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INFORMAÇÕES    
Autor: Gian Danton.
Título: Capitão América.
Publicação: 10/09/2006.
Categoria: Ficção Fantástica.
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Blog do Autor - Prof. Ivan Carlos.

Você pode copiar o material apenas para uso privado e de acordo com a lei de direitos autorais. Ilustrações de Jean Okada - Todos os direitos reservardos.

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FICÇÃO FANTÁSTICA      
Capitão América - Argumentos Racionais.
Por: Gian Danton e Ilustrações de Jean Okada.

Imagem de Jean Okada.

Parte I – Argumentos Racionais.

Dia D. Litoral da Normadia.

A chuva fria açoitava os soldados espremidos na balsa.

Jones se inclinou sobre si mesmo e vomitou até que o conteúdo de seu estômago se misturasse com a água que encobria todo o chão.

O vento forte uivava, misturado ao choro medonho das metralhadoras e os gritos de agonia dos soldados na praia.

- Ei, Rogers! Por que eu devo morrer?

Steve Rogers olhou por cima do ombro. Era Brown, um negro forte, do norte da Flórida.

- Você não vai morrer.

- Vou. Vou sim. - respondeu o negro, os lábios grossos gotejando água da chuva. Todos nós vamos morrer. Os nazistas estão lá na praia, com suas metralhadoras apontadas para nós. Somos alvos fáceis. E por que devemos morrer?

- Estamos combatendo os nazistas... - respondeu o super-soldado.

- Meu pai e minha mãe foram assassinados pela Kun Klux Kan. Qual é a diferença? Nazistas, encapuzados, racistas... no fim somos sempre nós que morremos. Talvez estejamos viajando muito e o inimigo esteja dentro de nossa própria casa.

O super-soldado não respondeu. Dali a pouco chegaram à praia. A balsa se abriu, empurrando os soldados como gado para o matadouro.

Brown morreu ali, na praia. Naquele dia.

Steve Rogers acordou assustado. Ele nem mesmo se lembrava mais desses fatos, e não imaginava que um dia fosse sonhar com eles. (Talvez seja um aviso)

Ele se levantou, foi até o banheiro e lavou o rosto.

Ficou se olhando no espelho. Seu rosto ainda era incrivelmente jovem.

Quanto anos tinha? Quantos anos deveria Ter? Como o soro e o congelamento afetaram o seu metabolismo?

(Ei, Rogers! Por que eu devo morrer?)

Quanto anos de sua vida foram perdidos enquanto ele estava congelado?

Quantos amigos perdidos? Mortos? Quantos amores esquecidos?

O rádio começou a guinhcar, tirando-o de suas reflexões. Alguma coisa sobre um colégio sendo atacado por terroristas. Centenas de crianças americanas sob a mira de armas.

Ele vestiu seu uniforme, pegou o escudo e saiu.

Estava tudo bem. O super-soldado ia cuidar de tudo.

Os policiais abriram caminho, o um olhar um misto de surpresa e curiosidade.

- É ele!

- O Capitão América!

- O homem é uma lenda. Meu avô diz que luto com ele na grande guerra...

Um homem vestido de terno se aproximou e o cumprimentou.

- É um prazer, Capitão. Sou Chandler, e sou responsável pela operação...

- Soube que está havendo uma espécie de atentado. São agentes da Hidra?

O policial pigarreou.

- Não exatamente. São... são jovens...

- Delinquentes?

- Deliquentes? Eu vi a ficha deles. Bill Hanson. 14 anos. Filho de um veterano do Vietnã. Tira boas notas. É educado. Nunca se meteu em encrencas. Robson Grayce. 15 anos. Filho de empresário. Sempre estudos nas melhores escolas. Não tem nenhuma passagem pela polícia. Todos os outros seguem um padrão semelhante. O líder é Thomas Jefferson, 17 anos. O nome é uma homenagem ao ex-presidente. O avô morreu na grande guerra. É um aficcionado por armamentos e história militar.

O super-soldado pareceu desconcertado.

- O que eles querem?

- Querem que o governo proíba que latinos e negros estudem em escolas públicas.

- Isso é um absurdo1 - cortou o Capitão.

- Eles parecem achar um pedido muito racional. E para provar seus argumentos, estão apontando suas armas para centenas de crianças, a maioria negros, latinos e asiáticos...

O super-soldado balançou a cabeça.

- Não consigo entender...

- Isso não é o pior. - disse o agente. Veja isso.

Estendeu para o Capitão algumas folhas xerografadas. Era um jornalzinho estudantil, uma espécie de fanzine. Havia um título: O ESCUDO PATRIOTA - órgão oficial do fã-clube do Capitão América. Abaixo havia uma foto dos rapazes. Alguns usavam bottons no formato do escudo. Outros usavam a máscara. Outros, a camisa de listras.

- Parece que você é o líder deles. - disse o policial.

Fim da parte I

Imagem de Jean Okada.

Parte II – Argumentos Racionais.

Um dia qualquer da década de 30.

Steve Rogers chega em casa. Ele se esconde no quarto e chora. De lá ele pode ouvir os sons de sua mãe lavando roupa: o murmurar da roupa sendo batida, o soar monótono da escova...

De repente os sons param. Ele ouve passos.

- Steve, é você?

A porta se abre e o garoto se encolhe, escondendo o rosto. Ela se abaixa e toca em sua cabeça.

- Steve, o que houve com você, meu querido?

O garoto olha para mãe, mostrando um grande hematoma em seu rosto.

- Steve, quem fez isso com você?

- Eu odeio os italianos. - respondeu o menino, disparando ódio com o olhar cheio de lágrimas. Odeio todos os italianos! Os garotos italianos me viram desenhando e disseram que era coisa de maricas... eu odeio eles, odeio todos eles!

A mulher aproxima sua mão do rosto do rapaz e o acaricia. Seu toque é suave e reconfortante.

- Não odeie os italianos só porque alguns não sabem o que falam ou fazem.

Não devemos odiar alguém só por causa da cor de sua pele ou por conta da maneira dele falar. Isso pode ser certo para gente como esse tal de Hitler, mas não é certo para pessoas direitas, íntegras. Quando nossos antepassados vieram para este país, eles compartilhavam um sonho, meu filho. O sonho de um local bom para todas as pessoas: negros, japoneses, italianos, judeus... O sonho de um local em que as pessoas pudessem viver em paz, sem serem perseguidas. Esse é o sonho que você deve cultivar, entendeu.

Ela pegou a cabeça do rapaz e colocou em seu colo.

- Você entendeu, meu filho?

- Sim.

****

O Capitão América pensava em sua mãe enquanto andava pelos corredores da escola... nos conselhos que ela lhe dera quando ele era apenas um garoto frágil e indeciso.

- Vamos matar todos os reféns!

Os gritos vinham do refeitório. Havia um rapaz no final do corredor, apontando uma pistola para uma moça indiana.

- Ei, soldado!

A voz retumbou como um trovão. O rapaz se virou e, quando deu por si, a arma havia sido arrancada de sua mão. O escudo retornou tranquilamente para as mãos do Capitão.

O garoto segurou a mão dolorida contra o peito e começou a andar de costas, assustado.

- Você... você me machucou!...

- O que você estava fazendo, soldado?

- Eu... eu estava tentando limpar a América desse lixo...

O super-soldado deu mais um passo, fazendo com que o outro recuasse.

Estavam no interior do refeitório e havia vários rapazes armados. No chão, estavam deitadas várias pessoas: negros, judeus, indianos, latinos...

- O que estão fazendo, soldados?

Silêncio.

De repente alguém gritou:

- Atirem! É um impostor!

Houve uma saraivada de balas. O Capitão passou tranquilamente pela chuva de balas: ora defendendo-se com o escudo, ora usando sua agilidade para não ser atingido.

Com um único salto, ele golpeou dois rapazes, que tentavam inutilmente atirar nele. Mais três foram colocados fora de combate pelos escudos.

Sobrou apenas um, que apontava sua arma e tremia.

O super-soldado andou na sua direção. Sua expressão não demonstrava medo ou nervosismo.

- Pare onde está ou atiro! - gritou o rapaz.

O Capitão deu mais um passo. Dir-se-ia que ele jamais sentiu medo em toda a sua vida.

- Não. Você não vai atirar...

- Vou sim, e vou matar você!

- Rapaz, há quatro década muitos têm tentado isso e até hoje ninguém conseguiu. Agora me dê a arma!

O garoto olhou para a arma e para o super-soldado. Suas mãos começaram a tremer. Lágrimas escorreram de seus olhos. Finalmente, ele caiu de joelhos no chão e estendeu a arma.

O Capitão pegou a arma e tirou dela o pente de balas.

- O que vocês fizeram aqui foi muito errado. Foi esse tipo de pensamento racista que gerou o nazismo. Foi contra essa ideologia que lutei na Grande Guerra. É uma vergonha para mim saber que as flores de Hitler floresceriam em plena América...

Nisso houve um estrondo. Um robô gigante avançou, rompendo a parede do refeitório, gritando pelos alto-falantes:

- Traidor! O Capitão é um traidor!

- O que é isso? - perguntou o super-soldado, espantado.

- É Jeferson! - respondeu um dos garotos.

O robô avançou com passos largos e pesados. A armadura completa deveria pesar várias toneladas. Se seguisse na mesma direção, acabaria machucando as pessoas que estavam no chão. Embora algumas delas já estivessem se levantando para fugir à sua marcha assassina, as crianças menores corriam perigo.

O Capitão pulou sobre uma mesa e, tomando impulso, deu um novo salto, sobre a cabeça do robô, que foi obrigado a mudar de direção.

Mal se virou, foi atingido pelo escudo.

- Há! Há! Há! Você quer me ferir com esse brinquedo? Vê? Ele mal arranhou minha lataria...

De fato, o escudo havia apenas deixado exposto uma parte do circuito interno.

O robô se abaixou e desferiu um violento golpe, com as duas mãos, contra o chão próximo ao Capitão, que foi jogado pelo impacto.

- Há! Há! Há! Hoje será conhecido como o dia da morte do traidor da causa americana! - disse o rapaz dentro do robô, enquanto se preparava para esmagar a cabeça do herói com o pé.

O super-soldado girou ao redor de si mesmo e, golpeando a parede, deixou exposto um grupo de fios elétricos.

- Há! Há! Há! Você está cavando seu buraco para fugir?

O robô desferiu um golpe lateral, mas o Capitão se esquivou e a mão enorme ficou presa na parede.

O super-soldado pegou os fios descobertos e aproximou-os da parte da lataria que estava rompida.

- O que... que está fazendo? - gaguejou o rapaz.

- Está dispensado, soldado!

Houve um grande curto, que lançou a armadura contra a parede, onde ela ficou parada.

Nisso entraram os policiais.

Enquanto os outros recolhiam os garotos e verificavam se nenhum dos reféns estava ferido, Chandler se aproximou do Capitão.

- Parabéns, você conseguiu!

- Não estou bem certo disso. E pensar que servi de inspiração para esses rapazes... talvez eu tenha servido de inspiração para o racismo, para o imperialismo, para guerras sem sentido... Não estou bem certo de ter conseguido...

Os policiais estavam tirando Jeferson da armadura. Embora bastante machucado, ele se debatia e gritava:

- O Capitão América é um traidor. Será que só eu vejo isso?

Quando a gritaria diminuiu, o super-soldado se virou para Chandler.

- Na Segunda Guerra conheci um solado negro que me perguntou por que deveria morrer. Eu respondi que estávamos combatendo os nazistas. Ele me disse que estávamos viajando muito e talvez o inimigo estivesse dentro de nossa própria casa... Talvez ele tivesse razão... Talvez ele tivesse razão...

Fim

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