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INFORMAÇÕES    
Autor: Gian Danton.
Título: Os Anjos.
Publicação: 10/09/2006.
Categoria: Ficção Fantástica.
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Blog do Autor - Prof. Ivan Carlos.

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FICÇÃO FANTÁSTICA      
Os Anjos.
Por: Gian Danton.

Imagem da Internet.

Episódio I - Uma Vela Sob a Cama.

Naquele dia, Marcos acordou estranho. A realidade parecia bizarra, como se ele tivesse tomado algum tipo de alucinógeno. Quando se levantou, percebeu que estava com uma dor de cabeça terrível. Para piorar, o vizinho tinha colocado o rádio no volume máximo.

Marcos foi até o banheiro, tomou banho, molhando bastante a cabeça, na esperança de aliviar a cefaléia, mas a dor só aumentava e o som do vizinho parecia cada vez mais alto. Voltou para o quarto com a toalha enrolada na cintura, desligou o ar-condicionado e colocou a roupa lentamente, como se qualquer movimento brusco pudesse piorar as coisas.

Sua mulher estava na cozinha, terminando de preparar o café.

- Oi querido. – cumprimentou ela com um sorriso. Tudo bem?

- Não. Acordei com uma dor de cabeça terrível... e esse vizinho não abaixa esse rádio...

- Que rádio?

Marcos olhou para ela como se olhasse para um palhaço e tentasse descobrir se ele estava tentando ser engraçado ou não.

- Como assim, que rádio?

- Eu não estou ouvindo nada.

- Surdez é um problema sério...

Seu braço bateu na xícara e ela caiu no chão, quebrando em mil pedacinhos que pareciam reluzir, refletindo a luz da lâmpada.

- E cegueira é pior ainda. – rebateu Cristina, mas logo percebeu que algo sério estava acontecendo.

Marcos abaixou-se para recolher os cacos.

- Desculpe, é essa dor de cabeça...

A mulher adiantou-se a ele, pegando a pá e uma vassoura.

- Deixa que eu limpo... tem certeza de que pode ir trabalhar? Não quer tirar o dia de folga e aproveitar para ir ao médico?

- Não. Não é nada. Já vai passar.

- Vocês homens acham que são super-homens. Só começam a se cuidar quando estão para morrer...

Marcos ouviu o comentário em silêncio, enquanto tomava café com biscoitos.

Separaram-se no portão. Cristina trabalhava em uma escola e ele em um banco. Em locais diferentes, ônibus diferentes.

No ônibus, o som do rádio parou, mas alguém estava mascando chiclete e fazia um barulho escandaloso com a boca. Marcou olhou à volta, esperando que alguém se manifestasse contra o mal-educado, mas ninguém dizia nada. Era como se não estivessem ouvindo o barulho alto que alguém estava fazendo com a boca...

No banco a dor diminuiu um pouco, mas o barulho o deixava irritado e assustado. Era o slap slap mecânico de alguém contando dinheiro, era alguém com sarna, cuja coceira fazia barulho como uma lixa...

Um homem na filha estava vestido de preto e de óculo escuros. Ele ajeitava os óculos e isso era um barulho irritante. Na hora em que ele se aproximou e entregou a conta para pagar, as mãos dos dois se tocaram. Foi como um pequeno choque. No mesmo momento, Marcos ouviu uma voz: “Tudo pronto para o assalto?”.

Ele olhou à volta, tentando identificar a origem do som, mas não era ninguém no banco. Olhou para os outros caixas ninguém parecia ter ouvido. De onde saíra aquela voz? Instintivamente, ele apertou o botão de alarme abaixo do balcão e, ao mesmo tempo, chamou o gerente. O cliente vestido de preto olhava-o, intrigado.

- O que foi? – perguntou o gerente.

- Uma intuição. Peça para os seguranças redobrarem o cuidado.

- Você virou mãe Diná? Está vendo alguém suspeito?

- Não, mas faça o que eu disse.

- Está bem. Se isso deixa você mais calmo, vou falar com os seguranças...

Uma velhinha entrou pela porta lateral, carregando uma sacola. Dali a pouco três homens entraram pela porta giratória e se aproximaram dela. Já iam tirando as armas da sacola quando o vigia encostou a pistola na nuca de um deles.

- Quietinho aí. – disse o vigia. E você aí, vovó: coloque a sacola no chão, bem devagar.

A velhinha se abaixou lentamente e depositou a sacola no chão. Um dos bandidos ainda tentou se abaixar para pegar a sacola, mas foi atingido por um tiro vindo de outro vigia. Os outros talvez fossem resistir, mas desistiram quando ouviram as sirenes.

Na hora do almoço, os outros congratulavam Marcos:

- E aí, rapaz, conta como você desconfiou do assalto.

- Sei lá, não dá para explicar...

- Está se fazendo de estrela...

Marcos riu e continuou a comer. A dor de cabeça tinha passado quase que completamente e os ruídos já não o incomodavam tanto.

À tarde, quando voltava para casa, ele passou por uma igreja e, por algum motivo, resolveu entrar. Não era católico ou religioso, mas a igreja estava vazia e ele precisava de paz. Sentou-se num banco na frente do altar e rezou uma oração sem palavras. Os últimos acontecimentos rodopiavam em sua mente, como um turbilhão.

Então, uma voz masculina sussurrou dentro de sua mente:

- Não se acende uma vela para colocá-la sob a cama.

Um arrepiou percorreu seu corpo e ele sentiu uma presença à sua esquerda.

- Aqueles que estavam perdidos serão achados. – murmurou uma voz feminina em sua mente.

Um novo arrepio o percorreu e ele sentiu outra presença no seu lado direito.

- O que aconteceu hoje é apenas uma amostra dos talentos perdidos e encontrados.

Uma parte de Marcos dizia que era só imaginação, criação de sua mente, mas outra parte sentia que era verdade.

Então as vozes pararam, mas ele sentiu como se não estivesse sozinho na igreja.

****

Episódio II – Um Sonho de Voar.

Ele sonhou que estava voando. Seu corpo deslizava suavemente pelas partículas de ar, quebrando barreira, ignorando a gravidade. Atravessava nuvens e comungava com as estrelas, respirando liberdade...

Marcos acordou. Não abriu os olhos, mas advinhou que ainda era noite. Sentia frio, mas, curiosamente, o frio vinha de baixo, não de cima. Era como se a cama tivesse desaparecido. Lutou entre dois opostos: a vontade de continuar dormindo e a necessidade de abrir os olhos para puxar a coberta. Finalmente, abriu os olhos e espantou-se com a proximidade do teto. Era como se a parede tivesse encurtado. Teve, então, a idéia de olhar para baixo e descobriu o que realmente estava acontecendo: ele estava flutuando quase meio metro acima do colchão. O lençol se elevara com ele, mas continuava cobrindo Cristina.

Marcos entrou em desespero, mas ouviu uma voz sussurrando em seu ouvido, acalmando-o.

Ele desejou estar de volta à cama e, como se respondesse a um comando secreto, seu corpo foi descendo até ser depositado calmamente no chão.

****

No banco, no dia seguinte, Marcos deparou-se com os colegas lendo as manchetes do Gazeta Popular. Pediu para dar uma e leu, enquanto um colega dizia “Só faltava essa!”.

LADRÕES DORMEM DURANTE ASSALTO

Dois menores, que assaltavam e tentavam violentar uma mulher na quinta-feira à noite, no bairro de São Francisco, dormiram enquanto praticavam o crime. A vítima também dormiu. Os dorminhocos foram encontrados ontem de manhã pela polícia, depois de denúncias de vizinhos. Entrevistados, os acusados disseram que não sabiam o que havia acontecido. É, pelo jeito o assalto estava tão monótono que deu sono...

- Era só o que faltava, hein? Ladrão dormindo no serviço. – disse um colega.

- Olha só quem fala! Até parece que você não dorme no banheiro. – lembrou outro.

- Aquilo não é sono, é meditação.

Nisso o vigilante se aproximou.

- Seu Marcos, deixaram um bilhete para o senhor.

E entregou um pedaço de papel dobrado e grampeado, com seu nome em um dos lados.

- Como assim? Quem deixou?

- Não sei. Devem ter jogado por debaixo da porta... tem seu nome aí.

Marcos abriu o grampo. Havia apenas uma frase, em letras maiúsculas:

EU SEI TUDO.

Marcos dobrou o papel e colocou-o no bolso, olhando à volta para se certificar de que ninguém mais havia lido seu conteúdo.

- O que foi? – perguntou um amigo.

- Nada, trote.

- Sei, viu a história do garoto que foi seqüestrado?

- Garoto seqüestrado?

- Onde você estava, na lua?

- Que garoto?

- Seqüestraram o filho de um comerciante. O garoto tem cinco anos. Estão pedindo três milhões. O pai diz que não tem esse dinheiro. Eles cortaram um dedo do garoto e mandaram para o pai...

- E a polícia?

- Nenhuma pista. Agora vamos para o trabalho que o gerente está chamando...

****

À tarde, quando saiu do trabalho, Marcos pegou um ônibus que não pegava normalmente. Ele sabia que, com isso, ia dar uma volta muito maior. Mas não se importava. Era como se vozes o influenciassem em sua decisão.

Quando chegou a um terminal, pegou outro ônibus e foi à janela, atento aos sons que chegavam da rua. Era uma miríade de sons variados que se misturavam num todo caótico, que Marcos separava em pequenas partes e as analisava uma a uma. Ele ouviu cachorros latindo, ouviu o choro de bebês, ouviu um casal brigando por causa de um controle remoto, ouviu um fusca velho tossindo e escarrando, incapaz de sair do lugar.

De vez em quando ele ouvia uma música agradável e concentrava a atenção nela, mas depois voltava a rastrear os sons, como se procurasse a sintonia no dial de um rádio.

Já estava muito longe de casa e do banco quando ouviu algo que chamou sua atenção. Desceu na parada seguinte. Ia concentrado, com medo de perder a voz na qual estava concentrado.

Finalmente parou na frente de uma casa que parecia abandonada. Mas não estava, como atestava o cadeado novo na grade do portão. Era uma casa ampla, de classe média, com telhado de telhas de barro.

Marcos olhou para o lado, para se certificar de que não havia ninguém na rua, e então se elevou no ar. Pousou sobre o telhado, com cuidado para não fazer barulho. Levantou uma das telhas e olhou para baixo. Era um quarto pequeno, com a porta trancada. Tinha um garoto ali, sentado em um cama com os braços enlaçados nas pernas dobradas. O garoto chorava e tremia.

Marcos recolocou a telha no lugar e se elevou no céu, descendo novamente em outra rua, ao lado de um orelhão. Fez uma ligação, utilizando o último crédito de seu cartão, e voltou a a se elevar no céu. Quando pousou novamente, estava sobre o telhado da casa. Procurou a telha que havia retirado antes e afastou-a. depois outra e outra, até abrir um espaço suficiente para poder entrar.

O garoto ouviu o barulho e olhou para cima. Marcou levou o dedo médio aos lábios, em sinal de silencio, e piscou para ele.

- Vou tira-lo daqui. – disse, pousando ao lado da cama.

Os olhos do garoto brilharam.

- Meu pai mandou você?

- Eu sei quem foi. Minha avó. Ele apareceu num sonho e disse que um anjo ia me salvar.

- Silêncio agora.

Marcos pegou o garoto no colo e começou a flutuar no ar, na direção do buraco no teto. Nisso ouviu o barulho de um trinco e o rangido da porta.

- Ei, o que está acontecendo?

O homem sacou uma arma e começou a atirar, mas Marcos e o menino já tinham desaparecido. Ouvia-se sirenes.

****

À noite, Marcos assistia o noticiário com a esposa. A principal notícia era a libertação do garoto.

REPÓRTER: O garoto foi liberado depois de 40 dias de cativeiro. O seqüestro teve momentos dramáticos, como quando os pais receberam uma caixa com o dedo do menino, mas acabou bem. O cativeiro foi descoberto graças a uma denúncia anônima, mas quando a polícia chegou ao local, Rodrigo já havia fugido e estava a duas quadras de distância. Estamos aqui com o delegado responsável pelo caso. Delegado, como o menino conseguiu fugir?

DELEGADO: Realmente não sabemos. Aparentemente ele fugiu pelo telhado, mas a parede era muito alta e não havia nada para ele subir. É um mistério...

REPÓRTER: O que o garoto diz?

DELEGADO: Ele afirma que foi salvo por um anjo enviado pela avó. Essas fantasias infantis são comuns em casos de stress como esse. A pessoa cria uma fantasia para fugir da realidade.

REPÓRTER: Rodrigo passou por uma avaliação psicológica?

DELEGADO: Sim, e ele estava calmo, apesar do que aconteceu. Achamos que a fantasia do anjo e a lembrança da avó morta o ajudaram a lidar com a situação.

REPÓRTER: Obrigado, delegado. Voltamos agora aos nossos estúdios.

ÂNCORA: É, parece que temos um anjo cuidando da cidade....

****

Episódio III – Pesadelo.

Marcos dormia. Em seu sonho, ele era criança e tinha amigos invisíveis. Eles falavam com ele, aconselhando-o. Falavam de seus sentidos e de como ele não eram bem usados. Poderiam ser muito melhores, se ele aprendesse. Poderia ouvir melhor, ver melhor, sentir sabores que jamais havia imaginado e sentir cheiros tão frágeis que um cachorro se enganaria com eles.

Eles lhe disseram que poderia voar também... e ele voou. Seu corpo elevou-se acima do solo, voando acima das casas.

Em seu sonho, ele se lembrou de sua mãe lhe contando uma história. Uma parábola da Bíblia.

Um senhor muito rico ia viajar”, dizia ela. “Ele chamou três de seus servos. Para o primeiro, entregou cinco talentos. Para o segundo, dois e para o último, um.

Depois de muito tempo, ele retornou e mandou chamar os servos. O primeiro chegou e disse: Senhor, investi os cinco talentos que me confiaste e com eles lucrei mais cinco. E entregou o dinheiro, mas o senhor devolveu a ele dizendo: Foste um bom servo e tens direito a teus talentos.

Então o senhor chamou o outro servo. Senhor, disse o servo, investi os dois talentos que me entregaste e ganhei mais dois. Mais uma vez, o senhor entregou todo o dinheiro ao servo, elogiando-o.

Finalmente, entrou o último servo, trazendo na mão apenas um talento. Senhor, disse o servo, fiquei com medo de ti e enterrei o talento que me deste. Aqui está.

O senhor o amaldiçoou: Eu te dei o talento para que o multiplicasse, não para que o enterrasse. Servo mal. Ficarás preso onde haja choro e ranger de dentes.

Marcos se lembrava de sua mãe lhe contando essa história. ela estava sentada à beira da cama, falando com sua voz calma e tranqüilizadora... e no instante seguinte estava morta!

****

- Querido, o que foi?

Marcos olhou à volta, tentando descobrir onde estava. Por um instante pareceu-lhe que estava em seu quarto de infância e só percebeu o engano quando viu Cristina ao seu lado. Apesar do ar-condicionado, ele suava e sua testa estava molhada.

- O que aconteceu? Você deu um grito...

- Nada. Um pesadelo, só isso.

De manhã, enquanto tomavam café, Cristina perguntou se estava tudo bem.

- Tudo ótimo. Foi só um pesadelo...

- Bem, talvez eu tenha uma razão para deixa-lo feliz. Você chegou tão tarde ontem e depois pareceu tão interessado nas notícias sobre o fim do seqüestro do garoto, que acabei não contando...

- Contando o quê?

- Uma novidade.

- Eu sei que é uma novidade. Apenas me conte o que é.

- Eu... bem... eu estou grávida!

- Grávida?

- As minhas regras estavam atrasadas uma semana e você sabe o quanto o meu ciclo é regular. Então eu fiz um exame e deu positivo...

Marcos ficou olhando para ela, perplexo.

- Grávida...

Por alguma razão, o bilhete que recebera no dia anterior veio à sua mente: EU SEI TUDO.

- E então, não está feliz?

- Claro, estou muito feliz!

Levantou e foi beija-la. Depois ajoelhou-se e beijou a barriga da esposa.

Quando saía de casa, lembrou-se que não havia olhado a caixa de correspondência no dia anterior. Abriu a caixa e lá dentro havia contas para pagar, catálogos e uma estranha carta, sem remetente e sem carimbo do correio. Marcos estava já no ônibus quando abriu a carta e suas mãos ficaram trêmulas. No papel havia apenas uma frase: EU SEI ONDE VOCÊ MORA.

****

Maria Rita estava molhando uma toalha para colocar ao redor do pescoço quando começou a ouvir passos. Sua visão estava turva em decorrência da fumaça. Ela estava sufocada, tossindo e mal podia manter-se de pé, mas mesmo assim conseguiu distinguir um homem se aproximando dela.

- Estou aqui para salva-la. – disse o desconhecido e sua voz tinha o timbre da esperança.

- Não há como. Estamos mortos. – a voz estava embaçada pela fumaça e o esforço de falar parecia inútil. Os andares de baixo estão pegando fogo. Não há como subir. O fogo tomou as escadas. Só nos resta pular da janela, mas são dez andares...

O homem pegou em seu ombro e tranqüilizou-a:

- Não se preocupe. Você vai ser salva.

Ele pegou-a pela mão e saiu com ela do banheiro. A fumaça subia, tomando conta de tudo e tornando impossível avançar sem tropeçar ou bater nos móveis. As instalações elétricas começavam a pipocar em estalos prateados. A encanação de gás explodiu e a cozinha foi tomada pelo fogo.

Maria Rita recuou, aterrorizada.

-Vamos, se ficarmos mais tempo, estaremos mortos.

A mulher deixou-se arrastar até a sacada. Ar, ar puro. Ela respirou profundamente, aproveitando seus últimos momentos de vida.

- Segure-se em mim. – pediu o homem. Vamos sair daqui.

- Não, eu não vou pular. Prefiro morrer queimada.

Histérica, Maria Rita fechou os olhos, sentou no chão da sacada e começou a chutar a perna do desconhecido.

- Vá embora! Vai embora! Eu não vou pular!

De repente seus pés não alcançaram mais nada. Ela abriu os olhos, lutando contra as lágrimas e a ardência, procurando o homem, mas só o encontrou quando olhou para cima. Ele estava flutuando no ar, como se suspenso por linhas invisíveis e mágicas.

- Você não vai cair.- disse ele.

Ela se levantou chorando – e as lágrimas já não eram mais apenas por causa da fumaça – e se agarrou a ele. Os dois flutuaram em minutos seus pés tocavam o chão da rua. Muitas pessoas a cercaram, tentando ajuda-la. Depois de algum tempo ela olhou à volta, mas seu salvador havia desaparecido em meio à multidão.

****

Marcos chegou em casa exultante naquela noite. Ele pensava seriamente em falar para a esposa como havia salvo a vida de uma mulher em um incêndio, mas não havia ninguém em casa.

A bolsa de Cristina estava sobre o sofá, mas a casa estava silenciosa. Preocupado, ele andou até a cozinha. Havia um papel branco dobrado sobre a mesa. Marcos abriu o papel. Havia apenas uma frase nele:

VOCÊ NÃO SABE ONDE ELA ESTÁ.

****

Episódio IV – Sete Horas.

Eram sete horas da manhã.

Ele acordou com a mãe sacudindo-o e dizendo que ele se atrasaria para a escola.

Eram sete horas da manhã.

****

O homem tirou a venda e as trevas que enchiam seus olhos se transformaram em luz, mas isso não alegrou Cristina. Ela tentou falar, gritar por socorro, mas uma fita adesiva em sua boca só lhe permitia alguns gemidos.

Cristina estava sentada em uma cadeira de madeira, as mãos amarradas ao encosto.

Acostumando seus olhos à claridade, ela olhou à volta, tentando se situar. Percebeu que estavam em uma espécie de porão. Não havia janelas, apenas uma porta, logo à sua frente. O chão era de madeira envernizada, velha, mas em bom estado.

Um cheiro forte e decrépito tomava o ambiente.

Uma lâmpada incandescente, acima de sua cabeça, era a única iluminação.

Olhando para um dos lados do porão, ela viu seu raptor e teve um calafrio. Era um homem calvo, vestido de preto, com óculos escuros. Não tinha sombrancelhas e seus lábios eram muito finos e brancos, como se não corresse sangue em seu corpo. “Talvez ele esteja morto”, pensou. Mas ele estava vivo e sorria para ela um sorriso estranho, demoníaco.

Do outro lado, havia uma cama. No lugar do colchão, um estrado de faixas de borracha entrelhaçadas. Amarrada sobre a cama estava uma mulher loira, de cabelos anelados desalinhados e longos. Estava nua e sua pele estava branca como se há muito tempo não visse o sol.

Ao pé da cama, presa a uma coleira e uma corrente fixada na parede, estava outra mulher, de quatro. Tinha traços orientais e cabelos pretos muito curtos, mas cortados por um cabeleireiro inábil. Também estava nua e sua pele era ainda mais branca que a da outra.

- Seja bem vinda à sua nova casa. – disse o homem de preto, e seu sorriso se tornou ainda mais doentio.

****

Eram sete horas da manhã.

Ele colocou as calças com os olhos fechados e quase dormiu de novo enquanto calçava as meias.

Eram sete horas da manhã.

****

Marcos ficou alguns segundos estático, parado com o papel na mão: VOCÊ NÃO SABE ONDE ESTÁ A SUA MULHER.

Suas mãos crisparam contra o papel, amassando-o e transformando-o em uma bolinha. Então jogou-o no chão e se afastou dele como se estivesse contaminado. Foi andando de costas, na direção da porta, as lágrimas escorrendo de seu rosto.

Quando chegou ao quintal, alçou vôo, gritando como um louco. Ficou lá em cima, rodopiando entre as nuvens e gritando.

Depois começou a voar em desespero por todos os locais, rastreando os sons na tentativa de encontrar sua esposa, até perceber que isso era inútil.

****

Eram sete horas da manhã.

Ele usou o tato para amarrar o cadarço dos sapatos enquanto a mãe se despedia dele e saía pela porta.

Eram sete horas da manhã.

****

O homem parou de sorrir e olhou para as duas mulheres nuas.

- Deixe-me apresentá-la a suas novas colegas. Vocês passarão muito tempo juntas. São as minhas cachorrinhas, e você logo será também.

Ele se aproximou das mulheres e, abaixando o tronco, acariciou a cabeça da mulher no chão. Ela fez-lhe festas e lambeu sua mão.

- Esta é Sereia. As pessoas do interior gostam de batizar seus cachorros com nomes marinhos como forma de prevenir contra a hidrofobia. Eu gosto disso, acho poético, não é mesmo, Sereia?

A mulher respondeu com um som que parecia um latido.

- Eu capturei Sereia há cinco anos e levei mais de dois anos para domesticá-la. É um trabalho lento, de condicionamento. Demorado, mas compensa. É preciso muito cuidado, inclusive com a saúde. Devo compensar a falta de sol com vitaminas, mas isso não impede a brancura da pele. Seria, de fato, um inconveniente, se eu não gostasse assim.

Ele ficou novamente ereto, sentou no estrado da cama e tocou na mulher que estava amarrada. Ela afastou a perna com repugnância, como se tivesse sido tocada por uma cobra.

- E esta é Pérola. Eu há capturei há um ano e ela está em treinamento. Ela fica amarrada o tempo todo, mas eu a solto uma vez ao dia para que ela se acostume a andar de quatro e, ao mesmo tempo, se exercite. Pérola é um pouco arredia e seu treinamento vai durar muito. Talvez eu me canse dela antes disso e faça com ela o que fiz com as outras. Você pode sentir o cheiro? Pode ouvir os ossos estalando? Elas estão aí, embaixo de você. Aquelas que me desobedeceram...

E o homem de preto olhou para o chão debaixo da cadeira.

****

Eram sete horas da manhã.

Ele lavava o rosto quando ouviu um guincho fino, como de borracha sendo arrastada por uma superfície sólida e áspera. Depois o grito de uma mulher e o som seco de ossos se quebrando. A voz de sua mãe.

Eram sete horas da manhã.

****

Marcos aterrissou no quintal de sua casa e entrou pela porta da frente, que havia ficado aberta. Penetrou na sala e deparou-se com uma foto de Cristina acima da televisão. Aproximou-se e tocou-a com o dedo, cuidadosamente, como se lidasse com algo extremamente frágil, capaz de quebrar ao menor toque.

Depois, foi para a cozinha e pegou o papel amassado no chão. Abriu-o lentamente, tateando-o, tentando encontrar alguma pista tátil. Todos os seus sentidos concentravam-se no papel, à procura de algo e foi o seu nariz que encontrou algo estranho. O cheiro. Que cheiro era esse?

Marco levou o papel ao nariz, aspirou profundamente e em seguida afastou o papel, enojado. Fedor.

Que tipo de fedor? Lixo? Fezes?

Cortume.

Era isso. Cortume. Onde já Marcos já sentira esse cheiro antes? Procurou na memória.

Sua mãe. Ônibus. Fedor. Cortume.

Um dia, ele tinha oito anos, estavam no ônibus. Ele sentiu o fedor e tapou o nariz. Sua mãe lhe explicou que era o cheiro do cortume e que aquela era a rua do Cortume.

Rua do Cortume.

Marcos procurou um mapa. Rua do Cortume. Lá estava ela. No bairro do Cortume.

****

Eram sete horas da manhã.

Ele saiu de casa correndo e atravessou a rua, o rosto molhado de água e lágrimas.

Eram sete horas da manhã.

****

O homem de preto se deitou sobre a mulher loira e violentou-a. Ela tentava gritar, mas era impedida por uma mordaça de couro que cobria sua boca e seu queixo.

Quando terminou, ele se levantou e deixou a mulher chorando sobre a cama. Então andou até a prateleira do outro lado do porão e pegou uma faca.

- Você deve estar se perguntando por que ainda não fiz nada com você. – disse ele, aproximando-se de Cristina. Sabe por quê? Porque quero primeiro capturar seu marido. Quero que ele veja tudo que vou fazer com você.

Os olhos de Cristina se arregalaram. Ele aproximou o faca de sua blusa e usou-a para arrancar, uma a um, os botões de sua blusa. Depois cortou os sutiã e os seios saltaram. Então Cristina sentiu o gume frio da faca passeando por seus seios e roçando em seus mamilos.

-Ele é uma pessoa especial e por isso terei um prazer especial em captura-lo. Oh, sim! Eu me esqueci! Você ainda não sabe sobre os dons de seu marido... você ainda não sabe que ele pode ouvir mais e melhor que qualquer pessoa, que pode ver como uma águia, pode sentir texturas e sabores melhor que você poderia imaginar. E ele descobriu recentemente que pode voar. Como sei disso? Vamos dizer que também tenho minhas habilidades. Ao focar uma pessoa, eu posso sentir um pouco de seu passado, presente e futuro. Eu estava na fila do banco quando houve o assalto e sei que foi seu marido que impediu o assalto. Entenda, eu só precisei juntar as peças...seu marido é um escolhido, um homem com habilidades especiais... como eu... e, o que é melhor, tem uma linda esposa...

O homem de preto levantou a faca e passou-a pela face de Cristina.

- Você deve estar pensando: se meu marido tem mesmo essas habilidades, ele irá me salvar. Vai descobrir onde estou e vai me salvar como o príncipe encantado que salva a princesa prisioneira do dragão. Mas eu tenho más notícias. Isto não é um conto de fadas... e o dragão é mais esperto que o príncipe. Eu posso sentir ele chegar. E posso me antecipar a cada ação dele. Aliás, posso senti-lo agora. Ele está chegando. Está caindo em minha armadilha!

****

Eram sete horas da manhã.

Várias pessoas se amontoavam ao redor do corpo. Uma mancha rubra se alastrava pelo asfalto. Ela ainda respirava.

Eram sete horas da manhã.

****

Marcos percorreu voando o caminho entre sua casa e a Rua do Cortume e ficou lá em cima, rastreando as casas até ouvir a voz de sua esposa gritando por socorro.

Era uma casa velha, isolada entre o cortume e um terreno baldio.

Marcos passou por uma varanda e aproximou-se da porta, pronto para arrombá-la, quando percebeu que ela estava aberta.

A porta abriu com um rangido e Marcos ouviu um murmúrio em sua cabeça: “Cuidado”.

Deu um primeiro passo e a madeira velha gemeu sob os seus pés. A voz de sua esposa, chamando por socorro continuava forte à sua frente. Um novo passo e a madeira tornou a gemer. Estava em uma sala ampla. A voz de sua esposa vinha de uma mesa, mas não havia ninguém lá.

Olhando à sua volta, ele se aproximou da mesa. Era um gravador.

Marcos apertou o stop e os pedidos de socorro cessaram. Então girou ao redor de si mesmo, os ouvidos atentos para qualquer barulho.

Um homem falando.

Onde?

Abaixo de seus pés.

A casa devia ter um porão. Marcos andou por ela, procurando a entrada. Encontrou-a na cozinha: um estreito corredor com uma escada e, no final dela, uma porta. “Não vá, não vá”, dizia a voz em seu ouvido, mas ele desceu. A madeira rangia e estalava sob seus pés. Seus ouvidos estavam atentos. O homem tinha parado de falar. Onde estaria?

Marcou abriu a porta e entrou. Viu sua esposa amarrada e amordaçada em uma cadeira e foi a última coisa que viu. Sentiu o impacto de algo duro na testa... depois dor... e então ficou tudo escuro.

****

Eram sete horas da manhã.

Ele tinha certeza de que ela iria sobreviver e afagava seus cabelos manchados de escarlate, mas ela deu seu último suspiro.

Eram sete horas da manhã.

****

Marcos acordou desnorteado. Onde estava? Por que tudo estava tão escuro? Aos poucos, a memória foi voltando e ele percebeu que estava caído no chão. A visão demorou mais a voltar e a primeira coisa que ele viu foi o rosto de um homem calvo de óculos escuros e sorriso sarcástico.

- Não pensei que fosse tão fácil. Achava que ia me divertir um pouquinho... vamos, levante-se, seu idiota, levante-se!

Marcos se jogou sobre ele, mas o homem de preto desviou.

Com muito esforço, Marcos se levantou. Seu olhar estava embaçado, mas mesmo assim ele voou sobre o homem, que desviou no momento exato e, pegando-o pelo pé, jogou-o contra a parede.

- Vamos, me ataque! Salve sua linda esposa! Venha, seu idiota!

Marcos se levantou novamente e ficou frente a frente com seu antagonista. Tentou pegá-lo de surpresa com um soco, mas o homem desviou com facilidade, até que seu rosto foi tomado por uma expressão de dor. Ele podia antecipar cada movimento de Marcos, mas não podia prever o chute que Cristina lhe daria entre as pernas.

Marcos aproveitou o momentâneo desnorteamento do homem de preto e desferiu-lhe um golpe na cabeça. Com o impacto, ele caiu de costas no chão e Marcos caiu sobre ele, desferindo socos. Os óculos escuros quebraram e revelaram olhos azuis muito claros.

Marcos pegou-o pelas orelhas e bateu sua nuca no chão até que ele parasse de se mexer. Então se levantou e começou a chutar o homem entre as pernas e nas costelas.

Quando se cansou, foi até a esposa, ajoelhou-se, tirou a mordaça de sua boca, e abraçou-a, chorando. Choraram os dois juntos, beijando-se entre lágrimas.

Então ele se levantou e desamarrou-a. Em seguida foi até a mulher nua na cama e também a libertou. Ela olhou para as próprias mãos, não acreditando que estava livre.

A mulher no chão foi libertada da coleira, mas não se levantou. Ao contrário. Foi de quatro até o homem e preto e cheirou-o.

- Ele está...? – perguntou Cristina.

- Não. Apesar de merecer morrer, ele vai sobreviver. Agora vamos embora.

Cristina apontou para as mulheres.

- E elas?

- Vamos chamar as autoridades. Elas precisam de mais ajuda do que podemos dar.

Foram andando até a varanda. Depois Marcos levou-a voando para casa.

****

Episódio V – Desapego.

No dia seguinte, Marcos e Cristina não foram trabalhar. Dormiram até tarde e conversaram pouco. Era ainda difícil lidar com o que tinha acontecido: o seqüestro de Cristina, o homem de preto. Marcos quase o matara. Pela primeira vez em sua vida, ele quase tirara a vida de uma pessoa e esperava jamais precisar voltar a fazer isso.

****

Ele foi o primeiro a acordar e se sentiu feliz por ter Cristina ao seu lado. Só damos valor ao que perdemos e ele quase perdera a esposa. Como forma de demonstrar o seu carinho, ele a beijou na testa. Cristina acordou desesperada e afastou-o com um empurrão. Então percebeu que era ele e o abraçou, chorando. Seus olhos ainda estavam vermelhos quando tomaram café e ela não disse uma única palavra. Na verdade, evitava o olhar do marido.

Na hora do almoço, Marcos quebrou o silêncio.

- Sabe, ontem, enquanto procurava você, eu pensava o tempo todo em minha mãe.

- Você me falou muito pouco de sua mãe. – disse Cristina, aliviada por ele ter , finalmente, tomado a iniciativa da conversa.

- É verdade. Falo muito pouco de minha mãe. Ela morreu muito cedo... quando era pequeno, eu podia ouvir, sentir, cheirar, perceber o gosto das coisas de forma extremamente minunciosa. E eu podia voar. Levei algum tempo até descobrir que as outras pessoas não tinham as mesmas habilidades que eu tinha. Lembro das crianças caçoando de mim quando eu perguntava se elas podiam voar...

- É sério? Você achava que todo mundo podia voar?

- Achava. Eu não me sentia especial. Para mim, eu era como qualquer outro...

Cristina segurou sua mão e apertou-a, como se lhe dissesse, através de gestos, que sim, ele era especial para ela.

- Poucos meses depois que descobri esses talentos, comecei a ouvir vozes. Há algum tempo segundo o qual crianças costumam conversar com pessoas desencarnadas e pensei: Era isso! Era isso que acontecia comigo. Eu falava com espíritos e eles me davam conselhos, me antecipavam o futuro... uma vez eles me disseram para não pegar um ônibus e depois descobri que esse ônibus havia sofrido um acidente...

- E a sua mãe?

Marcos abaixou os olhos.

- Um dia ela acordou, disse que o café estava pronto e saiu para trabalhar. Eu estava lavando o rosto quando ouvi o seu grito. Saí correndo. Havia várias pessoas olhando assustadas para um corpo estendido no chão. Eu abri caminho entre elas e encontrei minha mãe caída no chão, o sangue escorrendo de sua boca. Ela morreu em meus braços. Nem deu tempo de chegar ao hospital... Naquele momento, eu tive ódio das vozes que falavam comigo. Por que elas não haviam me avisado? Eu teria voado e tirado minha mãe do caminho carro... Por que me avisaram quando eu ia pegar o ônibus que sofreria o acidente, mas não me avisaram quando minha mãe ia morrer? Por quê?

Marcos ficou em silencio, como se remoesse essa pergunta dentro de si.

- Talvez ela devesse morrer. – foi a reposta de Cristina. Talvez fosse algo que eles não pudessem lhe contar...

- Sim, talvez. – concordou Marcos, fungando. Mas na época eu só podia pensar que minha mãe estava morta e eles não haviam me avisado. Eu era um menino de 10 anos, sozinho no mundo. De certa forma, amaldiçoei meus talentos, assim como amaldiçoei as vozes. De que me adiantava poder voar, se isso não servira para que eu salvasse minha mãe? De que adiantara minha superaudição se eu não escutara o carro se aproximando dela?

Novo silêncio. Marcos tampou os olhos, tentando esconder as lágrimas.

- Depois disso, nunca mais ouvi as vozes. Também nunca mais usei meus poderes. Até um ponto em que eu me esqueci completamente deles. Isso até alguns dias atrás, quando eu acordei com uma dor de cabeça terrível...

- Você tinha me falado do orfanato, mas nunca tinha me contado sobre sua mãe.

Cristina pegou as mãos de Marcos e olhou com ternura.

- Estou muito feliz ao seu lado. Para mim, você é especial. E estou mais feliz ainda por você estar,finalmente, se abrindo comigo...

Os dois se beijaram e ele a levou para o quarto. Fizeram amor durante muito tempo, como se não existisse o tempo e quisessem aproveitar cada segundo.

****

À tarde, Marcos foi à banca de revistas ver se algum jornal havia noticiado os acontecimentos do dia anterior. Descobriu que a Gazeta Popular publicara uma edição extra, vespertina, para contar os fatos da prisão do chamado “maníaco do porão”. Era uma edição magra, com apenas 12 páginas, letras garrafais e muita propaganda. Mas ainda assim estava “vendendo como banana”, como disse o jornaleiro.

O jornal informava que fora encontrado, inconsciente, na noite anterior, o homem que provavelmente era o responsável pelo desaparecimento de várias mulheres em Santa Helena nos últimos anos. Estavam em um porão. O delegado responsável pelo caso dizia que a prisão só fora possível graças a uma denúncia anônima.

Junto com ele”, dizia a reportagem, “foram encontradas duas mulheres. Uma delas, identificadas como Wilma Aparecida dos Santos, 31 anos, havia desaparecido há um ano no estacionamento da empresa em que trabalhava. Ela estava desnutrida e com ferimentos nos pulsos e nas pernas. A outra mulher não foi identificada e, segundo os policiais, parece ter desaprendido a andar e a falar”.

A matéria continuava falando sobre as condições em que as mulheres foram encontradas e tinha declaração de um perito da polícia, segundo o qual a mulher não identificada havia sofrido sérios problemas de personalidade: “Esse psicopata conhecia fundamentos de psicologia comportamental e usou isso para condicionar essas mulheres e fazer delas o que bem entendesse”.

Sob o porão os policiais haviam encontrado vários corpos em decomposição e até esqueletos. Aparentemente, o cheiro do cortiço abafava o fedor dos corpos em decomposição, razão pela qual os vizinhos nunca desconfiaram de nada.

A matéria trazia declarações de vários vizinhos dizendo que o maníaco parece absolutamente normal. Uma vizinha lembrou que ele a ajudava a cuidar do jardim e sempre oferecia sucos e biscoitos para as crianças da rua.

Segundo o jornal, o psicopata havia sido derrotado pelo marido da vítima mais recente, mas não sabia dar informações sobre quem era esse misterioso salvador.

Por alguma razão, outra notícia chamou a atenção de Marcos:

FANTASMA ASSOMBRA LOJA DE DEPARTAMENTOS

Um boato está colocando em polvorosa os funcionários de uma loja de departamentos muito conhecida na cidade: o local estaria sendo freqüentado por um fantasma. Uma funcionária afirmou ao nosso jornal que um homem entrou no vestiário e não saiu. Quando foi procurar por ele, encontrou apenas algumas roupas velhas.

Marcos não leu o resto. Dobrou o jornal, colocou debaixo do braço e rumou para casa.

Estava decidido a abandonar a sua vida de vigilante. O que acontecera na noite anterior o deixara preocupado. Ao utilizar suas habilidades, ele teria contato com assassinos, ladrões, traficantes, corruptos... pessoas que poderiam ter o impulso de se vingar. Ele não temia por si, mas por sua esposa grávida.

Marcos havia discutido isso com Cristina e ela concordou. Temia pelo futuro e queria ter o marido ao seu lado, e não voando pela cidade à noite, quando ela ficaria sozinha.

Ele protegeria a cidade, mas quem protegeria sua esposa? As imagens de sua mãe morta, estendida no chão, ensangüentada... Marcos jamais se perdoaria se algo assim acontecesse à sua esposa.

Um Hare Krishna o parou, interrompendo seus pensamentos. Falava rápido e sua voz parecia vazia de significado. Em certo momento ele estendeu a Marcos um livro grosso. Meio a contra-gosto e mais para se livrar do assédio, ele pegou o livro. Chamava-se Bagavad-Gita. Marcos abriu uma página ao acaso e leu:

Dedica-te à obra exclusivamente, jamais aos seus frutos. Tuas ações não devem ser motivadas pelo proveito que possam trazer; não deve tampouco te abandonares à inação. Firme na yoga, executa tuas obras sem apego nem interesse, permanecendo o mesmo qualquer que seja o resultado, feliz o adverso”.

Marcos devolveu o livro e voltou a andar, como que hipnotizado. As palavras que lera haviam causado uma impressão profunda em sua alma. Da mesma forma que antes estava decidido a abandonar sua atividade como vigilante, agora estava decidido a continuá-la.

Mas para isso precisava de algo que encobrisse sua identidade. Chegando em casa, conversou sobre isso com Cristina e decidiram-se por um capote e um capuz levantado.

À noite, quando assistia ao telejornal, viu uma matéria especial sobre um homem que estava salvando pessoas na cidade.

A reportagem dizia inclusive, que o estouro do cativeiro do maníaco do porão se devesse a esse misterioso herói.

****

Nas ruas, algumas pessoas já começavam a lhe dar um nome: anjo.

O anjo. Era assim que o chamavam. Precisava estar à altura do nome.

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Episódio VI – O homem que controlava o tempo.

Marcos e Antônio acordaram lado a lado e olharam-se, atônitos.

Estavam no meio de escombros de uma velha construção em ruínas. O cheiro forte de urina misturava-se ao aroma acre da madeira em decomposição. Nos canto mais escuros, ratos enormes conversavam entre si com guinchos que pareciam choro de bebês.

- O que... o que estamos fazendo aqui? – perguntou Antônio.

Marcos passou a mão na nunca, tentando afastar uma leve dor de cabeça.

- Não sei. Aliás, que lugar é esse? Não me lembro de nada...

- Vamos, vamos sair daqui...

Quando atravessaram a porta, Antônio reconheceu o local.

- Ei, parece o Palacete Paris. Cara, como está, pode não parecer, mas essa é uma das construções mais lindas da cidade... se eu tivesse bastante dinheiro, usava para restaurar este local...

- Tá, só se você ganhasse na loteria...

- Bem, não custa nada sonhar, não é mesmo?

E se afastaram pela rua, de volta para suas casas e para suas vidas. Na praça, o relógio marcava sete horas da noite. Os relógios de Marcos e Antônio também marcavam sete horas...

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Marcos viu-se de repente no meio da rua. Ele imaginava onde Antônio teria comprado o relógio. Havia um sebo duas ou três quadra abaixo do banco. Depois de alguma procura, encontrou-o. Era uma casa simples, com portas de correr. O espaço era comprido, mas estreito, organizado com uma divisória. Na parte externa ficavam os livros, no fundos, objetos antigos.

Marcos foi direto para os fundos. Alegrou-se ao ver que o relógio ainda estava lá, na parte mais baixa da prateleira, escondido atrás de uma mesa de madeira.

O velho, comodamente sentado no balcão, na entrada da loja, pediu 100 reais, mas Marcos pechinchou até chegarem a 50 reais.

Saiu da loja com o objeto nos braços e procurou uma rua deserta. Assim que se viu longe dos olhos de qualquer pessoa, levantou vôo. Atravessou a cidade até a lixeira e soltou o relógio. A queda de dezenas de metros destroçou o objeto, fazendo com que suas partes, mecanismos e engrenagens se espalhassem em meio ao lixo. Então tudo virou inconsciência.

****

Antônio pegou na caixa de madeira do relógio com uma certa reverência, como se manipulasse um objeto sagrado. Então abriu uma portinhola lateral e dela sacou uma manivela, que girou sob sua mão, num rangido de protesto.

Fez isso e afastou-se dois passos, ficando ao lado de Marcos.

O relógio tiquetaqueava e seus ponteiros giravam sem lógica ou ordem, como se houvessem enloquecido. O ponteiro de horas ia para a direita, o de minutos para a esquerda e o de segundos, ora para a esquerda, ora para a direita.

Marcos olhou o objeto atentamente, concentrado. Uma imagem começou a se formar. O local era conhecido: uma rua de Santa Helena. A pergunta era quando.

Sem esperar uma resposta, Marcos pulou sobre a imagem e desapareceu, para espanto do amigo.

****

Antônio olhou, divertido, para o amigo. Seu rosto normalmente sério parecia ter passado por uma espantosa mutação que revelava um menino feliz e empolgado.

- Você sabe de minha paixão por sebos.- começou ele. Adoro livros usados. Um dia eu estava em um sebo quando vi o relógio. Por alguma razão, fiquei fascinado por ele e decidi comprá-lo. O homem da loja queria cem mangos, mas consegui convencê-lo a aceitar cinqüenta. Quando caminhava com ele de volta para casa, eu me perguntei porque estava tão nervoso. Por que minhas mãos estavam tremendo? Por que meu coração pulsava como se eu fosse ter um ataque cardíaco? Assim que cheguei, coloquei o relógio sobre a mesa e comecei a mexer nele. Descobri uma manivela. Talvez se eu a girasse, poderia fazê-lo voltar a funcionar. Então algo estranho aconteceu. Uma espécie de halo de luz se abriu em leque, acima do relógio. Por alguma razão, eu me lembrei de um fato específico. Eu era jovem e tinha ido ao médico do INSS. Cheguei lá umas cinco e meia da manhã, mas já não havia mais senhas, então eu fiquei caminhando pelas ruas desertas. Quando amanheceu, eu me sentei em um banco de praça e comecei a ler o livro que tinha levado, sentido a neblina me envolver, o orvalho das plantas se evaporando e se elevando até as minhas narinas. O livro era A máquina do tempo, de H.G. Wells. Para meu espanto, a cena se projetou na luz à minha frente. Não era como uma projeção de cinema, era como olhar por uma janela. Percebi o que era o relógio e como controlá-lo. O resto é óbvio. Eu fui ao futuro e descobri quais seriam os números sorteados na Loto. Agora estou milionário.

- Pode me mostrar como funciona? – perguntou Marcos.

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Marcos olhou-o intrigado, tentando entender a situação.

- E o tempo não é absoluto?

- Não. Nem de longe. Einstein demonstrou que o tempo é relativo. O mesmo fenômeno, visto por duas pessoas diferentes, pode estar acontecendo em momentos diferentes. O tempo também é influenciado por forças como a gravidade e a velocidade. Se você estiver viajando à velocidade da luz, o tempo passará mais lentamente para você. Da mesma forma, o tempo passa mais lentamente em locais com alta gravidade. Imagine como deve ser o tempo em um buraco negro!

- E o que isso tem a ver com o relógio e a mega-sena?

- Esse relógio é uma espécie de observatório privilegiado para o qual se volta a relatividade do tempo,uma espécie de vórtice no tempo-espaço....

- Você usou-o para descobrir qual seria o resultado da loteria?

- Imagine as possibilidades fantásticas que esse aparelho representa!

- E o perigo também...

- Perigo?

- Todos os relógios parecem ter enlouquecido... talvez você tenha mexido com algo que... eu não sei... uma espécie de equilíbrio muito delicado...

- Bobagem. Qualquer que seja o equilíbrio que o universo precisa, duvido que o que fiz vá mudar alguma coisa... além disso, há uma tendência universal para a homeostase, para o equilíbrio. - argumentou Antonio.

- Nem todos os sistemas tendem para o equilíbrio. Talvez o tempo tenha uma tendência mais entrópica, caótica... – rebateu Marcos.

Calaram-se, como se tivessem chegado a um impasse.

- É apenas um observatório, ou é possível participar do que está sendo mostrado?

- É possível também participar, o que é muito perigoso, especialmente no passado. Conhece o paradoxo do pai e do filho?

- Sim, um homem volta ao passado e mata seu pai antes que ele se case com a sua mãe. Assim, ele nunca teria nascido e, portanto, jamais poderia voltar ao passado para matar seu pai... onde arranjou o relógio?

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Dois meses depois, Gabriel resolveu visitar Antônio. Este recebeu-o com a alegria de uma criança que ganha um brinquedo novo e tem finalmente alguém para mostrá-lo.

Antes de entrarem, Antônio mostrou-lhe a fachada da casa, as grades, o pequeno parapeito no segundo andar, sob o qual havia insuspeitos relevos.

- A maioria das pessoas jamais teria a idéia de olhar para cima, mas os construtores prepararam esse pequeno presente para o sortudo que tivesse essa visão privilegiada. – explicava Antônio, com indisfarçável entusiasmo. É tudo uma obra-prima, das linhas arquitetônicas aos pequenos detalhes.

Então entraram e percorreram a sala, a copa, os quartos... Antonio mostrava tudo e gabava-se da rapidez com que havia terminado a reforma.

Ele deixou por último um quarto no segundo andar. Era fechado à chave e Antonio trazia a chave na cintura.

- O que vou mostrar a você, poucas pessoas já viram. Nem sei porque vou mostrar-lhe. Talvez porque eu saiba que você é uma das poucas pessoas capazes de compreender.

Era um quarto vazio, exceto por uma mesa e, sobre ela, um relógio antigo, de madeira.

- E então? – perguntou Marcos.

- E então? – espantou-se Antônio, como se o outro não conseguisse ver o óbvio. O relógio!

- Parece ser uma raridade, mas não compreendo porque todo esse mistério... você o comprou há pouco tempo?

- Não, há mais de dois meses...

Marcos franziu o cenho.

- Então não é uma relíquia. Há dois meses você era tão pobre quanto eu.

- Na verdade, esse relógio é a razão pela qual hoje eu tenho tanto dinheiro...

- Como assim?

Marcos aproximou-se e tocou o objeto.

- Como assim?

- O tempo é a chave. Ou pelo menos a noção que temos de tempo. Newton achava que o tempo era um valor absoluto. Ou seja, ele permaneceria o mesmo em todos os locais e situações. Ele caminharia da mesma maneira, estivesse você em Marte ou no quintal de sua casa....

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Antonio não foi mais ao banco. Estava muito ocupado com a realização de seus sonhos. Fazia questão de inspecionar pessoalmente as obras de restauração do Palacete Paris. A imprensa noticiava isso como uma espécie de excentricidade, que logo deixou de provocar interesse no público. O assunto principal passou a ser outro: a desregulagem do tempo. Relógios atrasando ou adiantando-se tornaram-se cada vez mais freqüentes. Até a programação da TV e do rádio ficou prejudicada. Programas começavam sem que seus locutores tivessem chegado, anúncios locais entravam em cima da programação nacional... todos os relógios pareciam estar loucos.

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No final da tarde, Marcos levou o relógio ao relojoeiro. Era um velhinho simpático e falador. Marcos espantava-se com sua coordenação motora, o modo com, apesar da idade, manipulava peças minúsculas.

- Hoje foi o dia. – disse o velhinho. Nunca trabalhei tanto na minha vida. Parece que todos os relógios da cidade resolveram adiantar, ou atrasar... até o ponto que já não sei mais qual relógio está marcando a hora certa.... bem, não parece haver nada de errado. Vou fazer apenas uma limpeza. Se ele continuar com problemas, traga que só vou cobrar se for necessário trocar uma peça...

Marcos agradeceu, pegou o relógio e foi para casa.

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Marcos chegou apressado ao banco, temendo estar atrasado, mas mesmo que estivesse mesmo atrasado, pouco notariam isso. O local estava um alvoroço de balões (restos do aniversário de um funcionário), sorrisos e saudações. No centro das atenções, Antônio Simões, um funcionário tímido, de óculos de aro preto, uma calvície avançando perigosamente pela já rala cabeleira. Era estudante de artes em uma faculdade particular à noite. Uma das poucas pessoas com as quais Gabriel gostava de conversar.

- O que está acontecendo?

- O que está acontecendo? – espantou-se alguém. Onde você estava? Na Lua? Você está diante do mais novo ganhador da mega-sena...

- Acumulada! Mega-sena acumulada! – ajuntou alguém.

- E quem é o felizardo? - indagou Marcos, sorrindo.

Todos apontaram para Antônio.

Gabriel deu-lhe um abraço.

- Cara, você?!

- É, eu sabia que ia ganhar...

Pipocaram os gritos de “Modesto”, “Sortudo”.

- E agora, o que você vai fazer com o dinheiro?

- Bem, antes de mais nada, quero realizar um velho sonho. Já ouviu falar do Palacete Paris?

- Sim, claro, está abandonado...

- Mas é a construção arquitetônica mais bela de Santa Helena. Vou compra-lo e restaura-lo!

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A primeira coisa que Marcos percebeu quando desceu do ônibus é que seu relógio estava atrasado. O relógio da praça marcava 8:50, e em seu relógio eram apenas 8:30. Ele parou ao lado de uma banca de jornais para acertar o relógio e aproveitou para olhar as manchetes. A Folha de Santa Helena e a Gazeta de Santa Helena traziam informações sobre política, especialmente sobre as próximas eleições, mas a Gazeta Popular trazia um fato curioso: um ganhador da mega-sena acumulada era de Santa Helena. Os outros dois jornais também traziam a informação na capa, mas com menor destaque.

Milhões de reais”, pensou Marcos. “Viria bem a calhar, ainda mais agora, com Cristina grávida”.

Então olhou o relógio da praça e espantou-se: eram 9:10 e ele estava atrasado, mas não parecia terem se passado vinte minutos. Olhou para o seu próprio relógio e ele marcava 8:35.

Os relógios estão doidos”, pensou, correndo para o banco.

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Episódio VII – Ondina.

Tem gente que canta procurando Deus
Tem gente que recebe Deus quando canta

Cazuza.

Eu estava perseguindo três ladrões. Eles haviam surrupiado a bolsa de uma senhora idosa e, como ela resistia, a teriam espancado até a morte se eu não aparecesse. Com o tempo descobri que ver alguém descer do céu, em meio às sombras, pode ser uma visão aterradora o bastante para fazer correr uma trinca de criminosos e foi isso que aconteceu naquela noite.

O ato de voar era, inevitavelmente, ligado a algo sobrenatural e, se para alguns eu era um anjo, para outros eu, vestindo um capote, o rosto encoberto por um capuz, parecia-me mais com um demônio.

Os assaltante correram desajeitadamente, ao mesmo tempo que jogavam para trás a bolsa, como se ela queimasse em suas mãos.

Eu acompanhava dos céus sua fuga inútil, embora estivesse preocupado com a possibilidade de não conseguir pegar os três. Quando eles entraram em um beco, eu me senti tranqüilizado, pois agora eles dificilmente me escapariam. Além disso, naquele local estreito, os três não poderiam me atacar ao mesmo tempo. Era o lugar ideal para aborda-los, mas quando me aproximei, vi algo fantástico: eles estavam parados, como que congelados. Do outro lado do beco, havia uma mulher cantando. Tinha longos cabelos cacheados.

Tinha longos cabelos cacheados de cor dourada e eles eram como conchas deslizando num mar de ondas. Os olhos eram grandes, profundos, ressaltados por sobrancelhas grossas. Os lábios, vermelhos e grandes, moviam-se e deles saiam sons que eram como o bater de ondas nas rochas ou o murmúrio instável do rio enchendo e vazando. Sua voz tinha o gosto reconfortante da água de poço e ao mesmo tempo era arenosa como a água do mar e tinha o aroma suave do orvalho sobre as plantas em uma manhã na floresta. Sua canções falavam de barcos perdidos, de mães chorosas, da lágrima de uma menina, da saliva de duas mulheres se beijando.

De repente, percebi que estava sendo hipnotizado e despertei, assustado. Eu quase despencara de cima do prédio. Olhei para baixo e vi os três homens chorando como se estivessem em seus próprios enterros. Eles ficariam ali por horas ou dias, como carpideiras de si mesmos.

Virei o rosto para o outro lado e percebi que a mulher havia desaparecido. Contornei o prédio e sobrevoei a rua, procurando a moça de cabelos cacheados, mas ela havia desaparecido.

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No dia seguinte, após o trabalho, fui à biblioteca. Pedi os jornais do último mês, todos os três: a Gazeta Popular, A Folha de Santa e Helena e O Tribuno.

Examinei atentamente as notícias, concentrando-me nas páginas policiais. Havia algumas notícias sobre O Anjo e seu sorri ao ler isso, entre envergonhado e orgulhoso.

Fora isso, havia uma matéria sobre como haviam aumentado os roubos nas lojas de departamentos. Nem mesmo o sistema de segurança estava conseguindo diminuir os furtos, pois o bandido, misteriosamente, retirava as etiquetas das roupas e objetos e simplesmente saía com eles. Havia uma declaração de um gerente segundo o qual era impossível retirar as etiquetas sem o equipamento específico, que só existia nos caixas. Era como se os roubos estivessem sendo feitos por um fantasma.

Mas não era isso que eu estava procurando. Depois de muita procura, achei uma matéria sobre dois ladrões que haviam dormido enquanto tentavam violentar uma vítima.

Era essa a pista!

Encontrei mais três matérias sobre ladrões que haviam sido presos em atitudes estranhas. Um deles estava rindo, o outro catatônico, o outro chorava. Um marido que espancava a esposa foi encontrado tremendo de medo.

Eu a ouvira e sabia que ela podia provocar reações assim em qualquer um que a ouvisse cantar. Não havia relatos da mulher porque todos estavam perturbados demais para identificar quem quer que fosse, mas uma mulher que morava perto de onde acontecera um dos fatos declarou que ouvira uma estranha canção.

Havia algo em comum em todos os casos: as vítimas eram sempre mulheres!

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As informações colhidas na biblioteca foram bastante úteis. A partir daquele dia

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Episódio VIII – O fantasma da loja de conveniência. - Em criação...

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Episódio IX – Memorial de um quase morto.

Para Gogol...

Manuel não conseguia morrer.

Sua vida era uma tristeza só. A mulher o abandonara chamando-o de idiota. Ele perdera o emprego de anos, pois disseram que ele estava velho demais para trabalhar... mas era novo demais para se aposentar. Ele não tinha amigos e passava os dias e noites sozinho, vivendo de pequenos bicos e odiando-se por assistir a programação idiota da TV.

Mas nada disso importava. Tudo estaria bom e certo se ele, ao menos, pudesse morrer.

Ele não estava doente. Tinha uma gripe aqui e outra ali, mas nada que pudesse mata-lo. Infelizmente.

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Episódio X – Um homem chamado sinestesia. - Em criação...

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Episódio XI – Todos os Anjos. - Em criação...

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Episódio XII – Demônios da Noite. - Em criação...

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Episódio XIII – Vingaça.

Marcos estava fazendo sua ronda, voando sobre os prédios e vistoriando as ruas, quando algo o acertou.

O que era, de onde viera? Milhões e milhões de pensamentos se revezavam em seu cérebro enquanto ele caía vertiginosamente. Por que não conseguia voar? Por que não conseguia...

Seu corpo caiu com estrondo sobre um monte de lixo. Apesar de não ser algo duro, suas costas doíam como se tivesse quebrado uma costela. O cheiro forte de ovo podre, peixe e restos de arroz azedo se misturavam ao odor ferruginoso das latinhas de sardinha, deixando-o ainda mais confuso. Ele girou sobre si mesmo e caiu no chão. Colocou as mãos e os joelhos no chão e ficou de quatro, tentando se levantar e, ao mesmo tempo, tentando entender o que tinha acontecido. Sua cabeça rodava como uma roda-gigante e ele se lembrou de uma música do Chico Buarque: “Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda peão, o mundo rodou de repente nas voltas do meu coração”.

Marcos ficou de joelhos e respirou profundamente. Seu peito estava oprimido, como se vestisse um paletó apertado e respirar era difícil.

Concentrando todas as suas forças, ele ficou de pé e pensou em voar. Sentiria-se melhor quando estivesse no ar...

Mas algo aconteceu. Seus pés não se elevaram do solo. Ele não estava voando. Por que não estava voando?

Uma pontada em seu ombro despertou-o. Era como se houvesse algo fincado em sua pele, como uma agulha... havia alguma coisa presa ao casaco... algo parecido com um desses alfinetes de mapa... Marcos puxou-o e percebeu que era uma espécie de projétil. De alguma forma, ele intuiu que era aquilo que não o deixava voar. Pensava nisso quando ouviu algo se aproximando... como um mosquito voando à velocidade da luz. Eram apenas segundos até que se aproximasse dele, o que quer que fosse. Mas era como se o tempo tivesse parado, ou como se tivesse se esticado. Marcos raciocinou que era provavelmente um projétil, igual ao que ele acabara de tirar de seu ombro. Aguçou o ouvindo e analisou a direção em que ele vinha. Então raciocinou qual seria a melhor saída. Pensou em se abaixar, mas chegou à conclusão de que não teria tempo. Pensou em se inclinar para a frente, mas a trajetória do projétil estava na direção de seu rosto e, mesmo que ele se inclinasse, corria o risco de ser acertado na nuca. Finalmente decidiu se inclinar para trás. Mal tomou a decisão e seu corpo estava tombando para trás, fazendo com que ele caísse de costas. Ele ainda nem caíra quando ouviu algo se espatifando contra uma parede próxima.

O desnorteamento estava passando e ele achava que talvez já pudesse voar. Deu uma corrida rápida e pulou para a frente. O asfalto raspou em seu rosto e ia deixar uma grave ferida se, no último momento, ele não conseguisse voar. Era um vôo curto, sem grande autonomia, mas o bastante para chegar ao telhado de um prédio.

Uma vez lá em cima, ele começou a olhar para baixo, em busca de alguém com um rifle, enquanto tentava adivinhar o que estava acontecendo. Quem estava tentando matá-lo? Quem era seu inimigo?

Não pôde chegar a uma conclusão. Logo captou um novo som. Dessa vez não era como um mosquito, mas como uma boa de futebol super-sônica.

Marcos levantou vôo bem a tempo de se livrar de um aparelho estranho, redondo e coberto de pontas de metal. O que quer que fosse, corrigiu a rota e veio atrás dele. Calor. O instrumento de morte era guiado pelo calor. Marcos desceu em rasante e visualizou uma fogueira em um tonel de metal. Pouco antes de se chocar com o tonel, Marcos se desviou e olhou para trás, para ver o bólido destruir o tonel.

Depois disso, ele subiu acima dos prédios e ficou parado, atento. Seus ouvidos, aguçados, procuravam captar, destrinchar e analisar cada som possível. Descobrindo padrões, ele identificou o que queria. O bólido mais uma vez passou rapidamente por ele, mas Marcos foi na direção oposto, na direção do rastro de som que o objeto deixara atrás de si.

Ele desceu até o topo de um prédio e, manobrando rapidamente como da vez anterior, fez com que o bólido atingisse o lançador, ainda quente em decorrência do disparo.

Ficou olhando a máquina se destruindo entre estalos e faíscas, depois olhou para trás, para quem o estava caçando.

Levou um susto. Não era ninguém conhecido. Nenhum super-vilão. Apenas um velhinho magro e assustado, curvado sobre si mesmo.

- Eu o conheço? Quem é você? – perguntou Marcos.

- Meu nome é Manuel.

- Eu conheço você?

- Não, você não me conhece, quer dizer, de certa forma, já nos conhecemos... mas você não deve se lembrar de mim. Ninguém se lembra...

- Por que você está tentando me matar?

O homem olhou para ele com olhos tristes, olhos de quem já viveu muito e não vê mais qualquer esperança pela frente.

- Por que quero morrer...

- Você é um suicida, é isso?

O velho fez que sim com a cabeça.

- Tentei me matar várias vezes, mas você sempre me salvava. Tentei pular de um prédio, tentei me trancar em casa e ligar o gás, tentei atravessar a rua na frente de um carro... todas as vezes você me salvava...

Marcos olhou-o, comovido. Não estava mais com raiva. Estava com pena daquela pobre alma angustiada.

- Você quer morrer? É seu único desejo?

- Sim.

-Então, vamos lá, pule do parapeito. Não vou fazer nada para impedi-lo. Se você quer se matar, não vou impedir...

O velhinho chorou, agradecido, e andou, com passos trêmulos, até o parapeito. Ficou lá em cima, oscilando como um pêndulo, pronto para pular.

- Por que quer se matar? – perguntou Marcos.

- Por que quero me matar? Por que sou um fracasso. Minha mulher me deixou, perdi o emprego... nem mesmo morrer eu consigo...

- Mas quase conseguiu me matar...

- O que quer dizer?

- Ora, só alguém genial poderia inventar isso que você inventou... Um projétil que inibe o poder de voar, um bólido que persegue a vítima... um fracassado não teria sido capaz de fazer isso... na verdade, isso me parece obra de alguém bem criativo... parece que tudo que você precisava era um objetivo para viver e encontrou um quando decidiu me matar. Mas desculpe, acho que estou atrapalhando você. Desculpe mesmo. Pode pular...

O velhinho oscilou, indeciso sobre se pulava ou não. Depois saiu do parapeito e foi na direção de Marcos.

- Qual é o seu nome?

- Marcos.

- Bem, eu não vou mais me matar e sabe porque?

- Por que antes você vai tentar me matar novamente. Sei, mas você vai ter que criar alguns equipamentos melhores, talvez...

- Quieto. Não vou mata-lo. Você tem mulher, filhos?

- Ei, deixe minha esposa fora disso...

- Eu não vou mata-lo. Eu vou protegê-lo. Vou ajudá-lo em sua luta...

- Você vai...

- Sim! Acho que você precisa de proteção, distraído como é...

Os dois se abraçaram, emocionados.

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Episódio XIV – Intangível. - Em criação...

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