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Parte I
Nunca houve época como aquela.
Eu vivia com Camila em uma casinha entranhada no meio do bosque. Era uma casinha rústica, mas bonita. Eu plantava flores em canteiros ao redor da casa. Assim, quando acordávamos éramos recepcionados por uma arco-íris vegetal.
Eu então lavava meu rosto no riacho e levava água para que Camila fizesse o café. Enquanto ela o preparava, eu a observava.
Como era linda!
Ela tinha cabelos ruivos, cacheados e longos, que desciam em cascata por suas costas. Um ou outro cacho caía, distraído sobre os olhos azuis ou os lábios muito vermelhos e carnudos.
Talvez eu não tivesse razão para isso, mas o fato é que eu sempre me surpreendia com a beleza de Camila, com seus gestos delicados, com a doçura de sua voz.
Desde que chegamos ali a beleza de Camila não se alterara minimamente. Isso não deveria se motivo de espanto, mas eu, acostumado a nosso passado, mal conseguia acreditar em meus olhos.
E, no entanto, lá estava ela: linda, suave como a brisa de verão, aconchegante como uma lareira no inverno. Não havia uma única ruga em seus olhos, uma única mancha em seu corpo, além das maravilhosas sardas que lhe tomavam o peito.
Eu jamais me cansava de admirá-la e me admirar com o milagre de beleza tão duradoura.
Quando, enfim, ela terminava, nós tomávamos café olhando nos olhos um do outro e trocando sorrisos.
Depois saíamos para passear pelos bosques. Ficávamos lá em cima, de mãos dadas, no meio das flores, observando o bosque abaixo de nós...
Éramos felizes em nossa quieta solidão.
Devo admitir, no entanto, que gostávamos de visitas, tão raro era recebê-las.
Foi o que aconteceu certa tarde.
Eu estava cortando madeira quando ouvi atrás de mim o trote de um cavalo.
Um homem vestido de preto, usando um grande chapéu da mesma cor vinha em minha direção, montado em um majestoso corcel negro.
Larguei o machado e me aproximei dele. Foi meu primeiro erro. Eu deveria ter aproveitado a chance para cortá-lo ao meio. Mas eu não sabia...
- Seja bem vindo, forasteiro!
Ele apeou, tirou o chapéu e se persignou.
- Sou um pobre alquimista que busca refúgio dos perigos da noite, meu senhor.
- Minha casa é humilde, mas aqui você encontrará pousada. - respondi. Qual é o seu nome?
- Flogisto. É como sou chamado.
- Flogisto...
- É o elemento universal responsável pela queima de todas as coisas...
Nisso Camila apareceu à porta. Ela pousou a mão no batente e inclinou a cabeça, deixando que seus cabelos caíssem ao longo de seu corpo, como uma cachoeira rubra.
- É sua esposa? - indagou o forasteiro, olhando pelo canto do olho.
- Sim, esta é Camila.
- É demasiado bela!
O alquimista se aproximou de Camila e, pegando-lhe a mão, beijou-a .
- Sua beleza brilha como um farol nessa terra perdida.
Camila sorriu um sorriso constrangido e convidou-o a entrar. Logo chegou a noite.
Eu acendi a lareira, enquanto Camila preparava uma sopa.
- Há quanto tempo estão aqui? - perguntou o forasteiro.
- Não faço idéia. - respondi. Não sei de quanto tempo se passou lá fora.
Aqui o tempo é pontuado por nossa felicidade.
- São felizes, então?
- Jamais fomos tão felizes. - respondeu Camila.
- A felicidade é isso? Viver entocada num bosque, longe de tudo e de todos?
Em outros locais você poderia ser uma princesa...
- Uma princesa tem medo. Uma princesa corre perigo. Uma princesa tem obrigações. Aqui somo só eu e meu amado. Ninguém se importa conosco.
- Todos corremos algum tipo de perigo. - tornou o forasteiro.
Eu olhei para ele com olhos de chama. Não estava gostando do rumo da conversa. Parecia que eu sentia que algo terrível iria acontecer. Mas ele não notou meu descotentamento. Seus olhos estavam fitos em Camila.
- Carlos me protege. Eu não tenho medo.
O estrangeiro inclinou-se, aparentemente resignado.
- A senhora me convenceu.
Camila serviu a sopa, que comemos com delicioso pão. No final o estrangeiro abriu o alforje e tirou de lá uma caixa preta.
- Não quero partir sem antes dar-lhe um presente, minha senhora.
Camila pegou a caixa. Eu tentei lembrá-la que abrir presentes era perigoso, mas já era tarde demais.
Ela abriu a tampa e saiu de lá um mosaico maravilhoso de luzes coloridas.
Elas se elevaram no ar e começaram a explodir como fogos de artifício.
Camila olhava para o espetáculo, totalmente maravilhada.
Depois disso não houve qualquer incidente. Terminamos de comer, Camila arrumou o quarto de hóspedes e fomos dormir.
Mas aquele presente misterioso não saía de minha cabeça.
Naquela noite tive um pesadelo. Sonhei que Camila envelhecia progressivamente até que eu não pudesse mais reconhecê-la no meio das rugas.
E ia diminuindo de tamanho, até que não sobrasse mais nada dela.
Quando acordei, olhei para o lado e não encontrei minha amada.
Saí desesperado pela casa, mas não a encontrei. Lembrei-me, então, do forasteiro. Ele também não estava em seu quarto.
A compreensão me veio como uma relâmpago.
Nosso visitante era um anjo da morte. Eu ouvira falar deles. Eles andavam pelos campos, pelas cidades, ceifando vidas. Ninguém sabia como escolhiam suas vítimas.
Peguei o machado, um capote e me pus a persegui-lo. Apesar de estar a pé, eu não poderia deixá-lo sair do bosque, ou talvez nunca mais o encontrasse.
Caminhei horas e horas pela floresta iluminada apenas pela luz da lua.
Meus pés já não aguentavam mais. Por fim desisti e sentei sobre o tronco de uma árvore caída e chorei.
À medida em que as lagrimas caíam de meus olhos, a realidade ia se dissolvendo, como uma pintura sobre a qual se joga água. O bosque, a montanha, a casa, tudo desaparecia gradualmente.
A ilusão estava desfeita.
Eu mentira para o forasteiro. Eu me lembrava muito bem há quanto tempo estava ali. Eram décadas. E, embora durante todo esse tempo eu tenha lutado para me esquecer, a verdade é que acabei me lembrando rapidamente: o bosque, a casinha, o canteiro de flores, a beleza de Camila, tudo era falso.
Camila e eu nos casamos jovem, em uma metrópole. Não tivemos filho. Talvez por isso a velhice tenha nos pesado tanto.
Quando ficou claro que nossos corpos morreriam em breve, fizemos o que todas as pessoas de nossa idade (e até outras mais jovens) estava fazendo: transferimos nossa consciência para a rede de computadores.
Nossos corpos morreram poucos meses depois. Mas pouco nos importava.
Estávamos em outro mundo, em uma realidade idílica. Escolhemos viver em uma época antiga, com mais ingenuidade e mais felicidade. A doença e a velhice já não eram fantasmas pairando sobre nós. Voltamos a ser belos e jovens.
Nunca fomos tão felizes.
Com o tempo recebíamos visitas que nos traziam as novidade: a cada ano aumentava a quantidade de pessoas que abandonava o corpo para viver uma vida virtual. Afinal, quem não gostaria de viver no paraíso?
Mas em todo paraíso há sempre o mal.
O mal era personificado pelos exterminadores de consciência. No século XX eles seriam chamados de hacker, mas nós os chamávamos simplesmente de anjos da morte.
Eles entravam em uma determinada realidade, escolhiam uma pessoa e a infectavam com um vírus, fazendo com que sua consciência fosse deletada.
Teoricamente havia uma maneira de resgatar a pessoa. O vírus nunca a deletava completamente. Sua consciência ficava presa em algum ponto da rede.
Talvez houvesse uma maneira de salvar Camila, mas era muito remota.
Cobri meu rosto com as mãos e chorei, em meio à imensidão virtual.
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Parte II
Tão logo compreendi a verdade insofismável de que Camila estava virtualmente morta, mergulhei em profundo estado de melancolia.
Deixei que minha consciência flutuasse pelo ciberespaço como uma nau sem rumo. Estava totalmente desgostoso de tudo.
Em todos aqueles anos em que vivemos juntos, estivemos sós, isolados do mundo. Conhecíamos muito pouco do ciberespaço para empreender a caçada.
Por fim um pensamento foi se firmando. Uma lembrança. Um de nossos amigos nos visitara certa vez e nos dissera que estava vivendo em uma comunidade hippie.
Talvez ele pudesse me ajudar.
Empreendi a minha busca e me chegaram quatro opções, das quais eliminei três sem dificuldade.
De fato, minha escolha foi acertada. Assim que entrei por um portal de flores, encontrei meu amigo esperando por mim.
- Recebi sua mensagem. - disse ele, abraçando-me.
Raul usava cabelos e barbas longos. Sua vestimenta era uma espécie de roupão branco, completado por sandálias de couro.
- É realmente um prazer tê-lo aqui!
Seu rosto exalava serenidade e paz.
- Vejo que está feliz.
- Feliz? Morrer fisicamente foi a melhor coisa que poderia me acontecer.
Quando morávamos no mundo real, você bem se lembra, eu era presidente de uma multinacional... e não tinha um único instante de sossego. Preocupações, prazos a serem cumpridos.. metas a serem atingidas. Eu não tinha paz nem mesmo quando estava de férias. Minha vida era um eterno inferno. Eu tinha muito dinheiro, mas pouca paz. Mas estou falando falando demais... Fale de você. Sua mensagem não dizia a razão de sua visita... Como está Camila?
- Ela... ela...
Não consegui continuar. Irrompi em um choro convulso.
Raul passou a mão sobre meu ombro, na tentativa de me consolar. Outras pessoas se aproximaram e me olharam com curiosidade.
- O que aconteceu com Camila? - perguntou Raul, por fim.
- Um anjo da morte ma tomou. - respondi, segurando o choro.
- Um anjo da morte?
Houve uma comoção geral. Um burburinho começou a se espalhar pela turba.
- Sim, um homem vestido de preto, com um grande chapéu e capa. Ele pediu pousada em nossa casa e ofereceu um presente a Camila.
Raul parecia estarrecido.
- Qual era o seu nome?
- Flogisto. Era assim que ele se chamava.
Meu amigo abaixou a cabeça e ficou em silêncio, ruminando seus pensamentos.
- Peçam para que Flor do Sol venha até aqui.
O burburinho aumentou. Depois a massa de pessoas se abriu a passagem de uma mulher. Ela trajava um vestido longo e colorido, tinha cabelos longos, muito bonitos. Mas eu não conseguia distinguir seu rosto. No final, acabei percebendo que se tratava de uma máscara.
Ela se aproximou e parou à minha frente.
Raul nos apresentou:
- Esta é Flor do Sol. Este é Dom Wherter. A mulher dele foi deletada por Flogisto.
Flor do sol balançou a cabeça tristemente.
- Você também o conheceu? - perguntei.
Houve silêncio. Ela passou um longo tempo lá, parada, decidindo se respondia ou não.
- Infelizmente. - foi a resposta abafada que ouvi depois de alguns minutos.
A moça tirou a máscara. No começo não identifiquei nada. Era como uma imagem em baixa resolução. Depois percebi uma grande ferida que lhe tomava quase todo o rosto.
Ela abriu o vestido: a ferida tomava quase todo o seu corpo!
- Ele tentou me deletar. Eu sobrevivi, mas fiquei assim.
Flor de Sol começou a chorar. Levou a mão ao rosto, tentando esconder a deformidade. Algumas pessoas se aproximaram para ajudá-la a esconder o corpo. Toda ela se agitava no choro que parecia não acabar mais.
- Eu não compreendo... - disse ela, entre soluços.... eu não compreendo.
Aqui poderíamos fazer o mundo que quiséssemos. Poderíamos ser felizes como jamais fomos em nossas vidas reais. Nada de doenças, nada de guerras, nada de morte. Viemos de um mundo em que militares matam índios, em que religiosos organizam guerras... Poderíamos construir um paraíso terreno...
Eu não compreendo porque alguém usa isso para destruir, matar, aleijar, ferir...
- Talvez a maldade esteja no âmago de algumas pessoas... - disse eu. Ficamos em silêncio.
- Preciso ir. - disse ela, por fim.
Algumas pessoas a ajudaram a caminhar para uma cabana.
Raul olhou para mim.
- Imagino que queira trazer sua mulher de volta.
- Preciso encontrar Flogisto.
Meu amigo balançou a cabeça afirmativamente.
- Sim. Conheço algumas pessoas que talvez possam ajudá-lo. Há uma comunidade ciberpunk. Eles talvez consigam rastrear esse anjo da morte...
Raul continuou falando, dando as orientações para que eu encontrasse o local. Eu fazia um grande esforço para compreendê-lo. A imagem de Flor do Sol não saía de minha cabeça...
FIM
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