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Autor: Roberto Kiss.
Título: Por Que?
Publicação: 22/07/2005.
Categoria: Terror.
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TERROR      
Por Que?
Por: Roberto Kiss.

Imagem da Internet

Ele sabia o porquê, mas não iria dizer a ninguém. Ninguém iria ouvi-lo mesmo...

Era por volta do meio dia quando ele chegou ao restaurante. Mas não tinha ido até ali para almoçar ou qualquer outra coisa do tipo. Sentou em uma mesa, pôs a sua pasta sobre ela e a destravou. Afrouxou a gravata e chegou mesmo a tirar o paletó, pondo-o displicentemente nas costas da cadeira, de uma maneira bem amadora. Para alguém que aparentava quarenta anos, era algo que chamava a atenção.

O garçom chegou, perguntado o que gostaria de comer. Ele abriu a maleta, pegou a bereta e disparou na testa dele, causando morte instantânea. Os membros do garçom moveram-se como uma boneca de pano que era violentamente agarrada, logo depois, também como uma boneca, caiu por sobre a mesa derrubando a maleta, espalhando os papeis pelo chão. Ele não se incomodou com aquilo. Levantou-se, alheio a os comentários dos outros clientes, pegou o paletó e o vestiu. Ninguém tinha reparado ainda. Por que teriam? O barulho de um tiro era mais fraco que a de uma bombinha de São João, nada a ver com o cinema. Apenas um estalido.

Ele tem uma arma! Gritou uma criança. Ele apenas olhou para a origem da voz, apontou a bereta de novo e a calou para sempre. Mesmo barulho fraco, mesma pontaria certeira, bem na testa. Um clique e pronto, fim do barulho. Mas um clique, e a mãe - será que era isto mesmo? - também ficou quieta.

Agora era correria. Todos correndo, fugindo, passando uns pelos outros. Uns olhavam para trás, e para estes, ele apontava e disparava.

Logo ficou sozinho, ou melhor, quase. Ouviu um choro, quase de criança. Seguiu devagar até de onde vinha, debaixo de uma mesa até que próxima. Levantou a toalha e viu uma adolescente com a mão no rosto, tentando conter o choro. Ela percebeu e tirou a mão do rosto. Olhou para ele, para a arma apontada para a sua cara. Por que? Perguntou quase em prantos.

Ele sabia o porquê, mas não pode contar para ninguém.

Mais um estalo, mas um buraco, mais um corpo no chão. Eram sete? Oito? Melhor não arriscar. Mão no bolso da calça, um pressionar de uma trava, um pente usado cai, e um novo entra no lugar. Foi até a saída, calmamente, como se estivesse satisfeito com o repasto que não tinha provado. Na rua, ainda um pouco de correria, mas do outro lado desta, tudo normal. Ninguém correndo, ninguém olhando.

Na esquina, uma mulher arrasta um guarda, aponta para ele. Ele ergue a arma, faz mira na cabeça do guarda. Ele tenta tirar a sua, o cinto de couro atrapalha. Ele não tem este problema, mira feita, flexiona o dedo uma, duas, três vezes. A segunda era para a mulher, antes que gritasse, a terceira foi para pegar a criança de oito anos que saiu correndo atravessando a rua no meio do trânsito. Não conseguiu! O ônibus chegou primeiro, passando com a roda por cima dela. Precisa ser um pouco mais rápido da próxima vez.

Meia volta, alguns estão olhando. Apontar, mirar, esperar, enquadrar, disparar. Mais um no chão, mais uma provável viúva a cuspir no seu túmulo, mais alguns filhos órfãos para amaldiçoa-lo. Para perguntar o por quê, o por quê de tudo aquilo!

Ele sabia o porquê, mas ninguém iria ouvi-lo.

Rua vazia agora, foi muito lento. Apenas cinco tiros, mais uns oito na arma. Seguiu andando, rumo a esquina. Gritos distantes, burburinhos próximos. Olhou para cima, tentou ser rápido, quase sem fazer mira. A dona de casa ficou debruçada no parapeito, tiro fatal ou mortal, não importava. Tinha acertado.

Mamãe! Era o grito vindo da mulher. Não, não podia ser ela, era mais fino, de criança. Olhou de novo, a mulher balança. Uma cabeça pequena aparece furtivamente. Vai ser difícil. Aponta, prende a respiração. A criança só fala em mamãe, mamãe. Agora, é agora. Um tiro dado com muito cuidado. Perfeito. Algo saiu da cabeça dela, caiu próximo. Deu uma olhada. Um pedaço do crânio da criança. Não foi limpo como os outros. Muita sujeira.

Continua andando, dobra a esquina. Arma em punho, olha só para a frente. Um motorista olha para ele, agora não olha mais nada. Carro desgovernado bate em outro na contra mão e é jogado para o posto de gasolina. A bomba quebra, a gasolina se espalha. O frentista morre decapitado pelo carro. Três com um só tiro. Nada mal.

Continua andando, a calçada está vazia. Cheiro forte de gasolina. Olha para o chão, para o meio fio. Não é água que está correndo ali, é gasolina. Acende um fósforo, põe fogo. O fogo corre para o posto como uma criança corre para a mãe. O posto abraça o fogo, seu filho. Juntos, posto e fogo se consomem. Nenhuma explosão como nos filmes, apenas a monotonia cinza da realidade. Sem graça. Nem o fogo tem cor brilhante.

Assassino! Olha para quem gritou. Um homem com uma faca vem para cima. Um tiro e o homem com uma faca vem para o chão. Segue seu caminho como quem não tem nada com aquilo.

Olha para o lado. É um motel. Destes do centro da cidade, onde apenas prostitutas e clientes freqüentam. Troca o pente, entra direto. O recepcionista estava saindo, talvez para ver o fogo, ou então, para ver porque o homem com a faca está no chão. Ele não vê mais nada. Nem mesmo com o terceiro olho na sua testa.

Segue pelas escadas, primeira porta a direita. Para um pouco e escuta. Risos de prazer. Risos falsos de prazer, afinal, um esta sendo pago para aquilo. Um tiro na porta, ela não abre. Bem diferente do cinema. Mas alguém abre a porta, o tiro teve o som de um chute. Um homem de cueca aparece. Um homem de cueca está morto.

Olha para dentro, uma mulher feia na cama. Ela grita e engole a bala. Demora para morrer, mas ele nem vê isto. Continua em frente. Outras portas abrem, mais homens aparecem, mais homens morrem. Em cada quarto que vê, dá um tiro nos ocupantes. No terceiro era apenas uma menina, de talvez quatorze anos. No sexto, antes de dar o tiro, novamente a última palavra dita é por que?

Ele sabia o porquê, mas não pode dizer para ninguém. Ninguém vai escutar.

Próximo andar, próximo matadouro. Trocou de pente três vezes, está no último. Não conta mais, perdeu a conta. Não interessa a conta. Último andar agora, parece que estão avisados. Dois ele pegou na escada. Pelo menos uma pulou por uma janela. Ouviu o grito. No fim do corredor, tem mais um homem, um moleque na verdade, conhecendo o mundo dos adultos. Agora vai conhecer a morte dos adultos. O que eu fiz? Ele pergunta. Um tiro é a resposta.

Ele sabia o que ele tinha feito, mas não iria contar para ninguém.

Abre a última porta. Duas mulheres, roupas de couro, uma filmadora. Uma produção caseira. Dois tiros bastam. Antes de morrer, falam que fazem qualquer coisa. Elas fizeram, morreram.

No noticiário, perguntariam o por quê, mas ele não queria responder. No jornal, no dia seguinte, o título perguntaria o por quê, mas ele não iria responder. Os investigadores perguntariam o por quê, mas ele não responderia. No enterro de tantos mortos, os parentes e amigos em uníssono perguntariam o por quê, e ninguém, nem mesmo ele que sabia iria responder. Não queria, não podia. Não havia como responder.

Não poderiam tortura-lo para ter respostas, não podiam droga-lo, ameaça-lo ou hipnotiza-lo. Sua boca não poderia dizer mais nada, nunca mais. Afinal, ele estava morto.

Na saída do motel, tropeçou nas escadas e quebrou o pescoço. Uma morte sem sentido para o causador de tantas outras sem sentido, sem motivo, sem respostas, apenas um grande por que.

Além disso, quem era ele?

Fim.

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