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Autor: Roberto Kiss.
Título: O Último Ser Humano.
Publicação: 25/09/2006.
Categoria: Ficção Fantástica.
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FICÇÃO FANTÁSTICA      
O Último Ser Humano.
Por: Roberto Kiss.

Imagem da Internet

JCC552-A pousou na lua moribunda. Ficava muito distante da última ruína de colônia humana localizada. Muito pouco se sabia sobre esta raça, que, milênios atrás, aparentemente motivados por uma força misteriosa, se espalharam pela galáxia como bactérias se reproduzindo. O relatório da sonda indicava que ali, estava provavelmente os restos do último destes seres. Ao menos, a datação do fóssil indicava isto.

Saiu da sua nave de transporte e flutuou em um colchão de grávitons através da atmosfera extremamente tênue e nociva para criaturas orgânicas. Isto não o afetava. JCC552-A era um robô criado única e exclusivamente para pesquisar sobre a extinta raça que chamava a si mesma de humana. Esta era talvez a mais importante informação recuperada de um conjunto de componentes de silício-carbono que milagrosamente preservou o seu conteúdo para poder ser lido milhares de anos depois.

Muitas outras peças como aquelas foram localizadas depois, espalhadas por um número gigantesco de ruínas em diversos planetas, mas as parcas informações recuperadas eram desconexas demais para fornecer qualquer dado realmente significativo. Conseguiu algumas imagens bidimensionais e tridimensionais, mas não havia meios de determinar o que significavam a maioria destas, muito menos o porque de terem sido feitas. Nada sobre as possíveis riquezas culturais ou conhecimentos.

Ao contornar um pequeno e rochoso monte, divisou o seu objetivo. Os restos de um veículo que colidira contra a superfície do planeta. A falta de uma atmosfera ajudou a preservar os restos, mas a exposição dos mesmos aos raios solares diretos destruiu muitas outras coisas.

Aproximou-se dos destroços e iniciou uma busca pelo espectro daquilo que era o mais importante: Algum conjunto de equipamentos que possuísse cristais de argônio. Este mineral era o que os humanos usavam como sistema de armazenamento de dados. Conforme as décadas se passavam e a unidade mais e mais analisava e catalogava as informações obtidas, a mesma descobriu esta forma um tanto simples e até eficiente de dispositivo. Levou tempo para os cientistas encarregados de analisarem a forma de armazenagem descobrirem como isto funcionava, mas conseguiram. Os compêndios históricos já armazenados e publicados sobre esta estranha raça já informavam sobre esta forma peculiar de armazenamento, de base binária. A descoberta deu fama estelar ao grupo de cientistas, e por séculos buscou-se, como se fosse algo divino, por mais e mais daqueles dispositivos, chegando-se mesmo a desprezar e até destruir os sítios arqueológicos para tanto. Chegaram mesmo a se tornar souvenir para seres diversos. Falsificações eram feitas aos milhares, algumas grosseiras, outras eram perfeitas - mas pecavam com a informação armazenada – em nada lembrando àquelas dos humanos.

Com o tempo a febre diminuiu, mas o interesse pelos extintos humanos não. Determinados a preservar toda e qualquer informação possível, um cartel de planetas desenvolveu a unidade que ora pairava perto daqueles destroços fósseis. A primeira e por enquanto única unidade responsável pela coleta de dados. Imparcial, eficiente e cumpridora de sua programação, a mesma com o tempo chegou a desenvolver uma estranha curiosidade e simpatia por estes seres.

E a maior de todas essas curiosidades era justamente a resposta a uma pergunta:

Porque?

Porque estes seres se espalharam como praga? O que os motivava a colonizarem mais e mais planetas, luas, asteróides, cidades espaciais, sistemas estelares... porque este avanço contínuo? Não havia evidências de que os planetas que ocupavam tinham sofrido algum colapso. Aparentemente, segundo análises das ruínas de suas cidades, eles tentavam utilizar-se do ambiente sem esgotá-lo. E se a reposta fosse o fato de procriarem-se muito rapidamente, exigindo mais e mais espaço para se assentarem, nunca teriam chegado a extinção.

Esta era outra pergunta sem resposta. Nem mesmo teorias a respeito. Como uma raça que se espalhou tanto poderia ter se extinguido? Doenças não aniquilariam uma civilização espalhada por mais de oitenta sistemas estelares. Guerras? Talvez, mas não em uma área tão vasta assim, salvo outro povo ter decidido por um motivo qualquer exterminar esta raça.

Mas não havia evidências disto. Os mundos colonizados pelos humanos não pareciam ter sofrido a devastação global de uma guerra. E na verdade, parecia que todos eles foram extintos com certa rapidez. Em menos de mil anos.

Uma das teorias possíveis que ainda carecia de qualquer tipo de respaldo era baseado numa estranha coincidência: O território ocupado por estes seres era aproximadamente do mesmo tamanho – medido em anos-luz – que o tempo que levou para a sua extinção. A teoria pregava que uma estrela teria emitido radiação mortífera para esta raça, que conforme avançava pelo seu território colonizado, ia exterminando colônia após colônia.

Mas os humanos certamente teriam meios de se protegerem disto. Seria um desastre terrível, mas não o suficiente para exterminá-los.

Ponderando sobre estas conjecturas, a unidade recebeu a informação de seus sensores de que um dos objetos daqueles destroços possuía o componente procurado, e este estava bem preservado. Aproximou-se lentamente do local e determinou a posição e a profundidade em que estava enterrado. Imediatamente enviou um sinal a sua central informando de sua descoberta e da sua decisão de escavar e estudar os dados que possivelmente o sistema de armazenamento possuía. Levaria quase dois dias para que o sinal chegasse a central e a unidade não necessitava de resposta afirmativa ou negativa para o seu intento. Ela tinha plenos “poderes” para tomar a decisão que melhor lhe conviesse. Uma grande vantagem de possuir inteligência artificial era o de poder decidir o que fazer.

Claro que sua programação básica sempre teria prioridade.

A parte inferior do corpo metálico se abriu e uma barra triangular foi projetada, como um apêndice deste. Com certa suavidade o robô pousou no solo, tocando este com o apêndice e ficou estático por alguns momentos. Parecia-se com uma escultura, apoiada no solo com uma barra feita de ligas de carbono.

Caso houvesse atmosfera razoavelmente densa naquela esfera celeste, um som rítmico e lento seria ouvido. Eram as ondas sonoras daquela haste vibrando em uma baixa freqüência para que fosse possível compor um mosaico com base no ecoradar que seus sensores captavam. Ele precisava garantir que durante o processo de escavação nada importante ou valioso seria danificado.

Um bom tempo depois, o apêndice foi recolhido e um mapa de perfuração traçado em sua memória. Afastou-se um pouco para o lado e do mesmo orifício onde antes estava um apêndice, agora se projetava um outro em forma de cone. Este vibrou por alguns instantes acumulando energia e depois um facho luminoso foi emitido deste em direção ao solo. Três metros foram instantaneamente perfurados no solo macio e de pouca resistência.

O equipamento foi recolhido e um outro aparelho foi expulso de seu corpo metálico. Uma pinça ligada a um grande tubo flexível. Ela é introduzida na fenda aberta e segue por esta até o fundo, a poucos centímetros do objetivo. A mesma gira longitudinalmente e termina o resto da escavação, finalmente fechando-se ao redor do objeto que estava procurando.

Segundos depois, o mesmo objeto estava fora do solo. Fora do seu local de repousou por milênios. Talvez dezenas de milênios. Ainda não tinha como avaliar sua idade, mas sabia que era muito grande. E, justamente por isso, também sabia que as chances de obter dados detalhados seriam muito baixas.

Mas elas existiam.

A unidade se dirigiu até a sua nave transporte e lá dentro colocou o objeto retangular dentro de uma esfera translúcida. Poderia fazer uma análise das conexões internas do banco de dados com microscopia laser. Uma eficiente forma de analisar um objeto a nível molecular sem danificá-lo. Levaria muito tempo até que o computador do laboratório fornecesse uma resposta sobre os dados armazenados – se é que ainda existia algum – de forma que o robô saiu imediatamente e se pos a analisar os outros objetos, incluindo ai os fósseis humanos que tinham perecido naquele acidente.

Quando retornou de sua análise prévia, estava... intrigado. Era a melhor palavra para descrever a conclusão que teve analisando os restos. Não tinha emoções, mas não havia outra forma de classificar as dúvidas que lhe surgiram. Os restos não foram resultado de uma explosão. Aquela nave não sofreu realmente um acidente. Ela simplesmente bateu no solo. As marcas enterradas da aterrissagem forçada eram claras abaixo da poeira do solo. Mas todos os corpos que encontrou – ou melhor, os restos de ossos localizados – indicavam que ninguém havia se preparado para isso. Nenhuma evidência de que estavam presos a assentos ou em outros dispositivos de segurança. Nada! Uma suposição seria a de que já estavam mortos e que a nave desgovernada acabou atingindo aquele mundo.

Mas... todos eles?

Tinha identificado centena de corpos. De maduros, em formação, filhotes... até mesmo de outros animais. Todos estavam bem danificados com a queda, mas a forma como esses restos se espalhavam também indicava que talvez já estivessem descarnados quando isso ocorreu. Fósseis bacterianos encontrados junto aos ossos sugeriam que estavam mesmo em decomposição.

Talvez estivessem...

Talvez algo realmente tenha matado todos os passageiros da nave. Todos ao mesmo tempo... ou ao menos em um tempo curto.

A unidade entrou na sua nave e se dirigiu ao laboratório. Acessou os dados do computador do laboratório e, se tivesse emoções, teria ficado satisfeito. Haviam dados preservados. Dados navegacionais. Com estes conseguiu estabelecer a rota que a nave seguiu enquanto os sistemas estavam ativos. Efetuando uma comparação com os dados estelares ali armazenados ele conseguiu estabelecer o ponto de origem. Um satélite de um gigante gasoso de um sistema que muitos teorizavam que teria sido a pátria original dos humanos.

Mas este sistema estelar estava com grandes estudos arqueológicos em ação. Não haveria motivo para se dirigir até este para obter mais informações. Apesar de interessante, tal informação não mostrou propriamente utilidade.

Novamente ele se conectou ao computador e tentou determinar se havia mais alguma informação ali.

Havia!

Não uma informação, parecia mais um texto. Um texto efetuado em uma das línguas daquele povo. Consultou seus bancos de dados para encontrar a melhor tradução para isso e reviu os dados. Aparentemente fora uma das ultimas coisas armazenadas naquele banco de dados. Talvez uma mensagem para alguém. Segundos depois, a unidade JCC552-A leu o texto traduzido.

Querido, eu não sei quanto tempo ainda temos. Talvez nenhum. Pelos cronômetros, a grande... [[dados incompreensíveis]] ...hecemos o resultado. Gostaria de ter partido mais cedo... ao menos seria certeza que encontraria o meu fim junto de voc... [[dados incompreensíveis]] ...nave já sabem o que vai ocorrer, e sabendo que não poderemos estar com nossos entes queridos a tempo, estamos fazendo uma confraternização final. Se por algum... [[dados incompreensíveis]]...ebesse esta mensagem. Ela é tudo o que posso deixar a vocês agora.

De sua esposa para você e nossos filhos...

Eu os amo! Do fundo do coração.

Adeus.

Ele releu e releu a mensagem. Ordenou ao computador para tentar analisar novamente os dados e verificar se podia obter mais alguma coisa. Mas não podia. As partes perdidas estavam perdidas para sempre.

Movendo-se vagarosamente ele ficou a porta da nave observando com seus sensores óticos os destroços cuja maior parte estava coberta por poeira macia. Aparentemente, quem deixou esta mensagem sabia o que iria ocorrer. “...ao menos seria certeza que encontraria o meu fim...”. sabia que estavam condenados. Talvez fosse uma mensagem de um dos últimos seres humanos. Mas o que ceifou suas vidas e porque, ainda permanecia um mistério.

Ele não tinha sentimentos. Não foi projetado para isso. Avaliou centenas de fósseis, construções destroçadas, ruínas milenares. Avaliou o pouco que se conhecia sobre as várias culturas distintas daquela raça. Estudou e pesquisou cada centímetro de fóssil e equipamento localizado. De uma certa forma, era a maior autoridade sobre aquela raça.

E, no entanto, por algum estranho motivo, parecia que algo na sua programação talvez tivesse sido modificado com o passar do tempo analisando tudo aquilo. Um erro. Uma falha básica em seus sistemas que deveria ser sanada assim que possível.

Virando-se para a sua nave, a unidade acoplou-se em seu sistema de reparos e análise. Iria se submeter a uma completa avaliação e reprogramação de suas funções e atribuições. Sua missão era clara, sua existência era objetiva. Estudar e analisar tudo o que pudesse sobre os seres humanos, de forma que pudesse compreendê-los. Tudo de acordo com a programação original especificada por seus construtores.

E a estranha motivação que surgiu dentro de seus sistemas de... de alguma forma levar esta mensagem até o seu destinatário... não era parte desta programação. Não era.

Enquanto ele sofria a analise e o reforço de sua programação básica, ele não podia evitar de ter uma estranha... sensação.

Uma sensação de que aquela motivação que agora estava sendo extirpada, talvez fosse o que os seus programadores queriam. Talvez... ou talvez não. Afinal, não era uma forma de compreensão desta raça? Um “sentimento” de que a última mensagem de uma fêmea chegasse até os restos mortais de seu companheiro e sua prole fosse uma manifestação da compreensão rudimentar que começou a ter deste povo tão estranho e curioso?

Não seria algo... humano para se fazer?

Seja como for, em minutos tal sensação se foi. A reprogramação foi restabelecida e a unidade retornou aos restos da nave destruída para continuar com a monótona coleta de dados. Mas em seus circuitos lógicos, ele ponderava se esta não foi o mais próximo da essência humana ao qual ele já tinha se aproximado.

Fim.

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