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Resenha – Palavras do Autor...
Para quem já leu "A Caçadora e o Deus da Guerra"", esta história é uma continuação daquela - bem, não rigorosamente falando. Assim como o universo de "A Caçadora..." não é exatamente aquele que os fãs de "Buffy, a Caça-Vampiros" conhecem, mas uma variação do mesmo, envolvendo muitos personagens e situações do "Buffyverso" de Sunnydale, mas não tendo como cenário (ou background) necessariamente o mesmíssimo universo. "Pacto Profundo" (o título é um trocadilho ou chiste com o título do filme "Impacto Profundo", e tem uma razão de ser, conforme os leitores descobrirão) é ainda um crossover entre diferentes séries e universos, intercruzando "Buffy" com "Xena" e "Hércules", com "Angel" e até com "Charmed". Ademais, também faz referências a temas explorados em outras fanfictions de "Buffy", tais como "Os Poderes de Anisha", de Vinicius Zolin, e o monolítico "The Willow Codex" (ainda não traduzido p/a o português), by Ryan. Existe atualmente um verdadeiro multiverso de "Buffy" (assim como de outras séries televisivas), onde convivem, pacificamente, versões mais ou menos coincidentes. E a minha é, simplesmente, uma delas.
Procurei ser o mais fiel possível, neste conto, às características e ao perfil psicológico de cada um dos personagens retratados e já consagrados, principalmente o bom-humor e a ironia que são, por assim dizer, sua marca registrada. Afinal, trata-se de escrever para personagens que não são meus, respeitando sua integridade e todo um universo já pré-estabelecido (inda mais, no caso de crossover!), sem, contudo, abrir mão da originalidade e de uma visão pessoal do tema abordado. Espero ter sido bem-sucedido; se não o fui, que os fãs das respectivas séries me perdoem.
""Pacto Profundo"" começa onde "A Caçadora e o Deus da Guerra" termina, ou, mais especificamente, umas seis ou sete horas depois do término da história anterior. Buffy já voltou para sua casa (ninguém estranhou muito o fato de ela só dar as caras na manhã seguinte, pois não é incomum que Buffy o faça), e "pregada" de sono, foi logo dormir. Após tudo o que passou, a Caçadora bem que merece uma pausa, uma trégua. Todavia, conforme ressaltei ao findar o conto anterior, os problemas de nossa heroína só estavam começando. Com efeito, os acontecimentos verificados a seguir farão aqueles vistos em "A Caçadora..." parecerem brincadeira de criança. É ler e conferir!
Início
Por um minuto, no máximo dois, foi dada aos pobres habitantes de Sunnydale, paralisados de horror, a oportunidade de contemplar o aterrador espetáculo final. Num céu tingido de sangue e fogo, o meteoro crescia de tamanho e flamejava ameaçadoramente, sobrepujando o brilho do próprio Sol. Depois, com uma massa de mil toneladas de rocha e metal voando a cinqüenta quilômetros por segundo - enquanto um vento infernal varria a cidade condenada - , veio a morte. O meteorito gigante vindo de noroeste lançou-se do céu com violência inaudita na Boca do Inferno, onde provocou uma explosão equivalente à de uma bomba de hidrogênio. Com um estrondo apocalíptico, uma coluna de fogo e fumaça subiu ao céu, arrastando consigo gases venenosos, cinzas, poeira, massas gigantescas de pedras incandescentes. A cidade de Sunnydale foi eliminada da face da Terra; a zona diretamente atingida foi transformada numa cratera fumegante. Tudo ardeu em chamas por centenas de quilômetros, numa ode à destruição e à morte. Quantidades gigantescas de cinza e pó misturaram-se ao vapor d’água suspenso na atmosfera, condensaram-se em imensas nuvens negras que obscureceram o Sol. Todos os demônios cativos enfureciam-se, toda claridade era transformada em escuridão.
Apocalipse! Ragnarok!
Mais de cinqüenta mil seres humanos perderam a vida, dizimados de um só golpe pelo "bombardeio de precisão" de origem espacial - inclusive Buffy e os Scoobies, surpreendidos pela morte quando tentavam salvar-se.
- Acorde, Buffy, pelo amor de Deus! ACORDE!
O pesadelo foi interrompido por uma gritaria desordenada no corredor e por uma série de pancadas fortes na porta do quarto. Buffy acordou suando frio! Ela notou que o relógio digital sobre a mesinha de cabeceira marcava 12:53 h (hora local). Levantou-se de um salto, correu para a porta e destrancou-a. Quem batia eram Dawn, Willow e Tara, com os olhos arregalados de pavor, ofegantes ante um desespero de tal monta que se sobrepunha a qualquer outra emoção, um avassalador pânico de morte que parecia encher a casa das Summers. Buffy ficou a olhá-las, desnorteada. Por um instante se esqueceu do sonho terrível do qual despertara.
- Gente, o que é que tá acontecendo aqui? - perguntou, sem conseguir recuperar-se do espanto e do susto. - Vocês três estão com cara de quem saiu com o Diabo em carne, osso e ectoplasma!
Dawn agarrou-a pelos ombros e sacudiu-a com violência.
- Buffy, Buffy! - sua voz de menina adolescente estava estridente de desespero. - Nós vamos morrer, todas nós, todo mundo em Sunnydale vai morrer! É o fim, é o fim de tudo...!
- Acabou de dar na CNN, na TV - interveio a Willow, freneticamente agitada e transtornada de sofrimento e medo. - Um asteróide, ou meteoro, de 160 metro de diâmetro saiu do nada, do espaço profundo, sei lá, e vai se chocar com a Terra... AQUI! Bem aqui, na Boca do Inferno, em Sunnydale, no epicentro de tudo o que é mau, ruim e terrível! - Sacudiu a cabeça, como se pudesse exorcizar com um simples gesto a visão terrífica que assomava. - Sunnydale vai ser riscada do mapa e nós com ela... Faltam só 45 minutos pro impacto!
- Não vai restar nada deste lado da Califórnia exceto uma cratera de 4 quilômetros de diâmetro e uma confusão de ruínas e terras queimadas num raio de 120 quilômetros - murmurou Tara, com uma expressão de angústia e pavor em seu rosto. - Foi o que disseram...
Buffy encarou as moças chocada, com seus olhos relampejando de uma para outra - de Dawn para Willow, de Willow para Tara e novamente para Dawn. Sua lembrança retrocedeu instantaneamente às imagens cataclísmicas do pesadelo. Sentia como se um mórbido vento gelado fustigasse cada fibra de sua existência.
****
Saguão da Guerra, Olympus Mons, planeta Marte
Sentado em seu macabro Trono da Morte decorado com caveiras e forrado de peles humanas, o Deus da Guerra Ares parecia uma imagem talhada em aço, a corporificação de um poder primal e terrível, momentaneamente aplacado, tão-somente à espera de um sinal para entrar de novo em ação, trazendo morte e destruição ao mundo. A luz dos archotes nas paredes de pedra refletia-se em seu rosto bonito, cor de bronze fosco, cabelos negros e barba curta. Mesmo parado, seus olhos chamejavam com uma intensidade viva.
Um facho de luz branca cegante encheu o átrio, tomando a forma de um homem jovem e esguio, rosado, de cabelos louro-claros. Contrastando com a negrura das roupas de couro de Ares, o recém-chegado usava a rica indumentária de um príncipe viking - um manto de lã vermelho-púrpura debruado de dourado, preso por um broche de prata, sobre a túnica de lã de cor bordô, e o cinto enfeitado de jóias que lhe prendia à cintura a bainha vermelha ricamente decorada de sua espada com punho de prata. Em seus olhos cinzentos bruxuleava a lânguida centelha de um humor inconstante, perigoso como o fogo.
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Ares. Estendeu o braço musculoso na direção do pequeno deus louro e abriu a mão.
- Observe, meu caro Loki - disse ele. - Tudo está funcionando de acordo com o plano. Dentro em breve, eu terei a caça-vampiros bem aqui, comendo na minha mão, por assim dizer, totalmente subjugada e submissa!
Os dois riram alto. Lá estava, na palma da mão direita de Ares, uma perfeita miniatura "holográfica" de Buffy, vestida de jeans e camiseta, encarando atônita os Scoobies à porta do seu quarto no andar superior da casa das Summers.
Faltando 45 minutos para Sunnydale ser destruída!
****
Buffy falou. Como se gemesse: - Tive outro pesadelo. Sonhei que Sunnydale tinha sido totalmente destruída por um meteoro gigante... Foi quando vocês me acordaram.
- Quisera que fosse assim - replicou Dawn, soluçando de raiva e de tristeza. - Nada além de um pesadelo odioso, do qual a gente pudesse acordar a qualquer momento, suando frio mas ilesa, na cama, olhasse ao redor e pensasse "Ah, não foi nada, foi só um sonho. Tudo está em seu lugar, graças a Deus".
- Mas é tudo real e todos nós vamos morrer em poucos minutos - atalhou Anya, com sua costumeira falta de tato (ou, como ela própria gostava de dizer, "franqueza explícita"). - Que ironia do destino, esta! Buffy morre, nós a chamamos de volta à vida com magia negra, apenas pra ela morrer de novo alguns dias depois, junto com o resto de nós. E desta vez não vai sobrar ninguém pra repetir o ritual da ressurreição. Melhor seria se a tivéssemos deixado morta da primeira vez!
- Anya! - exclamou Willow com indignação. Dawn disparou um olhar eivado de ódio para a ex-demônia. Mas, se ela o percebeu, não deu a mínima. Anya sempre falava o que pensava e o resto que se danasse.
- Buffy, diga pra eles! - ela gritou, voltando-se de repente para a Caçadora. Mas Buffy ignorou-a. Dormira por quase sete horas ininterruptas desde que voltara do cemitério, às seis da manhã, após ter-se batido com o deus Ares numa confrontação tão alucinante quanto absurda. Como num seriado de TV, algo saído de um episódio de Xena ou de Hercules. E agora, tinha sido despertada bruscamente de um pesadelo aterrador - Armageddon e Deep Impact em toda a sua crueza cinematográfica - , apenas para descobrir que o pesadelo prosseguia, em pleno dia! No seu mundo real!
Anya continuou a vociferar idiossincrasias, fazendo com que a tensão e o alvoroço na casa das Summers atingissem níveis insuportáveis.
- E nós dois, Xander? - ela agarrou o namorado pelo braço. - Já que vamos morrer daqui a pouco, por que não aproveitamos o tempo que ainda nos resta pra uma última transa? Eu quero morrer transando com você, meu homem, meu namorado, meu quase-noivo...
- Cale a boca, Anya! - explodiu Xander, retirando o braço. - Ninguém desistiu ainda! - Respirou fundo. - Tá legal, tá legal, vamos nos concentrar no problema, pensar logicamente, sem perder a cabeça...
A situação era tragicômica. Willow olhou para Xander. Mordazmente replicou:
- É melhor pensar rápido, "sr. Spock", só temos mais quarenta minutos!
- Que tal um feitiço anti-meteorito? - A voz de Buffy se fez ouvir, suave, porém firme.
Todos os olhares se voltaram para a Caçadora. Seu rosto de traços delicados, com os grandes olhos verdes penetrantes, parecia cansado e preocupado.
Willow sacudiu a cabeça, fazendo oscilar os cabelos cor de fogo, lisos e finos.
- Não existe tal coisa, Buffy. Não que eu saiba ...
- Galera - disse Xander ironicamente - , quando a bruxa mais poderosa do Ocidente diz que alguma coisa é impossível, a gente pode levar fé.
- Não falei isso - rebateu Willow. - Só disse que... Mas, espere aí! - Seu rosto se iluminou. - Eu poderia... - Virou-se para Tara. - Nós poderíamos criar um campo de força místico que funcionasse como uma blindagem `a nossa volta, e acima também. Já fizemos isso antes, que acha? Um verdadeiro escudo defletor contra o meteoro.
- Teoricamente, é possível - explicou Tara. - Só que tem um porém, ou melhor... pior, três: primeiro, a correta realização de um feitiço tão poderoso requer uma certa preparação espiritual, uma concentração de forças, e isso leva tempo; segundo, mesmo que dê certo, não dá para estender a "redoma de proteção" para a cidade inteira; e terceiro, não há nenhuma garantia de que a "blindagem" vá resistir ao impacto de um aerólito de milhares de toneladas.
- Aero o quê? - indagou Anya.
- Meteoro, meteorito - esclareceu Dawn. - Não ensinam astronomia na Escola Preparatória de Demônios da Vingança?
- Quer dizer que, mesmo que a gente se salve, todo o resto de Sunnydale vai pro buraco? - indagou Xander, com seu rosto másculo marcado de preocupação.
- Não permitirei isso! - exclamou a Caçadora, com os olhos brilhando de raiva e determinação. - Já enfrentamos meia dúzia de apocalipses e salvamos esta cidade - e o mundo - dos piores demônios, pra deixar agora que um pedregulho gigante vindo do espaço reduza tudo a pó. Esse meteoro tem que sumir do céu.
Tara aproximou-se dela. - Buffy - falou a jovem bruxa, em tom quase maternal - , Deus me perdoe por dar uma de Anya, mas...
- Eu só falo a verdade, falo o que ninguém tem coragem, a qualquer hora e em qualquer lugar - protestou a ex-demônia vingadora.
- ... a verdade é que você pode ser insuperável surrando vampiros e monstros, mas não tem poder pra deter um asteróide em curso de colisão em 30 ou 40 minutos. Nenhum de nós tem esse poder.
Buffy empertigou-se.
- Conheço alguém que tem.
Casa das Halliwell, San Francisco.
- Nós precisamos fazer alguma coisa! - gritou a linda Phoebe, com os olhos cheios de terror. - Willow, Buffy e todos os moradores de Sunnydale morrerão se aquele meteoro atingir a cidade!
Phoebe, com seu poder de precognição, havia tido conhecimento da futura catástrofe e havia contado sobre ela a Piper e a Paige. Haviam realizado um complicado ritual, usando o Poder das Três, para barrar o caminho da mortífera rocha cósmica. No entanto...
- Não consigo entender - Piper olhou para as irmãs e sacudiu a cabeça vagarosamente. - O Poder das Três nunca tinha falhado assim. O feitiço que encontramos no Grimoïre deveria funcionar. Deveríamos ser capazes de desviar o meteorito para o deserto do Novo México, ou para a Baja California, ou pulverizá-lo ainda no ar mesmo. Por que não funcionou... não sei!
- O problema deve ser comigo - retrucou Paige, a novata. Ela caminhou até uma janela, olhou para fora e depois para as irmãs. Sentia-se mortificada.
- Acho que não nasci pra ser uma Encantada.
- Paige, não fale assim - pediu Phoebe. - O seu lugar é aqui, é conosco.
- Precisamos de você - endossou Piper, que inda se sentia meio insegura em seu novo papel de irmã mais velha. - Sem você, o Poder das Três será quebrado e aí, maninha, a coisa vai ficar realmente feia pra nós e pro resto do mundo. Já falamos disso antes, né?
- A coisa já está ficando feia - comentou Phoebe, aludindo ao meteoro mortífero que se aproximava. - O que vem por aí fará o 11 de Setembro parecer um dia de acampamento de verão, se não o detivermos. E só temos meia hora!
- Sei que é uma péssima hora pra se ter uma crise de identidade - Paige suspirou - , mas não está sendo nada fácil me adaptar a esse mundo de bruxaria e de demônios que querem destruir a Terra. Posso ter os mesmos poderes da Prue, mas sei que nunca poderei substituí-la. No fundo, é o que vocês pensam, não é?
Piper e Phoebe acercaram-se dela.
- Ninguém espera que você substitua a Prue - respondeu Piper, muito séria. - Você é você: é a Paige, metade anjo, metade humana. Tem dons que nenhuma de nós jamais teve. E vai aprender comigo e com a Phoebe a controlar e a aperfeiçoar seus poderes, usando-os em conjunto conosco, certo?
- Nós três somos a elite, as "escolhidas" - exclamou Phoebe em tom alegre. - Somos "As Encantadas", juntas temos o poder de destruir o Mal e salvar o mundo.
- Também somos lindas, gostosas, poderosas e maravilhosas - acrescentou Paige, rindo. Parecia ter recuperado a auto-estima.
As três bruxinhas abraçaram-se ternamente, seus corpos deliciosamente curvilíneos e jovens, metidos em justíssimos jeans e blusas sem mangas, unidos num abraço fraternal.
- Gente, temos um meteoro assassino pra exterminar! - lembrou Phoebe.
- Tem algo de muito errado em tudo isto - ponderou Piper. - Foi só essa pedrona cósmica dar o ar de sua desgraça pra que nossos poderes combinados deixassem de funcionar. Derrotamos legiões de demônios e de bruxos do Mal, e agora não somos páreo pra um montão de ferro e níquel fundido? E por que não conseguimos entrar em contato com a Willow ou com a Tara? Telepatia, projeção astral, nada funciona.
- Nem o telefone - acrescentou Phoebe, cujos cabelos castanhos desciam em ondas sobre os ombros nus, de uma tonalidade dourada. - Tentei ligar várias vezes pro número que a Willow nos deu, da casa da Buffy, e nada! Até parece que ergueram uma barreira de isolamento ao redor de Sunnydale.
- Só não isola de meteoritos em queda livre, posso apostar - disse Paige. A brancura de sua pele macia contrastava com seus cabelos escuros e lustrosos. - Sinto cheiro de magia demoníaca ... Opa! - ela sorriu. - Já comecei a falar como uma bruxa experiente.
- Bem-vinda ao clube - disse Phoebe.
Nesse ponto, um jorro de confusas partículas de luz desceu suavemente do alto, e logo em seguida concentrou-se em uma forma humana, diretamente à frente das jovens bruxas. Um homem jovem e belo, de olhos e cabelos castanhos, usando suéter verde por cima de uma camiseta branca e jeans. Era Leo, o anjo da guarda das Encantadas e marido de Piper.
- Estive com os Anciãos - declarou, com a voz carregada de preocupação. Seus olhos momentaneamente se voltaram para Piper. - Eles disseram que há uma conspiração por parte dos poderes das Trevas, para fazer da Caçadora o seu instrumento. Buffy corre perigo, um perigo muito mais grave do que um meteoro desgovernado cair lá em Sunnydale. Aliás, não vai haver colisão nenhuma, é tudo um ardil, um engodo visando atrair a Buffy.
Piper empalideceu. - Então o meteoro...
- É teleguiado - completou Leo, balançando a cabeça afirmativamente.
- O que aconteceu com os nossos poderes? - indagou Paige abruptamente, interrompendo-o.
- Encantamentos muito fortes - e sutis - impediram que houvesse a conexão entre os poderes de vocês. O cara que planejou essa armadilha pra Buffy pensou em tudo. Sabia que as Encantadas tentariam interferir e agiu primeiro.
- Alguém "amarrou" nossos poderes? - disse Phoebe, incrédula.
- Mas quem? - perguntou Piper, tão chocada quanto a irmã. - Que tipo de demônio seria poderoso o bastante pra anular o Poder das Três?
- Isso mesmo, Leo - exclamou Paige, acaloradamente. - Quem é o patife, o demônio safado que fez isso com a gente?
- Não se trata de um demônio - disse Leo em tom sombrio. - Trata-se de um deus.
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Casa das Summers, Sunnydale.
- Quem?
A pergunta, feita em coro pelos Scoobies, ecoou como um trovão nos ouvidos de Buffy. Mas ela sabia que não poderia respondê-la sem expor a seus amigos seu encontro com Ares. Não queria que os irrequietos "caça-vampiretes" viessem a bater de frente com o Deus da Guerra, assim como não pretendia, em hipótese alguma, revelar-lhes que sua alma estava no Paraíso e não no Inferno, como todos pensavam, quando foi forçada a voltar pelo cruento ritual da ressurreição (só Spike conhecia toda a verdade, mas ele lhe prometera silêncio).
- Turma, não tá na hora de perder tempo com explicações - limitou-se a dizer, enquanto todos desciam para a sala de estar. - Tá na hora de agir. Willow e Tara, preparem o tal feitiço de blindagem pra nossa casa; é melhor do que ficar sentado sobre o próprio traseiro, esperando a morte chegar. Os demais - ela olhou para Dawn, Xander e Anya - , já pra baixo, no porão, que é o lugar mais seguro desta casa se o pior acontecer. Quanto ao resto, deixem comigo.
- Não pode sair agora - objetou Dawn, vendo que Buffy se dirigia para a porta da frente. - Lá fora deve estar o maior caos.
- Sem discussão! - explodiu Buffy num tom de voz que não admitia réplica. Depois sorriu tristemente e acrescentou: - Por favor, confiem em mim.
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O deus Loki olhava fascinado a finíssima cortina imaterial, totalmente transparente para os seus sentidos, que o separava do plano existencial da materialização física. Podia ver e ouvir os mortais à sua volta sem ser visto ou ouvido por eles.
- Bem, bem, bem - disse ele, esfregando as mãos de contentamento - já está na hora de nos conhecermos tête-à-tête, senhorita caça-vampiros.
Atrás da barreira invisível movia-se, como um peixe num aquário, uma personagem que podia ser reconhecida nos seus mínimos detalhes: Buffy Summers.
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- Puxa vida, não é que a Dawn tinha razão!
A visão era apavorante. De olhos arregalados, Buffy viu o pandemônio que se instalara ao redor de sua casa, nas ruas da cidade que há seis anos era seu lar. Homens e mulheres enlouquecidos de pânico, histéricos, corriam sem rumo em todas as direções, soltando urros e gritos horríveis. Outros caíam de joelhos, rezando convulsivamente, implorando misericórdia ao Deus cristão e judaico. No asfalto espremiam-se carros, vans, RPs e ambulâncias, num monstruoso congestionamento que, visto do alto, deveria assemelhar-se ao corpo disforme de uma pavorosa serpente de aço, enquanto a furiosa cacofonia das buzinas e sirenes estridentes enchia o ar com uivos e guinchos que quase abafavam os gritos dos fugitivos. Ao longe, via-se um prédio ardendo em chamas. O ar estava saturado do cheiro da fumaça dos vários incêndios; a rua estava tomada pelos destroços do vandalismo, como vidros quebrados, pedaços de paus e pedras espalhados, um ou outro ônibus incendiado. Sob um sol a pino, Sunnydale agonizava.
- Desse jeito, não vai sobrar nada pro meteorito - Buffy murmurou.
Um par de vampiros apavorados passou correndo, envolto em grandes rolos de labaredas alaranjadas, e então explodiu ao sol. Seus ossos, cérebros e corações viraram cinza, que o vento espalhou. Buffy ignorou-o intencionalmente. Com os lábios fortemente apertados e a testa franzida numa expressão severa, a moça se afastou, resoluta e cautelosamente, da casa de dois andares onde morava. Ninguém na rua parecia prestar atenção a ela. Afinal, agora era cada um por si e Deus - ou o diabo - que cuidasse do resto, na cidade condenada à morte. Buffy recostou-se numa árvore enquanto pessoas apavoradas passavam correndo. E então chamou:
- Ares!
Não houve resposta, mas Buffy não tinha intenção de desistir.
- Ares, Deus da Guerra, apareça! Preciso falar urgentemente com você!
Nem sombra do deus da guerra. Nas ruas, a completa anarquia.
- Droga, sempre funcionava com a Xena, no seriado da TV - resmungou Buffy.
- Só que isto não é um seriado de TV - soou uma voz suave e musical de garotinha. - Em vinte minutos, não vai ficar pedra sobre pedra daqui até Long Beach.
Buffy virou-se abruptamente e encarou a linda menina que, de uma hora para outra, se encontrava junto a um grupo de arbustos à esquerda. Nunca tinha visto uma criança tão bonita, perfeita como um anjo. Aparentava ter uns oito ou dez anos, e usava um simples vestidinho azul, todo abotoado na frente. A pele era como veludo cor-de-rosa, um rostinho oval emoldurado por uma cascata de cachos dourados, e de olhos brilhantes. O olhar dela não era de todo azul nem cinzento, mas uma mistura de tons e luzes cambiantes. Havia malícia naqueles olhos. Sim, pensou Buffy, tem alguma coisa de mau nos olhos dela. Uma espécie de conhecimento antigo e malévolo.
- Ares? - perguntou a Caçadora timidamente, aproximando-se.
A garota riu, e em seus tons suaves modulava um canto da mais pura zombaria.
- Não, eu não sou Ares. Mas posso levar você até ele. - disse, estendendo a mão delicada para a caça-vampiros. - Dê-me sua mão.
"Já vi esse filme antes", pensou Buffy, lembrando-se de sua derradeira batalha contra o Mestre, quando fora conduzida à presença do demoníaco e nauseante vampiro-chefe por um vampiro-criança conhecido como "O Ungido". Bem, não era o lugar nem o momento para "sessão nostalgia". Se ela não tivesse sucesso, em menos de vinte minutos Sunnydale desapareceria numa cratera cheia de pó, e sabe lá Deus o que poderia acontecer com todo o resto da Califórnia, ou até com a Costa Oeste inteirinha!
- OK, "Cachinhos de Ouro" - concordou Buffy, segurando a mão daquela criança que não era criança. - Você venceu. Vamos em frente!
Um clarão de luz cegante envolveu-as - e elas desapareceram da face da Terra!
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Saguão da Guerra, Olympus Mons, Marte
Quando o clarão desapareceu, Buffy percebeu que estava de pé em uma espécie de câmara interior de um lugar imensamente velho. O fogo crepitante das tochas lançava uma luz amarela quente e dançante pelas paredes de pedra grosseiramente lavrada. Buffy olhou ao seu redor; a sala era quadrada e bem maior do que supunha, o teto alto se perdia em sombras espessas. Armas clássicas e escudos redondos, de bronze e de ferro, estavam pendurados ou apoiados na parede, ou jaziam no chão. No centro do aposento erguia-se um horrível trono negro decorado com crânios humanos que pareciam autênticos, carcomidos pelo tempo. Tudo naquele lugar tinha cheiro de morte, de guerra, de matanças e sofrimentos. Mas e o dono da casa? Onde estava Ares?
- Bem-vinda, Buffy, ao novo Saguão da Guerra - disse a estranha criança com um sorriso delicado. - O original ficava lá na Terra, num país antigamente chamado de Trácia, que foi o berço dos mais ferozes guerreiros de sua Antigüidade greco-romana. Não era à-toa que Ares gostava tanto deles. Em matéria de violência e força bruta, não ficavam atrás dos antigos germanos e vikings...
- Espera aí! - interrompeu Buffy, os olhos arregalados, quase com medo. - Lá na Terra, foi o que você disse? Quer dizer... que...que não estamos na Terra?
- Esqueci de mencionar esse detalhe - desculpou-se a menina em tom zombeteiro. - O local onde você se encontra foi escavado na rocha vermelha da cratera de um vulcão inativo há mais de 100 milhões de anos. É o Olympus Mons, o maior vulcão do Sistema Solar, aqui no planeta Marte. Isso mesmo, queridinha, Marte! Tem tudo a ver, né? O deus da guerra e o planeta vermelho a ele associado pelos mortais. Sabe, há uma gruta no paredão da cratera que dá acesso ao Saguão, mas como ele existe em um plano vibratório diferente do físico, é impossível para os mortais da Terra localizá-lo. Como se sente, Buffy, sendo a primeira mulher humana a pisar em Marte? Chegou aqui na frente de todo mundo.
Buffy agarrou-a e a sacudiu como se fosse uma boneca de pano.
- Por que me trouxe pra cá? - perguntou a Caçadora, furiosa, enquanto a menina ria dela. - Que tipo de armadilha é esta? Cadê o Ares?
- Eu estou aqui - respondeu uma voz familiar. Buffy virou-se abruptamente, a tempo de ver Ares materializar-se no Trono da Morte. Largou a garota e olhou diretamente para o rosto do deus. O que havia no olhar dela podia ser tudo menos reverência.
Ares sorriu ao ver a jovem e bela Caçadora. - Ora, ora, ora - disse, com evidente satisfação - o que temos aqui? Minha caça-vampiros favorita veio visitar-me em minha "Fortaleza da Solidão"! Sinceramente, não esperava reencontrá-la tão depressa, Buffy. Afinal, foi você mesma quem pediu um prazo pra pensar, lembra-se? Um dia e uma noite.
- Ares, vim fazer-lhe um pedido - confessou Buffy. - Mas primeiro... dá pra mandar embora a "bonitinha-mas-ordinária" aqui? - Fez um movimento com a cabeça para indicar a garota. - Ela me dá nos nervos.
- Loki - disse Ares, autoritário. No mesmo instante a menina sofreu uma metamorfose horrível. Suas formas distorceram-se grotescamente e ela transformou-se, numa fração de segundo, em um homem de compleição franzina, com rosto imberbe e cabelos que, de tão louros quase chegavam a ser brancos. Vestia túnica de couro com ornamentos que pareciam plaquetas de ouro por cima, numa padronagem quadriculada, calças e botas. Buffy estava perplexa.
- Se precisar de ajuda com a "Brunhilde", pode me chamar - disse Loki com um sorriso insolente. Os olhos cinzentos brilharam com um toque de malícia. Curvando o corpo num cumprimento cheio de zombaria, o deus nórdico transformou-se numa luminosa esfera branca, que desapareceu com uma risada de escárnio.
- Já vai tarde - resmungou Buffy. Agora tinha a atenção voltada só para Ares, e foi logo dizendo:
- Ares, não tenho tempo pra gastar com salamaleques e esse tipo de coisa que vocês, deuses, gostam tanto. Você deve saber o que eu quero, não sabe?
- Hummm... Sua cidade miserável está prestes a se transformar em uma versão menor da Cratera do Meteorito no Arizona, e você quer que eu impeça isso - respondeu o impassível Ares, sentado em seu trono.
- Você pode fazer isso, não pode?
- Claro que posso! A questão é: por que eu faria isso?
A caça-vampiros não respondeu, mas seu rosto revelava que refletia intensamente. De repente Ares levantou-se do trono e aproximou-se de Buffy rapidamente. Quando parou, um metro de distância os separava.
- Você e sua cidadezinha têm agora sete minutos. É bom que saiba que um deus nunca faz nada de graça; tudo tem um preço, inclusive a salvação. Lido com vocês, mortais, há cinco mil anos, desde muito antes do tempo dos mercenários trácios. Então, o que tem para oferecer ao Deus da Guerra, Caçadora?
Buffy hesitou. Subitamente seus olhos verde-mar tornaram-se frios e emitiram um brilho enérgico. Sua voz mal pareceu a de um ser humano, quando falou.
- A única coisa que posso oferecer e que sei que você quer: eu, eu mesma! - Ela bateu com a mão no peito. - Meu corpo, meu coração e minha alma. Serei sua princesa guerreira, sua rainha guerreira, o que você quiser. Mas trate de mandar aquela rocha do inferno pra qualquer lugar além de Plutão!
Ares fitou-a com os olhos perscrutadores. Somente captou a serenidade, a coragem, a certeza que irradiavam da caça-vampiros. Buffy possuía uma firme convicção de que esta era a única coisa certa a ser feita. Como já tantas vezes no passado - quando viu-se forçada a enviar para o Inferno seu amado Angel, com alma e tudo, para evitar que o vórtice demoníaco de Acathla destruísse o mundo; ou quando pulou para a morte em lugar de sua "irmã" Dawn, para que o sangue de uma Summers fechasse o Portal Proibido que ameaçava engolir o mundo - , Buffy mais uma vez mostrava-se disposta a sacrificar a própria vida e interesses pessoais em prol de um bem maior, o da coletividade, ou mesmo da humanidade. Por um breve instante o fantasma da Princesa Guerreira Xena voltou a assombrar o cruel filho de Zeus.
- Pois bem - concordou Ares. - Vamos fazer um pacto.
Ato contínuo, ele materializou na mão um rolo de pergaminho e entregou-o a Buffy.
- Isto é um contrato olímpico - explicou Ares em tom indiferente. - Tudo que tem a fazer é assiná-lo e se colocar ao meu dispor, conforme sua proposta; não há entrelinhas, letras miúdas ou qualquer outro subterfúgio. E, lembre-se: você agora tem cinco minutos.
Buffy abriu-o, sem a menor curiosidade, e aproximou-o de um archote na parede para ver melhor. Genuíno, pensou, preto no branco, em papel timbrado do Olimpo! À luz da tocha leu as palavras que, embora redigidas no grego homérico de um passado que já era nebuloso, a seus olhos, surpreendentemente, pareciam mudar para o inglês atual, como se tiradas de um livro da saudosa Biblioteca de Sunnydale High:
"Eu, Buffy Anne Summers, por minha livre e espontânea vontade, concordo em me colocar sob o comando supremo de Ares, Deus da Guerra, a quem reconheço doravante como meu único Mestre e cujos ideais defenderei, de corpo e alma, nisso empenhando meu coração, minha força e meu poder. Para mim, doravante, não existe nenhuma outra autoridade a não ser aquela que emana diretamente de Ares, Deus da Guerra, meu comandante supremo. Assim seja, por toda a eternidade."
Buffy ergueu os olhos para Ares. - Se eu assinar, você salva minha cidade?
- Juro pelas águas do grande rio Styx - ele respondeu.
- Não tenho caneta... - ela começou.
- Basta colocar a impressão digital do polegar na linha - interrompeu-a Ares, secamente. - Melhor ainda, a do indicador. Você agora tem três minutos.
- Pronto! - Ela devolveu-lhe o contrato assinado. - Está feito. Faça a sua parte, pra ontem!
- Farei, mas antes pegue minha mão. Dessa forma nosso vínculo se tornará mais estreito.
Buffy obedeceu sem pestanejar. Mas, ao apertar a mão estendida do deus, ela gritou de dor, uma dor atroz, lancinante, causticante como ferro em brasa queimando-lhe a pele, atravessando-lhe cada membro e cada veia como fogo líquido, com tamanha violência que parecia arrancar-lhe as entranhas, pedaço por pedaço. Não havia palavras para descrever aquilo; era Hellraiser ao quadrado, ao cubo! Ter a carne rasgada simultaneamente por milhares de ganchos, receber água salgada sobre cada ferida exposta!
Por uma fração de segundo ela pensou que morreria, mas então as risadas maldosas de Ares trouxeram-na de volta à realidade, no Saguão da Guerra. "Dor induzida nos nervos", pensou. Sentiu um formigamento na palma da mão. Para sua imensa surpresa constatou que possuía uma diminuta cicatriz na forma de um escudo redondo varado por uma lança com a ponta voltada para cima: a marca de Ares gravada a ferro e fogo na palma de sua mão.
****
Sunnydale, Califórnia, planeta Terra
Por um minuto, no máximo dois, foi dada aos habitantes de Sunnydale, petrificados de pavor, a oportunidade de visualizar o fatídico e aterrador espetáculo. Num céu cor de sangue e de fogo, o meteoro crescia de tamanho e flamejava ameaçador, superando o brilho do próprio Sol. Depois, movendo-se a cinqüenta quilômetros por segundo - enquanto um vento infernal convulsionava a cidade -, uma massa de mil toneladas de rocha e metal desintegrou-se numa nuvem inofensiva de pó e fumaça, com uma explosão que nada ficava devendo à de um foguetório de São João, ou da meia-noite da Véspera de Ano Novo.
A pedra cósmica do Apocalipse nunca atingiu o solo, pois explodiu a uma altitude de aproximadamente 800 metros acima do terreno onde outrora erguera-se Sunnydale High School, a "cobertura exterior" da Boca do Inferno lacrada. E choveu poeira na cidade toda, porém nada mais grave que isso aconteceu.
Mais de cinqüenta mil pessoas respiraram aliviadas - e um bom número de demônios também. Ninguém questionava como um enorme aerólito que surgira tão inopinadamente nos céus do planeta podia se esboroar em pó com tanta facilidade e sem qualquer razão aparente, tão perto do chão. A cidade fora salva e isso era tudo o que importava, naquele momento.
Mas a que preço, só os deuses sabiam...
****
- Pois é, Sunnydale, eu voltei!
Buffy caminhava pelas ruas da cidade com um jeito desleixado, seus pés calçados com botas de couro preto levantavam pó e cinzas; a calça jeans desbotada e a camiseta preta sem mangas não ocultavam o corpo esguio e feminino, antes realçavam-no; os cabelos dourados compridos agitavam-se ao vento como um véu cintilante, envolvendo o rosto atrevido e sensual, de traços delicados, marcado pelos grandes olhos verdes que transmitiam uma maturidade extraordinária numa garota de vinte anos.
Às 14 horas, havia tanta fumaça no ar que o sol parecia estar se pondo, brilhando inofensivamente como uma bola suja vermelho-fosco por detrás das nuvens de pó e cinza que deslizavam pelo céu. De vez em quando o olhar atento da Caçadora se detinha sobre os escombros que o vandalismo do próprio homem deixara para trás: um carro incendiado aqui, uma vitrine quebrada mais adiante... Buffy apressou o passo em direção à sua casa. Seus pensamentos giravam em torno de uma pergunta: de que maneira o pacto com Ares poderia ser anulado?
Ela contaria a verdade aos Scoobies, resolveu. Willow e Tara eram bruxas poderosíssimas; Anya já fora um demônio com mais de mil anos de experiência. Talvez mesmo Giles, lá na Inglaterra, pudesse recorrer ao arsenal de conhecimentos multimilenares do Conselho dos Guardiães - conhecimentos colhidos desde tempos tão remotos que nem datados eram. Juntos, encontrariam uma saída. Buffy suspirou, olhando para a marca odiosa na palma de sua mão. Todo o seu ser revoltava-se diante da perspectiva de servir a Ares, por mais tentadora que fosse a recompensa que ele lhe prometia. Urgia fazer alguma coisa para reverter isso.
As ruas estavam quase vazias àquela hora. O único incidente mais ou menos sério, quando Buffy já se achava bem perto de casa, foi um encontro com um demônio Bergahazza - uma besta reptiliana de quase dois metros de altura, vestindo uma camiseta cinzenta suja e jeans rotos - que teve a má sorte de emboscá-la num canteiro de obras abandonado. Buffy matou-o a golpes de marreta e escondeu o corpo atrás de um muro derruído rodeado de mato.
- Algumas coisas não mudam nunca - ironizou a Caçadora.
Poucos minutos depois, Buffy atravessou o gramado que conduzia à sua casa. Olhou em torno, com o ar aliviado de quem veio do front. Demorou algum tempo para reparar em um vulto ao lado da casa que a observava silenciosamente, abrigando-se dos raios diretos do sol à sombra do oportuno telheiro. Ele trajava a costumeira veste negra de sempre: coturnos, calças, camiseta e casaco de couro. Os cabelos louro-oxigenados, alisados à base de muito gel, completavam o visual "punk-gótico".
- Spike! - Buffy murmurou, espantada.
O vampiro e a Caçadora encararam-se por algum tempo. Não era segredo a paixão maníaca - e jamais correspondida - de Spike por Buffy. Nos últimos dias os dois haviam se aproximado muito, por conta do ar sombrio, dark, que Buffy adquirira após a ressurreição; mas nunca a aproximação fora tamanha que um observador externo pudesse esperar que esses seres tão desiguais formassem um belo par.
- Oi, Buffy - disse ele.
- Oi, Spike - disse ela com um sorriso penoso.
Neste ponto, a porta da casa abriu-se, e Dawn veio ao encontro deles com uma expressão ansiosa em sua face jovem e suave, seguida por Willow, Tara, Xander e Anya.
- Buffy! - Ela abraçou calorosamente a irmã mais velha, e então tomou-lhe a mão direita e inspecionou-a, encontrando a cicatriz infernal vermelho-sangue reluzindo sobre a palma branca. - Quem fez isso? - Dawn encarou a irmã, no seu nível, já que tinham a mesma altura, e uma temível chispa faiscou no seu olhar de puríssima safira. Buffy encolheu-se, repentinamente sentindo-se como uma criança que precisa explicar à mãe por que voltou para casa com um olho roxo. Mas como Dawn sabia o momento em que ela chegaria, e como sabia da marca na palma de sua mão? - Merda, esqueci do tal "elo mental" que nós compartilhamos - resmungou Buffy para si própria. Era verdade. Ainda no verão passado, certa noite, chegara em casa ofegante, estressada após correr arrastando pesadamente no chão uma espada encantada de nome Joyeux, fugindo dos seguidores de Anisha, e encontrara Dawn acordada, preparando um copo de água com açúcar para ela, Buffy! Foi quando a garota explicou-lhe que deviam ter um elo por compartilharem o mesmo sangue, mesmo DNA, e que, se se concentrasse, podia sintonizar as emoções e os pensamentos da irmã. Assim era capaz de pressentir a aproximação dela. Buffy às vezes se perguntava que estranhos poderes da Chave estavam escondidos naquele corpinho de adolescente, aguardando apenas o momento de entrar em ação.
Ao que parecia Spike não estava muito contente em ser ignorado. Pigarreou, e disse: - Ei! Olá, "Garota-Chave".
Dawn virou-se para ele e sorriu meio sem jeito. - Ah... Oi, Spike, tudo bem? - A "paixonite" dela por Spike era tão notória quanto a obsessão de Spike por Buffy. Dawn virou-se de novo para a irmã. - Então?
Buffy inspirou profundamente. - Dawn, é uma longa história...
- Se é sobre o falso asteróide que o tal do Ares mandou contra nós - interveio Xander subitamente, com rispidez - , essa parte a gente já sabe.
Buffy recuou como se houvesse sido picada por um aguilhão, com seus olhos verdes espelhando seu choque e incredulidade. - Mas como... como?!
Willow disse, insegura: - Buffy, o Leo, anjo da guarda das Encantadas - você se lembra das Encantadas, né? - , junto com a Paige, irmã mais nova delas, eles se teleportaram - digo, orbitaram - lá de San Francisco pra cá, logo após o meteoro explodir no ar. Eles explicaram que um deus maligno chamado Ares armou uma cilada pra você, colocando aquele meteoro em rota de colisão com a Terra, só pra te obrigar a recorrer à ajuda dele. Não vieram antes, porque parece que Ares tinha cercado Sunnydale com um tipo de "blindagem" de isolamento, impedindo qualquer contato com o exterior: magia, telefone, Internet. Buffy, todos nós fomos ludibriados! - Willow calou-se, "saboreando" a nova palavra. - Ludibriados... Não acredito que disse isso! Acho que o Giles me contaminou antes de voltar pra Inglaterra.
- Por falar no Giles, recebemos um telefonema dele, depois que tudo passou - interpôs Tara. - Estava super-hiper-preocupado, lá na Inglaterra eles também receberam a notícia do meteoro e esperavam pelo pior. E aí, quando contamos pra ele que você estava bem viva, que nós usamos magia pra ressuscitá-la, foi então que o coitado quase entrou em parafuso. Se entendi corretamente os gaguejos e balbucios, ele vai voltar pra cá no primeiro avião que decolar de Londres.
- Só espero que, pelo menos, ele não queira a Magic Box de volta - resmungou Anya, pensando nervosamente. - Afinal, a loja é tão minha quanto dele, talvez até mais.
- Até o Angel telefonou - acrescentou Willow. - Contei a verdade pra ele, também. Acho que ele vai querer falar com você, Buffy.
- É - comentou Spike sarcasticamente. - Quem é vivo, ou morto-vivo, sempre aparece.
- Você que o diga, né, "Ursinho Louro"? - zombou Anya, usando o apelido que a "ex" de Spike, a desmiolada Harmony, lhe dera.
- Esse Ares, foi ele quem marcou você feito gado - Dawn pressionou, com seus olhos de gata siamesa presos aos da irmã. Aquilo fora uma afirmação, não uma pergunta.
Buffy resolveu abrir o jogo de vez. - Foi, sim. O pior é que não começa nem termina aí. Pessoal, vamos entrar, tá legal? Eu preciso ter uma conversa muito séria com todos vocês!
- Eu sabia! - exclamou Xander, com um traço de aborrecimento na voz. - Tem mais carne debaixo desse angu, não tem?
- Muito mais do que você pode imaginar, Xander - replicou Buffy, de punhos cerrados.- Ou qualquer um de vocês. Lá dentro eu explico tudo. Você também, Spike...
Mas Spike desaparecera. Nem sombra dele.
- Vampiros - resmungou Xander com desdém. - Aparecem e desaparecem quando a gente menos espera.
- Se é que era um vampiro - retrucou Anya.
Xander franziu a testa. - O que você quer dizer com isso? Desde quando o Spike foi outra coisa, nos últimos cem anos, além de um vampiro?
A moça ergueu os grandes olhos castanhos para ele, de súbito, e depois retrucou, desconfiada e hostil:
- Mas é isso que estou tentando dizer, Xander! Por um instante eu senti uma coisa diferente, como se o Spike não fosse o Spike... fosse outra pessoa... Alguém que eu conheci... há muito, muito tempo atrás. Você deve se lembrar que fui um demônio por muito, muito mais tempo do que sou humana. Tenho faro pra essas coisas.
- Ah, e tem mesmo, minha deliciosa, provocante Anyanka - disse Spike suavemente, com os olhos azuis cintilando como os de um lobo. Ainda estava lá, porém invisível e inaudível para todos os presentes. - E pensar que nós nos conhecemos em uma pequena vila no Báltico... Sjornjost... há mil anos... É, esse mundo é mesmo pequeno, hein?
- Chega de "coisas" sem explicação - sentenciou Xander. - A Buffy tá precisando de ajuda, e é pra anteontem! Parece que temos mais um deus do mal pra encarar. - Suspirou. - Sinto falta dos bons velhos tempos, quando tudo que tínhamos eram vampiros e demônios pés-de-chinelo em Sunnydale.
O grupo se dirigiu para a porta da frente da casa e entrou. Willow juntou-se a Buffy por alguns instantes, falando: - Olha, Buffy, seja lá o que tenha te acontecido, ou o que tenham feito com você, conte comigo pro que der e vier, como sempre. Vou pegar meu laptop e revirar a Internet pelo avesso, até o último site neo-pagão. Vamos sair dessa sinuca, como já saímos de tantas outras antes.
- Afinal de contas, ficamos sem saber se o feitiço de blindagem anti-meteórico que conjuramos funcionaria pra valer - ponderou Tara.
- Graças a Hécate - replicou Willow, rindo. - E reze pra que nunca precisemos descobrir isso na prática.
Depois que todos os Scoobies se retiraram para dentro da casa, o pseudo-Spike, que simplesmente mudara de freqüência vibratória para tornar-se invisível e indetectável, reassumiu sua verdadeira forma: o deus Loki. Olhou a casa sem muito interesse, em seguida transformou-se num pequeno besouro que voou ligeiro, para bem longe no céu, sumindo na distância.
****
Sozinho no silêncio deprimente de sua cripta - o escuro e sufocante covil no fundo do ímpio cemitério de Sunnydale que, há uns dois anos, lhe servia de lar - , Spike não parava de pensar em Buffy. Ela era a sua obsessão amorosa, a sua monomania, desde o ano passado, quando descobrira-se apaixonado pela Caçadora a quem, logo que chegara a Sunnydale, planejara matar tal qual matara outras duas, no início de sua "carreira" de monstro bebedor de sangue. Lutara, a princípio, contra essa paixão louca e descabida, mas afinal terminou por render-se a ela incondicionalmente. Por conta dessa paixão anormal, desse amor profano, passou a ajudar Buffy e seus amigos na luta contra os demônios, ainda que, no fundo, soubesse que ela jamais poderia aceitá-lo como amante ou namorado. Ele não era o nobre Angel, não possuía sequer uma alma, tão-somente um microchip em seu cérebro que o impedia de ferir qualquer ser vivo. Como poderia ela amá-lo, pobre monstro sem alma em forma de homem?
Apesar de tudo, paradoxalmente, ele a amava (pode um monstro desalmado, desumano, ser capaz de amar?). Por amor a Buffy, ele protegera Dawn, irmã caçula da caça-vampiros, salvando-a várias vezes das garras da demoníaca deusa Glory e seus asseclas. Acreditava piamente que ninguém, mais do ele, havia chorado a morte de Buffy. Posso não ter alma humana, mas tenho sentimentos humanos. É mais do que pode ser dito do Angelus, a versão piorada e sem alma do tal do Angel. Perto dele, acho que sou a Madre Teresa de Calcutá.
Agora, porém, que Buffy ressurgira dos mortos, talvez houvesse uma esperança para ele, Spike, e seu "amor impossível". Mais cedo ou mais tarde, pensava o vampiro, ela compreenderia que ambos eram criaturas da noite, e que somente ele era capaz de entendê-la, saber o que ela estava passando, e não seus amigos humanos. Ela precisava dele, tanto quanto ele, dela. Juntos, seriam filhos da noite.
De repente Spike sentiu que não estava sozinho na cripta. Tinha a impressão de que alguém se encontrava atrás dele, olhando sua nuca, observando-o em silêncio.
Virou-se repentinamente... e deparou-se com Buffy!
A Caçadora, parada no meio da decrépita e mofada câmara, de braços cruzados, olhando para ele seriamente!
Ela vestia uma blusa de seda lilás, semi-transparente, exageradamente decotada e sem mangas, e uma calça jeans que moldava suas curvas de um jeito tão excitante. Nos pés, calçava sandálias de salto em vez das "tradicionais" botas de couro preto. Seus cabelos estavam soltos, penteados em ondas suaves que caíam pelos ombros nus até o meio das costas, com uma graça quase felina. Os olhos verdes pareciam queimar sobre o vampiro.
Por um instante Spike permaneceu como que enfeitiçado pela imagem dela, acreditando que se tratasse de uma ilusão. Mas ela veio então em sua direção, aproximou-se dele com leveza, abrindo os braços cobiçantes. Cada movimento de seu corpo esguio e flexível era acintosamente sugestivo, nos lábios insinuava-se um sorriso cruel, e o mistério e a luxúria coruscavam nos olhos claros. Parece uma encarnação de Lilith, pensou Spike. Ela o envolveu com um abraço e enroscou os dedos nos cabelos dele. Se Spike fosse humano, seu coração poderia bater mais depressa, seu pulso se acelerar e sua respiração, ofegar. Por ser vampiro, não respirava e seu coração não batia, porém o desejo por aquela mulher martelava impiedosamente suas têmporas, e todo o seu ser ardia com uma paixão tão violenta como a agonia física. Era como uma torrente de lava que enchia todas as veias do seu corpo semimorto. Os lábios de Buffy ficaram a poucos centímetros de seu rosto e assim ele pôde sentir o aroma doce e sensual que emanava do corpo dela. Buffy ergueu os olhos e, entreabrindo a boca, começou a beijá-lo com suavidade.
- Você quer muito isso, não quer? - sussurrou ela, com uma voz doce, venenosamente zombeteira.
- Quero, quero, sim - respondeu Spike, num murmúrio. Ela de pronto grudou o corpo roliço ao dele. O beijo foi selvagem, quente, dessa vez. Os cabelos dourados da mulher esvoaçavam pelo rosto de Spike, cegando-lhe o olhar com seu fulgor - como as chamas infernais do Ragnarok. Ele a beijava com sofreguidão. Com a mão direita, segurou sua nuca, entrelaçando os dedos naqueles cabelos louros sedosos, fazendo com que suas bocas se encaixassem ainda mais, suas línguas explorando-se vorazmente, enquanto com o braço esquerdo circundou-lhe a cintura fina. Com seus sentidos vampíricos, mais aguçados que os de qualquer ser humano, ele sentia o coração dela pulsando, a respiração arfante, o calor que saía daquele corpo trigueiro. O cheiro do sangue dela! Então, de repente...
Spike saltou para trás, eletrificado. Durante uma fração de segundo ele ficou parado, estupefato diante da jovem mulher que se erguia diante dele, dentro da cripta.
- Que é isso, Spike, fugindo da raia? - zombou a caça-vampiros.
- Você não é a Buffy - Spike disse em tom frio. - Nem mesmo é humana. O que quer de mim? Se for algum tipo de demônio, vou logo avisando: eu janto demônios e outros bichos dessa laia.
A pseudo-Buffy não se abalou, nem a expressão de zombaria desapareceu de seu rosto. Com um movimento da cabeça, ela lançou para trás a cabeleira loura, como uma juba leonina, e, com as mãos sobre os quadris, encarando com firmeza os frios olhos azuis do vampiro, falou:
- Hoje é seu dia de sorte, "campeão". Posso lhe conceder dois desejos, seus dois maiores desejos, a saber: entregar-lhe de bandeja a caça-vampiros, caidinha de amor por você, e retirar o chip de sua cabeça para que possa voltar a ser o assassino de sempre. Mas tem de seguir à risca minhas instruções.
Um laivo de interesse acendeu-se nos taciturnos olhos azuis de Spike.
- Fale.
****
Um jato de intensa luz branca anunciou o regresso de Loki ao Saguão da Guerra. Ares estava postado de pé, as pernas separadas num "V" invertido, mãos atrás das costas, diante da enorme tela plana subdividida em doze campos distintos que ocupava toda uma parede do salão. Em cada um desses campos via-se um lugar da Terra onde campeava a guerra ou a ameaça de guerra: os Balcãs, a Rússia, os países do Oriente Médio, o subcontinente indiano, a Coréia, o Sudão, a África Equatorial. As imagens se sucediam umas às outras em ritmo acelerado. Uma delas, estranhamente, mostrou o prédio da firma de advocacia Wolfram & Hart, em Los Angeles. Outra, o cemitério de Sunnydale.
- Então - disse Ares, sem se virar - andou dando voltas ao redor do mundo?
- Você sabe que sim - retrucou Loki laconicamente e, estreitando os olhos, contemplou o telão de doze campos. - Para fomentar as guerras e morticínios que você tanto ama, é necessário arregaçar as mangas e correr o mundo. Eu, particularmente, adoro uma intriga, uma confusão...
- Hummm? Nesse caso pode me dizer o que foi fazer em Los Angeles, no escritório da Wolfram & Hart? Não me consta que advogados, mesmo demoníacos, se ocupem da nobre arte da guerra.
- Negócios particulares.
- Hum, e esses "negócios particulares" incluíam visitar um certo... Spike, que se esconde no cemitério de Sunnydale? Disfarçado de Buffy, ainda por cima?
Loki encarou Ares e perguntou:
- Duvida da minha lealdade, Ares?
- Meu caro Loki. Você é o deus da mentira. Do embuste. Da malandragem. Lealdade nunca esteve no topo da sua lista de prioridades. Que o diga o infeliz do seu irmão adotivo Balder, né?
- É mesmo? Responda depressa, então: de quem foi a idéia de usar o ardil do meteoro pra induzir a caça-vampiros a assinar o contrato olímpico? Quem desencavou no mercado negro pan-dimensional aquele raro e antiqüíssimo feitiço anti-conexão pra, literalmente, desligar os poderes das Encantadas? Moi! - Loki apontou um dedo indicador para si próprio. - Quanto ao Balder... bem... Ele era um bobalhão que só se preocupava com os seus "preciosos" protegidos mortais.
- Loki, Loki - exclamou Ares - eu não disse que não reconhecia o seu valor. Por que acha que me dei ao trabalho de libertá-lo do castigo a que os deuses nórdicos condenaram-no há mil anos? Você se lembra muito bem, não se lembra? Amarrado com as tripas do seu próprio filho, Nari, enquanto uma serpente gotejava veneno sobre a sua cabeça ...
- E minha fiel esposa Sigyn recolhia em uma vasilha o veneno que ia pingando - completou Loki constrangido. - Sim, sim, eu me lembro. Mil anos de agonia são um longo tempo, mesmo para um imortal. Agora, graças à sua intervenção, poderei apressar a vinda de Ragnarok, e Odin e a corja de Asgard receberão o que merecem. E por falar em lealdade, sabia que sua mais nova "aquisição", a Garota da Estaca, tem planos para desertar de você? Aposto como já está conspirando com os amigos, buscando um jeito de se livrar do pacto!
- Ela pode conspirar o quanto quiser. Enquanto eu tiver em meu poder o contrato olímpico que ela assinou, Buffy e seus amigos intragáveis nada poderão fazer. A Grande Guerra está se aproximando, e quando chegar eu terei a caça-vampiros à testa do meu exército, matando e destruindo em meu nome, em nome de Ares. Meus planos estão quase completos. Talvez mais um ano, talvez menos. Espere e verá!
- Está se esquecendo da amiga mais poderosa - e perigosa - da Buffy. A bruxa Willow Rosenberg.
- Uma bruxa? - um sorriso largo cobriu o rosto moreno de Ares. - O que uma reles bruxa pode contrapor ao poder de um deus? Ao poder do Deus da Guerra?
- Não a subestime, Ares. Willow não é uma bruxa qualquer. Ela mexe com dimensões invisíveis, com magia interdimensional, e é protegida de Hécate. Se eu fosse você, me preocuparia com esta nova jogadora poderosa dentro do grande jogo cósmico.
Ares lançou um ligeiro olhar para as telas de observação. Uma delas exibia o interior da casa das Summers, onde Buffy confabulava com os Scoobies. E entre eles, Willow Rosenberg!
- Se Willow pode vir a ser uma pedra no meu caminho, então eu a pulverizarei num abrir e fechar de olhos com uma de minhas bolas de fogo.
Loki sacudiu a cabeça.
- Ares, pare um pouco e pense - com o cérebro, não com os punhos. Hécate gosta muito daquela bruxinha lésbica, daí que, se liquidar a Willow você vai comprar uma briga feia com a Hécate. Sabe, ela não o vê com bons olhos desde que você permitiu que a sua queridinha Xena massacrasse os outros deuses do Olimpo, dois mil anos atrás.
Ares parecia não sentir-se muito feliz com a lembrança da destruição de seus irmãos e irmãs olímpicos, levada a cabo por Xena em defesa da filha, Eva, que marcou o triunfo do Deus Único sobre a profusão de deuses gregos e romanos.
- Suponho que, após todos esses "não-se-podes", "não-se-deves", você vá me presentear com mais uma amostra da sua proverbial astúcia.
Loki ignorou o sarcasmo mal disfarçado. - Se Willow deve morrer, que seja pelas mãos de alguém que tenha todos os motivos pra querer vê-la morta, e nada a perder. Felizmente, com minhas ligações com a Wolfram & Hart, eu consegui arranjar a pessoa certa - o imortal certo - pra tirar as castanhas do fogo pra você, por assim dizer.
De repente, a dois metros de distância, uma mulher surgiu do nada, materializou-se em uma língua de fogo azulado e vermelho, tão intensa que contemplá-la seria prejudicial aos olhos mortais. Ela era esbelta, morena, com curvas firmes e generosas bem distribuídas por um corpo bonito que não parecia ter mais de vinte e cinco anos. Vestia uma espécie de armadura-túnica curta, feita de couro curtido, abarrotada de ornamentos em prata, penas, penachos. Seus antebraços estavam envoltos por luvas-braceletes de couro engastadas de pedras preciosas. Seus cabelos castanhos lisos chegavam até o meio das costas e sua uniformidade era rompida apenas pela faixa violeta amarrada ao redor da cabeça. Nos pés usava botas de couro grosso que subiam até sob os joelhos. De suas orelhas pendiam brincos enormes, e o cabo grotescamente talhado de uma longa espada assomava da aljava que carregava presa às costas. O rosto lindo, de pele macia, nariz reto e bem feito, lábios cheios, rosados, parecia o de uma deusa ou dum anjo - mas os olhos reluzentes branco-azulados traziam a marca da loucura.
- Olá, Ares - ela disse com um sorriso sarcástico. - Lembra-se de mim?
Por um breve instante o deus da guerra ficou perplexo, estarrecido.
- Velasca! - Tão rápida como viera, a perplexidade se fora, dando lugar em seu rosto a um semblante de ódio. Uma bola incandescente de fogo e raios surgiu em sua mão direita e ele preparou-se para arremessá-la contra a intrusa cujo aparecimento inopinado exacerbara sua fúria. - Como se atreve a entrar no meu sacrário?
- Calminha aí, "Sr. Cabeça-Quente dos Deuses" - interveio Loki em tom insolente. - Velasca veio por que eu a chamei aqui. Ela é a solução para o "problema Willow".
Ares olhou de Velasca para Loki e franziu a testa. A bola de fogo místico em sua mão apagou-se tão abruptamente como surgira.
- Desta vez eu estou do seu lado, Ares - Velasca assentiu, falando devagar e enfatizando cuidadosamente as palavras. - Ambos queremos a mesma coisa. Ver Willow fora de ação.
- Hummm? Importa-se em me dizer - não que isso seja da minha conta, é claro - o que tem contra a ruivinha?
- Não é da sua conta mesmo. Mas eu vou falar. Nós temos, Willow e eu, um "assunto inacabado"... coisas de um outro tempo, outra realidade. E também porque... - Velasca fez uma pausa e depois prosseguiu, com um travo de raiva: - a bruxa descende diretamente, por parte de mãe, da vadiazinha que me usurpou a coroa de rainha das amazonas, quando eu era mortal. Gabrielle! - Um rubor intenso tingiu as faces de Velasca; um ódio profundo queimava-lhe o sorriso feroz. - Nada me dará mais prazer, nesta minha vida imortal, do que matar com as próprias mãos a descendente dela, desmembrá-la e queimá-la pedaço por pedaço. Assim falou Velasca, a Deusa do Caos!
F I M por enquanto!
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