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INFORMAÇÕES    
Autora: Sílvia Costa.
Autora: Lorna Dannan.
Título: Fatos Consumados.
Publicação: 01/09/2004.
Publicação Original: 27/05/1990.
Categoria: Jornada nas Estrelas.
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OUTRAS OBRAS DA AUTORA
II Forças Antagônicas.
III O Poder dos Iniciais.
IV Vulcanos...Sina e....
V Tradição Original.
VI Sal da Vida.
VII Nuto Solo Pleraque...
VIII Nuances da Tempestade.
JORNADA NAS ESTRELAS      
USS ATLANTIS - Novos Exploradores. Missão I - Fatos Consumados.
Por: Sílvia Costa e Lorna Dannan.

Imagem de Roberto Kiss direitos reservados.
Imagem de Roberto Kiss feita especialmente para a Série.
Novela dividida em oito capítulos. Aguarde a página carregar.

A nave classe Ambassador experimental chamada USS Atlantis NCC 1025 foi comissionada em 2.327, sendo comandada pela Capitã Diana O'Conell e sua Primeira-Oficial Sarah McKenna. Elas são responsáveis por um grupo de elite que trabalhou, direta e indiretamente, concordando ou não, em um departamento denominado Dissuasão. Uma espécie de Serviço Secreto da Federação que as marca pelo resto da vida. Agora toda a tripulação foi designada para missões na fronteira do Quadrante Alfa com o Quadrante Delta, sem no entanto deixarem de prestar serviços mirabolantes para a Frota e para outras facções secretas que estão por toda parte. A questão é: em quem se deve confiar? Ordens são ordens e devem ser cumpridas...

A Classe Ambassador foi oficialmente comissionada em meados de 2.340, contudo a Atlantis é uma nave experimental que está vinculado a Frota secretamente e tem como meta principal tanto testar seus dispositivos como cumprir missões mirabolantes para a Dissuasão.

Fatos Consumados começou a ser escrita em 1.989 e conta a história de uma nave experimental e seus tripulantes marcados pelo passado cheio de dissabores com a Frota Estelar. Apesar disso os personagens não desistem e não conseguem desvincular-se de seus postos junto a Dissuasão. A nave é comandada por Diana O'Conell uma Capitã comedida e pela Primeira Oficial Sarah McKenna que possui uma personalidade completamente diferente da Capitã. Ambas são como um alterego mútuo que de forma surpreendente conseguem fortalecer uma grande amizade. Além destas duas personagens principais todos os outros tripulantes contrabalanceiam personalidades distintas e cativantes. O Médico Chefe Hans Düff, sempre bonachão e espirituoso, o Chefe da Segurança Joshua Benrubi, um homem que tenta ser circunspecto, porém no fundo deseja mostrar todas as suas paixões. O vulcano Melrik que funciona como o fiel escudeiro de Diana e a protege a todo o custo. Além de outros tripulantes que mostrarão particularidades próprias.

A aventura começará com a chegada dos tripulantes e uma aparição rápida de Ivês Merlamé, uma espécie de inimigo íntimo de Diana O'Conell. Ele não gostará de saber que O'Conell foi designada como Capitã da nova nave.

Imediatamente a tripulação será convocada para investigar estranhos fenômenos em um distante planeta, contudo ao chegar no local eles encontrarão uma nave ligada ao Império Klingon.

Em pleno ano de 2.327 a Federação não mantém relações amistosas com esta raça hostil e a tripulação terá que passar por cima de certos preconceitos para tentar entender a intenção da misteriosa nave comandada pelo General Kortan e o seu Comandante Utzar.

O que estaria um cientista pacifista klingon chamado Wirgon fazendo nesta nave? E como os tripulantes conhecidamente belicosos irão lidar com a situação? Tentarão destruir a Atlantis?

Personagens nesta aventura.

  • Andor Khya - Oficial de comunicação da USS ATLANTIS. Centauriano.
  • Armek - Almirante vulcano. Primeiro vulcano a comandar uma Deep Space.
  • Diana Helena O'Conell - Capitã da USS ATLANTIS. Terráquea - irlandesa.
  • Dyllan Sanches - Engenheiro Jr. e Alferes executivo. Terráqueo - mexicano.
  • Esther Benrubi - Civil, ex-mulher de Joshua Benrubi.
  • Fabrizia - Civil, ex-mulher de Jordan D'Angelis.
  • Faey Jokovick - Tenente engenheira da USS ATLANTIS. Terráquea - croata.
  • Galloway - Almirante da Frota Estelar, membro do Conselho da Frota.
  • Giacomo D'Angelis - Civil, filho de Jordan D'Angelis com seis anos.
  • George Winston - Civil, Marido atual de Fabrizia.
  • Hans Düff - Médico-Chefe da USS ATLANTIS. Terráqueo - alemão.
  • Jesse Walker - Assessor do conselho da Frota Estelar. Oficial gabaritado.
  • Jéssica Konnery - Almirante da Frota Estelar, membro do Conselho da Frota.
  • John Simons - Operador dos transportes. Terráqueo - canadense.
  • Jordan D'Angelis - Engenheiro - chefe da USS ALTLANTIS. Terráqueo - italiano.
  • Joshua Benrubi - Chefe da Segurança da USS ATLANTIS. Terráqueo - israelense.
  • Klang - Klingon, General suspeito, deseja dominar a Federação.
  • Kortan - Capitão da Nave Klingon KTARNAC, general e guerreiro.
  • Kragen - Piloto Klingon nave KTANARC.
  • Yves Melarmé - Capitão da USS ENDEVOR. Terráqueo - francês.
  • Martina Dickens - Enfermeira-Chefe da USS ATLANTIS. Procedência desconhecida.
  • Melrik Filho de Sartoc - Oficial de ciências da USS ATLANTIS. Vulcano.
  • Nogura - Chefe do Conselho da Frota Estelar.
  • Rebecca Benrubi - Civil, filha de Joshua Benrubi.
  • Richard O'Conell - Importante Conselheiro da Federação e pai de Diana O'Conell.
  • Sarah McKenna - Primeira Oficial da USS ATLANTIS. Híbrida - vulcana e humana.
  • Wekar - Guarda-Costa de Wirgon, segurança Klingon.
  • Willian Ness - Alferes de ponte da USS ATLANTIS. Terráqueo - irlandês.
  • Wind Chayenne - Tenente navegadora da USS ATLANTIS. Terráquea - índia Cherokee.
  • Wirgon - Cientísta Klingon.
  • Utzar - Oficial engenheiro da Nave KTARNAC, filho adotivo de Kortan, Klingon.

****

Capítulo I.

NA FEDERAÇÃO UNIDA DE PLANETAS...

A sala designada pela Federação Unida de Planetas estava repleta de cadeiras vazias, mas no fim da grande mesa de basalto, quatro cadeiras estavam ocupadas por Oficiais de grande gabarito...

- A princípio nossa decisão afetou o andamento de todos os Oficiais envolvidos, mas já que levamos em conta o perfil psicológico e profissional de cada um, acho a escolha conveniente para uma nave como a Atlantis.

Almirante Galloway falava tanto para Konnery, como para os outros presentes, que atentos às últimas considerações, emitiam suas opiniões a respeito da escolha.

Jéssica Konnery, importante membro do almirantado da Frota, presidindo a reunião, olhou atenta para todos, afinal a decisão tomada por eles refletiria em uma tripulação inteira.

- Senhores, tenho certeza que com nossa experiência fizemos a melhor escolha. Armek, qual é a última posição?

Almirante Armek, um dos primeiros vulcanos a serem designados ao comando de uma base estelar, entrou na discussão:

- Os oficiais envolvidos já foram contatados e neste momento se encaminham para a Base Terra; a nave zarpará da doca espacial marciana em quarenta e oito horas terrestres.

Todos assentiram, Jéssica empertigou-se em sua cadeira.

- Sendo assim, a reunião está encerrada. Nos encontraremos em vinte e quatro horas para protocolarmos a missão destinada a Atlantis. - Jéssica se pôs de pé seguida dos demais que se encaminhavam à saída. - Walker.

Jéssica o chamou com certa discrição enquanto os outros desapareciam no corredor. Ela ficou parada perto da porta, enquanto Walker se aproximava. Walker, um homem que trabalhou muito tempo na Academia, conhecia muito bem os requisitos de uma boa tripulação; alto com olhar de ave de rapina, feições fortes que ficavam suaves quando ele queria, principalmente quando desejava uma informação.

- Suponho que você está coordenando os preparativos junto ao Conselho, não gosto de lidar com o Quadrante Delta, sinto como se tivesse pedras em meus sapatos.

- Sim, Jéssica, está tudo sendo resolvido, afinal não é fácil dialogar com klingons, mas eles têm conhecimento que no momento temos mais poderio, tanto de pessoal como de equipamentos.

- Creio que a Capitã deve estar a par de todos os acordos diplomáticos.

- Não se preocupe, mandei instruções a respeito para ela e para a Primeira-Oficial.

- Muito bem, não me preocuparei mais com estes detalhes.

LONGE DALI...

Sarah olhou de soslaio para Düff, que dormia calmamente em sua poltrona. Sempre imaginava como ele podia dormir tanto, como se já não soubesse, mas se conformou, afinal estavam prestes a chegar na Estação Base Terra e as reminiscências das últimas instruções recebidas por ela ainda pairavam em sua mente. Ela não gostava de Walker, mas as ordens vinham de um plano superior ao dele; neste caso o almirante Walker desempenhara a função de garoto de recados.

Seria uma nova nave, uma nova tripulação, seria bom mudar de ambiente por um tempo, por um longo tempo, já que a missão seria de trinta anos.

Mas... o que são trinta anos para uma vulcana? Quase nada, Sarah concluiu e voltou a pensar em Düff. Alguém mexera os pauzinhos lá em cima e conseguira colocar o bom Dr. Hans Düff junto a ela novamente, mas se queriam os melhores, certamente eles o eram e na verdade Sarah via essa nova designação como um porto seguro depois de suas longas expedições em missões incógnitas.

O que mais lhe intrigava, no entanto, era Diana O'Conell: segundo seus informantes, Diana era sombria, dura, escolhida especialmente para missões confidenciais e de captura de informações atrás de linhas inimigas; dominava muito bem a língua e costumes klingons e romulanos. De certa forma, missões bem parecidas com as da própria Sarah. Também era de conhecimento geral que a Capitã Diana O'Conell estava afastada a dois anos de um comando de nave estelar, e os demais oficiais todos tinham carreiras muito parecidas, vindos do submundo da Frota Estelar. Bem, se queriam reunir todas as cobras em um único cesto não era problema de Sarah, na verdade essa questão criava certa expectativa, pois finalmente conheceria Diana O'Conell cara a cara.

- INFORMAMOS AOS PASSAGEIROS QUE CHEGAREMOS A BASE TERRA EM CINCO MINUTOS...

A voz no intercom soava pela cabine na qual os dois se encontravam, os demais, a maioria dos viajantes, já tinham descido em Marte, e a tripulação desembarcaria na Terra. A primeira coisa que faria seria se informar melhor a respeito dos acontecimentos que os aguardavam.

- Conheço essa sua cara! - Düff agora alerta a encarava sarcástico. - Você está louca para chegar a um computador e acessar informações que saciem sua curiosidade - ele riu.

- Isso é o lógico a ser feito. - Sarah se levantou pegando seu casaco.

- Primeiro, moça, vamos a um bar, estou com saudade de um bom uísque, e só bebo com os melhores amigos, ainda mais se forem metade escoceses - Ele a acompanhou. - E este é seu caso, minha querida.

Sarah não fez objeção e seu meio sorriso, conhecido de Düff, contrastava com suas feições vulcanas.

Düff era um alemão alto, forte, com ares de fanfarrão; era ágil nas lutas, quando se faziam necessárias, possuía um coração maior que ele mesmo, e era um médico de primeira linha. Olhou para Sarah McKenna com muita satisfação: aquela vulcana, que constituía um mistério para muitos, era para Düff sua mais terna, leal e única alma gêmea. Sua ligação com a vulcana era mais do que isso, era algo que os vulcanos chamavam de Kevol-Tyr, e não tinha tradução para a língua da Federação. Lembrou da missão, encerrada há dois dias atrás, e da presença de espírito de Sarah nos momentos decisivos. Düff riu-se sozinho, os dois tinham estilo, e isso fazia a diferença. Quanto à nova designação, sabia o que tinha de ser feito, era médico-cirurgião há muito tempo e não seria a primeira vez que assumiria o cargo de médico-chefe em uma nave estelar; no fundo se divertia com a idéia de ver se Diana O'Conell era tão bonita e ao mesmo tempo tão fria como tantos afirmavam...

NA ATLANTIS: DOCA ESPACIAL MARCIANA...

A nave era um burburinho, a Capitã O'Conell, acabara de chegar e a apresentação no grande salão de recreação foi feita pelos almirantes Konnery e Galloway. Diana a princípio se sentiu desconfortável naquela situação, mas a apresentação da Capitã era uma cerimônia de praxe, logo em seguida todos voltaram aos seus postos. A nave partiria em vinte e quatro horas terrestres.

- Diana, o restante dos oficiais chegarão em breve.

- Certo - Diana encarou Jéssica estoicamente. Jéssica estava certa que Diana se contaminara com a frieza vulcana, mas os tempos de Academia já estavam longe e Diana se tornara uma pedra com o passar dos anos. Jéssica não a recriminava, conhecia a ficha dela.

- Bem, o que posso dizer a você? Você foi minha aluna, mas agora sinto que falo com uma igual.

- Me diga: desfraldar velas e boa sorte - Diana relembrou uma das aulas.

- Boa sorte, Diana. - Konnery a olhou com confiança. - Konnery para estação.

Jéssica se desmaterializou ante os olhares de Diana e Melrik.

Os dois se encaminharam para o turbo elevador. Um dia antes estavam em Kitomer, comendo, respirando e falando romulano, agora pareciam ter passado por uma volta de 180 graus, e a nave parecia um lar, a maioria da tripulação era de terráqueos, mas também haviam andorianos, centaurianos, deltanos, rigelianos e vulcanos. Melrik e sua futura Primeira-Oficial Sarah McKenna o eram. Diana pensou que teria que se acostumar em ver Melrik e saber que ele não era mais seu Primeiro-Oficial, pelo menos estavam juntos e isso era o mais importante.

Havia recebido a descrição de cada um dos seus oficiais comandantes, suas fichas completas e uma planta detalhada da nave. Uma nave nova com grande poder de fogo, para vasculhar a fronteira do Quadrante Delta em uma missão de trinta anos. Depois de dois anos em diversas missões era bom estar em uma nave de novo, mas agora devia se preocupar com as vidas, as quais estavam sob sua responsabilidade, mas era uma Capitã e deveria demonstrar sempre tranqüilidade e segurança em suas ações.

- Fale-me mais sobre McKenna. - Ela encarou Melrik, que prontamente começou a destilar suas informações:

- Alto conceito em missões individuais, grande estrategista, excelente armeira, condecorada várias vezes...

- Melrik, - Diana o olhou com ar de reprovação - você é vulcano, ela é vulcana, ou meia vulcana. Quero referências pessoais.

Diana sorriu para ele com aquele ar matreiro. Diana tinha uma característica, que era conhecer muito bem a personalidade de uma pessoa nas primeiras palavras que trocavam. Ela chamava isto de sétimo sentido, Melrik dizia que isto era puramente emocional e ilógico, mas quando os dois estavam discutindo algo, ela sempre gostava de saber a impressão dele a respeito dos comandados. Já que Diana nunca falou com Sarah, esperava saber algo dela por intermédio de Melrik e se preparar para a apresentação formal. Na verdade Diana demonstrava para Melrik seus sentimentos de felicidade, apreensão e expectativa, coisas que dificilmente ela demonstraria a outras pessoas.

- Sarah McKenna não era, como vocês humanos diriam, da minha roda de amigos.

Ela parou abruptamente.

- Melrik com quem você anda aprendendo essas expressões? - Diana sorriu.

O vulcano não se afetou com o comentário e se ateve a conclusão de sua resposta.

- Ela é herdeira na principal linhagem real vulcana, sua mãe é uma princesa primaz.

- Yonah.

- Sim. Para os padrões vulcanos ela é um pouco rebelde, apesar de apresentar uma PES alta, mesmo em relação aos vulcanos. Veio para a Frota no final da juventude, mas logo se destacou; age de forma não totalmente vulcana, algo que eu chamaria de adaptação aos padrões terráqueos de sua metade escocesa.

- Não me diga...

- Diana...

Melrik a encarou impassível com a sobrancelha erguida. Aquilo, Diana sabia, era o ar de reprovação de Melrik.

Ao entrarem na ponte Diana pediu ao alegre centauriano Andor Khya que abrisse todos os canais de comunicação, caso houvesse algum chamado do planeta ou dos departamentos da nave. Eles já tinham sido apresentados. Khya era um homem de estatura mediana, com ar inteligente e muito comunicativo, não era de admirar que assumira o posto de oficial de comunicações; era um poliglota espacial, e tinha a característica peculiar de conhecer sons instantaneamente. Ele certamente tinha bons ouvidos. Seus olhos negros, seu rosto quadrado, e sua boca fina lhe conferiam beleza, seus cabelos negros eram densos, cortados no padrão militar.

- Canais abertos, Capitã.

- Muito bem.

Diana se dirigiu ao centro da ponte, que era ampla, com um formato novo em U, sua cadeira ficava no centro e as demais estações ficavam em volta. O tom cinza argento da ponte e do restante da nave, com faixas azuis, davam sobriedade e elegância ao interior da nave.

A tela principal era maior que as convencionais e dava uma boa visão do espaço, abrangendo de ponta a ponta a parede frontal da ponte de comando localizada no cume do disco superior da nave, estando somente abaixo da sala de reunião 1. Os painéis negros só eram atraentes pelas luzes que apareciam quando os botões de comando eram acionados; o painel de navegação era amplamente utilizável com comandos novos e sofisticados e a estação do piloto, que seria a segunda função de sua Primeira-Oficial, estava localizada a frente à esquerda da cadeira de Diana, ao lado da cadeira da navegadora Chayenne, que era uma legítima descendente de índios americanos Cherokee, e que naquele momento deveria estar em seus alojamentos, uma jovem mulher, mas com a ficha que demonstrava experiência em espaço profundo. Esta era uma característica básica em todas as fichas, o fator experiência.

Diana divagava enquanto passava os dedos nos comandos da estação de navegação sem acioná-los, quando um oficial a interrompeu.

- Oficial-comandante Engenheiro Jordan D'Angelis se apresentado, Capitã. - Ele fez uma continência.

- À vontade.

Diana o encarou, seus olhos eram azuis escuros e penetrantes, suas feições eram romanas, seu cabelo castanho escuro era dividido no meio sob o corte militar, sua boca fina demonstrava uma personalidade forte o que ficava mais patente por suas sobrancelhas grossas e retas, esquadrinhando os olhos que pareciam também um pouco melancólicos. Era um homem alto com o corpo bem constituído, as pequenas rugas nos cantos dos olhos delatavam sua idade: 40 anos, cinco a mais do que Diana.

- Vim emitir um relatório e me apresentar, Capitã.

Ele continuou sério encarando-a nos olhos.

- Muito prazer, Diana O'Conell.

Ela estendeu a mão, num gesto que a princípio o deixou aturdido, mas Jordan tinha a qualidade de se adaptar as situações por isso retribuiu o aperto de mão firme de O'Conell. Sentiu-se seguro em confiar naquela mulher. Bem diferente de seus outros capitães que geralmente o tratavam com distante frieza, com exceções, é claro.

Sua especialidade era motores, motores de dobra, detestaria ser promovido para uma ponte, na engenharia se sentia em casa e a Atlantis possuía uma senhora engenharia, e podia constatar agora que a Atlantis tinha uma Capitã que rivalizava com a beleza da nave. Depois deste aperto de mão, D'Angelis destruiu em sua mente todos os comentários que ouvira a respeito dela: fria como vulcana..., dura feito pedra... Seu aperto de mão era quente e instigava confiança.

- Sim, oficial, estou esperando.

D'Angelis sorriu levemente, sem querer demonstrar os seus pensamentos, a trataria por capitã.

- Capitã, os motores estão 100% operacionais, partiremos segundo o cronograma, a engenharia está pronta para a inspeção.

- Muito bem, oficial, mantenha cronograma padrão. Dispensado.

Ele voltou-se em sentido contrário ao dela e seguiu para a engenharia. Sabia que mais tarde haveria uma reunião com os oficiais-comandantes, lá saberia qual a missão daquela nave e quem eram os demais.

Diana voltou-se para Melrik.

- Estarei em meu gabinete, qualquer alteração me informe.

- Sim, Capitã.

Melrik voltou-se para a estação de ciências, efetuando alguns ajustes, enquanto Diana se dirigia para o gabinete anexo à ponte.

NA ESTAÇÃO BASE TERRA...

- O que achou, hein? Fomos recebidos por um almirante. Estou me sentido importante.

Düff a encarou risonho, sorvendo mais um gole de uísque.

Sarah o encarou com um meio sorriso, pensando nas implicações de sua designação.

- Não beba demais, doutor...

- Graças à moderna medicina, chegarei sóbrio a nave, minha querida, afinal sou médico, sei o quanto e o que devo beber.

- Certamente, Hans. Vamos nos lembrar dos velhos tempos. Temos 45 minutos para isso.

- Sarah, não me lembre deste detalhe.

- O tempo é inexorável, Hans.

O bar era um dos quatro recantos de encontro entre amigos da Estação Terra. Naquele horário estava cheio de clientes, o som de copos e gargalhadas se espalhavam pelo bar. Ao fundo o som de Glenn Miller: o proprietário era certamente um fã de tal estilo do século XX. Vários oficiais se misturavam a civis, que circulavam alegres em frente ao balcão, que era decorado com luzes néon em vários formatos e cores.

Sarah e Hans eram uma dupla atípica com suas vestimentas civis ablagianas. Não era segredo que os dois haviam feito parte de uma comissão diplomática àquele planeta, assim não fazia mal conservar tais roupas, que afinal eram confortáveis, porém antes de irem para Marte deveriam colocar seus uniformes. O que chamava atenção de alguns eram as orelhas de Sarah: vulcanos não freqüentavam bares, mas a maioria nem os notavam, eles eram discretíssimos.

Sarah era uma mulher muito bonita, estatura mediana, com linhas bem definidas. Tinha vivido parte de sua juventude na Terra, ou melhor, na Frota Estelar, assim adquiriu de certa forma o comportamento humano, mas de qualquer forma sabia usar seu poder vulcano quando queria. A atração que Sarah exercia sobre os homens era patente e Düff tinha consciência disso; de certa forma sempre a protegeu de inconvenientes, mas sabia que esta proteção não era necessária: Sarah tinha a força de três homens, e lutava muito bem.

- Este lugar está fervilhando de recém chegados do espaço.

- É - Düff disse taciturno. - Muitas caras novas, isso é bom - ele sorriu. Düff era um mestre em mudar de semblante, uma hora triste, outra alegre, ele era e sempre seria um bom aprendizado para Sarah, um pai, um irmão e um filho. Sarah estava com o corpo ali, mas estava com a mente em outro lugar.

- Vou dar uma voltinha e já volto.

- Sei aonde você vai, não precisa vir com essa desculpa.

- São minhas necessidades fisiológicas, afinal tenho que estar vazio para encher de novo! - Ele se levantou. - A propósito, vejo alvo a estibordo, estarei aqui se as coisas esquentarem.

Eles sorriram, Sarah sabia muito bem o que ele queria dizer, ela mesma já havia notado o sujeito. Düff se dirigiu ao fundo do bar.

Ele tinha cabelos castanhos, e o característico corte militar da Frota Estelar, estava com roupas civis e bebia em uma das pontas do balcão colorido do bar.

Sarah o encarou, era realmente atraente, e o reconheceu de imediato, já tinha tomado conhecimento das fichas dos Oficiais-Comandantes da Atlantis, e aquele era um deles.

Joshua Benrubi a encarou também, gostava daquele jogo, o jogo da atração. Chegara à estação há uma hora e logo estaria em Marte. Teve que protelar sua revanche em juízo com a ex-esposa, e foi duro ver que sua filha ficaria com ela. Não recriminava Éster, mas a filha era no mundo o que mais amava; ficaria mais tranqüilo se fosse criada com sua família e não com a da esposa. Mas ele era um oficial e não poderia, pelo menos agora, dispor de tempo para criar uma filha. Estava um pouco amargurado e beber era uma solução, queria esquecer um pouco tudo aquilo por enquanto, queria apenas esquecer...

Ela era muito bonita, uma vulcana, nunca tinha estado com uma vulcana, como elas seriam?

Joshua virou para o garçom e pediu mais uma dose da mesma bebida que estava tomando e notou que ela continuava o encarando como se estudasse seus movimentos.

Joshua não resistiu, ela parecia um imã, os vulcanos eram realmente misteriosos.

- Posso sentar?

- Sinta-se à vontade. - Sarah assentiu com um leve menear de cabeça.

- O que uma mulher tão bonita como você faz sozinha neste bar?

- Poderia fazer a mesma pergunta a você.

Joshua momentaneamente se surpreendeu com o tom irônico dela que contrastava com sua seriedade vulcana.

Ele estava bêbado, pelo menos um pouco, Sarah constatou logo este fato. Deixaria ele falar. Ele não podia saber quem era ela.

- Você é direta, - ele bebeu mais um gole - gosto disso. O que você faz?

- Trabalho com informações.

- Uma cientista.

Sarah o encarou: - Congratulações, - ela o cumprimentou - você está certo. E você?

- Sou da Frota, irei para Marte em uma hora.

- A nova nave.

Ele assentiu com a cabeça.

- Você deve ser importante, para ser mandado para lá.

- Não muito... - ele sorriu.

- Gostaria muito de conhecer esta nave.

- Gostaria de levá-la para ver, - ele fez uma pausa - mas infelizmente não posso.

- É uma pena.

- Poderia levá-la a outros locais, digamos, mais interessantes.

- Entendo. - Ela sorriu, mas não para ele e sim para o homem que vinha atrás dele.

Joshua ficou aturdido com aquela demonstração de sentimentos, mas não comentou nada.

- Estamos na hora... - Düff a encarou e depois cumprimentou o homem sentado com um menear de cabeça. - Espero não estar interrompendo.

- Claro que não - Joshua disse prontamente.

Sarah levantou-se.

- Boa sorte em sua nova nave.

- Não acredito muito em sorte. - Ele disse amargo, mas com um sorriso no rosto.

- Você deveria acreditar...

Düff e Sarah saíram, enquanto Joshua os acompanhava com o olhar. Pensaria naquela mulher por muito tempo...

BASE DA FROTA ESTELAR, MARTE...

A Base da Frota em Marte servia como porto de saída para novas naves A Atlantis, com seu novo desenho e seu poderio chamava a atenção dos técnicos e oficiais que transitavam pela base, sempre era interessante dar mais uma olhada para ela e as escotilhas proporcionavam uma boa visão da doca espacial, outras naves ao longe sofriam reparos, mas a Atlantis parecia brilhar absoluta entre as outras.

- CAPITÃ.

- O'Conell falando.

- MENSAGEM DO PLANETA, SRA. A PRIMEIRA-OFICIAL E O MÉDICO CHEFE PEDEM PERMISSÃO PARA VIR A BORDO.

- Concedida, Khya, estou a caminho do teletransporte principal.

- ENTENDIDO, SRA.

Diana que estava na cartografia se dirigiu ao teletransporte que ficava no mesmo nível onde se encontrava agora.

Dois corpos se materializaram e Diana pode ver um homem alto, loiro com olhos azuis inteligentes, um rosto que parecia sempre estar sorridente; parecia um viking bonzinho, contrastando com a mulher um pouco mais baixa, com cabelos castanhos e olhos da mesma cor. Sua pele, se fôra clara um dia, se mostrava agora bronzeada. Diana pensou com seus botões, marcas da última missão...

Certamente era meio vulcana, sentiu o olhar da mulher perscrutá-la, definitivamente Sarah McKenna era uma líder, e começou a repassar tudo que sabia sobre sua Primeira-Oficial.

- Primeira -Oficial e Médico Chefe se apresentando, Sra.

Sarah não prestou continência, e Diana também não, apenas estenderam a mão e se cumprimentaram.

- Capitã Diana O'Conell.

Sarah gostou dela, ela tinha algo mais atrás daqueles olhos sombrios e não notou insatisfação pela falta da continência, Diana não gostava de formalidade com seus oficiais-comandantes, foi o primeiro pensamento que Sarah captou.

Diana era mais baixa do que imaginava, eram quase da mesma altura 1,70cm. Seus olhos denotavam presença de espírito, liderança, as duas de certa forma eram parecidas, mas só o tempo diria como O'Conell verdadeiramente era.

- Capitã, devo confessar que a senhora é mais bonita do que me disseram. -Hans comentou quebrando a auto-análise das duas.

Sarah voltou-se para ele, que pegou a mão da capitã e beijou-a delicadamente.

Diana não se surpreendeu e levou o gesto na brincadeira.

- Düff... - Sarah soltou rapidamente, afinal ela não conhecia o senso de humor da capitã.

- Sem problema, McKenna, gosto de cavalheiros.

- Então vocês se darão muito bem, Capitã - Sarah concluiu sem ironia.

- Creio que todos nós nos daremos bem, creio que este é o motivo de estarmos juntos aqui.

Sarah curvou os lábios vermelhos contendo um sorriso. - Certamente, senhora.

Sarah notou que Diana não se surpreendeu com a demonstração de sentimentos que ela própria emanava, certamente o tão fiel oficial de ciências Melrik já tinha falado a respeito dela para Diana. Sarah intimamente estava curiosa para ver até que ponto Melrik, um vulcano, no mais "estrictu" senso da palavra, era devotado a Diana. Não era segredo para ninguém que onde estivesse Diana O'Conell lá estaria Melrik como uma sombra.

Situação não muito diferente de Sarah e Hans.

- McKenna.

- Sim, Capitã.

- Quero um relatório completo antes de partimos.

- Considere feito, senhora.

Diana voltou-se para o turbo elevador, enquanto Sarah e Hans seguiam para os alojamentos.

- Gostei dela - Düff caminhava ao lado de Sarah.

- Ainda é cedo para eu dizer alguma coisa a respeito dela.

- Bem, vou dar uma olhada na enfermaria e nas enfermeiras... - Düff deu um sorriso maroto.

- Hans, você está se divertindo mesmo, hein?

- Ciúmes, Sarah?

- E adianta? - Sarah pegou outro turbo elevador enquanto Düff seguiu pelo corredor.

DOCA ESPACIAL BASE TERRA...

Melarmê estava sentado em frente ao seu computador pessoal, seu alojamento de capitão era espaçoso. Fôra engajado na nave Endevour, Classe Excelsior, para missão de patrulha e exploração científica no período de cinco anos.

- Computador, me informe o nome do capitão da USS Atlantis.

- CAPITÃ DIANA O'CONELL, COMISSIONADA EM...

Melarmê precipitou-se para frente com a mão cerrada, os olhos explodiam de raiva e inconformismo. Tinha que manter a calma, olhou para a foto dela na tela.

- Você conseguiu então? - ele desligou o computador e jogou-se na poltrona, tinha que pensar, pensar, seguir os planos traçados.

Melarmê estava certo de que ele ocuparia aquele posto, domaria aquela nave, mas daria tempo ao tempo. O'Conell, a queridinha de Nogura... Mas a carreira era assim, cheia de altos e baixos, a Atlantis não seria a única nave nova da Frota.

Melarmê lembrou mais uma vez o teste, onde deveria resgatar as naves, ela estava lá observando tudo, ela seria a próxima, mas agora era minha piloto... Droga, Diana O'Conell nunca pensa sozinha, nunca...

-CAPITÃO, ESTAMOS PRONTOS.

Melarmê saiu de suas lembranças abruptamente.

- Melarmê a caminho, desligando.

Capítulo II.

NA ATLANTIS...

Sarah gostou do que viu, seu alojamento era espaçoso e confortável, claro algo ali e aqui deveria mudar de lugar, mas seria tarefa para depois, sua bagagem ainda não tinha sido desfeita, e suas coisas pessoais estavam muito bem embaladas, tinha sido bom passar na Terra e pegar suas coisas.

Já havia inspecionado boa parte da nave e seu relatório estava quase completo. Em doze horas terrestres a nave zarparia.

- Primeira-Oficial na Engenharia - um rapaz jovem com seus 22 anos deu o aviso aos demais, todos se colocaram em forma e o homem alto de profundos olhos azuis se aproximou dela.

- Engenharia pronta para inspeção, comandante...

- ...McKenna, sr. D'Angelis.

- Sim , sra.

- À vontade. - Sarah fez um gesto para que todos voltassem aos seus postos, ela gostava de ver todos em ação para constatar pessoalmente como agiam, da próxima vez que fosse até ali não seria anunciada, chegaria de surpresa.

- Engenharia operacional em 100%, comandante. - D'Angelis caminhava ao lado dela, enquanto Sarah examinava os equipamentos, não pode deixar de captar um sentimento de decepção emanando do engenheiro.

- Algo o intriga, sr. D'Angelis?

- Não, comandante.

Humanos, como são mentirosos, Sarah desviou os olhos dele enquanto prosseguia sua inspeção.

Já havia memorizado a planta dos níveis da engenharia, mas agora aquele local lhe parecia maior, a Classe Ambassador – ainda experimental - a qual a Atlantis pertencia, era de um belo desenho, com linhas amplas, simétricas, que conferiam elegância aos conveses. Era uma nave que proporcionava conforto aos seus habitantes, mas sem esquecer a operacionalidade e a manobrabilidade, muito importante em batalhas nave a nave.

Agora sabia. Ele esperava pela capitã. Interessante, muito interessante...

MINUTOS DEPOIS NO GABINETE DA CAPITÃ...

- Você sabe as implicações disso.

- Claro, não nego, você está certo.

A porta se abriu.

- Entre, Sarah.

Sarah achou estranho O'Conell usar seu primeiro nome, que intimidade rápida, mas Diana era a Capitã, assim chamava a todos como bem entendia, com o tempo Sarah se acostumaria com o fato, mas dependendo da ocasião Diana a chamava pelo primeiro ou pelo último nome, isto dava o tom de sentimentos que a capitã desejava demonstrar.

- Sarah, acho que conhece Melrik, nosso oficial de ciências.

- Sim, Capitã. - Sarah olhou e meneou a cabeça, estendendo a mão para cumprimentá-lo, Melrik hesitou, mas não teve como negar o contato físico com Sarah, sabia no seu íntimo que ela queria estabelecer um princípio de invasão em seus pensamentos, e isso não o agradava. Ele a encarou sério, e ela pensou:

... o típico Vulcano de família influente, mas não de casta real ou da divisão do Conselho Vulcano, gostaria de saber o que une esses os dois... Melrik e Diana...

Diana notou o transtorno de Melrik, mas não se meteu, posteriormente saberia o motivo de tal gesto.

- Capitã, relatório completo efetuado e aguardando sua verificação.

- Certo, nos reuniremos em quatro horas para informar nossa missão aos demais comandantes. Quatro horas são suficientes para você analisá-las?

Diana a olhou provocativa, na verdade, queria ver as reações dela.

...Ora, ora... Querendo me testar, Diana O’Conell...?

Sarah a encarou séria, mantendo a passividade, era treinada e disciplinada.

- Mais do que suficiente, Capitã.

- Muito bem, irei ao planeta, voltarei em uma hora, qualquer alteração me comunique.

Diana a encarou, sabia que a provocara, queria ver até onde Sarah ia quando era cutucada, Melrik tinha seus limites, não dividiria o comando com Sarah até conhecer todos os seus aspectos, conhecia sua ficha e sabia do que Sarah era capaz.

- A propósito, receba o Oficial de Segurança por mim.

- Sim, senhora.

Diana saiu.

Sarah olhou para Melrik que a encarou como esperando uma ordem.

- Melrik, filho de Zartok.

- Sarah, filha de Sernik - eles falaram em vulcano.

- Que coincidência estarmos na mesma nave. - Sarah disse afinal.

- Temos ficha para tanto. - Melrik rebateu estoicamente.

- Sua ficha não é ruim - Sarah o olhou. - Para um vulcano.

- Já que sou vulcano, o lógico é minha vida profissional se encaixar neste padrão.

- O que não encaixa é Diana O'Conell, Melrik.

Sarah virou-se para ele que estava quase na porta para entrar na ponte.

- Isso é uma pergunta, comandante? - Melrik a encarou antes de sair.

- Apenas uma constatação lógica. - Sarah sorriu levemente, o irritando.

Melrik desviou o olhar antes de sair.

Bem, sua primeira conversa com a sombra de Diana não fôra muito amistosa, mas o tempo dirá como abordá-lo convenientemente.

Talvez sua primeira conversa com o oficial de segurança fosse mais divertida, pelo menos na Base Terra, tinha sido. Ele saberia agora quem ela era.

EM MARTE, NO POSTO DE OBSERVAÇÃO DA FROTA.

Os olhos profundamente verdes de Willian Ness, aproveitavam aqueles últimos instantes no observatório da doca espacial marciana, definitivamente aquela nave era bonita. Seus cabelos ruivos, cuidadosamente penteados para o lado e seguindo o corte militar, complementavam seu uniforme novo. Todos na Atlantis usariam uniformes com novo desenho, mais confortável do que os usuais. Sua jaqueta vermelha escondia uma camisa branca que compunha o uniforme, suas mangas ainda não possuíam debruns de oficial, mas um dia os teria, sim um dia... Sua imagem parada naquele observatório era de calma aparente, mas seu coração estava agitado com a perspectiva de servir naquela nave, na ponte daquela nave, trabalhar dia-a-dia com a Capitã O'Conell.

Como ela seria realmente? Sua boca pequena e vermelha esboçaram um pequeno sorriso; havia lido sobre ela. Uma coisa eles tinham em comum: eram irlandeses, e por isso de certa forma Ness se sentia confiante. Em sua pouca idade, 22 anos, recém saído da Academia, muitos de seus colegas não poderiam acreditar que ele, o angelical, pueril e bondoso Ness, tivesse sido convocado para servir na mais nova nave da Frota Estelar ao lado de oficiais como O'Conell - cheia de mistérios – McKenna - a campeã da Frota em varias modalidades, estrategista e conhecida por sua severidade com os comandados. Não, eles não poderiam acreditar... mas eu fiz por merecer, estudei e me esforcei, vou mostrar que eu tenho competência.

Ele respirou fundo. ...Ness você está sendo um pouco melodramático..., ele sorriu, deixando covinhas nos cantos da boca.

- Ness, Willian Ness?

Ele voltou-se para aquela voz feminina, melodiosa, mas decidida. Ela tinha cabelos curtos, um corte channell terminando na nuca, o que lhe dava elegância; seus olhos verdes amendoados eram expressivos, sua boca suave e pequena era de uma beleza sensual, ele se sentiu corar, e desviou o olhar daquele magnetismo. Viu logo: era ela, a Capitã.

- Sim, sra!

Ele se empertigou e ficou em posição de sentido, perfazendo uma continência. Pensou consigo, será que estou atrasado, e olhou levemente para o crono na parede a sua frente, por trás do corpo uniformizado da Capitã.

Diana o achou mais jovem que na holografia da ficha dele, sentiu que de certa forma o tinha constrangido, chegando inusitadamente.

A sala de observação estava vazia, com exceção de dois oficiais mais afastados deles, que não percebiam os dois.

- À vontade, alferes.

Diana meneou a cabeça com um sorriso, notando a apreensão do rapaz em relação ao crôno.

- Você não está atrasado, meu rapaz.

Diana estendeu a mão para cumprimentá-lo quebrando o protocolo, a princípio Ness hesitou, mas lembrou que ela era irlandesa, e pensou por que não?

- Bem vindo à tripulação da Atlantis, sr. Ness.

- O prazer é todo meu, senhora... Capitã... - ele sorriu sem jeito, notando que não dera a resposta correta - digo, obrigada, Capitã.

Ela o encarou sorrindo.

- Eu não mordo, William.

- Estou um pouco nervoso, Capitã.

- Não se preocupe, eu também.

Ele sorriu junto com ela, e sentiu um mar de confiança e tranqüilidade o invadir. Ela era tão incomum, diria única.

- Vamos, sr. Ness, vamos.

- Sim, sra - ele a seguiu por um dos corredores da estação da doca espacial.

NA ATLANTIS.

Sarah entrou em seu alojamento e notou que algo estava errado; mesmo que só estivesse há pouco tempo familiarizada com aquele alojamento, pôde notar assim que cruzou a porta que havia mais alguém ali dentro. Ficou em prontidão, usar um phaser seria desnecessário. Quando sem mais nem menos, um homem alto, musculoso de fartos cabelos castanhos e olhos negros saiu do outro cômodo adjacente a sua saleta.

- Alferes executivo Dyllan Sanchez, comandante.

- O sr. sempre aparece assim de surpresa, sr. Sanchez?

- Sra... Queira me desculpar, tomei a liberdade de verificar se seus aposentos estavam devidamente providenciados e se eram de seu agrado. - Ele disse pomposamente do alto de seus 1, 87 cm.

Sarah sentiu um ímpeto de esmagá-lo, ele era certamente pedante. Sabia quem era seu alferes executivo, sabia que ele recusara outro posto em detrimento a este de menor status na hierarquia militar só para estar na Atlantis, acima de tudo era patético ter uma babá.

- O sr. está dispensado até novas ordens, sr. Sanchez.

- Sra?

- Sim? - Sarah o fulminou internamente, mas seu olhar era uma passividade vulcana.

- Quando deverei desarrumar suas malas, sra?

Sarah mudou o olhar passivo para um olhar divertido: você quer brincar? Então... Sarah pensou com seus botões.

- Enviarei ao sr. uma lista com horários e procedimentos a serem seguidos em relação a mim e aos meus aposentos. - Ela o encarou.

Ele meneou a cabeça afirmativamente e se retirou dos aposentos.

Sarah deixou dois disquetes sobre sua mesa e saiu em seguida, mudando o código da porta. Pensaria bem sobre quais procedimentos daria a Dyllan Sanchez.

NA BASE MARTE.

Ness a seguia calmamente. Entraram em uma sala cuja placa dizia GABINETE DO ALMIRANTADO em letras douradas; a sala de recepção estava vazia, a outra porta estava aberta e pela fresta podia-se ver uma claridade.

Diana sinalizou para que ele sentasse em uma das poltronas enquanto ela entrava na outra sala.

Ness estava agora mais calmo e o que afinal poderia lhe ocorrer? Estava com a Capitã, não precisava se preocupar com horário, aquele oficial de segurança, sr. Benrubi, não ia morrer se fosse teletransportado sozinho.

- O senhor queria falar comigo, estou aqui.

Ela suspirou levemente, já prevendo alguns aspectos daquela conversa.

- Como vai, Diana? - A voz dele um pouco envelhecida contrastava com a vivacidade do olhar.

- Vamos dizer que estou feliz por esta nave e por minha tripulação...

- Sente-se, gostaria de uma xícara de chá? - Ela recusou com um movimento de cabeça.

A sala era ampla rodeada de escotilhas, as naves se perfilavam, mas a Atlantis estava em destaque. Ele estava sentado na poltrona da cabeceira da grande mesa oval, da cor do ébano, muito clássica e bonita, suas mãos estavam entrelaçadas formando uma concha em frente a ele, seus olhos eram perscrutadores, e a analisavam.

Diana se sentia um tanto desconfortável, não gostava desse ar de mistério. Quando ele demorava a falar algo importante seria dito, mas ele a observava como sempre o fazia, tentando vê-la internamente...

- Creio que você imagina o por que de eu chamá-la para esta conversa.

Ele pegou a xícara de chá e sorveu o líquido vagarosamente, neste momento ele divagou em seus pensamentos murmurando para ela: - Sabe, as xícaras japonesas não possuem asa, temos que perceber a temperatura da xícara com o tato, se esta agradável para a pele, será agradável para o organismo...

Diana se empertigou na cadeira, certamente não estava com muita paciência hoje, mas tentou discernir o cunho filosófico da explicação dele, algo teria de haver com a situação que ela se encontrava agora.

- Seria muito bom se o Senhor confirmasse minhas suspeitas e acabasse com minha curiosidade. - Ela sorriu para ele.

- Há rumores passando pelos altos escalões da Federação, que envolvem comentários sobre... - ele deu uma pausa - sua capacidade para comandar esta nave e seus oficiais.

- Isto envolve a posição de meu pai nas negociações com os Klingons?

- De certa forma, sim, os Klingons não gostam muito de você.

- Entendo, se eu estivesse no lugar deles também não gostaria.

- E depois dos recentes acordos com o Império Klingon, eles esperavam que outro oficial fosse designado para o Quadrante Delta e para o patrulhamento da Zona Neutra Romulana.

- O sr. quer dizer outros oficiais.

- Sim, não posso negar, sua equipe de ponte é extremamente poderosa e com um passado belicoso em relação aos Klingons.

- Não podemos esquecer Sr. que em um passado não muito distante, os klingons eram inimigos e qualquer um que ponha nossas missões em perigo deve ser no mínimo desencorajado.

- Eles também não aceitam que uma Capitã tenha ligação com alguns romulanos.

- Não me diga que a última missão vazou?

- Eles tem informantes Diana.

- Eu não comungo com o Império Romulano, eu só cumpro minhas missões.

- Não é interessante que os conselheiros envolvidos na sua escolha e de sua equipe de ponte, tenham de certa forma uma certa afetividade por você.

- Não dariam uma nave como a Atlantis, se não fossemos capazes de comandá-la.

- Você ainda pode desistir. Fique na Base, fique na inteligência. - Ele a encarou nos olhos.

- Se eu quisesse ficar em uma base, não teria ido para o espaço desde o princípio, naves, tripulações, batalhas, já criaram raízes em minha alma, já comecei a me afeiçoar àquela nave. - Ela sorriu e apontou em direção a Atlantis.

- Sua alma me intriga, às vezes você parece tão dura consigo mesmo, você não tem culpa pelos atos passados.

Diana desviou o olhar...

- Sinto, não queria te trazer este tipo de lembrança.

- Ele pediu para que falasse comigo?

- Não a idéia foi minha.

- Pois me admira que você comesse a agir como Richard O'Conell. Não gostei nada desta sua idéia. -

Diana sorriu, suavemente quebrando a tensão. Já o conhecia há muito tempo desde a academia, estava mais presente em sua vida que seu próprio pai, e sempre quis que ela fosse diplomata da Federação, mas ela não resistiu, queria viver em uma nave, queria sentir a emoção de desvendar os mistérios do espaço.

- Sabe eu poderia ter sido seu pai...

Ele a tirou de seus pensamentos.

- Sua mãe era muito bonita, assim como você, mas parece que seu pai tinha um poder maior de encantá-la, acabei perdendo ela, afinal acho que nos dois a perdemos.

Diana o olhava, mas seus pensamentos estavam em outro lugar, ele era o amigo mais intimo de seu pai o que ele queria dizer com... nos dois a perdermos...? Bem isso não era mesmo da conta de Diana.

- Não seja tão saudosista. - ela sorriu levantando-se - E não se preocupe, já passei por situações, difíceis, enfrentarei a teimosia klingon desta vez também.

Ele se levantou, sabendo que ela não queria mais conversar.

- Não sei como eles enfrentam a sua teimosia - ele sorriu.

- Boa sorte, Capitã O'Conell.

- Obrigada, senhor.

Ele a acompanhou até a porta, quando notou o rapaz jovem que se pôs de pé instantaneamente.

- Sr! - Ele disse firme.

- Este é meu alferes de ponte, Willian Ness. Este é almirante Nogura, alferes.

O velho Nogura com sua mais simpática feição oriental cumprimentou o rapaz que retribuiu com um sorriso.

Diana voltou-se para Nogura.

- Bem devemos ir a Atlantis, partiremos em breve, adeus almirante.

- Adeus.

Diana e Ness saíram e Nogura sentiu algo, como se nunca mais pudesse ver Diana novamente e isso apertou seu coração.

Capítulo III.

PRÓXIMO A ZONA NEUTRA ROMULANA...

Utzar levantou-se, seu catre era de um guerreiro, a mobília era espartana, como deveria ser um alojamento de um guerreiro Klingon, pensou em todas as naves de rapina klingon, e como eram planejadas apenas para a guerra e a conquista, duas palavras que corriam no sangue de um klingon como glóbulos de lealdade à raça, há cinco anos estava na Ktarnac, e a vinte e três anos conhecia Kortan, ser um engenheiro era louvável, mas ser um engenheiro guerreiro era o mínimo exigido.

Pensou novamente em Kortan, tão cosmopolita, coisa que surpreendia quem o conhecia, certamente era um klingon guerreiro, mas também com idéias de paz e cooperação, na verdade Kortan era um paradoxo, capaz de matar a sangue frio quando necessário, capaz de conversar por horas para conservar ou validar um bom acordo de cooperação, um homem que raramente confiava em alguém , uma pessoa que compelia ao respeito.

Utzar colocou suas botas e seguiu para a ponte, onde Kortan daria as próximas instruções a respeito da estratégia klingon de cooperação com a Frota Estelar naquele setor da galáxia. A maioria dos tripulantes, relutantes a respeito desta questão foram aconselhados a seguir a estratégia do governo do Império, depois de anos singrando o espaço a fim de preservar os domínios do Império Klingon na galáxia, era frustrante, para muitos seguir os padrões da Frota Estelar, era esfriar o sangue klingon, diziam os mais acalorados, e havia outros que se rebelavam, que não aceitavam esta estratégia, estes eram os revoltosos, os renegados.

Era um fato que o Império Klingon necessitava da cooperação da Federação, onde muitos outros impérios e mundos coexistiam , era um fato, que a índole guerreira seria usada agora muitos mais para defender, do que atacar, agora o inimigo era comum aos dois, só restava saber por quanto tempo os romulanos agüentariam sozinhos, por quanto tempo os rebeldes agüentariam sozinhos...

Kortan deu suas instruções, era duro para alguns de nós, saber que agora, klingons lutavam contra klingons, que a minoria revoltosa e desagradada dos acordos com a Federação, seriam capturadas ou aniquiladas, dependendo da situação a minoria sucumbiria perante a maioria, este era o lema do Império.

Pensou em si mesmo, ele Utzar era uma minoria na população klingon, um híbrido, o que chamavam de impuro, suas provas eram mais árduas, suas conquistas menos aplaudidas, mas acima de tudo, não via outro lugar para ir, sua alma era klingon, seu coração era klingon, seus ideais eram todos devotados às conquistas klingons, e Kortan mais que um amigo, era como um pai, um pai jurado.

A família era uma instituição mais sólida em Klin do que o governo, e ter uma família era como ter uma raiz, Kortan o adotou como filho, foi aceito como da família por sua esposa e filhos e filhas, uma família que aceitava a distancia do genitor, mas que em breve o teria novamente em casa a nave voltaria para casa, para reparos e instruções mais detalhadas, o longo caminho de volta para as substituições de praxe.

NA ATLANTIS...

O corpo de Joshua Benrubi se materializou e contemplou a sala de teletransporte ampla, toda cinza clara com toques de azul, a loira que operava o teletransporte o olhou como a maioria das mulheres com certo interesse, no mesmo instante que descia a plataforma ela entrou na sala, seu cabelo castanho estava arrumado e suas formas ficavam evidenciadas pelo uniforme de Primeira-Oficial, era ela sem dúvida, séria e com o olhar penetrante, o mesmo olhar que chamara a sua atenção na Base Terra. A princípio pensou que a situação era cômica, mas era a realidade.

- Oficial de segurança Joshua Benrubi se apresentando, Sra.

Sarah notou que ele não rescindia a bebida, se não o tivesse visto em um bar diria que ele não esteve lá há poucas horas atrás.

- Eu sou a comandante Sarah McKenna, seja bem vindo, oficial.

- Obrigado, Sra. - ele entrou no jogo dela e agiu como se nunca a tivesse visto antes, não queria dar motivo de falatório na nave, principalmente aquela loira que parecia tão interessada na conversa dos dois.

- Sua bagagem já foi enviada ao seu alojamento, em 1h reunião na sala de reuniões 1 para coordenadas da missão - os dois saíram deixando o olhar loiro curioso para trás.

- Quero um relatório sobre a segurança antes de partirmos.

- Sim, Sra.

- A propósito, Sr. Benrubi: - ela sorriu levemente, quase imperceptivelmente - boa sorte.

- Acho que começo a acreditar nesse regulamento do destino terrestre - Ele sorriu vendo ela ir em direção contrária a dele .

Sarah precisava entregar os relatórios a Diana e preparar a reunião, começava a achar que toda aqueles relatórios eram burocráticos e enfadonhos, mas alguém teria que fazê-los...

NA ENGENHARIA

Faye Jokovick, entregou o posto ao também engenheiro júnior John Simons, que acabava de chegar, ela deveria ir direto para a engenharia, pois o engenheiro chefe, logo seria convocado para uma reunião e ele remanejaria os postos, mesmo assim não era sua incumbência a sala de transporte.

Sentia um certo calafrio em lembrar o olhar da Primeira-Oficial, sempre séria, com repentinos toques irônicos, e a Capitã só a vira duas vezes, de longe na apresentação a tripulação e uma segunda vez quando ela se foi para a base em Marte, tinha um olhar igualmente frio, mas também sombrio, foi gentil, como era com todos, pelo menos os que tiveram contato com ela naquelas poucas horas e tinham comentado o fato com Faye. Sua mente se desviou para a imagem de Jordan D'Angelis à medida que se aproximava da engenharia.

Ele era um homem muito bonito, aquele outro também era, o tal oficial de segurança, pensou consigo, pelo menos tinha o que olhar naquela nave, só por isso a Atlantis já valia a pena, riu consigo mesma.

NOS ALOJAMENTOS

- TODOS OS OFICIAIS COMANDANTES PARA SALA DE REUNIÃO 1.

Chayenne, parou de desembrulhar uma escultura antiga, era uma águia americana esculpida em cobre com muitos detalhes, aquela estatua a fazia lembrar de seu país, das terras verdes, e sua família, era uma das poucas coisas que carregava para todo lugar onde fosse designada, deixou a pequena escultura de lado e pôs-se a arrumar seu uniforme de tenente comandante, sua jaqueta vermelha combinava com ela e a dava vivacidade, arrumou sua trança para trás e saiu.

Não tinha sido fácil chegar até ali, mas os anos de serviço árduo lhe compensaram a despeito dos 28 anos que tinha já possuía experiência no campo, quando a convocaram, sentiu felicidade, entusiasmo, sabia que não tinha sido escolhida por mero acaso, e sim por suas qualidades de oficial.

NA ENFERMARIA...

Hans Düff acabara de inspecionar a biblioteca médica - o coração da enfermaria - e constatou com felicidade que era completa e ainda possuía um amplo arquivo com a fisiologia vulcana e romulana, bem ele próprio poderia incrementar este arquivo.

Colocou sua jaqueta vermelha com o símbolo da área médica, achou o caimento muito bom, diferente dos uniformes que usou em outros tempos. Olhou para a enfermeira chefe Martina Dickens, um tipo mignön, espevitado, seus cabelos curtos muitos negros e no lugar, eram o par perfeito para seus olhos negros vivos, seu nariz arrebitado parecia denunciar sua mania de criticar tudo, em poucas horas, Hans quase delineara a personalidade daquela mulher, uma ficha excelente, mas uma personalidade temperamental, Düff não se surpreenderia se conseguisse destilar veneno daquela língua... riu consigo mesmo ante tal pensamento...

- Dickens, irei à reunião, você assume enquanto Dr. Olsen não está.

- Sim, Sr.

Hans saiu, sendo seguido pelo olhar de Martina que se voltou para a tela do computador, verificando quantos e quais espécies de seres vivos existiam servindo naquela nave. Parou na ficha de um terráqueo em especial.

LONGE DALI.

D'Angelis se encaminhou ao turbo elevador deixando últimas instruções aos seus engenheiros, a nave estava pronta para qualquer comando. As câmaras de dilitium estavam perfeitas e o fluxo de antimatéria em funcionamento perfeito.

Pensou consigo: ...o que esperar daquela reunião...? Ali se confirmaria todos os rumores, partiriam para o quadrante delta, o desconhecido os aguardava, pensou na última comunicação que teve com a Terra, falou quase uma hora com sua ex-mulher e agora por incrível que pareça sua melhor amiga Fabrizia, contara de sua nova designação e ela partilhou sua felicidade, estava grávida, George Winston era um bom marido, sempre estava ao lado dela, e era isso que ela precisava, um companheiro.

Giacomo estava bem com seus 6 anos, e estava todo entusiasmado com a escola, era bom saber que ele se adaptara bem a George e George a ele. Estava feliz por isso, podia continuar na Frota, sem traumas, sem remorso, e ainda possuía pessoas que o amavam, apesar de ás vezes sentir um vazio, mas sabia que sua presença ali tinha um propósito , talvez um dia descobrisse.

Ele entrou no turbo elevador e viu um homem alto, de sua altura, loiro com olhos azuis, que transmitiam alegria, olhou o uniforme dele, e constatou instantaneamente: era o oficial médico. Entrou e sorriu levemente.

Düff sorriu - prazer, Hans Düff, mas pode me chamar de Doutor.

Hans deu uma risada.

Jordan retribuiu.

- Jordan D'Angelis, pode me chamar de engenheiro - os dois riram. - Estou brincando, me chame de Jordan ou D'Angelis, como quiser.

- Gosto de D'Angelis, o anjo.

- Acho que ‘o anjo’ não combina com a minha cara.

- Também acho - Düff sorriu. - Eu lembro desse nome, D'Angelis... - Düff o encarou - Não foi você, meu caro, que levou aquela nave de Camaris IV até a Base 17, com os motores quase mortos?

- Não me lembre desse tempo - ele falou contra feito.

- Vejo que temos o melhor em engenharia.

- Tive ajuda da sorte, doutor - D'Angelis fez um muxoxo.

- Modesto... Me diga: - Düff usou um tom confidencial - o que aquela Nave Estelar estava fazendo em Camaris IV?

- Só se você me disser o que estava fazendo em Ablag 3.

Düff sorriu. - Vejo que todos nós somos farinha do mesmo saco.

- Somos farinha de primeira qualidade por isso estamos no mesmo saco, Dr.

Düff continuou irônico. - Estou louco para saber que tipo de farinha é Diana O'Conell.

- Certamente não é para nosso prato.

- Assim você me desencoraja. - Düff falou contrafeito, ante o riso de Jordan.

Os dois saíram do turbo elevador, observados por alguns ordenanças que passavam no corredor, como se não tivessem falado nada durante aqueles poucos segundos.

NA SALA DE REUNIÃO.

A sala de reunião era ampla com formas arredondadas, estava acima do anel da ponte e era quase totalmente cercada por escotilhas com uma parte interna recoberta por paredes onde estavam a porta de acesso, e dois quadros um com uma pintura espacial e outro com uma pintura em óleo da nave, à esquerda da grande mesa retangular que tinha as pontas arredondadas, ficavam outras gravuras e poltronas e ao fundo uma estante transparente com replicas pequenas das naves que receberam o nome Atlantis, este tipo de decoração era de praxe em todas as naves estelares.

Diana O'Conell estava na cabeceira, conferindo os últimos relatórios de Sarah que estava a sua direita e encarava o vulcano Melrik que à esquerda de Diana encarava o espaço por trás de Sarah com uma passividade quase irritante para as pessoas que não simpatizassem com o modo vulcano de agir.

Sarah nem tentava se fixar nos pensamentos dele, no momento seria perda de tempo, Chayenne sentada uma cadeira depois dele, era a vivacidade em pessoa, uma mulher cheia de vida seus olhos verdes contrastavam com sua pele morena, era uma índia genuína e com muita beleza, percebeu quando o jovem Willian Ness entrara na ponte o tipo de olhar que ele lançara na jovem Chayenne, foi impossível não captar o pensamento pueril do rapaz. Sarah quase lembrou da sua juventude, uma juventude que na verdade nunca teve esse ar pueril e vivo de Ness e de Chayenne e que era comum à maioria dos terráqueos.

Khya entrava nesse momento seguido de um trio peculiar: Hans, Jordan e Joshua. Sarah logo percebeu que aquela trinca seria unida, isso seria bom para a nave, mas será que seria bom para ela?

Joshua sentou ao lado de Melrik e não pode deixar de dar uma boa olhada naquela vulcana, tinha sido apresentado a Capitã há meia hora atrás, e que revelação não teve quando descobriu que ela sabia Iídiche, muito estranho para uma irlandesa, teve outra surpresa quando viu aquele loiro forte que lembrava um Viking saindo do elevador com seu velho conhecido D'Angelis, agora já tinha ligado as conexões, McKenna e Düff, que tipo de ligação teriam?

E D'Angelis, macaco velho de engenharia, que às vezes prestava serviços à Inteligência, ele era um excelente engenheiro só poderia estar ali. Então tinham reunido ali naquela nave, oficiais que já tinham trabalhado em serviço, digamos ligados ao submundo da Frota; interessante, quase riu consigo mesmo quando lembrou que já teve a ficha de Chayenne, Khya e O'Conell nas mãos, claro a de O'Conell não estava completa mas mesmo assim sabia algo sobre ela, veria como ela comandava afinal.

Diana os encarou com um repentino sorriso leve, mas que todos encaravam seriamente.

- Os relatórios são excelentes, isso é bom, a nave está em perfeita condição. Esses disquetes a sua frente dizem respeito à missão. Como os senhores devem saber estamos escalados para 30 anos no espaço profundo. Nossa área de atuação iniciará no setor 10.4 do quadrante delta, com mapeamento, mas nossa missão primordial e patrulha da Zona Neutra Romulana, na fronteira do quadrante delta.

- Então é isso - Hans falou um pouco abismado.

- Nos reuniram aqui pra isso!... - Joshua se juntou ao médico.

Diana os encarou e depois se voltou aos demais.

- Não somos crianças, senhores. Sabemos que não nos reuniriam aqui sem um propósito em médio prazo. A princípio estaremos em fase de adaptação.

Düff falou se recostando na poltrona - Sim, concordo.

- Capitã, e quanto tempo esta primeira fase levará?

Jordan a encarou, como de praxe olhos nos olhos.

- Creio que de 2 a 5 meses, Sr. D'Angelis. Temos que levar em conta que saímos de setores e funções diferentes, mas que tinham o mesmo propósito. Somos especializados, e conviveremos como oficiais rotineiros de uma Nave Estelar.

- Capitã, concordo plenamente, mas se no decorrer das missões ou da adaptação encontrarmos um agente belicoso, o qual deseja apenas vingança pessoal, isso colocará os demais e toda a tripulação em perigo - Chayenne falou séria.

Diana pensou em algumas pessoas que não hesitariam em destruí-la.

- Entendo o que diz, todos entendemos, estamos no mesmo barco, literalmente, temos que nos unir e no mínimo desencorajar tal inimigo.

- Ou eliminá-lo - Sarah disse passiva.

- Concordo, eliminá-lo se for preciso...

- Mesmo que contradigam as ordens? - Düff metralhou.

- Procuraremos não contradizer as ordens, Dr. - Diana completou.

Khya sorriu se posicionando melhor. - Creio que temos um pacto então.

- Sim um pacto, o senhor chegou ao cerne da questão.

- Um pacto suicida... - Joshua murmurou sarcástico.

- Não diria suicida, Sr. Benrubi, - Sarah se interpôs na discussão. - mas um pacto de mútua proteção, onde é bom que ninguém morra.

- Exato - Diana atalhou. - Não devemos direcionar nossas preocupações neste sentido e sim nas missões que receberemos.

Melrik ergueu uma das sobrancelhas, parecia a pessoa mais inadequada para estar ali naquela reunião, os vulcanos são avessos a violência, mas Melrik parecia ignorar o tom da discussão.

- Naturalmente a tripulação não possui conhecimento da natureza de nossas missões anteriores, o que facilita nosso comando, a ignorância neste caso nos é colaboradora. Nossas fichas são confidenciais...

- Algumas confidenciais demais - Joshua cortou rindo suavemente, mas pensando como aquele vulcano se meteu ali, no meio deles.

- Reclame com o serviço de Inteligência - atalhou Chayenne.

- Foi bom tocar neste aspecto - Diana olhou para Sarah. – McKenna, deverá haver entre nós alguns ou alguém informando nossos passos, será uma pessoa imperceptível, por isso recomendo agirmos de maneira usual.

- Comandante, como saber que não é um de nós, aqui? - Khya indagou.

- Eu sei, Sr. Khya, não é nenhum de nós. - Sarah disse tão resoluta, que ninguém discordou.

- Bem, senhores, até próxima ordem seguiremos o cronograma. Dispensados, partiremos em 45 minutos. McKenna fique.

Os demais haviam saído, até o fiel escudeiro Melrik.

Diana olhou para a escotilha e viu a doca marciana ao fundo, algumas das palavras de Nogura ainda pairavam em sua memória.

- Cuide da gravação do computador.

- Já está feito, Sra. Só ouvirão e verão o que é conveniente.

- Ótimo, não quero provocar maus entendidos na cúpula da Federação e da Frota. - Diana se voltou para ela e encarou nos olhos. - Você sabe quem é o agente, Sarah?

Sarah voltou para ela antes de sair: - Sim, eu sei, Capitã.

- Ótimo, a propósito, pode me chamar de Diana.

Sarah sorriu levemente, parecendo concordar.

NA NAVE KLINGON...

As palavras naquela pequena reunião na nave klingon estavam ficando ásperas. Wekar não podia entender a teimosia de Wirgon.

- Então você está do lado deles afinal. - Wekar bateu o punho cerrado na mesa, o som estremeceu o móvel.

- Eu sou um Klingon, não concordo totalmente com a política deles, mas no momento não vejo alternativa, tenente.

- Você é um cientista, vê as coisas do angulo pacifista, já eu sou um guerreiro, devíamos, morrer lutando, não fazer este tipo de acordo, sempre fomos inimigos, porque teremos que confiar neles, deixar que pousem em nossas colônias, desfrutem de nossas minas de dilitium, de nossas bases, e no futuro de nossas naves.

- Terráqueos em nossas naves...- Klegor gargalhou alto, quase deixando um fio de gaghi escorregar para o chão, mas o verme foi capturado a tempo de ser engolido e digerido.

- Às vezes e melhor fazer um acordo agora, para no futuro voltarmos mais fortes....- Utzar se meteu na conversa.

- Posso considerar estas palavras a de um guerreiro? - Wekar fazia troça das palavras do fiel filho jurado de Kortan.

- Não creio que sejam de um guerreiro, mas de um estrategista.- Utzar o encarou sem piscar.

- Bom rapaz você ainda tem muito que aprender sobre um guerreiro Klin.- Wekar levantou o copo na direção de Utzar fingindo fazer um brinde.

- Concordo com você Utzar, lutarmos agora seria estúpido e sem propósito - Wirgon o encarou com um sorriso amarelo.

-Lutar sempre tem propósito, para um klingon.- Wekar esbravejou, sob o assentimento de Klegor.

Capítulo IV.

NA ATLANTIS, 45 MINUTOS DEPOIS...

- As docas estão liberadas, Sra. - Khya respondeu.

- Desativar raio trator.

- Força de empuxo 0,5, Sra.! - Sarah disse de seu painel.

- Calibrar estabilizadores de inércia.

-Calibrados, Capitã.

- Coordenadas prontas, Capitã!

Chayenne movia seus dedos sobre o painel.

-Empuxo 1,5, Sra!

- Saindo da órbita marciana. - Melrik esquadrinhava seus sensores.

- Dobra 4, Sarah. Em frente.

- Sim, Sra.

Sarah acionou os motores de sua estação. E a Atlantis riscou um fio multicolorido ao entrar em velocidade de dobra espacial, as estrelas ficavam para trás como riscos brancos no quadro negro. Todos estavam em seus postos e a eficiência naquela ponte era facilmente detectada.

- Tempo estimado para chegada, McKenna?

- Vinte e dois dias, Sra.

- Ótimo, não vamos forçar os motores.

Diana entregou o diário de bordo para Ness que estava posicionado ao seu lado.

- Obrigada, Ness.

Ness saiu para a estação da biblioteca para arquivar as informações.

Diana se levantou. - Estarei nos meus alojamentos, McKenna. A ponte é sua.

- Sim, Capitã.

ALGUNS MINUTOS DEPOIS...

Diana achava seu alojamento maior do que era este tipo de alojamento destinado a oficiais graduados, havia sempre as escotilhas para o espaço, uma saleta anexa, que possuía um sofá, uma poltrona de leitura e uma mesa para as refeições.

No canto do aposento uma escultura de vidro serpenteava umas luzes internas de cor azul e verde, lembrava uma grande ampulheta, este não era um objeto pessoal, próximo a parede que fazia divisão com o leito, uma estante baixa, abrigava sua garrafa com navio dentro, presente de seu pai, um belo Clipper voador dos mares do sul. Um conjunto de sinos japoneses... Nogura... Eles vão te acalmar quando os problemas chegarem..., ele dizia. E alguns livros de sua preferência, A queda de Tróia, Atlântida, Lendas Celtas, A Odisséia, Le Misserables, Rei Lear, entre outros, relíquias de papel, ela arrumou o último com carinho Abelardo e Heloísa, e sorriu ante o pensamento de amor eterno.

Ness havia arrumado tudo. Uma pequena réplica de um menir celta irlandês, de cobre, estava sob a cabeceira de sua cama, tinha formato de lápide, mas era muito bonito, com as inscrições e desenhos, do lado estava uma escultura de Aslitury, de Oberon IV , presenteado pessoalmente pelo famoso escultor a Diana, era uma espécie de Fênix, com as asas descrevendo uma elipse, flutuando no vazio, suas garras seguravam mãos ou as mãos a seguravam, era uma daquelas esculturas de dupla interpretação. Suas coisas certamente foram muito bem guardadas por Nogura. Será que alguém sabia disso, tomara que não... Quadros Rigelianos e terráqueos, dividiam as paredes, imagens do espaço e da natureza.

Viu na parede defronte ao leito, uma litogravura Vulcana, mais um presente... tinha uma inscrição na vertical, Eu me regozijo em nossas diferenças em vulcano, mais uma frase da filosofia de Surak, ela gostava da forma da escrita vulcana das letras contorcidas.

Acendeu um incenso, um hábito adquirido por conviver tanto tempo com um vulcano. Tirou o uniforme, revelando suas formas, ainda conservava um belo corpo, pensou em todos os exercício que se obrigava a fazer e riu perante a lembrança que sempre precisava estar em forma para lutar ou correr, quando necessário.

Depois de alguns minutos saiu com o roupão e secando os cabelos. Pediu algo ao processador de alimentos e comeu calmamente a comida, sentido cada pedaço, com o se fosse sua última refeição.

Vestiu outro uniforme, arrumou o cabelo, colocou seu perfume predileto e saiu para a cartografia. Queria repassar todas as informações sobre o setor antes de chegar lá.

NO REFEITÓRIO.

A maioria do pessoal estava de folga, a primeira folga na Atlantis, a Capitã insistia em ver toda a cartografia, mas acabou dispensando Joshua que aparentava cansaço. A ponte estava calma, Khya e Chayenne permaneciam lá, seus turnos eram diferentes dos demais. Melrik se recolheu em seu aposento, tentava meditar sobre os últimos acontecimentos. Sarah inspecionava alguns pontos da nave...

Ness passou entre as outras mesas, com uma bandeja farta nas mãos, salada verde, sanduíche de carne bem passada, um sorvete e suco de maçã, contrariando a lógica usual do cardápio, Ness sempre iniciava pela sobremesa, coisa que deixou o chefe Pierre Rinaldi com os cabelos arrepiados de desgosto.

- Que afront, mon Dieu! - o francês resmungou quando passou por ele.

Ness deu de ombros e continuou seu ritual, olhou para a escotilha, e pegou-se pensado em O'Conell, uma pessoa nada convencional, gostou dela, ela não era como os capitães que conhecia severos e pedantes, ela era diferente...

- Posso sentar?

Ness olhou o homem mais velho que ele, com fartos cabelos castanhos e olhos negros.

- Eu sou Dyllan Sanchez.

- Willian Ness.

- É eu sei, você é alferes de ponte, em especial da Capitã.

O rapaz terminou o sorvete e sorriu.

- Então como é trabalhar na ponte?

- É bom, na verdade não mexo em muita coisa. Como é trabalhar com a Primeira-Oficial? - Ness retrucou.

- Eu também não mexo em muita coisa.

Os dois sorriram.

Dyllan o achou tão jovem, devia ter ficha exemplar, ele próprio já fora alferes de ponte a cerca de seis anos, mas agora esperava ser um tenente engenheiro afinal, fez engenharia na Frota, daria tempo ao tempo e as coisas aconteceriam, tinha gostado do rapaz.

NOS ALOJAMENTOS DE DÜFF...

- Senhores, senhores, não me venham com esta, sabemos que o caso de Ridane foi solucionado.

Düff sorvia mais um gole de cerveja romulana acompanhado por Jordan e Benrubi.

- Mas ele é um comerciante de primeira. - Joshua disse contemplando o líquido azul no seu copo.

- E como acha que consegui isso aqui, consegui até um pouco mais barato, disse que tinha efeito medicinal.

- Você quis dizer afrodisíaco. - Jordan descruzou as pernas.

- Na língua de Ridane, medicinal e afrodisíaco é a mesma coisa.

Todos gargalharam, entusiasticamente.

-Parem, parem estamos fazendo a Nave tremer.

- A inércia esta calibrada! - E desataram a rir...

- E então que acharam dela?

Joshua pensou em Sarah...

D'Angelis descansou o copo na mesa e encarou Düff.

- De quem especificamente?- Jordan indagou simpático.

- De O'Conell, a Capitã - Düff desabafou.

- Não sei é muito cedo para dizer... - Jordan recostou-se na poltrona, como sempre cauteloso.

- Gosto do estilo dela, é do tipo matriarcal... - Joshua sorriu pensativo.

- Não me diga, você está atrás de uma mãe? - Jordan disse rindo.

- Você sabe, ela é do tipo de mulher que impõe respeito. - Joshua concluiu.

Jordan meneou a cabeça junto com Düff, concordando, mas pensando em outra forma de imposição vinda de uma Capitã com a ficha de O'Conell...

- Ela só tem um defeito. - Joshua continuou.

- Qual?

- Oficial Comandante Melrik - Eles começaram a rir.

-Um brinde a Capitã! - Düff instigou os outros dois: - De preferência sozinha - ele emendou.

Todos riram e beberam mais um gole.

Neste instante, Sarah McKenna entrava no recinto, olhou para os três e sentou-se descontraidamente na quarta poltrona, Joshua a olhou admirado, ela estava tão natural, sem a severidade usual.

- Sarah, puxe um copo - Düff a serviu com o líquido azul e encheu seu próprio copo de novo.

- Então o que é tão engraçado? - Ela sorriu levemente.

- Estávamos falando a respeito dos efeitos da austeridade que fluí do oficial comandante Melrik e recaí sobre a Capitã.

Jordan disse calmamente a encarando nos olhos com um sorriso irônico nos lábios.

- É... Chegamos a conclusão que ela fica melhor quando está sozinha.

Düff a olhou com ar divertido.

- Que vergonha, Srs., vocês mal a conheceram. - Sarah cruzou as pernas captando os pensamentos de Joshua Benrubi.

...O que ela faz aqui...

- Ah! Sarah ela é um pedaço de mulher... - Düff murmurou.

- Digo mais... ela é uma mulher inteira.

Joshua retrucou e todos riram, Sarah ergueu a sobrancelha sorrindo ironicamente sendo encarada por Benrubi.

- Ela deve ter muitos pretendentes - Joshua sorriu.

- Creio que sim - Sarah respondeu rápido, bebendo um gole.

Jordan sorveu o líquido pensando em quantos homens a desejariam e tratou de mudar de pensamento.

Sarah captou os pensamentos do engenheiro chefe sem olhá-lo, era óbvio agora que Jordan D'Angelis sentiu algo pela Capitã, talvez apenas atração física. Interessante, esta conclusão seria arquivada para posterior pesquisa.

Os pensamentos de Joshua se baseavam na presença de Sarah tão espontânea no alojamento do médico chefe.

... Ora, ora Joshua que pensamentos...

- Mas acho que ela não está tão disponível assim.

Düff disse percebendo os olhares de Joshua sobre Sarah.

- Agora eu senti... - Joshua quebrou o transe. - Ela está tremendo mesmo.

Jordan se levantou e antes que o intercom soasse ele já estava a caminho da engenharia.

- OFICIAIS PARA A PONTE. ALERTA VERMELHO.

A primeira voz, a de Khya, foi logo seguida do Alerta da Nave que soava sonoro em uma bela voz masculina.

Joshua saiu, deixando Sarah e Düff para trás.

- Esta voz é serviço seu - ele sorriu em meio à apreensão do alerta.

- Você ainda pergunta? - Sarah saiu rapidamente, pegando o turbo elevador com Benrubi.

Capítulo V.

NA PONTE...

A ponte estava completa, Chayenne em seu posto tentava mudar as coordenadas em vão, Sarah saiu do elevador e praticamente saltou sobre sua cadeira atacando seu console de piloto, tentando descobrir a causa daquele tremor que sacudira completamente a nave, o que não era nada normal.

Diana no centro da ponte acabava de falar com D'Angelis, ordenando parada total, enquanto Melrik observava o perímetro e Joshua via se alguma arma era a causadora de tal distúrbio.

- Nada Sra. a nave não sai do lugar.

Os tremores cessaram e todos estavam atentos a tela.

-Um campo de força Capitã, de longo alcance, envolveu este perímetro.

-Quais são nossas coordenadas?

-Estamos no sistema Eridane, Sra. coordenada 125.4 marco 6.

Sarah respondeu prontamente.

-Há dois planetas próximos Sra. Acadi localizado na coordenada 127.5, e Camaris IV, logo a nossa frente coordenada 126.3.

-Qual o desenvolvimento tecnológico de Camaris IV, Melrik?

-Eles possuem naves de propulsão local, são avançados tecnologicamente, possuem um grande acordo comercial indireto com os romulanos, há rumores sobre seus poderes sobre energia em grande escala. Creio que o campo de força seja gerado por eles Sra. ele esta cobrindo 70% da área de todo o espaço que engloba os dois planetas.

-Senhor estou captando formas de vida, mas se havia um centro comercial, agora ele não existe mais, alguns conglomerados ao norte estão de pé, e pequenos povoados nas coordenada 333.6.

-Joshua, na tela.

Todos ficaram observando a vastidão do planeta, vista do alto, cerca de 800mil km de altura, era uma terra marrom, no centro coberta de alguma vegetação, focos verdes podiam ser vistos. Na linha do equador, uma camada líquida de cor esverdeada, parecia ser um oceano, mas eles deveriam ter um sistema de canais que levava água para os pólos e para os hemisférios norte e sul. Se houve uma cidade comercial ali, foi há muito tempo, ou uma grande destruição teve início ali, ou eles foram vítimas de um ataque...

O outro planeta Acadi estava próximo, pareciam irmãos, mas o outro era completamente deserto.

-Khya ligue todos os canais e envie mensagem de saudação em todas as freqüências.

-Sim Capitã.

-Capitã para engenharia.

-D'ANGELIS, FALANDO CAPITÃ.

-Venha para a sala de reunião 1 imediatamente.

-SIM SR.

-Sarah. Quais são as possibilidades de sairmos desse campo de força sem danificarmos a nave?

-4,52%, Capitã, quanto mais força usarmos para nos libertar, mais o campo drenará nossas energias.

-Uma redoma invisível.

-Sim Capitã.

-Melrik.

-O campo não drenou muito até agora, 12,8% de nosso total de energia, os sistemas de sobrevida estão intactos e a força poderá ser reposta em 3.5 hs Sra.

-Parada total. - Chayenne murmurou.

-Khya informe-me de qualquer comunicação.

-McKenna, Melrik, venham comigo.

Quando entraram na sala de reunião D'Angelis se pôs de pé.

-Sentem-se.

Diana o encarou com ar severo e preocupado.

-Sr. D'Angelis, fale-me a respeito de sua missão em Camaris IV há seis meses.

Ele a encarou sério, seus olhos azuis demonstravam que ele não queria falar a respeito, não via ligação entre a missão do capitão Galloway com a situação presente. Sarah o analisava, e tentava tirar dele muito mais do que ele queria dizer.

-Fomos enviados para reconhecimento e catalogação de atualização.

-Vocês desceram ao planeta?

-Sim , Capitã.

Ele a encarou, pensando nas conseqüências daquela missão, vieram como observadores, mas Galloway, e só ele tinha conhecimento do verdadeiro propósito deles estarem ali, negociações, para incorporação do planeta, uma rota exclusivamente romulana que tinha possibilidade de ser da Federação.

-Ele desceu, e eu assumi a ponte.

Chayenne olhou para a tela aquela redoma invisível lhe dava agonia, não poder ser a senhora da situação no espaço, lhe tirava a paciência, mas ela mantinha-se calma, sobre sua poltrona.

Joshua procurava nos sensores a fonte do campo de energia, mas só conseguia captar um muro de energia que envolvia o sistema o planeta e se fundia, tornando-se uma cadeia cíclica. Khya ouvia cuidadosamente a estática tentando captar algo.

Ness observava a todos sentado na estação da biblioteca, depois começou a procurar fatos concomitantes com aqueles acontecimentos naquele setor da fronteira entre o quadrante delta e o alfa. Tentava ajudar Benrubi, na localização da fonte do campo de energia.

NA SALA DE DIANA.

-Sim eles estavam em meio a uma guerra civil.

-Por causa do comércio?

-Diana o indagou se curvando sobre a mesa.

-Não a causa eram os romulanos. Creio que eles já haviam sido atacados pelos romulanos . Todos os relatórios a respeito foram feitos pelo oficial Higgins.

-Higgins está morto - Sarah metralhou.

-Exato, quase todos nós morremos na Winsconcin. O planeta estava se desintegrando pouco a pouco. Eles voltaram a nave, mas em seguida uma Nave Romulana, surgiu do nada e nos atingiu, erguemos os escudos e atiramos em vão, a ponte era uma confusão, e Galloway estava ferido, num instante estávamos observando a tela, e a Nave Romulana explodiu em nossa frente, não por causa de nossos torpedos fotônicos ou a salva de phaser, mas sim misteriosamente explodiu, antes que acontecesse algo com a nave, saímos em evasiva, com dobra máxima permitida pelos motores naquela ocasião..

Melrik encarou D'Angelis.

- Uma forma de auto proteção desencadeada pelo próprio planeta ou por um mecanismo à parte da população local.

Sarah completou:

- Tive acesso a tais informações, na verdade encontraram a maioria da população morta quando desceram ao planeta, certamente um ataque vindo do espaço, apoio a teoria de Melrik.

Melrik ergueu as sobrancelhas, agora encarando Sarah, que o imitou com o mesmo gesto.

-Devemos ir ao planeta encontrar tal fonte de energia e desativá-la.

-É muito arriscado, Diana - Melrik usou seu primeiro nome ignorando os demais, ela sustentou o olhar dele, que logo mudou de tom - mas creio que seja a solução lógica.

-Temos que chegar a fonte de energia.

-CAPITÃ , NAVE KLINGON SE APROXIMANDO A ESTIBORDO.

-A caminho - ela se levantou - ... E esta agora... - suspirou fundo e saiu seguida dos demais.

AO MESMO TEMPO NA NAVE KLINGON...

Kortan estava na engenharia, verificando pessoalmente a eficiência dos motores, precisava estar seguro que voltariam para casa com os motores em boa condição, gostava de fazer este tipo de coisa quando Utzar não estava presente, assim não criava situações constrangedoras para o homem que via como filho, uma atitude protetora, mas que ele sabia não interferiria na eficiência do trabalho de Utzar.

A instalação era ampla, com dutos de antimatéria, se condensando ao redor do reator principal, alguns dos seus comandados estavam ali fazendo seus serviços de verificação e atualização de fluxo de matéria e antimatéria, necessárias para o dispositivo de invisibilidade, mas Kortan suspeitava, que ele não usaria tal dispositivo tão cedo, visto que o caminho que seguiam era território da Federação, Kortan riu consigo mesmo, pensado que alguns anos atrás, não muito distantes, ele estaria lutando com alguma nave da Frota Estelar, neste mesmo momento, por estar em espaço navegacional da Federação Unidas de Planetas.

- Não sabia que estava aqui.

- Pensei em ver como a situação estava, depois de nosso encontro com a Nave Romulana.

Utzar se postou em frente de Kortan, estavam um pouco afastados dos demais, uma chance propicia para conversarem sem serem ouvidos.

- Esta preocupado Kortan.

- Na verdade não, ainda estou assimilando a idéia, de estarmos em território da Federação, sem sermos ameaçados.

- Ainda não me acostumei à idéia, espero que cheguemos logo em casa.-

Utzar apertou alguns botões, registrando sua chegada à engenharia, parecia estar apertando botões como brincadeira aleatoriamente, sem se preocupar. Parecia estar distante em seus pensamentos.

- Andas muito pensativo, Utzar...

- Creio que estou sentindo o peso das transformações Klin em minha vida.

- Será uma coisa que deverá aceitar, elas estarão constantemente em você, até sua morte...

-Talvez sim, talvez não... - Utzar o encarou.

- Pensei em recomendá-lo para serviços na Federação, precisarão de gente nossa por lá, agora no começo para adaptação de ambos os mundos, troca de conhecimento e tecnologia.

-E uma coisa a se pensar, quem sabe - Utzar sorriu levemente.

-As coisas terão que ser assim, talvez o Império Klingon nunca mais seja o mesmo, mas temos outros inimigos, que ainda nos perseguem, e querem ter nosso sangue nas mãos. Apenas descartamos um do baralho...

-Filosofia.... - Utzar riu.

-Talvez um dia eu seja um mestre nis...

Kortan teve que se apoiar em Utzar, a nave ricocheteou, com tremenda força, alguns dos comandados caíram ao chão e o alerta vermelho soava em seus ouvidos.

-PONTE PARA GENERAL KORTAN.

-A caminho.

NA PONTE.

Enquanto os quatro chegaram a ponte, Diana viu a Ave de Rapina, que não se deu o trabalho de usar o sistema de camuflagem, ou não podia usá-lo naquela ocasião, a Atlantis, se encontrava presa em uma teia de força que envolveu rapidamente a Nave Klingon, ficaram próxima uma da outra, tendo como vista o Planeta de Camaris IV.

-Ela acabou de chegar Sra. Não estava camuflada, os sensores a captaram a 10 km atrás.

Diana notou que havia algo de errado com aquela Nave, ela estava à deriva, como eles, mas nem lutou contra o escudo, parecia que tinha passado por uma batalha recente, eles os observavam, quietos, sem querer se intrometer com a situação da Atlantis.

Os escudos das duas naves se ativaram automaticamente, o campo não interferia com a energia desencadeada para este fim.

-Alguma comunicação, Sr. Khya.

-Não, Sra.

-O campo os pegou em cheio. - Joshua disse preocupado.

-Está ativado para prender tudo que tenha a massa aproximada de uma nave de médio porte, ela certamente capta os rastros de ionização dos motores. - Sarah concluiu.

-Autodefesa - D'Angelis falou calmo.

-O capitão Klingon exige falar com a Sra., Capitã.

- Exige... -Joshua murmurou.

Diana deu de ombros e sorriu irônica - Vamos ver. Na tela. Sr. Khya.

-EU SOU GENERAL KORTAN.

O klingon com porte atlético e de meia idade, aos olhos dos presentes, envergava sua típica vestimenta klingon com o brasão do império, no ombro esquerdo, junto com sua faixa de guerreiro, seus olhos fortes, demonstravam astúcia.

- EXIJO UMA EXPLICAÇÃO.

- Eu sou a Capitã Diana O'Conell - Ela sorriu amigavelmente.

...Que reação e esta... - Sarah conjeturou consigo mesma.

- A explicação que tenho para dar e que estamos na mesma situação.

Ele fez um sinal para um oficial atrás dele que meneou a cabeça afirmativamente.

- ENTENDO - Ele rosnou com forte sotaque klingon. E sumiu.

Diana sentou-se pensando na situação.

-Sarah, podemos ser teletransportados ao planeta desta distância?

Sarah nem se aborreceu pelo uso de seu primeiro nome, Diana estava tensa, mas sobre o interior de tensão estava uma capa de autoconfiança.

- Sim, Capitã.

- Ótimo. Alguma comunicação da nave klingon?

- Não, Sra.

- Capitã, localizei a fonte da energia - Ness acabava de se levantar dos sensores de mapeamento e se pronunciou, sua voz irlandesa encheu o ambiente.

Todos o fitaram, surpresos, como que esperando uma explicação.

-Bem enquanto vocês se reuniam, tentei ajudar o Sr. Benrubi. - Ele deu de ombros.

-Muito bem, meu rapaz. - Joshua retrucou.

Ele sorriu levemente e voltou para seu lugar, recebendo o cumprimento de Joshua com um assentimento no rosto.

-Ótimo, Ness. Khya entre em contato com a Nave Klingon.

- Aqui é Capitã O'Conell.

Diana fez uma pausa e olhou para Sarah.

- Solicito um canal por favor. - Ela disse a última frase num tom irônico, fingindo piedade.

A face do general Kortan apareceu na tela.

- General, estamos na mesma situação, proponho que baixemos nossos escudos, demonstrando um gesto de mutua confiança.

Todos na ponte ficaram quietos, mas seus cérebros fervilhavam. Sarah pensou que Diana estava se precipitando com tal acordo, mas seria impossível se teletransportar com os escudos levantados.

No fundo colocava a confiança nos recentes acordos klingons, mas todos sabiam que nem todo klingon aceitava o acordo com a Federação, assim podia-se esperar qualquer coisa de um oficial klingon com uma nave de guerra klingon, que não demonstrava sua ideologia claramente.

O klingon Kortan, meditou por um instante, sabia que o próximo passo era abordar o planeta, sabia também que seria arriscado deixar O'Conell na Nave enquanto ele saísse, não confiava no Oficial de ciências totalmente, precisaria ir junto, mas não deixaria sua nave, enquanto a nave terrestre tivesse sua Capitã a bordo.

-CAPITÃ, FAÇO-LHE UMA CONTRA PROPOSTA.

Diana de pé em frente a sua poltrona demonstrou atenção para com as palavras do Klingon que se esforçava para falar a língua geral da Federação.

-PROPONHO QUE EU E VOCÊ, ACOMPANHADOS DOS DEVIDOS OFICIAIS DESÇAMOS AO PLANETA PARA RESOLVERMOS ESTE IMPASSE. DESCEREMOS SEM SEGURANÇAS E SEM ARMAS.

Joshua contorceu o rosto, tinha que falar, mas só deu um gemido rouco, estava desconfiado, e não deixaria O'Conell descer assim sem armas, sem proteção.

Sarah virou-se para Diana, de certa forma sabia que ela concordaria. Estava no íntimo de Diana se arriscar pelo bem da nave.

Diana notando a dificuldade de linguagem do klingon falou na língua do alienígena.

- Você deixará sua adaga de guerreiro?

Desta vez um dos Oficiais de Kortan se levantou atrás dele indignado.

- SIM - Ele respondeu com sotaque guerreiro - DOU MINHA PALAVRA.

Na ponte poucos haviam entendido, mas notava-se que era difícil para o klingon dar aquela resposta.

- Eu aceito - Diana falou normalmente na língua da Federação.

Melrik passara para ela um marcador de coordenadas que ela passou os olhos e depois encarou o Klingon.

- Nos encontraremos nas coordenadas 343.2 em 30 min. Você fez a proposta eu aponto o local.

Ela disse agora em Klingon seguindo o costume deles.

- SIM - ele disse guturalmente.

NA NAVE KLINGON.

As telas de comunicação se desligaram. Kortan sentiu uma leve admiração por aquela terráquea, mas talvez fosse o fato dela se comunicar com ele usando poucas frases klingon, com certeza tinha notado a dificuldade dele de falar a nova língua imposta pelo acordo da Federação, mas estes eram novos tempos, seu sangue guerreiro estava calmo e adormecido, deveria permanecer assim se quisesse sair dessa armadilha do campo de força sem danificar sua nave da batalha.

-Senhor - O Klingon alto com ar belicoso e muito sério, que já era familiar para Kortan, lhe tirou de seus pensamentos.

- Sim, Utzar.

- General, não podemos confiar assim, eles são ardilosos, O'Conell parece ser ardilosa, não pode ir sem mesmo portar sua adaga.

- Eu dei a palavra Klingon, não voltarei atrás.

-Desativar escudos defletores, meu general.

- Acione.

-DESATIVAÇÃO DE ESCUDOS COMPLETA. - O computador da nave klingon anunciou.

Kortan olhou para Utzar.

- ...Esse foi o primeiro gesto... Teremos que confiar nela Utzar, você irá comigo, convoque Klegor, iremos nós três, chame o cientista Wirgon.

- Ele não é de confiança, meu general. - Utzar fez questão de enfatizar.

- Eu sei, mas temos que levar um cientista - Kortan completou sério.

As ordens de Kortan foram seguidas e seu grupo se preparava. Utzar não gostava de terráqueos, apesar de aceitar os acordos, eles eram federados eram ardilosos, mas a situação era aquela, e não podiam sair do lugar, não podiam destruir a nave da Federação. Colocou dentro de sua bota uma pequena adaga, imperceptível, não confiava naquela mulher.

NA ATLANTIS...

-Capitã, isso é loucura - Joshua explodiu.

-DESATIVAÇÃO DE ESCUDOS...

-Sra., desativaram os escudos defletores. - Sarah voltou-se para ela.

-Desativar escudos, Sr. Benrubi - Ela o encarou.

-Ótimo. - Ela sentiu a desconfiança na voz de Joshua e achou melhor deixá-lo na Nave, não gostaria de incidentes. Sem seguranças, Kortan disse, vamos ver se ele cumpre a palavra...

Em todos esses anos nunca tinha visto um guerreiro klingon desonrar sua palavra, isso era questão de vida ou morte para um klingon, mas existiam os supostos guerreiros, que tipo seria Kortan? Os tempos eram outros e os klingons não estavam confortáveis em aceitar uma aliança com os pacifistas da Federação. Mas tenho um trunfo, conheço bem o jeito de agir klingon...

-Sarah, Melrik, D'Angelis - Diana voltou-se para o belo engenheiro de olhos azuis que se surpreendeu ao ver que seria convocado - venham comigo.

Ela voltou-se para Joshua e se aproximou dele, enquanto os outros iam para o turbo elevador.

-Sei que você quer ir, é sua função, mas preciso de você, protegendo a Nave, não sabemos se os oficiais de Kortan seguem as suas ordens à risca.

-Sim, Capitã. - Ele disse com um ar novo nos olhos.

-Proteja a nave... - Ela fez uma pausa e pensou - ...como se fosse sua filha...

Ele sorriu e lembrou da pequena Rebecca por um instante.

- Confio em você. - ela enfatizou.

Depois ela foi para o turbo elevador e saiu com os demais.

-Todos a postos, vamos ficar de olhos neles. - Joshua ficou de pé no meio da ponte, aquelas palavras o aqueciam, estava de novo na ativa.

Capítulo VI.

NO PLANETA.

Camaris IV era um planeta intrigante, boa parte era desértica, mas verdes campinas e depois muitas árvores cresciam em torno da paisagem caustica, onde se encontravam escombros em meio a construções intactas, de onde estavam viam as construções ao longe.

Diana olhou de soslaio para Melrik.

-São corpos, Sra. - D'Angelis completou.

-Se decompõe em grande velocidade, Capitã. - Melrik assentiu.

Sarah verificava o terreno com seu tricorder a procura de sinais de movimento e vida.

-Há um povoado, mas está a 25km da região onde nos encontramos, a vida vegetal é abundante, Sra. O planeta parece estar reconstituindo sua camada vegetal, em uma velocidade fenomenal. - Sarah explicou.

-Interessante.

Melrik atento ao seu localizador, media as ondas de energia. As coordenadas de Ness, estavam perfeitas.

-Sra. Creio que consegui distinguir três fontes, o campo de raios energéticos camufla o sinal, mas creio que um deles o mais forte está a noroeste daqui.

- Captei os mesmos sinais, Sra. - Sarah apontou na direção indicada. Era uma boa caminhada.

Todos estavam sem armas, mas dois vulcanos eram uma vantagem contra alguma tentativa klingon de ataque, com a vantagem que analisariam a situação friamente e não agiriam por impulso, Jordan era metódico e cauteloso, aparentemente não demonstrava agir impensadamente, assim Diana podia monitorar os passos de todos.

Quatro formas klingon se materializaram próximos a eles a uma distância de 8m. Kortan estava no meio, e era realmente alto. Ele analisou friamente a posição e as pessoas da Atlantis, e achou interessante a presença dos vulcanos.

-Estamos sem armas, só sensores. - Kortan iniciou.

-Nós também.

Kortan se aproximou de Diana que era uns 20cm mais baixa que ele e fez a saudação klingon guerreira, que prontamente ela retribuiu na língua dele.

-Você fala com sotaque guerreiro.

-Aprendi klingon com um general. - Diana o encarou, mas depois sorriu levemente.

- Ótimo - Kortan retribuiu o sorriso. Kortan voltou-se para o klingon um tanto truculento, até parecia para ela uma atitude forçada, suas feições eram leves.

- Este é meu engenheiro Utzar, creio que o problema deve ser resolvido em conjunto.

-Concordo. - eles voltaram a falar a língua da Federação.

Utzar se aproximou com o mesmo gesto de Kortan.

-Localizamos o núcleo a noroeste.

-Nós também.

-Os sensores na Nave não funcionaram perfeitamente devido o campo, mas no planeta fica mais fácil distinguir os sinais.

Wirgon completou se aproximando, um cientista klingon, Diana achou quase cômico, mas reagiu naturalmente, ele parecia ser mais frágil que os demais, mas possuía os mesmos músculos e ossatura de qualquer klingon, então Diana concluiu que ele oferecia o mesmo perigo.

-Concordo, Sra. - Sarah disse rápido.

- Esta é minha Primeira-Oficial McKenna, ela tem amplo conhecimento sobre campos de força. Meu ofc. de ciências Melrik e ofc. engenheiro D'Angelis.

Todos se cumprimentaram com um menear de cabeça.

Kortan deu uma longa olhada para Sarah; ele conhecia aquela mulher, tentava lembrar de onde, uma missão atrás das linhas do sistema SUPIR-ORION, e depois encarou o outro vulcano, Melrik, que tinha um ar de indiferença, um típico vulcano, e olhou para o engenheiro, forte e muito observador, qualidades interessantes em um humano.

O grupo seguiu para o núcleo da emanação do campo de força. Pelo caminho encontraram vários corpos em decomposição, alguns tomados por plantas, outros com os ossos a vista, os camarianos se constituem em humanóides com seis dedos em cada mão, pés de pato e um crânio mais afinado do que o crânio humano. Crânios que lembravam cones, encaixados no resto do corpo, que também possuía uma coluna vertebral, como o restante dos humanóides. Essa era a constituição básica desse povo.

Sarah andava, sentido as emanações de sentimentos dos klingons. Klegor era uma espécie de guarda-costas improvisado de Kortan que a seguiu com os olhos.

De certa forma Kortan utilizara o mesmo estratagema de Diana, trouxe consigo oficiais que o resguardariam em um ataque direto, com exceção do cientista Wirgon, Sarah sentia uma alta desconfiança entre os três klingons em relação a este quarto membro do grupo. Mas o cientista tinha que vir, por isso Kortan veio, para controlá-lo de perto, então fez Diana vir...

...Até onde ia o receio de Kortan em relação à Diana estar em uma Nave...?

Boa pergunta, Sarah pensou, olhando o horizonte, onde grandes construções de pedra local lembravam tendas de acampamento em forma de “V” ao contrário, ao se aproximarem do terreno que circundava as construções, notaram que ali os corpos se escasseavam, certamente era um local sagrado.

- Uma espécie de templo, Capitã - Melrik analisava as escrituras e os desenhos que lembravam hieróglifos de Kitomer, nas primeiras pedras que consistiam em blocos pesados e grandes na entrada do terreno do suposto templo.

- Cultura Romulana - Wirgon completou e Utzar assentiu.

- Devemos entrar - Utzar instigou os demais com um sensor apontando para dentro da ampla construção coberta em grande parte por vegetação, Melrik estava abaixado na entrada, tentando ler mais algumas inscrições, ele se levantou, e seguiu Diana de perto, os demais estavam mais à frente.

Na entrada, notava-se que existiam vários túneis e uma porta central com mais inscrições, mostrava um sol e um raio saindo de dentro dele. Mas estava escuro e não se podia ver quase nada a olho nu, a dimensão verdadeira da porta ainda era uma incógnita.

Melrik fazia cálculos mentais e chegou a conclusão que media 30m de altura.

Diana olhou para Kortan, que estava próximo a eles.

- Ficaremos aqui fora, vocês irão, para desativar a estrutura.

Kortan a encarou e concordou com um aceno de cabeça. O que dois comandantes, poderiam fazer lá dentro, apenas instigarão a preocupação e desconfiança de ambas as partes.

Sarah se voltou e a encarou. D'Angelis ficou com o olhar apreensivo, não queria deixar ela sozinha com um klingon.

O grupo klingon aceitou a sugestão prontamente, subestimando O'Conell e seu poder belicoso em relação ao comandante deles ... O que aquela terráquea poderia fazer?...

As comunicações foram cessadas dentro do campo de atuação da força energética...O que ela poderia fazer?...

Utzar concluiu, mas no fundo ainda sentiu receio, sua desconfiança era abafada por suas frases mentais que colocavam a Capitã terráquea na posição de indefesa.

Melrik suspirou fundo e voltou-se para a entrada do suposto templo, desviando o olhar de Diana, não era a primeira vez que concordava em deixar ela sozinha em uma situação dessas, começou a calcular as probabilidades deste fato e chegou a conclusão que existia a razão de 1 para 3 que algo de ruim acontecesse com ela, muitos podiam subestimá-la, mas ele já a vira derrubar um klingon sem armas na mão. Esperava que este klingon estivesse cumprindo a palavra, como Diana estava cumprindo e não pensou mais no assunto, tinha que se voltar para a solução do problema do campo de força e a libertação da nave.

O grupo estava dentro da construção procurava o mecanismo de abertura daquela porta interna, lá estaria a solução? Talvez.

NA ATLANTIS...

- Algum movimento tenente Wiser?

- Não, Senhor. Tudo calmo.

Joshua sentou-se na sua estação monitorando o campo de força, que oscilava levemente, faltavam 3hs para que ele entrasse em contato com o grupo avançado nas coordenadas combinadas, aquela falta de comunicação, deixava uma pulga atrás de sua orelha.

Sabia que Sarah, Melrik e Jordan a protegiam, mas está era sua função... Pensou na ficha de Diana, que nunca estava completa, e pensou que ela talvez soubesse muito bem onde estava pisando, não aceitaria um acordo klingon se estivesse em dúvida.

Olhou para o médico chefe que sentou no lugar de Melrik não parecia apreensivo com os olhos para o visor do vulcano, mas sabia que Hans estava preocupado com Sarah, queria ser uma mosca na parede dos alojamentos dele , para saber o que os dois faziam quando estavam sozinhos.

- O campo oscilou mais forte agora. - Düff falou virando-se para Joshua.

- Captei também, algo está acontecendo lá embaixo. - Joshua olhou para o visor mas só viu a Nave Klingon lá fora.

MOMENTOS DEPOIS.

Diana sentou-se sobre um bloco de pedra de cor verde, pensou em esmeraldas, olhou para Kortan que de pé com um sensor na cintura e de costas, parecia mais alto que o normal, ele olhava o horizonte na direção da cidade.

- Parece que o ataque os destruiu em cheio. - Diana falou em klingon, já que era difícil para ele se comunicar na língua da Federação.

Ele voltou-se para ela meneando a cabeça concordando, suas feições eram a de um guerreiro, a testa enrugada, os cabelos negros soltos sobre os ombros, a boca saliente. Não era uma criatura atraente para os padrões humanos, mas certamente fazia sucesso entre as mulheres Klingons.

- Você demorou muito para aprender minha língua? - Ele sentou-se ao lado dela.

- Não muito, tinha necessidade de aprendê-la rápido.

- Sim, tinha. - Ele riu alto, como um Klingon sempre faz, mostrando sentimentos dramáticos. - Eu acho a língua da Federação bonita, mas difícil de aprender. Ler é fácil, gosto da literatura terráquea.

- Ela tem muito sentimento - Ela sorriu.

- Sim, posso imaginar muitas histórias terráqueas de teor Klingon.

Diana sorriu.

- Demoro para aprender sua língua, pois, minha necessidade se impõe de forma adversa.

- Eu sei - Ela concordou com um gesto de cabeça.

- É difícil aceitar esta situação, temos uma alma guerreira.

- O espaço perdeu um pouco de seu brio sem vocês como adversários certos.

-Palavras estranhas para uma humana - ele fez uma pausa. - Será que você se contaminou com a alma klingon de tanto nos espionar...? - ele sorriu irônico.

- Creio que sim, digamos que fiz colegas, quando estive sob seus phasers, ou pelo menos na mira deles.

- Creio que fez admiradores, também. General Gorn não elogiaria uma terráquea se não tivesse motivo.

- General Gorn... - ela murmurou.

- Talvez você crie outro admirador.

-Talvez eu possa dizer o mesmo...

- Já esteve em Klin?

- Sim, mas não estava em situação de admirar o seu planeta natal.

Ele riu...

NO INTERIOR DA CONSTRUÇÃO.

- Agora vai abrir...- D'Angelis acionou um mecanismo à frente, do agora eles sabiam, Portal de Energia. A pesada porta se moveu para o lado enquanto o grupo de seis minúsculas criaturas em relação ao tamanho daquela estrutura olhavam curiosos para dentro.

Uma suave luz verde, que era refletida de uma forma oval no cume da sala, pintava de verde a abobado da construção em forma de cone e com 30 metros de altura. Dentro a estrutura parecia maior do que de fora, o chão era rebaixado e pequenas escadarias saiam dos cantos em direção ao outro nível do chão. Este vasto salão era cuidadosamente limpo, mas havia um canal de oxigênio, seu interior era respirável.

Outras inscrições, lembrando a antiga escrita romulana, pendia nas colunas que formavam um quadrado no centro do salão redondo. No interior do quadrado, via-se finos veios de energia circulando na cor azul e ás vezes amarela, formando uma teia uniforme, que se movimentava em sentido horário.

- Captei uma sobre carga, neste mecanismo.

Wirgon falou rápido a língua da Federação, mas quem se expressava melhor era Utzar.

Melrik deslizou seus dedos sobre o tricorder e descobriu mais mecanismos que em conjunto com o central, controlavam o fluxo de energia.

- Captei outro mecanismo menor a 800m, por aquela direção.

Utzar fez um sinal rápido para Klegor, com os olhos, que Sarah concluiu era quem comandava agora o grupo klingon.

Sarah que estava ao lado dele o encarou, como que esperando uma resposta da pergunta vazia e silenciosa de Klegor. Utzar olhou para Sarah.

- Vulcana, vamos desativar este mecanismo.

Sarah fez que sim com um gesto rápido de cabeça, e saíram ante os olhares dos demais.

Wirgon e Melrik estavam curvados sobre um mecanismo análogo ao maior com os mesmos blocos de pedra, com um porém, este possuía cristais de diferentes cores que indicavam, comandos individuais com símbolos individuais.

D'Angelis estava abaixado analisando um condutor de energia, um fio brilhante pulsando, tentando descobrir como rompê-lo, a partir de comandos incrustados no chão, próximo a este veio de energia.

Klegor, se posicionou imóvel observando os demais, em frente aos blocos maiores de pedra, tentando fixar o olhar em Wirgon. D'Angelis notou então que aquele klingon tinha a função de vigiar o cientista, e que não sabia a diferença entre prótons e nêutrons, pensamento que não passou desapercebido de Melrik.

- Isso significa Centro - Melrik apontou, mostrando a função ao cientista klingon.

- Ótimo nos dois entendemos romulano.

Melrik o encarou com uma sobrancelha levantada o que causou um riso alto do klingon, que parecia um cientista maluco das lendas terráqueas.

Wirgon estava atento a sua decodificarão da língua antiga romulana, pensou no vulcano, tão natural naquela função, um cientista nato, afinal um vulcano.

Pegou seu sensor e se dirigiu ao outro mecanismo, cinco metros à frente, os dois estavam paralelos, sentiu sobre suas costas o olhar de Klegor.

...Como estes comandantes são estúpidos... o que eu faria aqui sem uma arma? Eles nunca, nunca mesmo arrancarão de mim o que querem saber. Como cientista fiz um juramento, e não vou revelar o segredo...

Wirgon lembrou da missão recente que fez parte, e como foi obrigado a voltar para Klin sob o comando do General Kortan, todos sabiam que Kortan era um osso duro de roer, seguia as missões a risca, onde estava a fama de diplomata, e justo?

Em qualquer lugar, menos quando se tratava de capturar um cientista, acusado de traidor.

... Mas eles ainda precisavam de mim, como poderiam decodificar a arma de antimatéria?... Eles nunca a teriam, nunca...

Antes que isso aconteça eu morrerei, chega de guerras, chega de destruição, eles tem que aprender a única solução é a paz com os romulanos.

NO TÚNEL...

Sarah seguia o klingon agora, o túnel era suavemente iluminado com aquela luz verde que se espalhava por todos os lados.

Utzar devia ter uns 2m e andava seguro de suas passadas, a sua frente. Os dois carregavam sensores, e em poucos minutos chegaram ao local desejado. Era uma réplica do primeiro salão, em escala menor e com o teto mais baixo cerca de 10 metros de altura.

Novamente as pedras com as ondas de energia. Sarah captou de imediato pelo seu tricorder a sobrecarga, o que podia estar causando um colapso no sistema inteiro, pensou que isso podia significar a destruição do planeta e deles conseqüentemente.

Sarah se ajoelhou e começou a ler os símbolos sobre os cristais ignorando o klingon, que parecia atento sobre outro painel.

-Você lê romulano muito bem - Ele disse guturalmente.

- Sim - Ela limitou-se a uma resposta seca.

Já fazia meia hora que ela sentia vindo de Utzar uma onda de desconfiança muito grande em relação ao grupo avançado, e captou também a preocupação dele com a Nave, parecia um refúgio para ele, mas naquela nave parecia haver algo mais, que ele fazia questão de esconder.

Seus traços klingons eram suaves, seus olhos eram verdes bem claros, não podia definir com certeza devido à luz ambiente, sua boca diferentemente de outras klingons não tinha aquela saliência da ossatura dentária de costume, ele fora feito guerreiro, mas era de uma linhagem klingon mais amena. Pensou se ele era totalmente klingon. E sentiu uma ponta de atração por ele, seus cabelos compridos e claros caiam-lhe sobre os ombros fortes e grandes...

Sarah desviou o olhar antes que ele notasse que estava sendo observado, ela rapidamente teve um lampejo do que ele carregava consigo as escondidas, era isso que escondia...

Ele a encarou, a olhava e pensava que para o povo dela talvez ela fosse atraente, mas aquelas orelhas pontudas o fazia lembrar de romulanos, ela as deixava amostra sobre o cabelo comprido e preso como um rabo de Torions.

Sarah se ergueu e o encarou, ele se levantou em frente a ela.

- Podemos desmontá-lo.

Mal ele acabou de falar e Sarah pulou em cima dele, rapidamente puxou a adaga que estava na bota dele, enquanto Utzar, caído no chão, tentava se desvencilhar dela.

O chão liso de pedra era frio e negro, e vários de seus ossos se estalaram. Ele passou a mão na bota, mas era tarde, Sarah jogara a adaga para longe, fazendo o metal tilintar secamente contra a parede de pedra.

Ele segurou o braço dela e quase o torceu completamente; Sarah silenciosamente, socou o peito dele que repentinamente ficou sem ar, se desprendendo das mãos dele; ela se atirou sobre ele, quando ele se arrastava para se levantar e um som abafado de sua cabeça sobre o chão encheu o ambiente; ela agarrou a cabeça dele entre os braços, quase como uma chave enquanto ele tentava se desvencilhar, torcendo a perna dela.

- O que significa isto?

Melrik na entrada do salão, estava de pé em frente a eles com o olhar autoritário, sua sobrancelha estava erguida, mais do que de costume, e seu semblante parecia demonstrar surpresa, mas só seu íntimo revelava que era estupefação.

Os dois se desvencilharam automaticamente se pondo de pé e arrumando os uniformes.

- Nada! - Sarah falou estoicamente, voltando ao painel de pedra com os cristais, como se nada tivesse acontecido.

- Nada! - o klingon quase rosnou para o vulcano, que não alterou o seu olhar, perante os olhos irados do klingon.

- Achei a seqüência.

Ele passou um dispositivo para Sarah que assentiu com a cabeça, sustentando o olhar inquisitivo de Melrik até o fim.

- Iniciaremos a seqüência em três minutos. Temos que trabalhar em sincronia, calculo o ápice da sobre carga em cinco minutos.

Ele saiu apressado em direção à outra sala.

Utzar olhou para Sarah.

- Por que você não falou, Vulcana?

- Seria irrelevante. Klingon.

Ele sorriu para ela que continuou impassível, com um brilho no olhar... Como ele é presunçoso.

Capítulo VII.

NA ATLANTIS.

A nave tremia levemente.

- Joshua para a engenharia.

- AQUI É JOKOVICK, SR.

- O que está havendo aí em baixo?

- NÃO CONSEGUIMOS CALIBRAR A INÉRCIA, SR. A NAVE ESTA SENDO PUXADA.

- Tente compensar dentro das câmaras de fluxo de força, faça algo, tenente.

- SIM, SR.

- As ondas estão mais progressivas agora, forçam um choque entre nós e a Nave Klingon. - Chayenne dava seu relatório.

- Ah, por que isso não acaba logo...

Joshua encarou Hans em busca de uma resposta. Mas Hans o encarou pensativo.

NA ENGENHARIA.

-... Quem ele pensa que eu sou? O que ele entende de motores ou de engenharia? É só a Capitã sair um pouquinho, que aparece um pedante para tomar conta da ponte. Será que ele não sabe que já compensei tudo que há para compensar?...

Faye, andava de um lado para o outro, com sua equipe de engenheiros, acionando vários mecanismos, e fazendo e refazendo cálculos mentais, para assegurar a estabilidade da nave.

- ...Por que levaram D'Angelis junto? Pelo menos se ele estivesse aqui ele é que ouviria o Sr. Benrubi.

Ela resmungou para o painel a sua frente.

NA NAVE KLINGON.

- Ativar força de emergência, compensar a inércia.

- Estamos sendo puxados na direção da nave inimiga... - Kragen olhou ressabiado para o seu superior – ...desculpe, senhor, a nave da Frota.

Wekar o encarou, querendo no seu íntimo que aquilo fosse verdade, se fossem inimigos, já estariam mortos, agora, e metade do problema estaria solucionado, mas precisavam dela no momento, a nave estava em uma situação crítica, não tinha sido fácil à última batalha com a nave romulana, e eles precisavam chegar em casa, dar os últimos relatórios entregar aquela arma, com o traidor, são e salvo. Se não fosse possível arrancar o segredo dele, as suas ordens eram matá-lo. Talvez Kortan não concordasse, mas ordens eram ordens.

NO PLANETA.

Sarah com Utzar no salão menor e Wirgon com Melrik, assessorados por Jordan no salão maior, desativavam seqüencialmente o campo, as luzes tênues iam se desligando, até que por fim, se apagaram por completo.

- Bem, acabou - Wirgon soltou como um desabafo.

Sarah e Utzar chegaram neste momento.

- Ouça! - Jordan fez um sinal, a luz verde começava a tremer, como se ondas de energia tivessem morrendo.

- O templo! - Klegor, gritou com sua voz áspera em klingon, a espessa porta começava se fechar enquanto pedaços de pedra caiam do teto.

Melrik apanhava o tricorder, rapidamente, Sarah se desviava das pedras que caíam, faltava cerca de 50m para chegarem a saída, e a grande porta de pedra se fechava cada vez mais.

- Rápido.

Ela puxou Jordan, que vinha seguido de Melrik, Utzar vinha mais atrás seguido de Klegor que sentia Wirgon logo atrás de si.

-Vamos. - Utzar rugiu.

Eles correram em direção a saída, Wirgon ficou um pouco para trás, recolhendo cristais semidestruídos, que estavam espalhados no chão, que recompensa arqueológica não seria? Poder estudar aquele campo de força, não queria sair dali, queria acabar ali, sem provas de suicídio, sem poder ser eliminado por seus compatriotas.

Klegor voltou-se para ele, e Melrik voltou-se com a intenção de ir pegá-lo, a porta deixara só uma fresta de 2m que se movimentava inexoravelmente. Sarah segurou Melrik pelo braço firmemente .

- Deixe. - E encarou Melrik nos olhos.

Sabia que o dever de um vulcano era salvar vidas, mas Wirgon estaria melhor morto. Sarah sabia o que se passava nos sentimentos conflitantes daquele klingon, e ele mesmo pedirá a morte.

O corpo de Wirgon fora atingido por um dos blocos de pedra, pela fresta que se fechava viram o corpo inerte no chão frio. Klegor abaixou a cabeça, sem poder resgatá-lo.

Wirgon parecia inerte mas ainda tinha alguns minutos de vida dentro de si.

-....Agora a destruição esta adiada por mais um tempo... - ele sorriu com o último suspiro que seu corpo exalou.

- Vamos. - Jordan disse com urgência, eles tinham que alcançar a saída da câmara principal, para sair totalmente da construção, que ruía pouco a pouco.

AO MESMO TEMPO FORA DO TEMPLO.

Já haviam se passado uma hora e meia, que o grupo avançada, estava dentro da estrutura, Diana estava preocupada, mas não demonstrava tal efeito sobre seu rosto, para todos os fins ela estava calma e observava a paisagem da cidade destruída lá embaixo na planície.

Kortan estava sentado em uma pedra próximo a ela, e falava sobre sua família, tinha esperança que seu filho mais velho se tornasse diplomata, claro nessa situação ele não citou o nome do rapaz, que em seus pensamentos era Utzar.

Diana virou-se para ele e concordou, mas seu olhar foi desviado instantaneamente, o que foi logo notado por Kortan, ela deu um salto e empurrou Kortan para o chão, um bloco de pedra acabava de cair onde estavam sentados. Eles viraram para observar o local e se levantaram devagar, Kortan encarou Diana e depois desviou o olhar para a pedra, que ficara partida ao meio sobre o que era sua cadeira.

Tudo parecia tremer, e a construção estava se partindo. Diana olhou para a construção e fez menção de se aproximar. Pensou em Melrik, em Sarah em Jordan, queria tirá-los dali, mas não podia acionar o teletransporte dali. Kortan a puxou.

- Eles virão... - Kortan pensou em Utzar...

A vegetação em torno deles balançava e o som era ensurdecedor, vinham sons de explosões ao longe, como se estivessem sendo atacados por uma nave de batalha, era um dilema, entrar na construção, ou ficar ali fora, para ser atingida por pedras que estavam fora da construção, entrar na construção para salvar seus homens, ou para complicar mais ainda a situação. Kortan parecia compartilhar sua preocupação, mas eles tinham que se afastar dali.

Correram em direção oposta ao templo e se protegeram em campo aberto .Onde só o céu cairia nas cabeças deles. Estavam em um penhasco e agora não havia para onde ir, ao longe viram uma construção que se consumia em meio a fumaça, era dali que o som da explosão tinha vindo.

-Temos que voltar. - Kortan rosnou.

-Se voltarmos o que podemos fazer, general, eles contam com nossa segurança, temos que ficar em segurança.- Diana falou seria.

-Klingons não fogem.

- Eu também não fujo. Mas agora é o lógico a ser feito.

-Vamos esperar e observar... - Kortan disse ao final.

Cerca de dois minutos depois, o grupo avançado saia da vegetação, e encontrava os dois comandantes, em pé , na beira de um penhasco, em campo aberto, cerca de 100m da construção, os tremores haviam cessado, e ao fundo estavam os escombros de sempre do que era uma cidade, antes do ataque romulano e da guerra civil camariana. Notaram outra construção ao fundo consumida em fumaça. Era uma conexão com o templo do campo de energia.

Diana deu um suspiro de alívio ao vê-los, aqueles minutos tinham parecido uma eternidade, não podia perder seus tripulantes na primeira dificuldade encontrada.

-Capitã, presumo que o campo sustentava a construção. - Melrik disse rápido.

- O campo foi desativado, Sra.

D'Angelis a olhava com alívio, sentiu um alívio maior do que imaginava, e viu que passou muito tempo, mesmo que subconscientemente preocupado com aquela mulher...

-Wirgon. - Kortan os olhou sério.

-Morto, general.- Utzar respondeu em klingon.

-Vamos.

Sarah captou, lampejos, de alívio vindos de Kortan, mas de preocupação vindos de Klegor, parecia que ele devia se reportar a alguém, e aquilo não seria fácil.

Caminharam para o setor combinada para o teletransporte e a comunicação, levaram cerca de 20 minutos, no percurso, descendo por uma ravina e seguindo pelo deserto ladeado de vegetação, uma paisagem certamente bizarra.

Todos estavam calados e os grupos se separaram instantaneamente, klingons e Federados. Sabiam agora, que com a destruição do principal campo de força energético, tinham destruído simultaneamente os outros dois geradores de força, libertando as naves no espaço. Mas pondo em risco o planeta. Ficaram intimamente aliviados, quando Camaris IV, não começou a se desintegrar, como suspeitavam a princípio.

Utzar encarou Sarah, sabendo que talvez nunca mais a visse novamente, e sorriu ao lembrar que ela lutava muito bem, mas não disse nada. Kortan se preparou com seus homens para se teletransportar, enquanto Diana e o grupo avançado se posicionavam, eqüidistantes deles.

- Foi um prazer conhecê-la, Capitã. - Kortan disse na língua usual da Federação.

- Espero que em um futuro próximo nos encontremos, em uma situação, diria, de menos desconfiança.

- Se depender de mim, certamente, general - Ela sorriu diplomaticamente.

Capítulo VIII.

NA ATLANTIS.

- Eles ativaram o escudo.

- O quê? - Joshua rosnou.

- Khya comunique-se com a Capitã.

...As 3 horas estavam se acabando, onde eles estavam, onde?...

Começou a pensar em Sarah.

- AQUI É O'CONELL.

- Capitã.

- JOSHUA, TRANSPORTE GRUPO AVANÇADO.

- Acionar.

Era um alívio ouvir aquela voz.

- Desativaram os escudos, Sr.

- Já! - Joshua quase riu, da situação dúbia dos klingons, ou de quem estava no comando, aquela altura. Quase tinham se chocado com a nave klingon, mas no último segundo aquela força externa desapareceu.

...Então ligaram os escudos, o que eles queriam mostrar com aquilo?...

Hans chegou perto dele.

- Viu, ela está bem.

- É ...a nave está bem - Joshua sorriu.

- Não...ela... - e Düff entrou no turbo elevador.

- É ...a Capitã parece ótima - Joshua o encarou sério.

- Não ela... Ela... - As portas se fecharam e Joshua não pôde dar uma resposta. Pensou com seus botões: seu médico desgraçado e sorriu para o visor.

Khya o encarou, mas abafou um risinho tirando suas conclusões lógicas.

Chayenne olhava aliviada para seu painel. - ...Foi por pouco.

Ness preparava o diário para Diana, que chegaria em breve. Enfim o serviço tinha começado. O elogio de Joshua e o olhar de assentimento da Capitã, ainda pairavam em sua memória.

MOMENTOS DEPOIS...

- CAPITÃ, - O rosto de Kortan enchia a tela e por trás dele o fiel Utzar. - OBRIGADO!

- Não há de quê - Diana respondeu, mas ninguém na ponte entendeu o que os dois queriam dizer com aqueles agradecimentos.

- ESPERO QUE OS SEUS CIENTISTAS TENHAM MAIS SUCESSO QUE WIRGON. - Ele disse na língua da federação.

- Creio que terão, general...

Ele deu mais uma olhada para ela e desligou.

- Tudo está bem, quando acaba bem... - Diana murmurou de sua poltrona. – Chayenne, manter coordenadas para setor 10.4.

- Pronto, Capitã.

- Onde está Sarah?

Diana falou irônica, olhando para Wiser. Este a encarou e deu de ombros.

- Creio que na enfermaria, Sra. - Ness lhe passou o diário de bordo.

Diana o encarou e olhou para a tela.

- Acionar!

ENQUANTO ISSO NO DECK 7.

Sarah acabava de sair da enfermaria, por insistência de Hans, ficou lá, para examinar aquelas marcas, muito bem deixadas por Utzar. Seu relatório para Diana estava cheio de respostas, e tinha um comentário bem específico sobre o comportamento do grupo avançado Klingon, naquela situação, a desconfiança de todos, a vigilância constante sobre Wirgon, a adaga de Utzar.

Eles certamente levavam algo muito interessante dentro daquela Nave. Mas talvez, elas nunca soubessem o que eles queriam esconder com tanto afinco. Utzar, um excelente guerreiro, mas com conflitos emocionais que suplantavam sua capacidade de entende-los e dominá-los. Aquele klingon carregava em sua alma um grande peso emocional.

Entrou no turbo elevador, e seus pensamentos mudaram de figura quando viu a cara do oficial cientista Melrik, que a encarou, ele a cumprimentou com um menear de cabeça que logo foi retribuído por ela, ficaram lado a lado.

-Ponte - Sarah ordenou.

- Você estava flertando com aquele klingon?

Melrik a fitou, querendo a resposta, para um procedimento ilógico da Primeira-Oficial naquela situação.

Sarah não agüentou e com um tom divertido e um sorriso nos lábios que ela sabia irritar profundamente Melrik disse: - Talvez.

NO FINAL DA MISSÃO.

Diário de Bordo:...Contatamos a Federação , será enviado um grupo de pesquisadores e pessoal especializado para estudarem a causa do ataque e destruição do planeta e a atuação do campo de força.... Cumprimos a primeira diretriz e não entramos em contato com a população local. - Desligar.

Diana pensou em todas aquelas implicações, agora o planeta fazia parte do território da Federação, o que os romulanos escondiam ali para terem que destruir a cidade comercial. E aquele campo de força, como os romulanos não tinham conhecimento dele. A Federação teria certos problemas em reativar as investigações sobre Camaris IV, alguns dos acontecimentos, com a Wisconci teriam que vir a tona, e a Inteligência não ia gostar da idéia, afinal os primeiros relatórios foram abafados, mas agora o que fariam de fato?

Diário pessoal: Sarah me relatou informações importantes, sobre o grupo avançado de Kortan, ela suspeitava sobre o verdadeiro objetivo daquela nave e, o por quê, dela estar avariada. Kortan... ele daria um excelente conselheiro, talvez ele chegue a conclusão, que sua vida como general, chegou ao fim.

SETOR 345.6, TERRITÓRIO KLINGON...

-A nave comandada pelo general Kortan já chegou, Sr.

O klingon grande e forte, com os cabelos grisalhos pela idade, assentiu com a cabeça.

- Eu falarei pessoalmente com ele.

Klang se levantou e se dirigiu a saída, a muito queria botar as mãos naquela arma, e Kortan a trazia para ele sã e salva.

Os terminais para o espaço porto estavam vazios naquele horário, rapidamente Klang chegou lá. Já esperava pela chegada de Kortan.

A nave estava ao fundo sendo monitorada por técnicos, e uma caixa grande de metal, era cuidadosamente carregada para outra nave, a nave comandada por Klang.

Kortan caminhou em sua direção com passos firmes. Os dois se cumprimentaram como guerreiros, mas não como amigos.

- O cientista?

- Está morto. - Kortan respondeu seco.

- Interessante. - Klang o olhou irônico. - Espero que não por sua mão.

- Não, certamente que não. - Kortan o encarou.

- Descobrirei como ela funciona Kortan, mesmo sabendo que você votará contra no conselho do governo Klingon.

- Não tenho dúvidas quanto a isto.

Kortan se retirou deixando Klang para trás, caminhou em passos rápidos, em direção do acesso de saída do espaço porto, em sua mão imperceptivelmente, um circuito estava sendo pouco a pouco amassado, um circuito que misteriosamente, desapareceu naquela missão.

FIM

Por: Sílvia Costa e Lorna Dannan
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