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Naquela noite, em Sunnydale, Buffy Summers sonhou.
Estava a pé no meio de um deserto, um vasto pedregal de calhaus miúdos que se estendia até o horizonte. Era meio-dia e o sol jorrava na planície pedregosa. E, bem longe, no horizonte recuado, alteava-se uma cadeia de montanhas com os picos cobertos de neve. Buffy sorriu para o céu azul onde vogavam fantasmagóricas massas brancas de nuvens, e pôs-se a caminho. Estava só, inteiramente só. Apesar disso, ou por causa disso, sentia-se feliz.
Foi quando viu o homem. Ele se achava parado ali, de costas para a Caçadora, com os pés afastados plantados firmemente no chão e brandindo no ar uma enorme espada de aço reluzente. Tomando coragem, Buffy gritou:
- Alô, você! Andou esperando por mim?
O desconhecido voltou-se e Buffy o examinou com o olhar; o que tinha na sua frente era a figura de um homem alto, de físico avantajado, vestido com roupas de couro preto tacheadas e calçado com longas botas polidas. Buffy não sabia dizer se ele era uma criatura humana ou um demônio. A barba rala tipo pera e os cabelos compridos e revoltos eram do mais profundo negrume. Em seu rosto moreno estranhamente juvenil havia um certo ar soturno; e, embora ele não parecesse mau, havia mais do que uma sugestão de algo sinistro em seus traços rústicos mas atraentes, realçado pelos profundos olhos negros selvagemente luminosos. Seus braços musculosos manejavam a pesada espada com habilidade e uma graça quase poética.
- Não tenho medo de você - disse Buffy, impassível.
Subitamente, um tropel de cavalos começou a fazer a terra tremer. Buffy pulou de susto. Esquadrinhou com o olhar o deserto a seu redor, sem ver nada. Parecia-lhe que um invisível exército de gigantes cavalgava em sua direção. O monstruoso tropel crescia cada vez mais e abalava céus e terra. As nuvens dançavam, e no meio dos desolados e distantes picos nevados reverberava um som de trovão que sugeria rodas de titânicos carros de combate que sacudiam a terra com um estrondo terrível.
- Tá legal, Cavaleiro Negro - exclamou Buffy. - Como é que a gente sai desse lugar maluco?
E eis que, de repente, Buffy se viu em pé sobre um penhasco. A grande massa de rocha escarpada erguia-se como uma sentinela poderosa e imóvel na beira do deserto. Agora Buffy podia enxergar uma porção maior da estranha região onde estava, e ela observou que, em cada lado do enorme penhasco, imperavam condições diferentes. À esquerda estendia-se a planície desértica recamada de seixos que a Caçadora acabara de deixar. À direita havia uma confusão de dunas de areia e grandes lapas de rochas nuas a perder de vista, sob um sol inclemente e um céu sem nuvens. Do alto de seu posto de observação, Buffy olhava perplexa; como uma grande maré de devastação varrendo tudo à sua frente, o maior exército de todos os tempos invadiu as terras áridas daquela paisagem primitiva, rapidamente engolindo o deserto de todos os lados à medida em que avançava, marchando com um barulho ensurdecedor semelhante ao de cem mil trovões estourando ao mesmo tempo. Buffy jamais vira tantos guerreiros e soldados, homens de muitas terras e muitas eras: da Índia védica e do Egito antigo, da Grécia e da Mesopotâmia; gregos antigos, legionários romanos, bárbaros godos, vândalos e hunos; cavaleiros medievais, divisões Panzer e soldados americanos da II Grande Guerra. Ali estavam os exércitos de Alexandre e de Júlio César, de Gengis Khan e de Hitler. E um número incalculável de outros combatentes de vários povos e épocas da história humana que ela sequer conhecia ou saberia identificar. Uns em carros de guerra, outros em cavalos, revestidos de cobre, bronze e ouro, ferro e aço, os guerreiros movimentavam-se estrondosamente em longas linhas ordenadas, e Buffy notou que foram assumindo uma formação mais cerrada, reunindo-se em círculos concêntricos ao redor do rochedo onde ela se achava. Pareceu-lhe estar olhando para um imenso oceano de metal fundido que rebrilhava aos raios do sol.
- Mas o que é que eu tenho a ver com tudo isso?
Um toque no ombro fez Buffy voltar a cabeça. Em pé a seu lado estava o musculoso espadachim de cavanhaque e cabeleira negra que a caça-vampiros encontrara no reg, o deserto de pedregulho. Ele fez um gesto na direção do mar reluzente de aço que parecia cobrir o deserto de extremo a extremo, varrendo a distância com o braço estendido, enquanto seus olhos permaneciam fixos sobre a figura pequena e esbelta da caça-vampiros.
- Este é o seu exército, princesa. - A voz dele era surpreendentemente suave, embora cheia de crueldade.
Olhando para baixo, Buffy viu o deserto se enchendo lentamente de sangue, como a água que enche pouco a pouco uma banheira, e o exército dos exércitos com os corpos de cavalaria, de blindados e até elefantes de guerra pisando aquele sangue que subia cada vez mais alto... Buffy sentiu náuseas. A onda rubra que aparecia à sua frente continuou avançando até alcançar as bordas do penhasco e logo engolfou a escarpa numa enxurrada de sangue que escorria e engolia e engolia. Buffy começou a correr, queria escapar daquele cenário maldito. Seus pés estavam ensopados de sangue. De repente parou. Sua visão turvou-se. Tudo à sua volta parecia encoberto por uma névoa vermelha... como um véu sangrento... vermelho, tudo vermelho... uma vermelhidão sem fim...
A luz avermelhada do sol poente refletia-se na lâmina azulada da espada que Buffy empunhava com ambas as mãos, pronta para se defender. Seus olhos inquietos percorriam o campo de batalha iluminado pelo flamejante pôr-do-sol, procurando eventuais inimigos, mas nada se mexia através de todos aqueles quilômetros de planalto coalhado de corpos de guerreiros mortos. Um cenário dantesco. O grande disco vermelho brilhante do sol, baixo no horizonte, derramava torrentes de uma luminosidade espectral sobre o terreno rochoso e estéril encharcado de sangue humano. E coberto pelos destroços de guerra: armaduras despedaçadas, lanças e espadas quebradas, capacetes e escudos amassados. Aqui e ali havia os restos de uma carruagem destruída. Lançando um rápido olhar para si mesma, Buffy notou que usava uma espécie de armadura de couro envernizado com peitoral de bronze, braceletes nos braços e nos pulsos, e botas de couro macias que chegavam à altura dos joelhos. A lâmina da espada que segurava tinha quase um metro de comprimento.
“Sou uma amazona”, pensou Buffy, toda confusa. Ela perambulava pelo silencioso campo de batalha, por entre os mortos ensangüentados e carbonizados - tributo à depravação humana - como uma personificação da Morte vagando pelas ruínas de um mundo destruído, pós-apocalíptico. Corpos queimados de homens e cavalos jaziam na rocha nua daquele planalto selvagem, testemunhas mudas do Armagedon.
De repente, uma terrível aparição surgiu diante de Buffy. Era um jovem alto, forte, vestido com uma malha protetora de metal manchada com placas purpúreas de sangue coagulado, segurando uma formidável espada no grande punho arranhado em atitude ameaçadora. O capacete de aço com pontas mostrava as marcas de golpes violentos. O rosto era uma máscara de puro ódio irradiando um furor insano. Parecia um endemoniado saído diretamente das infernais hostes do Tártaros. Apesar disso, Buffy reconheceu aquele rosto, que já fora belo, e sentiu o sangue gelar.
- Riley!
Com as mãos agarradas ao cabo da espada, Buffy recuou.
- Portadora da destruição! - berrou o ensandecido Riley, os olhos chamejantes como duas labaredas de um azul real vivo. - Guerreira, é o que você se diz, assassina é o que você é.
Vamos! Lute, cadela! Somente um de nós continuará vivo.
A Caçadora ergueu sua espada, segura com as duas mãos, e apontou a lâmina afiada na direção do grandalhão de armadura de aço.
- Para trás! Afaste-se! - exclamou Buffy, gritando o mais alto que podia. - Não quero matar você...
- Vá para Tártaros!
Riley urrou e deu um salto para a frente, numa fúria absolutamente cega, com a espada descrevendo um relampejante arco metálico. Mas a espada de Buffy aparou o golpe, e as duas lâminas colidiram soltando faíscas no ar. Buffy lutava por sua vida. Tentou apenas defender-se, mas o colérico Riley golpeava seguidamente com sua poderosa arma, e os golpes eram cada vez mais perigosos. Uma fúria guerreira foi crescendo dentro dela, os instintos primordiais de uma caça-vampiros impelindo-a a se lançar contra o antagonista. O ódio tomava conta de sua alma. Com uma força descomunal, Buffy desfechou um golpe terrível que acertou em cheio o peito do adversário, na altura do coração. A lâmina afiada azul-prateada rasgou a malha de aço, os ossos e o coração de Riley. Com um grito cortante de agonia, olhos vidrados, o robusto guerreiro tombou numa poça de sangue de um vermelho carmesim, morto aos pés da esguia Caçadora de cabelos louros.
- Riley! Meu Deus, o que foi que eu fiz?
Buffy caiu de joelhos ao lado do corpo inerte do ex-namorado convertido em espadachim. Sentia-se tão derrotada, nauseada, desesperada. O combate trouxe à tona o seu lado obscuro - o lado negro das caça-vampiros, a treva dentro de si. Sabia que nunca mais seria ela mesma, a linha divisória não mais existia, o limiar fora transposto. Ela matara um ser humano. Matara Riley Finn. Então, como que realizando algum cruento ritual atávico, mergulhou as mãos no sangue de Riley e o espalhou pelo rosto, pintando-se com o sangue do morto. Era uma reversão à primitividade, que evocava batidas de pés nus e o rufo dos atabaques.
De repente Buffy levantou os olhos. Diante dela, trajado de couro negro, estava um homem em pé. Era o guerreiro musculoso de cavanhaque e espessa cabeleira negra que Buffy encontrara no deserto pedregoso. Ele se abaixou para pegar as mãos dela e ajudá-la a ficar de pé, ao mesmo tempo que seus olhos negros pareciam queimar sobre a moça. - Bravo, princesa! - ele exclamou suavemente, a satisfação clara em sua voz. - Matou seu primeiro inimigo em combate, seu primeiro inimigo humano. É uma verdadeira guerreira. Agora, deve beber o sangue dele.
Ele lhe apresentou, à guisa de caneca, um crânio humano cujas partes acima dos supercílios haviam sido serradas e o interior, dourado. Estava cheio de um líquido vermelho, de um vermelho vivo, com espuma vermelha, espuma de mau cheiro. Buffy sabia que aquele era o sangue de Riley misturado com cerveja - e ficou paralisada. A voz do homem de preto soou forte e peremptória.
- Beba o sangue do inimigo abatido, como convém a uma princesa guerreira.
Hesitante, ela tomou em suas mãos a macabra taça cheia daquela beberagem obscena. Então, como que impelida por um espírito maligno, levou-a aos lábios e bebeu, bebeu e sorveu até a última gota. Ah, foi doce e selvagem, exacerbou o ardor guerreiro da caça-vampiros. A dor tinha passado; a confusão tinha passado. A natureza selvagem da Caçadora, livre, além do bem e do mal, se manifestava com toda a ferocidade que a caracterizava. E, acima de tudo aquilo, a voz do homem de preto soava como ferro. - Você logo se acostumará a matar. Não haverá mais dor ou remorso, só prazer. Farei de você um terror dos homens e o flagelo de todas as nações da Terra. E o mundo inteiro se curvará a seus pés.
Nãããooo!!!
****
Buffy despertou sobressaltada e aos gritos, em sua própria cama, em seu próprio quarto. Em sua casa, em Sunnydale. Estava escuro quando abriu os olhos. O relógio digital na mesa de cabeceira marcava 00:05 h em números suavemente iluminados. Buffy sentou-se empertigada na cama, tremendo, chorando baixinho. A porta se abriu. Alguém acendeu a luz. Buffy virou-se e olhou na direção da porta do quarto. Willow, Tara e Dawn estavam paradas à sua frente, com cara de sono, os cabelos desgrenhados e os olhos arregalados.
As três pareciam genuinamente preocupadas. Aproximaram-se devagar, parando ao lado dela. Willow sentou-se na cama ao lado de Buffy e colocou a mão em seu ombro num gesto terno.
- Buffy, você está bem? - ela quis saber. Usava um robe violeta sobre a camisola cor de rosa muito fina e transparente.
Buffy assentiu com a cabeça. Levantou-se e andou lentamente pelo aposento até a penteadeira. Apanhou o robe azul em cima do móvel e vestiu-o.
- Ouvimos seus gritos - comentou Dawn laconicamente. Seus imensos olhos azuis pareciam um par de safiras brilhando.
- Tive um pesadelo - respondeu Buffy, olhando para ela. Em seguida olhou para Willow e finalmente para Tara. - Eu estava num deserto...
Contou a elas o que lembrava daquele sonho desesperador e impressionante. Um sonho sem precedentes com a presença, em muitos momentos, de um sombrio guerreiro que, de alguma maneira, exerceu um forte poder sobre a Caçadora.
- ...Alto, moreno, bonito, todo vestido de couro preto, parecendo metaleiro, só que carregava uma espada. De repente, a terra tremeu. Um número imenso, mas imenso mesmo, de soldados de mil povos e épocas diferentes cobriu todo o deserto. Quando marchavam... era como um trovão, toda a terra tremia. Até aí, tudo bem. Foi quando eu vi o deserto se encher de sangue, virar um mar de sangue que submergiu a Terra inteira... Eu corri, e a torrente de sangue estava correndo atrás de mim! E meus pés estavam pisando aquele sangue... Horrível, simplesmente horrível!
- Nós compreendemos - disse Tara, procurando alisar com os dedos seu cabelo em desalinho.
- Um sonho ruim e tanto - concordou Dawn.
- Sanguinolento - endossou Willow.
Entrementes, imersa em seu pesadelo particular, Buffy prosseguia. - ... o horror dos horrores: cadáveres, cadáveres e mais cadáveres a perder de vista, esturricados, ensangüentados, amontoados uns sobre os outros... Milhões deles. Guerreiros todos eles. Olhei para mim mesma e verifiquei que eu também era uma guerreira, estava usando uma armadura de couro e trazia uma espada nas mãos. Então, ele apareceu... Riley estava no meu sonho, todo encouraçado como um cavaleiro medieval. Ele era o inimigo. Ele golpeou primeiro e eu tive que me defender... Eu o matei! Fiz coisas hediondas, besuntei a cara toda com sangue... Depois o espadachim vestido de metaleiro me induziu a beber ritualmente o sangue do Riley morto, misturado com cerveja, numa “caveira-caneca”, uma caveira de verdade dourada por dentro! Senti o gosto do sangue com álcool... Argh!
Dawn fez uma careta.
- Que nojo! - disse ela.
- Pois é. Já tô até vendo, o Spike rolando no chão de tanto rir...
- Meu Deus, Buffy, você sonhou que era a Xena ou a Condessa Drácula?
Buffy mediu a irmã caçula de alto a baixo com o olhar e dirigiu-se para a janela.
- Isso não tem nada a ver com vampirismo, Dawn - interveio Tara. - É que antigamente havia povos bárbaros que obrigavam seus guerreiros a beber sangue dos inimigos mortos em batalha. Humanos, nada mais, nada menos!
- Tá brincando!?
- Não, é sério mesmo, Dawn. Entre os citas, que há 2.500 anos habitavam o que é hoje o sul da Rússia, quando um guerreiro matava seu primeiro inimigo, ele bebia seu sangue. O historiador grego Heródoto documentou isso em seus textos. Outro costume praticado pelos citas que deixava os antigos gregos de cabelos em pé era o uso dos crânios dos seus piores inimigos como taças para beber vinho. Os pobres limitavam-se a enrolar o exterior num pedaço de couro de boi, já os nobres mandavam dourar o interior - exatamente como no sonho da Buffy!
- Vai ver, foi por isso que o “guerreiro-metaleiro” no meu sonho me chamou de princesa - retrucou a caça-vampiros com uma ponta de sarcasmo.
- Os vikings também utilizavam os crânios limpos de seus inimigos como canecas para beber cerveja - lembrou Willow. - Por sinal, a palavra “skol”, que é uma expressão de brinde em dinamarquês, norueguês e sueco, significava originalmente “caveira”. Sinistro, né?
Dawn suspirou. - Os homens, às vezes, sabem ser muito piores do que qualquer vampiro ou demônio.
- Eu que o diga - retrucou Willow. Ainda guardava viva a lembrança dos fantasmas dos índios da tribo Chumash, os habitantes originais de Sunnydale, exterminados pelos colonos brancos, juntamente com um número enorme de tribos e nações ameríndias. Pensou em sua família, seus avós judeus da Polônia, vítimas indefesas da sanha selvagem dos nazistas, assim como o foram milhões de judeus e ciganos na Europa. Mentalmente concordou: o maior monstro é o Homem, que mata os de sua própria espécie, freqüentemente com requintes de crueldade. - Buffy, quem sabe você ouviu ou leu a respeito dos hábitos e costumes dos citas, vikings e congêneres, e inconscientemente você ficou impressionada por causa disso. Esqueceu tudo e agora teve esse pesadelo. É natural, depois do trauma pelo qual você passou nos últimos meses: morte, ressurreição...
Willow calou-se. No fundo, não conseguia livrar-se do sentimento de culpa pelo sofrimento da amiga, pois fora sua poderosa magia anti-natural que trouxera a Caçadora morta de volta ao mundo dos vivos - arrebatando a alma de Buffy da dimensão extrafísica pacífica e paradisíaca onde ela se achava. - , mesmo sabendo dos riscos que isto acarretaria.
Buffy se voltou com os braços cruzados, abraçando a si mesma como se sentisse frio, e se encostou na janela. Disse: - É como se o pesadelo continuasse, estando acordada. Não consigo tirar da mente o cara vestido de couro negro e metal, o espadachim desconhecido. Ele queria que eu matasse. Prometeu que faria de mim uma versão feminina de Átila, o Huno, e que todo o mundo me temeria. Parecia uma espécie de deus... um deus das trevas, da guerra. - Ela olhou para Dawn, atordoada. Olhou para Willow e Tara. - Algo em mim veio à tona... Algo primitivo, brutal... o lado negro da Caçadora!
As três garotas se entreolharam, como quem diz “oh oh”.
- Não fique com a cabeça mergulhada nesse pesadelo nojento - pediu Dawn, virando para Buffy os olhos azul-safira de gata siamesa. - Sonhos não são nada, é tudo “viagem” do inconsciente.
Buffy deu uma risada amarga. - Você não pensaria assim se o espírito de uma enfurecida caça-vampiros pré-histórica tivesse tentado matá-la e aos seus amigos, nos sonhos, como aconteceu comigo, com a Willow, o Xander e o Giles.
Willow pensou um pouco. Depois, disse:
- No Talmud hebraico está escrito: “Um sonho não interpretado é como uma carta que não se lê.”
- Legal, Freud certamente teve a quem puxar - Buffy respondeu ironicamente, indo sentar-se na cama.
Willow apertou os olhos por um instante.
- Sabe, Buffy, costumamos apresentar facetas obscuras até para nós mesmos - ela respondeu com a voz embaraçada. - Instintos agressivos, os maiores medos de cada um...
- Todos carregamos nossa “metade negra”, que passamos a vida inteira procurando esconder - acrescentou Tara. - Mas é como sentar-se sobre um vulcão, que permanece inativo por muito tempo, até que um dia simplesmente explode.
- Sua “metade Caim” reprimida emergiu em seu sonho... e você acordou angustiada, só isso - resumiu Willow.
- Porque fui ressuscitada com magia - Buffy respondeu com voz apática. - Magia da pesada.
- Acho que a Tara e a Willow têm razão - opinou Dawn, que não fazia segredo da admiração que sentia pelo par de jovens bruxas. - Você precisa de um tempo pra se adaptar de novo a uma vida normal, depois de passar quatro meses... hã... morta e enterrada.
- É, tô me sentindo igualzinha ao Sr. Spock em “Star Trek IV/ The Voyage Home”.
- Experimente relaxar usando a técnica do latihan que o Giles nos ensinou - sugeriu Tara. - Ou mentalize uma Chama Violeta à sua volta, dentro de você, para transmutar suas bioenergias de negativas em positivas. Tudo vai ficar bem.
- Ora, Buffy! - Willow riu zombeteiramente. - Posso fazê-la esquecer o sonho mau e todo o restante, fácil,fácil. - Os olhos da bruxa ruiva estavam brilhando. - Conheço um feitiço...
- Willow! - exclamou Tara em tom de reprovação. - Já se esqueceu do que conversamos?
- Não... não fazer feitiços por um mês... por uma semana? - tartamudeou a ruivinha, sentindo-se envergonhada. O namoro de Willow e Tara não ia nada bem, porquanto Willow desenvolvera dependência do uso de magia, tornando-se uma viciada. Como o vício das drogas. Pior ainda: seus poderes extravasavam a “mera” bruxaria Wicca e beiravam perigosamente a magia negra, para desassossego de seus amigos da “Scooby gang”. Ninguém se esquecia daquele odioso demônio incorpóreo criado como “contrapeso” pelo ímpio e cruento ritual pagão que ressuscitara Buffy.
- OK. OK. Foi mal, gente - desculpou-se Willow. E, virando-se para Buffy, indagou, solícita: - Você não quer um chazinho de ervas? Erva-cidreira, erva-doce, camomila, casca de maçã... Tudo super-natural, sem magia....
- Obrigada, Will, mas vou dispensar - respondeu Buffy enquanto se levantava. Olhou para o relógio digital, que indicava 01:00 h da madrugada. - Acho bom a gente encerrar a “sessão terapêutica” da meia-noite. Vocês precisam dormir, e eu quero ficar a sós comigo mesma.
As três se levantaram e ficaram de pé, à volta da Buffy. Era evidente que relutavam em deixar a amiga sozinha em seu quarto.
- Você vai ficar bem? - questionou Dawn.
- Não se preocupe, Dawnie, que o pior já passou - respondeu Buffy alegremente. Ela parecia muito calma, segura de si. - Afinal, por pior que tenha sido, foi somente um sonho. E o que são sonhos?
Dawn, Willow e Tara ficaram estupefatas pela súbita mudança que se operara no espírito da caça-vampiros.
- Interessante, não? - pensou Tara em voz alta. - Os povos antigos, entre os quais os egípcios e os gregos, acreditavam que os sonhos correspondiam a mensagens enviadas pelos deuses às mentes dos mortais adormecidos.
Buffy estudou os olhos dela. Olhos cinza-azulados, meio oblíquos e misteriosos.
- Tá insinuando que algum deus mitológico andou brincando de Freddy Krueger no hemisfério direito do meu cérebro?
- Não, longe disso.
- Segundo o Talmud, o sonho é muitas vezes um meio de comunicação de Deus com as pessoas - rebateu Willow. - Isto é, nem sempre... só às vezes... Aliás, a Gemara diz que, se alguém sonha exatamente o mesmo sonho três vezes, então a coisa é certa por parte de Deus.
- Bem, uma já foi, faltam duas - comentou Dawn timidamente.
- Eu só espero que, na manhã seguinte, não me levante e saia por aí matando meus ex-namorados com uma espada - retrucou Buffy sarcasticamente. - Sorte do Riley, estar caçando demônios nas selvas pra lá da Nicarágua.
Dawn apertou a mão dela. - Aposto que o “metaleiro” bonitão é a chave da interpretação do sonho. Acredite, eu sei. De chave eu entendo. Afinal, já fui “A Chave”, lembra?
Buffy não respondeu, continuou segurando fortemente a mão de Dawn. Era tão fácil esquecer-se de que sua irmãzinha, a caçulinha mimada da família Summers - e que, um ano atrás, sequer existia em sua forma humana - , não passava de corporificação da Chave com a qual a insana deusa Glory pretendera abrir o portal proibido para regressar à dimensão infernal de onde fora banida há eons. Uma personificação em carne e sangue, feita com o DNA da própria Buffy, de uma turbilhonante esfera de energia mística, transcósmica, inconcebivelmente velha como o Universo. Assim era Dawn.
A voz de Willow interrompeu as divagações da Caçadora. - Buffy, se tiver outro pesadelo grite, pode gritar que a gente vem correndo, tá?
Buffy sorriu. Colocou as mãos nos ombros de Willow.
- Will, você me conhece há seis anos e tem sido minha melhor amiga. Porisso, não se sinta culpada por ter usado bruxaria para me ressuscitar. Fez o que julgou necessário para defender o bem. Talvez, eu tenha ainda uma missão mística a cumprir neste pobre planeta atormentado, e você foi apenas um instrumento a serviço de forças superiores.
Willow sorriu discretamente. - É, o mundo precisa de Buffy, a Caça-Vampiros. E nós também.
Tara passou um braço por sobre o ombro de Willow e agarrou o pulso de Dawn com a outra mão, puxando-a para si.
- Toque de recolher, meninas - disse, rebocando Willow e Dawn para fora do quarto.
Sozinha no quarto, Buffy trancou a porta, tirou o robe e se deitou, deixando a luz acesa. A verdade é que continuava perturbada. Fechou os olhos, procurou relaxar. Não conseguiu. Ficou ali deitada, com os olhos muito abertos à luz branca, forte e sem sombras do quarto, sentindo-se impotente para libertar-se daquele pesadelo, daquele fogo interior que a estava consumindo.
Saiu da cama. Não, não é mais tempo de relaxar, pensou. Vestiu suas roupas “da briga”: calça jeans desbotada e camiseta preta, juntamente com uma velha jaqueta de brim por cima. Calçou os sapatos. Escovou os longos cabelos louros.
Refletindo brevemente, Buffy pegou no seu baú de armas um punhal de lâmina ondulada e aparência perigosa, devidamente embainhado. Era um kris malaio, forjado em aço com punho de marfim e bainha de prata. O povo da Malásia atribuía poderes milagrosos a tais armas. Dizia-se que alguns kris tinham poderes para predizer o futuro; outros, na iminência de perigo, saltavam magicamente das bainhas para defenderem seus donos. Bem, este kris certamente não é um deles, pensou Buffy. Enfiou a arma no bolso e apanhou um par de estacas, também. Toda caça-vampiros que se preza tem uma estaca sempre à mão - inda mais em Sunnydale, onde há sempre vampiros sedentos de sangue à espreita em cada esquina, quando anoitece.
O luar velado de bruma inundava a paisagem vista da janela. Buffy apagou a luz. Quando teve certeza de que Dawn, Willow e Tara estavam adormecidas nos respectivos quartos, destrancou a porta e saiu, com o maior silêncio possível, seguiu pé ante pé até o alto da escada. Sem fazer qualquer ruído, desceu um degrau após o outro até chegar ao andar inferior. O brilho luminescente do mostrador do relógio digital era a única iluminação na sala de estar, que estava totalmente às escuras. Eram 02:00 h da madrugada. Buffy franziu a testa. Tinha que sair imediatamente - mesmo sem saber por quê. Ela encaminhou-se com extrema cautela para a porta da frente, destrancou-a e saiu da casa para o gramado vazio e úmido sob o clarão sinistro do luar. A rua estava quieta. Buffy olhou para o céu cinza-escuro. Alguma coisa nas enormes nuvens através das quais a lua derramava sua pálida claridade perturbou-a, se bem que ela não pudesse dizer o quê. Ela respirou fundo e então caminhou a passos largos e firmes para alcançar o cemitério, que ficava bem perto da residência da família Summers. As luzes de rua pareciam archotes acesos em meio à escuridão, com seu desagradável brilho amarelento.
****
Eram três horas da manhã quando ela adentrou o tenebroso cemitério onde tantas vezes caçara vampiros e outras criaturas do Mal e das Trevas. Buffy tremia com a umidade e o frio, mas por dentro havia um fogo lambendo suas entranhas e queimando até o cérebro. Ainda não se libertara do pesadelo. Algo martelava impiedosamente a alma da jovem e bela Caçadora, sussurrando, protestando, zombando, chamando... Dizia: “Resistir é inútil. Mais cedo ou mais tarde, você será minha. Nós somos iguais, somos destruidores. O Mal existe em você. Não se reprima. Não se pode refrear o instinto. Não se pode reprimir o mal.”
Colocou as mãos sobre a testa e as apertou. Buffy reuniu toda a sua força de vontade.
- Não - ela sussurrou. - Não... não... não!
A Caçadora lutava com todas as forças contra o pensamento intruso que forçava-se em sua consciência como se fosse um de seus próprios pensamentos, ameaçando subjugá-la.
Lembrou-se do mantra da Chama Violeta, que aprendera com suas amigas bruxas, para queimar a carga deletéria negativa que afetava e desarmonizava seu íntimo.
“EU SOU um ser de fogo violeta, EU SOU a pureza que Deus deseja!”
Fez isso em silêncio - visualizando um fogo violeta envolvendo seu corpo, alma e espírito num escudo de proteção impenetrável - e respirou fundo para se acalmar.
Sentiu a calma retornar. - Tá legal, Buffy - disse a caça-vampiros para si mesma, enquanto caminhava pelo tétrico cemitério, onde uma frígida Lua cheia brilhava palidamente sobre as lápides rachadas, cenotáfios e fachadas de mausoléus, urnas e soleiras de mármore, projetando sombras imensas e pavorosas. - Vamos supor que alguém ou ALGUMA COISA consiga controlar nossos sonhos de uma forma qualquer, mais ou menos como a primeira caça-vampiros fez com a turma, naquela ocasião... Esse seu pesadelo, Buffy, pode ter sido “fabricado”, manipulado. Pode ser que tenha sido usado como uma espécie de... sei lá, uma preparação. - Deteve-se por um minuto ante um grande bando de morcegos que esvoaçavam ao seu redor, e enxotou-os. - Para quê?
O rosto de Buffy subitamente empalideceu, como se tivesse tido algum choque. - Pra matar. Alguém ou ALGUMA COISA quer que eu mate... mate pessoas.
Como um fantasma, surgiu-lhe na imaginação o rosto moreno do guerreiro desconhecido de barba e cabelos escuros. De algum modo, ele era a chave de tudo aquilo. Buffy estreitou os lábios. Aos poucos começou a compreender que havia se transformado no ponto focal de alguma trama monstruosa, e estava convicta de que o ser maligno por trás de tudo não podia ser um vampiro.
“Desta vez não tem vampiro na jogada, como quando o Drácula me assediou com seus truquezinhos telepáticos, pra me fazer entrar na dele. Talvez um novo tipo de demônio... ou ALGO tão terrível e poderoso que...”
Contudo, Buffy não pôde concluir o seu pensamento, porque, naquele instante, uma bola de fogo azul do tamanho de um punho passou zunindo a poucos centímetros de seu rosto, indo explodir de encontro à lápide velha de um decrépito sepulcro, que ficou em pedaços. A caça-vampiros olhou ao redor, para ver quem tinha atirado o bólido ígneo. Sob uma arcada estreita, coroada de demônios talhados em pedra com as faces horrendas escancaradas, estava de pé uma figura fantasmagórica de manto negro e estatura elevada, usando um capuz que obscurecia suas feições.
Só poderia ser o atacante!
- Acho que é o jeito dele dizer “oi, eu tô aqui” - murmurou Buffy em tom irônico.
A grande e prateada Lua brilhava vivamente sobre a tétrica necrópole, iluminando a figura demoníaca de manto escuro - se é que se tratava de um demônio - que postava-se uns vinte metros à frente da Caçadora, prestes a desferir o golpe mortal. Não se ouvia qualquer som. Buffy tinha os olhos arregalados, e sentia-se como um gato selvagem preso numa armadilha. Não tirava os olhos do inimigo encapuzado, alerta para qualquer movimento traiçoeiro, retesando cada músculo de seu corpo flexível, pronta para saltar desviando-se das bolas de fogo do atacante - e ela sabia que ele estava ciente de cada movimento seu, em reciprocidade.
Por alguns instantes, os olhos da Caçadora viram as miríades de fagulhas azuis dançando no ar entre as mãos do encapuzado, como se fossem vaga-lumes, aglutinando-se para formar uma esfera de luz, um flamejante sol em miniatura. Buffy sabia o que isto significava, mas permaneceu fria, com seus músculos retesados sob a pele totalmente lisa.
E então o encapuzado atacou.
Como se tivesse molas de aço nas pernas, Buffy pulou freneticamente para o lado; uma bola de fogo branco-azulada do tamanho de uma cabeça humana passou de relance por ela. Um fulgor luminoso ofuscou por instantes a lua e as estrelas que brilhavam no firmamento. Um estrondo ensurdecedor reboou por toda a extensão do cemitério. No lugar onde estiveram as sepulturas mais antigas, mais veneráveis, que remontavam à época da fundação de Sunnydale, viam-se agora nuvens de gases verdes e frios, de um verde-gris repulsivo, que subiam do monte de entulho.
Buffy arregalou os olhos e abriu a boca, pasma com o terrificante poder de destruição daquele ser; pois aquela criatura que avançava em sua direção, esmagando a relva alta sob suas botas, envolta dos pés à cabeça numa mortalha negra como a noite cósmica, não pertencia a nenhuma raça demoníaca que ela conhecia. Agindo mecanicamente, e com força e agilidade sobre-humanas de uma caça-vampiros, Buffy ergueu uma laje de granito e arremessou-a contra o antagonista. Rápido demais para seguir com o olhar, o sombrio encapuzado levantou sua mão, palma para fora, e esguichou uma rajada de energia plasmática que pulverizou a pesada laje. E continuou a avançar.
Mas, agora, Buffy já estava desembainhando o perigosíssimo kris, os olhos verdes rebrilhando com a ânsia de lutar. Ela ergueu o punhal na mão direita e a longa lâmina ondulada em sete curvas reluziu à luz fria do luar como uma labareda congelada. Era uma arma temível, com a lâmina de 30 cm de comprimento que alargava logo abaixo do punho, em poder de uma caça-vampiros com a força de dez homens e que não recuava diante de nada. Ela se perguntava se seu oponente, que caminhava ao seu encontro com passadas largas e firmes, seria tão formidável numa luta corpo a corpo enfrentando 30 cm de aço como era lançando raios e bolas de fogo. Mostraria a ele o que significava ser uma Caçadora, uma verdadeira guerreira.
“Vem, capa-preta, pode vir...”
O luar prateado batia em cheio na esguia jovem lutadora de pernas compridas e pulsos finos, fazendo com que lembrasse uma corça ou gazela. As roupas justas que usava realçavam as belas formas de seu corpo curvilíneo, seus cabelos soltos cobriam-lhe os ombros. A poucos metros de distância do inimigo, Buffy saltou brandindo o kris com tamanha rapidez que teria surpreendido um guepardo. No mesmo instante o ser escuro embuçado lançou-se no ar como se os pés fossem impulsionados por molas e, por uma fração de segundo, o aço de um punhal kavkazi - uma arma letal com uma larga lâmina de dois gumes, de meio metro de comprimento - faiscou na mão direita do vulto negro e desceu cortando em direção à garota antes mesmo que os pés do atacante tocassem o chão. Buffy, surpresa pela rapidez e ferocidade do adversário, mal conseguiu bloquear o ataque com sua própria arma, e as duas lâminas chocaram-se com um som áspero e estridente de metal contra metal. O aço golpeava contra o aço, ambos os contendores atacando ao mesmo tempo, golpe em cima de golpe, soltando faíscas no ar e abalando o silêncio sepulcral. Saltando, lançando-se de um lado a outro e girando como um felino, com o cabelo longo voando às suas costas, Buffy evitava os golpes que a teriam retalhado numa massa de carne sangrenta, e revidava com ferocidade e determinação. Seu oponente, que ora avançava com a feroz agilidade de um tigre de garras afiadas, não era uma montanha de músculos e furor cego como os demônios que ela enfrentara e matara, mas uma perfeita máquina de guerra, treinado desde que nascera até um máximo de eficiência e impiedosamente frio e calculista. Ele era mais que um igual para a Caçadora, e ela teve que admitir que, na realidade, era o encapuzado quem controlava o combate. Ele a estava testando severamente. Sua agilidade e destreza permitiam-lhe manter a caça-vampiros sob controle, continuamente atacando-a sem dar trégua, enquanto, ao mesmo tempo, aparava seus golpes e procurava uma brecha em suas defesas.
Era uma estranha e arrepiante dança da morte sob a luz intermitente do luar que acendia e apagava conforme a passagem das nuvens altas e escuras.
O homem de manto negro saltou alto, fingindo golpear com a mão direita enquanto o punhal já se encontrava na esquerda. Buffy - que conhecia o truque - trocou o kris de mão, num movimento rápido, esquivou-se e impeliu com força o longo punhal para cima, visando precisamente o peito do encapuzado em sua trajetória descendente. A ponta da lâmina sinuosa furou a túnica negra e mergulhou no coração do inimigo. Tudo isso aconteceu num abrir e fechar de olhos.
Buffy, entretanto, não chegou a ver o homem tombar sem vida, simplesmente porque ele dissolveu-se no ar, esvaneceu-se que nem uma miragem antes de tocar o solo. Simultaneamente, uma gargalhada retumbante se fez ouvir, vinda do nada. Surpreendida e desconcertada, Buffy olhou rapidamente em volta, porém não havia ninguém. A estrondosa e incontida cascata de risadas veio rolando pelo céu e pareceu encher o mundo, como que escarnecendo de sua tentativa infrutífera para matar o grandalhão de capuz com uma punhalada no coração.
- Tá rindo de quê, babaca? - berrou a caça-vampiros, olhando para o céu salpicado de estrelas de onde parecia vir aquela voz. Uma nova gargalhada rolou pelo céu, cada vez mais forte, mais forte. Buffy sentiu-se cheia de fúria. O encapotado fantasmagórico estava se divertindo às suas custas, manipulando-a tal qual uma cobaia ou um personagem de videogame - como faziam-no, sadicamente, os deuses do Olimpo em eras passadas. Sentia que odiava aquele ser com toda a força do coração, e sua fúria frustrada exigia um escape. Então ela bradou seu desafio para o céu estrelado:
- Escuta aqui, ô urubu risonho, não sei que tipo de demônio é você, mas pode ter certeza de uma coisa: na minha cidade você não se cria! Já botei pra correr o Conde Drácula e a desmiolada da Glory, e matei mais vampiros, monstros e demônios do que posso lembrar. E quer ouvir mais? Aposto como não tem coragem de me enfrentar de cara limpa, sem nenhuma pirotecnia nem esse capote preto fedorento. Apareça, covarde! Mostre-me a sua cara feia que eu a partirei ao meio.
Em resposta, uma figura humana masculina materializou-se num arco-íris de luzes muito brilhantes, diretamente à frente de Buffy. Mas não era o encapuzado - ou, pelo menos, desta vez ele não estava encapuzado.
Buffy piscou, perplexa, mal conseguindo acreditar que o que via à sua frente era o guerreiro de estatura elevada, trajado de couro e metal, que assombrara seu sonho naquela malfadada noite. Algo que havia emergido das trevas da Antigüidade bárbara, de um cenário de lendas e histórias terríveis de antigas guerras e esquecidos deuses. Os detalhes de sua indumentária, toda em preto e cinza-escuro, eram perfeitos: colete tacheado aberto na frente e calças enfiadas em botas altas, e um cinturão largo, também tacheado, com uma enorme fivela de aço escuro muito brilhante. Seus antebraços estavam envoltos por grossos braceletes incrustados com enormes pedras redondas vermelho-sangue que brilhavam malignamente à luz das estrelas. Do seu cinturão pendia uma espada comprida e larga numa bainha de couro cor de carvão.
Pertencia ao tipo atlético - num primeiro momento Buffy estimou-lhe a altura em mais de 1,80 m - e sua compleição fazia-o parecer um gigante diante da mocinha aparentemente frágil e delicada. Sua vestimenta de feitio simples não chegava a ocultar as linhas duras e bem proporcionadas de seu físico olímpico, e a pele tinha a tonalidade do cobre. Buffy sentiu o ritmo das pulsações aumentar quando o olhar do homem atingiu-a. Ela viu, com uma emoção inexplicável, uma fisionomia vigorosa, quase da tonalidade do cobre, com a barba escura e curta em estilo pera, emoldurando uns lábios espessos, os ardentes e perigosos olhos negros, a testa larga, e os fartos cabelos ondulados, igualmente negros como uma noite sem lua e sem estrelas. A familiaridade naquele rosto, que ela vira só em sonho, deixou-a chocada. Era como se o guerreiro soturno de estatura alta tivesse saído de seu sonho e se tornado carne e osso por obra de magia.
A menos que...
Uma suspeita terrível surgiu na mente da caça-vampiros. Com a costumeira velocidade e sangue-frio, ela passou o kris para a mão direita e apontou-o para o estranho como se fosse uma extensão de seu braço.
- Nem mais um passo, camisa-preta! - ela exclamou. - Foi você quem “fabricou” aquele sonho inteirinho, não foi?
O homem alto e robusto não fez a menor tentativa de defender-se ou recuar perante as garras afiadas da jovem pantera de pele macia. Parecia uma imagem mítica imbatível, brilhando ao luar. E, cruzando os musculosos braços sobre o peito, falou assim:
- Então a pequena caça-vampiros de Sunnydale pensa que pode medir forças com o deus da guerra. Ótimo!
Falava em inglês moderno. Mas a voz, era a voz inconfundível do guerreiro negro do sonho, que corporificava os horrores da guerra, que procurava induzir a Caçadora a cometer crimes contra a humanidade para igualar-se a ele. Agora ela sabia estar face a face com aquele ser amoral, e sua pele se arrepiou toda. Havia uma aura em torno dele; Buffy achou-lhe um ar poderoso, cruel e selvagem. Ele não tinha idade, era um deus.
- Deus... deus da guerra? - gaguejou Buffy, com as emoções confusas. Respirando profundamente para recuperar a calma, manteve fixos seus olhos verdes sobre o inimigo, com sua mão armada de punhal apontando firmemente para o mesmo. Não baixou a guarda sequer por um instante.
Ele fez uma mesura acompanhada de um sorriso zombeteiro.
- Ares, Deus da Guerra, às suas ordens - disse calmamente. - Aliás, aceite meus cumprimentos. Sua performance como lutadora merece nota dez com louvor.
Um deus vindo de muito, muito longe, do passado distante - da Idade Heróica da Grécia Antiga. E daí? A verdade é que Buffy não ficou nem um pouco impressionada com o pretenso deus da guerra que ora tinha diante de si. Talvez porque, no verão passado, lutara contra uma deidade e levara a melhor (se bem que terminasse por sacrificar a própria vida para salvar a da irmã e - mais uma vez! - deter o Apocalipse). - Cento e quarenta e sete dias na sepultura não bastaram pra me enferrujar - ela ironizou. Segurava ainda seu kris e continuava alerta como uma gata brava.
Ares fez um sinal de leve com a cabeça, indicando o punhal na mão da Caçadora.
- Guarde essas garras, eu sou seu fã.
- Ah, é? Lamento, mas não dou autógrafo.
- Minha cara Buffy, venhamos e convenhamos. Acha que com um simples punhal poderá deter o Deus da Guerra? Hum?
Vagarosamente, Buffy baixou a arma. Se Ares quisesse realmente matá-la, nem um milhão de punhais bastariam para protegê-la.
Ares anuiu, satisfeito.
- Assim é muito melhor - disse ele. - Ah, Buffy, estive esperando por você. Sabia que não resistiria ao meu “convite”.
Buffy lançou um olhar de agressiva ironia para o deus.
- Alguém já disse que você tem um jeito meio estúpido de tratar as mulheres? Aquela sua bomba atômica deve ter despertado a cidade inteira: vivos, mortos, mortos-vivos... - disse, em tom de recriminação.
- Não precisa se preocupar - ele respondeu. - Apaguei as lembranças das mentes de todos em Sunnydale, humanos ou não. Ninguém se lembrará de coisa alguma do que houve nesta madrugada.
- Legal - disse Buffy com a voz apagada. Então seus olhos se voltaram para o montão de escombros que ficava no lugar em que a bola de fogo de Ares destroçara as sepulturas, e gesticulou. - E o que pretende fazer com toda essa sujeira? Vai varrer pra debaixo do tapete?
- Hummm... Tudo bem - resmungou Ares. A um movimento da mão do deus, uma onda de luz azul envolveu o monte de blocos quebrados e pó e, contrariando todas as leis naturais, as massas disformes de mármore que haviam sido túmulos brancos primorosamente esculpidos se reagruparam instantaneamente, recompondo nos mínimos detalhes suas formas primitivas. Tudo isso aconteceu num brevíssimo lapso de tempo, compreendendo uma mera fração de segundo.
- Agora, Buffy, precisamos conversar - disse Ares laconicamente. Seus olhos escuros refulgiam, frios e cruéis como os de uma ave de rapina.
Buffy fitou-o com desconfiança.
- O que é que você quer comigo? - A voz dela não estava muito firme. - Olha, se está atrás da Xena você veio ao lugar errado.
- Não se subestime, garota - retrucou Ares, secamente. - Foi por sua causa que vim a este fim de mundo esquecido pelos deuses.
- Por minha causa?
O deus esboçou um sorriso meigo, mas seus olhos continuaram duros.
- Eu quero você, Buffy. Quero que você seja minha nova princesa guerreira, a minha escolhida. Você entendeu?
- Buffy, a Princesa Guerreira?
Por momentos, Buffy ficou imóvel, com os olhos muito abertos. Em sua mente, ela viu de novo as imagens de pesadelo - as legiões desapiedadas, o mar de sangue, as cruentas cenas de morticínio -, e seu coração se sentiu angustiado; sacudiu a cabeça.
- Pois pode tirar o cavalinho da chuva e voltar pro monte Olimpo, ou seja lá de onde você veio, porque não aceito essa idéia nem por um instante. Meu lugar é aqui na Boca do Inferno, matando vampiros e demônios. Eu não mato pessoas. Não pretendo ser uma “destruidora de nações” e ponto final - falou a Caçadora, dando as costas para Ares e se afastando decidida. - Até nunca mais, Deus da Guerra.
- Hum... Eu acho que não - disse ele com um sorriso sarcástico. Buffy fitava o incompreensível. Aí estava Ares, parado a menos de cinco metros à sua frente, como se fosse uma grande estátua de bronze do Período Aqueu. Ubiqüidade? Transmaterialização instantânea? Buffy venceu o espanto. Nada é impossível para um deus.
- Creio que você virá a entender as coisas muito bem do meu ponto de vista - disse ele, imperturbável. A mão esquerda do deus repousava sobre o cabo da espada, em atitude tranqüila e altiva. - Sabe, você me lembra uma outra lourinha que conheci há três mil anos na velha Grécia.
- Deixa eu adivinhar, o nome dela era... Gabrielle?
- São sempre as mesmas - Ares continuou. - A mesma crença no bem, no heroísmo! Ah, minha caçadorazinha! Sua exuberância juvenil é algo que admiro, sua coragem, sua impetuosidade, até mesmo sua irreverência, que sempre foi a qualidade que a salva. No entanto, você também tem um lado escuro, perigoso, brutal, não é? Sim, eu sei. Parte dessa malignidade é que faz de você a mulher que é, a guerreira que é. Sinto o ódio em você, em seu coração... e o deus da guerra ama o ódio.
Os olhos de Ares percorreram o corpo dela confiantemente, demorando-se em cada curva e contorno sob a camiseta e os jeans - os seios redondos e firmes, a cintura delgada, os quadris bem formados, voluptuosos. Isso deixou-a nervosa, e o nervosismo fez aumentar sua raiva. Ficou rígida quando Ares deu três, quatro passos rápidos e chegou perto dela.
- Pense antes de fazer qualquer coisa - recomendou Buffy com os dentes cerrados. - É bem possível que acabe recebendo uma joelhada no baixo ventre.
Ares estacou, ergueu as sobrancelhas e irrompeu numa sonora gargalhada. Depois parou tão abruptamente quanto começara.
- É formidável, excelente - disse ele com entusiasmo. - Você realmente não tem medo de mim, não é?
- Já matei coisas muito mais aterrorizantes do que você.
- Hum... Que coragem você precisa ter para falar assim comigo! Eu sabia que estava certo o tempo todo. Você é perfeita para o cargo.
- Você quer dizer, ser sua princesa guerreira etc-e-tal? Esquece, Ares, eu jamais ia querer esse emprego.
- Acho que vai, sim. - Ele a encarou com seus olhos escuros e profundos já haviam escravizado vários corações. - Foi para isto que você voltou do “Outro Lado”, e só voltou graças a mim. Eu ressuscitei você, Buffy.
- O quê?! - Buffy gritou, sem conseguir se controlar. - Você me ressuscitou? - E ainda deixei sua amiguinha Willow levar todo o crédito pela proeza - respondeu Ares em tom irônico. - Como se a judiazinha metida a bruxa pudesse ressuscitar alguém sem o concurso dos deuses. Por outro lado, somente os poderes combinados de um deus e de uma bruxa mortal funcionariam para restaurar o corpo e a alma num caso como o seu, Buffy, de morte por energias místicas transdimensionais, sobrenaturais. Se você tivesse morrido de causas naturais, eu poderia tê-la revivido com um estalar de dedos. Então, tratei de sugestionar seus amigos, e em particular a Willow, com a idéia fixa de ressuscitar a caça-vampiros para impedir que a turma do Mal firmasse pé em Sunnydale e, de quebra, resgatar a alma da “coitadinha da Buffy”
de uma suposta dimensão infernal onde sofreria tormentos indizíveis blá-blá-blá blá-blá-blá... Depois, foi só aguardar tranqüilamente a hora de entrar em ação, quando Willow e os demais estivessem iniciando o ritual da ressurreição. No fundo, Willow não foi mais que o meu instrumento para o início, assim como eu uso Bush, Bin Laden, Saddam e todos os modernos senhores da guerra como peões num jogo de xadrez. O final da história você conhece - Ares riu; em seguida, abriu os braços. - E aqui estamos nós.
Buffy fitava o deus incrédula, com a expressão rígida na bela face e com seus olhos espelhando seu choque e incredulidade.
- Mas... Willow, a turma... - Buffy balbuciou, ainda chocada e quase sem palavras. Ela sacudiu a cabeça. - Não posso acreditar. Willow chamou você, dentre todos os deuses, pra tomar parte no ritual? Que tem a ver a Wicca com o Deus da Guerra?
- Nada, em princípio... - ele respondeu. - É claro que nenhum wiccano praticante invocaria o Deus da Guerra nem que fosse pra acabar com uma praga de baratas! Ah,
esses wiccanos “paz-e-amor”, com seu culto à natureza, elementais e toda essa conversa sobre “estar de bem com a Deusa e o Deus” etc etc... - Ares pigarreou. - Foi Osíris, o deus egípcio do submundo e juiz dos mortos, quem sua amiga invocou. Um bom sujeito. Acontece, porém, que Osíris me devia uma; por isso concordou em deixar que eu tomasse o seu lugar no ritual de ressurreição, enquanto ele ia cuidar de assuntos mais sérios. Respondido?
Buffy olhou-o com desgosto e disse: - Vocês, deuses, são uma verdadeira máfia.
Ares brindou-a com um meio-sorriso de puro cinismo.
- Sim, eu planejei tudo. Do começo ao fim. Aliás, desde a Guerra do Golfo que não me divertia tanto assim. Fazer a mini-bruxa vomitar aquela cobra de dois metros...! - Ele deu uma risada curta. - O bom e velho Osíris não teria sido tão criativo. Mas o que verdadeiramente importa é que você, Buffy, me pertence. Graças a mim, você voltou diferente e mais poderosa do que nunca. Buffy, a Renascida! Não entende? Sua vida anterior, sua missão como caça-vampiros, nada significam agora. Eu a liberei de tudo isso. Ofereço-lhe coisas melhores do que você jamais desejou. - Colocou as mãos nos braços dela. A moça não recuou. - Ofereço-lhe o mundo, minha princesa amazona pós-moderna.
Buffy estremeceu e sua respiração se fez ofegante.
- Não pode - ela murmurou. - Não pode oferecer o que não tem. - Com uma pontada de culpa, ela flagrou-se imaginando aqueles fortes dedos morenos revolvendo seus cabelos dourados.
Ares vagarosamente aumentou a compressão de seus dedos. - Creio que posso fazê-la mudar de idéia - disse ele, com calma. - Agora olhe dentro dos meus olhos e escute apenas o que eu digo. Durante sessenta anos, desde que escapei daquela cripta na Macedônia, trabalhei nas sombras para consolidar minha base de poder num mundo que já não me venerava mais como deus. A Alemanha de Hitler tinha potencial, mas perdeu a guerra. Uma pena, realmente... E então vim para a América pois ela é a terra das oportunidades. E me dei bem. Agora tenho um vasto número de adeptos neste país, inclusive nos escalões superiores do governo Bush: Rumsfeld, Colin Powell e a minha favorita, Condoleezza Rice. Sabe o que isso significa? O presidente dos Estados Unidos não passa de um joguete nas mãos dos meus seguidores. O poderio militar da ÚNICA superpotência mundial está a serviço do Deus da Guerra. E mais! Agora mesmo o mundo está ardendo com o fogo da guerra, um novo ciclo de guerras que fará a alegria da indústria de armamentos; os atentados terroristas de 11 de Setembro foram só um pretexto, só as escaramuças preliminares. Espere pra ver o que farei ao Afeganistão, ao Iraque... - Por um instante seu rosto endureceu. - Se acha que o século XX foi um dos mais sangrentos da história humana, espere pra ver o XXI.
Por um breve instante Buffy se agitou, mas o olhar de azeviche do deus prendeu o dela de imediato, e ela sentiu um amortecimento gelado se espalhar por seu corpo. Não conseguia mexer um músculo sequer, ela apenas podia ficar cara a cara com Ares, cujos olhos terrificantes fixavam as íris verdes da jovem com luz inumana. Mas, que coisa estranha! O olhar da caçadora afundava infinitamente em poços negros de perdição como as profundezas abissais de Érebos, cheios de horrendos sonhos - visões horríveis de nações em guerra, de cidades em chamas e em ruínas, tudo destruído pelos bombardeios, e de populações inteiras dizimadas por armas químicas e biológicas. Tentou fechar seus olhos, mas descobriu que perdera o poder de fazê-lo. Apenas continuou fitando os olhos de Ares, balançando a cabeça numa expressão de negação.
- Por quê? - ela gemeu, em semi-transe. - Por que jogar os homens uns contra os outros, pra se odiarem e se matarem?
- Porque, minha super-heroína, não se pode levantar um mundo novo sem antes detonar o velho - respondeu Ares, ainda segurando seus braços e olhando com firmeza nos seus olhos. - É o único caminho! Eu passei séculos arquitetando planos para o mundo que agora é meu. Do heavy-metal à ofensiva militar para consolidar a hegemonia global, eu pensei em tudo. E é aí que você entra. Lembra-se do que eu lhe disse quando você sonhava?
“Farei de você um terror dos homens e o flagelo das nações da Terra, e o mundo inteiro se curvará a seus pés.” Pois é isso aí. Se decidir ficar comigo, eu a tornarei a mulher mais poderosa da América e de todo o planeta. Você será o meu braço armado entre os mortais; vai matar em meu nome e por minha causa, e juntos reinaremos sobre uma humanidade forte e unida com mão de ferro. Haverá uma nova ordem mundial, sob um único deus, ou seja, eu mesmo - ele riu, e o brinco em sua orelha piscou na iluminação mortiça - , com você como minha consorte. Só assim haverá paz na Terra, finalmente. Não se pode fazer um grande bem sem sacrifício e coragem. Olhe nos meus olhos, Buffy, e veja o futuro do mundo.
E ela viu. Viu o enorme salão de audiências do Templo, com as paredes e o teto abobadado de mármore branco, o piso formado por blocos de pedra verde-jade. A luz provinha de chamas crepitantes. Ares e Buffy estavam sentados em tronos idênticos de madeira dourada, esculpida com fileiras de caveiras, que haviam sido colocados sobre um tablado de mármore negro de sete degraus, no centro do aposento. Ares ostentava uma coroa de ouro puro, incrustado com rubis e pérolas, e envergava uma couraça de metal vermelho, belamente trabalhada com incrustações de ouro, ao estilo das melhores blindagens gregas da época romana. Sob a armadura, vestia uma túnica curta, calças e botas de couro preto. Sentada no trono à esquerda, Buffy estava vestida de maneira idêntica.
“Contemplem, mortais, contemplem o Deus da Guerra e sua Rainha Guerreira, a Escolhida...”
Nação após nação, os embaixadores e chefes de Estado dos cinco continentes apresentaram-se diante dos tronos gêmeos, inclinaram-se respeitosamente e ofereceram presentes e submissão ao deus vivo dotado de terríveis poderes e à sua rainha.
Um deus da guerra que lhes prometia a paz!
- Paz pela força das armas? - Buffy perguntou, com os olhos ainda muito abertos. - Isto é o
“maravilhoso mundo novo” de Ares? Pois escolheu a garota errada pra fazer o serviço sujo. Tchau! - gritou, livrando-se das mãos dele; e, virando-se, procurou afastar-se rapidamente.
- Sabe qual é o seu problema, Buffy? - Mais uma vez Ares surgiu ante ela, barrando-lhe o caminho. Buffy estacou.
“Odeio quando ele faz isso”, pensou. Esforçando-se para manter a calma, mãos na cintura, Buffy disse em tom petulante:
- Tenho certeza que vai me dizer, né?
Ares encarou-a. A expressão dura voltou-lhe ao rosto e à voz.
- Medo, Buffy! Medo de crescer, medo de pensar grande. Olhe só para você, a caça-vampiros mais poderosa do planeta! Recém-saída da cova, totalmente desajustada e sem um propósito na vida, suspirando pela pasmaceira celeste perdida! Não tem dinheiro sequer para pagar as contas e se sustentar, muito menos para sustentar Dawn; e desta vez, seu Sentinela não pode ajudá-la. Bem-vinda ao mundo real, garota! Ele é indiferente, cruel, enfim, é aquilo que os homens querem que seja. Acha que eles se importam com você só porque morreu por eles, para salvar o mundo deles? Ora, Buffy! Está desperdiçando seu potencial guerreiro por persistir em lutar uma batalha que não pode vencer, porque já não é a sua. Chegou o tempo da maturidade; chegou a hora de trocar o
“mundinho” de Sunnydale e todos os demônios da adolescência pelo vasto mundo lá fora, onde o homem é o predador do homem.
- Já disse que não mato pessoas.
- Ah, é mesmo? E o que me diz daqueles Cavaleiros de Bizâncio que você despachou para Tártaros quando fugia da Glory, no verão passado?
- Isso foi... - ela começou, mas calou-se. Nem era preciso concluir o pensamento.
Ares balançou a cabeça. - Sei o que ia dizer. “Foi legítima defesa”. Ou então: “Aquilo foi diferente”. É a guerra, mocinha. É matar ou morrer. Humanos matam humanos o tempo todo, faz parte da natureza deles. E da sua, também. Lembre-se do que a Caçadora primitiva lhe disse: a morte é o seu dom. Homem ou demônio, tanto faz. O inimigo permanece inimigo, e deve ser morto. Liquidado.
Buffy não respondeu e olhou para o lado. Fogos-fátuos dançavam como almas penadas sobre as tumbas. O lúgubre vento outonal gemia suavemente através dos ramos retorcidos de um grupo de prodigiosos carvalhos baixos num canto distante. Ela apertou a jaqueta de brim contra o corpo e estremeceu. Se fosse de dia, pensou, daria para ver o vermelho-dourado das folhas das árvores.
- Está com frio? - perguntou Ares.
- Não é isso - replicou Buffy com rispidez. Ela dizia a si própria que odiava o deus grego por seu caráter violento e cruel, que ele era o supra-sumo da selvageria, mas algo sutil e perigoso em seu íntimo se agitava cada vez que olhava para ele - tal como o combustível atrai o fogo. Sentira a potência das mãos dele em seus braços e uma onda de calor a percorria por dentro só de lembrar desse contato físico.
- Eu fascino você, querida Buffy, não é mesmo? - perguntou Ares, com um sorriso maldoso nos lábios. Parecia adivinhar o que ia pela alma da caçadora.
- E eu odeio você! - ela gritou e fechou os punhos. Seus olhos estavam brilhando de raiva e determinação. A velha raiva, a determinação de Buffy.
- Ah, Buffy, Buffy - ele exclamou suavemente, enquanto se aproximava dela. - Nós somos muito parecidos, você e eu. Ambos tiramos vidas, matamos, e adoramos isso. É o que fazemos de melhor.
A face de Buffy se iluminou. - Até que você tem razão, “Darth Ares”. - Seu sorriso era feroz.
Ela deu um passo para frente e de repente deu um bote violento. Seu punho fechado bateu com toda a força no rosto de Ares, antes que o deus grego pudesse fazer qualquer gesto para impedí-lo. Ares cambaleou para trás, porém sua face não exibia nenhuma marca vermelha, inchaço ou sangramento que indicasse ter levado um soco. Ficou olhando para Buffy, estupefato.
- Isto é por me arrancar do meu merecido repouso eterno, no Céu - ela disse em tom enfático. Depois, antes que o olimpiano pudesse reagir, ela rodopiou e o pé direito lançou-se num chute certeiro - um golpe de kick-boxing - que teria estripado qualquer ser humano. Ares foi jogado ao chão, aos pés de uma monstruosa árvore com a forma grotescamente sugestiva de um corpo humano que crescia numa extremidade de um túmulo bastante maltratado.
- E este é por perturbar meu sono com aquele sonho.
Ares explodiu numa gargalhada. - Ora, vejam! Parece que a menina-prodígio Summers ainda quer brincar. Muito bem, muito bem - disse ele, deitado de costas no espesso gramado onde Buffy o derrubara, apoiando-se sobre um dos cotovelos enquanto se levantava e se punha de pé. - Vamos brincar!
Ele estendeu um braço na direção de Buffy. Um poder invisível empurrou-a tão violentamente que ela foi bater na parede de um mausoléu a muitos metros de distância. Com pouco ou nenhum impulso, ele pulou 10 m para frente e aterrissou diretamente defronte à caça-vampiros com a graça fluída de um enorme felino negro. Buffy saltou para a frente e atacou, como uma pantera de garras afiadas lançando-se sobre sua presa. Seu corpo flexível e sensual combinava os movimentos rápidos e delicados de um gato com uma força fenomenal, grande velocidade e resistência fora do comum.
Ares pulou, subiu três metros no ar e golpeou violentamente com o pé direito. Buffy jogou-se de lado. A bota de Ares atingiu-a com um golpe de raspão na cabeça que derrubou-a por terra, sangrando na testa. Uma fração de segundo a mais e ele lhe teria esmagado as têmporas! Mas ela recuperou-se quase instantaneamente, levantou-se e, reunindo tudo que sabia do treinamento em artes marciais de caça-vampiros, atacou de novo. Buffy lançou-se para a frente tão depressa que o olho humano não conseguiria acompanhar, o impacto de seus pés e punhos cerrados, verdadeiras armas mortais, era como o de uma pesada marreta. Ares aparou os golpes e contra-atacou, golpeando com precisão com toda a rapidez e violência de seus músculos de aço de deus da guerra. Buffy voou e caiu estatelada no gramado, gemendo de dor. Sem fôlego, a jovem afinal conseguiu falar, pausadamente:
- Alguém tomou nota da placa da jamanta que me atropelou? Ou foi um Minotauro?
Ares caminhou em direção a ela e estendeu-lhe a mão, para ajudá-la a por-se de pé.
- Parabéns, Buffy - falou, com admiração evidente. - Quem me viu dar esse golpe não sobreviveu para contar a história.
Buffy colocou-se de pé com dolorosa lentidão. - Quer dizer que eu passei no seu “vestibular” pra Xena - ela disse, sem perder a atitude irônica e irreverente que era sua marca registrada. Ela colocou os dedos na ferida sangrenta em sua testa, retirou-os e apertou levemente os cantos dos olhos quando viu o sangue. - Cara, que belo
“souvenir” você deixou na minha testa. Tô achando que vou ficar com uma cicatriz horrível. - Deu de ombros. - Tudo bem. Cicatrizes são um bom anúncio de competência pra uma guerreira, uma Caçadora.
- Podemos dar um jeito nisso - disse Ares calmamente. Ele estendeu a mão direita e passou as pontas dos dedos pela fronte de Buffy, sem chegar a tocá-la - e instantaneamente o repulsivo talho vermelho sumiu! Mecanicamente, Buffy apalpou a testa e esbugalhou os olhos ao sentir a pele absolutamente lisa, limpa e saudável.Era como se jamais houvesse sido ferida numa luta corpo a corpo com o deus da guerra.
Ela ficou olhando para Ares fascinada. - Já pensou em mudar de profissão e virar cirurgião plástico?
Ares riu; um som abafado e sutil.
- Espero não tê-la machucado... muito.
Buffy mostrou os dentes em um sorriso forçado.
- Exceto por um ou outro hematoma e algumas unhas quebradas... nada sério.
- Estou impressionado - disse ele, os dedos acariciando o cabo da espada. - Pelos deuses, você é quase tão forte quanto um de nós. Derrotaria com facilidade a própria Hipólita, Rainha das Amazonas, e ela foi uma guerreira formidável. É por isso que você vale tudo para mim neste instante, Buffy.
Os dois se encaravam. Uma mistura de emoções atravessava Buffy, ameaçando subjugá-la por completo.
“Respire fundo, Buffy Summers... Isso... Controle-se, não deixe o inimigo perceber que você está vulnerável.” Buffy inspirou profundamente para se acalmar, mas, ainda assim, seu coração continuou a bater acelerado. Os olhos do deus da guerra pareciam concentrar as energias negativas do Universo, e ela sentia que não olhavam para ela, mas para dentro dela - seu coração, sua alma.
- Pois é! - disse Buffy em tom jovial, tentando disfarçar o sentimento de insegurança que a atormentava. - Nada como uma boa briguinha pra animar as primeiras horas da madrugada, né?
- É, sim - replicou Ares, parado a dez centímetros dela. - O deus da guerra adora uma boa briguinha... é só um
“aquecimento” antes da primeira campanha da guerra-relâmpago. E pretendo vencer esta guerra.
Silêncio. Ela encarou-o sem falar. Um vento mais forte do que o vento outonal soprou e Buffy cruzou os braços, com os punhos fechados e abrigados nas dobras dos cotovelos. Teve a impressão de que havia chegado a uma encruzilhada do seu destino.
- Seus olhos têm uma cor toda especial, cambiante de verde-mar a verde-oliva, como os de Athena. E você ainda arde com a chama da guerra justa. E nunca devemos nos esquecer de que você tem um demônio guardado no peito, uma besta negra que luta constantemente para libertar-se.
- Pára! - Ela tremia, mas não de frio. - Me deixa em paz, pelo amor de Deus!
- Eu sou o seu deus, o único deus que jamais conhecerá. - Ares tomou-a brutalmente nos braços e beijou-a, esmagando seu corpo contra o dela num abraço selvagem, com uma força que teria ferido uma mulher normal. Os seios grandes e macios dela, comprimidos contra o peito maciço. Os lábios rubros estavam frios, mas seu corpo delicado ardia de desejo. Ela hesitou, lutando para reprimir suas violentas paixões. Porém, de repente, tudo foi sufocado por um calor negro transbordante que subia de seu ventre e toldava-lhe os sentidos, consumindo-a. Buffy, cega de paixão animal, enroscou-se no corpo poderoso do deus, remexendo os quadris numa cadência sensual. Ele arrancou-lhe a jaqueta e mergulhou os dedos fortes na pele macia do corpo dela, fresco e gostoso de apertar e acariciar. Com fúria, ela beijou-lhe a boca entreaberta, em seguida enterrou o rosto no pescoço dele e, como uma vampira, chupou-lhe ardorosamente a pele bronzeada. Ela o beijava sem parar, sugando-lhe o pescoço, o rosto, os olhos, sentindo o odor quente e almiscarado da pele dele - um cheiro divino e másculo ao mesmo tempo. Os cabelos dourados de Buffy esvoaçavam pelo rosto dele, cujos olhos brilhavam com as chamas da perdição. Ele correspondeu a seus beijos de língua com igual sofreguidão, as mãos alisando sua cabeleira sedosa para trás, percorrendo os contornos dos seus ombros e das suas costas e descendo para a curva excitante de suas nádegas, que agarrou e apertou com jeans e tudo.
Ela estava ofegante, gemendo baixinho - e ele também. Pareciam dois animais no cio, prontos para se acasalarem. Buffy sentiu uma súbita umidade morna entre as coxas. Ela era um reator nuclear em massa crítica, e teria certamente chegado às vias de fato com Ares. Mas de repente...
- Este não é o lugar, nem o momento adequado - sussurou então ele.
O encanto fora rompido. Buffy arregalou os olhos assustada e se desvencilhou dele o mais rápido possível que seu corpinho trêmulo permitiu.
A luz do luar, que banhava a miríade de túmulos espalhados sob as árvores escuras, começava a mesclar-se à claridade acinzentada do amanhecer. O rosto de Buffy encheu-se de fúria. Seu peito subia e descia, arfante, balançando sedutoramente os seios cheios e apetitosos que o caimento da fina camiseta de algodão só fazia acentuar. Seus olhos de jade fuzilavam Ares.
- Você me enfeitiçou! - explodiu ela, dominada pela raiva e pela vergonha. - Os deuses gregos são todos uns conquistadores baratos, mulherengos... Você me atacou feito um animal tarado e... e... me envolveu, me seduziu! - Ela ofegava pesadamente, com os punhos fechados. - E pra que, pra contar aos seus colegas deuses que a caça-vampiros é uma vadia?
“Buffy, a Vadia dos Deuses”, é assim que vão me chamar lá no Olimpo, não é?
- Ora, vamos! - atalhou Ares. - Eu tomei a ofensiva, sim, mas foi você quem abaixou o escudo e entregou as armas com tamanha facilidade. E sabe por quê? Inconscientemente, você queria ser conquistada, tomada à força por um homem forte. Fiz isso para lhe dar uma lição. Ninguém, nem mesmo um deus, pode forçá-la a fazer algo que não queira, consciente ou inconscientemente.
Ela não respondeu nada. Incapaz de articular qualquer palavra, limitou-se a apanhar a jaqueta de brim caída no chão, vestiu-a e, virando-se, procurou afastar-se rapidamente. Foi quando a voz de Ares a deteve, chamando-a:
- Buffy!
Ela se voltou lentamente após ouvi-lo.
O deus grego mirou-a com indisfarçável candura. E disse:
- Buffy, estou de olho em você há seis anos. Vi como deu cabo de inimigos que nenhum outro se atreveria a enfrentar. Primeiro foi o Mestre vampiro da Ordem de Aurelius, depois o pervertido Angelus, o prefeito-demônio de Sunnydale, o Adão
“cyber-demonóide” criado pela Iniciativa, a enlouquecida deusa-demônio Glory. Um curriculum vitae de respeito. E você sempre teve consciência, razão, objetivo, dedicação. É exatamente atrás disso que eu estou, você não compreende? Buffy, eu não poderia tê-la ignorado.
Buffy suspirou. - Você não vai me deixar em paz, vai?
- Não, caríssima. Receio que não vou deixá-la em paz. Estou dando a você oportunidade idêntica à que concedi a Xena, a Princesa Guerreira, e a Lívia, a Devassa de Roma. Poderá realizar seu desejo de afastar sua vida da atual falta de objetivo e de significado para entrar numa batalha crucial pelo destino do mundo. E eu garanto que juntos venceremos.
- Um deus da guerra feminista?
- Sempre tive uma quedinha por mulheres fortes. Em três mil anos de profissão tive mulheres memoráveis na cama e no campo de batalha. Se isso me torna um feminista a seus olhos, tanto melhor.
- Acho que não estou pronta para me sentar no “Trono do Mundo”, ter o mundo inteiro aos meus pés - respondeu Buffy, depois de pensar um momento.
- Ora, pense em quantos homens duros e até cruéis tentaram e falharam, nos últimos vinte e quatro séculos. Alexandre o Grande, Júlio César, Átila, Gengis Khan, Hitler... Orientei alguns, até não me interessarem mais. Com você, não, a história é diferente. Foi testada e aperfeiçoada. Eu a quero junto comigo, lutando ombro a ombro, a meu lado, minha princesa guerreira, general do exército de Ares. Vou lhe dar novas armas, infinitamente mais poderosas, com as quais você vai matar e destruir para mim. Podemos remodelar o mundo, como lhe falei - e aniquilar todos os demônios, se você quiser. Posso até fazer de você uma deusa, imortal.
- Fica implícito que... eu posso me recusar a cooperar com você, né?
- Naturalmente que sim. Ninguém pode se unir a mim e trilhar o caminho do guerreiro se não optou por isso.
Buffy inclinou a cabeça para um lado e pensou por um momento. - Me dê um tempo para refletir sobre isso. Quero um dia inteirinho e mais uma noite.
Foi a vez de Ares ponderar. - Hummm... OK, tudo bem. Estou esperando por alguém como você há meio século. Um ou dois dias não farão diferença. Além do mais, sou muito necessário na Casa Branca e no Pentágono. Deuses da guerra não saem de licença, nos dias que correm.
- Só mais uma coisa - disse Buffy. - Por que me fez sonhar que lutava com Riley e o matava? Ainda se fosse um Parker da vida... Mas por que Riley?
- Por que não Riley? - foi a contra-pergunta de Ares. - Afinal, ele é um soldado, um homem de armas. Deixe-me contar-lhe um segredo: Riley Finn é meu seguidor. Isso mesmo! Maggie Walsh fez a cabeça dele muito bem. Ela sempre foi totalmente devotada a mim.
- Meu Deus DEUS! - murmurou Buffy, chocada.
Ares fitou-a compassivamente.
- Vou deixar você ir agora - disse ele, consultando uma estranha ampulheta que do nada materializou-se na palma de sua mão. - Já são cinco horas da manhã. Vá para casa, tome o chá de ervas da Willow, relaxe e durma. Ainda não está preparada e não quero forçá-la outra vez. Quando você ingressar nas minhas fileiras, tem que ter fé e convicção perfeitas. Agora vá. Ah, não deixe de visitar meu website; é radical!
Buffy suspirou fundo.
- A propósito - Ares sorriu malicioso. - O gosto dos seus beijos é como o da ambrosia, o néctar dos deuses. Até breve! - Ele acenou uma despedida e desapareceu num jato de luz azul-violácea.
Deixou para trás uma Buffy confusa, que no momento se sentia bastante desorientada. Suspirou novamente, e foi sentar-se num maciço sepulcro de mármore branco que se erguia por entre dois enormes olmos tortos.
Agora sabia que estava num ponto crucial de sua vida.
- E eu que achava ruim quando o Spike pegava no meu pé!
O novo dia raiou sobre Sunnydale.
O Sol, amarelo e generoso, ardeu devagar e bem-humorado sobre a pequena cidade, inundando as casas e prédios com uma luz dourada e fraca que projetava sombras ao lado das paredes sólidas. A Boca do Inferno, centro da malignidade da Terra, tinha outro dia tépido de outono pela frente.
Para uma certa caça-vampiros, contudo, os problemas estavam apenas começando...
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Em memória de Kevin Tod Smith, nascido em 16/03/1963 e falecido em 16/02/2002.
F I M
Joss Whedon possui todos os direitos sobre Buffy the Vampire Slayer.
Vamos considerar que esta história transcorra entre os episódios After Line e Flooded,
da sexta temporada, em uma realidade um pouco diferente.
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