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Autor: R. Pietro.
Título: Deus Salve A América.
Publicação: 02/10/2004.
Categoria: Ficção Fantástica.
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Em breve outras obras.
FICÇÃO FANTÁSTICA      
Deus Salve A América.
Por: R. Pietro.

Imagem da Internet

Parte I

A grande nuvem de fumaça já havia se dissipado, sobrando em seu lugar apenas uma névoa quente próxima ao solo de terra avermelhada. Também já estavam controlados os pequenos focos de incêndio que ameaçavam os poucos arbustos daquela região semidesértica, e os soldados podiam andar com mais segurança entre os destroços que cobriam quase cinqüenta metros quadrados. Todos eles empunhavam carabinas e vasculhavam a área do acidente, removendo placas de metal desconhecido e coletando peças de formatos estranhos.

Quase no centro do impacto, a parte mais íntegra da fuselagem estava meio enterrada na areia, toda retorcida e chamuscada. Ainda assim, via-se a forma discóide como um prato quebrado jogado no chão. Dentro dela, depois da inspeção de soldados, uma equipe de militares mais graduados gastou algumas horas investigando a tecnologia desconhecida.

Vários jipes verde-oliva estavam estacionados nas proximidades e duas barracas foram montadas por ali. Um contingente ainda maior de soldados patrulhava as imediações do deserto para impedir uma possível chegada de curiosos, em sua maioria fazendeiros criadores de cavalos.

Veio de longe o som de um helicóptero que chamou a atenção dos militares postados em frente de uma das barracas. Um deles levou um binóculo aos olhos e identificou a estrela branca pintada no veículo, que voava baixo e levantava uma nuvem de poeira do chão enquanto se aproximava com velocidade.

- São eles - disse o soldado baixando o binóculo. Depois entreabriu a lona da entrada da barraca e com voz firme relatou: - Coronel! Eles chegaram, senhor!

Em posição de sentido, os dois que vigiavam a entrada da barraca deram passagem ao coronel Herman, um homem de um metro e oitenta, a pele branca como papel e que parecia dura e seca, com uma ruga profunda entre as sobrancelhas. Os olhos de um azul baço pareciam encarar com raiva o ambiente ao redor, e o cabelo quase raspado se limitava a poucos fios amarelos e espetados sobre a cabeça grande.

Reconheceu o Sikorsky R-5 com sua grande cabina envidraçada sobrevoando a área do acidente, dando voltas para que o observador sentado à frente do piloto visse a extensão dos danos. Depois o helicóptero se afastou e pousou em terreno plano, tocando o solo com seu trem de pouso triciclo e levantando muita areia. Sabendo que aquele era um modelo relativamente novo de veículo militar, o coronel Herman deduziu que o homem que estava sendo transportado devia ser muito influente para ter acesso ao mais possante helicóptero de observação da USAF. E não era para menos, já que se tratava de alguém da Inteligência.

Ajudado por um soldado, o homem desembarcou de cabeça baixa e ambos correram encurvados para longe do helicóptero evitando as perigosas pás do rotor. Ao aproximarem-se, o coronel notou meio assombrado que o recém-chegado não devia ter saído da casa dos vinte anos. Em sua concepção, não parecia um militar. Muito magro e desengonçado para isso. Além de tudo, usava óculos de lentes grossas que chegavam a tirar os olhos de foco quando virava a cabeça para os lados. E não usava uniforme do exército, mas uma jaqueta preta de couro, empoada e sem brilho, cobrindo a camisa da mesma cor. A calça parecia folgada demais e não se via nenhum sinal de patente ou qualquer outro símbolo. A verdade era que o coronel não sabia como chamar aquele homem de preto.

- Coronel Herman? - disse ele batendo continência e estendendo a mão ossuda, a qual Herman sentiu que podia esmigalhar entre os dedos. - Fui enviado pelo general tão logo ele soube do ocorrido. Qual é a situação?

- Temos uma queda de objeto voador desconhecido, senhor...

- Oh, me perdoe! - ele disse recordando que não havia se apresentado, um costume que a condição incógnita havia imposto. - Pode me chamar de Charles, coronel.

- Senhor Charles... E as condições são totalmente estranhas para nós.

Disso ele sabia, pois do contrário não teria sido chamado às pressas para atravessar o estado do Arizona num helicóptero. Resolveu ir direto aos pontos mais importantes:

- A que horas aconteceu o acidente?

- Há três horas, aparentemente, senhor - respondeu o coronel demonstrando certo nervosismo que sua patente jamais permitiria, notando que o sol estava baixo e logo seria noite.

- Identificaram o veículo?

- Não se trata de nenhuma aeronave conhecido do Eixo, senhor.

- Foi abatida?

- Negativo. Um fazendeiro a viu cair e avisou o xerife local, que chamou o Exército.

- Fazendeiro... - repetiu Charles imaginando que mais tarde deveria ter certa conversa com o tal fazendeiro. - E a tripulação, coronel?

- Esta é a parte mais estranha, senhor... Resgatamos três tripulantes. Dois deles com vida, mas um morreu há pouco. O outro está inconsciente nesta barraca...

- Vivo! E qual seu estado? - quis saber ele, exaltado e com os olhos cinzentos parecendo querer saltar para a frente dos óculos.

- É difícil dizer. Acho melhor que o senhor o veja. Vai entender porque foi chamado, então...

Dando passagem, o coronel Herman indicou a entrada da barraca, desesperado para mostrar aquilo que não conseguiria explicar com palavras. Charles passou pelos soldados que faziam a segurança e descobriu uma lâmpada acesa no teto baixo. Três militares estavam ao redor de uma maca alta, algo parecido com uma mesa cirúrgica, mas ele não conseguiu ver o que estava sobre ela porque um dos homens tampava a visão com o corpo. Percebeu duas outras mesas iguais àquela, porém um pano branco escondia o que estava sobre elas. Quando o coronel entrou, os três que já estavam lá dentro perceberam a presença de Charles e se afastaram da maca, revelando aquilo que causou um sobressalto perceptível no recém-chegado.

O corpo nu deitado sobre a mesa parecia o de uma criança, a julgar pelo tamanho, mas a cabeça era enorme, careca e cinzenta. Os olhos também pareciam grandes e uma máscara de oxigênio não deixava ver o nariz e a boca. O mal estar inicial de Charles foi o aspecto de borracha da criatura humanóide, e ele se lembrou da primeira vez de ter visto um cadáver humano e de como se acostumou com aquilo depois. Percebeu após o susto que os três militares eram médicos e estavam tentando manter vivo o ser desconhecido. Andou quatro passos adiante e viu um ferimento extenso na perna direita do enfermo. A carne ali era escura e avermelhada. "Não tão diferente", ele pensou.

- Respira oxigênio? - ele conseguiu perguntar sem desviar os olhos do corpo.

- Sim - disse um dos médicos. - E foi tudo o que descobrimos até agora.

- A pele foi queimada ou é assim mesmo?

- Não há sinais de queimadura - outro respondeu consultando com o olhar o coronel Herman sobre a confiabilidade do jovem em trajes civis e recebendo um sinal positivo silencioso como resposta. - Este foi resgatado numa cabina intacta do aparelho.

- Os outros também são assim?

- São iguais. Um deles está dilacerado e o outro não agüentou os ferimentos no crânio.

- Não parece alemão... - murmurou Charles para si mesmo, ajeitando os óculos sobre o nariz que parecia o bico de uma águia, tentando distinguir sob a máscara a boca da criatura. Percebeu apenas duas fossas nasais pequenas.

- Senhor Charles - chamou o coronel. - Apesar de termos poucas informações a respeito, não seria o veículo destruído um dos foo fighters que nossos pilotos têm relatado na Europa, e este seu tripulante?

- Talvez - limitou-se a dizer o homem da Inteligência, depois perguntou aos médicos: - O que vocês acham que é este ser?

- Bem... Não pertence a nenhuma raça conhecida, apesar de lembrar um homem. Ainda não determinamos o tipo sangüíneo, o que pode nos dar boas informações. O uniforme não apresentava inscrições, de modo que talvez signifique que não queriam que fossem identificados. Temos duas hipóteses: eles podem ser o resultado de um cruzamento entre o homem e algum animal, feito pelos alemães ou japoneses, ou...

- Ou?

- Ou talvez seja um marciano.

- É possível - disse Charles imaginando as conseqüências de qualquer uma das hipóteses. De súbito tomou uma decisão e, de posse do poder que sua posição permitia, ordenou: - Senhores, não preciso dizer que o assunto exige sigilo absoluto, e que o destino da América depende da eficiência de nossas atuações daqui por diante. Todas as partes do aparelho devem ser recolhidas, mesmo as que pareçam mais insignificantes, e colocadas dentro de caminhões cobertos. Serão enviadas para a base militar mais próxima sem o conhecimento dos moradores da região ou da imprensa, que em breve tentará furar o bloqueio dos soldados. Recomendo que a área esteja limpa antes do amanhecer. Os corpos devem ser levados para necropsia na mesma base, e este que está vivo deve receber todos os cuidados para que assim continue. Será interrogado apenas pela minha equipe e todas as decisões a seu respeito partirão de mim, daqui por diante. Os soldados devem ser informados de que tudo não passou de um teste fracassado de uma nova aeronave levando macacos em seu interior, e esta é a resposta para qualquer provável pergunta de repórteres ou curiosos. Compreendido, senhores?

- Sim, senhor Charles - respondeu o coronel Herman feliz por passar a responsabilidade do estranho acontecimento à outra pessoa, apesar de estar recebendo ordens de um jovem que mais parecia um universitário. - As ordens serão passadas imediatamente ao meu regimento.

Procurando melhor uma posição sob a luz, Charles tomou um caderno de notas e um lápis do bolso da camisa preta. Devia escrever as impressões iniciais e os detalhes que conseguira captar até então. Começou pela data e rabiscou no alto da página: "5 de dezembro de 1943".

****

- Ele acordou! - disse o homem que entrou intempestivamente na sala.

Charles mexia o café de sua xícara com uma colher pequena e levantou os olhos cinzentos para aquele que havia chegado, analisando-o por cima dos óculos. Estava sentado em uma cadeira de ferro e tinha um jornal aberto sobre os joelhos, o qual trazia notícias do front do leste. Um médico vestindo um jaleco branco estava sentado do outro lado da sala, perto de uma mesa. Em suas mãos estava uma prancheta com várias folhas de papel.

- Finalmente - disse o homem vestido de preto tomando depois um grande gole de café. - Acho que não vou mais precisar disto - ele completou olhando para a xícara. Não dormia fazia quase trinta horas, esperando o momento em que poderia tentar se comunicar com a criatura.

- Vai vê-lo agora? - quis saber o que acabara de chegar.

- Só mais um momento - respondeu Charles encarando o médico, disposto a continuar a conversa que havia sido interrompida pela entrada do outro.

Ainda de prancheta em mãos, o médico militar se perguntou pela primeira vez porque um homem da Inteligência precisaria ler um jornal, já que deveria ser muito mais bem informado do que todos os repórteres da América. Chegou à conclusão de que aquilo era apenas para se divertir comparando o que sabia da guerra com o que os tablóides pensavam que sabiam.

- Resumindo tudo isto, o que temos aqui, doutor?

- Bem... O sangue é do tipo O negativo neste que está vivo, os outros são B negativo. É muito semelhante ao humano, mas a contagem de glóbulos brancos é extremamente reduzida, o que justifica a infecção que se espalha rapidamente apesar de nossos esforços em combatê-la. Os órgãos e suas disposições no corpo são idênticos aos humanos, com exceção do apêndice que está muito reduzido, quase um vestígio. Tem o mesmo número de dentes que nós, mas não observamos sinais do siso em nenhum deles. A cor da pele é causada por um pigmento desconhecido nas células epiteliais, e não encontramos folículos pilosos nem sob análise microscópica. Eu diria que eles são humanos na maioria dos aspectos, porém humanos um tanto... diferentes.

- Não há uma maneira de termos certeza? Precisamos saber se é um tipo de doença ou uma aberração da natureza.

- Nunca foi relatada uma doença com essas características. Aberração seria um termo interessante, mas os três são morfologicamente idênticos. Não podem ser irmãos gêmeos porque um deles, uma fêmea, é bem mais nova que os outros dois... De modo que uma aberração não se repetiria de modo tão preciso em nascimentos distintos. Aliás, já é difícil que repita em gêmeos.

- Mais uma coisa, doutor... Sabemos que Hitler andou brincando de biologia e usou judeus como cobaias. Existe a possibilidade de essas criaturas serem o produto de cruzamentos com animais ou coisa parecida?

- Pelas análises que fiz nada posso afirmar, senhor Charles. Mas eles não parecem judeus sob nenhum aspecto. Se Hitler conseguiu cruzar homens com animais, é algo que ainda temos que verificar. Tudo o que temos até agora é o resultado de uma técnica moderna chamada eletroforese em papel, que separa as proteínas do plasma possibilitando sua análise de acordo com a distância que percorrem no papel.

- E... ?

- E o padrão é humano.

- Mais alguma coisa, doutor? - Charles perguntou levantando-se e dobrando o jornal. Notou o olhar impaciente do colega que veio chamá-lo e se lembrou que talvez não tivessem muito tempo.

- Sim... Respondendo a primeira pergunta que o senhor me fez e que dei uma longa volta para prepará-lo melhor, eu diria que existe a possibilidade... ainda que as análises mais recentes mostrem ser aquele planeta um mundo muito hostil, de serem marcianos.

Os dois homens em pé ficaram olhando o médico militar por algum tempo, remoendo aquela informação nas mentes cansadas. Uma guerra envolvendo quase todos os terráqueos estava acontecendo e a situação seria desesperadora se os marcianos resolvessem tomar parte nela. Ajudariam eles os Aliados ou o Eixo? Poderiam estar se aproveitando do momento de instabilidade social no planeta para preparar uma conquista? Tudo isto passava pela mente de Charles quando deixou a pequena sala de reuniões e foi em direção ao setor médico, onde estava a criatura, apesar de ninguém ter certeza se existiam ou não marcianos.

Aquela seria a sua chance de descobrir.

Seu companheiro, um homem um pouco mais velho e com forte sotaque inglês, conhecido apenas por Calvin, aproveitou o percurso para comentar:

- Ainda não puderam determinar o meio de propulsão da aeronave, mas não há hélices ou motor de qualquer tipo.

- E o material?

- A fuselagem é de alumínio... Algumas peças de magnésio, outras de prata; ligas complexas. Nada de muito extraordinário.

- Será que tem alumínio em Marte?

Calvin não respondeu e abriu a porta para o amigo passar, entrando depois. Passaram por outras duas portas antes de chegar à sala onde estava confinada a criatura. Não havia janelas em parte alguma já que a base militar era subterrânea, e toda a luz era artificial. Um jovem médico veio até eles quase correndo, saído da sala onde estava o ser, buscando desesperado tomar fôlego e revelar:

- Ele fala! Pediu para afastar as lâmpadas...

- Como é? - perguntou Charles mais curioso do que espantado.

- Ele disse que as luzes estavam muito fortes!

- Em inglês?

- Sim, senhor. Em inglês!

Entraram então na sala que estava meio escurecida e encontraram a criatura sob uma mesa cirúrgica, ainda sem as vestimentas e com um curativo que cobria a maior parte da coxa direita. Respirava agora sem a ajuda de máscara e parecia ainda mais pálido do que da primeira vez que Charles o vira. Os braços e pernas estavam presos por tiras de couro, impedindo que se levantasse. Os médicos haviam garantido que não havia qualquer risco de contaminação, de modo que não precisavam usar máscara. Mas não se importaram muito se a criatura poderia ou não se contaminar com os homens, limitando-se a limpar os ferimentos, onde haviam administrado sulfamídicos e penicilina, a grande esperança da terapêutica clínica, introduzida no uso médico desde o ano passado, 1942. Ainda assim, não conseguiram evitar que uma infecção se espalhasse pelo sangue, o que causava apreensão aos homens da Inteligência, preocupados em interrogar o desconhecido.

O olhar cansado do enfermo causou uma impressão estranha em Charles. Ele era tão humano! Não parecia assustado ou perplexo, apenas desapontado. "Que bizarro", pensou Charles no momento em que aquele crânio enorme pendia sobre o travesseiro para que a criatura pudesse encará-lo.

Calvin continuou um pouco afastado e o médico chegou pelo outro lado da cama.

- Você fala nossa língua? - indagou o homem da Inteligência reparando nos esparadrapos colados ao braço dele, imaginando que eram por causa da coleta de sangue.

- Sim - foi o som arrastado que saiu daquela boca miúda, lembrando em tudo a voz de um doente em estado terminal.

- De onde vocês vieram?

A reação da criatura, tão peculiar que causou espanto, foi um leve sorriso e a frase:

- Não foi de Marte...

Por um momento, Charles não sabia mais o que dizer. Havia preparado o espírito para ouvir o contrário, mas eis que o homúnculo antecipara sua expectativa destruindo toda a linha de raciocínio que havia formulado para chegar até ali.

- Tem senso de humor, o infeliz - resmungou Calvin.

Charles de repente teve noção das pessoas à sua volta, tão concentrado que estava assistindo o sobrevivente. O médico era o problema. Por mais que fosse um militar a serviço do exército americano e trabalhasse em uma área secreta de uma base, não deveria ter livre acesso às informações que seriam extraídas do prisioneiro.

- Acho melhor esperar lá fora, doutor. Nós o chamaremos se for preciso.

O médico entendeu a ordem velada e se retirou da sala, deixando os homens da Inteligência com seu estranho trabalho. Calvin chegou um pouco mais perto e notou como os olhos do ser estavam avermelhados, não sabendo dizer se aquilo era uma condição normal dele ou se era por causa do acidente.

- De onde vocês são então? - retomou Charles.

- Onde? - o humanóide suspirou parecendo entediado. - Onde não... Quando.

- O que? Não entendi.

- Nós somos deste planeta. Da Terra... Somos do futuro da Terra.

Sem conseguir esboçar reação, Charles se deixou levar pelas implicações daquilo. Levou apenas um momento para duvidar da veracidade do fato e delineou algumas maneiras de lançar a criatura em contradição, para descobrir a verdade mais tarde.

- Você quer dizer que viajou no tempo e veio parar aqui?

- Correto.

- E presumo que o aparelho que se espatifou no deserto era a sua... máquina do tempo.

- Simplificando, sim.

- E como você espera que eu acredite nisto?

- Não espero... Esperava apenas voltar para o meu tempo, para minha casa... Agora que falhei em minha missão só a morte é esperada.

- Escute, qual o seu nome? - e Charles perguntou isto apoiando as mãos sobre a cama, mudando o tom de voz para quase um sussurro.

- Pashal.

- Pashal? É soviético?

- O nome sim.

- Seu sotaque é estranho. Não parece com nada que eu já tenha ouvido. De onde é?

- Não sei responder sua pergunta - disse o humanóide suspirando alto. - Soa estranho... Em meu tempo não é como agora, com países e fronteiras.

- Você disse que falhou em sua missão. Qual era?

- Tranqüilize-se, meu amigo... Não pretendia interferir nos destinos desta nação ou da guerra... Vim apenas estudar a História.

- E quer que eu acredite que veio do futuro apenas para olhar o passado?

Pashal não respondeu. Apenas fechou os olhos, parecendo sentir dor em algum lugar. Voltou a abri-los para alívio dos dois homens e ficou encarando o teto.

- Charles - chamou Calvin -, o professor Einstein afirma que é possível viajar no tempo. Segundo ele, para um corpo que se aproxime da velocidade da luz é como se o tempo parasse.

Um gemido parecido com uma risada veio da criatura, que comentou:

- A teoria da Relatividade é muito bonita, mas não passa disso: uma teoria.

- Tudo bem, Pashal. Vamos supor que isso seja verdade. Há um detalhe que não podemos negar: você não parece humano!

- Amigos... sinto muito se não correspondo às suas expectativas, mas os seres vivos passam por transformações e uma espécie tende a mudar com o tempo, como Darwin e outros já ensinaram... Bem, vocês ainda nem descobriram como as características são passadas dos pais para os filhos, não sabem para quê serve o DNA, de modo que tudo o que eu disser... será vazio...

- Então, os homens vão evoluir e virar coisas... digo, seres iguais a você? Quando?

- Se contar pelo seu calendário... 4288.

Fazendo um cálculo mental, Charles concluiu:

- Isto é daqui 2345 anos. Acho muito pouco tempo para uma espécie mudar tanto.

- Não sei se vou poder... explicar a Engenharia Molecular...

- Tudo bem - disse Charles se impacientando. - Vamos voltar ao começo: o que sua aeronave fazia sobrevoando o deserto do Arizona?

A criatura revelou tristeza no olhar, talvez lembrando do acidente, talvez por perceber que o homem vestido de preto começava a ficar nervoso. Sua voz fraca virou um lamento:

- Os registros históricos são deficientes... Alguns pesquisadores da minha época usam o deslocamento temporal... Voltamos ao passado e o analisamos mais... adequadamente...

- Como sua aeronave caiu?

- Foi uma pane... Um erro inadmissível...

- Você foi mandado pelo governo dos Estados Unidos da América?

Arregalando os olhos, Pashal fitou assustado os dois homens, parecendo recordar de repente de algo que seria perigoso demais revelar, o que causou estranheza nos interrogadores. Meio agitado sobre a cama, mas seguro pelas tiras de couro que o prendiam, o humanóide resmungou:

- Amigos, venho de um tempo onde existe paz e o sofrimento só é lembrado quando estudamos o passado. Não há mais guerras, nem fome e a maioria das doenças não existe mais. Este é o futuro que seus descendentes herdarão. Transmitir essa mensagem é tudo quanto eu posso fazer: nós seremos felizes!

E dizendo esgotou suas forças, voltando a recostar a cabeça sobre o travesseiro, ofegante. Desejava descansar e esperar a morte que sabia estar perto, mas não imaginava que os dois homens estavam longe de se sentir satisfeitos. A reação de Pashal havia aguçado a curiosidade de Charles a respeito do futuro, ainda que não tivesse desprezado a hipótese de estar sendo enganado por um espião alemão ou japonês saído de algum laboratório de Hitler. Queria saber até onde a provável farsa seria sustentada e depois usaria métodos mais persuasivos de obter a verdade.

- Meu caro Pashal, você não parece americano, não tem sotaque americano, mas fala inglês perfeitamente. Conseguiu penetrar nosso espaço aéreo sem ser visto... Supondo que seja mesmo um viajante do tempo, tudo leva a crer que tenha vindo da América do futuro, estou certo?

Adotando um tom mecânico na voz e sem abrir os olhos, ele respondeu:

- Preciso conhecer os idiomas antigos para estudar o passado... Sua língua não é mais falada em meu tempo, e não será daqui a poucos séculos... Seu país não existe mais... Perdeu esta guerra para os japoneses, que depois foram conquistados pela União Soviética... Os soviéticos dominaram o mundo e implantaram seu sistema de governo, que também caiu depois, dando lugar ao sistema no qual eu vivia... No futuro, a América será apenas mais um império tombado.

- Perdemos a guerra? - foi o que conseguiu captar Charles, estupefato como quem acaba de receber o pior prognóstico de um médico, a condição terminal.

****

Um tempo longo que Charles não soube determinar ao certo passou até o momento em que voltou a si e se viu ali, naquela sala meio escurecida, conversando com uma criatura cinzenta que se dizia um humano do futuro, dizendo que o destino da humanidade seria belo apesar da ausência americana. O que seria mais estranho nisto tudo?

Se aquele ser de nome Pashal fosse uma arma do Eixo destinada a fazer guerra psicológica contra os Aliados, os dois homens que o interrogavam deviam admitir: ela funcionava muito bem. E a convicção com que afirmava as coisas mexeu em algum ponto sutil da mente de Charles, que decidiu obter mais informações sobre o que sabia o visitante do futuro. Se fossem mentiras todas as suas informações, em algum detalhe ele deveria cometer um erro, e os homens da Inteligência descobririam isso, podendo trabalhar melhor a verdade por trás de tudo.

Desapertando o nó da gravata preta, Charles puxou de um canto da sala um banco alto de madeira e sentou mais confortavelmente ao lado da cama onde estava o humanóide. Calvin parecia uma estátua de cera ao pé da cama, paralisado com tudo o que acabara de ouvir. Ainda não haviam lançado mão de métodos mais pesados e mais clássicos de fazer alguém falar a verdade, e isto porque Charles preferia começar fazendo o papel de amigo, aquele que quer ajudar se for ajudado e que poderia até salvar o prisioneiro se ele colaborasse. Desta forma, resolveu soltar os braços de Pashal para que ele visse nisto um ato amistoso. Começou pela mão que estava mais longe como medida de segurança e sentiu como a pele da criatura estava quente, talvez pela febre causada pela infecção. Calvin tocou de leve o revólver que levava à cintura por baixo do casaco. Não poderiam matar o prisioneiro antes de completar o interrogatório, mas ele poderia reagir de modo inesperado.

Pashal nem moveu os braços depois de soltos. Estava muito fraco.

- É difícil acreditar nisto - retomou Charles. - Os Aliados estão avançando. O Eixo está enfraquecido e nossa decisão é lutar até o fim, usando todos os recursos disponíveis até a capitulação do inimigo. Sua afirmação soa como mentira, se me permite a palavra.

- Mentira?... Este traço da cultura humana não existe em meu tempo!... Isto é ediondo!... Seria como... como o canibalismo para vocês. Você aprova o canibalismo?... Da mesma forma não aprovamos a mentira... Por isto conto tudo o que sei...

- Então seja mais específico e conte como perdemos a guerra.

- Na verdade os Aliados não perdem a II Guerra Mundial... O que vai acontecer em breve, daqui a um ano e meio para ser um pouco mais exato... é que os alemães vão se render, mas o Japão não... Os americanos invadirão aquele país e serão rechaçados pelos bravos soldados japoneses, que não poupam nem a própria vida em nome da pátria... Neste combate, cerca de meio milhão de soldados americanos vão morrer... Será uma derrota histórica que enfraquecerá este país... Aproveitando o momento, os soviéticos atacam o Japão e o dominam por completo, praticamente anexando-o à sua nação...

- Quer dizer que os soviéticos vencerão a guerra? - perguntou Calvin fazendo uma careta enojada.

- A União Soviética vai despontar como a maior potência mundial e até a Europa sucumbirá ao socialismo... Isto porque o sistema soviético será implantado nos países que faziam parte do Eixo: Alemanha, Itália, Japão etc... Vão dominar uma área enorme do planeta... Os países do Continente Americano, aos poucos acuados e empobrecidos, se entregam ao socialismo... Muito tempo depois uma nova revolução sacode o mundo... Descobertas científicas maravilhosas vão ajudar a criar um sistema mais justo, menos opressivo, onde cada um vai governar a si mesmo e... como já disse, resolveremos quase todos os problemas que afetavam a humanidade... Isto não é maravilhoso, amigos?

Horrorizado seria a palavra adequada para exprimir o que Charles sentia. Não sabia dizer qual era a parte pior: a derrota para o Japão ou o domínio socialista. Ainda assim, em sua mente patriótica a derrota era algo inadmissível, um disparate. Lembrou de repente de algo que poderia defender o orgulho de sua nação e ao mesmo tempo testar a veracidade do que Pashal dizia. Por isto lançou:

- A derrota me parece improvável. Temos armas secretas que pretendemos usar para vencer esta maldita guerra.

- A bomba atômica nunca foi usada - devolveu o humanóide fazendo os dois homens se arrepiarem da cabeça aos pés. Que os Estados Unidos estavam gastando bilhões de dólares no desenvolvimento de uma arma nuclear não era segredo, mas mesmo assim imaginava-se que tudo não passava de especulação fora do alto escalão militar.

- Que bomba atômica? - perguntou Charles fazendo o jogo do desentendido, logo captado por Calvin. Queria ver o quanto a criatura sabia.

- Não se faça de bobo, meu amigo... Refiro-me ao Projeto Manhattan em Alamogordo, no Novo México... Lá estão Oppenheimer, Fermi... o general Leslie Groves. Eu gostaria de ter podido visitar a área...

"Meu Deus, ele sabe!" Foi o que atravessou as cabeças dos dois como um relâmpago, e antes que pudessem soltar a respiração, Pashal continuou:

- Mas ela não foi usada... Roosevelt preferiu apostar em sua tropas... Queria, segundo suas próprias palavras... "Dar um show na presença de oficiais japoneses e alemães para mostrar os efeitos da bomba" e com isto ameaçá-los, mas não aconteceu.

Neste momento, Charles saltou do banco e levou as mãos à cabeça, visivelmente abatido, chocado. E tudo isto porque ele próprio havia presenciado o momento em que o presidente Roosevelt dissera aquelas palavras, em Washington, numa sala à prova de espionagem. Ninguém poderia saber aquilo, a menos que... a menos que estivesse nos livros de história ou nas biografias dos envolvidos, foi a conclusão à que chegou, assustado.

Calvin pensou desesperado em acender um cigarro e já ia pegar o maço quando lembrou que aquilo poderia afetar o prisioneiro, impedindo o interrogatório.

Charles esfregou as lentes dos óculos com a ponta da gravata para enxugar o suor que de repente havia se acumulado ali. "É verdade!", era a frase que ecoava em sua cabeça. Percebeu que as mãos estavam trêmulas quando recolocou os óculos. Aquilo nunca havia acontecido com ele que se julgava tão frio e controlado. "É tudo verdade!"

Decidiu tomar notas em seu caderno e rabiscou furiosamente algumas palavras, procurando um ângulo melhor na luz baixa. Foi obrigado a parar quando Pashal soltou um gemido longo, chamando as atenções para o seu estado precário de saúde. Não teriam muito tempo.

Voltando a sentar sobre o banco, Charles reparou que o enfermo lacrimejava e os braços começavam a se contorcer. Pensou em chamar o médico, no entanto sabia que ele nada poderia fazer e apenas tomaria tempo precioso do interrogatório.

- Ainda está acordado, Pashal?

- Mas não por muito... tempo.

- Tudo bem... Eh... Acho muito interessante a visão do mundo futuro que você nos descreveu... Ele é mesmo maravilhoso - e procurou Calvin com o olhar, pedindo para ajudá-lo com a mentira.

- Muito belo mesmo! - disse o outro às pressas, compreendendo o jogo.

- Mas gostaríamos de saber mais detalhes sobre o que está para acontecer. Você pode fornecer datas, nomes, ou estratégias do Eixo para que possamos... ficar mais tranqüilos sobre a veracidade desse futuro bonito que nos mostrou?

- Acreditem em mim... Quando virem as forças navais do almirante Nimitz reconquistando... as ilhas Marshall... em janeiro do ano que vem... Ou o desembarque dos Aliados na... Normandia... 6 de julho de 1944... saberão que é verdade...

Charles escrevia tudo, chegando a entortar o caderninho de notas na palma esquerda.

- Capitulação alemã... maio de 45... Invasão do Japão pelos americanos... 6 de agosto de 45... Invasão soviética... 30 de agosto...

- O que mais? - insistiu o homem reparando como Pashal havia parado.

- Outras coisas importantes... um homem chamado Avery... ano que vem vai descobrir uma coisa envolvendo genética e pneumococos... Uma grande revolução na ciência... Daqui um ano... Dick Ster, piloto de bombardeiro... voando para a Itália com outros seis aviões... vai voltar. Será único sobrevivente nas Bermudas...

Aquelas coisas não pareciam muito importantes para Charles, no entanto tomou nota. Queria saber mais sobre a derrota das tropas americanas no Japão, mas Pashal piorava a cada minuto. Sua voz se tornou um sopro e caiu na inconsciência logo depois, para decepção dos homens da Inteligência.

O médico nada pôde fazer e a situação piorou quando administrou uma droga para fazer baixar a febre altíssima da criatura. Morreu menos de uma hora depois e seu corpo foi enviado para necropsia.

Imaginando como deveria dizer aquelas coisas em seu relatório, Charles deixou o setor médico e procurou o telefone mais próximo. O que tinha ali era de tão grande importância que não poderia esperar alguns dias para ser de conhecimento do alto escalão das Forças Armadas. Discou alguns números no telefone e esperou a secretária atender.

- Alô, aqui é Charles da Inteligência... 38-71-09-55-12... Quero falar com o presidente.

****

A reação de Roosevelt e dos generais foi de extrema cautela. Era verdade que uma aeronave com tecnologia desconhecida havia caído em solo americano, tendo em seu interior seres humanóides nunca antes identificados. Também confirmado que um deles, resgatado com vida, falava inglês e demonstrava conhecimento da sociedade americana. No entanto, acreditar no que a criatura de nome Pashal dizia era difícil. A possibilidade de terem lidado com um espião muito bem informado, uma aberração biológica nascida nas proximidades de um campo de concentração na Alemanha, era grande, ainda que o relatório de Charles concluísse que uma arma secreta das forças do Eixo jamais teria funcionado se o acidente no deserto tivesse matado todos os tripulantes de uma vez. Talvez o acidente não estivesse nos planos inimigos, mas tudo indicava que os tripulantes da aeronave não queriam ser descobertos. De outra forma não seriam, posto que sobrevoavam uma área muito distante de qualquer base militar. Charles alegou que se fosse uma arma secreta, pousariam perto de uma base e se fariam ver em solo, evitando um ataque aéreo por parte dos caças americanos.

Quando interrogado sobre a facilidade com que obteve informações sobre o suposto futuro, Charles respondeu que a criatura parecia ser incrivelmente ingênua e não ter idéia das conseqüências que poderiam surgir com aquelas revelações. Além disso, o estado febril poderia ter influenciado sua psique.

O conhecimento demonstrado pelo invasor sobre o Projeto Manhattan não era nenhum absurdo. Quanto a frase dita por Roosevelt sobre o show com a bomba atômica, isto sim causou um longo debate entre os generais, mas todos concordaram que deveriam esperar a possível concretização dos fatos futuros revelados pela criatura. Se todos eles acontecessem, então tomariam providências mais sérias.

A sugestão final no relatório de Charles era que a bomba atômica fosse usada e que se evitasse qualquer invasão do Japão por terra. E a resposta do presidente, para desespero do homem da Inteligência, era que ele confiava em seu exército e o máximo que poderia fazer, se o futuro assim forçasse, era mesmo ameaçar o Japão lançando a bomba ao mar, onde todos pudessem ver seus efeitos.

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Foi apenas um mês depois, em janeiro de 44, que tiveram a primeira prova de que o suposto visitante do futuro poderia estar dizendo a verdade. Uma de suas predições foi concretizada.

A esquadra naval do almirante Nimitz retomou as ilhas Marshall das garras do Eixo, exatamente como havia dito Pashal. E mesmo assim, a pequena elite do alto escalão militar que tinha conhecimento do incidente no Arizona não se convenceu. Para eles, a conquista do almirante era algo quase certo e que fora planejada com antecedência suficiente para que um espião soubesse. Além disso, poderia ser tão-somente um bom chute e nada mais. Por isso, decidiram aguardar as datas das próximas previsões antes de chegarem a qualquer conclusão e ordenaram que fossem tomadas maiores providências contra o vazamento de informações secretas.

Mas, ao contrário de seus colegas, Charles viu aquilo com apreensão e fez uma marca em seu caderninho de notas, ao lado daquela sobre Nimitz, indicando que era um acerto.

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O dia 6 de julho foi aguardado com grande interesse por Charles e sua equipe, porque ocorreria o desembarque das Forças Aliadas na Normandia, segundo Pashal.

Tendo acesso a informações sigilosas a respeito das estratégicas militares na Europa, Charles sabia antecipadamente que aquilo realmente estava por acontecer. No entanto, como toda guerra é uma sucessão de imprevistos, ninguém sabia ao certo quando e se o desembarque ocorreria com sucesso.

Foi por isto que recebeu com assombro a notícia do desembarque. Exatamente quando o visitante do futuro disse que seria. A partir daquele dia começou a considerar com muito mais seriedade a necessidade urgente de ações que poderiam alterar o rumo dos acontecimentos. Enviou novo relatório ao presidente Roosevelt no qual sugeria o uso da bomba atômica contra os países do Eixo, e a resposta foi que deviam esperar mais para ter certeza, mesmo porque a bomba ainda não estava pronta e, até que ela ficasse, outros meios mais sutis poderiam ser usados se viesse a confirmação de que o humanóide resgatado fosse mesmo uma pessoa do futuro.

Contrariado, porém acatando as ordens, Charles murmurou consigo mesmo que aquela atitude passiva levaria a América à ruína. Depois se perguntou o que teriam a perder sendo mais ousados e previdentes, mas não achou resposta.

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Foi numa manhã de uma quarta-feira em que Charles estava em seu escritório que um de seus homens chegou trazendo um envelope de papel pardo. Grande e sem nada escrito por fora, continha um volume considerável de folhas em seu interior, que ele descobriu ser uma revista tão logo rasgou o lacre.

Quase todas as informações relevantes para as suas investigações eram procuradas pela sua equipe, que em alguns casos nem ao menos sabia do que se tratava o assunto, e mesmo assim coletavam dados requisitados.

O que Charles tinha em suas mãos naquele dia era para ele uma incógnita. O título da revista: ''Journal of Experimental Medicine'', não lhe dizia nada a princípio. Tratava-se de um periódico científico, era evidente, mas apenas pôde relacionar com um de seus casos quando viu marcas feitas à lápis no índice, grifando as palavras ''Avery'' e ''pneumococcal'', as palavras-chave que mandara verificar onde quer que fosse durante todo o ano de 1944. Tomou apressado o bloco de notas e revirou com fúria as páginas até encontrar as anotações feitas na entrevista com Pashal. Encontrou as palavras ao lado da notação: ''Grande descoberta científica''.

O artigo, de autoria de Avery, MacLeod e MacCarty, tratava da transformação de cepas não virulentas de pneumococos em cepas causadoras de pneumonia. Ali, Charles ficou sabendo que ratos inoculados pelas bactérias que não causavam doença juntamente daquelas que causavam, só que estas últimas mortas pelo calor, levava ao aparecimento de pneumococos virulentos. Há muito já se sabia disto, no entanto o trabalho que tinha em mãos se propunha a descobrir qual fração da bactéria patogênica era responsável pela passagem da característica genética da formação de cápsula bacteriana. Em outras palavras, os autores haviam identificado o ''princípio transformante'', a molécula que carrega os genes. Descobriram que se trata do ácido desoxiribonucléico, o DNA.

Segundo o homem do futuro, aquela descoberta seria uma das mais importantes da história da humanidade, todavia Charles não pôde prever as consequências infinitas trazidas pelo novo conhecimento. Ainda que julgasse importante o resultado, não conseguiu imaginar uma utilidade para ele... Talvez porque sua mente estivesse girando na esfera política, e não científica, repetindo a frase que exprimia seu maior temor nos últimos meses: ''É verdade! A América vai perder!''

Marcou um x na notação para indicar que esta também havia se concretizado, e notou que sua mão estava tremendo.

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- Aconteceu, senhor! - disse a voz ao telefone, na qual a falta de emoção denotava mais autocontrole do que apatia. Era Calvin falando de algum lugar da Flórida e esta foi sua primeira frase ao reconhecer o "alô" seco de Charles.

- Sete pescadores jogaram seus anzóis - continuou ele, usando uma linguagem em código -, mas apenas um deles pegou um peixe.

- É aquele que esperávamos?

- O mesmo nome.

- Como aconteceu?

- O vento soprava com força. O mar estava calmo.

- Bom trabalho, Calvin. Conte-me os detalhes da pescaria quando voltar.

Depois de colocar o fone no gancho, Charles tomou apressado seu bloco de notas e achou com facilidade a página na qual estava a última informação dada pelo visitante do futuro. No fim de 1944, disse ele, sete bombardeiros decolariam dos Estados Unidos rumo à Itália, mas apenas um deles regressaria como único sobrevivente nas Bermudas, pilotado por Dick Ster. Calvin, que estava esperando por informações a este respeito na Flórida, acabara de ligar confirmando toda a previsão. Mas Charles passou um ano imaginando que os aviões seriam abatidos por caças do Eixo, e a informação era que havia sido apenas uma turbulência aérea, pelo que apreendeu do código. Não deu muita atenção às circunstâncias, e sim ao fato em si, pois este dizia que Pashal sabia realmente o que estava para acontecer. Se fizesse um ou outro acerto poderia ser sorte ou uma visão muito boa da realidade ao seu redor, todavia jamais poderia adivinhar ou calcular que, um ano depois, seis aviões de grande porte cairiam no mar e outro retornaria, dando inclusive o nome do piloto sobrevivente.

Se aqueles fatos não convencessem Roosevelt, Charles deveria tomar atitudes extremas em nome da América. Estava tão obcecado pela idéia da vitória a qualquer custo que esqueceu do acidente com os bombardeiros e não sabia, obviamente, que vários outros aviões e navios desapareceriam naquela mesma região de maneiras inexplicáveis, sendo o local mais tarde batizado de Triângulo das Bermudas.

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Em 1945 Charles não tinha mais dúvidas de que Pashal dissera a verdade. E isto representava apenas uma coisa: que providências deveriam ser tomadas para que os Estados Unidos fossem os grandes vitoriosos da guerra, impedindo a ameaça do domínio socialista. O homem da Inteligência tinha noção de que um ataque ao Japão por terra seria desastroso, sendo a bomba atômica sua única opção de vitória.

Mesmo assim, Roosevelt se negava a querer usar este novo armamento diretamente na guerra. Talvez porque não quisesse ser lembrado no futuro como o presidente que inaugurou a era atômica das guerras, talvez por excesso de confiança em suas tropas. Sua idéia de mostrar a explosão no mar ainda era o que achava mais correto e eficiente diante dos conhecimentos passados pelo visitante do futuro.

No entanto, Charles se perguntava a todo instante: e se não for o bastante?

Estava convencido de que apenas medidas drásticas salvariam o mundo das garras soviéticas, e o atual presidente não estava disposto a tomar atitudes extremas.

Foi por isto que ele teve uma conversa secreta, porém informal, com o vice-presidente Harry Truman.

Quando interrogado sobre a sua disposição quanto ao uso da bomba, Truman respondeu:

- A decisão final cabe ao presidente... Mas se quer saber o que eu faria se fosse o presidente, digo que lançaria nossa arma até mesmo em alvos civis se soubesse que o destino da América depende disso.

A conversa acabou logo após esta frase, e o silêncio de cumplicidade que se seguiu foi mais eloqüente para Charles do que se Truman tivesse dito: eu sei que o destino da América depende disto, portanto faça o que deve ser feito.

Naquele instante, Roosevelt estava de férias em sua fazenda. Era primavera, e o calendário marcava 8 de abril de 1945.

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Quatro dias depois, 12 de abril, Franklin D. Roosevelt foi encontrado morto, vítima de uma hemorragia cerebral. Seu estado de saúde nunca havia sido exemplar, a guerra o obrigara a tirar férias em sua fazenda chamada Warn Springs depois de reclamar de fortes dores de cabeça. Deste modo, ninguém estranhou que os sintomas da doença fossem muito parecidos com os de uma pancada no crânio.

Harry S. Truman tomou posse como presidente logo depois, comandando os destinos da guerra. Apesar da lamentável perda de Roosevelt, que era amado pelo povo e fora eleito presidente três vezes consecutivas desde 1933, o clima de guerra não permitiu que a comoção se estendesse por muito tempo.

Alguns dias após o "incidente" com Roosevelt, Charles voltou de uma longa viagem e encontrou Truman já no poder, na Casa Branca. Quando os olhos de ambos se cruzaram, o presidente pediu licença aos assessores e foi até o homem da Inteligência. Depositou a mão direita sobre seu ombro e, num ato que revelava conivência, disse apenas:

- Deus salve a América!

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Com Truman no poder, algumas coisas aconteceram segundo as previsões do homem do futuro, como a rendição Alemã em Maio de 45, apenas um mês depois de ele se tornar presidente. Outras foram totalmente novas, pensava Charles, como o primeiro teste da bomba atômica em Alamogordo, no dia 16 de julho. O incentivo do novo presidente ao Projeto Manhattan lhe pareceu decisivo para que a arma devastadora estivesse pronta antes das datas que marcavam as tragédias da derrota americana no Japão e a vitória soviética logo depois.

A guerra já não era a luta contra o nazismo, mas uma disputa para decidir quem controlaria o mundo dali por diante.

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A capitulação do Japão deveria ocorrer antes de 30 de agosto, data da invasão soviética. Por este motivo a data escolhida para jogar a bomba foi bem antes, 6 de agosto. Aquele dia tinha um sentido especial. Segundo Pashal, este seria o dia em que as tropas americanas invadiriam desastrosamente por terra aquele país, de modo que Trumam queria fazer as coisas mudarem a partir dali.

E assim foi.

Charles estava em sua casa e recebeu um telefonema informando que a cidade de Hiroshima fora atingida com sucesso.

A expectativa de rendição japonesa durou o dia seguinte inteiro, e no dia 8, temerosos de que o Japão não capitulasse e isto servisse para apressar a invasão pelos soviéticos, decidiram lançar outra bomba no dia 9 de agosto.

O alvo foi Nagasaki e a bomba era mais potente do que a primeira. Charles havia sugerido que fossem lançadas tantas bombas quanto necessárias; e mesmo Tókio seria uma escolha no momento de desespero. Até na guerra, pensava Charles, temos que dar ao inimigo a chance de escolha entre a rendição fácil e a irremediável, sendo este o motivo de atingirem alvos sem grande importância militar ou histórica. Era o mesmo estilo que havia usado no interrogatório de Pashal.

Aquilo havia sido suficiente. Por meio de canais não oficiais, a Inteligência sabia que o Japão se renderia em breve. Quando interrogado sobre os motivos de lançar um armamento nuclear sobre alvos civis, Truman simplesmente disse que aquilo havia poupado as vidas de meio milhão de soldados americanos que morreriam se invadissem o Japão por terra. E muito se especulou sobre aquele cálculo, dizendo que era exagerado, mas a verdade é que havia sido dito por Pashal que assim seria... Mas não foi.

Charles regava seu vaso de margaridas enquanto ouvia o rádio em sua casa. O dia estava ensolarado e a temperatura amena. Era o dia 15 de agosto de 1945.

Interrompendo a música, o locutor anunciou entre o histerismo e os berros que o Japão havia se rendido. A América era a grande vitoriosa da guerra.

E mesmo sabendo que aquilo estava por acontecer, Charles sentiu a tensão deixar seus ombros e ficou aliviado pela primeira vez em 21 meses, ou seja, desde a entrevista com Pashal.

- Consegui! - ele murmurou deixando as margaridas de lado. - Vencemos a guerra... O mundo está salvo!

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Dezembro de 1999.

54 anos se passaram. Durante muito tempo os Estados Unidos lutaram contra o socialismo, surgindo a guerra fria e o embargo a Cuba. Dominaram todo o continente americano seguindo literalmente o ideal da "América para os americanos". Tornaram-se a maior potência mundial controlando a economia do planeta. Entraram em muitas guerras onde sua supremacia estava em jogo, e ignoraram conflitos que não interferiam em seu poderio econômico. Além disso, usaram todos os avanços técnicos disponíveis para tornarem seu exército o melhor e o mais bem equipado, provavelmente inspirados pelo exemplo marcante da bomba atômica.

Incentivaram o próprio desenvolvimento industrial e lutaram tão feroz e eficazmente contra o fracasso que não pouparam esforços para dominar o planeta, muitas vezes graças a miséria de outros. No final do século, a situação era tão contrastante que o desemprego atingia todas as nações, enquanto nos Estados Unidos o problema era a falta de mão de obra para tantas vagas.

Dominaram a ciência, a economia. Exportaram sua cultura e seu idioma (para que não fosse esquecido como Pashal disse que seria). Agigantaram seu poderio militar e só deixaram de construir armamentos nucleares quando interessava que países inimigos jamais os tivessem, alegando que a paz mundial dependia da não fabricação dos mesmos. E mesmo condenando o desenvolvimento atômico de nações pobres para fins militares, todos sabiam qual o único país responsável pelo uso de bombas nucleares na guerra.

Tornaram-se, enfim, indestrutíveis. E tornaram boa parte do mundo, assim, enfraquecida.

Charles contava com cerca de oitenta anos no Natal de 99. Por causa do excelente serviço prestado à América durante a II Guerra Mundial, havia ocupado o mais alto cargo do seu setor na Inteligência, e agora possuía uma aposentadoria milionária.

Gostava de ler o jornal na cadeira de balanço da varanda de sua casa, onde aproveitava o fraco sol de inverno para aquecer seu corpo magro. A visão não ajudava e se ainda enxergava era por causa de uma cirurgia nos olhos. Os óculos haviam se tornado praticamente parte de seu corpo, e a testa sulcada denotava décadas de exercícios faciais e caretas para ajustá-lo melhor sobre o nariz.

Foi pouco depois do Natal que recebeu uma visita inesperada. Os seguranças permitiram a entrada de uma limusine preta na propriedade, a qual Charles teve de observar atentamente antes de descobrir que era um eco do passado.

Da porta do passageiro surgiu um homem alto vestindo um terno preto e escondendo os olhos com uns óculos escuros. Charles não sabia quem era, mas tinha noção de que o Governo e as Forças Armadas estavam por trás daquela visita. Ficou sentado na varanda e esperou que o homem de preto tivesse o trabalho que suas pernas não queriam mais ter.

"Criei uma moda", ele pensou analisando as vestes do visitante que chegava até a varanda como se fosse um velho conhecido da família. Na verdade tinha idade para ser seu neto.

- Senhor Charles - disse ele mais para chamar a atenção do velho, que parecia presa em seus sapatos pretos.

- Sou eu.

- Meu nome é Gibson. Fui enviado pelo coronel Norman da Força Aérea - e esperou um momento até que as informações fossem absorvidas pelo ancião.

- Prossiga, senhor Gibson.

- Fomos instruídos a informá-lo quando contatássemos um sobrevivente.

E os olhos embaçados de Charles pareceram rejuvenescer 50 anos ao ouvir aquilo. Desde quando haviam alterado a história do planeta buscavam secreta e incansavelmente capturar outro viajante do tempo. Sabiam que continuavam sendo visitados por eles, e a equipe que Charles havia fundado se prestava a investigar e abafar os casos de aparições. A idéia de que os Objetos Voadores Não Identificados se tratavam de naves pilotadas por seres extraterrestres era perfeita para despistar a população da verdade. Ainda que alguns poucos inventassem teorias sobre a possibilidade de serem visitantes do futuro, ninguém tinha provas concretas. E a equipe que Charles havia criado semeara ao longo de vários anos tantas armadilhas culturais que, mesmo aparecendo provas, ninguém acreditaria nelas. E tudo era tão bem planejado, que mesmo aqueles que acreditavam em OVNIs passavam a maior parte do tempo pensando em outras coisas, pouco importando se fotos e filmes autênticos mostrassem os estranhos aparelhos voando, pousados, no espaço ou na Lua.

Alguns acidentes como aquele no Arizona, em 1943, se repetiram em todo o mundo. Um dos mais famosos havia sido o de Roswell. Mesmo assim, nunca haviam resgatado um tripulante vivo.

- É um tripulante? - quis saber Charles.

- Não. É alguém que voltou.

Aquilo significava uma vítima de abdução que não apenas havia viajado num OVNI, mas que fora levada para o futuro e retornara. Um caso nunca antes encontrado por aquela sociedade secreta e um acontecimento de extremo valor, considerando que queriam saber quais mudanças haviam feito no futuro distante da humanidade.

Um garoto de menos de dez anos de idade irrompeu correndo pela porta da casa e encontrou os dois homens na varanda. Trazia nas mãos um boneco de plástico do Godzilla de quase meio metro, um dos presentes de Natal. E mesmo estranhando o visitante de terno em frente da cadeira de balanço do avô, chegou mais perto e disse:

- Olha, vô! É o Godzilla!

"Que irônico", pensou Charles. Seu neto brincava com um personagem japonês de ficção-científica que era fruto da radioatividade! De certa forma era responsável pelo surgimento daquele monstro.

- Como ele é grande! - elogiou o vovô Charles.

A mãe do menino surgiu pela porta e, ao avistar o homem vestido de preto, compreendeu a situação de imediato, chamando a criança de volta para dentro.

- Pode deixar, minha filha - pediu o velho. - Eu vou conversar com este senhor no jardim.

E foi para o gramado ajudado por Gibson. Queria afastar aqueles problemas de sua família e achava que alguns metros já seriam suficientes.

- Agora vejo - retomou Charles -, que a situação exige mesmo o meu conhecimento. Esperamos mais de cinqüenta anos por isto, meu caro colega... Agora conte-me os detalhes.

- Um cidadão americano chamado Ernest Johnson desapareceu de sua casa em Salt Lake City no dia 3 de dezembro. Foi encontrado quatro dias depois na Carolina do Sul.

- Tão longe assim... ?

- Apesar de vivo, estava todo mutilado. Sem os braços e os rins. As pernas não se mexiam e tinha queimaduras por todo o corpo. Os órgão internos que faltavam foram retirados por um buraco de um centímetro feito no abdome. Os membros foram cortados por laser, ao que parece. Não viveu por muito tempo. Apenas o suficiente para o interrogatório.

- Terrível... - murmurou Charles, consciente de que milhares de casos de mutilações iguais àquele aconteceram desde a II Guerra, além de tantos outros que descobriram no passado mais distante a partir de registros históricos. Isto quando o abduzido voltava.

- Pudemos vislumbrar uma parte do futuro distante pelo que contou o senhor Johnson. Apesar dos dados escassos que possuímos até o momento, concluímos que a sociedade será dividida em duas partes: uma minoria que controla a economia global, representada pelos visitantes que seqüestram pessoas em busca de material genético, e outra que volta ao passado em busca de comida.

- Como? Você disse que eles voltam para buscar comida?

- Sim, senhor Charles... E nós somos a comida.

Mesmo perante o assombro do ex-agente da Inteligência, que ao ouvir aquilo perdeu o olhar no horizonte, Gibson continuou:

- O avanço tecnológico das sociedades pobres será suficiente para que voltem ao passado em busca daquilo que já não podem encontrar em seu tempo. A prática do canibalismo será comum e parece que os abduzidos no presente são levados ao futuro para servir de alimento a eles, algumas vezes sendo criados como se fossem gado de corte... Pelo que soubemos, o senhor Johnson foi trazido de volta por que eles perceberam que estava com uma gripe muito forte e não queriam contaminar o restante do "rebanho". Mas só notaram depois que já haviam começado o "abate".

- Fazem isto com a pessoa viva?

- Não temos certeza, mas achamos que é sempre assim com os americanos.

E Charles voltou os olhos instintivamente para o seu neto, que ainda estava na varanda. Pensou no futuro dele e no horrendo destino da humanidade, o qual havia lutado com todas as forças para criar em nome da felicidade imediatista e do sonho americano. Percebeu de repente que os Estados Unidos haviam ganhado a guerra contra as forças do Eixo e o domínio soviético para iniciar outra guerra, desta vez contra a miséria e a degradação social das nações do futuro.

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Parte II

6 de Dezembro de 1943, 10 horas e 12 minutos.

O médico nada pôde fazer e a situação piorou quando administrou uma droga para fazer baixar a febre altíssima da criatura. Morreu menos de uma hora depois e seu corpo foi enviado para necropsia.

Imaginando como deveria dizer aquelas coisas em seu relatório, Charles deixou o setor médico e procurou o telefone mais próximo. O que tinha ali era de tão grande importância que não poderia esperar alguns dias para ser de conhecimento do alto escalão das Forças Armadas. Discou alguns números no telefone e esperou a secretária atender.

- Alô, aqui é Charles da Inteligência... 38-71-09-55-12... Quero falar com o presidente.

A conversa durou cerca de vinte minutos, com o já esperado ceticismo do presidente, depois da qual Charles saiu da base militar levado em um jipe por um soldado. Precisava caminhar pelas redondezas do ponto de impacto da suposta máquina do tempo, conversar com os fazendeiros locais e convencê-los de que o objeto não passava de uma arma secreta do governo dos Estados Unidos.

Dispensou o soldado porque não sabia que horas poderia voltar, e quando deu por si, depois de exacerbar o sentimento patriótico de três fazendeiros barrigudos, era noite. Tarde demais para retornar à base onde, em estado de alerta, dificilmente o deixariam entrar àquele horário. Também não queria chamar um jipe pelo telefone, e resolveu se hospedar em uma pensão barata situada na cidadezinha mais próxima, local onde se encontrava um dos fazendeiros.

Exausto depois de tantas informações malucas, cigarros e xícaras de café, Charles deitou e dormiu.

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6 de Dezembro de 1943, 23 horas e 55 minutos.

Charles despertou lentamente ao som de batidas à porta de seu quarto. Ficou assustado porque estava tudo escuro e não sabia dizer que horas eram. Havia dormido até anoitecer, isto ele notou, mas ignorava que horas eram. Sonhos conturbados preencheram seu sono, e as pancadas na porta, por mais inesperadas e irritantes, ao menos o fizeram voltar ao mundo real.

Sentou na cama e tateou a escuridão em busca do interruptor da lâmpada. Assim que a lâmpada fraca acendeu, teve de fechar os olhos para protegê-los da claridade. A mola do interruptor pressionado fez um som tão alto quanto as batidas que vinham da porta, e o resto era puro silêncio.

Tomou seu relógio e viu que era quase meia-noite. Quem poderia ser àquele horário, senão Calvin?

Caminhou devagar até a porta porque o assoalho de madeira rangia sob seus passos, o que poderia chamar a atenção dos vizinhos do andar de baixo.

Antes de girar a chave de bronze, porém, procurou com o olhar pela sua arma, e a encontrou sobre o baú onde havia guardado sua jaqueta. Saber onde ela estava poderia ser importante.

Abriu lentamente a porta de madeira maciça e tentou ver quem estava lá. Não conseguiu distinguir o vulto escuro e, por isto, afastou ainda mais a porta para deixar a luz de seu quarto incidir sobre o homem. Levou pouco tempo para perceber que não era Calvin, e menos ainda para concluir que podia ter cometido um erro. Aquele homem alto e magro, vestido de preto dos sapatos ao chapéu, que segurava à altura do estômago, não era um conhecido. Talvez fosse um militar da base, mas o que alguém iria querer com ele, fosse quem fosse, àquele horário.

- Senhor Charles? - sussurrou o desconhecido encarando-o com intensidade. Parecia mais surpreso do que o homem da Inteligência.

- Quem pergunta? - devolveu ele ajeitando os óculos no rosto. Havia se acostumado a dormir com eles.

- Perdoe o incômodo... Chamai-me Ismael. Pertenço à Inteligência Americana.

Aquilo tranqüilizou Charles um pouco, todavia nunca ouvira falar no sujeito, o que era estranho porque era praticamente um dos que comandavam a Inteligência. Se o que Ismael dizia era verdade, devia ser um agente novato e raso, alguém sem importância como um garoto de recados.

- Charles sou eu. Pode falar.

- Bem, senhor, é um assunto longo. Se não se importa, gostaria de entrar ou sugerir que procuremos um lugar mais afastado dos civis.

- Por que não deixamos para depois? - sugeriu Charles sentindo os olhos pesados. - Amanhã estarei na base militar e você pode me encontrar por volta das...

- O assunto é urgente, senhor! - interrompeu Ismael elevando a voz mais do que poderia naquela pensão. Depois, mais controlado, continuou: - Trata-se do destino desta nação!

Cansado, Charles ficou observando o estranho, pesando seu pedido. Depois se afastou da porta e sentou-se à beira da cama, onde as molas do colchão cederam barulhentas com seu peso. Tomou a precaução de ficar perto do baú sobre o qual estava a pistola Colt-45.

Ismael entrou em silêncio, fechou a porta e sentou na cadeia indicada por Charles.

- Deve saber que nosso ritmo de trabalho me obrigou a passar uma noite em claro - disse ele. - Espero que tenha me acordado pelo melhor dos motivos.

- Garanto que sim, senhor Charles.

- Pois então fale! Quem o mandou? O presidente?

- Não exatamente... Vim por causa de Pashal.

O sangue gelou nas veias de Charles. Como alguém poderia saber da criatura do futuro se ele nem ao menos escrevera ainda o relatório para a Inteligência? Mesmo o pessoal da base para onde o humanóide havia sido levado desconhecia detalhes como o nome do sobrevivente. Só quem sabia de alguns pormenores eram Calvin e Roosevelt.

Como não teve reação, Ismael continuou:

- Minha missão é alertá-lo sobre as conseqüências desastrosas das informações transmitidas por aquele viajante do tempo...

- Como sabe disto? - foi a vez de Charles interromper. Buscou mais lucidez em sua sonolência e analisou com mais cuidado o estranho. Ele tinha um nariz anguloso, mas não tão grande quanto o de Charles. Seu cabelo, muito comprido para um homem de boa índole - devia ter mais de três centímetros atrás! - era mal cuidado e parecia precisar de uma lavagem urgente.

- Faço parte da Inteligência - foi o que conseguiu responder, erguendo os ombros.

- Mais parece um repórter - queixou-se Charles. - Posso ver suas credenciais?

Ismael ficou paralisado por alguns segundos, então exibiu um sorriso totalmente artificial e levou a mão lentamente ao bolso interno do paletó preto.

- Mas eu deveria dizer - ele respondeu retirando dali uma caixinha branca que mostrou para Charles - que pertenço à Inteligência do futuro.

E no mesmo instante saltou um holograma do aparelhinho, o qual mostrava em imagens muito vivas e coloridas uma foto tridimensional de Ismael, e uma série de informações escritas que Charles não conseguiu ler antes de ver o quarto girar e escurecer.

****

- Senhor Charles? O senhor está bem? - Perguntou Ismael. Segurava o desmaiado pelo braço e julgava sorte ele ter tombado para trás ao desfalecer, porque assim deitara na cama.

Charles voltava a si aos poucos, e imaginou que tudo não passara de sonho ao ver a luz do teto alto do quarto. Somente acordou para o pesadelo quando ouviu a voz do homem do futuro. Seu estado era pior do que quando despertara ao som das batidas à porta.

Procurou se livrar das mãos de Ismael tão logo notou sua proximidade, e este recuou de volta para a cadeira assim que Charles retornou à consciência.

Nada disse ao suposto visitante do futuro. Ficou esfregando a face com as mãos, relanceando a posição da pistola de vez em quando. Não tinha certeza de que estava em pleno uso de suas faculdades mentais.

Como se não tivesse muito tempo para ficar ali, Ismael retomou a conversa:

- Lamento que tenha de ser desta forma. É a melhor maneira, eu garanto... Tenho que impedir que as mentiras ditas pelo indivíduo Pashal destruam o futuro da humanidade. Você me compreende, senhor Charles?

Ainda sem foco no olhar, o homem da Inteligência de 1943 respondeu:

- Está me dizendo que Pashal mentiu sobre a bomba?

- Não... Ele mentiu sobre sua identidade e sobre o futuro do qual veio.

- Não estou entendendo mais nada! - resmungou Charles.

- Deixe-me esclarecer as coisas... Na linha do tempo original, a bomba atômica não foi usada. Os Estados Unidos da América invadiram o Japão em 6 de agosto de 45, e foram derrotados. Então, a União Soviética se voltou contra o Japão e o dominou, assim como toda a Europa...

- Já ouvi essa história. Depois o socialismo domina o mundo e os americanos desaparecem do mapa. Foi o que Pashal me disse.

- Disse também que a América seria mais um império tombado, não foi?

- Como você pode saber que ele fez este comentário? - indagou Charles respirando fundo para oxigenar melhor o cérebro. Queria voltar a raciocinar com coerência, e decidiu fazer que acreditava no que o outro dizia. Queria ver até onde ele ia.

- Está tudo escrito no relatório que você ainda não escreveu, mas que foi preservado até meu tempo.

- Tudo bem. Continue.

- O problema é que você, Charles, concluiu que a bomba atômica deveria ser usada para salvar o mundo das garras do comunismo.

- É o que eu vou sugerir em meu relatório, porque pode ser que toda essa história de viagens no tempo seja real.

- E é real! - garantiu Ismael. - Mas, como eu disse, Pashal era uma farsa.

- Como? Você acaba de confirmar o que ele disse.

- Escute atentamente, senhor Charles... Quando a América, empobrecida, se entregar ao comunismo, um grupo de patriotas da Resistência Americana vai voltar para o passado, ontem, e vão convencê-lo de que tudo seria melhor se a bomba fosse usada.

Charles não soube o que dizer. Procurou um cigarro e encontrou a caixa sobre o baú, ao lado da pistola. Aproveitou o movimento com o braço para apanhá-la para medir a distância entre ele e a arma. Concluiu que deveria esticar-se muito para pegar a Colt-45, caso precisasse.

Bateu o fundo de um cigarro contra a caixinha para assentar o fumo e depois o acendeu. Ismael, que o olhava espantado, comentou:

- Se parar de fumar agora, talvez não morra de câncer.

Acostumado com aquele tipo de comentário, Charles não ligou, a princípio. Depois lembrou que estava diante de um suposto viajante do futuro, e a curiosidade o invadiu.

- Todos vamos morrer um dia... Você sabe a data da minha morte?

Ismael não respondeu e seus olhos se perderam no vazio, voltados para o chão. Alguma espécie de digressão o atingira, concluiu Charles, mas não deu importância para aquilo.

- Essa é toda a sua história?

- Não - respondeu Ismael voltando ao presente. - Como disse, por sua recomendação, a bomba foi usada. A América se torna a grande vitoriosa da Segunda Guerra Mundial e o futuro é alterado.

- Isto é sério? Roosevelt pareceu não levar a sério minha opinião há algumas horas - disse Charles soltando uma baforada de fumaça contra o teto. - Isto, se for verdade, significa que teremos um futuro digno de se viver, não acha?

A expressão no rosto de Ismael era dura como uma rocha, ao dizer:

- O futuro ao qual se refere é o tempo do qual vim... E garanto que não existe dignidade ou beleza nele suficientes para preencher a vida de uma única pessoa.

Charles deu mais um trago e aproveitou a chance para iniciar seu interrogatório sutil.

- A que ano exatamente você disse pertencer?

- Venho de 4817.

- Conheceu Pashal?

- Como poderia? A linha temporal da qual ele veio foi destruída.

- Sendo assim, como sabe que ele existiu?

- Descobrimos isto apenas por causa de seu relatório.

"Muito esperto!", pensou Charles. Ismael havia escapado de sua armadilha, mas não poderia fazer o mesmo com todas.

- Há uma coisa que me intrigou durante a manhã, após a entrevista com Pashal... Se eu mudar o futuro, conduzindo Roosevelt a lançar a bomba atômica, então o futuro do qual Pashal veio será mudado, não é mesmo?

- Correto.

- E, sendo mudado, o próprio Pashal jamais voltaria ao passado, 1943, e eu não mudaria o futuro. Não é um dilema estranho?

- Senhor Charles, não conhecemos perfeitamente o processo das viagens no tempo, mas o que posso dizer é que quando Pashal deixou o futuro, deslocou-se daquela realidade temporal, e se tornou parte desta em que estamos agora. É como se o único resquício daquela linha temporal fosse Pashal.

- Quer dizer que se você matasse seus antepassados hoje, por ter se deslocado da... linha temporal, ainda assim você existiria, senhor Ismael?

Ele não respondeu, mas encarou Charles por um momento, pensativo. Se moveu desconfortavelmente na cadeira, então, e reiniciou sua missão:

- Senhor Charles, o mais importante é saber que Pashal mentiu sobre sua verdadeira intenção, que era fazê-lo concluir que o melhor seria usar a bomba.

- Ora!... E não é o melhor?

- Repito que as conseqüências a longo prazo serão devastadoras para a humanidade.

- Um pouquinho de radiação não fará tão mal assim! Ainda mais se for sobre os japoneses, nossos inimigos.

- Refiro-me às conseqüências sociais, senhor Charles. Se os Estados Unidos ganharem a guerra, dominarão o mundo, levando muitas nações à pobreza. Por volta do século trinta, a situação será tão contrastante que em alguns países as pessoas comerão a carne de seus mortos. Depois, ainda insatisfeitos, invadirão os Estados Unidos para raptar pessoas... para saciar a fome.

Ismael fez uma pausa para avaliar o impacto que aquilo causara em Charles. Notou que o homem de 1943 continuava fumando, devolvendo o olhar questionador como quem avalia uma proposta arriscada.

- Assim que inventarem o processo de deslocamento temporal - continuou Ismael -, estas nações desesperadas voltarão ao passado para abduzir pessoas com a finalidade de transformá-las em ração.

- Hum... Eles não terão comida, mas terão a máquina do tempo?

- Os líderes de facções empobrecidas nunca passam fome - justificou Ismael. - E estão sempre desejando a desgraça dos poderosos.

- E quem são os poderosos em seu tempo?

- Nós.

- Os americanos? Mas isto é muito bom, afinal, o que é bom para a América é bom para o mundo!

- Senhor Charles, não imagina a que custo mantemos a sanidade mental em... meu tempo - e, assim dizendo, passou as mãos pelo rosto, parecendo abatido. - Estamos em uma guerra infindável contra todos, e ninguém pode dizer que está vencendo. Por isto voltei: para impedi-lo de recomendar o uso da bomba atômica.

Charles olhou para a pistola e, depois, de volta para Ismael. Sentiu o perigo da situação crescer ainda mais depois do que disse o visitante, e aguçou ainda mais os sentidos. Um disparo poderia acordar toda a pensão, no entanto ninguém duvidaria se dissesse que seu quarto fora invadido por um ladrão. Mesmo porque a cara de Ismael não inspirava segurança, ainda que seus modos, até aquele momento, fossem educados.

- Como pretende fazer isto? - indagou Charles mudando o tom da voz para o de uma ameaça.

- Preciso convencê-lo.

- E, se não conseguir, imagino que usará meios mais eficazes, como calar a minha boca para sempre.

- Esta era a idéia original de meus superiores, mas eu intercedi por você. Garanti que poderia ser feito de outra forma.

- Intercedeu por mim? Quanta gentileza aparentemente sem propósito.

- Meu maior propósito é salvar as vidas de todos nós.

- Acontece que se a bomba não for usada, a América vai desaparecer na lama do comunismo.

- Ele também sucumbirá, como lhe disse Pashal.

- Se é assim, e se Pashal era um patriota da resistência americana, como você disse, por que ele voltaria para tentar mudar aquele futuro?

- Algumas pessoas levam tempo para esquecer o passado, senhor Charles. O grupo ao qual Pashal pertencia vivia acuado no Alasca, e o objetivo de sua existência era vingar a queda humilhante dos Estados Unidos. São inconformados. Aquela versão de historiadores que voltam ao passado para estudar eventos é uma farsa.

- Não bastaria simplesmente dizer que os Estados Unidos perdem a guerra? Seria mais eficiente.

- Você não acreditaria. Ainda agora cogita a possibilidade de Pashal ser um espião. Ele preferiu usar um meio indireto de contar a verdade, para que parecesse mais convincente. Afinal, você acredita mesmo que um historiador vindo do futuro não saberia que um militar de 1943 ficaria estarrecido em saber que a América perdeu a Segunda Grande Guerra?

Charles ficou pensativo, pela primeira vez considerando com mais seriedade a possibilidade de ser verídica a versão de Ismael. No entanto, alguma peça daquele quebra-cabeça não estava encaixando, tornando tudo muito desconexo. Com a mesma mão que segurava o cigarro, ajeitou o óculos sobre o nariz de bico de águia.

Ismael continuou o ataque:

- Você acha que um historiador esperaria que um americano do século vinte achasse o futuro belo mesmo sendo a América um "império tombado"?

- Tem razão - concluiu Charles lançando outra baforada malcheirosa. - No entanto... há algo que não entendo...

- E o que é? - indagou Ismael, pela primeira vez mostrando um sorriso sincero por notar que Charles começava a acreditar.

- Se a realidade... Se a linha temporal da qual Pashal veio foi destruída, como você mesmo falou, como pode você saber que ele era um patriota rebelde que vivia no Alasca?

O sorriso sumiu da face de Ismael tão prontamente quanto surgiu, e a cor pálida que tomou sua pele denunciou seu espanto frente a pergunta.

Charles não hesitou. Esticou o braço direito e apanhou a pistola sobre o baú, apontando-a imediatamente para o visitante. Seu rosto permaneceu tão impassível quanto se estivesse oferecendo um doce ao estranho. E Ismael, assustado, ficou imóvel, visivelmente abalado. Suas mãos ficaram sobre os joelhos, uma posição defensiva que dizia que não reagiria.

- Estas coisas não estariam escritas em meu relatório, uma vez que as desconheço. Logo, sua história possui um hiato. Pretende explicá-lo, senhor Ismael?

Confuso, o homem do futuro gaguejou, e disse:

- Meus superiores não explicaram este detalhe... Mas garanto que...

- Talvez seus superiores não tenham resposta! - interrompeu Charles. - Recomendo que volte de onde saiu, ou de quando, e invente uma história melhor do que esta.

- Senhor Charles, se soubesse o que...

- Mas eu não quero saber! Retire-se deste quarto enquanto ainda estou com pena de você, rapaz! Já passa da meia-noite e costumo ser menos tolerante às madrugadas.

Ismael se levantou lentamente e aproveitou o silêncio de Charles para comentar:

- Quero lhe fazer apenas um pedido, senhor: não esqueça meu nome. Um dia saberá que digo a verdade.

- Não esquecerei... Ismael... Agora saia e não volte nunca mais... Nem no passado!

Como se Ismael não fosse embora, Charles engatilhou a arma para intimidá-lo ainda mais. E o visitante, relutando, deu-lhe as costas e abriu a porta.

Um grito de horror surgiu da garganta de Ismael por causa do que estava do outro lado, no corredor: dois humanóides cinzentos com grandes olhos pretos. Ambos tinham quase dois metros de altura e foram vistos facilmente por Charles, que reconheceu aquelas feições: as mesmas de Pashal.

Ismael se jogou sobre eles e falava em uma língua desconhecida. Não levou muito tempo para Charles reconhecer que deviam ser os superiores de Ismael, e estavam ali para completar o serviço no qual ele falhara.

Um deles segurava um bastão branco e tentava apontar para Charles. Ismael parecia querer impedir. E, diante aquilo, Charles disparou duas vezes contra a porta, ignorando em quem os projéteis se alojariam. Ao mesmo tempo, rolou o corpo no chão três vezes e chegou até o armário, onde poderia se proteger. Mais seguro ali, atirou mais uma vez contra a porta, onde já não estavam os intrusos.

Charles viu um clarão roxo vindo do corredor, acompanhado de um zunido agudo. Depois veio o silêncio, seguido de perto por vozes e passos pela pensão: os outros hóspedes que acordaram com a barulheira.

Prevendo que não teria mais sossego por aquela manhã, o homem da Inteligência foi até a porta com cautela e perscrutou a escuridão do corredor, onde não havia mais sinal de vida.

De repente, a lâmpada foi acesa, o que assustou Charles. Do andar de baixo veio a voz do velhinho dono da pensão:

- Por Deus, o que está havendo aí em cima?

Mas Charles não respondeu. Sua atenção estava presa no assoalho, onde havia uma poça de sangue e marcas de arraste. Também havia pegadas feitas no líquido viscoso, e elas terminavam em uma parede no fim do corredor, local em que não existia uma janela ou qualquer outro meio de fuga.

Seus disparos haviam atingido alguém, talvez mais de um daqueles visitantes, entretanto não poderia dizer qual deles ou se sobreviveria.

Charles deu pouca importância àquilo, apesar de ter aumentado sua segurança dali em diante. Tudo era muito complicado para que pudesse extrair uma resposta plausível sobre o que ocorrera. Por isto decidiu esperar para ver se as predições de Pashal ocorreriam ou não.

E ocorreram.

Ignorando o incidente daquele quarto de pensão, Charles recomendou o uso da bomba atômica, colocou o vice-presidente Harry Truman no poder da América e o resultado foi a vitória dos Estados Unidos da América sobre o Japão.

****

27 de Dezembro de 1999, manhã.

Foi pouco depois do Natal que recebeu uma visita inesperada. Os seguranças permitiram a entrada de uma limusine preta na propriedade, a qual Charles teve de observar atentamente antes de descobrir que era um eco do passado.

- É aquele velho? - perguntou o agente Gibson para o seu companheiro que dirigia o carro.

- É ele... Seja breve, Gibson, pode ser que o vovô nem escute o que você vai dizer.

- Cada coisa que temos de fazer! - disse o agente abrindo a porta e aprumando o corpo do lado de fora. O velho olhou para ele como se fosse uma estátua nova que surgira no jardim, e diante disto caminhou lentamente até a varanda onde Charles estava sentado.

"Será que ainda é lúcido?", ele pensou ao ver o olhar perdido do velho.

- Senhor Charles - disse ele mais para chamar a atenção do velho, que parecia presa em seus sapatos pretos.

- Sou eu.

- Meu nome é Gibson. Fui enviado pelo coronel Norman da Força Aérea - e esperou um momento até que as informações fossem absorvidas pelo ancião.

- Prossiga, senhor Gibson.

- Fomos instruídos a informá-lo quando contatássemos um sobrevivente.

E os olhos embaçados de Charles pareceram rejuvenescer 50 anos ao ouvir aquilo. Talvez não fosse tão desmemoriado quanto achava Gibson, afinal viu o rosto do ex-agente se iluminar como se fosse uma raposa que acaba de farejar a presa.

- É um tripulante? - quis saber Charles.

- Não. É alguém que voltou.

Aquilo significava uma vítima de abdução que não apenas havia viajado num OVNI, mas que fora levada para o futuro e retornara. Um caso nunca antes encontrado por aquela sociedade secreta e um acontecimento de extremo valor, considerando que queriam saber quais mudanças haviam feito no futuro distante da humanidade.

Veio correndo pela porta uma mulher de cerca de trinta anos, e tão logo se postou na varanda, os olhos injetados de sangue e esbugalhados na face, gritava:

- Pai, tem alguém no quarto com Christopher! Eles o estão levando!

Enquanto o velho Charles assimilava o impacto do terrível susto, o agente Gibson deu um longo passo adiante. Estava acostumado com o perigo e tinha juventude suficiente para reagir de imediato.

- Onde fica o quarto? - ele perguntou para a mãe do menino, e seu tom de voz autoritário era suficiente para trazê-la de volta a um estado menos irracional do desespero.

- Lá em cima!

Esticando as pernas como um cão de caça, Gibson voou sobre os degraus e num instante estava no andar de cima. O corredor levava a três portas, e o homem de preto não teve dificuldade para descobrir em qual delas acontecia o sinistro, porque uma estava fechada, e dela vinha uma fosforescência roxa. Aquela luz não apenas escapava pelas frestas, mas atravessava a folha de madeira.

Gibson tocou nela e constatou, ao contrário de sua suspeita, que estava fria. Tomou a pistola Sig Sauer do coldre e jogou todo o peso de seu corpo contra a porta, usando o ombro como aríete.

Foi em vão. A porta cedeu como borracha macia, para depois voltar ao estado normal. Ela absorveu todo o impacto e voltou, quase jogando Gibson no piso.

Pasmo, o agente olhou de perto para ver se ela era mesmo de madeira. E era.

Por conta daquele atraso, Charles e sua filha alcançaram o primeiro andar. Ele ofegante pelo esforço, ela tremendo de medo. Encontraram Gibson tocando a porta como um louco, ao mesmo tempo em que perguntava:

- Vocês têm outra chave?

- Esta porta não tem chaves! - gritou Charles em desespero, reconhecendo a emanação luminosa das frestas como um resquício do passado.

Aquilo deixou Gibson ainda mais furioso, a ponto de investir contra a porta mais uma vez. A luminosidade diminuíra, e a madeira cedeu como isopor sob os músculos do agente.

Quando deram por si, os três estavam dentro do quarto. Gibson só não usou a arma para não ferir a criança, porque ela era usada como escudo por duas criaturas cinzentas.

Vendo aquilo, Charles gritou desesperado. Sua memória se acendeu como uma faísca, e a recordação do que acontecera no quarto daquela pensão, há mais de cinqüenta anos, veio prontamente:

"Mas eu deveria dizer que pertenço à Inteligência do futuro."

A dupla de humanóides arrastava o menino em direção a uma fenda luminosa na parede, ao lado da cama, e ele se debatia e chamava pelo avô.

Charles tentou avançar, mas seus músculos, assim como os da sua filha e de Gibson, pareciam não responder prontamente. Ele tropeçou em um boneco do Godzilla na tentativa e caiu sobre ursos de pelúcia, sentindo uma dor aguda no peito.

"Se parar de fumar agora, talvez não morra de câncer."

Charles ergueu os olhos e viu a fenda luminosa se fechando. Seu neto estava dentro dela, esticando o braço numa tentativa desesperada de voltar ao seu mundo original.

"Você sabe a data da minha morte?"

Quando a zona de teletransporte apagou, a claridade do sol, antes eclipsada por algum fenômeno desconhecido, invadiu o quarto. Gibson saiu da letargia e conseguiu apertar o gatilho, acertando a parede. A mãe de Christopher caiu de joelhos e chorou histericamente. Charles lembrou do passado:

"- Preciso convencê-lo.

- E, se não conseguir, imagino que usará meios mais eficazes, como calar a minha boca para sempre.

- Esta era a idéia original de meus superiores, mas eu intercedi por você. Garanti que poderia ser feito de outra forma."

E o que parecia uma peça solta e sem sentido, de repente se tornou a coisa mais importante na vida do velho Charles.

"Quer dizer que se você matasse seus antepassados hoje, por ter se deslocado da... linha temporal, ainda assim você existiria, senhor Ismael?"

Agoniado, o ex-agente tocou a parede onde seu neto sumira. Queria abri-la com os dedos e ir até onde aquelas criaturas o levaram, ou até quando. Mas Christopher ainda era uma criança, e Ismael devia ter vinte e dois anos.

"O futuro ao qual se refere é o tempo do qual vim... E garanto que não existe dignidade ou beleza nele suficientes para preencher a vida de uma única pessoa."

Aqueles dois humanóides deviam ser homens de um futuro distante, e raptaram o neto de Charles para criá-lo em seu tempo, preparando-o para a missão que desempenharia em 1943.

O homem de preto que esperava Gibson dentro da limousine entrou correndo no quarto. Mesmo perante a cena desoladora que encontrou, disse ofegante:

- Gibson, havia um OVNI sobrevoando a casa!

O agente não respondeu. Não havia o que dizer.

Charles olhava as coisas ao redor como se não fossem reais. Pousou os olhos em um livro sobre a cama de seu neto. Era o clássico Moby Dick, de Herman Melville, livro que havia dado de presente para Christopher no Natal. O menino teve tempo de ler apenas as páginas iniciais, as quais as mãos trêmulas do velho Charles agora folheavam.

"Quero lhe fazer apenas um pedido, senhor: não esqueça meu nome. Um dia saberá que digo a verdade."

E, logo no início do livro, a primeira frase da obra, a qual Charles leu foi:

"Chamai-me de Ismael."

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