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Esta história se passou lá pras bandas do Matão, onde televisão é janela, eletricidade é lampião.
Não posso jurar veracidade, mas conto com lucidez e exatidão o que se passou.
Quando Albano caiu no canavial que cercava o valão do Espinho, foi como bicho abortado, sem roupa, natimorto e sozinho.
Assim que descobriu-se com vida, saiu correndo como pôde, num só fôlego, e só parou quando em casa chegou, machucado, exausto e confuso, entrou feito um raio e foi direto para o quartinho.
Deitou-se espantando o galo de cima da colcha de retalhos, depois deu um pulo e foi fechar a janela. Noite de lua gorda, tão brilhante que ofuscava.
O pai, velho Albano, picava fumo na sala e media a profundeza do cachimbo.
Albano tirou a cruz de cedro da parede e foi se deitar abraçado com ela.
No dia seguinte o pessoal de Pouco Juízo, deu falta de Albano quando a tarde já ia longe.
Nada de seu riso graxo.
Viciado em jogos de azar, Albano dos doutores pedira emprestado o sociável, não sabia geometria mas lecionava no baralho ou nas pedrinhas de dominó que era uma beleza. Com seis copos de pinga compunha uma sinfonia e se dinheiro sobrava, enchia de lorota as meninas da Zulmira.
Aqueles que nunca haviam visto Albano sóbrio ou arrumado, não reconheceram quando ele, de sacola e chapéu, apareceu na parada de ônibus, que dia sim, dia não, por volta de meio dia chegava um ônibus poeirento.
Banho tomado, barba feita, Albano dentro do terno de casamento do pai era a visão mais magra e jovem do próprio Albano pai.
Foi um menino que vinha pedalando pelo caminho desde a ponte até a praça que gritava vindo junto ao ônibus e parou aos pés de Albano, abestalhado.
-Bano? Disse o guri diante daquele homem estranho.
Albano sorriu com os seus dezesseis dentes e, pousando a mão sobre a cabeça do pirralho, disse:
-Tô indo para a cidade, mas volto.
Há quem ainda se lembre da fumaça do ônibus que levava Albano naquele dia, numa última lembrança empertigada e até cheirosa. Estaria enamorado?
Mas como o vento sempre sopra pros dois lados, um dia o mesmo ônibus trouxe Albano.
Terno de poliéster, sapato de doutor, um cabelo estranho, sem franja, esquisito toda vida.
Quase o confundiram com artista de novela.
As moças não comentavam outra coisa no coreto.
Quando os amigos o cercaram pedindo explicações, Albano abriu a boca e apenas sorriu. Um sorriso pleno, com todos os dentes que se podia ter na boca.
Eram muitos, e brancos, se recorda o pessoal de Pouco Juízo.
Depois da viagem, Albano passou a recusar convites, se tornou um sujeito esquivo mas sorridente, sem dúvida.
Pagou por um cesto de livros da biblioteca da mulher do prefeito e comprou os óculos do juiz aposentado.
Quando o visitávamos, estava sempre limpando os sapatos, com o vinco das calças bem passado e comentava que tomara gosto por banhar-se todos os dias.
Disse para a mãe que tinha um compromisso.
A mãe de Albano, dona Albina, cansada de ver o filho maltrapilho, até gostara da mudança.
Acendera velas em agradecimento e matou um porco no sábado de Aleluia, que foi cozido à moda e servido aos vizinhos mais queridos. Albano não comparecera ao banquete, ficou lendo um tal de Balzaque.
Dizem que visitou o padre duas vezes fora das missas; mas não para pedir milagres ou se confessar. Queria que lhe contasse sobre a descoberta da gravidade. O vigário, diante de um pedido tão genuíno, pediu-lhe para que procurasse nos livros da ciência, pois este não era um assunto próprio a Deus.
Albano andava com pressa, não comparecia às conversas, nem para dois dedos de prosa.
Sua mãe, ao voltar da roça, ao vê-lo segurando uma mala, perguntou se estava de mudança, a troco de joça. Albano mostrou o sorriso de todos os dentes e abraçou-a com carinho, como quem pretende consolar.
Na véspera da Saudação aos Mártires, Albano passou para Joca, o filho bastardo do barbeiro, uma viola de estimação e cuidados. Disse que nunca aprendera a tocar e que não era mais de serventia.
Na mata, contaram depois, viram Albano soltando todos os pintassilgos, curiós, e peitinhos-vermelhos, depois queimou as gaiolas para que ninguém mais as usasse.
Já ia de casa em casa, de orelha em orelha, viajando feito um raio, a história de que Albano enlouquecera, que perdera as pregas da cabeça e que estava agindo feito um abestado.
O padre, sabendo do ocorrido, juntou uns poucos para sabatinar Albano após a janta daquela noite.
Porém isso nunca aconteceu.
Dada a hora para a tarde dar a vez para a noite que vinha, um vento possesso de sabe não sei onde, atingiu o vilarejo de Pouco Juízo, batendo janelas e portas, pondo o povo a correr nas ruas.
Os pássaros procuravam abrigo voando baixo nos quintais.
Quem tinha o que proteger entrou em casa e amarrou bem. Quem tinha o que cobrir, cobriu. Quem tinha o que velar, velou.
Dona Maria das Graças trancou-se na igrejinha e acendeu uma dúzia de velas à margem do Santo de sua devoção.
Nunca se havia visto um vento tão violento. Tanto que tombou postes telegráficos na estrada e destelhou metade das casas.
Albano havia saído pouco antes daquilo tudo se dar e sua mãe lembra dele passando pela porta, mala na mão e chapéu novo.
Parecia um ator de revista, ela diria muitas vezes depois quando perguntada.
O dia em que Albano desapareceu pouca gente se lembra, além do vento forte.
Tornou-se 'O Dia que Pouco Juízo quase fora levada pelo vento'.
Dois meninos de além do Grotão tinham visto uma luz verde, lá pras bandas do Espinho, luz forte e cegante.
Dizem lembrar também de animais mortos foram dar na hidroelétrica pelo rio e uma porção da mata havia sido queimada sem fogo.
E dizem lembrar que naquela época, todo ano, as pessoas de Pouco Juízo fecham as portas e janelas, amarram o gado e que o que pode ser arrastado pelo vento é bem guardado.
E há quem ouça as risadas de Albano ao olhar para as estrelas luzindo na noite de lua gorda, neste canto esquecido por Nosso Senhor.
Fim.
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