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"O gladiador rodou nos calcanhares ante a violência do impacto arma contra arma. Seu corpo girou como um pião, os dois braços abaixados junto ao corpo e as duas mãos segurando com força o cabo do gládio. Saiu da rotação com os dois braços estendidos para a frente exatamente quando o gigante negro se arremessava contra ele com toda a sua fúria."
Despertei sobressaltado. O Supervisor estava dizendo quase aos gritos "... tratem de melhorar as vendas, do contrário já sabem, seus empregos irão para o espaço."
Enquanto descia pelo elevador, refleti: "Quanto tempo perdi? Não mais que alguns segundos. Mas para mim foi como se tivessem passado horas. E as vezes me parece que se passaram meses e até anos. O que está acontecendo comigo? Isto não é normal."
Primeiro foi a corda. Estava ao lado de um colega em plena função profissional, quando a loja subitamente desapareceu, mas o povo dentro dela não. Apenas o cenário e as roupas eram diferentes, apesar de tudo ser algo nebuloso.
"E todos olhavam para ele com os olhos arregalados, as bocas abertas. Então houve um terrível baque sob seus pés e a grossa corda mordeu-lhe o pescoço e ele sentiu-se sufocar e sufocar e tudo foi escurecendo numa agonia indescritível enquanto ele lutava em vão para respirar."
De repente, tudo passou. O colega perguntou "Ei, você está bem? Que acesso de tosse, heim? Engasgou-se, não foi?"
Depois, alguns meses depois, foi o cão. Ia caminhando pela rua imerso em meus pensamentos e preocupações. Uma mulher jovem passou por mim levando pela correia um enorme cão, que, quando me viu tão próximo, rosnou ameaçadoramente. Assustei-me, mas quando olhei, o cão já não era mais um cão, a rua já não era mais a rua e eu estava nú.
"Sua pele era negra como o ébano e ele estava paralisado de pavor, frente a frente com o terror animal assassino contra o qual não havia escapatória. Gritou o grito alucinante da dor da morte quando sentiu o peso esmagador do leão sobre si e as mandíbulas se fecharem em sua barriga e os dentes famintos arrancarem suas carnes."
Olhei em volta aturdido, mas a mulher com o cão já estava a uns dez metros de distância. "Meu Deus", pensei, "o que tinha sido aquilo?"
Não que todas as visões fossem aterrorizantes: algumas eram ótimas, como quando olhei com desejo para uma mulher em um bar e o bar desapareceu e eu estava sobre ela e dentro dela em uma cama e em um quarto que eu nunca vira na vida.
"Ela exalava um cheiro horrível de ranço e perfume misturados e quando abriu a boca num estertor de prazer, ele viu que seus dentes eram todos estragados e sentiu seu hálito fétido enquanto ela procurava sua boca para beijá-lo. Mas tudo aquilo só fez aumentar ao ápice seu desejo e ele se despejou violentamente dentro dela enquanto ela o apertava com braços e pernas e pés e mãos e gritava e se desmanchava em convulsões e espasmos."
Já consultara diversos especialistas e a resposta era sempre a mesma: "O senhor tem estafa, precisa trabalhar menos, preocupar-se menos, alimentar-se melhor." - Se eles conhecessem meu Supervisor...
Eu me sentia cansado, sim, mas muitas vezes me senti cansado na vida e nada havia acontecido; e se todos os que estivessem cansados tivessem esse tipo de alucinação, então o mundo já estaria completamente psicopata há muito tempo!
E eu não ousava contar meu drama para ninguém a não ser para os médicos, com medo que me considerassem inapto e me internassem em algum asilo para loucos.
Mas hoje eu estava indo a um tipo de médico diferente, recomendado pelo último clínico que consultei e que ficou muito impressionado com as histórias que lhe contei. Foi o único que prestou atenção a elas - os outros limitaram-se a prescrever exames (Ora, isso eu também faço!) e o indefectível "férias" em menos de cinco minutos de consulta. E mais: escreveu um copioso resumo de meu estranho problema para que eu o levasse ao outro - embora eu não o tenha entendido em nada, face aos termos médicos empregados que de quando em quando vislumbrava em meio aos hieróglifos de sua caligrafia.
Com um pouco mais de confiança, mas ainda extremamente ressabiado, compareci ao endereço indicado. E me deparei com um consultório humilde e com um senhor de uns sessenta anos que me inspirou até um certo respeito.
"Estaria disposto à uma regressão?" - ele perguntou. - "Não sei." - respondi - "Talvez se o senhor me informasse o que é isso." E ele me explicou que, por meios hipnóticos, eu recuaria conscientemente no passado até antes de nascer. Achei que tudo aquilo era uma rematada charlatanice, mas, como sou educado, acedi. Afinal, não custava nada satisfazer à vaidade do ridículo homenzinho, coisa que estou acostumado, vendedor que sou, a fazer a todo momento. Marcamos dia e hora, que, feliz ou infelizmente, nunca chegaram.
No dia seguinte, eu estava em um ginásio, na convenção dos vendedores da empresa, meu Supervisor sentado ao meu lado, e o Diretor-Presidente discursava já há mais de uma hora...
"Era uma nave espacial, com toda a certeza. Uma grande e poderosa Nave Espacial. Eu estava sentado em uma poltrona grande, cheia de botões em seus braços e situada em nível mais alto que as dos outros doze tripulantes e no centro de um vasto salão circular. À minha frente, uma grande tela, ladeada por outras tantas bem menores cheias de símbolos e locações do espaço sideral, relampejou e um rosto duríssimo, de barbas pretas e semblante carregado, olhou-me com uma força descomunal."
"Por que fez isso?!" - E sua irada voz retumbou pelo recinto, fazendo todos estremecerem e interrompendo todas as atividades.
"POR... QUE... FEZ... ISSO...??!! - Repetiu com mais ênfase enquanto um punho poderoso levantou-se e esmurrou a mesa à sua frente.
"Sabe o que a sua leviandade poderia ter causado?!" - outro tremendo murro - "Sabe que sua ação irrefletida poderia ter rompido irremediavelmente a Lei da Causalidade e até destruído o Universo inteiro??!!"
Arregalei os olhos de espanto, o que não passou despercebido ao gigante.
"Doravante," - ele disse, já mais calmo - "controle esse seu dom; ou acabará perdendo o seu Comando, o que seria uma lástima perante suas aptidões. Apresente-se a mim em Alfa Albireo Sete imediatamente, para avaliação dos danos." E desligou.
E aí, de repente, tudo me voltou. E fiquei imaginando a cara do meu ex-supervisor quando eu desapareci bem ao seu lado...
Pois agora, finalmente, eu estava em casa.
Fim
Copyright 2000 - Por Carlos Silveira Filho.
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