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Resenha
Dois amigos adolescentes que passam por uma experiência fora do comum, numa noite em Ipanema. Quando vários acontecimentos inusitados envolvem sua amiga Renata, Marcos questiona-se se aquilo realmente está acontecendo. E entre tantas surpresas reservadas, ele percebe que não estão sozinhos. Mas o pior ainda está por vir: quando tudo estiver acabado como ele poderá contar o que aconteceu naquela noite insana sem ter que duvidar da sua própria Sanidade?
Capítulo I
A chuva caía fina com o vento. Um frio intenso assolava a cidade naquela época do ano. Marcos andava evitando pisar nas poças de água enquanto as gotículas finas escorriam pela sua face. O nariz, sentindo-o quase congelado, estava levemente avermelhado. A respiração ofegante saía em nuvens de fumaça.
-Que tempo horrível! - pensou consigo num monólogo. – E para completar, vou chegar atrasado novamente no colégio!
Parou diante da faixa de pedestres e ao tentar atravessar a rua em uma brecha rápida do trânsito movimentado, quase foi atropelado por um ciclista que vinha na contra mão.
-Filho da p... – não completou a exclamação pois carros vinham em sua direção de modo que teve que voltar ao ponto de partida.
O sinal fechou e ele atravessou a rua e dobrou a esquina e entrou no colégio. Enquanto andava, mãos nos bolsos do casaco, tremia de frio, pensando na aula que já transcorria. Já era segunda-feira de novo!
A escola puxava um pouco pois afinal o Colégio Pedro II era ainda símbolo de um instituição forte apesar de naqueles dias ser só um reflexo da imponência que foi no passado. Marcos andava pelos corredores em direção à sua sala. Conhecia quase todo mundo da sua sala e das outras também. Cursava o terceiro ano do segundo grau aos dezenove anos.
Entrou na sala de aula num ímpeto. O professor lançou-lhe um olhar indicando o seu relógio de pulso, lembrando-lhe dos quinze minutos de aula perdidos. Marcos pediu licença e se desculpou pela invasão. Não havia lugar marcado de modo que sentou-se no que Renata havia lhe reservado. Ela o fitava enquanto ele se aproximava. Sentou-se na frente dela.
-Oi, atrazildo! – brincou ela.
-Olha a aula! – falou Marcos.
Renata não era a única a fazer piadinhas. Os seus colegas mais próximos também riam. Renata era a sua melhor amiga desde o ginásio. Cursaram o antigo colégio juntos, passando para o Pedro II da mesma forma. E sempre colegas de turma. Isso estava se repetindo desde a sexta série do primeiro grau.
Veio o recreio e depois mais aulas. Assistiram às aulas de Química Orgânica e Português. No final das aulas, saíram juntos. Renata falou que queria lhe mostrar algo. Marcos sugeriu que se sentassem no banco de um bar próximo. A noite estava fria mas havia parado de chover. O inverno estava chegando ao fim. Já eram 22:45h quando Marcos pediu dois chopes no bar.
Renata tinha os cabelos louros, encacheados que chegavam-lhe aos ombros. Sua pele morena clara, os olhos castanho claros, nariz um tanto arrebitado, boca um pouco grande para o seu rostinho de quinze anos, que na verdade tinha dezessete anos. Era mais um pouco mais baixa que Marcos. Enquanto sorvia o primeiro gole da bebida gelada, reparava nos olhos pretos de Marcos que olhavam para fora do bar, vasculhando a noite, agitados. Seu cabelo negro estava um tanto despenteado.
-E então? O que foi de tão importante? – indagou olhando Renata.
-Eu queria saber como você vai. Se recuperou da última?
-É... nesse final de semana andei pensando... a Sandra foi a última mesmo...está na hora de eu começar a namorar sério!- e ele se recostou na cadeira olhando o copo de cerveja.
-Que bom que tomou juízo! Mas tenho algo para te falar. – e ela parou por um instante.- Ontem a noite, enquanto eu dormia, senti uma sensação estranha de calor. Foi esquisito!
Marcos a ouvia atentamente.
-Acordei com uma voz na minha cabeça assim: “Socoro, socorro!” olhei em volta e dormi de novo. Hoje acordei mais cheia de energia! Eu estou me sentindo tão estranha!
-Desde que eu te conheço, você se sente assim! – brincou ele.
-É sério, Marcos! Você vai até duvidar disto, mas li “Amar, verbo intransitivo” em uma hora, almocei em cinco minutos e corri mais vinte quilômetros sem me cansar.
Marcos agora estava a encarando com o semblante sério. Alguma coisa estava em seu olhar, porém tinha um certo tom de incredulidade.
-Eu não sei porque mas estou com a sensação de alguém me vigiando o tempo todo. Senti necessidade de falar isto a você. – completou ela.
-Procure um médico! Tá sentindo enjoos , ânsias, também?
Renata o olhou com desprezo. Não suportava quando tinha que ficar ouvindo as piadinhas de Marcos em assuntos sérios.
-Brincadeira, Rê! – e Marcos reaproximou-se da mesa e bebeu os últimos cinco goles de cerveja. – Eu não sei o que dizer. Fique calma. Não deve ser nada demais. Amanhã você acordará mais tranquila.
Renata baixou o olhar um pouco entristecida.
-Ei, relaxa! Não deve ser nada de tão sério assim! – animou-a.
Ela bebeu o conteúdo do copo e passou o dedo pelos lábios, tirando o bigode de espuma que se formara. Com um aceno para Marcos, levantou-se. Marcos puxou a carteira do bolso traseiro de sua calça e tirou o dinheiro que depositou em baixo do cinzeiro da mesa. Em seguida saíram do bar. Ambos pegavam o mesmo ônibus todos os dias. Saíam do Humaitá onde ficava o colégio e desciam a rua Voluntários da Pátria, dobravam a Real Grandeza e pegavam o primeiro ônibus em direção à Ipanema. Naquela noite andaram conversando sobre as coisas que haviam feito no final de semana. O problema de Renata iria ficar para o dia seguinte. Os dois haviam decidido que não era nada demais e que ela iria acordar sem mais problemas no dia seguinte. Subitamente, Renata sugeriu que fossem dar uma volta na praia. Marcos falou que já era tarde mas Renata insistiu. Saltaram do ônibus e andaram na direção da praia, em Ipanema. O tempo prometia para a cidade do Rio de Janeiro um dia com muito sol e céu azul quando amanhecesse. Eram 23:45h quando pisaram na areia fofa. Tiraram os sapatos e caminharam. Diante do mar se sentaram sob o céu recheado de estrelas. As nuvens de chuva estavam se dissipando. Ficaram a olhar o espetáculo celeste. Renata se esticou na areia ignorando sujar a sua roupa. Recostou a cabeça na perna de Marcos que mantinha-se com ambas as pernas esticadas. A calça era jeans, pensava ele.
-Há quanto tempo a gente se conhece, hein Renata? – indagou ele.
-Eu nem me lembro do primeiro dia que te conheci!
-E eu nem acredito que tenho te aturado todos esses anos! Desde a...
-Sexta série! – completou ela.
-É isso aí! Sexta, sétima, oitava, primeiro ano, segundo ano duas vezes, e agora no terceiro...
-Sete anos! Como pôde?
-Não sei... só sei que haja paciência.
-Admita: a melhor coisa que aconteceu na sua vida foi me ter do seu lado!
Marcos a olhou com um ar de indiferença.
-É assim que você me trata? Valeu! – e ela virou a cara para um lado que não deparasse com rosto de Marcos.
Marcos se limitou a rir. Renata também escondeu um sorriso.
-A noite está linda! Como pode haver tantas estrelas, hein? – falou ele?
Vai perguntar pra mim?
Marcos colocou a mão na cabeça dela e começou a acaricia seus cabelos. Ela fechou os olhos. Ficaram ali sentido o vento frio e ouvindo o bater das ondas contra a orla da praia. Marcos olhou o relógio num impulso e viu que já havia se passado mais de uma hora. Nem havia sentido a hora passar, ali sentado com Renata no seu colo.
-Rê... RÊ! – constatou que Renata estava dormindo. – Maravilhoso... só me faltava mais essa. E do jeito que eu conheço essa garota, ela só vai acordar amanhã! Não estou afim de levar ninguém para casa!
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Estirou-se para trás. Ficou a observar as estrelas brilhantes no firmamento. Súbito sua visão é bloqueada por um rosto desconhecido. Ele assustou-se e logo se sentou novamente na areia.
A figura se resumia a alguém de casaco preto com um boné azul. O rosto parecido com o de um homem. Era alto e ali na penumbra não dava para ver direito sua fisionomia. Estava ali, parado diante dele. Foi então que olhou Renata ali adormecida em seu colo. Espantou-se ao ver a aura brilhante em volta da amiga. Tirou até as mãos de cima da cabeça dela. Em alguns segundos a aura misteriosa de uma cor parecida com o amarelo, desapareceu repentinamente. Marcos não sabia o que estava acontecendo e aquele estranho não falava sequer alguma palavra. Ficara ali, observando, se é que estava pois nem isso dava para se ver.
Renata acordou e levantou-se. Marcos a fitava. Os olhos dela pareciam vidrados e estava olhando direto para o estranho como se o conhecesse.
-Renata... Vamos embora... – tentou falar mas acabou percebendo que ela não dava a mínima atenção.
Renata estava de pé. Olhava fixamente para o desconhecido que estivou a mão em direção a ela. Os movimentos eram muito rápidos. Renata deu-lhe um primeiro pontapé. Marcos assistia a tudo assustado. O sujeito saiu rolando até que parou a dez metros de distância. Marcos se levantou. Não reconhecia que era Renata ali. Ficou pensando em uma explicação óbvia para o fato mas não encontrava. O senhor X, como preferiu chamar o desconhecido com capa de 007, levantou-se e simplesmente caminhou até a calçada onde pegou, ou em outras palavras, arrancou uma lata de lixo de metal. Atirou então contra Renata. Ela surpreendentemente rebateu com um golpe jogando o braço para desviar o objeto. No choque amassou a lata de ferro e seu relógio se espatifou mas não quebrou nem um dedo. Nem arranhão! Marcos ao mesmo tempo que achava muito estranho, já via que não era a sua amiga que estava ali. E quem quer que fosse que estivesse usando Renata, estava quebrando o maior pau com o tal senhor X. Marcos se afastou mais ainda. O circo estava pegando fogo e ele não tinha a água para apagar.
Saíram para o meio da avenida Vieira Souto, agora vazia devido a hora. Eles estavam dando socos um no outro. Renata estava com a roupa toda rasgada, quem quer que fosse ela agora. Marcos não sabia dizer. Num último golpe, Renata agarrou o senhor X e o jogou contra um Santana estacionado na outra calçada. O sujeito caiu amassando o capô do carro totalmente. Marcos fechou os olhos. O carro era do ano. O alarme do veículo soou assustando os combatentes. O senhor X saiu correndo entrando por uma das ruas transversais. Com surpresa, Marcos viu Renata olhá-lo e súbito correr também, desaparecendo por entre outra rua. Marcos ficou ali, parado, chocado com o que acontecera.
-Meu Deus do céu...!
A sirene do carro tocava sem parar. Marcos estava parado sentindo o vento frio que soprava na praia. Olhava fixamente para a rua em que vira pela última vez Renata. Olhou então para a areia, os sapatos junto ao local onde minutos atrás estavam ele e ela juntos. Ouviu algumas vozes. Identificou dois policiais correndo atraídos pelo barulho da sirene do santana. Pegou os dois pares de sapatos e correu em direção ao mar. Distante então, parou e olhou para a rua. O carro já estava quieto pois os dois policiais tinham desativado o alarme. Olhavam para todos os lados. Não o viram. Marcos começou a caminhar pela praia, perto do mar. Pensava em tudo o que acontecera. Cabisbaixo, não achava uma razão lógica para os fatos. De onde surgira aquele sujeito com a capa de agente secreto e incrivelmente forte? O que ele não tinha de corda vocal, ele tinha de força. E Renata que se levantou assim que a aura se dissipou atirando-se contra o sujeito com a mesma violência; parecia que já o conhecia. E por que ela saiu correndo? E cadê a Renata? Marcos parou, olhou o mar. Suspirou e bateu o pé com raiva na areia. Para onde Renata fora?
-Está preocupado com a sua namorada?
Olhou num súbito na direção da voz e se deparou com um sujeito estranho. Ele tinha o cabelo comprido, um nariz meio grande e pontudo, um rosto queixudo. Os olhos apertados, sobrancelhas grossas. Sorria. Marcos o olhava. Não tinha nada para responder. Mas mesmo assim falou.
-Sim...
-Não vai perguntar quem eu sou? – indagou o estranho.
-Quem é você? – Marcos já estava com uma ligeira dor de cabeça.
-Meu nome é,,, pode me chamar de Fal.
Marcos o olhou de cima a baixo. Verificou que ele usava um macacão azul, uma camisa vermelha por baixo e sapatos de couro.
-Você sabe onde está minha amiga? – perguntou Marcos.
-Sei, só que vai ser difícil de achá-la! Mas tenho de fazê-lo de qualquer forma e antes de Lidil. – falou o estranho com o nome de Fal, coçando o queixo.
-E quem é Lidil?
-Você acabou de presenciar a luta dele com a sua amiga. Pena que não pude chegar mais cedo!
-Me explica por partes... estou perdido! Eu quero achar Renata e quero agora! – e Marcos colocou a mão ou quis colocar, mas ela passou através de Fal. – Quem... Que é você???
-É uma longa história... Marcos.
-Você sabe meu nome? Como pode? O que está acontecendo? Você é um espírito?
-Calma. Eu vou explicar tudo. Temo que sua amiga se machuque. E que sua cidade seja destruída.
-O que eu quero saber neste exato momento, é onde está a minha amiga Renata!
-Nós vamos descobrir! Eu sei que as coisas aconteceram rápidas demais mas não se apavore!
-Me apavorar? Só porque a minha amiga sai no tapa com um cara que nunca vi na vida e some por aí de madrugada? Eu estou segurando o par de sapatos dela por acaso! Pode me dizer o que está havendo?
Fal o fitou.
-Marcos, vamos conversar.
-Eu o escuto aqui em pé mesmo!
-Bom... o que possui a sua amiga é por assim dizer, um espírito. Seu nome é Hirídia. Por não ser humana ela possui uma força maior do que os habitantes deste planeta.
-Quer dizer que ela é alienígena?
-Sim... tanto ela como eu e o marido dela.
-Marido?
-Lidil.
-O cara que ela estava surrando? Não entendi! – e Marcos parou por um instante.
-É que eles estão no meio de uma... crise conjugal... se podemos falar assim.
-Crise conjugal? E esse Lidil também é um espírito?
-Sim.
-Quer dizer que o cara que ele pegou... temos então outro cara possuído na história?
-Sim.
-Quer dizer que a Renata está com um espírito alienígena que está em crise conjugal??? Não devia ter acordado hoje...
-É difícil de acreditar... nós viemos de um planeta na nebulosa de Órion... você sabe onde fica?
-Faço idéia... mas o que vocês estão fazendo na Terra?
-Eu sou um... policial como vocês diriam... estou na captura dos dois. Nossa raça há milênios tem o poder de viajar sem o corpo físico num processo que eu demoraria muito para lhe explicar. O que você vê de mim é uma projeção da minha consciência que está em uma astronave no lado escuro da sua Lua. E assim que eu puder eu trarei de volta o casal que começou a briga em uma viagem de núpcias.
-Uma viagem de núpcias??
-É... eles decidiram visitar o seu sistema solar e o sistema solar de Alpha do Centauro em pacote de férias de turismo. Assim que eles começarem a brigar dentro da nave e foram para fora dela, a agência de viagens acionou o distrito mais próximo. E estou aqui. Mas temo que cheguei tarde demais!
Capítulo II
Quando Fal olhou para baixo, viu Marcos sentado na areia com a mão na cabeça.
Ai... que dor de cabeça!!! – gemeu Marcos.
Você está bem? – indagou Fal ajoelhando-se.
Eu acho que já fui para a minha casa, estou dormindo na minha cama e tudo isso é só um pesadelo. Vou acordar numa boa de manhã!
E beliscou o próprio braço deixando uma marca vermelha e inchada. Gritou de dor mas não acordou em sua bela cama como esperava.
-Escuta... – recomeçou Fal - Eu quero trazer de volta os fugitivos e você e sua amiga a salvo. Poderíamos nos ajudar.
Marcos ergueu o olhar para a frente. Olhou então para Fal.
-Você surge do nada, não tem massa, me diz que é alienígena, me diz que tem dois doidos em crise conjugal com poderes sobre-humanos na cidade, um querendo acabar com o outro... Como você acha que estou me sentindo???
-Nós estamos perdendo tempo!
-Tempo? Tempo de quê?
Subitamente um barulho se fez ao longe. Como se alguma coisa pesada fosse jogada de encontro a um prédio ou coisa parecida. Logo um clarão apareceu.
-Tempo de acontecer isso! – falou Fal. – Me encontre lá.
Nisso desapareceu. Marcos ainda tentou falar alguma coisa mas não adiantou e ficou sozinho de novo. Como se não tivesse outra coisa a fazer, levantou-se e começou a correr pela areia. Alcançou a rua, atravessou as duas pistas com a calçada no meio da Vieira Souto. Calçou os sapatos rapidamente. Com rapidez alcançou uma das ruas transversais e desembocou na Prudente de Moraes que atravessou, desembocando então na Avenida Visconde Pirajá. Olhou para a sua esquerda. Olhou para a direita e notou a uma quadra, um carro que parecia arremessado contra uma loja. Parecia uma ova. Foi arremessado! E não muito longe, uma luta estava sendo empregada. Não foi difícil reconhecer Renata e o senhor X nos tapas e socos. A briga já tinha destruído um hidrante, algumas vidraças, dois carros, de modo que atraiu a atenção de muitos moradores àquela hora da madrugada. Renata jogava tudo o que vinha à sua mão. Desde postes de luz até carros ou pedaços de concreto. Lidil ou, senhor X, como Marcos passou a chamar, não fazia diferente dela. Lembrou-se de Fal que falara que a cidade poderia ser destruída. Refugiou-se atrás de um veículo. De súbito alguém falou no seu ouvido. Teve um sobressalto, olhando para trás em seguida.
-Calma, Marcos! Sou eu!
-Fal! Que susto! Nunca mais faça isso! – e parou por um instante – O que vamos fazer?
-Espere aqui! – e Fal desapareceu novamente – Para onde esse cara foi agora? Isso é loucura! – desabafou Marcos.
Olhou para a frente e ouviu barulhos de sirene. Era a polícia! Que encrenca! Notou então Fal ao longe entre os dois combatentes. Eles pararam um pouco e Fal esticou o braço na direção de ambos. Não pronunciou uma palavra quando dois carros da polícia chegaram. Mas desviando a atenção de Fal, os dois começaram a se degladiar novamente. Renata ergueu um automóvel acima da sua cabeça.
-Caramba! – Esbravejou Marcos.
Lidil preparava-se para um golpe quando os policiais gritaram para que não se movessem. Renata gruniu para os quatro policiais que ali estavam com um autofalante e que começaram a atirar neles. Marcos olhava tudo, estático num canto. Fal estava entre os dois combatentes que alvos dos tiros da polícia nem importaram-se com isso: as balas recocheteavam em seus corpos, para a surpresa dos atiradores e de Marcos.
-Marcos! – chamou-lhe Fal reaparecendo a seu lado.
-V-Você viu aquilo? – Indagou-o Marcos – Acho que estou lendo gibi demais!
-Lidil e Hirídia não querem me ouvir. Vai ser difícil com esses humanos aparecendo agora...
-Fal...você não é humano...? Como faz para parecer-se com um? – Aterrorizou-se Marcos.
-Eu sou uma projeção. Um holograma solidificado. Posso alterar minha forma á vontade.
Por esse aspecto, gostaria de morar no planeta de vocês...- Marcos pensou alto e ouvindo um barulho, olhou para a briga. – Essa não! – exclamou notando que Renata havia jogado o automóvel que havia segurado, em cima dos policiais, causando uma explosão e muitas chamas. No outro carro, um policial ferido pedia reforços pelo rádio.
Eu acho melhor, eles mandarem o Exército! Tenho que fazer alguma coisa...vou lá – e Marcos foi impedido por Fal.
-Não adiantará nada...-Falou ele.
Muitas pessoas tinham saído de casa e alguns estavam tão empolgados que faziam apostas,
para quem iria ganhar a luta. Outros aplaudiam e divertiam-se com a situação dos policiais. Havia, claro os que não estavam achando graça nenhuma, principalmente os donos dos veículos avariados e os que tinham os seus estacionados perto e que corriam para tirá-los do alcance, pois nenhum tipo de seguro iria cobrir tais prejuízos.
-Vou lá mais uma vez. – E Fal novamente reapareceu no campo de batalha.
Marcos estava em um raio de cinquenta metros de distância. Decidiu que ia aproximar-se e notou a empolgação dos populares que começou a proveitar a baderna para fazer mais baderna. Começaram os saques ás lojas já quebradas pela luta dos combatentes. A “Super-Renata”jogava o “Terrível-Lidil”longe com sua poderosa força enquanto Marcos chegava. “Poderia vender esta história para a DC Comics ou para a Marvel” Pensou Marcos. Gritou para Renata.
- Renata! Pára com isso! – Gritou Marcos – Sou eu...seu “amiguinho”!
Renata olhou para ele com desdém, pegando em seu pescoço e o levantando com uma mão só. Fal estava tentando deter Lidil enquanto Marcos sentia um apero no seu pescoço – R-Renata,...Tenta me ouvir...”gasp”...você...está...sendo controlada...”gasp”...Não faça...isso...- Ele falava engasgando mediante o aperto da mão dela no seu pescoço. E quase sufocado ainda tentou mais uma vez falar: - Hirídia...este...corpo não é...seu...por favor...devolve...a Renata...
E então Marcos desmaiou e Renata o largou no chão. No impacto, ele machucou o braço. Neste momento, Fal estava tentando manter um contato telepático com Lidil. A baderna tomava cada vez mais corpo em volta da arena de batalha, tendo a população agitada invadido várias lojas e um supermercado perto, saqueando tudo. Chegaram mais carros de polícia, fazendo uma barreira. Eles tentavam controlar os saqueadores. Um helicoptero rompeu a escuridão com um holofote sobre o local. Chegaram também os Bombeiros e Ambulâncias. Naquela madrugada, Ipanema foi tomada pelo caos e pela baderna. Várias pessoas assustadas, fechavam janelas e trancavam portas.
Renata ignorando os acontecimentos a sua volta, preparava-se para mais um golpe contra Lidil que estava sendo atacado psiquicamente por Fal. Mas quando ela avançou em sua fúria, Fal foi mais rápido e ficou na sua frente, deixando Lidil zonzo com sua telepatia. Estendeu a palma da mão aberta para Renata, que estancou e ficou com olhar vidrado. De repente, não tirando os olhos da mão de Fal, começou a suspirar baixinho e a cair. Do suspiro, surgiu o choro e começou a cair em prantos, baixando o rosto colocando-lhe as mãos. E depois, quando Fal fechou os dedos da mão e girou o pulso, ela começou a gritar, colocando as mãos na cabeça, parecendo sentir imensa dor. Fal estava imóvel no meio do casal. Virou a cabeça para Lidil que estava ajoelhado com uma mão na testa e outra mão na coxa. Marcos começou a acordar então, e sentiu o braço torcido com a queda que sofreu. Foi sentando devagar com dor.
Em volta a população correndo da polícia, dispersando-se. Uma tropa de choque chegaou ao local, mas já sem muita necessidade. Renata ainda gritava. E então Fal virou-se para ela e gritou: - Hirídia! – E então ela desacordou no chão. Fal se mexeu então. Recolheu os braços que estavam esticados e aproximou-se de Lidil, que também desmaiou. E então olhou Marcos: - Acabou! Conveci os dois a deixarem a Terra e voltar para as suas naves. De lá deverão seguir para nosso planeta e resolver as coisas num tribunal, ou então, irão para as suas casas fazendo as pazes. – E olhou Marcos que estava com um olhar incrédulo para ele – Mas quero também agradecer sua ajuda, embora tenha avisado que iria se machucar. – E apontou para seu braço machucado.
Marcos olhou o braço também e disse: - É...mas acho que ficarei bom logo. – E virou-se para Fal. - Vocês são um perigo pra galáxia! Não se pode viajar por aí e possuir qualquer pessoa que vocês queiram, sabia?
Fal riu. – Eles serão punidos. Eu garanto. Nós temos leis contra isso... – e riu. – Agora vou fazer uma coisa que talvez você não goste muito, mas será necessário. Vou telepaticamente apagar o que aconteceu entre Lidil e Hirídia das mentes de vocês.
Marcos exclamou: - Não...não faz isso! Não foi uma experiência muito legal...mas o que eu poderia dizer? Que um casal de alienígenas trouxe uma briga conjugal para a Terra, possuíram a minha amiga e quebraram o maior pau com poderes sobrehumanos? E tudo isso porque estavam em lua-de-mel? Eu queria poder dizer a verdade a Renata...
Fal olhou-o com suavidade e disse: - Meu amigo humano, foi um prazer conhecê-lo e lamento que tenha que ser assim. Mas a nossa orientação é não interferir em outras culturas...
Marcos estendeu a mão: - Ah não! Só falta você me dizer que é de algum tipo de Federação e que o sr. Spock existe...
Fal interrompeu-o: - Sim, conheci o Sr. Spock, ele foi um ótimo amigo e como você vai esquecer-se disso tudo posso adiantar também que o Sr. Rodenberry foi um dos nossos mais queridos hóspedes e aprendizes que já tivemos. Aliás, se não estivesse com tanta pressa poderia até dar um alô para ele...você saberia como ele está? – Indagou para Marcos que incrédulo respondeu: - Ele...está morto..
Fal franziu a testa dizendo: - Entendo...Esqueço como a existência humana é tão breve...mas enfim, tenho que partir. – E começou a abrir os braços e concentrar-se – Foi um prazer e espero encontrá-lo no futuro, ainda com vida...- E começou a recitar umas palavras em uma língua estranha.
Marcos olhava Fal, meio aturdido com tudo que ouvira até ali. De repente, começou a ventar forte e Marcos olhou para Fal que parecia estar numa espécie de transe. – Fal! – gritou ele tentando chamar sua atenção mas não conseguiu. Então levantou-se com dificuldade e foi para perto de Renata que ainda estva inconsciente. O vento ficava mais forte, enquanto aquele idioma estranho era entoado por Fal que agora levitava. Parecia até o Gandalf saído da obra de Tolkien, recitando algum encanto antigo. A ventania agora arrastava árvores e pessoas. No céu, nuvens formaram-se e relâmpagos começaram a cair sobre o local. Mas parecia que ali onde eles estavam, era mais calmo como se fosse o olho de um furacão. O vento forte , as pessoas e coisas voando ao seu redor fez com que Marcos abraçasse sua amiga. Começou entào a ouvir um barulho forte e horrorizou-se quando viu ondas de água do mar invadindo o local onde estavam vindo das ruas transversais á rua que estavam. Quando a inundação estava chegando mais perto, Fal abriu os olhos e virou-se para Marcos: - Adeus! – E sumiu.
Marcos atônito gritou : - Não!...Volte aqui!... – E então prendeu a respiração e esperou que aquele aguaceiro todo os encobrisse.
Epílogo
O Sol já acendia no céu seu calor matutino. As primeiras gaivotas voavam sobre aquele trecho de Ipanema arrasado pelo que já estava considerando-se uma das piores ressacas de todos os tempos na orla marítima carioca. Equipes da Defesa Civil estavam fazendo resgate de feridos e afogados que, inexplicavelmente, estavam saqueando lojas na madrugada anterior. Policiais e Bombeiros enviados para o local antes das águas elevarem-se também estavam feridos. O vento forte causou uma tromba dágua, segundo os especialistas de plantão que já davam declarações aos jornalistas de plantão que relatavam aos noticiários e jornais, de plantão. Enfim, os feridos eram transferidos para os hospitais que já estavam lotados. Mas alguns eram atendidos ali mesmo e entre eles estavam Marcos e Renata que haviam sofrido algumas escoriações, mas nenhum sinal de afogamento.
O enfermeiro que os atendia perguntava: - Onde vocês estavam na hora da inundação?
Marcos o olhou e esforçando-se para lembrar-se, disse: - Eu estava na praia,...aí tudo o que me lembro é de acordar aqui... no meio desta confusão...
O enfermeiro parou um pouco e observando Marcos falou: - Você deve ter mais do que uma escoriação na cabeça, porque se vocês estivessem realmente na praia, teriam se afogado e não estavam aqui. Aliás, agradeçam por não terem realmente se afogado, porque eu não sei o que os salvou, pois o local onde os achamos foi totalmente inundado. – E parou um pouco. Como Marcos o olhava sem saber o que responder, ele foi recolhendo suas coisas e despediu-se: - Bom, já que não querem me contar, eu nunca vou saber. Então, cuidem-se!
O enfermeiro afastou-se então e Renata olhou para Marcos. Eles estavam sentados no meio-fio da calçada. Renata perguntou: - Marcos...o que realmente aconteceu?
Marcos olhou Renata com um olhar cansado e respondeu: - Eu não sei ao certo, tá tudo meio nebuloso na minha mente. Não sei porque a gente veio parar aqui, já que estávamos na praia e não sei porque está tudo uma zona! Mas há algo que não sai da minha cabeça...é como se eu tivesse incubido de dar alguma mensagem... – e ele parou, continuando. – Mas é insólito demais!
Renata olhou-o e colocando a mão no seu braço, perguntou : - Diz pra mim o que é...quem sabe eu não te ajudo?
Marcos então fitou-a desconcertado e disse: - A mensagem que não sai da minha cabeça é para que eu dê um alô do sr. Spock para o Leonard Nimoy...
Sobre o autor:
Sou fã de ficção científica desde que me conheço por gente e já escrevi um livro com quatorze anos que não chegou a ser publicado. Hoje, anos depois, estou querendo voltar aos contos e livros do gênero. Pretendo criar muito mais material dedicando-me sempre que tenho um tempo livre. Meu e-mail é ferreiradealbuquerque@radnet.com.br.
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