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Autor: Abelardo Pedroga.
Título: Do Outro Lado.
Publicação: 20/01/2005.
Categoria: Ficção Fantástica.
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FICÇÃO FANTÁSTICA      
Do Outro Lado.
Por: Abelardo Pedroga.

Imagem da Internet

PRÓLOGO

Em 06 de Junho de 1.944, após um cerrado bombardeio realizado por mil aviões, perto de cento e cinqüenta e cinco mil soldados aliados desembarcam nas praias da Normandia, neste desembarque são utilizados mil e duzentos navios de vários calados. O desembarque é em sua primeira etapa coroado de êxito, mas se transforma em um completo fracasso. A contra ofensiva do exército alemão é rápida e coordenada eficientemente pelo General Erwin Von Rommel.

Da força invasora, composta por trezentos e vinte e quatro mil soldados, que desembarcaram em menos de uma semana nas praias francesas, apenas cinqüenta e três mil voltam para a Inglaterra. O fracasso leva os governos inglês e americano a solicitar o cessar fogo com a Alemanha. Com sua frente Ocidental livre os alemães voltam os seus exércitos para conter a ofensiva russa vinda do leste. Uma gigantesca batalha é travada em Varsóvia. Com um esforço sobre humano os nazistas detêm o avanço soviético, rechaçam o invasor em todas as frentes e o palco da guerra volta a se desenvolver em território soviético.

Por mais quinze anos alemães e soviéticos lutaram encarniçadamente sob os olhares complacentes dos Ocidentais. Finalmente em 28 de Novembro de 1.959 os soviéticos, completamente exauridos daquela guerra, solicitam o cessar fogo com a Alemanha e Japão.

Com a paz retornando as suas fronteiras os alemães consolidam o seu gigantesco império. Toda a Europa continental, Norte da África e Oriente Médio, esses territórios foram cedidos pelos aliados quando do cessar fogo, e perto de dezesseis milhões de quilômetros quadrados da antiga União Soviética estão sob domínio alemão. No Oriente o Japão domina toda China, Mongólia, Indochina, Coréia, Birmânia, Malásia, Filipinas, Nova Zelândia, Tibete, mais dois milhões de quilômetros da União Soviética, e partes da Índia, além do Hawai, Utilizando-se de uma expressão tipicamente romana o Oceano Pacífico é chamado pelos japoneses de Mare Nostrum.

Os EUA que durante anos tentaram deter o inexorável avanço nipônico sucumbem e solicitam o cessar fogo. Finda a guerra inicia-se o processo de germanização das regiões sob domínio alemão. No Oriente os japoneses fazem um processo de niponização nas regiões sob seu controle.

Por trinta anos a paz reina, e o mundo tenta se recuperar das profundas feridas abertas por aquela guerra.

Mas a paz é enganosa. O sucessor de Hitler, decide que o planeta Terra na verdade deve se chamar planeta Alemanha. Na véspera do terceiro milênio, mais precisamente em 10 de Agosto de 2.000 as invencíveis hostes alemãs reiniciam sua mortífera marcha. A Inglaterra finalmente caí. O invencível África Korps alemã desce por toda a África finalizando a conquista da África do Sul em Dezembro de 2.003. O restante da União Soviética é riscado do mapa. Somente o continente americano permanece como lembrança do mundo livre. Por pouco tempo. Em uma ação perfeitamente coordenada alemães e japoneses desembarcam em solo americano em 23 de Maio de 2.005 a resistência americana e canadense dura exatos cinco anos. Finda essa resistência os aliados germânicos e nipônicos descem pelo mapa das Américas. Dez anos depois, os últimos países da América que permaneciam livres: Argentina, Uruguai, sul do Chile e a região sul do Brasil finalmente caem. A suástica impera em três quartos do mundo. O um quarto restante vê tremular a bandeira do sol nascente. Os antigos aliados, no entanto começam a se ver com outros olhos. A animosidade aumenta e finalmente em 10 de Janeiro de 2.022 os antigos aliados se digladiam com furor. O prêmio da peleja é o domínio total do planeta Terra. Por doze anos a guerra entre alemães e japoneses varre todos os continentes do planeta. Em 25 de Julho de 2.035 o nome do planeta Terra se muda definitivamente para planeta Alemanha. A suástica impera sobre o mundo inteiro.

Não há mais inimigos a combater. O planeta Alemanha volta-se para dentro de si mesmo cauterizando as chagas de tantos anos de guerra. O processo de germanização é desenvolvido em escala mundial. Judeus, negros, ciganos, e mais uma vasta gama de povos e etnias vão sendo exterminados. O sonho nazista da raça ariana pura finalmente começa a se tornar realidade.

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Ano: 2.745
Local: Sistema das Plêiades.

Ciron V é um planeta estratégico dentro do sistema das Plêiades. Além de ser um excelente fornecedor de matéria prima, também é um ponto estratégico para o domínio completo dos trinta sistemas solares que compõe aquele sistema.

O confronto entre a Décima Legião Condor alemã e a União Central dos povos das Plêiades atingia o seu ápice.

Dentro da nave capitânia da frota alemã, Circe II, o Marechal de Ar Wilfred H. Rommel recebia os relatórios dos avanços e recuos de suas divisões. O alto comando alemão exigira que Wilfred conquistasse por definitivo aquele planeta. O Füher fora informado que em suas férias de Verão, programadas para dali a três meses poderia se instalar no planeta ao redor do qual se desenvolviam aqueles violentos combates.

A estratégia alemã da Blitzkrieg, Guerra Relâmpago, fracassara totalmente em Ciron V. Após diversas derrotas os aliados da União Central conseguiram deter o avanço alemão e no momento rechaçavam os invasores.

Wilfred teria preferido uma retirada daquele inferno. Estava certo de que uma retirada estratégica, acompanhada de uma reorganização das tropas poderia fazer com que os alemães saíssem da defensiva para a ofensiva. Mas o alto comando não concordou com suas idéias. A ordem era resistir, ou melhor reconquistar o que fora perdido naqueles dias.

Wilfred recebia seus relatórios cada vez mais irritado e preocupado. A continuarem daquele jeito seus homens seriam massacrados. Uma derrota acachapante se prenunciava. Contrariando as ordens do Estado Maior o General ordena a retirada para a base de Ciron II. Lá esperava reorganizar sua frota e voltar ao ataque.

A Circe II acompanha a retirada das frotas alemãs, somente se preparando para a sua própria retirada quando a última flotilha adentra-se ao sub-espaço. A demora custou caro demais. Como que do nada três naves da União Central surgem bloqueando a rota de fuga da nave capitânia. Na ponte de comando da nave alemã o holorádio anuncia uma mensagem. Wilfred pede a seu operador que libere a transmissão. Um Galofon que se apresenta como chefe da quarta esquadrilha de naves de apoio da União Central exige a capitulação incondicional da Circe II. A outra opção é a morte.

Wilfred, um típico representante da raça superior ariana, 1,82 M de altura, olhos de um azul profundo em um rosto extremamente bem moldado, um corpo atlético e uma tez extremamente clara olha seus subordinados. O medo da morte sempre se faz sentir até no mais corajoso dos soldados. Resistir seria inútil, apenas condenaria seus fiéis subordinados a uma morte horrível. Wilfred solicita ao seu interlocutor Galofon alguns minutos. A resposta é um disparo a queima roupa. Os dois conversores da Circe II explodem, levando nesta explosão pelo menos metade dos homens da manutenção. A nave resiste ao dano, mas se encontra sem a menor possibilidade de fuga. O experiente guerreiro acaba se rendendo ao seu encarniçado inimigo.

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Local: campo de prisioneiros da União Central de Tulal IV, três anos depois.

Aquele farrapo humano em nada se assemelhava ao altivo Marechal alemão de três anos atrás. O corpo outrora atlético e bem moldado, que sempre fizera furor com o sexo oposto, agora não passava de um amontoado de ossos visíveis sob a fina camada de pele. Horrendas cicatrizes se faziam presentes por todo o corpo. Os olhos, outrora altivos e cativantes, de um profundo e belo azul, agora se mostravam mortiços e sem brilho. Sob os olhares impiedosos dos guardas da União Central, os prisioneiros de guerra alemães eram forçados a trabalhos físicos até o limite de suas forças. Qualquer tentativa de fuga ou rebelião se demonstrara impossível. Os guardas não titubeavam em pulverizar tantos prisioneiros quanto fossem necessários para impor as normas do campo.

A rotina de Wilfred permanecia imutável desde sua chegada àquele campo. O despertar era precisamente às quatro horas da manhã, tempo local, quinze minutos para se arrumar e se perfilar diante dos inspetores. Mais dez minutos para o minguado café, o período de trabalho inicia-se pontualmente às quatro e vinte e cinco horas da manhã, prosseguindo até as quatorze horas, quando os prisioneiros possuem direito a vinte minutos para a única refeição do dia. Reinicio às quatorze e vinte horas, com a jornada de trabalho se prolongando até as doze horas da noite, ocasião do toque de recolher.

Muitos prisioneiros não agüentavam aquela jornada extenuante, de cada dez prisioneiros pelo menos seis não suportavam até o sexto mês de cativeiro. Morriam antes disso.

Os métodos dos povos da União Central para com seus prisioneiros era extremamente brutal e desumano. Ali naquele campo os aliados aplicavam um método ao qual designavam faxina étnica. O objetivo era exterminar os alemães considerados pelos povos das Plêiades como bárbaros de raça inferior, mas os prisioneiros nada sabiam disso.

As notícias da guerra entre a Alemanha e os povos das Plêiades não eram transmitidas aos prisioneiros. Os prisioneiros comentavam que o Reich estava levando a pior. Somente alguns poucos planetas ainda permaneciam sob controle alemão, mesmo assim sob forte e cerrado ataque das forças da União Central.

Todos os dias chegavam novos prisioneiros de guerra. Wilfred com o coração amargurado via seus compatriotas chegarem em cargueiros superlotados. Muitos chegavam feridos, não era costume dos inimigos tratarem dos ferimentos do prisioneiros. O campo de prisioneiros mais se parecia com um matadouro do século XX. Como hobby Wilfred era um historiador amador, já vira em hololivros figuras de matadouros daquele longínquo passado.

Tulal IV era um mundo desolado e desabitado. O campo de prisioneiros era uma gigantesca cúpula provido de atmosfera artificial, se algum alemão conseguisse fugir do campo morreria na atmosfera letal do planeta.

Além disso toda a cúpula era dotada de um campo de força extremamente letal ao toque. Wilfred vira muitos de seus compatriotas se pulverizando neste campo invisível. A capacidade de Tulal IV era para treze mil prisioneiros, mas os cargueiros dos aliados não paravam de despejar todos os dias levas e mais levas de prisioneiros. Mas mesmo assim a população do campo sempre permanecia estável. Do dia para a noite muitos prisioneiros eram levados pelos guardas do campo, nunca mais se tinha notícia desses infelizes.

Uma coisa que sempre chamou a atenção de Wilfred era um sistema de ventilação que subia pela cúpula do campo despejando na atmosfera letal do planeta uma fumaça branca. Essa fumaça era constante e ininterrupta.

A água dos prisioneiros sempre era racionada. Água era algo raro nos mundos do sistema de Plêiades. A comida era uma ração mínima que permitia somente a subsistência dos prisioneiros, motivo pelo qual todos os outrora orgulhosos alemães mais se assemelhavam a sacos de ossos em pé.

Wilfred todos os dias presenciava cenas tétricas, prisioneiros sendo pulverizados sem qualquer motivo, os alemães que morriam enquanto trabalhavam eram removidos pelos guardas e nunca mais se sabia do destino dado ao corpo. Os guardas do campo tinham a mania de fazer apostas entre si para ver quantos prisioneiros conseguiam pulverizar em um só tiro. Tudo isso sob os olhares complacentes da alta direção do campo. Os prisioneiros não tinham direito a nada e qualquer coisa era motivo para execução sumária.

Após aqueles três anos Wilfred dava graças ao Führer por ainda estar vivo. Em condições sub humanas, mas vivo. Aquele sistema de tratar os prisioneiros fazia o historiados amador, que se escondia debaixo do Marechal de Ar, se lembrar vagamente de algumas lendas antigas que as vezes eram citadas por antigos escritores. Eram lendas que falavam dos primeiros anos do nazismo, algo relacionado com a limpeza étnica desenvolvida pelos alemães quando findou a guerra que levou o Reich a hegemonia do mundo. Eram apenas lendas, nada mais do que isso.

Mas eram lendas tão antigas e tão brutais que no mínimo não passavam disso: lendas. Aonde já se viu reunir diversos representantes de uma mesma raça apenas para matá-los sob a alegação de pertencerem a uma raça inferior. Eram apenas lendas, nada mais do que isso.

As lendas falavam de campos, como aquele de Tulal IV no qual os inimigos do nazismo eram confinados e mortos em câmaras de gás e depois tinham seus corpos incinerados. Um absurdo, como homens civilizados podem matar perto de 150 milhões de pessoas em um prazo de 20 anos sem que estas pessoas estejam em armas? Eram apenas lendas, nada mais do que isso.

Wilfred foi vivendo naquele campo. As vezes a lembrança das lendas antigas lhe vinham à mente. Mas era tudo um absurdo. Marcar as pessoas com uma estrela apenas para diferenciá-las de outras pessoas? Eram apenas lendas, nada mais do que isso.

Sem que Wilfred conseguisse descobrir o motivo a população do campo de prisioneiros foi diminuindo, os cargueiros que diariamente traziam mais e mais prisioneiros começaram a escassear, até pararem de vez com o ininterrupto transporte de prisioneiros.

Os poucos amigos e conhecidos de Wilfred que ainda estavam vivos vão misteriosamente sumindo. Ao final do quinto ano apenas o Marechal do Ar e alguns míseros 20 prisioneiros permaneciam no campo.

Wilfred percebia que as instalações do campo estavam sendo desmontadas e removidas. Os alojamentos dos prisioneiros já não existiam mais. Os contingentes de guardas foram sendo diminuídos. Um mistério tudo aquilo.

Já dominando fluentemente os idiomas dos aliados Wilfred escutava os guardas comentando que a vitória sobre a Alemanha fora fulminante. Os invasores germânicos foram expulsos das Plêiades com muitas perdas, não tendo mais como continuar naquela guerra a Alemanha solicitou a paz.

A desativação total do campo ocorreria dali a três dias. A única coisa do campo que mantinha seu funcionamento normal era aquele duto de ventilação que diariamente lançava na superfície de Tulal IV aquela fumaça branca.

Finalmente chegou o dia de desativar totalmente o campo, Wilfred traduzira corretamente as conversas do guardas Os prisioneiros remanescentes foram reunidos no centro do campo e escoltados para pelos guardas para aquela parte do campo que os prisioneiros nunca viam. Foram conduzidos por um complicado sistema de túneis e salas. Wilfred nunca imaginara que as instalações subterrâneas do campo fossem tão vastas e complexas. A direção tomada pelos prisioneiros e seus guardas coincidia com o local de onde provinha os dutos de fumaça branca.

Uma última porta foi aberta. Wilfred sabia ser aquele o destino final. Horrorizado vê ao fundo corpos de seus compatriotas nus, todos mortos. Um cheiro insuportável. E então, em seus últimos momentos vivo Wilfred observa que aqueles dutos de ventilação que ininterruptamente despejavam fumaça branca na superfície do planeta nada mais era que chaminés que partiam de fornos atômicos instalados nos subterrâneos do planeta. A fumaça era o saldo final dos corpos dos prisioneiros mortos no campo. Horrorizado Wilfred observa seus últimos companheiros sendo mortos pelos guardas com pancadas na cabeça. Antes de partir para o "andar de cima" Wilfred se lembra das lendas antigas que percorriam o planeta Alemanha sobre povos massacrados nos anos iniciais de formação do Reich. Eram apenas lendas, nada mais do que isso.

Como as lendas chamavam mesmo esses campos? Há sim campos de extermínio. Normalmente povos inferiores como judeus, negros, ciganos e outros eram mortos e tinham seus corpos incinerados. Eram apenas lendas, nada mais do que isso.

Antes de dar seu último suspiro Wilfred faz a saudação nazista, levantando a mão direita ao ar e pronunciando com toda a potência que sua debilitada voz podia alcançar naquele momento.

Heil Hitler..

Eram apenas lendas, nada mais do que isso.

Nota do autor: A ficção muitas vezes advém de algo real...

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