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Autor: Roberto Kiss.
Título: Declaração de um Alienado.
Publicação: 25/09/2006.
Categoria: Policiais.
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POLICIAIS      
Declaração de um Alienado.
Por: Roberto Kiss.

Imagem da Internet

Eu tinha de faze-lo, não me interessa se vai me taxar de louco ou me manter em um asilo pelo resto de minha vida, tinha de ser feito e eu decidi fazer.

Vou te contar a história inteira, todinha. Desde onde eu acho que é o começo. Desde que Silvia tinha comprado aquele espelho antigo, aquele maldito espelho desgraçado, pesado, e que dava calafrios. O engraçado é que, no começo, não tinha reclamado muito, tinha até gostado. Ela tinha ficado com mais vontade de transar, de fazer coisas diferentes, coisas loucas. Uma vez, saiu apenas com uma camiseta comprida para trabalhar, e, apesar de tudo, não fiquei com ciúmes... fiquei foi excitado.

Acho que foi ai eu notei que algo estava errado.. eu estava gostando daquilo. Vá a merda doutor! Não, não cheguei a perceber isto antes não. Na verdade, só percebi isto mesmo pois fiquei um tempo meio distante, fazendo um serviço lá no Amazonas. Deve ter sido por isso que notei o quanto ela estava mudando e o quanto eu tinha também mudado. Bom, pelo menos um pouco.

Bom, eu discuti isto com ela, quer dizer, briguei feio com ela sobre isto, sobre o que ela estava fazendo, perdendo as medidas de tudo aquilo. Foi no quarto dela sabe? Ali, naquela porta, onde também estava o espelho.

Onde está o corpo dela agora...

Não, não quero chorar agora, quero contar tudo e ver o que vão fazer comigo. Pessoalmente, prefiro que me taxe de louco. Acho que será mais fácil para aceitar. Pelo menos para meus pais. Bom, eu briguei feio com ela, e ela sempre falando de um jeito meio distante, como se o que eu falava não tivesse a menor importância. Acho que não tinha mesmo. Não, não foi ai que vi a coisa no espelho não, foi depois, bem depois. Só sei que nesse dia ela tinha me dado o fora, dizendo que iria consumir a vida dela com os prazeres que bem entendesse. Foi exatamente esta a palavra, "consumir".

Não aceitei aquilo fácil, acho que ainda não aceito. Gritei que ela estava agindo de forma infantil e coisa e tal. Sabe o que ela fez? Me deu um chute no saco que me deixou quase meia hora no chão. E sumiu do apartamento. Não foi a primeira vez que enfrentei tal coisa, mas foi a que mais me machucou. Por dentro.

Depois de outras tentativas, que também doeram, eu desisti dela. Fui viver minha vida e tentar esquecer o que ela tinha significado. Não demorou muito para as notícias aparecerem na TV, sobre as mortes.

NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, E NÃO!!!!! Foi ontem que eu juntei as coisas, não no primeiro dia. No primeiro dia eu era só um curioso como todo mundo. Via o noticiário a noite e ficava pensando em quem teria feito aquilo. Todo mundo ficou olhando aquilo. Primeiro começou devagar, coisa de um por semana, depois foi aparecendo mais e mais. Aí veio a informação de que era uma mulher que estava matando e mutilando os rapazes. Quando ficou uma morte por dia ai que comecei a olhar desconfiado na rua. Como é que tantos homens podiam ser mortos e feitos em pedaços assim? E por apenas uma única mulher? Eu pessoalmente achava que devia ser mais de uma pessoa que fazia aquilo.

A coisa foi ficando feia, logo, mulheres e mocinhas também começaram a ser mortas, as vezes três em um só dia. Sei que sabe de tudo isto, mas estou tentando por em ordem como foi que as coisas aconteceram para o meu lado. Lembra de quando mostraram no mapa onde os corpos foram achados? Lembra do cara lá na TV, ligando os pontos pela ordem em que foram mortos? Formando aquele desenho complicado? Bem, foi ai! Ai que me interessei de vez pela coisa, pois eu podia jurar que já tinha visto aquele desenho, mas não lembrava aonde.

Olha no espelho, na parte de cima dele, na moldura. É o mesmo desenho. Percebi alguns dias depois, quando vi uma foto antiga de minha namorada aqui na casa dela, quando ela trouxe o espelho. Eu vi o desenho e fiquei assustado. Isso foi ontem.

NÃO! QUER DEIXAR EU CONTAR? Não foi ontem mesmo que decidi matar ela. Por que seria? Eu liguei para ela antes, e ela atendeu, com uma voz gostosa que você tinha que ouvir. Dizia que estava solitária e com medo de andar a noite, com todos aqueles crimes. Bem, ela falou para eu ir até lá para ficar junto sabe? E eu fui. Nem sei bem porque, simplesmente achei que tinha que ir e fui.

Foi uma noite maravilhosa, gostosa, com muito carinho. Nem parecia aquela mulher que me acertou o saco. A noite inteira doutor. Ela estava insaciável, e, parece que eu também. Foi de manhã, quando acordei... Sim, foi a noite inteira, mas eu devo ter dormido uma hora, não? Eu acordei e vi ela olhando para o espelho, acariciando o seu corpo. DEIXA EU CONTAR!!! Ainda não foi ai que vi a coisa no espelho, mas está perto, bem perto.

Bem, ela se virou para mim, com uma cara de malícia que me deixou doido. Então, sabe o que ela me disse? Sabe? Que o que eu tinha pensando ontem estava certo, que ela era quem estava matando todo mundo e que eu era o próximo. Eu gelei! Ela pegou uma arma, esta arma que o guarda tem nas mãos agora e a jogou para mim, dizendo para eu me defender se pudesse. Eu não entendi. Fiquei olhando para a arma que caiu na cama, a poucos dedos de meu pé direito. Olhei para ela e ai que vi. No espelho, no reflexo dela, uma coisa estava como que entrando nela. A coisa olhou para mim e começou a rir com desprezo, ao mesmo tempo que Silvia ria. Ela começou a vir para cima de mim com algo nas mãos, parecia um pedaço de gelo.

Um pedaço de vidro de espelho? Podia ser, não reparei direito. Só sei que ela vinha e a coisa só ria no espelho. O que eu podia fazer? Estava apavorado! Peguei a arma e... bem não consegui atirar nela, assim, atirei na perna dela. Meu pé doeu na mesma hora. Olha só... O tiro que dei nela acertou em mim. Um reflexo. Não, não atirei sem querer na minha própria perna, atirei na dela, mas fui eu quem foi atingido.

Os dois só riam daquilo, eu olhava para minha perna sangrando, e não sabia o que fazer. Só sabia que não podia fugir daquele jeito. Olhei para o espelho de novo e.. sei lá o porque, mas apontei a arma para a coisa no espelho. Os dois pararam de rir. Sabe? Eles ficaram assustados quando fiz aquilo. Daí ela veio correndo e enterrou aquela, como era mesmo? Pedaço de vidro aqui no ombro. Olha só! Ainda está sangrando.

Sim, tenho certeza de que não preciso de médico agora. Não foi muito fundo, e claro que está doendo!! Mas é só não mexer o braço que está tudo bem. Vou ganhar um monte de pontos depois.

Bom, eu atirei nesta hora, várias vezes, contra a coisa no espelho. Um monte de sangue saiu dela, um monte mesmo. Silvia ficou cambaleando na mesma hora que a coisa e os dois caíram no chão ao mesmo tempo, a coisa no espelho e ela no quarto. Ai fiquei parado olhando para os dois, até que percebi que o espelho não tinha mais a coisa. Acho que um dos vizinhos chamou a polícia e acho que o resto já sabe. Sou louco ou não?

Como assim não exatamente?

Eu sei que tem coisas estranhas que poderiam me influenciar, já deve ter visto algumas no quarto, mas o fato é que eu acredito em cada palavra do que disse! Cada uma!

Qual parte não faz sentido? Você viu o quarto inteiro? Ótimo! Então notou o pequeno detalhe. Que detalhe? Se olhar no espelho vai ver sangue espirrado por toda parte, mas no quarto está tudo limpinho, não está?

Não Está?

NÃO ESTÁ????

SIM OU NÃO? putz!

Então por que não responde logo? HÁ!!!! Viu? Difícil aceitar isto não é?

Sim, claro que vão achar uma explicação para isso... depois! Tem alguma agora? Eu sabia. Bem, é esta parte que não faz sentido? Não? Nem o desenho do espelho? Então o que está errado? Tudo o que eu disse se encaixa ou não?

Que coisa?

Como assim um importante detalhe que eu não estou notando? Fala logo putz!

Não é o corpo de minha namorada alí no chão?

Mas... Eu atirei... eu vi... é do demônio?

Não?

Então de quem?

DE QUEM É?

MEU?!?!? Eu sou quem???

Que brincadeira besta! Olhar no espelho? Claro! Tem um ai? Eu que não vou no quarto.

Obrigado.

Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!

****

Interrompemos este programa para uma notícia especial. Há poucas horas, o assassino carniceiro responsabilizado pela morte e mutilação de mais de oitenta pessoas foi encontrado morto no apartamento de sua namorada. Aparentemente, ela seria sua próxima vítima e conseguiu se defender. Segundo o psiquiatra da polícia ela entrou em choque devido ao ocorrido e, ao menos por enquanto, não há perspectivas de que se recupere. Maiores informações a qualquer momento.

Fim.

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