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INFORMAÇÕES    
Autor: Aguinaldo I. Peres.
Título: Das Sombras.
Publicação: 05/09/2006.
Categoria: Terror.
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Texto vencedor do Desafio de Abril com Tema: Anjos.
Escritores da Fábrica de Sonhos.

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TERROR      
Das Sombras.
Por: Aguinaldo I. Peres.

Imagem da Internet

Das sombras eu observo. Observo as odiosas criaturas que brincam à luz do sol, no pequeno trecho de grama verde e fofa que vai da floresta até a superfície espelhada do lago. Seus corpos alvos, seus gestos fluidos, seu riso fácil, tudo isso me irrita. Criaturas estúpidas, por que tanta alegria. Condenadas a voar eternamente atrás do Sol, fugindo das trevas. Não lutam nem caçam, totalmente inúteis e fúteis.

Dia após dia, eles chegam com o sol e partem com sol. Eles se espalham pelo descampado, despreocupados e inocentes, sem se importarem em invadir meu território, confiantes na proteção da luz.

Nas sombras eu sonho. Sonho com trevas e holocausto, com minhas garras trinchando carne e sangue tingindo o lago. Cada um recebendo a justa recompensa do meu rancor. Furar os olhos sempre vigilantes do Cabeça-de-Fogo, arrancar as asas dos orgulhosos Gêmeos, e aprisionar nas trevas eternas o pequeno e irrequieto Prateado. Mas isso são apenas sonhos.

Os dias passam e não estou mais só, outras criaturas atraídas pelo meu ódio também vieram para observar, meio-homens meio-lobos, eles apreciam as criaturas aladas com olhos famintos. Deslizo pelas sombras e sussurro em seus ouvidos. Eles são apenas comida. Mas eles são fortes. Esperem até haver somente um. Mas eles voam. Uma corda, uma pedra em cada ponta, jogue nas asas e ele não voará. Os homens-lobos sorriem com prazer.

Nas sombras eles aguardam. Pacientemente as criaturas da floresta profunda montam sua tocaia, ocultos entre os arbustos à beira do descampado, eles esperam pelo momento de atacar. Para o meu deleite é Prateado quem chega sozinho, ele pousa e corre para a beira do lago para colher as perfumadas flores vermelhas. Imediatamente dois homens-lobos partem em perseguição à sua presa, a criatura alada percebendo o perigo tenta voar, mas a fera mais próxima lança a boleadeira que se prende à sua asa. Sem poder voar, ele foge desesperado em direção à floresta. Em minha direção.

Que dia glorioso, estendo minhas asas com um forte estalo de couro, abro os braços e estico as garras para receber meu cordeiro, que corre as cegas entre as árvores, tropeça e cai aos meus pés. Minhas garras voam cortando carne e partindo ossos, o delicioso sangue, vermelho e quente, espirra para todos os lados. Mas nada me dá tanto prazer quanto os olhos aterrorizados do ser celeste. Distraio-me por alguns segundos, e a garra de um terceiro homem-lobo atravessa meu peito, num último gesto impulsivo arranco a cabeça da besta antes de tombar inconsciente.

Nas sombras eu acordo. Que surpresa a minha ao perceber estar ainda respirando. Minha mão sobe ao peito e toca o emplasto que cobre a ferida. Minha mente está confusa, não consigo imaginar qual criatura cuidou do meu ferimento, que ser impossível preocupar-se-ia com esta criatura da escuridão. Abro os olhos e vejo meu pequeno cordeiro, que agora será meu carrasco, ajoelhado ao meu lado, ele sorri e parte com o sol. Amaldiçoou a criatura alada que me deixou para morrer lentamente ao invés de me agraciar com uma morte rápida. Tento me mover, mas a fraqueza e a dor no peito me impedem, agora somente me resta aguardar a morte.

Chega um novo dia. E com ele as criaturas aladas que se aglomeram à beira da floresta. Malditos. Mil vezes malditos. O que acham que eu sou, um show macabro, um espetáculo para espantar o tédio de suas miseráveis vidas. O pequeno Prateado penetra nas sombras carregando uma pesada bolsa que pousa ao meu lado. Para minha surpresa, ele despeja em minha boca um pouco de água que bebo sofregamente, depois um líquido viscoso com um horrível gosto adocicado, mas que aquece e revigora meu corpo. Por fim, ele troca as ervas que cobrem minha ferida. Se a dor não fosse tanta, teria gargalhado.

Nas sombras eu me recupero. Quão estúpidos são esses seres alados, somente seus cérebros minúsculos para crer que eu, uma criatura das trevas, salvaria uma criaturas da luz. Mas a situação me favorece e lentamente planejo minha sangrenta vingança, enquanto permito que a pequena criatura cuide de mim.

Meu dia chega, não precisaria mais suportar a presença nauseante das criaturas aladas. Quando Prateado se aproxima, eu o agarro pelo pulso e o lanço ao chão. Minhas garras arranham sua pele suave e delicada, com a língua sinto o gosto salgado das lágrimas que escorrem pelo seu rosto e em seus assustados olhos brilhantes vejo refletidas minhas brancas presas, que eu cravo em seu ombro. Que delícia é seu sangue, doce e quente. Levanto-me, abro minhas asas de couro e urro em triunfo, lançando meu desafio a todos os seres vivos. Ergo-o pelo cabelo prateado e o empurro em direção à luz, que cambaleante cai nos braços de Cabeça-de-Fogo. Retribuo o olhar de ódio das criaturas aladas com a mesma intensidade. Venham, venham até mim, venham para as sombras, deixem-me sentir o gosto de sua carne. Mas as covardes criaturas apenas vão-se embora.

****

Agora eu caminho na escuridão, sob o céu estrelado, pelo descampado deserto. As criaturas da luz nunca mais retornaram ao meu território, mas ainda posso sentir sua presença, seus cheiros, suas risadas cristalinas ainda reverberam na superfície do lago. Onde está meu ódio, cadê a expectativa da tocaia, o prazer da vitória, até mesmo a dor em meu peito havia desaparecido como um sonho, restava apenas o vazio. Estudo meu reflexo nas águas paradas, somos diferentes e ainda assim tão semelhantes, trevas e luz, os dois lados de uma mesma moeda. Abro minhas poderosas asas e me faço aos céus seguindo a direção do vento, seguindo a trilha de asas emplumadas, seguindo o cheiro da luz. Afinal a morte precisa ir aonde a vida está.

Noite após noite, persigo minha presa como a noite persegue o dia, parando apenas quando a luz me expulsava de volta para as sombras, e mesmo nela, permanecia vigilante aguardando o som de risos e asas. Durante minha viagem cruzei com muitas outras criaturas deste mundo, a maioria eu ignorei e os poucos que ousaram interromper meu caminho foram transformados numa massa disforme de carne e sangue. Só tenho um objetivo, somente uma esperança me faz voar e voar. Com o passar do tempo, tornei-me uma lenda, uma maldição.

Sob a luz da lua cheia, ele esperava. No centro da clareira ele brilha como prata polida onde não estava manchado de sangue. Pouso à sua frente, ele havia crescido nos últimos anos, provavelmente estava mais alto até que Cabeça-de-Fogo, fincado na terra ao seu lado estava uma espada coberta de sangue e em sua volta os restos de numerosas criaturas. Por quanto tempo ele estivera a me esperar. Quantos lhe desafiaram e sucumbiram. Que tipo de monstro eu havia criado. Ergo a cabeça para enfrentar seus frios olhos prateados, meu coração explode, meu sangue ferve, meu pequeno Prateado havia se igualado a mim. Ele se aproxima, minhas garras se distendem, ele me abraça, fico sem ação, sinto meus ossos estalarem sob seus músculos, sinto lágrimas quentes caindo sobre meu rosto, minhas garras arranham suavemente suas costas, sinto-me feliz sob as sombras de suas asas.

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