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Março de 1976.
Uma estrela morre em algum ponto desconhecido do universo.
Estrelas, como seres humanos, morrem de maneiras diferentes. Quando explodem, ocorrem supernovas,
quando implodem, buracos negros. Esta estrela em ocasião explodiu, dissipou-se até o momento final.
Seus fragmentos, gases que pairam como numa dança onde a pista é o vasto espaço; permanecem por anos
e anos, e alguns deles, de alguma maneira, ainda sobrevivem. Tentarão trazê-la de volta. Devem.
Apenas vida humana pode realizar este feito. O que sobrou dela sabe que será uma longa jornada em busca
da ressurreição. Que deve ser iniciada. Antes que seja tarde demais.
Em nosso planeta, precisamente na cidade de São Paulo, no
mesmo momento em que a estrela se fora, nascia Valter Santos. Sua mãe encantou-se com o brilho peculiar
nos olhos do pequeno bebê quando ele chorou. Embora fosse um fato estranho, jamais comentara o fato com
alguém, e os olhos do filho não brilharam daquela maneira novamente.
E, desta maneira, a vida de Valter seguiu-se. Entre turbulências
e calmarias, como qualquer outra vida humana. Mas, chegaria um momento em que ela tomaria um desvio, e
se diferenciaria de todas as outras. Era apenas uma questão de tempo para que este episódio ocorresse.
Então, como um cão treinado, ele esperou. Inconscientemente.
Outubro de 2001.
São Paulo. A velha e imensa senhora prepara-se para dormir.
Ela gosta da noite, pois ela sempre esconde o que é preferível não ver. Mas a Lua cheia, sempre indesejada,
ilumina seus cortes e feridas propositalmente. A despeito deste fato, a senhora se sente bem, pois, em
compensação, é mimada pelas vozes de seus habitantes e pelo ritmo das buzinas e da infinidade de aparelhos
criados por eles. Isso a ajudava a adormecer. Dormia com um de seus olhos fechados, apenas para um deles
era permitido descanso. O outro estava condenado à vigília, alerta, pois a cidade nunca pára totalmente,
e alguém tem que zelar por seus filhos, que como ela, são obrigados a deixar o descanso noturno em
segundo plano. Seja por necessidade, diversão...Ou admiração.
Valter estava olhando fixamente para o céu. Não havia nada
de especial, nenhum fenômeno astronômico que justificasse tamanha adoração. Nenhuma estrela cadente,
cometas ou eclipses. Mas ele encontrava-se fascinado, e não movia seus olhos para outro lugar. Seu pescoço
doía. E daí? Pensou. Era a última coisa com que iria se preocupar. Esqueceu o fato de não haver comida
para seu filho amanhã, muito menos para ele e para a esposa. Também não se importou em tentar arrumar
emprego naquele dia durante a manhã, ou acertar os detalhes com seus amigos para um roubo de um caminhão
carregado de eletrodomésticos. Passou grande parte do dia dormindo, preparando-se para aquele momento.
Nada mais importava. Sua esposa o chamava da porta do quarto e cozinha onde viviam. Ela certamente queria
sexo e desta vez, ia ficar querendo. Havia coisas melhores para fazer esta noite.
Iria conversar com elas.
Isso começou a pouco mais de uma semana. Até anteontem eram
pequenos sussurros. E no início perguntou-se se não estaria um pouco fora de si. Possíveis sintomas de
esquizofrenia ou alguma outra enfermidade mental. Ria agora de seu auto diagnóstico prematuro. Sabia não
que se tratava de um cenário montado por sua mente. Não era tangível, mas era algo real. Aquelas vozes
usavam uma linguagem que Valter desconhecia. Mesmo assim, aquilo o obcecava, e ele começou a rezar,
praticamente implorar para a noite chegar.
"Schiakmasssh"
"Wiae Ishhbtt Noahrrr"
Elas nunca soavam iguais. Cada frase era pronunciada por um
tipo de voz diferente. Gemidos roucos. Em outras ocasiões eram como assovios. Havia algumas que pareciam
pessoas mudas tentando falar. Estava maravilhosamente curioso. Um pouco apavorado e receoso, talvez.
Mas era tudo tão incrível para que ele entrasse em casa e ficasse assistindo televisão ou fazendo sexo.
Tudo se tornara secundário, e Valter julgava-se o receptor daquelas vozes.
-Você não vem dormir? Está aí como um palhaço desde que
anoiteceu. Você tinha uma entrevista para um emprego hoje de manhã e a perdeu. Ficou aí até o Sol
nascer e depois veio dormir. Diga-me o que você ganha com isso. Ou, ao menos o que há de tão
interessante aí em cima.
-Não sei exatamente o que é. - Ele disse a Selma. Olhos fixos
no céu.
-Bem, eu estou cansada. Lembre-se que seu filho não tem nada
para comer amanhã, e nós dois também. - Ao terminar, Selma bateu a porta com toda a força que pode.
Ignorou as baboseiras e continuou a adoração. Estava sentado
no chão desde aquele momento, e suas pernas adormeceram. Parou para pegar uma cadeira de praia.
Recostou-se e ficou ali até as seis da manhã. Justamente como no dia anterior.
Conseguiu dormir apenas por duas horas. As oito da manhã
Selma o acordou, enraivecida: -Levante, e agora peça as estrelas para trazerem um pouco de
comida para seu filho, vamos!
Acordou deslocado e um tanto atordoado por não poder dizer
nada a ela. Saiu para a rua, em meio aos gritos de sua esposa e o choro de seu filho. A única saída era
ir até a casa de Alan e pedir-lhe algum dinheiro emprestado. Estava certo de que ele não recusaria, pois
eles dois estavam envolvidos no assalto. Alan não se ousaria em negar o empréstimo, e Valter sabia o
que fazer caso isto acontecesse. Ameaçaria denunciar toda o esquema do assalto, e Alan era esperto o
bastante para perceber que não valia a pena desperdiçar um grande negócio como aquele, apenas por alguns
reais.
Alan tomava conta do bar de seu pai durante as manhãs. Era
um rapaz magro e careca, apesar de estar ainda em seus vinte e sete anos. O bar estava vazio no momento
em que Valter entrou:
-Que cara é esta, Valter?
-Estou com aparência tão ruim?- Perguntou Valter, sentando-se
num banco em frente ao balcão.
-Sim, está na sua cara.- Alan disse esta frase apontando os
dedos para Valter e rindo.
-Chega de brincadeira. Eu estou precisando de algum. Não é
muita coisa. Acho que uns vinte ou trinta reais serviriam.
-Certo, acho que eu posso lhe arrumar. Acertamos após aquele
lance. E, falando nele, por que não veio ontem? Perdeu uns detalhes interessantes, que você precisava
saber. Você continua dentro, não é?
-Sim, continuo, mas você tem certeza que é garantido?
-Tenho. Arrumamos um informante do setor de logística que
nos passou o horário de saída do caminhão e até mesmo o roteiro. Ele foi tão camarada a ponto de mexer
os pauzinhos para que a carga fosse transportada por um dos únicos caminhões da empresa que ainda não
possuem sistema de rastreamento.
-Que pilantra.
-Um pilantra que vai salvar a mim e a você, colega. Até achamos
um receptor para as mercadorias; está tudo mais do que garantido, por isso, relaxe.
A palavra receptor o fez devanear por um instante e pensar
nas vozes novamente.
-Valter.
-Hã... ?
-O que houve, parecia estar sonhando acordado.
-Não, apenas pensando.
-Em que, posso saber?
-Nada, eu conto para você outra hora.
-Espero que você não fique deste jeito na hora da verdade.
Você não estava reconsiderando o fato de participar da jogada, estava?
-Não, eu estou dentro. - Disse Valter, com voz fraca e frouxa.
-Não senti firmeza na sua voz, Valter.
-Merda, cara, eu estou dentro! Você quer que eu assine um contrato?
-Certo, certo. Deixe-me ir buscar seu dinheiro.
Na percepção de Valter, as horas passaram mais rápido que o normal
naquele dia e a noite chegou, para a sua alegria. Não conseguiu dormir durante à tarde, mas continuava
ansioso. Os ânimos haviam se acalmado quando ele trouxe dinheiro. Selma estava preparando estrogonofe.
Valter não deu a mínima, embora aquele fosse seu prato favorito. Pegou a cadeira de praia e começou a
observação. O céu estava levemente avermelhado aquela noite, ao menos para seus olhos cansados. Sentiu-se
um pouco decepcionado, por tudo estar estranhamente quieto.
Até aquele momento. Dava-se a impressão de que elas estavam
esperando por ele. Provavelmente regozijaram-se quando o viram. Estavam frenéticas esta noite. Se
olhasse mais atentamente, poderia ver as palavras se formando no ar, quentes e vívidas. Gritos, desta
vez. Agitados, enlouquecidos. Não era agradável de ouvir como nas outras vezes. Aquilo o perturbava.
"Iacsssohh." Berrou uma voz feminina.
Após aquilo, houve silêncio por vários minutos. Valter começou
a balançar a cadeira como que aliviado por aquela voz ter expirado. O silêncio foi quebrado por um coral
de vozes, cansadas e letárgicas.
"Kuatschoob."
Valter caiu da cadeira. O fascínio havia sido quebrado.
Elas nunca haviam soado assim. Tão afetadas, como que em desespero. Entrou em casa e fechou a porta.
Sentou no sofá e ligou a televisão nervosamente enquanto Selma preparava o jantar. As notícias não
pareciam ser muito novas, embora fizesse algum tempo desde a última vez que havia assistido. Seqüestro
relâmpago, dengue, escândalo dos parlamentares, e o onze de setembro americano. Mas havia algo mais
alto que o som da televisão.
As vozes ainda estavam lá, implacáveis.
Jantou sem nenhuma vontade. Pegou seu discman e tentou escutar
música enquanto comia sobremesa. Não obteve sucesso e expirá-las.
Foram dormir. O pequeno Flávio dormia num berço no quarto e
sala, ao lado da cama dos dois. Mas o sono não viria tão fácil. Não com aquelas vozes o importunando.
O bebê começou a chorar. Embora fosse praticamente insuportável conciliar as vozes e o choro do bebê,
não sentiu-se muito incomodado, pois teve algo para se distrair. Selma acordou com o barulho e preparava-se
para acordar, quando ele disse:
-Durma, eu cuido dele.
Pegou a criança no colo e colocou a sua pequena cabeça
contra seu peito. As vozes cessaram. Não acreditou. Mas elas tinham parado. Como? Saiu de casa com o
bebê nos braços e nada ocorreu. Balançou-o alegremente, num misto de alívio e felicidade. Após fazer
a criança dormir, voltou para dentro de casa e deitou, colocando Flávio entre os dois em sua cama.
Abraçou-o com força. Eram dez e meia da noite. E ele conseguiu dormir.
Acordou por volta de duas da madrugada. Levantou-se e sentou
na cama sem querer. Pegou o bebê no colo, mas não sentia vontade de fazer aquilo. Saiu de casa mais uma
vez e elas o saudaram. Ele parecia em transe desta vez. Olhava para o céu e andou descalço em direção a
rua. Desceu os degraus do cortiço e abriu o portão, caminhou até a esquina e parou por alguns instantes
ali, como se esperasse um sinal.
Atravessaram a rua e seguiram para a passarela que não se
encontrava muito longe dali. Estavam próximos dela, a no máximo dez metros. Cambaleava com o bebê no
colo. Naquele horário não havia carros transitando na rua que deveriam atravessar para chegar a
passarela. Subiu os degraus de acesso, arrastando-se como um caracol.
Alcançara-a, finalmente. Posicionou-se no meio. Pressionou
o bebê com força contra seu peito. Flávio começou a chorar. Valter contemplou o bebê com olhos
indiferentes, esticou seus braços para fora da passarela. Voe criança, voe. Começou a soltar os dedos.
Contudo, algo no fundo de sua consciência rejeitara aquele ato, mas era uma voz impotente, que fora
descartada com facilidade. Não percebeu que havia alguém atrás dele. Uma pessoa que o seguira durante
todo o caminho, a quem ele não deu atenção, mesmo quando ela desistiu de falar num tom voz normal e
começou a gritar.
-Seu idiota!Maldito! O que você ia fazer? - Selma ofegava
e gritar a fez perder completamente o fôlego. Arrancou a criança violentamente das mãos de Valter e
chutou sua perna esquerda com toda força que possuía. Ele dobrou os joelhos e manteve a posição.
Não emitiu nenhum som. - Meu Deus, o que aqueles seus amigos te deram? O que você fumou? Fale comigo!
Valter parecia não notar a presença de Selma. Encontrava-se
em reverência cega. Ajoelhou-se. Seus olhos estavam arregalados e sua boca encontrava-se semi-aberta.
Parecia observar coisas que ninguém mais podia ver. A indiferença dele despertou a ira dela, que
começou a chutá-lo. Costas, ombro, braços, rosto. Eram golpes firmes e, apesar de sua aparente
fragilidade física, o machucavam. Golpeava e esbravejava, mas nada surtia efeito. Em meio a berros,
chutes e socos, algo vinha do céu.
O brilho era cegante, mas ninguém além dos três contemplava
aquela visão. O fino tecido do céu fora rasgado, a cortina havia sido aberta para uma entrada triunfal.
Adentrou na atmosfera e pairou no ar. Selma perdera a voz, suas pernas estremeceram e ela ficou parada,
contrariando seu senso de auto preservação. Enquanto aquilo no céu se materializava, finalmente encontrando
seu destino. Era um esboço de forma humana, feito de restos de uma supernova, pó de estrelas espiralava
freneticamente ao redor da sua forma. Precisava levar vida de vota. Ressuscitar a estrela. Vida, a
força incontrolável que ela tanto necessitava. Ele estava velho demais, era inútil. Levaria a criança,
precisava dela. Os chamados do céu haviam funcionado, embora o humano não entendesse a necessidade e
nem a linguagem deles. Mas chamaram sua atenção a ponto de trazê-lo aqui. E era isso que importava. O
ser agora estava na passarela, pairando em direção dos três.
-Afaste-se! - Selma protestou, aninhando o bebê em seus
braços. Valter continuava imóvel. - Valter, se mexa! - Ela fez mais uma tentativa. O ser estava muito
próximo agora.
Selma deu alguns passos para trás, mas encontrava-se indefesa.
Seus olhos, irrequietos, inspecionavam o inevitável toque do desconhecido.
O ser chegou perto dela e a tocou. O choque a fez largar o
bebê, que foi apanhado pela criatura. Deu mais alguns passos para trás, suas costas, começaram a doer.
O espasmo foi tão forte que ela abriu os braços e gritou. A sua forma estava regredindo. Os seios começaram
a diminuir de tamanho, murcharam e achataram-se. O fêmur e todos os ossos de suas pernas seguiam o
mesmo caminho. Seu cabelo, outrora longo e sedoso, deixou de existir em poucos segundos; seus dentes,
algo de que ele orgulhara-se, estavam caindo, para darem espaço a primeira dentição, que também sumira.
Seu hímen fora reconstituído. Tinha dois anos de idade agora. Perdera também a consciência do horror da
regressão com a diminuição de seu cérebro. A criança tombou no chão. As roupas eram largas e ela
parecia um arlequim tristonho. Os pêlos haviam sumido de seu corpo e os ossos, músculos e células
continuavam seu regresso. Selma era um bebê da idade de seu filho. E aquilo parecia não ser o bastante,
pois seu corpo se retrocedeu ainda mais. Viajando pelas fases pré-natais. Quando os órgãos vitais estão
incompletos, quando os membros encontram-se grudados uns aos outros. Um feto. Sem placenta para
proteger. Sem mãe para nutrir. Coberto pela camisola de sua anterior forma adulta. Sangrando e indefeso.
O ser agarrou a criança com mais força após o espetáculo,
temendo que algo a pudesse tomar de seus braços. Mas nada ocorreu, e ele voltou para a fenda no céu,
deixando Valter sozinho em sua catatonia disfarçada de reverência.
Reflexões.
O que ocorreu naquela noite? Não me lembro de absolutamente
nada depois que peguei Flávio no colo. Minha memória só retorna durante a manhã, quando alguém me
desperta com uma pancada na cabeça. Meus joelhos sangravam, pois deveria ter ficado horas ajoelhado
na passarela. Acusam-me de ter matado meu filho, abortado e assassinado minha esposa, e ter trazido
feto para a passarela, acharam-no envolto nas roupas dela. O linchamento foi inevitável. As feridas
já cicatrizaram, embora elas ainda doam. Mas as feridas na mente nunca vão se cicatrizar. As perguntas.
Onde está sua esposa? Onde está seu filho? A cada vez que afirmava não saber de nada, era espancado.
Fui torturado várias vezes. Não tinha o que confessar. Não mutilei minha esposa e não matei meus filhos.
Eu nem mesmo sabia que Selma estava grávida novamente e, apesar da situação, nunca a encorajaria a
praticar um aborto, muito menos cometê-lo com minhas próprias mãos. E quanto a Flávio? Meu Deus, onde
ele estará?
Diagnosticaram-me como esquizofrênico por insistentemente
negar os fatos e falar sobre "as vozes". Estou trancado em uma cela na seção psiquiátrica,
há alguns meses. Uma cela individual e acolchoada, devido a minha periculosidade. Não cometi crime
nenhum. Alguém me usou. Elas me usaram, seduzindo-me de alguma maneira. Eu as segui. Os castigos,
as humilhações, a dor. Tudo é tolerável, só não consigo conviver com as dúvidas.
Não consigo vê-las ou escutá-las de onde estou. Mas, na
primeira oportunidade, assim que elas me chamarem novamente, eu as questionarei.
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