Executar ordens nem sempre é concordar com elas. Aprender a executá-las significa liberdade de ação, mas até que ponto essa liberdade se expande dentro do soldado, até que ponto o castra e o domina?
E a partir de que ponto o liberta?
Em “Nuances da Tempestade” a equipe de elite da Atlantis, após 8 anos de ações para a Dissuasão, que também deram a eles autonomia para estarem longe do domínio principal desta, começam a questionar ordens dadas para provocar o início de uma guerra com intuitos puramente políticos. Obedecer sempre foi fácil para eles, mas depois de tantas ações e tantos anos de trabalhos muitas vezes amorais, a cúpula passa a prezar a liberdade adquirida dentro da nave Atlantis e a questionar até que ponto certas ordens devem ser cumpridas, quando o único baluarte entre estas e a “vítima” escolhida são apenas os desejos e a moral daqueles que as executam.
Neste episódio os leitores de New Explorers também terão a oportunidade de se deparar mais um pouco com Jevlack e uma de suas famosas naves, a Danúbio, já citada em várias aventuras deste personagem marcante.
Agradecimentos Especiais: aos leitores que nos dão muitas alegrias.
A Roberto Kiss que gentilmente confeccionou as imagens do conto.
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Prólogo.
2.334...
Quem observasse pelo lado de fora da vigia do alojamento, perceberia apenas uma mulher com uma pequena criança no colo. Se estivesse mais próximo, perceberia a criança pulando e com uma expressão de alegria e ansiedade no rosto, traduzindo-se por ela ficar pulando e movendo a cabeça de um lado para o outro, como se procurasse algo ou apenas estivesse observando as estrelas.
Seria até uma cena comum, terna, íntima e feliz, não fosse por um detalhe extremamente significativo: a mulher e a criança eram vulcanas. E, apesar das crianças vulcanas demonstrarem emoções em sua primeira idade, a mulher adulta que a carregava também o fazia. Algo que seria digno de um “assombro” se fosse observado por um igual. Mas plenamente justificado por ela ser uma mestiça.
_ “Chegandú”, “chegandú”, “chegandú”, “chegandú”, “chegandú”, “chegandú”, “chegandú”, “chegandú” – repetia a pequena sem parar, pulando como louca no seu colo - “chegandú”, “chegandú”, “chegandú”...
Sarah apenas sorria e se preocupava mais em evitar que ela caísse – tarefa nada fácil considerando como ela se mexia – imaginando quando a energia dela – ou corda, como Düff tinha dito – acabaria. Mas sabia que isso não seria em pouco tempo. Não com uma criança que podia ficar mais de um mês desperta, dia e noite, sempre atenta, sempre disposta, sempre surpreendendo.
Ser capaz de articular palavras em tão tenra idade era algo inesperado. Não que tivesse um grande dicionário já absorvido, mas por coordenar as sílabas e a sintaxe das frases. Ela não dizia “bom” se algo era ruim, mesmo de forma indireta. Conhecia plenamente o significado e o uso das poucas palavras que articulava, e notava-se o esforço que fazia para compreender as palavras estranhas. Especialmente o tricorder.
Düff quase ficou maluco com as comparações que a pequena fazia para entender o que significava aquilo. “Tles cordas? Tles cortes?”. Ela entenderia com o tempo.
_ Sim, filhinha, – comentou ela levemente observando pela vigia a nave classe Excelsior manobrando lentamente para atracar no interior da doca – ele está chegando. Seu pai está chegando.
_ Paizão!
Sarah fechou os olhos e meneou a cabeça. Quem ensinou isso a ela? Devia ter sido Düff, decerto. Ou talvez observando Rebecca e Joshua. Teve uma vez ou outra que a filha de Benrubi chamou seu pai assim diante de Fiona.
Da última vez em que se viram, ela apenas murmurava coisas, mas já se fazia entender apontando para os objetos e indicando o que queria. E o objeto que ela sempre desejava mais era o próprio pai. Que surpresa ele se dar tão bem com crianças, ainda mais uma tão pequena. Levou-a a um pequeno parque da estação de Plutão uma vez, com pássaros e pequenos animais devidamente ambientados ali. Fiona adorou brincar com os pequenos animais. Quase que pensou mesmo em arrumar um pequeno animal de estimação para ela, mas mudou rapidamente de idéia. Transformar seu alojamento em um pequeno zoológico não estava em seus planos, e se já era difícil famílias se adaptarem a naves espaciais, o que dizer de animais? Talvez, quando Fiona fosse mais velha e ainda tivesse interesse, poderia ter um felino de Vulcan. Este animal em particular sabe se cuidar maravilhosamente bem, requerendo pouca manutenção. Além do mais, Sarah acreditava ser um dos poucos animais domésticos que agüentariam bem a força amorosa de sua filha.
_ Paizão, paizão, paizão!!!! – ela agitou-se mais ainda, estendendo os pequenos braços para frente em direção a vigia, como se quisesse tocar na nave espacial que atracava. Como ela sabia que era nessa nave que ele estava? Poderia sentir a mente dele como ela o sentia?
Um blip soou dentro do alojamento e ela começou a caminhar lentamente em direção ao monitor de uma das paredes. Ainda segurava a pequena Fiona que esticava os braços em sua inútil – e adorável – tentativa de pegar a nave espacial do lado de fora. Ela nem se incomodou em perguntar quem era e qual a natureza do chamado, simplesmente recebendo a ligação.
_ OLÁ, MEUS AMORES, – disse a figura de olhos vermelhos na tela com um sorriso – CHEGUEI.
_ Paizão!!! - A menina que ainda estava observando a vigia subitamente olhou para trás em direção ao monitor e abriu um largo sorriso de alegria, direcionando as mãos nesta direção e tentando abraçar a imagem.
_ “PAIZÃO?” – repetiu ele divertido, olhando com ternura para a menina.
_ Deve ser coisa de Düff. Janus... sem querer apressá-lo muito, pois sei que ainda precisa resolver alguns protocolos antes de sair de sua nave, você...
_ ESTOU COM VOCÊS EM VINTE MINUTOS. SEGUREM O BOLO!
_ Paizão, paizão! – a pequena espalmava as mãos no monitor causando ondas circulares no cristal líquido deste, distorcendo levemente a imagem apresentada.
_ Pode ser em quinze?
_ VOU TENTAR – ele sorriu largamente para a pequena. – SÓ ME ESPERE UM POUQUINHO, FIONA, SÓ UM POUQUINHO. – E voltou seu sorriso para a vulcana. – E VOCÊ TAMBÉM, MOÇA.
O monitor se apagou e uma súbita frustração surgiu no rosto da menina. Mas logo se desfez quando ela se voltou para a mãe e abraçou o seu pescoço, aconchegando seu rosto junto ao seu. Estava agora serena e satisfeita. Talvez consciente de que o objeto de sua ansiedade breve estaria com ela.
Por mais que ela soubesse de que forma tudo aquilo se tornou possível, ainda considerava algo como que “divino”. Ela era híbrida de duas espécies diferentes, portanto estéril, incapaz de ter filhos. No entanto, de alguma forma aquela esfera foi capaz de manusear suas células para que se tornassem células reprodutoras. Mesmo agora, eram claras as lembranças de quando estava na enfermaria e Düff refazia umas dez vezes os exames para determinar a causa de seus enjôos. Chegou a pedir para sua auxiliar refazer tudo para ter certeza de que não estava ficando senil. Finalmente, quando sua paciência se esgotou e exigiu que dissessem pelo menos qual a suspeita do diagnóstico, ele apenas a olhou e disse “Bom... você tem, ou melhor, vai ter uma menina.”
Grávida... uma gestação plenamente normal e absolutamente nada para ser classificado como “estranho” por ninguém, exceto talvez um comentário ou outro sobre ter escolhido a hora errada e não ter se precavido melhor. Mas quem sabia da impossibilidade daquilo não podia deixar de ficar assombrado.
Sua mãe ficara. Assombrada, pasma, completamente confusa e, talvez pela primeira vez em muito tempo, impotente diante dos fatos.
Mas de todas as reações “inesperadas” dela, a maior e suprema de todas foi ter meramente acatado com a sua determinação em criar a criança como uma humana comum, deixando-a decidir o que fazer com o seu destino. Na verdade, chegou mesmo a recriminar Sdeck por ele ter questionado se a escolha dela era acertada.
Fascinante!
“As pessoas podem ser muitas coisas” – tinha dito Janus. Realmente... mesmo com ele e Yonah praticamente divergindo sobre tudo, pareciam concordar “amavelmente” quando o assunto era Fiona.
Às vezes, ela sentia vontade de perguntar o por quê.
****
Os dedos se aproximavam sorrateiros de seu alvo, hesitando nos momentos em que Diana se movia de um lado a outro na cozinha. Houve vários momentos em que ela se virou para pegar algo e os dedos rapidamente retornavam para o colo de quem pertenciam. Mas era só ela virar as costas novamente que estes dedos mais uma vez se aproximavam sorrateiros, visando um prêmio deveras cobiçado. Algo tão antigo quanto a própria queda da Bastilha francesa.
_ Se tocar na cobertura do bolo, eu não respondo por meus atos! – disse Diana de costas para ele.
Como uma criança solitária e temerosa, ele balançou os lábios e afastou a mão lentamente. Que coisa injusta!
_ Mas, capitã...! Eu...
_ Sem conversa! – ela se virou e mostrou o dedo em riste para ele, como se repreendendo uma criança que tivesse feito uma arte. – Só vai tocar no bolo quando minha afilhada assoprar a velinha, nem um momento antes. Já esperou um ano por isso, Joshua, pode esperar mais um pouco.
_ E porque Rebecca pode provar? – ele se vira para ver a filha enfiando o dedo em um copo com um pouco de cobertura e o levando para a boca, deliciando-se com aquilo.
_ Porque ela me ajudou a fazer o bolo. E você só ficou dando palpites. E todos errados!
_ Ora... – novamente ele olhou para Rebecca, mas desistiu de pedir um pouco para ela. Na verdade, ele não ficaria tão curioso se não fosse a cor verde esmeralda da cobertura. - Ela já tem um ano.... puxa vida... – Joshua se sentou em uma das cadeiras e meneou a cabeça levemente de um lado para o outro – estou ficando velho... e nem percebo o tempo passando.
Um ano... que coisa absurda aquela! Praticamente no mesmo dia em que Sarah o tinha chutado, ela ficou grávida de Jevlack. Foi tão rápido na verdade que ele decidiu conversar com ela para saber se ela tinha certeza de quem era o pai.
Curioso que ela não se sentiu ofendida, e até o deixou acompanhar a coleta e os testes do DNA do feto. Talvez para deixá-lo plenamente tranqüilo e consciente do fato. Mas ele apostava que era para dar um ponto final em suas idéias emotivas.
_ Rebecca veio para a nave e era apenas uma criança, uma menininha. E olhe para ela: – Diana fez uma careta ao vê-la com o dedo na boca e os seus lábios lambuzados com a cobertura de creme de abacate esverdeada – agora é uma bela jovem pré-adolescente agindo como uma menininha de sete anos – ela pôs as mãos na cintura e encarou-a com um olhar de chacota.
_ Tá “gotoso”, tia!!! – Exclamou Rebecca imitando uma voz mais fina e mais infantil, o que arrancou uma leve risada da capitã.
_ Desisto. Pode passar o dedo, Joshua.
_ OBA!!! – Joshua se levantou e já ia avançando para o bolo, quando Diana o cortou.
_ Mas se deixar marcas, você vai ter que pôr Fiona para dormir esta noite.
_ Ela só vai dormir daqui há uns oito dias... – retrucou ele, espantado.
_ Boa sorte.
_ Acho que vou esperar como todo mundo.
Ele se sentou novamente e Diana foi para a o cesto de frutos para selecionar as laranjas para o suco. Incrível como sua afilhada adorava sucos de laranja e maracujá. Comia qualquer coisa que fosse natural, e quanto mais “in natura”, mais ela apreciava. Claro que tinha um fraco bem normal – pelo menos, ela tinha que ter algo normal de uma criança – por doces. Especialmente pirulitos. Hans a estragava com aquilo, mas agora estava pagando o preço por sua indiscriminada mania de ser o bonzinho para com pirralhos. Fiona descobriu onde ele guardava os pirulitos e sempre, sempre conseguia chegar neles e pegá-los. Não importava como os escondia, ela os achava. Talvez tivesse um faro mais apurado que o normal. A única saída no momento era simplesmente não guardar os pirulitos no mesmo quarto em que a menina estava.
_ Porque ela não dorme toda noite como a gente? – perguntou Rebecca terminando de lamber o dedo.
_ Porque ela é diferente, filha – respondeu Joshua a olhando. Diana por sua vez estranhou ela demorar tanto para fazer aquela pergunta. – Você conheceu outras crianças diferentes, não?
_ Não tanto como ela, – murmurou a menina – mas eu gosto dela assim.
E como Rebecca gostava de Fiona. Chegava a cuidar dela às vezes, como se fosse uma irmãzinha. E Fiona parecia adorar Rebecca também. Talvez, como Sarah tenha lhe confidenciado, elas se atraíssem pelas suas capacidades mentais. Talvez até “conversassem” assim, sem que os outros soubessem.
_ Decidiu o que vai dar de presente para ela? – perguntou Joshua olhando para a cara lambuzada dela e não acreditando no que ela estava fazendo.
_ Sim. Vou dar aquele jogo de holoesculturas. Ela adora jogos de montar.
_ Mudando de assunto, e a senhora, capitã? – Joshua a olhava meio de lado.
_ Eu o quê?
_ Nunca pensou em ter filhos?
_ Eu?! – Diana o olhou assustada. – Mas o que pensa que está insinuando?
_ Bem... se até uma pessoa como Sarah, que literalmente vivia para o trabalho, pode ser mãe, acho que tudo é possível.
_ Eu... segurando um bebê e dando de mamar a ele? Trocando fraudas, acordando assustada a noite porque ele ficou com febre... está brincando, não é?
_ Eu também pensava assim até Rebecca nascer... – ele olhou ternamente para a filha. – Ora, ora... – ele tinha desviado o olhar para a vigia do aposento. – Parece que o convidado especial acabou chegando. E no horário!
Diana seguiu os olhos dele até a vigia e observou a nave atracando no interior da doca. Jevlack novamente conseguira chegar até a filha. Considerava aquilo uma dedicação quase... insana. Ele tinha seu trabalho, sua carreira, suas responsabilidades... e aquela nave era muito bem requisitada para trabalhos de pesquisas dentro do espaço da Federação.
_ Ainda sente... irritação por ele?
_ Não – Joshua desviou os olhos para o piso. – Ele chegou muito antes de mim... quinze anos antes, para ser mais exato. Não posso reclamar... não tenho direito a isto.
_ Tem todo o direito de se sentir ultrajado por ela não ter te comentado nada.
_ Se eu quisesse um relacionamento mais profundo, ela teria comentado. Mas eu não quis... da próxima vez vou ler o contrato integralmente antes – terminou ele sorrindo.
Mas Diana sabia que ainda havia dor nele. Muita dor. Mas atualmente era mais devido a sua impotência em tentar conviver com os fatos. Ele simplesmente perdeu a mulher que amava e nunca teve uma chance real de lutar por ela. Era isso que realmente doía nele.
Ele nunca teve a mínima chance.
_ Bom, acho que é hora de levar o bolo e os convidados. D´Angelis! – disse ela tocando no seu comunicador.
_ SIM, CAPITÃ?
_ Nós já estamos saindo.
_ ENTENDIDO, CAPITÃ. NOSSO HORÁRIO DE PARTIDA É ÀS DOZE HORAS DE AMANHÃ. E... CAPITÃ....
_ Sim?
_ PODE GUARDAR UM PEDAÇO DO BOLO?
_ Fique na fila – disse ela sorrindo. – Até mais tarde. Bom, senhorita Benrubi, pode lavar esta cara e me ajudar pegando a travessa antigravidade. Vamos levar essa delícia para o seu destino. Joshua... avise Melrik, sim?
_ Preciso? – ele olhou interrogativamente para ela. – Vocês dois não.. hã... quer dizer...
_ Precisa! Ele está meditando, lembra? E ele vai ficar muito... hum... como direi? “Desapontado” se não o chamarmos.
_ Certo... estou indo. Em que local Sarah está mesmo?
_ Nível duzentos e sete, ala trinta, – respondeu Rebecca – aposento noventa e dois.
_ Certo... que memória!
****
Pelo menos umas trinta mil pessoas da doca espacial viram a USS Thunderbold atracar no interior da doca, destas, um insignificante número realmente se interessou pelo evento, e destes, apenas três pessoas sabiam do detalhe de que um dos tripulantes desta nave iria sair para se encontrar com a Imediato da USS Atlantis, que estava ali para uma revisão de rotina e nova carga de suprimentos diversos. Na verdade, uma desculpa um tanto esfarrapada para permitir aquele encontro. No entanto, não haviam muitas missões pendentes para eles, salvo as de exploração.
Entre estas pessoas estavam Sarah McKenna em um alojamento alugado na doca, Joshua Benrubi na cozinha da Atlantis e Gina Stuart, sentada em uma das mesas de um dos muitos restaurantes panorâmicos da estação com uma grande vista para o interior desta.
_ Ficou muito quieta de repente, Gina.
Ela pegou o seu copo e bebeu mais um pouco antes de prestar atenção ao seu contato ali na doca. Sempre havia um aonde quer que a Atlantis aportasse. Se fosse em uma estação ou doca da Federação, podia contar que haveria alguém ali para recebê-la ou conversar com ela.
Mas não era porque sua missão era de extrema importância, era apenas praxe. Esses contatos conversavam com qualquer um que como ela estivesse no cargo de espionar pessoas.
Este até que era atraente, mas era um chato como todos os outros. Não perdeu tempo quando ela se sentou e fez o seu pedido para se juntar a mesma dizendo as palavras que indicavam o que ele pretendia. Aquela senha ridícula que ela chegava a imaginar que a imediato da Atlantis teria inventado: “Doutora, acho que estou com dor de cabeça...”
_ Só observando as naves... aquela ali – ela apontou para a nave classe Excelsior aportando – sabe quem é o capitão dela?
_ Um vulcano. Seu nome é Stek. Por que pergunta?
_ Curiosidade apenas... anda bem informado...
_ Esta nave quase sempre aporta aqui – ele sorriu levemente. – Muita gente da estação a conhece. Gina... desde que me apresentei você não disse nada, nem mesmo que não tinha nada a relatar...
_ E o que vou relatar? Vocês já receberam meu último relatório de duas semanas atrás. Não há novidades. Aquelas pessoas não permitem que eu me aproxime...
_ Verdade – agora foi ele quem pegou o copo e o bebeu. – Já considerou a alternativa?
_ Alternativa? Que alternativa?
_ Minha cara... você é uma das poucas que estão avaliando e determinando como uma nave de exploração pode vir a conter civis para melhorar sua eficiência em território inexplorado. Literalmente está escrevendo o manual das futuras pessoas que irão ocupar este cargo nas naves. Apesar de ter sido enviada a Atlantis para... “observar” determinadas pessoas, esta não é a sua missão principal, mas sim a secundária.
Ela pousou o copo lentamente na mesa e o observou atônita. Missão secundária?
_ Aonde quer chegar?
_ Simples... está desperdiçando tempo que seria melhor empregado em firmar sua carreira como conselheira. Aliás, como uma das precursoras desta profissão.
_ Está dizendo que o Departamento não tinha o menor interesse no que eu pudesse descobrir?
_ Não, claro que não. O Departamento apenas queria você na nave para informar, talvez – ele frisou bem aquela palavra – dados gerais sobre estas pessoas que poderiam ou não ser úteis. Da mesma forma que certos assessores de senadores ou até mesmo simples engenheiros sanitários colocados em locais importantes em determinadas capitais. Entenda, seu trabalho é de coleta, não de triagem. Não foi enviada como espiã ou agente duplo, apenas e tão somente alguém plantada em uma posição deveras privilegiada em uma nave estelar.
_ Ora... isso... isso é...
_ Um ultraje? Uma ofensa as suas capacidades? – ele sorriu divertido. – Não encare assim. Apenas tire o melhor proveito do local em que se encontra. Você é uma das poucas que pode simplesmente cair fora do Departamento sem muitas seqüelas, pois a rigor não sabe nada que realmente possa nos comprometer. Sua incapacidade e persistência em conseguir dados de espionagem dos oficiais da Atlantis só está corroborando para que seja cada vez mais vista como um ponto perdido na coleta de dados. Tudo o que envia já é visto com desconfiança, pois eles talvez já saibam quem você é e o que está fazendo naquela nave. Assim, qualquer informação que obtenha será duvidosa em sua veracidade.
_ Está dizendo que eu posso simplesmente pedir demissão? – ela o olhou com uma profunda desilusão nos olhos.
_ Sim, – respondeu ele simplesmente – me instruíram a lhe dizer exatamente isso. Você tentou agir de uma forma para a qual não foi treinada e nem ao menos esperada de sua parte, e terminou por estragar com seu disfarce. Lamento – ele se levantou e olhou de forma simpática para ela. – Sei que é duro, mas já era hora de ser avisada sobre isso. O Departamento achou mesmo que poderia obter algo útil de você, mas agora já é certeza de que isto não será assim esperado.
_ E se eu falar que o pai da filha de Sarah McKenna não é Joshua Benrubi?
Ele parou de se afastar por alguns instantes e a observou com curiosidade.
_ E porque esta informação seria útil?
_ Diga isso aos seus superiores. Talvez achem interessante.
_ E quem seria o pai dela?
Ela se virou para a grande janela e observou a nave aportada ali.
_ O Imediato daquela nave – ela se levantou deixando o copo pela metade na mesa. – Diga isso a eles, e talvez os mesmos fiquem interessados que eu acompanhe o que puder do desenvolvimento da menina.
Ele franziu o cenho e dobrou a cabeça. Obviamente aquela informação não tinha muito sentido para ele. Mas ela sabia que alguém no Departamento iria ficar interessado. Principalmente depois de certos eventos que ocorreram na Atlantis não terem sido registrados no seu diário de bordo, muito menos no diário da outra nave que a acompanhava então.
Além disso, havia o detalhe de que quando resolveu pesquisar sobre Jevlack por pura curiosidade, deparou-se com um grande e inesperado aviso de dados classificados Alfa-1.
A mais alta classificação de segurança do Departamento.
E o interesse que o Departamento teve naquela missão de pesquisas foi enorme! Sempre envolvendo Jevlack e Sarah. Ela nunca fez tantos relatórios sobre um mesmo assunto antes, nem teve que responder tantas perguntas para as quais não imaginava o porque lhe perguntarem. Alguém estava muito interessado naqueles dois. Mas tudo terminou poucas semanas depois. Parecia que ficaram satisfeitos.
Isso, claro, até Sarah aparecer grávida.
Novamente ela foi interpelada sobre aquilo, mas quando ela disse que Joshua tinha tido muitas relações com Sarah na época em que a criança provavelmente foi concebida, ficaram novamente quietos.
Na verdade, pareciam desiludidos.
Ela também não se incomodou com o assunto, até um mês antes, quando ela foi avaliar a mais nova civil da nave, sobre como crescer em uma nave de exploração podia afetar o comportamento de um bebê. Sarah ficou o tempo todo do lado dela, observando-a analisar a saudável e adorável criança. Pronta para pular no seu pescoço e quebrá-lo se ela fizesse algo inesperado.
Uma criança que não podia ser “normal” pelos padrões vulcanos. Curiosa, ela aproveitou uma brincadeira de esfregar uma tolha na criança para coletar fragmentos de sua pele que ficaram no pano e depois analisou estes fragmentos em um laboratório filiado ao Departamento na última parada da Atlantis.
O resultado foi de estarrecer!
Não havia nada de muito inesperado no código genético, mas o estudo de suas mitocôndrias... Segundo o pesquisador que conduziu os testes, eram baterias vivas! A criança tinha células que podia gerar energia!
Não foi difícil imaginar quem poderia ser o verdadeiro pai da criança depois disto. Difícil mesmo foi enganar o pesquisador sobre a origem daquela amostra.
_ Direi isto. Mas sugiro que pense no que eu lhe disse, está bem?
Ele se afastou sem esperar resposta. Gina realmente jogou alto desta vez, muito mais por ultraje e afronta pelo Departamento estar decidindo que ela era uma carta fora do baralho e que devia pensar a respeito do assunto. Para ela, não fazia diferença dedicar sua vida ao Departamento. Chegou mesmo a pensar em largar tudo e fazer sua carreira como conselheira – até que era interessante – mas não podia admitir que eles a venceram.
Sim, se ela acatasse isso sem lutar, sem espernear, seria como admitir que a cúpula tivesse vencido, a tivessem derrotado pelo cansaço.
Ela e aquela maldita Atlantis.
Só que ela ainda podia jogar. Não era mais por uma missão ou por ser empregada da Dissuasão.
Era pessoal.
Ela queria ter a satisfação de ganhar de Sarah McKenna, apesar de todas as restrições que ela lhe impôs.
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Françoise acabara de embarcar as encomendas especiais da Atlantis em uma de suas naves auxiliares, que voltara a nave com lotação máxima.
Os caixotes mais esperados pela Primeira-Oficial e seus amigos estavam devidamente etiquetados como “suprimentos médicos”, o que era uma tradição cínica para designar bebidas alcoólicas sem sintetol. Desta vez eles haviam conseguido conhaque sauriano e licor klingon, que andara meio em falta.
Thierry Françoise gostava daquela doca espacial, no limite entre os setores que faziam fronteira com as zonas neutras romulana e klingon. Era uma das mais modernas e maiores, com muita gente circulando e morando, muitos locais de diversão garantida como bares, teatros, shoppings, parques temáticos, alguns salões virtuais – não, não havia holodecks como o do Atlantis, onde a interatividade com um ambiente mutável era total, mas davam para o gasto com cenários pré-estabelecidos. Também haviam restaurantes que serviam comida de toda a galáxia.
Um grupo de mulheres civis passou por ele rindo, com roupas de banho, em direção ao parque aquático. Uma delas o olhou e sorriu e ele retribuiu, tendo uma vontade repentina de fazer um gracejo e acompanhá-las.
Bem, sabia onde elas estariam, por isso se empenhou em sua segunda e também agradável missão – esta pessoal – de levar seu presentinho para a linda Fiona. Suas próprias encomendas - verduras e frutas frescas – também haviam sido conseguidas e embarcadas. Algumas haviam sido mais caras que as bebidas. Claro, várias delas tinham vindo da Terra, a maior parte delas para a dieta da pequena Fiona, pagos sem pestanejar com os créditos da mãe da pequena. Em três horas, pelo menos era o que lhe haviam prometido, chegaria outro carregamento, este com iguarias diversas para a sua cozinha, além de terra e sementes que encomendara para a sua “horta”, que ganhara mais 5 m² por obra do remanejamento que Jordan fizera a pedido de Diana. Roger se empolgara com a idéia e agora eles planejavam plantar – ou tentar – árvores frutíferas.
Thierry sorriu consigo mesmo. Aquela pequena criança havia encantado e conquistado os oficiais comandantes, e muitos outros como ele, de forma irrestrita dentro daquela nave. McKenna tivera uma gravidez excelente, tranqüila, equilibrada e saudável. O cozinheiro, que também era botânico, mudou o enorme pacote de braço e entrou num dos turboelevadores, dentre os vários que se enfileiravam a sua frente.
A Imediato tivera os tradicionais enjôos do primeiro mês e os desejos do terceiro. O mais engraçado para ele, sem dúvida, fôra o de comer chocolate. E McKenna detestava chocolate puro, coisa que depois de nascida, eles haviam constatado que Fiona adorava.
Aproximou-se do display da parede próxima a saída do elevador e conferiu o endereço.
_ THIERRY?
Françoise teve que arriar o pacote volumoso para tocar o comunicador.
_ Na escuta. Então, mon cher?
_ RECEBEMOS AS ENCOMENDAS E JÁ COLOCAMOS AS SUAS VERDURAS E FRUTAS NA COZINHA.
_ Très bien! Estou a caminho da festa, mas só subo depois que embarcar o outro carregamento, previsto para daqui a três horas. – Ele seguia pelo corredor largo e curvo, procurando o número do alojamento onde seria o encontro. – Depois do bolo com certeza vou completar com uma boa taça de conhaque sauriano. Hoje a reunião é sua, não, mon commandant?
_ POSITIVO. VOU AGUARDA-LOS, AFINAL AINDA TENHO ESPERANÇA DE GANHAR UMA FATIA! – E D’Angelis riu. – ATLANTIS DESLIGA.
Françoise riu e parou na frente da porta que procurava.
****
Diana observou Françoise entrar com o pacote seguro no braço. Pensou inicialmente em ajudá-lo, mas com certeza algum dos homens no recinto iria se prontificar a tanto.
E se não o fizessem, ela cuidaria de uma reprimenda mais tarde...
_ Até que enfim! – disse Joshua vendo o seu cozinheiro favorito entrar no alojamento. Foi até ele e pegou o pacote com um sorriso. – Pensei que ia ter que ir a algum bar daqui para conseguir uma bebida de gente.
_ Mon ami... – Thierry sorriu com complacência, pois todos estavam muito felizes com o carregamento vindo de Sauria – a distinta homenageada desta festa não possui idade para ingerir tais coisas. Devemos respeitá-la e beber o mesmo que ela... e... onde ela está? – Françoise olhava de um lado para o outro da sala. O bolo estava ali, bem como uma pequena pilha de presentes. Os convidados esperados, com exceção de D´Angelis que perdera na aposta para ver quem iria comandar a nave durante a festa, estavam todos no local, conversando frivolidades e ocasionalmente bebendo um dos sucos que a capitã trouxera. Havia também algumas crianças, as poucas que conseguiam se relacionar com Fiona durante seu ainda curto e rico período de vida, sendo a mais velha Rebecca, quem parecia comandar aquele séqüito de traquinas.
_ Ela está brincando com o pai – disse Rebecca desviando a atenção dos amigos por um instante para lhe responder. Logo depois, voltou ao jogo holográfico de conquista galáctica.
Crianças... antes não tinha paciência com elas. Ou melhor, não queria ter paciência com elas. Tinha uma vida dura, difícil e com muitas complicações para se preocupar com isso.
Rebecca mudou isso um pouco. Não muito, pois ela mesma cuidou de ser um pouco mais adulta do que deveria para isso. Talvez para ajudar seu pai com Sarah...
Mas foi Jevlack quem mostrou que se relacionar com crianças era fácil. O problema era que ela pensava que tinha que trazer a criança para o seu mundo de regras e restrições, mas ele fez o oposto. Ele entrava no mundo das crianças e se relacionava com elas assim.
E até que era fácil! Era só não ter vergonha de agir de uma forma... infantil... Coisa difícil para ela. Mas foi fácil quando Fiona nasceu. E ela mesma não acreditou quando disse a Sarah que se não a deixasse ser madrinha, a levaria a uma corte marcial.
Não sabia o que a deixou mais divertida... a cara de susto dela ou a sua risada logo depois.
A porta se abriu e um alto homem de olhos vermelhos com uma linda menina vulcana nas costas entrou. Ela estava de braços abertos e parecia imitar uma ave. Sarah entrou logo depois, segurando a mão dele.
_ Ok, acabou a festa. Quer dizer... – ele fez uma cara de bobo – ela vai começar.
Em um movimento brusco, ele girou a cabeça e Fiona desabou ao chão, sendo contida pelas mãos ágeis de sua mãe. A pequena riu muito com aquilo e parecia feliz, não demonstrando medo em nenhum instante, ao contrário da madrinha, que quase teve um infarto.
Sarah pôs a pequena no chão e, andando com certa graça, ela foi direto para Rebecca e seus amigos para dar um abraço nesta.
Uma criança de um ano brincando com outras bem mais velhas... que estranho. Evidentemente, Fiona era uma “mascote” daquele grupo. O único bebê crescendo naquela nave “cidade” espacial, pensava Diana observando sua afilhada sorrindo de forma linda e adorável. Hum... filhos... quem sabe? Melrik ia ter de entrar no Pon Farr mais cedo ou mais tarde, daí...
Mas o que ela estava pensando?!
Era uma capitã de uma nave espacial! Fazia o que adorava. Ponto final. Não iria pensar em uma família agora. Mas podia aproveitar para observar as dificuldades de Sarah e se preparar para se um dia mudasse de idéia...
Crianças nascendo em naves espaciais... Que coisa!
Pelo que soube, a Dissuasão detestou isso. Ficou bem interessada na criança, mas quando perceberam a estranha atenção que esta chamou, foi como se algo começasse a barrar esta. As últimas missões foram basicamente de acompanhamento de situações diversas. Nada das missões sujas e até pouco morais de antes.
Alguma coisa começou a fazê-los evitarem usar a Atlantis para missões assim um pouco depois de Fiona nascer. Teria sido Yonah? Não sabia. Talvez fosse apenas uma coincidência.
_ Bom, podemos comer o bolo agora? – disse Joshua esfregando as mãos. - O que foi?! – ele os olhou estranhando suas reações. – Eu estou com fome, oras...
_ Senhor Benrubi, – Sarah estava incrivelmente vulcana naquele momento – onde está o presente de minha filha?
_ Está sendo muito interesseira, sabia? É assim que vai fazê-la crescer? Com essa idéia de que temos que dar algo?
_ Se quer um pedaço do bolo, – ela cruzou as mãos e o observou sorrindo – pague por ele.
_ Ora... – ele fingiu ficar insultado, mas sorriu logo em seguida retirando uma pequena caixinha de seu bolso. – Aqui está. Cadê o bolo?
_ E Sarah que é interesseira... – disse Diana meneando a cabeça. – Mas tem razão, Joshua. Não podemos fazer esta festa muito tarde, pois as crianças precisam dormir cedo.
_ Aham! – fez Joshua olhando-a de lado.
_ Essas três precisam – ela apontou para as outras crianças brincando com Fiona. – E então? Não está com fome?
_ Claro que sim!
_ Ótimo! Rebecca, meu bem, pode ir pegar o bolo?
Quatro crianças gritaram de alegria ao ouvir aquele pedido. Imediatamente todas se levantaram e foram correndo para o outro cômodo. Fiona tentou, mas não foi capaz de ir com elas. Ela foi pega por Hans que lhe disse que a aniversariante deveria esperar ali.
Mesmo protestando, ela acatou. Hans a segurou no colo e a mesma o abraçou no pescoço, o apertando com uma força fora do comum para uma criança daquela idade.
_ Ai, ai! Vai me enforcar, docinho...!
_ Ela é bem fortinha, Düff, – disse Jevlack com a mão na cintura de Sarah – melhor tomar um pouco de cuidado.
_ Eu sei que ela é forte. Pelo menos não é tão forte quanto você ainda – ele a afasta e a observa, segurando-a apenas por baixo dos ombros e sorrindo levemente. – Ainda bem, ou eu teria de ser um engenheiro, não um médico para cuidar da saúde dela – e ele avança com o rosto em direção a barriga da menina, assoprando esta e fazendo um barulho como se fosse uma bexiga se esvaziando. O aposento se preenchia com as risadas de Fiona.
_ Olha o bolo! – disse Rebecca entrando na sala e empurrando o bolo, o lindo e verdejante bolo que flutuava sobre a bandeja antigravidade.
_ Verde? – murmurou Jevlack fazendo uma careta.
_ Não gosta de verde?
_ Não sou palmeirense...
_ Não é o quê? – quis saber Françoise.
_ Deixa para lá... – ele meneou a cabeça e riu um pouco – não tem como te explicar.
****
_ Essa daí vai ser a pior de todas! – disse o sargento gritando por cima do barulho do vento, enquanto esperava que a porta de segurança se abrisse. Mesmo com o traje de proteção, seria suicídio ficar fora do abrigo durante aquela tempestade.
Na verdade, era suicídio permanecer fora do abrigo durante a mudança de estação do planeta. Por ter uma inclinação em seu eixo muito acentuada, o clima do planeta - normalmente razoavelmente ameno para incursões externas e até mesmo para se pensar em fazer uma colônia - tinha extremos absurdos. Ventos ciclônicos varriam sua superfície nessas ocasiões, chegando a atingir marcas superiores aos quinhentos quilômetros por hora. Montanhas de pedra e areia chegavam a ser carregadas por tais ventanias que duravam semanas, de sorte que a cartografia de muitas regiões tinha de ser refeita a cada seis meses.
Finalmente a porta se abre, e os dois oficiais entram por esta como se o diabo estivesse atrás deles.
E, de uma certa forma, pode-se dizer que estava.
_ Este planeta faz mesmo jus ao seu nome... – comentou a cientista tirando o capacete e movendo a cabeça, para libertar seus cabelos do confinamento a que foram submetidos.
_ Todos os planetas desta estrela fazem jus ao nome – murmurou o sargento também começando a retirar o traje protetor e indo na direção de um painel de comunicações situado na parede do abrigo. – Base! – chamou ele assim que acionou o painel – aqui é o sargento Anders. Eu e a doutora Alberta estamos no abrigo... – ele olha para a porta selada para ver o número impresso nela – sete. Podem nos enviar um resgate?
Ele encostou a mão na parede e respirou pesadamente por alguns instantes. Desta vez a tempestade tinha ficado mais forte muito mais cedo do que das outras vezes. Se não enviassem um resgate logo, ficariam presos ali por vários dias.
Da última vez, ele ficou em um abrigo por quase dois meses!
_ IMPOSSÍVEL, SENHOR! O RESGATE JÁ FOI ENVIADO PARA AUXILIAR A EQUIPE TRÊS. PELOS DADOS DO SATÉLITE, A TEMPESTADE NA SUA ÁREA JÁ ESTÁ ALÉM DO TOLERÁVEL PARA UMA VIAGEM SEGURA DE RESGATE.
_ Bem... férias forçadas novamente... - a jovem cientista sorri cinicamente e olha para o piso – Mephisto 7 nos encurralou novamente. Vou ver as provisões daqui.
Ela seguiu para a porta adjunta da pequena antecâmara em que se encontravam e já foi soltando o resto do traje pelo caminho. Pelo menos desta vez, a companhia era bonita, agradável e sabia como se divertir...
_ Entendido, base. Vamos checar as provisões aqui e depois daremos mais informações. Anders desliga.
Ele seguiu o mesmo caminho da tenente, mas foi um pouco mais zeloso com o seu traje. Colocou o capacete no suporte correto na parede e também todo o resto do equipamento ali. Quando entrou pela porta de acesso as dependências sociais do abrigo, estava vestindo a sua roupa normal da expedição enviada até ali para, “oficialmente” estudar os eventos climáticos que ocorriam naquele planeta de classe L.
Isso era algo muito necessário para se elaborar uma forma de se instalar uma base de extração de minérios ali. O veio de gauxita encontrado ali poderia abastecer a Federação por várias décadas.
Claro que havia um problema técnico que nada tinha a ver com o planeta, e muito menos com o sistema Mephisto...
Os venizianos...
Qualquer um que pudesse pensar um pouco, perceberia como era uma idiotice sequer cogitar se montar uma usina de extração ali. Estavam fora do território da Federação e praticamente na porta de entrada do império veniziano. Ainda que fosse uma usina totalmente robotizada, mais cedo ou mais tarde eles a encontrariam e a destruiriam, ou até mesmo a tomariam para si. Seria preciso antes dar um jeito para que eles fossem desestimulados de meterem o nariz por ali. E era justamente isso que eles realmente estavam fazendo.
Encobertos com o disfarce de expedição científica – não chegava a ser um disfarce pois era mesmo uma expedição assim, embora o objetivo real fosse outro – eles estavam estudando uma forma de poder acrescentar uma nova e ameaçadora arma no arsenal federado. Uma arma que cuidaria de deixar a futura usina de extração a ser instalada ali bem segura dos tentáculos dos venizianos.
Quando ele atravessou a porta, vislumbrou a área social do abrigo de tempestades. Na verdade, ele não era destinado a ser isso. Era para ser um dos muitos postos de pesquisa mais avançados – casamatas para se proteger durante testes de armas – mas também eram excelentes abrigos para as tempestades furiosas que assolavam a planeta de quando em quando.
Como o próprio abrigo, a sala era circular. Acompanhando a curvatura da parede, haviam várias estantes com mantimentos não perecíveis – para o caso do sintetizador apresentar defeito ou terem pouca energia no abrigo – o bastante para durar duas semanas em uma extremada emergência.
E pensar que a visita anual de uma nave da Frota tinha ocorrido havia poucos dias... Se a nave ainda estivesse ali, poderiam teleportá-los a salvo para a base.
Bem, como a doutora em quimioterapia disse, estavam de férias forçadas. Mas bem que ela podia ser um pouco mais prendada. Tinha largado as peças de seu traje de proteção pelo caminho. Ali estavam a botas, embaixo da mesa de plexiglass estava o colar de união do capacete, o corpo principal do traje estava largado no sofá, a camisa dela estava perto deste...
Camisa dela?
Ele ergueu os olhos e olhou ao redor, procurando por sua colega de expedição. Encontrou-a estirada no outro sofá, com as pernas para cima e com um drink na sua mão. A luz de simulação solar a banhava com força, como se estivesse em uma praia. E a mesma estava apenas de calcinha.
_ Doutora?
_ Divirta-se, sargento, – ela sorriu de forma lasciva para ele enquanto acariciava os próprios seios – estamos presos aqui por no mínimo, uma semana. É a melhor coisa que nos acontece desde que a Dissuasão nos mandou para este purgatório. Pegue uma bebida, tire a roupa e vamos passar o tempo – ela ergueu o copo no sentido de ofertar um drinque para ele – e não precisa ser necessariamente nesta ordem...
O sargento apenas sorriu divertido e perdeu alguns segundos para determinar o que iria fazer primeiro.
****
Diana e Düff aguardavam na porta a pequena se despedir. A festa fora mais animada do que o esperado, especialmente quando a menina abriu a grande caixa que Françoise trouxe e abraçou e brincou como nunca com o enorme urso de pelúcia. De fato, ele estava bem preso no braço de Fiona, com esta o passando ao redor de sua cintura.
Se não soubessem quem era a menina, achariam incrível ela segurar o urso daquela forma. Uma criança daquele tamanho normalmente nunca poderia segurar aquele objeto duas vezes e meio maior que ela. Mas Fiona conseguia ser incrível.
_ Tchau, mãe! Tchau, tchau, tchau!!!!
Ela abraçava a mãe com força, e talvez nem fosse embora se ficasse se demorando mais. Mas Sarah estava inflexível.
_ Eu tenho coisas para fazer aqui, Fiona, – ela sorria para a filha – fique com sua madrinha.
_ Tá! - agora ela pulava no colo dele, e ele retribui-lhe o afeto. – Volta quando, pai?
_ Não sei, meu tesouro... não sei mesmo. Eu vou comandar uma nova nave e não sei se vou poder ver seu próximo aniversário. Mas a gente se fala.
_ Outra nave? – Sarah cruzou os braços e o olhou de lado. – Quando ia me dizer?
_ É, senhor capitão, – Diana fazia coro com Sarah – quando ia nos dizer isso?
_ Mais tarde – ele sorriu levemente. – E não sou capitão. Apenas pegaram um pobre coitado para comandar uma nave que ficou sem comando por uma infelicidade particular. A capitã pediu baixa e passaram a lista para os candidatos mais prováveis que estariam por aqui. Adivinhem quem Stek resolveu chutar da nave dele?
_ Péssimo. Tente de novo – Sarah continuava com o mesmo olhar, não acreditando muito naquela história.
_ Ok... A missão da nave acabou e boa parte de sua tripulação já tinha para onde ir. Assim a Frota andou pegando um monte de gente para suprir os buracos...
_ Que coisa estranha... – Düff levava a mão ao queixo – isso é algo muito raro. A Frota deveria estar preparada para quando uma missão de uma nave se encerra. Geralmente a nave é reformada e uma nova tripulação é selecionada.
_ É o procedimento padrão – endossou Sarah que continuava a encará-lo, tentando encontrar uma brecha em seus pensamentos para descobrir o que ele estava escondendo.
_ Tudo bem, eu confesso. Era uma nave da Dissuasão e eles não podem mais mantê-la. A Frota a pegou de volta. Satisfeitos?
_ Como sabe disto? – Diana estava muito interessada.
Sarah finalmente saiu de sua postura de desconfiada e meneou a cabeça de um lado para o outro. Pôs as mãos nas costas de Jevlack de forma que o corpo deste encobrisse a visão destas dos olhos de Fiona e imediatamente uma ponta foi ejetada das costas das mãos dela. Diana e Düff ergueram as sobrancelhas e a baixaram em seguida, compreendendo o que ela tentou lhes dizer.
_ E qual é a nave?
_ USS Danúbio – Jevlack andou com Fiona no colo até a vigia e olhou para o interior da doca. – É aquela nave ali, filhinha.
_ Que pequenininha!!! – disse ela ao ver a nave classe Miranda, que mais parecia uma nave de brinquedo ao lado da exuberante Ambassador do seu lado.
_ Realmente... – Sarah parou do lado deles e abraçou Jevlack com a mão esquerda. – Não deviam ter lavado com água. Ela encolheu...
_ Meu Deus.... – Diana se aproximou e tomou a pequena dos braços do pai. – É melhor eu levar esta menina embora logo antes que algo mais absurdo ocorra. Já pensou se Melrik ainda estivesse aqui? O que ele diria se visse Sarah fazendo uma piada destas?
_ Hum... – Düff sorria: – “Fascinante”?
_ Vamos embora – Diana olhou para Düff e sorriu. - Imediato, Vamos partir amanhã. Divirta-se e, por favor... a menos que queira isso, não me apareça com um irmãozinho para Fiona.
Diana vira as costas com Fiona nos braços e segue até a saída do alojamento com Düff logo atrás. O tempo todo Fiona olhava sobre os ombros dela para eles e mandava beijinhos com as mãos.
_ Finalmente, sós... – murmurou Sarah o abraçando com força e o apertando com vontade.
_ Andou muito ocupada... – ele passava a mão no seu ombro e notava a maquiagem neste – pensei que confiasse neles.
_ E confio. Mas não tive muita coragem de dizer o quanto mudei além do que Düff detectou com os equipamentos médicos. Ia ser meio difícil aceitarem que fisiologicamente deixei de ser uma vulcana e humana. Com o tempo e de acordo com os acontecimentos, vou falando uma coisa aqui, outra ali. Além disso, a tripulação da nave estava acostumada com minha aparência de antes. E não quero dar a Gina nenhum pretexto para ela me olhar mais desconfiada ainda. Com certeza ela notaria que minha pele agora tem um certo brilho metálico como a sua.
_ Por isso que finge tirar cochilos rápidos de duas horas?
_ Aham – ela murmurou fazendo-o sorrir. - Mantive, aparentemente, o mesmo hábito. Demorou um pouco para eu perceber, mas meu ciclo de sono realmente ficou igual ao seu. Quando estava de licença maternidade, decidi aferir isto e descobri como o seu sono, quando irrompe, é impossível de ser detido. Mas ficar 43 dias acordada é muito vantajoso no comando de uma nave como a Atlantis. Só não gostei de Yonah falar que eu ronquei por dezessete horas...
Janus soltou uma risada. Em seguida olhou para os seus olhos e a encarou com gentileza.
_ O que realmente te incomoda tanto? Espero que não tenha se arrependido de sua decisão.
_ Não, eu não me arrependi – e sorriu para ele. – Apenas continuo firmemente disposta a protegê-los de tudo, inclusive de nossos inimigos...
_ Você gosta muito deles...
Ela olhou para a Atlantis e ficou taciturna.
_ Hans... Por quanto tempo... – baixou a cabeça. – Ele foi meu primeiro bebê...
Jevlack a compreendeu. E preferiu não falar nada. Ela não queria consolo, queria apenas fingir que não contava cada dia ao lado do amigo que fatalmente assistiria morrer um dia.
_ Por que você aceitou comandar essa nave, Janus? Nós sempre fizemos de tudo para que você mantivesse uma boa distância da Dissuasão... – e o encarou realmente curiosa.
Jevlack a enlaçou pela cintura. – Às vezes é bom conhecer o inimigo de perto. Por que deixar o trabalho sujo só pra você? – e sorriu jocosamente. – Tenho que te proteger um pouquinho também.
_ Não pode mentir para mim, meu caro... – ela o encarou firmemente.
Ela sabia que o interesse principal dele era na nave. Gostava de desenvolver idéias que aliavam eficiência, força e praticidade. Se não fosse tão bom no comando de pessoas talvez tivesse se interessado na engenharia da Frota. Uma vez ela pensara em comprar uma das naves da Frota que estavam indo para a reforma, mas ele recusara a idéia alegando ainda ter muito que aprender. Na verdade, ele pedira um “adiamento” do presente.
_ Preciso conhecer bem esta época, – disse ele um pouco mais sério – e não posso me esconder para sempre da Dissuasão. Especialmente agora que eles começaram a ficar interessados demais em vocês. É melhor chamar a atenção deles para mim. Sei que eles andam me vigiando e tentando descobrir o que for possível a meu respeito. É estranho, mas parece que eles querem algo de mim. Acho estranho eles simplesmente não me chamarem e dizerem: “Meu caro, é isso que queremos de você!”
_ E você daria o que eles pedissem?
_ Se me fosse conveniente... – ele deixou a frase no ar, não dizendo realmente se faria ou não o jogo deles.
_ Tenho certeza que você sabe o que está fazendo... – e acariciou os cabelos dele como sabia que ele gostava. – A Danúbio vai precisar de algumas reformas... Ela estava escalada nos últimos três anos para o nosso setor, já que a Pégasus estava sobrecarregada. – Ele sorriu, sabendo que aquilo talvez fosse bom para eles. Sarah ergueu a sobrancelha e deu o seu meio sorriso maldoso: - Ela tem um motor respeitável para uma Mirandinha...
_ Ah, dá pra parar de gozar minha nave? - e a encaixou em sua cintura, encostando-a na parede e procurando sua boca com ansiedade.
_ Então goze você... – ela murmurou no ouvido dele.
Ele deu uma risada. – É pra já, minha princesa!...
MAIS TARDE...
_ Fiona está ficando muito linda, amor... – e a olhou de lado, aconchegando-se mais no peito dela. – Sei que você não quer sair da Atlantis tão cedo, mas se você fosse comissionada como capitã em uma nova nave, eu poderia pedir transferência para ser o teu Primeiro-Oficial e aí nós três poderíamos ficar juntos...
Ela não sorriu, mas sentiu genuína vontade de concordar. – Você tem todo o direito de querer vê-la crescer, meu amor... Mas agora talvez isso seja impossível até para mim...
Ele ficou sério de repente, fazendo-a perceber que tinha dito algo que devia ter esperado um pouco mais para dizer. Sentou-se na cama e a fitou, recostada no espaldar, os olhos vidrados em um ponto não específico à frente.
_ Sarah...
_ Não posso deixar a Atlantis, Janus... – e baixou os olhos depois de fechá-los por alguns instantes. – Não vou tentar enganar o destino que me é reservado naquela nave, qualquer que seja ele... Mas Fiona não precisa partilhá-lo comigo... Não importa o que virá, o que acontecer com a Atlantis não está reservado para ela...
Jevlack segurou seu queixo e a fez encará-lo. – Já aventou a hipótese de deixar sua nave, não é?
_ Sim. E não consegui extrapolar as conseqüências disso...
Jevlack sabia que para Sarah aquilo era um absurdo, pois até ali jamais havia deixado de ver, com precisão, o que iria acontecer quando tinha uma visão do futuro. Um poder assustador, que no entanto se manifestava ao seu bel prazer.
_ Fazemos nosso destino, Sarah. Não aceito isso de eventos que ocorreriam de qualquer forma. Não admito que digam que as coisas estão escritas.
Ele se sentiu impotente e realmente furioso com isso. Ela aceitava brandamente o fato de que algo muito grave aconteceria à nave dela e que ela deveria estar nela aguardando por isso. Mesmo sabendo que ela poderia sobreviver até a uma explosão da nave, isso não o conformava. Era ilógico para ele que ela aguardasse o que quer que viesse a acontecer com aquela complacência.
_ Sei que são seus amigos, mas você precisa morrer com eles?
Ela sorriu estranhamente. – Quem disse que vamos morrer?
_ Por que então quer tirar Fiona da nave? Ela é totalmente dependente de você ainda e eu não quero minha bonequinha sendo criada por minha sogrinha querida!
Sarah deu uma risada curta.
_ Essa idéia não me passou pela cabeça.
_ Sarah, – ele continuava sério – você não é mais humana ou vulcana. Não sei bem o que se tornou, mas...
_ Sou da mesma raça que você, seja ela qual for. Mas tenho toda a herança que tinha antes disto ocorrer. E isto já ocorria antes. Eu já tinha decidido tal coisa antes, meu amor. Não vou mudar de idéia. Só acho curioso nunca ter visto algo que indicasse a presença de Fiona antes...
_ Talvez Deus tenha jogado um pouco de dados com o Universo...
_ Engraçadinho! – ela sorriu levemente e levou suas mãos para acariciar o rosto dele, segurando-o entre os dedos. Ela aprimorava o elo que mantinham desta forma, e ao mesmo tempo, ambos começavam a sentir outras mentes ao redor. As mentes dos tripulantes da estação. As mentes dos tripulantes das naves que ali se encontravam, as mentes de seus companheiros na Atlantis...
Logo sentiram Fiona andando junto com sua madrinha. Não sabiam exatamente em que parte da nave elas estavam, mas podiam senti-las. Logo depois Sarah reduziu a potência da expansão mental e retornaram para um reduto mais íntimo.
Ele por sua vez, estendeu a mão para a curva do pescoço dela e desceu lentamente para acariciar seus seios em forma de pêra, que quase cabiam na sua mão bem aberta. Não demorou muito até os mamilos dela endurecerem, e a mesma morder levemente o lábio inferior. Mesmo ficando agora praticamente igual a ele, ainda podia ter a vontade de seu corpo manipulado pela habilidade deste.
E ela adorava isto!
_ Podíamos chutar a Frota e ir morar no Brasil por uns tempos...
_ Podíamos...
Jevlack estendeu a outra mão e passou o polegar nos lábios vermelhos e carnudos dela, inclinando-se para beijá-los, enquanto de olhos fechados, a outra mão descia pelo ventre macio.
_ Mas você vai ouvir o além mais uma vez...
A boca dela sorriu junto da dele. – Eu nunca errei antes, Janus...
Ele a deitou, puxando-a pelo quadril. Não queria mais falar sobre aquilo. Aquele assunto abstrato o tirava do sério. As coisas seriam bastante simples se não fossem as pré-cognições dela. E não duvidada de sua assertiva. Tudo que lhe restava era se exasperar. Então não gastaria seu precioso tempo com ela com coisas que não podia mudar. Quanto a Fiona... eles não tinham muitas opções, então fariam o que fosse preciso...
Hum... o que fosse preciso?
_ Você quer salvar todos que puder... – murmurou ele de repente, literalmente travando todos os movimentos de seu corpo.
_ Parabéns – ela começou a sorrir de uma forma diferente. – Agora, venha pegar seu doce antes que ele derreta...
****
Faruk acondicionou com cuidado seu material depois de ter passado várias horas acompanhando o embarque cuidadoso do equipamento que iria para a fronteira veniziana.
Seriam transferidos na doca espacial onde a nave que os levaria até seu destino os aguardava, com a vantagem que a equipe desta não deveria fazer perguntas indiscretas como os outros capitães da Frota costumavam fazer.
Ele tinha uma equipe no local que já vinha estudando há vários meses todos os dados disponíveis do planeta e seus “vizinhos”.
Sorriu com maldade. Eles lhes fariam uma surpresinha.
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Deck setenta, área recreativa doze. O melhor local da doca para um relaxamento. Cortesia do melhor simulador ambiental já projetado.
Pelo menos, era o que dizia o cartaz na entrada.
_ Vamos conhecer a Mirandinha.
Uma das vantagens em se poder ficar um bom período de tempo desperto, é poder aproveitar bem todas as horas que outros seres usariam para dormir. Com um prazo apertado para partir, Sarah e Jevlack estavam aproveitando o que podiam.
Ela sorriu. – Sua filha que começou...!
_ Oh, como se atreve a jogar toda a culpa naquelas costinhas? Você não tem um pingo de vergonha mesmo! – e rindo, a jogou para cima para vê-la dar um belo mergulho e sair do outro lado da piscina.
Alguns dos outros “turistas” ali olharam aquilo com certo espanto. Como aquele homem conseguiu arremessar a mulher a quase dez metros de altura?
Sarah não se incomodava com esses olhares, e nem mesmo com os pensamentos deles. Podia ler suas mentes, era verdade, mas não tinha interesse. Preferia se divertir observando os olhares de alguns rapazes para o seu corpo que brilhava com a água escorrendo pela sua pele – um brilho bem maior que o normal – e com o fato de ter orelhas pontudas, longos cabelos, e usar uma roupa de banho muito exagerada até mesmo para humanas.
_ Continua fazendo sucesso – disse ele ao se aproximar e olhar ao redor, tentando descobrir o que estava lhe deixando tão divertida.
_ Ciúmes?
_ Deixe eles babarem... sou eu quem a leva para a cama. E mesmo quando não sou, – ele cruzou os braços e olhou divertido para ela, antes que ela retrucasse – somos nós dois que estamos fazendo isso.
_ Vou ter que olhar debaixo da cama da próxima vez que for satisfazer meus desejos... eu gosto de privacidade!
Ambos gargalharam com isso. Ficaram ali por mais uma hora e depois saíram do parque aquático, indo para o alojamento alugado para vestirem seus uniformes. Sarah não queria admitir, mas estava curiosa com a navezinha dele. Sabia muito bem que em termos de naves espaciais, cada nave tinha sua época e área de atuação. A classe Miranda teve a sua, e foi um sucesso tão grande que até hoje ela permanecia atual e em uso, sendo reformada mais e mais, sempre tendo exemplares atualizados. Muitas destas naves eram mais velhas que qualquer um de seus tripulantes.
Um pouco relaxada, ela se sentou defronte a vigia onde era possível ver a nave dele e pensou em praticar um pouco. Não era muito diferente de usar sua telepatia, mas no começou sofreu para controlar aquilo. Até perceber que parte dos padrões de espectro que podia captar agora eram emanações telepáticas, ela ficou enxergando o mundo com uma gama de cores totalmente diferente de antes. Felizmente agora ela controlava aquele dom natural “artificial” que veio junto com sua mudança de estrutura fisiológica muito bem.
Seus olhos se acenderam de repente e assumiram uma coloração azulada, enquanto vários níveis do espectro surgiam diante dela. Imediatamente várias nomenclaturas surgiram ao redor de sua visão. Eram textos e dados explicativos sobre as análises captadas.
Seu próprio sistema de sensores particular...
Ela observou a nave e notou que ela não estava inerte. Estava ativa e com todos os seus sistemas funcionando. Captou a interferência do plasma que estava sendo injetado fracamente em seus motores de dobra, bem como a interferência que este fazia no continuum espaço ao redor. Antes que pudesse analisar mais, ela sentiu algo no seu peito e pulou de susto!
Quando viu melhor, percebeu que era o braço de Jevlack a abraçando por trás.
_ Eu te avisei que isso bloqueia todos os teus sentidos, não foi?
_ Eu estava segura contigo. Pelo menos... pensei que estava – ela olhou feio para ele. – Quase me causou um infarto!
_ Isso seria impossível... – ele sorriu divertido, e logo depois torceu levemente suas mãos pra as costas e lhe arrancou um profundo beijo romântico.
Ficaram assim por uns dez minutos, até afastarem os lábios e ficarem se observando por algum tempo.
Dois seres que agora eram da mesma raça, dois soldados de elite com capacidade para obliterar um esquadrão inteiro de infantaria da Frota de mãos nuas. E tudo o que desejavam era simplesmente viverem suas vidas.
_ Bom... vamos ver aquela coisinha que você vai comandar?
_ Que tal jantarmos antes?
Sarah concordou com um aceno de cabeça enquanto o abraçava pela cintura, pois ele a enlaçara pelos ombros. Estavam descontraídos e felizes.
_ Podemos levar Fiona amanhã cedo no túnel de vento. Ela vai adorar!
Jevlack sorriu para Sarah.
_ Mãe boba! Não pode ficar algumas horas longe da sua primogênita?
_ Olha só quem fala... você nem me olhou direito quando saímos para passear a tarde. Fiquei com ciúmes, sabia? - Ela sorriu enquanto passavam pela ampla avenida que tinha restaurantes dos dois lados, um cheiro bom e diverso vindo de todos eles.
_ Tudo bem, minha princesa. Este humilde plebeu irá agora tentar, ainda que acredite que não será a altura necessária, compensá-la por seus maus tratos indesculpáveis.
Ele olhou para os lados e a puxou em direção a um restaurante. Sarah o observou e maneou a cabeça. Era um restaurante de comida “típica” vulcana e com uma boa variedade de bebidas alcoólicas. Algumas que humanos não podiam beber.
Na verdade, nem vulcanos podiam beber algumas daquelas bebidas. Mas agora ela podia... hum...
“Me ajuda a dobrar a maitre?”
“Ainda pergunta?”
Eles se sentam em uma das mesas - com ele puxando a cadeira para ela – e fizeram seus pedidos. Quando pediram uma bebida que pelo cardápio era proibida para as raças as quais eles aparentemente eram, a moça que estava anotando o pedido ficou subitamente aérea e logo em seguida os atendeu sem questionar.
_ Será que esse priks é bom? – perguntou Sarah depois que a mulher se afastou para pegar os pedidos.
_ É tiro e queda – disse Jevlack. – Acho que Françoise iria escolher esse tipo de bebida se fosse condenado a uma pena capital. Só que poucos organismos além dos andorianos podem suportar isso. E mesmo eles podem ter problemas estomacais se abusarem.
_ E conosco? Como sabe que podemos suportar isso?
Ele a observa sorridente e meneia a cabeça.
_ Acha que não andei experimentando tudo o que foi possível por aí? Aliás, – ele a olhou com um sorriso – qualquer dia precisamos ir a um restaurante klingon. Eu adorei gagh. E vivos são mais gostosos ainda.
_ Quem diria que aceitar aquela oferta de uma esfera misteriosa me daria o bônus de me deixar uma grande apreciadora de gastronomia interestelar?
_ Tinha que haver alguma compensação...
_ Poder me unir a você e ter Fiona foi a melhor compensação que podia ter – ela o encarou sorridente. – Mas isso me faz pensar... Fiona foi algo totalmente inesperado... acho que eu devia ter me preparado um pouco. Nunca precisei me incomodar com isto antes, mas...
_ Não me diga que desconfia que pode engravidar de novo agora?
_ Diana foi apenas engraçada, não literal. Além disso... eu... – ela não sabia como dizer aquilo – sei que só posso engravidar se eu quiser. E também escolher o sexo do bebê... mas não consigo explicar como sei disto...
Ele sorriu de volta. – Não se preocupe. Acha que vou querer passar outra gravidez sua longe de você? De jeito nenhum! Além do mais, nós temos todo o tempo do mundo para termos quantos filhos quisermos!
_ Um time de futebol?
Ele deu uma risada enquanto avaliava o cardápio em busca de outras iguarias. – E com um time reserva! Mas nada de camisa verde.
_ Que time você torce, ou melhor, torcia afinal?
_ Olha, – ele coçou a cabeça – acho que eu era “ateu”...
Desta vez foi ela que riu. – Bom, de qualquer forma, vamos precisar comprar uma classe Ambassador, então...!
Ele a abraçou, beijando em seguida seu pescoço e fazendo-a rir, indiferentes aos olhares curiosos dos outros clientes.
_ Se você caçoar da minha nave de novo eu juro que dou uma surra em você!
_ ... Só que agora não vai ser tão fácil, meu amor...
Ele pegou a mão dela e mordeu o dedo indicador. – Eu mereço... mas ainda sou superior em termos brutos a você. Só queria saber o porque disto... – murmurou ele em voz baixa.
_ Segundo a esfera, isso é porque mais alguém andou colocando próteses em você. Pelo menos sabemos o que era do seu povo e o que foi adicionado depois. Mas acho que devemos nos preocupar com outras coisas... as bebidas estão chegando... – ela deu um sorriso maroto. – Ainda bem que o nosso alojamento não é longe...
****
“_ Diário de bordo, data estelar 11273.9. Os suprimentos e a revisão padrão dos sistemas foi efetuada sem nenhum incidente a relatar. Recebemos ordens para pesquisas mais aprimoradas em quatro sistemas recentemente catalogados, o que deve agradar aos integrantes científicos de nossa tripulação, uma vez que as últimas missões os deixaram um tanto ociosos. Apenas aguardamos...”
_ Ociçosos?
_ FIONA! – Diana olhou com uma expressão de suplício para ela. Nunca esperava que um dia ela pudesse interromper seu registro de bordo.
Mais que isso... ela estragou o registro. Felizmente, ainda não o tinha fechado, portanto, poderia retificar.
_ Ociçosos? Ociçosos o quê?
_ Ociosos, Fiona, ociosos. Quer dizer que ficaram sem fazer nada.
_ É?
_ É sim, mocinha – ela a pegou por baixo dos ombros e a tirou de seu colo, pondo-a diante de si. Aproveitou para olhar ao redor da ponte e todos estavam em seus postos e prestando atenção aos seus comandos. Com exceção de Melrik, que a observava curioso. – Agora, fique um pouco quietinha que já te dou atenção, tá? Sou a capitã aqui e tenho coisas para fazer.
_ Capitã? – ela perguntou dobrando o pescoço e sorrindo um pouco.
_ É! - ela se empertigou no assento do comando. – Diana O’Conell, capitã. Estou encerrando o registro de hoje e...
_ REGISTRO EFETUADO – soou a voz do computador após ela dizer aquelas palavras. Diana arregalou os olhos e olhou para cima, para ninguém em especial. Quem a visse, imaginaria que ela talvez estivesse olhando para os céus para não ficar furiosa com o imbecil que colocou aquele encerramento automático de diário quando se dizia o nome e posto durante um registro de diário. Mas na verdade ela queria era desviar os olhos de Melrik, que, por mais absurdo que fosse, estava SORRINDO para ela.
Para um vulcano perder o controle assim – devia estar fazendo de propósito – era porque a situação foi demais.
_ Melrik...
_ Sim, capitã? – ele já estava sério e seco como antes.
_ Leve a coisinha linda para brincar com Düff. Computador! Retificação de diário de bordo.
_ Vamos, Fiona de Sernick – Melrik estendeu a sua mão e sorriu para a menina. – Vamos... passear.
_ Tá! – ela pegou a mão dele e ambos seguiram para o turboelevador.
Era incrível como vulcanos se permitiam uma certa expressão corporal diante de crianças de sua espécie. Nada exagerado. Um sorriso aqui ou ali, um ou outro gesto de velado afeto. Mas era muito se considerando como agiam com os adultos. Seja como for, ela conseguiu terminar o diário de bordo e apenas aguardava o embarque dos que quase estavam atrasados.
Um absurdo Sarah ser um destes.
_ Senhor Benrubi? – chamou ela pelo comunicador.
_ NA ESCUTA, CAPITÃ.
_ Estão todos a bordo?
_ AINDA FALTA UM TRIPULANTE, SENHORA... A PRIMEIRA-OFICIAL...
_ Sarah ainda não chegou?! Ora... Obrigada. Diana para Sarah. Pare o que estiver fazendo e me responda!!!!
Apesar de parecer o contrário, ela não estava brava de verdade. Apenas queria fazer uma pirraça com sua amiga, já que imaginava o que ela deveria estar fazendo para se atrasar.
_ CAPITÃ? CHEGAREI NO HORÁRIO, NÃO SE PREOCUPE.
_ Não me preocupar?! Devemos partir em... – ela olhou por cima do ombro para ver as horas no console na parede – dois minutos. A não ser que esteja já a caminho, o que eu duvido, vai se atrasar. Isso é uma mancha inaceitável – ela estava empertigada e falando de uma forma meio cínica – na sua carreira. Eu devo...
Ela parou de falar quando um brilho de teleporte surgiu diante dela. Alguns momentos depois, as figuras de Sarah e de Jevlack apareciam diante dela.
_ Primeira-Oficial Sarah McKenna se apresentando, capitã – disse ela fazendo continência e sorrindo.
_ Sem graça... – disse Diana com um rosto meio bobo. – E o que ele está fazendo aqui também? – ela apontou para Jevlack.
_ Vim dar um último abraço na minha baixinha – respondeu ele – e depois já sumo daqui. É só não levantar os escudos. Bom... adeus, Sarah... - ele se aproximou dela e lhe deu um belo beijo, a ponto de deixar a capitã com uma certa inveja. – Vou falar tchau para Fiona e já parto.
_ É melhor correr – Sarah olhou para o painel que indicava as horas. – Vamos partir em um minuto e meio e parece que minha capitã não está disposta a se atrasar nem por um minuto. Ah, sim, capitã! Eu estava na Danúbio, conhecendo um pouco aquela coisinha...
_ Você gostou do quarto! – exclamou ele quase dentro do turboelevador. – E... onde está Fiona?
_ Deve estar com Düff. Comandante! – chamou ela antes que ele saísse da ponte. – Obrigada por me entregar minha Imediato.
_ Disponha. Mas eu não lhe entreguei, apenas a emprestei um pouquinho... Adeus! – e ele desapareceu pela porta.
_ Nem vou perguntar se você relaxou o suficiente...
Sarah sorriu, piscou para ela e ficou séria em seguida. A Imediato “malvada” estava de volta. E com o gás todo.
****
Capítulo I.
QUASE UM ANO DEPOIS...
Jevlack sorria de olhos fechados, sentado de pernas cruzadas sobre a cama do seu alojamento, a escuridão tomando conta do ambiente. As costas perfeitamente retas e nuas, o corte de cabelo militar, curto e bem mais rebaixado nas laterais da cabeça, a respiração longa...
Ele ergueu a cabeça e arfou levemente, entreabrindo a boca, sentindo as mãos de sua amada percorrer seu corpo...
“Sarah...”, ele pensou languidamente, excitado com o contato que, apesar de mental, dominava as sensações de seu corpo, porque os pensamentos dela de repente deixaram de ser uma simples conversa.
“Estou sentindo sua falta, Janus...”, ela murmurou marotamente em sua cabeça.
“Não faz assim... Sabe o que é ficar anos apenas cuidando de uma necessidade fisiológica e, após isso poder associar uma emoção que nem sabia que podia ter?”
Um sorriso telepático foi a sua resposta. Ele sorriu em ressonância logo em seguida.
“Estou falando sério!”
“Eu sei – respondeu ela – eu sei...”
Ele continuou sentindo o desejo dela, acompanhado dos pensamentos cada vez mais eróticos, e se entregou de vez a vontade de sua mulher.
Transa virtual... virtualmente falando...
MAIS TARDE...
_ Se eu tiver que ouvir o sr. Carlyle fazer outro discurso sobre o posicionamento ideal dos conduítes nos tubos internos de circulação da equipe de manutenção eu juro que vou gritar!
Santos deu uma risada e, pela entrada F do tubo onde Dycon aprendia o ofício de auxiliar da manutenção, passou a ele a ferramenta que precisava.
_ Por que está aqui, Dycon? Você tem ótimas notas de desempenho na segurança.
_ Miox acha que eu devo saber onde se liga e desliga as armas. E como se fazem milagres!
Faye chegou naquele momento e riu. – Ei, esse trabalho é nosso, Dycon! Miox quer treiná-lo para tudo?
Eles ouviram o grandalhão deslizar pelo tubo para encará-los. – Sabe, pessoal, eu gosto muito da segurança.
Faye pôs a mão no ombro dele. – Isso é bom, Dycon. Você está feliz agora, não está?
Dycon sorriu e olhou para os dois. – Estou. Agora, devo confessar, gosto pra caramba desta nave.
Santos e Faye saíram da frente para dar passagem a ele.
_ Vamos comer alguma coisa? Estou faminta!
_ Boa idéia!
Quando chegaram ao refeitório, encontraram a exobióloga Milla Stauber e a esposa de Dycon, Madalen. Estes trocaram um beijo rápido enquanto se serviam.
_ Novidades científicas? – Santos brincou com Milla.
_ Estamos a caminho de Aquário Verde, como bem devem saber. O sr. Melrik está quase parecendo a Imediato McKenna, nos deixando doidos com os preparativos para inspeção da estação 132 e da base terra.
_ Base “terra”? – Santos deu uma risada, acompanhado por todos. – Bem, deve ser algo bem interessante visitar Aquário Verde pra vocês cientistas.
_ O lugar é maravilhoso! – Madalen disse com entusiasmo.
_ Mas não deve ter muito pra você fazer lá, não é, Mad? Lá só tem água!
Madalen sorriu com carinho para o marido. – Mas debaixo da água tem terra, meu amor.
Faye riu brevemente. – Só sei que a estação 132 pediu para fazermos um upgrade geral nos sistemas de energia. Vamos ficar ocupados também!
_ Quanto tempo ficaremos lá? Talvez a Imediato deixe a gente descer para visitarmos o planeta...
Ness vinha com sua bandeja e Milla sorriu para ele com doçura, admirando o homem forte e bonito que o ruivo se tornara, os traços juvenis de sete anos atrás haviam desaparecido dando lugar a um rosto anguloso e bem marcado, típico dos irlandeses. Agora era difícil vê-lo como o mais jovem membro da Cúpula: ele era um homem educado, gentil com as mulheres, mas ainda muito tímido com elas.
Enquanto Milla o olhava, Santos o chamara para sentar-se com eles.
_ Temos alguma chance de descermos para uma folga, Ness?
Ele acabou o pudim e ajeitou o prato para iniciar a refeição. – O sr. Melrik solicitou a sra. McKenna 3 dias no planeta.
_ Oba! – Dycon exclamou, pois estava no topo da lista para descidas.
_ E o sr. D’Angelis quatro dias.
_ Legal!
Sorriu diante da alegria de Dycon e continuou. – Mas a Imediato McKenna disse a eles que teriam 48 horas e que otimizassem esse prazo.
_ Ah... – Dycon se decepcionou, o que fez todos sorrirem.
_ Ora, sr. Wilkins, certamente a Imediato McKenna vai querê-lo na equipe avançada.
_ É, ela me ama!
Todos riram. Dycon era brincalhão e engraçado. Quando ele e Remy se juntavam nada sério podia ser feito perto deles.
_ E como anda a lindinha, Willian? – Milla perguntou sorrindo. Era evidente para todos que a mulher negra e exuberante tinha uma queda – e bastante acentuada – pelo tímido oficial de comunicações.
Ness sorriu. Adorava a filha da Primeira-Oficial e gostava de cuidar dela sempre que Sarah permitia. Se dava bem com crianças e a pequena filha da vulcana era muito especial.
_ Vou ficar com Fiona amanhã, Milla. Ela adora água, vamos ficar na piscina e depois vou ensinar um pouco de história da Terra para ela – e encheu o garfo, o rosto queimando ao sentir a perna de Milla roçar a sua.
_ Sua folga é no 2º turno? – ela murmurou com um sorriso convidativo.
_ É sim – Ness respondeu meio sem jeito. Achava Milla linda, muito linda.
Madalen e Dycon já haviam levantado e saído, queriam aproveitar a hora do almoço para namorarem um pouco. Santos e Faye haviam levantado para se servirem de café e os dois estavam sozinhos na mesa.
_ Posso ajudá-lo com Fiona na piscina? Adoro nadar...
Ness a fitou. Estava começando a achar que Sanchez tinha razão quando falava que ele deveria ter mais iniciativa. – Ãh... claro, Milla, vai ser bom ter sua companhia.
Ela sorriu de volta. – Você é sempre uma ótima companhia, Willian...
Ele engoliu a comida e voltou a fitá-la. – Quer... jantar comigo hoje?
Ela ficou tão feliz que não se importou em disfarçar.
_ No seu alojamento? Soube que você faz uma ótima macarronada.
Ele sorriu, sentindo-se mais encorajado do que nunca. – Às 2100 horas?
_ Combinadíssimo!
ÀS QUATRO HORAS...
Sarah estava sentada sobre a cama e terminara de fazer uma trança nos espessos e longos cabelos de Fiona. Esta riu para a mãe e segurou o rosto desta com suas duas mãos rechonchudas.
_ Você dormiu bem?
Sarah sorriu. – Sim, muito bem – estava orgulhosa da dicção clara e do uso da linguagem já bem adiantada que a pequena menina de 2 anos apresentava com desenvoltura.
_ Fico feliz, afinal nossos horários são... – e ficou algum tempo olhando para cima, buscando a palavra. – Distorcidos?
_ Divergentes.
_ Divergentes. Gosto de ficar com o tio Hans, mas ele tem menos força para ficar acordado.
_ Resistência, neste caso.
_ Resistência... – seus olhos muito azuis encararam Sarah com um sorriso doce, cheio de amor e admiração, sentimentos que a engendrada retribuía sem parcimônia.
_ Brincaram de quê ontem?
_ Oh, tio Hans me deu uma boneca de pano! – e pulou com bastante agilidade do colo da mãe para buscar seu mais recente tesouro em um baú de madeira, presente de sua madrinha coruja. – Ó!
Sarah riu um pouco. Era engraçado como ela podia usar algumas antigas gírias brasileiras, sendo que ainda não tinha aprendido este idioma completamente ou a história desse povo. Lembranças genéticas que herdara do pai, sem dúvida.
_ Vou dormir no dia 20...
_ ...Daqui a 20 dias...
_ Vou dormir daqui a 20 dias de novo. Posso falar com a vovó de novo antes de dormir?
_ Mas é claro – e Sarah serviu o leite morno com flocos de cereais (neston) que ela sempre gostara, mas Fiona simplesmente adorava. – Com seu pai também?
Ela sorriu de volta, um bigode de leite coroando aquele sorriso franco. – Oh, com papai também, mas ele está sempre aqui, em você... – se virou para o monitor que mostrava um documentário sobre estrelas em formação, e se distraiu por alguns minutos.
Sarah não parava de sorrir ao olhá-la. Tinha paixão por Fiona, adorava seu jeitinho meigo e curioso, a facilidade com que aceitava e entendia as coisas, inclusive seus treinamentos psíquicos e físicos, tendo uma disciplina muito maior do que se poderia esperar ou exigir de alguém de sua tenra idade.
Tinha várias características de Jevlack, aliás, muitas, mas uma extraordinária facilidade para compreender e aprender suas necessidades de controlá-las. Seu aspecto físico não lembrava em nada o pai, mas seu rosto era ele na forma feminina, com belas e bem proporcionais orelhas pontudas. Os olhos eram aparentemente humanos, com a íris bem definida e de cor azul violeta, que disfarçava bem seu poder de análise espectral. O mais interessante era que Fiona nascera com diversas características de Jevlack latentes; prontas para serem usadas, mas geneticamente programadas para se desenvolverem ao longo dos anos de crescimento fisiológico, que respeitava o mesmo cronograma interno que McKenna tivera sendo híbrida de engendrados humanos e vulcanos. Seu código genético oficial era esse: quase idêntico ao de Sarah, o que levara muitos a pensar que a menina era um clone dela.
Sarah suspirou. Aquilo seria ótimo, mas sabia que alguns setores da Dissuasão, graças aquela maldita Gina, sabiam que Jevlack estivera na Atlantis há três anos atrás...
A porta se abriu e Düff entrou sonolento.
_ Tio Hans! Tio Hans! Tio Hans!
Sarah sorriu para ele enquanto Fiona pulava em torno do alemão até que ele a colocou no colo. – Ela não leva você a sério.
Ele riu enquanto fazia cócegas na menina. – Eu sei que a culpa é minha, mas eu não posso evitar!
Enquanto eles riam, Sarah pôs o casaco. – Você deveria estar dormindo. Não é justo que você não descanse depois de fazer vigília por mim e cuidar de Fiona ao mesmo tempo. Você tem que se cuidar, Hans.
Ele se sentou com o copo de chá de erva cidreira que Sarah lhe estendeu, enquanto Fiona despejava diversos brinquedos que trazia do baú no colo dele.
_ Você dormiu ontem. Vou ter pelo menos quarenta e três dias para por meu sono em dia. Ei, meu chá não combina com... o que é isso, meu Deus? – ele olhou para gosma multicolorida que mergulhava e voltava dentro da sua caneca.
Sarah colocou a mão no rosto e respirou fundo, fechando os olhos. Tinha que controlar sua vontade de rir, porque Fiona e Hans eram terríveis juntos.
_ Fiona.
_ Tá limpo, mãe – e tirou o brinquedo, fazendo sua mãe ponderar se ela dissera outra gíria brasileira ou se referia a limpeza do inusitado objeto – foi o tio Dyllan que me deu. É engraçado, ó, o tio Hans é que é desastroso...
_ ... desastrado, mocinha, e eu não sou desastrado, não! – E olhou para McKenna. – Quem vai ficar com ela agora?
_ Ficarei com ela até o início do segundo turno, quando Ness virá pegá-la. Vai ensinar um pouco de história da Terra e depois levá-la para lanchar. Daí, quem vai ficar com ela é Dyllan. Em seguida eu fico com ela de novo. Fique tranqüilo.
Ele agarrou a menina, que esperneou aos gritos, rindo. Ele a encheu de beijos e depois a soltou. – Já vou estar acordado até lá. Jantamos juntos antes da reunião.
_ Alface, fibras... Tio Françoise disse que queira uma... sala de repolhos maior.
Eles a olharam.
_ Sala de repolhos?
_ Ela está aprendendo a usar palavras mais difíceis agora, dr. Temos que adivinhar algumas coisas de vez em quando – e a tirou de suas pernas e a colocou no colo. – Aquela sala grande onde o tio Françoise tem um monte de plantas?
_ É, aquelas plantas de comer, fibras, como o tio Hans sempre diz: “Mais fibras nesses pratos!” – e riu gostosamente, um riso adorável que só uma criança tão pequena sabe dar.
_ Essa pestinha! Olha só, está me imitando!
_ A culpa é sua. Ela te faz de gato e sapato.
_ Gato e sapato! Gato e sapato, gato e sapato...
_ Vamos, Fiona de Sernick – e Hans jogou uma pequena mochila para Sarah, que pôs a menina nos ombros entre risadas.
_ Jevlack com certeza está muito feliz sabendo que você não a está criando como vulcana.
Sarah sorriu da saída. – Ela está, mas também está sendo criada como humana. E como filha dele.
Hans assentiu e se aconchegou no sofá.
MAIS TARDE, NA PONTE...
McKenna se afastou do painel de Melrik, com quem havia trocado algumas palavras tão técnicas que chegavam a ser incoerentes para os demais.
Os dois eram engraçados: insistiam em afirmar que não eram amigos, mas Diana sabia que aquilo era pura teimosia vulcana, pois os dois trabalhavam desde a situação dos “musgos” com uma sintonia e eficiência impressionantes. Seus trabalhos em conjunto não os somavam: eles se multiplicavam numa eficiente e imbatível equipe de coordenadores, capazes de “tirar leite de pedra”. Diana sorriu: como a pequena Fiona conseguira expressar aquilo com semelhante frase na última reunião quinzenal deles ainda lhe era um mistério, mas a pequena tinha razão.
Sarah se aproximou dela. – Toma um café comigo depois, capitã?
Diana assentiu. – Claro, Imediato. – Ela sabia que um relatório informal a aguardava. E adorava os relatórios informais da engendrada. Eles geralmente tinham mais informações que os relatórios oficiais que eram enviados para a Frota.
Stuart as observava quase que por hábito. A cumplicidade que elas tinham no comando era um arranjo mais que perfeito para as missões que a Frota costumava incumbir àquela nave. Não era à toa que a Atlantis era considerada, na atualidade, a melhor nave estelar de exploração e pesquisa, com oficiais superqualificados, um super investimento da Federação que vinha dando o mais pleno retorno.
Daria a própria alma – se achasse que tinha uma – para merecer a confiança de qualquer um daqueles oficiais da “cúpula”. Mas nem mesmo Joshua, que sempre se mostrara seu amigo, lhe abrira as portas daquele mundo particular e fechado que compartilhavam. Eram como irmãos, auto-suficientes, dependentes apenas deles mesmos, capazes de tudo para realizarem sua missão e defenderem aquela nave, a nave que Düff e seus companheiros tratavam como uma rainha, uma deusa.
Desde que chegara, diferente de outros novatos, nunca fôra tratada além da polidez por eles. Não conseguira romper aquele fino plástico que a separava deles e aquele tratamento praticamente neutralizara seu trabalho principal – e o secundário - ali.
Parecia evidente que queriam vencê-la pelo cansaço.
“Mas eu ainda não fui vencida – Gina pensou de novo, como em muitas outras vezes. – Odeio cada minuto que passo nesta nave... – e uma rápida e doce lembrança transpassou-lhe o amargo devaneio. – Ainda tenho forças para continuar!... Eu ainda não desisti!”
NO DIA SEGUINTE...
McKenna saiu da Engenharia. Precisava conversar com Benrubi sobre a transferência de novos equipamentos táticos para serem testados em...
_ Queria falar comigo, McKenna?
McKenna entrou no elevador. – Sim, Benrubi. Temos que... – e, erguendo a sobrancelha esquerda, notou a presença de Rebecca, que a olhava sorridente. – Sr. Benrubi, o que a menina faz no elevador de acesso a ponte?
Joshua se empertigou. Sentiu-se ofendido e idiota ao mesmo tempo.
_ Rebecca queria conhecer como você trabalha pessoalmente, McKenna.
Sarah permaneceu na mesma posição fitando Benrubi. Durante dois anos tivera suas próprias ocupações, além de ter evitado contatos sociais com os civis da nave ao máximo, mesmo e exatamente porque tinha sua própria vida social agora. Mas não podia negar algo a si mesma: ainda sentia falta dele, ainda queria tê-lo perto, essa... sensação não se amenizara com o tempo, apesar de ter vivido coisas diferentes e maravilhosas desde que ficara grávida que haviam preenchido cada minuto do seu tempo até ali.
E Jevlack tomara o cuidado de estar presente o maior número de vezes que pôde. Por causa de Fiona? Sim, mas também por causa dela. Sabia, mesmo sem que ele jamais tivesse pensado nisso, que ainda sentia a presença de Joshua como uma ameaça velada. Não que ela pudesse correr para os braços do israelense, mas... o fato de aquele homem continuar amando sua mulher apesar de tudo – e acima de tudo – era ameaçador para qualquer um.
Sarah se resignou, sabendo que tudo aquilo era tolice, pois não passaria do campo das sensações, e nunca ultrapassariam para a realidade da vida.
Pensou em sua filha. Estava chegando a hora de tomar um rumo menos provisório para sua vida por causa da pequena Fiona.
O mais estranho é que Rebecca sempre estivera perto de Fiona desde seu nascimento, mas pouco conversara com ela própria sobre qualquer outra coisa. Sabia do poder da filha de Joshua, mas evitara com excesso de minúcia o contato pessoal com ele. Esperava que o tempo e a distância pudessem ter sido um bálsamo para ele. Evitara senti-lo, ouvi-lo, e durante aqueles dois anos as famosas disputas no ginásio haviam praticamente acabado, principalmente porque agora poderia machucá-lo muito além do recomendável.
Vivia para a sua linda menininha de densos cabelos castanhos e profundos olhos azuis, quase violetas. Queria aproveitar cada segundo com ela, pois Fiona não podia ficar na Atlantis por muito mais tempo... E não sabia se ela mesma poderia deixar a nave ainda...
Então se lembrou do prêmio que Diana instituíra “obrigada” pela Frota, onde um civil poderia escolher um oficial comandante, excetuando o capitão, para passar o dia com ele. Rebecca ganhara...
_ Eu não havia sido comunicada de sua escolha, senhorita Benrubi. Temos horários e prioridades. Agendar comigo um dia apropriado é o mais acertado para ambas – e continuou encarando a adolescente de 13 anos. – Compreende-me, decerto, já que ganhou o prêmio também por sua destacada capacidade disciplinar.
_ Sim, claro que sim, sra. McKenna – e sorriu largamente. – Quando poderei acompanhá-la? Confesso estar ansiosíssima para isso!
Sarah não podia fugir de tal questionamento, pois todos naquela nave, civis ou não, sabiam que ela não precisava de nenhum pad para consultar seus horários. Ou o dos outros.
_ Amanhã, a partir do primeiro turno – McKenna estava desconcertada com a delicadeza e suavidade de Rebecca, a quem, aliás, a pequena Fiona adorava. Aquela garota não combinava com o convívio rígido dos oficiais de uma nave estelar. Aquilo, por sinal, havia sido o motivo da desistência do programa por 7 famílias. As demais naves em experiência haviam sido obrigadas a mudar o padrão de comportamento de seus oficiais para um melhor convívio com os civis, coisa que Diana não aceitara e ignorara solenemente as reprimendas da Frota. Quando os civis reclamaram, ela simplesmente mandou sua Primeira-Oficial engendrada estabelecer regras ainda mais rígidas de “contenção” para os civis, de forma que eles não iam, mesmo que quisessem, a qualquer parte da nave sem o devido monitoramento. O computador lhes era restrito, assim como comunicações e elevadores. Diana sempre dizia que eles estavam lá porque queriam, ninguém os obrigara a subir na Atlantis e nenhum deles a obrigaria a por em risco sua nave e sua tripulação por luxos ou chiliques. É claro que as punições eram mais criativas desde a visita de Jevlack, mas nem tudo mudara. – Décimo quinto deck.
NO DECK 15...
Rebecca a fitou. – Posso contar com sua compreensão?
Sarah a fitou divertida. – Com relação a quê, senhorita?
A garota piscou e sorriu. – A meu pai. Fui eu quem insistiu e acho que isso conta muito em sua defesa.
Sarah não pôde conter um sorriso. – Na verdade o que contará em sua própria defesa é o fato de que Fiona gosta de você, senhorita Benrubi. Agora, eu e o senhor seu pai temos deveres para com esta nave, assim como a senhorita, decerto.
_ Foi um prazer vê-la, Imediato McKenna! – e estendeu a mão, que Sarah apertou assentindo.
AUMENTAR – Sarah sente como Rebecca é especial
“Parece que chegou a hora de travarmos contato direto, não é, Rebecca?”
Joshua as olhava intrigado. Nunca vira Sarah conversar com os civis da Atlantis: ela sempre dera palestras, ordens ou sermões a eles, nunca conversara. E aqueles sorrisos... Há séculos que ela não usava aqueles músculos na frente dele.
NO ELEVADOR...
_ Você está sempre me surpreendendo, sabia? Quem poderia imaginar que Fiona a fizesse ter jeito com crianças?
Sarah se manteve rígida. – A srta. Benrubi se portou com extrema cautela e perspicácia. Tratá-la com menos respeito do que merecia seria bem tolo – a porta se abriu e McKenna voltou-se para ele. – Já disse a você uma vez, Joshua: aquela mocinha é muito especial. Vocês têm sorte por estarem juntos.
Joshua sorriu. – Acho que sim.
NO OUTRO DIA...
Diana estava com seu uniforme de campo sem a jaqueta externa e com um pulôver branco que denotava seu posto, a temperatura estava amena e o entardecer naquele planeta era digno de ser contemplado por várias horas. Há quanto tempo não tirava um tempo só para ela e para suas divagações? Mais tempo do que ela poderia lembrar ou dispor no meio destas missões melindrosas. Sorriu ao pensar nas mensagens que recebia de Melrik, do tipo você precisa descansar, ou você precisa tirar algumas horas só para você...De certa forma seu amigo vulcano se preocupava com a estabilidade emocional dela, isso dava margem a várias conjecturas as quais Diana não queria pensar agora. Era estranho suspeitar que Melrik sentia algo mais por ela, quando ela própria estava atraída por outra pessoa...uma pessoa que fugia dos padrões que ela procuraria em um homem. Não sabia ao certo por que sentiu aquela atração por ele, mas sabia que ela existia, ao vê-lo pela segunda vez, sentiu os primeiros sintomas e sabia que há muito tempo não sentia isso desde que Paul morrera. Na verdade passara muitos anos não se preocupando com sua vida pessoal e nem ao menos notando os homens a sua volta, para agora se sentir atraída por um membro de sua tripulação. Colocar os protocolos de lado e sucumbir aos desejos pessoais não era algo que ela via com bons olhos, mas como evitar aquela atração quando o via? Praticamente todos os dias e todas as vezes que o via sentia a mesma coisa. Estava apaixonada por seu Engenheiro-Chefe, ambos tinham deixando claro que não queriam somente uma aventura momentânea, já estavam muito adultos para aquilo. E Diana, indo contra todos seus códigos de contenção, não podia negar tudo que sentia por ele. O pior era que ele sabia...ou seria melhor?
Ela o sentiu se aproximar.
Ele ficou atrás dela e a abraçou firmemente como sempre fazia, ela sorriu para ele.
_ Eu poderia ficar neste planeta para sempre.
_ Sem um bom replicador de alimentos e uma boa fonte de energia, nem pensar - ele soltou.
Ambos riram.
_ Sarah já chamou você pelo comunicar duas vezes. - Ele a encarou agora do lado dela.
_ Eu acho que o esqueci em uma das naves auxiliares.
_ Capitã, que coisa feia. - Ele sorriu. - Ela me mandou ver onde você estava...
_ Ela mandou é...? - Diana sorriu. - Esta Sarah, ela tem um dom para descobrir as coisas muito além da minha compreensão.
_ Vamos dizer que ela esta dando uma força... - ele riu. - Um empurrãozinho. - Ele ficou sério. - Na verdade Melrik estava atormentando ela sobre a sua segurança, por deixar a Capitã andar sozinha em um planeta não totalmente sondado...
_ Solução engenhosa mandar o Engenheiro para buscar a Capitã. - Ela sorriu se aproximando dele.
_ Adorei a ordem que ela me deu.
Ele a puxou contra si delicadamente e a encarou sorrindo.
_ Já que estamos sozinhos...
_ Não diga mais nada. - Ela sorriu e ambos se beijaram docemente como se fossem dois amantes sem pressa.
****
Se havia algo que pudesse deixar um vulcano irritado era as exigências de uma Primeira-Oficial vulcana. A capitã decidira descer para a inspeção daquela nova colônia antes da sondagem e ela simplesmente havia concordado como se isso não fosse nada de mais. Ele tentara alertá-la dos protocolos e ela simplesmente – e irritantemente – havia erguido o dedo indicador para ele como se fosse uma mãe surpreendida com a teimosia de uma criança.
_ A senhora acha que isso está correto?
Sarah se voltou para ele surpresa. O tom dele fôra... irritado. Claramente irritado. Apertou os olhos rapinamente, encarando-o, e expandiu sua mente até ele por um milésimo de segundo, que foi suficiente para saber o que ocorria. Chegou perto dele e murmurou em vulcano:
_ Apresente-se a Enfermaria, comandante... agora.
Ele a olhou entre ofendido e envergonhado. – Sim, senhora...
Suspirou.
“Düff”
“Sim, Sarah?”
“Melrik está indo ter com você”
“Algo errado?”
Hans sentiu sua resignação.
“Ele está entrando no Pon Farr”
Ness voltou-se para ela. – Comunicado da Base Estelar 690, Imediato McKenna: prioridade 2.
_ Repasse, sr. Ness.
A tela mostrou a logomarca do Comando da Frota - e junto desta um pequeno “D” brilhava no canto inferior direito da tela - e em seguida uma comodoro apareceu.
_ COMANDANTE McKENNA, DEVO REPASSAR A VOCÊS NOVAS ORDENS. SIGAM PARA MEPHISTO 7 E AGUARDEM UMA NAVE COM EQUIPE AUXILIAR LÁ. O GRUPO DE CIENTISTAS INSTALADOS NO PLANETA NÃO FAZEM CONTATO ALGUM HÁ 10 DIAS. APÓIEM A INVESTIGAÇÃO DOS OFICIAIS QUE ESTÃO A CAMINHO E MANTENHAM SIGILO ABSOLUTO DO CASO.
Sarah assentiu e a comunicação encerrou-se.
_ Puxa, ela é tão amistosa! – Sanchez comentou.
Sarah suspirou e voltou-se para Joshua. Mais essa agora... - Benrubi, assuma. Implemente as coordenadas e aguarde 15 minutos antes de contactar a capitã para informá-la.
Joshua assentiu, sabendo que Sarah queria dar um tempo para Diana e Jordan.
_ Sim, senhora.
****
Quando Sarah entrou no gabinete de Düff viu um homem que jamais tinha visto em sua vida: Melrik estava de cabeça baixa, seu corpo sempre alinhado e retilíneo estava encolhido. Agora tudo o que pensava ser fácil de resolver fôra por água abaixo.
_ Vou encaminhar minha licença, Imediato McKenna...
Sarah se sentou de frente pra ele. – Sinto muito, Melrik, mas acabamos de receber ordens para rumarmos para Mephisto 7. – Ele a encarou. – E você sabe a encrenca que tem lá. Vamos precisar de você...
_ Sarah, eu não posso ficar...! – ele murmurou angustiado, a voz trêmula.
Sarah sorveu o ar devagar e o fitou com certa... doçura. – Você é viúvo, não é, Melrik?
_ Sim...
_ Chegando em Vulcan sua família iria ou arranjar um casamento às pressas para você, o que nem de longe é algo adequado, ou indicar uma concubina para “ajudá-lo”...
_ Minha família não tem concubinas, T’Sarahk de Sernick... – o olhar dele era duro, sua irritação mal contida.
_ Não disse isso para ofendê-lo, Melrik – Sarah murmurou em vulcano. – Perdoe-me, mas o que será feito por você lá pode ser feito aqui... E nós precisaremos muito de você. A viagem do ponto em que estamos para Vulcan é vinte vezes mais distante do que de Ablag 3 para Vulcan...
Ele baixou a cabeça. Estava confuso, cansado, se sentindo... sofrido.
_ Não quero envolver nenhuma mulher vulcana da nave nisso...!
Sarah pôs a mão no ombro dele bem devagar. – Por enquanto podemos apenas ancorar sua mente a de alguém em quem confie suficientemente para amenizar seus sintomas... Alguém que tenha a mente controlada e sóbria para tanto...
Düff se aproximou. – Esses sedativos vão manter seu organismo mais tranqüilo até que vocês decidam as próximas etapas de seu... “tratamento”, Melrik.
Sarah pôs a mão em seu rosto, sabendo que naquele momento todos esses gestos eram possíveis e necessários.
_ Eu farei todo o necessário para protegê-lo nesse momento, Melrik.
_ Eu sei, T’Sarahk.
DEZ MINUTOS DEPOIS...
O comunicador soou.
_ D’ANGELIS, QUAL SUA POSIÇÃO?
Ele sorriu para Diana e abriu o comunicador fazendo um meneio com a cabeça negativamente como se a diversão dos dois tivesse acabado.
_ Estou um pouco longe da posição do grupo avançado, Benrubi. Numa das pequenas ilhas a oeste da plataforma de aterrissagem. Já encontrei a Capitã e estamos a caminho.
_ENTENDIDO – e fez uma pausa, sabendo que tinha estragado um dos raros momentos deles. – SINTO MUITO, JORDAN, MAS A FROTA MANDOU UMA MENSAGEM DE PRIORIDADE DOIS PARA RUMARMOS PARA MEPHISTO 7. OS TRIPULANTES DO POSTO AVANÇADO DE LÁ NÃO RESPONDEM CONTATOS HÁ 10 DIAS. VOU TELEPORTÁ-LOS EM CINCO MINUTOS.
Ele encarou Diana.
_Acho que vou seqüestrar você da próxima vez...
Ela sorriu.
_ Vamos ter que planejar isso muito bem...
****
Diana desceu da plataforma e encarou Sarah com um sorriso.
_ Acho que alguém está me sabotando.
Sarah ergueu a sobrancelha. – Alguém?
_ Algum deus nesse setor do quadrante.
Sarah sorriu balançando a cabeça. Diana estava de bom humor, mas não podia adiar sua conversa com ela.
_ Preciso conversar algo sério com você.
_ Sobre Mephisto 7?
Elas seguiram pelo corredor até o turboelevador.
_ E sobre Melrik.
O tom de Sarah fez Diana voltar-se para ela e encará-la.
_ Algo errado com ele?
A cabeça de Sarah moveu-se num gesto curto.
_ Vamos para o meu alojamento.
****
Chayenne terminou a inspeção da nova nave mãe do exército narlogiano. Fôra uma semana de inspeções, reuniões, relatórios para que as novas naves venizianas fossem aprovadas. Haviam sido encomendadas com as modificações novas sugeridas por Chayenne e realmente tinham sido fabricadas como o exigido. O trabalho dos venizianos era bom mesmo.
Chayenne suspirou enquanto tomava o elevador para a torre do governo. Sabia que a Federação não tinha registros significantes sobre aquela raça. As narlogianas, até onde sabia, eram a única espécie que tinha contato confirmado com eles. E tinham um acordo: nada sobre eles seria revelado a outras raças. E elas o cumpriam.
Algumas oficiais da Frota haviam tentado descobrir dados sobre os venizianos. E haviam sido sumariamente expulsas de Narlog.
A “Frota” – diga-se Dissuasão – parou de tentar investigá-los através delas.
Quando entrou no salão de audiências, Khya veio ao seu encontro. Sorriu para ele e ele retribuiu.
_ A Atlantis está vindo para este setor!
Chayenne sorriu largamente, ficando um pouco eufórica. – Ah, Khya, que bom! Será que vêm até aqui?
Ele falou sério: - Sarah quer vê-la.
Conhecia bem aquele homem. As palavras eram trabalhadas por ele com perícia, assim como ouvi-las era um dom especial. Sarah McKenna queria vê-la? Havia algo no que ela dissera que deixara o andoriano apreensivo.
_ Só disse isso, Khya?
_ Pra mim foi suficiente, Chayenne. Ela parecia... interessada.
_ Quando eles chegam? – indagou seguindo para sua mesa onde muitos problemas a aguardavam. Estava tentando negociar uma paz com os rebeldes, incutir, com o apoio de muitas mulheres, uma forma mais “amena” de se tratarem os homens, e facilitando a organização de grupos de mulheres pelo planeta para que, através delas, a escravidão passasse a se debatida, discutida e, esperava que num futuro não muito distante, abolida.
_ Em três dias, mas não creio que venham até aqui.
Chayenne suspirou. Os problemas de Narlog eram muitos. Não podia querer fazer tudo de uma vez só. Nem tinha condições para isso. Narlog não mudaria de uma hora para outra e aprendera que não seria mais um planeta federado, com leis e costumes genéricos, e que respeitar isso era essencial para que aquele povo se desenvolvesse rumo a alguma espécie de igualdade entre os gêneros.
Era uma cultura rica, interessante, profunda, e se haviam cometido erros e sido injustas com seus mais fracos, isso não as fazia pior que qualquer outra cultura humanóide agregada a Federação.
As palavras de Zimmer não saiam de seus pensamentos nunca... “a Federação é uma fôrma onde todas as culturas devem ser transformadas na cultura terráquea? Será que isso é o melhor caminho para todos?”
Aquilo lhe doía. Sentia-se uma praga, um câncer, algo que vinha sobre qualquer coisa, a consumia e depois nada do que havia antes restava, apenas as fezes do agressor...
Suspirou de novo e encarou seu marido. – Mande providenciar uma recepção caso se confirme a vinda dela. E retorne a comunicação dizendo que a esperamos ansiosamente.
Khya sorriu. – Sim, querida.
****
Diana suspirou devagar, apertando os olhos e os lábios.
_ Mesmo que ele desembarcasse na estação 132, não haveria nenhuma nave nos próximos 30 dias. Ele ficaria sozinho e esse não é o momento para isso, Diana. Precisamos dele, mas ele precisa de nós.
O’Conell a encarou. Sabia que da estação 132 ele levaria mais 12 dias até Vulcan. Ele não agüentaria. E, como Sarah afirmara, o que seria feito por ele lá, poderia ser feito por eles ali.
Que loucura...! Sentia medo. E não conseguia discernir se era por si mesma ou por Melrik.
_ Por que você não o ancora?
Sarah fechou e abriu os olhos devagar.
_ Em seu atual estado, ele não suportaria minha mente. Ela não funciona mais de um jeito que Melrik entenda.
Diana assentiu em silêncio, compreendendo e recordando que a mulher a sua frente não era mais vulcana fisiologicamente. Se havia alguém que pudesse ser da mais plena confiança para Melrik, principalmente naquele momento, era ela. Estava mais do que na hora de retribuir sua dedicação, sua amizade, sua lealdade.
_ O que devo fazer?
_ Vou ampliar o elo que vocês já tem. Manter-se calma, serena, suave, fará para ele uma base emocional na qual se apoiar.
_ E depois, Sarah?
Sarah pôs as mãos para trás. – Devo preparar alguém para passar com ele o Pon Farr.
_ Alguém? – Diana a encarou com os olhos rapinos. – Quem?
_ Não sei ainda.
_ Mentira. Claro que já fez sua seleção.
_ Quer que eu seja clara? Você é o ideal. Mas você tem seus pudores, seu namorado, a escolha é sua.
_ Não é uma questão de pudor! Seus métodos de trabalho e Jevlack são bem permissivos, Sarah, mas não confunda seu comportamento como convencional!
Sarah sorriu, pois sabia de sobra que Diana sempre olhara com restrição seus métodos. – Sim, meu homem compreende bem que sempre farei o que deve ser feito, independente de... “convenções”. Mas isso não quer dizer que ele aprove tudo ou que eu não leve em consideração os sentimentos dele.
Diana suspirou e a encarou. – Não quis ofendê-los, Sarah... Só não é o meu jeito de agir...
_ Eu sei, Diana – e se aproximou dela. – Se você não quiser, ele não precisa saber... Mas agora apenas pense. Quanto a Mephisto 7, faremos uma avaliação do que temos sobre eles e o que a Dissuasão anda querendo daquele setor. Nós duas sabemos que nesse assunto não é muito inteligente apenas seguir as ordens que ainda virão.
_ Contacte Chayenne. Apenas ela pode nos ajudar. Não quero me meter com os venizianos sem saber quem está com a razão nessa história.
Diana a viu sair.
Como ela se atrevia a pedir isso dela?
Por mais amiga de Melrik que fosse, por melhor que compreendesse os costumes vulcanos, não estava preparada para encarar tudo aquilo com a simplicidade com que lhe fôra apresentada.
Mesmo apenas ancorar sua mente não seria fácil, sabia disso. Ele não seria o Melrik lógico, calmo e ponderado, mas um homem ansioso, lascivo e... excitado.
Teria controle suficiente para ajudá-lo? Seria capaz disso ou se perderia em sua confusão e dor?
E, para temperar tudo isso, ainda havia Mephisto 7...
_ É, nada vem aos poucos para esta nave...
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“As entregas foram feitas, minha senhora”.
“Isso é bom”.
“Os humanos estabeleceram bases em Ocilitk, minha rainha. Confirmamos no retorno. Decidimos não agir antes de apresentarmos os dados para a sua decisão”.
“Bem pensado, meu fiel. Prepare-se para apresentar suas informações” – e se voltou para outro. – “Convoque todos os antigos” – e se ergueu, as ramagens oscilando levemente com o vento morno. – “Os humanos foram longe demais”.
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O campo iluminado pelas duas estrelas, amarela e anã vermelha, era aconchegante e vasto. A vegetação era exuberante em volta da extensa área, cuja vegetação rasteira, branca bioluminescente, brilhava acentuando a sensação de luz em todas as direções.
As construções eram baixas, com os tetos transparentes e móveis, estendendo-se através dos campos e florestas, às vezes adentrando as montanhas, num ininterrupto monumento cuja existência se fazia unicamente por causa da fragilidade as intempéries que as plantas de vida fixa, mas também conscientes, haviam adquirido ao longo dos séculos, servindo aos venizianos como depositários vivos e por escolha livre da informação deste povo.
Apesar desse desenvolvimento tecnológico, a maioria da população móvel ainda vivia ao ar livre, produzindo sua própria alimentação com a água e os sais minerais do solo e com a luz das estrelas e o gás carbônico e o oxigênio do ar.
Tinham a forma humanóide os que se locomoviam, mas faziam fotossíntese. Os venizianos não eram animais, mas sim vegetais superiores conscientes e pensantes. Uma incrível raça com mais de 300.000 mil anos de civilização e que haviam alcançado as estrelas há 3.000 mil anos.
Haviam iniciado a colonização dos planetas nus, mesmo sem água e atmosfera em torno de si. Transformavam com a calma e a persistência vegetal esses planetas, conscientes que um dia abrigariam outras formas de vida, desejando e trabalhando para que estas não destruíssem o relacionamento profundo e apaixonado que estabeleciam com estes, dando-lhes uma nova atmosfera e meios para abrigarem formas de vida mais frágeis, como as que não faziam fotossíntese ou processo similar, e que necessitavam se alimentar das que o faziam.
Os venizianos entendiam e respeitavam o ciclo da vida. Mas em seu planeta de origem os seres heterótrofos não haviam alcançado grande porte e se alimentavam de outros que haviam aprendido a aproveitar apenas a matéria orgânica não mais viva.
Ocilitk, Mephisto 7 para os humanos, era o mais recente planeta em processo de preparação. A primeira etapa, iniciada há 700 anos atrás, era a de implantar os filhos, venizianos em sua 1ª fase de vida, extremamente resistentes às intempéries de planetas jovens, e que só alcançariam sua 2ª fase consumindo freneticamente o metano e o gás carbônico de uma atmosfera extremamente quente, aprofundando suas raízes no solo instável e de difícil adaptação de um planeta geologicamente ativo para qualquer outra forma de vida, até que, juntos, venizianos e planeta, alcançassem a estabilidade para 3ª fase, depois da atmosfera estabelecer-se.
Era um processo longo quando ocorria por si só, mas como os venizianos agiam corrigindo e suprindo cada necessidade operacional do processo, as fases de transição climática e geológica eram adiantadas e amenizadas, ocorrendo a estabilidade ambiental em menos séculos que um processo “normal”.
Não o faziam sozinhos, é claro. Em cada fase era necessário serem introduzidas uma diversidade de espécies que contribuíam a seu próprio e natural modo para as transformações do planeta.
A atmosfera de Ocilitk estava entrando na fase 2. Logo o clima se estabilizaria e eles poderiam introduzir espécies mais frágeis porém essenciais na transformação dos gases respiráveis que contribuíram para o resfriamento da atmosfera e sua estabilização.
Pouco tempo... talvez mais 500 anos...
Se os humanos não interferissem...
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Diana, de pé diante da escotilha de seu gabinete, segurava nas mãos a lâmina afiada, semidesembainhada, que Sarah dera a ela quando se tornara madrinha de Fiona. Uma madrinha, uma “mãe postiça”, era, para os vulcanos, uma segunda mãe realmente, uma tutora, para defender a pequena menina como a própria mãe o faria: e Sarah escolhera um presente que simbolizava ao extremo suas ações pela filha, a capacidade de decidir matar pela menina, que Diana acatara e jurara fazê-lo se necessário.
Simbolismos. Juramentos. Comprometimento.
Criara laços profundos com aquela nave, mas principalmente com as pessoas que dividiam com ela a responsabilidade por todas aquelas vidas... Sarah e sua família, Jordan, Ness, Melrik...
Melrik...
Passara muitos momentos de sua vida adulta ao lado do vulcano. Ele a apoiara em seus momentos mais difíceis: na morte de Paul e do bebê que não nascera, na prisão klingon, e em muitos outros momentos de perigo e dor.
Sempre a seu lado, sempre disposto a dar a vida por ela...
Sentia agora medo dessa dedicação que sempre lhe fôra tão cômoda. Não era tão tola a ponto de já não ter percebido, mesmo inconscientemente, a medida daquela dedicação...
Mas tinha Jordan... era por ele que seu coração se emocionava, era ele que desejava ardentemente em sua cama e em seu coração, mas sabia que tudo o que Melrik representava não podia ser ignorado ou misturado com seu relacionamento com Jordan. Ela mesma não tinha o direito de dar as costas às necessidades de Melrik apenas porque tinha Jordan. Se pudesse ser lógica, os dois homens não a estavam dividindo no mesmo plano de relacionamento. Não podia de forma alguma confundir o que tinha com Jordan com o que devia a Melrik.
Suspirou.
Mas não conseguia separar essas coisas. Não conseguia encarar aquilo sem conflito. Se ajudasse Melrik se sentiria traindo o relacionamento com Jordan. Se não o fizesse se sentiria traindo a amizade dedicada do vulcano.
Não podia se manter num impasse, no entanto.
_ Sarah?
_ PROSSIGA, SRA.
_ Venha até meu gabinete, por favor.
_ SIM, CAPITÃ.
****
Sarah entrou no gabinete de Diana e a fitou. Sabia o dilema dela. E sabia o que ela diria.
_ Eu... não posso, Sarah...
_ Eu entendo, O’Conell. Você é uma humana, é natural que não absorva esse tipo de... costume.
Diana a encarou. Sabia que a vulcana não a estava criticando. Mas...
_ O que você fará?
Sarah meneou a cabeça, quase sorrindo. – O que for preciso.
_ Eu o ancorarei.
_ Acho melhor não. O Pon Farr necessita de uma interação completa. Vou trabalhar outra forma de controle com ele – e se aproximou da saída. – Não se preocupe. Ele não saberá que eu a convidei.
Sarah saiu e Diana encarou a escotilha.
_ Mas eu sempre saberei...
UM TEMPO DEPOIS...
Encostou a cabeça na parede transparente, os olhos fechados, vestindo apenas uma lingerie branca e de renda. Em suas costas, agora brilhando de um jeito quase vivo e fantasmagórico, estava a tatuagem ablagiana de um drakirin, uma espécie de réptil daquele planeta que vivia nas áreas mais desérticas, que suportava longos períodos de privação, comendo pedra quando nada mais havia e, o que o tornara o animal mais respeitado daquele povo místico, optava em não comer e morrer, se isso implicasse na vida de outro animal ou planta que também fossem raros no mesmo ambiente. Era um símbolo real de força, coragem e escolha. E abnegação. A Esfera escolhera reproduzir aquela tatuagem na nova pele de Sarah, dando a ela toques tridimensionais impressionantes.
O que faria? Melrik não queria de jeito nenhum que uma tripulante vulcana o ajudasse.
O que faria? Precisava de Melrik em Mephisto 7. Ele conhecia bem o planeta, afinal fizera os relatórios, e todos os dados sobre os venizianos haviam sido compilados por ele também.
Bem, como dissera, não adiantaria deixá-lo ir para Vulcan. Agora, acima de tudo, tinha uma responsabilidade a cumprir como vulcana, ou ex-vulcana, pois sempre respeitaria os costumes de sua origem.
Atravessou o alojamento e pulou sobre a cama.
“Janus, preciso ancorar a mente de Melrik. Ele está no Pon Farr. É aceitável para você?”
Sentiu o sorriso dele.
“Faria diferença se eu dissesse não?”
“Mas é claro, se não eu não estaria perguntando, seu bobo!”
COMPLETAR
Sentou-se na cama e depois foi até o guarda-roupa, buscando o uniforme.
****
Capítulo II.
Diana entrou no alojamento e seu coração disparou com o que viu: Melrik estava deitado no colo de Sarah, sobre a cama, que com uma das mãos acariciava os cabelos dele e com a outra trabalhava num pad.
Melrik sorriu para ela e não se mexeu e Sarah ergueu os olhos e deu um leve sorriso.
_ Precisa falar com um de nós, capitã?
Diana não demonstrou a sensação desconfortável que tal cena provocara nela.
_ Com os dois. Sobre Mephisto 7. Acabo de receber ordens complementares. Vamos ter que descer e limpar o local.
Limpar... Como a Dissuasão era cara de pau...
Sarah afastou o pad de forma que Diana pode ver sua tela.
_ Precisamos saber a localização de algum ponto mais preciso de estacionamento ou posto de vigília dos venizianos – e Diana olhou o pad, sentada no sofá do lado esquerdo da cama. – Chayenne vai ter que nos ajudar.
Melrik se pôs de lado, com a cabeça apoiada em um dos braços e o outro estendido sobre a perna de Sarah, a mão pousada sobre o joelho desta.
_ Falaremos com ela então. Quaisquer que sejam as ordens da Dissuasão, devemos tentar contactar os venizianos e ampliar nosso conhecimento sobre a intenção deles para podermos tomar nossa decisão definitiva sobre as ordens que recebemos. Eles estão no território deles. Somos nós que devemos negociar. O que quer que tenham feito com a turminha da Dissuasão eles mereceram.
Diana o encarou surpresa. Não com o que ouviu, mas com o tom de voz dele: levemente mais grave e baixa, um pequeno e evidente sorriso acompanhando cada palavra.
Mas a mão dele, acariciando a perna de Sarah, a deixava fora de si. Como ele podia estar... assim?
_ Nossas ordens mexeram comigo...
_ As coisas são bem simples, O’Conell – Melrik a fitou com aquele sorriso irritante. – A ordem da Dissuasão é ridícula. Não concordamos com isso e precisamos fechar um posicionamento definitivo a respeito. Contactaremos Chayenne imediatamente e depois disso poderemos avaliar e direcionar nosso posicionamento com todos os dados que teremos.
Diana o encarou. – Você parece bem revoltado.
_ Nunca gostei de certos métodos da Dissuasão, O’Conell. Você sabe disso.
Sarah sorriu devagar. – Melrik está certo. O que acontecerá de fato nesse caso depende inteiramente de nós.
_ Sim – Diana murmurou olhando o disquete com as ordens da Dissuasão. – Esperaremos a Nautilus e sua carga nas coordenadas estabelecidas. Encontro vocês no meu gabinete em 15 minutos.
Sarah fez menção de levantar, mas Melrik se sentou e a segurou pelo antebraço. – Em 15 minutos então, O’Conell.
Ele falou sem olhá-la: fitava a vulcana de uma forma muito evidente para qualquer mulher.
Diana se ergueu, constrangida e irritada. – Vou ordenar dobra máxima, para que tenhamos vantagem sobre a Nautilus – e saiu.
Sarah se voltou para Melrik. – Por que fez isso, Melrik?
_ Você não sabe?
Sim, claro que sabia. Ele quis provocar ciúmes em Diana. Aquilo era engraçado.
_ Devo ir.
_ Antes... – e a envolveu pela cintura. Sarah inclinou a cabeça para trás e ele abriu a blusa dela, deslizando a boca e o nariz pelo pescoço e descendo para o colo. Apertou-a nos braços e cheirou sua nuca, soltando-a.
****
Sarah alcançou O’Conell no corredor.
_ Está com ciúmes, Diana?
_ Claro que não – Diana negou mesmo sabendo que isso era um exercício inútil com Sarah, pois certamente ela sentia com clareza os seus sentimentos. A encarou. – Você não o está iludindo?
Sarah ergueu as duas sobrancelhas e sorriu. – Não sou “Sarah” para ele, Diana, e ele não é o Melrik que você está acostumada. Eu sou apenas uma fêmea, a que está disponível para ele. Nada mais. Os vulcanos encaram isso com simplicidade, sem elaborados idealismos para esse momento específico de nossas vidas.
_ Ele nunca conversou sobre isso comigo...
_ E nem vai conversar, Diana. E quando tudo passar, vai me olhar como se jamais tivéssemos passado por isso.
_ Por que tem que ser assim, Sarah? Você me diz que esse é um momento dominado pelas sensações e emoções, mas a mim parece o momento mais frio e objetivo dos vulcanos!
Sarah suspirou levemente. – Você tem razão. Também é assim quando não há sentimentos – e a encarou nos olhos. – Se fosse você as sensações posteriores seriam diferentes. E você sabe disso, mesmo que não admita para si mesma.
Diana parou na frente do turboelevador e suspirou, sem olhar para a outra mulher.
_ Bem, vamos ver o que Chayenne pode fazer por nós – Diana murmurou e entrou no elevador de acesso a ponte.
Sarah a seguiu.
ONZE HORAS DEPOIS, NO REFEITÓRIO DOS OFICIAIS...
_ Vai quebrar... – murmurou melodicamente, com um sorriso complacente.
A pequena a fitou de volta, sorrindo com certa malícia.
Sarah cruzou as pernas longas e de músculos perfeitos, balançando o pé com indolência.
Fiona contemplou o pequeno objeto em suas mãos com mais paciência. Girou-o nelas em várias direções tentando descobrir como abri-lo.
Os passos silenciosos de Melrik não a fizeram se voltar.
_ Ela não é muito pequena para a caixa tartan?
Sarah continuava sorrindo com os olhos fixos na filha.
_ Sim, é, mas também pode ter sucesso – e se voltou para ele. – Minha intenção é ensiná-la a controlar sua força e impaciência.
Melrik sorriu para a pequena e encarou Sarah. – Mentalmente Fiona tem a idade de uma criança vulcana de 10 anos, mas cognitivamente ainda assim tem seus justos 2 anos.
Sarah concordou com um aceno de cabeça.
_ Se pudesse, ela ficaria com você.
Ele olhou para frente taciturno. – Essas sensações passarão junto com o Pon Farr.
_ Não são apenas “sensações” e você – e ela – sabe disso.
_ Não importa. Estou plenamente satisfeito com sua ajuda.
Sarah teve vontade de rir. – Vou levar Fiona para o alojamento de Düff. Chayenne deve nos responder em breve, espero.
Ele se ergueu. – Tentar fazer as coisas por moral e justiça é algo que cobrará seus dividendos a velhos guerreiros das sombras como nós...
Sarah assentiu sem encará-lo. – Não duvido que este dia tenha sido esperado com ansiedade por nós esses anos todos. E, mesmo apesar de tudo o que sabemos, quem de nós realmente se importa com o preço a ser pago?
Melrik sorriu fugazmente. – “Alforria” é uma palavra que me vem à mente.
****
Diana olhava as estrelas pela escotilha de seu alojamento não sabendo o que realmente pensar sobre os últimos acontecimentos.
Deveria dormir, deveria descansar a mente para poder enfrentar os acontecimentos que viriam.
Questionava-se se implementar as ordens que recebera da Dissuasão quanto a Mephisto 7 eram... sensatas.
As ordens lacônicas – “ajudem o grupo a caminho no que precisarem para limparem o local” – certamente para ela, e qualquer novato do Departamento, significavam que algo incorreto ia acontecer, e “incorreto” era um brutal eufemismo de sua parte.
Olhou em volta, tentando buscar satisfação na visão da cama.
Suspirou. Esperaria que o grupo do Departamento chegasse e revelasse – se revelasse espontaneamente – o que queria fazer.
Com toda a sinceridade, receber e executar ordens não era algo que lhe fizesse perder o sono, independente do conteúdo da ordem. Mas algo já há algum tempo estava diferente dentro dela. Já há algum tempo a Atlantis se tornara sua casa, seu refúgio de seus antigos inimigos. E de seus “amigos”.
Procurara trabalhar com o máximo de honestidade em prol da Frota e da Federação, sem ilusões, é claro, mas com a real vontade de contribuir, de tornar seu trabalho honesto, visível, verdadeiro...
Deitou-se suavemente na cama, os olhos bem abertos para o teto do alojamento.
Desde que ela e Jordan haviam aprofundado seu relacionamento, a perspectiva de ter um futuro e uma velhice normal se tornara, mesmo que subconscientemente, algo desejado com extremado afinco. Passara a fazer planos. Fazer planos! Passara a desejar paz, pois Jordan a fazia querer ter uma vida tranqüila, uma vida onde não tivesse que temer por sua vida ou pela vida dele.
E sabia que esse era um desejo dele também, um desejo que partilhavam com muito amor.
Seu lado sofrido e prático, no entanto, lhe dizia que estava se iludindo. Mas aquela ilusão se tornava cada dia maior dentro dela. E não queria sufocar isso. Não iria sufocar. Deixaria aquele desejo crescer dentro dela e ver o que aconteceria.
Abraçou o travesseiro e dormiu em pouco tempo.
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Curiosidade seria a melhor descrição que Chayenne poderia definir como sendo a expressão do veniziano.
Como eram impressionantes! Quando os conhecera mal contivera sua surpresa e admiração. VEGETAIS! Não como muitos dos conhecidos pela Federação, de razoável desenvolvimento, não! Eles tinham uma civilização complexa muito antes dos humanos, e muitas outras raças, sonharem em existir!
Esse era o segredo mais sagrado das narlogianas: o planeta delas havia sido colonizado por aquela raça incrível! Como? Os registros não estavam no planeta, é claro. Certamente no planeta principal dos venizianos. Aquele nome, aliás, lhe soara muito esquisito depois que soubera tudo aquilo e lhe fôra explicado que era apenas uma corruptela fonética na língua narlogiana de alguns sons que os venizianos produziam no conjunto complexo de ações diversificadas que usavam para se comunicar com seus “filhos”.
O comportamento das narlogianas não era “culpa” deles. O desenvolvimento posterior das espécies introduzidas na fase final dos planetas era observado passivamente, sem interferências. Haviam até cogitado, depois da guerra química que destruíra um grande número de espécimes, em abandonarem o planeta Narlog para sempre.
Chayenne sorrira para si mesma quando soubera isso. Diferente de outros “deuses criadores”, os venizianos sequer haviam aventado a hipótese de destruir suas tolas criaturas.
E deixá-los a própria sorte teria sido um castigo muito melhor, com certeza.
No entanto, o que a deixara realmente emocionada agora era a bondosa aceitação, e provavelmente inédita, da visita dos humanos.
Com certeza a escolha na Atlantis era óbvia: Sarah McKenna e Melrik eram os membros da cúpula com maiores e mais bem controladas capacidades telepáticas, e seriam capazes de “conversar” com os venizianos.
_ Khya, entre em contato com a Atlantis.
DOIS DIAS DEPOIS...
“_ Diário de bordo: data estelar 12.775.3, Primeira-Oficial McKenna registrando. Depois de deixarmos o planeta XLM 923 antes mesmo de iniciarmos a inspeção anual de rotina no posto avançado deste, a Atlantis atendeu a um chamado de urgência da Frota e rumamos para o planeta classe L Mephisto 7, onde mantemos órbita padrão há 27 minutos. Um grupo avançado composto pela capitã O’Conell, engenheiro Carlyle, Conselheira Stuart, sra. Stauber, dr. Düff e mais cinco alferes de segurança, investigam o estranho e repentino desaparecimento da expedição científica Einstein, instalada no hemisfério norte do planeta. O último contato com a Frota não nos dá indícios de qual espécie de perigo poderiam estar sofrendo.”
McKenna apoiou o cotovelo no espaldar da cadeira de Diana pensativa, após entregar o diário a ordenança de ponte Cíntia Araújo. Mephisto certamente não era o melhor lugar do mundo para se visitar ou trabalhar. Um planeta turbulento, de regime climático furioso e com uma vizinhança da pesada, como diria Fiona. Não, não era o melhor lugar para se começar uma terraformação, mas quem disse que ali havia uma? Ah, sim, oficialmente havia uma proto-análise para isso, “cientistas” estavam lá para isso.
Suspirou. Pensar em que encrenca a Dissuasão havia se metido não era difícil. O pior de tudo é estarem ali para socorrê-los. Ela e Diana já haviam mandado um relatório contrário a uma interferência da Inteligência naquele setor há um ano atrás, aconselhando-os a não iniciar nenhuma atividade que viesse a expor a Frota e a Federação, pois os conhecimentos que se tinham dos venizianos ainda eram escassos para considerá-los inimigos. Eles não queriam contatos e ponto final. Um trabalho de aproximação lento, mais sistemático, orientado por diplomatas era a recomendação que haviam assinado no relatório.
O que, era evidente, havia sido solenemente ignorado.
As instalações do posto avançado, com exceção da sala de transportes, estavam intactas, assim como, aparentemente, as pesquisas que estavam sendo desenvolvidas, intocadas por ordens da “Federação”. Simples e misteriosamente, os 16 cientistas haviam desaparecido.
_ SALA DE TRANSPORTES PARA O COMANDO: GRUPO AVANÇADO A BORDO.
_ Entendido, sr. Ibirapitanga – a vulcana respondeu sem inflexão alguma na voz.
_ A capitã está na Enfermaria, sra. McKenna. Mandou avisá-la que quer uma conferência de avaliação em 05 minutos.
_ Entendido, sr. Ness.
Era a primeira vez que vinham a Mephisto 7. Sondas lançadas há apenas um ano atrás haviam descoberto a riqueza mineral do planeta, assim como a circulação dos venizianos, antes de serem destruídas.
_ Comunicado do Comando da Frota, sra. McKenna – Ness anunciou atento aos sinais que recebia. – “Contato com a nave Nautilus para transferência de passageiros” – o ruivo oficial de comunicações olhou para frente, um pouco irritado, coisa que não lhe era muito comum. – Por que precisamos receber esses comunicados da Frota, meu Deus? Eles deviam nos poupar pelo menos disso...
Sarah não o fitou, mas Ness tinha razão. Aquela encenação não tinha a menor necessidade de acontecer. Mas a ponte, com todos os seus mecanismos de registro de imagens e sons, não era o lugar ideal para comentários sinceros.
_ Infelizmente isso deve ficar registrado para a posteridade, Ness. Aguarde o contato de Chayenne e passe para o gabinete da capitã.
O rapaz assentiu e voltou aos seus afazeres.
Sarah se aproximou de Joshua, que não se voltou, ocupado com os dados recebidos da Frota sobre o grupo especial que estava a caminho de Mephisto 7. Diante dos olhos profundamente azuis de Benrubi estavam listados os nomes daqueles homens não “convidados”.
_ Algum problema, sr. Benrubi?
_ Não, sra. McKenna – Joshua murmurou sem convicção, acompanhando os olhos castanhos de Sarah voarem da tela para o rosto dele sem demonstrarem qualquer mudança aparente.
_ Faça-me um relatório então, sr. Benrubi – ela pediu com uma suavidade quase sarcástica.
_ Grupo Especial da Dissuasão, composto por dois sargentos de operação, dois sargentos de inteligência especial e um tenente comandante.
Sarah olhou para a tela, lendo os nomes dos cinco oficiais do Departamento de Inteligência e suas fichas. – Sargentos de inteligência especial? – e quase riu. – A Dissuasão está inovando.
Sarah se afastou, a perna de Joshua esbarrando na sua quando se voltou para olhá-la. – O meu relatório de segurança estará completo antes da chegada deles.
McKenna o fitou por um momento e assentiu, saindo. – A ponte é sua, sr. Benrubi.
NA SALA DE REUNIÕES...
Sarah chegou dois minutos antes dos outros e se sentou em seu lugar pensativa. Como uma oficial comandante ligada aos assuntos da Frota naquele setor – aliás, todos os assuntos realmente importantes daqueles setores e seções eram fornecidos por eles a Frota – Sarah sabia que a expedição desaparecida não era apenas científica. E com a ágil intervenção do Departamento da Dissuasão, isso vinha demonstrar o quanto a Frota, ou alguém na Frota, estava preocupada.
Diana entrou, cortando seus devaneios, acompanhada por Stauber, Stuart e Carlyle. Melrik e D’Angelis entraram em seguida.
_ Relatórios, McKenna.
Sarah apertou uma tecla e o painel telão da mesa iluminou-se. – Os técnicos da Dissuasão estão a caminho, capitã. Como recebemos ordens de não “tocar” em nenhum registro ou disco, não tenho muito mais a acrescentar.
Diana afastou um pouco a cadeira e cruzou as pernas, fitando-a, e assentiu com compreensão. O relatório de Narlog certamente seria interessante. McKenna vivera um período tranqüilo e feliz durante o primeiro ano de vida da pequena Fiona, mas de alguns meses para cá estava cada vez mais seca, enérgica, concentrada, quase irascível. Parecia sempre pouco à vontade na presença de Gina Stuart, como se ela fosse uma intrusa, o que para Diana não deixava de ser verdade, mas não a incomodava tanto quanto fazia com a vulcana engendrada.
Vulcana engendrada... Diana sabia que chamá-la assim agora era apenas um hábito...
_ Sra. Stauber, exponha o que conseguimos.
_ As leituras dos sensores de longo alcance não indicam qualquer anormalidade, interferência ou mudança fora dos padrões no e do planeta. Não há sinais de resíduos radioativos e plásmicos nas varreduras a curto alcance. As de longo alcance continuam sendo efetuadas.
Carlyle deu conta das análises espectrográficas onde nada de excepcional havia sido detectado. Como o mais importante viria de Sarah e Melrik, Diana tratou de dispensá-los.
Stuart girou sua cadeira na direção de Diana, que a encarou:
_ Deseja acrescentar algo, srta. Stuart?
Gina falou com seu sorriso prepotente: - Eu gostaria, mais uma vez, de re-interar meu convite a todos vocês para uma conversa. Meu histórico sobre sua Primeira-Oficial, por exemplo, ainda está incompleto até hoje.
_ A senhorita já fez um requerimento oficial, decerto – Diana replicou com tranqüilidade.
_ Já. Todos os meses nesses três anos.
Diana teve vontade de rir.
_ Pois nesse caso já não é mais da minha alçada, senhorita Stuart. Minha Imediato, assim como todos nós do comando desta nave, têm diversas obrigações e certamente deve ter encaixado sua requisição como assunto não prioritário. Assim como todos nós. Aliás, aproveitando, eu gostaria de lhe dizer que a sua função não é obrigatória quanto aos oficiais desta nave: a senhorita está aqui por causa dos civis e não deve se preocupar com meus oficiais.
Gina a olhou sem palavras. Então finalmente O’Conell lhe dissera para ficar longe de seus oficiais, coisa que eles já vinham fazendo a um bom tempo, mas sempre tentando criar uma desculpa para isso.
_ Está me destituindo das funções que o Comando da Frota me designou, capitã?
_ Senhorita Stuart, - toda vez que Gina ouvia isso tinha vontade de gritar – o Comando da Frota também deixou bem claro que seu cargo é experimental, e que o melhor aproveitamento e desenvolvimento do mesmo se daria pela experiência em campo, que eu e meus oficiais coordenaríamos. – Diana sentia-se quase aliviada. Agüentara aquela mulher fuçando em sua nave por quase três anos com uma paciência calculada na qual era mestra. Eles haviam neutralizado sua presença, apesar de saber que em muitos casos aquilo era impossível, além de saberem que ela fazia relatórios duplos. Por quanto tempo mais ela agüentaria estar ali? Diana achava que ela estava no limite. – Os problemas de adaptação de alguns civis se agravaram com o tempo, criando problemas para meus oficiais seus parentes. Cuide disso e já estarei plenamente satisfeita com o seu trabalho – e se aproximou da mesa novamente. – Vamos voltar ao trabalho, senhores. Srta. Stuart, como disse antes, está dispensada.
D’Angelis pigarreou e tratou de se concentrar no relatório que piscava em seu pad. Diana desaprovava a presença daquela mulher em sua – SUA – nave e Jordan de certa forma tinha pena dela. Ela era uma rejeitada, uma pária no mundo da Atlantis, alguém “imposta e desnecessária”, como já presenciara Sarah McKenna afirmar friamente.
Gina a olhou com um sorriso suave, mas por dentro tinha vontade de chorar de ódio deles e de si mesma! Mais uma vez, em tantas, tentara alcançá-los e mais uma vez lhe fôra mostrado que ela não “fazia parte”, que ela não era uma deles. E tudo começara quando aquela maldita nave descobrira, como que por osmose, que aquela maldita vulcana não confiava nela, que tinha tido um pressentimento quando a vira pela primeira vez!
Odiava aquela nave. Odiava-a tão intensamente quanto eles todos a veneravam.
Piscou então e viu, suspirando, quando Benrubi, Sanchez, Düff e Ness entraram na sala enquanto ela saía.
****
Diana os encarou com curiosidade, no entanto sabendo muito bem o que se passava em seus corações depois do que Melrik e Sarah haviam falado sobre os venizianos e sobre as ordens da Dissuasão, assim como a conversa com Chayenne, que se comprometera a advogar por eles junto aos venizianos, e tentar fazê-los entender que eles, da Atlantis, não queriam ser hostis, mas precisavam de... ajuda.
Era estranho? Bem, afinal de contas, para aquelas pessoas ali presentes ações esdrúxulas como aquela não eram novidade. A Dissuasão queria tomar aquele planeta dentro da fronteira dos venizianos e não era também nenhum segredo a riqueza de metais e cristais de trilitium do mesmo. Seriam recursos suficientes para expandir o poder da Dissuasão nos novos planetas federados, mais distantes da sede da Federação, e ampliar suas garras sobre as bases já estabelecidas. Certamente daí viria a idéia mais acalentada de seu atual chefe, uma base estelar nova em folha para as operações do Departamento!
Mas o que Diana lhes dissera era a mais estranha das propostas que já haviam ouvido: desobedecer as ordens da Dissuasão porque eram moralmente incorretas! E fazê-lo de tal forma que não fossem sumariamente “destituídos” de suas funções – vitais, aliás - logo em seguida.
_ Em resumo, capitã: vamos desobedecer o Departamento fingindo obedecê-lo, certo?
Diana sorriu para Sanchez. – Mais ou menos isso, Dyllan.
Ele fez um gesto de indiferença com a mão. – Ah, então vai ser mole, sempre fazemos isso!
Düff riu brevemente, sem real bom humor. – O pior é que é verdade. Quantas vezes nesses últimos oito anos “ajustamos” as ordens que recebemos? A Dissuasão sabe disso, mas precisa de nós aqui. Se o almirante D tivesse opção, certamente nunca mais nos usaria. A quem ele vai dar essa ordem? Não existe outra cambada com melhor nave, melhores fichas, e perto do ponto de operação que nós.
_ Ele não tem opção, e a comodoro que nos contactou sabia disso – Ness completou pensativo.
_ Vamos ser práticos – Sarah tomou a palavra: - alguém é contra?
_ De ferrar a Dissuasão? – Benrubi pôs a mão sobre a mesa. – O mais importante é que sabemos que o que fazemos pode não ser lindo ou digno, mas também é necessário para a própria existência da Federação como é hoje. Mas o que faremos nessa questão não fará a Dissuasão desmoronar, apenas refrear seus desejos de grandeza. Somos necessários para a existência de nossa sociedade, mas devemos por um cabresto nesse cavalo que quer se tornar cavaleiro.
_ Você disse tudo, Joshua – Jordan olhou para Diana. – Agora que Konnery não está mais no comando do Departamento, não temos mais nenhuma garantia de que daqui pra frente não teremos que fazer vários desses “trabalhos” para que o novo almirante D sacie seus delírios de grandeza.
Diana sorriu. – Parece que chegamos a um consenso.
Todos sorriram, até mesmo Melrik.
****
David deixou a sala de observação e caminhou sem pressa pelo corredor. Aquele era o 2º turno, a nave estava em pleno funcionamento naquele horário, mas depois de 39 dias já não estava tão animado, pois uma classe Constitution, mesmo que reformada, não possuía tantos recursos recreativos disponíveis e a tripulação, mesmo sendo de 304 tripulantes, não oferecia tantas opções femininas humanas...
Suspirou e entrou na sala de mapas virtual, contentando-se com suas limitações. Lembrou-se da capitã da nave e de seu descontentamento – amenizado por ele – por ter que impor a nave não tão jovem dobra máxima até a fronteira do quadrante delta para se encontrarem com a Atlantis, a nave experimental mais moderna da Frota, com recursos que a maioria da Federação considerava ainda não terem passado da fase inicial de teste e que nela funcionavam plenamente há pelo menos 8 anos!
Não por acaso eles já estavam a caminho. Levavam material da seção S para um total “realocamento” dos empecilhos em Mephisto 7, de onde o novo comandante da Dissuasão – conhecido nos altos escalões como almirante ou comodoro “D” – pretendia tirar os fundos necessários para a expansão do poder do Departamento sem precisar passar através da burocracia da Federação e da Frota Estelar.
David tamborilou os dedos sobre o painel levemente. A ele não importava muito quem fosse o novo comandante do Departamento. Cumpria suas ordens, quaisquer que fossem, sem se envolver nos porquês políticos das outras seções da Dissuasão. Seu trabalho era “limpar” os locais das missões, os empecilhos secundários no desenrolar de uma, assim como “sumir” com as ovelhas desgarradas, que dentro do Departamento, em especial, eram poucas, pois todos sabiam que não existia a placa “saída” dentro dele.
Pensou sobre a Ambassador experimental mais uma vez. Não era ela que iria buscá-los, nem a Pegasus, mas uma nova nave para o setor, a Danúbio. No entanto, como o objeto da limpeza se antecipara, eles precisariam de mais rapidez e mais poder de fogo, e a famosa Atlantis era mais do que perfeita, a menina dos olhos da almirante Konnery, assim como seu corpo de elite, escolhido com eficiente esmero pela antiga e falecida almirante D.
_ Equipe Alfa 1... – David murmurou lembrando-se de cada nome da mesma. – Será um prazer conhecê-los pessoalmente... senhoras e senhores...
NA ATLANTIS, NOS APOSENTOS DE MELRIK...
_ Não faremos um elo como você entende, Melrik. Você estará atrelado a uma camada da minha mente, restrito a ela, e não tente se expandir ou se perderá nela para sempre.
Ele a fitou, de pé.
_ Sarah...
Ela quis sorrir, mas se conteve. – Tem objeções? – e cruzou as pernas, sentada na borda da cama dele.
Ele a olhou como não o faria se não estivesse naquele estado... inusitado: a olhou como mulher, admirando seu corpo forte, de músculos perfeitos e discretos, pele lisa e morena, cabelos de fios retos, compridos e saudáveis, a boca carnuda e vermelha, os olhos... os movimentos sensuais, provocadores... o cheiro...
Estava vendo Sarah com outros olhos, assim como estava vendo muitas outras tripulantes, seus dotes femininos e de fêmeas...
_ Não devo me portar com as mesmas restrições. Sei que devo fazer o que for preciso e agradeço sua... disponibilidade. – Suspirou e um leve sorriso despontou em seu rosto. – Estou em suas mãos.
_ Vem cá – murmurou tirando o casaco vermelho e as botas.
Melrik a imitou em gestos lentos e se ajoelhou junto as pernas dela. Sarah pôs as mãos nas têmporas dele apenas para que ele reconhecesse os gestos, pois não precisava tocá-lo.
Melrik sentiu Sarah em sua mente... devagar, com cuidado, parecendo uma fumaça preguiçosa, penetrando em suas sensações, em suas memórias de Vulcan, mas respeitando todas as outras...
Começou a senti-la no seu corpo, primeiro fria e analiticamente, depois com... sensualidade...
Sentiu então as mãos dela deslizarem por seu rosto com suavidade, os dedos explorando seus olhos fechados, o nariz, as sobrancelhas, a boca...
Melrik, para os padrões vulcanos, era um homem bonito.
Ele relaxou, entregando-se ao prazer leve daqueles toques, sabendo que a intensidade negativa do Pon Farr se atenuava com a quantidade de sensações prazerosas, que deveriam se acentuar até...
As mãos dela desceram pelo pescoço longo e esguio, com lentidão, deixando-o sentir a pele dela, enquanto penetrava em sua mente primitiva e estabelecia cercos de contenção, de forma que não um elo efetivo se estabelecesse entre eles, mas na verdade um controle aberto, coisa que não gostava de fazer – já havia experimentado isso na própria pele no passado – pois exigia atenção direta do controlador e só fizera com... inimigos para obter informações ou fazê-los agir como queria, mas isso por um período curto.
No caso de Melrik tinha que deixá-lo à vontade, mas sem permitir que seu lado primitivo estabelecesse ações.
Era difícil de fazer, porém em sua essência era estranho. O estava controlando, mas não o estava tolhendo. Precisava deixar o lado primitivo emergir, mas não escapar e agir indiscriminadamente.
Ela estava na mente dele, mas ele não podia se estabelecer na dela, forçando Sarah a manter uma ilusão permanente interagindo na mente dele, uma sensação de sua própria mente ligada a dele, mas que realmente não existia.
E ainda havia Mephisto 7 e as idiotices da Dissuasão.
Ele tirou a camisa e suspirou. Sarah sorriu, observando-o, e deslizou as mãos em seus ombros e braços. Inclinou a cabeça e deixou seus cabelos envolverem o rosto dele.
A reação do vulcano foi erguer a mão e abarcar os fios sedosos e levá-los para o nariz e os lábios.
_ Está na hora de você descansar um pouco...
Ele assentiu e abriu os olhos. Havia prazer no seu olhar e um leve sorriso despontou em seu rosto.
Sarah se ergueu, colocou o casaco e saiu do alojamento de Melrik, antes o fazendo se deitar na cama e verificar que ele dormira.
****
Não, fôra otimista demais em pensar que uma mulher não vulcana conseguiria entender e apreciar a intensidade daquele momento único na vida de um homem vulcano, cujas emoções eram tão profundas e intensas que um simples toque de mãos era tão valioso quanto o ato sexual o era para os humanos...
Ele acordaria, trabalharia, mas teria que ter atenção dobrada as suas ações: ele estaria expansivo, levemente bem humorado e, com as mulheres, algo que os humanos classificariam de insinuante.
Sarah sorriu consigo mesma. Aquilo surpreenderia os humanos mais atentos, mas nada muito chamativo. Na verdade, o mais adequado seria mantê-lo isolado e “acompanhado”. Isso tornaria o Pon Farr atenuado, mas não tinha essa opção. Melrik teria que cooperar da melhor forma possível, porém sabia que isso não deveria ser regra quanto mais os dias avançavam.
De certa forma aquela situação era engraçada. Seria fácil de resolver se não fosse Mephisto 7.
Entrou no próprio alojamento. Fiona a recebeu com um abraço apertado.
_ Mãe, posso ficar hoje com o tio Melrik?
Sarah se sentou e a fitou sorrindo.
_ Hum... não sei, Fiona, devo perguntar a ele antes, como sempre faço com todos os seus queridos tios e tias postiços.
Fiona a abraçou pela cintura e recostou a cabeça abaixo do seio direito da mãe. – Ah, ele vai querer sim...! Tio Melrik é legal!
Sarah a enlaçou e beijou sua cabeça castanha. – Sim, ele é mesmo, meu bem, mas deve respeitar os limites emocionais dos vulcanos.
Fiona subiu no colo de Sarah, passando as pernas pela cintura esguia e perfeita da engendrada. Sua mãe já explicara aquilo de “limites emocionais” das raças que conhecia na Atlantis e compreendia bem as de seu preferido tio depois do alemão, Melrik.
_ É, ele é... sério. Você também, quando está trabalhando.
_ Yonah também é vulcana.
_ É, vovó é vulcana – e levantou a cabeça. – Sarduk é meu avô?
Sarah sorriu e tocou a têmpora da pequena.
“Não, Donald McKenna é seu avô”
Fiona recebeu a imagem de um homem sorridente, de cabelos espessos e revoltos, claros, quase loiros e intensos olhos negros da mente da mãe.
_ Ah, mãe, não posso vê-lo?
Sarah a abraçou forte e murmurou com emoção: - Não nesta vida, amor meu, apenas no meu coração e nos pensamentos da vovó...
_ Sinto falta dela – e se ergueu, agarrando a mãe pelo pescoço e beijando-a várias vezes: - um pra ti, um pro papai, um pra vovó, um pro tio Hans, um pro pai do papai...! – e encarou Sarah sorrindo. Antes que falasse, Sarah já sabia o que a curiosidade insaciável da pequena queria saber: quem era o pai de Jevlack. Mas não podia buscar em sua mente para ela a imagem de alguém que nunca conhecera, e que o próprio Jevlack certamente ainda não podia fornecer...
_ Quer brincar comigo no holodeck, princesinha?
Fiona a beijou de novo, dando um gritinho de satisfação. Gostava do tal holodeck, onde poderia visitar lugares longe da nave e brincar com a mãe.
Sarah usava a diversão para ajudar Fiona a controlar sua força, suas diversas e complexas características fisiológicas e, aos poucos, estabelecer as bases mentais para o futuro elo efetivo que compartilhariam: da filha com ela e, através dela, um elo com o pai.
_ Então vem.
Era madrugada na Atlantis, mas para ambas aquilo era indiferente.
****
Como tinham tempo até a chegada da Nautilus, a Atlantis deixara sua posição geoestacionária sobre o posto avançado e estava iniciando uma análise espectrográfica do outro lado do planeta. A análise mal começara quando os sensores do programa de formas de vidas já identificadas começaram a anunciar algo. Mohamed e Stauber deram atenção ao mesmo tempo ao chamado e ambos ficaram muito felizes com o que viram.
_ Sr. Melrik?!
_ SIM, SRA. STAUBER?
_ Acho que o senhor gostará disso – e passou os dados que recebia no laboratório bioquímico para o console de Melrik na ponte. Estava super feliz: - São os musgos, sr!
Melrik, recebia os dados com absoluta calma. Sim, sem dúvida eram as formas de vida encontradas no macroasteróide dos klingons, mas numa profusão gigantesca, que se espalhava por todo o equador do planeta e, em algumas partes onde a água se fazia presente na superfície, já começavam a se expandir na direção sul e norte. Eram pelo menos cem vezes maiores e mais resistentes que as amostras encontradas em Ketuk.
Sarah estava junto dele. – Aparentemente, eles apreciam a atmosfera do planeta. Estão bem desenvolvidos...
Melrik assentiu e ordenou que outras análises orgânicas e bioquímicas fossem iniciadas. Nisso, os sensores de longa distância começaram a soar.
Diana entrou na ponte vinda de seu gabinete.
_ Naves venizianas, capitã! – Benrubi anunciou. – 12 no total. Uma delas eu não tenho registro... – continuava a verificação de seus painéis. – Tem 10 vezes maior massa que uma nave veniziana padrão. Deve ser uma nave capitânia.
Diana assentiu, concordando. – Manter órbita e baixar escudos. – E se sentou em sua cadeira. – Nossos convidados acabam de chegar, senhores.
****
A visão daquelas naves verde fosforescente era impressionante. Não eram as naves venizianas que estavam acostumados, apesar de apresentarem o mesmo desenho básico. Aquela cor pulsava com tranqüilidade, parecendo viva e atraente. As formas eram mais... “macias”, os arredondamentos parecendo suavemente se mesclar as concavidades que nelas tinham. A nave maior tinha uma aparência interessante por si só: seu verde translúcido deixava ver um conjunto interno de... “maquinários” que dentro dela se moviam, parecendo estar mergulhados em algum tipo de líquido e que, de fora, sinceramente a fazia parecer uma... mitocôndria!
_ Contato nave a nave, capitã... – Ness anunciou devagar, como que não querendo quebrar o encanto da apreciação a que todos estavam empenhados, assim como ele mesmo.
_ Abra o canal, Ness.
Um veniziano jovem, assim como Chayenne o descrevera, apareceu na tela. Sua forma básica corpórea lembrava um humanóide - pernas, braços, tronco, cabeça - mas haviam diferenças bem impressionantes. A pele parecia um tipo de epiderme vegetal morta, uma cortiça fina na cor ferrugem, que parecia bem macia. Não havia olhos, mas uma fenda vertical que parecia uma boca ocupava o centro daquela cabeça. Uma cascata de galhos moles, cheios de folhas, desciam a volta desta como um cabelo bem cuidado.
Diana olhou para Melrik depois de um minuto de apreciação mútua. – Ele... não vai falar?
Sarah os fitou. – Ele já falou, capitã. São telepáticos, não é à toa que não possuem olhos e boca, pelo menos aparentemente.
Diana observou sua oficial com certo interesse. Algo no seu semblante estava diferente. Podia jurar que havia um pouco de perplexidade em seu olhar.
Alheio a isso, Melrik acenou a cabeça, concordando. – Quer que dois que possam entendê-los se transfiram para a nave deles a fim de serem levados até os mais velhos, que ouvirão o nosso pedido.
Diana se preocupou. – Se chegamos até aqui, não podemos ter medo agora. Sarah, Melrik, acho que vocês são as escolhas óbvias.
Mal isso foi dito, os corpos dos dois vulcanos começaram a se desfazer em um brilho multicolorido, um pouco diferente do feixe de teleporte que conheciam.
Diana suspirou fundo e se sentou de novo. – Sr. Wiser, manter órbita padrão. Quanto tempo para até a chegada da nave da Dissuasão, sr. Ness?
_ 47 horas, sra.
****
A forma como tinham sido transportados naquela nave capitânia era a mais inusitada, não por terem ficado mergulhados – e respirando – naquele gel, mas por terem a partir dali começado a experimentar uma interação completamente diferente por serem organismos diferentes por si mesmos: eram animais tentado entender e serem entendidos por vegetais. As sensações, a linguagem, a forma absoluta de raciocínio eram díspares. O que possuíam em comum – um conhecimento superficial da cultura e fisiologia uns dos outros – foi o que serviu de base para que a telepatia se estabelecesse devagar, mas compreensível. No entanto, Sarah sentia que eles a evitavam. Apesar de haver uma tentativa lúcida e clara de estarem configurando uma forma padrão de linguagem, percebia uma aversão neles referente a sua pessoa, quase como se a temessem.
Como podiam temê-la? Era óbvio que seus conhecimentos e tecnologia mais do que justificavam uma cômoda posição de meramente se interessarem por tais espécimes animais subdesenvolvidos...
Mas eles realmente a temiam. Não concebia o motivo ou precedente, mas a temiam.
Seja como for, algo que eles perceberam claramente foi o inusitado estado fisiológico pelo qual Melrik estava passando.
Momentos depois, ou milênios depois, já que da forma que estavam imersos naquela comunicação telepática os deixava avessos a contagem pré-formatada de tempo que possuíam, a nave em que estavam mergulhou no mar velozmente, onde Sarah e Melrik perceberam que na verdade ela não era uma análoga mitocôndria e sim uma incrível alga verde!
Fascinante... Normalmente quando usava a telepatia neste nível não era capaz de perceber seus outros sentidos. Mas ela podia ver, sentir, captar odores...
Lógico! Era lógico... Suas mentes estavam conectadas a mente da “nave”, e de uma forma a serem não extensões, muito menos interfaces, mas sim iguais como um todo. Eles eram a nave, a nave era eles.
O medo, contudo, continuava. Insano, sem motivo, mas continuava. Medo e receio... receio similar a quando um condenado se dirige a seu carrasco. Mas neste caso quem fazia o papel do carrasco era Sarah e não os venizianos. Isto, mais do que as sensações novas e indescritíveis, a deixava mais e mais atônica.
Estavam como medo dela, DELA!
Por quê?
O fato de ela poder ser fria e insensível quando necessário podia ser a causa? Será que eles captaram tudo de sua mente e descobriram sobre ela, suas origens, sua concepção visando ser um ser manufaturado para uma tarefa...
Manufaturado... era isso!
Não era da vulcana engendrada Sarah Mckenna que estavam com medo. Não era da oficial da Frota, nem da agente da Dissuasão que no passado aceitou de forma passiva e ocasionalmente com entusiasmo certas tarefas. Não era...
Eles a temiam pelo que se tornou, pelo que era agora.
Mesmo sabendo do que ocorrera com ela, mesmo aceitando aquilo de forma sincera e honesta, Sarah não tinha se dado conta de um detalhe... mesmo já se passando dois anos desde o ocorrido.
Ela não era vulcana agora. Nunca mais seria.
Tornou-se outro ser, pertencente à outra raça, e herdando tudo o que esta raça oferecia. Incluindo aí a reputação.
“Kyrrakitur” - foi o sussurro mental que ouviu de forma suave – “surpreso. Fagocitando ainda?”
Foram as primeiras palavras que captou em sua mente. E não faziam sentido propriamente. Fagocitando? Por quê? Por que o uso de tal palavra? O interessante era que havia muita emoção junto com a comunicação, e neste caso a emoção sentida foi respeito.
“Não sei o que dizer – tentou transmitir em resposta – não compreendi o que disse.”
“Comunicação incorreta?” – havia emoção de surpresa agora – “Confusão? Kyrrakitur camada física ostentada, seu ser”.
“Sim, sou uma Kyrrakitur. Mas não entendi sobre fagocitando.”
“Unir com genitores primário” – sentiu um respeito maior ainda quando captou a palavra primário – “respostas melhores”.
“Eu... sim. Os seus mais velhos” – respondeu ela começando a perceber que eles a conheciam. Os venizianos a conheciam. Não a sua pessoa, mas sim a sua raça.
A raça de Jevlack.
Os Kyrrakiturs!
Eles foram liberados na praia, não houve mais comunicação então. Seus olhos se arregalaram com o que viram. Havia mais venizianos ali, mas eram diferentes do que imaginavam. Aqueles que os venizianos humanóides chamavam de mais velhos os esperavam. A maioria presente tinham várias dezenas de metros de altura e largura, parecendo árvores gigantescas cercando uma que parecia ainda maior, a mais linda, a que a simples visão emocionou profundamente os dois vulcanos, que não souberam distinguir se era uma emoção deles mesmos ou um reflexo da emoção dos venizianos neles.
Mesmo assim, mesmo com aquele deslumbre ao ver e sentir algo tão antigo, sábio e belo, ainda podia sentir o medo. Medo e receio. Eles a temiam, sem dúvida alguma e agora acreditava que tinha descoberto o porque.
A raça ao qual pertencia, os Kyrrakiturs, talvez não fosse muito amigável para os venizianos. E considerando as parcas informações sobre o poderio que eles deveriam ter, imaginou o que os Kyrrakiturs teriam para que tivessem tal medo dela agora.
Era ilógico uma guerra entre espécies tão avançadas. Totalmente ilógico!
Eles foram instados a se aproximar suavemente, o vento naquelas folhagens murmurava com delicadeza fazendo Sarah e Melrik se sentirem tão bem como nunca antes em suas vidas, e perceberam que aquela não era uma sensação propriamente deles, mas sim de seus amigos vegetais. Sarah, contudo, mesmo recebendo estas “boas vindas”, não conseguia se sentir bem como seu amigo vulcano. Estava ficando receosa do que iria vir a seguir.
Querendo ou não, sendo sua intenção ou não, sua missão ali com os venizianos ficaria em segundo plano face a descoberta notável que iria fazer em breve - e ela sabia que descobriria algo. Saberia mais sobre a raça ao qual fazia parte agora. Iria, na verdade, saber mais até que Janus, o ser que fora responsável por sua transformação.
Mas também sentia que não iria gostar do que ia descobrir.
_ Sarah...
A engendrada o olhou, mas já sabia o que veria: o vulcano havia recebido uma carga gigantesca de informações psíquicas. O choque daquele novo extremamente novo sobrecarregara seu metabolismo. Ele estava no Pon Farr, com a mente aberta para literalmente tudo o que viesse, e como a comunicação veniziana – ao menos com ela – tinha literalmente overdoses emotivas, isso devia estar deixando-o a beira da loucura.
Teria que fazer algo. Mas não sabia exatamente o que, ou como. Sabia apenas que teria que frear a sua mente, praticamente desligando-a para que ele recuperasse parcialmente o controle.
No entanto, antes que Sarah fizesse algo, um dos venizianos se aproximou delicadamente do vulcano e o envolveu com suas ramagens, como num abraço, não, como se o colocasse dentro dele para protegê-lo.
Na verdade, ele realmente entrou no veniziano. Ele...
Eles praticamente se fundiram. Células animais e vegetais entrelaçadas em um nível inacreditável. Mais inacreditável era ela ter noção plena disto, vendo apenas uma “árvore” ambulante na sua frente e nenhum sinal de seu parceiro. E não estava usando nenhuma das habilidades que tinha agora. Ela simplesmente sabia que Melrik e a criatura estavam unidos de forma que só um teleporte explicaria.
Ela ainda estava ligada aos venizianos. Unir-se mentalmente a um era unir-se praticamente com toda a espécie. Mas sentia que no caso de Melrik isso tinha sido muito mais profundo do que com ela. E sabia o porque.
Ela não era vulcana. Não só fisicamente, mas mentalmente também. A única coisa de seu nascimento original que restou nela era a sua forma de pensar cognitivamente. E essa forma, ela percebia agora, lhe era um bloqueio.
Sarah entendeu. Eles haviam percebido desde que haviam interagido com a nave capitânia – que na verdade era outro tipo de veniziano - que Melrik precisava estabilizar-se, e naquele conjunto de pensamentos que não eram pensamentos, naquele mar de sensações novas e incríveis que os dois lados experimentavam, Sarah percebeu que os venizianos, que eram hermafroditas, compreendiam a necessidade do animal vulcano e, decididos a ajudar, o estavam fazendo naquele exato momento.
Sarah se voltou para a veniziana maior, que a chamava, e se aproximou.
“Kyrrakitur”
Sarah sorriu ao chegar bem perto dela, sendo envolvida pelas ramagens delicadamente. Mas havia receio ainda.
“Não vim feri-los. Não sou como os Kyrrakiturs que deve ter conhecido.”
“Confiança” – sussurrava ela – “libere mente” – ela sentia receio ainda, mas agora havia também coragem – “entregue controle”.
Controle? De que? De sua mente, de seu ser?
A resposta era evidente. Eles temiam os Kyrrakiturs, raça da qual ela fazia parte – precisava sempre pensar nisso de forma consciente, pois realmente ainda não se dera conta do que era ser uma Kyrrakitur – e precisavam de algo, uma prova de sinceridade dela de que não estava ali para espionar ou atacá-los.
Precisava mostrar a eles que sua forma atual era uma conseqüência de um “presente” recebido, não obtido de sua nascença. Só não sabia como fazer para entregar o controle a eles. Talvez, se concentrasse sua atenção e foco de pensamentos e cada sentido de uma vez...
Um a um, sem saber que era capaz disto, nem mesmo jamais imaginando tal coisa, ela foi entregando cada um de seus sentidos, conhecidos e desconhecidos para aquele ser. A visão, tato, paladar esses até foram fáceis. Difícil foi achar palavras para outros sentidos. Como definir sua capacidade de se orientar no tempo-espaço? Aliás... era isso mesmo o que este sentido permitia? E quanto a saber formas e espécies de ondas energéticas? Ou identificar a geografia ao redor simplesmente “tocando” a atmosfera que a cercava?
Seja como for, esses sentidos que a surpreenderam pelo simples fato de existirem foram tirados dela e controlados pela criatura.
E Sarah... a outrora vulcana e agora um ser totalmente desprovido de seus sentidos, exceto sua mente, recebeu algo em troca.
Por um ínfimo de tempo, por uma eternidade que jamais poderia mesurar, ela soube o que era ser realmente outra criatura, outra espécie, com valores, sensações, e forma de pensamento tão diversas que nunca poderiam ser realmente compreendidas corretamente.
Quando ela se tornou Sarah de novo, ficou boquiaberta. Não tinha como descrever nem para si mesma o que captou desta interação. Não haviam palavras. Não haviam pensamentos que explicassem isso.
Como expressar o que eram os venizianos? Vegetais inteligentes? Tal expressão era um insulto muito ofensivo. Eram seres baseados em estruturas vegetais sim, mas com uma mente não focalizada em uma área específica do corpo. Mesmo os corpos deles eram meras formas apropriadas para atuar melhor. Os que tinha formas humanóides eram meramente porque era mais prático para o que se propunham a fazer. Não eram indivíduos, mas não chegavam a ser uma coletividade. Eram mentes isoladas, com personalidades e desejos próprios, mas em permanente contato umas com as outras.
E ela teve uma resposta para sua indagação desde que captara o medo e receio deles. E como anteviu, não gostou.
Kyrrakiturs eram muito mais do que uma mera raça guerreira. Mas as informações eram confusas. Não fazia muito sentido – ainda – precisava ponderar mais a respeito, bem como coletar mais dados. Mas por hora não era sua tarefa fazer isso. Tinha outra prioridade que acabou se esquecendo totalmente. Mephisto 7!
Sorrindo e agora sentindo que o receio deles se fora e em seu lugar havia uma agradável surpresa e – por que não dizer? – felicidade por verem que tipo de criatura ela era, a inteiração para expor seus planos começou finalmente. Haveria muito para discutir, especialmente porque o conceito de morte, missão e fracasso eram totalmente inexistentes para eles. Mas teria tempo para mostrar o que significavam.
Ela esperava.
****
Tudo o que tinham passado aquelas poucas horas fôra diferente, começando pela forma como se comunicaram, passando pela visita as memórias que eles tinham de vários mundos inóspitos transformados em magníficos planetas com atmosfera e capacidade infinita para receber espécies como os humanos.
A única coisa que sabiam depois das maravilhas que haviam experimentado é que seriam ajudados porque nada queriam em troca.
A última coisa que sentiu foi o chamado do veniziano mais jovem para se aproximar...
O convite era tentador, embriagante...
Sarah estendeu a mão direita com receio e tocou a superfície aveludada da pele do veniziano... macia como pétalas de flores, na temperatura aconchegante do ambiente...
Não resistiu a sensação prazerosa e estendeu a mão esquerda, passando ambas naquela superfície incrível. Fechou os olhos e os lábios se entreabriram num sorriso de puro prazer tátil...
Sentiu os galhos a envolverem, pétalas das flores caírem sobre ela, a seiva escorrer em seus cabelos e corpo...
... Sentindo o que nunca sentiu, vendo o que nunca viu...
O mundo original dos venizianos era um misto de sensações e cores, coisas que nunca havia experimentado antes, cheiros impregnantes, mas passageiros, que deixavam o corpo alimentado, vivo...
Não tinha palavras, nem que quisesse poderia descrever o que estava experimentando... Sentia a magia de ser outra coisa, a sensação do calor das estrelas não apenas aquecendo, mas alimentando, energia da vida e de tudo o que se era...
****
Foi como se tivesse despertado. Olhou para cima, sorriu e viu Melrik deitado próximo, no gramado, tranqüilamente. Não haveria jamais palavras para descrever o que acontecera. Sorriu ao lembrar-se momentaneamente dos musgos.
Levantou-se e foi até o vulcano. Despertou-o com certa pena.
Ele estava diferente... não sabia bem dizer como, mas estava diferente. E seria até uma idiotice - já estava pensando como Janus - que nada ficasse diferente no colega oficial...
Melrik levantou-se de forma tranqüila e calma, mas não como um vulcano. Não era um movimento coordenado de forma a sentir como estavam seus músculos; seu corpo não estava avaliando seu estado físico, como seria de se fazer nessas situações...
Melrik se levantava como uma criança... uma criança deslumbrada que tinha visto algo maravilhoso! Uma criança que teve seus sonhos satisfeitos.
Ele... estava sorrindo? Claro que estava, por que estava surpresa com isso?
Ela sabia porque...
Ele...
ELE NÃO ESTAVA MAIS NO PON FARR E ESTAVA PLENAMENTE EMOTIVO!
Mais que isso... ele se virou e sorriu fracamente para ela, não um sorriso coordenado, mas apenas um sorriso sincero. Melrik... De alguma forma os venizianos deram algo a ele. Algo que não podia entender muito bem. Mas a palavra que melhor podia explanar isso seria que Melrik tinha uma certa "humanidade" agora.
_ Melrik... - murmurou ela, imaginando coisas absurdas como precisar levá-lo com urgência para Vulcan, para um controlador de mentes o ajudar antes que sua fúria emocional começasse a demandar sua lógica.
_ Não se preocupe, amiga, - ele disse isso mesmo? Dessa forma? - não estou sendo controlado por emoções - agora ele parecia ser o de sempre. - De fato... estou maravilhado com elas!
_ Maravilhado? Melrik, - ela procurou selecionar bem as palavras - compreendo que esta experiência deva ter sido absurdamente única, para não usar o termo divina. Mas sabe o motivo de nós... de você manter o controle de suas emoções. No Pon Farr...
_ Sei o motivo claramente, - agora a sua expressão ranzinza estava de volta - mas creio que você não compreendeu... acho que não viu o que eu vi... o que senti... Vi a forma de pensar de seres que... que realmente não podemos conceber. Eles... - ergueu as mãos para as criaturas que se afastavam - eles não precisam ansiar por nada.... eles são completos. Simplesmente completos. São mais independentes do que jamais sonharíamos, e mesmo assim, não tentam reverter o mundo a seus caprichos, pelo contrário, fazem o que sempre fizeram desde antes de possuírem consciência: frutificar, espalhar sementes - olhou para ela. - Compartilhar...
“Não possuem literatura, nem ciência, e isso não os impede de alcançar a estrelas. Não tem padrão monetário, e nem por isso têm dificuldades com trocas ou com inter-relacionamentos. São indivíduos e ao mesmo tempo uma mente coletiva, um eterno parlamento que vota nas decisões. E, acima de tudo, mesmo com uma forma absurdamente lógica e direta de agir, eles... Eles são pura emoção!”
Ele se aproximou bem dela e sorriu. - São pura emoção! Quase não há palavras entre eles... e se comunicam apenas com sensações emotivas... e se fazem entender muito bem assim - ele parecia agora totalmente imerso em suas palavras, inebriado com o que falava - e nós... - meneou a cabeça - o que fizemos com nossa lógica coordenada, fria e asséptica?
Aguardou que ele prosseguisse. Estava admirada com o que ele falava, e principalmente como falava. Não estava sendo controlado por emoções, mas usava as palavras apenas para expressar estas, como os humanos o fazem. De uma forma incrível, Melrik adquirira essa propriedade que permitia que os humanos não se autodestruíssem. Podiam impor razão sobre as emoções, coisa que a sua - antiga - raça sempre teve dificuldades enormes.
_ O que conseguimos? - insistia ele. - Apenas nos tornar um bando de autômatos sem alma e que fingem a cada dia que foi a melhor escolha. Os romulanos não seguiram isso, e não estão piores que nós.
Silêncio.
Aguardou um pouco, e como ele não prosseguiu, decidiu falar:
_ Acho que isso só prova que emoção e razão puras podem ser igualmente saídas para evolução e sobrevivência.
_ EXATAMENTE! - gritou ele com os olhos bem abertos. - Mas... - e agora ele sorriu - as emoções nos permitem saborear a vida com um tempero muito melhor...
Sarah sorriu levemente, e tentou evitar verter uma mera lágrima de comoção. Ela também não estava facilmente controlável, mas assistir aquela transformação que Melrik sofrera era algo quase prazeroso. Ele, de uma forma que ainda não conseguia ou simplesmente não tinha necessidade de explicar, se tornara um pouco “veniziano”.
_ Bem vindo a minha condição - murmurou ela.
Seguiram em um silêncio maravilhado para a nave narlogiana.
****
Capítulo III.
40 HORAS APÓS A CHEGADA DA ATLANTIS EM MEPHISTO 7...
Stuart terminou seu relatório do dia e requisitou nos bancos de dados as fichas, em branco, da “cúpula” da Atlantis. Fitou a lista de nomes por alguns minutos. Observara atentamente tudo que pudera, mas seus relatórios não podiam negar a sinergia daquela equipe, a capacidade de solucionar problemas, manter aquela nave inteira e se meter e sair de encrencas. Eram eficientes, precisos, rápidos para arranjarem soluções para tudo com que já tinham se deparado, além de serem lucrativos para a Federação até como diplomatas em várias ocasiões. Eram úteis. Muito úteis. Por isso mesmo suas “pequenas” insubordinações e manias eram bem toleradas pela Frota e pela Federação.
Seus relatórios eram úteis? Sim, mas não dentro da esfera para os quais haviam sido elaborados. Talvez nunca seriam utilizados nessa esfera. Então por que ainda estava ali? A estavam punindo por dizer a verdade? Ou simplesmente a tinham abandonado a própria sorte?
****
Uma única nave narlogiana veio por trás do planeta e teleportou Melrik e Sarah de volta para Atlantis, e assim como veio foi embora.
SETE HORAS MAIS TARDE, NA PONTE...
Benrubi reajustou a órbita e passou algumas instruções para Wiser, Ness e Sanchez, que voltavam da folga.
_ Sr. Benrubi, nave Nautilus entrando em contato.
_ Capitã, Nautilus entrando em órbita.
_ É COM VOCÊ, BENRUBI. ESTOU A CAMINHO.
_ Sim, sra. Na tela sr. Ness.
_ SAUDAÇÕES, NAVE ATLANTIS.
_ Bem vindos ao setor Inariam, nave Nautilus. Algum problema com os venizianos até aqui, capitã Corelli?
A capitã Julia Corelli fez um gesto indiferente. – NENHUM QUE NÓS NÃO POSSAMOS CONTROLAR, SR. BENRUBI. A CAPITÃ VAI RECEBER O GRUPO ESPECIAL AGORA? ESTAMOS COM TEMPO E GOSTARÍAMOS DE RECEBÊ-LA PARA JANTAR.
Diana entrou na ponte nesse momento. – Olá, capitã Corelli.
_ HÁ QUANTO TEMPO, CAPITÃ O’CONELL. OS MEUS PASSAGEIROS ESTÃO ANSIOSOS PARA SE TRANSFERIREM, MAS EU GOSTARIA DE PROMOVER UMA DESPEDIDA ADEQUADA, COM SUA PRESENÇA, É CLARO.
O ar refinado impertinente da capitã da Nautilus desagradou Ness, que sabia o quanto isso irritava sua capitã.
_ Aceitamos, capitã Corelli. Em uma hora e meia estaremos aí. Levarei quatro oficiais.
_ BOM, CAPITÃ O’CONELL. AGUARDANDO.
Wiser se voltou para Diana. – Ela não me pareceu a mais agradável colega de Academia.
O’Conell sorriu. – E não era.
UMA HORA E MEIA DEPOIS...
A empertigada capitã da Nautilus, uma classe Constitution, observava os membros da Atlantis se materializarem enfastiada. O’Conell, D’Angelis, Stuart e McKenna desceram da plataforma e trocaram os cumprimentos de praxe com a capitã Corelli, seu Primeiro-Oficial e a Chefe de Segurança que os esperavam. Atrás destes estavam dois homens altos e fortes, até um pouco exageradamente.
_ Gina! O que você faz nesses confins?!
_ Como se você não soubesse, se safado! – e Stuart abraçou o homem que a interpelou.
Julia sorriu surpresa. Stuart voltou-se para as duas capitãs e notou o olhar seco e desdenhoso de Sarah sobre ela, sempre pronta – pelo menos ao seu ver – a pegá-la em alguma falha.
O homem alto, moreno e de olhos verdes e sagazes se adiantou: - Sou o tenente comandante David Benrubi, capitã O’Conell – e apertou calorosamente a mão de Diana. – Eu e Gina Stuart somos velhos conhecidos, sra! Amigos de infância! – e David voltou-se para Sarah, esboçando de imediato um sorriso quente, estendendo a mão para ela, que a tomou com firmeza. – Adoro pessoas que apertam as mãos com vontade, Imediato McKenna.
“Eu também adoro quando homens pretensiosos como você acham que estão me enganando com esses tolos embaralhadores de ondas mentais subcutâneos que a Dissuasão pensa que funcionam” – ela concordou com um aceno de cabeça, parecendo bastante gentil.
David se postou ao lado de Sarah e, com a naturalidade de quem já estava muito à vontade naquela nave, voltou-se para Corelli, dizendo: - Que tal passarmos para a sala de jantar, cara capitã? Estou faminto!
Corelli fingiu não se importar, pois seguiu na frente dizendo com seu tom irritado: - Bem, bem, bem! Vamos indo então, já que todos se conhecem!
McKenna inclinou a cabeça na direção de Diana e Jordan um pouquinho, indicando um comentário silencioso e, pela expressão nos olhos dela, bastante sarcástico. Era evidente que a capitã da Nautilus estava enciumada com a atenção que o homem da Dissuasão passara a dispensar à McKenna.
MAIS TARDE, NA SALA DE TRANSPORTES DA ATLANTIS...
_ SALA DE TRANSPORTES, CANAL 7 COM A NAUTILUS.
_ Entendido, ponte – o engenheiro no comando dos transportes respondeu, para em seguida entrar em contato com o transporte da Nautilus. – USS Atlantis aguardando, Nautilus.
_ RECEBIDO, ATLANTIS. NOSSOS CANAIS ESTÃO ABERTOS. ESTAMOS AGUARDANDO AS DESPEDIDAS.
Ibirapitanga sorriu da discreta ironia da outra engenheira e respondeu um “aguardando”, enquanto Düff entrava. Nesse instante os corpos começaram a se materializar.
_ O Médico Chefe da Atlantis, Hans Düff.
_ Sr. Düff – e David sorriu ao apertar a mão do alemão.
_ Acredito que tenham acesso absoluto aos dados deixados no posto avançado. – Diana sabia perfeitamente que a Dissuasão não estava nem aí para o que acontecera com seu pessoal ali. Sabia que estavam mortos, e mortos pelos venizianos, e não importava como. O por que também não, já que sabiam muito bem as motivações dos “invadidos”.
_ Sim, capitã O’Conell. Eu ficaria muito satisfeito também se tivesse acesso às conclusões a que vocês chegaram.
_ Sem problemas – Diana sentiu um pouco de raiva de ter aquele pessoal na sua nave. Se ela fôra do Departamento? Sim, sempre fôra e sempre seria, mas não daquela divisão. E agora estava em sua própria nave, não gostaria de ter esse tipo de gente perto dela nunca mais... – Ponte – e voltou-se para Sarah. – McKenna, você e Benrubi trabalharão com o pessoal da Dissuasão. Sr. Benrubi... – e, de repente, notou que teria problemas com aquele nome – eu estarei sempre a disposição, mas não poderei acompanhar seu trabalho diretamente.
_ Eu compreendo, capitã – e a porta do elevador abriu. – Ponte maravilhosa, capitã O’Conell. É uma honra para nós conhecer a nave estelar mais moderna da galáxia.
Melrik voltou-se para o grupo que entrava na ponte.
Joshua não se virou logo, mas sorriu com estranheza ao ouvir a voz de David. Gina foi se encostar no painel ao lado do dele e eles trocaram olhares significativos.
_ Obrigada, tenente David. McKenna, faça as honras da casa e acompanhe-os até os alojamentos.
_ Isso será maravilhoso para mim – David murmurou com um sorriso insinuante, e seu olhar se encontrou com o de Joshua.
_ Capitã, eu gostaria de substituir a Imediato McKenna nessa incumbência, se for possível – Joshua pediu, fazendo todos que estavam ali e que não haviam ido a Nautilus estranharem, podendo ver um sorriso furtivo se instalar nos olhos de Sarah. Sim, ela sabia que eles eram irmãos e pela sua reação deveria saber mais além.
_ Sem problemas, sr. Benrubi.
Eles saíram e todos se voltaram aos seus afazeres. Sarah permaneceu ao lado da cadeira de Diana. Gina as observava, sem conseguir ouvi-las.
NOS ALOJAMENTOS DESTINADOS A VISITANTES...
Joshua estava de pé encostado na parede com as pernas e braços cruzados, olhando para o chão. David terminou de dar algumas instruções ao seu oficial executivo e dispensou-o.
_ Não diz nem um “oi” para o seu irmãozinho mais velho?
Joshua o encarou. – Como você está?
David estalou a língua cinco vezes no som característico de desaprovação. – Isso é jeito de se falar? Ainda está zangado comigo, Josh?
_ Não.
David sorriu zombeteiramente. - O. k., eu vou acreditar. Por enquanto. Como está Rebecca? Onde ela está?
_ No alojamento, e vai indo bem. Às vezes acho que ela gosta mais desta nave do que eu. E eu adoro esta nave. – Joshua respirou fundo. – Por que você está aqui?
_ “Por quê”? Que tipo de pergunta é essa? Acha que estou aqui apenas para pegar no seu pé?
_ Não, claro que não. Mas é muito... estranho que você esteja em campo. Você nunca sai da Sede da Federação.
David suspirou e colocou as mãos nos ombros de Joshua. – Que droga, Josh, eu pensei que depois de oito anos aquela porcaria toda estivesse esclarecida entre nós.
Joshua sustentou-lhe o olhar com frieza, quase com raiva das lembranças que lhe afloravam. – Você é meu irmão, eu já perdoei você. De fato, a culpa não foi exclusivamente sua.
_ Você é muito suscetível, Josh. Sempre foi – e sentou-se, sorrindo com malícia. – Duas mulheres muito... exuberantes você tem aqui, hein? Já teve algo com as duas?
Aquela conversa soou tão distante para Joshua que ele se perguntou se realmente fôra assim alguma vez.
_ Trabalhamos juntos há quase oito anos, David. Não somos mais novidades uns para os outros há muito tempo. – E o fitou. - A capitã O’Conell é uma mulher seríssima e a Primeira-Oficial McKenna é uma vulcana da nobreza. Mas eu tenho certeza que você já sabe disso.
A porta se abriu de novo e Gina entrou com um sorriso alegre.
_ E aí, David? Não trouxe nada para molhar nossas gargantas?
David riu e bateu na própria perna antes de se levantar. – A melhor produção artesanal das velhas Highlands! – e olhou para Joshua. – Vamos lá, Josh, faça as honras! A garrafa está aí nessa valise! – e voltou-se para Gina. – Puxa, menina, eu não esperava tanto: duas belas garotas no comando!
_ De garotas elas não tem nada, Davie. Principalmente aquela capitã, muito segura e brilhante, sempre a par de tudo graças aquela vulcana de uma figa e esse seu irmãozinho aí! – e o riso de Gina foi amargo.
_ Vocês são uma gracinha – Joshua murmurou entre-dentes.
_ Você está pior do que nunca! – David riu e tomou um gole generoso do copo que Gina lhe estendera. – Puxa, Gina, ele está tão chato!
Stuart riu. – Acho que o amor faz isso com alguns homens.
Joshua nada disse e dirigiu-se para a porta. Aquela gente já fôra sua gente? Às vezes tinha impressão que nascera naquela nave, e desde que Rebecca estava com ele a idéia de deixar a Atlantis algum dia lhe parecia mais que remota.
_ Ei, aonde você vai?
_ Trabalhar, senhores.
_ Vou visitar vocês amanhã.
Joshua saiu sem dizer nada e David se voltou para Gina: - Acho que as coisas entre nós não estão melhores que antes. Ele conseguiu... esquecer?
_ Oito anos se passaram, Davie. Todos nós estamos muito mais amadurecidos. E, pelo que sei, se passaram tantas coisas com essa nave que poderíamos dizer que foi mais do que suficiente para modificar, e muito, a cabeça dele. – Ela suspirou. – Ele não é mais como nós o conhecíamos: faz parte agora dessa “cúpula” de comandantes desta nave, onde tudo gira em torno do que eles decidem e do que eles sabem. São um mundo a parte onde ninguém pode penetrar... Ele é outro, é deles agora.
David a encarou. Sabia por alto da missão dela e de seus parcos resultados em quase três anos.
_ Então... tudo aquilo pelo que passamos foi uma frescura inútil? – David tirou o casaco e jogou com raiva em cima da cama. – Que merda! Ele podia ter ficado com aquela cretina então!
_ Acho que não, Davie. A Frota os separaria mais cedo ou mais tarde.
_ E foi mais cedo.
_ Bem cedo. Éster é uma mulher muito problemática. O medo dela de tudo sempre contrastou com o espírito ardente de Joshua. Pensando bem, - e Stuart encheu de novo o próprio copo – o que ele sentia por ela era apenas uma paixão de juventude. Joshua saiu dessa sem maiores traumas.
_ Espero que sim – David chutou as botas para um canto. Ele recostou a cabeça no espaldar da poltrona em que estava sentado e respirou fundo. – Queria que ele me dissesse que está tudo bem, que ele já esqueceu aquele pequeno... incidente.
_ Pequeno incidente? – Gina olhou na direção dele com desdém. – Não seja cínico, Davie. Pegar a esposa com o irmão aos beijos na cozinha da própria casa não é o que se pode classificar de “pequeno incidente”!... – e Stuart bufou. – Eu teria arrebentado a sua cara, só pra começar!
David deu uma risadinha cínica. – Ele arrebentou, Gina. E depois largou a Dissuasão e deixou de falar comigo por nada, merda, porque um dia antes ele já havia mandado a Éster pra casa dos pais dela! – levantou e esvaziou o que restava da garrafa num só gole. – Ele só queria um maldito motivo para chutá-la e eu dei a ele!! – tirou a outra garrafa da valise e jogou-a para Stuart. – Como ele pôde se ofender tanto, por nada?
_ Até hoje eu não entendi por que você a seduziu, Davie – e Gina o encarou seriamente.
David a encarou de volta e sorriu com frieza. – Porque, minha cara amiga Gina Stuart, ela estava atrapalhando a carreira dele. Se ela continuasse contra o engajamento dele em uma nave estelar ele ficaria na Terra; e eu queria tirá-lo do Departamento. Aquilo lá não era para ele. Joshua é decente demais.
PASSADA UMA HORA...
_ TODO O MATERIAL A SER TRANSFERIDO DA NAUTILUS FOI EMBARCADO, SR.
Benrubi conferiu o relatório que aparecia na tela e em seguida fez um sinal positivo para Miox e Santos, que, em trajes de contenção, fizeram toda a arrumação daquela carga, que deveria ficar no vácuo.
Benrubi não tinha nenhuma dúvida do que elas continham: explosivos potentíssimos, capazes de destruir 1/5 da superfície de um planeta.
No gabinete da ponte, Diana recebia David Benrubi.
_ Podemos começar amanhã mesmo, capitã O’Conell. Afinal, de acordo com as previsões, os ventos ciclônicos darão sua trégua por 26 horas pelo menos.
Diana cruzou as pernas e o encarou. – 26 horas serão suficientes para vocês?
David a olhou com um sorriso irritante. – Não disponibilizará uma tropa para descer comigo, sra.?
Diana suspirou. – Ah, é mesmo, quase havia me esquecido...
David continuava sorrindo. – Até amanhã então, capitã.
Diana observou sua saída. – É o que veremos, meu caro. – E voltou-se para o seu console. – Computador, comunicação de prioridade Alpha 001, Capitã O’Conell, Diana, Atlantis, Suprema, Ametista para o Conselho da Frota Estelar: O’Conell, Richard.
_ IDENTIFICAÇÃO POSITIVA. EFETUANDO CONTATO PRIORIDADE ALPHA 001.
ÀS 2.400 HORAS...
Joshua sorriu para Gina quando esta entrou em seu alojamento e se sentou pesadamente, após se servir de um suco. Ela ficou olhando para o líquido fixamente.
_ Quer nadar no suco? O que você está ruminando aí, Gina?
Stuart sorriu. – Estou cansada de ser tratada como uma inimiga em potencial. Por que vocês acham tão difícil aceitar minha presença? Têm medo que eu possa desqualificá-los para o serviço ou coisa assim?
Joshua sorriu. – E você acha que pode fazer isso?
Ela o encarou. – Oh, que atrevimento o meu em querer enfrentar os deuses do espaço! – deu uma risada sarcástica e curta. – Teoricamente minha função deveria ter esse poder sim, mas aqui dentro... Vocês são eficientes mesmo. Muito eficientes quando se trata de destruir as pessoas.
Joshua suspirou. – Não sabemos por que você está aqui, Gina, mas certamente sabemos de onde você veio. Achou então que seríamos ingênuos a ponto de não sabermos pelo menos isso?
A expressão dela era arrogante e cínica. – Oh, claro, mas não esqueça da precognição da vulcana engendrada... Isso com certeza pesou mais que qualquer informação concreta sobre mim. Graças a isso vocês tiraram todas as conclusões que precisavam. Devo admirar a liderança dela sobre vocês, até mesmo sobre Diana O’Conell...
Joshua tentara manter sua amizade por Gina, mas aquilo vinha se tornando cada dia mais difícil.
_ O que você quer dizer com isso, Gina?
_ Ela considera esta nave seu território, sua propriedade particular. Até agora sua liderança muda foi base de equilíbrio para o comando de O’Conell. Mas... se algo não se encaixa nos padrões que ela estabeleceu...
Joshua a encarou. Será que ela podia mesmo achar que ele ainda era tão ingênuo para ser influenciado por aquele tipo de intriga? Meu Deus, como Gina estava realmente por fora de tudo que eles eram e faziam!
_ E com isso você concluiu que McKenna é uma futura ameaça? Gina, é obrigação do Primeiro-Oficial estabelecer tais padrões e cuidar, mesmo que aparentemente com agressividade, para que sejam cumpridos. – Teve vontade de mandá-la embora. Como Hans agüentava aquela mulher ressentida? Ele realmente era um santo, como Sarah dizia.
_ Sei que isso é uma atitude natural em líderes naturais, Joshua. Mas a agressividade dela, para alguém que se diz vulcana, lógica e fria, chega a ser absurda, não acha?
Joshua meneou a cabeça. Também estava preocupado com Sarah, com sua evidente preocupação com Fiona por motivos que nenhum deles sabia e, o pior, nem mesmo ela, o que a vinha deixando irritada e impaciente. Mas isso Gina não sabia. E nem saberia.
Gina recostou-se e cruzou as pernas. – A Atlantis é uma grande família, mas você não considera, em alguns momentos, pesado demais o fardo de conviver apenas com amigos?
Realmente agora ele tinha certeza que Gina estava apostando tudo o que podia para completar sua missão, qualquer que fosse seu objetivo. Diana tinha razão. Ela começara a se cansar.
_ A escolha de servir a Frota em naves como esta muitas vezes nos tira a liberdade de querermos ter uma casinha em algum lugar feliz com filhos e um cachorro no quintal, Gina. Mas nós estamos aqui para que esses quintais existam. E aventuras banais deixam de ser interessantes depois de uma certa idade e a solidão se torna inevitável... – mesmo não querendo ficara embargado, os olhos ardendo. Continuava amando-a mesmo depois de tudo, acima de tudo...
_ Você deveria tentar reconquistá-la, seu tolo.
_ Não quero você esmiuçando minha vida, Gina.
_ A sua vida ou a vida de Sarah McKenna? – ela o instigou. – Não estou me intrometendo, Joshua, mas me parece bem claro que Sarah McKenna tem poder suficiente para interferir no cotidiano desta nave e das pessoas que a cercam. Pensei que confiasse em mim pelo menos para admitir que seu velho medo de ser traído e abandonado está totalmente desperto com a presença de David. Sei muito bem que esse sentimento se transmutou em outro tipo de coisa por causa do seu amor por ela, porque você não pôde, em nenhum momento, cobrar isso dela, mas, minha nossa, por ela você foi capaz de aceitar outro homem e até uma gravidez nas suas barbas! Meu Deus, homem, diga a ela que a ama, que a quer de qualquer jeito! Você não tem mais nenhum orgulho mesmo!!
Ele se levantou devagar. – Você não faz a menor idéia sobre o que está falando...
_ Mas sei sobre você e David.
_ David fez com que eu decidisse mais depressa pela Frota, mas isso não o isenta da canalhice de me trair. Ele me traiu. Eu confiava nele. Nas minhas escolhas sempre segui as indicações dele; protelei meu alistamento como oficial explorador porque ele precisava de alguém de confiança no comando de registros da Dissuasão. Você sabe. – O olhar dele era acusador. – David me deu apoio para sair porque era do interesse dele.
_ Ele sempre se achou meio seu pai, Joshua. Sempre quis o melhor para você, lá do jeito dele.
_ E não poupou nem mesmo minha pequena filha, jogada no meio de uma batalha judicial por 14 meses!... – Joshua passou a mão no rosto. Estava cansado. Gina conseguira o que queria. – Eu teria desistido de tudo por ela, mas David soube me jogar no espaço direitinho.
_ Então não desista desta vez.
Ele a olhou. – Isso não depende de mim, Gina. Será que nem isso você conseguiu perceber?
Ela o encarou por um momento. Já tinha dito tudo que achava importante para ajudá-lo. Levantou-se e foi embora sem replicar.
Joshua olhou em volta do alojamento.
_ Se ela me quisesse!!
EM SAN FRANCISCO, TERRA...
Richard O’Conell entrou no gabinete do conselheiro klingon e sorriu ao ser recebido pelo jovem sub-conselheiro.
_ Seja bem vindo, conselheiro O’Conell.
O velho irlandês apertou a mão de Utzar. – V’Tork recebeu minha comunicação?
_ Sim, e ficou bastante impressionado, tanto que já está diante do Presidente da Federação para pedir a audiência que o senhor “sugeriu”.
Richard meneou a cabeça. – Não temos muito tempo. O almirante D certamente saberá disso logo.
_ O conselheiro vulcano também está lá – e sorriu com malícia para o velho, mostrando seus dentes perfeitos demais para um klingon.
Richard deu uma gargalhada. “Yonah!”
É claro que não estavam fazendo isso por amor aos venizianos, mas porque esperavam já há algum tempo uma boa oportunidade de cortar as asas já bem grandes do almirante D. A ocasião era perfeita!
NO OUTRO DIA...
David, no centro de controle de cargas, mostrava para Ibirapitanga para onde deveriam ser teletrasportadas parte das cargas – a porção estável dos explosivos - que seus homens, ajudados por tripulantes da Atlantis, dividiam cuidadosamente e acoplavam os pequenos caixotes lacrados a minicomputadores.
Naquele exato momento, fazia exatos 15 minutos que o equador do planeta se tornara plácido, um verdadeiro paraíso, onde uma nave auxiliar poderia voar tranqüilamente sem temer ser arremessada em pedaços para os dois hemisférios planetários.
_ Temos 25 horas e 45 minutos, sr. Ibirapitanga. Se começarmos agora, creio que teremos tempo suficiente para que a equipe de descida faça os devidos ajustes in loco, antes que os ventos voltem com força total.
Ibirapitanga recebera ordens bem claras de Joshua Benrubi e Jordan D’Angelis. E eram essas ordens que cumpriria.
_ Afirmativo, sr. David. Farei tudo de acordo com as instruções que recebi.
David assentiu e tocou o comunicador lapela. – Sra. McKenna?
_ PROSSIGA, SR. DAVID.
_ Minha equipe e eu estamos prontos para descer.
_ AS NAVES AUXILIARES ESTÃO PRONTAS.
Ele sorriu. – Não vai descer conosco?
_ NÃO PERDERIA ESSA AÇÃO POR NADA NESTE MUNDO, SR. DAVID, MAS INFELIZMENTE NÃO HÁ NENHUM MOTIVO OPERACIONAL PARA QUE EU DESÇA COM OS SENHORES. McKENNA DESLIGA.
David sorriu mordazmente. – Bem direta ela, não?
Ibirapitanga sorriu de volta. – Sempre.
****
Joshua a fitou. – Quanto tempo temos?
Sarah meneou a cabeça e olhou para Melrik.
_ Políticos não costumam primar por discussões lógicas e curtas.
Diana se aproximou deles. – Façamos nossa parte e torçamos para que os políticos e os venizianos façam a deles.
Olhou para Melrik. Era evidente que estava diferente. Talvez mais tarde tivessem tempo para conversar sobre a experiência que haviam passado com os venizianos. De qualquer jeito sabia que, sabe se lá como, o Pon Farr havia sido superado.
E aquilo a estava deixando morta de curiosidade, mas desviou seus pensamentos para a ação que se desenrolava dentro e fora de sua nave.
****
A tenente Revelland, da segurança, pilotava a nave auxiliar Hipólita rumo ao equador de Mephisto 7 com Gomes, o engenheiro, como co-piloto, tendo com eles mais cinco alferes de segurança e o oficial da Dissuasão David Benrubi, que estava bem atento aos comandos executados.
David se admirara mais uma vez de como as coisas funcionavam na Atlantis: as naves auxiliares desta tinham um desenho mais aerodinâmico, linhas mais arredondadas, maior capacidade de carga e armamentos externos! Aquela nave auxiliar não existia em nenhum projeto da Engenharia da Frota. A Ambassador experimental tinha muitos segredos, sem dúvida...
Os outros oficiais que haviam vindo com ele estavam nas outras 4 naves auxiliares que se espalhariam ao longo da cintura do planeta e instalariam, como ele, a outra metade mais instável dos explosivos de superfície que acabariam com aquela “floresta” dos venizianos, fazendo-os ver que não era uma boa idéia tentar fazê-los desistir daquela “mina de ouro” tempestuosa.
****
Kenjiro estabilizou a nave auxiliar Megara sobre um pequeno monte e pousou. Dali podia ver a “floresta” multicolorida e brilhante dos musgos, seus velhos conhecidos de Ketuk, que se estendia a perder de vista. Mbwabo, o biólogo, estava ao seu lado de boca aberta, com um sorriso de cientista apaixonado no rosto. Quando o tenente encarregado da Intendência e também membro da segurança liberou a porta, o homem magro e negro da nação banto foi o primeiro a desembarcar. Carla, da equipe da Dissuasão, fez uma cara de desdém quanto a admiração do cientista. Afinal, seu único objetivo ali era, justamente, acabar com aquela estranha e enjoativa visão herbórea.
_ Vamos agilizar o trabalho, senhores, não temos muito tempo.
Tsi-Lao assentiu, mas fez um sinal para Mbwabo, que continuou com seu tricorder em pleno funcionamento.
****
O teletransporte colocou Sarah a um quilômetro da nave auxiliar de David Benrubi, bem no meio dos musgos gigantes. Notou com carinho que aqueles, já bem desenvolvidos e empenhados em suas tarefas, tinham um controle telepático alto e que não se arriscava a ser engolfada por mentes ávidas como no caso dos desgarrados de Ketuk.
O mais interessante era que sabiam perfeitamente porque ela estava ali e quais eram as intenções das naves que haviam pousado entre eles em vários pontos do equador de Mephisto 7. E, ainda mais surpreendente, sabiam quem eram os oficiais da Dissuasão e os tripulantes da Atlantis. De alguma forma que Sarah não sabia explicar, eles já estavam prevenidos da ação que iria acontecer e apenas aguardavam os acontecimentos, já que muito não podiam fazer.
Mas lhe agradava que havia entre eles verdadeira alegria por.. por ela ser...
Ser amiga?
Por anos, o medo fora seu aliado em suas incursões, metas e tarefas. Uma ferramenta útil para os seus fins. Mas ali, naquele momento, ela filosofou por alguns instantes sobre como era uma arma efêmera e até uma armadilha. Eles a temiam inicialmente porque sua raça, os Kyrrakiturs, exterminaram muitos de seus mundos em eras que não poderiam ser precisadas. Não havia um padrão de tempo para os venizianos que ela tenha conseguido adaptar ao seu. Mas soube que sua raça era altamente beligerante contra certas espécies da galáxia, e totalmente indiferente a outras. Algo para pesquisar mais no futuro.
_ Mente magnífica... – Sarah elogiou, acariciando os mais próximos e sentindo o suave movimento de aceitação destes. Caminhou por entre aquela floresta transformadora até o ponto em que pode ver a nave auxiliar decolar depois de descarregar e David Benrubi programar o computador dos explosivos. A nave fez uma meia volta sobre o monte em que antes estava pousada e riscou a atmosfera rumo ao espaço. A ex-vulcana se aproximou da carga então. – Agora, vamos conversar um pouco... – e seus olhos brilharam para o dourado, enquanto o dedo indicador de sua mão esquerda afilava-se tomando um brilho metálico.
Era a primeira vez que ia fazer aquilo, e não tinha um computador interno para auxiliar na tarefa. Olhou para sua mão e concentrou-se. Momentos depois, a costa da mão esquerda agiu como se fosse uma comporta e se afastou um pouco, ejetando uma ponta de interface logo em seguida, idêntica a de Jevlack.
Tinha ficado divertida quando notou que tinha essa habilidade. Mas não chegou realmente a utilizá-la de forma apropriada. De fato esquecera-se da mesma nesses dois anos. Podia ter agilizado centenas de pesquisas por informações assim, mas como ainda pensava e agia como antes, tal coisa passou simplesmente desapercebida.
Enquanto se aproximava da caixa ligada a três grandes cilindros esverdeados – que eram a carga explosiva em questão – vinha a sua mente o que Hans tinha lhe dito após finalizar alguns testes em seu novo corpo.
Ao contrário do suposto e clara aparência, aquilo saindo de sua mão não era uma prótese. Quando ela recolhia aquilo, simplesmente desaparecia, como se seu corpo assimilasse o mesmo. A ponta ejetada que ela e Jevlack chamavam de equipamento de interface era na verdade uma parte de seu próprio corpo.
Surpreendente? Nem tanto... ela era uma criatura organo-metálica, um misto de vida – como conceituavam – e não vida. Considerando a habilidade deste povo ainda misterioso ao qual fazia parte agora de ser capaz de gerar descendentes com quase todas as espécies, havia a possibilidade de que originalmente eram seres unicamente formados por compostos metálicos, assimilando com o tempo composição orgânica conforme se mesclavam com outros seres.
Outro disparate se comparado com o que os venizianos lhe “contaram”.
Fagocitando... os Kyrrakiturs vagavam pela galáxia como se fossem células macrófagas de um organismo gigantesco, exterminando “corpos estranhos”. Essa foi a comparação feita pelos venizianos. Foi assim que eles os analisaram e catalogaram desde o primeiro contato.
Não sabia muito mais que isso, e no momento precisava esperar para saber mais. Observou a bomba a sua frente e aproximou sua mão da mesma, cravando a ponta ejetada no núcleo do computador desta.
A ponta acabou se morfando e ligou-se aos circuitos internos da caixa de controle. Agora vinha a parta excitante e confusa daquela interação. Acessar o computador desta forma era como tentar lembrar-se de algo que estava enterrado em suas memórias. Não muito diferente de usar telepatia, mas a concentração era complexa. Senhas, códigos de depuração e auto-checagem de sistemas para ela seria comparado a cheirar sons, de tão estranho que era se ajustar mentalmente para acessar estas informações. Mas depois que se conseguia, era até fácil atuar como se fossem suas memórias emergindo. Agora precisava criar outras memórias que na prática estariam alterando a programação do computador.
Piscou os olhos e sorriu satisfeita. Quando terminasse achava que seria uma especialista em entrar em contato com computadores. Fiona teria esta mesma habilidade? Provavelmente não. Aquilo era uma prótese – em nível celular, mas era uma prótese – que se integrava ao seu sistema orgânico, não um apêndice natural.
Deixando de divagar um pouco pôs-se e marcha para a próxima bomba. Tinha muito trabalho ainda.
****
David desceu da nave auxiliar e seguiu para a engenharia, onde a capitã daquela nave cedera a eles um dos painéis que usaria para controlar os computadores acoplados as surpresinhas dos venizianos.
Verificou o status pelo pad que carregava e aferiu que tudo estava funcionando bem. Na engenharia, enorme, andou em direção a Jordan D’Angelis, que o recebeu sem sorrir. Sabia que não era bem vindo e bem quisto pelo comando da Ambassador experimental. Aquilo chegava a ser engraçado, não pela rivalidade que as seções da Dissuasão tinham entre si, mas pelo fato de aquele comando – individualmente e agora em conjunto – serem os mais frios e bem treinados oficiais que o Departamento já teve, com todas as missões cumpridas a risca, capazes de qualquer coisa contra qualquer um. E a ele olhavam daquele jeito contrariado? Bem, sabia que a facção do atual almirante D não era a mesma da falecida almirante Konnery, aliás eram ferrenhas rivais, mas isso não era suficiente para ele acreditar que era por isso que a famosa “cúpula” estava tão... indiferente e arredia.
Sorriu para si mesmo: eles eram indiferentes e arredios. Apesar dos relatórios que a Dissuasão possuía do desempenho conjunto deles: eram amigos. AMIGOS!
Quem diria...
Ele não.
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Carla entrou na engenharia e se dirigiu direto para David. Faltavam agora apenas uma hora para que os ventos voltassem com força total e os explosivos deviam ser acionados antes disso, pois com a força das rajadas, era mais do que possível que as cargas fossem arrastadas em várias direções não programadas e dispersasse o efeito das explosões. E eles não queriam isso.
_ Sr. Benrubi, tudo está pronto.
_ Ótimo, tenente – e contactou a ponte. – Capitã O’Conell?
_ PROSSIGA, SR. DAVID.
_ Estamos prontos. Pode colocar a nave em órbita alta.
_ ENTENDIDO.
Carla e David se olharam.
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O’Conell assentiu para Wiser, que digitou os comandos em seu painel para afastar a Atlantis do planeta, cuja visão preenchia a tela panorâmica.
Sarah entrou neste momento na ponte e se postou ao lado de Diana.
_ HORA DO SHOW...! – ouviram o comandante daquela operação nefasta murmurar pelo intercom.
Sarah apenas moveu a cabeça para Diana, que respondeu um “estamos prontos” e fechou o canal de comunicação.
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David Benrubi já vira aquele tipo de explosivo funcionando. Eles eram muito instáveis e nunca, nunca, falhavam, ao contrário, às vezes explodiam antes da hora. Mas, diante de seus olhos, os painéis acusavam que todas as cargas haviam sido acionadas. Seu pad de controle também confirmava isso, mas ao lado de cada “acionada” em azul estava um “falha na ignição” em vermelho. Tentou mais seis vezes, com a ajuda de Carla, redirecionando os comandos para tentar ultrapassar aquele defeito que certamente era do computador.
_ Computador, analise a falha detectada.
_ ANALISANDO – a voz educada e masculina respondeu. – OS COMANDOS FORAM EFETUADOS CORRETAMENTE. OS RECEPTORES REMOTOS RECEBEM BEM E NÃO APRESENTAM DEFEITOS TÉCNICOS. POSSÍVEL CAUSA: DESCONEXÃO DOS COMPUTADORES PORTÁTEIS OU FALHA MECÂNICA E OU ESTRUTURAL DO MATERIAL.
D’Angelis sorriu de sua mesa, observando-os à distância. David se voltou para ele. – Como isso é possível?
_ Boa pergunta, sr. David, afinal todas as conexões e programações foram feitas pelo seu pessoal. Os oficiais da Atlantis foram apenas carregadores caros.
David o fulminou com o olhar por apenas um segundo, depois abriu um sorriso bem devagar. – É claro, sr. D’Angelis, a falha deve ter sido do material que trouxemos ou dos meus comandados...
Carla arregalou os olhos. – Mas, senhor...
Ele apenas a olhou, que se calou.
O intercom soou: - OS VENTOS CICLÔNICOS SE REINICIARAM NO PLANETA. AUGE DA VELOCIDADE NO EQUADOR EM 3 MINUTOS – Ness anunciou parecendo bem feliz.
O computador acusava antes de acionar as cargas que tudo estava devidamente acoplado e funcionando perfeitamente. Era evidente que haviam sido sabotados!
_ SR. D’ANGELIS, PREPARAR PARA SAIR DE ÓRBITA. POR FAVOR, COMPAREÇA AGORA MESMO PARA UMA REUNIÃO DE PRIORIDADE UM, SALA DE REUNIÃO 2. SR. DAVID, FAVOR COMPARECER A SALA DE REUNIÃO 2. – Eles se olharam mas não tiveram tempo para trocar nenhum comentário, pois o alerta amarelo começou a soar. – ALERTA AMARELO PARA TODOS OS POSTOS, ISSO NÃO É UM EXERCÍCIO, ALERTA AMARELO...
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Quando D’Angelis e David chegaram na espaçosa sala de reunião dois, viram na tela panorâmica que esta continha o planeta Mephisto 7 cercado por naves vermelhas fosforescente 2 a 30 vezes maiores que as naves venizianas que todos conheciam. Deveria haver uma centena delas ocupando toda a órbita do planeta. As que estavam na linha do equador mergulhavam vermelhas e voltavam lilás ou pretas. Era evidente que estavam recolhendo os explosivos plantados neste. Uma rosa, também fosforescente, veio do hemisfério norte e, fora da órbita de Mephisto, expeliu um bólido cinza arredondado que passou direto ao largo da Atlantis: era o abrigo da “expedição científica”.
_ Isso... – David olhou a cena toda entre surpreso e irritado. Mas estava irritado pela falha dos explosivos e não por aquela demonstração de força.
As naves venizianas se alinharam entre a Atlantis e o planeta, sendo a última visão que tiveram antes que os riscos das estrelas tomassem conta da tela.
_ Sr. David, sente-se. Acabamos de receber um comunicado da Frota para deixarmos imediatamente o planeta Mephisto 7 e retornarmos para dentro das fronteiras a Federação – ele se sentou devagar. Diana continuou: - O Conselho da Federação votou uma ordem geral para o império veniziano, que estabelece uma zona neutra nesta fronteira a partir de ontem, às 23 horas de San Frascisco, Terra. A Ordem Geral 201 designa que todas as naves da Federação que ultrapassarem a zona neutra veniziana a partir desta data terão toda a sua tripulação condenada a morte por violação do isolamento desta área, que é por tempo indeterminado. Não haverá exceções a ninguém, nem comandados, nem comandantes. Temos seis horas, a partir do recebimento deste comunicado para estarmos dentro das fronteiras da Federação.
David a fitava compenetrado e depois de alguns segundos abriu um sorriso.
_ Eu entendi perfeitamente, capitã O’Conell.
_ Ótimo. – E voltou-se para Jordan. – Sr. Engenheiro, ordenei dobra máxima para que cheguemos ao nosso destino dentro do prazo que nos foi dado.
_ Pode ficar tranqüila, capitã, pois os motores estão na mais perfeita ordem.
_ Sr. David, deseja acrescentar algo?
Ele se levantou. – Nada, senhora. Minha missão não foi cumprida a contento, mas fiz tudo aquilo que me foi ordenado. Estou a sua disposição até Aquário Verde.
Diana assentiu com a elegância de sempre. Aquele era um soldado. Estava ali para fazer, não para pensar. Que diferença de sua equipe!
_ Estão todos dispensados, senhores.
Quando todos saíram pediu ao computador para mostrar a última visão de Mephisto 7 e das naves venizianas, magníficas, exuberantes, lindas...
O que quer que acontecesse dali para frente, no mínimo haviam colecionado mais um grande inimigo.
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Martina finalizou a mensagem e a enviou. Recostou-se em sua poltrona, num alojamento com uma decoração delicada e de bom gosto.
Havia alertado seu chefe que os relatórios sobre Mephisto 7 enviados pela “cúpula” da Atlantis eram absolutamente fiéis a realidade daquele setor e que deveriam ser analisados com cuidado e, se houvesse algum bom senso, acatados, pelo menos por enquanto.
Mas aquilo não havia ocorrido, pelo contrário. Fizera relatórios minuciosos sobre cada membro do comando e seus subordinados diretos, sobre grandes mudanças dentro da nave, sobre os civis, sobre a estabanada mesmo que eficiente Conselheira...
Sabia desde o primeiro dia que pisara naquela nave que eles sabiam que ela não estava lá só para ser enfermeira, uma excelente enfermeira, mas também para passar informações. Agora o seu relatório também seria uma testemunha irônica da arrogância e dos erros cometidos para aquele setor do novo e deslumbrado almirante D. Infelizmente ele dera um jeito de minar o poder da Dissuasão perante a Federação com aquela manobra tola. O que restava agora para todas as facções que compunham o Departamento – e que não eram poucas, mas haviam as que realmente mandavam – era remediar as ações daquele comandante e seguir em frente como se nada tivesse acontecido.
Mas Martina sabia que muita coisa aconteceria dali pra frente nos comandos das seções e talvez dentro da própria razão de ser da Dissuasão.
_ Uma grande tempestade paira no horizonte... Mas poucos conseguirão ver essas nuvens antes que elas cubram tudo...
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Capítulo IV.
ÀS VINTE HORAS...
Joshua observava Rebecca sair da piscina meio ausente.
Há três anos atrás os risos e alguns galanteios das oficiais, nem todos tímidos, eram recebidos por ele como conseqüência natural da pouca convivência e do efeito positivo que seu belo físico sempre causava nas mulheres. Sempre fôra um homem de razoável beleza e com bastante facilidade para lidar com o sexo oposto. Gostava das mulheres. Gostava de conviver com elas, trabalhar com elas, conversar com elas, transar com elas... Aquilo, aliás, muito... Mas há três anos aqueles galanteios não eram mais interessantes ou lisonjeiros... Depois que Sarah terminara tudo com ele tivera outras mulheres na cama, mas... Não era mais a mesma coisa...
O rosto suave e esperto de Rebecca surgiu de dentro d’água perto dele.
_ Dá a toalha, pai.
Joshua olhou para ela como que acordando de um sonho.
_ Fiona não deveria estar com você?
_ Hoje não. Sarah sabe que nós a ajudamos por prazer, mas procura nos revezar - e sorriu, mas seu rosto se tornou sério com a aproximação da linda e delicada moça loira que se aproximava deles.
_ Como vai, sr. Benrubi? – A voz quase sussurrada, doce, indagou acompanhada de um sorriso quente.
_ Muito bem, tenente Lousburry – Joshua respondeu tentando sorrir com a mesma intensidade insinuante que a da mulher a sua frente.
_ Olá, Rebecca.
_ Oi, Cindy – Rebecca disse se afastando para uma cadeira próxima. – Pai, eu já vou, tenho compromisso em trinta minutos.
_ Aquele convite ainda está de pé, Joshua? – Cindy indagou com seu melhor e mais sensual sorriso, antes que ele pudesse responder a filha, que já estava indo embora.
_ Convite? Ah, o de tomarmos algo juntos? – e Joshua sorriu sem graça. Fizera esse convite na frente de Sarah. Cindy era recém engajada. – Andei tão ocupado desde então que até esqueci. Desculpe-me, tenente.
Ela continuava sorrindo lindamente. – Também esqueceu meu nome?
Ele a olhou indiferente, surpreendido consigo mesmo. Aquela mulher linda e delicada estava ali, tentando seduzi-lo e ele tão desanimado?
_ Desculpe-me, tenente, mas eu preciso ir agora. – E a fitou. – Quer me ver mais tarde, na reuniãozinha que faremos às 22 horas no alojamento do dr. Düff?
_ Claro que sim! – ela disse feliz. – Estarei lá!
_ Até mais tarde então. – E saiu o mais rápido possível.
VINTE MINUTOS DEPOIS...
_ Pai...
Ele a olhou pelo espelho enquanto terminava de fazer a barba. – Sim?
_ Você acha a tenente Lousburry bonita?
Ele sorriu. – Por quê?
_ Responde, pai.
_ Acho a tenente Lousburry uma mulher muito bonita.
Ela suspirou. – Então por que o senhor não namora ela? Ela me parece uma boa pessoa, bem calma, inteligente...
Joshua a encarou. Não sabia com que cara ficara, mas certamente ela conseguira cutucá-lo.
_ Onde você quer chegar, Rebecca?
Ela o abraçou pelas costas.
_ Quero que você seja feliz de novo, só isso.
Joshua cerrou as pálpebras com força. Sabia o quanto Rebecca gostava e admirava Sarah, exemplo que seguia veladamente e cuja proximidade se tornara mais forte desde o nascimento de Fiona, que Rebecca amava como a uma irmã. E com tudo isso, talvez... ela quisesse dizer que nem mesmo ela ainda tinha esperanças...
_ Não tire conclusões do que eu disse. Apenas seja um pouco feliz pra variar.
Ele não teve como responder.
MEIA HORA ANTES DO FIM DO SEGUNDO TURNO, NOS ALOJAMENTOS DE DÜFF...
_ ... e então, Hans, o que você achou dos últimos acontecimentos?
_ Sabe, Ness, nós passamos por algumas coisas, mas sempre há algo novo pra surpreender a gente – e Düff se virou para Joshua, que fôra o primeiro a chegar à reunião quinzenal que os oficiais da Atlantis realizavam em sistema de revezamento, e encheu de novo o seu copo. – Puxa, Joshua, você está entornando legal. Vai devagar.
_ Devagar? – e riu de uma forma muito engraçada. – Eu, hein, Hans... Você está ficando sovina! – e olhou para a porta. – Ora, ora, se não é minha boa amiga Gina Stuart! Ah! E meu bom irmão David Benrubi!
Düff apertou a mão de Gina com um sorriso especial. – É um prazer tê-la aqui, Gina.
Gina sorriu para ele com satisfação. Muito raramente era convidada para aquelas reuniões, apenas quando havia passageiros importantes ou da Federação, o que não ocorria com muita freqüência ultimamente. Apenas Hans, e às vezes Joshua, se lembravam dela. Os demais, nunca.
_ É um prazer pra mim também, Hans – e pigarreou, voltando-se para David. – Tomei a liberdade de trazer este meu amigo.
_ Por favor, fiquem à vontade! – e indicou uma mesa com os comes e bebes preparados por Françoise.
_ Oi, dr.
_ Ora, olá, Cindy! – ele a recebeu com um sorriso curioso.
_ Joshua me convidou – ela explicou meio sem jeito, pois todos os tripulantes sabiam que ser convidado para uma das reuniões da “cúpula” era algo bastante raro, quase um privilégio.
Hans o olhou, isolado em um canto da sala. – Foi uma boa idéia ter aceitado, Cindy. Fico feliz que esteja aqui. Vai lá... – e piscou, então viu Sarah entrar e a reação de Joshua a chegada dela. Afastou-se na direção da vulcana e, no meio do caminho, pegou uma garrafa e uma taça. Serviu o vinho vermelho e perfumado e o ofereceu para ela com um sorriso. - Ela ficou mesmo com Roger?
_ Ele resolveu aproveitar para mexer num pedaço de terra que Françoise lhe cedeu para plantar algumas novas sementes que vem melhorando. Fiona simplesmente adorou a idéia de ajudá-lo.
Hans deu uma risada. – Coitado!
_ Coitada de mim que depois vou ter que limpar as unhas dela! - Sarah riu um pouco e olhou para Joshua, que a fitava sem disfarçar. – Ele não está bem...
_ Bebeu uma garrafa de cerveja romulana sozinho. Pessoalmente acho que ele se controlou por tempo demais.
Sarah não retrucou. Não discutiria aquilo de novo com Hans. Não de novo.
_ Imediato McKenna.
_ Sr. David – e pôde ver Joshua e Dyllan fazendo duas moças rirem. – Me surpreende que ainda tenha humor para uma festa...
David sorriu gostosamente. – Estava apenas cumprindo ordens. O que acontecerá daqui pra frente não é problema meu. Mas isso não é um assunto para uma festa. Quer dançar comigo?
Sarah ergueu a sobrancelha. – Dançar?
_ Não é contra o regulamento.
_ Não, não é.
David a enlaçou suavemente pela cintura e a conduziu para o meio da sala.
DO OUTRO LADO DA SALA...
Cindy Lousburry estava rindo dos gracejos de Joshua e Dyllan, mas percebeu a mudança brusca no israelense, que acompanhava os movimentos de Sarah McKenna desde sua chegada.
_ Quer dançar comigo, Joshua?
Stuart, que se juntara a eles, cutucou o amigo. – Vai, Joshua. – Gina já havia notado o brilho indignado nos olhos dele em direção a David e Sarah. – Vai logo, você nunca foi covarde...! – sussurrou. – Anda!
Joshua levantou-se com outra expressão no rosto: estava sorridente, sensual. Pegou Cindy pela cintura e a conduziu com elegância para junto de Sarah e David.
****
David sorriu com malícia ao ver Joshua se levantar e pegar a moça ao seu lado. Bela moça, um pouco insossa como a antiga esposa imposta. Com ele não fôra assim, nada de aceitar “rituais” tão antigos como sua raça-religião. Religião...
David fitou o rosto de Sarah com vontade de beijá-la, de apertá-la mais forte, mas não conseguira, em nenhum momento até ali, impressioná-la com qualquer de seus argumentos ou galanteios. Era evidente que a rivalidade que a sua seção no Departamento tinha com o partido de sua mãe a fazia ficar alerta contra ele. Sabia do que ela era capaz, e só se surpreendia que Gina ainda estivesse viva. Será que Stuart mudara de lado? Toda aquela conversa sobre ser uma rejeitada lhe parecia apenas isso: conversa. Em fim, o assunto veniziano era briga de cachorro grande, não seria ele a decidir o que aconteceria dali pra frente, mas estava curioso em saber o que levara aquele grupo considerado um dos melhores da Dissuasão para trabalhos como aquele terem simplesmente... desobedecido. Eles sabiam que tudo dependia da nave deles e haviam usado o poder dado pelo Departamento contra o próprio.
_ Belo par você tem aí, mano. Você dança bem, Imediato McKenna.
Os olhos dela sorriram – Obrigada, sr. Benrubi.
Joshua parou de dançar, sorrindo estranhamente, e segurou o ombro de David. – Vamos trocar um pouco e colocar uma música mais...
_ ... quente? – David sorriu. – Eu acho que podemos fazer melhor: uma pequena disputa. Quem dançar melhor ganha um beijo.
_ Um beijo de quem? – Cindy indagou mal olhando para a vulcana. Ela tinha medo dela. Medo mesmo.
_ Um beijo da boneca de pano de Fiona – Hans interferiu ficando ao lado de Sarah, que já se afastara um pouco deles.
_ O prêmio adequado para uma disputa tão inteligente – e ergueu a sobrancelha de forma a acentuar o tom de desafio a sua autoridade. – Concordam, senhores?
_ Você é uma desmancha-prazeres, Sarah McKenna! – Stuart levantou-se um pouco tonta, juntando-se a conversa.
Cindy estava abraçando Joshua pela cintura, mal contendo seu peso oscilante.
Sarah tocou o rosto de Hans com ternura, num “até logo” breve e silencioso. – Com sua ajuda, sr. David, levaremos o sr. Benrubi e a srta. Stuart. Sra. Lousburry, nos acompanhe.
Sarah libertou Joshua do abraço inseguro de Cindy. Poderia levá-lo no colo, mas seria um tanto vexatório para ele.
David pegou Gina e eles se foram.
****
No corredor eles se separaram. Sarah se dirigiu para os alojamentos de Cindy, que a seguia muda e intrigada. Elas entraram e Sarah pôs Joshua sobre a cama e se voltou para a moça loira:
_ Sei que você gosta dele, sra. Lousburry. Talvez a partir desta noite vocês possam se tornar um pouco mais... íntimos.
Cindy entendeu e ruborizou-se. – Obrigada, sra. McKenna.
_ Não há de quê. Tenham uma boa noite – e a porta se fechou atrás dela.
NO CORREDOR...
Sarah prosseguiu pelo corredor silenciosamente. Já estava apta para receber sua promoção e sua própria nave, provavelmente uma das filhas de sua amada Atlantis. Mas ainda havia a sensação terrível de destruição que Gina trouxera consigo... Não que a culpa fosse dela, mas mesmo depois daqueles três anos não conseguira extrapolar aquela informação por mais que tivesse tentado. Pensara em eliminá-la, transferi-la, torná-la cúmplice deles, mas sabia que o destino das coisas não mudaria com esses seus truques... Gina teria que ficar até o fim, só não conseguira vislumbrar onde seria isso. Apenas aceitar que teria de ficar também até o fim para ver. Jevlack discordara daquilo. Sabia que ele tinha razão, mas fizera um juramento de proteger seus amigos como eles vinham fazendo até ali com ela e sua filha. Nada pagaria a amizade deles além de cumprir o seu juramento.
E a única certeza que a visão do futuro lhe dera era que eles viveriam se ela estivesse com eles.
E ainda havia Fiona... Há poucos meses atrás sua felicidade desmoronara com a visão da morte da criança... Mas a esta precognição sabia perfeitamente que atitude tomar: deveria tirar Fiona da Atlantis. Mas.. ela era um bebê, o seu bebê, como poderia se separar dela?
Jurara a si mesma e a Janus que Fiona seria criada livre de diretrizes, orientada para ter todas as opções que existissem quando chegasse a hora de ela escolher. E ninguém mais. Nem mesmo eles.
E cumpriria.
Mas... como poderia deixar Fiona ir para longe dela? Como poderia ficar em paz longe do prêmio precioso que seu adorado companheiro dera a ela, sua menininha, a razão de sua tempestuosa e constante alegria, coisa que jamais sentira em tempo integral até que ela passara a existir em seu ventre?
Entrou em seus alojamentos e lá estava ela, sorridente, no colo de Roger, vendo hologramas de plantas em crescimento.
_ Mãe, mãe, mãe!!
Ela pulou do colo de Roger e correu para ela rindo, a alegria dela apenas por vê-la encheu seu coração de júbilo.
Pegou-a no colo e sorriu para o primo.
_ Ela aprende muito rápido, Sarah.
Sarah sorriu para ele, que se aproximara dela e a beijara de leve nos lábios. Sarah se tornara mais... acessível, mais doce, depois que Fiona nascera. Ela sorria com doçura agora, deixava as pessoas tocá-la e não escondia em nenhum momento a adoração que tinha pela filha.
_ Vejo que limpou as unhas dela.
Ele sorriu. – Dá próxima vez vou por ela dentro de um traje de contenção! Apenas luvas não adiantaram nada!
Fiona riu. – Foi o bicho!
Roger olhou-a e apertou uma de suas bochechas. – É, foi, sua danada, o que quer que isso queira dizer! – e olhou para Sarah – Você ensinou gaélico para ela?
_ Ainda não. Não formalmente, pelo menos. Ensinei um pouco de brasileiro e a língua oficial da Federação. Mas falo gaélico com ela às vezes, algumas coisas básicas.
_ Então ela aprendeu bem. Boa noite, minhas queridas.
_ Boa noite, Roger – e se voltou para Fiona, que sorria para ela. – E então, senhorita Sernick? Alguma idéia para hoje?
Fiona a abraçou pelo pescoço, ficando assim alguns minutos, aconchegada a mãe, sentindo seu calor e seu cheiro, no prazer mais simples e mais profundo que podiam compartilhar: estavam juntas e Sarah sabia que a menina, apesar de ainda não ter formado um elo direto com ela, se mantinha ligada a ela pelo elo emotivo e primitivo que o feto tinha com a mãe. Era cedo ainda para um elo efetivo, mas Fiona era tão precoce, e não sabia, enfim, se teria condições de...
_ Você disse que ia dançar comigo hoje, mãe.
_ Ah, é mesmo...
_ Vamos então?! – e ela começou a pular em seu colo.
Sarah a ergueu sobre a cabeça, fazendo-a rir alto, girando-a para os lados e para cima e para baixo.
_ Vamos sim, só vou trocar de roupa!
NA “MANHÔ SEGUINTE, NOS ALOJAMENTOS DA CAPITÃ...
_ Sente-se, Sarah – Diana sorriu. – Onde está Fiona?
_ Na piscina com D’Angelis.
Diana serviu suco de laranja para ambas e se sentou. – Você disse que queria falar sobre Gina Stuart.
_ Também. Quero que você analise friamente minhas atitudes para com ela nos últimos dois meses.
Diana estranhou aquilo. – Bem, você tem espetado Stuart desde que ela chegou e, particularmente, ela tem merecido, mas nesses últimos dois meses você tem sido bem má com ela, perseguindo, corrigindo e dificultando o trabalho dela, que, quer queiramos ou não, ela tem que fazer. Eu posso ver que na sua rude frieza costumeira há um bem claro sentimento agressivo.
_ Raiva? – Sarah ponderou um pouco. – Diana, você sabe o que vem me preocupando nesses últimos tempos, e ainda lamento o fato de não poder orientá-la adequadamente sobre Gina. Agora, mais do que nunca, devo admitir que estou cega... Minhas pré-cognições, antes claras e objetivas, nada mais significam para mim. Sei apenas o que já disse a você antes: a partir da chegada de Stuart, algo muito grave acontecerá com a nave, mas não sei dizer o que, como e quando...
_ Sei o quanto isso exaspera você, Sarah. Mas agora posso notar que está além da exasperação.
_ Muito além, Diana. – Elas se fitaram com ternura. – Agora, além disso, há o que senti sobre Fiona... É meu dever pô-la em seu próprio caminho, já que sei o que devo fazer sobre isso, a única clareza que tive nesses meses todos...
_ Você decidiu então, Sarah? – Diana falou triste. – Vai... embora?
_ Ainda não. Não posso tentar mudar meu destino dentro desta nave antes dos acontecimentos que estão reservados a todos nós se realizarem. O destino de Fiona está totalmente desvinculado da Atlantis, mas tenho pouco tempo para manter isso em sua própria linha. Conversei com Jevlack. Decidimos que ela irá para a Terra, mas antes devo ir a Vulcan tentar apaziguar meu descontrole. Antes de qualquer outra decisão preciso saber o que acontecerá de forma clara, ou jamais terei paz comigo mesma... E não poderei lhe ser mais útil se não recuperar o controle de meus poderes pré-cognitivos...
Diana suspirou. – Sua saúde mental me é vital, Sarah, mas esses poderes não são o que você tem de melhor como oficial da Frota. E você tem uma filha agora. A Frota não é tudo.
Sarah baixou a cabeça. Sentia uma grande amargura por estar naquela encruzilhada.
_ Queria não precisar me afastar dela, Diana...
O’Conell ficou com os olhos cheios de lágrimas. Fiona havia purificado Sarah, dado a ela novas crenças, um novo futuro, enchido seu coração de alegria e paz.
_ O que posso fazer?
_ Há muitas coisas que sabemos uma da outra. E há coisas que não são possíveis até chegar o tempo de elas se fazerem presentes... Tudo que preciso agora é que você autorize minha licença.
Diana se sentia mortificada e ao mesmo tempo não sabia bem por quê.
_ Não se preocupe com nada, Sarah.
_ Obrigada, Diana.
“Tudo ocorrerá como tem que ser... Independente de mim ou de você...”
E a porta se fechou silenciosamente.
****
O jovem tenente, alto e forte, literalmente voou por cima da platéia em volta do tatame e se chocou contra o chão a alguns metros a diante. Andrade era o quarto lutador a sair dali com alguma... dificuldade.
_ Ele quebrou o braço, sra.
Sarah levantou devagar a cabeça. Estava num canto do tatame, de pé, inclinada para frente com as mãos nos joelhos.
_ Vá para a Enfermaria, sr. Andrade.
_ Mas, comandante, nós combinamos uma melhor de cinco. Se alguém for para a Enfermaria... – Andrade ainda tentou argumentar.
_ Agora, tenente – Sarah sibilou com rudeza, como se não o tivesse ouvido. – Sr. Sanchez, pague as apostas.
Dyllan deu um sorrisinho. – Vamos lá, pessoal, acho que por hoje é só. Ei, Lousburry, você ganhou alguns créditos, hein, garota?
Cindy sorriu. – Apostei uma bobagenzinha, sr. Sanchez, mas apostaria muito mais, e contra a sra. McKenna, se fosse o sr. Benrubi. Ouvi dizer que apenas ele conseguia ganhar dela.
_ Às vezes, Cindy...! – e Dyllan sorriu com malícia.
Sarah estava um pouco distante, dirigindo-se para o vestiário, mas se voltou para eles com uma expressão indescritível. Ele deu uma pequena corrida para alcançá-la.
_ Hoje você vai ouvir umas boas, e não poucas, de Hans, comandante.
_ De fato, Dyllan... – e o fitou, abstraída.
_ McKenna, você não está nada bem – e não pôde conter um sorriso leve. – Os pobres que você surrou que o digam!... – Ficou sério de novo e teve vontade de abraçá-la. Ela parecia tão atormentada...!
Sarah olhou para o quimono rasgado na manga e conteve a forte reação de estraçalhá-lo. Sua emoção raivosa não fôra, nem de longe, aplacada por alguns golpes. Sabia que não adiantaria surrar a nave inteira, a Frota Estelar inteira. Nada superaria a frustração que estava experimentando. A decepção consigo mesma era doentia, implacável. Decidir não era a sua solução. Decidir seria morrer.
_ Vou levar Fiona para Vulcan, Dyllan. Se quiser se despedir dela...
Sanchez a olhou, surpreso. Quis perguntar por que e se recriminou por uma repentina vontade de chorar. Gostava muito da menininha. Gostava mesmo. Por que Sarah estaria levando ela embora?
TRINTA MINUTOS MAIS TARDE...
Joshua entrou no gabinete da ponte e ela estava lá. Ele a olhou, fitando as estrelas pela escotilha, indiferente a sua presença. Sentiu uma emoção mesclada de raiva e desejo. Ela era quem queria ser: vezes sem conta quisera esquecê-la, ignorá-la, odiá-la, mas nada daquilo realmente fazia sentido. Ele só queria estar com ela de novo, independe de tudo que havia acontecido, mas ela... Ela continuava tentando manipular o seu destino como se ele não tivesse direito a opinar sobre isso...
_ Não me consta que eu precise de sua ajuda para arranjar companhia, McKenna.
Ela se voltou para ele.
_ Não tive intenção de ofendê-lo.
_ Que diferença faria se você tivesse? Alguns maus hábitos se tornam freqüentes.
Sarah ergueu a sobrancelha esquerda. – Cindy Lousburry é nova na nave. Uma companhia inédita certamente lhe fará bem.
_ Não quero uma nova amante, Sarah... – e se aproximou bem dela. – Com todo o seu poder mental não pôde perceber uma coisa tão óbvia?
Eles se encararam profundamente. A dor dele embargava Sarah.
_ Eu... não queria te fazer sofrer, Joshua...
Ele deu uma risada curta e sarcástica. – O mais engraçado é que você também sofreu, e ainda assim foi incapaz de fazer algo por si própria.
Ela se exasperou. – E o que você acha que eu deveria ter feito, Joshua? Mantido você como meu amante? Isso, no mínimo, é uma idéia absurda!
_ E por quê?
Sarah entreabriu os lábios, realmente admirada com a pergunta dele. - Você é um humano, não um klingon ou um vulcano. Concubinato não faz parte da sua cultura... – E apoiou a mão sobre os olhos por um instante. – Que idiotice... por que estou falando isso pra você?
_ Porque precisa amenizar a minha dor...
Ela se sentou e suspirou. Nunca poderia fazer nada por ele. E sempre sentiria culpa. E amor. Não um amor como ele esperava, mais ainda assim era amor.
O’Conell entrou, notando o clima sombrio. Recebeu o pad com o relatório de Joshua, que saiu em seguida.
_ Sanchez, trace rota para a base estelar 132. Vamos largar esse fardo lá o mais rápido possível. Dobra oito.
_ DOBRA OITO, EFETUANDO.
_ E então, capitã? O conselheiro gostou das notícias?
Diana sorriu também. – Recebemos ajudas inusitadas dos klingons e de Vulcan. O conselheiro ficou feliz em poder dizer “Oh, minha filhinha, você está tão magrinha!”
_ E você está.
Diana se sentou com uma xícara de chá. – É só cansaço. Nada que algumas horas de folga não curem. O que certamente servirá para você também.
_ É o que espero.
_ Só lamento que a pequena se vá...
Sarah sentou-se com uma xícara de café com leite nas mãos. - ... Eu também... Mas o meu lugar ainda é aqui. E o dela não. Não mais.
_ Pode ter certeza que vamos sentir muita falta dela. E pense bem se realmente não é hora de você deixar essa vida – e suspirou, olhando as estrelas borradas na escotilha. – Eu também não sei se essa vida ainda é tão atraente como antes...
_ Tudo tem seu tempo, afinal... Talvez tenhamos adquirido independência suficiente dentro da Atlantis para passarmos a questionar esse estilo de vida.
_ Talvez tenhamos tido liberdade suficiente esses oito anos para passarmos a desejá-la com mais veemência... Por que não? Eu ainda amo o espaço e a adrenalina, mas com certeza estou cada vez mais intolerante com essas ordens sem pé nem cabeça, esses servicinhos sujos que não servem pra nada além de nos minar o ânimo...
_ ...Porque a crença em um mundo melhor perdemos há muitos anos atrás.
Elas se fitaram com um sorriso que lembrava seus passados na Academia da Frota, onde haviam aprendido frases bonitas e brilhantes sobre justiça, prosperidade e igualdade entre as raças, coisas que haviam se perdido no tempo e nas missões que haviam cumprido.
_ Sarah, Melrik já superou...
_ ... o Pon Farr? Sim.
Diana estava com a pergunta saltando de seus olhos. Estava morta de curiosidade!
Sarah sorriu com um ar malicioso. – Não fui eu, Diana. Foi uma veniziana!
Diana abriu a boca por um instante. – Mentira, Sarah!
_ Eu juro!
Diana pôs a mão sobre a boca. Estava tão surpresa quanto curiosa. – E... como foi?
_ Sinceramente, não sei informar detalhes “técnicos”, mas deve ter sido uma experiência interessante.
Diana assentiu. – Com certeza...
Sarah mudou de assunto, pois sabia que Melrik morreria se ela contasse algo mais. - Devo voltar em trinta dias.
_ Não se preocupe com isso, já disse. Volte quando achar que deve. Se tiver que voltar.
Elas se levantaram e apertaram as mãos.
_ Vida longa, O’Conell.
_ Tenha uma viagem sem incidentes, McKenna.
Com as mãos ainda unidas, elas sorriram uma para a outra e, pela primeira vez, se abraçaram.
MUITO LONGE DALI...
Duas silhuetas se recortavam, escuras, contra a parede transparente de um grande escritório, conversando em tom confidencial.
_ Inspirou-se nos camaleóides ao educar McKenna? Em Vulcan não havia jovem mais vulcana, na Terra, mesmo discretamente, nenhum oficial de sua idade sabia viver melhor que ela seus momentos de folga e em Ablag 3... – e ele riu. – Quem não a conhecesse a consideraria uma romulana típica com especial respeito ao comportamento e costumes ablagianos ou uma ablagiana intimamente ligada aos romulanos. Duas frentes ao mesmo tempo... Magnífica! Humana? Vulcana? Nem de longe! Oh, Yonah, depois de todos esses anos Sarah se mostrou a mais avançada de nossas criações, o nosso top de linha, por que você não continuou? Cada vez que recebo os reportes das ações dela tenho mais e mais orgulho do nosso trabalho!
Yonah o olhou com desdém por sua empolgação. Sabia que, por suas medidas de segurança, aquelas palavras jamais seriam ouvidas de novo, mas não lhe agradava aquele estabanamento.
_ Orgulho, Conselheiro... – Yonah murmurou devagar. – Sarah não é apenas minha criação, também, e principalmente, é meu sangue. Ela jamais me deu maiores problemas que seu casamento com Sdeck. Nem mesmo eu poderia criar melhores meios para nossa situação que o fato de Sarah ser ligada aquele... “humano” agregado a nossa família. De certa forma, devemos admitir que também tivemos... sorte com ela.
Ele sorriu. – É uma palavra bastante estranha na sua boca.
_ Mas expressa com bastante fidelidade a carreira de minha Única Filha.
_ E quanto a Sarik?
_ Sarik será para o governo de Vulcan. Ele tem tendências bem claras para isso. De qualquer forma, não necessito de ninguém dentro da Frota agora além das que já tenho.
_ Nem a longo prazo?
_ A longo prazo terei Sarah... – ela murmurou misteriosamente.
_ A posição de Sarah nos é muito cômoda. Em termos operacionais ela é impecável, uma oficial excelente, que reúne as melhores características de campo: a lógica vulcana e a impetuosidade humana. Como vulcana executa suas ordens fielmente e como engendrada executa qualquer tipo de ordem. Mas o fato de ser sua filha a domou de forma que nenhum treinamento o faria. Por isso insisto que você repense esse ponto para os próximos anos.
_ Pensarei – Disse pondo-se de pé. Não tinha mais o que fazer. O tempo se encarregaria de tomar todas as decisões. Cabia-lhe apenas aguardar. E esperar que Sarah e seu “humano” tomassem as rédeas de seu legado.
Criara meios para proteger um estilo de vida que não era apenas o seu, mas aquilo que a Federação inteira representava. Os tempos estavam mudando, assim como aquela forma de agir passara a ser... como poderia definir?... uma questão de sobrevivência ou de mudança...
Talvez a mudança não fosse tão ruim se não incluísse a troca de mãos do poder da Federação para seus inimigos, inclusive alguns que oficialmente nem existiam e que seus adversários insistiam em manter secretos para a maioria dos planetas aliados, que seguiam suas vidas alheios as batalhas que as facções secretas travavam nos bastidores de seus mundos e espaço afora.
Fizera tudo o que pudera, mas agora a vida se encarregara de lhe ensinar uma lição de humildade: a de que ciência era finita, e que seu trabalho, por mais extenso e bem feito que tivesse sido feito, se transformaria apenas em passado se não tivesse seu sangue para continuá-lo.
Sarah e Janus eram outra raça. Seus corações independentes e simples queriam apenas viver em paz, longe dos bastidores da Federação e da árdua e contínua batalha de manter a Federação de pé dentro dos moldes que todos já estavam habituados.
Bem, o futuro pertencia a eles e não a ela. O que quer que eles fizessem certamente o fariam para se protegerem. E o fato deles prosseguirem futuro a dentro era todo o alento que precisava.
NOS ALOJAMENTOS DE HANS...
Hans passou a mão em seus cabelos. Tudo aquilo era novo para Sarah, jamais, antes, ela se vira tão fragilizada com a impossibilidade de saber exatamente o que suas pré-cognições queriam dizer. E a cada dia, as imagens e sensações absorviam mais e mais dela, levando-a aquele estado quase incontrolável e obsessivo.
_ Não consegue se desligar?
_ Não. Estão tomando conta de cada hora da minha vida agora!... Cada vez que olho para aquela mulher me sinto desesperada... – Düff engoliu em seco. – Sei que a culpa não é dela, Hans, mas ela é o canal... O que, o que, o que ela traz?!
Ele se aproximou devagar e então a abraçou fortemente. Eles permaneceram assim por um longo momento.
Eram amigos há 28 anos e jamais haviam falhado um com o outro. Às vezes Düff tinha medo de ficar velho demais para acompanhá-la, fazê-la rir ou abraçá-la quando fosse preciso.
Nunca tivera uma família, fôra sua opção, mais agora, mais do que nunca, tinha certeza que adotara Sarah desde a 1ª vez que vestira o uniforme de cadete e esbarrara nela no corredor da Academia da Frota, se estatelando no chão sob seu olhar curioso e impertinente há 28 anos atrás.
Ela era sua filha, sua irmã, sua mãe, sua companheira de farras e aventuras na juventude. Tinha a impressão de ter vivido a vida toda ao lado dela. E de tudo o que sabia, não queria vê-la naquele estado de incerteza brutal, que estava minando toda a lógica e a humanidade dela.
E, além do mais...
_ Fiona vai ficar bem.
Sarah assentiu.
_ E nós?
NA ATLANTIS, DOIS DIAS DEPOIS, NA ÓRBITA DA ESTAÇÃO 132...
O som anunciou que alguém estava na entrada e a porta se abriu. Rebecca, sentada tomando sua primeira refeição do dia, arregalou os olhos diante daquela figura e depois sorriu ao reconhecê-la.
_ Sra. McKenna! Que bom que está aqui!
A jovem se aproximou impetuosamente e Sarah não a impediu de abraçá-la. A vulcana acariciou a têmpora de Rebecca enquanto se sentava e lhe falava:
_ Vim para dizer até logo e agradecer seu carinho para com Fiona. Quando eu voltar teremos muitas coisas para conversar.
_ Eu já sei. Eu já sabia – a jovem replicou sorrindo.
_ É, eu sei também.
_ Mas há coisas... Coisas que me dão medo...
_ Não vão nos machucar, Rebecca.
_ Mas as coisas acontecem, Sarah.
McKenna sorriu. – Nem por isso você deve temê-las, está bem?
A jovem fez um biquinho e depois sorriu. – Está. Você volta logo, não é?
Sarah balançou a cabeça positivamente, se levantou e saiu.
Ao olhar para ela na porta, aí é que Rebecca percebeu que Sarah não estava mais vestida com a túnica escura e pesada com a qual a vira entrar antes.
FIM DA PRIMEIRA PARTE DA SEGUNDA TRILOGIA.
Por: Sílvia Costa.
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