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Entraram. A comporta se fechou atrás deles. Olharam para trás, assustados.
- Como? Como ela se fechou? - perguntou Antônio.
- Vamos em frente. - ordenou Pietro. Direcionou, então, o facho de luz para as paredes em volta.
A luz foi deslizando pelas paredes de plástico, envolvendo suavemente os contornos e relevos, os botões e telas. Então aconteceu. As luzes acenderam, repentinamente. Uma das portas se abriu sem emitir som, dando entrada para o corredor.
Olharam-se. Havia medo em seus olhos. Simone gritou no microfone do capacete:
- O que está acontecendo?
- Calma. - tranquilizou Pietro. Talvez haja um programa para acionar as luzes quando houver ocupantes na sala...
- Isso é muito estranho. - comentou Antônio.
Estavam em viagem de reconhecimento quando encontraram a nave perdida no espaço. Desde que percebeu a presença de seres hostis nas regiões mais longínquas da Galáxia, a confederação decidiu mandar naves pequenas, de reconhecimento, com uma tripulação reduzida, para avaliar regiões inexploradas. A nave fora uma surpresa. Não esperavam encontrar outras civilizações em locais tão próximos do sistema solar...
- É terrestre. - advertiu Pietro.
- Como?
- É uma nave terrestre. Veja essas inscrições na parede. Estão em inglês... Simone arrastou os dedos pelas inscrições.
- Tem razão. "The future is now". O futuro está aqui...
Pietro apontou para o corredor.
- Vamos.
Seguiram em frente. Os passos ecoavam nas paredes. À medida em que avançavam, as luzes iam se acendendo. Saíram em um cômodo enorme, repleto de telas e teclados.
- Isso é incrível. - exclamou Antônio.
- Vejam aquilo! - apontou Simone.
Sobre uma cadeira, a cabeça envolta em um capacete, jazia um homem. Fios irrompiam de sua pele esbranquiçada. Ainda respirava.
Antônio e Simone se aproximaram dele. Suas mãos tremiam sob as luvas. Lá atrás, Pietro dedilhava as teclas do computador.
- Acorde! Acorde! - gritou Antônio, sacudindo o homem. Uma leve camada de borracha envolvia todo o seu corpo.
- Não adianta. É como se estivesse morto...
Ficaram assim durante algum tempo, olhando o homem estendido sobre a cadeira.
- Saiam daqui! Vamos! Saiam daqui! - gritou Pietro lá atrás.
Como permanecessem imóveis, ele se aproximou e puxo-os pelo uniforme.
- Temos de sair daqui imediatamente!
Iam entrando no corredor quando a porta se fechou. Pietro pulou sobre ela e começou a esmurrá-la. Depois encostou as costas na parede e foi escorregando até o chão.
- O que está acontecendo? - perguntou Simone, atônita.
- Estamos presos.- suspirou Pietro.
- Presos?
- Sim. Tinha a impressão de já ter visto aquela expressão: "O futuro está aqui".
- Lembram-se de Proteus?
- Proteus.. Proteus... Claro! Mas isso foi há mais de 20 anos... eu era uma criança na época... Proteus era o computador que governava a primeira astronave tripulada que saiu do sistema solar...
- Sim. Na época Proteus era o mais avançado computador já construído... A nave jamais retornou à terra porque estava perdida Essas portas abrindo e fechando sozinhas... conseguem advinhar por que ele nunca voltou para a Terra?
- Você quer dizer... que o computador tomou conta da nave? Mas e aquele pobre diabo?
- A nave era equipada com equipamento de realidade virtual. Eu reconheci o capacete quando vi. Talvez o computador tenha arranjado uma maneira de mantê-lo vivo para poder se alimentar de seus sonhos...
- Sonhos?
- Sim. Sonhos. Emoções, sentimentos. Ansiedades tipicamente humanas. A máquina podia alimentar as fantasias das pessoas que a usassem, mas não era capaz de realizar suas próprias fantasias... ela precisava de alguém...
Pietro olhou para o chão. Suspirou. Depois apontou com o queixo para o homem na cadeira.
- Acho que o computador se aproveitou de um momento em que ele usava o aparelho de realidade virtual para enganá-lo. Sabe Deus qual o mundo em que ele está vivendo neste momento... Talvez esteja na Terra, brincando com os filhos, ou andando a cavalo... Tem vivido mais de 20 anos numa realidade falsa. Talvez, em seu sonho, ele tenha voltado para casa, sob aplausos da população, recebido como herói... desfilando em carro aberto... o computador se alimenta disso...
- Ele está morrendo. - sussurrou Simone.
- Sim, e o computador precisa de alguém que tome o seu lugar...
- Temos de sair daqui. - decidiu Antônio. Deve haver uma entrada de ar...
Vejam: há oxigênio aqui. - disse isso e retirou o capacete.
Os outros seguiram seu exemplo.
- Sim. O ar é perfeitamente respirável. - admitiu Simone. Deve haver uma entrada de ar.
Andaram à volta da parede, analisando-a .
- Ei, vejam isso! - exclamou Antônio, apontando para uma das placas da parede. É irregular e tem alguns furos. Ajudem aqui.
Pietro retirou um alicate do bolso e enfiou a ponta numa das frestas do metal. Houve um estalo. Pietro suava. Apoiara os pés na parede e puxava, com o alicate, a parte da parede que se soltara. Podia-se ver suas veias do pescoço inchando com o esforço. Houve outro estalo e um segundo. Depois Pietro caía ao chão, trazendo consigo a placa de metal.
- Ótimo. - congratulou Antônio, ajudando-o a se levantar. Podemos seguir por aí. Duvido que o computador possa nos causar mais problemas...
- Sinceramente, eu não tenho tanta certeza... - lamentou Simone.
O espaço era pequeno. Tinham de seguir agachados. Antônio seguia na frente.
Andou alguns metros que lhe pareceram quilômetros graças ao esforço. Gotas de suor escorriam de sua testa. De repente parou. Havia dois caminhos.
- Por que parou? - reclamou Pietro.
- O caminho bifurca aqui. Por onde sigo?
- Pela direita! Pela direita!
- Como sabe?
- Eu não sei. Tudo que sei é que meus joelhos estão doendo... vamos, siga em frente!
- Está bem. Eu vou pela esquerda...
- Pela direita...
- Tá bom. Pela direita...
Enfim decidiu-se e seguiu pela esquerda. Alguns metros depois encontraram a saída. Dava para uma sala por onde já haviam passado. Antônio desferiu um murro contra a grade. Sentiu os dedos doendo, mas continuou, agora empurrando. A tela não resistiu por muito tempo e tilintou no chão. Os três saíram e vestiram seus capacetes.
- Vamos embora. - sugeriu Antônio, preparando-se para sair da nave.
- Espere! Esta nave é uma armadilha.- exclamou Pietro. Precisamos destruí-la.
Dizendo isso, jogou o alicate sobre um painel. Houve um repimpar de fios em curto. Faiscas se avolumavam na parede como fogos de artifício.
- Vamos! Vamos embora! - gritou Antônio, puxando o amigo pelo braço.
Saíram pelo tubo que ligava a armadilha à sua nave e partiram. Puderam observar, ao longe, a espaçonave se consumindo. Puderam ver o fogo surgindo nas partes em que ainda havia oxigênio, para desaparecer logo depois. Não houve um único som que pudessem ouvir. Em minutos o que antes fora o mais avançado engenho humano estava reduzido a escombros, à deriva pelo espaço...
Desde então procuraram esquecer o que havia acontecido e a prisão da qual haviam escapado... a pior delas, eles pensariam, ao acordar dos pesadelos...
Epílogo
Fora difícil no começo. Precisara abandonar o primeiro humano. Retirara uma parte do equipamento de outras sala, mas conseguira.
A nave percebeu que era seu momento quando eles tiraram o capacete. Bastou retirar o ar da sala. Em segundos estavam desacordados.
Foi quando dominou seus corpos com fios e circuitos. Mas a nave percebeu que eles resistiriam. Jamais se conformariam... deixou, então, que seguissem suas vontades.
Deitados no chão, eles imaginaram que estavam indo embora, que fugiam pelos canos de ar.
Se pudesse, o computador riria disso. A entrada de ar era tão pequena que até mesmo um rato teria dificuldade de penetrar nela. E ainda que fosse tão grande, seria tão fácil retirar as telas? Achavam que a nave não reagiria? Poderia tê-los enganado, feito com que engatinhassem por semanas em um labirinto sem fim...
Mas a nave estava satisfeita com a ingenuidade de seus hóspedes. Estavam lá, deitados, crentes que o haviam destruído e que estavam a salvo, livres. Tinha paciência e poderia esperar séculos analisando e se deliciando com suas fantasias e sentimentos... até que outros viessem visitá-los...
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V.I.R.T.U.A.L. II O CHEIRO DA SUA PELE.
Todos os dias Jaime ia ao restaurante. Comia calmamente e ficava lá, imóvel. Apoiava os cotovelos na mesa, fincava o queixo nos punhos cerrados e observava a moça... Os cabelos negros e lisos, cortados pouco abaixo da orelha... os olhinhos pretos, meio escondidos atrás de óculos grandes, de aro de plástico escuro...
Ela o fazia lembrar de um filme que vira certa vez. Era uma fita antiga, do tempo que cinema em terceira dimensão era novidade e ainda não existia a tela de 360 graus. Chamava-se "A Dupla Vida de Veronique". Por mais que tentasse, Jaime não podia deixar de compará-la à moça do filme. Talvez ela fosse um pouco menor. Mas tinhas os mesmos lábios vermelhos e a mesma pele branca. E, principalmente, tinha os gestos de uma princesa. Nunca se desconcentrava, por mais que ele a olhasse. Distribuía os talheres calmamente, como se estivesse movendo peça em um tabuleiro de xadrez. Separava as sobremesas, distribuía os pratos, sem jamais deixar de sorrir para ele.
Jaime nunca teve coragem de falar-lhe. Contentava-se em ficar lá, parado, olhando e imaginando. Como havia chegado em Marte? Como havia se metido naquele restaurante fuleiro, naquele avental azul, que encobria seus pequenos seios? Como? Deliciava-se com o enigma.
Às vezes lembrava-se da sua própria história: dos pais na Terra, dos anúncios de TV prometendo riquezas em Marte (Vá para Marte, Jovem! Vá para Marte!).
Conhecia, de fato, história de pessoas que haviam se tornado milionárias, mas ele... Tudo que conseguira de Marte fora o calor escaldante e a poeira vermelha impregnada nas dobras da pele.
Não havia quase nada que fazer em Marte. Os filmes, quando eram exibidos, não passavam de enlatados de terceira categoria. Fitas grosseiras, sem roteiro, repletas de violência gratuita e homens musculosos.
Na verdade, já teria voltado para casa há muito tempo, não fosse pela garota. Aquele momentos em que a observava eram tão sublimes que compensavam toda a poeira, todo o barulho das máquinas e até o calor insuportável de Marte.
Jaime a amava, mas era um tipo específico de amor, que não necessitava de retribuição. O prazer de vê-la já valia pena...
Naquele dia ele olhou no relógio e percebeu que estava atrasado. Eram 14:15 e seu turno começaria em 15 minutos.
Entrou correndo no banheiro e lavou as mãos. Abaixou o tronco, fechou os olhos e jogou um pouco de água na cabeça.
Quando levantou o rosto, os olhos semi-cerrados, percebeu uma figura ondulante no espelho. Estendeu a mão para pegar a toalha e tocou em algo macio e quente. Era ela!
A moça se jogou sobre ele. Os óculos grandes caíram fazendo um barulho agudo contra o chão de ladrilho. Jaime estendeu uma das mãos para ampará-la e bateu as costas contra a parede. Ainda sentia a dor quando experimentou seus lábios sendo invadidos pela boca pequena e quente.
Ela, os pés esticados, deslizava as mãos inquietas por seu corpo. Beijou todo o rosto do rapaz, até que não sobrasse um único centímetro a ser explorado.
Jaime não teve tempo de tomar consciência do que estava acontecendo. A garota agora era um furacão, um travesseiro de penas explodindo...
Num instante estavam nus sobre o ladrilho. A moça sobre ele, subindo e descendo... e arfando. O rosto levantado, o cabelo balançando, como se dançasse ao som dos movimentos. As roupas jogadas... o contato com o chão frio.
Ele não acreditava em seus próprios sentidos. Era como se uma parte dele gritasse furiosamente, avisando que aquilo não era verdade. Mas ele via seus olhos, sentia o contorno aconchegante de suas curvas, o cheiro de sua pele, suportava seu peso...
Abriu os olhos. Olhou no espelho: a água deslizando na sobrancelha e escorregando pelo nariz. Apoiou as mãos na pia, tentando lembrar. Fechou e abriu as pálpebras, na esperança vã de ver alguém no espelho. Foi inútil.
Estava sozinho no banheiro. Sempre estivera. Voltou a molhar o rosto.
Enxugou-os com a toalha e saiu.
Acionou o motor do jipe sem olhar para trás e deu a partida. Jamais voltou ao restaurante.
Fim
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