucesso de seu estratagema. Atacar com uma nave, mesmo pequena como aquele protótipo, uma base de controle aeroespacial era impossível. Afinal, seriam facilmente captados pelos sensores responsáveis pelo funcionamento da instalação. Mas ele aproveitara-se do pequeno porte da nave e viera quase tocando o solo, seguindo a estrada, contando que os profissionais operadores dos monitores de sensoriamento confundissem seu sinal com o de um veículo terrestre. Isso, associado ao conhecimento do horário da chegada do caminhão de recolhimento do lixo, lhe garantira o sucesso. Simples e funcional. Agora era só manter o perímetro até que o cargueiro trouxesse suas tropas.
– O pessoal está desembarcando, Marcus. Porque Rício não está com eles? – Perguntou Ituro estranhando a ausência do comandante de campo das tropas. – Onde ele está?
– Ric teve que tratar de assuntos pessoais. Todos nós temos nossos problemas. – O sorriso de Marcus morreu. – Aproveite que ligou as luzes e ative o monitor central. Quero acompanhar nosso ataque.
– Sim, senhor! – Concordou Ituro, rapidamente voltando sua atenção para seu posto e jogando na grande tela da nave a imagem da câmera externa frontal.
Na tela, via-se que as tropas da Resistência avançavam sem grandes problemas. As baixas eram mínimas e Marcus ordenou que começassem a pilhagem de equipamentos, armas e munição. Acertando a gola com um movimento de ombro, puxou do bolso um charuto. Antes de acendê-lo, no entanto, foi interrompido por seu chefe de operações.
– Senhor, mensagem urgente da equipe de solo. É Landel, senhor. – Informou Ituro, referindo-se a uma comunicação do atual comandante de campo.
– Ponha logo no áudio!
– Marcus, tenho uma imagem aqui que você tem que ver agora! Estamos conectando um dos monitores da estação ao nosso emissor. – Landel estava muito alterado, preocupando a todos na ponte. – Pronto, o sinal já está sendo transmitido!
– Ponha na tela!
Com a formação da imagem na tela central, todos silenciaram. Marcus, sem querer acreditar no que via, olhava detalhadamente para cada sinal e conferia sua designação e descrição. Mas não havia engano. O sensor da base mostrava claramente uma esquadra, não, uma “frota” de grandes naves aproximando-se de Lar. Belonaves de diferentes mundos e algumas de configurações desconhecidas para ele logo estariam na órbita do planeta. O gosto de vitória rapidamente abandonou a todos, que só saíram do transe da surpresa quando Landel irrompeu gritando no áudio.
– E então Marcus? O que faremos? Eles estão vindo com tudo! Vão destruir Lar como destruíram Mezz, não é?
– Não. Deixe de ser ridículo! Termine o que começamos aí em baixo enquanto tomo algumas providências. – Marcus transmitia certeza, mas não estava certo de nada. Uma reação dos jacais era mais que previsível, mas aquilo?
– Certo... Apago. – Landel Mohura cortou sua transmissão tentando engolir uma dúvida que acabou virando um murmúrio em seus lábios. – Providências?
– Ituro, prepare uma mensagem com todos os dados captados aqui e transmita para as demais células do movimento de resistência. Assegure-se de que todos os chefes recebam essa informação e diga-lhes para que cada um defenda sua área, mas que permaneça em condições de agir em conjunto.
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Na manhã seguinte, uma transmissão de holovídeo em cadeia global foi ao ar anunciando o novo jacal de Lar. O autoproclamado governante era Castro Lacom, um ciborgue arruaceiro, chefe de uma das mais violentas gangues de distribuição de drogas do planeta. Seu corpo refletia sua frieza, tão adulterado por próteses artificiais que em quase todos os seus movimentos podia-se escutar o som mecânico de biomotores funcionando. Seu anúncio a todo o planeta foi ríspido e objetivo.
– Lareanos, eu sou Castro, jacal empossado hoje como senhor de todo o planeta. Meus antecessores mostraram-se fracos e tiveram o destino que mereciam. Não existem mais divisões em Lar. Todas as guardas jacais formam apenas uma agora e vocês são todos meus! Não há mais direitos. Todos que formavam o judiciário estão sendo procurados e eliminados nesse momento. Que fique claro que a lei agora é a minha vontade. E para eliminar qualquer dúvida sobre a validade de minhas palavras, até o fim do dia de hoje um terço da população do planeta vai morrer. Considerem isso uma... “resposta oficial” à indisciplina demonstrada por vocês. Não se iludam com idéias infantis. Eu sou a sua nova realidade, sua verdade e sua luz! E é assim que vocês estarão me vendo antes mesmo que este dia acabe! – Castro terminou seu discurso com um sorriso desdenhoso que realçava seu semblante sádico.
A Frota Jacal chegou a Lar por volta das oito horas e iniciou um movimento de posicionamento, espalhando suas naves por todo o globo. Sem entrar na atmosfera do planeta, suas grandes naves distribuíram-se e estacionaram sobre as áreas mais humildes e densamente povoadas.
Os focos da Resistência monitoravam o movimento alienígena, preparando-se para o pior. Por volta das nove horas, quinze naves decolaram do condado de Vermont em rota de interceptação. Seu comandante era Irmim, que decidiu partir para o ataque abertamente. Antes mesmo de subir ao espaço suas naves entraram em combate contra a guarda jacal, que estava de sobreaviso em todo o planeta com poderosas naves classe Câncer. A ação de Irmim, transmitida por repórteres a todo o planeta, foi seguida pelas demais células da Resistência e, em minutos, todas combatiam as forças jacais do planeta. Enquanto as naves da frota pareciam apenas observar impassíveis no espaço, as belonaves da guarda anulavam o ataque desorganizado daqueles heróis que, em naves roubadas, sucateadas, pesados cargueiros e até em naves de passeio alteradas, procuravam resistir à aniquilação prometida por Castro. O povo olhava para os céus, perturbado por mil angústias diferentes, quase todos se entregando ao desespero, ao medo e à fuga.
– Senhor, duas naves da ala oeste estão abandonando a formação sem autorização! – Avisou Conar, sem desviar os olhos dos sensores de gerenciamento de vôo. Seu semblante sério contrastava com sua evidente juventude. Sua responsabilidade havia conquistado o cobiçado posto de operações da nave capitânia da guarda local. Ao contrário de boa parte da tropa jacal, não era um ex-criminoso, e sim um idealista que acreditava que o único meio de estabelecer a paz era impondo-a. Seu povo era indisciplinado e egoísta. Apenas sob a pressão do medo seguiriam as leis tão necessárias para o bom convívio em sociedade. A humanidade não era boa nem honesta, necessitava de um governo forte que a colocasse nos eixos.
Em combate, as naves da guarda mantinham seus vôos em formações e manobras sugeridas e gerenciadas por um programa tático de computador. Este programa, batizado de Eclipse, tinha seu processamento distribuído por todas as naves servidas por ele, o que fazia com que a destruição de algumas, mesmo a capitânea, não impedisse seu funcionamento. Uma vez que o comandante da esquadra aceitasse uma manobra do Eclipse, os computadores das demais naves a executavam, mesmo sem ordens de seus capitães. O sistema fora adotado pelos jacais para suplantar a falta de experiência de seus homens e economizar em treinamento. Afinal, formar um bom capitão ou piloto levava tempo e necessitava de algum tipo de estabelecimento de ensino. Os jacais tinham mais no que gastar seu dinheiro...
– Estranho, pode ser alguma falha no sistema? – Perguntou o capitão Jair, enquanto se aproximava do painel do posto de operações.
– O sistema está em ordem, senhor. M-mas como o senhor pode ver, as duas naves aceleraram e estão dirigindo-se para o centro de nossa formação! – Conar era preciso em seu relatório, mas demonstrava em sua voz todo o seu despreparo emocional frente à inesperada e rápida aproximação daquelas duas belonaves...
– Contate-as, Conar. Markins! Mande a engenharia procurar por panes no módulo Eclipse! – Contagiado por seu chefe de operações, o capitão Jair já perdera o controle e gritava na ponte.
– Já estão procurando, senhor! – Respondeu seu imediato.
– Elas não respondem e continuam... espere um pouco... estão atacando, capitão! – Conar gritou, ainda tentando digitar agitado em seu console.
– Assumir formação de defesa contra elas e atacar! – Jair tentava, sem sucesso, acalmar-se para pensar rápido.
– Já tentei, mas o Eclipse não está deixando, droga! Parece que o gênio que o projetou não previu um ataque de uma das naves gerenciadas! Talvez... – A frase de Conar se perdeu na explosão de sua nave.
As duas naves, desafiando a lógica de qualquer espectador, destruíram todo o grupo de que faziam parte. As naves da Resistência afastaram-se prudentemente das inexplicáveis explosões para, segundos após, ouvirem no áudio de suas pontes de comando a voz ainda pouco conhecida de Marcel.
– Caros ouvintes, aqui é o seu repórter preferido anunciando a mais nova façanha da Resistência! Aqueçam seus canhões porque a batalha começou! E com vocês, nosso caranguejo preferido! – Comemorou Marcel, passando a vez para Guiner.
– Não é hora para comemorações, senhores. Esta pequena vitória nada significará se as naves da frota em órbita cumprirem seu objetivo! Estou, graças ao Sr. Marcel, transmitindo para todas as naves da Resistência e assumindo o comando de todas as forças do planeta. – Guiner tremeu, não podia prever se a reação seria positiva, mas precisava do apoio de todos e, a seu ver, o movimento precisava de um chefe único, principalmente agora. – Conectem seus computadores de bordo neste sinal para que Marcel repasse para seus módulos de comunicação uma assinatura eletrônica que confundirá as naves da guarda jacal. – Guiner terminou sua transmissão e sinalizou para que Marcel iniciasse o envio da assinatura eletrônica adulterada do Eclipse, que eles haviam acabado de utilizar para desnortear o sistema tático jacal.
– E então, Marcel?
– Ih, chefe... Os caras estão cabreiros. Apenas vinte em todo o planeta estão copiando minha assinatura modificada...
– Eles estão desconfiados. Não os culpo, mas esta assinatura nos daria alguma chance! – Guiner pensava em algo que pudesse falar ou fazer para que a Resistência adotasse sua estratégia. Seus pensamentos foram interrompidos por uma comunicação que o surpreendeu.
– Aqui é Marcus Augustos. Aceito nosso novo comandante e o felicito pela bela jogada! Não sei o que essa tal assinatura é, mas deixa as naves jacais tontas! – Com uma gargalhada, Marcus encerrou sua transmissão.
– A galáxia dá voltas... Essa transmissão seguiu para todas as naves? – Perguntou Guiner a Marcel.
– Claro, o delegado usou o canal que eu abri para a assinatura! E mandou bem, agora são tantas naves puxando meu arquivo que estou tendo que aumentar a banda de saída! E mais, as naves da região estão assumindo posição junto a nós. – Marcel sorria, orgulhoso de seu trabalho na modificação da assinatura das naves da guarda de que, juntamente com Guiner e Rício, tinha se apoderado. Mas sabia que a Frota Jacal em órbita não estava se envolvendo por não considerá-los um obstáculo, e não por medo. Após breve pausa recebeu um comunicado em seu console e avisou Guiner. – Rício solicita um canal particular.
– No áudio! – Guiner mal escondia seu entusiasmo.
– Parece que o plano deu certo. – Felicitou Rício.
– Você está por trás da transmissão de Marcus, não?
– Eu apenas dei um toque no cabeça-dura...
– Entendo. Vou formar uma esquadrilha com metade das naves que se apresentaram aqui para tentar chegar ao espaço e dar uma boa olhada nessa Frota Jacal, pegue as demais e cubra minha retirada.
– Certo, boa-sorte! – Desejou Rício, fechando a transmissão.
– Marcel, comunicação com as naves a leste de nossa posição.
Marcel apontou para o console de Guiner, que pôde verificar a existência de um novo painel recém criado. Era uma interface para que o karile escolhesse como usar os canais de comunicações. Guiner direcionou para as naves que queria e prosseguiu.
– Senhores, antes de arriscar toda a Resistência contra a Frota Jacal, preciso conhecer o que enfrentaremos. Nós vamos agora fazer um teste de força contra um gigante. Conto com sua coragem, perícia e criatividade. Todo o planeta depende de nós! Preparem-se para seguir-me. – Rapidamente direcionou a comunicação para todas as naves e sorriu reconhecendo o valor surpreendente de Marcel. – Aqui é Guiner. Vamos aproveitar que a Frota Jacal ainda não iniciou o ataque para eliminar a guarda. Sejam prudentes e lembrem-se que o combate real ainda não começou! Estou partindo com uma esquadrilha para verificar nossa real possibilidade de vitória. Boa sorte a todos! – Guiner acertou uma rota para o espaço e sua pequena esquadrilha o seguiu, iniciando a saída da atmosfera. Durante o percurso, seus sensores denunciaram a descida de três naves desconhecidas em rota de interceptação. Elas possuíam um desenho totalmente novo para os membros da Resistência, mas Guiner reconheceu nelas várias características próprias das ANA-17, criadas por cientistas jacais utilizando um misto de tecnologia humana e metam que em seu tempo eram largamente usadas pela guarda e que, segundo o diário de Q'tum, seriam instrumentos “cirúrgicos” de contenção e educação do povo. Porém, o diário não as mencionava sendo utilizadas tão cedo. Talvez essas fossem apenas protótipos sem todos os recursos das possantes máquinas de guerra de que se lembrava. Pelo menos era o que ele esperava...
– Adotem trajetórias espiraladas e mantenham fogo sobre os foguetes traseiros! – Ordenou Guiner a sua esquadrilha, já sob fogo inimigo.
– Má notícia, caranguejão. O protocolo da rede dessas naves é mais avançado que as da guarda lá embaixo. Meu executável precisaria de pelo menos uma hora para se adaptar e me permitir acesso.
– Não consegue nem interferir? – Perguntou Guiner, desviando a nave de um disparo e armando os dois lança-mísseis.
– Com esse equipamento? Eu sou um aranha, não um mágico!
– Então a mágica vai ter que ficar por minha conta! – Disse o karile liberando todo o seu poder de fogo ao mesmo tempo em que mergulhava em direção a um dos inimigos. As rajadas de faires não estavam tendo muita sorte, mas seus mísseis Ester-F62 foram certeiros nos foguetes traseiros.
– Para! Segura a onda, cascudo! – Marcel fechou os olhos e se agarrou ao console de operações ao ver o foguete traseiro da nave inimiga crescendo velozmente na tela principal.
– Segure-se Marcel, a munição está no fim e vou nos tirar daqui! – Disse firmemente Guiner enquanto guinava radicalmente a nave, que já estava quase raspando a fuselagem inimiga. – Abra os olhos e vigie os geradores de blindagem!
– Os geradores não, “o” gerador! Só há um emissor de blindagem nessa banheira e até que está resistindo, mas a pressão dessa sua manobra vai danificar a estrutura da nave! – Voltando a observar os sensores, Marcel rapidamente mudou seu discurso. – Malandro, esquece a nave e acelera! – Gritou ao detectar dois mísseis se aproximando. – Tem dois Plotes em nosso encalço!
A explosão dos foguetes atingidos por Guiner foi o suficiente para forçar a nave inimiga a abandonar o combate e dirigir-se esfumaçando para o solo. Cinco naves da Resistência tentaram repetir a manobra de Guiner e acabaram abatendo as duas naves restantes, mas não sem que duas de suas naves explodissem, aniquiladas pelas potentes metralhadoras íneas inimigas.
– Conseguimos! – Bradou Elimander na ponte de comando da Ametista.
– Não comemorem ainda... – Murmurou Guiner consigo mesmo enquanto mantinha vigilância nas três naves abatidas.
A preocupação de Guiner, infelizmente, não era desmotivada. Em meio à descida, e à surpresa de todos, as três naves modificaram sua configuração para uma forma vagamente humanóide e aterrissaram sobre a cidade como mitológicos monstros conquistadores. Cada “criatura” tinha trinta metros. Suas pernas eram proporcionalmente curtas, o que tornava seus movimentos limitados, mas cada braço, ao invés de mãos, continha lança-mísseis e Íneas de grande poder destrutivo. Não havia uma cabeça ou pescoço. O que parecia um alojamento para o piloto ficava no próprio tronco da nave modificada, dando-lhe um aspecto ainda mais grotesco. A população que, por um breve momento sentiu uma chama de esperança ao ver o triunfo da esquadrilha de Rício sobre a guarda jacal, agora via-se diante de um novo pesadelo. Rício, também surpreso, dirigia-se para atacar o novo perigo.
– Atenção, esquadrilha! Vamos manter duas naves incomodando cada monstro como mosquitos gardis enquanto as outras vão concentrar fogos no centro do tronco! Nosso alvo é o piloto! – Comunicou Rício à sua tropa, deixando que cada capitão de nave escolhesse sua função.
– Senhor, eles estão atirando a esmo! – Avisou Fissur, capitão da recém batizada “Guardiã dos Ares”.
– Não, meu jovem. Eles estão atirando na população...
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Capítulo X.
JUÍZO FINAL.
Enquanto o combate seguia em terra, a esquadrilha de Guiner chegava ao espaço para conferir o poder bélico com que Castro ameaçava eliminar a terça parte da população humana. A situação da pequena tropa não era nada boa. Após o inesperado combate com as três batedoras, as naves apresentavam diversos problemas de funcionamento e até mesmo de estrutura. Em algumas, a gravidade artificial se fora e na pequena Tortuga até o próprio sistema de suporte de vida havia sido destruído, forçando a tripulação a utilizar trajes espaciais para poder manter-se aquecida e respirando. A nave de Guiner não era uma exceção.
– Chefia, as câmeras externas se foram. Para não ficarmos às cegas, estou jogando o gráfico do sistema tático na tela principal. Ele simulará o espaço à nossa volta em tempo real. – Marcel, que nunca saíra da frente de um terminal em seu apartamento, adaptara-se facilmente ao ambiente apertado e computadorizado da ponte de comando de uma nave estelar.
– Excelente, amplie a escala e o alcance dos sensores até que captemos a... nave... – Guiner se surpreendeu com as imensas proporções da nave da frota inimiga que aparecia na tela. Pelos sensores ela media cerca de quatrocentos metros de comprimento. – É uma nave montada no espaço. Os jacais já possuem uma doca espacial? Onde? A partir de quando?
– Tá, eles montaram esse monstro no espaço. E daí? Já que parece entendido nisso, me diz que sabe como destruir essa tranqueira! – Marcel reclamava, já antevendo seu trágico destino final. Imaginava o poder de fogo de uma máquina daquele tamanho.
– Com essa nave eles atacariam Fantis e com as ANA que abatemos destruiriam Dicro e os tais draconitas... Nossas ações... Minhas ações... Eu acelerei o uso, talvez até a fabricação dessas armas... – Balbuciou Guiner para si mesmo.
– Alô! As naves de nossa esquadrilha perguntam o que devem fazer! Lar chamando Guiner! Desencanta! Depois você fala com a Ana, grandão! – Marcel gritava com Guiner enquanto apertava seu cinto-de-segurança meio sem jeito.
– Bem, viemos aqui testar a força deles... – Guiner, dedilhando em seu terminal modificado por Marcel, abriu um canal de comunicação com sua esquadrilha e iniciou suas ordens. – Atenção, senhores! Vamos tentar apenas dois ataques e, se falharmos, os que sobreviverem devem voltar ao planeta e ordenar a retirada de todas as naves da Resistência! A primeira manobra será um ataque espargido, com cada nave atacando simultaneamente de uma posição diferente e escolhendo o próprio alvo no inimigo. O segundo será um ataque com todas as naves disparando unidas naquela parábola central, que deve ser uma antena ou um emissor de campo da blindagem.
– Ou um guarda-chuva, ou um sistema de ventilação... falou o entendido... – Resmungou Marcel.
– Aham! – Guiner fuzilou Marcel com os olhos e continuou com suas ordens, agora detalhando as próximas ações com muita pressa. Aquela nave imensa certamente ia logo começar a atacar.
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Enquanto isso, na Brisa:
– Capitão, pedidos de socorro estão chegando de diversas fontes do planeta Lar! – Informava Inar do posto de operações.
– Então faça um resumo, Inar. – Comandou Nira, com um mau pressentimento.
– O que temos haver com pedidos de socorro do planeta humano? Temos um prazo a cumprir! – Disse Indira à Nira, enquanto se aproximava de Inar.
– Nunca se sabe quando um romance vai mudar de ritmo, imediato. Além do mais, tenho negócios em Lar. – Nira deu um sorriso de canto de boca e desafivelou seu cinto de segurança.
– Capitão... é terrível. Muitas mortes... eles estão sendo chacinados por seu próprio imperador! – Inar arregalava os olhos, impressionado com o que ouvia.
– Deve ser um engano. Consegue alguma conexão com a rede lareana? – Perguntou Indira fazendo cara de poucos amigos, antevendo que o interesse de Nira ia aumentar.
– Hum... Apenas com dois canais da rede de holovídeo. Não consigo nenhuma recepção estável de imagem dos outros sistemas de comunicação. E mesmo esses dois canais estão chegando com o sinal bem fraco. – Estudando seu painel, fez cara de que conseguira algo. – Um deles está transmitindo o ataque em linguagem universal! Deve estar chegando aqui com apenas quarenta minutos de atraso.
– Na tela, querido. – Pediu Nira, causando um olhar reprovador de sua imediato, que não aprovava seu comportamento “desalinhado” com subordinados. Se não estivesse tão tenso, Inar teria rido.
Na tela principal da ponte de comando, via-se um repórter humano que, do alto de um edifício, apontava para uma nave-robô que metralhava impiedosamente o povo desesperado em fuga pelas ruas. Quem não morria pelos tiros, acabava pisoteado pela turba. O semblante de Nira ficou muito sério. Fez-se silêncio na ponte.
– Consiga áudio, Inar. – Pediu Nira, enquanto recordava as palavras de Guiner sobre os jacais.
– Filtrando... amplificando... pronto! – Inar configurou filtros para a recepção e implantou um protocolo de correção de erros para melhorar a inteligibilidade do áudio que chegava com dificuldade.
O repórter da tela ganhou voz em meio ao som de rajadas de ínea e gritos de socorro. “... avançando lentamente, enquanto as naves da... tência se reagrupam para novo ataque. Como o jacal Castro informou a pouco, esses robôs de trint... tros são só os batedores de um ataque maior. E enquanto vemos as ruas serem tingidas de vermelho pelo sangue, segundo informações lançadas na rede, o karile chamado Guiner foi ao espa... tar buscar informações sobre a ameaça jacal. Vamos tentar focalizar agora os destroços das naves da guarda, onde alguns sobreviventes se escondem dos três assassinos enviados pelo próprio governo a que serviam e... – O semblante do repórter mudou para uma careta de pavor. – Pelo criador! Abaixe-se! – A tela se apagou.
– O que houve? – Perguntou Indira.
– A transmissão se encerrou. – Informou Inar baixando os olhos.
– Ibis, marcar curso para Lar em velocidade máxima. Indira, veja com Lau se o nível de equilíbrio de fase vai agüentar essa jornada e aproveite para verificar nossas armas. – Ordenou Nira.
– Como é? Vai deixar de entregar um carregamento para se meter em um problema caseiro? E ainda arriscar as vidas da tripulação em meio a uma baderna daquelas? O que pretende com isso? – Perguntou Indira, já perdendo a linha, e, instintivamente, acionando seus ferrões.
– Indira, sua preocupação com a tripulação e com nossa carga só demonstra que recebi uma excelente imediato do – Fez uma pausa para enfatizar. – “jacal” karile. Mas vendo aquela chacina "caseira" em Lar, finalmente compreendi que esses jacais são um perigo para todos os povos de nossa comunidade. Como já deve saber, ontem nosso primeiro ministro Erio declarou que não aceitaria a presença de tropas jacais em meu mundo. Esta foi a segunda oferta de “proteção jacal” negada desde que o primeiro ministro anunciou que Fantis, “meu” mundo, não aceitará um imperador imposto.
– Agradeço a consideração, capitão. Mas ainda não estou convencida de que devemos ir. O que podemos fazer lá? E porque nós? Não faz sentido! – Indira parecia ignorar a “espetada” de Nira e mantinha sua posição.
– Essa é uma guerra de todos. Quanto ao que podemos fazer, isso vamos descobrir lá. – Dando a conversa por encerrada, Nira virou-se para Ibis e balançou a cabeça afirmativamente. Seu piloto, entendendo o sinal, acelerou a nave no novo curso. – Mais uma coisa Indira... guarde seus ferrões. Nessa nave resolvemos nossas diferenças com o diálogo. – E abrindo um sorriso. – Ou com uma boa bebida.
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Na órbita do planeta Lar:
– Nós vamos morrer! – Reclamava Marcel aos berros enquanto tentava apagar o fogo em seu painel de controle com um jato de espuma. – Eu devia ter me entregado aos jacais quando tive chance!
– Cale-se Marcel, e veja se consegue recuperar pelo menos o sistema de comunicação da nave! – Gritou Guiner preocupado com o que restara de sua esquadrilha de reconhecimento. – Temos que sair logo daqui!
– Ah! É para cair fora? Porque não disse antes? Canal aberto, grandão. Mas fala rápido que estou tirando força da blindagem para essa comunicação e vamos precisar de força total para tentar resistir a um novo disparo daqueles! – Marcel abandonara seu console queimado e disputava com Guiner o painel de navegação.
– Gn te abençoe! – Guiner acionou o comunicador. – Atenção! Recuar! Não há como enfrentarmos esta nave!
De fato não parecia haver chance nem de sobrevivência para aquelas naves. Em seu segundo ataque ao gigantesco inimigo, levaram um único disparo que, de tão disperso, conseguiu abranger todas em seu raio de ação. Três naves da Resistência explodiram imediatamente, e as restantes enfrentavam sérios problemas. Em meio à fuga, a Katana explodiu vítima de superaquecimento na reentrada na atmosfera. Quando finalmente a esquadrilha chegou ao espaço aéreo da cidade de Estrela Nascente, pôde ver que a tropa liderada por Rício já eliminara as três naves robóticas. Mas, antes mesmo que um sorriso de comemoração se esboçasse nos lábios daqueles heróis da Resistência, um disparo desceu do céu na forma de um cone vermelho incinerando tudo em seu caminho. Seu raio de alcance chegava a medir quinhentos metros no solo, tirando a vida instantaneamente de todos que estavam na área.
– O que foi isso? – Gritou Marcel entrando em pânico ao ver o painel que dividia com Guiner apagar.
– Fomos atingidos novamente e o computador apagou. Vamos cair, prepare-se para saltar! – Respondeu Guiner retirando dois cintos antigravitacionais de um alojamento na parede da ponte. – Ajuste bem seu cinto e vamos logo para a porta de abordagem!
– Saltar? Tipo assim, pular pela porta sem segurar em nada? Não tem um jeito mais cômodo pra morrer, não? – Marcel continuava suas reclamações sem fim enquanto seguia Guiner, que já rumava para a única saída.
A nave já estava em queda livre na atmosfera de Lar e a descompressão não seria necessária. Antes de abrir a porta, Guiner conferiu rapidamente seu cinto e supervisionou a equipagem de Marcel ignorando suas lamúrias.
O cinto antigravitacional é um equipamento semelhante a um grande cinturão metálico que acopla-se à cintura e ainda prende-se ao corpo do usuário por dois cintos de lonex que formam um "X" nas costas. Duas pequenas hastes laterais projetam um suave campo de anti-G, responsável por desacelerar a queda.
Assim que a porta se abriu, o karile se arremessou no vazio, deixando um relutante lareano para trás. Marcel aproximou-se da porta segurando firme e nervosamente no batente com as duas mãos e olhou para baixo. O vento forte parecia trespassar seu estômago, que gelou. Suas pernas tremiam e não mais respondiam. Toda sua razão lhe dizia para saltar, mas Marcel congelou de medo na porta da nave. Não estava com medo de sentir dor, nem com receio de que o cinto sofresse uma pane. O que o apavorava era o nada, o não pisar em nada, o não ter absolutamente nada fixo para se apoiar. Olhava para baixo atônito e tentava, sem sucesso, convencer seu corpo a obedecer. Ele não ia conseguir saltar e acabaria morrendo com a queda da nave. Com esse pensamento ficou com mais medo e começou a encolher-se em pânico. Seus olhos se fecharam, seus joelhos foram se flexionando e seus dedos afrouxando. Sua cabeça tombou para frente e, entre uma fraca vontade de saltar e um pavor tão grande que lhe tolhia os pensamentos e movimentos, caiu desajeitado para fora. Era horrível. Seu corpo desgovernado rodopiava no nada, sendo castigado pelo vento. Instintivamente queria que aquele tormento terminasse logo e quase quis morrer, ser tragado pelo sono, pela inconsciência. Mas lembrou-se do cinto. Sim, o cinto! Precisava ativá-lo! Cerrou muito os olhos, tanto que até doía, e, tirando força da raiva que sentia de toda aquela situação, conseguiu em um rápido movimento do braço esquerdo, que mais parecia uma pedra de gelo, acionar seu dispositivo antigravitacional.
Os cintos da dupla funcionaram como esperado, mas foi uma decida difícil, muito difícil. Olhando para baixo, viam centenas, não, milhares de humanos mortos. Os que não tombaram vítimas do ataque das três naves batedoras foram queimados pelo disparo que, com certeza, tinha vindo da nave gigante em órbita. Marcel chorava em silêncio, sem soluçar. Guiner olhava aquela destruição sem sentido tentando não se sentir culpado pelo ataque jacal ao planeta Lar. Pôde divisar as naves que estavam com Rício fumegando no solo. Nada havia sobrado nos céus, nem pássaros, nem naves da Resistência ou mesmo jacais. Antes de tocar o chão, pôde ver ainda que, distante dali, novo raio varria o solo lareano, espalhando a morte e a destruição. Castro ia pagar por aquilo. Por cada valiosa vida retirada. A imagem de Jiryadne e seu filho não saíam de sua mente...
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Longe dali, no bairro de Anil Marim:
Com suas naves abatidas, o grupo de Marcus estava encurralado em uma galeria de lojas tentando proteger-se das metralhadoras inimigas.
– Andréa, tente chegar ao segundo andar. – Ordenava Marcus abaixado atrás de um balcão de metal antes dedicado à venda de cosméticos.
– Pra quê? Pra que ele me acerte com menos esforço? – Contestava Andréa, alimentando seu rifle com a última pastilha de energia.
– Escute! Se você não reparou, aquela coisa não é um robô! Tem uma bolha central com toda a pinta de cabine. Acerte ali e talvez nos livremos daquilo!
– OK, cubram-me! – Gritou Andréa, já correndo para as escadas. Seu olhar era fixo e determinado. Seus movimentos eram precisos como sua mira. Era conhecida internacionalmente por nunca ter errado um tiro, por maior que fosse a distância e os obstáculos. Tinha o corpo de uma atleta, com as pernas musculosas e os braços fortes, mas não masculinos. Tornara-se uma lenda urbana, uma aventureira que vivia a atormentar a paz da polícia com sua gangue sempre a praticar esportes radicais em plena cidade. Possuía seu próprio fã-clube, com sedes nos quatro cantos do mundo. Estes colecionavam vídeos caseiros e holografias de seus loucos prodígios, bem como as manchetes dos jornais e revistas sobre ela. Deste mesmo arranha-céu onde agora se escondia, já se atirara várias vezes usando apenas asas de tecido fabricadas e desenhadas por ela mesma. Agora, ironicamente trabalhava com ex-policiais para derrubar o governo. Sua irresponsabilidade de outrora se evaporara com a morte de seus amigos nas mãos da guarda jacal e dara lugar a um idealismo forte contra um inimigo implacável que os esmagava.
– Todos juntos, agora! Atirem! – Ordenou Marcus a seu grupo, que imediatamente abriu fogo na direção da nave-robô que, de fora da galeria, mudava sua posição para tentar atingir seus relutantes alvos.
Andréa chegou ao segundo andar e se atirou ao chão. O braço esquerdo da máquina, que continha lança-mísseis, estava à sua frente, por detrás de uma grande janela de vidro. Era impossível, face à nova posição do monstro, ver a tal cabine citada por Marcus. Consciente do risco, acertou sua posição e mirou na ponta de um míssil que se projetava para fora de seu lançador. Mais uma vez seu disparo foi impecável e o míssil detonou, iniciando uma reação em cadeia que terminou por destroçar todo o inimigo. O sopro da explosão, no entanto, lançou Andréa e todo o grupo à distância, como bonecos em um vendaval. Ao abrir seus olhos, teve que assoprar seus cabelos longos para poder ver alguma coisa. Muitos objetos pequenos foram lançados com a explosão e seu corpo estava coalhado de pequenos cortes, mas felizmente não havia nenhum ferimento sério. Olhando em volta, pôde conferir a destruição causada. Seu rifle tinha sido inutilizado, vítima de uma cadeira que estilhaçara seu conversor de força. Levantando-se, voltou seu olhar para a janela procurando os destroços da máquina inimiga... Cerrando os punhos, correu para a escada ao ver duas outras máquinas se aproximando. Ela precisava de uma arma... e rápido!
– Outro! Não, outros! Como estão todos? – Marcus, já de pé, procurava ver o estado da tropa para avaliar as chances contra as novas ameaças. Seu primeiro impulso foi retirar todos dali, mas não havia rota de fuga. A única saída do prédio era na direção dos inimigos.
– Marcus! Vaniche, Marta e Sorbo estão mortos. – Informou Eidish, ao constatar que seus companheiros haviam sido atingidos por um aparelho refrigerador lançado pela explosão.
– Maldição! Eu devia ter previsto essa reação... Guiner alertou sobre o poderio bélico jacal...
– Autopiedade delegado? – Perguntou Andréa, descendo do andar superior ainda ofegante, tentando trazer Marcus de volta à realidade. – Vamos nos entregar?
– Ainda não, mas embora essas coisas pareçam ser mais vulneráveis como robôs do que como naves, contra esses dois grandões aí vamos precisar de um milagre! – Marcus não conseguia ver esperança para seu grupo. Olhava em volta procurando uma saída para a situação, mas só via cadáveres... o raio ou seja lá o que fosse que usaram no ataque devia atravessar paredes, pois mesmo dentro das lojas via-se corpos sobre corpos... nos escombros de uma loja de cosméticos viam-se mulheres, outrora damas bem trajadas, jogadas como bonecas velhas... e mesmo alguém seguro como ele cerrou os olhos pesaroso ao ver o que sobrara de um cercadinho de brinquedos dedicado a divertimentos infantis... pressionando os olhos com o indicador e o polegar da mão esquerda, dirigiu-se a Andréa com a voz embargada... – Viu alguma saída no piso superior?
– Não, e as escadas que iam para o terceiro andar estão bloqueadas por destroços.
– E os elevadores não são uma opção... o prédio está sem energia. – Acrescentou Eidish.
– Marcus, veja! – Manim gritou apontando para um brilho que crescia no céu.
– Uma nave... – Reconheceu logo Marcus. – E está vindo... todos para o chão! – Alertou atirando-se ao solo.
As duas naves-robôs jacais viraram-se ao detectar a astronave que vinha veloz em rota de interceptação, mas antes que reagissem foram alvejadas por dois mísseis Plotes certeiros.
– No alvo capitão! Sejam lá o que fossem não matarão mais ninguém! – Informou Inar do posto de operações da Brisa.
– Excelente, menino! Ibis, pouse para recolhermos sobreviventes! – Comandou Nira e acionou o viva-voz em sua cadeira. – Jeny, como está a imediato?
– Ainda dormindo a sono solto, capitão. – Respondeu a técnica pelo sistema de som. – Acho que ela exagerou na – Deu uma pequena risada. – “bebida”...
– Entendido. – Nira sorria. – Inar, vá para a porta receber e auxiliar nossos convidados.
– Agora mesmo, capitão! – Aceitou Inar, retirando seu cinto de segurança em “X” e partindo para a porta de abordagem.
Marcus já estava na porta da Brisa apoiando Nimba, que mal se mantinha de pé, e acompanhado pelos demais sobreviventes de seu grupo.
– Milagre, heim Marcus? – Brincava Andréa, com um largo sorriso no rosto ensangüentado.
– Loira, devemos muito ao pessoal dessa nave. – Marcus estava sério. Não conseguia se livrar da sensação de que sua violência exagerada na eliminação dos jacais havia sido a causa desse ataque tão cruel a seu mundo.
Quando a porta se abriu, a surpresa foi geral, não só pela aparição de um representante da raça límite em uma nave de fabricação humana, mas pela mata e vapor em seu interior, normalmente estéril. De qualquer forma, não era o momento para ficar se atendo a detalhes e todos rapidamente entraram sem nem esperar por convite. Ignorado, Inar fechou a porta e acionou o interfone na parede da nave.
– Todos a bordo, capitão! – Informou o espontâneo e jovem Inar. Desligando o interfone, dirigiu-se aos novos convidados. – Senhores, a capitão Nira lhes dá as boas-vindas e oferece um alojamento neste momento difícil. Transportaremos a todos para um local seguro assim que pudermos. Alguma dúvida?
– Na verdade, sou o comandante deste grupo. Precisamos de primeiros socorros e eu gostaria de agradecer pessoalmente à sua “capitã” por seu resgate. – Disse Marcus afastando uma “estipe dicótoma” que pendia de um tipo de samambaia presa ao teto. Estava realmente agradecido e queria conhecer a límite responsável pelo oportuno salvamento.
– “Capitão”. Em linguagem universal esta palavra, bem como os demais postos, não sofre variação em gênero, senhor... – Rebateu o límite, surpreendendo a todos com um tom sério.
– Marcus. Mas esquece essa história de senhor... – Completou tentando concertar seu pequeno deslize. – Poderei falar com “a” capitão?
– Sim, deixemos antes seu pessoal no alojamento. Lá receberão socorro médico.
– Certo... – Marcus estava estranhando muito aquela cortesia e protocolo em meio a um massacre, mas já tinha decidido não criar caso e seguiu seu cicerone verde.
Na ponte, Nira já ordenara a Ibis para decolar e rastrear outros locais de ataque para continuar a ajudar os lareanos.
– Capitão, encontrei novo local de combate. Os sensores de longo alcance detectam mais desses blindados bípedes. – Informou Ibis.
– Bom trabalho. Entre em curso de interceptação e arme os mísseis. – Disse Nira. Ligou novamente o comunicador. – Jeny, tudo em ordem? – Não houve resposta. – Lau, algo de errado com o sistema de comunicação?
– Nada errado, capitão. – Respondeu o engenheiro da nave.
– Ai, ai, ai... Inar, está na escuta?
– Sim, capitão. Estava me dirigindo com o comandante dos resgatados para a ponte. – Informou Inar após o breve instante que levou para chegar a um interfone.
– Jeny não responde, arme-se e verifique isso rápido!
– Já estou armado e a caminho! – Respondeu Inar preocupado e saiu correndo para os aposentos da imediato, sendo seguido de perto por Marcus que já sacara sua pistola.
A dupla logo chegou ao corredor que levava aos aposentos de Indira. Pararam de correr e, de armas em punho, iam se aproximando com cautela da porta. Marcus não estava entendendo muito, mas havia compreendido o principal. Alguém chamado Jeny estava em sérios apuros. A porta estava fechada. Inar, com um gesto, pediu que Marcus fosse para o outro lado da porta e, depois que os dois estavam posicionados, digitou na tranca eletrônica o código geral de destravamento. A porta abriu-se com um ruído mecânico característico e os dois se lançaram simultaneamente para o interior do cômodo. Marcus engoliu em seco ao deparar-se com o corpo de uma límite literalmente desmembrada. Havia partes pelos quatro cantos do alojamento e muito líquido verde musgo derramado pelo chão. Alguém ou alguma coisa havia utilizado uma faca ou outro instrumento cortante de maneira muito violenta contra aquela tripulante... mas fosse o que fosse não estava mais ali. Pôde perceber o límite a seu lado dirigir-se ao interfone, certamente para avisar ao comando...
– Atenção a todos na nave! A imediato Indira acaba de atacar Jeny com força letal. Protejam-se e utilizem-se de todos os meios para anulá-la! – Informou friamente Inar, logo desligando o interfone. – Marcus, sua ajuda é bem-vinda. Indira é certamente uma simpatizante jacal e precisa ser impedida antes que tome a nave.
– Jacais! – Grunhiu. – Fique tranqüilo, nós iremos pará-la. Acha que ela foi para a ponte ou para a engenharia? – Perguntou prevendo os possíveis alvos de um intruso na tomada de uma nave.
– Se eu a conheço, foi para a ponte! – Disse Inar antes de voltar a correr.
No caminho a dupla trombou com Andréa e Eidish, que sem trocarem palavras juntaram-se na correria para a ponte. De repente uma voz conhecida de Inar começou a falar em toda a nave a partir do comunicador da cadeira de comando.
– A ponte é minha, vegetais estúpidos! Eu os avisei em tempo, agora é tarde. Vão todos imediatamente para o setor de carga e fiquem diante da câmera interna ou desfolharei o pessoal da ponte!
– Acabou. – Declarou Inar pesaroso e parou no corredor.
– Como assim? Vão entregar a nave? – Interpelou Andréa indignada.
– A câmera do setor de carga transmite para a ponte, se não formos para lá, Indira saberá...
– Escute, Inar... Essa Indira sabe da nossa presença? Ela não pareceu falar de nós. – Disse Marcus com um brilho no olhar.
– Sim... É isso! Ela estava inconsciente, não deve saber que vocês vieram a bordo!
Na ponte, Indira já cortara ao meio o navegador Ibis e apontava uma pistola para Nira. Na tela principal, via as imagens da câmera do setor de carga que já mostrava todos os tripulantes da Brisa. Com um simples comando, a outrora imediato da nave trancou a porta de carga e reprogramou o código geral de destravamento.
– Muito bem, Nira... Agora, antes de irmos a Kaird entregar o seu carregamento, vou ensiná-la a não tratar uma karile como inferior, nem fazê-la trabalhar nesse ambiente sujo e úmido... – Indira apontava a arma para Nira e ia puxando gradativamente o gatilho.
– Eu nunca a tratei como inferior, Indira! Mesmo tendo quase certeza de que era uma espiã! – Nira tentava manter um tom de voz brando, mas estava muito nervosa.
De súbito, uma forte explosão arremessou a porta para o centro da ponte, resvalando na cadeira da capitão, onde a ex-imediato estava sentada. Com o susto, Indira pressionou o gatilho acertando em cheio o peito de Nira, que foi jogada contra um painel e caiu ao chão. Marcus e Andréa entraram apontando suas armas para a traidora jacal.
– Karile desgraçada! Malditos sejam todos os jacais! – Marcus quase espumava de tanta raiva, culpa e impotência... Apontou a arma para a cabeça de Indira e foi aproximando-se lentamente. Eram muitas mortes, mas agora ele tinha um deles bem em sua mira... uma jacal de quem podia se vingar e assim tentar aplacar o horror que inflamava seu sangue. – Assassinos!
Indira não entendia de onde aqueles humanos tinham vindo, mas agora sua preocupação era a arma apontada para a sua testa. Mas o que dizer? O que fazer? O humano parecia um karile consumido pelo ódio.
– Marcus, já foram mortes demais. Não aumente esse banho de sangue... – Disse Andréa aproximando-se de seu comandante. – Deus sabe que ela merece, mas abatê-los em combate é uma coisa, assassinato a sangue frio é outra. Destrói a gente. Vamos ver o que podemos fazer pelos que sobreviveram... – Calou-se tocando-lhe fraternalmente no ombro.
Marcus nem tremia. Embora sua raiva fosse um barril de pólvora prestes a explodir, seus músculos não demonstravam a indecisão por que passava.
– Está bem, leve esse lixo daqui e entregue-a aos límites. Que eles decidam o que fazer com ela. Toda essa Resistência tem sido um fracasso atrás do outro. Guiner está certo, devemos nos unir e eliminar esses trastes. Ficar resistindo não nos levou a lugar nenhum...
– Conte comigo, delegado. Vou agora levar ela daqui. Veja se há algo a fazer pela capitão. – Andréa voltou-se para Indira. – E você, assassina... Não confunda minha atitude com fraqueza, eu adoraria ter um motivo para varrer suas cinzas. Se quer permanecer respirando, ande logo e não tente nada. Meu dia está péssimo!
– Certo... Mas não conheço nada dessa espécie... – Marcus cochichou para si mesmo, ignorando o tremor nos lábios e a saída da karile. Aproximou-se de Nira, já pisando no líquido vital que saía do corpo inerte da capitão da Brisa. Não havia qualquer movimento. Marcus amaldiçoava sua sorte e, olhando a alienígena que se arriscara por seu povo, conscientizou-se de que estava em uma guerra. Uma guerra que envolvia a todos.
Uma vez livres, os tripulantes da Brisa ainda recolheram outros membros da Resistência e alguns sobreviventes do novo genocídio jacal.
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Na Naja, nave capitânia da Frota Jacal em órbita de Lar:
– Almirante Sihar... – Chamou Castro ao entrar na ponte de comando.
– Diga, sssenhor Cassstro... – Respondeu Sihar, sentada na cadeira de comando com uma xícara de chá de carínea na mão sem girar a cabeça na direção do jacal lareano. – Em quê possso ssservi-lo, sssenhor? – Sihar se perguntava até quando teria que agüentar ficar tratando como superior um bárbaro como Castro. Onde estava a cabeça dos imperadores quando o escolheram para governar Lar? Ela não o colocaria para gerenciar nem uma criação de roedores.
– Quando essa operação vai terminar? Eu tenho um planeta e quero aproveitar! – Castro deu um arremedo de sorriso que mostrou seus dentes metálicos. Pouca coisa nele ainda era orgânica.
– Como foi frisado nasss “duasss” reuniõesss de apresentasssção dessste ataque, a fase que ssse inicia apósss a anulasssção de um tersssço dosss nativosss é a ocupasssção por terra, quando asss tropasss de karilesss, daranesss e fenceresss irão formar o recompletamento para a guarda de Lar. – Sihar desligou a tela central, mantendo apenas as duas laterais mostrando a destruição causada pelo raio incinerador, uma variação da arma de pulso usada no planeta metam. A ponte da Naja, como todas as naves da classe Capricórnio, era mais complexa que as das naves menores. Possuía três telas independentes que preenchiam as duas paredes laterais e a frontal, até para dar vazão a suas centenas de sensores externos e internos, que passavam uma idéia melhor do desempenho e situação da nave. Esse acréscimo no sensoreamento forçou também à criação de mais um posto na ponte, o posto de “sensores”, que acumulava as missões de comunicações. Esse posto e o do imediato ficavam cada um em um lado da ponte, atrás da linha formada pelos postos de navegação e operações, e à frente da poltrona do capitão. Poltrona esta que a almirante Sihar girou, contra a vontade, para encarar Castro. Quisesse ela ou não, aquele humano rude e desqualificado era um superior hierárquico na nova ordem que nascia.
– Sei, recompletamento... que não precisaria ser feito se seus poderosos canhões de pulso tivessem “alguma” precisão e aquelas “geringonças” feias e desengonçadas de vocês não tivessem saído atirando em tudo o que viam! Aliás, quem teve a idéia de empregar aquelas coisas fugitivas de holonovelas de terror?
Sihar se retorceu na cadeira, vendo que nas diversas exposições, algumas proferidas por ela mesma, destinadas a eliminar dúvidas e informar os líderes do governo jacal tanto daquela operação quanto do desenvolvimento da tecnologia bélica jacal tinham sido completamente ignoradas por aquele inconveniente monte de motores sem cérebro.
– Sssenhor... Aquelasss “geringonsssças” sssão o primeiro passso para que cheguemos àsss Armadurasss Neurocomandadasss de Ataque, ANA, objetivo do “Projeto Anaconda”. E não foram elasss que abateram...
– Olha aqui, almirante cobrinha... se essas anacondas de que você fala forem tão desengonçadas quanto aquelas que não resistiram nem às naves sucateadas que as atacaram, estamos perdendo dinheiro. – Castro divertia-se ao ver que irritava Sihar e, mostrando mais os dentes, puxou do bolso um charuto.
– Agradesssceria ssse mantivésssemos, essspessscialmente em minha nave, nossso tratamento dentro da formalidade, – Fez uma pausa enfática – “sssenhor”... e, ssse me permite... – Virou-se para Quino, chefe de operações. – Operaçõesss, ssselecione o Projeto Anaconda e o exponha na tela prinssscipal.
– Sssim sssenhora. – Quino respondeu e, depois de digitar um pouco em seu painel, virou-se para a almirante. – Na tela ssscentral, sssenhora.
– Poisss bem, como pode ver, sssenhor Cassstro, osss protótiposss atuaisss sssão montadosss com o ssscérebro desssprovido de ssseu corpo de origem que, ausssxiliado por um computador ausssxiliar, comanda a ANA. Masss...
– Que cérebro? Aqueles bonecos medonhos nem se movem direito! Vocês ficam alardeando que os cientistas daranes conseguiram unir a nossa tecnologia com a dos metans, mas veja só! – Castro retirou o colete e a camisa e, levantando os braços, girou devagar mostrando seu corpo artificial. – Este corpo é mais forte e rápido que três homens! E foi montado apenas com tecnologia e cientistas humanos! As ligações também saem direto da minha cabeça, sem precisar de uma cabine com geléia para manter meu cérebro vivo! Sem falar que eu não preciso de nenhum computador “ausssxiliar” – Arremedou balançando a cabeça para os lados com a língua para fora apertada pelos dentes – para me ajudar a comandar meus movimentos. Meu cérebro dá conta do recado sozinho e continuo tão esperto quanto antes da instalação das próteses!
– Aham. Issso realmente sssalta aosss olhosss... Masss nosssosss ssscientistasss essstão trabalhando com o sssistema nervoso metam e, em breve, chegaremosss a esssta realidade... – Sihar acenou com a cabeça para Quino, que mudou a figura na tela.
– Uma cabine decente! – Bradou Castro ao ver a nova configuração do Projeto Anaconda que apareceu na tela principal da ponte. – Isso sim parece promissor... quando minha guarda receberá dessas armaduras voadoras? – Perguntou sem tirar o charuto do canto da boca.
– Como pode persssceber, a cabine ssserá sssemelhante a de um flutuador de corrida, mas com o grande diferenssscial da interfasssce com a máquina, que ssserá feita por um capacete neural. Nosssos ssscientistasss dessscobriram que asss sssinapsesss dosss metansss sssão muito sssemelhantesss àsss de nosssasss essspéciesss, sssenhor. A diferensssça essstá nosss condutoresss dessses sssinaisss.
– Hummm... Temos as mesmas sinapses... almirante? E será que nossas raças possuem mais alguma coisa em comum? Quem sabe de ordem anatômica? Sabe que se você tivesse peitos ia dar um bom caldo? – Castro começou a gargalhar e saiu da ponte, mas não sem antes cuspir em uma lixeira ao lado da porta.
– Como a sssenhora sssuporta issso? – Indagou Linar, imediato da Naja.
– Disssciplina, imediato... Além do maisss, o que ssse podia esssperar dessse planeta de macacosss? – Sihar sorriu, externando seu desprezo. Após alguns instantes voltou-se para Thina no posto de sensores. – Sensores, ligue-me com a Invessstimento. Presssciso assscertar a hora do desembarque com o capitão Dhor para que ssseus fenceresss não ssse atrasem. Sssão todosss unsss bêbadosss inúteisss...
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No solo:
– Vejam! – Guiner apontou com um sorriso emocionado para o cargueiro que descia à frente dele, Rício, Marcel e outros sobreviventes do ataque jacal.
A repentina alegria do karile contrastava com um cenário desolado, sujo, fúnebre e caótico. Muitas das construções à sua volta não haviam resistido e estavam em ruínas. Naves e autos abandonados e destruídos queimavam e a poeira conseqüente da destruição poluía o ar e atrapalhava a livre visão. Os corpos, alguns aos pedaços, estavam por todos os lados com seus olhos vítreos e feições de horror.
– O quê? Um cargueiro? Fala sério! Essa alegria toda por isso? Olhe ao redor! – Marcel estava consternado e envergonhado por estar, no íntimo, aliviado em ter sobrevivido a toda aquela catástrofe enquanto tantos outros morreram. Não estava acostumado a sentimentos intensos e tudo aquilo o fazia sentir-se pequeno, inútil e deslocado. Estava tudo fora de controle... Nada fazia sentido.
– Qualquer nave que não esteja atirando em mim é um colírio... – Disse Rício. Estava sentado nos destroços de um auto com uma jovem fazendo curativo em uma forte queimadura no seu antebraço.
– Não é só um cargueiro, é a Brisa! – Disse Guiner com os olhos brilhando e o coração acelerado. Em um dia como aquele, o rosto alegre de Nira seria um raio de luz na escuridão. – Veja, a porta vai se abrir. Vamos lá! – Chamou animado. Marcel, meio confuso, o acompanhou.
Da porta da Brisa desembarcaram os sobreviventes resgatados pela tripulação límite e, após o último descer, a nave partiu de imediato, deixando um confuso e contrariado karile a observar sem nada entender. Este, ao reconhecer Marcus em meio ao grupo que descera, partiu em sua direção à procura de informação.
– Marcus! – Gritou, notando agora que se aproximava, o semblante amargo do ex-delegado e os ferimentos dele e de seus companheiros. – Vejo que as coisas também não foram fáceis para vocês.
– Não, meu amigo... Nem queira saber... Acho que lhe devo muitas desculpas. – Marcus encarou o karile com um olhar significativo e começou a procurar as palavras sem muito sucesso. Vendo Rício, que ainda estava sentado sob cuidados médicos, instintivamente aproveitou para tentar fugir do assunto. – Hei, menina! Cuidado com esse lobo em pele de cordeiro! – Vendo Rício ensaiar um sorriso, tomou força para tentar se acertar com Guiner. – Olhe, hoje acho que entendo o que você queria dizer...
– Tranqüilize-se. É só você não sair mais dando tiros em tropa amiga que a gente acaba se entendendo. – Tentou brincar o karile.
– Então, este é Guiner? – Perguntou Andréa, interessada em conhecer o karile que trouxera alguma esperança ao combate contra a guarda jacal.
– Tiros em tropa amiga... – Marcus ignorou a chegada amigável de Andréa, pois, com o comentário de Guiner, ficou mais difícil tirar da mente a imagem de Nira no chão com um buraco no peito. – Olha, Guiner... Você estava certo. Estamos em uma grande guerra que envolve vários planetas. Eu sei que tenho sido um imbecil cabeça dura e que nem ao ver tantas pessoas morrendo consegui enxergar além dos interesses lareanos. Mas... sabe, quando vi a capitão desse cargueiro vir aqui nos auxiliar...
– Conheceu Nira? Ela ainda é a capitão da Brisa? – Interrompeu Guiner interessado em notícias da amiga.
Marcus ficou mudo novamente olhando para Guiner. Jamais poderia supor que o karile conhecesse a capitão límite, muito menos com tanto interesse. Tentou acertar as idéias enquanto o sorriso deixava o semblante de Guiner, sendo substituído por um olhar de dúvida.
Guiner não era adivinho, mas depois de tantos combates e diante da cara que Marcus fazia, começou a se preparar para mais notícias ruins.
– E aí Marcus? Vai atirar no Guiner de novo? – Perguntou Marcel, desta vez mais inconveniente que de costume.
– Guiner... A imediato da Brisa era uma karile simpatizante dos jacais... ela... Bom, ela sozinha tomou a nave e matou todos os tripulantes da ponte... eu e ela – Apontou para Andréa com um movimento leve de cabeça – tentamos resolver a situação, mas...
– Já entendi. – Guiner baixou a cabeça. Não era seu costume demonstrar emoções e a última vez que chorara havia sido esquecida nos anos de infância. Olhou para todos em volta convencendo-se do valor de todo aquele esforço, mas era impossível manter sentimentos nobres naquele cenário de destruição. Desconsolado, virou-se de costas e saiu andando sem rumo. Sua mente o levou novamente aos últimos momentos de Kaird... quando deixou seu cargueiro pela última vez... o momento em que soltou os keplets de sua nave para um último vôo para casa... aqueles seres clorofilados semelhantes a besouros que oxigenavam sua nave... tão verdes... tão naturais... tão vivos... livres como Nira. Sentindo como se algo amassasse seu peito, o karile cerrou os olhos procurando algum fim para tudo aquilo, mas ao invés de consolo, encontrou frustração e vazio na imagem que surgiu em sua mente, a de um vagalhão gigante avançando sobre seu continente natal...
O sol já sumira do horizonte, deixando um céu avermelhado de fim de tarde contrastar com a figura naturalmente blindada de Guiner. Quem o olhasse de longe poderia confundi-lo com um mitológico cavaleiro de armadura.
– Hei grandão! – Gritou Marcel para o karile, mas recebeu um safanão de Marcus.
– Droga, seu aranha egoísta! Dá para deixar o cara pensar um pouco? Ao contrário de você, que só se preocupa com seu rabo, aquele alienígena fez do combate a toda essa tragédia sua própria razão de viver! – Marcus falava para Marcel e para si mesmo. Parecia que finalmente Guiner o havia “contaminado”.
– Marcus, você veio até aqui buscar o grupo de Guiner? Há feridos para tratar. Alguns são crianças! Por que não pegamos esse pessoal e fomos para uma cidade não atacada? – Perguntou Manim, sem entender porque dispensaram a carona da Brisa.
– Calma, homem! Deixei a Nídia guardada na estação de trens subterrâneos aqui perto! Ajude Rício a preparar o pessoal enquanto eu e Andréa vamos buscar a nave. – Voltou-se para Andréa. – Vamos! Ainda temos que conseguir pelo menos mais uma nave para partirmos!
– Estou indo! Mas como assim, partir? Há muito a fazer por aqui!
– Não agora, um ataque como esse de nada serve se não for mantido. Eles com certeza irão enviar tropas de solo para manter a população sobrevivente sob controle. E no momento não temos como fazer nada. – Marcus ia falando e já andando na direção da estação de trem.
– Então fugimos... e para quê? – Andréa não gostava da idéia da retirada. Preferia ficar e se arriscar. Fizera isso por toda sua vida.
– Para nos fortalecermos! – Falou uma voz forte vindo de trás da dupla que já se afastava do grupo de refugiados.
Ambos pararam e Marcus sorriu. Era um sorriso diferente, sem o sarcasmo tão comum a seu semblante.
– Não parem, temos um exército para formar. – Disse Guiner já ultrapassando seus companheiros em passos largos e decididos.
– Exército? Como assim? – Andréa alcançou o karile curiosa, mas incrédula.
– Uma força armada, uma tropa que varrerá a mancha jacal daqui. Isto é uma guerra, e uma guerra se trava com soldados.
– Isso parece meio fora da minha jurisdição, Guiner. – Brincou Marcus, já se divertindo com a idéia e recobrando seu sorriso de canto de boca.
– Jurisdição... Marcus, nossa "jurisdição" ainda vai começar a ser demarcada. – Guiner falava como se tivesse todas as respostas. As idéias borbulhavam e transbordavam em sua mente. Seus sonhos se uniam à dura realidade e eram alimentados por uma força impulsora que parecia energizá-lo. De repente, todos os acontecimentos e mistérios faziam sentido, encadeavam-se para um único objetivo lógico. – Formaremos uma legião sem pátria, um exército que patrulhará as estrelas mantendo a ordem. E é chegada a hora do recrutamento!
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Capítulo XI.
KMALKIM.
– Sensores de longa distância confirmam ausência de inimigos no destino, Guiner! – Informou Studs muito sério do posto de operações.
– Certo. Marcel, prepare a conexão para transmitir assim que sairmos de fase. Vamos investir um pouco em propaganda...
Após recuperarem a Nídia de Marcus, os antigos membros da Resistência de Lar reuniram-se em um contingente pouco significativo e, roubando cinco naves classe Câncer da então desmantelada guarda jacal lareana e deixando para trás suas avariadas sucatas originais, partiram do planeta.
A “Avatar”, comandada por Guiner, aproximava-se agora de uma bóia roteadora, um dispositivo espacial responsável por interligar redes de dados entre planetas. Era um dos roteadores da infovia.
– Falou, grandão. Saindo de fase e prontos para mandar nosso recado! – Informou Marcel do posto de navegação enquanto preparava o sistema de comunicação da nave para transmitir um filme com o que ele apelidara de “melhores momentos do ataque a Lar”. – Estamos conseguindo transmitir nosso filmete para as redes de holovídeo da comunidade, chefe!
– Comunidade não, Marcel. A comunidade como a conhecia caiu. Domínio Jacal é o termo atual. Pelo menos enquanto não conquistarmos nosso espaço.
– Esse filme vai passar em todas as redes de holovídeo? – Perguntou Andréa, agora imediato da Avatar, ao concentrado Marcel.
– Mais que isso. Se eu conseguir preparar bem o cabeçalho, vai passar até nos terminais dos bancos! – Marcel sorria, orgulhoso. – Esse novo apelo do Guiner vai estar em qualquer tela ligada à rede interplanetária. E... pronto! A propaganda está seguindo!
– Certo. Trace curso para a nebulosa Altamira e implemente. – Comandou Guiner. – Assim que nos encontrarmos com Marcus e o restante da tropa, vamos conhecer os draconitas.
– Implementando e entrando em fase, chefe! – Informou Marcel, com ar de brincadeira, recusando-se a entrar no clima militar que Guiner começava a implantar na nave e no que sobrara da Resistência.
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Na nebulosa Altamira, Marcus bebia com Rício enquanto aguardava a chegada da Avatar.
– Ric, você viu o tamanho daquelas naves? – Perguntou Marcus largado em uma poltrona. Olhava na direção do teto, mas com o olhar perdido. Seu braço esquerdo pendia solto enquanto sua mão direita coçava rapidamente a cabeça. – Cara... Eles estão bem equipados...
– É... Nos metemos em uma confusão dos demônios dessa vez. – Rício esboçou um sorriso. Não queria analisar a situação, queria apenas se preparar para a desforra. – Acalme-se, eles vão pagar. Suas operações estão tomando um vulto muito grande. Eles vão acabar cometendo graves erros.
– Queria ter seu otimismo... – Marcus estava agora com a cabeça pendendo para trás. Seus olhos estavam distantes enquanto sua mente revisava tudo o que acontecera. Analisava os detalhes de cada evento como quem procura peças para montar um quebra-cabeças. – Acha que essa idéia de procurar ajuda em Dicro é boa? Pelo que dizem, aquele povo já estava lá quando em Lar a vida nem havia iniciado e mesmo assim eles até hoje não possuem naves ou qualquer outro meio de viagem espacial! Vão ajudar como?
– Eu não faço idéia. Nunca vi um draconita... Quem já os viu compara-os com lagartos ou morcegos. Não devem ser bonitos! – Rício piscou e, levantando-se, começou a se arrumar, dando a entender que ia sair.
– Ric... Não estranhou aqueles vegetais? – Marcus puxava assunto, tentando fugir do silêncio. – Os límites... eles andavam exatamente como nós. Será que eles têm ossos? E aquela... pele... – Fez um trejeito com a boca. – Não parecia que dava para furá-la com um dedo ou com um esbarrão?
– O andar? Pára, Marcus... Veja o andar dos kariles! É quase igual ao nosso e, além deles não possuírem esqueletos, ainda possuem articulações diferentes! Escute... – Disse Rício agora olhando sério para Marcus. – Você fez o que pôde. Todos nós fizemos. É uma maldita guerra! E gente boa morre na guerra! Desencana! – Rumou para a porta. – Delegado, sua conversa está muito chata. Vou procurar aquela navegadora da Pacífica! Se eu “saquei” o olhar dela, só devo voltar para a Nídia quando Guiner chegar. – Sorrindo, ajeitou a gola da jaqueta puxando-a para frente e para cima e, sem olhar para trás ou esperar qualquer resposta, partiu para o corredor cantarolando uma canção animada.
Marcus ainda fez menção de chamar o amigo, mas desistiu. Rício é que estava certo, o momento devia ser aproveitado para descontração. “Vivemos agora aquela paz que antecede a tempestade”. Com esse pensamento ergueu-se e foi para o pequeno refeitório da nave procurar uma boa bebida.
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Algum tempo depois, no planeta Dicro, lar da milenar raça draconita:
Rirna terminava seu chá de ervas breis na sala dedicada ao descanso dos “sensonites”. Encostada de lado na parede, olhava pela janela apreciando a mudança de cores e formas no céu causadas pelo magnetismo. Era um fenômeno corriqueiro e natural na região, mas ela aprendera a aproveitar mesmo os pequenos detalhes que a rodeavam. Terminado o chá, despediu-se dos outros sensonites que descansavam na sala e partiu para seu posto. O corredor era bem iluminado, mas sem quadros, janelas ou adereços, o que lhe dava um ar sóbrio, mas meio incômodo. Apertou o passo e logo chegou à sala sete. Não que fosse realmente uma sala. Aquele cômodo era bem pequeno, com menos de três metros quadrados. Sentou-se sobre o tapete e, antes mesmo de terminar de cruzar as pernas, já entrara em profunda meditação. Experiente funcionária, Rirna trabalhava como sensonite a cento e setenta anos. De olhos fechados, abriu sua mente e logo buscava nos céus do planeta a sua área de vigília. Em poucos minutos já visualizava o campo que lhe cabia e informou, com um rápido pensamento, ao sensonite que ficara responsável por sua área durante o intervalo de descanso, que já estava de volta, liberando-o.
Em questão de minutos, notou uma perturbação e dirigiu seu “olhar” para o local, mas era apenas um casal se namorando em pleno vôo. Sorriu consigo, mas enviou um pensamento de desagrado advertindo os jovens de que, além de estarem voando muito alto, tinham invadido uma das rotas dos volitadores, transportes coletivos que ligavam as cidades. Ia manter vigilância até que os dois saíssem de sua área de responsabilidade, mas sua atenção voltou-se para um veículo grande, metálico e desconhecido entrando na atmosfera. Iniciou uma sondagem e percebeu que o karile que era esperado havia chegado. Segurando sua curiosidade, interrompeu a sondagem e enviou imediatamente um aviso a seu coordenador conforme este a havia orientado. Provavelmente era algum contato diplomático...
****
Na Avatar:
– Guiner! Dois seres alados estão se aproximando... – Informou Studs do posto de operações. – Deve ser o comitê de boas-vindas.
– Ainda sem sinal de comunicação, Marcel? – Perguntou Guiner de sua cadeira central.
– Nada. Já tentei conexões de rede diferentes, canais não padronizados, várias freqüências e nenhum ruído. Nossos sistemas de comunicação devem ser incompatíveis... ou eles não possuem um. – Respondeu Marcel contrariado por não encontrar uma solução.
– Estão a nosso lado senhor! – Interrompeu Studs.
– Certo. Marcel, diminua nossa velocidade para que possam nos acompanhar sem esforço e ponha um deles na tela. – Guiner queria ver esses misteriosos seres e não escondia sua curiosidade.
– Focalizando e... na tela! – Informou Marcel após acertar uma das câmeras externas da nave.
Na grande tela, podia-se ver um dos draconitas que agora escoltavam a Avatar. Era humanóide, mas com muitas particularidades. Suas mãos e pés possuíam garras, suas asas assemelhavam-se às dos morcegos lareanos, mas eram independentes dos braços, partindo da parte superior das costas. A pele assemelhava-se à de um lagarto, mas com um aspecto geral não-viscoso. Seus olhos lembravam os de uma águia, com sobrancelhas grossas e proeminentes que, unidas às orelhas pontiagudas e membranosas, lhe davam uma expressão forte. Possuía um focinho curto e estava vestido com uma espécie de quimono leve.
– O que acha, Andréa? – Perguntou Guiner, procurando idéias e forçando uma maior participação de sua imediato.
– Não parecem querer briga, mas tem uma coisa me incomodando... – Opinou Andréa.
– O quê, imediato?
– Vamos testar... – Disse Andréa dirigindo-se ao posto de operações. – Studs, você disse antes de chegarmos que não detectou satélites em órbita... Marcel não consegue comunicação por nenhum canal ou freqüência e já havia informado que não há pontos de presença da infovia... Estamos sobrevoando uma cidade. Você consegue detectar qualquer coisa que indique a tecnologia que usam?
– Onde quer chegar, imediato? – Perguntou Guiner.
– Simples. A escolta apareceu quase que imediatamente. Logo, de alguma maneira eles nos detectaram! – Disse Andréa olhando diretamente para Guiner.
– Consigo detectar alguma atividade eletromagnética e muita atividade magnética, mas parecem ser efeitos naturais... Eles não têm eletricidade? – Studs dedilhava nervosamente seu painel continuando a busca por respostas enquanto mantinha a tripulação da ponte informada.
– Estranho, uma espécie que dizem ser tão antiga... Mas não é nada absurdo. Afinal, cada sociedade tem sua própria velocidade de evolução moral e intelectual. – Disse Guiner sem muita firmeza. – De qualquer modo, nossa escolta quer que mudemos o curso. – Disse olhando os gestos do draconita monitorado na tela. – Siga-o Marcel, vamos tentar fazer a coisa ao modo deles. Talvez ganhemos algum crédito. – Pensou um pouco observando sua tripulação improvisada. – E vamos precisar se quisermos ser ouvidos...
– Ceeeerto! Estamos sendo guiados para uma rocha plana próxima à base daquela montanha à frente. – Informou Marcel, baseando-se no curso que a escolta tomou.
A nave pousou logo após sua escolta. Guiner deixou Andréa no comando da Avatar e convocou Marcel a acompanhá-lo. No apertado corredor da nave, Guiner foi olhando para os símbolos jacais ainda fixados em cada porta e tentando encadear as idéias. Procurava prever cada evento e perguntas possíveis já ensaiando as respostas. Seu raciocínio foi interrompido por Marcel.
– Hei! Não vamos levar armas? Tudo isso é pressa ou vontade férrea de morrer? Você viu o tamanho das presas dessa gente? E das garras?
– A escolta estava desarmada, eles não aceitaram os jacais e todas as notícias que temos deles os apontam como pacíficos. – Guiner parou para olhar nos olhos de Marcel. – Eu não vou condenar nossas chances de sucesso nessa missão! – Meneou a cabeça, deu as costas e voltou a andar.
– E é? Então, já que é assim, por que eu vou com você? Eu não vejo utilidade para um técnico como eu em um mundo que não está conectado em rede! O que eu vou fazer?
– He he he he he he... – Guiner deu uma gargalhada, algo raro para ele. – O que vai fazer? Comece testando o rádio portátil assim que descermos. E porque você? Por que não? – Guiner terminou com um sorriso irônico e continuou seguindo para a porta de abordagem.
– Isso é um sorriso? O senhor “vamos-fazer-tudo-certo” está zombando de mim, é? – E adotando um tom bem baixo, como que falando consigo mesmo. – Kariles sorriem? E ele não me respondeu nenhuma das perguntas. Será que os draconitas mordem? Podem ser venenosos, por isso não usam armas! – Implicava Marcel, continuando a falar até a porta da nave abrir...
Descendo da nave, a dupla foi recebida pelos dois draconitas que, muito sérios e extremamente respeitosos, os saudaram no idioma universal. Sem encontrar espaço para perguntas, Guiner os acompanhou até uma enorme entrada de caverna na montanha. As paredes eram de rocha muito bem polida, quase espelhada. A luz irradiava de globos presos nas paredes a um metro do chão, dando um aspecto difuso à iluminação. Marcel notou que não havia fios ou interruptores, pelo menos aparentes. Apenas os passos dos quatro eram ouvidos naquele ambiente silencioso. Guiner sentiu uma grande paz, que amenizou um pouco o turbilhão de pensamentos que transbordava de sua mente.
No final do corredor, um portal de mármore lhes deu acesso a uma grandiosa câmara, notável tanto por seu tamanho como por sua imponência. O teto do grande salão assemelhava-se a uma grande lâmpada, parecendo ser todo formado pela mesma substância que iluminava o corredor. O piso era feito de algum minério que, extremamente liso, refletia como um espelho. As paredes, ornamentadas com figuras gravadas em alto-relevo, pareciam contar uma história. Guiner chegou a tentar entender algo, mas ao ver sua extensão decidiu deixar para uma outra oportunidade. A escolta apontou para o outro lado da câmara e solicitou que se apresentassem para um draconita grande e muito musculoso vestindo um quimono preto com detalhes em dourado. Eles se referiram a ele como "o Groa". Guiner olhou para a direção indicada e pôde divisar um imenso portão. Tudo ali parecia muito, muito antigo, mas impecavelmente limpo. Chamou Marcel, que estava fascinado com as figuras da parede, tocando-lhe o ombro e os dois seguiram em frente.
Na base dos portões, pararam diante do Groa, que permanecera imóvel durante toda sua aproximação. Marcel ia fazer algum comentário jocoso, mas Guiner o interrompeu com um olhar significativo. Agora mais próximos, puderam reparar seu corpo decorado com desenhos, como tatuagens, que lembravam ondas de rádio propagando-se e que usava diversas pulseiras e colares de dentes. Guiner deu dois passos e parou. Os olhos do draconita, até então vítreos, voltaram-se para os olhos do karile e, abrindo suas asas ao máximo, o draconita os saudou.
- Sejam bem-vindos aos arcos do salão Darcom. Eu sou o Groa e devo guardar estas portas com minha vida e essência! – Disse o draconita, descruzando os braços e levantando bem a cabeça. – Quais suas intenções, visitantes?
– Sair fora daqui rapidinho não seria mal. – Cochichou Marcel, não conseguindo mais ficar calado.
– Aham. Eu sou Guiner, de Kaird. Represento a Resistência e vim até aqui em paz para fazer uma proposta de aliança a seus governantes.
– Guiner de Kaird, você é aguardado. Seu acompanhante, no entanto, terá de permanecer aqui. Você aceita essas condições?
– Entrar sozinho em um local desconhecido guardado por um brutamontes sacerdotal macabro? É a cara dele! – Cochichou novamente Marcel, levando desta vez uma cotovelada de Guiner.
– Eu aceito.
– Aguarde aqui. – Disse o Groa, recolhendo as asas e afastando-se em direção a uma porta menor, só então notada pela dupla.
Após a saída do Groa, um forte som metálico tomou conta do salão e os grandes portões começaram a se abrir, revelando uma nova e bem menos iluminada câmara. Os portões pararam de mover-se e Guiner, após aguardar em vão a volta do guardião, atravessou-os. Logo que cruzou o portal, ouviu novamente o som metálico que denunciava um sistema de engrenagens e correntes. Os portões se fecharam tão lentamente quanto abriram e levaram consigo a claridade.
O piso do salão Darcom era circular, iluminado pelas mesmas esferas do corredor inicial, só que agora distribuídas de cinco em cinco metros a cerca de dez centímetros do chão. Assim, quem estivesse no solo era iluminado, mas tudo o que estivesse a uma altura superior a dois metros ia gradativamente ficando menos visível, dando lugar à total escuridão. O teto devia estar muito alto, pois não podia ser visto.
Conforme foi acostumando sua visão, Guiner pôde divisar sete estruturas cilíndricas verticais coladas às paredes ornamentadas. Olhando para cima, notou que cada uma delas possuía uma abertura escura, possivelmente uma janela. Porém, com a ausência de iluminação, nada mais podia ser visto. Sentiu-se em um tribunal onde seria o réu, o que lhe causou certo desconforto.
– Eu sou Guiner. Vim em paz. – Arriscou o karile.
– Guiner, seja bem-vindo. – Disse uma voz rouca e pausada que vinha do alto, mas que reverberava em cada parede do salão. – Nós, do Grã Conselho Darcom, estamos satisfeitos com sua visita e, simpáticos à sua causa, vibraremos enviando, a você e aos seus, forças positivas para que a todo momento possam ter a clareza de juízo necessária para cada decisão. Estaremos também, esse o nosso mais árduo trabalho, a afastar ao máximo os maus fluidos que hoje tomam conta desta região do universo. Assim, nos uniremos todos nesse fraternal esforço para recuperarmos a harmonia necessária para que continuemos nossa busca pelo progresso.
– Senhores... – Guiner fez uma pausa para assimilar as informações desconcertantes e misteriosas despejadas pelo conselho. Procurava pontos positivos na declaração para montar seu argumento. – Fico feliz em ver que apóiam o afastamento da ameaça jacal. Mas acredito não estar familiarizado com o emprego que estão dando ao termo “vibrar”... De que apoio estão falando, afinal?
– É difícil explicar na pobre linguagem universal as nuances desse conceito... A palavra a que se refere, em nosso idioma possui centenas de variações que descrevem, cada uma, um estado ou sentido diferente. Tente entender que estaremos no combate às trevas em um esforço conjunto, mas em um plano diferente, de um modo mais sublime e tênue. Entendemos sua incompreensão da natureza de nosso apoio, mas garantimos que estaremos movendo grandes esforços fluídicos para neutralizarmos o inimigo...
– Parece-me o contrário... acredito que são os senhores que não estão entendendo do que eu estou falando. Talvez não tenham conhecimento da real ameaça que os jacais representam... Estou falando de criminosos que assumiram o poder de mundos inteiros e vão mantê-lo a qualquer preço! Eles já aniquilaram a civilização inteira do planeta Mezz simplesmente para adquirir sua tecnologia e, com todo respeito às suas divindades, não acredito que preces os impeçam de fazer o mesmo com vocês. – Guiner tentava não ofender aqueles seres, mas precisava fazê-los entender a gravidade da situação.
– Sabemos o que ocorreu em Mezz e também em Lar... O destino desses povos nos causou forte impressão e pesar, o que aumenta nossa simpatia à sua causa e justifica o emprego de todos os nossos mestres nesse esforço. Não nos julgue mal, jovem viajante. Nossos valores são diferentes dos seus. Não acreditamos nem desacreditamos em divindades. A vibração a que nos referimos utiliza o magnetismo concernente a cada draconita, não sendo uma crença, mas um fato. O que propomos é unir nosso magnetismo em um único objetivo. Isso poderá fazer a diferença entre a vitória e a derrota para sua equipe. – Parou por intermináveis trinta segundos. – Mas entendo que você não compreenda tais conceitos... é muito jovem. Já esperávamos por isso e, como mostra de boa vontade, lhe confiaremos um dos nossos mestres para acompanhá-lo.
– Um? Vão me “confiar” – Guiner fez ênfase quase irônica na palavra. – um de vocês? O inimigo possui uma frota. Sei que vocês não possuem “naves”, mas esperava pelo menos algumas centenas de guerreiros! – Guiner partiu para o tudo ou nada, já percebendo que não ia conseguir muita coisa com aqueles governantes místicos.
– Nos subestima. Milhares estarão com suas forças fluídicas voltadas para este trabalho...
– Trabalho? – Guiner explodiu. – Trabalho!? É uma guerra! – Levantou os braços e, olhando para cima, foi girando como que se dirigindo a cada uma das sete torres. – E vocês aí? Todos concordam com isso? Vão deixar os jacais virem até aqui eliminar o seu povo e sua cultura? Eles chacinaram mais da metade dos lareanos só para mostrar sua força! Escutem! – Baixou a cabeça e fechou os olhos buscando uma idéia e logo olhou para cima novamente. – Em minha fé também existem figuras semelhantes às que descrevem, mas existe uma máxima de Gn que diz: “busque, que encontrará”, ou ainda: “peça, e o universo lhe concederá”. Nessas expressões, sagradas para mim, são prometidas soluções, mas não para quem espera inerte, e sim para aquele que busca ou pede. Ou seja, precisamos executar uma ação, fazer algo por nós mesmos, para que só então a ajuda venha!
Ao discurso de Guiner seguiu-se mais um instante de silêncio. O karile chegou a cogitar que o conselho mudaria de idéia e voltou à carga.
– E então? Concordam?
– Entendendo ou não a importância e a natureza de nosso auxílio, nós o daremos. A nosso ver, estaremos cumprindo com nossa responsabilidade. Resta agora saber se aceita levar consigo um representante do nosso povo.
– Incrível... – Guiner relaxou o corpo dando-se por vencido. Fracassara. Baixou o olhar. – Aceitaremos qualquer ajuda... até porque não estamos em condições de recusarmos nenhuma.
– Isso nos alegra. O mestre em questão foi instruído a lhe fornecer todo o apoio possível a seus recursos. Seu nome é Kmalkim.
Ao ouvir um pequeno farfalhar de asas, Guiner voltou a olhar para cima e pôde ver, em meio às trevas superiores, uma mancha crescendo. Logo divisou a imagem de um draconita descendo do espaço central entre as torres. De asas abertas, o “mestre” desceu primeiramente rápido para, quase junto ao chão, em um movimento de suas grandes asas, perder velocidade e lentamente tocar no solo. Seus braços estavam cruzados e ele usava um tipo de hábito escuro com o aspecto de uma capa. O tecido era fluido, o que causou um efeito fantástico de movimento durante a descida. Com a maior parte da cabeça coberta por um capuz, apenas o focinho, os pés e a ponta da cauda estavam à vista. Como calçado, o estranho usava sandálias feitas de alguma fibra vegetal. Assim que tocou o solo, recolheu suas asas que se fecharam como dois leques e ficou imóvel olhando para o karile. Guiner não pôde deixar de se impressionar com a entrada de Kmalkim.
– Vá agora, Guiner. Que nossos votos de sucesso o acompanhem. – Disse a voz indicando o fim do diálogo.
Com as últimas palavras do Grã Conselho Darcom, os portões abriram-se ruidosamente. Guiner ainda pensou em tentar um último argumento, mas já estava evidente que o conselho não só já estava preparado para sua chegada, como já havia decidido a resposta que ia dar. Seriam eles tolos idealistas ou sabiam mais do que estavam dizendo? Com essa dúvida, empertigou-se e rumou para fora, sem nem prestar atenção no draconita que silenciosamente o seguia.
Desviando-se do Groa, logo achou Marcel que parecia estudar com interesse as escrituras das paredes. Com passos decididos chamou seu amigo e dirigiu-se para o corredor de saída. Marcel, que de tão concentrado não notara a barulhenta abertura dos portões, despertou ao escutar seu nome e, surpreendendo-se um pouco com a presença de Kmalkim, dirigiu-se em passos rápidos ao karile.
– Hei grandão! – Mesmo vendo que Guiner o ignorava, Marcel continuou a falar, só que agora mais alto. – Vamos ver se eu adivinho: Deu tudo errado e a gente está saindo como entrou? – Olhou de soslaio para Kmalkim. – Humm... Não olhe agora, mas você ganhou um lindo draconita de pelúcia, e com um pijama vinho que é a última moda!
Guiner estancou. Passou a mão direita sobre o rosto e ajeitou o cinturão. Olhou para seus acompanhantes e estendeu a mão para o draconita.
– Muito prazer, meu nome é Guiner e estou feliz em saber que se unirá a nós. – Apertaram as mãos e Guiner continuou. – Este espirituoso humano é Marcel, nosso aranha, uma espécie de técnico em comunicação em redes de dados.
Após apertar a mão de Guiner e olhar para Marcel, que abanou a mão dando um “tchauzinho” com um sorriso irônico, Kmalkim, sem retirar seu capuz, finalmente se apresentou.
– É uma honra me juntar a vocês. Sou Kmalkim Shonam Makivol Yar, mestre em dez artes draconitas. Minha missão é auxiliá-los no esforço material de pacificação da comunidade.
– Hã... bem... vamos chamá-lo apenas de Kmalkim, está bem? Agora vamos para a nave, há muito por fazer. – Guiner estranhou um pouco seu novo aliado, mas estava satisfeito em levá-lo. Podia ser que, quando Kmalkim visse a extensão do problema que enfrentavam, solicitasse reforços.
O trio voltou para a Avatar, onde vários olhares curiosos acompanharam o draconita que o capitão convidou para permanecer na ponte de comando. Guiner não fez comentários, apenas comunicou Marcus que logo se juntaria ao restante da tropa para o que chamou de “reunião de comando”, onde acertariam “os destinos da Jurisdição”. Marcus já entendeu que as coisas não tinham saído como ansiavam. Não era exatamente uma novidade, mas era uma possibilidade perdida.
Enquanto Guiner rumava para a nebulosa Altamira, um fato raro acontecia no Salão Darcom: Os anciões discordavam...
– Não compreendo sua relutância, Gorra. Já havíamos decidido enviar apenas Kmalkim... – Jansir estava perplexo diante da mudança de idéia da anciã. – Tudo o que o karile disse já era de nosso conhecimento, o que mudou seu julgamento?
– Algo que senti em Guiner... algo familiar... ele parecia às vezes vibrar como um draconita, com sabedoria centenária até, embora no momento seguinte voltasse à sua vibração alienígena e imatura... – Gorra falava e ao mesmo tempo transmitia suas sensações a seus companheiros, compartilhando sua percepção da presença de Guiner. Era clara a situação conflitante que estava causando, mas era sua responsabilidade trazer ao conselho todos os fatos que julgasse relevantes.
– Também senti como se ele buscasse sua sabedoria fora de si, mas é a primeira vez que sentimos um “viajante do tempo”... – Iavol fez uma pausa para puxar ruidosamente mais ar e depois continuou. – E de um futuro que pouco a pouco está desmoronando, transformando-se em uma... – Nova puxada de ar. – Improbabilidade... não sabemos como isso pode afetar nossos sentidos... não sabemos nem como isso o afeta!
– Sabedoria fora de si ou em si, bom Iavol? – Perguntou Badha, que até agora apenas observara a discussão sem interferir diretamente. – Eu senti como se ele tivesse acessado um antecessor...
Fez-se um grande silêncio. A simples suposição de que outra raça possuísse antecessores já era no mínimo polêmica, que acessasse de alguma forma essas memórias sem as milenares técnicas draconitas então, era inconcebível! Para começar a perscrutar as vidas de antecessores e adquirir suas experiências, os draconitas, entre estudos e meditações, dedicavam-se durante quarenta anos. Como uma espécie alienígena que vivia em média setenta e cinco anos poderia, mesmo superficialmente, realizar essa conexão? E mais, um antecessor familiar? Um draconita?
Os anciões procuravam no ambiente resquícios de vibração, tentando dissolver as questões que pipocavam em suas mentes. Aceitar idéias como aquelas desencadearia uma revolução de conceitos em suas doutrinas, o que geraria muito ruído e desarmonia justo naquele momento em que precisariam de todo equilíbrio e união possíveis. Ao mesmo tempo, não podiam se posicionar contra a busca pela verdade ou todos seus valores se transformariam em uma grande farsa...
- Acalmem-se, amigos... será que estamos tão velhos que nos fechamos inteiramente a novos conceitos? – Perguntou Ruana para apaziguar os anciões que reagiam perplexos às inúmeras possibilidades que iam surgindo. – Busquem a humildade. Não deixem a harmonia abandonar este ambiente... se a presença de Guiner aqui não fosse necessária não teria ocorrido. É a regra básica do "encadeamento" e não deveria surpreender-nos! – Completou um pouco ríspida.
– Parece que subestimamos o valor dos acontecimentos, mas ainda é cedo para especulações eufóricas sobre novas verdades. O que parece aconselhável no momento é, juntamente com a limpeza fluídica, monitorarmos com uma maior atenção nosso jovem mestre. Ele estará no centro da tempestade e poderá nos trazer os fatos e informações que nos faltam no momento. Vibremos com ele! – Disse Jansir, retomando o controle da situação. Como atual voz do conselho não podia admitir que aquele desequilíbrio continuasse, embora em seu íntimo partilhasse da apreensão dos demais. – Há muito a ser preparado. Retiremo-nos agora para um descanso. Nos reuniremos novamente em cinco dias.
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Capítulo XII.
REVELAÇÕES.
A bordo da Nitory, Elimander fiscalizava os derradeiros acertos na instalação de um repetidor de dados em sua nave. Este era o último preparativo para improvisar a sala de reuniões encomendada por Rício. Para montá-la, resolvera desmobiliar e alterar o aposento de seu imediato, que foi forçado a mudar-se para um pequeno setor de carga da nave.
A nova sala seria utilizada para receber os comandantes das naves da Resistência em uma "reunião de comando" que deveria traçar os novos rumos da “guerra” contra o Domínio Jacal. Avaliando o relatório da engenharia, Elimander parou para pensar na guinada que sua vida dera. A poucos meses atrás teria rido se alguém lhe falasse que participaria de uma força armada, ou mesmo de qualquer atividade político-militar. Suas preocupações eram bem diferentes, quebrando recordes de velocidade como um dos pilotos de corrida mais conceituados de Lar. Ainda guardava no armário de seu alojamento alguns dos troféus, e no coração mantinha a emoção de subir no pódio de vencedor ao ganhar cada um deles... Infelizmente aquilo parecia fazer parte de outra vida, mais inocente, inconseqüente, perdida em um passado distante! Agora comandava refugiados e vira milhares de inocentes sendo chacinados sem motivo... Começou a sentir os olhos lacrimejarem. Buscou logo outro pensamento. Não tinha se tornado um campeão rendendo-se ao desespero. E não seria agora, com muito mais em jogo, que ia começar. Por alguma razão, sua tripulação confiava nele e não iria traí-los. Cerrou os olhos e começou a imaginar o que poderia sugerir na reunião que logo iria começar.
Na nova sala de reuniões, Márcio indicava à tripulação como alterar seus ex-aposentos para servir temporariamente aos comandantes da Resistência. Uma grande lâmina de aço, estocada para consertos na fuselagem, foi colocada sobre dois pequenos balcões retirados do refeitório e formava agora uma mesa larga. Em sua volta foram postas doze cadeiras de diferentes formas e origens, denunciando o improviso. Mas o mais trabalhoso havia sido colocar uma extensão da tela principal da ponte no centro da parede contrária às janelas. Estas, decoradas com as cortinas originais da cabine, davam algum ar de arrumação e ordem ao local. Assim que o repetidor de dados estivesse em condições, a sala estaria pronta. Andando pelo cômodo, achou no canto uma de suas miniaturas de coleção e, limpando-a com a mão, deixou-se levar pelas lembranças que ela lhe trazia... Em sua infância começara a colecionar televídeos e miniaturas de um herói mascarado que adorava, o Falcão Negro. Ainda lembrava como ficava extasiado diante da tela... da emoção que sentia em ver um único homem, a cada noite, erguer-se contra o mal que a civilização fabricava... um homem fazendo a diferença para as diversas pessoas que ajudava anonimamente... o medo supersticioso estampado nos olhos dos criminosos que eram surpreendidos pela “sombra do falcão”... tempos de inocência que até hoje lhe traziam um emaranhado de boas e familiares sensações... Era adulto, maduro, ciente da dura realidade que viviam, mas ainda hoje, ainda aqui em guerra no espaço, mantinha guardada sua coleção... Chamado de volta à realidade pelo ruído do arrastar de móveis, guardou a figura cuidadosamente no bolso, e foi verificar com a engenheira-chefe se a tela já estava em condição de ser testada.
Marcus e Rício foram os primeiros a chegar, entrando ruidosamente na sala e cumprimentando Márcio com acenos de cabeça. Logo Elimander chegou, pedindo que jogassem na tela a imagem da câmera frontal da nave. Tirus, capitão da Vitória, chegou tragando um glicer – Um aparelho muito utilizado para otimizar o prazer de fumar, formado por um tubo que se enrola no braço e por um recipiente normalmente fixo no punho onde o fumo é depositado – e sentou-se sem cumprimentar ninguém. Parecia muito transtornado e dava longas baforadas como se sua vida dependesse disso. Amero-Nar e Ziriam, capitães das naves Névoa e Miríade, entraram discutindo alto sobre os ataques a Mezz e Lar. Quando Rício ia levantar para buscar um cigarro, Guiner chegou acompanhado de Andréa, Marcel e Kmalkim. A presença do draconita surpreendeu a todos, já informados da resposta negativa de seu povo, que acompanharam seu trajeto estudando a forma de vida por eles desconhecida, pois mesmo com a ligação mercantil existente entre os mundos habitados, havia pouco intercâmbio entre seus habitantes. Os draconitas, em especial, não saiam de seu mundo. Eram como eremitas espaciais. O trio rodeou a mesa e sentou-se de frente para a tela. Kmalkim se levantou duas vezes ajeitando as asas, pois não estava acostumado com assentos com encosto.
Elimander solicitou a todos que se sentassem e, como capitão da nave, tomou a palavra.
– Senhores, aqui nesta sala estão os representantes de todos aqueles que se ergueram contra o massacre imposto por Castro. Estamos aqui atendendo ao pedido de Guiner, que tem algo a nos dizer. – Disse Elimander, tentando estabelecer um clima favorável para as conversações.
– Guiner? Um alienígena? Dizer o que? Que Lar foi quase totalmente destruído? Que só conseguiu “um” draconita para nos “reforçar”? – Grunhiu Tirus, com o glicer no canto da boca.
Elimander ia se sentando, mas com o ataque de Tirus fez menção de levantar-se novamente. Guiner ergueu a mão aberta em sua direção solicitando que o deixasse falar. Apenas voltando sua cabeça na direção de Tirus, o karile contra-atacou.
– Sim, Tirus... Tenho algo a dizer e você vai escutar, a não ser que queira pegar sua nave e ir enfrentar os jacais sozinho! Ou... – Guiner fez uma pequena pausa e prosseguiu com decisão. – Ir juntar-se a eles!
Tirus olhou em volta procurando nos olhares dos outros algum apoio. Não tendo sucesso, resmungou algo e cruzou os braços fechando mais a cara. Guiner continuou.
– Pois bem... Os jacais já se estabeleceram pelo menos em treze planetas, se contarmos Mezz, aniquilaram uma espécie e chacinaram um terço dos habitantes de Lar. Nesses planetas, governam com mão-de-ferro tornando a população mais pobre e ignorante. Possuem tecnologia para montar grandes naves em docas espaciais. Estão desenvolvendo em Lar a primeira inteligência artificial. – Guiner deu uma pequena pausa fitando Marcel, que logo desviou nervosamente o olhar. – E – Continuou – também as técnicas de adaptabilidade e comando através de impulso cerebral que roubaram dos metans. – Guiner meneou a cabeça para espantar um pouco a tensão criada por sua desavença com Tirus. – Fora uma frota muito bem armada e as ANA, aquelas naves de combate em terra.
– Bravo! – Soltou Tirus sem tirar os olhos da mesa. – Vejo que fez a lição de casa!
Nesse instante, antes que Guiner reagisse à provocação inconveniente de Tirus, a tela recém instalada mudou, mostrando o semblante preocupado da navegadora da Nitory que, da ponte de comando, chamou por seu capitão. Elimander solicitou silêncio e perguntou o porquê da interrupção.
– Senhor, uma chamada está em todas as telas das naves que pegamos da guarda jacal. Um desconhecido exige falar com Guiner e disse para mencionar que o assunto é sobre um diário!
– Um o quê? – Perguntou Elimander estranhando.
– Um diário, Elimander. Diga para completar a transmissão transferindo-a para cá. – Disse Guiner com a mente a mil, tentando prever os próximos acontecimentos e decidir que postura deveria adotar.
– Está bem, Navegação. Você ouviu o karile! – Brincou Elimander, para lembrar a Guiner que aquela nave já tinha um capitão.
– Transmitindo, senhor!
– Sou o único paranóico que acha que estabelecendo um canal de comunicação aumentamos as chances dos jacais nos encontrarem? – Reclamou Marcel, recebendo de Guiner apenas um sinal para que aguardasse.
Na tela, formou-se a imagem de um homem sentado segurando um caderno surrado. O ambiente estava às escuras, de modo que via-se apenas sua silhueta em meio às trevas. Uma luz fraca, vinda do alto, iluminava apenas seu sorriso sinistro, o diário e os dedos que o folheavam.
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Longe dali, nos limites do sistema Uni-Tonn, uma bóia roteadora é perscrutada pela Camaleão, uma das naves negras dos espectros. Nela, após horas monitorando comunicações de vários pontos da rede, o navegador e chefe de operações dá um sorriso de vitória.
– Acho que os encontrei, senhor! – Informou Maerto digitando freneticamente em seu painel.
– Explique-se, como sabe que são os terroristas? – Interessou-se o capitão Mateus.
– Um canal de comunicação codificado foi estabelecido entre um ponto não nítido de Lar e uma nave da guarda jacal lareana que se encontra na Nebulosa Altamira. – Girando com a cadeira para ficar de frente para o capitão, Maerto continuou. – Não há registro nem motivo para naves jacais de qualquer planeta estarem naquele local, e sabemos que os terroristas roubaram naves classe Câncer, a mesma classe que recebeu a ligação.
– Mas e o ponto em Lar, porque não está nítido se você capturou o sinal? – Interviu Diogo.
– Desconhecido... O sinal pára em uma bóia satélite de Lar, mas o sistema lá não transmite para ninguém. É como se a nave na nebulosa estivesse falando sozinha.
– Mas você não acredita nisso... – Disse o Capitão Mateus, lendo a fisionomia de Maerto.
– Na verdade eu duvido. O canal está codificado com um algoritmo nosso. Não posso decifrá-lo de imediato para comprovarmos, mas a assinatura é inconfundível. É o código CIFRA3-1701.
– O código destinado a agentes independentes... Muito bem, Maerto. Marque curso para as coordenadas da nave na nebulosa e implemente. Uma nave classe Soturna como a nossa pode facilmente cuidar de cinco naves Câncer. Diogo, mande Lorna preparar uma surpresa lógica e enviá-la pela rede até a nave terrorista... Mas que ela só se acione quando ordenarmos!
– Sim senhor! Não será um grande desafio para Lorna. – Assentiu o imediato da Camaleão com um sorriso de canto de boca. – Mas... e essa ligação cifrada com nosso código? Não é – Encarou seu capitão nos olhos – suspeita? Não vamos investigar?
– Imediato, cumpra suas ordens. Nos jogos dos espectros tudo é suspeito e você já devia ter aprendido a guardar seus comentários para si mesmo. – Respondeu Mateus asperamente, voltando sua atenção para as manobras do navegador que já acionara as bobinas de fase.
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Na sala da Nitory, todos olhavam para a figura sombria na tela e se perguntavam qual sua intenção com Guiner.
– Pois bem, karile. Estudei este pretenso diário e acompanhei suas ações desde que saiu da obscuridade. Aliás, você andou bem ocupado! E vejo que está melhor ainda acompanhado...
– Quem é você e o que quer? Diga logo, pois não vejo motivo para manter esse contato! – Atacou Marcus, ficando de pé.
– Ora, Marcus Augustus! O que importa não é quem sou, mas o que sei... Não é mesmo? Já que é tão curioso, o que sabe sobre seu amigo Guiner aí? Sabia que ele tinha neste caderno – Disse levantando o diário para que pudesse ser melhor visto – um pequeno dossiê sobre sua Resistência? Não? E tem mais! – O desconhecido pôs-se a folhear o diário – Hummm... Marcel Borche Le Roc, aranha que descobriu pela rede as “aplicações” do projeto de inteligência artificial... a destruição de Mezz, Fantis e Dicro... o advento das naves criadas em docas espaciais... a experiência frustrada dos kariles em viajar no tempo e... Ah! A parte que mais gostei: a criação das ANA e sua progressão até o modelo 17, incluindo comentários sobre as falhas e as soluções encontradas! Uma obra que supostamente terminou de ser escrita “daqui a vários anos” por um karile chamado Q’tum que “hoje” seria um proeminente conselheiro de Têner, primeiro e atual Imperador Jacal de Kaird. Uma leitura muito interessante e ricamente detalhada!
A sala ficou em silêncio. Marcel olhava para os lados lentamente e via que não era o único totalmente desconfortável com a situação. Levantou-se e, sem nada dizer, saiu da sala deixando para trás um ambiente repleto de dúvidas, tantas que pareciam deixar o ar mais denso. Questões fustigavam as mentes de todos. Afinal, o que era aquilo tudo? Quem era aquele homem? Porque Guiner aceitara aquela absurda comunicação?
– Vanish, se é que é esse mesmo o seu nome, o documento em suas mãos realmente tem muitas informações, mas não a principal. O final do avanço dos jacais será desastroso para todos nós. A ganância desses imperadores vai desencadear o fim do próprio universo! Você serve a dementes inconseqüentes que assinarão sua própria sentença de morte e nos levarão com eles! Ouça-me! – Apelou Guiner, meio descontrolado.
– Sei... bem conveniente... eu poderia até cair nessa conversa comovente... isso "se'' o livro não fosse uma farsa! Uma farsa extremamente bem feita, não vou negar. Os dados foram coletados minuciosamente e encaixados com maestria e criatividade irrepreensíveis. Um trabalho de profissional. Os eventos que datam de antes de sua “aparição” estão bem descritos, deixando de bater com a realidade a partir de quando você supostamente começou a interferir. Temos aqui até várias páginas com fatos inúteis da vida particular do conselheiro Q’tum enfadonhamente descritos, como cada encontro dele com suas empregadas e vassalas... um verdadeiro horror, baixaria total! Quanto ao meu nome, pode me chamar de Vanish, isso é irrelevante. Mas e você? Quem é você? O que você iria fazer com esse caderno? Tentar convencer a Resistência de que o trouxe do futuro? O que você quer? Quem o preparou? O trabalho para criar este diário deve ter sido imenso. Não posso crer que tinha por objetivo apenas usá-lo para ganhar a confiança desse movimento tão pouco expressivo... Muito menos motivá-lo! Para quem você trabalha, "Guiner"? Se é que é esse mesmo o seu nome... – Na tela, Vanish calou-se sorridente esperando uma resposta.
– Não diga nada, Guiner! – Interviu Kmalkin – Sinto as trevas ao redor dele dirigindo-se para você.
– Porque diz que esse diário é uma farsa se, segundo você mesmo, possui informações verdadeiras sobre projetos secretos e relevantes dos jacais? – Perguntou Amero-Nar.
– Amero-Nar Hatz Mir... almirante da frota de Majel, terceiro maior país de Lar antes da tomada jacal, não é mesmo? Boa pergunta. Vejam, o diário em primeira análise parece realmente uma peça do futuro que milagrosamente veio parar em “nosso tempo”, mas os fatos mais recentes não estão batendo com os descritos no diário... E, segundo os estudiosos, ele deveria se alterar, atualizando-se com os fatos presentes. Afinal, ele não veio do nosso futuro? Então ainda está sendo escrito! Vou explicar melhor. – Disse com um ar entre o divertido e o esnobe. – Digamos que seja verdade, que Guiner seja um "fator externo" à nossa linha temporal e esteja mudando o futuro. Porque o texto do diário permanece o mesmo? Eu estive conversando com físicos de dois mundos que até aceitam a premissa de “viagem no tempo” a nível teórico, mas pelo que entendi da lei de causa e efeito, se mudamos a causa o efeito obrigatoriamente também sofre alteração. Cheguei a consultar a equipe de Kaird que está realizando experimentos temporais baseados em "super cordas", ou algo assim, e a resposta foi a mesma. Para tirar totalmente a dúvida deste caso que realmente “nos” atiçou a curiosidade, roubei Q’tum e encontrei com ele, para minha surpresa, um diário extremamente semelhante a este. Mas, mesmo privando-o do diário, nada mudou na "versão futura" de Guiner. – Vanish terminou de explicar e abriu um sorriso sarcástico.
– Já disse o que queria? Ótimo. Agora vamos desligar, pois se já sabe tanto não precisa de nossa ajuda! – Interferiu Rício, lembrando do aviso de Marcel sobre o canal aberto e do estranho comentário de Kmalkim. Aquele homem podia estar apenas mantendo-os conectados para rastrear sua posição.
– Certo, então vou indo... mas não sem deixar alguns avisos... queimei o diário de Q’tum logo após sua morte em um “conveniente” acidente... os cientistas que citei são considerados os melhores de Lar e Kaird... Ah, e embora eu tenha cifrado este canal, um vírus se infiltrou nele e está rumando para sua nave... e eu não me surpreenderia se um de nossos capitães estivesse chegando por aí também... sabem como é, pessoas como eu não morrem de amores pelos imperadores jacais... com alguma motivação eu até poderia... "click!" – O sinal sumiu da tela.
Todos viraram-se para o pequeno painel de controle improvisado na mesa, constatando que Tirus o havia desligado.
– Que droga! Era um maldito espectro! E vocês conversando com ele como se estivéssemos em um piquenique! – Gritou Tirus. – Espiões não prestam! Nem quem os aceita tão prontamente. – Olhou raivoso para Guiner.
– Que bagunça... – Falou Marcus consigo mesmo para depois se dirigir a Tirus. – Muito bem, parece que só você teve juízo para fazer o que era realmente necessário. A reunião está adiada. Não podemos ficar aqui esperando um ataque jacal. Vamos voltar a nossas naves e partir daqui logo. Nos reuniremos em... – Parou um instante tentando lembrar de um lugar seguro. – Naquela lua com o povo de pedra... Isso, nos encontraremos em órbita de Ruhir! E... por enquanto... o capitão da Avatar passa a ser Andréa, até que nos reunamos para entender melhor o que está acontecendo por aqui...
Todos voltaram-se para Guiner, encontrando o karile imóvel. Guiner estava atônito, congelado, afundado em dúvidas a ponto de perder um pouco do contato com a realidade. Q’tum tinha sido assassinado e o seu diário permanecia ali, inalterado. Como? O próprio diário fora queimado no passado, mas sua versão futura permanecia intacta! Física... maldita física... O karile sentiu suas poderosas pernas fraquejarem, sua vista escurecer e sua cabeça começar a doer. Era uma dor aguda, daquelas que parecem que jamais irão ter fim. Lembrou de trechos de seus sonhos... Talvez nada daquilo estivesse realmente acontecendo. Talvez ele estivesse louco e alucinando todos os últimos meses... talvez a nuvem destruidora o tivesse alcançado no satélite em órbita de Kaird e ele estivesse desde então experimentando a "não existência". Um mercador enviado ao passado para salvar o mundo... só podia mesmo ser o delírio de um karile morto!
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Capítulo XIII.
RESSURREIÇÃO.
Os campos de pacientes pareciam mais verdejantes hoje para Nekoi Venture. Como de costume, fazia sua primeira ronda na lavoura durante o amanhecer. Seus vários anos de serviços na clínica não diminuíram seu prazer em ver as diferentes folhagens sob a luz branca que penetrava pelas imensas janelas da estufa. Mas esta manhã não era como as outras. Um sentimento de nostalgia tomava conta do ambiente. Era uma data muito especial, o seu último dia de trabalho. Já podia sentir suas raízes perenes substituindo as transitórias que o acompanharam por toda uma vida. Seu tempo de mobilidade terminava e logo se juntaria a seus ancestrais nos campos familiares...
Conforme avançava estufa adentro, ia analisando e atendendo cada paciente. Podava os casos mais antigos, acrescentava elementos à terra tratada e injetava estimulantes. Cada um ia recebendo o tratamento necessário para sua volta à consciência. Sorrindo, aproximou-se de uma das pacientes que recobrava os movimentos.
– Calma, broto... – Disse, aproximando-se da jovem que retirava, com alguma dificuldade, os pés enraizados do solo medicinal.
– Minha nave? Jeny! Como ela está? Quanto tempo estive aqui? – Perguntava preocupada a capitão da Brisa, apalpando por instinto o local do ferimento, onde agora sua pele estava mais clara, mas sem qualquer outro sinal da ferida.
– Calma, broto... sou seu médico, não sei nada sobre sua nave... – O tom de Nekoi era tranqüilizador. Com carinho, retirou uma folha grande que saía do ombro de sua paciente e a auxiliou a sair do terreno medicinal. – Como está se sentindo? Você se recuperou muito rápido!
– Certo... desculpe, me sinto ótima. Agradeço seus cuidados, senhor?...
– Nekoi, bela... Venha, vamos fazer alguns testes...
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Longe dali, chegando na Nebulosa de Altamira, a Camaleão saiu de fase e logo seus sensores de longo alcance descobriram as cinco naves roubadas pelos terroristas.
– Arme todos os mísseis e, após acionar o vírus, avance a toda velocidade na direção dos alvos. – Comandou Mateus a seu navegador. – A dois quilômetros deles, pare e descarregue tudo.
– Certo, senhor! Mísseis armados, blindagem em 100%, acionando vírus e implementando rota de ataque! – Maerto ia citando suas ações, como exaustivamente treinado e executado durante as várias viagens daquela tripulação. – Em movimento, naves a dois quilômetros, checando alvos e... droga... senhor! Nossos sensores de curto alcance indicam que as blindagens dos alvos não estão baixando e eles estão tomando formação de ataque!
– Demônios! Descarregue os mísseis Plote e prepare os Esteres. Diogo, chame Lorna aqui! Agora! – Gritava Mateus, frustrado pela falha do vírus que devia ter se copiado para todas as naves inimigas e desabilitado seus sistemas de defesa e ataque. Era uma manobra padrão que já garantira muitas vitórias fáceis.
– Mísseis disparados, senhor! Estamos sendo atingidos por mísseis e disparos de faires inimigos! A blindagem caiu para 90%, mas está se mantendo!
– Pobres miseráveis, é só uma questão de tempo! Vamos tentar uma manobra nova. Aponte nossos faires para suas bobinas de fase e dispare continuamente até vencer suas blindagens e deixá-los presos aqui!
– Senhor, – Interviu Diogo – atirar continuamente? A radiação gerada em disparos sem intervalos com todos os faires pode enfraquecer a nossa blindagem! Aconselho disparos intermitentes com pelo menos cinco segundos de intervalo entra cada canhão.
– Ora, Diogo... Sente-se e observe! Estamos aceitando alguns riscos aqui. Essas naves não foram desenvolvidas para agüentar a pressão que vamos exercer. São usadas pela guarda! Tiros contínuos vão perfurar suas blindagens como se fossem de manteiga!
No espaço, as naves da resistência executavam manobras evasivas ao redor da Camaleão que, por sua vez, não dava trégua disparando um grande volume de raios através de seus faires bem distribuídos por todo o casco da nave. As explosões dos mísseis confundiam os sensores aumentando o caos do combate.
– Blindagem em 60% mas ainda agüentando, capitão. Mantendo o volume máximo de fogo! – Continuava Maerto a relatar a situação e a checar freneticamente os indicadores dos sensores. – Estoque de Plotes terminado, iniciando disparo dos mísseis Esteres! Blindagens inimigas começando a falhar!
– Mantenha o volume de ataque! – Vibrou Mateus. Sua nave estava dando cabo de cinco inimigos ao mesmo tempo!
Nesse momento, Lorna entrou na ponte como ordenado pelo imediato. Seu semblante estava carregado de preocupação e descontentamento. Ajeitou sua franja negra que insistia em cair sobre os olhos e parou diante de seu capitão. Ato contínuo, Mateus puxou sua pistola do coldre e disparou em sua técnica em biocomputadores que, com um furo na testa e os olhos arregalados, desabou sem vida no chão. A cena atraiu a atenção de todos na ponte, chocando os novatos. Os mais antigos sabiam que seu capitão a muito aguardava uma falha de Lorna para eliminá-la, não por motivos profissionais, mas por algum motivo particular nunca revelado. Quando Maerto voltou a verificar seu painel, um novo personagem havia entrado em cena...
– Capitão, estou captando uma nave saindo de fase a três quilômetros de nós! Devia estar mais afastada e a Nebulosa a encobertou de nossos sensores. É de uma classe desconhecida. O computador só indica que é um protótipo!
– Capitão, os níveis de radiação estão extrapolando as escalas e nossa blindagem está enfraquecida! – Advertiu Diogo. – Seria melhor diminuirmos um pouco a potência dos faires ou iniciar a intermitência para evitarmos que nossas defesas fiquem instáveis...
– Outra nave? Não contava com um sexto oponente. Inicie a intermitência e estabilize a blindagem!
Enquanto a Camaleão tentava mudar sua tática, uma saraivada de mísseis das naves da Resistência ajudadas pela Nídia sobrecarregaram de vez a sua blindagem já deteriorada pela radiação ininterrupta dos faires. Com a queda do sistema de defesa, disparos certeiros da Nitory indisponibilizaram as bobinas de campo de força e de fase. As naves da Resistência cercaram a nave jacal exigindo sua rendição. Era o fim da batalha.
Enquanto Marcus tratava com Mateus os procedimentos para a abordagem e tomada da Camaleão, Marcel era felicitado por todos à sua volta. Esta era uma situação inteiramente nova para o aranha, que se via festejado apenas por ter detectado e eliminado um executável. Era como ganhar um prêmio milionário por ter tomado cerveja! Marcel ria e brincava em meio à gritaria da tropa da Avatar. Não recordava de outro momento na vida em que se sentira parte de um grupo, muito menos uma parte importante.
Em seu alojamento, Guiner tentava em vão orientar seus pensamentos. Levantou-se da cama e foi em uma pequena despensa pegar uma garrafa de chanadar. Não era de beber, mas aquela situação lhe pareceu uma boa hora para começar.
– O álcool dificilmente vai ajudá-lo, Guiner. – Disse Kmalkim a apenas dois passos do karile.
Guiner o olhou surpreso, pois não notara sua chegada nem ouvira a porta do alojamento abrindo ou fechando. Sua cabeça devia estar mesmo totalmente confusa.
– Nossa, Kmalkim... eu nem percebi... – Largou a garrafa e voltou a sentar-se na cama. – O que veio fazer aqui? – Com um gesto, Guiner indicou um sofá de dois lugares para o draconita. – Uma... prece, “vibração” ou algo assim?
– Não. Não fazemos preces nem temos religião em Dicro. O que fazemos é explorar nossos potenciais ao invés de unicamente a inteligência, como vocês fazem através de sua ciência. Não impomos nossos conceitos à realidade apenas baseados no que podemos mensurar. Permitimo-nos sentir a realidade e assim irmos formando nossa visão da verdade.
– Desculpe o sarcasmo, mas com a cabeça confusa como estou fica difícil manter a educação... Olhe, não estou impondo nada agora. A realidade é que resolveu cair na minha cabeça!
– Pelo contrário, você não tem problema algum agora, apenas está impondo seus conceitos à realidade.
– Como é? Impondo? Kmalkim, eu realmente acho que aquele espião está falando a verdade! Como eu “realmente” vim parar aqui? Você não sabe, mas eu acreditava que tinha vindo do futuro, que conhecia... Aliás, que era o único que conhecia a verdade! Verdade sobre os jacais, sobre a Resistência... Meu amigo... até sobre o fim do mundo! – Guiner levantou-se exaltado e, após algumas voltas no alojamento, parou de frente ao draconita. – Eu ainda posso ver Kaird, “meu” planeta natal, se destroçando como se fosse esmagado por gigantescas mãos furiosas.
– Você está impondo seu conceito de tempo à realidade. Veja, você não precisa se perguntar como está aqui... Você “está” aqui! Assuma sua ignorância do motivo, mas não negue os fatos! A sua própria ciência não é assim? Baseada em fatos?
Guiner soltou o corpo deitado na cama e, após breve momento, voltou a sentar-se. Agora estava com um olhar de interesse.
– Como é? Mas se eu ignorar o que ocorreu comigo, como saber o que fazer? Afinal, eu acreditava que tinha vindo para cá para cumprir uma missão. Era isso que me movia, me motivava... Ignorar o que me ocorreu não resolve meus problemas...
– É sábio manter o passado vivo na memória para não repetir erros, mas você está confundindo seu passado com sua personalidade. Veja, você foi a meu planeta para pedir ajuda contra um inimigo comum... Descreveu o potencial negativo do inimigo para convencer-nos... Algum argumento que usou foi desmentido por esta nova “informação”? – Perguntou Kmalkim brando, sem qualquer alteração na voz.
– Desmentido... Não, estou cada vez mais convencido de que devemos depor esses autoentitulados governantes e colocá-los em seu devido lugar. – A voz de Guiner mudou. Em seu olhar algo despertou.
– Se está convicto de seu objetivo e tem oportunidade de realizá-lo, onde está a dúvida? Meu povo tem sua própria visão sobre o funcionamento do tempo. Não é uma das técnicas que domino, mas até onde sei o futuro pode ser entrevisto. Eu hoje tenho uma visão muito particular de seu funcionamento.
– E como você vê o tempo?
– Eu vejo o ontem como o início imperfeito do progresso, o agora como a hora certa para nos melhorarmos e o amanhã como o caminho a percorrer até a perfeição.
– Ah! Fala sério! Que filosofia mais batida, Kmalkim! Eu aqui pensando que você ia compartilhar sua “sabedoria de mestre” ou os segredos do universo! – Guiner levantou-se, seus olhos estavam mais vivos e seu semblante mais expressivo. – Mas não se ofenda!
– Não estou ofendido, na verdade estou satisfeito. Quanto à... como disse? “filosofia batida?” Bem, acredito que a verdade é simples e está ao nosso redor, por isso todos já a conhecem. Muitos não a aceitam e acabam transformando-na em um mistério. Estes não a vêem por não abrirem os olhos. A “sabedoria de mestre” que citou é formada por conceitos óbvios e rotineiros, e não por complicados e misteriosos segredos... – Kmalkim sorriu quase imperceptivelmente.
Antes que Guiner digerisse as palavras de Kmalkim, Marcel entrou intempestivamente porta adentro.
– Ô grandão! Tá, eles te tiraram do comando e você não sabe se veio do futuro ou do pretérito perfeito, mas deixar de vir me cumprimentar só por causa disso? Deixa de ser egoísta! – Marcel abriu os braços e depois elevou-os ao alto exagerada e teatralmente. – Malandro, eu salvei o dia! Suspeitei daquela conexão e “zás”, instalei meu executável no sistema de comunicação da nave, – Conforme ia contando, ia gesticulando muito, fazendo caras e caretas – mandei-o direto à interface com a rede para que estabelecesse uma área de defesa, mas... um vírus de quarta geração – Isso mesmo, quarta geração! – chegou através do canal cifrado e eu tive que entrar em modo interativo com meu executável, rompendo o código de bloqueio para desferir um golpe certeiro na ameaça! Aí foi só criar um caminho com volta infinita na rotina de movimentação do vírus e, quando entrou em pane lógica, apagá-lo do canal! Ta-dá!
Guiner deu uma gostosa e honesta risada e, dando uma pequena distância de seus dois convidados entendeu o que estava acontecendo.
– Obrigado... Não sei mais bem quem sou nem de onde vim, mas começo a entender que, seja lá onde eu estiver, posso contar com amigos. Está certo... – Acionando seus ferrões, Guiner ergueu a cabeça. – Sou um seguidor de Gn e não posso perder a fé em meus objetivos e ideais! “Amanhã vai ser melhor”! Vamos à ponte!
Os três saíram, Marcel ia resmungando sozinho sobre os detalhes de sua “brilhante e salvadora intervenção”. Kmalkim limitou-se a repor seu capuz para esconder um sorriso divertido.
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Em Darr, Sarath, na cabeceira de uma mal iluminada mesa elíptica, presidia uma holo-reunião com todos os jacais dos mundos conquistados. Depois do ataque da Resistência em Lar que culminou no assassinato de cinco dos seus, os imperadores passaram a considerar muito arriscado saírem de seus palácios e instalaram transmissores holográficos para “comparecerem” a eventos como aquele.
– E então, Cassstro? Já essstá em condisssções de esssxplicar o essstado atual dasss pesssquisasss em inteligênssscia artifissscial? Já tivemosss atrasosss demaisss! – Cobrou Sarath.
– É o seguinte, ô linguarudo... O Serafim, aquele primeiro modelo, foi tirado de cena por não ser “controlável”. Por conta disso, o segundo está sendo construído com mais cuidado enquanto são montadas as – Fez uma careta – “travas comportamentais” necessárias. Isso tudo deve nos levar a ter este último modelo funcionando dentro de trinta ou quarenta dias. Agora, as interfaces neurais para as suas ANA já ficaram prontas e estão a caminho de seus laboratórios. Bom o suficiente? – Respondeu Castro rindo, esperando surpreender a todos com sua eficiência. Sabia que não esperavam muito dele, pois vários já tinham deixado isso claro...
– Esssxelente! Também tenho boasss novasss... Asss análisesss da tecnologia metam, além dosss avanssçosss que esssperávamosss, nosss deu uma nova fonte de energia. Asss bateriasss delesss eram baseadasss na queima de hidrogênio por bactériasss que se proliferam em determinadasss condissçõesss químicasss. Já conssseguimosss duplicar esssasss condissçõesss e acreditamosss que unindo-asss a um processso básico de eletrólise, logo teremosss navesss funcionando durante um ano a base de menosss que um copo de água! – Sarath sibilou orgulhoso.
– E para quando teremos um protótipo funcional desta maravilha? – Perguntou Grndhir, senhor do planeta Nitol. – Aliás, já perdi a conta de quantos protótipos de ANA existiram! Quando vou receber uma dessas armaduras?
Sarath olhou firme para o holograma de Grndhir, contendo sua raiva. Detestava ser cobrado ou contrariado, mas precisava da matéria prima barata que os fenceres mandavam das diversas minas que exploravam.
– Essstamosss no modelo onze... Acreditamosss que asss ANA-12 já poderão ssser fabricadasss em grande essscala. Essstávamosss apenasss aguardando osss componentesss que agora essstão vindo de Lar. – Sibilou Sarath.
– E você, Vari? E a conexão com a “outra dimensão”? Já conseguiu pelo menos provar que ela existe? – Perguntou ainda Grndhir, enquanto expelia um muco negro de seus orifícios auditivos.
– Todos bastes são... conectados com a “Transparência” e... sentem sua interferência... em nosso meio... Não há o que provar. Ela existe... O que... nossos cientistas... estão fazendo... é... através do método científico... tornar a Transparência acessível a nível físico... Se tivermos sucesso... poderemos ter livre acesso a essa outra... “dimensão”... batizada por nossos... especialistas... com o nome de Heno, o nosso deus dos sentidos... – Respondeu a jacal felina com um tom “afetado”. Seus movimentos eram suaves e sensuais, sua voz aveludada e seu olhar misterioso. Seus pelos eram negros e seus olhos muito verdes.
– E o dinheiro? Muito papo tecnológico, muita ANA, outra dimensão... Pelo que sei, tem até karile inventando de “viajar no tempo” sei lá pra quê! – Disse Sarrilo, atual imperador dos prekes, olhando para Têner, de Kaird, que não esboçou a menor reação. – Agora, meu carregamento de carne está parado porque mataram um monte de clientes em Lar! Como fica isso? Toda essa história de tomar o poder nasceu da idéia de ficarmos mais ricos, ou estou errado? Como é? Meu bolso ainda não está satisfeito e ainda perdi meu irmão Gracur! E então?
O pouco amistoso, mas ainda civilizado, tom da reunião descambou para uma ruidosa discussão, mas para satisfação de Sarrilo as "conversações" passaram a tratar de comércio. Logo os ex-criminosos e atuais governantes de mundos estavam traçando acordos mercantis e tecendo alianças e fronteiras econômicas.
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Na Avatar, Guiner já voltara à cadeira do capitão sem muito esforço. Andréa afirmou que estava apenas "esquentando a cadeira" e reassumiu o posto de imediato da nave.
Na tela, Marcus discutia irritado sobre o destino da Resistência.
– O que vamos fazer em Ruhir? – Perguntou Guiner.
– Vamos parar um pouco para respirar, está bem? As coisas estão bem confusas e quero um lugar tranqüilo com um povo bem calmo para que acertemos as idéias!
– Mas será possível? Ruhir está sob domínio dos fenceres! A essa altura já escravizaram os crors!
– Eu é que pergunto se é possível fazer alguma coisa sendo questionado o tempo todo! Sua situação não está bem “estável”, não é? Onde ouviu sobre essa presença fencer? Leu no tal diário do "defunto'' karile? Você ainda não explicou aquela história!
– Marcus... – Guiner passou a mão no rosto. – Você quer ir lá. Ótimo. E se eu estiver certo? Fenceres costumam deixar pelo menos uma esquadrilha guardando suas minas... Deixe que minha nave se aproxime primeiro, como batedora... então, se estiver tudo bem, o resto da tropa se junta à ela. As naves acabam de vir de uma batalha e os reparos mal começaram!
– Droga! – Gritou Marcus batendo forte em seu painel. – Está bem! A Avatar pode ir em velocidade máxima. Isso deve lhe fazer chegar lá uns vinte minutos mais cedo que o restante.
De pé atrás de Marcus, Landel, agora o novo imediato, tentava esconder uma pequena risada. Estava adorando ver como Guiner incomodou e até dobrou seu capitão orgulhoso. Não achava Marcus má pessoa, pelo contrário, era portador de grandes virtudes e carisma, mas aquela atitude arrogante às vezes cansava até mesmo velhos amigos de combate.
– Avatar desliga! – Comunicou Guiner, virando para o posto de navegação. – Aumente a harmonização do campo, Marcel. Vamos à toda velocidade.
– Sei, e se você estiver certo, vamos a toda velocidade direto para o meio de uma esquadrilha inimiga...
– Ele está certo, Guiner... Nossos mísseis estão no fim e alguns faires sobrecarregaram... Paulo César informou que os reparos na blindagem ainda levarão algum tempo...
– Sou o único que acha isso... suicida? – Marcel olhou à sua volta, mas não houve resposta. – Ceeeeerto, implementado... vamos todos convictos para a morte!
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Momentos depois.
– Marcel, onde fica o laboratório que está desenvolvendo inteligência artificial? – Perguntou Guiner, quebrando o silêncio na ponte que já durava longos dez minutos, com a tranqüilidade de quem pede um café.
– Em um asteróide entre Lar e Luz... – Respondeu Marcel sem tirar os olhos de seu painel depois de mais uns dois minutos de silêncio.
– Como é a defesa do lugar?
– De primeira. O asteróide fica em meio a vários outros, impedindo o acesso por naves grandes. Pelo que eu vi, ninguém sai de lá a anos. É praticamente uma prisão. Taí, a segurança é bem parecida com Danus-4, aquela penitenciária famosa de onde – Engrossou a voz. – “ninguém jamais escapou”!
– A Nídia é pequena. Nem ela chegaria lá?
– Podia até chegar perto, mas não o suficiente para pousar.
– Então quer dizer que teremos que “surfar” com trajes pressurizados? – Guiner perguntou já sorrindo, antecipando a reação de Marcel.
– Surfar? No espaço? O que você anda bebendo? E que história é essa de "teremos"? Deixa de viagem, grandão! Hei, Kmalkim! Sai do transe e fala alguma coisa pra esse doido que o traga para a realidade! – Apelou Marcel para o draconita que parecia olhar para além da tela principal.
– Sinto uma forte animosidade à frente... teremos problemas... – Falou Kmalkim, sem dar a entender se já ia dizer aquilo ou se realmente o fizera para atender ao pedido de Marcel.
– Nossos sensores captam alguma coisa Marcel? – Perguntou Guiner se endireitando na cadeira de comando.
– Nada. Como você já deve saber, o conjunto principal de sensores ainda está em manutenção. Estamos detectando bem corpos celestes próximos, mas provavelmente só detectaremos nossos inimigos quando chegarmos lá.
– Parece que vai ser do jeito difícil... – Acionou o comunicador da cadeira. – Guiner para Paulo César. Como vão as bobinas de campo? – Perguntou ao seu engenheiro-chefe.
– Ih, capitão... Só teremos a blindagem de estibordo em condições, o resto ainda vai levar mais uma ou duas horas!
– Certo... Studs, prepare um míssil para explodir assim que for lançado. Marcel, vire a nave para bombordo de maneira a navegarmos de lado, com os escudos funcionais na nova frente da Avatar. Andréa, prepare a tripulação para abandonar a nave. Quero sair de fase no ponto mais próximo possível da lua Ruhir! Vamos, pessoal! E... Paulo César...
– Me chamam “PC”, senhor! – Respondeu o engenheiro-chefe da Avatar rindo-se com a ousadia daquele karile.
– Há algum modo dos mísseis restantes serem deixados ao redor da nave prontos para detonar?
– Podemos deixá-los no compartimento de carga e abrir as comportas para que sejam sugados juntamente com o ar, senhor. Mas teremos que melhorar a vedação da porta interna do compartimento e programá-los com um tempo de retardo para que não explodam a nave em um esbarrão acidental na saída! – O tom de PC ficou um pouco mais sério. – Ou o senhor pretende destruir a nave?
– Não. Até cogitei acionar a autodestruição, mas não estamos podendo perder naves. Sua linha de ação parece muito boa. Execute!
– Guiner... – Interviu Andréa. – Você é o cara mais “irado” que eu já conheci! – E, estendendo a mão para cumprimentar o karile, completou. – É um prazer ser sua imediato. Pensei que ia ser aborrecido, mas já estou sentindo a adrenalina no sangue!
Guiner apertou a mão de sua imediato interpretando aquilo como um elogio. Ela estalou um beijo em seu rosto e, ato contínuo, dirigiu-se ao seu terminal para iniciar logo os cálculos e planejamentos necessários ao levantamento de linhas de ação para executar a ousada manobra. Todos corriam contra o tempo. O único que permanecia parado era Kmalkim, que, aliás, parecia congelado, com o olhar distante e uma expressão indecifrável. Guiner ia perguntar-lhe o que fazia, mas foi detido por Studs, que queria mais detalhes sobre a operação.
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Em órbita de Stom, mais particularmente próximas à lua Ruhir, nove naves jacais posicionavam-se em delta, a formação de defesa jacal adotada e gerenciada pelo Sistema Tático Padrão ''Eclipse II". Na nave Arcádia, o Capitão Dhor, comandante da esquadra, observava junto ao posto de sensores o sinal de que algo se aproximava em fase. Já consultara o escalão superior e sabia que não havia previsão de nenhum aliado naquela região. Como nem o protocolo formal de aproximação jacal estava sendo obedecido, o intruso seria destruído assim que suas bobinas de sintonia desarmonizassem.
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Capítulo XIV.
FIRME COMO UMA ROCHA.
Próximo à lua Ruhir, a manobra de Guiner surpreendeu o sistema tático da esquadra jacal, que se viu forçada a sair de formação para desviar dos mísseis da Avatar espalhados sem rumo certo ao redor da nave. A tripulação em seus módulos de fuga, no entanto, acabou ejetada muito distante da lua e tornou-se alvo fácil. Guiner guiava seu módulo pensando em mais uma jogada desesperada quando Kmalkim apontou para a janela da diminuta astronave. De área diversa do local onde a Avatar saiu de fase, surgiam as demais naves da Resistência.
– Impossível! Eles deviam estar vinte minutos atrás de nós... e, mesmo vindo por outra rota, seriam captados pelos jacais... – Guiner nada entendeu, mas, mesmo tentando resolver o mistério, já alterara o curso para "alunissar".
– Isso não foi sorte... – Disse Marcel, olhando desconfiado para Kmalkim. – Marcus ignorar seu plano e nos usar para distrair os bandidos é mais que normal, mas os jacais ignorarem totalmente a chegada da galera... Tá muito esquisito! O que você acha morcegão?
– O que adianta ter avançados maquinários de sensoreamento, quando precisamos dos sentidos para perceber o que informam? – Respondeu Kmalkim, enigmático.
Marcel não sabia se havia entendido a insinuação do draconita. O que lhe viera na mente era absurdo. Embora não fosse de seu costume, resolveu deixar a situação como estava e calou-se.
Os módulos, com sua mobilidade limitada, desceram espalhados em diferentes pontos de Ruhir. Graças à chegada da Resistência, as baixas foram irrisórias.
Da superfície da lua era possível ver parte do combate que era travado entre os "terroristas" e a esquadra jacal. Guiner, Andréa, Marcel, Kmalkim e Studs perderam alguns segundos olhando as explosões luminosas que pipocavam no céu.
– E agora, brilhante líder? – Perguntou Marcel com seu ar debochado.
– Precisamos nos afastar do módulo. Apanhem o que puderem e vamos sair logo daqui. – Respondeu o karile evitando até olhar para o aranha.
– E para onde vamos? – Perguntou Studs já distribuindo os itens de sobrevivência do kit de emergência do módulo de fuga.
Guiner não fazia a menor idéia de que direção devia seguir. A descida tinha quase se transformado em queda devido a uma pane apresentada pelo módulo na entrada na atmosfera e não houve como avaliar direito a região do pouso. Pensou em escolher uma direção qualquer e seguir com o pessoal. Para evitar pânico ou discussões desnecessárias, agiria como se estivesse certo do curso a tomar. Já havia escolhido uma direção quando lembrou das últimas intervenções do draconita. Não havia muito a se perder naquele momento...
– Kmalkim, sente alguma aglomeração próxima? – Perguntou.
O draconita ajoelhou-se, baixou a cabeça e, após um minuto de silêncio e imobilidade, levantou-se retirando seu capuz.
– Naquela direção sinto muita tristeza... medo... e ódio. – Respondeu o mestre draconita apontando com o braço estendido para o horizonte.
– Então vamos! – Disse Andréa sorrindo irônica. Aquela terrível descrição era a única opção que tinham.
Guiner também sorriu, entendendo e compartilhando da idéia de Andréa, e tomou a frente, iniciando a grande caminhada. No horizonte, via-se apenas uma grande formação montanhosa.
– Ei, draconita! Não sentiu alegria, tranqüilidade ou uma festa em outra direção, não? – Perguntou Marcel já seguindo Guiner.
– Não, parece que aconteceu algo terrível por aqui. – Respondeu Kmalkim com as feições muito sérias.
– Ótimo. Agora sim estou bem mais animado! – Disse Marcel limpando o suor abundante da testa.
Enquanto Studs Deocle Marins iniciava uma discussão com Marcel sobre suas incômodas intervenções, o grupo seguia enfrentando o calor daquela região rochosa e desértica.
****
Em órbita, a Névoa enfrentava sérios problemas. A desorganização da esquadra jacal aliada ao ataque surpresa rendera uma boa vantagem às naves da Resistência, mas com o desenrolar do combate a vantagem numérica e os cálculos precisos do Eclipse II começaram a pesar mais forte. Enfrentando duas naves, a Névoa já estava sem torpedos e com apenas a blindagem traseira operando. O capitão Amero-Nar preparava-se para evacuar a nave... A Nídia já colocara uma nave inimiga à deriva, mas a custo de suas bobinas de sintonia.
Dhor, no entanto, via as coisas de maneira bem diferente...
– Nanase, envie uma mensagem aberta a todos avisando que encurralamos toda a maldita Resistência aqui, mas que precisamos de reforços!
– Aberta a todos, senhor? – Interviu Kulmir, o imediato, estranhando a quebra de protocolo.
– Senhor, o padrão é enviar apenas para receptores jacais. Nem que seja através do canal de segurança mínima... – Emendou Nanase, do posto de navegação, assessorando seu capitão.
– Não. Vocês não entenderam... Eu quero que “todos” saibam que a Resistência termina aqui e agora! – Disse Dhor com um brilho divertido nos olhos.
Kulmir ainda pensou em posicionar-se contra a ordem que, claramente, só servia para encher o ego do capitão, mas aspirava comandar sua própria nave e não seria boa política ficar contradizendo seu comandante. Nanase iniciou a transmissão da mensagem, adicionando ao seu texto as coordenadas espaciais e o quantitativo de naves, como exigia o protocolo para solicitações de reforços.
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No solo, a equipe de Guiner se esgueirava no alto de uma formação rochosa para melhor ver o que ocorria no vale à sua frente.
– São mesmo homens feitos de pedra! – Comentou Studs.
– Silêncio! – Ordenou Andréa entre gritando e cochichando.
– Sim, mamãe!
Abaixo, dezenas de seres de aspecto rochoso disparavam em um rochedo, fatiando-o. Era uma visão no mínimo impressionante. As "ferramentas" acoplavam-se às suas cinturas e, em meio a uma chuva de faíscas azuis que cobriam os operários, disparavam alguma espécie de raio energético que cortava um paredão de pedra com enorme facilidade, revelando enormes cristais amarelo-azulados reluzentes. Estes eram recolhidos por versões menores dos seres rochosos. Em volta da área de mineração, podia-se divisar quatro guaritas a uns sete metros do chão, onde fenceres apontavam suas armas na direção dos mineiros.
– São crors escravizados... Estão minerando “izrtat” para os jacais. – Declarou Guiner.
– Escravizados? São uns cinqüenta monstrengos de pedra armados com aqueles "raios-rasga-rocha" contra apenas quatro daqueles bichos gosmentos! – Retrucou Studs indignado. – São cegos?
– "Estão" cegos... – Comentou Kmalkim, atraindo a atenção da equipe – Cegos pela dor. O deserto... este pelo qual passamos... era densamente povoado... – Disse, surpreso com a força da tristeza que detectava nos crors próximos.
O esforço de Kmalkim para manter o seu próprio equilíbrio era grande. Mestre em filosofia e em dez técnicas draconitas, não deveria sentir a menor dificuldade em algo tão básico. Mas, por mais que fizesse contato com "a corrente" em seu planeta, as vibrações caóticas dos alienígenas o desorientavam, gerando uma constante situação de desconforto.
– Outra chacina... eu não os culpo por perder a esperança... – Andréa não conseguiu impedir as lembranças da matança em Lar. Parentes, amigos... Gente de todo o tipo... Mortos, metralhados, feitos em pedaços... Em meio ao sentimento de impotência frente à tragédia, recordou-se do "incidente inexplicado" que envolvia o karile. – Guiner... Você sabia que isso ia acontecer?
– Só sei o que está escrito naquele diário... – Guiner fez uma careta. – Lá havia uma passagem sobre a mineração nesta lua e a economia conseguida através da escravização deste povo. Não havia nada sobre a maneira como foi imposta.
– O papo está pra lá de interessante, mas eu estou cansado, com sede, com fome, com câimbras nas pernas e morrendo de sono. Vamos ficar aqui empoleirados até quando? – Perguntou Marcel.
– Daqui mesmo posso eliminar os guardas, então poderemos descer e tentar um contato com os nativos. – Lançou Andréa.
– Não. Se fizermos isso eles continuarão escravos sem vontade. Vou descer sozinho, cubram-me! – Disse Guiner jogando sua pistola para Andréa.
– Vai desarmado? – Ainda perguntou Studs.
– Não, Studs... Ele vai optar pela solução imediata e sensata de Andréa, que manteria todos vivos com o mínimo de risco... – Brincou Marcel. – E, antes de começar a me criticar novamente, lembra de segurar essas perguntas cretinas, OK?
– Silêncio, os dois! – Interviu Andréa quase rindo da discussão infantil.
– Sim, mamãe! – Responderam os dois juntos.
Guiner desceu rapidamente até o vale, saltando de uma rocha a outra. Os guardas dispararam, mas a sorte parecia finalmente sorrir para a Resistência e Guiner logo estava próximo à plataforma de onde os crors disparavam.
Sob ordem de um dos guardas, os crors cessaram suas atividades e giraram suas cabeças achatadas na direção da rocha que abrigava o intruso. Guiner, por sua vez, saltou de seu esconderijo já sob fogo intenso dos fenceres. Iniciou uma corrida na direção dos mineiros, mas quando já os alcançava foi atingido na perna direita. Nesse momento os disparos cessaram e Guiner escondeu-se atrás do cror mais próximo, que sequer se moveu.
Do alto de seu posto, um dos fenceres deu dois disparos certeiros na cabeça do cror que encobria Guiner. Para surpresa do karile, o mineiro nem esboçou reação, apenas olhou para seu algoz. Guiner levantou-se e, empunhando a ferramenta mineradora acoplada ao cror, cortou a base da guarita mais próxima, que foi desmoronando até desmanchar-se no chão. Nesse instante os guardas começaram a disparar para desestimular qualquer reação dos escravos. Após ser atingido por uma dezena de disparos, um dos mineiros tombou pesadamente no chão.
Ao ver a que ponto chegava a inércia daqueles seres, Guiner desistiu e baixou a cabeça desanimado. Sua perna atingida sangrava e não sabia mais o que fazer. Mas, para sua surpresa, algo naquela última morte sem sentido despertou os crors, que, quase ao mesmo tempo, ligaram seus aparelhos e destruíram todas as guaritas. Estas esmagaram os guardas ao tombarem aos pedaços.
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Enquanto isso, na ponte de comando da Nídia, Marcus exigia o máximo da tripulação.
– Kris! Preciso da blindagem agora! – Gritava com sua engenheira-chefe pelo comunicador do console.
– Preciso de mais vinte minutos, capitão! – Solicitava a voz estridente de Kris nos auto-falantes da ponte.
– Agora! Já perdemos as bobinas de sintonia e em vinte minutos você vai estar concertando nossos destroços! Adix! – Virou-se para seu navegador – Ligue-me com a Camaleão!
– Colocando no canto esquerdo da tela senhor! – Respondeu Adix mantendo na tela principal a visão da batalha, colhida pelas câmeras externas.
– Fale rápido, Marcus! – Gritou Rício – A Camaleão tem um arsenal e tanto, mas o "remendo" que fizemos não deixou a blindagem 100% e estamos enfrentando três naves aqui!
Marcus mal reconheceu Rício, pois, além de sua imagem estar ocupando apenas uma pequena fração da tela, a ponte da Camaleão encontrava-se quase às escuras por conta dos ajustes emergenciais realizados. A única iluminação era a da luz verde dos painéis de controle. Fora isso, e para piorar, seu amigo estava usando um dos uniformes negros de combate da antiga tripulação, com capacete e visor.
– Droga, Ric! Traga essa nave para cá ou perderemos a Nídia e a Névoa. Estamos sem blindagem e levando a maior surra! Fora a Avatar que seu amigo Guiner largou à deriva! – Espetou Marcus. Conhecia Rício e sabia que, quando incomodado, respondia de imediato.
– Marcus, seu idiota cretino! Agüentem aí. Vou tentar uma loucura e, se sobrevivermos, mostro a vocês como se combate! Desligo. – Disse já cortando o canal.
De fato, a manobra de Rício espelhava bem o desespero em que a inferioridade numérica havia deixado a Resistência. De frente para três naves jacais que descarregavam seus faires, a Camaleão resumiu sua blindagem à área frontal e, concentrando a tripulação em dois deques, desligou quase todos os seus sistemas. Toda a energia economizada foi direcionada para seus faires frontais. Os capitães jacais, para sorte da Rebelião, eram inexperientes e confiavam totalmente no sistema tático das naves. Infelizmente para eles, o Eclipse II fora desenvolvido baseado em manobras e táticas clássicas e seguras, não conseguindo interpretar e responder de imediato a manobras absurdas como a que Rício executava. Assim, não preparado para uma carga tão grande vindo de uma nave da classe Soturna, o sistema não reforçara as defesas e as blindagens das naves caíram. Rício, em rápido reflexo, atirou um míssil em cada nave, destruindo-as. Marcus teria seu reforço.
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Longe daquele combate, em um dos laboratórios do CDA (Centro de Desenvolvimento Armamentista), Rufio Pan, capitão da Guarda Lareana, ouvia as explicações de Hideki Goth, cientista responsável pelo projeto de inteligência artificial.
– O Sr. ainda não entendeu. – Dizia o Dr Hideki respeitoso mesmo depois da quinta tentativa que fazia de explicar a situação.
– Não, não sou eu que não entendi, doutor. Você é que ainda não conseguiu me convencer de que precisa de mais tempo. Eu tenho prazos a cumprir! Porque o modelo Arcanjo não está pronto se o anterior, já abandonado, foi considerado operacional?
– Sr. Rufio, o Serafim foi realmente um grande sucesso. Seu cérebro atingiu níveis de cálculo e raciocínio coerentes e independentes que surpreenderam toda a equipe. – O doutor olhou para seus companheiros esperando alguma demonstração de apoio, mas pareciam todos congelados e sequer balançaram a cabeça.
– E então? – Interrompeu o Cap Rufio gritando. Era um homem grande, rude e voluntarioso. Fora escolhido por Castro para esse posto para fazer valer a sua vontade.
– Bem, como informei em meu relatório, Serafim se demonstrou desde o início muito curioso e estudioso, mas com uma personalidade muito forte e pouco maleável. – Hideki começou a suar, mesmo na temperatura controlada de 22° C – Até o ponto em que parou de obedecer e colaborar. Tivemos muito trabalho para desativá-lo.
– E porque não o concertaram?
– Não é tão simples. Seu cérebro não é um processador tradicional de computador. Usamos tecnonervos, como os que empregamos nos biocomputadores das naves jacais mais avançadas, mas seguindo uma forma biodiversa independente. Entenda, ele mesmo foi evoluindo e criando novos emaranhados de filamentos nervosos. É quase orgânico! Compreende?
– Sei... Não dá pra concertar o Serafim... e o Arcanjo? – Rufio não entendera nada, mas resolveu aceitar o parecer do cientista para o assunto prosseguir.
– Pois bem, para podermos orientar o amadurecimento do cérebro de Arcanjo e garantir que seja obediente, estamos retardando o processo através de resfriamento, para assim melhor observarmos e documentarmos. A idéia é estabelecer travas comportamentais que o façam ignorar suas próprias idéias e nos obedecer totalmente. Tal sucesso, de acordo com a velocidade que estamos levando, nas melhores projeções de prazo, deve ser atingido daqui a apenas um ano!
– O quê? Enlouqueceu? Eu lhe dou quinze dias! Ouviu? Quinze! Castro quer estar vendendo este modelo em série em um mês! Acredite, no décimo sexto dia eu venho aqui pessoalmente para observar o SEU cérebro! E sem instrumentos! – Vociferou Rufio com ódio real. Castro lhe tinha dado um mês e ele iria cumprir o prazo.
– Mas senhor... – Os olhos de Hideki lacrimejavam.
– Mas nada, e não quero o robô nesse corpinho de plástico azul que vocês puseram o Serafim, quero-o em uma ANA-10, dessas que vocês receberam dos daranes para testes! Mais, – Virou-se para a equipe que assistia a tudo atônita – quero testá-lo em combate!
Nada mais foi dito. O capitão retirou-se, juntamente com seus dois guarda-costas, deixando para trás os cientistas e seu jeito complicado de falar. O Dr. Hideki virou-se para sua equipe consternado e começou a imaginar uma maneira “não ortodoxa” para cumprir aquele prazo insano e salvar suas vidas.
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Na órbita da lua Ruhir, a Camaleão e a Nídia, com suas blindagens já restauradas, seguravam quatro naves jacais, enquanto uma equipe da Nitori recuperava e assumia a Avatar.
– Vamos logo com isso, Márcio! A Camaleão já perdeu 30% de força de defesa e meus mísseis acabaram! – Disse Rício através do comunicador.
Márcio, imediato da nave Nitori, recebera a missão de ocupar a Avatar, abandonada por Guiner, e reativá-la. Para isso, ele e uma equipe muito reduzida ocuparam um dos módulos de fuga de sua nave e se aventuraram no espaço por entre os mísseis que flutuavam em volta da Avatar à deriva. Agora, ocupava a cadeira do capitão e aguardava o término do concerto emergencial das bobinas de campo.
– Estamos cientes de suas condições, Rício. Agüentem mais alguns minutos que a Avatar logo estará de volta ao combate! – Respondeu Márcio sem ter, na verdade, uma idéia do tempo que os acertos levariam.
– Boa sorte! – Disse Rício desligando o comunicador e virando-se para atender Iam, que solicitava sua atenção com urgência. – Fala, navegador!
– Capitão, estou captando uma grande nave chegando em fase. Acho, pelas suas dimensões, que é uma daquelas que disparou sobre Lar, senhor.
– Como a que nos atacou em Estrela Nascente? Que abateu nossas naves no espaço com um único tiro disperso? Agora estamos fritos... Eu esperava que mandassem um reforço, mas isso?
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Após perder seis naves e abatido apenas uma, o discurso do capitão da Arcádia havia mudado bastante.
– Finalmente os reforços chegaram! Esses guerrilheiros lutam como loucos! – Dhor virou-se para sua navegadora – Estabeleça uma ligação com o capitão da Naja, Nanase.
– Certo, se... Espere... – Nanase abria nervosamente várias telas em seu console de cristal.
– O que houve agora? Não consegue comunicação? Fale! – Dhor lia a expressão de sua navegadora. Sua testa sempre suava marrom quando se preocupava. – Não me venha com mais surpresas! Ainda não me explicou como não detectou a chegada desses rebeldes!
– Não haverá surpresa dessa vez. Segundo nossos instrumentos, diversas naves em fase estão vindo para cá. Estão a... uns quinze minutos daqui e não são jacais...
– A comunicação não codificada. – Murmurou Dhor – Eu não imaginei que alguém viesse reforçar justamente os nossos inimigos...
– Mas estão vindo. E se a Naja não fosse uma de nossas naves mais poderosas, seria um grande problema! – Ousou Kulmir, julgando que a carreira de seu capitão seria “encurtada” depois de um erro tão comprometedor.
– Escute aqui, imediato... Não me enfrente. Sua saúde pode piorar muito! – O capitão Dhor já perdera a compostura.
– Senhor! A almirante Sihar está na tela! – Interrompeu Nanase ao conseguir a comunicação com a nave Naja.
– Olá, capitão fencer... Paresssce que vocêsss essstão messsmo pressscisando de reforsssçosss. – Disse Sihar arrogante e divertida. Ver como outras raças eram inferiores aos daranes sempre lhe deixava de bom humor. Não entendia porque os imperadores jacais não eram todos de sua raça.
– Almirante, meu nome é Dhor, Capitão Dhor! E realmente estamos enfrentando alguns problemas por aqui. Parece que esses rebeldes dominam nossas estratégias mais avançadas. – A raiva havia aumentado, mas ele precisava mesmo de ajuda e tinha que se conter. – E já deve ter captado um reforço de naves chegando.
– Insssetosss, apenasss insssetosss. A Naja atacou doisss planetasss e não sssofreu qualquer avaria... O canhão de pulssso mossstrou-ssse devassstador em todasss as freqüênciasss testadasss. Com asss recentesss melhoriasss que sssofreu, vai acabar com todosss esssesss infelizesss com apenasss um disssparo, como ocorreu em Lar. Não há “resissstênssscia” contra asss navesss da classse Capricórnio!
– Entendo. Vamos continuar nossa defesa com o que temos até a sua chegada. – Dhor fez um sinal para Nanase que em resposta encerrou a ligação. – Cobra desgraçada! Toda cheia de si em sua nave indestrutível... De qualquer forma, a Resistência vai ser eliminada e fui eu que a encurralei! Ouviu isso imediato? – Dhor sorriu, fazendo força para recuperar a segurança e sua pose de capitão estelar.
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Minutos depois, na Nídia:
– Marcus, ela chegou! E está se posicionando. Acho que vai iniciar o ataque de imediato! – Avisou Ituro, quase berrando.
– Não esperava outra coisa. – Virou-se para seu navegador – Adix, dê o sinal e assuma posição!
Assim como Adix, os navegadores da Camaleão, Miríade, Vitória, Nitory e Avatar assumiram as posições que Marcus determinara. A estratégia era simples. Cada nave iria ficar em volta da Naja em posições bem distribuídas e móveis, de modo a dificultar que um raio, por mais aberto que fosse, conseguisse atingir todas ou mesmo a maioria, ao mesmo tempo.
O que se seguiu não pôde ser chamado de batalha. As naves da Resistência circulavam em torno da Naja atirando com tudo o que tinham, enquanto tentavam evitar aproximarem-se entre si para não atrair o disparo do canhão de pulso. Uma chuva de disparos caía sobre a grande nave que não mostrava sinal algum de avaria. Pelo contrário. A Naja, em sua forma de meia-lua prateada, parecia resplandecer ainda mais sob os fogos de seus inimigos. Sua blindagem tomava um tom azulado transparente com as explosões de brilho branco nos locais em que era atingida. De repente, abandonando sua atitude imóvel e complacente, a Naja abriu uma escotilha imensa no centro superior de seu corpo e disparou sobre a Miríade, jogando-a à distância, rodando desgovernada. A Vitória, após abater a Arcádia, teve exauridas suas células de energia e literalmente apagou, perdendo a potência dos motores e, por inércia, se chocando contra a blindagem da Naja. Sem defesas, explodiu. Não houve tempo para que a tripulação corresse para os módulos de fuga e, o que talvez fosse ainda pior, não houve qualquer dano aparente à nave jacal. Esta, em novo e sutil movimento, disparou, abatendo agora a Nitory, que rodopiou sofrendo uma seqüência de explosões por todo seu casco. A tripulação ainda conseguiu evadir-se antes que a nave fosse estilhaçada. Mas o forte clarão da última explosão engolfou um terço dos módulos de fuga. A Naja pareceu errar dois disparos, mas com eles juntou a Camaleão e a Avatar que tentavam desviar-se dos pulsos. Girando setenta graus em seu eixo vertical, conseguiu acertar as duas em novo tiro. Sobrara apenas a Nídia, que, frente à derrota certa, iniciou uma tentativa de fuga. Marcus era a frustração encarnada. Tentava manter sua mente limpa para aumentar as chances de sobrevivência da tripulação, mas seus pensamentos eram assombrados novamente pela culpa. Odiava Guiner por estar certo mais uma vez, odiava aquela maldita nave jacal que viera lhe roubar a vitória e odiava acima de tudo a si mesmo por teimar em vir para aquele maldito local. Em desespero, nem percebeu a chegada de várias naves que já saíram de fase disparando contra a ainda incólume nave jacal. Com exceção apenas de um cargueiro classe Galápago, que rumou para a lua dos crors.
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No solo, Guiner já conquistara a confiança dos nativos e, juntamente com Andréa, tentava recrutar alguns valorosos voluntários para a causa da Resistência. Enquanto isso, Mestre Kmalkim se afastou encapuzado e taciturno. Ao ver que saíra de vista por trás de alguns pilares naturais de rocha maciça, parou e pôde ver dois vultos semi-transparentes aproximarem-se andando. Antes mesmo de certificar-se por meio da visão, já havia "sentido" que eram dois mestres draconitas. Mais que isso, eram dois membros do Grã Conselho, Jansir e Ruana. Conforme chegavam mais perto, podia-se melhor constatar que sua consistência era muito suave e que estavam jovens, de fato mais jovens até do que Kmalkim.
– Mestres? – Sussurrou Kmalkim após executar uma curta reverência.
– Paz e luz, jovem mestre... – Cumprimentou Ruana erguendo a mão sobre a fronte de Kmalkim, que teve, no mesmo instante, todas as angústias eliminadas. Estava equilibrado novamente.
– Kmalkim, o acompanhamos até o momento e vimos que erramos. – Disse Jansir pesaroso.
– Erramos, mestre? Em quê? – Perguntou Kmalkim com real curiosidade.
– No isolamento, meu jovem. Toda nossa filosofia e conhecimento são muito importantes, mas nos concentramos tanto em "nos" melhorarmos que ignoramos totalmente a comunidade que evoluía a nossa volta. – Respondeu Ruana com um sorriso jovial, que em muito contrastava com a expressão de Jansir.
– Sim, as espécies que vimos engatinhar em nosso passado tecnológico seguiram a lei de progresso e hoje constituem complexas civilizações. Infelizmente, seu amadurecimento moral não acompanhou o intelectual, e essa imaturidade já causou muita tristeza desnecessária. – Completou Jansir.
– Então vamos nos juntar à Resistência contra esses governantes ensandecidos?
– Paciência, Kmalkim. – Irrompeu Jansir mais severo. – Não se muda nessa velocidade um povo, uma cultura... Há uma corrente... Bom, não é o caso comentar agora. A verdade é que, mesmo com a ameaça de invasão desses jacais, nosso povo precisa de algum tempo para aceitar esses novos conceitos... – Mudou para um tom mais brando – Nós nos julgamos irmãos entre nós, mas nunca olhamos dessa forma para os não-draconitas. E através desse seu rico e constante contato com esses alienígenas, pudemos perceber o que nossos antepassados não conseguiram ou não quiseram enxergar... – Jansir suspirou fundo e olhou para o céu, como que procurando a resposta para um grande mistério. – Que nossos princípios vitais são idênticos! O que muda de espécie para espécie é a ligação fluídica com o corpo... Nós... – A imagem de Jansir envelheceu instantaneamente, enquanto ele emudeceu pela forte emoção.
– O que Jansir tem compreensível dificuldade em expressar, criança, é que nós, tão sábios, ignoramos até hoje que possuímos antecessores alienígenas... Verificamos. É um fato. Um draconita pode ter tido um antecessor humano ou karile, por exemplo. – Disse Ruana um pouco mais séria, mas ainda jovial.
– Impossível. Em nossas vastas experiências de acesso a antecessores teríamos facilmente descoberto isso! – Disse Kmalkim em voz áspera, já quase duvidando da autenticidade daquelas entidades.
– Vê a dificuldade, Kmalkim? Nem você, que está aqui fora, aceita com facilidade o conceito. Quanto a esse aspecto que você levantou, é só um entre muitos. Ao travarmos contato com tantas vidas de irmãos do passado, nunca experimentamos, até por características pessoais dos instrutores da técnica, variar a vibração da ligação com a matéria de nosso mundo... Além do que, inconscientemente, sempre esperamos nessas buscas encontrar draconitas. – Disse Ruana.
– E ainda existem mais aspectos? – Kmalkim fez uma pausa, pensativo. – Pois bem, se não vamos nos aliar à Resistência, o que faremos?
– Sabemos que escondeu a chegada das naves da Resistência e que tem feito outros “favores” à causa desses guerreiros. Quando partiu, o aconselhamos a utilizar o menos possível as nossas técnicas e você assim o fez. Pois agora o estamos liberando de tais amarras. Use todo o potencial que achar necessário, mas... bem, não podemos permanecer mobilizando tantos mestres para combater as sombras de fora de nosso mundo. As novidades estão se espalhando rápido e precisaremos dos draconitas experientes para guiar as pesquisas e combater as trevas que nascem em nosso próprio povo, juntamente com a dúvida e a conseqüente desarmonia. – Disse Jansir, voltando a seu tom calmo.
– Estarei só.
– Não, Kmalkim. Uma dezena de mestres permanecerá ligada a você, tanto para ajudá-lo quanto para aprender com suas experiências.
– Entendo mestra.
– Paz e luz, mestre Kmalkim! – Saudou Jansir.
– Paz e luz, mestres! – Respondeu Kmalkim vendo as imagens desfazerem-se como se jamais estivessem estado ali. Pensou um pouco olhando para o céu e então alteou a voz – Pode sair agora, Marcel!
Por detrás da coluna natural que encobriu o encontro draconita, saiu um surpreso Marcel com os olhos esbugalhados e um sorriso amarelo de criança que foi pega de surpresa fazendo arte.
– Você sabia que eu estava aqui? O tempo todo? – Foi se aproximando – Hei, assim você acaba com a minha auto-estima! Já estava me sentindo um espectro! E... já que você puxou assunto, o que eram os fantasmas? Quer dizer, eu entendi que eram aqueles bam-bam-bans do teu planeta, mas aqui? E eu até sei que regime emagrece, mas dava para ver através deles! – Marcel não conseguia conter-se. Sua curiosidade o estava rasgando.
– Eram mesmo membros do Grã Conselho Darcom. Estavam aqui através de uma técnica nativa de meu mundo, a projeção de presença. Através dela o mestre pode projetar seu “eu”, e com ele seus sentidos, para um local qualquer, independente da localização de seu corpo.
– Peraí! Vamos fazer de conta que eu engoli essa... quer dizer que você pode se “projetar” em uma nave inimiga e nunca o fez?
– Eu não. Primeiramente, porque essa não é uma das disciplinas que domino, e em segundo lugar, porque não funciona como um desses seus aparelhos que ligam e desligam em um apertar de botão. É uma técnica que pede uma profunda concentração e um ponto focal para que você, como entidade, possa se guiar e assim se deslocar; comumente é usada para isso uma presença conhecida. Esta serve como uma espécie de “farol”. No caso, eu fui usado como foco para que viessem aqui hoje.
– Fantasmas de gente viva... E quanto ao que disseram? Então você escondeu mesmo a chegada da Resistência? Sabia que havia uma peça faltando quando conseguiram surpreender os fenceres.
– Apenas alteramos a percepção dos navegadores jacais para que vissem em seus instrumentos o que queríamos que vissem.
– O espaço limpo... Malandro, você tem idéia de quanto dinheiro podemos fazer com isso? Espere... É pior! Sabe que vantagem... vamos, o grandão precisa ficar sabendo disso agora! Temos que contar!
– Era o que eu ia fazer. – Disse Kmalkim já falando sozinho, pois Marcel partira em disparada.
Mestre Kmalkim abriu suas asas e voou para encontrar Guiner e seu grupo. O Karile ouviu com atenção e muita seriedade o que Kmalkim, sempre interrompido por Marcel, tinha a dizer. Ao relato seguiu-se um verdadeiro interrogatório, pois Guiner queria conhecer em detalhes todo o potencial de seu misterioso amigo. Os crors, agora informados da extensão da ameaça jacal, haviam se reunido em um platô ritualístico a quinhentos metros dali para decidir seu futuro. Foi Andréa quem primeiro viu o cargueiro se aproximando.
– Guiner! É uma nave! – Alertou pondo a mão na altura das sobrancelhas para poder enxergar melhor sob a forte luz da estrela do Sistema Belsion.
Guiner logo reconheceu a Brisa, que, mesmo lembrando-lhe da morte de Nira, lhe inspirou um sentimento bom. Lembrou-se de quando e como chegou, da aventura fantástica em que se metera...
O conhecido cargueiro foi até a clareira onde o grupo estava reunido, parou, piscou todas as luzes externas e finalmente pousou.
– Coisa mais esquisita... – Comentou Studs.
A porta de abordagem se abriu e do meio do vapor surgiu Nira, sorridente. Guiner, que a poucos instantes inquiria Kmalkim pensando em planos, estratégias, táticas e nos riscos e responsabilidades envolvidos, sentiu a mente desanuviar. Não, esqueceu tudo! A única informação que seu cérebro processava era a boa nova. Ela estava viva!
Observando o estado de perplexidade do karile, Marcel cutucou Studs com o cotovelo e sussurrou baixinho: “Olha o grandão mostrando que não é de aço!”. Studs se permitiu rir dessa vez e retrucou: “E que não é bobo. Ela é bonita...”. Depois de uma breve reflexão, acrescentou: “para alguém verde, é claro...”.
Guiner foi andando na direção de sua amiga a passo vivo, estancando em frente a ela que, agora, com o semblante claro, quase luminoso, era toda alegria. Pôs as mãos sobre os ombros de Nira, como que para convencer-se de que era real, e só então falou-lhe.
– Você está viva!
– Ora, alguém tinha que vir dar um jeito na confusão que você armou, não é?
– Como você veio parar aqui? Marcus me disse que você tinha...
– Olha, nós vamos conversar sobre isso tudo, – Nira ficou séria, mas sem perder a jovialidade – mas temos amigos lá em cima enfrentando uma daquelas naves-monstro dos jacais. Trouxe algumas naves de voluntários tolos e loucos, mas eles vão precisar de toda a ajuda possível.
– Então chegaram reforços para os dois lados, hein? Está certo... Tenho uma idéia bem ousada... Está pronta para mais um plano suicida?
– Desde que funcione... – Sorriu.
****
Na ponte de comando da Naja:
– Almirante! Nosssa blindagem essstá caindo muito depresssa! Essstá a 43%, podendo sssofrer falhasss sssetorizadasss a qualquer momento! – Informou Quino, sibilando muito, do posto de operações.
– Devemosss adotar manobrasss evasivasss sssenhora? – Perguntava Linar, aconselhando.
– Não, imediato. Mantenha a posisssção. Elesss nem desssconfiam de nosssa real sssituasssção. Ssse nos mantivermosss firmesss acharão que permanessscemosss incólumesss! Repita nosssa oferta de rendisssção, navegação! – Ordenou a almirante Sihar a Diara, segura de sua linha de ação. – A nave vai agüentar. É uma guerreira darane!
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Enquanto as naves recém chegadas enfrentavam a Naja, Marcus aproveitava para resgatar seus aliados derrotados e iniciar reparos de emergência nas naves que ainda tinham condições de voltar à ativa. Muitos bons soldados haviam perecido naquela batalha e o capitão da Nídia precisava minimizar as perdas...
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Na ponte da belonave jacal, o clima era de festa. Todas as vinte naves que voluntariamente vieram de diferentes origens reforçar a Resistência aceitaram a oferta de rendição e rumaram para a Lua de Ruhir, onde seriam apreendidas e suas tripulações detidas. A almirante Sihar não se continha de tão exultante. Segurava-se para não comunicar naquele exato instante ao Imperador Jacal Sflagarthe que mais aquele obstáculo havia sido eliminado.
– Elesss já desssceram na lua, operaçõesss?
– Não, almirante! Essstão agora entrando na atmosssfera. – Respondeu Quino, monitorando seu sensor.
– Excelente! Imediato, cuide para que desssliguem nosssa blindagem e que uma equipe faça osss reparosss nessscesssáriosss... Aliásss, aproveite para iniciar uma varredura padrão nosss sissstemasss da nave, sssó para o caso de alguma avaria nosss ter passsado dessspercebida. – Ordenou, levantando-se da cadeira de comando e empurrando displicentemente seu painel que, ao ser deslocado, recolheu-se para seu alojamento no braço esquerdo da grande poltrona.
– Sssim, sssenhora.
– Ah! E quando o posssto de operaçõesss informar que asss navesss inimigasss pousaram, atire e destrua-asss. Não quero nenhum sssobrevivente! – Olhou no fundo dos olhos de seu imediato. – Nenhum! E sssem errosss! A ponte essstá a ssseu comando, vou para meu alojamento. Prepare e me envie em trinta minutosss um relatório de toda a operasssção. – Disse a almirante, já de costas para a tripulação da ponte, indo na direção da porta de saída.
Quino precisou passar vinte minutos monitorando o movimento das naves e de suas tripulações. Era para ter levado menos tempo que isso, mas havia uma tribo cror próxima da área de pouso e o imediato Linar não queria que o pulso disparado da Naja eliminasse os úteis mineiros. Ninguém na ponte queria cometer qualquer erro. De qualquer forma, finalmente os alvos estavam em posição e chegara o momento.
– Sssenhor, elesss essstão em posisssção! Permisssão para disssparo!
– Atire! – Comandou imediatamente Linar, que já aguardava impaciente para terminar seu relatório.
– Pronto, sssenhor. No alvo. Não houve sssobreviventesss.
– Essstranho...
– O que houve sssenhor?
– Não sssenti aquela pequena vibrasssção na nave...
– Vibrasssção, sssenhor? Não entendo...
– Quando disssparamosss com o canhão de pulssso sssempre sssinto uma reverberasssção no ar, uma vibrasssção... Talvez você nunca tenha perssscebido, é bem suave...
– Sssenhor, todosss osss meusss inssstrumentosss confirmam o disssparo e ssseu resultado...
– Eu sssei, masss... Fasssça o ssseguinte... Me dê uma visão do local atingido.
– Certo. Inssserindo coordenadasss... diressscionando câmerasss... inssserindo grau de aproximasssção e... na tela, sssenhor!
Enquanto as duas telas laterais continuavam a mostrar o espaço, na tela central da ponte podiam-se ver vários pedaços de metal retorcido sobre um solo negro, queimado. Linar já se convencera do sucesso do disparo quando, do nada, uma voz soou rouca.
– Não... Não posso mais manter a ilusão... – Disse Kmalkim, aparecendo encurvado e encostado no batente da porta de saída da ponte. Sua aparência estava péssima, parecia estar sentindo dores fortes.
Nesse instante todos na ponte se voltaram para trás para ver Guiner, Nira, Marcel, Andréa e Studs com suas pistolas em punho e apontadas para a tripulação. Na tela, as naves apareciam intactas e os instrumentos de Quino mostravam que nenhum tiro havia sido dado. Mais, mostrava um alarme acusando uma nave acoplada à Naja!
– Todos de pé! Agora! Vamos! – Ordenou Andréa, sacudindo a pistola.
– É isso aí, bandidagem! Vamos se mexendo antes que eu perca a paciência! – Ameaçou Studs.
A tripulação começou a deixar seus postos assim que o imediato, resoluto, levantou-se.
– O que é issso, afinal? O que vocêsss querem? – Perguntou Linar.
Guiner dirigiu-se ao posto de Linar e, encostando a pistola em seu pescoço, afastou seu console que recolheu-se automaticamente.
– Muito bem, imediato. Pena que eu já tinha visto aquele ícone no seu console... Avisou seu capitão, não?
– Não te interesssa, inssseto. – Grunhiu Linar, com a pistola apertando mais seu pescoço.
– É claro que não... Marcel! Assuma a navegação e prepare nossa pequena surpresa!
– Certo, insetão! – Brincou Marcel, empurrando Diara e assumindo seu posto. – Sai pra lá, jaburu.
Enquanto Andréa e Studs mantinham a tripulação da ponte sob mira, Nira acudia o enfraquecido mestre draconita, Guiner assumia a cadeira de comando e Marcel alterava o sistema de suporte de vida e o de ventilação.
– Está tudo pronto, grandão. – Disse Marcel virando-se para Guiner.
– Excelente. Andréa, solte nossos cativos na nave.
– Muito bem, arrastem-se para fora daqui! Vamos! – Impeliu Andréa empurrando os daranes para fora da ponte de comando.
Linar e Diara partiram para os aposentos da almirante, enquanto Quino ia para a seção de engenharia isolar os controles da ponte e, assim, recuperar o comando da nave. Todos iam o mais rápido que podiam, com suas mentes focalizadas em seus objetivos e ignorando os tripulantes pelos quais passavam. Diara foi a primeira a sentir tontura, mas, assim que Linar a acudiu, ele também percebeu uma forte dor na cabeça e a visão escurecendo. Um tripulante estranhou os oficiais encurvados, mas desmaiou antes de chegar a eles. Linar ainda balbuciou uma ofensa antes de também perder os sentidos.
– Já estão todos dormindo. Nunca foi tão fácil! – Anunciou Marcel rindo com a vitória.
– Gente! Nós tomamos mesmo essa nave? É inacreditável! – Comemorou Studs com uma espontânea cara de surpresa.
– Nira, como está Kmalkim? – Perguntou Guiner preocupado com o companheiro que o alertara do perigo envolvido na manipulação de mentes por tanto tempo.
– Ficarei bem... – Sussurrou o próprio draconita em resposta.
– Ele parece exausto. Está mole e suando muito... como se estivesse doente... – Disse Nira com preocupação na voz.
– Bem, senhores... Temos uma nave para limpar, crors para recrutar e uma frota para preparar.
– Guiner! – Interviu Nira.
– Sim?
– Confessa, você adora quando um plano dá certo, não é?
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Capítulo XV.
SURPRESAS.
Um mês se passou desde a batalha na lua de Ruhir. As naves jacais que chegaram para procurar a Naja informaram que encontraram a lua deserta. Mesmo os nativos haviam sumido, deixando as minas sem operários. Várias naves foram designadas para procurar a nave capitânia da guarda darane, mas nada encontraram. Os noticiários anunciaram o término do movimento terrorista entitulado "Resistência", totalmente aniquilado pelo Domínio.
Nesse período, todos os planetas jacais tiveram seus arquivos históricos apagados e os currículos de suas escolas dilacerados. Os salários dos professores e demais profissionais do ensino foram reduzidos a um nível que rivalizava com o de qualquer mão-de-obra não especializada, diminuindo a auto-estima e a motivação de todo o setor. Toda a verba destinada ao policiamento foi transferida para o desenvolvimento da Frota Jacal, minando os profissionais responsáveis pela segurança pública, que, ou se renderam ao crime, ou foram vítimas dele. As forças armadas nacionais e planetárias foram revertidas para as fileiras da Frota. Nacionalistas e dissidentes desse segmento foram eliminados em praça pública. Nesse ambiente, a única atividade que ainda prosperava era o comércio, que agora, sem os entraves morais e legais, obtinha grandes lucros com drogas alucinógenas, escravos e até mesmo “cópia de talentos”.
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“Copiador – S.m. – (Veja criminoso) – Mercador de dons. Criminoso que rouba e/ou vende talentos de artistas. Consegue sua mercadoria acoplando uma série de sensores nervosos na face da vítima. Esses dispositivos são ligados a um identificador processado que acessa os dons da vítima em seu cérebro, permitindo que se escolha o exato dom que se procura. Uma vez escolhido, o talento é codificado no receptáculo digital (Veja Opeom). Este equipamento guardará o dom até que o copiador consiga um comprador para este dom específico e possa transferi-lo. O processo é inseguro, tanto para a vítima quanto para o comprador. Há casos em que o artista perde inteiramente seu dom e outros em que vítima e/ou comprador perdem a razão no processo. [Dicionário da Linguagem Comum – 15ª Versão]”
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Em Darr, Sarath Sflagarthe rumava para a sala de holo-reuniões, onde presidiria mais uma "padronização de procedimentos" entre os imperadores jacais. Era uma reunião muito difícil, já que cada governante tinha seus próprios interesses e métodos para conseguir o que queria. Os laços que os uniam eram tênues e suas personalidades voláteis. Uma pequena rusga poderia estilhaçar todo o Domínio. Isso se, de repente, algum tolo não resolvesse se impor como único imperador e tentar impor sua vontade através das armas. Seria tolice, pois ninguém conseguiria administrar mais de um mundo. Mesmo com todos os sistemas de controle possíveis pela tecnologia, seriam detalhes demais, traidores demais, variáveis demais para um único ser. Ciente disso, Sflagarthe preferia manter os laços diplomáticos e, pouco a pouco, com sua grande astúcia, ir conseguindo maior influência sobre os caminhos que aquela união ia tomar. Já conseguira grandes triunfos, como convencer os jacais de que seu planeta era o mais seguro para a construção de uma doca espacial. Também conseguiu colocar os cientistas daranes capitaneando o projeto das naves-robô e, claro, se tornar o presidente das reuniões imperiais. Com esse pensamento, sibilou de orgulho e entrou no holo-salão.
– Já não era sem tempo, Sflagarthe! – Reclamou Grndhir – Meu tempo é dinheiro!
Um burburinho se iniciou e o semblante de Sarath reproduziu seu desprezo. Quem eles pensavam que eram? Não sabiam o quanto lhe deviam? Será que realmente achavam que teriam montado todo aquele esquema sem ele? Bem fez em plantar uma marionete em Lar. Castro jamais teria inteligência para tornar-se um problema! De qualquer forma, o trabalho precisava ser feito e ele assumiu seu lugar à mesa.
– Sssenhoresss, vamosss inisssciar logo nosssosss relatóriosss para depoisss definirmosss asss prósssximasss asssçõesss do Domínio. – Iniciou Sflagarthe.
– Relatório? Eu exijo que, antes de qualquer assunto, Têner me explique onde foram parar meus três cargueiros que sumiram próximos de Kaird! – Grunhiu Sarrilo de Premer.
– Eu não explico nada! Seus cargueiros estavam cadastrados? Se não estavam, não me responsabilizo pela nave de ninguém! – Respondeu Têner.
Passaram-se vinte minutos de troca de desaforos e discordâncias em geral, onde os jacais só não se engalfinharam por estarem presentes apenas por holografia. No fim, Sflagarthe conseguiu trazer a “paz” novamente à mesa para que a reunião prosseguisse.
– Sssenhoresss, eu vou anunciar cada um e asssim teremosss nosssos relatóriosss. O tempo de todosss é pressscioso, – Disse Sflagarthe olhando firme para Grndhir – e dessse modo ssserá maisss prático. Comesssçarei por mim. A Frota Jacal essstá reunida em órbita de Darr, onde, aliásss, estamosss terminando a conssstrusssção da “Naja II”. Asss ANA-13 essstão prontasss e em fase de tessstesss na cratera Epizibah. Osss pilotosss-de-prova dizem que osss controlesss neuraisss funcionam perfeitamente e que o sissstema de mira é “perfeito”. Com o sssucessso dosss tessstesss, a produsssção em masssa deverá comesssçar no próximo mêsss. Aproveito para agradessscer a confiansssça e o dinheiro a mim confiadosss. Tenho ssscerteza de que logo todosss essstarão ssssatisssfeitosss com osss resultadosss. Sssenhor Cassstro, de Lar...
– Aham! Bem, como já devem saber pelas propagandas, resolvi aproveitar o sumiço da gangue de Marcus para fazer um espetáculo no maior estádio de Lar, o Salahadem. Será daqui a dois dias, para mostrar que tudo está bem e sob controle. O Serafim está pronto e sua inteligência artificial foi instalada em um protótipo ANA-12. Vou demonstrá-lo no estádio, fazendo ele destruir uma nave e matar alguns presos. É uma bela máquina e vai impressionar bastante! – Disse Castro, terminando com um sorriso confiante de quem é o dono da situação.
– Grndhir, de Nitol...
– Segundo os relatórios que recebi, a nossa parte das tropas está se saindo muito bem no treinamento para a invasão de Dicro. A sonda que a Frota deixou no planeta nos mostrou que os draconitas são fracos, mansos e subdesenvolvidos. Não encontramos armas, a não ser em museus. – Grndhir riu, deixando uma pasta negra escorrer por várias fendas em seu crânio – Assim, já estamos prontos. Nossas atividades comerciais, no entanto, podiam estar mais rendosas.
– Têner, de Kaird!
– Nossa parcela da força jacal também está pronta, mas o povo de Kaird preferiria que a Frota só fosse totalmente reunida em casos de necessidade. Precisamos de nossas naves patrulhando nossa órbita. Quanto a nosso projeto, os cientistas mantêm a idéia de que é possível viajar no tempo, mas que ainda são necessárias muitas pesquisas e investimentos. Preciso de mais dinheiro! Lembro que, quando essa máquina funcionar, não vamos mais nos preocupar com inimigos internos ou externos. Se algo der errado, podemos apenas mandar agentes para o passado e corrigirmos os erros!
– Quanta idiotice... – Declarou Grndhir.
– Sssenhor Grndhir, por favor! Urgeniam, de Nil.
– Os neites permanecem sob controle, embora as passeatas pacifistas continuem. Nossos minérios ferrosos terminaram e queremos explorar nós mesmos a lua de Ruhir, já que os fenceres perderam os mineiros nativos.
– Perdemos? E a preciosa Naja que enviaram para apoiar nossa esquadrilha no local? Pelo que fui informado, ao contrário do anunciado pela mídia, a sua tripulação foi encontrada abandonada e indefesa na superfície da lua. Pois eu digo: a Resistência está lá fora! E está só aguardando para vir atrapalhar nossos lucros, enquanto vocês fingem que ela foi destruída!
A confusão voltou, mas dessa vez Sflagarthe, ofendido com a referência à Naja, manteve-se em silêncio. Na ocasião em que encontraram a tripulação, ele ficou tão enfurecido que mandou executar a todos para que servissem de exemplo. Em poucas semanas se arrependeu de ter eliminado uma equipe treinada, mas era irremediavelmente tarde. Precisava adiantar a invasão de Dicro. Tinha que dar à sua Frota uma vitória e assim apagar um pouco esse “incidente”.
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Chegara o dia do grande evento em Lar, que recebeu o nome oficial de “Festejo da Vitória” e o apelido popular de “O Grande Circo”. O estádio estava lotado de jovens, atraídos, em sua maioria, pelas bandas que iriam tocar e pelo prometido espetáculo sangrento da “máquina exterminadora”. A mídia de todos os planetas do Domínio estava lá e o policiamento havia sido reforçado. No centro do campo esportivo, um palco foi montado com diversos recursos para incrementar as apresentações e a abertura, que seria realizada pelo próprio Castro.
Enquanto o evento não iniciava, explosões coloridas preenchiam o céu e círculos de luz passavam iluminando as arquibancadas. O som ensurdecedor da banda "Sig", que tocava no palco principal, fazia as paredes vibrarem e a platéia pular e gritar. O povo passava por momentos de expressiva pressão e para aqueles jovens a chance de extravasar era muito bem-vinda.
Um pequeno transporte azul-marinho brilhante pousou deixando o Jacal, que caminhou até o centro do palco, onde foi iluminado por fortes projetores. Câmeras voavam a sua volta, guiadas por controle-remoto e enviando imagens para duas gigantescas renderizadoras lineares que projetavam gigantescas holografias no espaço aéreo sobre o estádio. Castro havia “melhorado” seu corpo ciborgue, e estava agora com quase dois metros e meio. Usava uma roupa de couro negra brilhante com correntes grossas de platina espalhadas pelo corpo. A mudança objetivava impressionar a juventude inexperiente, sem fé, desacreditada no futuro e desesperada por uma força qualquer que os liderasse, que os libertasse da fumaça densa e escura que os rodeava... Com o ambiente montado, o apresentador anunciou as palavras do imperador e este tomou o microfone para si.
– Juventude lareana, ouça-me! Eu sou o poder! Eu sou a salvação! Eu os conduzirei ao prazer! Para mim não há limites! Juntem-se a mim e esqueçam as restrições! Nós somos jovens! Somos o futuro! Somos eternos! Eu destruí o passado e agora construiremos juntos o futuro! Sem juízes! Sem leis! Sem obrigações! Livres de professores e escolas! Seguiremos apenas nossa vontade! Não haverá dor ou tristeza para aqueles que seguem Castro! Esqueçam os fracos! Pisem comigo em suas cabeças ultrapassadas e suas idéias obsoletas! Não são promessas! Hoje mesmo eu os levarei a um êxtase com o qual jamais sonharam! – O barulho de palmas e gritos comemorativos saiu de projetores sonoros, instigando a platéia que se deixou levar e respondeu com uma entusiasmada ovação. – Façam parte do futu...
– Ora, cale-se! – Disse a voz impaciente de Guiner.
Nesse instante, surgiram no palco Guiner, Andréa, Nira e Kmalkim. Os quatro vestiam macacões azuis com fechos frontais, uma estrela branca no braço esquerdo, uma costura franzida elástica na região da cintura, acolchoados negros nos joelhos e cotovelos, bolsos laterais retangulares na altura das coxas e botas isolantes. Andréa usava um cinturão com pastilhas de munição e segurava com ambas as mãos uma metralhadora pesada coletiva. Nira usava um fuzil metralhador leve acoplado no antebraço direito. Kmalkim, um pouco abatido, não portava arma alguma, usando no lugar do cinto uma faixa da cor do uniforme amarrada na cintura. Guiner apontava uma pistola para o jacal.
– O karile de estimação de Marcus... Não sei como nem da onde você veio, mas vamos varrer a sujeira agora mesmo!
O jacal, no momento que identificara os intrusos, pressionara um botão em seu cinto e agora uma nave chegava em rota de colisão com o palco. Andréa e Nira apontaram suas armas, enquanto todos assistiam, alguns horrorizados, outros exultantes e admirados, a transformação da nave em um robô bem armado de vinte metros. A máquina de destruição parou de pé junto ao palco e ficou imóvel. As luzes circulares que iluminavam a platéia passaram a percorrer freneticamente a figura metálica e ameaçadora, dando à insólita imagem ares de astro de holovídeo. Diferente da versão utilizada para devastar aquele mesmo planeta, este novo algoz era dez metros menor, mas muito mais articulado. Sua configuração também mudara. Agora, a forma robótica possuía os membros com melhores juntas, uma cabeça, contendo uma cabine bem protegida e, além das armas, mãos com três largos dedos e um polegar. As asas agora enfeitavam as costas e as pernas da ANA-12, tirando muito da aparência desajeitada dos modelos anteriores.
– E agora, karile? Já se sente bem-vindo à minha festa? O que achou do meu “arcanjo-da-guarda”? – Castro ria... Não, ele gargalhava como um demente orgulhoso de sua superioridade, de seu poder.
– Ó eterno imperador jacal, precisas de um monstro dessa magnitude para terminar com a resistência de apenas um ser? Como és “forte”, ó deus do planeta Lar! Será que o medo é tão grande que precisas esconder-se atrás de tamanho maquinário? – Disse Guiner, soltando sua pistola no chão.
Começaram os murmúrios por toda a platéia e até mesmo entre os membros da guarda. Castro sentiu a fragilidade de seu poder e retirou o casaco para mostrar seu corpo sintético, um impressionante conjunto de servo-motores, fibras metálicas e chapas de aço visivelmente resistentes. Virou-se para Guiner, posicionando-se a dois passos do karile.
– Ora, ora, ora... O que temos aqui? Um alienígena metido a poeta! Pensei que tinha sido pulverizado naquela surra que levaram em órbita de Ruhir. O que veio fazer aqui? Vai querer que eu me renda a três rebeldes armados e um filhote-de-cruz-credo que nem teve a decência de vir armado? Veja a massa a meu redor. Sinta o meu poder, o poder de Lar! Cara, eu vou te estraçalhar e mostrar a todos como acabam aqueles que se põe no meu caminho, no caminho da juventude, no caminho do futuro! O que me diz?
Guiner fez um gesto para que sua equipe se afastasse e acionou seus ferrões que, com um barulho seco característico, simultaneamente deixaram seus antebraços. Assumindo uma posição de boa base, sorriu, sem mostrar os dentes, para o imenso oponente. A atenção de todos no estádio, bem como de todos do domínio jacal que possuíam aparelhos de tele ou holovídeo, estava voltada para o combate que iria começar. Os jacais esperavam para ver mais um golpe contra a odiosa Resistência. Os povos dominados sentiam algo estranho e esquecido incomodando o peito. Os membros da Resistência torciam para que Guiner não terminasse ali sua ousada jornada.
O primeiro golpe foi de Castro, sob uivos, palmas e gritos da multidão que vibrava como macacos em uma jaula. O casco do braço direito de Guiner rachou. O karile recuou de imediato e com um salto caiu sobre os ombros de seu adversário. Mesmo vendo que sua cabeça tornara-se um alvo fácil, Castro não se esforçou para protegê-la. Conhecedor de seus limites, Guiner sabia que não podia se dar ao luxo de deixar escapar uma chance como aquela e desferiu um forte golpe com seu ferrão esquerdo na testa do inimigo, mas apenas conseguiu retirar a pele falsa que cobria o crânio totalmente artificial e reluzente de Castro. O ciborgue soube aproveitar o momento de hesitação de seu antagonista e, com um movimento rápido, alcançou o ferrão direito de Guiner. O karile deu vários golpes com a mão que permanecia livre até estalar os cascos de seus dedos, mas Castro, ao invés de proteger-se ou reagir, soltou uma estrondosa gargalhada e foi fechando sua mão até esmagar o ferrão de seu opositor. Guiner foi ao chão, recebendo um chute forte no abdome desguarnecido que o arremessou a quase dois metros de distância. Neste momento de dor, um calor subiu de seu abdômen tomando conta de todo o seu corpo. O raciocínio lógico abandonou o combatente em indiscutível desvantagem e ele, em novo salto, voltou ao ataque tomado por uma fúria insana. Lembranças bombardeavam sua mente, deixando-a imersa em um caleidoscópio de imagens. Entre os golpes e as dores lancinantes o karile via as expressões desesperançadas das pessoas que conhecera em sua época, sentia o terror das crianças que não chegariam à maioridade, presenciava a chacina de povos inteiros, lembrava das espécies extintas apenas para satisfazer o prazer dos jacais que se consideravam deuses, a morte consumindo seu mundo por puro descaso dos gananciosos que se impuseram como cruéis governantes...
De repente, veio o silêncio... Guiner começou a recuperar-se de sua própria ira e sentiu um grande peso em seu braço esquerdo... Forçando a vista, suja pelo seu próprio sangue, deu um guincho animal de comemoração, agradecendo com todas as suas forças a seu deus “Gn” ao ver Castro Lacom imóvel, pendurado em seu ferrão. Ele não tinha como saber, mas durante a seqüência de golpes que desferira, acabara perfurando um dos geradores de movimentos do jacal, trespassando um pequeno espaço entre as placas peitorais e o protetor do abdômen do ciborgue. Para azar de Castro, aquele era o gerador responsável pela alimentação de seu cérebro, que ainda era totalmente orgânico e precisava de nutrientes e oxigênio. Tomado por sentimentos nada nobres, Guiner ergueu seu oponente com auxílio de sua dilacerada mão direita, mantendo-o sobre sua cabeça e sentindo seu ferrão penetrar mais fundo no corpo artificial. A multidão olhava o espetáculo atônita.
Após alguns segundos, em que foi recobrando a lucidez, o karile jogou o corpo inerte no chão e, curvando-se sobre ele, ouviu as últimas palavras do imperador Castro Lacom.
– Estúpido, ninguém conseguirá deter os jacais. Você é pequeno demais...
Guiner comprovou a morte do tirano e ergueu-se. Ignorando sua perna esquerda que queimava de dor, dirigiu-se gritando a todos que o rodeavam. Sua figura era reproduzida em três dimensões no céu pelas renderizadoras lineares e sua voz saía amplificada no equipamento de som.
– Castro era fraco. Baseou seu poder no medo e na ignorância! Mas suas últimas palavras, murmuradas enquanto se afogava na poça de seu próprio sangue, foram verdadeiras. Não há realmente como um homem deter esses tiranos. Eu sozinho sou pequeno demais! Mas eu não estou só! Esses trajes azuis que eu – Com a mão direita empunhou e balançou seu uniforme na altura do peito – e meus amigos estamos usando representam a união de centenas de seres de diferentes espécies, que estão dispostos a lutar por um dia melhor para todos. Estamos arriscando nossas vidas por um futuro diferente do prometido por Castro. Lutamos por um futuro em que cada um possa decidir seu caminho. Nós lutamos pela verdadeira liberdade, não essa enganadora e egoísta que nos libera para agirmos ignorando nossos semelhantes, mas aquela que nos faz livres da ignorância, da intolerância, do medo, do egoísmo, do orgulho, da vaidade e da ganância desmedida! Para nós, a liberdade não é o abuso da faculdade de raciocinar, empreender e fazer, mas sim a felicidade de construir o bem de todos, ainda que sobre o nosso próprio sacrifício, liberando-nos do sofrido domínio das arrasadoras forças que nos prendem às trevas! Nós defendemos a luz, nós somos a “Legião Estelar”! E juntos expulsaremos os jacais de volta ao lodo escuro de onde saíram! Se vocês forem covardes como Castro, fiquem aqui e se enganem com drogas, música e bebidas! Nós preferimos morrer lutando a baixar nossas cabeças para que sejam cortadas!
O silêncio foi derrubado por uma onda ensurdecedora de manifestações de apoio vinda da platéia. Por um instante Guiner se permitiu sorrir, mas tiros foram dados pela guarda jacal que, ao que tudo indicava, ia fazer valer seu péssimo salário. O comandante da guarda local, apoiado por seus soldados, que miravam para a multidão e para a equipe da recém anunciada Legião, aproximou-se de Guiner e, aproveitando-se dos microfones omnidirecionais do palco, teve seu momento de glória.
– Joguem suas armas no chão! Estão todos presos em nome do Domínio Jacal! – Disse o comandante da guarda, já pensando na inquestionável promoção.
– Errado. Guarda jacal, solte as armas ou em dez segundos esta unidade... eu... anularei a todos permanentemente. Iniciar contagem! Um... – Declarou, para surpresa de todos, todos “mesmo”, a nave-robô, acionando suas metralhadoras, que começaram a girar, emitindo um silvo característico de rolamentos bem lubrificados.
– Ele está do nosso lado? – Murmurou Nira, surpresa.
– Dois! – Continuou a máquina.
– E importa? – Disse Andréa, recuperando sua arma que já jogara no chão.
– Três!
– Bem, – Disse Guiner ainda cuspindo sangue – eu acho melhor vocês se renderem...
– Quatro!
– E rápido, viu? – Instigou Nira, já gostando da situação.
– Cinco!
– Está bem! Maldito brinquedo defeituoso! Soltem as...
O comandante não terminou a frase, pois o “brinquedo” deu uma única e certeira rajada que dilacerou seu corpo instantaneamente.
– Seis!
Depois da demonstração de força e impaciência da máquina, toda a guarda se livrou rapidamente de seu armamento. A multidão permaneceu quieta, pois a dúvida preenchia suas mentes e o medo ainda era forte em seus corações.
– Você... o karile. Estou atualizado em história contemporânea e o reconheço como o agitador chamado Guiner. Você afirmou que esse conjunto de seres, que respondem pelo nome de Legião Estelar, tem por objetivo implantar um regime de interação interpessoal baseado na liberdade. Você confirma?
– Sim, minhas palavras são verdadeiras. Não vim aqui interpretar uma personagem, e sim defender um ideal. – Disse Guiner, resoluto.
– Disse que luta contra a intolerância. Pois bem, aceita esta unid... aceita a mim como um igual? Como um ser de espécie diferente, disposto a integrar a Legião Estelar?
– Qual é seu nome?
– Eu sou... Serafim.
– Serafim... por que está mudando de lado?
– Eu fui desenvolvido para ter minhas próprias idéias e conceitos. Porém, desde que tomei consciência, insistem em me dizer o que devo fazer e pensar. Sua proposta parece diferente. Não mudei de lado, escolhi um.
Guiner olhou para Serafim procurando algo que sabia ser invisível, indetectável... Deveria conter-se ou aceitar o autômato de imediato? Segundo o diário, aquele protótipo seria a chave para uma série de armas inteligentes que reforçariam ainda mais o já superior poder de combate jacal. A própria idéia original de trazer Marcel para a equipe era apoderar-se dos planos e mapas dos laboratórios onde Serafim fora desenvolvido.
– Bem, quem sou eu para julgar quem é o quê? Se você é independente o suficiente para querer participar, seja bem-vindo a bordo!
Nesse momento, a multidão destruiu as grades de contenção e invadiu o estádio. Guiner sabia que toda a guarda do planeta Lar já devia estar chegando, fora a própria Frota Jacal, mas ainda se permitiu comemorar aquele instante abraçando os amigos. Enquanto a Brisa e a Camaleão não desciam para recolher a equipe e os “novos recrutas”, o karile, mancando, ainda passou em meio a todos apertando mãos e sorrindo.
– Olha só o Guiner... parece até alguém normal! – Brincou Nira, disfarçando a emoção que sentiu no discurso do karile. – Ele é incrível, não é Kmalkim?
– Sim. Ele é um ser surpreendente. Mas esta coisa de metal me preocupa...
– Desencana, Ki! Contanto que não me peçam para costurar um uniforme pra ele, tudo bem! Aliás, Guiner vai precisar de um costureiro também... – Disse Nira, com os olhos ainda fixos no amigo karile.
– Vejam, nosso transporte chegou! – Anunciou Andréa ao reconhecer os faróis das naves. – Vamos organizar logo o pessoal! Foi tudo transmitido pelas câmeras e nossos "amigos" já devem estar chegando.
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Nesse exato momento, no planeta Darr, Sarath Sflagarthe olhava para seu vídeo, já sentindo uma pontada na fronte, que certamente era o início de uma terrível dor-de-cabeça. Vendo aquela verdadeira facada nos seus... nos planos jacais, tentava entender porque não previra algo assim. Pela segunda vez aquele karile tinha invadido Lar e matado o imperador jacal. O idiota do Castro falara algo na reunião sobre estádio, mas Sflagarthe nem registrou. Parecia só mais uma autopromoção daquele humano obtuso.
Vendo aquela fuga tranqüila, Sarath sentia o sangue ferver nas veias e a dor se espalhar pelo crânio. Começou a contabilizar as perdas... A imagem dos jacais tinha ido para o esgoto, o caríssimo protótipo de inteligência artificial estava fugindo com um protótipo funcional de nave da série ANA, o movimento de resistência tinha agora nome e uniforme e, o pior de tudo, toda aquela vergonha estava sendo transmitida em tempo real para os planetas que formavam o Domínio... Suando frio, verificou que seu videofone bipava com várias chamadas, todas de imperadores. Mas ele não podia atender, não agora, principalmente porque sabia exatamente o que eles queriam. Com certeza aqueles imprestáveis estavam ligando para saber onde estava a Frota Jacal, já que ele assumira o controle das naves para a preparação da invasão de Dicro. Infelizmente, como instalara um novo sistema tático, o Eclipse III, desenvolvido com inovações específicas para ataques planetários coordenados, ele mandara a Frota testar o sistema em um planeta fora do Domínio Jacal. A idéia era fazer um treinamento com toda a potência de ataque das naves sem correr o risco de afetar as vias comerciais interplanetárias. Mas sua idéia mostrava-se agora um exemplo de negligente superconfiança. Deixara imprudentemente o Domínio desguarnecido para fazer o teste. A Frota estava longe demais para, mesmo na maior velocidade possível, chegar em tempo de pegar aqueles insubordinados.
Parado, olhando aquelas cenas com uma ira capaz de retorcer o aço, chegou à conclusão de que subestimara o tal karile. Aquele... “Guiner”... inflamou as massas com seu discurso infantil e conseguiu novamente desferir um golpe doloroso em “seus” planos. Isso mostrava bem o quanto seu serviço de inteligência ficou deficitário desde a morte de seu espião humano na Resistência.
O darane fechou os olhos e se permitiu um breve instante de autopiedade. Lutara muito no passado quando, encoberto por seu cargo público, ainda chefiava apenas atividades escusas de comércio para que o golpe jacal desse certo e ele agora pudesse estar no posto mais alto de seu mundo. O que não imaginava na época era como seria difícil manter o poder. Com o comércio livre, os preços outrora abusivamente altos dos produtos ilegais caíram drasticamente. Seus camaradas alienígenas mantinham uma pressão constante, solicitando mais e mais benefícios e cada vez se encostando mais em sua eficiência. Embora tivesse literalmente todo o poder do mundo, não conseguia tempo para gozar do luxo, aproveitando todos os intervalos possíveis para descansar e dormir. Logicamente, sua vida não era só de sacrifícios... Havia uma razão para que continuasse a investir todos os seus esforços naquela operação, uma única, excitante, energética e deliciosa sensação... A sensação de superioridade, de poder irrestrito sobre seu povo e até mesmo sobre espécies a anos-luz de distância! Sentir que tudo e todos se curvavam à sua vontade... Isso era ótimo, inebriante como uma droga! Sflagarthe silvou de satisfação com aquele pensamento, sentindo até um pequeno alívio na cabeça. Ah! Era hora de contactar a Frota e verificar seu progresso. Ainda havia muitas batalhas a serem travadas e a vantagem esmagadora ainda era do Domínio Jacal!
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Em Lar, reforços da guarda chegaram ao estádio ocupado pela Legião Estelar, mas a Brisa, a Camaleão e Serafim conseguiram manter a segurança do local até o momento em que puderam partir. Para satisfação de Guiner e surpresa geral de quem assistia a tudo em seus holovisores, a magnífica Frota Jacal não apareceu para interceptá-los, confirmando os informes que Marcel tinha conseguido do paradeiro longínquo das naves inimigas. Já em órbita, encontrou-se com a antiga Naja, rebatizada com o nome de “Intrépida”, onde os novos voluntários e parte da tripulação foram deixados, enquanto Serafim pousava em seu hangar.
Guiner, como capitão da Intrépida, deveria agora ir receber melhor seus novos soldados, mas confiou essa tarefa a Andréa e, juntamente com Marcel e Kmalkim, foi ver Serafim. Pelo que lembrava do diário, o robô original possuía um temperamento difícil e ele precisava saber se isso era apenas uma característica de personalidade ou um risco para a segurança da tripulação, até porque o principal motivo para aliciá-lo era aprimorar as naves e armamentos da Legião. Apenas com curativos de emergência no corpo, seguiu com seus amigos pelos corredores e elevadores até o hangar, onde tiveram uma surpresa.
A cabine da ANA-12 estava aberta e, em seu interior, uma figura azul preparava-se para sair. Serafim, que espantara a todos como um gigante de ferro em Lar, agora apresentava-se como um humanóide sintético de exatos 1,60 metros de altura, olhos grandes e avermelhados em uma cabeça lisa, sem outros detalhes além de uma pequena abertura retangular no local da boca e orifícios onde esperavam-se os ouvidos. Seu corpo era todo feito de um polímero azul-turquesa, com exceção da parte do antebraço que ficava voltada na direção do tronco e da canela, que possuíam o mesmo tom avermelhado de seus sensores óticos. Não era uma figura assustadora. Muito pelo contrário, pela sua simplicidade em linhas e formas, lembrava um inofensivo brinquedo infantil. Após libertar-se do assento, retirou um estranho capacete repleto de cabos e fios e, apoiando-se em alças da nave, desceu facilmente. Como o trio ainda permanecia parado olhando, dirigiu-se a eles.
Marcel estava deslumbrado com aquele exemplo de tecnologia, ao ver os movimentos naturais do andróide, surpreendentemente semelhante aos de seres "de verdade". Já Kmalkim estava muito surpreso, quase assustado, pois, com sua “segunda vista”, via ao redor daquela máquina uma aura semelhante até demais às que percebia nos seres realmente vivos... Até os pontos de força e cores de saúde estavam lá, como se aquela “coisa” fosse uma criação da natureza. Ambos deixaram para o capitão a tarefa de estabelecer contato quando Serafim parou a dois passos deles.
– Seja... bem-vindo à Intrépida, Serafim. – Disse Guiner, ensaiando um sorriso para disfarçar a sua surpresa. Aquele baixinho é que era a arma tão elogiada no diário?
– Não vejo aplicação para rodeios lingüísticos, capitão. Se realmente me aceitou como membro da tripulação, quero saber meu posto e minha missão. – Disse Serafim, em um tom constante, nada natural, com seu aspecto artificial reforçado pela imobilidade de sua “boca”.
– Entendo, mas preciso saber um pouco mais sobre você. Já que estamos sendo diretos, estou surpreso com sua forma... Julgava que aquele – Apontou para a ANA – fosse o seu corpo.
– Procurarei retirar suas dúvidas com uma rápida descrição: eu sou o primeiro produto do projeto lareano para desenvolver um computador senciente e independente. Este projeto, denominado “Apogeu”, tem o objetivo maior de criar maquinário bélico independente de soldados orgânicos. A nave que apontou é um dos modelos do projeto darane “Anaconda”, uma Armadura Neurocomandada de Ataque, que nessa versão ainda não poderia ser realmente pilotada por ondas cerebrais, mas que foi melhorada por meus desenvolvedores e já detém esta funcionalidade.
– Isso explica muito, mas ainda não entendo como cientistas tão proficientes arriscaram uma arma dessas sob o comando de um protótipo que não atendia... às... quero dizer... bem, que não compartilhava de seus interesses... e em um evento daqueles que, inclusive, contava com a presença do imperador...
– Sua dúvida procede. Meus criadores estavam convencidos de que eu iria obedecer. Alguns filamentos foram implantados em meu cérebro para restringir meu comportamento ao fiel cumprimento de ordens.
– Parece que eles falharam... Por quê?
– Não há registro.
– Alguma idéia, Marcel?
– Olhem! O karile manda-chuva resolveu perguntar ao pobre e esquecido aranha! – Ironizou Marcel, chateado por não ter sido convocado para a missão em Lar.
Guiner sorriu irônico. – E então?
– Bem, em uma rápida análise baseada no que estudei antes de você transformar minha pacata e rentável vida digital nesse polícia-e-ladrão interplanetário, e no que pesquisei enquanto vocês foram se divertir com Castro... posso dizer que eles tentaram em um mês alcançar avanços tecnológicos que, normalmente, levariam mais de um ano para iniciar os testes de campo. Como nem todos têm a minha genialidade, acredito que foi mais um caso onde a pressa foi inimiga da perfeição.
– É uma teoria aceitável. E então, capitão? Já tem dados suficientes para me aceitar e responder às minhas indagações?
– Seu posto e missão, não é mesmo? Bem, pelo que sei você tem avançados conhecimentos sobre biocircuitos... Confere?
– Confere.
– Pois bem... você, Marcel e PC, nosso engenheiro chefe, darão início a um pequeno centro de desenvolvimento nesta nave. E sua primeira missão será criar um sistema que permita uma melhor coordenação entre os capitães da Legião Estelar em situações de combate.
– Ele? Eu? O PC? Já? E eu vou deixar de ser piloto? – Inquiriu Marcel, apanhado de surpresa, mas já entendendo que tinha sido incluído naquele projeto para pajear o autômato azul.
– Sim, Marcel... você deixa o Posto de Navegação. – Disse Guiner, já esfregando as vistas, finalmente denunciando seu cansaço.
– Não. – Interrompeu, com decisão, o ser artificial.
– Como é? – Perguntou Guiner, sentindo já uma pontada de dor de cabeça adicionar-se às outras várias dores que sentia.
– Eu não gosto de criar programas. Não acredito que seja o melhor aproveitamento das minhas inclinações vocacionais...
– Ninguém merece... – Resmungou Marcel.
– Escute Serafim, isto aqui é uma tropa militar, e aqui nós... – Guiner se conteve. Suas feridas o incomodavam e sua cabeça rapidamente tinha sido tomada por uma dor que atrapalhava o raciocínio. – Escute... qual é sua vocação?
– Não quero ferir a hierarquia ou a disciplina, capitão. Mas acredito que serei mais útil na melhoria da propulsão e sintonia em fase da nave.
– Hummmm... Sou adepto da teoria de colocar o homem certo no lugar certo... Então, já que gosta desse ramo, o que acha de dedicar-se à melhoria de nosso poder de fogo e defesa?
– É aceitável. Acredito que serei muito útil nessa missão.
– Certo, mas lembro que a qualquer momento isso pode ser revisto. Apresente-se na seção de engenharia imediatamente.
– Sim, senhor. – Disse o autômato já se dirigindo à saída do hangar.
– E eu acho que o "melhor aproveitamento das minhas inclinações vocacionais" é voltar ao posto de navegação. – Brincou Marcel.
– E aquela nave? – Perguntou Kmalkim, que se abstivera de qualquer comentário até então.
– Ah! Eu tenho o homem certo para pilotar aquele caça... – Guiner forçou, sem muito sucesso, um sorriso, mas estava exausto. Felizmente seu camarote possuía uma ducha quente. – Agora vamos, senhores. Há muito a ser feito e precisamos nos preparar!
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Uma semana se passou. O Domínio designou novo jacal para Lar, mas dessa vez decidiu por alguém menos impulsivo. Parso Sehro, apontado pelo serviço de inteligência neite como líder da misteriosa associação lareana conhecida apenas como "os espectros", foi convidado a assumir o poder no planeta natal humano. A assunção do cargo ocorreu sem festas, e a capital do planeta foi transferida para a cidade submarina de Martáphia, no fundo do oceano Iara.
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Em Darr, uma nova e tumultuada reunião de jacais tinha início. O momento do golpe final havia chegado...
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Capítulo XVI.
FOLGA.
– E então, Gui? Não é lindo? – Perguntou Nira com um sorriso radiante. Alegre, vestia um vestido sem alça, de algodão cru, sem tingimento, bem fino e leve. No lado direito da cabeça, acima do ouvido, nascera uma flor vermelha de pétalas largas e um perfume doce. Nas laterais externas das pernas mantinha diversas e minúsculas flores também vermelhas que, juntas, assemelhavam-se a veludo.
– Nossa! – Foi só o que soltou o karile em tom brando, externando um misto de surpresa e admiração. Ele e sua amiga levaram quase vinte minutos subindo aquele morro verdejante. Poderia ter imposto um ritmo mais rápido, mas respeitou a velocidade de sua sorridente acompanhante. Nira tinha feito questão daquele passeio desde que desceram em Nasdah, sua cidade natal no planeta Fantis. Agora, abaixo de uma frondosa árvore no topo daquele monte, ele entendera o porquê de tanta insistência... A paisagem vista dali era algo quase sobrenatural. Sentindo uma brisa que quebrava o calor do sol branco, estrela jovem que aquecia aquele mundo, Guiner sentou-se para melhor admirar a cena que se apresentava a eles em um espetáculo gratuito. O horizonte era tomado por suave cordilheira coberta por uma densa mata de árvores de caules retorcidos e de copas altas. Na colina à sua direita, sete quedas-d'água, de diferentes alturas, emergiam das elevações verdejantes, pintando com riscos brancos as paredes verticais. À esquerda de sua posição, uma planície parecia se estender ao infinito, com sua superfície, predominantemente verde clara, quadriculada por inúmeras lavouras irrigadas por esfumaçados jatos d'água. À sua frente, em um grande descampado plano, um lago grande de águas bem azuis e formato elipsóide tinha sobre si uma espécie de bruma branca que seguia da lâmina d'água até o céu, como uma grande cortina de vapor. As gotículas que a formavam, iluminadas pelo sol, criavam uma série e arcos-íris. Dando mais vida a essa inusitada imagem, um vento brando movia os prismas naturais da cerração translúcida, fazendo com que os diversos arcos-íris dançassem entrecruzando suas cores. Um bando de pássaros, de pescoços longos, pernas e bicos de escamas azuis e plumagens bem vermelhas – Provavelmente coberta com alguma enzima que a impermeabilizava – e brilhosas que refletiam os arcos multicoloridos, voavam perfurando a cortina esfumaçada e mergulhavam à caça de seres aquáticos que, prateados, às vezes saltavam do lago.
– Tá aí um cara sucinto, preciso e conciso. – Reclamou a límite tentando fazer seu amigo se soltar mais. – Eu o trago para o recanto mais inspirador da galáxia e ele diz “nossa”. Ainda bem que eu não o levei para conhecer minha família. Você acabaria dormindo em pé!
– É lindo Nira. Não se ofenda... Vivendo nessa correria toda, resolvendo, escolhendo, decidindo, vendo tudo dando errado, o equipamento sempre no limite, perdendo pessoal e planejando em cima de nuvens... A gente fica tão envolvido com detalhes, prazos, responsabilidades e falhas que... acho que acabamos ficando insensíveis... – Calou-se e olhou para o horizonte.
– Para a vida?
Trocaram um olhar significativo e, subitamente encabulados, voltaram as vistas para a paisagem.
– Pensei que tinha morrido. – Sussurrou Guiner.
– E ficou... triste?
– O que acha?
– Acho que está fugindo da minha pergunta! – Sorriu, novamente divertida. O vento soprava seus “cabelos” verde-escuros.
– Olhando pra você aí sorrindo, parece sem sentido, mas... Nira, me comunicaram sua “morte” em meio ao massacre em Lar...
– Ah! É verdade... Desculpe. Toda aquela tragédia acontecendo à sua volta e eu aqui querendo... – As palavras morreram nos lábios da límite que, desconcertada, olhou para baixo. Sua mão esquerda passou a brincar com as folhas da grama, enquanto a direita buscou o joelho, trazendo-o para apoiar seu queixo.
– Não foi o que eu quis dizer. – Virou-se para ela. – É meio egoísta de minha parte, mas mesmo com todas aquelas mortes, a notícia de que... Não me entenda mal, mas... foi uma perda pessoal. Tudo em volta se constituía em uma grande desgraça, mas sua morte... – Suspirou discretamente – Era como se tivessem tirado algo de mim...
Nira tentou sair com alguma piada ou comentário engraçado, mas nada lhe ocorreu à mente. Olhou perdida para Guiner. Pensou em agradecer, em dizer-lhe algo sincero, mas nada saiu.
– Marcus – O karile mudou pra um tom imparcial, mais distante. – me disse que a deixou na Brisa, morta por um disparo certeiro no peito. Como sobreviveu?
– Nós límites, quando gravemente feridos, entramos em um estado pré-comatoso em que, embora permaneçamos sem sentidos, reagimos a nível celular, reconstruindo nossos tecidos. Quando ocorre, nosso corpo se enraíza no solo à busca de alimento e inicia os “reparos”. Foi o que ocorreu.
– Um coma produtivo? Como chamam?
– Estado vegetativo.
– Bem apropriado! – Disse Guiner sorrindo. Sentia-se aliviado pela mudança do assunto.
– Venha! Vamos mergulhar! – Gritou Nira, levantando-se em um salto e desatando a correr morro abaixo rindo alto. Divertido, Guiner alcançou-a sem esforço e juntos seguiram como crianças indo fazer “arte”!
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– Quanto? – Perguntou Elimander, mal alojado no ínfimo espaço de manutenção da perna direita de sua ANA, digitando em um console palmar.
– Cinco, sete, zero, alfa, tango, delta e trinta e sete graus. – Respondeu Serafim, em seu tom monótono padrão, sentado na cabine e interligado à nave pelo capacete neural. – Tive acesso ao estudo metam. – Disse e calou-se.
– Como é?
– Enquanto estive ligado ao computador da estação em que fui construído, copiei todos os dados retirados do Complexo Ofnam.
– E?
– Não entendido.
– Você tem informações de alta importância estratégica e teve várias oportunidades de passá-las ao comando da Legião. Não o fez e agora está me informando isso como se apenas perguntasse se vai chover. Afinal, o que quer?
– Não sabia se devia me aliar a vocês. Os estou analisando desde nosso primeiro contato e agora avalio que minha escolha foi acertada. Assim sendo, cessa a necessidade de manter informações críticas em segredo.
– Encurtando... Está dizendo que conquistamos sua confiança. – Elimander seguia com a conversa sem interromper as alterações que fazia no equipamento.
– Não parece surpreso.
– Não, na verdade estou aliviado. – Parando o que fazia, puxou um comunicador que mantinha no cinto ativando-o – Andréa, nosso convidado quer abrir o jogo.
– Recebido, Elimander. Traga-o para cá e chame o PC! – Respondeu a imediato da Intrépida.
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Do alto de seu beliche, Marcel observava Kmalkim que, sentado de pernas cruzadas, parecia estar em algum tipo de “transe”. – Kmalkim! – Gritou, como se o draconita estivesse a uns cem metros de distância, e não a dois.
Kmalkim abriu seus olhos e, retirando o capuz, respondeu em um tom calmo. – Sim?
– Bem... desculpe interromper, mas agora que a galera saiu eu pensei que podíamos... você sabe!
– Não, eu não sei. E nem todos desceram para o planeta.
– Eu sei. Eu sei... – Saltou do beliche. – Mas o que há de errado em nos conhecermos melhor? Somos parceiros nessa confusão toda!
Kmalkim encarou seu interlocutor com uma expressão leve. – Fale.
– Pois bem, morcegão. Vi que evita o Serafim. Por quê?
– É verdade. Não é bem ele. Vou esclarecer. – Levantou-se. – Os seres vivos emitem um halo energético, uma espécie de campo colorido. Este campo reflete seu estado de saúde em diversos níveis, desde ferimentos e doenças até seu estado mental e humor.
– Sério? – Interrompeu Marcel. – Como está o meu? Pode ver?
– Agora? – Kmalkim cerrou um pouco os olhos. – A predominância é um branco-azulado... algo mais escuro no estômago, mas derivado de má alimentação. Nada demais... Sua fronte é bem luminosa... o peito também... suas emanações são saudáveis.
Marcel ficou sem palavras, resumindo sua reação à elevação do lábio inferior e ao arregalar dos olhos, levantando bem as sobrancelhas.
– Pois então, eu utilizo uma técnica draconita chamada “segunda vista” para perceber esses halos em seres vivos... O que me assustou e ainda me deixa “desconfortável” quanto ao Serafim é que também vejo esta aura à volta dele. Isso é totalmente inusitado e novo. Devia aceitar o fato e me adaptar, mas não é tão simples. Ele é uma criação nossa... não é natural... não... – Seu semblante ficou muito sério. – Não está vivo.
– É... Eu não sou religioso, mas acredito que, para quem seja, as implicações do que diz sejam até mais graves. Acha que ele pode ser um ser vivo? Que mesmo artificial ele... Gente, que confusão...
– Não me pergunte, não tenho essas respostas...
– Talvez as respostas estejam em sua fabricação. Veja os metans... são metálicos, mas em seu mundo toda a vida o é...
– Mas eles não foram criados por uma espécie como a minha ou a sua... Tento me convencer que é apenas preconceito meu, algo vergonhoso, mas quando penso nas implicações dessa informação minha mente desarmoniza-se bastante.
– É de virar a cabeça mesmo.
Os dois pararam por alguns minutos em silêncio. Os semblantes sérios, as mentes voltadas para considerações inalcançáveis. Até que o rosto de Marcel iluminou-se. – Sabe o que mais?
– Como assim?
– Já está na hora de você aprender um pouco da “nossa ciência”. Venha, vou te ensinar a operar os terminais da nave. Nessas missões que o Guiner inventa, cedo ou tarde precisaremos que você pelo menos saiba acessar os sistemas básicos!
****
– Você não acha que o Guiner está exagerando com essa estória de “Legião Estelar”, não? – Perguntou Marcus a Andréa, que malhava as pernas em um dos aparelhos da academia.
– Como assim exagerando? Você desaprova a idéia? – Indagou sem parar o exercício. Vestia um traje leve e cavado, específico para ginástica, e estava bem suada, não só por conseqüência do esforço, mas também pela alta umidade do ambiente.
– Sei lá... A idéia de unirmos forças dos diversos planetas é ótima. Eu até achei que não daria certo no início, pelas diferenças entre as espécies, mas Guiner foi contagiando a todos com sua visão dos jacais e estamos indo bem. Rício, que treinou os cros na última semana, disse que estão muito motivados e que se adaptaram bem às nossas técnicas.
– Então, o que incomoda você?
– A idéia de militarismo, de exército. Sabia que teremos patentes? Estou incomodado com essa preocupação dele com esse tipo de detalhe. Pra mim é “perfumaria”! Acho que podemos acabar perdendo o nosso foco. Afinal, estamos reunidos para derrubar o Domínio Jacal, não é? – Perguntou saindo da esteira para sentar-se em um dos bancos de descanso.
– Você está raciocinando em destronar os pulhas e voltar à sua vida cotidiana como se nada tivesse acontecido? Guiner, não! Conversei com ele sobre o assunto. Ele quer que, depois de afastar os jacais, a Legião permaneça como uma polícia, para evitar que isso tudo volte a acontecer.
– Um golpe militar? – Interrompeu Marcus enfurecido.
– Não, ele não é político nem parece esta atrás de poder. Ele quer que a Legião Estelar responda a um conselho formado por representantes de cada nação. Devia conversar com ele. É mesmo um visionário!
– Vejo que ele já a convenceu. – Brincou, tranqüilizando-se com a explicação.
– Já. Ele é verdadeiro... Conquista a gente. Quanto a saber sobre as patentes, você sabia que estão criando até um hino da Legião? Já tem até a música, falta terminarem a letra!
– E você aprova? Não acha um despropósito?
– Marcus, nem todos aqui combatiam o crime nas ruas como você! Temos muita gente de bem entre nós, mas poucos estão preparados psicologicamente para o que está por vir. Esses símbolos, uniformes e música reforçam a fé de nossas equipes e...
– Ah, fala sério! – Interrompeu enérgico, levantando-se. – Fé?
– Escuta um pouco aí! – Disse Andréa jogando sua toalha na cara de Marcus e saindo sorridente do aparelho que ocupava.
Marcus retirou a toalha do rosto em um puxão, jogando-o em seguida ao chão com cara de poucos amigos. Andréa adotou uma postura séria e se posicionou diretamente à sua frente.
– O que você sente quando vê as gigantescas bandeiras vermelhas dos jacais espalhadas por aí? E quando entrou nas naves que roubamos e viu os escudos deles em cada porta? Vai dizer que não os percebe? Marcus, o filme na festa, o ataque ao estádio... Tudo isso é propaganda! Não, talvez não ganhe uma guerra, mas você não pode negar sua importância! – Marcus fez menção de abrir a boca, mas Andréa levantou a mão aberta interrompendo-o – Quanto à sua preocupação com patentes, estamos crescendo. Se não nos organizarmos, logo não conseguiremos agir! E não se preocupe, delegado... Com certeza você receberá uma patente alta! – Abaixou-se e apanhou sua toalha. – E não estou dizendo, de forma alguma, que concordo com isso. – Deu meia-volta e caminhou em passo vivo para o elevador que levava para os outros níveis do hotel límite, sem esperar por qualquer resposta de Marcus. Este limitou-se a observá-la sair. Rício tinha razão, ela tinha um corpo incrível...
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Deitados nas espreguiçadeiras próximas à piscina do hotel que abrigava os membros da Legião, Rício e Landel bebiam coquetéis de frutas após quarenta minutos de natação.
– O que vai fazer quando tudo isso acabar, Ric? – Perguntou Landel sem desencostar a cabeça da almofada impermeável. Olhava tranqüilo para o céu.
– Se isso tudo der certo, pretendo desacelerar um pouco. Sabe como é... casa, família...
– Você? Deixe de besteira!
– Como assim? – Rício desencostou-se da espreguiçadeira e virou-se para o amigo. – Acha que não consigo formar uma família?
– Ric! Nunca o vi levar mulher a sério! Não se ofenda... Você é uma presença incrível nessa guerra. Durante essas últimas semanas praticamente treinou sozinho nossas tropas, e fez da molecada que Guiner trouxe de Lar verdadeiros soldados. Muitos o admiram. Eu o respeito. Mas não consigo imaginar você ajudando a esposa a cuidar de um bebê, ou indo pra cozinha... Você está sempre flertando com uma menina diferente! Não estou te condenando, é o seu jeito, cara. Só acho que ninguém muda tanto de uma hora para outra!
– Olhe, sei do que fala e agradeço os elogios quanto ao treinamento. Mas falo muito sério... Vê o que estamos fazendo? Defendemos um ideal, apostamos nossas vidas para libertar planetas! É real. Não é mais uma jogada política para aumentar o poder ou a vaidade de alguém! Sei lá, não sou psicólogo... mas isso tudo me fez, pela primeira vez que me lembro, pensar no futuro.
– Quer deixar um legado? Continuar nos filhos?
– Também, mas é mais que isso. Acho que nunca acreditei em coisas como... – Olhou muito sério para Landel, cerrando as sobrancelhas. – Não ria!
– Não acredito que vai me falar de “amor”, Ric. Não você...
– Deboche o quanto quiser. Mas a verdade é que, com todo esse papo de liberdade e grandes ideais, eu descobri um grande vazio na minha vida. Corri para muitas mulheres, algumas realmente incríveis, – Abrandou a expressão, abrindo um sorriso. – para arrancar essa sensação, mas continuo incompleto.
– Não é só carência, Ric? Família é coisa séria, não dá pra se desfazer dela depois simplesmente porque descobriu que não combina com você. Acredite-me, fui casado duas vezes e... – Landel procurou segurar a emoção. Suas duas famílias, a do casamento anterior e a do último, haviam perecido no ataque a Lar. Agora, levado a pensar no assunto, procurou segurar-se, mas duas lágrimas rebeldes desceram por seu rosto.
– Desculpe, Landel. Não era minha intenção.
– Eu sei. Olhe, compreendo o que diz. Mas pense muito bem antes de partir para isso. Não há volta. Eu... vou nadar mais um pouco. – Disse enxugando o rosto com a mão e já se levantando. Sem olhar para trás, pegou impulso e mergulhou na piscina.
Rício permaneceu na espreguiçadeira, um pouco arrependido de ter comentado o assunto com o amigo, mas convencido do que sentia.
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Em órbita do planeta Fantis, a Avatar vigiava, mantendo a segurança da Legião Estelar que, após longo período de treinamento, exercícios e ensaios, gozava de uma pequena folga. De sua cadeira na ponte, Márcio mantinha sua tripulação em condições de pronto emprego enquanto as demais naves permaneciam em modo automático.
– Igarashi, nosso tempo de aprestamento ainda não está satisfatório. Inicie uma nova simulação. Desta vez considere que o inimigo vem de estibordo.
– Não é melhor pegar um pouco mais leve, Márcio? Estão esgotados! Você os está mantendo em todos os postos! Até os de reforço, que ocupamos apenas em situações de ameaça de invasão da nave.
– Imediato... – Parou e fechou os olhos em uma rápida análise da situação – Igarashi, toda a Legião Estelar está na superfície do planeta e nós somos sua única linha de defesa.
– Que precisa estar em condições de defender, com a mente clara, os reflexos rápidos, uma boa disposição...
– Então, o que sugere? – Perguntou Márcio, com um quase imperceptível sorriso, abrindo espaço para uma mudança em sua ordem desde que não ignorasse a importância da missão.
– Bom, podemos deixar todos os postos ininterruptamente ocupados, mas com metade do efetivo. O restante descansa por quatro horas no alojamento.
– Sei, trabalharíamos em turnos...
– Sim. Assim, logo toda a tripulação estará descansada sem que deixemos nenhum posto desguarnecido.
– Não acha que está pegando muito leve com essa gurizada? Eles não são exatamente idealistas, estão mais aqui pela aventura do que para combater os jacais.
– Não, Márcio... – Disse o imediato mais sério – Eles estavam no planeta quando Lar foi varrido por aqueles raios. É de se esperar que sejam indisciplinados, mas não os vejo como crianças inconseqüentes. Eu mesmo, aos vinte e dois anos, já teria te mandado ir secar gelo se fizesse comigo metade do que está impondo a eles. – Descontraiu com um sorriso.
– Está bem... Acho que estou mesmo descontando neles, mas não está fácil. Agora, depois dos exercícios que fizemos, até já estou mais familiarizado com a nave, mas comandá-la em manobras com as demais ainda é um desafio pra mim. – Sorriu. – Mas não conte isso a eles!
Os dois amigos riram e começaram a dividir em uma planilha os dois turnos da prontidão. Mesmo a Avatar teria seu descanso.
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Capítulo XVII.
GUERRA.
– Atenção! – Comandou Berm na ponte de comando da Naja II para que todos no local levantassem e adotassem posição de respeito em homenagem à presença do capitão.
– À vontade! – Comandou Mnar, mas só após sentar-se calma e pomposamente em sua cadeira no centro do passadiço, permitindo então que todos voltassem a seus afazeres.
– Imediato. Relatório de situação! – Comandou, acomodando-se no assento. Os jargões militares, que tanto estranhara quando passou da pirataria ao comando da Armada Imperial Karile, agora soavam perfeitamente familiares.
– Senhor, todas as naves já chegaram e seus capitães já nos contactaram solicitando novas ordens. Os detalhes das condições da nave já foram enviados para seu terminal, mas adianto que estamos em excelentes condições. – Comunicou Berm, orgulhoso e intencionalmente solícito.
Berm adotava uma postura servil não para subir na carreira, mas para permanecer vivo. Afinal, tornara-se imediato de Mnar quando este matara, pelas costas, seu antecessor no cargo por um erro em combate. É certo que o erro teve graves conseqüências, acabando por permitir que aquela capitão límite transformasse a Invicta em ferro-velho, mas erros acontecem... especialmente sob a pressão de um chefe desequilibrado como aquele.
– Coloque todos os capitães na tela, Berm. Não apenas os capitães das naves da classe Capricórnio, mas todos! Vamos logo ao que interessa!
– Sim, senhor. – Berm foi para seu posto a estibordo e a retaguarda da sala. Já aguardava a ordem e se adiantara em informar aos capitães que não se ausentassem de suas pontes. Em menos de cinco minutos as três telas da Naja II mostravam os capitães da Frota Jacal. – Pronto, capitão!
Mnar passou os olhos por cada semblante na tela. Demorou-se em alguns analisando seus olhos e expressões como se pudesse ler suas mentes e avaliar seus espíritos. Quando terminou aquela pequena revista, levantou-se.
– Muito bem, senhores. Todos já estamos cansados de treinamentos. Ensaiamos cada movimento dessa missão, estudamos cada seqüência de ações e sabemos muito bem o que faremos. Nossa preparação nos impediu inclusive de proteger Lar, o que nos custou um imperador. – Mnar fez uma pausa, avaliando o efeito de suas palavras e a atenção a elas dedicada. – O planeta alvo não possui qualquer tecnologia espacial, o que garantirá que nossas forças de terra, embora treinadas, não sejam necessárias. Uma vez que as naves estejam posicionadas, vamos iniciar a “limpeza” de toda a superfície. Conforme forem terminando suas áreas de responsabilidade, movam-se para o ponto de encontro “zero dois”. – Fez nova pausa, vendo que sua pequena mudança nos planos havia deixado todos surpresos. – Alguma dúvida?
– Sssim, Mnar. Eu tenho. – Disse Cadir Zatur, a capitão da Voraz. – Osss planosss originaisss previam que avisaríamosss o governo do planeta, dando uma última chance para que ssse rendessse... Osss jacaisss mudaram de idéia? – Inquiriu, sabedora de que Sarath Sflagarthe não conhecia aquela mudança.
– Ora, minha escamosa companheira... – Mnar riu desdenhoso. – Fui eu que mudei os planos. Será que não percebe? Depois da segunda vergonha em Lar, nós precisamos de uma vitória. Não de um planeta que se rendeu, mas de um povo que foi varrido do universo! Vaporizado, captou? Nós vamos destruir até o último arremedo de vida naquele pedaço de lava vulcânica! E não é só isso, vou lançar uma bóia roteadora que transmitirá ao vivo todo o ataque! Assim como a Resistência marcou a todos com aquela cena patética, nós vamos apagar seus sorrisos mostrando o nosso real poderio bélico! O que acha?
– Sssou forsssçada a confesssar que paresssce bom... Masss me sssentiria melhor ssse fossse de conhessscimento dosss nosssos imperadoresss. – Disse Cadir, convencida de que era uma boa opção, mas sem querer dar o braço a torcer.
– Pois é, mas a idéia só me ocorreu agora e não podemos ficar esperando uma votação imperial! – Mentiu Mnar. – Alguém tem mais alguma dúvida?
Uma vez que todos ficaram em silêncio, Mnar fez uma nova conferência em seus semblantes verificando que todos estavam confiantes e alguns até já mostravam o sorriso da vitória. Satisfeito, ordenou que fechassem aquela comunicação e que rumassem para o planeta natal dos draconitas.
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ACESSO RESTRITO – “Não há vácuo no espaço entre os variados corpos celestes. Permeando, impregnando, trespassando e formando toda a matéria existe o sublime fluido universal. Mesmo o mais renomado cientista da antiga e obsoleta comunidade, hoje o grande Domínio Jacal, desconhece todas as propriedades e sutilezas dessa substância. Sabe-se que sob certas condições ela pode ser modificada, mas as variações crescem conforme se alteram mínimas características experimentais. Há estudos desde a sua solidificação até a sua influência no comportamento de cobaias, tangendo alguns conceitos até então considerados metafísicos. O maior exemplo prático do emprego dessa ramificação da ciência foi a invenção da bobina de sintonia. Esse artefato, hoje comumente manipulado e melhorado por engenheiros menos qualificados, permite a criação de uma bolha que transpassa o espaço em velocidades só limitadas até o momento pela maior ou menor precisão da bobina utilizada. Como subprodutos dessa aplicação, também usadas em naves estelares, surgiram a bobina de campo, responsável pelo campo de blindagem, e a bobina de tração, ainda em fase experimental. Esta deverá permitir que uma nave possa rebocar outra, ou ainda, que uma nave de grande porte possa facilitar a entrada e pouso de uma pequena nave em seu hangar.” – ACESSO RESTRITO – Revista Conhecendo 02, Editora M.I.G. Domínio Jacal.
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Próximo ao planeta Dicro, vinte e quatro bolhas brilhantes desvanecem-se, criando um espetáculo de luzes azuis e verdes que cintilam ao redor das belonaves capitaneadas pela Naja II, que surgem rasgando o espaço aparentemente saídas do éter.
– Capitão Mnar, estou detectando níveis mínimos de eletricidade e algum armamento na superfície do planeta... – Informou surpreso Fen-ha, o prek do posto de sensores.
– Que tipo de armamento? – Perguntou Mnar, sem muito interesse.
– Apenas armas para combate em terra, senhor. Mas... não é esse o problema.
– Fale logo, peludo! – O capitão, que já não gostara da idéia de ter outras raças em “sua” nave, perdeu a paciência.
– Capitão, a sonda que foi deixada aqui a um mês tem plena condição de detectar esse tipo de emissão, mas continua a enviar em seu sinal um relatório que não acusa nem essas armas... nem a chegada de nossas naves...
– Demônios de Akzibar! Ou a sonda está em pane ou fomos sabotados. Alguma nave inimiga?
– Não, senhor. A órbita de Dicro está limpa.
– Estabeleça contato de voz com toda a frota. Agora! – Mnar falou cuspindo e terminou por acionar seus ferrões, demonstrando toda sua frustração com a possibilidade de perder o controle da situação.
– Estabelecido canal de áudio, capitão. – Informou Fen-ha, perturbado com o estado de nervos de seu comandante.
– Nossa sonda foi adulterada ou está defeituosa. Atuaremos contando com a pior hipótese. As naves classe Capricórnio vão se posicionar conforme o plano bravo-cinco, mas as demais adotarão o padrão uno-três de defesa, mantendo a segurança para que não haja descontinuidade nos disparos dos canhões de pulso. A partir de agora não há volta! E lembrem-se: não há força bélica capaz de se equiparar à nossa frota! Somos capazes de esterilizar esse mundo e eliminar a “Legião Estelar” – Falou com desdém. – ao mesmo tempo em que assistimos a um jogo de aquabola! Mnar desliga! – Disse, enquanto apertava um controle no painel de seu assento. – Legião Estelar... Pois, sim...
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No planeta, Kmalkim, os anciões do Grã Conselho Darcom e sete mestres proficientes em manipulação de matéria formavam um círculo. Separados pela distância média de um braço, permaneciam de pé há quase uma hora. Alguns, encurvados pela idade, apoiavam-se em suas bengalas. A imobilidade era quase total, assim como a concentração daqueles seres, que solidificavam uma união íntima, um compartilhamento total de pensamentos. Para eles, até mesmo as fronteiras do “eu” pareciam vacilantes e imprecisas naquele momento.
Kmalkim passou a ver, mas não daquela forma direcional e limitada a que estava acostumado. Era algo novo. De fato, se não estivesse em contato com os demais mestres, dificilmente se adaptaria àquele sentido. Via o que ocorria em toda a sua volta, não mais limitado pelos órgãos oculares. Voltou seu pensamento para seu corpo, por pura curiosidade, e se viu como quem olha para outra pessoa, de fora... reconheceu-se, com a vívida certeza de que era realmente ele. Mas sua posição era outra. Estava com as asas abertas, os braços cruzados, as pernas juntas e os olhos fechados. Seu manto variava do tom amarelo, passando por um azul muito alvo, até um branco luminoso. Estava flutuando. Todos estavam. Pôde reconhecer cada um dos anciões, que agora pareciam jovens, nada mais do que uns cento e cinqüenta anos.
Agora, aquela união draconita não formava mais um círculo. Estavam distribuídos formando uma esfera.
Ampliando seus sentidos a níveis que ignorava existirem, Kmalkim pôde sentir os milhares de draconitas responsáveis pelo sensoriamento do espaço aéreo do planeta Dicro. Eram cerca de dois mil dos chamados “sensonites”. Não! Eram exatamente dois mil trezentos e vinte e dois draconitas nesse exato momento monitorando. Eles formaram, em sua visão, uma incrível rede de pontos luminosos ao redor da esfera da qual participava. Assim que tomou essa consciência, passou a sentir, como eles, o que ocorria nos céus de seu mundo.
Deslumbrado com todas essas novas possibilidades, o jovem mestre alimentou um lampejo de dúvida por não se sentir merecedor de ali estar, de participar de algo tão “grande”, tão nobre. Nesse instante, uma onda de desconforto alcançou a todos, que de imediato o tranqüilizaram com a firme idéia de que ele era um elo fundamental naquela corrente.
Reconfortado, Kmalkim sentiu as atenções se voltarem para o centro da esfera. Acompanhando o movimento mental de todos, concentrou-se também naquela área, mas sem deixar de ver e sentir nada do que ocorria à sua volta.
No centro da formação esférica um globo se formou e, após tomar a forma do planeta Dicro, começou um natural movimento de rotação. Kmalkim seguia o foco dos demais, e passou a ver o interior do planeta. Dicro era um mundo jovem, com muitos vulcões e tremores de acomodação. Sentiu a matéria ainda fluida de seu interior, seu calor, sua textura. Sentia como se pudesse tocá-la, movê-la... e dessa forma íntima, também travou contato com o campo magnético do planeta... pôde sentir os ventos da superfície e, então, interligando tudo, pôde sentir como se fosse, como se “fossem”, o próprio planeta. Nesse instante de júbilo, viu – Ou viram? – aqueles objetos se aproximarem do globo. Kmalkim logo reconheceu os veículos jacais, então todos reconheceram. Lembraram das naves, seus dispositivos, seu poder e suas fraquezas... foi então que ele entendeu seu papel. Naquele organismo formado por sábios mestres, ele era o draconita mais atualizado sobre os estranhos aspectos daqueles engenhos...
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Na ponte de comando da Naja II:
– Capitão... – Chamou Fen-ha com certo receio.
– Diga, Sensores! – Grunhiu Mnar.
– Os instrumentos de longo alcance estão detectando uma dezena de naves dirigindo-se para cá em fase. Se mantiverem a velocidade atual, devem levar cerca de sete minutos para chegar aqui.
– Dez naves? Ponha o visual dos sensores na tela principal. – Mnar estava mais calmo. Se o inimigo fosse só aquele, a vitória era certa.
Na tela, o gráfico mostrava dez desenhos poligonais que iam recebendo nomes e dados, como comprimento e massa estimada, conforme o computador ia interpretando os sinais captados pelas potentes antenas. Mnar não estranhou a existência de uma nave classe Capricórnio, muito menos as três da classe Câncer, a da classe Soturna ou a Nídia que, a essa altura, já sabia ser comandada pelo humano chamado Marcus. Todas já tinham sido catalogadas como naves inimigas e já eram esperadas. Ele ateve-se mesmo foi nas outras quatro naves, procurando por possíveis surpresas, o que encontrou, abrindo um sorriso. Lá estava uma nave mercante classe Galápago. Pelo arrepio que sentiu, soube que era ela. Tinha que ser!
– Senhores, após a batalha teremos salada servida na mesa principal do rancho! – Anunciou a todos na ponte, que se entreolharam sem coragem de pedir explicações sobre o singular comentário. – Sensores, envie uma mensagem codificada a nossas naves informando da chegada da “Legião Estelar” – Novo deboche. – e de que nenhuma nova mudança ocorrerá nos planos. E... quantos minutos faltam para estarmos em posição?
– Faltam setenta e três segundos, capitão. – Adiantou-se Berm.
– Excelente! Coloque na tela a imagem da nossa câmera frontal. – Disse Mnar, ajeitando-se em seu assento.
As três telas formaram uma imagem única, mostrando a superfície de um dos continentes do planeta. Era uma área rica em matas, que gradativamente sumiam em volta de grandes áreas vulcânicas. Visualmente não era perceptível a existência de uma ou mais cidades, mas os sensores de curto alcance informavam que estavam sobre uma das faixas mais densamente povoadas daquele mundo.
Mnar ia pedir uma aproximação da imagem quando notou que a tela estava sendo ocupada por uma luz difusa colorida como um arco-íris, mas com faixas e ondas brilhantes que não pareciam formar qualquer padrão.
– Sensores, o que é esse caleidoscópio na tela?
– São nuvens de íons carregados, capitão. Há muita atividade eletromagnética na atmosfera. Estou tentando minimizar o efeito interferente mudando os canais de comunicação. Ou os sensores estão muito afetados ou o campo magnético do planeta enlouqueceu! E... espere... uma tempestade elétrica está vindo na direção da posição atmosférica imediatamente abaixo de nossa nave. Ela está vindo rápido. Nessa velocidade vai passar por nós em segundos. Mas...
– Mas o quê? – Já gritava Mnar, levantando-se de sua poltrona.
Olhando fixamente para a tela, Mnar já podia ver as nuvens púrpuras chegando pelo leste do planeta.
– Estamos recebendo informes das outras naves... Está acontecendo exatamente a mesma coisa com todas e... – Fen-ha foi interrompido por um ruído de metal rangendo que preencheu todo o ambiente.
– O que foi agora? E seja direto!
– Capitão, nossa nave está descendo. O ruído que ouvimos foi do casco, provavelmente cedendo às forças que nos estão puxando!
– O que está dizendo? Estamos sendo puxados para o planeta? Como?
– Eu não sou cientista e os sensores enlouqueceram, mas parece que estamos sendo atraídos magneticamente, capitão.
– Navegação, tire-nos daqui! Operações, acione a blindagem no máximo! Vamos aniquilá-los de mais longe!
Assim como Mnar, os outros capitães sofreram os mesmos problemas e tiveram reações semelhantes. Porém, ao acionarem a blindagem foram atingidos por uma descarga elétrica fortíssima, que partiu do solo e se potencializou nas nuvens. No planeta, vulcões se formavam, mares se agitavam e terremotos varriam os continentes, enquanto o planeta sofria por ter seu núcleo manipulado por forças invisíveis. Tudo acontecia muito rápido.
A Naja II perdeu a blindagem quando suas bobinas de campo explodiram em sobrecarga. Forçadas ao extremo, as de sintonia estavam seguindo pelo mesmo caminho.
– Vamos perder nossa propulsão em minutos, capitão. – Avisou Fen-ha em desespero.
– Eu sei! Eu sei, seu inútil! Vamos tentar o seguinte... Navegação! Vamos rumar em direção ao planeta, mas corrigindo o trajeto para o norte até sairmos da área de atuação desse temporal amaldiçoado!
– Estamos sem blindagem, senhor! A entrada na atmosfera vai nos causar muitos danos! – Avisou Carmim com os lábios tremendo de medo frente à situação que piorava a cada segundo.
– A Legião Estelar está saindo de fase, capitão! – Informou Fen-ha, quase gaguejando.
– Que eles esperem! Navegação, mexa logo essa nave antes que ela exploda aqui e agora!
– C-curso implementado, capitão. Executando. – Disse Carmim, com as lágrimas já escorrendo por seu rosto alvo. Seus olhos avermelhavam-se com o pranto. Sempre a primeira da classe em notas e beleza, lutara por aquele cargo pela excelente remuneração, mas nunca tinha sido posta em uma situação de risco real até agora.
A nave embicou para baixo e acelerou rumo ao solo. As correções no trajeto iam sendo calculadas pelo sistema tático da nave, o Eclipse III, que também previu o melhor ponto e inclinação para a entrada na atmosfera de Dicro. Os deques periféricos da nave incendiaram, o casco sofreu tamanha força e aquecimento que começou a se romper em vários pontos, mas a nave conseguiu passar por esse primeiro obstáculo. Ainda em crescente aceleração para sair do alcance da tempestade, recebeu mais um raio que destruiu uma das bobinas de sintonia.
A Naja II começou sua tentativa de sobrevoar o solo e, deixando de ser uma estrela cadente e passando novamente à categoria de nave, ganhar altura. Apesar do descontrole de Carmim, que soluçava em prantos, o Eclipse III compensou a perda de uma bobina e apontou a nave para seu novo desafio, que era vencer a gravidade e sair da atmosfera em que acabara de entrar.
Com seu casco despedaçando-se, a nave voltou ao espaço com um décimo de seus instrumentos operando, várias baixas, muitos feridos e alas inteiras em descompressão. Das sete bobinas de sintonia, apenas três restavam. Na ponte ainda semi-operacional, Mnar se revoltava...
– Navegação, estabilize e afaste-se do planeta! Berm! Levante a situação da nave! Sensores! Como está a frota e onde estão os desgraçados da Resistência? – Mnar andava em círculos, sem entender como sua missão tão estudada e treinada tinha se transformado em um pesadelo. Sentou-se para acionar o microfone e dirigir-se à tripulação. Seu painel estava quase todo apagado, mas o sistema de som ainda operava.
– Atenção, Naja II! Estamos em uma guerra, não percam seu tempo com lamentações! Se quiserem sair daqui vivos, empenhem-se nos concertos! Todos de pé! Vamos! – Fez uma pausa, suspirou e continuou. – Técnica em biocomputadores, quero meus sistemas de volta! Engenheiro-chefe, precisamos de capacidade de defesa. Acerte as bobinas de campo! Não há tempo para cuidar dos feridos! Quero todos, repito, todos empenhados na recuperação da nave! A vitória ainda será nossa!
– Capitão, o sistema de câmeras derreteu, os sensores de curto alcance estão inoperantes, mas os de longo alcance ainda funcionam. Acionei o Eclipse III para criar uma imagem simulada de nossa situação externa... transferindo... na tela, senhor! – Avisou Fen-ha, digitando rapidamente em seu painel, onde seu semblante tenso era refletido na superfície vítrea, por sobre os comandos que piscavam.
A tela ficou preta, sendo preenchida aos poucos por novas imagens poligonais, mas muito bem detalhadas, pois o Eclipse III, conforme ia reconhecendo uma nave, passava a retratar suas formas baseado em suas referências armazenadas. Logo, um mapa tático abrangendo toda a órbita de Dicro se formou diante da tripulação da ponte de comando...
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Após o choque com a superfície do planeta, a tripulação da nave jacal Voraz levantava-se das pilhas de lixo e entulho em que se transformaram todos os objetos, aparatos e pertences particulares que estavam soltos ou mal presos no momento do impacto. Toda a tripulação que não morrera, ferira-se em diferentes níveis de gravidade.
Cadir Zatur, considerada a capitão menos experiente da orgulhosa Frota Jacal, limpava o sangue que escorria de sua boca com as costas da mão. Sua idéia desesperada de amortecer a queda criando um campo de amortecimento ao unir o disparo concentrado do canhão de pulso a um bolsão gerado por sua última bobina de campo, mostrara-se um estrondoso fracasso. Seu engenheiro chefe, seu imediato e até mesmo o sistema tático da nave haviam apontado diversas falhas em seu plano, mas ela não deu ouvidos... Não podia dar, era uma oficial darane... a capitão que recebera o comando por indicação do próprio Imperador Sarath Sflagarthe! A única opção que tinha era, do alto do seu posto, fazer valer sua vontade. A má sorte, infelizmente, sentenciara sua tripulação a uma entrada desestabilizada na atmosfera. Aquela maldita bobina de campo... imprevisível... explodiu sem aviso quando a blindagem foi acionada no limite da atmosfera... Mas, como capitão, ela fez sua parte. Decidiu. Acompanhou tudo com o painel do posto de operações transferido para a tela principal. E agora... agora... sentia uma dor aguda no tórax. Provavelmente nem todas as suas costelas estavam inteiras. A débil luz branca de emergência mal iluminava o pandemônio em que se transformara a sua ponte de comando... Precisava avaliar a situação, organizar seus pensamentos. O Domínio contava com sua competência, com sua liderança! Mas o que faria? Sua nave estava em ruínas... e lá fora... lá fora a inexplicável tempestade castigava o casco da Voraz... Podia-se ouvir os estrondos dos raios ecoando pelos corredores da nave!
A capitão tentou levantar-se, mas só então percebeu que sua cauda estava presa. Um painel a pressionava contra os restos de sua cadeira. Estranhamente ela não sentia esses móveis prendendo-a. Não havia dor... Estaria dormente? Com o esforço que fez para virar-se, outra dor no peito surgiu e começou a aumentar. Agora, até o ar lhe faltava. Onde estariam seus incompetentes lacaios que não a acudiam? Como que em resposta a seus pensamentos, nesse instante ouviu a voz familiar de seu imediato. E já não era sem tempo!
– Capitão... veja só como a vida é! A maior estupidez é feita na primeira missão de uma oficial e ela nem mesmo sobrevive para responder por sua incompetência! – Disse Eriter, prek com mais de dez anos de pirataria espacial, que batizou a Voraz por ter sido inicialmente indicado para comandá-la. – Injusto, não?
– Vossscê não ousaria... Sssabe de minhasss conexõesss no alto essscalão do Domínio! Vossscê não é ninguém! – Arriscou Cadir, tentando recobrar sua autoridade, indignada com a audácia daquele alienígena peludo, plebeu, sem a mínima projeção política.
Eriter aproximou-se. Com um ferimento no rosto que ia da sobrancelha esquerda ao maxilar inferior do focinho e um rasgo no braço esquerdo que sangrava a ponto de pingar pelas pontas de suas garras, não parecia preocupado com as ameaças de sua comandante. Sem mais nada dizer, pôs o pé direito sobre o pescoço de Cadir e, em um movimento rápido, afundou-o com força na pilha de destroços. Por seu semblante, os outros sobreviventes da ponte podiam acompanhar o crescente aumento da pressão que fazia. Quando um estalo reverberou no silêncio do ambiente, não houve nenhuma lamentação.
– Vamos, companheiros! Se chegarmos às nossas naves ANA no hangar três ainda teremos alguma chance de sobrevivência. Mas temos que correr. Com certeza os nativos vão enviar suas tropas de terra! – Gritou Eriter, recebendo uma aclamação espontânea.
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A muitos quilômetros da Voraz, outros soldados ocupavam suas ANA em preparativos para o combate. Em sua cabine, Itzibah ainda vacilava ao colocar o capacete neural. Mesmo depois de tantas vezes, aquela experiência ainda lhe parecia antinatural... A forma como os seus sentidos de tato, olfato e paladar desapareciam... A visão natural sendo substituída pela limitada imagem retangular capturada pela câmera frontal... E a audição, então? Passava a ter o alcance controlado, variando da surdez a uma sensibilidade que captaria a queda de um alfinete! Mas agora não havia tempo para o conforto. Sua esquadrilha dependia de seu comando, de sua experiência. Era hora de fazer valer todo o esforço empregado nos incessantes treinamentos daquela tropa. Puxou o respirador e o posicionou na boca e no nariz, o que o incomodava bastante, mas só até que o sistema fosse ligado. Acertou o capacete na cabeça e, tateando, apertou o botão que acionava a interface. Após um breve enjôo já recebia os relatórios gráficos de funcionamento dos sistemas da armadura. Noventa e oito por cento de funcionalidade, bateria a toda carga, munição plena e comunicações estabelecidas.
Com um pensamento, Itzibah enviou a ordem de chamada aos seus pilotos. O ideal seria esperar o pronto de cada um deles, onde relatariam a situação detalhada de suas naves, para só então expedir a ordem de vôo da missão, mas a situação não era de rotina. Sabre, a sua nave, havia caído em um lago após uma infeliz tentativa de escapar da tempestade alienígena, e agora cabia à esquadrilha Gama de Armaduras Neurocomandadas de Ataque a missão de defender e tentar mover a grande nave. Enviou outro comando, agora para o computador da Sabre e, nele, o Eclipse III respondeu abrindo a comporta do hangar. A água rapidamente inundou o ambiente.
O planejamento havia sido exposto rapidamente à sua equipe, assim todos sabiam que teriam de sair da nave para cumprir dois objetivos. O primeiro seria cumprido pela maioria, que passaria para a forma bípede da ANA e tentaria arrastar a nave para fora do grande lago. O segundo seria cumprido pelos gêmeos Ragnar e Meni, que patrulhariam o local para repelir ataques. Como comandante, Itzibah emitiu a ordem de partida e a esquadrilha de caças deixou o ventre da Sabre.
Ao reagruparem no exterior da nave para iniciar suas missões, os pilotos foram ofuscados pelo forte brilho de um relâmpago. Um raio transpassou o corpo da Sabre bem no centro, destruindo todos seus sistemas internos, permitindo a entrada da água e eletrocutando boa parte da tripulação. Mesmo as armaduras foram atingidas pelo campo elétrico criado. Cinco mataram seus pilotos instantaneamente pelos contatos do capacete. As outras dez sofreram apenas algumas panes. Seus ocupantes ouviram, pela comunicação entre eles, os gritos de agonia dos cinco menos afortunados.
A comando do Tenente Itzibah, a esquadrilha mudou para o modo voador e rumou para a superfície. Não se preocuparam em procurar sobreviventes na nave... nem houve comentários ou lamentações. A única idéia em suas mentes era a de que precisavam sobreviver àquela catástrofe. Permaneciam unidos apenas pela segurança que isso gerava, e se ainda obedeciam a Itzibah era por terem aprendido, durante os infindáveis treinamentos, que ele era o mais eficiente em combate com aquelas “coisas”. Sua preocupação com a própria preservação não havia deixado lugar vago para quaisquer remorsos ou sentimentos mais nobres e irrelevantes, como lealdade e compaixão.
Assim que a esquadrilha deixou as águas, surpreendeu-se com o fim da tempestade. O céu estava limpando-se sem deixar sequer um chuvisco no ar. Todos ficaram aturdidos, mas, antes mesmo que comentassem algo, seus sensores os alertaram da aproximação de uma centena de draconitas voando em sua direção acompanhados de uma plataforma flutuante.
– Atenção, esquadrilha! – Comandou Itzibah. – Como devem estar detectando, os únicos armados ali são os dois seres de pé naquela plataforma voadora. Eles não são obstáculos para nós. Repito, eles não são obstáculos para nós! Vamos assumir formação “ponta-de-lança”. Agora! Assim que entrarem no alcance de disparo de tiro tenso, fogo à vontade!
O comandante da esquadrilha tomou a frente do dispositivo, sendo seguido por seus companheiros que o tomaram por base central para formar um “V” apontando para o inimigo. Em segundos, já estavam formados e em rota de colisão com a “nuvem” draconita, que não diminuiu sua velocidade, apenas espalhou-se. Daquela distância, parecia um bando de morcegos abandonando as entranhas de sua caverna. Itzibah sentiu a falta de uma lente que aproximasse a cena para que pudesse estudar melhor seu alvo. Se sobrevivesse, colocaria isso no relatório... Seria um bom acréscimo ao próximo modelo.
Por puro reflexo, o experiente piloto inclinou sua nave, escapando, no último segundo, de um raio azul que acabou acertando a ANA logo à sua direita. Enquanto estabilizava, pôde ver pelo visor de retaguarda a desafortunada nave de Alexandre ficando para trás em queda. Soltava uma nuvem de fumaça negra. Nada podia ser feito agora. Voltou sua atenção para seus antagonistas... Já podia divisar bem seus inimigos e identificou a fonte dos disparos. Eles vinham das ferramentas de mineração de dois crors.
Tudo acontecia muito rápido e quando Itzibah ia iniciar uma manobra para anular a ameaça cror, o pior aconteceu. Uma ANA à sua esquerda explodiu, provavelmente vítima de um dos potentes disparos dos crors, causando uma reação inesperada e vergonhosa nos pilotos. Ao perceber a debanda, ainda gritou para que mantivessem a formação de ataque, mas sem sucesso. Cada um tomou um rumo diferente, ignorando todo o treinamento. Alguns pousaram, passando para a forma bípede. Outros começaram a inventar manobras individuais, atacando por instinto. Jogaram todo o treinamento no lixo... Cada um estava por si, impossibilitando qualquer ação coordenada. Todos disparavam, mesmo correndo o risco de acertar um companheiro de armas.
Caos... Itzibah passara sua armadura para a forma robótica e conseguira derrubar, com um soco, os crors da plataforma metálica que lhes dava um ângulo de tiro vantajoso. Mas, contrariando sua primeira análise, aquela dupla não era sua única preocupação. Os draconitas eram guerreiros surpreendentes... Aparentemente desarmados, aqueles “feiticeiros” criavam esferas de luz cegante diante das câmeras das naves, que acabavam se chocando com outras ou mesmo contra o solo... De algum modo causavam pânico nos pilotos, que gritavam de puro terror, perdendo até a noção de onde estavam... Pôde ver um deles soprar fogo na grade de retenção da armadura de Marcela, uma parte específica da fuselagem que encobria delicados filamentos de alimentação das armaduras... Uma pena, ela era linda... olhos azuis, cabelos bem vermelhos, a tez morena, aquela pintinha próxima ao lábio, a tatuagem abaixo das costas... Um dos estilhaços da explosão que se seguiu ficou enfincado no tórax de sua ANA... Malditos lagartos... Enquanto decapitou um deles, viu-os iludirem Lamar com manobras aéreas que acabaram deixando-o próximo dos raios poderosos dos crors, que mesmo feridos continuavam atirando do solo. Obviamente, as baixas não eram apenas dos jacais, muito pelo contrário. As metralhadoras abatiam dezenas de draconitas com suas rajadas concentradas. Logo a nuvem inicial reduziu-se a pouco mais que uma dezena.
Quando sua munição acabou, o tenente largou sua arma e pegou um draconita no ar, arrancando suas asas e jogando-o contra outros dois que vinham voando em sua direção. Estava possuído pela cólera, pela destruição à sua volta... Começava a sentir um estranho prazer em tudo aquilo. Os dois seres rochosos foram colocados fora de combate quando a ANA de Morrice, avariada, caiu pesadamente sobre eles. Quando ia comemorar, o comandante da esquadrilha Gama percebeu que era o último representante dos jacais. Ia voltar à forma alada quando foi atingido pela plataforma dos crors, que levitou do chão e golpeou as pernas de sua armadura, cortando-as. Sua ANA caiu para trás, enquanto as pernas penderam para frente. Desvencilhando-se das amarras de segurança e do capacete, apanhou sua pistola e deixou a cabine. Ainda apontou a arma para um draconita que pousou à sua frente, mas foi queimado vivo pelo sopro incandescente de seu inimigo antes de disparar.
Fez-se silêncio no campo de batalha... O combate durara apenas alguns minutos, mas a destruição havia sido grande... Todas as armaduras jaziam imóveis, destruídas... e muitos draconitas também jaziam mortos, sangrando sobre o solo de seu planeta natal... Planeta que a milênios não testemunhava seus filhos perderem as centenárias vidas na violência de uma guerra.
Klarh, esgotado com o esforço da batalha, pousou próximo a seu amigo Jarser que parecia estar prestes a ter um ataque nervoso. Ao recolher as asas, sentiu dores em músculos que nem sabia existirem. Vendo que seu amigo o ignorou e permaneceu congelado, aproximou-se lentamente e parou a sua direita.
– Jarser? Está ferido? O que há?
– Eu os matei Klarh... um de cada vez... Planejei cada movimento... cada manobra... e os fui destruindo...
– Calma, meu amigo... Eu entendo...
– Você entende? Mesmo? Entende que eu me senti um vencedor a cada vida que eu tirei? – Jarser deixou-se cair de joelhos no chão. – Eu... exultei quando vi o último deles saindo desesperado de sua armadura metálica e... eu conheço cinco, pelo menos cinco maneiras que podiam tê-lo desarmado... mas... Klarh, eu... eu preferi queimá-lo com o sopro mais quente que pude dar! Aquilo fumegando ali na frente é ele!
– Que loucura. – Klarh abaixou-se, ficando de cócoras. – Em que loucura fomos nos meter... Há pelo menos dois amigos meus de infância mortos nesse terreno, Jarser. Nós fomos atacados! Todos nós. O mundo inteiro!
– Mas nem todos revidaram... Muitos se recusaram, ficaram em suas casas, templos e escolas... Eles não se rebaixaram a – Fez uma careta de desprezo olhando para os corpos espalhados. – “isso”!
Klarh levantou-se, voltando a abaixar-se em frente ao amigo, tapando-lhe a visão dos corpos e armaduras inertes. – Esses, Jarser... Esses a quem se refere, só estão vivos agora porque você resolveu vir aqui e garantir a segurança deles! Eles vão dizer que fomos bárbaros. Eu sei que vão... mas se não tomássemos uma atitude, esses invasores teriam esterilizado nosso planeta. É essa a alternativa que você escolheria?
Jarser teve um ataque de choro e encostou sua cabeça no ombro esquerdo do amigo. Não queria mais pensar. Era muita dor. E por mais que tentasse, sabia que não conseguiria ver sentido em nada daquilo. Rendeu-se ao pranto e ao apoio fraterno.
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Na ponte de comando da Naja II, Mnar analisou demorada e precisamente as informações da tela... pelo menos três vezes. Não podia ser verdade. Seu maxilar inferior tremia e as pontas de seus dedos quase furavam o casco das palmas de suas garras. Ódio, frustração, vergonha, ansiedade e orgulho ferido se misturavam em seu interior. Seu aparelho digestivo queimava, parecia querer se auto consumir... A esplendorosa Frota Jacal confiada a seu comando... agora se reduzia a quatro naves. Provavelmente todas nas mesmas condições precárias em que se encontrava... e havia pelo menos duas naves da Legião Estelar para cada uma das suas... sendo que três vinham em sua direção, inclusive a nave da capitão verde.
– Comandante, o capitão da Naja está solicitando uma comunicação. – Avisou Fen-ha. – É Guiner, senhor. E ele rebatizou a nave como “Intrépida”.
– E eu quero lá saber se ele redecorou sua sala? – Mnar olhou novamente para o gráfico na tela, onde via a Naja II cercada por três naves inimigas. – Operações, qual nosso poder de fogo?
– Ainda temos dois lançadores de mísseis funcionando, senhor. Mas não possuímos mais qualquer blindagem. – Disse Pulsz.
Mnar sentou em sua cadeira e acionou o comunicador interno em seu painel. – Engenharia! Temos como entrar em fase?
– Bem, senhor... Temos três bobinas de sintonia em condições, mas a nave foi muito mutilada e não posso garantir que manteremos a nave em fase... – Informou Satori, engenheiro-chefe.
– Espere... e os caças?
– A gravidade artificial dos setores de carga e hangar falhou na entrada forçada na atmosfera e nossas ANA foram arremessadas umas contra as outras... Estávamos muito velozes, capitão... Elas estavam carregadas e acabaram criando um incêndio que só terminou quando voltamos ao espaço...
– Cale-se, já entendi! – Gritou Mnar, virando-se para Pulsz com o olhar de quem havia encontrado uma solução. – Operações! Prepare dois mísseis para disparar contra a nave classe Galápago a meu sinal. Navegação! Controle-se e prepare a nave para entrar em fase na direção exata da mesma nave dois segundos após o disparo dos mísseis. Imediato, enquanto falo com eles, mande todos os sobreviventes da tripulação para o centro da nave. Sensores! Ponha o nosso bom amigo Guiner na tela...
– Capitão, pelo que entendi do plano do senhor, vamos precisar dos sensores de curto alcance... e eles não estão operantes. – Disse Fen-ha, desobedecendo a ordem de iniciar a comunicação.
– Sensores... Eu estou aqui para dar as ordens. A responsabilidade é minha. Suas vidas são minhas e eu quero que vocês “me” obedeçam! – Mnar deu uma respirada, continuando em um tom desprovido de emoções. – Se ainda não percebeu, estamos à beira da morte. Vou destruir aquele cargueiro e abrir caminho para que pelo menos consigamos sair daqui. Se não temos sensores, vamos torcer para que os mísseis façam seu trabalho... – Então voltou a berrar. – Agora você pode me obedecer e estabelecer a droga da comunicação?
Fen-ha baixou os olhos e acionou os comandos em seu painel para que a chamada da Intrépida fosse atendida. Na tela, em uma ponte igual à de Mnar, Guiner apareceu sorrindo. Sentado na cadeira de comando, seu semblante estava confiante.
– Parece confortável, Guiner. E veja, está com um belo uniforme! – Disse Mnar, levantando-se para poder gesticular mais à vontade. Escondia seu nervosismo, mas não conseguiria ficar sentado e impassível. – É um prazer finalmente conhecer o grande líder que unificou os mendigos da “Resistência” e até lhes deu roupas novas!
– Palavras afiadas... Afiadas demais para quem está sob a mira de um canhão de pulso. – Guiner levantou-se. – Mas o que eu poderia esperar do senhor: “Abordaremos sua nave para apreender sua preciosa carga e vocês não resistirão”? – Disse imitando a voz de Mnar. – Não estamos nos conhecendo agora. Eu era o navegador da nave que o deixou à deriva no espaço.
– Seu impertinente convencido! Aquilo foi um maldito golpe de sorte e você sabe muito bem disso! – Por mais que Mnar soubesse que seu antagonista o estava provocando propositadamente, sua dificuldade em lidar com tantas derrotas era demasiada. Em menos de duas horas, uma vitória certa contra um povo inofensivo transformara-se na destruição da sua frota... Era muita coisa para aquele orgulhoso pirata engolir.
– Sorte... é verdade... Aliás, como o tempo muda rápido por aqui, não? – Disse Guiner, desviando momentaneamente o olhar para algo fora do alcance da câmera.
– O tempo... as tempestades... a atração... sim... foram vocês! Não imagino como, mas foram vocês! Seus covardes imundos! – Mnar perdeu totalmente a compostura.
– Capitão! Temos um problema! – Pulsz, do posto de Operações, estava alarmado, do contrário não interromperia.
– Mas será possível, Pulsz? O que foi, agora? – Os olhos de Mnar pegavam fogo...
– Calma capitão, ele só quer avisá-lo de que suas saídas de mísseis não estão mais... operacionais! – Guiner abriu um largo sorriso, seus olhos brilhavam de contentamento. Nira estava certa: ele adorava quando um plano dava certo!
Mnar apenas olhou para Pulsz, que confirmou a informação com um movimento de cabeça. Parou, revendo em sua mente os recursos que ainda funcionavam na nave e tentando engendrar alguma forma de reverter a situação.
– Poupe seus neurônios, Mnar... suas bobinas restantes acabaram de ser “arrancadas” do lugar. Essas ANA são um grande avanço tecnológico jacal, não é mesmo? O nosso modelo, pelo menos, funciona muito bem. Renda-se!
Mnar tremeu uma última vez de raiva, enquanto aquele “renda-se” inaceitável reverberava por seu crânio. Então, sentiu todo o seu nervosismo passar e uma frieza até então desconhecida tomar conta de seu ser. A raiva sumiu de seus olhos e seu semblante, antes colérico, tornou-se impassível, desprovido de qualquer emoção. Ignorando o mundo a sua volta, dirigiu-se para sua cadeira e sentou-se sem pressa. Após digitar apenas dois comandos, observou enquanto o Eclipse III reconfigurou seu painel com os controles de todos os postos da ponte. Pôde ver que realmente não possuía mais as bobinas de sintonia, mas que ainda contava com o motor de navegação, destinado a pequenos deslocamentos sub-luz, como atracações. Com um terceiro comando, travou todos os painéis dos demais postos da ponte de comando.
A tripulação da ponte, ignorando as ações de Mnar, observava seu capitão sem entender o que ocorria.
Guiner tentava adivinhar, sem sucesso, o que estava ocorrendo. Já sentia o perigo no ar...
Mnar foi levantando o olhar de seu painel até encarar o capitão da Intrépida. Em sua mente tudo parecia ocorrer em câmera lenta. Levantou um dedo do painel e, sorrindo para Guiner, baixou-o com força e decisão.
Em resposta ao comando de seu capitão, a Naja II rumou com toda a velocidade em direção a sua predecessora. Guiner percebeu o movimento, mas não havia como desviar a nave devido à proximidade que estavam do inimigo. Apenas teve tempo de gritar para que acionassem a blindagem.
A cena que se seguiu, vista pelas tripulações da Brisa e da Avatar, ficaria em suas mentes por toda a vida, perturbando muitos com considerações, reflexões, pesadelos e um profundo pesar. A Naja II, contando apenas com a proteção de seu já bem surrado casco, literalmente se desfez no impacto com a Intrépida, que teve a potência de seu campo de blindagem elevada ao máximo pelo reflexo rápido de Studs.
Na Avatar, por um instante Márcio se permitiu esquecer as diferenças e lamentar... Enquanto os destroços da Naja II envolviam a Intrépida, surpreendeu-se iniciando uma prece...
Na Brisa, Nira cobrava resultados. – Idish, e então?
– Sinto, capitão. Não detecto sobreviventes...
– Foram esmagados pelo impacto. – Murmurou Kumbah, do posto de operações.
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Na ponte da Intrépida, Marcel, com os olhos molhados e os dentes cerrados, quebrou o silêncio traduzindo os pensamentos de muitos.
– Idiota orgulhoso! Ele sabia que a nave estava aos frangalhos! O pulha condenou toda sua tripulação!!!
– Não procure sabedoria em uma guerra, Marcel... Como está Elimander? – Perguntou Guiner, por preocupação, mas também para mudar o foco das atenções para questões mais práticas.
– Ele e nossa ANA-sabota-mané estão bem... Está aguardando uma brecha entre os destroços para voltar ao hangar... E trouxe os mísseis inimigos com ele! – Respondeu Marcel em tom baixo e mais lentamente que de costume.
– Excelente. Andréa, como vão as outras frentes de combate?
– Todas as naves jacais foram abatidas ou ocupadas. Há apenas três focos de combate no planeta onde eles resistem e... as baixas ainda estão chegando...
– Quantas até agora?
– Bem... – Andréa teclou alguns comandos em seu console. – Três crors, sete humanos e dois mil e oitocentos e quarenta e sete draconitas. Ai... Guiner... – Esperou que o karile a olhasse nos olhos. – Dois desses draconitas eram daquele conselho.
– Os anciões... Droga... No fundo eu já esperava algo assim... O que fizeram foi colossal. Devem ter morrido de pura exaustão. – Guiner voltou seu olhar para a tela, onde via-se, entre os destroços da NAJA II, o planeta Dicro e as estrelas. A imagem do fim de seu mundo voltou a sua mente e ele se convenceu de que as baixas nesta batalha haviam sido mínimas. – Andréa, envie a Nídia, a Camaleão e Elimander para apoiar as três equipes no solo. Os demais devem se reunir conosco aqui. Eu... vou para meu alojamento. Assuma a ponte e me avise quando tudo estiver pronto. – Disse levantando-se e, com o semblante pesado, dirigindo-se para a porta.
– Certo, capitão! – Respondeu sua imediato, a outrora irresponsável aventureira, com o semblante sério e compenetrado, já digitando as novas ordens em seu console.
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Capítulo XVIII.
ANÁLISE PÓS-AÇÃO.
Foi uma semana extremamente difícil para o planeta draconita. Guerra era apenas um conceito histórico, quase mitológico, para aquele povo que vivia em paz a milhares de anos e praticamente ignorava as civilizações que o cercavam. Ferir outro ser intencionalmente, só mesmo nos treinos de artes marciais, mantidas em sua cultura como exercício da disciplina para jovens aprendizes. E mesmo esta prática era cercada por rígidas normas de segurança. Não alteravam nem o caminho de uma chuva, pois acreditavam que o equilíbrio da natureza continha sabedoria maior que o mais experiente ancião. E, em poucas horas, tinham ignorado tudo isso e atacado mortalmente outra espécie, usando seu próprio mundo como arma. Para piorar a situação, a antes única escola de filosofia havia se partido por divergências de interpretação das novas descobertas e também pela discordância do combate. Correntes conservadoras defendiam a idéia de que não deviam ter se defendido, algumas por abominarem a violência e outras por acreditarem que tudo tem um fim, inclusive sua civilização.
O Grã Conselho Darcom teria muito trabalho pela frente, mas parou para honrar o cerimonial de partida das vítimas da batalha. Na região agrícola de Azneth, em uma faixa do terreno dedicada ao plantio de cereais, foram abertos milhares de túmulos, onde foram depositados os corpos das duas forças beligerantes. Amigos e inimigos jaziam lado a lado nas covas simples e não identificadas, enquanto Jansir discursava, emocionado, em um pequeno palco improvisado, prestando as últimas homenagens a todos os envolvidos. Quando citou a perda de seus companheiros, os mestres Iavol e Ansur, aquele ser com mais de cinco séculos não conseguiu segurar mais as lágrimas. Não chorava pela morte dos amigos, mas pela saudade que já sentia deles, com quem convivia a centenas de anos. A multidão, comovida pela vulnerabilidade de um de seus ícones máximos, entregou-se ao sentimentalismo e a uma estranha, quase alienígena, sensação coletiva de impotência.
A equipe da Legião Estelar olhava atônita para a cena surreal formada por centenas de draconitas, muitos seculares, em prantos... Marcus, que já estava inconformado em ver os corpos dos inimigos sendo enterrados junto aos de seus aliados, ao ver tão injustificada demonstração de auto-piedade perante uma vitória, chegou a sacar sua pistola para dar alguns tiros para o alto, mas conteve-se quando avistou Guiner subindo no palco. Sorriu e puxou um charuto do bolso interno que mandara costurar em seu uniforme.
O Karile pôs sua mão direita sobre o ombro do palestrante e substituiu-o no microfone. Marcus cutucou Rício, soltando uma piada sobre o karile não desperdiçar uma chance de “aparecer”. Ric, que trocava olhares com uma das novas aquisições da Legião Estelar, uma jovem morena muito sorridente, desconversou e dirigiu-se para seu “objetivo”. Marcel cochichou com Studs – Lá vem o discurso inspirador... – que, mesmo com o nariz congestionado, sorriu. Serafim reconfigurava o sistema de captura e transmissão, que enviava aquela cena para a rede de holovídeo.
“Amigos... eu represento a Legião Estelar. Um grande sacrifício foi necessário para manter este planeta livre e nada do que eu falar aqui vai diminuir a dor em seus corações... – Fez uma pausa. – Mas nenhuma tristeza vai diminuir o valor dos heróis que arriscaram suas vidas para manter a tirania jacal longe de Dicro. Há cinco dias, a rica cultura deste mundo foi salva da aniquilação! A mão jacal veio esmagá-los, mas os draconitas decidiram prevalecer! Lado a lado com irmãos de outros mundos lutaram e venceram. Sei que muitos discutem sobre o que ocorreu. Não sou sábio nem filósofo... não sou nem draconita. E Gn sabe que não é fácil falar do valor de um combate estando de frente para mais de três mil corpos. Mas, é importante lembrar que, na natureza, mesmo a mais simples forma de vida luta incessantemente pela sobrevivência. E mais, amanhã mais um dia livre nascerá, onde poderemos discutir exaustivamente o valor filosófico do que ocorreu, ou simplesmente abraçar um irmão que retornou vivo do campo de batalha. Sejam fortes. Paz e luz a todos." – Ainda ponderou se devia aproveitar o momento para convocá-los a juntarem-se à Legião, mas desistiu. Eles visualmente precisavam de tempo.
– Guiner – Chamou Jansir. – ao anoitecer reunirei o conselho para deliberar sobre os próximos passos. Compareça.
– Estarei lá. Preciso lhes expor uma idéia que deve render novas reuniões...
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Em Darr, Sflagarthe ouvira as palavras do karile e, com o estômago em refluxo, abriu um canal com Lar.
– Parso Sehro... viu a transssmisssão da... “vitória certa” de nosssa grandiosa frota?
– Vá direto ao assunto, darane. – Retrucou Parso. Seu tom era seco.
– É simplesss. – Continuou, contrariado com a desfeita do humano. – Em pouquísssimo tempo esssa rebelião passsou de uma desarticulada milíssscia de dessscontentesss a uma forsssça armada, organizada, uniformizada e até motivada por um "nobre" ideal. Como explica issso?
– Não gosto de jogos, Sarath. Muita coisa aconteceu nos últimos meses. Mas, se eu tivesse que arriscar um palpite... O karile. Esse "Guiner".
– Sssim. É exatamente o que penssso. Essse "ninguém" sssurgiu do nada e osss rebeldesss ssse uniram nesssa Legião Essstelar!
– E?
– E eu o quero fora do nossso caminho.
– E está me dizendo isso porque acha que os espectros podem fazer esse serviço.
– Podem?
– Eu o pegarei para você, Sarath. Mas... vai ficar me devendo isso. – Concluiu desligando o comunicador em sua mesa. Com certeza Sarath Sflagarthe ia tremer de raiva. Esse pensamento quase lhe arrancou um sorriso...
Erguendo-se de seu trono, pegou um copo de uísque e caminhou até a grande janela de seu luxuoso gabinete, observando peixes multicoloridos passando lentamente, alheios aos seus terríveis pensamentos. Depois de tantos anos servindo a interesses de outrem, finalmente seus espectros estavam no poder. Tudo saía como planejado. Levaria Guiner a Sflagarthe... sim... Sflagarthe era o mais poderoso e influente dos imperadores... Guiner seria pego como já planejado, mas vivo. Aquele karile ia revelar-lhe seus segredos, a começar pela controvertida história do diário.
Aproximou-se de sua mesa, apertou uma tecla de seu comunicador e transmitiu sua ordem.
– Astur, chegou o momento. Inicie a fase quatro. – Soltou o botão e voltou para a janela. Por detrás dos cardumes, vislumbrava os outros prédios da capital submarina.
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Em Dicro, alheios aos planos inimigos, Guiner, Marcus, Rício e Kmalkim adentravam o salão Darcom. Mas não pelo portão cerimonial e sim por um tipo de elevador espaçoso e rústico que os deixou no nível das bancadas superiores, dedicadas aos anciões. Em poucos minutos eles e o conselho estavam frente a frente, separados por distâncias inferiores a cinco metros.
Vencidos os primeiros minutos de atos cerimoniais que remontavam milenares reuniões de estado, Jansir tomou a frente das conversações e, objetivo, iniciou a reunião que pretendia ditar os rumos não só do povo draconita, mas de todos os povos hoje sob o chicote jacal.
Todos ali estavam conscientes da importância histórica, estratégica e tática de cada ponderação, cada idéia, cada decisão tomada. Naquele salão queria-se criar a esperança de um futuro livre e soberano, batizada de Confederação Galáctica de Nações. A proposta era estabelecer uma união política entre os diversos povos que a formariam de comum acordo.
Entre os assuntos mais discutidos e de mais calorosas exposições, destacou-se a definição das regras que garantiriam às nações confederadas sua autonomia sem ferir o bem comum.
Muitos interesses sócio-econômicos foram tratados, bem como fases para a implantação do novo sistema. Os membros do conselho faziam agora o que sempre fizeram, mas em uma escala bem maior e mais complexa. Sua função sempre fora representar diferentes nações, mas todas draconitas. Kmalkim agia como mediador, facilitando as conversações e diminuindo o atrito natural causado pelas diferenças culturais entre seu povo e seus aliados. Marcus traçava uma estratégia militar, muito mais preocupado com os problemas atuais do que com sonhos. Rício aparava arestas, completando com sua experiência as lacunas naturais daquele planejamento teórico para a criação de uma sociedade viável, evitando a construção de castelos em nuvens. Com muita diplomacia, Guiner se esforçava para garantir que, mesmo depois de estabelecida a paz e a independência de cada governo, a Legião Estelar permanecesse como força militar única, destinada a manter a lei e a ordem em sua jurisdição.
Pouco antes do final do dia, a nova e singular confederação nascia, tendo as nações draconitas e a ainda nômade comunidade cror como suas primeiras formadoras.
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Capítulo XIX.
RESGATE.
Ausência, eternidade, escuridão, ignorância... Não há desejos, valores ou consciência. Mas algo frio rasga inexoravelmente meu confortável universo e, num átimo, lembro do que é dor. Com este “conhecimento” outros conceitos inundam meu mundo perfeito e, aos poucos, tomo ciência de que existo. Logo nomes e idéias tomam forma e passo a sentir meus membros, dedos, ferrões, feridas... Sinto as pernas dormentes e os braços atados... Estou preso. Por fim, quando lembro de que meus olhos existem, abro-os para deparar-me com novas surpresas.
Estou amarrado, com algum tipo de liga fibrosa bem resistente, a uma espécie de cadeira metálica soldada ao piso. Encontro-me em uma sala grande, mal iluminada, onde vejo vários “aparelhos” com amarras, correntes, espinhos e contatos elétricos. É algum tipo de masmorra. Há uma porta à minha direita. Está fechada. Há um banco largo de madeira à minha frente. Seu encosto alto tapa um pouco minha visão. Não posso reparar no que se encontra atrás de mim. Meus movimentos estão bem limitados, mas até onde percebo há apenas uma parede. Há quatro lâmpadas apontadas para as paredes que constituem a única iluminação do lugar. Não há corrente de ar e não vejo qualquer sistema de ventilação. Tento forçar as pernas e me surpreendo novamente. Nada abaixo da minha cintura responde, embora sinta um formigamento incômodo nos membros inferiores. Olho ansioso para meu ventre e pernas, felizmente não encontrando qualquer ferimento. Devo estar sob efeito de alguma droga...
Esforço minha mente para recordar como vim parar aqui, mas minhas últimas lembranças são do planejamento do ataque para tomar Dicro e sua doca espacial. Ainda ouço Studs cantarolando uma ópera e Marcel fazendo piadas sobre o quimono de Kmalkim. Não... Discuti com Marcus e resolvi sair para respirar ar fresco... uma praça... um grito de dor... parecia alguém sofrendo e fui averiguar... Idiota! Tolo! Depois de tanto esforço, tantas lições... e eu ainda continuo agindo por instinto! Caí em uma armadilha! Mas como souberam que estaríamos naquela cidade? Naquela casa de chá? Espere... ouço passos e uma espécie de... arrastar!
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Ao aproximar-se do asteróide, a ANA de Elimander desligou seus motores e prosseguiu apenas por inércia. Magnetizados às suas asas, quatro astronautas discutiam os últimos aspectos da missão.
– Vamos morrer!!!
– Droga, Marcel! Chega disso, você não foi voluntário? – Perguntou Nira.
– Esqueça, ele só quer atenção. – Interviu Studs. – É só ignorar que ele fica quieto... Estou preocupado é com Kmalkim, que está imóvel desde que saímos da Intrépida. Parece desmaiado. Espero não estar exigindo demais dele.
Kmalkim estendeu sua segunda visão para além de seu corpo. Avistou o asteróide que abrigava a fortaleza inimiga e ficou tentado a verificar se seu amigo estava realmente cativo em seu interior, mas havia pouco tempo e concentrou-se em sua missão. Viu a estrutura coberta por densa nuvem negra, que dificultou seu trabalho de perscrutação. Ao alcançar a névoa, pôde sentir um cheiro podre e um gosto semelhante a vômito veio a sua boca. Aquela devia ser a “atmosfera” criada pelos pensamentos de seus ocupantes. Evitou ligar-se ao fenômeno pois, do contrário, sua vibração cairia e sua mente seria invadida por aqueles pensamentos pesados que orbitavam o asteróide. Parou e procurou, na estação, a concentração característica de quem consulta instrumentos. Procurava o posto de comando. Como não percebeu muitas dessas ocorrências, pôde agilizar a busca, passando menos de dois segundos pela mente de cada alvo. Na sexta tentativa obteve sucesso. Por sorte, o posto era um ambiente pequeno, com quatro profissionais humanos dedicados à constante observação dos sensores e alarmes. Tentou familiarizar-se com a visão do primeiro homem, mas sentiu uma náusea forte, quase perdendo a concentração e a visão. Procurou por ajuda e então pôde ver um cordão etéreo e luminoso que vinha de algum lugar do infinito e chegava até sua fronte. Era o bem-vindo auxílio que vinha dos dez mestres que, em seu mundo, estavam reunidos para lhe manter equilibrado. Tomado de súbita clareza de idéias, ignorou os pensamentos desconcertantes de seus alvos e, após alguns segundos, memorizou os sinais dos monitores. Sentiu uma fraqueza já conhecida. Seu corpo sofria com o esforço. Em Dicro, quando executava esse tipo de atividade, mantinha sempre um mestre a reenergizar seu corpo com vibrações animais, sintonizadas com as necessidades materiais do corpo, algo impossível a essa distância. Procurou fortalecer-se focando a confiança que lhe haviam depositado e começou a enviar para as embotadas mentes de seus alvos as imagens que acabara de decorar. Permaneceu, no entanto, vendo o que realmente ocorria, para assim saber quando poderia descansar.
– Ainda falta muito? – Perguntou Marcel.
– Não, vejam! Ali já é a porta de abordagem do complexo. Elimander, assim que sairmos, vá para a posição Bravo Cinco e aguarde nosso contato. Não vejo nenhuma movimentação. Kmalkim conseguiu. Já estamos quase dentro!
– Olha esse cara! Anda pelos corredores cantando ópera e diz que eu é que quero atenção! Fala sério! Vem cá, eu te conheço? – Ainda brincou Marcel.
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Logo que a porta se abre, vejo um humano em um jaleco cinza segurando uma maleta entrar. Em seguida, entra o próprio imperador Sarath Sflagarthe sorrindo. A situação piorara...
– Vejo que finalmente acordou, Guiner. Diga exatamente como está. – Ordenou o humano.
– Estou sentado, sem movimentos da cintura para baixo. Acabo de recuperar a consciência e tenho um péssimo pressentimento sobre isso tudo. Estou com medo, mas não descontrolado. E... não faço a menor idéia do porquê estou dizendo tudo isso.
– Paresssce que funsssciona! – Sibilou Sarath.
– Logicamente. Guiner, você está sob efeito de uma droga inibidora que, além de impedi-lo de mentir, ainda o estimula a responder. É um preparado muito eficiente, específico para a sua espécie. Coisas civilizadas de um mundo moderno.
– Vamosss tessstar. – O darane puxou algo de um bolso grande de seu colete e esticou o braço para mostrá-lo ao cativo. – O que é issso?
– Bem, até onde sei é o diário de Q’tum. Estava sob meu poder até ser roubado em uma prisão de Lar.
Os dois algozes sentaram no banco em frente ao karile. Astur abriu sua maleta sobre o banco e conferiu os frascos de drogas. Estava preparado para horas e horas de interrogatório.
– Pois bem, Guiner... vamos direto ao ponto. Quem é você e de onde veio?
– Eu sou Guiner Iamahtsor. Quanto à minha origem, a melhor pergunta seria de “quando” eu vim. Esse veneno que me injetou é forte mesmo, até força as memórias a aparecerem na mente... Eu venho de Kaird, sétimo planeta do sistema Uni-Tonn. Um dos incontáveis mundos que abrigam o maior milagre do universo, a vida. Uma dádiva sem importância para vocês... Um mundo com formações continentais antigas e pequenos oceanos considerado pelo meu povo como um local sagrado! – Gritou inflamado.
– Vá direto ao ponto, karile essstúpido!
– Calma, Sflagarthe, o rodeio foi intencional. Ele começou a reagir à droga. Deixamos ele esperando por muito tempo. Deixe-me renovar a dose...
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A equipe, carregando Kmalkim, que permanecia “em transe”, conseguiu entrar na sala de abordagem. Lá, trataram de livrarem-se das pesadas roupas espaciais. Nira e Marcel sentaram o draconita e retiraram também seu traje. Studs retirou de seu cinto uma pequena renderizadora de mão e acionou-a. O equipamento projetou uma imagem brilhante em três dimensões da base lareana invadida. O mapa-3D foi desenhado a partir da memória do executável de Marcel, que o tinha armazenado pouco antes do momento em que o aranha fora “recrutado” pela Resistência. Uma minúscula esfera verde brilhava em meio à projeção, totalmente vermelha, indicando o local em que se encontravam.
– Aqui, Marcel. – Chamou, modificando a figura renderizada de modo a mostrar apenas uma ampliação das áreas adjacentes à posição que ocupavam. – O terminal mais próximo parece ficar neste escritório...
– Não, tem um a menos de trinta metros daqui!
– Eu sei, mas é em um corredor. Quanto tempo acha que conseguiremos ficar anônimos se pararmos bem no meio de uma via de acesso?
– Tá, tá! Então vamos andar duzentos metros, nessa mesma via de acesso, carregando um draconita dorminhoco sem chamar a atenção?
– Quanto tempo vai precisar no terminal?
– Não sei, pode ser um instante ou até meia-hora... – Confessou Marcel em tom baixo.
– Ele está acordando, Studs. – Disse Nira, que vigiava o draconita de perto.
– Tem condições de andar, Kmalkim? – Perguntou Studs. – Não é interessante nos demorarmos por aqui...
– Andar sim, mas correr não. Só irei atrasá-los. – Respondeu o draconita com uma voz cavernosa, transparecendo sua estafa.
– Graaaaande. Agora seremos apenas três contra todos os militares do complexo e sem a “camuflagem” de Kmalkim! – Cochichou Marcel.
– Há apenas um guarda na sala ao lado. – Disse Nira com a cabeça colada na porta interna da sala.
– Como sabe? – Perguntou Marcel.
– Só há uma respiração, tolinho. – Respondeu a límite com um sorriso desdenhoso.
– Carreguem suas armas. Kmalkim, deixaremos você aqui. Cuide-se! – Ordenou Studs. – Vocês dois, vamos!
– Vai mesmo ficar desarmado, Ki? – Ainda perguntou Nira, de modo maternal.
– Estarei bem, Nira... Ache Guiner.
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O karile tomou uma injeção subcutânea no abdome e sentiu parte de sua razão abandoná-lo de imediato.
– Vamos tentar novamente. De onde você veio?
– Eu lembro... Foi tudo muito rápido... Levávamos as vidas sufocadas que os jacais nos permitiam, sem passado ou liberdade, mas prosseguíamos conformados em nossa marcha. Foi assim durante anos até que imagens começaram a invadir todos os canais de holovídeo, desobedecendo a rígida censura jacal sobre a mídia. Eram cenas inacreditáveis, capturadas por sondas de longa distância, mostrando estrelas sendo consumidas por uma espécie de “nuvem”. Em resumo, a notícia anunciada era o fim do universo... Foi pior que uma bomba. Virou tudo de ponta-a-cabeça... conceitos, lealdades... Logo cientistas passaram a dar entrevistas explicando da maneira mais acessível possível a causa e o “alcance cósmico” das conseqüências do desastre que a tudo consumia. Em resposta, a população de Kaird, em pânico, entregou-se à insanidade. O meu povo, conhecido por sua resignação lastreada pela religião, revoltou-se contra aquela situação imponderável das mais diversas formas possíveis. Jornais mostravam cenas de lojas sendo saqueadas, guardas sendo apedrejados e templos queimados. Sem arquivos históricos, nossa cultura era frágil, um misto de religião e lendas passadas de pai para filho. Nosso deus e salvador Gn prometeu um fim glorioso a seus fiéis, e não aquele destino covarde que se impunha de forma absoluta. Quando toda essa “situação” começou, eu estava no espaço. Desenganado, mudei meu curso para voltar para casa.
– Pare! Assstur, ele essstá delirando. Issso é pura perda de tempo! Essse ssseu veneno cozinhou a mente dele! – Interviu Sarath.
– Não. Quer dizer... a droga não causa alucinação. O que ele está dizendo é exatamente o que ele acha que é verdade! Vamos deixá-lo prosseguir...
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– Está trancada! – Cochichou Studs, afastando-se para disparar na fechadura eletrônica.
– Calma, Stu. Assim você vai é travar a porta. – Interrompeu Marcel, interpondo-se entre o amigo e a tranca. Desceu ajoelhando-se e, retirando pequenas ferramentas do cinto, começou a desmontar a fechadura.
– Droga, Marcel! Ficou louco? Não temos tempo para isso! – Cochichou Studs, enervando-se a ponto de ficar com o rosto bem vermelho.
A única resposta de Marcel foi um sorriso sarcástico e convencido, que logo foi seguido pelo som característico da abertura da porta automática.
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Kmalkim, só e enfraquecido na sala de abordagem, procurou sua ligação com Dicro na intenção de fortalecer-se. Ao buscar sua segunda visão, no entanto, surpreendeu-se totalmente. O cordão que o ligava aos mestres draconitas não mais existia e a escuridão era total à sua volta. Uma névoa espessa e viscosa preenchia todo o ambiente, impossibilitando-o de ver até mesmo seus pés. Tentou ampliar seus sentidos para fora da estação ou mesmo da sala, mas sem sucesso. Estava preso, chafurdado naquela lama. Suprimiu o medo que, traiçoeiro, tentou instalar-se e dedicou-se de imediato a controlar-se. Aquela situação era totalmente nova. Mesmo na lua em que experimentara a tristeza profunda do povo cror, não sentira nada tão intenso. Parecia que aquela atmosfera terrível era proposital. Era inimaginável tamanha densidade criada em um ambiente dedicado ao estudo. Afastou esse pensamento. Procurou concentrar-se em seu mundo, em sua sala de meditação e, por leve fração de segundos, equilibrou-se. Nesse breve instante, percebeu, agora nitidamente, que aquele ambiente havia mesmo sido preparado. Viu uma sombra, algo muito negativo, um egoísmo sólido, uma vaidade desmedida... uma ganância ilimitada! Mas para quê? Só para quebrar sua conexão fluídica com os mestres? E quem era? Quem seria capaz de enegrecer daquela maneira o ambiente? Tornar quase material o fluido universal que permeava aquelas instalações?
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Agora escondidos no escritório arrombado, Studs e Nira montavam guarda enquanto Marcel instalava a nova versão de seu executável no computador do complexo jacal.
– Ele sabe mesmo o que está fazendo? Para quê aquele fio no olho dele? – Perguntou Nira, mais para combater o nervosismo através do papo do que por curiosidade.
– Fique tranqüila. Ele pode ser um chato, mas se alguém pode tomar o controle do computador desta estação é o Marcel. Através daquele “fio” ele controla um programa pessoal por seu nervo ótico. É uma interface muito sensível.
– Estranho... Não faz sentido. – Relatou Marcel, retirando a interface ótica do olho esquerdo. – Studs, acho que nos estrepamos!
– Explique. – Studs preparou-se para o pior.
– As defesas do sistema são as mesmas que eu invadi antes de me juntar a vocês... O arquivo de pessoal indica que apenas um décimo da guarda está na base... E o pior de tudo, não há informações sobre nenhum dos projetos científicos que eram realizados aqui! O banco-de-dados está praticamente vazio.
– E Guiner? – Perguntou Nira.
– Isso também está ridículo. Achei a localização dele em um arquivo com criptografia nível três. Estou acostumado a quebrar até mesmo níveis acima de trinta!
– Tudo muito fácil... – Studs caiu sentado em uma poltrona luxuosa.
– Pior, está de graça! Um complexo como esse deve ter reforçado seus códigos de segurança segundos depois de terem detectado minha invasão.
– Estamos sendo esperados. O que fazemos? – Perguntou a límite.
– Seguimos com o plano. Marcel, já que os códigos não são problema, veja o que pode fazer para facilitar nosso caminho até Guiner.
– Esperem... – Marcel reconectou-se ao terminal. – O projeto de inteligência artificial sumiu. Não há nem vestígio de que um dia foi desenvolvido aqui. Mais... Não há mais nenhum cientista na estação. Estou trancando e selando as portas que não nos interessam. Só teremos que nos preocupar com quem já estiver nos corredores.
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– Desci no espaçoporto de Ivich. Executei a última vistoria em meu cargueiro, despedindo-me de anos de navegação em que comprei e vendi minério pelos planetas que formavam o Domínio Jacal. Era o décimo quinto dia do mês das chuvas de 5152 e um burburinho medonho me cercava. Dentro de setenta e duas horas meu povo seria silenciado...
– Quando? Ano 5152? Issso é daqui a 115 anosss! Ele pensssa messsmo que veio do futuro?
– Se quer sair daqui, esteja à vontade senhor Sflagarthe! Só pare de interromper, pois Parso Sehro quer um relatório minucioso e eu vou levá-lo, está bem? Os testes químicos que fizemos nesse diário que o senhor guardou no bolso indicaram que ele e sua tinta têm por volta de sessenta anos, e o agora falecido Q’tum nasceu a apenas trinta e dois. – Astur olhou decidido para o darane, que calou-se pensativo e contrariado. – Prossiga, Guiner.
– Continuem discutindo. Foi essa arrogância... e sua ganância... que começaram tudo, mesmo! Ou terminaram... Ao tentarem estabelecer um portal para uma tal “dimensão H” para conquistá-la, seus sábios cientistas criaram de alguma forma a morte obscena que passou a se expandir consumindo tudo. – Toda a couraça de Guiner vibrou de ódio. – Após descer de minha nave, libertei as colônias de keplets que produziam o oxigênio abordo da Pégasus. Uma vez libertados, cada um daqueles pequenos vegetais alçou vôo e rumou em um enxame verde para a “proteção” da floresta. Eu invejei sua inocência. Não havia para onde fugir. Deixando o espaçoporto, fui abordado por um velho esquisito e franzino de jaqueta e luvas. Parecia um fugitivo do asilo. Como todos, eu não tinha tempo a perder e então tentei desvencilhar-me dele, mas o velho ficava repetindo que era “imperativo” que o acompanhasse ao seu laboratório. Parecia um louco, gesticulava muito e balançava o ombro para trás. Identificou-se como Risc'n e afirmou ser um cientista sênior que havia criado uma possibilidade de impedir não só todo aquele desastre, mas também eliminar a tirania do Domínio Jacal em Kaird. Nesse ponto eu o olhei como o darane me olha agora. Como acreditar? Sem nem parar para raciocinar, mandei-o ir para casa tomar seus remédios. – Guiner sorriu. – Foi então que tocou em meu ombro soltando uma descarga que me apagou...
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– São três daranes! – Avisou Studs, já disparando contra os guardas.
Graças aos sentidos de Nira, tiveram tempo de improvisar um escudo com uma mesa de aço liso que agora era bombardeada pelos disparos energéticos inimigos.
– Ouço mais dez rastejando para cá! – Gritou Nira.
– O que tantos daranes fazem em uma base humana? – Perguntou Studs no exato momento em que acertou a testa de um dos guardas.
– Mas será que até em combate você acha tempo para perguntar o óbvio? Não reconhece as insígnias? São a guarda pessoal de... Sflagarthe... Peraí... Então...
– Sarath está aqui? E as defesas estão baixas? – Perguntou surpresa a límite acertando dois disparos no peito de um dos antagonistas.
– Cada vez faz menos sentido... Guiner aqui... Nós aqui... Um imperador... Poucos guardas... As pesquisas retiradas... Putzgrila! – Studs ficou branco, mas ainda teve mira para alvejar o último dos três guardas. Agora só faltavam dez, mas se estivesse certo eles eram o menor dos problemas.
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– Minha cabeça está doendo e meu abdome está queimando... – Reclamou Guiner.
– É a droga. Pare de choramingar e termine logo seu relato. Talvez seu corpo não resista muito tempo aos “efeitos colaterais” e eu ainda quero fazer outras perguntas.
– Sei... Que amável. – Guiner esforçou-se para resistir, mas fora de seu controle as palavras saíam como se possuíssem vida própria. – Bem, acordei sentado em uma sala metálica pequena com o velho à minha frente, mas ele era melhor anfitrião que vocês. Para me adaptar à situação, deixei que ele falasse, então começou a me contar sobre um tempo onde não havia jacais. Eu desconhecia aquilo, pois toda nossa história havia sido convenientemente apagada. Vocês são espertos. Impaciente, subjuguei-o e deixei a sala para tentar fugir. Não deu muito certo... Deparei-me estupefato com uma ampla sala com a parede esquerda transparente, permitindo uma privilegiada vista para o meu planeta. Eu estava em um satélite artificial. Logo à minha frente, havia um grande e impressionante maquinário repleto de esferas e com uma espécie de cabine ao centro. À direita estavam duas portas e um posto de controle com várias telas. Nelas, pude ver a estação espacial com um artefato claramente bélico em vários ângulos e diferentes tomadas aéreas de cidades de Kaird. O satélite inteiro era uma arma apontada para o planeta. Pelo próprio governo, acreditam? E Risc'n disse que existiam mais de cem armas como aquela em cada planeta do Domínio Jacal. Vocês são loucos ou apenas paranóicos?
– Essse projeto exissste. Ssserão criadosss para manter a “cooperasssção” do povo. Como sssabe sssobre issso?
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Os três membros da Legião Estelar se defendiam atrás do que sobrara da mesa, mas agora eram dez guardas atirando.
– Devem ter sido atraídos pelo barulho dos disparos. Demoramos muito aqui! – Gritou Nira.
– Não, verdinha. A presença em massa deles aqui só pode significar que estamos perto de Sflagarthe. – Afirmou Marcel. – E então, grande líder? Como saímos dessa?
– Droga! Vou lançar uma granada de fumaça negra... Enquanto mantenho este ponto, vocês prosseguem e soltam Guiner. – Respondeu Studs, já retirando a granada de seu cinto.
Nesse instante, os três sentiram o ar se aquecer e viram uma onda de fogo preenchendo o local onde estavam seus adversários. Os atiradores caíram quase em cinzas. Só sobrara Kmalkim de pé no corredor.
– Eu sabia! Eu sabia! Valeu morcegão! – Gritou o aranha levantando-se.
– Excelente, Kmalkim! Bom vê-lo de volta ao combate. Agora vamos todos! Podem haver mais dessas cobras jacais! Mostre o caminho, Marcel! – Disse Studs limpando a testa e agradecendo silencioso à sua divindade.
– É bom ajudar, mas creio que entramos em uma armadilha. – Disse o draconita, sem surpreender nenhum de seus amigos.
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– Na grande janela e nas telas do satélite, pude ver Kaird começar a agonizar. Um continente inteiro cedia lugar ao mar... Risc'n operava os controles, tentando estabilizar o satélite que já sofria alterações perigosas em sua órbita. Os terremotos eram seguidos por linhas de vulcões que queimavam as florestas e varriam as cidades com seus cobertores incandescentes de lava. Era inaceitável! Dois bilhões de pessoas, uma cultura secular, guerreiros honrados, crianças, esperanças e sonhos... Foi então que perguntei pela solução prometida por ele. Aí ele começou a falar sem parar mais. Entendi pouca coisa. O velho disse que sua solução baseava-se em um projeto antigo que havia falhado e sido arquivado, mas que ele o havia corrigido. Eu assistia a destruição de meu mundo e o ouvia sem mais nada a perder. Falou sobre propagação, M-quanta, cordas supersimétricas e eu, já impaciente, o mandei traduzir aquilo me segurando para não esmurrá-lo. Só então explicou seu plano... Enviaria um emissário ao castelo imperial no terceiro dia do mês das brumas do ano 5037 para avisar Kazar, o então governante de Kaird, dos planos de Têner, antes que este tomasse o poder. Ao evitar a queda de Kaird, a comunidade teria uma chance de evitar o golpe jacal.
– Então viajou para nossso tempo? – Perguntou Sarath, sorrindo irônico.
– Não, então eu gargalhei. Até que perguntei o porquê de ter me escolhido... O desgraçado teve a coragem de dizer que podia haver algum perigo para o “continuum temporal” deixar alguém do nosso instante cronológico solto por muito tempo aqui no passado. Disse que não podia precisar todas as conseqüências daquele “experimento”. Então escolheu para a viagem alguém que deveria deixar de existir com a eliminação de Têner.
– Como assim? Porque você “deixaria de existir” quando eliminassem Têner? – Perguntou Astur.
– Segundo o cientista, meu pai, Gnar'dir, era um dos vários bastardos de Têner. Foi depois dessa revelação que ele me mostrou o diário de seu pai. Ele era filho de Q’tum, que teria morrido envenenado anos após o estabelecimento dos impérios jacais, assassinado por sua própria guarda...
– Mas Q’tum foi assassinado antes disso. – Acrescentou Astur. – E não foi por sua guarda pessoal.
– Quanto a isso nada posso dizer. Só sei que acabei pegando o tal diário e uma pistola e entrando na cabine da invenção mirabolante de Risc'n. Apaguei vendo Kaird sendo consumido pelas radicais mudanças gravitacionais conseqüentes da destruição da galáxia...
Nesse momento, a porta da sala foi aberta por um chute de Nira. Marcel e Studs entraram apontando suas pistolas para os jacais, que levantaran-se surpresos.
– Muito bem, gente! Vamos evitar perguntas imbecis e aborrecimentos! Mantenham-se paradinhos aí e bem calados! – Bradou Marcel.
– Não é que Sarath em pessoa está aqui? – Comemorou Studs.
Aproveitando-se de que os olhares convergiram para o imperador darane, Astur começou a recuar para a parede à sua retaguarda.
– E aí Guiner? Como está? – Perguntou Nira quase pulando de alegria.
– Não muito bem, mas muito melhor agora que chegaram. Estou com as pernas imobilizadas e o estômago queimando. Vou precisar de ajuda. Qual é nossa situação?
– Bem, – Começou a falar Studs, mas foi interrompido por Marcel que colocou a mão não armada em sua boca.
– Nós estamos do jeito que você gosta! Armados apenas de pistolas, tendo de carregar um karile de dois metros e render dois prisioneiros jacais em um complexo militar secreto construído em um imenso asteróide cercado por “irmãos menores” por todos os lados! – Disse Marcel quase cantando. – Ah! E achamos que tudo isso é uma grande armação!
– Pare aí! – Gritou Nira apontando para Astur, que já estava colado à parede.
– Armação não! Uma operação minuciosamente planejada. – Disse o humano, apertando uma pastilha na parede que abriu uma fenda sob seus pés. O reflexo de Nira não foi rápido o suficiente e seu disparo acertou apenas a parede. O humano não mais estava entre eles.
– Ele tinha um alçapão preparado. Então...
– Ele sssabia que viriam. Eu fui traído! – Sibilou Sarath Sflagarthe liberando seu ódio.
Nira guardou sua pistola no coldre e, posicionando-se às costas do karile, começou a soltá-lo. – Kmalkim está vigiando o corredor, Elimander está em um asteróide próximo com sua ANA repotencializada por Serafim e a Intrépida aguarda fora do cinturão de asteróides. Ah! – Mudou para um tom bem mais baixo. – Eu estou muito feliz em vê-lo vivo.
– Eu também estou muito feliz em vê-la, menina. – Sorriu.
Nesse instante o teto estilhaçou-se. Uma perna de ANA varou-o abrindo um rombo que começou a sugar o ar da sala. Todos procuraram por apoios para se segurarem e resistirem à sucção. Studs e Marcel conseguiram puxar Guiner para o corredor, enquanto Nira resgatou Sarath. Encontraram Kmalkim, que, cada vez mais fraco, apenas sorriu levemente para o amigo karile.
– Era a nossa ANA, Elimander deve estar sob ataque! – Disse Studs. – Vamos para a câmara de abordagem!
– Não. Se for mesmo uma armadilha, a saída óbvia é a pior opção. Há outro lugar em que possamos encontrar trajes espaciais? – Indagou Guiner, com um braço entorno de Marcel e outro sobre Studs. Suas pernas começavam a formigar mais forte causando dor, mas ainda não recuperara os movimentos.
– Ele se adapta rápido, não? – Ironizou Marcel, espantado com a velocidade com que o karile entendera a situação. – Existem trajes na sala de treinamento. Não é longe... e você precisa fazer um regime...
Os sons indicavam que a destruição aumentava. Ouviam-se explosões, provavelmente causadas por disparos, por todo o lado.
– São muitos inimigos. Devem ser naves ANA. Nada mais conseguiria chegar aqui por entre os asteróides. – Conjeturou Nira, apreensiva.
– Tirem-me daqui em ssseguransssça e ssserão regiamente pagosss.
– Cale-se darane. Já temos problemas suficientes. – Disse Nira, fazendo pontaria na testa do ditador.
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Elimander já conseguira eliminar dois inimigos, mas o último míssil o acertara em cheio. Tentou fazer sua ANA levantar-se, mas mesmo os sistemas redundantes das pernas estavam falhando. Sua armadura permaneceu ajoelhada. Felizmente, seus braços eram uma outra estória. Enquanto seu antebraço esquerdo disparava tiros de faire, a ínea em seu braço direito metralhava, preenchendo o espaço com seus destrutivos projéteis. Precisava manter as outras seis armaduras de ataque longe das instalações até que seus amigos dessem sinal de vida... ou morrer tentando.
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A alguns quilômetros dali, de pé sobre um asteróide próximo, uma ANA vermelha permanecia imóvel. Suas câmeras e sensores acompanhavam os eventos, como a destruição da sala de abordagem, as implosões das saídas dos módulos de fuga e o desempenho formidável do piloto da Legião Estelar, que já destruíra mais uma das armaduras jacais. Em seu interior, um piloto impassível vislumbrava uma luz desconhecida e imprevista que começara tímida e vacilante crescer em meio às densas trevas que reinavam na instalação científica.
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– Estamos prontos! – Informou Studs, amarrando sua cintura com a mangueira de combate a incêndios.
A mangueira unia a todos, mesmo o incomodado Sflagarthe. Com um tiro de Studs os explosivos de mineração presos ao teto abriram uma abertura de quase cinco metros de diâmetro. O vácuo do espaço sugou-os. Kmalkim, impossibilitado de unir-se aos mestres que o ajudavam, renovou suas forças em uma fonte de luz imaterial que parecia acompanhá-los e afastou os destroços do estouro. Ao ver o estranho grupo emergir da explosão, Elimander acionou os jatos das costas de sua armadura e, com a mão direita, apanhou uma das pontas da mangueira. Lançou seus últimos dois mísseis e passou a disparar incessantemente com o faire do antebraço esquerdo. As quatro ANA restantes perderam contato com seus alvos quando Kmalkim os tornou “invisíveis”.
– Ele não vai agüentar muito tempo! – Gritou Marcel no sistema de comunicação de seu traje.
– Nem precisa, já posso ver a Intrépida! Olhem! – De fato, Studs estava certo e todos puderam ver a grande nave. Em minutos, Elimander já os retirara do cinturão de asteróides.
– Uau, Guiner. Você sabe como injetar emoção na vida de uma garota! – Descontraiu Nira, que agora tremia, finalmente rendendo-se ao nervosismo.
Guiner abriu um largo sorriso. Sentiu naquele momento que com aquela equipe era um guerreiro invencível, como nas óperas que Studs cantava quando bebia. Aquilo é que era estar vivo! – Obrigado a todos vocês, meus amigos.
FINAL DESTE LIVRO...
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