Inicial    Novidades    Autores    Grupos    Editorial    Opinião    Estatísticas    Recomendados    Links    E-mail   
INFORMAÇÕES    
Autor: Waldy Pereira Filho.
Título: A Notícia.
Publicação: 20/09/2005.
Categoria: Ficção Fantástica.
Download - PDF ZIP 70Kb.

Você pode copiar o material apenas para uso privado e de acordo com a lei de direitos autorais.

OUTRAS OBRAS DO AUTOR
Hermes Desperta.
Natal no Eridanus.
FICÇÃO FANTÁSTICA      
A Notícia.
Por: Waldy Pereira Filho.

Imagem da Internet

"Programa compilado com sucesso" - brilhou a mensagem na tela do microcomputador, enquanto uma onda de relaxamento percorria meu corpo.

- Este deu trabalho, mas agora é só fazer uma requisição de processamento autorizando a execução durante a madrugada. Um a menos na lista.

Estava eu novamente a falar sozinho, mas quem se importa afinal. Agora já posso relaxar, pois o corpo solicita uma parada. Uma conferida no relógio e levo um susto ao verificar que é fim de expediente. Um dia cheio e as horas passaram como se fossem minutos. Não deu nem para tirar a bunda da cadeira e ainda sobrou muito trabalho. Tenho que equilibrar esta conta, pois estou com um superávit de tarefas recebidas enquanto aumenta o déficit nas realizadas, será que existe empréstimo de tempo? O pior é ter que encarar o feitor que se oculta atrás da porta com a placa de gerente.

Vou à janela dar uma espiada, não que fosse possível ver algo além de uma parede lisa cinco metros à frente, ou um pedaço de céu tristonho. Sinto um arrepio ao imaginar o frio que deve estar lá fora, dessa vez o pessoal da previsão do tempo acertou e a frente fria chegou gelada mesmo. Para quem gosta do inverno é um prato cheio. Olho para minha mesa dominada por papéis em confusão. Amanhã vou pôr em ordem essa bagunça, mas agora é desligar o microcomputador e fechar bem a sala antes de sair, para deixar o trabalho bem preso, pois num descuido e ele me acompanha até em casa.

O elevador não demora a chegar, a porta abre com aquele som metálico, não gosto de elevadores, deve ser claustrofobia. Minha imagem refletida no espelho parece estranha, acho que está na hora de alguém limpar essas marcas de dedos aí.

Ao sair do edifício sou recebido pelo vento gelado. Apresso o passo pensando em chegar o mais rápido possível em casa, já é noite, mas o relógio marca apenas 18:40 horas. É só na esquina que percebo como a rua está vazia. Coisa estranha parece domingo. Lembro que só a mulher do cafezinho entrou na sala esta tarde e foi a última pessoa que vi e até o telefone, por incrível que pareça, manteve-se calado.

Continuo a caminhada agora mais atento e minha estranheza segue aumentando, pois não encontro pedestres ou automóveis circulando nas ruas e as portas das lojas estão abertas, porém com seus interiores vazios, algumas mesmo às escuras como que abandonadas ha muito. Parece que até os cães vagabundos sumiram e o único som é o do vento assobiando pelos cantos dos edifícios.

Na praça o busto de bronze, mudo como sempre, mantém seu olhar perdido e a expressão metálica, sujeito sem graça que até os pombos desprezam e os namorados ignoram. Por falar nisso, onde estão os namorados? Estes bancos estão sempre cheios a esta hora, com alguns casais bem empolgados em suas trocas de carinho. Dizem que é para se manterem aquecidos, o que não deixa de ser verdadeiro. Mas neste momento o ruído de meus passos sobre o pedrisco de alamedas tão desérticas não é boa companhia.

No cruzamento o único movimento é o das luzes do semáforo, mudando de verde para amarelo, depois para o vermelho e novamente para o verde, iniciando um novo ciclo. Cruzo pela faixa de segurança e quase sou atropelado por uma folha de jornal, que passa voando sem respeitar o sinal fechado. Deve ser a página policial.

Todos os dias sigo por essas mesmas calçadas, ao longo dos mesmos muros, atravessando ruas nervosas. Mas hoje tento ver o que nunca foi preocupação. Qualquer movimento ou som atrai minha atenção, detalhes na paisagem são alvo de meu olhar, na busca pelos fantasmas do caminho. Sim, todas aquelas pessoas que encontramos, mas que encaramos como parte da paisagem e que ficam para trás, sem deixar qualquer marca, após nossa passagem. Onde estão todos?

Em frente ao edifício em que moro, sinto uma onda de tranqüilidade, como se fosse um marinheiro ao chegar em um porto seguro, durante uma tempestade. Olho mais uma vez em ambas as direções da rua, tudo parado, até mesmo o vento cessou. Sinto um pingo de água e instintivamente volto o rosto para o céu. Nuvens de chumbo iluminadas pela poluição luminosa, que é a praga que afugentou as estrelas e nos tirou parte da beleza das noites. Somos pobres seres urbanos, presos no concreto, envoltos numa redoma de fumaça e luz.

Atravesso a portaria, mas nem sinal do porteiro. Aqui também está tudo entregue às baratas, que por falar nisto, elas também não estão em seu posto. Isso começa a dar nos nervos, parecendo um filme "B" de terror, onde os personagens sempre fogem por lugares vazios e insólitos, perseguidos por maníacos pouco convincentes.

Mas chego são e salvo a meu apartamento, abro a porta e a sensação familiar me devolve o ânimo, ao menos os peixinhos do aquário ainda estão lá, nem tudo está perdido. Ainda estou curioso sobre o que pode estar acontecendo, mas já posso voltar à tranqüilidade da rotina.

Esparramado no sofá, banho tomado, lanche feito, pego o controle remoto e ligo a televisão, para ver o jornal das oito e possivelmente matar a charada.

Surge a imagem do âncora do jornal, dando a última manchete antes do seu inicio.

- Hoje às 15:00 horas ocorreu um fato extraordinário, o mundo acabou.

Fico boquiaberto, enquanto na tela surge a vinheta de abertura do noticiário, acompanhada do rolar de caracteres trazendo o nome da equipe jornalística. Ainda bem que vi o jornal, já pensou se amanhã levanto cedo e vou para o trabalho! Boa Noite.

Fim

Todas as obras têm autorização para publicação neste site e são responsabilidade de seus autores. A cópia de qualquer conto para uso público ou para fins econômicos e financeiros sem autorização do autor é EXPRESSAMENTE PROIBIDA! Qualquer dúvida entre em contato com o autor da obra ou com o Scriptonauta, através de nosso e-mail.


Todos os direitos reservados para Scriptonauta e Sekmet Tecnologia de Informação.