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Edifício da União Mundial, Itália, 12 de fevereiro de 2.387.
Kristal Andersen estava um pouco nervosa esperando ser recebida pelo Almirante Frederich. No espelho do hall, acertou os cabelos curtos e louros e verificou se sua maquiagem leve estava adequada. A luz da manhã cintilou em seus olhos verdes.
Havia sido convocada às pressas e viera de Estocolmo no primeiro supersônico disponível. Pelo tom de urgência na voz de Hans Frederich, a coisa era grave. Sem opções, tivera de interromper as curtas férias que passava na Suécia, sua terra natal.
Na sede da União Mundial, um belo edifício em estilo greco-romano, construído às margens do rio Tibre e próximo ao castelo Sant'Angelo em Roma, Kristal esperou apenas poucos minutos até que a carrancuda secretária do Almirante pedisse que entrasse.
Hans Frederich sorriu e levantou-se quando a Capitã sueca entrou. Ele era baixo e atarracado; seus poucos cabelos louros e sua tez alva indicavam a origem germânica. Parecia ainda mais baixo perto da alta e esbelta Capitã da Astronáutica Mundial.
- Sra. Andersen, chegou antes do que eu esperava. É muito bom revê-la.
Kristal não gostou de apertar a mão suada do Almirante.
- Vim o mais rápido que pude. Vamos direto ao assunto, Almirante. Não gosto de ter minhas férias interrompidas.
Frederich saiu detrás de sua enorme mesa e foi mexer nas maquetes de aviões e naves espaciais que atulhavam sua sala.
- O Senado aprovou a missão AlfaProx.
Kristal sentiu um arrepio.
- O Sr. quer dizer que...
- Uma nave, seguindo as especificações do próprio Davi Rapendell, já está em construção há quatro meses. A decisão foi mantida secreta até agora, principalmente por causa da I.N.H.
Kristal podia ser escandinava, mas tremia de emoção.
- Eu... Eu fui aprovada nos testes?
- Sim. Você, Capitã Andersen, foi designada pelo Chanceler Souza em pessoa para chefiar uma nave na missão AlfaProx. O Senado aprovou com unanimidade o orçamento, após a equipe de pesquisas que enviaram a Marte concluir que a viagem é viável.
A bela sueca novamente exibiu sua face de gelo, profissional e ardilosa.
- Qual a previsão de conclusão da nave? E a escolha da tripulação?
- Mais seis meses. Os trabalhos estão acelerados nos estaleiros Tychon.
Tychon. A base secreta na face oculta da Lua. Kristal entendeu o porquê. Se a I.N.H., a Igreja da Nova Humanidade, descobrisse os planos da União Mundial de viajar pela primeira vez para outra estrela que não o Sol, tentaria um ataque terrorista ou uma sabotagem. Os fanáticos seguidores de Xang não aceitavam a idéia de que Deus não criou Adão e Eva no Paraíso e que havia alienígenas, seres que não nasceram na Terra e não eram humanos.
- Quanto à tripulação - prosseguiu Frederich, agora olhando o belo castelo Sant'Angelo e o rio Tibre, por uma das enormes janelas de sua sala - será definida segundo critérios do Comando da Missão, instalado por segurança em uma ilha artificial no meio do Pacífico.
Andersen ergueu a sobrancelha esquerda, curiosa.
- E quem será o Comandante-em-chefe da missão AlfaProx?
- Yuri Obrovich.
Kristal esmoreceu.
- Obrovich? Aquele que...
O Almirante Frederich suspirou e virou-se, fitando a Capitã.
- Aquele que destruiu a Horizon.
Kristal sabia tudo o que era possível saber sobre a Horizon, a nave maldita que falhou na missão de ir até Tau Ceti. Seria a primeira nave a fazer uma viagem interestelar. Mas algo deu errado e ela apareceu aos pedaços perto de Urano. A recém nomeada Capitã Kristal Andersen fora designada a comandar uma missão de resgate. Houve muitos mistérios inexplicados, e quase todos pereceram, exceto ela e um sargento. O então Tenente-Coronel Obrovich comandou a segunda missão de resgate, que se para a imprensa e o público em geral iria trazer a nave de volta, secretamente fora-lhe ordenado que destruísse a Horizon assim que chegasse a Urano, não permitindo afinal de contas que se descobrisse o que realmente aconteceu com a nave.
- Obrovich... Se me permite, Sr., falar francamente...
- E quando não o fez, Capitã?
- Yuri Obrovich é um bitolado oficial do Estado Maior da Astronáutica. Se um Almirante ou general espirrar perto dele, ele terá dois lenços em cada mão para oferecer.
- Capitã Andersen, mantenha a ordem! - E aproximou-se, sussurrando: - Aquele lambe-botas devia ser enviado direto ao Sol sem escalas. Sabemos disso, Capitã. Mas foi uma imposição do Senado. O Chanceler Souza não iria criar atritos com os senadores, logo agora, há um ano das eleições. - O tom da voz do Almirante baixou mais ainda. - Cá entre nós, o Chanceler também não gosta dele... Eu não gosto dele. Mas a cúpula da Astronáutica Mundial o adora. Foi o marechal Levy Picard em pessoa que o recomendou ao senado...
Kristal fechou a cara.
- Politicagem... Políticos... Foi por causa dessa corja que quase a Terra foi destruída várias vezes...
- Fale baixo, Andersen. Você é a minha melhor Capitã e comandará uma nave na primeira missão interestelar da Humanidade. Será a primeira a ir além do Sistema Solar.
- O Capitão Carl Yanckovitch tinha esta regalia e está morto...
Frederich não gostava de relembrar que fora ele que escolhera o russo-americano para comandar a mal-fadada Horizon.
- Suma daqui, Capitã. Apresente-se ao Major Rivelli no Controle da Astronáutica para que ele lhe dê os detalhes e providencie transporte para a nossa linda ilha secreta. Dispensada.
- Entendido. - Não era necessário mais continências naquela época, então Kristal deu às costas ao Almirante e saiu de sua sala, escondendo o enorme sorriso em sua face.
Einsten Island, Oceano Pacífico, 14 de fevereiro de 2.387.
A enorme suíte designada à Kristal era muito bem decorada e bem equipada. A Capitã estava exausta naquela noite, após o primeiro dia de treinamento intensivo. Relaxava em sua banheira. Pensava em como seria duro agüentar trinta meses em uma nave. Suportar o incrivelmente chato Obrovich. E comandar uma tripulação de desconhecidos...
Chegara à ilha secreta da Astronáutica Mundial há dois dias e já ficara sabendo de tudo sobre a missão AlfaProx, o segundo projeto para viajarem até outra estrela que não o Sol. Ao invés de Tau Ceti, como tentou a Horizon, iriam mesmo para a mais próxima, Alfa Centauri, pois o alinhamento estelar estava perfeito desta vez. E desta vez era o próprio Davi Rapendell quem comandava o projeto da nave.
Kristal tinha pesadelos recorrentes ao tema Horizon. O que dera errado afinal? Porque a nave gerou um wormhole em seu próprio interior? Esperava que agora isso não tornasse a acontecer. Kristal Andersen era muito fria e corajosa, mas aquele horror aconteceria novamente? A linda loura afundou-se na banheira, como que querendo lavar seus pensamentos.
Fernando de Noronha, Brasil, 15 de fevereiro de 2.387.
Cristiano Oliveira Paes observava os peixes virem comer em sua mão, quinze metros debaixo d'água, no litoral límpido daquela ilha maravilhosa. Sua noiva fez sinal para subirem, pois já estavam há várias horas ali e as guelras artificiais estavam precisando de limpeza. Subiram na pequena lancha quando Cristiano percebeu que seu anel tocava.
Ele pressionou ambos os lados do anel e a imagem de Yuri Obrovich foi projetada na parede oposta. Um russo de grossas sobrancelhas e ultrapassado bigode.
- Estava difícil encontrá-lo, Comandante. Estou chamando há horas...
- Estou de férias, mergulhando, Coronel. A Astronáutica deu-me trinta dias...
- Pois cancele, Comandante. Tenho um código 11 para você. Apresente-se à Unidade da Astronáutica mais próxima imediatamente.
- Mas, Coronel...
Lídia Ribeiro fechou a cara quando o coronel desligou abruptamente.
- Amor, marcamos nosso casamento para daqui duas semanas...
- Código 11, Li. Alguma emergência grave. Preciso ir...
Lídia virou o rosto de seu noivo para si:
- Você prometeu! Disse que quando voltasse das férias ia pedir baixa! Meu pai arrumou um excelente emprego no Parque Ecológico para você!
- Lídia... Lídia, meu bem, escute: não sei se vou conseguir ficar vigiando onças no Pantanal. Meu lugar é no espaço. Por favor!
- Se você for, nosso casamento está desfeito! A gente já havia discutido isso!
Cristiano admirou o rosto de sua noiva, ela era lindíssima. Mas fútil. Vinha adiando esta decisão, mas ao sentir-se sem peso mergulhando... Seu lugar era no espaço exterior, com pouca gravidade, e não fazendo ronda em um parque.
- Bom, vou te levar até Recife. De lá você se vira. Avise minha mãe que o casamento acabou e que vou estar trabalhando, incomunicável.
Ligou a lancha e foi até as docas, ignorando a boca aberta de Lídia.
Mosteiro de San Piedro, Uruguai, 15 de fevereiro de 2.387.
Havia terminado de confessar-se e fez um pelo-sinal quando saiu do confessionário. Juan Manuel Perez y Rodriguez tinha a cabeça cheia de dúvidas quando ajoelhou-se em um dos bancos da capela do mosteiro para rezar a penitência que o padre lhe dera.
Uma mulher entrou e sentou-se ao lado dele. Era morena de pele bronzeada, olhos negros e sobrancelhas grossas, de uma beleza espartana. Observou o barrigudo médico rezando e aguardou.
Quando Juan terminou, fitou a mulher com uma mistura de surpresa e raiva.
- Concepción! O que está fazendo aqui?
- O Coronel Obrovich nos convocou. Disse que é um código 11.
- Obrovich? Mas o que aquele filho da p...
- Chhhh! - fez uma senhora uma fileira adiante.
Juan Manuel baixou a voz:
- O que ele quer de mim? Dei baixa o ano passado...
- Ele diz que você é o melhor, Juan. Diz que vai ao inferno para tê-lo de volta.
Juan passou as mãos pela cabeça de pouquíssimos cabelos.
- Ele já é o próprio demônio, Concepción. Eu não voltarei, disse que não voltaria depois que deixei Jonas Harrison morrer.
Concepción Aguirre segurou-o pelo braço.
- Eu estava lá. Harrison morreu porque foi cabeça-dura. Você fez de tudo para tirá-lo do módulo, mas ele insistiu. Você não tinha opção, Juan.
Juan Manuel encarou-a e então suspirou.
- Sabe que não gosto da posição agnóstica da Astronáutica Mundial.
- Se eles acreditam ou não em Deus é problema deles. Eu gostaria que voltasse. Serei sua enfermeira, como nos velhos tempos. Obrovich me garantiu.
- Está bem. Minha alma vai queimar no inferno, mas não agüento mais ficar longe do espaço...
Miami, Estados Unidos do Sul, 16 de fevereiro de 2.387.
O jato número 29 da Marinha Mundial ia vencer ao cruzar o balão-bóia, embora o da Aeronáutica estivesse a poucos quilômetros. Mas no último segundo, com uma manobra imprevista e irracional, o hipersônico número 46 de Mark e Derek Braccelli cortou a frente do jato 29 e ganhou a corrida da Formula Hypersonic.
Ao pousar o jatinho compacto de desenho extremamente aerodinâmico, os irmãos Braccelli, da equipe da Astronáutica Mundial, receberam os louros de campeões da modalidade. Durante a comemoração no pódio, um desajeitado robô veio chamá-los. Código 11. Apresentação imediata à unidade da A.M. mais próxima.
Mais tarde, no dualet 400 da Chevrord que possuíam, Mark, o mais velho, deixava os longos cabelos castanhos serem desarrumados ao vento. Ele sempre dirigia.
- Que merda! Justo hoje que ia ter uma festa de comemoração cheia de gatas!
Ao seu lado, Derek, o eterno navegador, adorava mapas e achava qualquer coordenada mundial de cabeça.
- Código 11, mano. Deve ser coisa muito importante. E eu não vejo hora de voltar ao espaço. Será alguma missão de resgate cabulosa em Saturno?
- Hummm... Espero que nada tão longe. Tem uma gostosa que quero conhecer melhor no Lost Paradise...
Einstein Island, Pacífico, 20 de Março de 2.387.
Na ilha secreta da A.M. o treinamento intensivo já durava um mês. A capitão Andersen ainda analisava aquela estranha tripulação reunida por Obrovich. "Os melhores", dizia ele. Pois sim. Um brasileiro egocêntrico como primeiro oficial e imediato. Um médico e uma enfermeira uruguaios ultracatólicos. Um piloto e um navegador americano-sulistas e irmãos, completamente insanos. Uma oficial de ciências africana tímida e arredia. Um engenheiro de motores árabe devoto de Alá. E uma oficial de sensores e comunicações japonesa que falava tanto que deixava qualquer um atordoado...
Cristiano Paes sorriu ao ver Dana Mugami e Hatiro Nakata saírem quase desmaiadas da Centrífuga.
- Vocês precisam agüentar mais de 5 gs se querem ir para outro sistema estelar.
Andersen ficou ao lado do tenente comandante.
- Terei de cortá-las da missão se não conseguirem passar no teste da Centrífuga.
O coronel Yuri Obrovich entrou na sala de controle de treinamento acompanhado de um homem de cabelos brancos e sorriso jocoso. Kristal torceu o nariz.
- Capitão, comandante, apresento-lhes o renomado físico nuclear sir Edmund Lovery. Ele é o mais novo escolhido para participar da missão AlfaProx.
Cristiano cumprimentou o cientista inglês, carrancudo. Kristal nem o fez.
- Já temos gente demais na nave, coronel. Além do mais este sir não me parece ter capacidade física para agüentar as dificuldades que enfrentaremos na navegação interestelar.
Edmund sorriu.
- Estou em ótima forma para os meus 56 anos, capitão. Pode testar-me da maneira que quiser.
Cristiano não segurou a risadinha irritante que tinha enquanto Andersen, com sua face de poucas emoções fez um sinal para a operadora da Centrífuga.
- Se suportar 6 gs eu o aceitarei em minha equipe. Mas antes assine um termo que isenta a Astronáutica de qualquer responsabilidade se você morrer ou ficar inválido.
Sir Lovery assinou o documento e entrou sorrindo na Centrífuga. Minutos depois saiu atordoado, mas ainda tentava sorrir. Estava pálido feito um cadáver. Mas inteiro.
Andersen deixou a sala de controle bufando enquanto Cristiano ria novamente.
Estaleiros Tychon, no lado oculto da Lua, 12 de maio de 2.387.
Pessoas e robôs trabalhavam intensamente na construção da segunda nave interestelar da Humanidade. Talvez a primeira a conseguir chegar até outra estrela que não o Sol. O estaleiro era enorme, em órbita do satélite natural da Terra, para comportar a imensa nave ainda sem nome. O frenesi estava intensificado por causa do atraso no cronograma e algumas peças do projeto não estavam prontas porque simplesmente não havia ainda tecnologia para produzí-las. O maior discípulo de Davi Rapendell e seu braço direito, Omar Nassif, coordenava a parte da engenharia de construção.
- Não vamos conseguir entregar no prazo, Vânia.
A assistente robótica de Nassif assentiu. Omar assistia, no centro de gerenciamento, o exército de robôs soldando, martelando e montando a superestrutura da nave e não notou um robô-operário aproximar-se. Robôs utilizam cérebros positrônicos. Pósitrons são antielétrons, portanto constituintes da antimatéria. O cérebro daquele robô não estava selado, e o resto do robô era, obviamente, de matéria. Matéria e antimatéria não se gostam. Uma eficiente bomba que não foi detectada pela segurança.
- Vânia, o que este robô-operário faz aqui!?
- A rede neural sofreu uma ruptura. Este robô a rompeu através de uma back-door. Creio que...
A explosão gerada pelo choque de matéria-anti-matéria explodiu com 1/5 do estaleiro e da nave em construção.
Einsten Island, Pacífico, 13 de maio de 2.387.
Yuri Obrovich aspirou profundamente antes de exibir no vídeo gigante, no centro de controle da missão, a destruição causada pelo atentado.
- A I.N.H. assumiu a autoria. Vinte e sete mortos - podiam ser mais se não tivéssemos tantos robôs - entre eles Omar Nassif.
Um assistente levantou-se.
- A missão AlfaProx está suspensa?
- De forma alguma... Se bem que... Temos alguns problemas sérios a resolver. E, claro, o cronograma não poderá mais ser cumprido, embora o Senado tenha aprovado um aumento no orçamento e na mão-de-obra para a construção da nave.
Kristal estava de pé, do outro lado da sala.
- Coronel, quanto tempo atrasaremos? Se forem mais de três meses, perderemos a janela para Alfa Centauri, e Tau Ceti está fora de cogitação.
- Dois meses e meio. Vai ser em cima, mas conseguiremos. Todos os esforços estão sendo feitos para isso. E a segurança foi aumentada, o Chanceler Souza enviou um verdadeiro exército para a Lua. Reunião encerrada. Dispensados.
Obrovich aproximou-se do Capitão Andersen.
- Preciso falar com a Sra. em particular.
A sala do coronel era enorme e luxuosa. Circular, tinha belos quadros de pintores russos. Kristal admirava as pinturas enquanto esperava Obrovich terminar de digitar alguma coisa em seu notebook.
- Sente-se, capitão. Temos um grande problema com a morte de Omar Nassif.
Andersen sentou-se, imaginando se entregariam à nave interestelar a tempo.
- Davi Rapendell abandonou o projeto. Sem ele, nossas chances de sucesso são ínfimas. Omar era seu braço direito e melhor amigo.
- Coronel, existem excelentes engenheiros na Terra e em Marte que podem...
- Talvez não saiba ainda, capitão, mas toda a missão AlfaProx está sendo financiada por um consórcio Terra-Marte-Lua. E o governo de Marte não aceita outro engenheiro coordenando todo o projeto, eles querem Davi Rapendell.
- Marte não passa de uma colônia da Terra. Basta o Chanceler...
Obrovich levantou-se irritado.
- Vocês, oficiais de campo, não entendem nada de política! Xavier Souza quer agradar a Junta Governamental de Marte, para que não tentem independência como Selena. E Marte tem a melhor tecnologia espacial no momento.
Kristal pôs-se de pé num pulo.
- Políticos! Vocês e os fanáticos da Igreja da Nova Humanidade não prestam! Por isso a Lua pediu e conseguiu a independência da Terra. Lá eles agem com bom senso!
- Capitão Kristal, se o Chanceler Xavier Souza não gostasse de seus feitos ditos "heróicos" em missões de resgate pelo Sistema Solar, eu nunca a teria aceitado para comandar a Starview.
- Starview?
- É o nome da nave que você irá comandar. O próprio Davi Rapendell havia sugerido horas antes do atentado.
A capitão deu uma volta pela sala, tentando acalmar-se. Virou-se para o coronel.
- Bom, afinal das contas, se não gosta de mim, porque me chamou aqui?
- Conheço sua habilidade com as pessoas, e o Sr. Rapendell gosta de você.
- Sou chamada de Gelo Andersen por minha tripulação, não sabia?
- Ora, o que me importa. Vá até Marte convencer aquele cientista alcoólatra a voltar. Do contrário, provavelmente teremos de abortar a missão AlfaProx.
Kristal refletiu que o coronel tinha certa razão. Davi gostava dela.
- Quando eu parto?
Acampamento 341-DF, Marte, 22 de maio de 2.387.
Kristal Andersen olhava a cápsula de retorno da Aurora, a nave-foguete que Davi Rapendell usara para fazer a primeira viagem "mais rápida que a luz" da Humanidade. Na verdade, ele criara um buraco-de-verme, um wormhole, e dobrara o espaço sem nunca ir a mais que 0,1 c. Porém quando emergiu do outro lado, estava há dois dias-luz da Terra. Abria-se a possibilidade das viagens interestelares. Isso havia acontecido há cerca de onze anos atrás.
A capitão caminhou lentamente, usando um minúsculo respirador, até a enorme cabana que servia às vezes de bar naquele acampamento de cientistas. A baixa gravidade de Marte era incômoda, mas há mais de cem anos aquele planeta havia sido terraformizado. Rapendell bebia com amigos, bêbado como sempre.
- Ora, se não é... ic.. Se não é a bela Kristal... ic... A minha musa sueca.
- E se não é o gênio incompreendido, Davi Rapendell. O covarde que não se importa com o resto da Humanidade.
- Olha lá como fala comigo... - O velho cientista caiu ao tentar levantar-se.
Kristal o acudiu e levou-o até sua cabana, do outro lado do acampamento. Tirou-lhe os sapatos e colocou-o para dormir.
- Amanhã conversaremos. O Sr. bêbado assim fica muito chato.
- Ora, Kris, tire a roupa e venha fazer a alegria de um velho.
- Cale a boca se não quiser que eu corte o que nem deve funcionar mais.
Rapendell dormiu em meio a uma sonora gargalhada.
Os dias eram avermelhados em Marte. Kristal admirava as árvores recém-plantadas do acampamento, já grandes, e notava como aquele planeta estava mudado. Davi Rapendell apareceu com cara de poucos amigos, segurando a cabeça com uma das mãos.
- A única coisa que não gosto em Marte é das ressacas marcianas.
- Meu bom e velho amigo. Voltou à razão? Se começar com gracinhas de novo...
Ele a beijou na testa.
- Você tem idade para ser minha filha, e eu a considero assim. Desculpe um velho bêbado e tolo.
- Bom, Sr. Rapendell, o Sr. sabe porque estou aqui.
- Pare de me chamar de senhor. E sei sim, e a resposta é não. Quer que eu soletre? O velho Omar era a única coisa que eu poderia chamar de família.
Kristal sorriu. Apesar de a chamarem de Gelo Andersen, ela sorria com certa freqüência.
- O senh... Você poderia chamar todos na missão AlfaProx de "família".
- Aqueles malucos... Você é a única que se salva naquela tripulação. Além do mais, eu queria estar no lugar daquele cientista inglês almofadinha.
- Davi, sabe que isso não é possível. Seu fígado não agüentaria...
O velho cientista riu gostoso como só ele sabia fazer.
- Verdade. Creio que ficar longe da minha velha cerveja irlandesa iria me deixar louco. Com a Aurora fiz uma viagem de apenas duas horas... Ela nem tinha banheiro...
- Davi, falando sério... Imagine o que seria para a Humanidade ir até outro sistema estelar. Imagine atingirmos Alfa Centauri, a 4,3 anos-luz daqui!
- Vocês conseguirão sem mim. Perdi Omar, ano passado perdi Giselle. Nada me resta agora senão a Irene.
Kristal ergueu sua sobrancelha esquerda.
- Irene?
- Irene Beer. A minha boa e velha cerveja irlandesa, importada da Terra.
Kristal riu como poucas vezes fazia, e notando que a agradava, Davi começou a contar velhas piadas sujas da Terra. Finalmente, após fazer a capitão chorar de tanto rir, ele decidiu:
- Está bem. Voltarei por você. Sei que vê-la nua está fora de cogitação, mas quero que providencie que trabalhemos juntos no projeto do gerador de wormhole e da nave.
- Será um prazer, Davi.
- Nunca conheci uma sueca de nome Kristal.
- Meu nome verdadeiro é Kristal. Mas na Escola Politécnica chamavam-me assim, e eu gostei.
- Um belo nome... Combina com a beleza cristalina que possui...
- Davi, Davi... Pena que não existem mais pessoas como você...
Base Selena, capital da República Federativa da Lua, 25 de novembro de 2.387.
O shuttle com a logomarca da A.M. pousou suavemente com a baixa gravidade lunar. O tubo umbilical foi estendido e por ele a tripulação da Starview, mais Davi Rapendell e alguns seguranças passaram lentamente até o Centro de Navegação.
Calçaram grossas botas magnéticas, que permitiam andar quase como se houvesse 1 g no salão. O edifício recém-construído cheirava ozônio. Através de marcas no chão de borracha, seguiram até a sala de reuniões.
Foram recebidos pelo almirante Hans Frederich.
- Sejam bem-vindos à Lua. Antes de mais nada, gostaria de dizer-lhes pessoalmente que o pessoal formado pelo consórcio Terra-Marte-Lua, que está trabalhando na construção da Starview, é excelente. Estamos dentro do novo cronograma. A nave estará pronta para partir rumo à Alfa Centauri em primeiro de março de 2.388, uma semana antes da janela navegacional se fechar.
Kristal levantou-se.
- Se houver qualquer atraso em nossa viagem, ou um pequeno erro de cálculo nos saltos, poderemos errar Alfa Centauri por muitos anos-luz.
- Entendo sua preocupação, capitão. Mas a Sra. sabe muito bem que outra janela assim só daqui a 76,8 anos. Pretende esperar?
Derek levantou-se, erguendo a mão.
- Pode abaixar a mão, jovem. Aqui não é o colegial.
- Não podemos ir para Tau Ceti, como a Horizon?
Frederich caminhou pelo pequeno palco onde estava, com as mãos para trás.
- A Starview foi projetada para ir até Alfa Centauri. Ela é totalmente diferente da Horizon. Não queremos correr riscos desnecessários.
Davi estava de braços cruzados e pernas em cima da fileira de bancos à sua frente, olhando a Terra magnífica pelo teto de vidro da sala de reuniões.
- Sr. Braccelli, ter um sobrenome importante parece não ajudá-lo com a inteligência. Como navegador devia saber que a Starview é menor que a Horizon, portanto com menos combustível. Tau Ceti está a 11,9 anos-luz daqui, exigindo o triplo de saltos por wormholes.
Mark colocou-se de pé.
- Porque não vai procurar uma "branquinha" lunar e pára de encher o saco?
Kristal foi dura.
- Ordem, Sr. Mark. Ainda posso cortá-lo da missão!
O piloto sentou-se irritado. Rosnou:
- Maldita Gelo Andersen e seu namorado bebum!
- Eu ouvi isso, Sr. Mark. Ficará em confinamento por dois dias.
Estaleiros Tychon, lado oculto da Lua, 25 de dezembro de 2.387.
- Kris, não vai comemorar o natal?
A capitão olhou perplexa para Davi Rapendell.
- Acha mesmo que esta festa cristã vale alguma coisa? Minha família nunca comemorou essa data consumista.
- Ora, minha cara amiga... Todos estão festejando. Alegre-se.
- Faltam pouco mais de dois meses para partirmos, e a Starview ainda não está pronta. Minha tripulação terá de conviver durante pelo menos 30 meses dentro dela, e vivem brigando entre si. E ainda sairemos sem margem de erro... Não sei se talvez não valesse a pena cancelar tudo...
Davi colocou a mão no ombro de Kristal.
- Não parece a minha Kris que foi a Marte convencer-me a voltar ao projeto. Olhei ontem os diagramas de desenvolvimento. A Starview está praticamente concluída. E a "Gelo Andersen" tem a tripulação sob suas rédeas... Sabe, isto está mais me parecendo "Síndrome do Natal". Medo que aquelas pessoas solitárias tem da data.
Kristal deu de ombros. Ultimamente mal conseguia dormir. Os detalhes da missão enchiam sua cabeça. E se os planetas de Alfa Centauri possuíssem uma civilização avançada, como os griffons, e atacassem a Terra? E se os agora denominados thorianos, cujo primeiro contato se deu onze anos atrás, mostrassem que não eram pacifistas e atacassem a Terra por ela ter a tecnologia de wormholes?
Rapendell tirou-a de seus devaneios.
- Venha. Vamos comer um pedaço de peru. É importado da Terra, custou uma nota!
Saíram do pequeno belvedere, que fazia vista para a cratera Onides, e juntaram-se ao pessoal que comemorava. O peru viera da Terra... Da criação da I.N.H. Estava envenenado. Nenhum tripulante da Starview, nem mesmo Kristal, havia comido qualquer pedaço. Mas alguns engenheiros, seguranças e Davi Rapendell, sim.
Começaram a cair, a pele azul. Davi derrubou o prato e levou as mãos à garganta. A capitão, desesperada, começou a gritar por um médico. Juan Manuel viera acudí-lo.
- O sangue não está oxigenando. Ele foi envenenado!
Davi vomitou. Mas o veneno, poderosíssimo, já havia feito o estrago. Ele morreu em poucos minutos.
- Não... Não... NÃO! - Gelo Andersen segurou as lágrimas e controlou-se. Olhou para todos em volta de Davi e dos outros mortos.
- Ninguém bebe nem come mais nada! O doutor Juan irá organizar um exame toxicológico em todos aqui! Acalmem-se!
Com um incrível auto-controle e sangue frio, a capitão colocou ordem no salão de festas. Ficou até de madrugada ajudando o doutor Juan e Concepción a examinar cada um e a tentar determinar onde estaria o veneno e de que tipo seria. Encontraram Nelicopicina no peru. Descobriram que o peru fora enviado pela I.N.H.
Às seis da manhã, horário padrão lunar, Kristal finalmente pode ir à sua cabine. Após trancar a porta, apoiou-se nela e escorregou até o chão, chorando.
Longe da vista de todos, chorou até pegar no sono, completamente exausta.
Einsten Island, Pacífico, 17 de fevereiro de 2.388.
O coronel Yuri Obrovich gostava de sua enorme sala circular. Sorria ao relembrar como ganhara aquelas pinturas caras que possuía quando Cristiano entrou.
- Tenente comandante Cristiano Oliveira Paes apresentando-se, senhor.
- Sente-se, comandante. Alguém sabe que o senhor veio até aqui?
- Negativo, Sr. - Ele sentou-se. - Desci pelo primeiro shuttle da manhã, incógnito.
Obrovich cofiou o bigode e recostou-se na poltrona.
- Ótimo. O que tenho a dizer não poderia ser transmitido por qualquer forma de comunicação. Poderia ser interceptado. É um segredo apenas entre nós, alguns senadores e o marechal Picard.
Cristiano ficou surpreso.
- Nem o Chanceler sabe?
- Muito menos ele. Diz respeito à segurança da missão. Não confio na Capitã Andersen. Quero que seja meu homem lá, pronto para assumir a Starview ao menor sinal de problemas.
- Mas Kristal Andersen foi recomendada pelo Chanceler em pessoa. É a queridinha do almirante Frederich.
Obrovich sorriu.
- Frederich só deve estar interessado na bunda dela. Mulheres não servem para comandar uma missão espacial, ainda mais a mais importante da História.
Cristiano ficou perplexo. Pensou um pouco, esfregando o queixo.
- Bom, ela é a capitão. Não posso promover um motim a meio caminho de Alfa Centauri.
- E nem vai. Só fique de olho em Andersen. Se ela cometer um deslize, por menor que seja, utilize a diretriz 63 da Constituição Espacial e assuma o comando da nave.
- Acha que terei o apoio do resto da tripulação?
O coronel adiantou-se, sério.
- Você é meu homem lá. Obtenha o apoio, nem que seja com ameaças. Terá todo o respaldo do Senado e do marechal Picard. Andersen não passa de cria do Frederich, e ela deve ter dado para ele para conseguir o posto de capitão da Starview.
- Acho que está sendo um pouco rude, coronel. E o almirante gosta dela pela excelente carreira que tinha na Marinha Mundial antes de mudar para a Astronáutica. Eu li o curriculum da Capitã. Ela se formou em primeiro lugar na Escola Politécnica de Engenharia Espacial de Estocolmo.
Yuri Obrovich resmungou baixo.
- Quer ou não quer assumir o comando da Starview e ser famoso?
- Aceito o encargo. Se a capitão cometer o menor deslize, eu assumo.
- Excelente, "capitão" Paes. Excelente.
Cristiano deixou a sala do coronel pensativo. A capitão era muito competente. Até gostava dela, principalmente por ser durona. Porém tornar-se rico e famoso, o homem que comandou a primeira nave humana a chegar até outra estrela... Ser primeiro oficial era bom, mas ser o capitão da nave era sensacional. Tentara ficar rico casando com Lídia Ribeiro, porém tomar conta de um parque até herdar tudo era demais. E agora a sorte lhe sorrira. O coronel sempre gostou dele, então agora era sua vez de aparecer.
Cantarolando, seguiu de volta ao Centro de Lançamentos. Iria voltar no primeiro shuttle para a Lua, antes que alguém desse por sua falta.
Centro de Treinamento Espacial Lunar, Base Selena, 22 de fevereiro de 2.388.
O domo do C.T.E.L. ficava no fundo da Cratera Dyson e através do vidro canelado podia-se ver a Terra em quarto-crescente. Após os exercícios matinais, todos estavam cansados e suados. O almirante Frederich entrou e ordenou que todos fossem para a sala de reuniões, para as instruções finais. Faltavam apenas seis dias para o lançamento.
- Quero tomar um banho antes! - Protestou Mark Braccelli.
A capitão fuzilou-o com o olhar.
- Tenente, sabe que a água aqui é racionada. Os chuveiros só estarão liberados às 11:30. Temos uma hora até lá, e o que o almirante tem a dizer é muito importante.
Na sala de reuniões, todos se acomodaram. No púlpito do pequeno palco, Frederich começou a falar.
- Dentro de uma semana os srs. partirão na missão mais audaciosa da Humanidade. A Starview está pronta, exceto por um ou outro detalhe. A rota está traçada, com a ajuda do Sr. Derek Braccelli.
Enquanto os tripulantes da Starview batiam palmas para o navegador, o almirante desceu uma tela de naylon do teto e ordenou que se ligasse o projetor.
- Aí está, a imagem da nave onde passarão os próximos 33 meses. Levarão 15 meses para chegar ao sistema estelar de Alfa Centauri, 3 para explorá-lo em busca de planetas e mais 15 meses para retornar.
Cristiano colocou-se de pé:
- Ela é enorme. Parece ser maior que a Horizon.
- Só parece. Ela é menor. Os geradores de wormholes e os motores de impulso são diferentes. Este outro projeto foi feito diretamente por Davi Rapendell e sua equipe, de modo a impedir que o que aconteceu com a Horizon, seja lá o que tenha sido, aconteça com vocês. Apenas vinte por cento é destinado à tripulação. Os outros oitenta são motores e tanques de combustível. Matéria e antimatéria para o impulso, coletores de hidrogênio para os sistemas de suporte de vida e captadores de fótons para a parte elétrica. Intercambiáveis na medida do possível.
- Impressionante... - Foi o comentário de Mark, mas não parecia muito interessado.
- E os laboratórios? - Perguntou a oficial de ciências, manifestando-se pela primeira vez em uma reunião da equipe. Muitos ali ainda não tinham ouvido a voz estridente que possuía.
- Sra. Mugami, a Sra. e sir Lovery terão a disposição o que há de melhor em equipamentos de análise, computadores e tudo o mais. A partir de hoje à tarde todos conhecerão a nave em detalhes, embora a maioria já tenha tido contato com ela através dos simuladores.
Hatiro Nakata tentava ficar calada na medida do possível. Sabia que falava demais, e fora proibida através de ordens diretas da Capitã Andersen de manifestar-se mais que dez minutos por reunião. Resolveu gastá-los.
- Sendo a oficial de comunicações, já fui treinada a operar o equipamento da Starview. No entanto, algo me escapa. Se a antena de transmissão de táquions sair do alinhamento, por mínimo que seja, perderemos a comunicação em definitivo com a Terra? Porque alinhá-la é trabalho para uma rotina crítica do computador de comunicações.
O almirante suspirou.
- Sim, infelizmente. Se um meteoro atingir a antena, por exemplo, não haverá meios de conseguirem realinhá-la. O computador tem uma base de cálculo muito complexa. Não há meios de encontrar a posição anterior, pois ela se move o tempo todo, e a faixa de transmissão é de ordem de 1 mícron. Não há como armazenar os movimentos. Estimamos as probabilidades de perdermos contato por rádio em sessenta por cento.
O silêncio tomou conta da sala. Aquilo seria terrível.
- Não haverá margem para erros. - Retomou o almirante, após algum tempo. - A quantidade de saltos através dos wormholes, a direção a ser tomada, o ângulo de entrada, tudo deve ser executado com perfeição. Um erro de salto pode enviar vocês a anos-luz de Alfa Centauri.
Juan Manuel Perez y Rodriguez era médico, e não cosmólogo. Perguntou algo que todos ali já sabiam:
- Existem planetas no sistema de Alfa Centauri?
Andersen levantou-se para explicar, indo ao pequeno palco.
- Não sabemos. Nossa tecnologia atual de telescópios não permite ver com detalhes pequenos planetas. E como Alfa Centauri é um sistema triplo, não podemos inferir pela gravidade se existem ali ou não, nem mesmo os gigantes gasosos. Alfa Centauri é composto por Alfa Centauri A, Alfa Centauri B e Próxima Centauri. Nossos cientistas dizem que sistemas assim não podem ter planetas, mas quem sabe?
O almirante agradeceu a capitão e encerrou a reunião:
- Vocês irão conhecer a Starview por dentro a partir de hoje. Dia vinte e oito poderão descansar e despedir-se dos familiares. Dia primeiro de março vocês partirão rumo... Rumo ao desconhecido.
Apollo Club, Base Selena, 28 de fevereiro de 2.388.
A moda na década de 80 do século 24 era dançar em pistas com baixa gravidade na Lua ou em Marte, e quase todos os tripulantes da Starview, em sua última folga, dançavam animados ao som da música hiper-eletrônica dos Hard Beats. Mark e Derek haviam conhecido algumas "lunáticas" e pulavam alucinados com elas.
Kristal Andersen entrara no Apollo Club pouco antes das dez da noite, horário padrão lunar, por insistência do almirante. Já havia se despedido de sua mãe pelo rádio e queria ir dormir, porém Frederich foi insistente:
- Outra diversão destas só daqui a dois anos e meio!
No entanto, para Andersen, aquilo não era diversão, era suplício. Não gostava da batida forte daquele gênero musical, gostava de música clássica. Pediu um suco de tomate no bar e apenas observou as pessoas ali, sem interesse. Tinha de estar ali, de qualquer modo, pois o clube havia sido fechado exclusivamente para a comemoração da partida da Starview.
Não percebeu que um de seus tripulantes sumiu de vista. Em uma sala reservada, ele ou ela estava esperando enquanto admirava as paredes de veludo azul. Um chinês de idade e óculos pequenos de lentes redondas entrou e sentou-se na poltrona à sua frente.
- Seu sacrifício será lembrado como o sacríficio de Jesus na cruz.
- Sim, mestre Xang. Darei minha vida para impedir que estes malditos pagãos envenenem a Humanidade indo até outra estrela e aticem a ira de Deus. A I.N.H. mostrará que a fé está do nosso lado e que ninguém pode desafiá-la!
- É uma pena que nossos dois outros atentados não foram suficientes para demovê-los da triste idéia desta viagem louca. Deus nos criou a sua imagem e semelhança para vivermos no Sistema Solar e nada mais. Que morram queimados, bruxos pagãos!
A pessoa que integrava a tripulação da Starview sorriu.
- Quando estivermos fora de alcance, explodirei a nave.
Uma hora depois e Kristal deu-se por satisfeita. Pediu que a festa fosse encerrada e que todos fossem dormir, pois a partida seria logo pela manhã. Mark e Derek chiaram bastante, porém os seguranças trataram de escoltá-los até seus alojamentos.
A capitão estava caminhando pelo corredor, sempre usando as botas magnéticas, quando Cristiano a alcançou.
- Capitão, gostaria de saber se toma um último suco comigo.
- Quero dormir, comandante. Teremos um dia cheio amanhã.
- Então só quero que saiba que... Eu a respeito. Estarei sempre ao seu lado. - Cristiano Paes cruzava os dedos fora da vista de Andersen.
- É o mínimo que posso esperar de meu primeiro oficial. Boa noite, comandante.
Kristal recolheu-se, mas não conseguiu dormir.
Órbita geoestacionária aberta em torno da Lua, 01 de março de 2.388.
A Starview era imponente. Imensa. A segunda maior astronave já construída pelo Homem. Todos os dez tripulantes já estavam em seus postos: a capitão Kristal Andersen, o primeiro oficial Cristiano Paes, o piloto Mark Braccelli e seu irmão, o navegador Derek, o doutor Juan Manuel Perez y Rodriguez, a enfermeira Concepción Aguirre, a oficial de ciências Dana Mugami, a oficial de comunicações e sensores Hatiro Nakata, o físico nuclear sir Edmund Lovery e o engenheiro Adib Mustab.
Enquanto checava os instrumentos de vôo, sentada entre o piloto e o navegador, na ponte de comando semi-circular da nave, a capitão Andersen relembrava com prazer à ida até a Starview. A pequena cápsula de conexão decolou silenciosamente da Lua e aproximou-se daquele monstro da engenharia tecnológica lentamente, permitindo a todos verem a complexidade de tal obra. Muitos robôs e pessoas em roupas espaciais ainda trabalhavam nela. E bilhões de telespectadores não tiravam os olhos dos acontecimentos. A proa da Starview parecia a de um navio. Logo atrás, o tubo que girava rapidamente promovendo a força centrífuga que simularia a gravidade, onde estavam à parte de dormitórios, laboratórios, enfermaria e refeitório, além da área de lazer.
Em seguida a área de carga, depois o hangar da pequena nave exploradora, e o resto motores, coletores solares, antenas e tanques de combustível sólido. Um enorme acelerador de partículas promovia a criação da antimatéria necessária para a reação M-AM. E embaixo, os tubos geradores de wormholes.
"...Faltam apenas cinco minutos para a partida da mais audaciosa viagem já realizada pelo Homem. Dentro de instantes a nave Starview, que genuinamente podemos chamar de estelar, partirá rumo ao desconhecido, para explorar o sistema solar de Alfa Centauri. O que você acha, Reginaldo?"
"Creio que se conseguirem voltar dentro de dois anos e meio mais ou menos, inteiros e descrevendo planetas iguais a Terra, será a maior notícia de todos os tempos, Galvânio."
A transmissão da partida era feita para toda a Terra, Marte, Lua e colônias espalhadas pelo Sistema Solar. Bilhões de pessoas estavam reunidas, em suas casas, nas praças, em estádios, para assistir ao mais incrível passo que a Humanidade jamais deu.
"Pena que tivemos distúrbios provocados por terroristas em toda parte, não, Reginaldo?"
"Muitos atribuem este fato aos radicais da I.N.H., Galvânio."
- T menos 1 minuto, Starview.
- Todos os sistemas on-line e prontos, Einsten. - Respondeu a capitão.
O Comando da Missão em Einsten Island estava locado em um imenso salão onde um vídeo gigante mostrava a nave em toda sua plenitude. Na cabine de controle, em um patamar acima dos técnicos que ficavam em dezenas de consoles espalhados pelo salão, o coronel Yuri Obrovich comandava toda a complexa logística da missão AlfaProx.
Do posto de controle a partir da Lua, na Base Selena, o almirante Hans Frederich organizava a parte técnica.
- T menos trinta segundos.
- Motores ligados e em stand by, Einsten. - Kristal recostou-se em sua cadeira.
Derek Braccelli pressionou alguns comandos em seu painel.
- Rota implementada.
- Todos estão prontos. - Afirmou Juan Manuel, monitorando a tripulação.
- 10...9...8...7...6...5...4...3...2...1... Liberados para partir, Starview.
A imensa nave acelerou e logo era apenas um pontinho no espaço.
Fim do primeiro conto da série que narra a primeira viagem interestelar da Humanidade.
Escrito por Vitor Hugo Brandini Ribeiro entre Agosto e Setembro de 2005 e enviado a Biblioteca Nacional
para Registro de Direitos Autorais.
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