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INFORMAÇÕES    
Autora: Sílvia Costa.
Autor: Roberto Kiss.
Título: Nuto Solo Pleraque...
Publicação: 05/05/2006.
Categoria: Jornada nas Estrelas.
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OUTRAS OBRAS DA AUTORA
I Fatos Consumados.
II Forças Antagônicas.
III O Poder dos Iniciais.
IV Vulcanos...
V Tradição Original.
VI Sal da Vida.
VIII Nuances da Tempestade.
JORNADA NAS ESTRELAS      
USS ATLANTIS - Novos Exploradores. Missão VII - Nuto Solo Pleraque Constitunt.
Parte III da Trilogia.
Por: Sílvia Costa e Roberto Kiss.

Imagem de Roberto Kiss direitos reservados.
Imagem de Roberto Kiss feita especialmente para a Série.
Novela dividida em nove capítulos. Aguarde a página carregar.

Nuto Solo Pleraque Constitunt - Muitas Coisas Existem Somente pela Vontate...

Muitas coisas existem somente pela vontade... A vontade de realizar desejos, cumprir metas, aceitar o inaceitável, esperar longamente por alguém, mesmo que isso dilacere seu coração e questione suas ações...

Muitas coisas existem somente pela vontade... A vontade que se sobrepõe as escolhas, as circunstâncias, ao destino... A vontade de proteger a dádiva recebida, mesmo sem entendê-la totalmente, mesmo que tudo o mais fosse impossível...

Neste conto, a tripulação da USS Atlantis se depara com uma nova forma de vida de PES altíssima, que levará seus comandantes, a cúpula, a efetuarem uma aliança ainda mais profunda que a do primeiro episódio, o que também levará Joshua Benrubi a revelar seus sentimentos a Primeira-Oficial vulcana engendrada e a sofrer todas as conseqüências disso...

Soma-se a isso um intrigante contato com um objeto cordial e misterioso que trará, com sua chegada, revelações surpreendentes sobre o passado de Sarah McKenna e de um personagem fascinante e especial que já nos foi apresentado em outros contos dentro da saga dos New Explorers, o então Primeiro-Oficial Jevlack!

Agradecimentos Especiais: aos leitores que nos dão muitas alegrias.
A Roberto Kiss que gentilmente confeccionou as imagens do conto.

****

Capítulo I.

A recepção de despedida na Atlantis estava movimentada, na verdade era uma confraternização entre os tripulantes, amigos e parentes destes para comemorar a reforma da nave e a nova partida desta. Algo que Sarah tinha planejado uma semana antes de ir a Zenimar com o intuito de conhecer informalmente o comportamento dos civis que viriam a bordo e porque aquela tripulação merecia isso já há três anos!

Diana se sentou em uma das cadeiras laterais para descansar as pernas, vários grupos se aglomeravam com conversas animadas, ela observou rapidamente a todos e voltou-se para a escotilha, uma bela nebulosa vermelha era o cenário daquela festa, dali ela podia ver as cores aveludadas mescladas com manchas brancas aqui e ali, vapores de água que tentavam resistir em meio a tanta atração gravitacional.

-Não é sempre que podemos apreciar um espetáculo espacial como este ao vivo, mesmo estando tão longe daqui... - Jordan sorriu para ela e se sentou ao seu lado.

-Momentos assim são raros, ainda mais quando podemos ter uma folga de nossas responsabilidades. - Ela sorriu e voltou-se para ele.

Jordan ficou observando a nebulosa e por um momento seus olhares se cruzaram.

- Estava pensando... - Ele sorriu e a encarou. - Podíamos fazer uma averiguação do meu último programa holográfico.

Ela sorriu. - Pensei que você estivesse desenvolvendo somente os programas de treinamento do holodeck.

-Bem, digamos que estou diversificando minhas obrigações, afinal se eu não usar minha criatividade, quem vai usar? Sem falar que é um cenário lindo e surpreendentemente real.

Ele se voltou para ela e sorriu, sem saber como ela reagiria, mas se estivesse certo ou errado um bom passeio mesmo no holodeck faria bem a ambos, torcia para ela aceitar.

Ela o encarou com um sorriso no canto da boca ante a feição simpático que ele expressava.

-Então por que não vamos checar os resultados de sua experiência criativa? - Ela sorriu.

Ele meneou a cabeça positivamente e sorriu.

-Vamos. - E deu a mão para ele, os dois saíram discretamente da sala de recepção sem deixar pista de seu paradeiro.

Ambos seguiram pelos corredores da nave de mãos dados e Diana não ligou para tal fato, na verdade estava se deixando levar esta noite. Já tinha bebido mais da conta, mas sabia que estava sóbria o suficiente para sentir o interesse de Jordan em si.

Diana sorriu consigo mesma.

Estou parecendo uma adolescente...

Diana sentiu uma estranha euforia, sabia que em alguns minutos eles estariam no mundo onde quase tudo era possível e longe do olhar curioso de algum tripulante desavisado, talvez tivesse sido impetuosa em aceitar aquele convite, mas por que não? Afinal negar o que estava quase evidente.

Jordan parou em frente a porta do Holodeck, abriu os três primeiros botões de sua camisa azul escura pois estava com calor, não sabia se por causa do vinho ou do uísque ou algo que não queria admitir, estava nervoso por estar com Diana ali prestes a cortejá-la abertamente. Ele deu algumas instruções ao computador assegurando que ambos não seriam perturbados por algum engraçadinho que desejasse entra no holodeck sem eles saberem.

E disse uma senha de retenção.

Ela o encarou sorrindo. - Você pensa em tudo mesmo.

-Um engenheiro deve estar pronto para emergências.

Eles chegaram a um gramado extenso que ia até a beira de uma encosta. Ela podia distinguir o céu azul lilás do mar ao longe.

- Os relatórios sobre esta sala holográfica nunca disseram toda a verdade. - Ela soltou olhando em direção ao mar.

- Sempre digo isso. - Jordan sorriu. - Fiz umas adaptações e melhorei a seqüência dos fótons polarizados...

Ele a guiou até o caminho que levava a beira do penhasco.

Ela olhou a sua volta e ficou admirada com aquele cenário, ela estava no alto de uma encosta verdejante, lá embaixo o mar batia contra as pedras e o som das ondas fazia ela lembrar de sua terra natal, ás suas costas, depois de um extenso gramado, um bosque começava e ao longe ela podia ver as árvores mais coesas formando um tapete verde e azulado. Era definitivamente um lugar lindo para se passar o tempo e refletir sobre a vida.

Ela sorriu ao ver uma garrafa de vinho e duas taças sobre um grande cobertor estendido no chão.

Ela se voltou para ele.

- Há quanto tempo você está planejando isso? - Ela sorriu.

- Há muito tempo, só estava esperando o resultado certo.

Ele sorriu se aproximando dela os dois se sentaram de frente para aquela visão do entardecer e Jordan não perdeu tempo em servir o vinho nas taças lhe passando uma delas. O vinho branco estava na temperatura certa os dois brindaram sem falar uma única palavra.

Ela sentiu o gosto doce do vinho, que era certo para aquela ocasião.

Ele a observava sem o uniforme, ela estava linda e ele percebeu que sem o uniforme era parecia estar indefesa longe da ponte de comando em um cenário novo mais indefesa ainda. Ele se divertiu com tal pensamento.

Ela olhou para ele e não se surpreendeu pois no fundo sabia que ele sentia a mesma atração que ela própria sentia por ele, só não sabia da onde este pensamento surgiu. Talvez da alta P.E.S. que Sarah insistia que ela possuía e não queria acreditar. Talvez devesse dar certo crédito as crendices de sua Primeira-Oficial.

Ele sorriu e a encarou nos olhos - Por que estamos aqui só olhando um para o outro como dois adolescentes nervosos?

Ela riu da situação e o encarou.

-Estava testando o limite da sua paciência.

Ele pegou a mão dela e sentiu que ela estava gelada. Ele sorriu para ela aproximando o seu corpo do dela.

-Você é uma péssima mentirosa.

Os dois riram por alguns segundos e trocaram um novo olhar.

-Você é adorável. - Ele sussurrou enquanto aproximava sua boca da dela, ela não vacilou nenhum centímetro e retribuiu com o mesmo ímpeto o beijo que Jordan dava nela e ambos trocavam um longo beijo apaixonado. Ambos largaram as taças de vinho já vazias que rolaram para longe deles.

-Acho que temos de treinar mais esta parte. - Ela sussurrou para ele enquanto ele sorria.

-Sem sombra de dúvida. - Ele a beijou mais intensamente a deitando delicadamente sobre a coberta, para logo depois ficar a observando, desprendendo seus cabelos e acariciando seu colo e seu pescoço. Ela observava Jordan com ternura e se posicionou melhor para ficar mais próxima dele, delicadamente ela retribuía as carícias descobrindo os ombros e braços firmes dele, indo em direção ao seu tórax musculoso sob a camisa entre aberta.

Naquele momento não trocaram uma única palavra sequer pois sabiam exatamente o que queriam um do outro. Algo além do contato físico ou do prazer imediato.

Ele tinha certeza agora que os olhares que tantas vezes trocaram eram muito mais do que atração simplesmente.

Eles se beijaram docemente enquanto Diana abria a camisa de Jordan botão por botão, deixando a mostra seu tórax nu.

Jordan a encarou e puxou uma das pequenas mangas do vestido de crepe revelando mais seu ombro para depois beijar o pescoço de Diana suavemente enquanto ela suspirava silenciosamente ante um arrepio que percorreu seu corpo. Ele abriu o vestido calmamente, sem despi-la totalmente, deixando a vista sua lingerie branca bordada que usava por baixo do leve vestido. Tocou seus seios levemente, enquanto ela acariciava seu rosto, ambos foram descobrindo o corpo um do outro sem expectativas sexuais, mas sabendo que não se conteriam somente com toques.

Eles se despiram de suas roupas civis sem pressa como se todo o tempo tivesse parado ali. Jordan desbrava o corpo firme de Diana, acariciando suas coxas, seu ventre suas nádegas, retirou suavemente a calcinha que ela vestia e seu sutiã com muita destreza. Mas sem tentar agir, parecia esperar um sinal vindo dela. Enquanto ela retribuía os carinhos o beijava mais intensamente.

- Você é o homem mais cauteloso que eu já conheci. - Ela falou o encarando. - Isso é um elogio. - Ela completou.

- Não gosto de ir com muita sede ao pote. - Ele sorriu beijando seu rosto suavemente e a abraçando firmemente sussurrou em seus ouvidos. - Adoro longas preliminares.

Ela sorriu para ele pondo sua boca próxima a dele.

- São a melhor parte... - Ela o beijou sem vacilar e ambos se entregaram aos desejos secretos que procuravam demonstrar sem receio ou hesitação.

****

Fazia dez dias que Düff, McKenna e Benrubi haviam voltado de Zenimar.

Düff estivera de mau humor nos três primeiros dias: odiava interrogatórios arrogantes sobre coisas ilegais que, depois de devidamente ‘peneirados’, se tornariam lindos e limpos relatórios legais e oficiais em cds reluzentes e imediatamente arquivados ou ‘perdidos’.

Os três sabiam que seria assim e seu comportamento não deixara transparecer suas discordâncias.

A Atlantis estava quase partindo. Apesar de ainda terem muitos outros ajustes, Diana finalmente conseguira uma brecha razoável para voltar a campo e fazer o restante da ‘faxina’ no espaço.

A ponte parecia um formigueiro e Diana acompanhava de perto todos os testes daquele dia.

- Chamado do Comando dos Transportes da Frota, sr. Benrubi – Ness avisou voltando-se para ele. – A srta. Benrubi está aguardando lá, sr.

Joshua o olhou sem reação. Sua surpresa fora tão grande que não respondeu de pronto.

Diana virou-se para ele sorrindo. – Acorde, homem! Vá logo até lá!

Ele se levantou de um pulo. – Sim, sra!

Joshua entrou no elevador e solicitou o nível dos transportes. Não podia acreditar que Éster estivesse cedendo daquela forma altruísta, enchendo sua vida não apenas de uma vã esperança, mas talvez de uma realidade concreta...

- Não, calma, Joshua, você não pode se iludir...!

- ESPECIFICAR ORDEM, POR FAVOR.

- Ignorar, computador.

- OBRIGADO, CMTE. BENRUBI. NÍVEL DOS TELETRANSPORTES.

Joshua entrou na sala de transportes nº 01 e encontrou Carlyle verificando aquele posto.

- Transporte-me para o Comando de Transportes da Sede da Frota, sr. Carlyle – ordenou subindo na plataforma.

Carlyle digitou os controles. – Acionando, sr.

Benrubi assentiu antes de desaparecer.

Lá Embaixo...

Éster estava de pé, rígida, olhando para os prédios lá fora. Estava triste e magoada, uma mágoa que carregava há cinco anos já, por sua própria leviandade e criancice. Não sabia se ainda amava Joshua, mas sabia que se arrependeria a vida toda dos erros que cometera tão tolamente.

Olhou para Rebecca. A menina de pouco mais de 10 anos lidara melhor que ela própria com a ausência do pai, suas brigas com ele pela tutela e as novas mudanças que se efetuaram em sua vidinha com a sensível decisão da mãe.

Éster sabia o quanto Joshua amava Rebecca. Conhecia o pai dedicado e amoroso que ele era, a importância daquele pequeno ser em sua vida e o amor que a menina devotava ao pai, que só se afastara por seu descontrole.

Não tinha o direito de separá-los mais, não poderia fazê-lo por mais tempo mesmo que quisesse, pois sua derrota nos tribunais da Frota seria certa.

Todas as vezes que olhara para Rebecca quando esta perguntava por notícias do pai sentia-se vil, acusada por si mesma das mais terríveis atitudes.

E a criança jamais a recriminara por o que quer que fosse. A falta que sentia do pai, com quem sempre se dera muito bem, era evidente, assim como fôra evidente o prazer que sentira ao arrumar as malas para...

O corpo de Joshua começou a se recompor. Rebecca correu para ele assim que desceu da plataforma:

- Vou com você!! Vou com você!!

Joshua abraçou-a forte e começou a chorar. Não tinha palavras, estava embargado.

Mais Tarde...

- Imediato se apresentando, sra.

Diana sorriu da brincadeira enquanto Sarah se postava a seu lado.

McKenna mexeu os próprios ombros dentro do uniforme, ajustando-se ao novo casaco vermelho.

- Queria saber por que testam tudo com a gente.

Diana ainda sorria. – Pelo menos este novo uniforme é bem mais leve, Sarah.

- Veremos se isso é compensatório.

- O que me diz sobre essa nova ‘conselheira’, minha cara Primeira-Oficial?

- Postada desde sua formação na própria Academia, comandava todo o setor psicocomportamental desta e da Base terrestre. 32 anos, sem indícios de PES desenvolvida ou latente. Eu poderia resumir da seguinte forma: o pai é um dos três sócios da principal fornecedora de corpos de motores de dobra da Federação e a mãe é almirante aposentada, muito amiga de Walker, que a designou.

Diana não a olhou e nem perguntaria de onde Sarah conseguira tais informações. Era evidente que sua segunda em comando contactara um de seus inúmeros conhecidos dentro da FPU para saber quem era a nova ‘aquisição’ da Atlantis.

O corpo de Stuart começou a se materializar na plataforma de teletransporte.

Diana constatou, andando em sua direção, que aquela não era uma verdadeira oficial de campo, fácil de perceber apenas por seus espevitados e bem pouco militares gestos iniciais: era uma civil ‘plantada’ em sua – SUA – nave com patentes de comandante.

- Permissão para vir a bordo, sra.

- Concedida, sra. Stuart. Sou a Capitã Diana O’Conell. Seja bem vinda. Esta é minha Primeira-Oficial Sarah McKenna.

Quando elas se voltaram para Sarah, Diana pôde ver algo de estranho e perturbador na expressão dela e ficou ainda mais surpresa quando a vulcana deu um passo para trás, recuando ao mesmo tempo em que Gina descia da plataforma.

- McKenna...?

Ela se voltou para Diana. Seus olhos muito castanhos pareciam estar vidrados, coisa que Diana sabia o que significava: a híbrida estava tendo um transe de precognição, e se ele estava acontecendo ali, naquele exato momento, deveria ser algo muito importante para eles.

- O ordenança Benitez a levará aos seus alojamentos, sra. Stuart.

- Obrigada, Capitã. Com licença – sibilou com certa ironia e se foi sem perder a pose.

Diana pôs a mão no ombro de Sarah devagar, como Düff já a ensinara fazer e indagou:

- O que é, Sarah...?

- ...Ela trouxe...

- O quê, Sarah?

- ...Nada será como antes...

A vulcana se dobrou até os joelhos e Diana pensou que ela ia vomitar.

- Chamo o dr. Düff, Capitã?! – Ibirapitanga, agora chefe dos transportes, perguntou preocupado.

Sarah se ergueu de novo, parecendo um pouco tonta.

- Não será necessário, sr. Ibirapitanga, obrigada.

- Sente-se melhor?

- Sim, Capitã.

- Foi... algo com a nave?

- ... Sim.

- O quê?

- Eu... não sei.

Diana piscou devagar. Aquilo com certeza não era bom.

- Vá até Düff.

- Sim, Capitã.

Vinte e Quatro Horas Mais Tarde...

- RECEBENDO 4X4, ATLANTIS. COMPORTAS ESPACIAIS SENDO ABERTAS.

- Permissão para desatracagem, Doca, para nave 1025 – Ness, em seu novo posto de comunicações, pronunciou as palavras de praxe com certa teatralidade, o que fez Sanchez, em seu novo posto de navegador, sorrir.

Diana olhou para a imagem na tela, que mostrava o espaço através da comporta espacial, e trocou um olhar com Sarah, que assentiu para ela. Tinham coisas para terminar na nave, mas as terminariam no espaço. A permanência ali já havia ultrapassado todos os limites de tolerância delas. Em espaço profundo as coisas seriam melhores.

- Empuxo a um terço. Manobrando para fora da Doca. Última permissão, até mais ver, Base Terra – Sarah falou no ritmo tedioso das comunicações nave-doca.

- VEMOS A ATLANTIS PARTIR MAJESTOSA. BOA VIAGEM, NCC 1025.

- Obrigada, senhores da Doca. Encerrando comunicações – Diana respondeu e apertou o comunicador da cadeira: - Engenharia?

- PRONTOS PARA PARTIR, CAPITÃ.

- Te devo essa, D’Angelis.

- COM CERTEZA VOU COBRAR, CAPITÃ O’CONELL.

Ela sorriu. – Esteja à vontade, sr. Engenheiro. McKenna, dobra um. Primeira rota... – e olhou para a tela que mostrava a Terra desaparecer com rapidez. – Bem, você sabe.

Sarah assentiu sem se voltar. - Sem dúvida, sra.

Stuart entrou na ponte e ficou próxima a Benrubi depois que se cumprimentaram. Diana estava ciente de que eles eram velhos conhecidos.

- Como está sua filha, Joshua?

- Instalada e animada, Capitã. A Atlantis é uma novidade irresistível para ela.

- Até para mim, Joshua – Diana concordou com um sorriso, apoiando o pé no chão para virar-se para Ness. – Envie um comunicado a estação 177, sr. Ness, avisando-lhes que nossa estimativa de chegada é de 97.2 horas. De lá, - e voltou-se para Joshua – prosseguiremos no mapeamento da fronteira veniziana de onde paramos, sr. Benrubi.

- Afirmativo, Capitã.

Diana então reparou que Gina Stuart observava toda a ponte com um risinho irônico:

- Já entrou numa ponte classe II da Ambassador, sra. Stuart?

Ela a encarou. – Não, Capitã. Não ingressei na Federação para passear pelo espaço.

Sarah retesou o corpo, virando a cabeça para o lado, sem se virar para elas.

Joshua viu aquilo e sabia o que significava. Não entendeu a atitude de Gina: afinal, não se chegava na casa dos outros fazendo críticas a decoração!

Diana não se afetou. – Oh, mas é claro. Tenho certeza que o velho Nogura achava muito divertida a responsabilidade de nos mandar fazer turismo espaço afora em mais de 15 naves estelares com... quantos mesmos, Melrik?

Todos sabiam que Diana sabia aqueles números de cor.

- 2.315 oficiais de campo, Capitã. Os mais bem preparados membros da Frota Estelar dos últimos 30 anos.

- É. Muito divertido responsabilizar-se por esse alto investimento da Federação de Planetas Unidos.

O tom de Diana era sarcástico, mas permanecia com um sorriso, que disfarçava o asco incontrolável que começava a sentir daquela mulher.

- Questão de ponto de vista, Capitã. – Stuart respondeu sem perder a pose.

- Sem dúvida uma questão de que lado da salva de faisers se prefere ficar. – Joshua respondeu, incrédulo com as atitudes dela. Gina ficara tão afetada com sua transferência que perdera a noção de tudo? Parecia fora da realidade e ele mesmo começava a sentir raiva dela.

- Esse é um ponto de vista muito prático, sem dúvida. Capitã, com sua permissão, tenho trabalhos a iniciar.

- Esteja à vontade, senhorita Stuart – Diana permitiu-lhe, imitando o sarcasmo do tom formal que ela usara.

Gina arregalou os olhos. Todos na ponte se voltaram para ela e o silêncio que pontuava o ‘senhorita’ emitido por Diana pareceu uma sentença.

Sim, teoricamente agora ela era uma oficial da Frota, apesar de suas patentes serem apenas um jeito de formalizar sua presença dentro de uma nave militar altamente restrita.

Não deixou sua surpresa transparecer e saiu.

- Senhorita... – Sarah murmurou quase sorrindo.

Stuart não sabia, mas a palavra se transformara em sua marca.

****

Capítulo II.

Três meses depois...

A Atlantis singrava o espaço em dobra e, apesar disso, para quem a observasse a uma distância próxima, diria que aquela nave cinza azulada parecia muito tranqüila.

No posto de comunicações, Ness terminava seus afazeres daquele dia e se preparava para entrar de folga. Iria pela segunda vez a nova área de recreação, ainda restrita, que estava sendo preparada para receber as equipes para teste. Ness sorriu, apesar da dor de cabeça: haviam muitos equipamentos novos e em teste na Atlantis, uma boa parte deles nem sequer existiam oficialmente para a Federação.

Acessou com a senha que Sarah McKenna havia lhe dado e entrou no salão enorme e vazio, de um negro acinzentado, iluminado apenas por linhas de luzes horizontais e verticais de um tom azul claro muito tênue.

A Imediato e o Engenheiro Chefe da Atlantis queriam que ele ajudasse a testar o novo projetor virtual, o holodeck de D’Grandio, com suas próprias idéias, tendo definido idéias como produtos da imaginação, pessoal e de outros, e acontecimentos reais do passado, mas não do presente e, é claro, Sarah acrescentara um novo protocolo de segurança além desse: nenhum membro da tripulação, especialmente os comandantes, poderiam ser virtualizados pelo holodeck. Ele havia posto em prática algumas personagens famosas do século XXI criadas por uma escritora da América do Sul conhecida como L. Dannan. Duas dessas personagens eram de contos de um estilo conhecido até aquela época como ficção científica - o que particularmente para Ness poderia ser redefinido, em muitos casos, como precognição científica - e outra, sua preferida, de um estilo medieval-extraterrestre: Adna, também de L. Dannan.

Sorriu quando o cenário surgiu em volta dele, as perspectivas de distância, profundidade e luz contrastando vivamente com sua última visão do salão geométrico e informe.

As personagens passavam por ele exatamente como estava descrito no livro. Ouvia o som das conversas pela rua de barro seco, a poeira que carroças e cavaleiros apressados levantavam e as batidas não muito distantes de um martelo na bigorna. Passou por vários fardos de cereais novos que estavam sendo descarregados por dois rapazes louros e uma moça de vestido surrado, mas limpo, que parecia comandar a operação. Um cavalo forte e altivo estava amarrado em frente ao empório próximo com uma canga de tecido rústico protegendo o animal das partes da carroça que lhe fôra atrelada. Entrou no prédio de madeira com duas portas grandes e escancaradas de par a par.

- ...Nuto solo pleraque constitunt...

- ... Muitas coisas existem somente pela vontade... - Ness replicou com um sorriso enquanto ela se virava para encará-lo. Ela estava próxima ao balcão recebendo os elogios efusivos do dono do estabelecimento pelos remédios que Adna trouxera para o bebê recém-nascido do homem. O jovem ruivo havia traduzido sua frase antes dela e agora Adna o encarava com pouca boa vontade e desconfiança.

- Se a ofendi, peço que me perdoe, senhora.

- Não me ofendeu.

Ness se adiantou, sabendo que ela iria embora imediatamente, pouco dada a qualquer tipo de contato com rapazes.

- Há muito tempo não ouço ninguém se expressar como você o fez, por isso peço que compreenda e verdadeiramente perdoe o meu modo de interferir. Se isso a deixa mais tranqüila, - e se abaixou para pegar as duas cestas de mantimentos de Adna - não tenho nenhuma intenção física a seu respeito.

O cavalo dela não estranhou o fato de um estranho pôr coisas em sua carroça e ela olhou para Ness com uma certa impertinência: - Então você tem outras preferências?

Ele deu um sorriso muito aberto. - Não, senhora. Mas recebi educação suficiente para saber que as mulheres fazem suas próprias escolhas. Sempre - e deu a mão a ela para que subisse na carroça: - Além do mais, uma mulher que se dá por vontade própria possui atributos que nenhum tolo violento pode imaginar.

Adna finalmente sorriu. - Você tem salvação.

Ness fez uma reverência e passou a mão no pescoço do cavalo com carinho. - Cuide bem dela, rapaz - e sorriu para ela mais uma vez. - Senhora.

Ela inclinou a cabeça com certa altivez e arreliou com suavidade o animal, que seguiu em passos lentos.

- Ela é mais linda do que eu podia imaginar...

E, como tinha que instalar sua personagem na história, procurou a estalagem mais próxima.

Ao Mesmo Tempo, Na Engenharia...

D'Angelis viu McKenna entrar na Engenharia e o único pensamento que teve, aliás o pensamento que estava onipresente em sua mente a pelo menos trinta horas, era o de que PRECISAVA fazer os ajustes que faltavam no motor e, para isso, teria que pará-lo por, no mínimo, 22 horas.

22 horas...

A frase se repetia em sua mente enquanto continuava olhando Sarah chegar perto dele após atender três engenheiros juniores.

Sarah sorriu brevemente para ele, o que o deixou desconfiado:

- Faz doze dias que não acontece nada fora da rotina, Imediato McKenna.

O que, para a Atlantis, era realmente inusitado.

Ela pôs as mãos para trás, como de costume, e o encarou: - Sempre direto - e balançou a cadeira dele com um dos pés, pois Jordan não havia se levantado. - Diana O`Conell quer ir para uma estação espacial, sr. D'Angelis. Apesar da rotina, não é prudente parar em qualquer pedra para isso.

Qualquer ser sensato e normal dentro dos limites da Federação diria que eles eram absurdamente paranóicos, mas Jordan sabia que não. Aquela era a atitude mais prudente a ser tomada por uma leva de seres como os que a Atlantis transportava.

- Quando então?

Sarah sorriu de novo, o que praticamente exasperou D'Angelis.

- Daqui a dois dias, se o SEU motor agüentar - deu-lhe as costas e foi embora.

- Espero que, desta vez, Benrubi lhe dê uma boa surra... - resmungou enquanto girava a cadeira de volta ao painel de controle. Riu consigo mesmo, sem maldade, pois na verdade nunca sentia raiva de Sarah. Na realidade, achava que ela era a pessoa mais emocional da nave, mesmo que todos decantassem e se irritassem com sua frieza vulcana. Tivera medo dela no começo, medo de ter sua mente escarafunchada até a última gota sem poder escolher ou se defender, mas depois compreendera que ela tinha seus próprios auto-limites, sua própria ética, mesmo que, quando houve necessidade, e ele já o presenciara, esses conceitos pudessem e eram bem flexibilizados.

Diana deve saber o que está fazendo quando dá a Sarah toda essa elasticidade... - e suspirou. - Se é que dá...

****

Melrik sabia que Diana andava curiosa a respeito do tempo extra que vinha dedicando a suas meditações, como se ele viesse buscando respostas em uma esfera diferente a que a nave poderia oferecer com todos os seus equipamentos.

Ela não estava errada. Tudo que Melrik vinha buscando eram respostas a uma série de indagações que vinha se fazendo antes de apresentá-las a sua capitã.

Algo o estava incomodando profundamente, muito além de uma percepção clara, mas forte o suficiente para interferir em seu saudável equilíbrio mental e emocional. Sim, emocional, e se tivesse aprendido a fazer isso, sorriria com complacência. Aquilo que era cuidadosamente controlado estava, vez por outra, saindo de seu controle perfeito, como grãos de silício entre apêndices humanóides.

Conversar com McKenna seria interessante? Ainda precisava decidir isso com bastante cuidado. Sarah não estaria causando isso, talvez involuntariamente?

Mesmo que fosse essa a opção, ela seria lógica o suficiente para compreender e resolver isso.

Nisso Melrik confiava, a única coisa que confiava nela: sua incrível capacidade de ser lógica, sem abrir mão de seu lado emotivo.

Vou conversar com Diana e se dirigiu para o gabinete da ponte.

****

- Não, não e não.

Düff pôs as mãos na cintura e o fitou por um momento.

- Ficou doido, Joshua? Como não quer se foi você que fez o desafio desta vez? Todo mundo tem certeza absoluta de que é hoje.

- Estou me sentindo mal.

Düff o olhou como se ele tivesse dito o maior absurdo do universo.

- Acabei de fazer exames em você. Como está mal?

- Um pouco enjoado, cansado.

Düff se sentou atrás de sua mesa e tamborilou os dedos.

Não, ele não está com medo de mim... - pôde sentir seu sorriso - ele não tem medo de mim!

- Ora, adie então.

Joshua pareceu se chatear.

- McKenna ia pensar que estou com medo.

Düff sorriu. - Ela sabe que você não tem medo dela.

Benrubi fechou a cara. Sabia que Hans não estava dando uma opinião.

- Não me sinto bem fisicamente apesar de seus aparelhinhos dizerem que estou ótimo.

- Fisicamente você está - e medi-o por um instante. - Talvez devesse dar uma palavrinha com o sr. Beck, o psicólogo - e lembrou-se que naquela mesma semana William Ness havia reclamado da mesma forma: dores que não existiam mas, que de uma forma ou de outra estavam lá, incomodando. - Diga a Sarah que quer deixar para outro dia. Tenho certeza que não fará diferença para ela o dia de surrar você.

Joshua riu. - Pensei que você gostasse de mim!

Hans também riu. - Temos uma parada daqui a dois dias; talvez você só precise pisar em um pouco de terra para variar.

Benrubi vestiu o casaco e se dirigiu para a porta - É, talvez. Até logo, Hans.

- Até mais tarde, Joshua - e olhou na direção de onde Martina sempre estava e a viu fazendo o de sempre: ouvindo atentamente as conversas.

****

Sarah apoiou o pé na pedra, que se soltou, e ficou alguns instantes pendurada no vazio. Aquele esporte, em particular, a desagradava deveras, mas continuava se aperfeiçoando em suas técnicas porque sabia que era útil. Muito útil. Ergueu o corpo 180 graus e se pôs de cócoras no topo da elevação logo acima. Vislumbrou a paisagem com brandura, absorvendo analiticamente suas formas e cores e comparando-as com a verdadeira. Sim, aquele novo equipamento virtual seria bom, mas, mesmo com todos os novos implementos que Jordan D'Angelis esperava implantar, ele ainda deixaria muito a desejar, pelo menos quando se comparava a prática com as idéias mirabolantes que estavam no projeto.

O som do comunicador pessoal soou.

- Imediato McKenna.

- PRECISO FALAR COM VOCÊ, SARAH.

- Onde você está?

- NO MEU ALOJAMENTO.

- Eu vou até aí. Desligando - e olhou mais uma vez em volta. - Computador, finalizar simulação.

- DESEJA ARQUIVÁ-LA, IMEDIATO McKENNA?

Sarah sorriu. A voz era perfeita.

- Não é necessário.

- FIM DA SIMULAÇÃO.

As linhas sem graça reapareceram, assim como a porta do salão virtual.

****

A campainha tocou e Joshua se empertigou antes de atender. Sarah entrou com as roupas de exercitar-se e procurou a primeira poltrona que viu. Sentou-se e o fitou com uma despretensão que o fazia desconfiar dela muito mais do que se ela zombasse dele.

- Não estou me sentindo bem - Benrubi disse de uma vez, postando-se na frente dela.

McKenna não ergueu os olhos para encará-lo e, ao invés disso, recostou-se na poltrona grande e confortável com um ar de que era tudo o que queria naquele momento.

- Exagerei nos exercícios preliminares, me sinto um pouco cansada. Não vejo porque não possamos adiar a pequena demonstração de hoje - olhou em volta e localizou o processador de alimentos. - Tenho fome.

Joshua se sentou perto dela como se ela fosse uma nova forma de vida. Conhecia aquele estado puro, onde ela não sentia qualquer espécie de sentimento, nem bom, nem ruim, totalmente indisposta a brigar, discutir ou mesmo mover-se: Sarah estava cansada, realmente. Teve vontade de passar a mão na cabeça dela, mas se resignou.

- Vou chamar Düff para jantar conosco então.

- Ótimo - e ela não se mexeu da poltrona.

No Dia Seguinte...

Diana fez um sinal para que Sarah viesse até ela, no alto do morro, e viu, quase admirada, um besouro de Pólux IX sobrevoar sua Imediato e emergir para ela furiosamente, numa horrível cena em que o estranho sangue de Sarah, de um verde escuro e brilhante, se espalhou por toda a ravina, até, devagar e inexoravelmente, virar uma enchente que a alcançaria em pouco tempo ali, no alto.

Alguém tocou seu ombro e Diana se virou: era Sarah, grudada dos pés a cabeça do sangue-mar que brilhava a luz daquela estrela azul.

- Mas você estava lá embaixo - Diana se ouviu dizer e Sarah sorriu para ela:

- Não é assim - ela respondeu roucamente...

Diana abriu os olhos, piscando várias vezes.

- Não é assim - O`Conell ouviu-se repetir a frase estranha do sonho entre macabro e absurdo. Levantou-se, fez a higiene e ainda assim algo martelava em sua mente dizendo que aquele sonho não era apenas simples descarga de informações de seu subconsciente.

Pediu o desjejum ao seu novo cozinheiro e contactou Ness.

- Onde McKenna está, sr. Ness? Seu comunicador está desligado.

Ness fez um gesto resignado, sabendo que nem mesmo a capitã conseguia dar uma contra-ordem ao computador a uma ordem dada por Sarah.

- NO GINÁSIO Nº 03, CAPITÃ, EXERCITANDO-SE COM O SR. BENRUBI. DEVO MANDAR ALGUÉM CONTACTÁ-LA?

- Avise-a assim que surrar o sr. Benrubi - e sorriu - que venha até o meu alojamento.

Ness também sorriu - SIM, CAPITÃ.

O rosto tranqüilo do irlandês desapareceu da tela e Diana deu alguns passos pelo alojamento. Tinha tido aqueles estranhos sonhos seguidamente, com temas que variavam, mas membros da tripulação sempre apareciam. E desde sua conversa no dia anterior com Melrik que estava mais apreensiva ainda. Düff viera conversar com ela também para apoiar a idéia de uma pequena parada, pois estava com muitos tripulantes um pouco tensos demais. Terminou o seu chá e saiu decidida.

****

Sarah se agachou e parou de respirar por alguns segundos, controlando a circulação sangüínea e a necessidade de energia imediata do corpo. Estava tonta, mas não por efeitos fisiológicos e, desta vez, aquilo realmente a... alertara. Olhou para Joshua, que a fitava meio desconfiado, e fez um sinal com a mão, convidando-o à atacá-la: não tinha mais tempo para brincar, precisava saber o que estava acontecendo. Então viu O`Conell entrar no Ginásio com uma expressão tão evidente que se desconcentrou. Quando se deu conta, Joshua a jogara a dois metros adiante e, com um sorriso, olhou para a figura invertida de Diana.

- Olá, Capitã.

- Preciso conversar com você, Sarah.

- Eu sei. Também tenho algo a lhe dizer.

- Levante-se e deixe Benrubi ganhar desta vez.

McKenna deu um pulo e quase sorriu de novo: - Mas ele ganhou, Capitã.

****

Diana finalmente se sentou. Contara todos os seus estranhos sonhos à vulcana e suas conversas com Melrik e Düff. Sarah não a olhou. Estava concentrada nos próprios pés, coisa que O`Conell já a observara fazer algumas vezes.

- Não é assim... - McKenna murmurou devagar . - Seus sonhos não são exatamente o que você pensa ver neles. A frase que se repete na boca de seus oficiais é um aviso que você está dando a si mesma.

- Não quero uma análise psicológica, Sarah.

Diana a estava tratando pelo nome e isso indicava algo pessoal e sério, muito sério. Era como se fosse uma espécie de código entre os comandantes: quando a formalidade caía, e isso raramente acontecia, era um indicativo sem discursos prévios de que havia uma necessidade muito além dos limites de suas obrigações para com o uniforme.

McKenna suspirou. - Não é, Diana. Se você permitir, venho sentindo oscilações estranhas em alguns de nossos tripulantes. Talvez Melrik concorde em ajudar a mim e Düff a encontrarmos uma resposta clara a essa interferência súbita e aparentemente externa.

- Então há a possibilidade de ser um de nós?

Sarah moveu os pés devagar.

- Não é impossível, mas, pelo que pude sentir até agora, bastante improvável. Temos que saber qual é a fonte e seus objetivos. Não gosto de interferências.

Diana sorriu com sarcasmo. - Nem eu.

Doze Horas Depois...

O posto avançado de Ketuk, dos klingons, era mais próximo para a Atlantis que a estação espacial 378 quase seis dias terrestres em dobra oito. E faltavam poucos minutos para que a distância mínima para teletransporte fosse alcançada.

D'Angelis, que fôra chamado à ponte há alguns instantes, fitava a visão na tela principal com certa ansiedade, acompanhando os movimentos de Melrik com o canto do olho. Ketuk era um macro asteróide trazido àqueles confins e lapidado pelos klingons no início da decadência do Império Klin. Conseguira se adaptar bem a órbita daquela estrela decadente e agora fazia parte daquele sistema o qual a Atlantis estava mapeando. Jordan não sabia por quê, mas esperava que a qualquer momento Diana O`Conell entrasse em contato e ordenasse órbita.

- SR. MELRIK.

- Sim, Capitã?

- PARADA TOTAL. AVISE AO COMANDANTE DO POSTO AVANÇADO KLINGON QUE DESEJAMOS FAZER UMA PARADA DE UM DIA.

D'Angelis piscou.

- Sim, Capitã.

Jordan fitou o vulcano com os olhos um pouco arregalados.

- Por que o espanto, sr. D'Angelis? Pareceu-me que, durante a semana, era exatamente isso que o sr. queria.

D'Angelis esticou os ombros antes de responder:

- Este posto avançado existe desde que Rura Penthe entrou em descrédito. Não vejo porque pensar que seremos bem recebidos.

Benrubi se voltou. - E não seremos, senhores.

Os alertas de armas externas piscavam em silêncio no painel do Chefe de Segurança da Atlantis.

Diana e Sarah entraram na ponte.

- Sr. Ness, ponha o comandante do posto klingon na minha tela.

Em poucos minutos silenciosos o rosto do velho klingon surgiu na penumbra de uma sala que parecia um pouco pequena para ele.

- SIM, CAPITÃ O`CONELL? - ele falou em klin e o tradutor universal não conseguiu disfarçar a má vontade de sua voz.

- Vamos geosincronizar com o posto, comandante. Mas... essas armas prontas para atacar devem me preocupar?

O tom de Diana era bem mais divertido que irônico. Os velhos torpedos klingons estavam tão obsoletos que sequer fariam cócegas nos escudos de sua Atlantis.

- APENAS COISAS QUE OS COMPUTADORES FAZEM AUTOMATICAMENTE, CAPITÃ O`CONELL - ele respondeu com total ciência de sua fragilidade.

Diana não queria aperriar o klingon; na realidade só precisava parar um pouco e pôr sua casa em ordem.

- É apenas uma inspeção de rotina, o sr. sabe, comandante - ela mentiu, pois não diria ao klingon que estava parada ali para desligar seus motores e caçar fantasmas. - Não tomaremos o seu tempo além do necessário.

Ele a encarou e ninguém soube o que sua expressão queria dizer.

- AGUARDAREMOS - e sua tela apagou-se.

Diana encarou McKenna e entrou em seu gabinete.

- Sr. D'Angelis, sr. Melrik, sr. Benrubi, sr. Ness, - e a Imediato apontou a porta do gabinete com um gesto de dar passagem - por favor.

A porta do elevador se abriu e Düff entrou. Sarah fez um pequeno gesto para ele, afinal eles não precisavam de palavras, e o médico seguiu os demais através da porta do gabinete de Diana O`Conell.

****

Quando Düff entrou a maioria dos seres convocados por O`Conell estavam se acomodando nas poltronas da mesa de reunião adjacente ao gabinete propriamente dito. Havia uma sala de reuniões oficial, é claro, onde tudo era gravado e registrado, mas a sala de Diana tinha características especiais remodeladas por McKenna, Benrubi e D'Angelis, que serviam com toda a discrição a situações como aquela.

- Bem, senhores, - Diana começou, ao vê-los sentados - algumas manifestações estranhas vêm ocorrendo com membros desta nave que me levaram a acreditar que precisamos tomar algumas providências sobre isso. As manifestações mais contundentes ocorreram conosco.

- Está falando das sensações desagradáveis que temos sentido? - D'Angelis quase murmurou. - Todo mundo tem sensações desagradáveis de vez em quando. Por que essas seriam importantes?

Diana sorriu. - O que o seu instinto diz a respeito disso?

Ele pareceu um pouco desconcertado e Ness fitou Diana do jeito que ela sabia ser pedindo permissão para falar.

- Fale o que vêm sentindo, William.

- Eu... venho sentindo fortes dores de cabeça, e eu nunca senti isso antes em toda a minha vida. Também tenho sonhado com crianças recém-nascidas - ele suspirou, parecendo aliviado. - Bem, eu sinto que são crianças, entendem? Mas são apenas fachos coloridos irrequietos no sonho. Se fosse só uma vez... Mas tenho sonhado isso todos os dias desde que entramos neste setor.

Todos se entreolharam.

- Eu tenho ouvido vozes na Engenharia - Jordan disse de uma vez.

- E o que elas dizem? - Melrik indagou interessado.

- Nada. São risadas, gritinhos, sons agradáveis que os bebês fazem quando brincamos com eles. Às vezes eles choram. Nenhuma palavra - e fez uma cara muito séria, lembrando-se de seu filho. - Esta revisão no motor já era prevista, e eu tenho algumas peças cruciais para serem trocadas, por isso tenho achado que tudo não passa de cansaço da minha cabeça.

- Estão parecendo peças de um quebra-cabeças... - Benrubi soltou de repente.

Melrik se pôs de pé: - Não são as sensações necessariamente que importam, senhores e sim a outra sensação que as acompanha, que os humanos chamam de instinto e que têm alertado cada um de nós quanto a estranheza e externabilidade dessas sensações súbitas. - Todos o olhavam com atenção. - Talvez não seja uma interferência proposital; é mais provável que, por nossas PES desenvolvidas, estejamos funcionando como antenas captadoras. Como já nos aconteceu antes.

Düff olhou-os. - Por nossas diferentes aptidões e personalidades, cada um capta as mensagens de formas diferentes, ou pedaços dela. Se é que é uma mensagem nos termos que conhecemos.

- Não me parece se algo hostil, Capitã - Ness murmurou olhando para o chão, um ar muito distraído.

Diana sorriu com complacência. - Seus sonhos têm sido bons, Ness, apesar de suas dores de cabeça. Quanto aos meus, apesar de não sentir nenhuma hostilidade, seus temas são bem pouco amenos.

- Creio, Capitã, que devemos nos ater as sensações e não aos temas usados nas comunicações. - Melrik apartou.

- O que faremos de concreto, Capitã?

Diana voltou-se para Joshua: sempre prático e sempre pronto para agir nas emergências.

- McKenna está extremamente bem habilitada para fazer círculos e sondagens e Melrik tem toda a experiência para auxiliá-la. Saberemos de uma vez por todas o que está acontecendo.

D'Angelis pigarreou. - Círculos e sondagens, Capitã? Isso parece tema de um jogo interativo.

Düff deu uma risada.

- Como todos sabem, os vulcanos têm a PES mais desenvolvida dos humanóides da Federação, tendo larga experiência telepática individual, mas também em conjunto. Círculos são grupos homogêneos, se todos têm telepatia desenvolvida e auto controlada; ou heterogêneos, como nós, com PES`s altas, mas latentes, não trabalhadas. As finalidades para a formação de um círculo podem ser múltiplas: a nossa é descobrir a origem das sensações e seus objetivos. Se é que existe um - e olhou para Melrik, que compreendeu:

- Sondagens são estágios avançados de telepatia, praticados por seres criteriosamente treinados e de PES acima da média. - E sua mente completou para si mesmo: Criteriosamente treinados para ficar em Vulcan e não como Imediatos em naves estelares, mas seu rosto nada revelou.

- Düff acabou de dizer que somos acima da média.

- Acima da média vulcana, sr. Ness.

Uma certeza estranheza se apossou deles, a que sabiam do que a vulcana era capaz, a de que ela estava ali independente de Düff, mesmo que através dele, talvez também através de suas próprias mentes.

- Isso é seguro?

- 99,9% de segurança total para os membros passivos do círculo, sr. Benrubi.

Diana olhou para o amigo. Não havia conversado isso com os vulcanos. De certa forma, eles haviam lhe passado a certeza de que não haveria riscos para ninguém: - E quanto aos controladores?

Melrik a fitou com o rosto factual. A porta se abriu e Sarah McKenna entrou. Deu seu raro e sarcástico sorriso e respondeu:

- Isso não é o mais importante, Capitã, eu lhe asseguro. Creio que não existem motivos para não começarmos agora - e ficou séria. - Desculpe-me, sr. D'Angelis, mas o motor vai ter que esperar.

Düff se levantou e de sua maleta surgiram coisas pouco médicas: uma garrafa pequena, verde escura, contendo um líquido viscoso; colheres descartáveis pequenas e uma série de medidores biofísicos portáteis, que o médico tratou de instalar em todos, dando uma colherada do líquido antes.

- O que é isso, Hans? - Jordan murmurou desconfiado ante a colher que se erguia ameaçadora a meio palmo do seu nariz.

- Você não vai acreditar se eu lhe disser, então abra a boca de uma vez - e enfiou a colher na boca do pobre engenheiro relutante.

Joshua, que já tomara, deu uma risadinha grogue. - É algum xarope vulcano, Jordan... !

Diana deu um sorriso leve, já relaxando em sua poltrona. A luz estava no mínimo e por algum motivo não estava vendo Sarah em canto algum da sala, apesar de ter certeza de sua presença. Alguns vulcanos entraram na sala e formaram um círculo externo ao deles, sentando-se silenciosamente. Conseguiu dizer por que eles estão aqui e ouviu Melrik responder com brandura são apoios para o controle e sua mente relaxada indagou, ou ela perguntou, controle de quem e como eco nas paredes de seu espírito ouviu a risada de Sarah, mas era a risada de uma criança, mas sabia - SABIA - que era Sarah, e uma emoção absurda tocou seu coração e lembrou-se do bebê que não conseguira nascer... E em tudo aquilo a sala não era mais a mesma, era maior e tinha a sensação clara de que estava acordada, de olhos abertos, apesar de saber que tudo a sua volta mudara de repente, um salão enorme, de pedras marrons com janelas enormes pelas quais via-se mundos inteiros a cada piscar de olhos...

Olhou para D'Angelis e eles estavam de pé, de mãos dadas, a alguns metros acima do solo. Mas... ouviu-se dizer e ouviu murmúrios mentais de espanto, curiosidade e empolgação de todos a sua volta e sabia que, estranhamente, todos partilhavam com ela as mesmas sensações...

Como pode ser... e ouviu Melrik murmurar não tenham medo, Sarah deu a vocês um lugar onde possam ficar protegidos e livres. Voltou-se e não o viu e ouviu Ness perguntar estamos na mente de Sarah McKenna e a risada gutural de Düff responder não, meu garoto, Sarah está em nossas mentes!. Diana olhou para Düff, a sua esquerda, segurando a mão de Jordan, e ele tinha um reconfortante brilho prateado. Olhou para a direita e viu que Ness estava a seu lado, envolto em um brilho azulado que a fez ter vontade de chorar por sua doçura, e, por um momento incontável, pôde sentir o cheiro de bebê recém-amamentado que vinha dele. Benrubi fechava o círculo ao lado de Düff e luzes amarelas, alongadas e embaçadas, fechavam um discreto círculo secundário a volta deles. Onde ela está Joshua perguntou e O`Conell pôde sentir sua paixão, sua preocupação, sua ternura irrestrita pela vulcana. Ele tinha um brilho vermelho, que cintilou para o branco quando uma lufada de vento os envolveu... Estou aqui e isso acalmou a todos, independente do que sentiam. Diana sentiu a curiosidade de Jordan onde ela está e de Ness por que não a vemos e Melrik responder cada um a vê do seu próprio modo... estão procurando a imagem que cada um têm dela, mas aqui a Controladora abstêm vocês de tudo aquilo que possa distraí-los...

Delicadamente, Diana sentia-se ser canalizada para além dos sonhos que tivera, antes partilhando-os involuntariamente com todos e depois indo além, sentindo - sim, ali ela apenas SENTIA - todos os outros com ela, incluindo as luzes amarelas vigilantes e outros pontos de luz que brilhavam intermitentemente, bem longe... sua tripulação ouviu Melrik murmurar; por que Sarah não fala conosco se indagou de repente e uma nova lufada de vento os envolveu estou aqui, vejam! e nesse instante Diana pôde compreender plenamente que todas as sensações que estavam experimentando, controladas cuidadosamente, ERAM Sarah...

Sarah... A maneira como ouviu Joshua falar o nome dela a tocou profundamente e teve certeza que, dentre todos, excetuando Düff, era o único que realmente a VIA. Sentiu o sorriso dela, e isso foi tão engraçado quanto novo. Viu vislumbres de lugares lindos através dos olhos do israelense, mas sabia que eram sensações tênues perto do que ele experimentava. Sarah os unia e os separava, dando-lhes sensações mescladas de suas imaginações e das que vinham recebendo, abrindo caminho lenta e confortavelmente... E um clarão, e viu Melrik no centro do círculo: ele estava tão grande! E havia uma luz multicolorida entre suas mãos, pulsando, tomando forma, e de repente Melrik estava do seu tamanho normal e antes de conseguir ver Sarah com clareza o vento os envolveu de novo... Venham, e Diana sabia que não era para eles que estavam ali... Venham, e a voz não parecia mais um convite, apesar de ainda ser docemente persuasiva... Ness começou a rir. Vozes de crianças, sensações de novidade, curiosidade, alegria... Apenas sensações de sorrisos e contato corporal e, de repente, num estalo, compreendeu porque não haviam palavras... Sentiu, viu, ouviu, não sabia bem, Sarah chamá-los para perto dela, e eles eram... crianças, crianças, CRIANÇAS!! ...

Como se comunicar com quem ainda não o aprendera? As sensações eram tudo o que tinham, tudo o que seres jovens demais, de qualquer raça, tinham...

E foi de repente...

Como um enxame alegre sobre a luz que Sarah era... Como um vendaval barulhento, afastaram Melrik, as luzes amarelas em volta deles e finalmente eles mesmos, num redemoinho colorido, ansioso... Como uma louca brincadeira de roda..., Diana pensou pela última vez antes da dor a dominar, a dor dominar a todos eles e o grito de Düff ecoar de algum lugar antes da inconsciência...

****

Num suspiro Diana abriu os olhos e vislumbrou um rosto vulcano ao seu lado com os dedos em sua têmpora. Ele fez um leve gesto com a cabeça e se afastou. O`Conell ajeitou o corpo sobre a poltrona confortável e olhou a sua volta. Tudo era o que era antes. Sorriu: não, nada mais seria como antes, a ternura do novo que experimentara, as sensações de seus companheiros e agora um pouco menos intrigantes amigos...

Sarah estava de joelhos, a cabeça baixa, sem o casaco e com Melrik e Düff ladeando-a. Parecia tão profundamente cansada que Diana, mesmo com o círculo desfeito, podia senti-lo.

- Ela está bem, Melrik?

O rosto moreno se voltou para Diana.

- Sim, Capitã, apenas cansada.

- Vou levá-la para a Enfermaria - Düff anunciou já com Sarah nos braços.

O`Conell viu que os olhos da vulcana estavam abertos, sem nenhuma expressão, mas havia uma tranqüilidade profunda em seu rosto, tanta que as linhas severas de seu modus vulcani haviam se atenuado.

- O que aconteceu, Melrik? - Joshua perguntou enquanto saiam do elevador para a Enfermaria.

O vulcano pigarreou. Também estava cansado, era evidente, mas nem metade do que McKenna, isso também era evidente. - Filhotes recém-nascidos de espécies com o cérebro ou equivalente desenvolvido para a linguagem passam por processos complexos de aprendizagem que geralmente ocorrem em etapas. Alguém que não receba orientações e não tenha modelos para seguir nessas etapas pode não aprender uma série de processos motores e mentais que, para nós, seriam totalmente banais.

- Está nos dizendo que eles são crianças que só possuem as sensações e nada mais? - Jordan resumiu um tanto enfático.

- Crianças com PES a nível de um vulcano bem dotado e aprendizagem cognitiva a nível de um humano recém-nascido.

- Puxa... - Ness murmurou desolado, enquanto um enfermeiro o sondava, da mesma forma que outros faziam com os demais. - Então eles estão completamente sozinhos?

- Onde eles estão? - Joshua perguntou resoluto. - Só de imaginar bebês abandonados...

- Eu... não sei, senhores.

Diana encarou-o. - Como não sabe, Melrik?

- McKenna era a Controladora. O enxame que vocês viram foi sobre ela porque ela os atraiu. Suas jovens mentes estavam ficando excessivamente excitadas com a novidade de um primeiro contato e estavam se tornando descontroladas, o que poderia ter se tornado prejudicial a vocês. Creio que o contato foi rompido antes dessa definição.

- Sarah está bem mesmo, Melrik?

Melrik encarou Benrubi com a expressão que geralmente os humanos traduziam como estou ofendido: - Até onde sei sobre Sarah McKenna, muito, muito bem, sr. Benrubi.

Düff se aproximou deles. - Alguns de nós deveriam estar em uma inspeção no asteróide - e passou seu tricorder em Diana. - Você está ótima, como sempre, Capitã.

Diana o fitou. - Sarah tem razão quando diz que você é mandão.

Ele sorriu. - Já liberei D'Angelis para cuidar do motor. Os klingons têm que se ocupar.

Sarah estava quieta na cama adjacente, mas O`Conell sabia que, de alguma forma, Düff não falava só por si. Não que por acaso Düff não tivesse suas próprias opiniões, e muitas delas contrárias as da vulcana, mas Diana sabia que aquilo era o que Melrik lhe explicara como dezavorie: uma mescla de pensamentos, pensados individualmente, mas comuns.

- Ela está bem mesmo, Hans?

Ele sorriu com ternura. - Sim, Capitã, só precisa descansar. Gastou um pouquinho de energia demais controlando os capetinhas. Fique tranqüila, antes de você voltar ela estará de pé na ponte. Assim que acordar, nós e Melrik localizaremos os bebês - e se virou para Benrubi. - Se precisar dele eu já acabei.

- Boa idéia, dr. Düff - e Diana foi na direção da porta. - Vamos dar uma olhada naquela pedra, sr. Benrubi, antes que o médico nos toque daqui a vassouradas.

Benrubi deu uma risada. - Sim, Capitã!

Düff foi até a cama de McKenna e pôs a mão na testa dela com cuidado. - Será que vamos conseguir localizá-los a tempo, Sarah?... - Não estava conversando com ela, só divagando. Passou a mão no cabelo dela e suspirou, olhando pela escotilha, de onde podia ver uma parte do macro asteróide. - Onde esses bebês estarão?... E como serão?

****

Capítulo III.

Diana desceu da plataforma de teletransporte dentro do posto avançado klingon acompanhada de Benrubi, Dickens, Gomes, Roger e cinco alferes de segurança. Baratrion, o comandante do posto, a esperava com um ar um pouco mais ameno que o da comunicação tela a tela e Diana se perguntou, por um momento, o que ele poderia estar tramando.

Um dos klingons, que evidentemente era um mestiço, se apresentou após o comandante.

- Escolhi um dos meus melhores soldados para acompanhá-los pelo asteróide, Capitã. Espero vê-los mais tarde para apresentar-lhes a pequena central de operações que persistimos em manter funcional aqui.

Diana estranhou um pouco o fato daquele klingon não querer acompanhá-los pelos subterrâneos do asteróide. Afinal, a pequena central, como ele mesmo o definira, era a única coisa na superfície. Ele estaria doente? Mandarei Martina sondá-lo com discrição, decidiu enquanto entravam no elevador. O`Conell sabia que não poderia ser uma emboscada, pois mandara sondar cada centímetro do posto e se assegurara onde cada arma e faca de cozinha estavam.

Longe do comandante taciturno o klingon mais jovem, que se chamava Yurg, se mostrou muito falante e não se fez de rogado ao explicar, às vezes com excesso de detalhes, toda a rotina e o funcionamento dos setores pelos quais foram passando.

- Vamos agora ao segundo subsolo - e sorriu: - Não se assustem com os barulhos estranhos. O asteróide tem fama de mal assombrado.

Os tripulantes da Atlantis se entreolharam.

O klingon mais uma vez sorriu. - Não é a toa que o nosso comandante não vem aqui. Aliás, poucos de nós vêm até aqui de bom grado.

Diana se aproximou mais: - Sei que os klingons acreditam em algumas entidades sobrenaturais específicas. Do que estamos falando?

Ele a olhou muito sério, a primeira vez que eles o viam realmente sério.

- Nenhuma entidade klingon, senhora capitã. Eu, em particular, acredito que sejam entidades de onde o asteróide veio. Fantasmas insatisfeitos com a mudança de casa. Eu não os culpo.

Joshua pareceu interessado. - O quê, especificamente, vocês têm presenciado aqui em baixo, sr. Yurg?

Eles entraram num grande salão escavado na rocha pura com alguns túneis que levavam a outros lugares.

Roger se animou olhando o tricorder. - Que maravilha, há umidade suficiente no ar para sustentar formas de vidas unicelulares, o que, aliás, estou registrando!

O klingon sorriu. - Ah, os musgos. No terceiro subsolo eles reinam exuberantes. Nosso único biólogo morreu há dois anos, por isso não há mais ninguém que se interesse por eles. Pessoalmente, acho que têm um gosto horrível.

- Posso vê-los? - Roger pediu tanto a Diana quanto ao klingon, que anuiu com indiferença.

- Claro, não usamos mais o terceiro subsolo há 3 anos, desde que descobrimos os musgos. Além do mais, - e ele se empertigou - lá acontecem coisas muito estranhas. Acho que aqueles musgos são azarados.

Diana sorriu, de repente compreendendo o que acontecia no asteróide. Conhecia os nuances da língua klingon o suficiente para saber o que realmente aquelas palavras poderiam significar. Os klingons eram muito espertos e costumavam usar palavras terráqueas que geralmente não significam na íntegra o que queriam dizer em klin. A profundidade de suas crenças sobrenaturais tinham um aspecto muito mais concreto que as humanas. Quando um klingon falava em fantasmas não estava sendo supersticioso e sim respeitando uma forma de vida que ele não reconhecia, apesar de sua mais que conhecida agressividade e hábitos escravagistas para com outras formas humanóides.

- Sr. Benrubi, por favor acompanhe o sr. McKenna até o terceiro subsolo - e se voltou para Yurg. - É difícil chegar lá?

- De forma alguma. É só seguirem aquele corredor - e fitou-os. - Vão precisar de minha companhia?

Joshua sorriu, sabendo que aquilo era a última coisa que o klingon queria fazer.

- Não. Obrigado, sr. Yurg.

- De nada - ele pareceu respirar aliviado. - Bem, vamos ao comando central agora, capitã?

- Claro, sr. Yurg. Benrubi, McKenna, transportem-se para a Atlantis assim que terminarem. Podemos ir, senhores. - E, enquanto todos seguiam na direção oposta a do biólogo e seu acompanhante, Diana contactou a nave.

- SIM, CAPITÃ?

- Melrik, Sarah já acordou?

- SIM, CAPITÃ.

- Diga para ela descer até as coordenadas de Benrubi. Tenho certeza que ela vai adorar, se meus instintos estão corretos.

- SIM, CAPITÃ.

****

Sarah se materializou no meio do corredor a alguns metros a frente deles.

- Sarah? - Roger disse surpreso.

- A Capitã me mandou acompanhá-los. Disse que há algo do meu interesse onde vocês estão indo.

- Formas de vida que os klingons vêm chamando de musgos, mas a análise a distância não definiu isso. - E sorriu. - Os klingons dizem que eles são mal assombrados.

Benrubi também sorriu. - Parece que temos chance de encontrar algo interessante aqui.

Sarah moveu a cabeça devagar, sentindo o ambiente. Diana O`Conell tem chance de vir a ser uma sensitiva razoável... Melrik com certeza vai ficar satisfeito ao saber que algo está se abrindo nela... De dentro para fora... E pôde sentir todos no asteróide... O pessoal da Atlantis, os klingons, as antigas imagens que eles ainda guardavam das assombrações...

Joshua voltou-se para ela de novo. - Você está melhor, Sarah?

- Muito bem, obrigada, Joshua... - e pareceu ter um espasmo. - Diana O`Conell tem um bom instinto...

Roger se pôs ao lado dela. - Vocês estão ouvindo?

Eles entraram em outro salão rochoso, maior que o outro. havia uma luminosidade fosforescente neste vinda de todos os lados.

- São bioluminescentes! - Roger exclamou embevecido. - E como são lindos!

E eram mesmo. De cores e tamanhos variados, pareciam balouçar ao sabor de um vento inexistente, pendurados com delicadeza das paredes e do teto ou brotando numa desorganização elegante do chão. Formavam agrupamentos unicolores quando em pequenos grupos e multicoloridos quando em maior quantidade. A entrada do trio pareceu agitá-los e um zumbido tomou conta do salão.

Roger começou a rir baixinho. - Estou sentindo cócegas... !

Sarah segurou os dois pela nuca e os fez ficarem bem perto dela. - Senhores, apresento-lhes nossos bebês.

****

O brilho luminescente aumentou junto com o zumbido suave e um movimento lento, mas de evidente aproximação, começou a se fazer em direção a eles.

- O que o seu tricorder registra, Roger?

Ele ergueu o aparelho, mas reclamou: – Precisa me soltar, Sarah, assim fica difícil!

Ela o soltou e o zumbido pareceu explodir em seus ouvidos. Sarah e Joshua se ajoelharam juntos até Roger e ela restabeleceu o contato com o primo.

- ... Por que diabos não me disse que isso ia acontecer?!

- Você não perguntou – e o ajudou a se levantar. – Venha, precisamos de mais gente aqui.

Roger não respondeu. Sarah sempre agia assim: na mesma bocada que mordia, soprava.

- Eles estão muito excitados com nossa presença e a empatia que temos para receber suas mensagens faz com que eles pareçam gritar para nós. Venham, vamos até o corredor. Você subirá e trará uma equipe sua e outra selecionada por Melrik, Roger.

Roger subiu para a Atlantis e Sarah continuou segurando Joshua pela nuca. Ele se pôs de frente para ela e a olhou como se ainda visse a vulcana pelos olhos despertos pelo Círculo.

- Joshua... – ela sussurrou, sem saber como pedir para ele parar de sentir o que...

- Não está sendo fácil, Sarah... – e ele entreabriu os lábios e pôs as mãos na cintura dela. - ...Será que só você não percebeu ainda...

Ela virou o rosto de lado e mordeu os lábios. – Sabe há quanto tempo o seu desejo me queima o corpo? Acha que é fácil fingir que não sinto seu olhar sobre mim, ou seus pensamentos românticos? – e o fitou como se sentisse raiva. – No Círculo, você...

- Eu não sei mais esconder. No Círculo eu entendi a mim mesmo – o nariz dele roçou o dela e ela semicerrou os olhos. – Não negue que me deseja também...

A boca dele tomou a dela num beijo quente e apaixonado.

20 Horas Mais Tarde...

Sarah tinha todos os motivos para realmente crer que os klingons não faziam idéia do que haviam deslocado junto com o asteróide.

- Chegaram até a pensar em comê-los! – Roger reclamava a alguns metros dela junto a sua equipe de trabalho que, aliás, não era a única no recinto. Melrik também estava lá, mas o vulcano se fazia presente por motivos que já haviam unido suas capacidades extra Frota: controlar as criaturas, pelo menos o suficiente para não haver efeitos colaterais no grande número de tripulantes que se encontravam na gruta naquele momento.

Melrik se aproximou dela.

- Não devemos restabelecer um Círculo efetivo?

Ela olhava para os musgos, que ainda balouçavam e cintilavam, e suspirou. – Não creio que seja necessário, Melrik. As criaturas estão calmas, satisfeitas com a atenção dispensada a elas por tantas ondas mentais. A calma apaixonada dos tripulantes por novas formas de vida é reconfortante para elas.

Melrik concordou com um aceno de cabeça. Sarah o contactara pedindo uma equipe de biociências e ele a escolhera a dedo pensando nessas características, sem que ambos precisassem discutir essa necessidade. Começava a avaliar positivamente o ‘acordo’ de boa convivência e mútua ajuda entre eles, algo que sabia agradava muito Diana, apesar de sua Capitã insistir na palavra amizade para seus comandados vulcanos.

- Se me permite, mandarei alguns tripulantes vulcanos aqui para baixo para ajudar a monitorar a interatividade de nosso pessoal com as criaturas.

- Uma sábia medida de precaução... – McKenna murmurou, vendo Joshua surgir do corredor principal. – Está a caminho da Atlantis?

- Sim. Creio que a Capitã continua em negociações para que possamos devolver o asteróide e seus nativos ocupantes ao local de origem. Se isso for possível, a nave científica Itaiguara foi destacada para as coordenadas de origem do asteróide fornecidas pelos klingons para averiguar a situação atual.

Joshua estava ao lado deles.

- Os klingons parecem animados com a possibilidade de serem transferidos do asteróide. Apesar da Capitã já ter dito a eles qual a natureza das assombrações, eles estão bem pouco redutíveis a respeito de suas idéias sobre os musgos.

- Musgos é uma definição bem pouco adequada, sr. Benrubi – Melrik ponderou.

Joshua sorriu. – Sem dúvida, mas as criaturinhas são tão adoráveis quanto musgos, sr. Melrik.

Sarah o fitou. – Desconhecíamos esse seu lado de biólogo, sr. Benrubi.

Ele sorriu e ela retribuiu fugazmente. Sarah continuava com uma voz um tanto quanto estranha, baixa e controlada, como ordenara a todos que entrassem em contato com as criaturas. Alguns vulcanos se materializaram na saída do corredor e Melrik se deslocou até eles.

- Isso aqui parece um berçário – Düff comentou ainda distante deles, se afastando do grupo que acabara de descer. – Trouxe as análises de DNA das nossas crianças – e estendeu um pad para Sarah. Ela leu rapidamente e foi até Roger.

- Tem condições de me dar uma análise acima do razoável em uma hora?

Roger voltou seus olhos negros para ela. Ele estava ajoelhado junto a uma das touceiras menores. – Pode me dar duas?

- Sim, temos tempo – e se voltou para Düff e lhe estendeu o braço. O geneticista aplicou-lhe algo com o hipospray e pôs a mão no seu ombro.

- Preferia que você comesse alguma coisa de verdade.

- Depois, Düff. Não posso sair daqui agora...

Melrik voltou até eles. – A Frota Estelar informou que a Federação está em negociações com os klingons, mas a Almirante Konnery acha que não será difícil convencê-los a ‘doar’ o asteróide para que possamos retransferi-lo para seu setor de origem, tanto que já está providenciando o envio de uma nave transportadora e outra científica para cá.

Sarah apenas assentiu. Apesar da relativa calma a sua volta, a algazarra mental que experimentava estava exigindo toda a sua concentração e paciência.

E sua própria confusão?

Sentia... medo, mas não como já experimentara antes na vida: a paixão quente de Joshua a inebriava, a inundava, se sentia tão... feliz.

... Cada olhar, cada gesto dele... Tudo parecia para ela...

Olhou para os próprios pés. Sentia Düff sorrindo em algum lugar da sua mente.

****

Dez dias depois, a órbita do macro asteróide estava congestionada com uma nave cargueira klingon, uma nave transportadora e outra científica da Frota e a própria Atlantis, que já estava de partida. Os preparativos para tirar o macro asteróide da atração daquela órbita estavam sendo finalizados e a Atlantis esperava poder prosseguir sua rota sem maiores atrasos.

Gina Stuart olhava da sala do observatório a intensa movimentação lá fora morrendo de raiva. Fôra proibida taxativamente por Sarah McKenna, com total apoio de sua capitã, de descer até o asteróide por não ter um nível de PES relevante para os trabalhos e para sua própria proteção.

Odiava aquelas duas mulheres. De alguma forma, planejada ou casualmente, a nave toda passara a tratá-la por ‘senhorita’. Quando repreendera o oficial de ciências por isso ele a fitara como se ela tivesse tido um ataque histérico. Fizera uma pausa calculada, como se falasse com uma criança, e replicara: Desculpe-me, senhorita Stuart, mas você é um membro civil da Federação dentro de uma nave militar. Seria profundamente grosseiro e antiético tratá-la de outra forma.

Suspirou, irritada. Até mesmo o garoto ruivo se sentia à vontade naquela prisão flutuante o suficiente para não temer uma queixa sua por desacato. Ela não era uma membro da Frota. Para eles, desde o alferes mais jovem e inexperiente até a capitã, estava bem claro que ela não era uma deles. Fôra-lhe deixado bem claro que era uma civil visitante, alguém em quem dificilmente confiariam ou delegariam qualquer posto de confiança. Por quanto tempo teria que permanecer ali? Conseguiria quebrar-lhes o gelo e adquirir suas confianças? Teria que esperar para ver...

Mais Tarde...

Melrik a recebeu na porta em silêncio e indicou-lhe a poltrona que tinha uma mesa e uma bandeja com uma jarra e dois copos sobre ela. Sarah se sentou e ele a imitou.

O silêncio entre eles não era constrangido e sim ritualístico, onde cada gesto era cuidadosamente realizado.

Há muito tempo que eles haviam superado a desconfiança e a indiferença iniciais. Os dois vulcanos, muito diferentes entre si, haviam aprendido a trabalhar juntos como oficiais da Frota e em muitas ocasiões, seladas agora pelo acontecimento com os musgos, como vulcanos também.

Aquela era a hora de confirmarem suas posições e selarem o respeito e... amizade que crescera entre eles.

Não era uma conversa humana. Era uma confirmação de reconhecimento e amizade mútua vulcana. Não necessitava de palavras, apenas de um gesto.

Melrik serviu o líquido frio em um dos copos e o entregou a Sarah, que imitou seus gestos. Juntos, então, beberam a água, líquido raro em seu planeta de origem, de um gole só.

Ambos ficaram de pé e murmuram curtas palavras na língua vulcana, com a engendrada saindo em seguida.

No Dia Seguinte...

Joshua estava tão ansioso que não conseguia disfarçar sua ansiedade.

Sentia-se dividido entre a novidade de ter Rebecca consigo e finalmente ter conseguido dizer a mulher que amava que a queria.

Sim, a amava, e há muito tempo não tinha dúvidas disso, apesar de antes nunca ter tido esperanças.

E havia alguma agora?

Suspirou e cobriu a pequena garota que já dormia. Recebera um novo alojamento, não mais um tipo de quarto espaçoso e confortável, mas agora uma espécie de casa onde a menina tinha seu próprio quarto, além de um cômodo não muito grande onde o processador de alimentos e a mesa com cadeiras faziam às vezes de uma cozinha.

Passou pelo seu quarto e olhou-se no espelho. Adoraria levar flores e tudo o mais que ele achava que ela merecia, mas também sabia que não seria assim que veria naqueles olhos castanhos a mulher que não se revelava tão facilmente ante a oficial comandante vulcana engendrada.

Amava tudo aquilo naquela mulher, mas Sarah sentiria algo por ele?

Tinha medo de ser apenas um arroubo momentâneo que ela descartasse com sua fria e objetiva forma de agir.

- Só saberei se for até lá.

E saiu do alojamento.

****

Düff terminou o doce e sorriu para ela com sua tranqüilidade inabalável.

- Sabe o que penso dele e o que penso e SEI de vocês há muito tempo. Seja justa consigo mesma pelo menos uma vez.

- Sou sempre justa comigo – ela retrucou. – E você não está me dando um bom conselho.

- Ah, estou sim, senhora! Já é mais do que hora de você aceitar que gosta desse homem o suficiente para tratá-lo bem!

Sarah suspirou e se inclinou para frente na direção do amigo.

- Apesar de tudo que você está dizendo, VOCÊ sabe muito bem que ter um caso com Joshua pode ser ótimo para mim, mas pode e será péssimo para ele.

Ele se inclinou na direção dela e eles ficaram frente a frente.

- É? Por acaso ELE disse isso a você?

Sarah trincou os dentes.

- Joshua é um homem bom e tem minha amizade e meu respeito.

- Eu sei...

- Por isso mesmo não considero digno magoar sentimentos que para ele são tão caros, Hans...

O amigo sabia que ela estava sozinha há 6 anos. E fôra para cama acompanhada apenas três vezes durante todo aquele tempo. Para a mulher quente e sensual que sabia que ela era isso era absurdo, praticamente um celibato espontâneo. Eles haviam sido tão safados durante a época da Academia e pelos 10 anos seguintes durante suas missões, que vê-la tão comportada começava a preocupá-lo. Não era normal para ela. Não era normal pra ninguém.

- Se você não quer que ele sofra, então há um pouco de carinho nisso, Sarah. E se há carinho, apesar de ser contraditório, é exatamente por isso que você deve dar uma chance a si mesma de experimentar um pouco de afeto na própria pele, para variar.

Ela o encarou.

- Não quero fazer experiências com alguém que terei que conviver por um tempo indeterminado, Hans – e se levantou. – Não quero me envolver com um homem cujo coração terei que despedaçar mais tarde!

Düff suspirou e se pôs de pé.

- Que pena, minha vulcana, mas você já está envolvida com esse homem.

Ela se voltou para o amigo e seus enormes olhos pareciam brilhar na penumbra.

- Não quero fazê-lo sofrer...

- Ele já está sofrendo, Sarah. ISSO, minha querida, está totalmente fora do seu controle.

A campainha soou e antes de qualquer reação dela, Düff disse Entre. Joshua deu um passo para dentro e sorriu ao ver Düff, que foi até ele.

- Olá e até logo, Joshua. Boa noite, senhores.

- Boa noite, Hans – Benrubi respondeu um pouco sem jeito.

- Sente-se, Benrubi. Precisamos conversar.

Joshua se sentou e Sarah o imitou. Ela se recostou na poltrona de frente para ele e os dois se olharam silenciosamente por alguns segundos.

- Deve ser a primeira vez que você não sabe começar um assunto difícil.

Sarah demorou um pouco para responder.

- Você tem razão, Joshua. Nosso comportamento me trouxe perspectivas inusitadas sobre as quais ainda não...

- Pelo amor de Deus, Sarah, não estamos numa reunião de comandantes! Quem está aqui com você é a pessoa e não o oficial da Frota!...

Ela soltou o ar de uma vez só. – Joshua, é exatamente isso que nos traz vários... problemas. Em primeiro lugar, somos oficiais comandantes desta nave, e ficaremos aqui dentro por um tempo indeterminado. Somos ambos suficientemente experientes nesses assuntos para sabermos que ter qualquer tipo de... contato íntimo nesta situação, mesmo que a curto prazo, pode nos ser problemático em nossas funções para com esta nave e nossos comandados.

Ele não se afetou. – Eu sei, Sarah. Mas já que você está se preocupando com isso é porque andou pensando seriamente em nós dois – e abriu um sorriso maroto.

Sarah o fulminou com o olhar. – As possibilidades físicas que você pode me oferecer não me passaram desapercebidas, de fato.

Joshua não se abalou. Ela não conseguiria magoá-lo ou ofendê-lo desta vez com sua aparente falta de sentimentos.

- Não quero, nem de longe, tentar oferecer outra coisa a você, Sarah. Mas não dá mais para fingir que meus pensamentos físicos sobre você não são bem pouco profissionais.

Sarah suspirou.

- Joshua, para mim é bem claro que, mesclado ao seu desejo, há sentimentos – e o fitou com imensa profundidade. – O que quer que possamos ter daqui para frente não incluem sentimentos românticos da minha parte. Se você não entender isso, nada entre nós poderá ultrapassar nossos laços profissionais.

Joshua sorriu.

- Onde eu assino?

Sarah balançou a cabeça. – Você é muito engraçadinho.

Ele se aproximou dela com agilidade e a envolveu nos braços. – Agora eu só quero te mostrar o homem que eu sou... Apenas vamos deixar as coisas acontecerem...

Mais Tarde...

Sarah acordou de repente, desperta pelo braço musculoso de Joshua que a envolvera pela cintura e a puxara para ele.

Seu coração disparou, e seu corpo todo pareceu estalar como uma lâmina de metal.

Ele respirava devagar, produzindo um som suave com o ar que saia de suas narinas.

Ela podia sentir suas ondas mentais de satisfação e alegria e seu relaxamento total, como há muito tempo aquele homem não experimentava. A confiança que ele tinha nela era quase comovente.

QUASE. Sarah teve vontade de abandonar a Atlantis para sempre naquele exato momento e nunca mais olhar para trás.

Alguma coisa no sono de Düff o fez resmungar, e a vulcana sabia que, mesmo dormindo, seu adorado amigo discordava com veemência daquela absurda idéia.

Sarah não sabia se era realmente absurda. Respirou fundo e relaxou o corpo inteiro, aproveitando o calor e a rígida maciez do corpo do israelense.

****

Duas horas mais tarde, Sarah acordou definitivamente, apesar de ainda faltarem 4 horas para o início do 1º turno. Levantou-se, tomou banho, se vestiu e penteou com sua meticulosidade costumeira. Enquanto fazia isso silenciosamente, observava o sono de Joshua, que a procurara uma vez, mas ela o fez sentir sua presença e ele voltou a dormir.

Quando tirou seu casaco do guarda-roupas ele estendeu o braço para o lado e então abriu os olhos, vendo-a inteiramente pronta para o trabalho.

Olhou para a estante onde Sarah possuía um magnífico exemplar de relógio pendular e para ela de novo, sentando-se na cama.

- Ainda é cedo.

Ela o olhou com a expressão suave, mas não sorriu:

- Minha necessidade de descanso esgotou-se. Então vou voltar ao trabalho.

Joshua se lembrou de tudo que havia prometido algumas horas antes e refreou seu desejo de convencê-la a ficar mais um pouco na cama.

- Aqui é o SEU alojamento. Quem deveria se vestir no meio da noite e sair furtivamente era eu – e sorriu.

Ela baixou os olhos e a cabeça, mas também sorriu.

- Não precisa se preocupar com isso. Enquanto isso nos for interessante, você poderá entrar e sair deste alojamento sem se preocupar. – Se aproximou da cama e ele se levantou.

- Pensei que quisesse que eu fosse discreto.

Desta vez Sarah sorriu largamente diante do tom dengoso daquela queixa.

- Claro que quero isso. Mas nossos horários jamais coincidirão totalmente. Não há porquê entrar ou sair furtivamente. Mas não quero que isso seja alardeado também.

Joshua sorriu enquanto a envolvia pela cintura e buscava sua boca para um beijo.

Sarah não resistiu, mas não o deixou prolongar o ato.

- Até mais tarde, Joshua.

Ele apenas continuava sorrindo para ela e passaria o dia todo sorrindo para o mundo inteiro.

****

Capítulo IV.

Trinta Dias Depois...

Sarah jogou lateralmente os cabelos, enquanto sua cabeça emergia da água muito verde da piscina. Alguns tripulantes entraram no ginásio e ela se aproximou da borda devagar, subindo em seguida. Eles a cumprimentaram e não deixaram de olhá-la quando se dirigiu para o vestiário.

Sarah gostava de nadar na última hora antes do 1º turno de trabalho, que era considerado o turno da madrugada: a piscina estava sempre vazia e podia ouvir a água em meio a penumbra.

Düff recebera uma encomenda da Colônia Chumazar – agora também uma próspera produtora de vegetais – de um bem quisto líquido artesanal produzido por uma família de origem escocesa ali radicada. Era certo que se reuniriam na próxima folga em comum, o que para Sarah era indiferente, já que seus horários eram bem diferentes dos da tripulação, ignorando horários de folga, refeição ou descanso, num cronograma muito próprio e flexível.

Todo o seu tempo é para a nave!, Joshua explodira há 3 dias atrás por causa daquilo, enquanto conferiam juntos nas fichas dos novos alferes o nível de treinamento de cada um e as necessidades individuais quanto a complementação do treinamento em defesa corporal, algumas horas além do turno dele.

Ela sabia que aquelas não eram horas de folga que Joshua reservava a si próprio, mas à Rebecca e, mesmo vagamente, se forçava a compreender a necessidade de ambos estarem juntos. Naqueles momentos concordava com Diana a respeito da presença dos civis na nave.

E, como que surgido de seus pensamentos, Joshua entrou no vestiário e parou perto dela com um leve sorriso. Ele estava sem camisa, o tórax perfeito e musculoso ondulando com suavidade.

- Pedi para você me esperar... – ele sussurrou, reparando discretamente a presença de outros por perto. – Está com insônia de novo?

Sarah mordeu os lábios, contendo o sorriso que expressaria o prazer que sentia com a doce preocupação dele.

- Sim... Mas logo vai passar – e uma expressão marota surgiu no rosto molhado: - Janta comigo hoje?

Estavam sozinhos agora e ele ergueu a mão para o rosto dela, acariciando-lhe o rosto. – Sempre...

Ele era tão dedicado, tão romântico! O coração de Sarah sentiu medo por ele.

- Até mais tarde, então – e deslizou a mão na barriga dele enquanto se afastava.

Dez Dias Depois...

- Sarah?

Ela espalmou a mão sobre o peito, apoiando o polegar na curva do pescoço enquanto sorria brandamente para ele:

- Olá, querido... É tarde... Por que levantou?

Ele sorriu de volta, embevecido com o carinho dela. – Você levantou... fiquei preocupado – e olhou para a tela do computador diante dela, toda escrita em vulcano.

Sarah estendeu a mão e o fez sentar-se no lugar dela para em seguida sentar-se no colo dele.

- Um pouco de falta de sono, mesclado com preocupação e cansaço... nada de mais...

- O cansaço deveria fazê-la dormir.

Ela sorriu de novo e pousou a cabeça no ombro dele.

- Tive sonhos maravilhosos quando era adolescente... Quis ir para o espaço e ver as estrelas... – ele passou a mão no rosto dela. – Estou aqui e a vida me fez ser assim, Joshua... mas você...

Ele a olhou com um pouco de medo.

- Também tive os mesmos sonhos, Sarah. Por que fala como se fossemos diferentes?

Ela conteve a respiração.

- ...Porque somos, Joshua.

Benrubi a apertou nos braços – E isso, no nosso caso, significa muito mais complicações do que o normal, não é?

McKenna suspirou fundo.

- Você me faz feliz. De uma forma simples e objetiva, você me faz feliz. Mas eu não sei, por quanto tempo, poderei corresponder você.

Benrubi ficou embargado. O que poderia dizer? De uma forma ou de outra, quando começaram, sabia que não seria para sempre. Mas seu coração o ignorara solenemente, não o poupando de nenhuma entrega.

Ela o beijou e ele, mais uma vez, esqueceu completamente seus medos e o futuro.

Duas Horas mais Tarde...

O alerta amarelo começou a soar quando o elevador de acesso a ponte fechou as portas para levá-la para cima.

- Computador, especifique a motivação do alerta em curso.

- OBJETO NÃO IDENTIFICADO DE TRAJETÓRIA GRAVITACIONAL NÃO ESPECÍFICA EM ROTA DE COLISÃO COM A NAVE EM SEU ATUAL CURSO.

- McKenna para a ponte.

- DYLLAN NO COMANDO, SRA.

- Altere a rota, sr. Sanchez e identifique a natureza do objeto.

- SIM,SRA.

Ela entrou na ponte.

- Status da análise do objeto, sr. Mohamed.

- Objeto esférico está perdendo velocidade com a aproximação. Reflete todos os sinais que enviamos até ele para sondagem, mas parece possuir gravidade própria, além de sistema de propulsão, pois mudou a trajetória quando nós o fizemos, sr.

- Continua na nossa rota, Imediato.

Sarah pôs uma das mãos para trás. – Interessante...

- Continua diminuindo a velocidade, sra.

- Aparentemente, quer emparelhar conosco, Imediato McKenna.

Ela olhou para Dyllan. - Neutralizar dobra e erguer escudos.

Nesse momento Diana entrou na ponte.

- Status, McKenna.

- Objeto com características de nave mantendo curso de interceptação conosco, Capitã.

- Algum contato?

- Negativo, sra – Ness respondeu, enquanto Joshua e Melrik entravam na ponte.

- Tamanho, armamento.

- Sem confirmação de armamento, Capitã. O objeto possui metade do tamanho de uma nave auxiliar – e Melrik fez uma pausa interessada, analisando os dados de seu console antes ocupado pelo alferes Mohamed. – a superfície metálica do objeto também apresenta partículas de nitrogênio, carbono, cálcio, potássio... e água. Parece uma espécie de proto atmosfera classe M. – Pausa novamente – Temperatura subiu para 27°C e velocidade está diminuindo...

- Ele parou no limite do teletransporte, Capitã – Dyllan informou olhando para elas.

- Na verdade, - Melrik retomou a palavra com seu já conhecido ar ofendido – o objeto assumiu uma velocidade de geoestacionamento.

Joshua fitou o objeto que parecia emitir uma profusão de cores sobre um fundo prateado.

- Ele está nos orbitando, Capitã.

****

Para Diana o objeto pulsava num tom calmo e relaxante, parecendo alheio ao seu próprio atrevimento de ter escolhido aquela nave da Frota como centro orbital.

Tentava imaginar o que aconteceria se ordenasse algum nível de impulso a nave: a bolota os acompanharia, ficaria ali ou tentaria interferir em sua ação?

- 1/9 de empuxo avante, McKenna.

Sarah não questionou. – Um nono de empuxo a frente, executando.

A Atlantis deslizou suave e lentamente para a frente e o objeto cintilou para o branco e acompanhou a Atlantis sem qualquer objeção aparente.

- 1/3 de empuxo.

E o pequeno objeto apenas acompanhou a velocidade da Atlantis sem interromper sua órbita.

- Dobra 01, efetuar.

Aquilo parecia muito estranho, mas a falta de hostilidade do insistente acompanhante tinha um certo toque de humor.

O objeto apenas interrompeu a órbita, passando a acompanhar a Atlantis lado a lado.

- Dobra 03, McKenna.

E a bolota sequer interrompeu seu repousante jogo de luzes.

Sarah se voltou para O’Conell, que sorriu para ela – Dobra 07.

Dyllan sorriu e murmurou – D’Angelis vai querer saber o que está acontecendo em 5, 4, 3, 2, 1...

- CAPITÃ O’CONELL, ENGENHARIA.

Diana sorriu e atendeu com uma inocência absurda – Sim, sr. D’Angelis?

- CREIO QUE ESTAMOS EM PATRULHA, SRA. DOBRA 07 É NECESSÁRIA?

Diana olhou para Melrik.

- Creio que ela nos acompanhará sem qualquer objeção, Capitã.

Diana olhou para Sarah.

- Ao que parece, sra, ela quer fazer contato.

- Neutralizar dobra, McKenna. Melrik, mande uma sonda até aquela bolota. Quero saber que tipo de jogo estamos jogando. Mantenha os escudos erguidos, sr. Sanchez.

- Sim, sra.

- Melrik, Benrubi, McKenna, comigo. Ness, convoque o sr. D’Angelis.

- Sim, sra.

96 Horas Depois, No Gabinete do Almirante Sanion...

As análises que recebera a pouco não deixavam dúvidas quanto o que deveria fazer, mas sabia que também era arriscado revelar o que, na verdade, não sabiam.

Talvez aquela fosse uma oportunidade de ouro para descobrirem um pouco mais sobre aquela civilização, quem sabe até aprenderem a usar, finalmente, todos os recursos indisponíveis daquela base em Antares...

Bem, por mais estranho que pudesse parecer, era muita coincidência que aquela sonda avançada tivesse contactado justamente a Atlantis.

Coincidência? Talvez a princesa de Sernick a tivesse atraído, mas de qualquer jeito Yonah já dera sua sugestão.

- ALMIRANTE SANION, O CAPITÃO STEK NA LINHA ESPECIAL.

- Pode transferir.

- SR. ALMIRANTE, HÁ QUANTO TEMPO.

Os dois vulcanos se fitaram sabendo o que aquilo significava.

- Desde sua promoção a capitão, sr. Stek – eram antigos conhecidos e havia certa afabilidade na voz do velho vulcano. – Tenho uma missão urgente para sua nave. As coordenadas estão sendo passadas agora. Tenham sucesso.

Stek não se alterou. – Obrigado, sr.

E a tela apagou-se.

Na Nave de Pesquisa USS Thunderbold...

O capitão Stek olhou para a tela, após ler suas ordens, e repassou as coordenadas recebidas para seu navegador.

Pegou o chá que solicitara ao replicador de alimentos e aguardou os dois minutos que estipulara serem suficientes para que seu Primeiro-Oficial lê-se e compreendesse para onde iriam, ou melhor, com quem se encontrariam.

A permissão para entrar na sala de reuniões foi solicitada e Stek a concedeu, vendo seu Primeiro-Oficial entrar por ela quase intempestivamente.

Ele o encarou por alguns segundos; parecia estar embargado ou sem palavras, coisa bastante incomum em seu 2º no comando, sempre bastante falante e perspicaz.

- Sim, sr. Jevlack?

Seus olhos vermelhos o encararam com um misto de curiosidade e... ansiedade.

- Estamos indo encontrar a... Atlantis, capitão?

- Sim, sr. Jevlack. Não tenho muito mais a partilhar com o senhor sobre esta missão, pois o próprio Comando da Frota desconhece a natureza do encontro feito naquele setor.

- Encontro?

- Talvez seja algo bastante interessante – e estendeu um disquete para ele. – Aqui estão os dados enviados pela Atlantis sobre o objeto que fez contato com eles há 97 horas atrás. É certo que lá há algo que pode ser elucidativo para você também.

Este assentiu e saiu.

****

Jevlack havia sido encontrado pela nave de pesquisa vulcana na qual Stek servira como engenheiro há 15 anos atrás. Agora, depois de algum tempo, há três anos servia com ele naquela nave de pesquisa como seu Primeiro-Oficial.

E há 6 anos não a via... Seis anos!

Estava muito bem adaptado agora, muito bem adaptado, e, mesmo que isso ficasse sempre bem no fundo do seu ser, vez por outra se perguntava por que deixara que os argumentos dela o tivessem convencido a seguir sozinho. Sozinho...

E, toda vez que pensava aquilo, com raiva ou não, sentia o cheiro dela invadi-lo completamente, o gosto da boca dela na sua, as mãos dela no seu corpo...

Fazia seis anos que não falava com ela pessoalmente, e pelo menos um ano que não recebia nenhuma resposta de seu último contato.

Mas sempre que sentia raiva de tê-la deixado convencê-lo mais uma vez em cima daquela cama na doca de construção de motores de dobra que a distância era necessária, sentia seu mais íntimo contato, a sua forma mais eloqüente de dizer-lhe que estava sempre com ele, nele, para ele...

E aquele consolo fazia-o sentir uma saudade miserável dela, tão grande que voltava a sentir raiva, e a sentir o cheiro dela, até que enfim se consolava.

Entrou na ponte e reassumiu o comando.

Observou a tela que dominava a ponte, mostrando apenas as estrelas distorcidas. Às vezes se questionava do porque ficar mostrando isso na tela. Claro que era algo para se distrair enquanto a tripulação cuidava do maçante trabalho na ponte. Maçante e irritante. Mas tinha vezes em que ele gostaria de mudar de canal, talvez para um documentário ou um desenho animado.

Desenho animado... tal coisa deixou de existir havia já um século.

Ou dois.

Atualmente, haviam as holoprojeções interativas ou as arcaicas e até bem vindas peças teatrais. E em breve, talvez em dez ou vinte anos, holodecks!

Ele tinha visto um dos primeiros protótipos. E nunca mais iria se esquecer.

Não pelo ambiente retratado, não pela simulação até bem feita, mas sim pelo que conheceu ali.

T´Sarahk...

A vulcana.

A amiga.

A mulher.

Sua mulher...

Quinze Anos Antes...

- Por que acreditam que será promissor para mim? – e fixou o olhar na vulcana.

- Tecnicamente, não há garantias de algo promissor ou não. Mas, sendo você fundamentalmente humano, a despeito de querer negar isso a si mesmo, é possível que a visita ao seu país, como ele se parecia na sua época, seja benéfica. Poderá despertar sentimentos mais amenos.

Sentimentos possuem níveis de intensidade que podem torná-los amenos ou irritantes? E qual seria a explicação lógica para a fêmea considerá-lo fundamentalmente hu...

Agora não!

Medok olhou para ela, erguendo uma de suas sobrancelhas. Um vulcano - seja ele mestiço ou não - usar de psicologia no nível de sentimentos humanos é algo que surpreenderia qualquer um que conhecesse esta raça.

- Não há - disse ele - absolutamente nada a perder.

Sua confiança neles não tem bases. Eu não me precipit...

Não se meta nisso!

Sou parte integrante de seu sistema, seja ele orgânico ou cibernético, não há, até onde é possível buscar referências em sua memória, nada que indique que eu não deva participar...

Agora existe! NÃO SE META!

Ambos os vulcanos deram uma leve piscada de olhos. Jevlack não percebeu que sua intensidade ao repreender... a voz em sua cabeça pôde ser notada por aqueles dois vulcanos de características bem diferentes. Ele por já estar em sintonia com ela, e ela...

Comando aceito. Mas devo ressaltar que...

Grrrrrrrr!

Aguardarei o fim do colóquio.

Jevlack maneou a cabeça levemente a esquerda e direita.

- Por que eu sinto que existe algo mais pessoal nisso?

Talvez devido ao fato...

Não te perguntei!

- Talvez exista – ela disse parecendo estar claramente envolvida com sua situação. Mas por que ela se importaria? - mas a questão principal é a sua estabilidade emocional. Caso não tenha percebido, você está a beira de um ataque de nervos e isso pode colocar o nosso trabalho em risco.

Posso confirmar isso.

Por que será?

- Vamos tentar? – ela quase murmurou, parecendo bastante... persuasiva.

Aconselho...

Você é meu computador e não aconselha porra nenhuma! Limite-se a fazer o que um computador faz, receber e executar ordens. E minha ordem é: SILÊNCIO!

Nossa comunicação não perturba as moléculas para que o som se propague, portanto...

Por que finge não entender o que eu quero?

Sou um, como você erroneamente afirma, computador com capacidade de pensamento próprio. Posso até ser considerado consciente pelos padrões...

Quieto, quieto, quieto, quieto, quieto. Não se comunique comigo!

Por quanto tempo?

Eternamente.

Necessito especificação

Pelo tempo que durar a minha vida.

Necessito maior especificação.

Por quinhentos anos.

Tempo limite máximo permitido é uma hora.

Ótimo! Por que nunca me disse isso?

Nunca me perguntou.

Faça isso agora!

...

Uma hora de sossego...

- Muito bem, vamos ver essa simulação - disse seguindo o braço de Sarah e entrando na sala onde eles haviam indicado.

Entrou pela porta - seguido por Sarah e Medok e viu o ambiente criado. As portas se fecharam atrás deles e simplesmente desapareceram. Assim que isto ocorreu, os objetos começaram a se movimentar.

Jevlack deu uma volta em torno de si mesmo, seus olhos pareciam mudar de cor.

- Parece que já estive aqui antes - disse ele lentamente.

Começou a andar pela região em que se encontrava. Olhava para o chão durante a caminhada. Medok e Sarah o acompanhavam mais atrás. Pegou um punhado de terra com as mãos, deixando-a escorrer por entre os seus dedos. Foi até a água de um pequeno lago próximo, andando por entre as ondulações causadas por um vento invisível e insensível. Devia ser a simulação do pico do verão. Pôs a mão na água, levou a mão molhada até o nariz e farejou. Depois lambeu a água. Olhou alguns pássaros que voavam por lá. Eram sabiás.

Fez uma careta. Aquela espécie não freqüentava aquela região. Ele se lembrava do xanã, com suas belas cores fortes, branco, preto e vermelho e do cabeça-de-velho, todo preto e com uma cabeça branca. Uma falha do programa. Pegou uma concha do chão. Arremessou-a com toda a força em direção ao horizonte. Considerando a potência de seu braço, ela demorou para desaparecer de vista.

Olhou para o Sol.

- A simulação não é perfeita. Há detalhes falhos no ambiente. Não há calor do Sol, brisa suave que justifique as ondulações do lago e odores. Mas é interessante a forma de simular que se está andando. Campos eletromagnéticos fazem-nos andar como em uma esteira, praticamente não saindo do mesmo local. Outros campos eletromagnéticos distorcem a luz de forma a parecer que os objetos estão muito distantes ou próximos. Estamos na verdade a dois centímetros de onde estávamos antes. Vários controles de gravidade individuais por toda a sala fazem a simulação de ambientes inclinados, bem como uma excelente simulação de queda livre. O que levamos a boca é sintetizado instantes antes. Não senti o cheiro de frescor de água evaporando com o calor do Sol, mas quanto a pus na língua, senti o seu gosto.

- Não o trouxemos aqui para uma análise de eficiência desse salão virtual, que aliás ainda está na fase de pré-testes, - disse Medok, ocultando a sua, se fosse possível, provável irritação - mas para que tivesse um pouco de tranqüilidade. E, talvez assim pudesse relaxar o bastante para, juntos, buscarmos o seu passado.

Sorriu - talvez o primeiro sorriso que tivesse dado desde que tinha embarcado.

- Já lhe ocorreu que talvez eu não queira conhecê-lo?

Isto pode ser um sentimento mútuo – ela pensou e olhou rapidamente para Medok que concordou com um aceno breve de cabeça.

- Olhem para mim! - ergueu a sua mão aberta de forma que ficasse na altura dos olhos. - Cada um de meus dedos pode exercer a pressão de trinta toneladas, o conjunto de minha mão chega a cento e cento e cinqüenta, as duas mãos juntas atingem trezentas!

Pegou outra pedra do chão e começou a espremê-la entre os dedos. Ela não cedia, apesar de já estar sofrendo a pressão equivalente a doze toneladas. Pressionou de uma vez, ouviu-se um estalo acima deles, o emissor do campo eletromagnético que estava naquele momento simulando a textura da pedra havia acabado de se queimar ao tentar ultrapassar a pressão exercida para manter o holograma intacto.

- Posso analisar qualquer faixa do espectro com os meus olhos, tenho diversos processadores que simplesmente funcionam sem a minha vontade. Quando olho para vocês, eles já analisaram quase tudo que seria possível e deixaram armazenado em uma área de minha mente que só preciso consultar. Meus ouvidos tem até mesmo possibilidade de eco radar. Tenho sensores de proximidade, de movimento e navegação espacial espalhados por essa "pele" que protege os poucos órgãos humanos que ainda possuo. Para o que imaginariam que eu fui "criado"? Eu sou uma arma! Letal, poderosa. E com certeza, programável. Não faria sentido por tanta coisa em alguém e confiar que ele simplesmente executaria o que se desejasse. E se eu me lembrar que sou exatamente isso? E se eu me lembrar da minha programação e começar a executá-la? HEIN?

Sarah bocejou.

- Você está se tornando cansativo, Jevlack. Acha que não sabemos exatamente o que você é? - Sorriu - Controle sua histeria.

- Histeria? - disse ele sendo sarcástico, expressando emoções de ira agora. - Curioso uma raça hipócrita da qual você é representante falar isso. Uma raça que se orgulha de subjugar todas as suas emoções e até de ter um troféu para isso, aquela coisa que recebem quando atingem o Kolinar não seria hipócrita? Vocês sempre jogam na cara que fazem o que é lógico. Qual a lógica de demonstrar que extirparam as emoções? Por que demonstrar e sempre justificar isso a todo momento? Por que se consideram ofendidos quando alguém diz que fizeram algo que parece emotivo?

- Responda você - disse Medok.

- Porque vocês não extirparam as emoções, apenas as controlam. Nada mais. E eu... - sua voz assumiu uma expressão melancólica - eu nem sei se tenho emoções ou fui programado para simulá-las. - Abaixou a cabeça. Pela primeira vez sentiu o que devia ser desesperança. - Saída! - Disse ele.

- Cancelar ordem - contradisse Sarah.

Ele se voltou para ela, observando. Medok se posicionou por trás de Sarah, com os dedos lhe tocando as têmporas, e um elo mental é iniciado. Ele sentiu isso direto em sua mente, e ficou confuso. Como eles poderiam formar um elo de tal magnitude? Não era algo natural para vulcanos, não naquela intensidade, não com apenas dois. Sentiu uma espécie de barreira mental que se rivalizava com a sua própria, mas diferente desta era calma e serena. Convidativa até.

Ela ergueu os braços parecendo oferecer um abraço e ele sentiu como se as mentes unidas deles estivessem abraçando a periferia de defesa da sua. Uma área cheia de pensamentos fluídos e incompreensíveis para mentes comuns. Era a área reservada ao tráfego de informações dos diversos computadores internos, todos operando automaticamente, e que tinha sido até o momento a única defesa necessária - ele tinha outras - para incursões deste tipo. Talvez, se ele ativasse o seu computador que estava em silêncio, ele pudesse resistir ao assédio, ou talvez ele quisesse apenas ver aonde iria aquilo. Seja como for, naquele instante ele não tinha defesa.

Filamentos de pensamentos amenos penetraram por frestas invisíveis de suas paredes mentais invisíveis. Uniram-se em uma esfera mental dentro de seu perímetro e, ao invés de rumar em direção a mente agora indefesa, a englobaram.

Tudo em sua mente pareceu ser invadido por uma névoa multicolorida, várias sensações se transpuseram nele, como se ele fosse envolvido por um misto de proteção e ordenação. Pela primeira vez pode ver a si mesmo do lado de fora, sentia raiva, dor, medo, amor, tristeza, alegria, desespero, todas estas coisas ao mesmo tempo, todas sem controle, todas fora de propósito, todas sem razão real de existirem nesse instante. E lá, no fundo de todas elas, a mais firme e absoluta proteção que jamais pôde experimentar, como se nunca pudesse ser solitário novamente e ao mesmo tempo sozinho encontrando a si mesmo.

Tudo escuro. Não, tudo nulo. Não havia nada, mas o nada era ele. É isso o que eu sou? Uma casca super reforçada para proteger uma mente nula? Um sorriso apareceu. Não sabia em que direção, mas sabia que estava ali, na sua mente, ao seu lado, acima dele, o envolvendo, rodeando-o.

O sorriso virou um riso. Um riso sem dentes - análise em progresso - um nariz pequeno logo o acompanhou - proporções incompatíveis com idade adulta - dois olhinhos azuis surgiram sorridentes - Íris azulada ocasionada por cromossomos recessivos - uma rala cabeleira castanha coroou a imagem - não há análise espectrográfica - a imagem inteira se uniu, e viu, sentiu, acariciou, foi acariciado, pela face de um bebê de poucos meses - analise encerrada. Conclusão: Uma gracinha!

Ronco de uma nave, imagens borradas - situação de perigo, alerta - um manche sendo movido por mãos firmes - controle absoluto e seguro detectado - tela de alvo sinalizando trava de mira - não atire, pelo amor de Deus, não atire - o alvo era o bebê, o bebê risonho, a gracinha - não atire - "alvo liberado" - não atire - executar quando julgar conveniente" - não atire - dispare - não atire - dedos pressionam botões - não atire - mísseis atômicos são lançados.

Uma mão detém os mísseis - fato inverossímil - a mão se queima com dor - fato aceitável - as chamas se propagam pelo braço - fato peculiar - as chamas consomem a pele - fato consumado - dor, dor não controlada, dor aceita como conseqüência, dor para proteger a vida - fato irrefutável - sua dor, vida dos outros - fato concreto.

Seria essa a sua dor? O momento que o criou?

Não!

Então o quê?

Não há resposta!

E qual seria a pergunta?

O que você é, uma máquina sonhando ser homem, ou um homem acordando em uma máquina.

E porque eu me importo?

Porque é relevante.

Por que tanto poder?

Para ser usado.

Onde?

Onde deve ser evitado.

E onde isso seria?

Onde você encontrar.

Por que eu deveria fazê-lo?

Você é uma arma, um soldado, um pacifista, um amante, uma vítima, um cientista, uma criança, um sábio, um ser único, vários seres, todos os seres, nenhum ser.

O que eu sou?

O que você escolher.

Por que não me deixam escolher?

Porque não sabe o que é.

E quando saberei?

Quando se aceitar.

E quando isso será?

Quando voltarmos a ser um.

Quem é você? É Sarah?

Sarah não pode atingir esse nível ainda.

Quem está ai?

Você, eu, nós.

Não entendo.

Esse é o erro. Aceite, não entenda.

E se eu não gostar?

Já gostou antes, aceitou antes, fomos um antes.

Antes do quê?

Não sei.

Um lago apareceu. Sereno e calmo. Uma pedra enorme o atingiu, provocando ondas enormes e destruindo toda a sua superfície. A serenidade se foi, agora apenas o caos - observe - depois de algum tempo a superfície voltou ao que era antes - observe - não havia mudanças, era o mesmo lago - a pedra ainda está lá, escondida. Por fora o lago está igual a antes, mas por dentro se modificou para sempre.

Qual a relação?

Compare o lago a sua alma.

Qual a pedra que carrego?

Sou eu que a carrego, não você.

Não entendo.

Aceite, não entenda.

Sou bom ou mal?

Uma lagarta come uma planta, a planta morre. A lagarta cresce, outras plantas morrem. A lagarta vira borboleta. A borboleta morre, cai ao chão. Vermes a decompõem. Vira adubo. Uma nova planta se nutre deste adubo. Onde está o mal? Onde está o bem?

Qual o meu papel nesta relação?

Você é a relação.

Eu sou a relação inteira?

Aceite, não entenda.

Pássaros voam no céu. Belos, acrobáticos, suaves. Um deles pousa em sua mão - não, na minha - ele come as sementes na palma desta, a mão se fecha e o esmaga - foi sua mão que se fechou.

Minha mão? Sua mão? Qual mão?

Aceite, não entenda.

Uma criança abre os olhos - o que é isso? - olha determinada - o que é isso? - sorri maliciosamente - isso é obra sua - mostra os dentes - deixe-me mostrar o resto - seus olhos ficam vermelhos, seus braços e pernas se transformam em metais, ele cresce, ele se torna Jevlack - por favor, há mais - olha para o céu e sorri, um sorriso de alegria e triunfo - pare!

Eu entendi, agora você deve aceitar.

Como antes, como agora, como amanhã.

A hora de nos unirmos ainda não chegou.

Chegará.

Eu decidirei.

Sempre foi assim. Adeus, descanse. Viva novamente. Depois, desperte outra vez.

Dois nomes, mesmo significado.

Memória residual.

Lembrarei disso quando acordar?

Novamente não, mas você tem novos guias.

Apenas paz agora. De volta ao nulo. Sem imagens, sem pensamentos, sem nada. Apenas paz.

Quantas horas haviam se passado? Jevlack não sabia precisar. O computador chato que estava sempre onisciente em sua cabeça se calara - iria acordar, mas agora poderia viver com ele. A paz que sentia era indescritível. Começou a sentir a sua pele. Sentir mesmo, sentir o toque de outra pessoa nela. Abriu os olhos se sentindo calmo.

Sentindo...

Estava deitado no colo da vulcana que estava rodeada por vários outros vulcanos que nunca tinha visto, mas sabia serem tripulantes da Nave. Medok o olhava estoicamente, algo como solidariedade havia no fundo dos olhos que antes o olhavam com uma certa dose de desconfiança. Sabia que ainda havia muito a aprender mas que dera os primeiros passos com ajuda dos orelhudos hipócritas de Vulcan. Naquela posição, uma frase lhe veio a mente: "gracinha de bebê".

Não se lembrava do elo mental ou com quem ou o que conversara, mas sabia que houve uma conversa. Talvez com a mente coletiva de todos ali. Não importava. Sentia-se pela primeira vez - e novamente - no controle de si mesmo.

Experiência interessante...

Desligue-se.

Mas...

Sei o que eu sou, e não imagino o que você seja, mas lembro que antes eu o ligava só quando precisava. Portando... des-li-gue-se.

Processador Central desligado.

Processador central?

Levantou-se. Os vulcanos - com exceção de Medok e Sarah - se retiraram. Não eram mais necessários.

- Nunca imaginei que os meus sentimentos seriam de intensidade semelhante a dos seus, e que o seu controle sobre eles era para evitar de agir como eu estava agindo.

- Foi a melhor e mais acurada definição que já pude ouvir de nós, Jevlack. Fazemos isso porque é preciso. Mas temos sentimentos, que podem ser sentidos ou não. Como você.

- Mas agora posso expressá-los sem medo que me controlem. Por que vocês não? Há alguma limitação genética para isso?

- Uma básica e simples questão de sobrevivência... – ela sorriu amenamente, parecendo até resignada. – Nossa constituição fisiológica nos fez sobreviver, bem, em um mundo inóspito, mas também nos delegou sensações exacerbadas demais para serem expressas com a doce simplicidade com que as demais raças humanóides o fazem.

- Assumimos essa responsabilidade por nós mesmos – o vulcano disse sem emoção aparente.

Jevlack suspirou.

Sistemas desligados, capacidades óticas limitadas no nível de espectro visível, eco radar desativado, percepção de campos magnéticos inibida.

Olhou para a paisagem. Agora podia se maravilhar com ela, pois via enfim o seu aspecto, e não a sua formação. Um pássaro apareceu voando. Ele estendeu a mão e ele pousou nela. Alguma lembrança surgiu disso. Retirou a mão e o pássaro voou tranqüilamente para uma árvore. Olhou para Sarah.

- Por que se arriscar tanto para eu retomar o controle?

- Simplesmente... Era o que eu tinha que fazer.

- Sabia que este elo funcionou nos dois sentidos?

- Lógico - Como eu não saberia?

- Conheci Khan.

- Eu sei.

Agora ele sabia que ela não era simplesmente vulcana, não uma simples mestiça, mas uma híbrida de uma vulcana pura com um humano engendrado puro, descendente de uma linhagem só de engendrados, da mesma época de Khan, mas não seus... parceiros.

- Sabe de tudo que eu posso me lembrar agora?

- Sei de você, proporcionalmente, o mesmo que sabe de mim.

- Dois seres feitos por algo que humanos chamariam de capricho.

- Há muito para você aprender, mas agora eu e Medok devemos descansar. - Ela não disse, mas ele sabia que não aprovava o que estavam fazendo com ele. - Tudo o que foi feito aqui foi para garantir sua sanidade. Cumprimos, inicialmente, nossas ordens.

Sorriu levemente e saiu do salão, seguida de Medok.

- Se Medok tivesse dito isso, eu acreditaria...

****

Capítulo V.

Tempo Atual... 2.332.

Depois que a sonda analisara o objeto que agora orbitava a mais poderosa nave da Frota na atualidade, Sarah entendera o porque de sua angústia nos últimos 10 dias.

Aquela pequena esfera carregava uma série bem estranha de equipamentos bastante parecidos com algo que vira há 15 anos atrás em diversas análises que participara quase que por acaso em uma nave de pesquisa vulcana, que a princípio apenas a estava transportando para fora de determinado setor após mais uma de suas missões complexas. Pegara carona naquela nave apenas para ser deixada em um ponto mais... neutro, no qual pudessem, ela e Hans, arranjar um outro meio de transporte discreto ou oficial.

Mas o que aquela nave achara 6 dias antes tornara suas férias impraticáveis. Sua presença, como experiente controladora de mentes, se fizera necessária, pois, apesar de ser uma nave de vulcanos, nenhum deles havia sido preparado para aquele tipo específico de trabalho.

Passara 6 meses naquela nave, executando um trabalho incógnito também, que deixara Yonah assombrada com sua sorte.

Para sua mãe, mesmo que por acaso, ter tomado conhecimento daquele que seria o segredo mais especial da Frota e da Dissuasão tornou-se, ao longo dos anos, extremamente vantajoso. Para ela nada daquilo era importante como trunfo ou vantagem. Recebera uma nova dádiva, uma ligação tão ou mais especial que seu kevol-tyr com Hans, que tinha guardado no fundo de seu ser todos aqueles anos, aguardando, velando por sua sorte e sua proteção, desesperando-se em silêncio pelos anos que passara como... cobaia..., exultando quando nada mais podia ser descoberto e ele fora libertado, depois acompanhando com cuidado criterioso sua passagem pela Academia da Frota, apoiando discretamente sua vida particular e sua carreira...

Sabia que ainda tinha que esperar, e ficara feliz por ele ter aceitado isso, mesmo que não tendo compreendido...

Sorriu. Tantas possibilidades de poder e cada dia que se passara ele aprendera mais e mais a agir como um humano, apreciando expressar cada qualidade e defeito dessa raça, a raça que escolhera, mais uma vez, para ser a sua.

Hans uma vez o classificou como nobre. Ela riu-se daquilo. Se tinha algo que faria Janus assumir aquela estranha expressão de – como ele chamava mesmo? – é comigo?, seria ouvir isso. Mas a comparação até que era correta, embora não aplicável.

Ele simplesmente não aceitava usar aquelas habilidades em tempo integral. Sem contar com as outras que ela tinha descoberto com o tempo e com aquele assombroso e inacreditável elo mental.

A mente dele também era a mente dela.

A alma dela era a dele.

De uma certa forma... romântica, os dois eram apenas um.

Olhou a esfera mais uma vez e a viu cintilar em cores alegres, verde, vermelho, laranja, como se a tivesse ouvido e concordasse com seus pensamentos.

Saiu do observatório e foi até seus alojamentos. Estava na hora de ter uma conversa com Diana, só com ela. Não poderia deixá-la no escuro total, principalmente porque ele logo estaria ali.

Mas antes...

Antes precisava conversar definitivamente com Joshua. Aquela hora horrenda chegara.

****

Jevlack sorriu para ela com certa dose de malícia.

Gostava da companhia dela e agora começava, aos poucos, a realmente acreditar que aquela mulher morena pudesse ajudá-lo a emergir de si mesmo, descobrir, pelo menos, um caminho para as muitas dúvidas e incertezas que ainda o assolavam.

Quem era ele? O que era ele?

- Praticou o exercício simples de meditação que te ensinei ontem?

Ele não se levantou, mas a encarou. – Sim, tenente McKenna.

Ela conteve um sorriso diante da jocosidade dele. – E?

- Sem dúvida pareceu-me eficiente.

- Substituirá seu sono, já que não aconselho que ocupe seu tempo apenas com estudo e exercícios físicos. Você tem um ciclo de sono diferente do dos humanos e vulcanos, apesar de sua aparência externa.

- Eu não sou humano, não é?

Sarah se sentou em frente a ele. – Na verdade, isso não é uma resposta simples, Jevlack. Constatamos que boa parte de sua estrutura fisiológica é de fato humanóide, mas as demais estruturas... Temos dúvidas. Talvez só você mesmo possa esclarecê-las.

Ele se exasperou. – Acha que já não tentei?! – e avançou para ela, segurando-a pelos braços. Sarah apenas ergueu as mãos e segurou-o pelo rosto.

A ligação mental foi automática. Jevlack perdeu a noção do ambiente onde se encontrava. Tudo que sentia era que flutuava em meio a uma penumbra densa e aconchegante.

A princípio sua reação foi de susto e pânico, para depois sentir uma familiaridade boa, mas muito estranha. E quanto mais calmo ficava, mais coisas conseguia perceber, como a sensação confortável que agora lhe parecia um... abraço.

Machucar meu corpo não o levará mais rápido aos conhecimentos que deseja...

- Não quis machucar você.

Deve compreender sua força. Deve aceitar que há motivos, ainda ocultos, para que seu passado esteja mergulhado na escuridão.

- É fácil para você pedir paciência – ele replicou sentindo em seguida o sorriso dela como uma sensação física, quente e reconfortante, aplacando sua irritação.

A penumbra se dissipou e ele pode vê-la diante dele, não sorrindo, mas com uma expressão totalmente suave, que ainda não tinha conhecido. Os olhos dela, profundamente castanhos, expressavam, no entanto, que não permitiriam mais arroubos de seu.. pupilo?

Sua mente é extremamente complexa e, como já disse muitas vezes, eu me perderia nela se você não a deixasse compreensível para mim. Você está no controle, lembre-se disto. Mesmo este computador que você já demonstrou claramente não apreciar obedece seus comandos. Você é dono de seu destino, e não importa o que eu ou outra pessoa faça, sempre será. Mas assim como existe coisas que você controla, há aquelas que simplesmente devem acontecer no tempo em que elas determinam.

- Talvez eu precise de algumas palmadas – e se aproximou dela, enquanto um lago banhado pela luz de uma imensa lua verde se formava em volta deles.

Você confia em mim?

Ele sentiu-se incomodado. – Não sei.

Só um pouco...

O sussurro dela parecia tragá-lo e também... o excitava.

- Um pouco – ele concordou com relutância.

Vou dizer então o que vou fazer agora...

Ele olhou em volta e notou que estavam sob uma frondosa árvore, o murmúrio de um riacho, que desaguava no lago, tranqüilizava-o mais ainda.

Sarah estendeu a mão para ele e sorriu.

Não era o sorriso que qualquer mulher daria a um homem, não era alegre ou sarcástico, não tinha a intenção de ser amigável ou destrutivo. Era apenas quente, apenas físico, expressava apenas paciência e vontade, e teve certeza que ela não o via mais como uma curiosidade ou um prisioneiro bem cuidado... E seu receio se dissipou.

Um pouco... Vamos ver o que há na superfície... Só na superfície – e puxou-o para junto do lago.

Ao tocarem na superfície da água Jevlack percebeu que na verdade mergulhava em si próprio.

Um número enorme de imagens e sons veio desordenadamente até eles, como uma enxurrada sufocante. Ele sentiu o aperto da mão dela na sua, fazendo-o suportar, dando-lhe... conforto.

****

Música. Uma música alta, forte, rítmica e que reverberava em seus corpos era ouvida. Uma olhada ao redor e viram pessoas – humanos – andando por um tipo de pavimento de uma forma um tanto coreografada.

Carnaval...

Festa da carne?

Sim. Exatamente isso. Carnaval brasileiro. Devo ter assistido algum desfile ao vivo.

E estas roupas são nativas?

Como você mesma disse, é uma ‘festa da carne’...

Agora o céu era avermelhado. O local era frio. Viram-se em um descampado com terra vermelha no chão e algumas rochas pontiagudas ao redor.

Que lugar é esse?

Vulcan. Meu mundo natal. São minhas memórias agora. Curioso... eu...

Nós!

Tem razão.

Você era uma gracinha...

Uma menina apareceu andando pelo local. Parecia ter sete anos, e se dirigia a um tipo de altar.

É o meu casamento.

COM ESSA IDADE?! Vocês são precoces, hein?

Sem comentários...

Um grande estrondo e uma luz amarelada cegou os olhos dos desbravadores das camadas mentais que ambos estavam compartilhando. Em seguida o céu ficou escuro, onde se podia ver com perfeição cada estrela. O chão era ladeado de poeira branca com pedras porosas, e a distância via-se um corpo estirado. Logo a imagem mudou para a ponte de uma nave.

Não uma nave, mas um navio. Um navio do século XXI, cheio de tripulantes extremamente atarefados, e com um sonoro alarme disparando. Não durou muito e a cena mudou para um oceano em que estranhas criaturas nadavam. Criaturas que nem Sarah conhecia. Deviam ser memórias de Jevlack.

Depois disto, a quantidade de imagens e cenas começou a se acelerar mais e mais, misturando lembranças de Sarah e de Jevlack, tão rapidamente, tão incontrolável e com tanta veemência que ambas as mentes apenas captavam o que ocorria sem nenhum controle, mas fascinadas e inebriadas com o realismo das mesmas.

No meio do turbilhão, vagamente veio a compreensão para ambos. Não era apenas a mente de Jevlack que estava evocando e dando sentido as imagens. Era a mente de ambos, de Sarah e Jevlack que faziam isso. Jevlack coordenava e tabulava as memórias, e Sarah comandava e definia a ordem.

Era assustador.

Era adorável.

De alguma forma, naquele primeiro elo que fizeram, as mentes de ambos se coordenaram para um trabalho em conjunto impossível de ser classificado ou compreendido. Na verdade, nem poderia ser feito, não pelo que Sarah conhecia sobre elos mentais e ligações telepáticas com outros seres.

Mas foi feito.

Jevlack tinha um poder mental enorme que não podia realmente manipular fora do confinamento de seus pensamentos, e Sarah tinha uma grande capacidade lógica e criatividade humana para poder fazer isso por ele.

Eles nunca mais poderiam se desconectar. Mentalmente estavam unidos pela eternidade.

Nenhum deles se incomodava agora com as memórias de ambos circulando por eles, nenhum dos dois precisava se incomodar. Ele sabia o que ela era, ela sabia o que ele queria ser, mais que isso, ela sabia o que os dois queriam ser.

O pupilo evoluiu, cresceu, aprimorou-se de forma absurdamente rápida. Mas isso era até lógico, pois usou os seus conhecimentos, sua experiência para isso. Sua experiência foi assimilada por ele! E a habilidade dele foi outorgada a ela.

Ele... confiou sua essência a ela. Nunca ninguém demonstrou tamanha confiança antes. Talvez fosse um mero acaso – claro, e porcos voam – ou então um ato despreparado.

Talvez seja apenas porque ele se apaixonou por você, oras.

Mas quem?! Não importava. Jevlack, não, Janus entregou-se a ela. Entregou o controle de seu imenso poder mental a ela. E ela...

Ela era dele...

Suas mentes não estavam meramente ligadas. Não... tornaram-se complementares, como os liquens terrestres. A alga não pode viver sem o fungo, e vice-versa. Suas mentes tornaram-se simbióticas. Unidas por um evento do acaso.

E por consciência própria, nenhuma destas mentes agora sentia qualquer tipo de desejo de se separar novamente.

Ele se entregou a ela... e ela não podia fazer menos.

E não faria.

****

Quando abriu os olhos viu que estava deitado com a cabeça no colo de Sarah, que passava a mão em seus cabelos castanhos e abundantes.

Ficou... feliz por vê-la.

Ergueu a mão para a cabeça dela e retirou o palito de madeira que prendia os cabelos dela num coque. Os cabelos caíram com suavidade ao lado do rosto dela, balançando com maciez e exalando um perfume natural que o inebriou. A mão dele desceu com cuidado pelo rosto dela, numa carícia lenta e sôfrega. Sentia-se ansioso por beijá-la, por se deliciar com o gosto da boca dela.

- Sabe o que estou sentindo agora.

Sarah não sorriu. Ela sabia. E sentia aquela mesma estranha ânsia, muito diferente do desejo que já sentira por outros homens no passado.

Eles se beijaram a princípio devagar, depois com sofreguidão e ansiedade.

Jevlack se recriminou mentalmente de que não era a primeira vez que beijava uma mulher, então por que se sentia assim, desesperado, emocionado? E algo dentro de seu peito explodiu num protesto veemente, enérgico e alegre de que aquela era mais que uma primeira vez, era sua primeira vez com ela...!

Quando a penetrou fisicamente seu corpo todo pareceu explodir de emoção e júbilo, e sentiu-se penetrado mental e espiritualmente por ela, sentindo um prazer e uma felicidade impossíveis de descrever em palavras... Complementação, compreensão, igualdade, diversidade, alegria... Não sabia onde estava ou o que estava a volta deles, só sabia que estava nela, com ela, por ela... Nunca sentira algo assim e tinha agora claro em sua mente que antes, com todas as outras fêmeas com as quais experimentara o prazer carnal, nada poderia ser um parâmetro de comparação. Amor? Era uma palavra tênue, externa, incapaz de definir sua comunhão com Sarah, as coisas que agora sabia dela e que o fazia querê-la nele ainda mais...

****

Abriu os olhos e a viu em seus braços dormindo serenamente. Não, não dormira, mas penetrara mais fundo em si mesmo e tinha agora mais peças para encaixar do seu passado e compreender quem e o que era ele...

Ela parecia tranqüila e entregue em seus braços e isso o emocionou, sabendo que ela abrira seu eu para ele e que o deixara ir muito além do que qualquer outro ser... Como aquele Düff, que ainda o intrigava... E sabia agora que aquela era sua demonstração mais profunda e absoluta de coragem e entrega.

Conhecia agora seus poderes e suas capacidades e só a ela poderia confiar todo o seu ser, tudo o que havia para ser descoberto em si. Se pudesse.

Sarah McKenna, T’Sarahk de Sernick, era sua, como jamais o seria de qualquer outro homem. Tudo o que desejava era ser tão plenamente dela como se sentia, e para isso precisava, ao menos, saber quem era realmente e o que, afinal de contas, lhe ocorrera...

Tempo Presente, na Atlantis...

Düff entrou no alojamento dela e a viu sair do banheiro enxugando os cabelos. Eles se fitaram e Sarah suspirou, pegando a calça do uniforme e vestindo-a.

- Não tenho opção, Hans. - Começou ela antecipando e já tentando cortar os argumentos que faziam fila na sua mente para fazê-la mudar de idéia. - Não posso receber Jevlack mantendo um relacionamento com Joshua.

De todos os conselheiros que tinha a disposição naquela nave, Düff era o que devia ser o mais compreensivo devido a compartilharem suas mentes. No entanto, isso também dava a ele munição mais do que suficiente para - com meticulosidade médica – cirurgicamente indicar, apontar, extrair e autopsiar argumentos que facilmente a colocariam em xeque.

E ela detestava xadrez.

- Eu, que sei sobre você e Jevlack, não estou aceitando a idéia de você terminar tudo bruscamente com ele, Sarah. Ponha-se no lugar de Joshua!

Sarah o encarou, os olhos ardendo, a boca seca. Colocar-se no lugar de Joshua? Porque Düff não se colocava no lugar dela? Que escolhas ela realmente possuía? Joshua fôra um excelente... amigo, um companheiro perfeito para a sua situação de ausência e afastamento de seu real objeto de desejo, assim como as companhias – a maioria vulcanas – de Jevlack o foram para ele.

- Nós sabíamos que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Acha ainda que foi um bom conselho?

Hans não se abalou. Apesar de saber o que ela sentia, como sentia e porque sentia, um detalhe ele não podia obter com a ligação que tinha com ela. O motivo de ela ter ido tão longe com Joshua.

- O que você vai fazer agora não restringe o que você sente. Jevlack também tem seus casos, Sarah. Vai ter que entender que você está no meio de um agora.

Sarah se sentou diante da comida que pusera para si e cruzou os dedos, apoiando as mãos na testa enquanto dava uma curta risada. Ela fazia o melhor possível. Sempre fez o melhor possível dadas as circunstâncias e suas possibilidades. E aconteceu o que não era novidade. Os eventos forçaram a situação para um ponto além de seu controle. Ela não esperava se encontrar com Jevlack agora. Nem ele para com ela. Na verdade, ela intencionalmente reduziu os seus contatos para melhor minimizar – para sua consciência – a sua relação além do conveniente para com Joshua.

Joshua não... Senhor Benrubi.

- Meu Deus, Hans, você sabe muito bem a diferença entre um caso esporádico e um relacionamento que envolve respeito. Seria uma situação, no mínimo, vexatória para mim. E para eles também, ora. Ponha-se no lugar deles você.

Düff suspirou, sentando-se de frente para ela. – Sei que Joshua vai sofrer não só com o fato de vocês terminarem, mas também por Jevlack existir. Ele não vai conseguir distinguir as duas coisas...

- Mas pelo menos não vai se sentir desrespeitado.

Foi a vez de Hans dar uma risada sarcástica. – Oh, claro.

Sarah se exasperou. – Ele que peça transferência então... – olhou para o sanduíche, furiosa consigo mesma. Como fôra arrogante, como fôra tola! – Eu sabia que isso ia acontecer! Eu sabia! Desperdicei muitas oportunidades de lembrá-lo de que isso era algo esporádico, não permanente. Que ele não deveria alimentar esperanças de... de ficarmos mais íntimos. Eu errei, Düff. Aceito isso. Reconheço isso.

- Errou?! – Havia um cinismo claro e evidente naquele sorriso meio debochado no seu rosto.

- Eu não me importei – murmurou ela com um suspiro. – Na verdade, eu nunca me importei com meus outros envolvimentos. Sempre fui seca e... – ela ergueu os olhos para o teto do alojamento – pode-se até dizer cruel em minha frieza. Mas isso sempre foi eficiente. Não me envolvia por romance ou satisfação social, mas sim para atender uma necessidade fisiológica quase impossível de conter decorrente de minha herança humana.

- Agora os genes são os culpados...

- MAS O QUE VOCÊ QUER QUE EU FAÇA? – disse ela em um rompante inesperado e até surpreendente de raiva. Algo que, mesmo na única presença de Düff era extremamente raro, para não mencionar inacreditável.

- Você se incomoda com ele. Não como pessoa, mas como amigo. Diferente de todos os outros, ele foi um pouco mais do que uma relação. Você tem sentimentos afetuosos por ele. Você se incomoda verdadeiramente com o quanto isso vai machucá-lo. E... – ele olhou para baixo, evitando encará-la nos olhos – é isso que a irrita de verdade. Você realmente o ama um pouquinho.

- E quanto a Jevlack? O que eu digo para ele? Minha alma é dele, e a dele é minha. Estamos... unidos há muitos anos, Düff... Você estava lá. Você mesmo ficou me irritando por meses por eu tê-lo deixá-lo escorregar de meus dedos.

- Talvez Jevlack entenda, Sarah...

- Mas eu não, Düff! Isso é minha vida particular, não uma missão! Janus com certeza compreenderia, me perdoaria – sua voz começou a ficar mais calma e sussurrante. – Eu faria isso se ele estivesse no meu lugar. Mas perdoar a mim mesma... por cometer uma falha de adolescente destas... Não, Hans, não posso esticar isso para dar um final menos doloroso. Ele não será assim. Joshua terá de aceitar ou me condenar. Pessoalmente prefiro a segunda opção. Seria mais fácil para ele. O que me.. dói é que ele vai ser um cavalheiro.

- Desculpe-me, querida... Mas assim como ele e eu fazemos parte de sua vida, agora Joshua também tem o seu papel. Ele não é um caso qualquer, ou uma diversão momentânea: você gosta dele. E também vai sofrer.

Os olhos dela fitavam a gaita de fole sobre a estante de fiberglass. – Se apenas eu sofresse com isso eu já estaria satisfeita...

Düff afagou seus cabelos castanhos de fios retos e perfeitos, gesto que ela recebeu inclinando a cabeça na direção dele.

O alemão sabia que não havia como ajudar Joshua ou Sarah. O destino se encarregara de pregar uma peça neles. Tudo que podia fazer era esperar que Joshua superasse isso.

E Sarah também.

Claro, Sarah tinha dois apoios poderosos. Ele próprio e Jevlack. E Joshua... bom. Pelo menos até Rebecca estar independente, ele a teria como meta e ponto de resistência para suportar isso.

Mas tal coisa não atenuaria sua dor...

Três Horas Depois...

A porta do alojamento dela se abriu e Joshua entrou na penumbra dele com um sentimento estranho envolvendo-o.

Desde que a esfera alienígena os contactara há quatro dias, ele a vira algumas vezes, mas sentia que algo se quebrara entre eles.

Ela estava sentada no sofá junto a escotilha inteiriça, que ocupava o espaço do teto ao chão, olhando para fora.

- Oi, - ele a beijou no rosto e se sentou ao seu lado. – Você está preocupada com a esfera?

Ela o olhou tão profundamente que Joshua soube o que aconteceria a seguir. Seu coração disparou e seu estômago doeu. Não, não podia ser...

- Preciso tomar uma decisão sobre nós dois – e o encarou séria, seca, impassível.

- Não, Sarah... – ele sussurrou, olhando em volta.

- Você sabia que um dia isso ia acontecer...

- Assim, do nada? Meu Deus, o que eu fiz?!

- Nada – e segurou-o pelo rosto. – Minha vida é muito complexa, há coisas que existem nela muito antes de você...

Ele lembrou da reunião na noite anterior, aonde a chegada da nave de pesquisa enviada pela Federação fôra anunciada. Na qual vinha um homem cujo nome ouvira ela gemer dormindo há 5 dias atrás e que não tivera coragem de indagar quem era.

Perguntara quem ele era a Düff. E este o olhara como se tivesse pena dele, dizendo-lhe para perguntar isso a ela.

Ele não perguntara. Tivera medo da resposta. Recorrera a alguns antigos conhecidos para descobrir quem ele era. Então teve certeza, com o que conseguira, mesmo sem muitos detalhes, que havia algo muito sério entre aquele homem e Sarah.

Ele se levantou e a fitou. – EU estou com você agora... Fiz algo errado?

- Não, Joshua, você foi maravilhoso comigo, jamais vou esquecer os momentos deliciosos que tivemos. Mas não podemos mais ficar juntos. E deve ser agora.

Ela não estava sendo cruel. Ele podia ver que ela relutava em lhe dizer aquilo mesmo que com aquele olhar neutro, resultado apenas de treinamento e não do que ela sentia realmente. Sim, ele havia aprendido a lê-la, não apenas naqueles 40 dias sem definição que fosse apropriada, mas durante aqueles 5 anos trabalhando juntos...

Estava confuso, uma dor sem dimensões tomando conta de seu coração.

- Minha intenção nunca foi a de fazê-lo sofrer...

- Então por que está fazendo?

- Não faça isso.

Ele a fitou sufocado, seus sentimentos em turbilhão. Não conseguia definir se sentia raiva ou desespero.

Talvez fosse apenas... decepção. Não dela, mas de si mesmo. Encontrara uma princesa na esquina da vida e achou que poderia ter um final feliz. Algumas vezes ele se indagou se estava colocando esperanças demais naquela relação. Mas logo em seguida sempre tirava isso de sua mente. Um dia por vez era o bastante. Deixe as dúvidas para amanhã, por hoje, apenas viva o momento. Afinal, com a vida que eles levavam, era bem possível que estivessem em uma sala em um instante e no seguinte fossem sugados para fora da nave por um rombo feito por um pulsar romulano.

Claro, isso era insuperavelmente mais fácil de aceitar do que ouvir a pessoa por quem ele nutriu veladamente tanto amor – mais até do que ele consideraria aceitável pelas circunstâncias – um simples e clássico foi divertido, adeus.

Mas... havia algo mais nisto do que ela estava contando. Não podia ser simplesmente um antigo amor ter voltado para ela. Não podia!

- Você acha que sabe o que está fazendo, Sarah. Vou deixá-la com seus pensamentos organizados e lógicos.

-... Joshua... – ela murmurou quase sem produzir nenhum som, enquanto ele saia de seu alojamento aparentando uma calma que não estava sentindo.

Ela olhou pela escotilha, sentindo o peso de sua responsabilidade. De sua falta de tato e gentileza.

Gentileza...

Depois de tudo o que ele fez por ela, era assim que retribuía? Sem nem ao menos uma... satisfação aceitável?

Sarah McKenna, Imediato da USS Atlantis. Uma excelente oficial e cônscia de seus deveres, por vezes indo além do exigido a sua função.

Sarah McKenna em sua vida pessoal... o que ela era?

Com um suspiro, deitou-se no sofá. Olhou da escotilha para a estante de fibra de vidro que continha livros, três pequenas caixas de madeira que guardavam pequenos objetos de estimação, e algumas coisas um pouco absurdas para estarem lá, como jóias e pedras preciosas, presentes de homens e mulheres que conhecera antes de subir na Atlantis, alguns deles poderia considerar amigos.

Havia na outra estante, que ficava na outra parede – a mesma da porta de entrada - num ângulo de 90° com essa outra, duas pequenas ampolas de formato elegante contendo areia de Sernick – a região de origem de sua família em Vulcan e outra das Terras Altas, na Escócia, areia laranja fina em uma e um pouco de terra e pedras cinzas na outra. Entre elas, formando um conjunto, tinha um holo-álbum bem volumoso numa capa clássica, com imagens de sua família escocesa, seus tios, tias, primos, primas, e seus avós paternos que haviam voltado para a Terra depois que seu pai morrera, e mais um sem número de ramificações parentescas.

Além dos confortáveis sofás em L que formavam um conjunto harmonioso com as estantes penduradas, havia, formando um outro ambiente sem divisões, sua escrivaninha, sobre a qual estava seu computador, que do lado esquerdo tinha uma planta carnívora vulcana de médio porte, a MASYKAIÁ, que tinha flores de longa duração brancas com folhas ferrugem que exalavam um perfume suave, e, a direita, uma escultura de Cellso, o mais famoso do século XXII, cuja peça, original, fôra presente de sua mãe quando embarcara na Atlantis.

Fôra um presente exagerado, caríssimo, ostensivo, mas recusá-lo teria sido uma tolice sentimental também, então aquele símbolo do status de sua família abastadíssima estava ali. Era uma obra abstrata, feita numa pedra com veios azuis e vermelhos em sua predominante cor cinza escuro. Era bonito, mas não deixava de ser bossal ter tal enfeite.

Oposto a escrivaninha, completando o pequeno conjunto daquele ambiente, estava uma mesa de alumínio transparente para 6 pessoas, o replicador de alimentos e sua adega particular. Parecia rústica e simples, um armário de madeira escura de 2 portas, encimado por uma pequena cristaleira com diversos tipos de copos, mas que era por dentro um sofisticado aparelho que conservava os vinhos de Sarah, e algumas outras bebidas, em nichos especiais, individualizados, com suas temperaturas e ambientação apropriados para cada bebida.

Vinhos eram os preferidos de McKenna, mas também haviam ali vodka, cervejas romulanas e brasileiras, uma garrafa de licor klingon, Martini e pinga brasileiras. Sim, gostava muito dos produtos vindos do Celeiro da Terra, o Brasil.

A porta que dava para o cômodo adjacente estava aberta, onde ficava o quarto e o banheiro. Foi até ele passando pelo pequeno nicho, ao lado da escrivaninha, onde punha seus disquetes, cds, discos isolineares, tricorders, pads, em fim seus instrumentos de trabalho. Na primeira prateleira, de três, estava uma caixa de metal polido com 15 cm de altura, 10 cm de largura e 30 cm de comprimento. Sorriu. Seu presente estava pronto há alguns meses. Um de seus presentes.

Isso era o pequeno mundo dela, de sua vida particular, de sua vida que em nada se misturava com a vida militar que tinha. Assim como a dos muitos humanos da Atlantis, era uma vida com emoções, alegrias, tristezas, lembranças, tormentos, erros, acertos...

Ela ainda conseguiu sorrir com a ironia... Não era diferente dos outros. Tinha toda a gama de problemas pessoais que qualquer outra pessoa possuía, bem como talvez a mesma coleção de falhas de decisões pessoais deles. Mas ao contrário de suas decisões de comando, em sua vida pessoal ela podia atenuar erros e dores causadas.

Mas para isso, era preciso usar o antigo e sempre mestre em curar feridas. O tempo!

Decidiu que não pensaria ou sentiria Joshua pelas próximas horas. Tinha coisas sérias a fazer e não iria se permitir desviar totalmente seus pensamentos para coisas particulares que na verdade não poderia resolver agora.

Talvez não pudesse resolver satisfatoriamente nunca. Entrou no banheiro, lavou o rosto, refez o penteado e a maquiagem leve e voltou ao trabalho.

Mais Tarde, No Gabinete de Diana.

Sarah estava de pé na frente de Diana e contava a esta uma pequena história.

- Eu e Düff havíamos terminado uma pequena missão e precisávamos sair dali o mais rápido possível, tanto pelo perigo que corríamos se fossemos descobertos, quanto pela necessidade urgente das informações que tínhamos. Foi-nos providenciado uma carona na nave mais amigável e mais próxima, a nave de pesquisa vulcana T’Khasi, que nos resgatou com duas horas de atraso. Esse atraso era plenamente justificável como ficaríamos sabendo nos 6 meses seguintes que permanecemos trabalhando voluntariamente nela. A T’Khasi só nos daria uma carona para a base mais próxima, a princípio, mas alguns dias antes, seis dias para ser exata, eles se depararam com uma nave construída no século XXII que trazia em si um surpreendente achado.

Diana não se conteve. – Jevlack?

- Sim, Diana. Minha especial característica como controladora de mentes e o achado em si fizeram Yonah agir rápido para que nosso comissionamento fosse efetivado na T’Khasi. Passamos 6 meses servindo naquela nave a três comandos diversos: A Federação, a Frota e a Dissuasão, dizendo-se de passagem à várias seções desta. O objetivo oficial era descobrir como a estranha tecnologia implantada em Jevlack poderia ser reproduzida e usada. Quanto a mim, depois do que nos aconteceu, tinha apenas como missão pessoal ajudá-lo a se encontrar e posteriormente protegê-lo das garras de certas facções da Dissuasão. Ainda assim... – havia mágoa e raiva em sua voz. – Mesmo com toda a influência dos amigos aos quais recorri em Vulcan e além - minha mãe não quis me ajudar - a Federação o estudou por três anos...

- Poderia ter sido pior.

- ... Bem pior. Mas depois minha mãe – possivelmente para se redimir – conseguiu revelá-lo para os circuitos oficiais da Federação e torná-lo um agregado da família de Sdeck. Se tivesse permanecido em segredo...

- Nunca vi você falar assim de ninguém, Sarah. Nem mesmo de Düff.

McKenna sorriu fugazmente. – Hans é um irmão, um filho. Em fim, pelas análises das sondas enviadas à esfera, ela contém material semelhante aos componentes biônicos e as próteses de Jevlack. Não sei exatamente o que ela quer, mas posso lhe afirmar que está aqui atrás dele.

- Como você sabe, Sarah?

A engendrada tirou os olhos da escotilha e a fitou. – Ela me disse.

- Ela... O quê?!

Ao Mesmo Tempo, Na Nave do Capitão Stek...

Já tinha esperado um ano por um contato direto, algumas horas não fariam diferença.

Não estava e nunca estivera magoado com Sarah por causa disso, mas sabia que seus deveres para com sua mãe e sua família, que para ele não passavam de mais umas das facções da maldita Dissuasão, era o que, verdadeiramente, a mantinha longe dele.

Admirava sua honrada dedicação aos ideais de sua mãe, e jamais discutira com ela o fato de ter um profundo desprezo – plenamente justificado – pelo lado obscuro da Federação, que quase o tinham transformado em um quebra-cabeças sobre uma prateleira qualquer de uma seção qualquer. Mas, acima de tudo, compreendera que o poder dela indicara para eles uma singular e sobrenatural paciência, fazendo-os esperar, sem saber o quanto, pelo momento deles, só deles, de estarem juntos efetivamente, concretamente, e não apenas mental e espiritualmente.

Nesse meio tempo fingia que não contava as horas, que não se lembrava dela, e que tudo era normal sem ela.

Carregava-a na alma, na mente e no coração, mas queria carregá-la nos braços, pra variar.

- Comandante? – chamou o oficial tático dobrando a cabeça um pouco confuso pelo fato dele estar ultimamente como que... distraído das coisas ao seu redor.

- Xeque-Mate – disse ele movendo uma peça do tabuleiro dois segundos após ter sido chamado – quer uma melhor de cinco?

- Não – ele observava atentamente o tabuleiro, se questionando de não ter sido capaz de prever aquela jogada - Já estou lhe devendo umas duas caixas de cerveja...

- Cerveja... – murmurou ele com uma entonação de desprezo. – Será possível que nunca mais vou conseguir uma batida de coco na vida?

- Como?!

- Deixa para lá.

****

- Sarah?

Diana a observava há algum tempo naquela contemplação muda e vidrada da esfera alienígena. Ela arregalara os olhos de um jeito tão repentino que surpreendera O’Conell.

- ... Sim, capitã?

- Algo errado?

- A esfera...

Diana esperou.

- Disse que veio por mim, mas por causa dele.

O’Conell não entendeu. – Como assim?

- Eu... não entendi.

Diana ficou confusa, mas achou melhor não indagar mais nada. McKenna estava quase... assustada. A análise da esfera alienígena revelou que ela carregava materiais muito semelhantes aos que compunham as próteses de Jevlack, como se fosse um carregamento de reposição ou... replicação. Como não tinham dados oficiais para corroborar isso, simulavam não saber o conteúdo, enquanto aguardavam a nave científica indicada pela Frota para tratar daquele assunto.

****

Capítulo VI.

Dezoito Horas Mais Tarde...

Assim que a Thunderbold sincronizou-se com a Atlantis, a pequena esfera alienígena assumiu uma nova órbita, que agora englobava ambas as naves.

O Capitão Stek, seu Primeiro-Oficial e sua Engenheira Chefe seguiram para o teletransporte para se reunirem com o comando da Atlantis.

Jevlack estava tranqüilo. Estivera bastante ansioso nas últimas horas, sentindo a apreensão e as dúvidas dela, sem no entanto compreender claramente por que ela se sentia assim.

Sentia o contato mental que a sonda fizera com ela, algo bastante superficial, mas que tivera a intenção de mostrar suas motivações principais para estar ali, todavia sem entrar em detalhes. A sonda sabia quem era ela e não ignorava que Jevlack estava a caminho.

No entanto, algo ali não se encaixava bem. Na verdade, algo ali estava totalmente fora de contexto. Quem enviou a esfera? Quem estava no controle de suas decisões?

Ele tentava ponderar sobre isso enquanto andava pelo corredor. Mas era uma mera desculpa para poder se manter controlado enquanto a cada passo, a cada respiração, ele mais e mais se aproximava dela.

De Sarah. De sua companheira.

Subiram o degrau do teleporte e, instantes depois, estavam na Atlantis. Ali, diante dele, estavam Sarah, Diana e...

Este é Joshua - sussurrou o pensamento dela em sua mente.

Nenhum dos dois se alterou, nenhum deles fez qualquer coisa que os outros presentes pudessem perceber. Mas naqueles parcos minutos em que o capitão Stek pediu permissão para ir a bordo para O´Conell, Sarah e Jevlack trocaram algumas informações mentais. Informações mentais que Sarah julgou que era o melhor momento para isso.

E, como ela esperava, recebeu uma profunda compreensão e simpatia de volta dele. Não fosse pelo seu treinamento, caráter e sua própria personalidade que fora moldada pelos anos a serviço e por outras situações mais pessoais, talvez seus olhos tentassem inutilmente verter uma lágrima de comoção.

- Se me acompanharem – disse O´Conell estendendo a mão – podemos nos reunir e conversarmos sobre esse estranho objeto que parece tão interessado em nós quanto nós nele.

Joshua deu uma pequena estreitada de olhos quando Jevlack passou por ele. Como era um profissional, não deixaria questões pessoais interferirem com os eventos.

Pelo menos, até descobrir o quão pessoal seriam os próprios eventos.

****

D´Angelis olhava para a tela e mentalmente se exasperava com aquilo. Nada!

Nenhuma informação diferente, nenhum dado adicional.

Deveria ter funcionado...

Já fazia algumas horas que ele tinha sugerido ao oficial de ciências se poderia usar algumas sondas exploratórias internas da engenharia para tentar determinar algum mecanismo interno da propulsão da nave. As sondas, usadas para inspeções nas naceles da Atlantis, tinham um conjunto de sensores muito especiais para análises de distorções no continuum espacial que as naceles causavam, e – ele acreditava – que as mesmas poderiam montar um mapa mais detalhado sobre o que acontecia na engenharia daquela minúscula nave. Melrik apenas acenou a cabeça confirmando, acrescentando que qualquer informação adicional poderia vir a se tornar relevante. Especialmente porque tudo o que os sensores da nave conseguiram obter foi – ele achou estranho um vulcano, ainda mais um que ele já conhecia bem como Melrik dizer aquilo – o que a esfera os permitiu descobrir.

Agora, ele começava a acreditar nisto. Seus sensores conseguiram analisar objetos no interior da esfera, mas não seus dispositivos internos. Na verdade, parecia que a esfera não tinha dispositivos internos. Movia-se pelo espaço sem perturbar o continuum. Tinha gravidade artificial mas nenhuma energia detectada que pudesse estar atuando para gerar esta gravidade.

Isso era impossível!

Se podiam detectar gravidade, tinham que captar algum tipo de energia, nem que fosse do emissor usado para gerar esta gravidade. Mas não... suas sondas que tinha enviado faziam horas não conseguiram detectar nada. De fato, era como se a pequena esfera não existisse para elas. Teve que direcioná-las manualmente em direção a esta devido a isto. E tudo o que as mesmas relataram foi que não havia nada ali para ser analisado.

Mas que diabos... como aquela esfera conseguia fazer isso? Permitia que alguns sensores a analisassem, mas conseguia evadir-se de qualquer outro tipo de sondagem. Conheciam suas dimensões, uma parte de seu interior e até mesmo dados da atmosfera interna desta. Até estranhos objetos foram detectados em seu interior, que aparentemente não faziam parte de seu design.

Era como se estivesse se escondendo deles. Como se fosse apenas um mensageiro que deveria unicamente entregar algo e não permitir mais nada além disto.

- Mas que droga! – murmurou ele para o vazio. Ele estava na engenharia, onde tinha pego um painel para controlar as sondas internas e enviá-las para estudar a esfera. Os outros tripulantes dali cuidavam de seus afazeres e o ignoravam profissionalmente, como deveria acontecer. – Poderia, por obséquio me informar porque é tão importante não deixar eu saber nada sobre você, pequena e enigmática esfera enviada Deus sabe por quem?

Ele se recostou no assento com um sorriso irônico. Sabia que sua pergunta era ridícula, bem como a impossibilidade de obter sua resposta. McKenna talvez o repreendesse se o visse agir daquela forma, ou talvez expressasse algo sobre as tolas e improdutivas interjeições humanas de desabafo. Quando foi olhar para o seu painel para comandar suas sondas para retornarem, ficou de queixo caído.

Ali, no monitor, estava uma frase escrita – como isso foi parar lá? – que, absurdamente parecia uma resposta a sua indagação fútil anterior. O conhecimento obtido com meus dispositivos daria poder demais a uma civilização jovem e imatura como a sua.

Ele piscou os olhos umas duas vezes, e então não havia nada de anormal no monitor, apenas os gráficos e dados coletados pelas sondas. Comandou o computador para repassar exatamente o que seu monitor tinha apresentado nos últimos minutos, e nada excepcional foi percebido.

- Computador, – comandou ele – alguma anomalia foi detectada no painel que estou utilizando?

- TODOS OS CIRCUITOS E CONEXÕES LÓGICAS OPERAM DENTRO DOS PADRÕES ESPECIFICADOS. NENHUMA ALTERAÇÃO SIGNIFICATIVA FOI DETECTADA NO PAINEL INDICADO NOS ÚLTIMOS TRINTA E DOIS DIAS.

- E as não significativas?

- TODAS FORAM FLUTUAÇÕES NORMAIS DE ENERGIA DEVIDAMENTE COMPENSADAS PELOS RELÊS DE SEGURANÇA.

- Alguma destas... flutuações poderiam fazer aparecer caracteres estranhos no monitor?

- NEGATIVO.

Ele olhou para cima. Não estava louco, tinha visto uma mensagem em seu monitor. Uma mensagem para ele!

- Computador, repasse gravação de segurança interna da engenharia, setor doze, ala quatro, no monitor do painel que estou utilizando atualmente.

Uma imagem surgiu em seu monitor. A sua imagem vista de um ângulo um pouco superior e a direta, captado por uma câmara discreta da sala. Podia se ver nesta imagem, e, também podia claramente ver o monitor de seu painel.

- Retroceda a gravação, tempo normal.

A imagem agora mostrava os eventos ao contrário. Ele se viu desfazendo suas ações anteriores, viu a si mesmo olhando para o teto da engenharia e depois viu-se piscando os olhos e olhando o monitor a dois centímetros do nariz. Foi neste momento em que a mensagem deveria ter aparecido no painel.

- Pare! Quero um zoom total do monitor que agora está sendo mostrado nesta gravação.

A imagem foi ampliada e ele viu o monitor com clareza.

Não estava lá.

A mensagem que ele leu, não estava lá. Ele avançou e retrocedeu a gravação. Viu a si mesmo aproximando o rosto do monitor e piscar seus olhos, mas a mensagem que disparou tudo aquilo não estava lá.

Não estava na gravação.

Não estava na memória do monitor.

Não havia nenhum registro de qualquer coisa que pudesse ter ocorrido ali.

Ele não tinha provas.

Ele não tinha nada para justificar o que viu ou ocorreu.

Para todos os efeitos, aquilo não aconteceu. Ele não viu nada escrito em seu monitor. Não poderia ter visto. Talvez uma ilusão, uma peça pregada por sua mente um pouco estafada pela frustração que enfrentou quando suas sondas não identificaram absolutamente nada.

Só que ele não acreditava nisto.

- Preciso de uma folga – murmurou ele após alguns minutos.

- SENHOR D´ANGELIS, APRESENTE-SE A SALA DE REUNIÕES.

- A caminho! – respondeu ele soltando uma lufada de ar.

Na Sala de Reuniões da Atlantis, Deck 02, Quinze Minutos Depois...

- Fascinante... – murmurou Stek após os relatos iniciais sobre o que os pesquisadores da Atlantis tinham coletado sobre a esfera – e nenhum tipo de transmissão foi captado...

- Nenhum tipo que nossos sistemas sejam capazes de detectar – disse a Primeira-Oficial da Atlantis de forma quase automática, antecipando a possível pergunta dele.

- E estas luzes que ela alterna com freqüência não rítmica? No meu entender, me parece um tipo de comunicação.

- Como afirmei antes, nenhum de nossos sistemas foi capaz de detectar algum tipo de comunicação, mesmo uma visual. O objeto se mantém a uma distância extremamente cômoda para nós e para as normas militares da Frota. Sempre no limite do teleporte e sempre nos acompanhando, não efetuando absolutamente nenhum tipo de movimento ou atitude hostil.

Stek observou o tampo da mesa da sala e ficou meditativo por alguns instantes. Apesar de se sentir compelido a isto, não queria olhar para seu Primeiro-Oficial e lhe perguntar sua opinião. Quando vieram a bordo, a mente dele, antes fechada como sempre, ficou incrivelmente tempestuosa. Quase chegando a ser perturbadora para a sua e provavelmente a Melrik ali sentado com eles. Mas o que realmente o deixava atônito era a Imediato McKenna estar com uma tempestade igual rodeando a sua mente.

Isso foi apenas um momento rápido na sala de transportes, mas muito marcante.

Eles ainda estavam ligados? Desde que os conhecera fugazmente na nave T’Khasi, havia notado – e houvera alguém naquela nave que não fôra capaz de notar isso? – as estranhas ondas mentais que se propagavam de ambos. Ao fim do período em que Jevlack esteve por lá isso se desfez, e nada de anormal podia ser percebido vindo dele ou dela. Ele, contudo, permaneceu com uma escuridão psíquica para qualquer ser com capacidades telepáticas.

- Nossas ordens iniciais são para descobrirmos as intenções desta esfera alienígena sem a hostilizarmos.

- Nós a hostilizarmos? – Murmurou Joshua esboçando um meio sorriso cínico. – Sem querer ser pretensioso, capitão, mas essa esfera aí fora simplesmente está brincando conosco. Literalmente brincando de adivinhação.

- Realmente? – Stek ficou genuinamente interessado pelo que ouvira. Apesar de raramente ser capaz de compreender a incrível fluidez emotiva humana quando estes discorriam sobre algo, aprendera a identificar nuances úteis destas emoções em casos assim. E ele notava claramente que o senhor Benrubi estava frustrado com o objeto em questão. – Por que afirma isso?

- Posso tomar a palavra? – prontificou-se Melrik, percebendo que os dados técnicos que o capitão Stek estava interessado não seriam propriamente fornecidos na exposição de seu colega oficial.

- À vontade – disse Joshua voltando a olhar para a mesa e a entrelaçar os dedos das mãos sobre o tampo desta.

- Capitão, – Melrik assumiu um tom de voz típico vulcano, monótono e constante - a esfera conseguiu evadir-se de nossos sensores, mas não completamente. Alguns dados nossos sensores conseguem obter, mas outros, não. Por exemplo, sabemos que seu interior é oco, com alguns equipamentos neste, por outro lado, o mesmo sensor que identificou isso não consegue detectar outras áreas, no entanto, elas devem existir. Outro evento inesperado é a esfera alterar a luz emitida constantemente, mas sem aparentemente possuir meios de fazer isso. Ela nos acompanha e nos circula, como se esperasse algo, muito provavelmente algo de nós. Mesmo agora, ela assumiu uma órbita ao redor de ambas as naves, como se indicasse que somos o centro de sua atenção.

Diana olhou em volta do aposento destinado as reuniões oficiais como aquela, a mesa oval e negra com seus displays acessos emitindo uma luz laranja, as cadeiras confortáveis num tom vinho, a imensa parede transparente, mostrando o motivo daquela reunião, e seus oficiais e os oficiais de Stek. Depois do elo que compartilhara com seus amigos, a cúpula de sua nave, passara a sentir de forma mais clara algumas emoções deles, como sabia que acontecia com eles em relação a ela. Melrik sempre a alertara sobre sua sensibilidade latente, mas Diana nunca o levara a sério o suficiente para pensar sobre aquilo.

Sarah e Jevlack estavam sentados frente a frente e se comportavam como se fossem estranhos. Mas era palpável, era até gritante para ela o fato de eles estarem evitando olhar um para o outro, como se esse simples gesto arrebentasse as comportas de suas emoções represadas.

- Ela não ofereceu qualquer objeção as aproximações das sondas que enviamos, mas não conseguimos focalizá-la no nosso teletransporte. Pensamos em enviar uma nave auxiliar para que um tripulante pudesse analisá-la mais de perto mas...

- O quê, capitã O’Conell? – Stek indagou interessado.

- Ela aumentou a temperatura externa em 1000°C quando mencionamos isso.

Stek ergueu a sobrancelha.

-Capitã... está dizendo que... a esfera ouviu vocês mencionarem isto?

- Sim.

- Então... – Diana estava achando cômica a expressão velada de surpresa do capitão – ela... ela pode nos entender. Ela já fez contato!

- Não só isso, tal evento também indica que há alguma inteligência por trás da esfera. Talvez a própria esfera – complementou Melrik. – E também foi taxativa quanto a evitar uma aproximação mais direta de nossa parte.

- Ela não vai aceitar qualquer contato, senhores.

Todos olharam para o Primeiro-Oficial de Stek.

D’Angelis o achara um pouco estranho. Um pouco era educação sua, pois aqueles olhos vermelhos eram pra lá de esquisitos. Era alto, tão alto quanto o próprio Düff – que era o homem mais alto da nave – e aquelas eram as primeiras palavras que ouvira dele. Olhou para Joshua e sabia que algo não estava nada bem. Há algumas horas atrás seu amigo estava radiante, estado que se apresentava desde que começara a namorar Sarah. Ele e Diana tinham ficado felizes por eles, afinal eram seus amigos e haviam partilhado juntos muitas dificuldades e alegrias. Mas... não estava entendendo aquele olhar de raiva contida do israelense, que só ele e talvez Sarah e Diana conheciam bem.

- O que sugere que façamos então, sr. Jevlack? – Stek animou-se a interpelá-lo.

- Nada ainda, sr. A esfera tem tomado todas as iniciativas até aqui. Não vejo porque não possamos esperar que ela dê também esse próximo passo. Não teria vindo até aqui apenas para nos mostrar a língua e correr.

Sarah apoiou o dedo indicador entre as sobrancelhas por um segundo e depois descruzou as pernas, levantando-se.

Düff sabia que ela queria ter dado uma boa risada, e ele também, mas era muito provável que o capitão Stek não apreciasse isso.

Ela foi até a ponta da mesa e trouxe uma pequena caixa de 10 cm² que colocou na frente de Diana.

- A esfera nos enviou isso.

- Enviou?

- É – D’Angelis ajudou. – Ela cuspiu isso pra nós antes de eu alcançar o turboelevador para vir para a esta reunião.

- Cuspiu? – Stek erguia ambas as sobrancelhas, avaliando a distância em que a esfera se encontrava e o tempo que o oficial levaria da engenharia até o turboelevador. Logicamente, tinha que considerar ele ser informado disto, ir averiguar o que seria, obter alguma informação adicional e...

Aquilo não fazia sentido.

- Pode discorrer um pouco mais sobre este evento peculiar? – Stek assumiu uma postura mais expressiva no rosto. Estava genuinamente curioso.

- Eu comecei a ir ao turboelevador quando meus auxiliares me chamaram, dizendo que as sondas que enviei para estudar a esfera retornaram. Confesso que fiquei aturdido com isto, pois estas sondas não são tão rápidas assim. Fui averiguar e lá estavam elas, dentro da engenharia e com esta... – ele apontou para a caixa – coisa em um compartimento de uma delas. Na verdade, a sonda veio para mim e abriu o seu compartimento sem ninguém, ao menos dentro desta nave, a controlar. Esta caixa caiu dela nas minhas mãos. Fiz uma pequena analise inicial do conteúdo e vim direto para cá.

- A esfera controlou os nossos equipamentos?

Diana também se voltou para D´Angelis, surpresa com aquilo. Tinha ouvido comentários de que coisas similares ocorreram com outras naves da Frota, na região próxima a proibitiva Base Antares.

- Considerando as evidências, eu diria que sim.

Diana tirou de dentro da caixa uma pequena amálgama de metal, pelo menos era isso que parecia, e a observou contra a luz, intrigada. Esta, para sua surpresa, amoleceu e se moldou ao seu dedo, passando do cinza para a cor de sua pele.

- É totalmente asséptico, sem qualquer traço de elementos químicos detectáveis apesar de sua aparência. Não conseguimos detectar sua formação molecular, mas também não tivemos tempo para isso.

- Por que não deixaram uma amostra na bioquímica, sr. D’Angelis?

Este olhou para Sarah.

- Ela não se divide, capitã.

Jevlack suspirou. Então ele e Sarah se encararam.

Você é que sabe...

Você confia neles.

Muito. São como irmãos.

Você anda cometendo incesto, então...

Sarah teve vontade de rir. Ele conseguia ser cínico nos momentos mais absurdos.

Jevlack esticou a mão e o montinho sobre o dedo de Diana escorreu para a mesa. Todos olharam fascinados o objeto deslizar suavemente até a mão estendida dele e, para surpresa até deles mesmos, ficar indeciso entre Jevlack e Sarah, para finalmente se dividir e grudar uma parte na mão dele e outra na dela.

- Bem, - Stek cortou o fascinamento de todos. – Creio que agora os senhores possuem sua amostra para a bioquímica.

Stek olhou novamente para os dois, cada qual com uma pequena parte do enigmático objeto em suas mãos. E naquele instante teve muitas certezas sobre o que estava ocorrendo ali. Fosse o que fosse, estava relacionado a eles. Stek sabia sobre Jevlack, e de como Sarah o ajudou a se controlar. Sabia que eles ficaram ligados e seu Primeiro-Oficial não demonstrara nenhuma surpresa ou interesse sobre a esfera, apenas fazendo comentários... diretos, mas não muito elucidativos.

Diana suspirou com um sorriso. – Então nos reunimos amanhã no mesmo horário para discutirmos os resultados das análises e ponderarmos uma ação mais precisa. Capitão Stek, eu o acompanho até seus alojamentos. Faço questão que fiquem conosco até que resolvamos esse assunto.

- Será muito cômodo, capitã, eu agradeço.

- McKenna, acompanhe o sr. Jevlack até seus alojamentos. Benrubi, D’Angelis, levem essas amostras para os laboratórios de bioquímica e metais.

- Sim, capitã.

- Imediato, – chamou Stek o observando com interesse – gostaria de falar contigo... – ele olha levemente para Sarah – amanhã cedo.

- Sim senhor. E... – ele sorriu levemente – obrigado.

Stek ficou inalterado, mas Sarah percebeu ele sorrir intimamente. Pelo jeito, ele e Jevlack eram amigos.

Todos se puseram de pé. D’Angelis, sentado do lado de Sarah, não tirava os olhos da amostra.

- Será que ela vai deixar eu pegar nela, Sarah?

Sarah olhou para ele e sorriu como se ele tivesse 10 anos. – Creio que sim, Jordan. Por que acha que a amostra vai se comportar como um cachorrinho mimado?

- Ora, porque ela é uma amostra mimada, já que é um pedacinho daquela esfera engraçadinha.

Sarah ainda o fitava, captando a mensagem que ele ouvira instantes atrás. – Por que não disse o que aconteceu com você na reunião?

- Quem é que ia acreditar em mim?

- Eu acreditaria, sr. D’Angelis.

Os dois se voltaram para ele. Por trás de Sarah ele parecia querer tragá-la, mas depois de um segundo percebeu que aquilo era apenas imaginação sua.

- Pegue, tenho certeza que agora elas vão ser cooperativas, mas não espere conseguir muitos resultados disso.

Eles saíram e se encaminharam para o turboelevador. Diana já havia ido na frente com a engenheira de Stek e este, Düff tinha descido com Melrik para a Enfermaria e, ali no corredor, apenas Joshua esperava por eles.

Os quatro entraram no turboelevador e um silêncio esquisito se fez. Joshua permanecia de olhos fechados, como se estivesse concentrado na reunião. Jordan por sua vez achava estranho seu amigo não fazer nenhum comentário a respeito. Era como se Joshua quisesse ficar um tempo apenas com seus pensamentos. Coisa rara, aliás.

Os conveses passavam pela janela de observação destes até que chegaram ao dos laboratórios.

A porta se abriu, D’Angelis saiu e olhou para Benrubi, que encarou Jevlack por um momento para depois acompanhá-lo.

A porta se fechou e o turbolelevador desceu até o deck dez.

- Ele parece estar interessado em falar comigo.

Ela não se virou para ele.

- Não é uma boa idéia.

- Tem medo que eu bata nele?

Ela balançou a cabeça e finalmente sorriu. – Claro que não. Você é um cavalheiro, mas também é imprevisível.

- Tudo bem, eu deixo ele me bater. Mas vai ficar com as mãos doendo...

Sarah balançou a cabeça dando uma risada silenciosa e breve.

Ele sorriu também e seguiram pelo corredor amplo de linhas sóbrias e elegantes. Era realmente uma nave impressionante, bem maior que a sua, que era da classe Excelsior. Quando chegaram, Jevlack admirou suas linhas elegantes que disfarçavam bem sua capacidade de manobra e combate; era uma nave com grande capacidade de produção de energia devido aos seus novos motores experimentais, mesclado a tecnologia já em uso. Tinha uma grande tripulação: 800 pessoas! Era uma das primeiras a experimentar o programa de integração de famílias. Aquilo deveria ser bem estranho, com certeza.

Ele conhecia bem não só a planta da Atlantis, mas a visão de cada um de seus decks e corredores, claro, graças a Sarah, que os conhecia como ninguém mais ali. Sentia como se tivesse trabalhado ali durante aqueles 6 anos. Parou na frente do alojamento dela e sorriu, entrando.

Sarah moveu a cabeça imperceptivelmente e entrou atrás dele.

Ele olhava a estante à direita com uma das mãos apoiada nela. Mexeu na gaita de fole, que Sarah adorava, e se dirigiu para o sofá confortável cinza escuro junto a escotilha.

Ela foi até o processador de alimentos e sorriu quando ele passou por ela e prosseguiu para o anexo onde ficava a cama larga e confortável.

- Cozinha, a surpresa Sernick via replicador.

- ENTENDIDO, COMANDANTE.

Três minutos depois o processador materializou um copo com o pedido que fôra preparado na cozinha dos oficiais.

Jevlack voltou, já sem o casaco do uniforme e sem a camisa, usando apenas as calças pretas razoavelmente folgadas, mas que não deixavam de evidenciar seu quadril proporcional ao tórax musculoso e as pernas fortes e rijas.

Sarah entreabriu os lábios ao olhá-lo com pouca cerimônia. Ele olhou para o copo longo e translúcido que ela estendia para ele.

- Sarah, eu não acredito...

Ela sorriu. – Antes do novo cozinheiro embarcar dei a ele uma pequena missão de pesquisa. Veja se ele foi eficiente.

Ela sabia o gosto pela memória dele. Provara os que Françoise preparara para testar, até que tivesse ficado próximo do que tinha de memória, mas sabia que sabores são coisas que mudam com o tempo e por ação dos replicadores. Mas pelo menos agora sabia como fazê-lo artesanalmente. Dava trabalho, mas era possível ser feito de novo.

Ele segurou a mão dela e provou o líquido branco e gelado.

- Não acredito, ficou perfeito! – tomou mais um gole e a puxou para junto dele. – Como escondeu isso de mim?

- Só não fiquei pensando sobre isso – ela segurou o copo quase vazio e ele a pôs no colo.

- Não quero nenhuma desculpa sobre regras ou o que é de bom tom – a boca dele buscou a dela, seus rostos deslizando um no outro com ansiedade. Abraçou-a muito forte e foi abraçado por ela com a mesma ternura e paixão. – Vou ficar aqui neste alojamento. Não tenho satisfações a dar pra ninguém, nem você.

Ela sorriu levemente. – Como se eu pudesse negar algo a você...

- Mentirosa... – e a beijou, carregando-a para a cama.

- Preciso voltar ao trabalho... – ela murmurou com pouca convicção, enquanto ele tirava sua roupa.

- Precisa é? Desculpe, agora não vai dar – e não havia nada além de autoridade no tom de sua voz, expressando que a queria naquele momento e seu desejo guardado durante muito tempo estava acima de qualquer contestação. – A não ser, claro, que você queira esperar.

Ela o olhou com uma certa tristeza. Mesmo agora, mesmo com todo o seu desejo, ele deixava ela decidir. Ainda estava com Joshua na sua mente, mas não era mais como antes. Não era. Apertou os lábios e sorriu levemente.

- Não se atreva! – murmurou ela começando a rir.

Com delicadeza, ele levou suas mãos até os seus seios, e desceu um pouco para a base destes. Ele tinha uma vantagem excepcional sobre qualquer outro amante que ela tivera antes. Sabia exatamente onde tocá-la.

Mas tal coisa não era exclusividade dele. Enquanto ele iniciava a exploração de suas zonas erógenas, ela fazia o mesmo com ele. Impressionante como alguém com tantas próteses no corpo podia tê-las. Mas ele tinha.

Claro, o termo próteses, como pouquíssimas pessoas descobriram, não se aplicava realmente a todos os dispositivos que ele carregava no corpo.

****

Ele dedilhava levemente a borda lisa e perfeita do copo, enquanto aguardava que o calor que subia pelo seu esôfago se acalmasse. Talvez tivesse sido melhor usar os indutores de sono, ou então ficar avaliando e reavaliando os dados da segurança. Pelo menos manteria sua mente longe de seu tormento.

Menos de vinte e quatro horas antes, ele achava que sua vida tinha finalmente alcançado um estágio em que podia se dizer satisfeito. Sua filha estava consigo, estava fazendo o que gostava de fazer, e estava se relacionando com uma mulher que amava.

E, em poucas palavras, esta mesma mulher lhe deu uma bofetada épica!

Já tinha levado foras antes. Já tinha sido usado antes. Não devia ser novidade para ele, não devia. Deveria ficar irritado por alguns dias até se adaptar a nova situação, como já tinha ocorrido antes.

Só que, desta vez, não era tão simples.

Ele sentia, acreditava que Sarah não o usou propriamente como outras mulheres o fizeram quando ele era mais inexperiente. Não foi um brinquedinho nas mãos dela, muito menos um corpo quente para atenuar seus instintos básicos de fêmea solitária.

Do começo ao fim, ela o respeitou. Mesmo quando acabou com a relação entre eles, ainda assim ela o respeitou.

No entanto... não foi sincera!

Podia ter avisado antes... ter avisado que tinha outra pessoa. Uma pessoa a quem realmente gostasse mais que ele. Tinha murmurado o nome desta pessoa antes durante o sono, e ele foi imbecil o suficiente para não questioná-la sobre isso.

Com toda certeza, ela teria lhe contado o suficiente para ele não estar tão atordoado agora.

Bom, talvez ela tenha errado, ou julgado incorretamente as circunstâncias como ela mesma diria. De qualquer forma, ela acabou com tudo de forma fria, direta, e aparentemente sem volta.

Como um vulcano faria.

- Posso me sentar?

Joshua ergueu os olhos para a dona da voz, ainda mantendo a expressão de apatia e desinteresse. O salão estava praticamente vazio exceto por quatro ou cinco alferes tomando o seu café da manhã do turno da noite. Ele devia estar em seu alojamento descansando um pouco, ou no alojamento de Sarah se confortando. Mas agora que não tinha mais Sarah com ele, voltar para sua... casa não era assim muito chamativo. Apenas verificou se Rebecca tinha ido dormir e decidiu beber um pouco.

Não queria sintetizar uma bebida em seu alojamento e Rebecca descobrir isso pela manhã.

- Você não dorme não? – murmurou ele sem educação e sem interesse em lhe responder.

- Sou a conselheira da nave, e embora vocês me detestem e eu deteste esta nave, meu lado profissional sempre fala mais alto. Você está com problemas sérios e isso pode afetar suas decisões...

- Vá a merda, Gina – cortou ele de uma forma que o próprio desconhecia. – Não venha com essa hipocrisia vulcana para cima de mim.

Ela se sentou diante dele – ignorando que ele aparentemente não queria que ela fizesse isso – e o olhou curiosa. Segundos depois ele apertou os lábios e ingeriu metade do líquido, fazendo o copo bater na mesa em seguida.

- Hipocrisia vulcana... – murmurou ela levemente e com um certo sorriso. – Ora, ora... uma briguinha simples de casal? – ela sorriu mais abertamente depois disto. – Eu esperava algo mais drástico, como Rebecca odiar ela, ou ter te dado um ultimado neste estilo. Joshua...

- Gina, – ele espalmou as mãos sobre a mesa, mantendo o copo entre elas – não quero falar sobre isso.

- Não quer? Lamento, senhor Benrubi, mas não posso lhe dar o privilégio de escolher sobre isso. O senhor está ingerindo uma bebida alcoólica não feita com sintetol, o que por si só, já indica que...

- Muito bem, – ele desabafou de vez – quer saber? Sarah me deu o fora, e tudo porque esse tal de Jevlack estava vindo para cá. Satisfeita? Agora, por favor, pare de imitar o jeito dela falar.

Gina ficou muda. Esperava uma briguinha meio boba de casal, talvez até uma discussão mais séria. Mas aquilo foi um evento totalmente além do que tinha se preparado. Na verdade, era de certa forma similar ao que houve com ele e sua esposa, com a diferença de que nesta ocasião foi ele quem a largou.

- Joshua... – sua voz agora era mais compreensiva – eu... eu lamento. Eu...

- Deve estar feliz, não? – cortou ele.

- Nem um pouco. Porque ficaria? Posso não gostar dela, mas isso não quer dizer que eu seja uma sádica que gosta quando os outros estão na pior.

- Devia pensar a respeito...

- Joshua, querendo ou não, eu sou a conselheira desta nave, e minha função é cuidar tanto dos civis quando dos oficiais. No momento estamos com hóspedes muito graduados de outra nave aqui, e com certeza a capitã não vai gostar de saber que um de seus principais oficiais encheu a cara.

- Não se preocupe. Eu pedi outra cerveja romulana para Françoise, mas ele me recusou...

- E com razão – ela estava pasma com a revelação dele. – Joshua... eu... muito bem – ela se empertigou. – Não vou incomodá-lo mais, mas espero que seja ao menos prudente para limitar o quanto vai beber.

Ela se levantou e saiu da área de recreação. Logo esta estaria mais cheia de civis, pois a noite falsamente simulada iria começar. Sabia que a capitã a chamaria pela manhã para indagar sobre o assunto. Nem Joshua poderia beber tanto sem sentir algum impacto em suas funções. E, ao menos desta vez, ela tinha um bom argumento para cutucar aquele clubezinho de oficiais.

****

A penumbra, a temperatura do alojamento, o cheiro dos lençóis, tudo ali era reconfortante para ele. Estava se sentindo em casa. Sabia que se sentia assim porque a tinha nos braços naquele momento tão esperado, bem quieta, com preguiça de levantar. O pé esquerdo dela se mexia lentamente sobre a perna esquerda dele, como a cauda de um felino grande o faria.

Em resposta, ele a apertou mais para si de forma gentil, cuidando levianamente em espalmar suas mãos em seus seios no processo. A vulcana apenas sorriu de forma a evitar um riso inesperado e se remexeu um pouco, para facilitar o trabalho de ficarem mais colados.

- Gostei do seu capitão – murmurou ela. – Parece que você considera seres vulcanos como mais fáceis de se fazer amizade...

- Porque será? – ele abriu a boca e a fez gemer quando roçou seus dentes em suas orelhas pontudas. Sarah sentiu vários arrepios de prazer durante a investida dele, chegando mesmo a parar de pensar na sua linha de raciocínio. – Afinal, não fui... adotado, por aquela sogra toda poderosa?

Sarah soltou uma risada divertida. Ele quase sempre se referia a sua mãe como sogra. Ela não se incomodaria muito, se não soubesse da tradição humana de considerar sogras como males necessários.

- Não importa o que você e ela digam, vocês se respeitam muito. Na verdade, – ela se virou ainda em seus braços para ficar frente a frente com ele – você é uma das poucas pessoas a quem ela ouve com atenção.

- Sou? - ele sorriu e a prensou em um beijo potente, quase a impedindo de respirar. Sabendo que sua força vulcana era inútil, ela preferiu apertá-lo mais ainda para si, em uma confirmação de que estava plenamente satisfeita ali.

- Sim, você é – respondeu ela assim que conseguiu ser novamente apresentada ao ar do quarto. – Você pertence a uma raça que é claramente superior a todas as outras que conhecemos, e o que decide fazer? Viver como um humano. Ela se sentiu ofendida, mas depois percebeu que você escolheu uma forma de vida que um vulcano raramente poderia abraçar. E mesmo assim você consegue ser altamente lógico desta forma.

Ele não disse nada. Apenas a abraçou mais uma vez e começou a prepará-la para um segundo tempo, avançando com sua mão suavemente até a sua barriga, acariciando-a gentilmente e indo mais além desta, fazendo-a morder o lábio inferior pela antecipação. Sarah, não querendo ser a amante paciente e submissa, levou suas mãos para a espinha dele, dedilhando-a suavemente para cima e para baixo, enquanto ele gentilmente a tocava demonstrando novamente uma grande perícia.

Mas era uma ilusão. Como já tinha comprovado antes, ele sabia exatamente onde tocá-la. Mas ela também sabia. Movendo a cabeça, foi direto a sua orelha esquerda e começou a passar a língua nos sulcos desta, ora mordiscando, ora chegando a morder com mais força. A resposta dele foi muito rápida. De uma vez só ele se virou e a deixou por cima, torcendo os braços e a segurando firmemente pelos cotovelos. Meio espantada, Sarah percebeu que estava com os braços imobilizados e sendo segura a poucos milímetros de ficar encaixada nele e sendo observada com um sorriso maroto.

- Está esperando um convite? - Murmurou ela sorrindo.

Ela sentiu ser penetrada logo depois, recebendo uma onda de prazer que percorreu todo o seu corpo. Fôra a primeira vez em que não teve nenhuma participação direta ou indireta, ficando apenas indefesa no momento do ato. Logo depois ela sentiu que ele a libertara e puxara para si, a beijando loucamente enquanto seus corpos dançavam freneticamente na cama. Aquilo era o equivalente a umas dez sessões de treino de luta pessoal.

Cerca de meia hora depois, eles novamente estavam tranqüilos, com Sarah sorrindo levemente e com ele acariciando seus cabelos. Mas agora ela pensava em outra coisa. Já estava bem satisfeita sexualmente para deixar sua mente vagar pela rotina de recapitular os eventos do dia. E, entre estes, estava a esfera, a enigmática esfera que falou com ela, que aguardou Jevlack chegar e que ainda não tinha se prontificado a tomar uma iniciativa.

- Ela espera que você lhe dê um sinal.

Ele continuou acariciando seus cabelos. Sentia-se em paz. Esquecera por um momento suas dúvidas a respeito de quem ou o que enviara a esfera, da Frota, de tudo.

- Só posso fazer um contato telepático direto através de você, amor.

- Ela sabe disso.

- Eu sei, e é isso que me incomoda. Ela pode falar contigo, mas não quis dar nenhum detalhe sobre suas intenções. Acha que ela é do meu povo?

- Difícil responder. Pode ser que sim, mas não há muita evidência disto. Pode ter sido enviada por este para fazer contato com você e, percebendo que minha mente está ligada a sua, me procurou primeiro, sabendo que iria contatá-lo.

- Mesmo? – ele cruzou os braços e a olhou divertido. – Ela não disse que veio por sua causa?

- Foi... – ela fechou os olhos e deu um sorriso amarelo, como se tivesse sido pega em alguma falta. – Mas confesso que não sei o que significa.

- Eu também não imagino. Será que veio trazer peças sobressalentes para mim? Não vejo o porque... estes componentes parecem que se regeneram sozinhos. Na verdade... não estou disposto a pensar sobre isso agora.

- Então vamos pensar nisso depois.

Ela sorriu e se levantou, mas ele a segurou pelo antebraço.

- Não, senhor, e ponha-se de pé também. Vou te mostrar algumas coisinhas que temos na Atlantis, inclusive o holodeck de D’Grandio.

- Outro holodeck? – ele sorriu, maroto.

- Esse apresenta diversas melhorias com relação ao que você conheceu – disse ela fingindo não tê-lo entendido.

- Entre elas? – questionou ele a observando com um sorriso.

- O fato de que estarei junto de você novamente. E só nós dois...

- Com certeza aprecio mais esta cama – e puxou-a para o colo dele. Ela o encarou apertando os olhos e depois ergueu a sobrancelha esquerda. – Está bem! Vamos saber de uma vez por todas o que ela está fazendo aqui. Depois esperamos nossas naves tirarem suas conclusões ou diremos o que descobrirmos aos nossos capitães. Ou nada disso.

- Ou as duas coisas.

Ele a abraçou pela cintura e mordiscou seu pescoço, fazendo-a se contorcer de prazer.

- O que você quiser, desde que isso não nos atrapalhe...!

- Janus! – ela gritou numa risada.

****

Dycon olhava irritado e mudo a movimentação no salão de recreação dos civis, a garrafa de whiskey quase vazia sobre a mesa.

Estava naquela nave há duas semanas, no fim do mundo, porque sua esposa agarrara com unhas e dentes a oportunidade de servir ali depois que o outro oficial de catalogação de dados geológicos havia desistido por causa de sua família, que não agüentara a pressão de viver em uma nave militar de normas tão rígidas quanto aquela.

E por acaso ele agüentaria?!

Eles eram um casal jovem, casados a menos de 7 meses. Ele sempre fôra fazendeiro, criava gado leiteiro e fabricava queijos em Marte e sua esposa era recém formada da Academia da Frota. Pensava que ela se contentaria em morar em Marte, talvez, quem sabe, ir para uma daquelas novas colônias onde ela pudesse ficar se divertindo com suas pedrinhas e ele formar uma nova fazenda...

Mas, não... Ela se entusiasmara com a indicação de seu professor de academia, um tal de capitão... capitão Rancer...!

Nossa, sua cabeça estava rodando!

O homem a sua frente, na outra mesa, o encarava do alto daquele uniforme empertigado. Detestava aqueles oficiais de comando. Estavam sempre proibindo eles de fazerem tudo; não podiam isso, não podiam aquilo, parecia que estavam numa maldita prisão!

- O que você está olhando?

Soltou meio sem querer, mas com um tom bastante desafiador.

Joshua continuou encarando-o como se ele não existisse. Tomara uma cerveja romulana no refeitório dos oficiais, cerveja esta do estoque coletivo da cúpula, que tinham para as ocasiões de relaxamento, e cujo guardião nomeado por eles, Françoise, o fitara um pouco surpreso pelo pedido solitário, principalmente porque que eles apreciavam beber juntos, ele, McKenna, Düff, D’Angelis, enquanto geralmente Diana e Melrik ficavam jogando xadrez, pois ambos não apreciavam partilhar o hábito etílico de seus outros amigos.

Mas Françoise, ocupado com o preparo de uma bebida branca na cozinha solicitada via replicador, o atendera. Atendera porque Joshua, afinal de contas, era o 3º em comando e nunca, pelo menos até ali, tinha se excedido quando bebera.

Então o israelense se sentara sozinho numa das mesas e tomara sua cerveja. E quando pedira outra, Françoise finalmente se manifestou, negando-lhe o pedido: duas cervejas romulanas para uma só pessoa? Meu Deus, ele queria ficar de cama no outro dia?

Joshua não replicara. Simplesmente havia se levantado e ido embora.

E agora estava ali, na sua sexta vodka, olhando outro homem de cara amarrada esvaziar uma garrafa de whiskey sozinho. Que egoísta...

- Oh, oficial...! – Dycon se levantou com o copo na mão. – Estou falando com você! Acha que pode simplesmente me ignorar como faz com todos nós aqui?! – e apontou com a mão que segurava o copo para os lados, a voz saindo lenta e grogue pela língua pesada e sem forças para articular as palavras confusas que se embaralhavam em sua mente.

Aquele já era o terceiro turno. Não havia crianças naquele horário circulando pela área de recreação e os adultos presentes, que eram poucos, estavam um pouco apreensivos com aquela situação.

A bebida alcoólica sem sintetol não era proibida para os civis, mas ninguém ousava ir além da conta, pois haviam sido severamente advertidos, no primeiro dia que puseram os pés naquela nave, que excessos que levassem a causar problemas não seriam tolerados: O civil será transferido para seu local de origem e o oficial parente não poderá pedir transferência e só poderá dar baixa via corte marcial. Estamos todos entendidos?, e ela erguera sua sobrancelha parecendo estar feliz em se desagradável com eles.

Benrubi olhou Dycon ausente. Não estava interessado em conversar, discutir, trocar informações. Não queria abrir a boca, só queria ouvir um pouco de barulho de gente comum que um lugar com civis costuma ter, para abafar o silêncio amargo que sentia.

O que poderia dizer para ela? Será que deveria ter esperneado, insistido, argumentado? Adiantaria?

Não tinha certeza. Não sabia agora o que fazer. Estava dilacerado, mas também estava confuso. Confuso com a decisão dela, confuso com seus próprios sentimentos. Na teoria deveria estar sentindo raiva e ciúme. Na prática sentia apenas dor. E essa sensação o deixava entorpecido, não tinha uma linha clara de raciocínio sobre o que deveria fazer.

Dycon pôs seu copo com força em cima da mesa de Benrubi, fazendo um pouco do whiskey espirrar para cima.

Joshua passou a mão no rosto e o encarou. O que esse idiota quer?

- Está me encarando há um tempão, seu oficialzinho de merda! Acha que tenho medo de você?!

Joshua levantou e começou a dar as costas para Dycon, com a clara intenção de ir embora. Este o segurou pelo ombro do uniforme, puxando-o de volta.

A reação foi automática: Benrubi segurou a mão do homem e a torceu no sentido contrário à articulação do cotovelo, mas não contava que aquele homem grande e rústico tivesse outra reação. Dycon sentiu a dor no seu braço, mas, menos embriagado, golpeou o estômago de Joshua com a outra mão. Os dois caíram no chão juntos, em socos furiosos.

As pessoas em volta se afastaram num gesto coordenado, e um dos oficiais que estava ali de folga tomou imediatamente as medidas necessárias.

****

- TENENTE MIOX PARA COMANDANTE McKENNA!

Sarah abriu os olhos parando e contendo um gemido arrebatado, mas Jevlack continuou a beijá-la e ela se perdeu por um momento no prazer que ele estava dando a ela.

- IMEDIATO McKENNA, DESCULPE-ME, MAS É URGENTE! – o segundo oficial de segurança parecia bem nervoso. – HÁ UMA BRIGA ENTRE UM CIVIL E UM OFICIAL NO SALÃO DE RECREAÇÃO DOS CIVIS, SRA!

Sarah suspirou e procurou no chão o casaco de seu uniforme, tocando o comunicador insígnia. – Mande os seguranças para acabar com isso e chame o sr. Benrubi para tomar as providências, sr. Miox.

Miox fez um silêncio breve, mas estranho. – O OFICIAL É O SR. BENRUBI, IMEDIATO McKENNA.

Sarah fechou os olhos por um momento e trincou os dentes. – A caminho.

Saiu do colo de Jevlack, que acompanhara a comunicação com interesse. Ela vestiu a roupa íntima, preta e de renda, e ele não pôde deixar de dar um breve sorriso ao vê-la sensual e linda, mas com a cara fechada, furiosa.

- Acho que não devia ir...

- O que você faria se fosse o oficial de segurança da sua nave que estivesse envolvido em uma briga com um civil? – retrucou ela, começando a abotoar a camisa.

- Antes ou depois de separar a briga?

- Durante!

- Ai, ai... Eu vou com você – disse vestindo-se também.

Ela apenas assentiu, terminando de calçar as botas e juntando o casaco.

****

O salão de recreação dos civis, no deck 14, tinha uma entrada bastante ampla, parecendo não haver um corredor específico naquele lugar.

No salão de recreação os dois continuavam a trocar socos indiscriminadamente, sendo cercados por uma roda formada pelos que ali estavam quando a briga começou e por mais alguns curiosos que foram atraídos pelo som de confusão. Fora do salão, uma visitante estava encostada na porta de entrada com os braços cruzados, observando aquilo com interesse. O corredor estava vazio e esta mesma visitante olhava para os lados esboçando uma cara um tanto irritada. Então era assim uma nave com civis a bordo? A segurança normal desta não poderia apartar a briga? Será que tinham seguranças específicos para cuidar das coisas não militares da nave?

Súbito, no corredor apareceram dois oficiais vindos do turbo elevador que se abrira para dar passagem a uma mulher que mais parecia um banshee e seu acompanhante. Reconheceu ambos imediatamente. Ambos Imediatos de naves estelares, sendo que um destes conhecia muito bem.

- Oi Jev... – murmurou ela assim que os dois pararam ao lado da engenheira chefe da USS Thunderbold – parece que aqui também os problemas o perseguem...

- Pensei que tinha voltado para a nave, Jeena.

- Decidi visitar a engenharia da nave. Fiquei bem impressionada. Me deu muitas idéias...

A Imediato da Atlantis havia suspirado e entrado no salão propriamente dito, deixando para Jevlack a tarefa de não deixar uma má impressão da disciplina de sua nave se espalhar via cochichos pelas outras naves da Frota.

Miox, mais próximo da entrada, foi o primeiro dos oficiais da Atlantis a vê-la e a realmente sentir medo. Sempre tivera medo dela, na verdade, mas naquele momento ela parecia estar verdadeiramente furiosa.

- Quero ver você convencer Stek a alterar o motor da nave – dizia Jevlack tentando inutilmente tirara a atenção de sua amiga de dentro da sala. – O que veio fazer aqui?

- Beber, oras. Talvez encontrar uma companhia amigável... quem sabe? Mas não esperava ver um típico bar de Tenebra por aqui.

- Um dia ruim, só isso.

Sarah passara por Miox, que não pôde esboçar nenhum comentário.

Jevlack e Jeena observaram McKenna atravessar a roda de curiosos e logo em seguida os sons de luta cessaram.

Nesse mesmo instante a alferes Madalen, esposa de Dycon, chegou correndo e estacou ao lado de Miox quando Sarah se voltou para ela, os olhos parecendo derreter qualquer coisa que vivesse.

- Sra...

- Retire-se daqui imediatamente, alferes Wilkins.

A pobre moça olhou para o marido desconsolada, mas apenas deu meia volta e foi embora. Logo depois, ouviram ela dar um senhor sermão no tenente Miox e nos alferes de segurança - que ainda pareciam bastante desconfortáveis com a situação de terem que prender seu comandante direto – por haverem deixado a situação se arrastar por tanto tempo. As pessoas da sala começaram a sair, passando por eles e seguindo seu caminho. Os poucos oficiais da nave chegaram a ficar desconfortáveis quando os viram ali. Afinal, eles eram dois oficiais comandantes de uma nave de pesquisas que estavam ali como convidados. Qualquer comentário deles poderia facilmente causar uma mancha incômoda na nave – e carreiras – deles.

Por fim, apenas Sarah e dois corpos desacordados permaneciam no recinto, sendo que Sarah observava um destes corpos e meneava levemente a cabeça. Jeena imaginou que ela deveria ter usado o toque vulcano em ambos.

- Ela não é a Imediato desta nave?

- Jeena, não comece. Vai passar a noite aqui?

- Pensei a respeito, mas me sinto mal em deixar minha criança nas mãos de outros. Acho que vou dar mais umas voltas por ai e depois eu retorno. Quero experimentar algumas de nossas sondas nesta esfera. Aliás... – ela o olhou com uma expressão bem curiosa – eu vi umas crianças observando a esfera por uma das vigias e elas ficavam falando para esta mudar de cor. E ela atendia! Incrível, não?

- Bastante – murmurou ele visivelmente perplexo. – Bom, acho que vou dar uma mão para a minha colega. Nos falamos depois.

Jevlack entrou na sala e pegou um dos desacordados facilmente e o pôs no ombro. Logo em seguida, a Imediato da Atlantis fez o mesmo com o outro. Jeena observou a cena por mais alguns instantes e se afastou de lá, sorrindo.

- Sr. Miox, - ele a olhou da saída, apreensivo – quero seu relatório com recomendações em 45 minutos.

-... Sim, sra.

Ele estava tentando extravasar sua raiva e sua dor

Ele é um dos comandantes desta nave. Não quero saber quais são seus problemas pessoais. Seu comportamento é injustificável.

Ele fechou um olho e olhou de lado para ela. Ela não conversou mentalmente com ele, mas gritou mesmo. Estava muito irritada com o evento. Com toda certeza por Joshua estar envolvido. Se não fosse por isso, talvez nem desse atenção ao assunto. Brigas em naves não eram rotineiras, mas não era um evento assim raro. Normalmente haviam discussões entre tripulantes sobre os mais diversos assuntos. Raramente passava de conversa mais dura. Algumas vezes um ou outro que tinha bebido demais acabava agindo de forma mais física.

No entanto, normalmente quem estava próximo apartava a briga. Claro que naquela nave havia uma diferença. Foi um civil contra um oficial. Era o bastante para dar um belo sermão em que ficou apenas assistindo.

Mas ela evidentemente queria mais que isso. Não só por questões disciplinares. Não... Uma falha daquelas também era uma falha dela. Ela se considerava pessoalmente responsável pelos eventos, pois avaliava que fôra uma falta de suas diretrizes, ou uma falha sua ao implementá-las que permitiu isso.

Jevlack achava que ela era muito dura com todos eles. Não que ele fosse diferente no trabalho com relação às responsabilidades que exigia de seus comandados, mas ela por vezes não tinha compaixão consigo mesma também.

Eles entraram no turboelevador pedindo o deck da Enfermaria.

- Repasse isso para O’Conell, Sarah. Você, por princípio, não é imparcial nisso.

- Está me culpando por ele ter perdido o controle?

- Estou, porque a culpa é sua – ele a encarou com seriedade, mas sem sentimentalismos.

A porta do turboelevador se abriu no deck 10. Ela se calou por um momento.

- Não posso. É minha obrigação.

- Sua obrigação também é aprender com os eventos de forma a evitar que se repitam – murmurou ele lentamente.

- É o que pretendo fazer – tornou ela meio rude. Quem a visse não acreditaria nela demonstrando emoções daquele jeito. Mas se houvesse mais alguém ali, ela não o faria.

Jevlack entendia sua capacidade quase insana de assumir responsabilidades. Mas aquele era um momento de ser prática e não havia motivo para deixar que ela fosse cruel com eles.

Como sabia que ela seria.

- Dê-lhes apenas uma boa reprimenda verbal então.

Eles deixaram os dois aos cuidados de Carlos Martins, o médico daquele turno, pois Düff estava no refeitório dos oficiais, e foram embora.

Cerca de dez minutos depois, retornavam ao alojamento dela e se sentaram no sofá perto da escotilha. Sarah suspirou e Jevlack a pôs deitada com a cabeça em seu colo. Ela suspirou de novo. - Claro que tomarei as medidas necessárias, nem mais, nem menos.

Ele sorriu, sabendo que ela estava uma fera não só por causa de Joshua, mas porque eles haviam sido interrompidos.

- Estou com fome. Acho que temos cerca de 40 minutos antes que o pobre sr. Miox venha trazer seu relatório.

Ela sorriu. – Serei mais boa do que vocês pensam. E faltam na verdade trinta e cinco minutos e doze segundos.

- Ah, que bom, por um momento pensei que ia mandá-los para o espaço dentro de um torpedo fotônico!

A risada dele a deixou feliz.

- Venha, vamos ao refeitório dos oficiais. Estamos bem na hora do jantar e, como temos convidados especiais, com certeza Françoise caprichou!

- Será que ele fez mais batida de coco? - Jevlack perguntou enquanto a porta se fechava atrás deles.

- Temos normas rígidas quanto a ingestão alcoólica por aqui, senhor Imediato!

****

Capítulo VII.

Desinteressada pelos eventos no interior da Atlantis, a esfera prosseguia em sua órbita ao redor de um ponto entre as duas naves que navegavam no espaço lado a lado. Suas luzes continuavam a brilhar e a se alterar, ora aparentemente atendendo a pedidos de algumas crianças da Atlantis, ora por parecer simplesmente se divertir com isso, da mesma forma que um gato se diverte perseguindo a própria cauda.

Internamente porém, nada demonstrava a aparente calma exterior. Circuitos lógicos feitos em eras cuja história da maioria das raças da galáxia não podia remontar estavam trabalhando freneticamente para consolidar e aperfeiçoar os dispositivos que carregava. Inicialmente brutos, estes componentes que se assemelhavam agora a uma forma de esqueleto humanóide, eram cobertos pela mesma amalgama metálica que foi enviada para coletar uma amostra dos padrões celulares do hospedeiro selecionado.

Aos poucos, a prótese estrutural de endoesqueleto era cuidadosamente ajustada, lapidada e testada visando estar em perfeitas e corretas condições para quando fosse ser instalada em definitivo. Uma instalação sem volta, sem retorno.

Se tal estrutura pudesse ser captada pelos sensores das naves distantes, talvez alguém percebesse que ela era idêntica em forma ao esqueleto da Primeira-Oficial da Atlantis.

Mesmo assim, os circuitos sabiam que havia um impecilho. Era preciso cuidar de evitar que a capacidade de defesa do corpo selecionado pudesse combater o implante.

Na nave Atlantis, o médico de plantão cuidava de analisar com critério a clavícula do oficial de segurança Benrubi entregue aos seus cuidados. Parecia que a Imediato tinha usado força excessiva nesta, de forma a causar uma lesão no osso. Por causa disto, ele não percebeu que o monitor atrás de si começou a dar sinais de vida, acessando todos os dados de Sarah McKenna, quebrando cada senha e protocolo de segurança que envolvia esta ficha.

Quando ele finalmente terminou o seu serviço, o monitor já estava apagado, e nenhum sistema de segurança da nave continha qualquer indicativo do que tinha ocorrido.

****

- Espero que seja de seu agrado, mon commandant!

Jevlack olhou para o pote de barro ali na sua frente com seu conteúdo negro fumegante. Dava para ver a carne vermelha de alguns dos blocos escuros que se sobressaiam da camada superficial. O odor também era inconfundível. Ele olhou de rabo de olho para Sarah que apenas sorria divertida.

- Françoise... – murmurou ele – já pensou em uma transferência? Tipo assim, para uma nave de pesquisas classe Excelsior....

- Lamento, mas a Atlantis é minha cherry... – tornou ele sorrindo e se afastando. – Bon appetit!

- Tudo isso é para eu me sentir em casa?

- Depois de tudo que fez por mim, antes de sermos interrompidos, – disse ela com uma certa raiva incontida – eu precisava achar uma forma de expressar meu agradecimento... – ela o olhou e sorriu com os olhos, e em seguida com os lábios – meu amor....

Ele olhou para a iguaria rara ali e fez algumas caretas divertidas com os lábios. Olhou ao redor e sem nenhum pudor ou vergonha, pôs a mão na cadeira dela e a arrastou para ficar praticamente colada na sua, e a envolveu com o seu braço para impedir que escapasse. Depois ele pegou a colher de sopa e colocou um pouco no seu prato e completou com um pouco de arroz. Em seguida, diante dos olhares surpresos dos outros tripulantes ali ele pegou o garfo e encheu este, levando-o em seguida para a boca dela. Depois repetiu o feito e levou o bocado para a sua boca.

- Sabe que eu nem lembrava mais o que era feijoada? – murmurou ele satisfeito. – Minha cara... você sabe mesmo pegar um homem pelo estômago!

- E você sabe como fazer propaganda a seu respeito – tornou ela fazendo o impossível para não rir da expressão dos outros tripulantes que os observavam atentamente, sem fazer absolutamente nada para disfarçar. – Toda a nave agora vai saber que existe um homem por quem esta máquina de trabalhar se derrete toda....

- Aprendi com os melhores – ele a olhou e sorriu levemente. Seu desejo era de beijá-la, mas não o faria ali. Não em uma sala cheia de oficiais, e muito menos dentro da nave dela. – Acha que exagerei?

- Eu adorei isso – ela tomou o garfo da mão dele e agora levava comida na sua boca. – Me sinto uma adolescente com seu primeiro namorado... Na verdade... – ela olhou para cima e pensou um pouco – você é o meu primeiro namorado. O primeiro que eu convido para jantar, ao menos.

- Pelo menos isso.

Ele olhou agora para a garrafa fechada e para os copos com rodelas de limão e gelo. Françoise fez uma boa pesquisa mesmo. Logo depois ergueu os olhos e viu Düff entrando no refeitório. Este olhou na direção deles e meneou a cabeça com um sorriso irônico. Logo depois começou a se aproximar. Sarah se sentiu levemente desconfortável, pois sabia muito bem o que ele iria dizer. Mas, desta vez, ela sabia como retrucar.

- Interrompo algo? – perguntou ele assim que se posicionou diante do casal de primeiros-oficiais.

- Depende – começou Jevlack. – Você quer interromper algo?

- Sempre direto... é disto que gosto mais em você. Não tem papas na língua e nem fica com rodeios. Bom, só vim avisar que a esposa de Dycon está profundamente magoada e temerosa do ocorrido. Ela acredita piamente que seu marido será exilado da nave.

- E com razão – Sarah estava séria e fria agora, como sempre foi em assuntos da nave. – Ele conhece as regras.

- Regras criadas com base em premissas que nunca existiram – cortou Jevlack a olhando de forma calma. – Ainda não apurou as causas do incidente. Não pode julgar assim, minha cara oficial.

Düff ergueu as sobrancelhas, levemente surpreso por ele estar contrariando-a.

- Janus, – murmurou ela – quando eu defini estas regras, pensei fria e categoricamente no interesse dos objetivos da existência desta nave e de sua tripulação. Considerei todas as possibilidades pertinentes que seriam avaliadas em casos assim, e as regras até hoje se mostraram satisfatórias e eficientes.

- Não duvido disto – ele ainda estava calmo. Calmo demais. Tanto que não só Düff, mas Sarah também imaginava que ele tinha alguma carta na manga que iria mostrar agora. – No entanto, você mesma disse que definiu as regras com base nos objetivos de existência desta nave. Você nunca considerou que esses objetivos também precisariam abarcar um grupo civil permanente. Tratou do assunto unicamente pela ótica militar, o que foi uma visão estreita e insuficiente para essas regras. O fato é que os objetivos desta nave não são mais os mesmos. Eles foram ampliados. Para portar estes civis a nave foi redesenhada em muitos pontos. Ou seja, abrigar e fornecer moradia para estes civis também se tornou objetivo de existência desta nave, objetivo que você não considerou quando estipulou suas normas. Aplicar regras unicamente militares a grupos civis seria... ilógico.

Sarah ficou em silêncio por alguns instantes, enquanto Düff observava seu par e ficava indeciso entre lhe dar um aperto de mão ou soltar uma risada. Realmente, ele a colocou contra a parede agora, e o fato dela estar tão pensativa a respeito era prova absoluta disto.

- Que ótimo – murmurou ela. – Você daria um bom advogado, sabia?

- Já rejeitei esta oferta. E então, minha cara segunda em comando daqui... o que pretende fazer com esta nova visão a respeito das coisas?

- Bem... – ela começou a esboçar um sorriso ferino – depois que Miox trouxer o seu relatório e suas recomendações, acho que sei quem se encontra em posição perfeita para cuidar do assunto civil. Mas Joshua Benrubi ainda é minha responsabilidade – tornou ela séria. – Agora, me dê outra garfada que isso está gostoso, e Düff...

- Já sumi! Divirtam-se...

****

Miox, com um pad na mão, entrou na Enfermaria desanimado.

Düff, que aproveitara para dar uma passada lá, o encarou com um sorriso compreensivo.

- Dr. Düff, como estão o sr. Benrubi e o sr. Wilkins?

Hans foi com ele até a cama de Dycon e verificou os dados desta.

- Ele está bem, alguns hematomas e cortes internos na boca... Só vai acordar com uma bruta dor de cabeça... Hum, a clavícula dele foi luxada, mas já está ok... Deve acordar naturalmente daqui a algumas horas.

Miox fez suas anotações e seguiu o médico em direção a cama de Benrubi.

- Mesmo quadro... Só que Benrubi teve a clavícula quebrada... – pensou em Sarah e se resignou. – O teor de álcool no sangue dele é bem mais alto. – E se virou para o jovem tenente rigeliano. – Sr. Miox, eles vão acordar com uma bruta ressaca e dores no corpo. Para a ressaca não vou ministrar nenhum remédio, pois acho que eles devem arcar com as conseqüências dela. - Olhou para o rapaz que colhia os dados das camas médicas. – Vão ter um péssimo dia, mas com certeza não será por causa disso.

Miox o encarou um pouco desconsolado.

- Não só eles, dr... Não só eles...

Düff concordou com um aceno de cabeça, pois conhecia sua amiga muito bem.

****

Dez minutos depois, Miox entrou no refeitório dos oficiais e viu Sarah e Jevlack sentados juntos diante de um doce que ele também gostava muito: pudim de leite.

- Sr. Miox! – Jevlack o recebeu efusivamente. – Que bons ventos o trazem?!

Miox o fitou constrangido. – Vim trazer o relatório, sra. McKenna.

O sorriso que vira nela desaparecera ao levantar os olhos para ele. Estendeu o braço e pegou o pad, lendo o relatório e seus anexos de imagens e diagnósticos médicos.

- Hum... Bem completo, sr. Miox, bom trabalho – e passou o pad para a mão de Jevlack que o solicitava interessado.

O elogio dela não o acalmou.

- Amanhã, às 03 horas, o sr. iniciará um programa de treinamento de contenção de distúrbios para todos os seus alferes. Logo que o sr. Wilkins acordar deve ser levado a srta. Stuart e, após liberado, iniciado no treinamento básico para os alferes de segurança. Providencie seus equipamentos e fardamento.

- Sra? – Miox pensou não ter entendido.

- Não compreendeu o quê, sr. Miox? – ela inquiriu arqueando a sobrancelha esquerda quase lateralmente.

Ele não podia ficar na dúvida, apesar do olhar dela parecer desprezar sua necessidade de esclarecimento. – O sr. Wilkins está sendo engajado, sra?

- Exatamente. Mais alguma dúvida?

- O sr. Benrubi.

- Dele, cuido eu pessoalmente. Dispensado.

- Sim, senhora – e tratou de sumir dali.

****

Diana moveu a peça para a casa que achou adequada e olhou para a esfera de novo. Já decidira deixar a briga na qual Benrubi se envolvera inteiramente nas mãos de Sarah, e estava curiosa para saber o que aconteceria. Conversara com ela rapidamente antes dos convidados chegarem, e já sabia que Joshua tivera bons motivos para ficar fora de si. Mas... a esfera era o que a intrigava mais no momento.

- Ela parece não ter pressa em se comunicar.

Melrik acompanhou seu olhar depois de fazer sua jogada.

- De fato, Diana. Parece consciente de que dispõe de tempo para agir sem precipitações.

- Mas o que ela espera?

Melrik olhou para a esfera. – Talvez ela não esteja esperando mais nada. Pode estar se preparando para o seu objetivo.

Diana suspirou. – Ela está aqui por causa de Sarah e Jevlack. Eles estão aqui. O que está faltando?

Melrik ficou pensativo.

- Ser chamada?

- Isso foi uma piada? – questionou Diana com certa surpresa.

- Não capitã. Acredito que a esfera está efetuando o mesmo que nós em nossos momentos de relaxamento. Como os humanos diriam, ela está passando o tempo.

- Bom, – ela novamente observava a esfera pela vigia a sua direita – pode ser que esta seja a resposta, mas ainda acredito que ela quer alguma coisa a mais. Como uma... decisão. Ela se comunicou com Sarah. Disse que estava aqui por causa dela. O que ela espera?

- Considerando que a nave em que o Imediato Jevlack serve só foi enviada até aqui através de prováveis articulações do Departamento, – a entonação era típica quando ele se referia a Dissuasão – é possível que esteja aguardando um momento mais seguro e reservado para agir. Com toda a certeza, agentes destes devem estar infiltrados entre a tripulação da outra nave.

- Está mais seguro do que o normal, considerando as poucas informações – ela protegeu a torre e sacrificou o bispo para ter o caminho aberto para articular sua jogada. – Se não o conhecesse diria que está adivinhando.

- Não estou. Verifiquei esta manhã os movimentos conhecidos da Thunderbold. Ela fez uma parada na estação dezoito antes de nosso encontro. Uma parada para receber cientistas mais capacitados a estudar o objeto que fez contato conosco.

- E como a esfera já mostrou que pode manipular nosso equipamento...

- Exato, capitã – ele a observou inexpressivamente. – Tudo indica que ela tem uma natureza pacífica, mas que também quer manter um certo sigilo sobre seus objetivos. Talvez sua forma de se portar seja uma mera tática dispersiva. Se fosse atuar apenas para atingir suas metas, já teria anulado os sistemas de ambas as naves e agido.

- Muito tranqüilizador... – murmurou ela pensando nas suas palavras.

****

Jevlack tomou o restante de sua caipirinha e a pegou pela mão, levantando-se.

- Então Dycon vai se tornar um de nós.

Ela não sorriu, mas havia humor na sua voz. – Vamos ver o que ele acha de estar do outro lado.

- Idéia interessante... É possível que seja bem produtivo para ele. – Sorriu para ela e entraram no turboelevador. – Boa idéia.

- Obrigada.

- E quanto a Benrubi?

- Tenho muitas opções.

- Nenhuma delas justa.

McKenna passou o dedo indicador na sobrancelha, numa carícia particular.

- Sua sugestão anterior é muito amena.

- Você não precisa massacrá-lo para fazê-lo compreender que cometeu um erro. Ele não fez isso para desmoralizar você.

Eles saíram do turboelevador e andaram até o salão de observação onde Diana e Melrik jogavam uma tranqüila partida de xadrez.

- Sinto muito, Janus, mas não vou mudar de idéia.

Ele a encarou.

- Já que não se importa se outras soluções são mais adequadas que a sua, que tal me dar uma chance de aplicar as minhas?

Ela ergueu a sobrancelha. Certamente ele tinha alguma idéia mirabolante.

- Posso saber como vai me convencer?

Ele sorriu e olhou na direção dos dois enxadristas, se aproximando.

- Podemos apostar. Quem ganhar decide o que será feito com o sr. Benrubi.

Diana, Melrik e Sarah o olharam um pouco surpresos. O’Conell sorriu.

- Que interessante, sr. Jevlack. E o que vocês apostariam?

Sarah olhou para ela incrédula.

- Diana...

- Ora, Sarah, você gosta de desafios. Vamos lá, qual a sua idéia, Jevlack?

Ele sorriu com malícia.

- Uma partida de xadrez.

Sarah soltou o ar de uma vez e Diana deu uma das melhores risadas de sua vida.

Depois, Nos Alojamentos de Sarah...

Ele a encarava do sofá com um sorriso maroto, enquanto ela servia para eles o vinho de uma das garrafas que acabara de escolher de sua pequena adega.

- Como se sente sendo a exceção à regra?

- Exceção? – ela se sentou próximo a ele e colocou as pernas em seu colo.

- Nunca vi um vulcano que não apreciasse a nobre estratégia lógica do xadrez. - Jevlack murmurou mantendo seu sorriso.

Sarah deslizou a borda da taça nos lábios e tomou um pequeno gole, deixando uma gota dançar neles antes de lambê-la. - Não sou totalmente vulcana. Esse tipo de observação não me afeta nem um pouco.

Ele adorava provocá-la. O iminente jogo de xadrez o estava deixando inspirado.

- Você está apenas com medo de me enfrentar e perder.

Ela sorriu também com o mesmo ar maldoso. - Se eu realmente gostasse desse jogo enfastiante então ficaria tocada com uma derrota.

- Então você vai aceitar jogar, porque se não desafio você para uma luta e aí é que você vai perder mesmo. E ficar furiosa por um ano ou dois.

Ela suspirou e colocou a taça vazia na mesinha do centro junto com a garrafa. - Eu sei que você não me pouparia de uma bela surra... Oh, está bem, eu aceito jogar aquilo!

Ele sorriu com malícia – Por enquanto vou dar em você outro tipo de surra...

Ás Cinco Horas...

Ela se espreguiçou com gosto e observou-se no espelho de seu quarto. Até que Düff sabia mesmo como cuidar das partes estéticas do corpo feminino. Se olhou de perfil e sorriu satisfeita. Pelo menos, quando saísse daquela maldita nave ainda poderia cuidar de sua vida pessoal.

- SENHORITA STUART, APRESENTE-SE COM URGÊNCIA NO SEU ESCRITÓRIO.

Gina apertou os lábios e quase gritou de ódio. O que McKenna queria com ela a essa hora? Aliás... porque diabos ela a estava chamando?

- Posso saber com antecedência o motivo deste chamado? – questionou ela. Não havia nada por ali que a envolvesse. Porque a tinha chamado?

- UM DOS CIVIS DA NAVE SE ENVOLVEU EM UMA ALTERCAÇÃO. CREIO QUE É A SUA ÁREA AFERIR AS CAUSAS DISTO.

A entonação irônica que ela fez quando disse que era a sua área fez seu sangue ferver. Muito bem. Vamos ver o que ela arrumou desta vez.

Duas Horas Depois...

Joshua chegou no salão de recreação dos oficiais e os olhou um pouco surpreso. Lá estavam Diana, Melrik, D’Angelis, Düff, o capitão Stek, Sarah e... Jevlack.

- Não pode ter permitido isso, capitã.

Diana o olhou divertida.

- E por que não, Benrubi? Vai ser interessante.

Ele se voltou para Sarah, sentada de pernas cruzadas em um dos lados do tabuleiro.

- Vai apostar o que fará comigo? Pensei que tudo o que quisesse é fazer picadinho de mim.

Ela o encarou. - Deveria estar agradecido por eu ter aceitado esse novo método, sr. Benrubi, pois acabar com a sua raça é uma das minhas mais amenas intenções. Mas se não concorda com o método, pode ir se preparando para desejar uma transferência. - Ele a olhou, incrédulo. – Sente-se e aprecie o espetáculo. E torça para ele ganhar.

Jevlack sorriu para Joshua e Düff o pegou pelo ombro que não doía, levando-o para uma das poltronas próxima a parede transparente.

O tabuleiro era de Melrik, pois Sarah, apesar de vulcana, detestava declaradamente aquele jogo, o que era muito estranho e bem pouco... convencional. Se ela sabia jogar? Sabia, e até bem, mas não apreciava sequer assistir os embates de Diana e Melrik, ou deste com outros membros da tripulação.

Aquilo era tão inusitado que Diana a provocava sempre que podia. Era a primeira vez, primeira vez mesmo, que Diana veria sua Primeira-Oficial jogar a sério. Já a vira jogando duas vezes com Melrik, mas este declarara, ofendido, que ela não se empenhara no jogo apenas para que este terminasse logo.

Jevlack sorria para ela. – Vamos começar?

Ela suspirou e não se mexeu. – Como quiser, meu caro.

- Ótimo... Senhoras e Senhores da platéia, aqui estamos reunidos para assistir a este embate épico e raríssimo, onde Sarah McKenna, também conhecida mais galantemente como T’Sarahk de Sernick faz mais uma de suas raríssimas apresentações neste jogo de proporções ancestrais em que dois exércitos medievais são representados como determinadas peças de um tabuleiro, com movimentos e capacidade de defesa variados. Transportado para o século atual, ele, apesar de ter adquirido regras distintas em muitos mundos da Federação, manteve-se fiel a sua meta básica: obter o controle de uma determinada peça do conjunto do adversário. Curiosamente a mais frágil e fraca de todas, mas também a mais cobiçada. Sua majestade, o rei!

Todos na sala olhavam para ele com um espanto incrível – com exceção natural de Melrik, que apenas dobrou a cabeça de lado e ergueu uma das sobrancelhas. Diana, além de espantada, sentia uma enorme vontade de rir daquilo. Ver Sarah jogando xadrez era um evento raro, agora, este evento estar sendo irradiado como uma partida de crânnia merecia um registro mais oficial. Sorrateiramente, enquanto Jevlack tagarelava e deixava sua oponente um pouco constrangida e confusa, ela se aproximou de um monitor de uma das paredes e efetuou alguns comandos. Logo depois voltou a prestar atenção na partida, e mais ainda na narrativa desta.

- ...com cuidado extremo. Notem como ela passa lentamente a mão sobre cada uma de suas peças, de seus soldados ávidos e desesperados para entrar em ação. Mesmo assim, apenas dez destes podem assumir um movimento, mas isso não é tudo! Oito destes têm dois movimentos iniciais, o que dá a nossa bela representante do mundo vulcano um total de dezoito possibilidades para movimento em uma única jogada! É excitante, senhoras, senhores e Melrik, que não posso acreditar que consiga ficar ai parado sem esboçar absolutamente nada da tempestade que ocorre em seu interior.

Diana olhou para seu oficial de ciências com curiosidade. O que ele quis dizer com isso? Cerca de dez segundos depois, em uma rara pausa que o narrador oficial concedeu aos ouvidos de todos, ele se pronunciou.

- Não se preocupe, comandante... terei prazer em solicitar sua rubrica após este fascinante evento de exercício mental que estão praticando.

- Rubrica? – perguntou Benrubi ao mesmo tempo em que Jevlack apertava os lábios diante a expressão de atordoamento de sua amada companheira.

- Se importa de traduzir, minha cara opoente? – solicitou ele com um sorriso divertido naqueles olhos vermelhos.

Sarah olhou para ele e para Melrik, que moveu levemente o canto dos lábios. Logo em seguida cruzou os braços e todos viram ela apertar as bochechas por alguns instantes, como se segurasse uma risada. Mas logo ela se controlou e colocou a mão em um dos peões.

- Atenção! Ela decidiu por uma peça! Irá ela efetuar o que sua mente ágil, lógica, estruturada e profundamente louca para me amordaçar estipulou anteriormente que faria? OU mudará de idéia devido as possibilidades finitas deste movimento poderem ser facilmente avaliadas e obliteradas? Não percam a decisão nos próximos segundos.

- Estou quase preferindo levar uma surra de você!

- Quer dizer que já desistiu? Puxa... que pouca força de vontade você tem, minha linda e jovial colega oficial.

- Ainda não me disseram o que Melrik quis dizer...

- Eu vou pedir o autógrafo dele – respondeu Melrik sem nenhuma expressão – está satisfeito agora?

Benrubi franziu a testa e olhou para Sarah, que se apressou em mover o peão iniciando a contenda. Soltou uma boa risada depois. Essa deve ter feito Sarah perder toda e qualquer concentração que tinha remanescido nela depois que Jevlack começou com aquela narrativa divertida e irritante ao mesmo tempo.

- E ela fez a sua jogada! Enfim, o duelo em que os competidores se digladiam para decidir se Joshua Benrubi ficará com a cabeça nos ombros ou com o rabo entre as pernas começa!

- Rabo entre as pernas?

- Cale a boca e assista! – disse Sarah o olhando como se seus olhos pudessem lançar farpas de gelo a qualquer momento. Ele apenas em engoliu em seco.

****

O primeiro turno começara cedo na Atlantis, quatro horas antes para toda a equipe de segurança. Ninguém estava de folga. A briga da noite anterior reverberara em todos os outros setores também, pois uma revisão completa de materiais, equipamentos e sistemas havia sido solicitada para às 12 horas daquele mesmo dia para todos. Aquilo era impossível para muitos sistemas e equipamentos, mas eles também sabiam que isso não seria uma desculpa que pudessem usar. E os relatórios deveriam ser entregues pessoalmente pelos chefes de seções a Primeira-Oficial. Se ela normalmente era dura e inflexível com eles, naquela manhã estava especialmente inspirada.

Dycon acordara no meio da madrugada com Madalen e Miox ao seu lado. Ele sorrira para ela meio culpado e dissera vamos pra casa, não é? e ela retribuíra seu sorriso com um não, você arranjou um emprego!. E agora estava ali, na frente daquela mulher e com o tenente rigeliano o aguardando na ante-sala. Madalen ficara radiante. Não teria sua ficha manchada! Mas e ele?

Despejara toda a sua raiva para a mulher a sua frente e ela sorrira afavelmente, dizendo sim, meu caro amigo, os campos de concentração ainda existem. Isso não ajudou muito, mas, pensando bem, era melhor do que perder a mulher.

****

- E ela toma o bispo do adversário! Revejam em câmera lenta quando ela meticulosamente pega a dama, a movimenta com suavidade e delicadeza quase sensual sobre as casas pretas, salta para o segundo pavimento e, em um movimento treinado e praticado por anos, pega o bispo com dois dedos livres e coloca a dama para preencher o vácuo assustador que este deixou. Como estarão se sentido as outras peças? O cavalo ao lado da dama, agora... estará ele temeroso de ser sacrificado na minha jogada? Irá ele se rebelar contra a divindade toda poderosa que determina seu destino, seus movimentos e sua existência? E a família dele? Sentirá sua falta? Fará um abaixo assinado para a derrocada desta forma vil e totalitária da qual este jogo tanto se orgulha?

Sarah esticou a mão aberta para a sua esquerda e Diana se aproximou com a sua cuia. Ela enfiou a mão lá dentro e retirou mais um bocado de pipoca, a qual começou a comer com gosto.

O duelo de xadrez acabou virando atração principal por ali. Dez minutos depois de ser iniciado, Diana saiu da sala e retornou com um pote de pipocas, que todos logo se prontificaram a ajudar a esvaziar – até Melrik, provavelmente tentando unicamente agradar a sua comandante. Jevlack conseguia dar diversão para um jogo sóbrio, silencioso e sem movimentos inesperados como aquele.

No entanto, apesar de tudo isto que obviamente tencionava perturbar a concentração dela, Melrik e Diana percebiam que eles estavam empatados. Sarah não estava realmente muito atrás dele, e Jevlack, mesmo brincando e agindo de forma descontraída e desinteressada, era um jogador excelente! Se fosse com ela já teria perdido há muito tempo.

Apenas Düff não estranhava os eventos. Ele sabia que Sarah era a única que podia acessar a mente de Jevlack, e com certeza analisava cada estudo dele e procurava se antecipar a este. Era bem verdade que às vezes ele ficava um pouco confuso com tantas equações circulando pela sua mente, mas como tudo o mais na vida deles, aprendeu a filtrar aquilo. Mas mesmo com ela podendo fazer essa trapaça, não havia nenhuma garantia de sua vitória.

A porta subitamente se abriu e uma menina de uns cinco anos entrou no salão de recreação dos oficiais. Olhou de um lado para o outro e ficou meio temerosa de falar.

- Sim? – atiçou Jevlack com um sorriso jovial e uma cara amistosa, bem diferente da cara séria e inexpressiva de Sarah.

- Viram o meu pai? – perguntou a pequena.

- O tenente Ghuates se encontra em curso de aperfeiçoamento, senhorita, e a senhora Ghuates ainda está acamada – respondeu a Imediato da Atlantis sendo mais fria que um computador. – Senhor Benrubi, por favor, acompanhe esta civil até a senhorita Stuart, que poderá...

- Não, senhora! – disse Jevlack se levantando e indo na direção da criança. – Nenhum dos pais dela está disponível e a querem deixar logo com quem detestam? Sejam humanos! Desculpe, Melrik...

- Aceito suas desculpas, comandante – disse Melrik com uma leve mesura, o que fez Sarah esboçar uma pequena careta. Melrik já tinha simpatizado com Jevlack? Ou era admiração por ele estar fazendo o impossível para romper com sua extremamente sofrida concentração no jogo?

- Bem, mocinha... que tal ficar um pouquinho aqui até seu pai sair do treinamento? Temos pipoca, doces, um joguinho... gosta de jogar?

- Gosto! – ela mexeu o tronco de um lado para o outro e soltou um sorriso.

- OBA!!! Então você vai me ajudar – ele a pegou nos ombros e sentou-se novamente na cadeira, mas agora com a pequena menina no colo – como se chama?

- Patrícia!

- Ótimo, Patrícia! Um lindo nome. Tá vendo este montão de pecinhas bonitinhas aqui? Me ajuda a ganhar as branquinhas? – ela fez que sim com a cabeça – bem, é fácil. Você precisa me ajudar um pouco porque eu costumo ser muito indeciso. Já falei que sou indeciso?

- Já!

- Já?! Puxa... sou esquecido também.... O que eu tinha que pegar mesmo?

- As pecinhas brancas! – ela começava a rir.

- Isso!!!! As braquinhas. Braquinhas como pelo de coelho fica branco na neve.

- O pelo do coelho branco...permanece branco, independente do clima – corrigiu Melrik.

- Quem disse que o coelho era branco? – Jevlack retrucou com uma cara feia e emburrada para ele, igual a uma criança – o coelho é meu e ele tem a cor de pelo que eu decido que ele deve ter. Além do mais, o coelho das estepes muda a cor do pelo no inverno. Capiche?

- Correto - limitou-se a dizer ele.

- Arrume os seus coelhos de pelo branco, eu quero um coelho de pelo branco na neve. Você gosta de coelho de pelo branco na neve, Patrícia?

- Hum-hum! – fez ela sorrindo divertida.

- Sério? Eu prefiro ele no meu colinho para eu fazer carinho – ele a abraçou e fez algumas cócegas nela - Ótimo... então... o que íamos fazer mesmo? – Ele olhou para ela que levou as mãos aos lábios e riu de novo – há!!! Lembrei. Olha aqui. Eu sou indeciso. Eu não sei se devo mexer neste cavalinho aqui – ele pegou a peça e imitou o relinchar de um cavalo – ou nessa rainha aqui ENCANTADA, SENHORITA PATRÍCIA, SMACK! – fez ele imitando uma voz de mulher e fingindo que a dama deu um beijo na menina – qual você acha que eu devo mexer?

- Um momento! – Disse Sarah com um olhar duro e de incredulidade – você deve jogar sozinho, sem auxilio externo!

- Está com medo de perder dela? – Jevlack a olhou e sorriu de forma maliciosa.

- Eu.... – ela não tinha considerado isso – eu... oh, está bem!

- Viu? Ela é muito forte... me fez de ratinho o jogo todo. Mas foi só olhar para a sua cara de malvada que ela ficou com medo. Viu?

- Vi... – ela riu novamente. Sarah bufou um pouco e cruzou os braços.

- Bom... agora, eu mexo o cavalinho ou a rainha?

- O cavalinho!

- Oba!!!! Pocotó, Pocotó, Pocotó, Pocotó, Pocotó, Pocotó, Pocotó – murmurava ele a cada casa do tabuleiro que movia o cavalo, arrancando risos divertidos da pequena Patrícia no seu colo – Gente! Que bando de mal educados. Cadê a pipoca da minha AAA?

Sarah fechou os olhos e segurou a vontade de rir com muita força. Por quanto tempo mais ia conseguir não rir?

- AAA? – Perguntou Melrik confuso.

- Ajudante de Assunto Aleatórios – disse ele, o que arrancou algumas risadas dos presentes – só que a frase não é minha. Mas como o autor era do século XX e nunca a registrou em cartório...

Sarah permaneceu em silêncio, ocultando a sua vontade de entrar naquela situação divertida. Só Janus mesmo. Conseguir forçá-la a entrar em um jogo que detestava, e ainda conseguia fazer uma festa com isso.

Mas isso teria retorno...

Afinal, muita coisa pode ocorrer em um leito, não é verdade?

Um Pouco Depois...

- O que perturbaria uma conselheira?

Gina olhou seu companheiro da mesa em que compartihavam o café da manhã e suspirou. Ela se sentia uma idiota. Quando soube os envolvidos na briga tratou de pegar as suas fichas que tinha arquivado sobre Dycon. Estava tudo ali. Sua irritação e frustração crescente, a sensação de que sentia que sua jovem esposa o traía com a sua carreira na Frota Estelar, e, acima de tudo, o quão pressionado ele se sentia pelas suas limitações como um civil na nave.

- Revezes da vida, Düff... apenas isso – respondeu ela envolvendo as suas mãos no copo de leite quente, sem fazer menção de levá-lo a boca.

Tal relatório tinha sido apresentado semanas antes, e ela aconselhou a encontrarem uma tarefa para ele, algo que o permitisse distrair a mente e se sentir realizando algo. O que mais o perturbava era o tédio de acordar, percorrer as poucas áreas permitidas aos civis e tentar preencher o tempo até sua esposa sair de seu turno. Coisa sumariamente negada na época pela Primeira-Oficial.

- Me parece ser algo um pouco mais do que isso... – o alemão, que teria que assumir seu turno em poucos minutos e por isso deixara a sala de recreação, sorriu amavelmente para ela.

Ela queria esfregar isso na cara de Sarah. Queria mostrar o seu erro ao menosprezar as informações. Na verdade, queria satisfação pelas palavras que ela disse na época: Minha preocupação com a disciplina e uso dos recursos ociosos é para com os oficiais da nave. Não estamos em uma empresa para criar cargos civis, e não criaremos. O Senhor Wilkins estava plenamente ciente de suas restrições antes de embarcar nesta nave, e agora deve suportar estas.

- Hans... só estou um pouco fatigada... tive de dormir tarde ontem e hoje logo cedo precisei coletar no meu material dados psicológicos para o novo alferes da nave...

Ela parecia ter prazer em ignorar suas recomendações. Pois sim... Pensou que finalmente a tinha pego em uma clara omissão de suas tarefas. Mas ela conseguiu escapar. Quando foi falar com a senhora Wilkins, logo percebeu o que poderia ser. Ouviu-a atentamente e foi coletando dados para o seu relatório – nada bom para a Primeira-Oficial – sobre como ela pessoalmente se envolveu no assunto e não delegou a tarefa para quem estava previamente designado a esta.

- Me parece que está bem decepcionada, não fatigada – insistiu ele.

Mesmo assim, ela a surpreendeu quando lhe disse que reconhecia abertamente sua falha em não dar a devida atenção ao seu relatório anterior e que iria cuidar para que tal coisa não se repetisse. E que também cuidaria para que o casal Wilkins pudesse permanecer unido dentro da nave, bem como uma tarefa que parecia ser talhada para alguém com a ociosidade e energia disponível do senhor Wilkins.

- E estou. Mas é comigo mesma... eu não acredito no que aconteceu... fiquei um ano inteiro esperando por isso e... quando acontece... não senti nenhuma realização.

Ela tinha ficado pasma por mais de um minuto. Sarah McKenna, a mulher que mais a atingia direta ou indiretamente, sua úlcera particular na cúpula da nave tinha dito aquilo mesmo? Ela reconheceu sua falha? Ela... ela...

- Esperando pelo quê?

- Esqueça Düff... não quero falar sobre isso... por mais ridículo que possa ser.

Sarah simplesmente reconheceu que ela estava certa no assunto e praticamente lhe pediu desculpas por não considerar suas opiniões a respeito... Gina devia ter ficado radiante!

- Tudo bem...

No entanto... não sentia satisfação nisto. Ela apenas reconheceu o seu profissionalismo. A perturbação da Imediato e sua respectiva cúpula na nave para com ela era a nível pessoal. E da forma como ela falou, deixou isto bem claro...

Ela conseguiu lhe roubar a satisfação de vê-la se rebaixar diante de si.

- Onde está Joshua? – perguntou ela depois de tomar um gole de leite – Sarah o colocou a ferros?

- O destino do senhor Benrubi ainda não foi decidido. Quando ele despertou completamente tonto e com aquela ressaca homérica, questionou não haver seguranças ali para vigiá-lo durante sua provável corte marcial – o alto alemão sorriu divertido ao lembrar-se da cena – e eu habilmente lhe comuniquei – até que era interessante Hans usar aquele palavreado formal, como se fosse a própria Imediato – que havia uma indecisão entre a Primeira-Oficial desta nave e o da outra, que é nosso convidado no momento. Eles estão, neste instante, decidindo o destino dele.

- Decidindo? – Gina o olhou de lado e franziu o cenho.

- Jevlack desafiou Sarah para uma partida de xadrez – ele começou a rir um pouco – o vencedor decide a punição de Joshua.

Sarah? Jogando xadrez? Ou melhor... Sarah precisando jogar xadrez para poder decidir o que desejava? Ora, ora... existe justiça divina, afinal!

Ao Mesmo Tempo...

Sarah observava o tabuleiro com grande incredulidade. O jogo estava perdido. Totalmente! Em mais quatro lances ele tomaria seu rei. Diana e Melrik já tinham percebido isto, e decerto apenas esperavam ela admitir.

Ela não era nenhuma apaixonada por aquele jogo, mas realmente acreditou que poderia derrotar Jevlack. Pelo menos, até ele matá-la com aquela narrativa maluca dele e pegar a menina para ser sua ajudante, ou... como ele a chamou mesmo? Bom, não importava.

Não podia acreditar! Ele a usou para inserir jogadas casuais ali, totalmente sem lógica ou objetivo. Isso associado a sua perturbada concentração foi o bastante para perder o jogo.

- Congratulações – murmurou ela gentilmente – principalmente pelo seu empenho em obter a vitória.

- Já devia me conhecer, minha cara... eu trapaceio.

Ela ergueu a sobrancelha esquerda para ele com um sorriso.

Diana dobrou a cabeça de lado com um sorriso cínico. Realmente... foi uma trapaça interessante. Ele não era nem um pouco convencional. Como... – ela abriu levemente os olhos ao pensar naquilo – como a esfera! Haveria alguma relação? Olhou para Stek que parecia também interessado nos eventos.

- Sou testemunha disto – disse Stek que permanecera calado durante quase todo o tempo.

- Bem, senhor Benrubi... aquele que irá decidir o seu destino foi devidamente selecionado – ela se levantou e pegou a pequena menina no colo de Jevlack – e reconheço que grande parte da vitória dele foi responsabilidade desta pequena aqui.

Diana abriu a boca e Joshua ficou incrédulo. Sarah McKenna carregando uma criança nos braços? Até que ela ficava bem... Logo em seguida, ela colocou a menina nos braços de Benrubi e disse para levá-la até seu pai, que fôra devidamente avisado antes onde a menina estava. Mas ele preferiu ouvir a sua sentença antes.

- Tem certeza? – perguntou Jevlack com um sorriso.

- Vou ouvir mais cedo ou mais tarde. Prefiro que seja mais cedo.

- Pois bem. No século XX, haviam formas interessantes de punir alguém que faltasse com seus deveres de forma branda, como foi o seu caso. Deveria ter imobilizado seu oponente, não começar a trocar socos com ele. Pois bem! É verdade que esta nave não possui latrinas, mas... – ele olhou Joshua com um sorriso de ironia – creio que ela deva ter dependências sanitárias para as crianças da escola...

- O sistema auto limpante cuida desta tarefa – disse Melrik.

- Então, desative-o, e faça Joshua limpar estas dependências... com um balde e um esfregão.

Joshua arregalou os olhos e Diana e Sarah contiveram a sua vontade de rir. Uma punição pouco ortodoxa mas realmente memorável.

- Senhor Benrubi, – Sarah o tirou de seu torpor – creio que já possua suas tarefas definidas para hoje. Só acrescento que esta pena irá se estender ao longo desta semana. Na verdade... – ela olhou para Jevlack divertida – talvez seja uma punição branda o suficiente para questões menores que ocorrem devido ao atrito entre civis e militares da nave. Vou pensar a respeito.

- Uma sábia decisão – murmurou Jevlack a olhando – agora... Joshua, o que ainda está fazendo aqui? Tem uma menina para levar para os pais e uma tarefa para fazer.

- Sim, senhor! Hã... – ele ficou levemente confuso – a senhora McKenna é minha oficial comandante...

- CAIA FORA DAQUI! – gritou ela com os punhos cerrados e com o corpo ereto, como se fosse uma mãe gritando com um filho teimoso. Joshua pegou a menina no colo e saiu correndo. Em parte, para aproveitar o estranho ar informal que se apossou de Sarah, e em parte porque realmente ficou com medo dela.

- Imediato – chamou Melrik sério – nunca a vi agir desta forma durante o seu turno.

- O início de meu turno foi adiado por algum tempo – ela sorriu divertida para ele, e depois sorriu mais ainda quando percebeu que ele se sentiu levemente ofendido – mas ele começa agora!

Seu rosto sofreu uma mudança radical, como se uma chave fosse subitamente ligada. O sorriso sumiu e a postura levemente informal também. A Imediato da USS Atlantis voltava a vida, depois de uma exemplar satisfação de suas necessidades íntimas e pessoais.

No fundo, ela tinha que admitir. Foi divertido.

- Bom, como eu dizia, meu capitão vai desejar falar comigo esta manhã. – Incrível! Ele estava também tão profissional quanto Sarah. - Sugiro nos reunirmos mais tarde para discutirmos os novos eventos sobre a pesquisa que nos une aqui. E antes que a esfera resolva brincar de raquete com a seção disco das naves.

- Não fique dando idéias – recriminou-o Sarah.

- Desculpe. Capitão?

Stek acenou com a cabeça e pediu licença para O’Conell. Logo em seguida os dois saíram do aposento para uma das salas de conferência da nave, para uma conversa mais particular.

- Capitã – Sarah a interpelou com uma certa súplica nos olhos – a senhora acionou a gravação de registros, não foi?

- Claro que sim! Acha que perderia a chance de poder rever isso na minha folga?

- Estarei na ponte – disse ela de forma impessoal.

Ela saiu do aposento e, agora que estavam a sós, Melrik olhou para Diana e sorriu levemente.

- Esqueci de pedir meu autógrafo...

Diana gargalhou divertida ao ouvir aquilo. Fazia muito tempo que ela não tinha um início de dia como aquele.

****

Capítulo VIII.

Mais Tarde. Na Atlantis...

As crianças e adolescentes saíram em bloco das salas de aula e encheram os corredores daquela seção do deck 14 em direção ao refeitório que tinha uma grande parede transparente.

Os menores corriam para esta e preenchiam cada espaço disponível numa algazarra festiva.

Rebecca, uma das mais velhas entre eles, colocou dois dedos na boca e soltou um assobio agudo, recebendo a atenção da turma de crianças.

- Vocês sabem que ela não brinca se falarmos todos ao mesmo tempo!

O pequeno andoriano na ponta extrema ergueu a mão. – Vamos fazer como ontem!

Muitas cabeças pequenas e coloridas concordaram.

- Ok. O último ontem começa primeiro hoje.

Alguém no outro extremo deu um gritinho de contentamento que fez todos rirem.

- Então tá! Lá vai! – e fez um pequeno suspense que surtiu genuíno efeito. – Querida bolinha, faça azul magenta com veios dourados!

A esfera, que estava no campo de visão de todos, emitiu um brilho branco e então mudou para a cor solicitada.

As crianças aplaudiram, dando gritos de alegria.

- Agora eu!

Todos ficaram quietos.

Rebecca encheu os pulmões. Pensara muito naquilo antes de pegar no sono. – FOGOS DE ARTIFÍCIO!

As crianças a olharam por um momento e então voltaram seus rostinhos para fora.

A esfera mudou para o branco e começou a girar sobre si mesma, emitindo uma gama diversificada e brilhante de cores, que pareciam realmente explodir a cada troca de cor.

As crianças começaram a pular e a bater palmas.

Alguns adultos se aproximaram, também espantados com o fenômeno. Alguns deles eram os oficiais cientistas encarregados de estudar a esfera alienígena. Haviam tentado brincar com ela no dia anterior depois que as crianças haviam ido embora, mas a esfera os ignorara por completo.

Sarah e Jevlack entraram no refeitório, pois já haviam sido alertados pelos observadores que as crianças tinham iniciado novo contato com a esfera.

Jevlack deu um sorriso quando a algazarra ficou mais animada: as crianças haviam começado a pedir não só cores, mas movimentos a ela, que as atendia prontamente. Era como se a esfera fosse um animal de estimação e brincasse divertida com as crianças. Ela fazia voltas, giros sobre si mesma, às vezes se movia tão rápido que deixava um rastro luminoso atrás de si. Chegou mesmo a forma uma figura parecida com uma árvore com este método. Os cientistas da sua nave deviam estar malucos observando aquilo, e loucos para tentar entender o porque desta estar efetuando aquelas evoluções. Iriam ficar mais ainda quando ele lhes contasse que a esfera apenas estava brincando com as crianças da Atlantis.

Sarah observou a cena fascinada. Um dos oficiais cientistas lhe passava um relatório não muito diferente do dia anterior.

Os monitores das crianças, a maioria os próprios civis, chegaram para encaminhá-las para as mesas para se alimentarem.

Um monte de oh! decepcionados encheu o ambiente. Eles se viraram para a saída e viram Sarah, ficando instantaneamente calados.

Jevlack conteve uma risada e murmurou no ouvido dela: - Bicho papão...!

- Muito engraçado... – ela murmurou de volta.

Rebecca veio até ela aos pulos. – Imediato McKenna! Venha, não quer tentar?!

Ela encarou a filha de Benrubi curiosa. – A esfera não parece atender os adultos, srta. Benrubi.

Ela sorriu e confidenciou: – É que eles – e apontou para os oficiais cientistas – não querem brincar de verdade, então ela não brinca...

Jevlack não se fez de rogado. Se aproximou da parede e olhou o objeto com um sorriso. A esfera fez um pequeno giro em si própria e piscou sua cor prateada repousante duas vezes.

- Faça um looping pra mim, meu bem.

Sarah sorriu e se aproximou ao ver a esfera atendê-lo prontamente.

- Pode imitar as cores da superfície de Vulcan?

A esfera piscou duas vezes para Sarah e esta sorriu, como se tivesse ouvido algo.

- Então, por favor, imite.

E a esfera pareceu de longe uma miniatura do planeta Vulcan.

Jevlack gostou. – Agora a Terra.

E a esfera girou em volta de si e obedeceu.

Rebecca começou a rir e a bater palmas. – Júpiter!

O objeto alienígena atendeu.

Sarah e Jevlack se olharam sorrindo. Se aquilo era possível, a esfera era doce e atenciosa. Gostava de brincar, apesar de deixar evidente que tinha um motivo sério para estar ali.

- Que tal um desafio realmente impossível? – disse Jevlack cruzando os braços e encarando a esfera brilhante com um sorriso enigmático.

A esfera moveu-se para cima e para baixo como se concordasse.

- Ótimo. Senhorita... como se chama?

- Rebecca Benrubi.

- Certo, Rebecca... peça para ela imitar esta cor... – ele se curvou e cochichou algo no seu ouvido.

Rebecca o olhou um pouco confusa e com um sorriso no rosto. Olhou para a esfera e, hesitando um pouco, disse em voz bem alta.

- COR DE BURRO QUANDO FOGE!!!!

Sarah observou atentamente a esfera, e os oficiais cientistas que viam a cena também observaram. A esfera formou uma linha curva em sua superfície terminando em um círculo. Rebecca riu um pouco e os cientistas ficaram incrédulos.

- Um... sinal de interrogação? – disse um deles que tinha se aproximado – porquê?

- Não é óbvio? – respondeu a Primeira-Oficial. – Ela não sabe que cor é essa. E confesso que nem eu, pois isso não é uma cor e sim uma expressão folclórica. – Ela deitou os olhos em Jevlack e o observou sorrindo e balançando as sobrancelhas, como se comemorasse uma vitória em particular.

- Então vou dar algo mais possível – disse Jevlack ainda na mesma posição. – Imite meu planeta natal.

Apenas Sarah com sua audição apurada ouviu o murmúrio dele. E ficou mais fascinada ainda quando a esfera assumiu a configuração de superfície de um planeta. Era meio amarelado, com grandes áreas vermelhas e azuladas.

-Computador, – disse Sarah rapidamente – grave imagem do objeto situado no setor 12-3-7.

- IMAGEM GRAVADA – respondeu a voz impessoal do computador.

- Agora... – ela olhou para Jevlack e sorriu docemente – compare a imagem com todos os dados armazenados sobre planetas catalogados e verifique se há alguma correspondência.

- SOLICITAÇÃO PODERÁ DEMORAR DOIS DIAS – informou o computador.

- Entendido. Pode executar.

Aquilo respondeu duas perguntas. A primeira, que a esfera pelo menos sabia a que raça Jevlack pertencia, e a segunda, que sequer tinha sido imaginada até então, de que conhecia o planeta de origem deste.

- Bom – disse ele sorrindo – acho que temos uma questão a ser resolvida...

- Realmente... – comentou ela.

****

- Diário de bordo, Engenheira Chefe Jeena Holtz registrando. O capitão e seu Primeiro-Oficial ainda se encontram na USS Atlantis, acompanhando a coleta de dados e os estudos efetuados na esfera que permanece orbitando ambas as naves, mantendo-se no limite do feixe de teleporte. Desde a nossa chegada, o objeto em questão efetuou uma gama de movimentos e sinalizações luminosas muito elevada e praticamente impossível de ser replicada por quaisquer dispositivos que conheçamos. Há pouco, fui informada de que boa parte destes movimentos foi causada por uma... interação que a esfera fez com a jovem tripulação civil da Atlantis. - Jeena suspirou um pouco e prosseguiu. - Na verdade, a esfera brincou com as crianças. Esta é a melhor palavra para descrever o evento. As crianças solicitaram que ela fizesse coisas e a mesma atendia, como mudar de cor e efetuar movimentos. No entanto, tal coisa não se repete quando os cientistas ou outros adultos tentam reproduzir o fenômeno.

A posição até o momento é de que a esfera possui uma inteligência de algum tipo, pode compreender perfeitamente nosso idioma e pode nos ouvir mesmo sem necessitar aparentemente de transmissores. Já há uma consideração de que devamos trata-la como uma criatura viva, talvez consciente. No entanto, não podemos considerar que realmente algum contato no sentido de trocar informações foi feito. Ela continua a ignorar nossas transmissões, a desafiar as sondagens e parece desejar nos manter a uma distância segura. Até o momento ainda não foi decidido um próximo passo para a pesquisa.

Jeena assinou o registro e recostou-se na cadeira. Era a primeira vez que assumia o comando por mais de um turno, mas estava pelo menos satisfeita pois em breve Stek e Jevlack retornariam. Não poderiam ficar muito tempo na Atlantis, deixando a própria nave sem nenhum deles. Mas era mais provável que Jevlack ficasse mais um pouco. Além de ele ser o Primeiro-Oficial da nave, era função dele liderar grupos avançados ou, neste caso, cuidar de relações mais burocráticas.

Claro que o motivo principal era o agora evidente interesse dele na vulcana. Que coisa... Jev gostava mesmo de vulcanos. Seus últimos três relacionamentos superficiais foram com mulheres desta raça. O que será que ele tinha para conseguir seduzir mulheres frias e impessoais como estas? Hum... será que ele lhe daria algumas dicas para com os machos? Tinha ouvido alguns comentários sobre eles serem verdadeiros insaciáveis durante a crise dos sete anos que passavam.

- Comandante, estou captando aquelas transmissões novamente.

Jeena se levantou e seguiu até o painel tático, ocupado no momento pelo oficial de segurança. Lá estavam elas de novo. Tinha começado desde a véspera, quando chegaram e iniciaram as primeiras sondagens da esfera. Era uma transmissão muito sofisticada, e claramente codificada. Parecia vir de algum ponto da sua nave, mas uma busca não revelou nada. Era por isso Gharb estava lá no comando do tático. Queria estar atento quando aquilo recomeçasse.

- Pode localizar a origem?

- Estou tentando. É muito próxima, mas parece dispersa.

- Faça o que puder. Vou informar o capitão.

Doze Horas Depois...

- Sarah?

Ela abriu os olhos um pouco sonolenta ainda e olhou para o relógio na estante ao lado da cama. Dormira por cerca de 40 minutos. Ele se inclinava de lado com o antebraço apoiado nos travesseiros e a cabeça encostada na mão, olhando-a.

- Oh... eu não pretendia dormir tanto...

Ele sorriu. Gostava de vê-la dormir. Era algo que lhe dava paz, mesmo que tivesse partilhado a cama com ela para dormir apenas poucas vezes.

O ciclo de sono dela era um pouco estranho para os humanos, mas nada que se comparasse ao dele, com 17 horas de sono a cada 43 dias. Ela dormia 2 a 4 horas a cada 30 horas e um sono completo de 8 horas a cada 10 dias. Aquilo era obra de seu treinamento para ações em campo, mas também era obra de sua sogra. Não era à toa que a tripulação da Atlantis pensara no começo que ela não dormia.

Bem, eles não haviam conhecido ele.

Jevlack sorriu para ela. – Vai ficar acordada enquanto eu estiver aqui, é?

Ela sorriu de volta, estendendo a mão para ele e acariciando seu rosto. – Pelo menos enquanto você estiver tão perto quanto agora... Não quero desperdiçar o tempo que tenho com você dormindo...

Jevlack pegou a mão dela e beijou-a. – Você vinha naquele seu ritmo exagerado... É natural que depois dessas horas juntos você tenha relaxado a ponto de dormir... – e sorriu para ela com ternura. Puxou-a para os seus braços, cheirando seus cabelos e pescoço. – Acho que é melhor conversarmos com essa esfera agora.

Sarah apenas espreguiçou o corpo languidamente e se sentou. Jevlack a imitou, ficando de frente para ela.

Sarah não precisava tocá-lo para aprofundar o elo, mas ainda assim eles se deram as mãos. Tudo o que ela tinha que fazer era direcionar – ser direcionada – a mente para o incrível elo que já partilhavam de forma a fazer com que suas capacidades psíquicas se complementassem. Ela se tornava a porta através da qual os poderes de Jevlack passavam – não em plenitude, pois jamais haviam tido tempo ou interesse em testar isso.

Através da capacidade de ler mentes dela ele não só captaria os pensamentos alheios, mas enviaria os seus próprios pensamentos, se assim o desejasse.

E aquilo era apenas uma expressão mais simples de seus poderes em conjunto.

Processador central ativado

Quem te chamou?

A esfera

Sarah...

Seu processador provavelmente terá alguma utilidade para ela, Janus

Dentro do mundo psíquico Jevlack via Sarah como uma translúcida e brilhante imagem dela mesma, aliás como ele mesmo se projetava. Para a sua surpresa viu uma imagem metálica de si mesmo, quase opaca.

É a ‘figura’ que seu processador central têm dele mesmo – Sarah explicou com um ‘sorriso’.

Que atrevido! – Jevlack resmungou. E aquilo podia ter uma representação virtual no mundo psíquico? Isso era estranho...

Sarah ‘riu’ enquanto eles flutuavam além da Atlantis em direção da esfera, que brilhava agora em dois tons, prata e dourado.

Sarah e Jevlack ‘voaram’ em volta da esfera de mãos dadas.

Isso é divertido!

Mas como despende muita energia, se torna uma diversão duvidosa

CALA A BOCA

Sarah ‘sorriu’. – Processador, você já deveria ter aprendido a ficar calado

Isso, às vezes, é inevitável, Sarah

Jevlack ‘olhou’ ameaçadoramente para o seu processador central, que preferira ficar do lado dela, oposto a ele.

BEM VINDOS

Uma voz suave e amistosa os saudou.

Eles se voltaram para a esfera.

Bem vinda também, esfera

É BOM CONHECÊ-LA, T’SARAHK DE SERNICK. É UMA DÁDIVA INCOMESURÁVEL AQUILO QUE VOCÊS DOIS PARTILHAM

Somos um só, esfera – Jevelack replicou.

SERÃO, SE ASSIM O QUISEREM

Este é o motivo da tua vinda?

SIM, JANUS

Ele a ‘olhou’ analiticamente, e isso se expressou numa pequena tempestade de luzes em sua cabeça translúcida.

Por que trouxe próteses novas? Eu não necessito trocar as minhas, pelo que sei

VOCÊ ESTÁ CORRETO, JANUS. AS PRÓTESES SÃO PARA SUA PAR

Os dois ‘arregalaram’ os olhos.

MENTALMENTE UNIDOS... – a esfera começou.

... mas fisiologicamente serão separados em poucas décadas – o processador central completou.

NÃO HÁ PORQUÊ, DEPOIS DE TUA LONGA BUSCA, DEIXAR QUE TUA COMPANHEIRA SE VÁ APENAS POR NOSSA OMISSÃO. TEMOS DEVERES PARA CONTIGO. VOCÊS SÃO O FUTURO DAQUILO QUE, APESAR DE NÃO SER MAIS O MESMO, PODE VIR A SE REESTABELECER EM OUTROS MOLDES ATRAVÉS DE VOCÊS...

Se eu entendi direito... – Janus começou ‘olhando’ para a imagem de seu processador central com certa raiva - não... eu não entendi mesmo! Que tal falarem abertamente?

TEMOS UM GRANDE DÉBITO A SER PAGO, MUITOS, NA VERDADE. NÃO PODEMOS PAGAR POR TODOS ELES, MAS PODEMOS AO MENOS DAR-TE A CAPACIDADE DE RECRIAR O TEU POVO.

Sarah ergue a sobrancelha, um pouco incrédula. ‘Companheira’? ‘Recriar o seu povo’?

Quem enviou você, Esfera?

VIM POR CONTA PRÓPRIA. CADA UMA DAS CRIAÇÕES DE TEU POVO QUASE EXTINTO TOMA SUAS PRÓPRIAS DECISÕES. ORIGINALMENTE FUI CONCEBIDA PARA SER UMA UNIDADE DE REPAROS, UM RETRINSEGERADOR PORTÁTIL PARA OS SOLDADOS DE ELITE DOS QUAIS TU ERAS PARTE. ENTRETANTO, TUA GUERRA TERMINOU. NÃO HÁ MAIS OPONENTES A SEREM COMBATIDOS. TAMBÉM NÃO HÁ MAIS UM POVO A SER DEFENDIDO – parecia que havia uma certa indicação de tristeza na esfera – A NÃO SER QUE DESEJES REALMENTE REINICIAR ISTO COM A COMPANHEIRA QUE JÁ SELECIONASTE

Não posso ter filhos – disse Sarah inesperadamente, dando uma compreensão real ao que estava sendo tratado ali.

NÃO TE PREOCUPES COM DETALHES MENORES, T’SARHK DE SERNICK. ESTOU AQUI APENAS PARA PERMITIR QUE PERMANEÇAS AO LADO DE TEU COMPANHEIRO PELO PERIODO DE TEMPO DE VIDA DESTE. ACEITAS A OFERTA?

Qual oferta?

Ela pertence a uma raça de vida mais curta que a sua, Janus. A Esfera está capacitada a igualar isso. Mas haveria uma questão irreversível. Ela não poderá desfazer o processo.

Que processo?

Implantar nela os mesmos dispositivos que estão em você. Em outras palavras, Sarah teria as mesmas próteses que você possui

Com um processador chato também?

Não faço parte destas implementações. Nos unimos depois, muito depois disto. Não tenho informações suficientes, mas uma parte de suas próteses não é originária de sua raça.

E como ela foi parar dentro de mim? Quem colocou você comigo?

UMA DAS RAÇAS AO QUAL FOSTE INCUMBIDO DE DESTRUIR.

Sarah olhou para Janus, sentindo uma grande confusão surgindo neste. Devia estar confuso com aquelas revelações. Pertencia a uma raça praticamente extinta. Era um soldado de elite desta raça, encarregado de combater raças oponentes. Mais do que isso, fora alterado bionicamente para estar mais apto a tarefa. Além disto ele tinha implantes feitos por seus inimigos?

NÃO TENHO INFORMAÇÕES A RESPEITO DE COMO OU QUANDO TAL COISA OCORREU. APENAS POSSO DAR-TE OS DADOS QUE POSSUO, E SÃO POUCOS A ESTE RESPEITO. NÃO FUI CONCEBIDA PARA COLETAR TAIS INFORMAÇÕES, APENAS PARA SUPRIR COM REPAROS OS SOLDADOS DE ELITE. T’SARAHK DE SERNICK: OFEREÇO-TE A POSSIBILIDADE DE ESTAR PRESENTE AO LADO DE TEU COMPANHEIRO PELO TEMPO DE VIDA DESTE, MAS TAL ‘DÁDIVA’ SERÁ IRREVERSÍVEL. SERÁS IGUALADA A ELE EM CAPACIDADES PROTÉTICAS E EM ESTRUTURA ORGÂNICA

Estrutura orgânica? Vai alterar meu código genético?

NÃO. ALTERAREI A ESTRUTURA MOLECULAR DE SUAS CÉLULAS. SERÁS AINDA A MESMA CRIATURA, COM AS MESMAS CAPACIDADES QUE DEMOSNTROU ATÉ AQUI. ESTE É O MOTIVO DE MINHA VINDA. NÃO TENHO MAIS INFORMAÇÕES PARA FORNECER, NEM EXPLICAÇÕES PARA DAR. APENAS AGUARDAREI TUA RESPOSTA.

****

Sarah piscou os olhos levemente e olhou ao redor. Estava no seu aposento, com Janus observando pela vigia. A esfera encerrou a comunicação e se despediu, dizendo que aguardaria sua resposta.

Sua resposta... deixar de ser o que era para se tornar... mas o que Jevlack era, afinal? Devia ter perguntado para a esfera. Ela com certeza saberia. Bom, teria tempo para isso depois. Por hora, tinha muito no que pensar.

E no que decidir...

- Vou voltar para minha nave, Sarah – murmurou ele ainda observando o que ocorria do lado de fora da vigia – acho que você deve pensar nisto sozinha...

- Janus... – ela se aproxima e o enlaça pela cintura – eu... o que você acha?

Ele não respondeu. Mesmo sua mente estava estranhamente em silêncio, de forma que não conseguia captar nada dele. Era como se ele pudesse ficar sem pensar em nada, em um tipo de concentração que poucos seriam capazes.

- Janus... – insistiu ela.

- O que quer que eu diga? – respondeu ele ainda sem se mover – eu quero que você aceite, mas seria uma escolha por demais egoísta da minha parte. Você seria tão egoísta assim? – ele se vira e a observa diretamente nos olhos – jogaria tudo fora apenas pela possibilidade de poder me acompanhar até o fim de meus dias? Seja lá quando isto ocorrer...

- A esfera veio sacramentar nossa união – ela pôs as mãos em seus ombros e sorria para ele – para ela, é uma forma de atender a sua programação: garantir a sobrevivência do povo que a construiu. Me sinto lisonjeada por isso... muito mesmo.

- Parece que já se decidiu...

- Quase... – ela olhou para baixo – não imagino de quanto seja sua perspectiva de vida... mas sem dúvida é muito superior a dos vulcanos. De qualquer forma, em termos puramente naturais, já irei viver mais que todos os humanos que conheço e com os quais estabeleci meus laços. E em termos lógicos, seria uma excelente oportunidade para literalmente poder explorar tudo o que sempre quis... pesquisas, passeios, conhecimento...

- E em termos pessoais?

- Você adora estragar tudo! – ela o soltou e andou um pouco pelo aposento. Olhou para seus objetos pessoais, em especial para a terra que lembrava sua origem e suspirou suavemente – Eu não sei... mas é a primeira vez em que sou consultada sobre o que quero fazer. Casei-me sem sequer saber o que isto significava. Fui enviada a Frota para atender aos desejos de minha mãe, trabalhei contra e a favor da Dissuasão pelo mesmo motivo... e mesmo esta não se incomoda muito com o que eu quero fazer ou não... e agora vem uma esfera não sei de que parte remota deste Universo e me pergunta se quero poder permanecer junto ao lado do homem que mais amo na vida, e mais do que isso... – ela se vira e o observa com uma expressão estranha – poder ter filhos... Como acha que estou me sentindo?

- Um pouco inebriada e com muito medo.

- Exatamente. Como ela faria? E como eu teria que agir depois disto? Tenho muitas coisas para considerar... muitas!

- Por isso que eu queria deixá-la a sós...

- DE JEITO NENHUM! – ela novamente se aproxima dele. – Isso não afeta apenas a mim, mas a nós dois! Não é uma decisão apenas minha... mas nossa! Estamos unidos para sempre, meu amado... nossas mentes, nossas almas... – ela começou a sorrir. – Porque acha que eu aceitaria tomar esta decisão sozinha sem levar em conta os seus sentimentos? Já fiz isso uma vez com outra pessoa e terei eternamente de me lembrar das conseqüências. Se você estiver feliz, eu estarei feliz. Minha função é por sua felicidade, pois a minha, você é quem irá cuidar. Como sempre foi, aliás. Janus... Diga-me abertamente agora e sem hesitação. Eu devo aceitar esta oferta?

Ele a olhou com certa surpresa e sentindo uma estranha explosão de alegria vindo de dentro de si. Sarah McKenna... a vulcana, a mulher que podia ser mais fria que um planeta errante tinha lhe dado uma incrível demonstração de amor e confiança. E agora queria uma resposta direta e sem hesitar da parte dele.

Por isso mesmo, ele não hesitou. Simplesmente disse o que queria que ela fizesse.

Eles e se fitaram ternamente. Ele a olhou feliz, muito feliz mesmo, apesar de ter um monte de dúvidas e conjecturas circulando ferozmente em sua mente por causa daquelas pequenas e novas revelações. No entanto, o fato de ela aceitar partilhar concretamente o futuro com ele completou de forma indelével o que tinham, o que eram e, agora, o que seriam.

- Você tem certeza, amor?

Ela sorriu para ele com paixão. – Totalmente, Janus. Estou recebendo mais uma dádiva...

Ele a abraçou. – Não, é você que está me concedendo uma...

Eles se amavam, sentiam muita falta um do outro, mas agora podiam ter paciência fundamentada em algo concreto: teriam tempo, de verdade, para aguardarem o momento certo de ficarem juntos.

Ao Mesmo Tempo...

- Peculiar, – murmurou Melrik observando a esfera pela tela da ponte – já faz trinta e seis minutos desde que a esfera encerrou completamente com o ciclo de cores e que ficou estática em relação a nós.

Diana olhou para o lado e estranhou mais ainda Sarah ainda não ter aparecido. O pessoal do turno a avisou da mudança de comportamento da esfera e ela imediatamente foi até a ponte, logo seguida de Melrik. Não havia nada ainda para ser preocupante, mas era um verdadeiro absurdo Sarah não ter chego ainda. Estava pensando seriamente em chamá-la. Era bem possível que ela e seu namoradinho estivessem dormindo depois de uma confraternização mais fatigante de ambos.

Que palavra estranha ela usou para dizer que estavam transando... ‘confraternizar’. Isso lhe permitiu um pequeno sorriso, que logo desapareceu.

- Algum sinal nos sensores?

- Nenhum, capitã. Exceto pelo visual, a esfera está totalmente invisível aos nossos sistemas, e também aos sistemas da Thunderbold. Só podemos medir sua distância pela diferença de captação de imagem entre nós e a outra nave.

- E quanto aos resultados daquela amálgama?

Melrik a observou por alguns instantes e seguiu lentamente pela ponte, atravessando esta diametralmente em direção ao seu posto. Sentou-se e acionou alguns comandos, buscando dados arquivados do departamento de análises químicas.

- Por enquanto, – ele moveu a cabeça para trás e abriu levemente a boca, antes de prosseguir – foi determinada a composição química do objeto de pesquisa. Ele... fascinante!

- Melrik, – Diana estava com um tom de voz compreensivo, mas também um pouco impaciente – diga logo!

- É um composto mineral. Estou observando a estruturas moleculares encontradas neste. Não seriam muito excepcionais se não fossem análogas às estruturas de proteínas de nossos corpos – ele girou a sua cadeira de forma a encará-la nos olhos. – Capitã, aquela amálgama é uma estrutura metálica equivalente a estrutura orgânica de uma ameba.

- Aquilo... está vivo?

- Eu diria que sim. Mas acredito haver mais curiosidades a respeito desta... a estrutura desta que poderia se afirmar ser um tipo de cromossomo, segue a linha de montagem de um cromossomo humano e... vulcano. É peculiar, aliás, a estrutura híbrida desta união. Conheço bem este formato, pois pesquisei muito na minha época de formação em ciências acadêmicas de Vulcan. Eu era fascinado pela possibilidade de união entre tantas espécies diferentes e até mesmo nocivas entre si. Em especial entre humanos e vulcanos. Há uma forma engenhosa e impressionante de como os genes se torcem para conseguirem se conectar com seu par, de forma...

- Vamos ser mais objetivos, Melrik. Porque o departamento não informou suas descobertas? Isso é uma falha grave.

- Perdoe-me por minha exaltação, capitã. Quando a sua pergunta, creio que eles simplesmente não perceberam isto. De fato, só um biólogo perceberia tais semelhanças. Ainda estão estudando a amostra. Vou pedir para que o departamento de biologia trabalhe em conjunto com eles. Se me der licença...

- Concedida. E se passar no aposento de Sarah...

- Ela está indisponível, capitã.

- Como?!

Melrik apertou os lábios levemente e se aproximou dela, de forma e lhe falar em voz mais baixa.

- Capitã, notou uma certa sensação estranha em sua mente?

- Se está falando de algo como que pressionando e abraçando minha alma, sim. Pensei que era a esfera.

- É Sarah e Jevlack. Estão unidos mentalmente. De uma forma que muito me impressiona, pois nunca imaginei que um vulcano, mesmo alguém como Sarah, seria capaz de tal união. Para meu povo isso é algo muito íntimo e de confiança total entre as partes envolvidas. Perturbá-los agora seria como interromper o ato sexual de um casal humano em sua lua de mel.

- Hã... grata pela sinceridade... – ela sorriu levemente em seguida.

Momentos Depois...

Jevlack e Sarah entraram na ponte da Atlantis e esta foi direto para junto de Diana.

- Diana, pode chamar o capitão Stek para uma conversa com nós três agora?

O’Conell sabia que algo acontecera e que, finalmente, talvez tivessem algumas respostas. Mas também soube de imediato, pela forma como Sarah falara com ela, que aquilo era particular e que não envolveria, pelo menos por enquanto, suas atuações profissionais.

- No meu gabinete?

- Sim.

O gabinete de Diana não fazia registros sonoros e visuais. O assunto era realmente restrito.

- Aguardem-me lá, Sarah.

McKenna apenas assentiu.

****

Sarah estendeu uma xícara de chocolate quente para Jevlack, que saboreou a bebida observando o gabinete de Diana.

Três poltronas dispunham-se em frente a mesa, sobre a qual, além do display vertical do computador, havia uma holofoto de Richard O’Conell sorridente e em trajes típicos irlandeses, um vaso pequeno de violetas e um conjunto de três vasos chineses bem pequenos.

A um canto, pendurado, havia um carrilhão de sinos de vento de bambu, e Jevlack se indagou se eles haviam tocado alguma vez, apesar de estarem posicionados de fronte ao circulador de ar.

O replicador de alimentos ficava abaixo destes e logo em seguida havia a entrada da sala de reuniões dos comandantes:

- O cesto * - Sarah disse sorrindo, pousando as xícaras de volta no replicador.

Jevlack também sorriu. Achava a equipe que comandava a Atlantis excepcional, mas sabia que não havia lugar para ele ali, a menos que Sarah fosse a Capitã e ele seu Primeiro-Oficial. Ainda assim, ele e Sarah juntos seriam muito mais que aquela tripulação – e a Frota – agüentariam.

Sarah sorriu, acompanhando seus pensamentos.

- Curioso... o gabinete de Stek é bem mais mobiliado... tem até hologramas de alguns planetas e pelo menos uma escultura em cristal de uma nave Constitution – Sarah o observou interrogativamente: – ele ganhou depois de sua prova final na Academia, em uma nave desta classe.

- Não foram feitas muitas naves desta classe, mas reconheço que foram graças a estas que a exploração do espaço pela Federação realmente começou. Foram inclusive a base para as de classe Miranda. Como estas eram mais rápidas de se fazer, as de classe Constitution foram encerradas, e as poucas remanescentes aproveitadas para treinamento.

- Grato pela aula histórica, – retrucou ele sorrindo – mas, na minha opinião, esta classe de nave é bem mais bonita que as atuais. Revelam que as mesmas foram o melhor possível de ser criado com o que se tinha disponível na época. Afinal, todas as naves de hoje seguem a linha que ela determinou. Uma seção disco e uma seção de engenharia.

Diana e Stek entraram nesse momento. A curiosidade estava estampada nos rostos deles.

- Bem, estamos aqui, senhores.

Jevlack não fez rodeios. – Fizemos contato direto com a esfera e já sabemos quais seus objetivos.

Stek ergueu a sobrancelha. – E então?

- Ela está aqui por nossa causa. Seus objetivos, só a nós dizem respeito.

- O quê? – Stek estava admirado. – Isso significa que os senhores não vão revelar os motivos dessa esfera alienígena estar aqui?

- Exatamente, capitão – Jevlack falou enfaticamente.

Diana encarou Sarah, sabendo perfeitamente que ela diria algo mais.

- O que vocês precisam que nós façamos, Sarah?

Sarah sorriu para ela. Diana era realmente sua amiga.

- A esfera não se prestará aos interesses da Dissuasão, Diana. Ela está aqui para realizar algo e depois partirá. Não permitirá que a usem, analisem ou capturem. Na verdade, vocês não têm meios para fazer isso.

- Fala como se fôssemos... estranhos – disse Stek ainda mais curioso agora.

- Desculpem, – Jevlack tomava a palavra – mas neste assunto, existem vocês... e nós... – disse de forma um pouco melancólica, como se não apreciasse muito aquilo, apesar de ser verdade. - Por tanto precisamos da cooperação de vocês para manter separados aquilo que sabem sobre nós como amigos do que será possível se por em seus relatórios de capitães.

Stek os fitou. – Oficialmente não temos dados relevantes que possam comprometer vocês dois, Jevlack. Se a esfera simplesmente fosse embora agora, tudo o que poderíamos fazer seria entregar nossos relatórios do jeito que estão.

- Capitão Stek, - Diana cruzou as mãos a sua frente – os objetivos da Dissuasão com respeito aos possíveis conhecimentos que possam obter com a esfera são os mais escusos possíveis. Pessoalmente já fiz muitos trabalhos para o Departamento dos quais não me orgulho, mas agora, especialmente, me darei o direito de não compactuar com pessoas com as quais não tenho nenhum laço. – Diana se sentia como que se alforriando. – Além do mais, não existe ninguém em nossas naves e em toda a Frota que possa convencer Sarah McKenna a fazer algo que não queira.

Stek quase sorriu de volta. – Existe sim, capitã: mas quem irá convencê-lo? - e ele olhou para Jevlack de rabo de olho.

Os quatro sorriram.

Logo Depois, Na Thunderbold...

Ela ficou muda. Olhava para a frente, para o vazio e se perguntava se tinha ouvido isto direito. Ninguém na engenharia lhe dava atenção, todos estavam ocupados com seus afazeres para sequer prestar atenção na conversa que a mesma estava tendo usando o seu comunicador. Jeena Podia entender que Jev pedisse tal coisa maluca para ela, mas... o capitão Stek?

- Senhor... poderia repetir, por favor?

- OFICIAL HOTZ, EU SOLICITEI QUE ABAIXE OS NOSSOS ESCUDOS E EJETE UMA CÁPSULA COM DOZE QUILOS DE ANTI-MATÉRIA AO ESPAÇO. E ISTO DEVE SER REGISTRADO COMO UMA ORDEM MINHA. QUEREMOS FAZER UM TESTE MAIS DIRETO COM O OBJETO ALIENÍGENA, ENTENDIDO?

- Eu... capitão, com todo o respeito... ficou maluco?

- ESTOU PLENAMENTE NO CONTROLE DE MINHAS FACULDADES, OFICIAL – a voz dele até parecia levemente jocosa. – CARREGUE A CÁPSULA E A EJETE. DEPOIS DISTO, PODE RETORNAR AOS SEUS AFAZERES.

- Sim, senhor – bufou ela meneando a cabeça. – Ele anda muito com Jev... só pode!

Na ponte da Atlantis, Faye observava o objeto ejetado pela Thunderbold. Tinha sido avisada de que algo assim iria ocorrer, mas não lhe deram muitos detalhes. Ela devia apenas observar o que iria ocorrer e, na hora apropriada, acionar os comandos do raio trator.

- Com licença? – disse uma voz feminina que acabara de sair do turboelevador – Joshua? Onde está a capitã?

- Está verificando umas coisas no hangar, – respondeu ele sentado no assento da capitã – e já lhe aviso que não será bem vinda ali no momento. É assunto... confidencial.

- Que ótimo! Então vai ser com o senhor mesmo, comandante. Terminei o perfil psicológico de nosso novo alferes, e tenho que dar algumas ressalvas para ele ter sido escalado para participar da segurança.

- Que ressalvas?

- Ele tem fobia de armas – disse ela sorrindo e cruzando os braços. – Vai precisar de algum tratamento de acompanhamento.

Joshua quase abriu a boca.

- Completamente? Ou é apenas alguma crença religiosa ou pessoal?

Gina sorriu para ele com um pouco de desdém. – Ele simplesmente tem medo delas.

- Tentou hipnose?

- Sim, comandante. A fobia é verdadeira e precisará de um tratamento mais longo, se for o caso de se insistir com a designação dele.

Joshua observou a tela, acompanhando indiretamente a movimentação da cápsula ejetada da outra nave pelo raio trator.

- Ele sem dúvida dará um excelente soldado de infantaria, principalmente por sua capacidade motora rápida para combates corpo a corpo – sorriu, sem nenhuma raiva de Dycon. – Inicie o tratamento adequado, Stuart. Veremos em seguida uma melhor forma de contornar essa característica do sr. Wilkins.

Gina bufou, pondo as mãos na cintura. – Vocês não se importam nenhum pouco com ele, não é mesmo?

- O relatório de desempenho dele do sr. Miox me pareceu bem acima da média para alguém engajado repentinamente, Gina. Pelo menos do treinamento corporal ele tem gostado e se empenhado bastante. Todo mundo tem problemas. Acha que ele seria diferente?

Stuart apertou os olhos e deu-lhe as costas, indo na direção do turboelevador. – Sim, todos têm problemas, uns mais, outros menos, não é, Joshua?

Quando ela saiu, Wiser, que era o segundo piloto e naquele momento substituía Sarah, murmurou:

- Por que ela sempre está dando um jeito de arranjar problemas?

Faye Jokovick, no Tático, balançou a cabeça numa concordância muda.

- Não são bem problemas que ela quer arrumar. Podia esperar perfeitamente a próxima reunião para comunicar isto, ou apenas informar Miox do assunto. Mas ela se aproveita de seu status de civil com acesso a ponte para falar destes assuntos – ele olhou para a porta do turboelevador que ela tinha acabado de usar. – Ela é uma excelente profissional em sua área, e até poderia conseguir o nosso respeito se agisse de acordo. Diabos! O que esta mulher quer afinal? Já conheci inimigos bem mais eficientes do que esta nossa... conterrânea.

- Ás vezes, acho que estamos sendo muito duros com ela...

- Senhora Jokovick... – Joshua a olhou com uma expressão de cansaço – como eu disse, ela é uma excelente profissional em sua área, mas uma incompetente total em ser espiã. Devia desistir disto e pensar melhor no que quer realmente fazer.

O que será que o Departamento fazia para ela ser tão dedicada a este? Será que fizeram lavagem cerebral nela? Não... Sarah descobriria isto e usaria isto a seu favor. Talvez até se tornasse amiga de Gina se fosse este o caso. Nada como uma espiã que sabemos quem é para passar as informações que se deseja que sejam conhecidas. Não, não era este o caso. Mas também não devia ser nada de coerção ou desespero.

Bom, não era seu assunto aquilo. Por hora...

- SENHOR! A ESFERA.... – gritou Faye – não acredito.. – terminou murmurando em seguida.

Benrubi se levantou e observou o que ocorria. A esfera simplesmente se lançou contra a Atlantis e passou quase raspando ao longo de sua seção de engenharia, literalmente a centímetros dos suportes das naceles. Agora a tela mostrava a mesma atrás da nave, diante da porta do hangar.

- O hangar está se abrindo, – disse Wiser olhando seu painel e não acreditando naquilo – e não houve nenhum aviso disto. Não está sendo feito por nenhum comando da nossa nave.

Benrubi saltou da cadeira de comando e foi para o tático. Verificava os diagnósticos e controles de sistemas e tudo estava normal, exceto que a porta do hangar se abria sem autorização ou comando interno. Ele tentou fechar a porta, mas o comando, apesar de indicado como aceito, não fez nenhum efeito.

- Alerta vermelho! – disse ele rangendo os dentes – Faye, envie um grupo armado ao hangar, eu estarei indo para lá.

Ele já estava a meio caminho do turboelevador quando o alerta vermelho parou de soar. Parou assustado com isto e olhou para o painel tático. Faye apenas erguia os ombros.

- SENHOR BENRUBI, EU CANCELEI O ALERTA VERMELHO. DESCULPE NÃO TÊ-LO POSTO A PAR ANTES, MAS EU TAMBÉM NÃO SABIA QUE ISTO IRIA OCORRER. – Era a voz da capitã pelo áudio.

No Hangar...

Diana observava a esfera entrando lentamente pelo hangar aberto. Ela não brilhava mais, e parecia ser feita de uma superfície cristalina. Algo como se fosse metal e cristal misturado. Será que era por isso que ela podia gerar todo aquele show de luzes?

Diante dela, bem próximos da porta estavam Sarah e Jevlack de mãos dadas. Iriam inicialmente embarcar em uma nave auxiliar e seguir até a esfera, mas esta aparentemente decidiu se adiantar por algum motivo, e foi pegá-los ali mesmo no hangar, causando toda aquela confusão na ponte com Benrubi.

Jevlack olhava a esfera e se sentia um pouco ansioso. Era engraçado, pois essa sensação era nova para ele.

A mão sempre quente e seca de Sarah estava gelada entre a sua. Sentia com clareza o que ela estava sentindo: seu sangue circulava num turbilhão frenético estimulado por altas doses de adrenalina. Ela estava emocionada, curiosa, excitada, com medo. Mas segura. Absolutamente segura. Não havia dúvidas em sua mente, apenas curiosidade. Agora, talvez até mais do que ele, ela queria saber tudo o que pudesse sobre o que se tornaria, resgatar uma história e um passado para a espécie da qual faria parte dali em diante.

Eles ouviram o chamado silencioso da esfera e avançaram em sua direção.

O que aconteceria Diana talvez nunca soubesse, por maior que fosse a amizade que crescera entre elas nos últimos anos. Mas sentia a felicidade de Sarah. Era tão esquisito sentir isso ao invés de conjecturar isso pelo que conhecia dela e do assunto em questão.

Sentir... sentir as pessoas... Mas agora não tinha como ignorar isso. Sarah lhe dissera que não criara um elo efetivo entre eles no caso dos musgos, mas que, de forma natural, um proto-elo se formara entre eles, muito tênue, muito delicado, suficiente apenas para partilharem sensações muito fortes e a curta distância uns dos outros, e ainda assim sem muita força. Melrik afirmara-lhe que esse proto-elo poderia ser aprofundado automaticamente por situações extremas, muito extremas, ou por vontade de todos os participantes deste. Mas eles precisariam de treino para aprender a respeitar os limites necessários a partilhar algo tão... intenso.

De um certo ponto de vista eles quase formavam uma família pelos moldes vulcanos.

Diana olhava para a esfera.

Eram uma família sem esse elo. Agora eram mais ainda com ele.

O pacto que haviam feito por necessidade de se protegerem mutuamente de seus inimigos agora era uma questão particular para cada um deles.

Diana engoliu em seco quando Sarah e Jevlack foram tragados pela esfera como se ela fosse uma bolha de água. Esta rodopiou sobre si mesma e saiu do hangar com suavidade, num movimento tão leve e gracioso que – talvez fosse absurdo – parecia uma dança. A esfera parecia muito satisfeita consigo mesma.

No laboratório de pesquisas químicas, um vulcano se maravilhava com o que observava a sua frente. Constantemente desviava o olhar do monitor para a proveta que possuía a amálgama que tinha sido levada ali para estudos. Inicialmente parecia ser composta de um material inerte, mas isso nunca poderia explicar sua forma amebóide de se mover.

Agora, no entanto, depois de sua descoberta na ponte ele sabia o que procurar. E tinha encontrado o que precisava. Descobrira o segredo para estudar aquele composto, observar suas ligações químicas. Apesar de material considerado inerte, aquilo era sem dúvida vida. Vida metálica! As composições que se assemelhavam a proteínas fluíam internamente fazendo a massa se mover, da mesma forma que uma ameba se move. Outras ligações davam consistência de lipídios, e outras ainda tinham uma torção característica de DNA.

Era nisto que estava concentrando sua atenção agora. A cadeia de DNA conhecida era composta de quatro proteínas, mas pelo que analisou inicialmente, esta cadeia talvez fosse formada por seis. Isso dava 50% mais de recursos para esta forma de vida de se desenvolver além da biodiversidade conhecida.

Mas havia um problema... este terceiro par era raro, e pouco aparecia na seqüência do suposto DNA metálico. Talvez tivesse pouco uso, e talvez fosse até uma mera anomalia. Se não fosse um detalhe que lhe chamou a atenção vindo diretamente de sua memória...

Ele pára de examinar o DNA no monitor e se concentra, tentando se lembrar. Já tinha visto algo assim. Um terceiro par de proteínas genéticas que surgiram por mero acaso, decorrentes de experiências biológicas que muitos considerariam proibitivo moralmente. Foram devidamente esterilizados para não causar problemas no ser vivo que iria se desenvolver.

Sabia disto pois o seu trabalho, então um jovem recém saído da academia de ciências, fôra o de justamente identificar os pontos dos núcleos genéticos em que estes genes se localizavam. Um trabalho tedioso e monótono demais para se deixar ser feito levianamente. Sua característica de ser metódico e detalhista foi o fator que determinou ele ter sido escolhido para a tarefa.

Não se lembrava muito bem agora dos detalhes, mas uma coisa se lembrava, tanto que chegou a escrever uma tese sobre o assunto: o gene em questão ocorria a cada doze seqüências de genes normais, pulava duas carreiras de genes disparadores, e depois se repetida por mais seis ou sete vezes, para então pular mais duas carreiras. Voltou sua atenção para o monitor para examinar a seqüência que percorria aquela possível cadeia de DNA metálico e não se mostrou surpreso ao perceber que o mesmo padrão estava ali.

Talvez aquela sua velha tese se tornasse uma boa fonte de estudos para se pesquisar sobre a forma universal de como genes podem se ordenar para formar cadeias nucléicas. A seqüência de genes daquele DNA metálico era tão padrão que ele até poderia apostar – caso vulcanos tivessem tal hábito – que talvez fosse similar a de alguma criatura viva. Não precisou se esforçar muito para determinar a equivalência de proteínas orgânicas que aquelas metálicas teriam, e passou a comandar o computador para desconsiderar o fato de estar analisando átomos metálicos e compor um quadro nucléico completo, determinando o total de genes e de cromossomos que a massa disforme deveria possuir.

Dez minutos depois seus olhos se abriram levemente e sua empolgação se tornou ceticismo. A seqüência final indicava que eram estruturas de um...

Ele torna a observar a massa metálica e ergue a sobrancelha. Devia ter esperado por aquilo. A massa veio da esfera, e a esfera já mostrou o seu interesse por eles. De fato, talvez estivesse tentando dizer sutilmente o que pretendia desde o começo, mas ninguém se preocupou em descobrir isto. Todos ficaram encantados demais com a sua presença para avaliar os detalhes e as implicações.

Tornou a observar o monitor e se levantou. Já tinha a sua resposta, mas considerava que sua descoberta ocorrera tarde demais para fazer qualquer diferença.

- Melrik para a Capitã.

- NA ESCUTA, MELRIK.

- Capitã, onde está a Imediato McKenna?

- ELA SE ENCONTRA... EM OPERAÇÃO EXTERNA.

- Externa?

- ELA ENTROU NA ESFERA, MELRIK. NÃO SEI O PORQUE, MAS ELA DISSE QUE ERA MUITO IMPORTANTE PARA SI.

- Entendo.. capitã, eu queria a opinião dela sobre uma descoberta que fiz, mas agora compreendo que já tenho a reposta. Esta amálgama possui genes e cromossomos, e em uma análise pormenorizada, determinei que são o equivalente metálico para a estrutura genética de um híbrido humano e vulcano. Acredito que não terei surpresas se, ao comprar estes dados com a ficha clínica da Imediato, os resultados sejam coincidentes.

- POIS EU ACREDITO QUE FICARÁ SURPRESO SE OS RESULTADOS NÃO FOREM IGUAIS.

- Exatamente, capitã. Deseja que eu prossiga nos exames?

- NEGATIVO. RETORNE A PONTE E GUARDE ESSA AMOSTRA EM UM LOCAL MUITO SEGURO. E... APAGUE TODOS ESTES DADOS DO COMPUTADOR.

- Perfeitamente, senhora.

Dentro da Esfera...

Eles se olharam por uns segundos e depois sorriram. O que houve a seguir a deixou um pouco preocupada. Simplesmente a esfera se aproximou e os... consumiu! Eles desapareceram dentro dela, como se a sua superfície fosse feita de líquido. Logo em seguida a esfera se afastou e saiu do hangar.

Alheios aos acontecimentos externos, Sarah e Jevlack tomaram consciência de suas presenças dentro da esfera, abraçados e com os rostos encostados. Agora a festa de cores e brilhos era dentro da própria esfera e a ausência de gravidade fez seus corpos flutuarem suavemente em meio aquele jogo de cores e brilhos, sendo que aquilo não era a esmo, mas coordenado.

Eles sentiam lampejos de antigas atividades que a esfera executara, ordens coordenadas vindas de seres que se assemelhavam a Jevlack em uma língua estranha e rápida... Depois, as memórias da esfera se direcionaram para seu próprio trabalho, em meio a nebulosas e destroços de batalhas...

Ainda não tinha tido tempo para avaliar onde estava. Sabia que estava dentro da esfera, mas desde que viu sua parede esférica externa a envolver, não tinha visto mais nada. Era como se não tivesse mais olhos.

No entanto, parecia que via algo. Um jogo de luzes surpreendente que a cercava e a acariciava. Janus estava lá com ela, mas não o via, nem mesmo o sentia, mas ele estava lá com ela, conversando, abraçando, beijando, acariciando...

Mas não conseguia ver isto. Não via, não senta, não ouvia... mas sabia que estava ocorrendo, sabia que ele estava lá com ela, protegendo-a de qualquer coisa que pudesse ameaça-la. Ela devia se entregar a isto... devia simplesmente curtir o momento e aproveitar a estranha e linda sensação. Mas sua mente vulcana teimava em tentar analisar e dar sentido àquilo. Como a esfera faria? Como iria alterar seu corpo com ela consciente? Não iria sentir nada? Aliás, como ainda não sentiu nada que já poderia estar sendo feito consigo?

Se sentia uma idiota com estes pensamentos surgindo sem controle, mas não podia evitar. Estava curiosa.

E apavorada.

Sabia perfeitamente as conseqüências de sua escolha. Tudo o que iria preservar seria sua – talvez – personalidade, e mais nada. Seu corpo teria a mesma forma, mas não seria aquele com o qual nasceu e cresceu. Algumas vezes, nos momentos que antecederam a sua entrada na esfera ela ficou se perguntado: Porque ela? O que ela tinha de especial? Só porque tinha se unido a uma criatura cuja raça nem a própria conhecia? Isto estava acontecendo só para fazê-la feliz? Apenas isso?

Acha pouco?

O pensamento não foi seu. Não sabia de onde veio ou de quem tinha vindo, mas sabia que não era seu, apesar de parecer que ela tinha pensado nisto... pare de se preocupar e ocupe-se de amar seu companheiro de uma forma que nunca mais poderá repetir.

Lá Fora...

- Captando flutuações de energia no setor 775 marco 12, sr. Benrubi.

O hangar continuava restrito mesmo depois que a esfera o deixara. Esta, apesar disso, continuava muito junto da nave, como se tivesse se esgueirando junto desta para se proteger. A capitã, ainda no hangar com o capitão Stek, ordenara a expansão máxima dos escudos para facilitar a proximidade da esfera, que agora estava sob o escudo da nave. Benrubi só não questionara o porque disso. Mas agora parecia ter a resposta.

- Naves romulanas?

- Não temos indicações precisas, sr. Mas a assinatura da camuflagem se assemelha a deles.

Benrubi ponderou um pouco. – Se assemelha, Faye? Quais as diferenças?

- A freqüência é diferente – murmurou ela. – Segue uma sincroniza muito similar a cadência de escape de motores de naves da Federação.

- Hum... – murmurou o oficial – acho que alguém anda muito curioso com a falta de informação deste evento – completou ele cruzando os braços e maneando a cabeça, ao mesmo tempo em que dava um sorriso cínico.

- Senhor?

- Deve ser uma das queridinhas especiais da Dissuasão. Acho que eles só têm duas que podem se camuflar. Devem estar muito interessados no que ocorre aqui mesmo. Captou alguma sondagem?

- Ainda não, senhor.

- Fique de olho. E... – ele olhou para o monitor e moveu os olhos esquadrinhando a tela de cima a baixo – onde está a esfera?

- Eu... – ela ficou um pouco preocupada – não consigo localizá-la... vou tentar os monitores externos.

A tela da ponte ficou mostrando as imagens que Faye acionava tentando localizar a esfera. Como seus sensores não a estavam mais captando, a única forma de achá-la seria visualmente. Isso se ela não tivesse ficado negra para se camuflar melhor.

- Ali, – apontou Benrubi – ela está lá.

- Deixe-me ver... ela está entre as duas naves. Porque ela foi até ali?

- Talvez para se proteger – disse ele apertando os olhos. – Ainda está captando aquelas flutuações de energia?

- Sim, senhor.. parece que... está se aproximando.

- Alerta amarelo, – pediu ele lentamente – quero todos a postos.

- Acha que uma nave das nossas... – ela gaguejou um pouco quando notou o olhar dele – quer dizer... uma nave que deveria estar do nosso lado pode nos atacar?

- Eu atacaria, – murmurou ele – se recebesse ordens para isso.

****

O copo balançava lentamente na sua mão, esboçando a preguiça que tinha de levá-lo a boca. Suas pernas apoiadas na mesa de centro pareciam compartilhar de sua preguiça, tanto que seus dedos se moviam como se estivesse espreguiçando-se. A outra mão jazia apoiada em sua nuca e massageava esta docemente, como que imitando um amante ausente.

Mas a única ausência real ali era sua auto-estima. O corpo de Gina Stuart estava lá, mas sua mente se perdia em indagações e em tentativas de respondê-las.

O que ela estava fazendo ali afinal? O que tinha realmente a ganhar além de uma contínua guerra contra os oficiais da nave? Uma guerra, aliás, que parecia estar perdendo, tanto profissionalmente como socialmente.

Uma guerra na verdade que já tinha perdido.

Seus olhos observavam as estrelas que eram possíveis de se ver pela vigia. Ocasionalmente o movimento da nave permitia que uma parte da Thunderbold aparecesse lentamente, como um navio atracando em um porto, para depois novamente sumir na mesma velocidade da sua vista.

Ergueu o copo e bebericou um pouco mais o conhaque que ela tinha em sua dispensa pessoal. Raramente recorria a este e até preferia guardá-lo para uma festa mais íntima e alegre – já tivera algumas ali, mas todas com a parte menos problemática da nave, incluindo um civil.

Riu um pouco... não foi um mero civil, mas sim uma civil! Uma bela jovem filha de um dos oficiais da engenharia. A festa particular também foi decorrente de suas atribuições de psicóloga, no interesse de auxiliá-la a perceber que medos e receios deviam ser enfrentados quando ameaçavam se tornar fobias. Claro que ela também tinha um interesse todo especial no assunto pois sempre foi curiosa para saber como seria relacionar-se com uma pessoa do mesmo sexo.

Bom, ambas descobriram, e não chegaram a ficar muito satisfeitas – exceto no quesito de atender a curiosidade – e a jovem percebeu que toda a fantasia que tinha concebido para aquilo foi por demais exagerada. Não foi um momento por demais íntimo para marcá-la pela eternidade, mas ela também disse que não foi algo para ser esquecido.

Ela era assim, incapaz de separar a vida social da vida profissional. Uma complementava a outra e uma estava contida dentro da outra. Não conseguia deixar de ser psicóloga e não conseguia evitar que seu desejo de executar cada consulta profissional também fosse uma conquista pessoal, uma vitória. Quando auxiliava alguém sempre se sentia como se tivesse ido a um shopping e comprasse algo que muito desejava.

Sabia que era isso que antagonizou em Sarah McKenna desde o começo. A separação entre o eu profissional e o eu social dela era total e absoluta. Quase como se fossem duas personalidades separadas e que cada uma assumisse o controle na hora apropriada mediante um tipo de sinal prévio. E isto a deixou profundamente magoada com o fato. Ninguém conseguia fazer isso! Nem a capitã ou o melhor vulcano podia se isolar totalmente em suas camadas sociais de relacionamentos.

Mas Sarah fazia isso.

E muito bem!

Ela, por outro lado, acabou misturando tudo plenamente consciente das conseqüências possíveis. Gina Stuart era uma mulher cheia de vida e uma profissional cheia de vida. Aplicava em sua vida social tudo o que sabia de sua vida profissional e vice versa. A todo instante, seja em conversas informais ou oficiais ela também era uma psicóloga, e em suas consultas ela também era uma mulher que tentava se relacionar com seus pacientes de forma normal.

Algo que muitos colegas de profissão condenariam.

Mas eles que torcessem o nariz. Uma pessoa que se abre contigo está querendo ajuda, não um monte de palavras vazias para fazê-lo pensar melhor na vida. A maioria quer apenas alguém para desabafar, e certas coisas podem ser bem desabafadas com completos desconhecidos ou em quem se confia.

E quase todos os pacientes que teve na nave confiavam um pouco nela. Ao menos o suficiente para falar de seus problemas, ou ao menos do que consideravam problemas.

Menos a cúpula...

Então, o que fazia ali? Melhor ainda, porque aceitou a imposição para ser uma das agentes de campo da Dissuasão? O que queria com isso? Ser uma espiã glamurosa?

Claro que não...

Ela não gostou de ser transferida, mas depois encarou isso como um novo desafio, algo que nunca tinha feito antes. Chegou mesmo a pensar que sua habilidade desenvolvida como psicóloga para que confiassem nela seria útil nesta empreitada. E foi!

Várias vezes ao longo de sua carreira no Departamento ela percebeu várias nuanças nos agentes que entrevistava, de forma a dar o seu parecer – quase sempre correto – de quando algum deles poderia ter se comprometido com o resultado esperado e quando não. Ajudou a montar equipes inteiras de operativos para as mais diversas missões. Identificava quem fazia tudo pelo dever e quem tinha grandes ressalvas em quebrar algumas regras, de forma que tudo fora muito útil aos seus empregadores.

Ela tomou mais um gole e fez uma careta. Porque então estava ali? Porque a tiraram da estação para deixá-la lá, largada com uma missão muito estranha de espionar os oficiais? O que eles fizeram que era necessária uma avaliação de lealdade?

Estavam com medo deles? E se estivessem, do que seria?

O que quer que fosse, a resposta parecia estar mais e mais longe de suas mãos. Fôra bloqueada logo nos seus contatos iniciais e constantemente humilhada de forma sutil em todas as ocasiões possíveis. Esperava mesmo que eles chegassem a menosprezar algum parecer que desse sobre algum tripulante – coisa que acabou ocorrendo algumas vezes – para que percebessem que se não trabalhassem com ela, poderiam ter problemas graves. E o que conseguiu com isso?

Nem mesmo um bom trabalho. Nada! Simplesmente ignoravam quando ela fazia seu trabalho a contento ou até acima deste. Eram indiferentes até mesmo a alguns meros pedidos de cortesia.

Seus lábios se apertaram com mais força e logo depois o copo de sua mão voou diretamente para a vigia, estilhaçando-se no processo e espalhando o seu conteúdo como se ocorresse ali uma pequena explosão estelar. As luzes das estrelas assumiram uma bonita e interessante luminosidade refratada quando passavam pelo líquido que escorria no vidro.

Mas ela não estava observando mais. Olhava para o chão de seu aposento com um semblante muito melancólico.

Ela estava cansada. Cansada de tentar. Cansada de ser educada e de agir de forma gentil.

Ponderava se realmente valia a pena continuar por ali, tentando algo que nunca iria conseguir. Talvez fosse hora mesmo de reavaliar sua carreira e seus desejos de realização pessoal.

Ou talvez simplesmente desistisse de tudo. Seja como for, ainda não estava arrasada o suficiente para abandonar sua meta atual.

A meta de cumprir com a missão que lhe deram, por maior que fosse a certeza de seu fracasso. Era uma falha de sua personalidade, ela reconhecia isto. Era incapaz de aceitar quando não podia fazer algo. Só desistia mesmo quando nada mais podia ser feito, e isso depois de muitas e muitas tentativas de contornar a situação.

Ainda tinha muitos meios que não tentou para cumprir sua tarefa. Talvez fosse uma hora apropriada para se utilizar destes.

Satisfeita com sua decisão, ela se levantou da poltrona e olhou para a vigia ainda marcada pelo líquido escorrendo e para o piso logo abaixo, onde estavam os cacos de vidro do copo. Acionou o sistema de limpeza e despiu-se.

Sempre gostou de dormir nua. E mesmo que ainda fosse cedo demais para isso, estava com muito sono depois da pequena onda de auto-análise que se impôs.

Amanhã seria um novo dia...

****

- Tenho certeza de que estão monitorando as flutuações de energia que estamos gerando – disse o homem jovem que em teoria estaria ocupando o posto de Imediato.

- Ficaria desapontado se não estivessem – respondeu o outro no assento do capitão. – Distância da esfera?

- Eu.. não sei, senhor. Nossos sensores não a estão captando. Temos apenas o seu visual, mas tudo o que tenho na minha sondagem passiva são as duas naves.

O Imediato Danker franziu o cenho intrigado. Tal capacidade de ocultamento seria um prêmio valioso para a Dissuasão.

- Sugestões? – pediu o capitão olhando-o.

- Talvez seja melhor esperar um pouco, senhor. Ninguém da tripulação daquelas duas naves sabem quem somos e qual a nossa missão. Além disso, talvez seja um pouco difícil recolher algo que nem podemos captar.

Ele afundou-se no assento por alguns minutos, ponderando sobre o que fazer. Tinha que pegar aquela esfera e levá-la consigo. E podia fazer com aquelas naves o que bem entendesse, caso fosse necessário. Talvez um ataque surpresa fosse o suficiente para uma distração momentânea para atingir o seu objetivo. Estavam há horas observando-os, quase um dia, na verdade. Ficaram totalmente mortos com uma paciência extremada para esperar pelo melhor momento. Quando a esfera entrou no hangar da nave Ambassador, percebeu que talvez tivesse problemas e ordenou que aquecessem os motores, mesmo sabendo do risco de captarem suas flutuações.

Agora que com toda certeza as estavam captando, não podia protelar por mais tempo.

- Armar torpedos fotônicos – disse ele.

- Senhor, – respondeu o armeiro – ambas as naves estão como escudos erguidos.

Ele olhou para o seu Primeiro-Oficial e este lhe devolveu o olhar surpreso. Deviam ter erguido assim que captaram as flutuações. Perderam uma boa oportunidade assim.

- Muito bem... Danker, pegue o controle de dominação que recebemos e prepare um console para desarmar os escudos deles. Quero que atinjam os motores de dobra das duas naves, e logo depois focalizem o raio trator na esfera.

- Teremos que retirar nossa camuflagem, senhor – retrucou o armeiro.

- Eu sei disto. Mas temos nossas ordens.

****

Era lindo! Não via com seus olhos, mas podia contemplar com sua consciência. E o que via era lindo.

Na verdade, era até conhecido... a árvore, a grama lindamente verde, o pequeno córrego com suas águas movendo-se mansamente ao lado da árvore...

- Eu vi isto na sua mente... – murmurou ela sem saber se usava sua boca ou alguma outra inteiração mental equivalente.

- Eu sei – respondeu ele a abraçando por trás. Era estranho, mas depois de uma viagem psicodélica para a qual não podia conceber palavras para expressar, ela estava ali, onde ocasionalmente se encontrava com ele: a mente dele. – Só não sei exatamente o porquê.

- Minha consciência... a esfera deve estar protegendo ela assim. Por isso precisava de você. Precisava de um lugar para guardá-la enquanto fazia o trabalho de engenharia genética em meu corpo – ela se voltou para encará-lo de frente. – Eu... eu sinto que estou inteiramente aqui...

- Eu também...

Ele sorria para ela. Não tinha consciência de seu corpo, nem do que poderia estar ocorrendo com ele. Sabia que naquele instante ambos estavam dentro de sua mente, no local reservado desta que ele mantinha para seus encontros de aprendizado, e que depois ele acabou mantendo por puro sentimentalismo. Se aquilo fosse a representação do inferno, não iriam querer sair.

- O que será que está acontecendo com o meu corpo? Será que...

- Shhhh! – ele tocou o dedo em seus lábios – pare de pensar nisto. Estamos juntos, e isto é mais do que suficiente para mim. E se quer uma equivalência, eu também estou desconectado de meu corpo. Não sei como a esfera fez isto, mas acho que se ela quisesse nos fazer algum mal, nada do que tínhamos poderia evitar isto.

OS PHASERS DA ATLANTIS SE ARMAM E DISPARAM EM UM PONTO DIANTE DA ESFERA. E ATINGEM ALGO. CONFUSÃO GERAL NA NAVE. UMA NAVE CLASSE EXCELSIOR APARECE E COMEÇA A BATER EM RETIRADA, SENDO PERSEGUIDA PELA THUNDERBOLD. A ESFERA ARREMETE EM DIREÇÃO A PONTE DA ATLANTIS E DESAPARECE.

Jevlack e Sarah caíram do nada em frente aos painéis de Wiser e Sanchez, espantando a todos na ponte. Eles olharam um para o outro, ainda sentados no chão, e começaram a rir.

Diana se levantou de sua cadeira e sorriu para eles, aliviada por vê-los, alegre com a alegria simples e pura deles naquele momento.

- Senhores, vocês gostam de entradas triunfais!

Eles se viraram para Diana, levantando-se, e sorriram, para logo em seguida tomarem uma posição que não atrapalhasse a visão da tela panorâmica.

- A esfera desintegrou-se, capitã – Melrik reportou dando uma olhada significativa para Sarah.

- Ah... que pena, sr. Melrik – Diana respondeu dando um grande sorriso para ele. – Bem, sr. Jevlack, seu capitão saiu em perseguição a nave atacante, mas informou que está de volta.

Jevlack sorria ainda. – Também acho lamentável que a interferência dessa nave estranha tenha interferido no contato com a esfera, capitã O’Conell.

Sarah também se juntou a comédia especialmente encenada para os registros oficiais:

- Tanto trabalho e tantas possibilidades jogadas no lixo apenas pela presença dessa terceira nave!

Diana fechou os olhos e tentou conter uma risada.

Benrubi olhou para Sarah e depois para Jevlack. Seu coração estava aliviado por vê-la bem, mas olhar para aquele homem ao lado dela lhe doía a alma... Mas havia no olhar dela tanta felicidade quando o fitou que algo em sua mente se resignou. Pelo menos um pouco, pelo menos naquele momento.

- Agora, senhores imediatos, retirem-se da minha ponte agora mesmo e se apresentem ao dr. Düff, acelerado!

- Sim, senhora!

E o casal kyrrakitur entrou no turbo elevador sorrindo.

****

Eles não desceram para a Enfermaria e sim para o alojamento dela.

Algumas partes do corpo dela doíam, outras estavam inertes no momento em que caíram na ponte, mas em poucos minutos sentiu o organismo se ajustar, muito mais rápido que seu antigo organismo vulcano engendrado o fazia.

Antigo organismo vulcano engendrado...

Seu coração estava feliz mas sua mente continuava confusa. Tinha sensações diversas que iam e vinham ao mesmo tempo, como se estivessem se apresentando ao seu cérebro, como se estivessem tentando ajudá-la a conhecê-las todas, mas tudo de uma vez a deixava desnorteada. Sentia, no entanto, a mente de Jevlack ajudando-a a coordenar isso automaticamente, como se agora não só sua mente, mas seu corpo fizesse parte do dele também.

Ele sorriu e a abraçou ternamente, beijando-a devagar, acariciando seu corpo com extremo cuidado.

Ela o enlaçou pela cintura com as pernas e envolveu sua nuca e seus cabelos com a mão. Estava feliz, estava fisiologicamente confusa, mas estava com ele mais plenamente do que era possível. Estava com ele para sempre agora.

****

O salão de recreação dos oficiais estava bem iluminado e a música de fundo era suave. Todos os membros da cúpula da Atlantis e todos os oficiais comandantes da Thunderbold estavam lá, além de alguns poucos convidados destes.

Todos tinham uma mesa farta de coquetéis e doces a disposição e mais uma especialmente posta de bebidas diversas.

Jevlack fôra a Thunderbold preparar e entregar seu relatório. Diana, Jordan e Melrik conversavam com o capitão Stek e Jeena Holtz. Düff, Sanchez e Remy formavam um outro grupo a parte e Sarah, impecavelmente vestida em seu uniforme, olhava pela escotilha horizontal o espaço negro. Benrubi a olhava da entrada do salão ao lado de Ness e de Gharb, oficial da outra nave.

Para ele, ela parecia uma estátua de mármore, bela e impassível, sem nenhuma expressão em seu rosto. Mas seus olhos, seus lindos olhos castanhos que o fascinavam, estes estavam melancólicos. Ela sentia tristeza porque ele ia partir. Sentia... sentia por ele, como jamais a vira sentir qualquer coisa por alguém...

Resolveu ir embora antes que Jevlack voltasse. Deixou o copo de suco na mesa – beber de novo diante da outra tripulação nem pensar – e saiu para o corredor.

Quando ficou diante do turboelevador, este se abriu para dar saída a Jevlack, que o encarou com um leve sorriso cínico.

- Sr. Benrubi.

- Sr. Jevlack.

Eles continuaram se encarando, mas não havia como dizerem algo um para o outro sem se tornarem ofensivos. A outra opção era serem educados e gentis, mas nenhum dos dois tinha intenção ou vontade de se tornarem amigos.

Joshua entrou no turboelevador e baixou a cabeça. Não se importou com suas lágrimas quentes, não se importou em saber que estava sofrendo por ela, pois sabia que ela jamais seria sua novamente. O que quer que tivesse ocorrido com eles dois, com Sarah e Jevlack, ninguém poderia tirar deles ou compartilhar com eles.

****

Jevlack a abraçou pelas costas e pousou seu queixo no ombro esquerdo dela. As pessoas que estavam ali não importavam, tudo o que tinham agora eram alguns minutos a mais, e...

- Se você chorar eu vou morrer, Sarah...

- Quem disse que vou chorar...? – a voz dela saiu entrecortada e baixa.

Ele sorriu e a abraçou com mais força. Sarah suspirou e acalmou todas as suas emoções a força.

- Nós temos direito a umas seis licenças, amor...

- Está mais do que na hora de usá-las...

Ele ficou feliz: ela nunca aceitara tirar uma licença por causa dos dois antes. Sentia ela tão frágil, tão docemente sensível, deixá-la era uma idéia que não queria pensar naquele instante...

Os deveres de ambos, oh, os deveres! Aquilo, naquele momento, o irritou.

Ele a pegou pela mão e se aproximaram de Diana e Stek.

- Experimente uma taça deste vinho, Imediato – Stek sugeriu logo que se juntaram a eles.

Jevlack pegou uma para Sarah e outra para si.

Sarah olhou para Diana. – Vou até a ponte, volto em alguns minutos, capitã.

- Claro, Sarah. Nos encontramos na sala de transportes 3.

Stek se virou para Jevlack, que apenas a observava se afastar. – Por que não acompanha a sra. McKenna, Imediato? Temos pelo menos mais dez minutos antes de partirmos.

Ele assentiu e foi embora.

Diana olhou para Jordan. Sentia a tristeza de Sarah tão intensamente que estava emocionada.

****

Sarah estava do lado de fora do salão encostada a parede.

- Sabia que eu vinha atrás de você – e sorriu.

Ela sorriu com um toque de melancolia. – Eu não ia demorar, mas ouvi o que Stek disse – e estendeu a mão para ele. – Venha, tenho algo pra você.

Eles seguiram para a sala de transportes 3 onde Cíntia Araújo, a ordenança de ponte, a aguardava com um embrulho nas mãos. Sarah assentiu para ela após receber o embrulho e esta saiu.

- É pra você se divertir um pouco.

Ele recebeu o pacote e o desembrulhou, revelando uma caixa de metal polido que não lhe era estranha...

- Estava no seu alojamento...

- Sempre foi seu.

- Pena que você não cabe nessa caixinha...!

Ela sorriu. – Pena mesmo...!

Ele a abraçou e depois abriu a caixa, que estava repleta de discos isolineares.

- O que é?

- Adivinha! – e riu, sabendo que ele não podia sondar a mente dela para coisas simples como obter uma informação, mesmo com o elo. – Você vai gostar, Janus, é algo que você vem querendo há algum tempo, como no caso da batida de coco.

Ele ergueu uma das sobrancelhas e ela deu outra risada.

Ele suspirou, resignando-se. – Vou aguardar a surpresa. – E a abraçou de novo, bem apertado, com tanta vontade de carregá-la com ele que superava o treinamento, o pragmatismo, a lógica, e tudo o mais que ambos estavam tão acostumados a aplicar em si mesmos e nos outros. - Tenho direito a uma licença sua e vou cobrar...

Ela ergueu os olhos para ele. Encostou suavemente o nariz no dele, e depois o deslizou pelo rosto dele até que sua boca ficou junto da orelha. A voz demorou um pouco a sair, e quando foi emitida, havia emoção e paixão nela: - Meu amado, minha vida é toda sua...

Jevlack fechou os olhos e suspirou. - ... Também vou cobrar isso...

Os ouvidos apurados de ambos captaram vários passos pelo corredor. Se separaram devagar e quando Diana e Stek entraram com seus comandados, não havia mais nenhuma emoção transparecendo nos rostos deles.

- Foi deveras interessante trabalhar com a senhora e sua equipe, capitã O’Conell.

Diana assentiu e retribuiu o aperto de mão de Stek. – Digo o mesmo, capitão Stek – e se voltou para os membros da Thunderbold. – Senhores. – Estes assentiram e ela então se virou para Jevlack. – Foi um prazer conhecê-lo, sr. Jevlack.

- Digo o mesmo, capitã.

Stek virou-se para Sarah. – Espero vê-la outras vezes, Imediato McKenna.

Ela abriu e fechou os olhos devagar, numa concordância muda. – Tenham uma viagem sem incidentes, senhores.

Eles subiram na plataforma e Jevlack a fitou.

Se tocar em você de novo vou beijá-la sem parar...

...se você me tocar de novo não vou deixar você partir...

Stek assentiu para D’Angelis, no controle do teleporte.

- Thunderbold, 6 para transportar.

- ENTENDIDO, ATLANTIS.

Envoltos no brilho de energia os visitantes voltaram para sua nave.

****

Capítulo IX.

Algumas Semanas Depois...

Sarah olhou para Diana e torceu o nariz ao sentir o cheiro do chá verde que ela tomava com grande prazer. Melrik se sentou ao lado dela com sua salada e ela o olhou de lado, enjoando horrivelmente o cheiro dele.

Melrik a olhou, parecendo ter percebido a careta que ela fizera e garfou sua primeira porção.

Percebera a reação dela, mas o que mais parecia evidente para ele era que, a pelo menos duas semanas, aquele cheiro inebriante que ela tinha e que Melrik sabia ser conseqüência de seus feromônios, vinha ficando cada vez mais tênue e hoje parecia simplesmente... neutro.

Sim, para Melrik, e com certeza para os outros vulcanos da nave, Sarah McKenna, o terror de seus bem comportados apetites sexuais, se transformara: nenhum cheiro, nenhuma atitude provocadora, nada.

Melrik ponderara no início daquelas duas semanas que ela deveria estar realmente muito satisfeita e que Jevlack era a única causa disso. Mas agora ele tinha uma pequena dúvida.

- A sra. se sente bem, Imediato McKenna?

Sarah ergueu os olhos do bife com cebolas que comia e o olhou. Diana também o fitou, pousando o garfo no prato, interessada. Elas estavam discutindo sobre a interferência eletromagnética que as comunicações sofriam há 3 dias e a pergunta dele era, no mínimo, fora de contexto.

- De forma genérica? Não, sr. Melrik – e fitou Diana. – É tão evidente assim?

Diana ingeriu a última parte mastigada do delicioso bolo de laranja que comia e balançou a cabeça.

- Você se queixou da comida durante uma semana. Mas desde ontem vejo você torcer o nariz, como se tudo fedesse.

Melrik ainda parecia concentrado em sua salada, mas completou:

- Posso garantir que tenho feito minha higienização pessoal com bastante critério, sra. Imediato.

Sarah mastigou a carne, ponderando. Sofrera modificações extremas, por isso deveria ser esperado algum desajuste fisiológico nas primeiras semanas. Mas por que Melrik a olhava como se soubesse de algo que ela não sabia?

- Devo dizer, com sinceridade, que não sei a causa específica dessas minhas atitudes, senhores. Mas com certeza descobrirei – e se levantou, ainda com vontade de vomitar. – E, Melrik, acredite-me: não é nada pessoal.

- Eu sei, McKenna.

Ela saiu e Diana olhou-o.

- Afinal, o que você acha que ela tem?

Melrik não a encarou, mas sua expressão, para Diana, seria a de um grande sorriso maroto se isso fosse possível.

- Vamos, esperar, Diana. Tenho certeza que ela não vai ficar na dúvida por muito mais tempo.

Mais Tarde...

Sarah entrou no gabinete de Düff e se sentou a sua frente.

- Ainda não acredito no que essa esfera maluca fez a você! – ele exclamou de bom humor , sem tirar os olhos da tela do computador.

- Düff, - ele a encarou, pois a voz dela estava séria e sem nenhuma paciência – há 7 dias atrás eu não conseguia comer nada sem vomitar. Agora estou comendo como um dragão de Tisys 22. E desde ontem não consigo suportar o cheiro de nenhum vulcano sem morrer de nojo – e pôs as mãos sobre a mesa dele. – Descubra o que diabos eu tenho AGORA.

- Pedindo com essa delicadeza... – e se levantou, guiando-a para a sala restrita de exames. – Você se esqueceu de mencionar uma coisa.

Ela o encarou, irritada. – É? O quê?

- Você está mais delicada do que nunca! – e deu uma sonora gargalhada.

Uma Hora Depois...

A expressão de Düff não tinha uma definição clara. Na verdade, parecia a Martina que ele ficara abobalhado ou senil, afinal pedira a ela que refizesse aqueles exames três vezes! Que absurdo! Tanto as máquinas quanto ela mesma diante do microscópio sabiam o que estavam fazendo e vendo. Aquele diagnóstico, aliás, não era nenhum segredo a mais de 2.000 mil anos entre os humanos!

- O senhor vai me perdoar, dr. Düff, mas os exames estão corretos. Talvez não seja algo esperado, mas estão absolutamente corretos.

Hans encarou Martina e Sarah encarou a ambos. Se Düff tirasse mais uma gota do seu sangue iria dar uma dentada nele.

- E então, senhores? Minha morte é para breve ou não?

Martina a olhou e conteve seu sorriso. Ela sequer desconfiava do que estava acontecendo?

Hans fez um gesto para Dickens, que se retirou.

- Sua morte eu não sei, moça, mas... bom, você tem, ou melhor, vai ter uma menina.

Sarah entreabriu os lábios, mas permaneceu muda.

FIM DA ÚLTIMA PARTE DA TRILOGIA.

* O CESTO – referência à própria Atlantis como um cesto de cobras criadas - os membros da cúpula de comando. Livro I e Livro IV.

Por: Sílvia Costa e Roberto Kiss.
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