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INFORMAÇÕES    
Autora: Sílvia Costa.
Título: Sal da Vida.
Publicação: 03/05/2006.
Publicação Original: 15/12/1997.
Categoria: Jornada nas Estrelas.
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OUTRAS OBRAS DA AUTORA
I Fatos Consumados.
II Forças Antagônicas.
III O Poder dos Iniciais.
IV Vulcanos...
V Tradição Original.
VII Nuto Solo Pleraque...
VIII Nuances da Tempestade.
JORNADA NAS ESTRELAS      
USS ATLANTIS - Novos Exploradores. Missão VI - Sal da Vida - Parte II da Trilogia.
Por: Sílvia Costa.

Imagem de Roberto Kiss direitos reservados.
Imagem de Roberto Kiss feita especialmente para a Série.
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"Lamentamos a perda de um inimigo quase tanto quanto a de um amigo."

Neste conto, a USS Atlantis vai para a Terra fazer vários ajustes depois de cinco anos em espaço profundo, onde, entre diversas novidades ainda em fase de experimentação pela Frota Estelar, será instalado nesta nave o salão virtual que no futuro será conhecido com holodeck, além da inusitada e difícil experiência de haver famílias civis dentro de uma nave militar sempre pronta para a guerra.

Sarah, Düff e Joshua serão convocados para uma missão de campo aparentemente simples, a de coleta de informações sobre um possível levante klingon, para tomada do poder de Klin por guerreiros dessa incrível raça que foi a mais ferrenha e estimulante inimiga da Frota Estelar, e que agora se depara com o fim de seu modo de vida e com a inaceitável, mas inevitável absorção de seu povo pela Federação.

Existem inimigos valorosos, inimigos com os quais vale a pena lutar?

Que emoção pode descrever o horrível fato de que aquele que antes era temido e respeitado agora é apenas mais um?

Existe honra entre inimigos? Existe admiração pelas qualidades uns dos outros?

Agradecimentos Especiais: aos leitores que nos dão muitas alegrias.
A Roberto Kiss que gentilmente confeccionou as imagens do conto.

Início da Segunda Parte.

Época: 2.332, cinco anos após a Atlantis zarpar das docas marcianas. Nesta aventura a Atlantis vai para sua verificação de rotina na nave e sofrerá modificações como o Holodeck e implementação de famílias na nave.

****

- “Diário de bordo: Capitã O’Conell registrando. Depois de setenta e duas horas em Deneve III, a Atlantis, está retornando a sede da Federação, na Terra, para cumprir o cronograma dos diplomatas e conselheiros e dispor-se na inspeção obrigatória periódica na Doca Espacial Terrestre. O assunto narlogiano não nos concerne mais.

Augustus recebeu o diário de Diana e olhou para a tela principal que mostrava Deneve III desaparecer ante a dobra que impulsionava a Atlantis.

Jordan D'Angelis entrou na ponte com a fisionomia preocupada.

- Qual o problema, Sr. D'Angelis?

- As avarias da batalha com os klingons rebeldes foram mais sérias do que calculei anteriormente, Capitã. O casco externo esquerdo nos níveis 17,18,19 e 20 está seriamente comprometido. Para piorar nossa situação ainda temos esses acertos técnicos...!

Diana sorriu.

- Não se exaspere, D'Angelis. Esse estacionamento da Atlantis, já estava previsto. Ness, avise a tripulação que os níveis 17,18,19 e 20, serão isolados em 30 minutos. Que os comandantes desses setores organizem isso. McKenna, coordene essas mudanças.

McKenna os olhou com seriedade e preocupação.

- Não estou gostando nada disso, Capitã: o motor de dobra está apresentado índice negativo na integridade de saída.

Melrik confirmou com um aceno de cabeça. O chamado da engenharia veio em seguida:

-SR. D'ANGELIS, INDICADORES DE DOBRA INDO PARA PONTO CRÍTICO!!

Diana ergueu-se de sua cadeira de comando.

-Neutralizar dobra, McKenna. Espere-me D'Angelis, eu irei com você.

Enquanto O’Conell e o Engenheiro-Chefe desciam até a engenharia, McKenna ergueu-se e foi interpelada por Ness:

- Será que é um problema muito sério, sr?

- É o que veremos, Sr. Ness - ela respondeu estoicamente mas com afabilidade.

- Ness contacte a Frota para que o Sr. Melrik exponha-lhes nossa situação. Sr. Benrubi , assuma.

Na Engenharia...

D'Angelis estava sentado diante do painel principal com a fisionomia carregada. Diana estava atrás dele quando Melrik entrou.

- Todos os sistemas normais mas a saída continua engasgando, Capitã...!

Diana ignorou a palavra nada técnica e olhou para Melrik, que verificava os monitores acoplados na parede de isolamento do motor e os dados que Carlyle emitia daquele posto.

Melrik anunciou sem se voltar para eles.

- Os pulsos estão irregulares. A entrada também está com problemas.

D'Angelis estava agora ao lado de Melrik.

- Então? O que está acontecendo, senhores?

- Creio que aquela briga com os Klingons deixou seqüelas mais sérias do que apenas a exaustão do metal do casco, Capitã. - e D'Angelis voltou a sentar-se, enquanto Melrik orientava Carlyle e Santos em alguns cálculos.

- Creio que um pedaço de uma daquelas naves Klingons entrou no escape de dobra e antes de ser pulverizado se modelou na passagem numa das bordas de saída, Capitã. - Santos respondeu, olhando para Jordan .

- Sou da mesma opinião , Capitã.

- E não podem concertar, D'Angelis?

- Em outras circunstâncias sim, mas afetou, ainda não sei como a entrada. É como um corte que vai se alargando quanto mais forçamos.

- O motor de dobra ainda pode ser utilizado, digamos , por 50 horas?

- Bem , Capitã, - E Jordan voltou ao painel principal para inserir os cálculos feitos há pouco.

- Isso é forçar a ferida da Atlantis, mas de um jeito ou de outro teremos que desmontar o motor na doca... - Seu rosto estava mais preocupado do que de costume.- Posso garantir nossa chegada no tempo previsto, mas vai exigir atenção redobrada minha e da pilotagem até aportarmos.

- Isso significa que passaremos muito mais tempo na doca espacial do que pretendíamos realmente. - Diana Concluiu insatisfeita.

Quarenta e oito horas depois...

-ESTAÇÃO DE COMUNICAÇÃO MARCIANA CONFIRMANDO PREVISÃO DE CHEGADA PARA NCC1025. BEM VINDOS AO LAR, NAVE ATLANTIS.

Diana agradeceu formalmente já que estava de mau humor, pois não via a chegada a Terra como uma festa.

- Você deve estar exausta, Sarah. Há dois dias que você e D'Angelis estão pregados nesses painéis de controle.

-Não realmente, O’Conell - Sarah respondeu voltando à cadeira para ela. - Mas o que realmente não é nada agradável é o tempo que o Sr. Melrik e D'Angelis calcularam para que retornemos ao espaço.

Diana voltou-se para Melrik, que respondeu prontamente:

- Mil e duzentas horas estelares, Capitã.

- Mil e duzentas? - e O’Conell, respirou fundo, sabendo muito bem o que aquilo significava. - Bem , informe à Frota Melrik. Possivelmente com os dados que já enviamos, eles já saibam disso...

- Sim Capitã.

- Chegada em 3.27 minutos, Capitã. - Wiser anunciou. Parecia ser o único humano da ponte realmente calmo perante a situação.

- Preparar para atracagem. Marcha espacial normal. Abrir canais com a doca.

- Finalizando dobra. - McKenna anunciou. - Marcha em 0.5, Capitã.

- Canais abertos. Capitã.

- Um quarto de marcha. - Diana prosseguiu maquinalmente. - Preparar para a passagem nos portões da doca. Doca espacial, aqui é USS Atlantis , pedindo permissão para atracar.

- PERMISSÃO CONCEDIDA, Atlantis. PREPARAR PARA COLOCAR O LEME EM CONTROLE DE SISTEMA FECHADO.

- Empuxo adiante um terço, neutralizar marcha espacial.

- Neutralizando marcha. Adiante um terço.- McKenna repetiu maquinalmente.

-Venha, McKenna. Deixe a finalização por conta de Wiser.

Sarah ergueu-se e seguiu-a, ouvindo os controladores da doca indicarem a ativação dos sistemas de gravidade.

Na Sala de Transporte número dois.

- Irei me apresentar ao comando da Frota. Depois que o "status" se cumprir você pode deixar a nave. Acho que sua mãe está ansiosa para falar com você.

Sarah ergueu a sobrancelha esquerda com a fisionomia incrédula:

- Minha mãe vulcana? Eu não creio nisso, O’Conell. Ela não deixou Vulcan só para me visitar.

- O nascimento de seu irmão a perturba Sarah? - Diana instou-a jocosamente:- você não está com ciúmes?

McKenna apertou os lábios com desdém , simulando um sorriso:

- A Capitã Diana O’Conell está de excelente humor, pelo que vejo.

- E você Primeiro-Oficial McKenna, está insuportavelmente rabugenta!. - E subiu na plataforma de teletransporte. - Acionar, Sr. Imediato.

- Até mais tarde, O’Conell. - Sarah respondeu mandando a Capitã da Atlantis para a superfície terrestre.

Na ponte...

McKenna estava de pé ao lodo de Melrik, ajudando-o em alguns cálculos para a engenharia. Ness entrou e ficou esperando a oportunidade de pedir a identificação positiva de McKenna nos documentos que seriam entregues a Frota.

- Você gosta de testar sua imediato, Sr. Ness? - Sarah perguntou sem se voltar para o jovem Willian, que ficou rubro, e estendeu a mão para que ele lhe entregasse a prancheta de documentos.

- Não, claro que não, Imediato McKenna!... - Ness conseguiu balbuciar, sem saber por que estava envergonhado.

Melrik olhou para Ness insensivelmente. Poderia-se dizer que o vulcano não “gostava” da insegurança juvenil do ex-ordenança de ponte perante as mulheres. Pelo menos as duas comandantes da Atlantis.

Quando seu olhar se voltou para Sarah havia reprovação ou algo parecido com isso lá também. Melrik achava que Sarah extrapolava o uso de suas habilidades vulcanas em jogos para divertir-se com os humanos, mas de certa forma já entendia isso.

- Aqui está , Sr. Ness. - Sarah disse no exato momento em que Joshua Benrubi entrava na ponte.

- Primeiro-Oficial McKenna, peço permissão para descer.

Ela olhou para Benrubi, estoicamente.

- O senhor faz parte do grupo de descida, como a grande maioria da Atlantis, sr. Benrubi. Mas, como sabe, os chefes de departamento e os tenentes-comandantes não podem deixar seus postos antes dos demais tripulantes. A não ser que o senhor tenha alguma prioridade.

- Não tenho nenhuma prioridade, McKenna. - Benrubi admitiu - Mas tenho motivos pessoais para tanto.

Sarah o fitou nos olhos, vendo nitidamente os sentimentos que envolviam Joshua.

- Bem, Sr. Benrubi, eu já tenho seu relatório de prontidão e os alferes de segurança e o pessoal de cartografia já desceram todos, menos os que ficaram de serviço. - Ele assentiu - Sr. Está dispensado, Tenente-Comandante Benrubi.

- Obrigada, Sarah...

McKenna observou-o sair sem sentimento algum quanto ao que Joshua estava passando e voltou-se para Melrik:

- Estarei na engenharia, Sr. Melrik.

- Entendido, Imediato McKenna.

Mais tarde...

No complexo de prédios da Federação Unida de Planetas existia um em especial destinado especificamente para receber e abrigar os embaixadores e conselheiros que vinham de toda a galáxia.

McKenna se identificou informalmente e entrou no prédio austero e confortável, apesar de não saber o que aconteceria ao reencontrar a mãe após tanto tempo, estava ansiosa para penetrar nos aposentos destinados a embaixatriz vulcana.

Sarah gostava muito da Terra. Mas aquele começo de inverno em San Francisco lhe era desconfortável, quase incômodo. Se não tivesse sido ensinada a ignorar esses pequenos revezes aquilo talvez a incomodasse de verdade.

Parou defronte a porta e se identificou automaticamente:

- Primeiro-Oficial McKenna.

A porta se abriu e uma mulher de cabelos negros e insinuantes olhos castanhos, pouco menor que sua própria altura, recebeu McKenna.

A princesa vulcana era o espelho no qual McKenna fôra refletida, porém muito mais fria e elegante, sem dúvida completamente vulcana.

- És bem vinda, T’Sarahk de Sernick.

Sarah sentou-se e umedeceu os lábios, reparando o aposento com discrição.

- Desculpo-me por não ter podido passar mais tempo com a senhora quando estive em Vulcan, Mãe. - Sarah disse com fria polidez.

- Os acontecimentos em Vulcan foram deveras... insólitos, digamos. Mas esse não é o motivo de minha vinda. - Yonah tranqüilizou Sarah. - Já estive em Marte legalizando as propriedades de lá, deixadas por seus avós, em seu nome e no de seu irmão Sarik.

McKenna ergueu a sobrancelha esquerda: Gostara do nome.

- As propriedades em Vulcan e aqui na Terra também estão no nome de ambos como primogênita o título vulcano e a tutela direta de Sarik são sua responsabilidade, Sarahk.

- O título vulcano? - McKenna meneou a cabeça quase com raiva de Yonah. - Mãe, eu não posso assumir o título enquanto não casar ou for celibatária permanente. - e, sem perceber, trincou os dentes. - E, para isso, em qualquer das duas circunstâncias, eu teria que abandonar a Frota...!

Yonah a fitou insensivelmente. - Pelo que vejo, você mudou muito desde que deixou Vulcan. Seu comportamento esta tão... humano.

McKenna foi até a janela para observar o começo do pôr do Sol e ajeitou a mecha de cabelo que estava sempre caindo parcialmente do lado direito do rosto.

Yonah usara a medida correta de crueldade em suas palavras. Em outros tempos, principalmente depois da morte do pai, ela teria entrado em uma crise de confusão e auto cobrança com aquela comparação.

Antes de ingressar na Frota não convivera com outros humanos além do pai, Donald McKenna e a embaixatriz Amanda - mãe de Spock, agora na reserva.

Fôra ensinada apenas que os humanos eram sentimentais demais e que a única característica que pudera conhecer deles - o bom humor - nem sempre era útil e prático. Para não se dizer nada lógico.

Na Academia superara o choque inicial entre Vulcan e a terra, estabilizara-se e aí aprendera a tirar pleno proveito do que era.

- Sou tão vulcana quanto você, Yonah.

Yonah não se afetou com o sarcasmo velado.

- Não seja emocional, T’Sarahk. - e Yonah fez um gesto de indiferença. - Quero apenas que você assuma formalmente o que já legalizei.

- Não sei por que se preocupar tanto com essas questões, mãe. As propriedades são suas, não minhas e de Sarik. Pelo menos por enquanto...

Sarah interrompeu as próprias palavras fitando a mãe com incredulidade. A visão evidenciava um fato futuro, irrefutável, dominou-a como uma onda cataclísmica.

- Isso... é um absurdo. Mãe. - McKenna conseguiu finalmente dizer com insensibilidade. Não acreditava em si mesma...!

- Se existe algo de útil que compartilhamos, T’Sarahk, é esse sentido extra de fatos que ainda não existem e coisas que não podem ser tocadas.

- Ainda assim... - Sarah sentia-se impotente, pois conseguia ver apenas o fato final e não o que desencadearia.

- Ainda assim... - Yonah murmurou e abraçou sua filha com uma ternura que jamais se revelara antes. - Não se preocupe jovem T’Sarahk... Tudo será como deve ser.

Ao mesmo tempo...

Benrubi estava sentado rigidamente em uma das mesinhas do terraço do restaurante olhando para a baía limpa e brilhante na tarde fresca. Ele estava ansioso e tenso, quase arrependido por ter escolhido aquele velho ponto de encontro.

- Papai!!!

Joshua se levantou e abraçou com alegria a pequena garota de longos cabelos castanhos claros e olhos azuis que correu para ele.

- Rebecca...!!!

- Eu senti sua falta, pai! - a voz doce da menina de dez anos soou como dádiva nos ouvidos de Benrubi.

- Eu também senti sua falta, doçura. Como você tem se arranjado?

- Eu estou estudando muito, pai – falou com seriedade - vou entrar para a Frota também.

Benrubi, riu da seriedade da filha. - Faremos uma bela dupla, Rebecca!

- Acho que um de vocês é mais do que suficiente na Frota, Rebecca!

Benrubi encarou a ex-esposa. A alegria dele se dissipou por completo. - Olá, Ester. Sente-se.

Ester sentou-se enquanto Joshua ajeitava Rebecca em outra poltrona e fazia sinal para que alguém viesse atendê-los.

- Posso tomar um sorvete, papai?

- Claro, doçura - e olhou para a mulher a sua frente não sabendo com exatidão o que dizer. Parecia que tudo já fôra dito. Mas o olhar reprovativo dela sobre seu uniforme ainda existia e o irritava como antes. - Como vocês tem passado? Alguma novidade?

- Estamos bem, Joshua. A vida continua, apesar de sua eterna ausência.

- Não comece, Ester. Eu não vim aqui para discutir com você - e afagou a cabeça da pequena Rebecca sorrindo. - Eu amo você, Rebecca. Senti sua falta...

Rebecca o abraçou - Também senti sua falta, pai... mas sei que deve ser assim...

- Você aprende rápido, doçura.

- Sim é verdade. Ela aprende bem rápido. Talvez eu não...

- Ester...!- Benrubi rugiu devagar , revoltado com a eterna pose de vítima dela. - Agora talvez eu tenha uma chance de estar próximo a ela com esse novo programa da Frota e é disso que eu quero falar.

- Rebecca não é uma cobaia! Você é um louco se pensa que vai levar a minha filha pela galáxia afora servindo de alvo fácil para os inimigos da Federação!!!

- Nós nos reunimos aqui para discutir esse assunto como humanos civilizado...!

- “Reunirmos”, Joshua? Você pensa que Rebecca é algum assunto da Frota? Como pode fazer isso comigo?

- Então vamos conversar direito, Ester. Eu não quero entrar na Justiça pela posse da Rebecca. E você sabe que eu ganharia muito fácil agora.

- Sua mãe esta furiosa com você!!

- Aparentemente não tanto quanto você - Joshua murmurou com sarcasmo, passando as mãos pelo rosto. Só lembrava da voz de Ester assim, ao gritos, durante suas inumeráveis cenas de ciúme ou insegurança. Nunca a culpara por isso, mas nunca havia conseguido convencê-la a procurar ajuda especializada. Depois que subira na Atlantis as famílias conseguiram quase obrigá-la a isso. Mas isso... não importava mais.

- Não vamos envolver os meus ou os seu pais nisso. Já somos bem crescidinhos. Talvez fosse melhor deixarmos Rebecca decidir.

Ambos olharam para a menina.

- Não seja bobo Joshua, Uma criança de 10 anos, morrendo de saudades do pai, aceitará qualquer “boa” idéia que possa aproximá-los.

Joshua levantou-se e foi brincar com Rebecca. Já estava cheio daquela conversa que nunca acabava.

Mais tarde... Na casa terráquea de Sarah...

- Tenho novidades. - Diana disse ao vê-la entrar, tirar o casaco e jogá-lo sobre um sofá.

- Conte não faça suspense.

- Há dois novos programas para naves estelares. Sarah: o primeiro é a... integração de famílias. Esposas, maridos, crianças...

- Pelo que soube é isso aí mesmo.

-Haverá uma grande reunião prioritária amanhã pela manhã comigo e todos os Capitães estacionados aqui. Vão jogar essa bomba oficialmente, amanhã...!

Diana circulou pela sala com seu grandes olhos amendoados agitados, absorvendo melhor aquela história.

- Parece que isso só se aplicará às Estelares, de maior permanência em espaço profundo.

- E eu que me dane!

- Sarah riu. - Nós!

- E o tal posto de ponte para todas as naves, “Conselheiro”?! - Diana resmungou.

- Conselheiro... - Sarah murmurou com desdém depois ergueu os ombros. - Pois é. Esse aí eu não sei para que serve.

- Vai “ganhar” férias também?

Sarah sorriu - Acho que não.

Diana pôs as mão para trás. - Quer que eu adivinhe?

Sarah ergueu as duas mãos. - O.k., tenho uma missão.

- Missão em... - Diana sorriu. - conte-me mais.

- Calma - foi até o quarto e disse de lá: - Você convidou mais alguém para jantar com a gente?

- Não. Onde está sua mãe?

- Verificando algumas propriedades.

Ambas olharam para o pequeno painel em uma parede que alertava algo.

Um corpo se materializou na varanda. Era um jovem vulcano com um pequeno bebê nos braços.

- Trouxe para que você o conheça, sob ordens de minha senhora Yonah. Ela virá buscá-lo em algumas horas - e estendeu o bebê para Sarah sem cerimônias, que apenas assentiu e pegou-o nos braços. O rapaz deu alguns passos para trás e desmaterializou-se deixando no chão uma pequena maleta.

- Que tal? Temos um convidado.

Diana sorriu, olhando com curiosidade o pequeno. - Ele é uma gracinha!...

Sarah sorriu erguendo a sobrancelha. - Com certeza.

E olhou a criança com mais atenção. Passou a mão nos cabelos abundantes e negros e levou-o para o quarto, ele já piscava sonolento.

O painel fez um novo alerta de materialização. Düff sorriu enquanto Diana punha as mãos para trás.

- Olá, Capitã!

- Sem formalismo, Düff, estamos de folga mesmo...

- OK - pôs as mãos para trás imitando-a e avançou . - Onde está Sarah?

- No quarto. - E Diana olhou para o companheiro de Düff, compreendendo a apreensão dele. - Vai lá com ela. Entre, Benrubi, sente-se. Quer beber algo? Você está com uma cara... ruim.

- Obrigado.

- Obrigado pela bebida ou pela cara ruim? - Diana tentou animá-lo.

Joshua não disse nada e afundou no sofá mais próximo.

****

- Oi, querida - Hans a beijou na testa e a abraçou.- Trouxe alguém comigo.

Ela sorriu - tenho excelente audição, esqueceu?

- Tudo bem, então?

Ela suspirou. Joshua estava tão tenso que Sarah podia sentir ali mesmo no quarto.

- Ele precisa dos amigos, Hans. O que nós somos, afinal de contas?

Düff sorriu assentindo.

****

Joshua levantou-se quando Sarah entrou na sala.

- Eu termino o jantar, Diana. - olhou para Benrubi com um leve sorriso. - Oi, Joshua, fique a vontade.

Teve ensejo de dizer mais alguma coisa, mas não sabia se deveria, ou poderia, tornar-se tão íntima. Dirigiu-se para a pequena cozinha e achou providencial ter comprado algumas coisas antes de chegar em casa. Casa! Não era grande e sóbria como a que vivera em Vulcan mas era sua. Construíra aquela casa em um parque florestal com uma permissão difícil e burocrática mas valera a pena. A vista do alto daquela árvore gigantesca e secular na qual a casa estava encarrapitada era magnífica. Um verde profundo dominava tudo, entremeado de um rio escuro e manso, que para Sarah exalava um cheiro fabuloso, indescritível. Da janela da cozinha podia ver uma árvore alta que se apresentava dominada por uma profusão espetacular de miúdas flores lilás. A casa estava toda aberta e a temperatura havia descido consideravelmente. Ela então pegou uma faca e voltou-se para ele de novo:

- Mande buscar algumas roupas civis na Atlantis, Joshua, não faça cerimônia.

Ele sorriu pela primeira vez - Posso ajudar?

- Corte a cebola.

Düff não conteve o riso - Oh, não comida natural! É macarronada, não é, Sarah? - ele quase suplicou.

- Vou me esforçar.

Diana surgiu limpa e de roupas civis.

- Puxa, Capitã, a senhora tem pernas maravilhosas!

Diana sorriu. Sabia que Düff era assim mesmo. Então viu o que ele trouxera.

- Vocês estão bebendo muito - observou.

- É só vinho, Capitã. Não faz mal a ninguém. - Abriu uma garrafa e serviu para todos. Deu dois copos a Joshua, que levou um para Sarah, ocupada na pia.

- Gostei da maneira como você corta cebolas, Joshua.

Ele riu brevemente. - Posso cortar esses pães ai, se você quiser.

- Eu agradeço. Düff...

- Sim?

- Pare de paquerar a Capitã e leve esse fondue para a sala. Vamos comê-lo como aperitivo. Depois dê uma olhada em Sarik.

- Aqui estão os pães. - Joshua colocou uma travessa na mesinha da sala.

- Nossa, Sarah, você está dando um banquete.

Ela sorriu. - Preciso enganar vocês com comida porque tenho algo para propor.

- Já sabemos o que é. - Düff comentou.

- Mas não são obrigados a fazê-lo.

- Nem você, Sarah. - Joshua cortou-a - Não nos foram fornecidos os dados da missão, mas tenho certeza que você já os tem.

Diana pigarreou. - Eu acharia interessante que vocês explanassem essa “misteriosa” missão para mim.

- Oh, Capitã, desculpe-nos. Ficamos entretidos - e Düff sentou-se perto de Diana, fitando-a com um ar muito compenetrado. - Essa é uma missão de curta duração e resultados imediatos: coleta de informações confiáveis em uma área na qual a Federação tem pouco ou nenhum “amigos”. Por isso a necessidade de um pequeno grupo que possa colhê-las “frescas”.

- Como se fossem frutas. - Sarah não se conteve.

- Então ? É tudo?

- É tudo que eu e Düff sabemos, Capitã.

- Sarah.

- O que posso dizer? Se concordarmos, detalhes, se não, ignorância.

- Você vai aceitar?

- Vou, Diana, se puder contar com a ajuda de Benrubi e Düff.

Benrubi levantou-se. Já resolvera aceitar. Não achava uma boa idéia passar quatro meses inativo, completamente acessível aos possíveis e inevitáveis “arroubos” de Ester. Se não fosse isso... Talvez pudessem ser férias maravilhosas com sua pequena princesa... suspirou:

- Se você está realmente decidida a ir e precisa de minha ajuda pode contar comigo, McKenna.

Os olhos dela pareceram dar um sorriso, Joshua pensou, mas havia algo mais, com certeza sabia até o tipo de sorvete que Rebecca comera aquela tarde. “Você sempre sabe tudo, sua vulcana desgraçada, deve saber tudo sobre a vida de todos daquela nave...!”

Desta vez Sarah deu um sorriso de verdade que o fez pensar por um segundo que ela sabia o que ele pensara.

- Düff...

- Nunca neguei nada a você, Sarah. Não precisa perguntar. - Düff a abraçou e ela retribuiu tão ternamente que Joshua ficou sem jeito. Diana apenas sorriu.

- Vamos comer, pessoal. Pelo que vejo vocês vão sentir muito pouco o cheirinho de casa.

Eles ficaram até tarde, bebendo, comendo e conversando sobre banalidades e novidades ocorridas na Terra.

Yonah não apareceu. Diana calculou que ela soubera da presença dos outros membros da tripulação da Atlantis. De qualquer forma, não tinha como sabê-lo e não estava preocupada. A Atlantis precisava dela, de sua total e afiada atenção para que não permanecessem mais tempo do realmente fosse necessário ali na Terra. Vira alguns klingons de alto escalão circulando pelos corredores da Federação. Como as coisas estavam mudadas! Quando a Atlantis fôra lançada ao espaço os acordos klingons mais abrangentes ainda estavam em negociação e o assunto ainda era confidencial e os Romulanos ainda eram, teoricamente neutros. Agora o Império klingon começava a se unir a Federação e Diana acreditava que muitas coisas poderiam vir à tona... Inclusive sua própria vida...

Sabia que tinha sorte, a sorte da qual poucos capitães de nave podiam se vangloriar: seus oficiais lhe eram fiéis e haviam se tornado seus amigos, amigos de verdade, pessoas com as quais podia contar tanto no trabalho com a nave como fora dele.

Fizera o que estava ao seu alcance por Sarah há alguns meses atrás em Vulcan. Aprendera a confiar no instinto e precisão apaixonados de Joshua e na intuição extrasensorial de Sarah - uma das mais altas de toda a Frota, dentro e fora dela - e nos verdadeiros milagres que D'Angelis conseguia fazer com a maquinaria e o humor dos amigos juntamente com Düff, que além disso sabia como ninguém tratar as pessoas.

Eram grandes amigos, com características e qualidades diferentes, que haviam conseguido “conquistar” até seu leal Melrik, cada um a seu modo.

Enquanto ajudava Joshua a recolher os pratos descartáveis, completamente vazios, a conversa entre eles continuava.

- Vamos convocar D'Angelis, ele nos será útil em campo inimigo. - Düff introduziu o assunto.

Os três continuavam bebendo inalteradamente e Diana pensou que ela mesma poderia ir, mas, no fundo, no fundo, tinha prioridades que a interessavam mais do que uma aventura passageira que animara o instinto belicoso de seus oficiais comandantes. E interesses que precisariam de D'Angelis. Alertou-se e olhou-os:

- Detesto ser desmancha prazeres, mas, assim como eu, D'Angelis não pode se ausentar da Atlantis.

Düff olhou decepcionado.

- Sinto muito, Düff, mas com esses modificações na nave o Engenheiro-Chefe é imprescindível para mim e para Atlantis, nessa hora difícil.

Todos sorriram, concordando. D'Angelis sabia como as coisas funcionavam e sempre sabia porque não funcionavam. Naquele momento em que a Nave estava literalmente de pernas para o ar, o conhecimento técnico e particular e a dedicação que Jordan tinha pela Nave eram, de fato, imprescindíveis.

Sarah se levantou e foi até o quarto ver Sarik. Por mais estranho que parecesse, haviam esquecido aquele simples e inevitável detalhe. Sugerira a Evans levar membros de sua tripulação na missão e Evans retrucara com os nomes de Düff, D'Angelis e Benrubi de imediato. “Parecia“ que tanto ela quanto Evans não haviam avaliado a importância de D'Angelis na agilização dos reparos da Atlantis. Afinal, nenhum deles queria ficar ali, nem mesmo o tempo necessário. Mas alguém quereria?

Düff deu de ombros. - Se a senhora precisa dele na Nave, Capitã... - Ele ficou de pé. - Parece que somos nós três agora!

- Preferimos que Jordan esteja onde é mais útil. Foi apenas um cálculo mal feito.

Joshua não se conteve:

- “Um cálculo mal feito”? Puxa, que bom ter vivido para este momento!

- Não comece, Joshua...!

Ele riu . - Tudo bem! Vamos ao escritório do Comodoro Evans amanhã bem cedo?

-Perfeitamente.

- Então, Boa Noite, Senhores.

- Já, Joshua? - Düff ficou surpreso.

- É que vou atrás de um alojamento ainda, Hans. - Olhou para Diana e Sarah e balançou a cabeça resignado. - Não quero ir para minha antiga casa, e muito menos para casa de meus pais. Hoje definitivamente, toda a paciência que eu tinha se esgotou...

- Não se preocupe, Benrubi. Não vejo porque você não possa permanecer em seu próprio alojamento na Atlantis. - Diana resolveu.

Düff sorriu - Ótimo! Eu acompanho você, Joshua! Até mais tarde, Senhoras!

Eles contactaram a Nave e se foram. Diana se voltou para Sarah.

- Evans sugeriu D'Angelis?

Sarah sorriu mordazmente. - Sim. E eu quase cai.

- Se qualquer um no comando pensa que vai ter tempo de me convencer...!

Sarah encostou-se no umbral da porta. - Não se preocupe. De “Evans” só podemos esperar manobras honestas.

Diana fungou, sabendo que Sarah dissera na verdade “Nogura”. - Isso ainda é muito estranho.

Sarah mordeu o lábio inferior contendo o sorriso.

- Concentre-se e cuidar da Atlantis - Deu-lhe as costas sem cerimônia e entrou. - Até mais tarde, O’Conell.

Diana sorriu e contactou a Atlantis. Sarah sabia aonde ela iria.

****

Joshua e Düff ainda estavam na Sala de Transporte, quando Diana chegou.

- Desativar sistemas de teletransporte, Sr. Willians.

- Sim, Sr.

Willians era ligado a Base Estelar e vinha à nave com a equipe de modificações; ele nunca tinha visto Diana pessoalmente apesar de ter ouvido falar nela, seu setor era a engenharia, ela tinha um ar imponente e isso o impressionava, Willians a olhou com um leve ar surpreso pois imaginava que uma Capitã, talvez agora, estivesse de férias, de folga em algum lugar aprazível da Terra. Pelo menos quando serviu em sua nave anterior era assim que os oficiais da ponte agiam.

- Capitã não a esperávamos tão rápido na Nave...

Ele calou-se rapidamente, Benrubi olhou para ele indicando que falara uma grande tolice, pois uma nave sempre deve estar pronta para receber o seu capitão.

Diana olhou e esboçou um sorriso conciliador, assim não deixaria o jovem rapaz mais constrangido ante o olhar do Chefe de Segurança.

Joshua já havia se acostumado com isso, sempre trabalhava com novatos e eles eram assim mesmo, afinal até mesmo ele às vezes sucumbia ante a presença da Capitã, afinal ela era quem mandava.

- Ainda não é a inspeção de fato, senhor Willians, relaxe sim. - Ela o olhou com simpatia. - Mas espero que não seja mais pego de surpresa. - Ela sorriu para ele que concordou rapidamente.

-Sim, Capitã. - Disse as palavras com ímpeto de certeza na voz .

- Vamos senhores.

E seguiram pelo corredor...

Düff gostava do jeito de Diana O’Conell, ela era um exemplo para aqueles jovens e o jeito com que repreendia, era quase como se desse um conselho... pensando bem, sim era um conselho, assim sempre tentava melhorar ou, se o conselho fosse ignorado, seus “conselhos-ordens”, piorava-se de vez. E o Método O’Conell sempre surtia efeito.

- Sr!

E alguns jovens da nave, a maioria engenheiros e pessoal de reparos, a cumprimentavam com respeito, quando ela passava. Como Sarah ressaltou uma vez confidencialmente, Diana já havia conquistado a tripulação, ela era a alma desta nave, e a nave era tudo...

- Bem, é aqui que nos separamos, Srs.!

Diana entrou no elevador, enquanto Joshua e Düff seguiram pelo corredor.

No dia seguinte...

Sarah e Joshua haviam acabado de chegar do prédio de protocolos e do encontro com Evans. Entraram lado a lado na intendência da Atlantis, tão sérios e compenetrados que se algum tripulante estivesse ali, e não os fiscais de operação da doca, pensaria que eles haviam confundido a Intendência com o já famoso ginásio em que eles lutavam.

- Boa tarde, Senhores. - McKenna falou formalmente para os homens que conferiam dados, repunham estoques e trocavam máquinas que faziam os mais diferentes tipos de acessórios e roupas já registrados para campo ou o fardamento normal usado na nave.

- Estamos terminando a revisão aqui, Imediato McKenna. - O chefe dos fiscais informou-a, pensando que ela viera inspecioná-los.

Sarah assentiu - Vou testar as funções pessoalmente - e se dirigiu com Joshua, que carregava uma prancheta para o fundo da sala.

- Veremos o que essa nova maquinaria pode nos oferecer, não é, Joshua?

Ele sorriu, já sabendo o que eles fariam. Não estavam ali para testar nada, mas para aprontar todo material necessário àquela missão.

Eles haviam optado por conseguir transporte e material necessário pelos meios indiretos, de forma que não houvessem muitas pessoas a par do que fariam. Joshua sabia que fôra por isso que Sara fora escolhida: ela tinha “meios” dentro e fora da Frota e seu conhecimento “informal” de pessoas e lugares fazia parte de sua “currículo adjacente”. Düff também ajudaria muito, pois os dois já haviam trabalhado assim antes, seria um trio e tanto.

- Por que você nunca trabalhou na Dissuasão, Sarah? - ele perguntou de supetão.

Ela não tirou os olhos da tela do computador. - Sempre achei que ali não se faz nenhum “serviço secreto” realmente, Benrubi. Você, que já trabalhou ali, sabe que não são as patentes altas que dão a alguém “certas” informações.

Joshua sentou ao lado dela. - São os amigos certos nos lugares certos.

Ela sorriu, olhando-o de lado por um momento. - Ou os inimigos.

Joshua a fitou, envolvido em um impulso particular, quase um devaneio. Respirou devagar e pegou-a pelo pulso, colocando-lhe na palma da mão um pequeno cubo de holograma.

- Olhe, é minha filha, soube do novo programa de famílias para naves estelares. - Sarah o encarou e ele sustentou-lhe o olhar. - Sinto falta dela.

Sarah ficou olhando as imagens de uma menina que saltitava á sombra de um jovem ipê amarelo e alguma coisa como um sorriso despontou no seu rosto. O que quer que Joshua tivesse pensado ao fazer aquilo fê-la ter idéias.

- Sua filha é linda, Joshua. Nem sempre as crianças o são - recolocou o pequeno cubo na mão dele e ergueu-se.

Joshua não disse nada. Na realidade não saberia dizer o que significavam realmente aquelas palavras.

Na doca espacial outra nave chegava...

- Ela está aqui?!!

Foi um grito eufórico, quase esganiçado.

- Sim, Sr. - O Primeiro-Oficial falou quase constrangido, olhando-o da mesma forma que fazia a pelo menos dois anos, quando se convencera definitivamente que aquele homem não deveria estar no comando de uma nave.

- Finalmente aquela Cadela Bastarda trouxe MINHA NAVE de volta...!!!

O Primeiro-Oficial trincou os dentes, sentindo uma certa raiva. Esperava ansiosamente o dia em que aquela nave zarparia e ele, depois de muitos protocolos e quase um pedido de baixa, ficaria para engajar em outra nave, qualquer que fosse.

Melarmê o ignorava. Tinha idéias e, dentro de sua cabeça, há muito todas essas idéias seguiam um ritmo próprio e alienado. Entrou em seu gabinete, ignorando qualquer preparação pessoal para enfrentar a inspeção que a nave sofreria ou a audiência que, dependendo do resultado, seria uma pré-corte marcial por seu mal comportamento, descontrole psicológico e comando instável e impróprio ao longe daqueles últimos três anos.

Não se importava com o número de inimigos que fizera dentro e fora daquela nave ou com os problemas diplomáticos e sociais que criara para a Frota ao longo de suas mal fadadas missões. Nada daquilo importava a Yves Melarmê. Durante cinco anos só pensara na injustiça que sofrera e em uma maneira de provar a todos aqueles tolos pretensiosos o erro que tinham cometido ao protelá-lo pela maldita e petulante protegida de Nogura...!

Em algum lugar da terra...

Sarah ajustou o fio brilhante finíssimo sob a cintura da roupa colada e arrumou o sobretudo preto e macio sobre o corpo mais uma vez. Moveu os pés nas botas de cano alto de um lado para o outro lhes aprovando a firmeza e maciez.

As calças eram um pouco... explícitas para seu gosto pessoal, mas era assim que a maioria dos mercenários romulanos que eram contratados para proteção se vestiam atualmente. Rapidamente lembrou de S'Tamur, o romulano mercenário que a Atlantis abrigou por pouco tempo há cerca de quatro anos.

A roupa preta lhe caia bem e ela teve vontade de sorrir ao se olhar no espelho. Joshua entrou de supetão e não pôde conter um olhar malicioso:

- Quem diria, hein, Sarah? Você não é de se jogar fora.

McKenna ergueu a sobrancelha esquerda mas não disse nada. Ele estava vestindo uma roupa sóbria e elegante, um conjunto de casaco e calças de bem tecido e na última moda.

Düff entrou logo após e sorriu para Sarah, ele também estava vestido sobria e ricamente: os dois passariam por contrabandistas de armas, pessoas que tinham créditos suficientes para gastar e para se passarem por bons e honestos cidadãos.

- Finalmente terei você sob controle.

Ela balançou a cabeça e deu um meio sorriso. - Finalmente vou surrar outros e não você, pra variar.

Düff sorriu abertamente. - A nave nos aguarda, senhores!

- Só um momento.

Na Federação...

- Atlantis PARA CAPITÃ O’CONELL.

Diana esticou a mão para o comunicador. - Fale Atlantis. O que há, Sr. Ness?

- MENSAGEM DA IMEDIATO MCKENNA, SR.

- Prossiga - E se endireitou.

- A IMEDIATO DISSE PARA EU REPETIR LITERALMENTE, SRA. MAS EU ACHO QUE NÃO ENTENDI DIREITO: ”CAPITÃ, DESEJE QUE EU QUEBRE A PERNA”. É ISSO, SRA.

Diana sorriu. - Está correto. Ness, obrigada.

Diana voltou-se para Melrik, que analisava as plantas das novas sessões da Atlantis, recém entregues pela divisão de engenharia, a sala agora parecia fria e sem sentido. Uma enorme mesa os separava, até um momento atrás estava cheia.

Melrik levantou a face séria - Mensagem aparentemente sem sentido Diana.

Diana o encarou com um sorriso - Era um jargão dito a atores que iam estrear uma nova peça, Melrik, quer dizer... Boa Sorte.

- Talvez seja um bom modo de dizer isso, porém não aprovaria este procedimento. - Melrik a encarava.

Diana riu não se contento. - ...Melrik, você não muda... - secretamente Diana desejou mais do que boa sorte a amiga.

****

Joshua sentara-se próximo ao capitão daquela Nave e Sarah postara-se de pé atrás dele acompanhada de Düff.

- Sua mercenária é muito séria para uma romulana - o capitão observou, olhando-a com interesse evidente.

- Ela está apenas quieta, meu caro. Isso não quer dizer nada, acredite-me. Antes trabalhou para um mercador vulcano por muitos anos. É inevitável adquirir certos hábitos.

- Ah, entendo - e o capitão virou-se para frente dando algumas instruções. De uma forma ou de outra, sabia que, se ela fosse meio vulcana meio romulana como ele suspeitava, ela não falaria ou melhor, admitiria isso. Os romulanos eram orgulhosos e tinham muita vergonha de ligações como aquela.

A pobre moça deveria ser uma pária e por isso trabalhava para humanos. Mexeu suas antenas azuis, como aliás todo ele, e aguardou ansiosamente a chegada ao planeta que se tornara o primeiro ex-súdito do Império Klingon mal a notícia da explosão de Práxis se espalhara há uns 7 anos.

Zenimar nunca fora realmente controlada por ninguém e sua autonomia se evidenciava no comércio 90% ilegal e na altíssima rotatividade de naves de todos os cantos da galáxia. Dentro da zona neutra de Zeni, nas divisas do Império Klingon e do Império Romulano, era um lugar que abrigava tudo e todos sem discriminação ou lei.

Olhando por uma das escotilhas, Sarah não estava simplesmente séria. Absorta, conferia visualmente cada comando executado e a maneira como eram usadas as maquinarias daquela nave.

Há duas horas atrás terminara sua “inspeção” e se assegurava de que estavam em segurança. Aqueles andorianos eram “praticamente” confiáveis, o que para McKenna significava absolutamente nada. Mas fora o transporte mais imediato, discreto e com carga legal que pudera conseguir em poucas horas com seus próprios créditos, devidamente transformados em células de dilitium e Düff tinha se encarregado disso, como já o fizera muitas vezes antes.

Düff estava de pé agora e conversava animadamente com o encarregado das comunicações; encarou Sarah de longe como lhe dizendo: "Está tudo dentro do cronograma".

Benrubi olhou-a por um breve momento, se aproximou e enlaçou-a pela cintura. Sarah estava rígida como uma lâmina de pergium.

- Você parece uma vulcana... - ele sussurrou suavemente, dando a frase um tom casual e brincalhão.

Sarah sabia que ele tinha razão. Haviam planejado cuidadosamente seus disfarces e o comportamento dela, ou a falta de um para ser mais preciso, estava se tornando evidente demais. Sarah deu um sorriso e beijou a nuca dele muito próximo a orelha. - Vou buscar algo pra você beber...

A maneira de ela falar foi íntima, num tom discreto mas suficientemente alto para que o encarregado das comunicações pudesse ouvi-la e fazer suas próprias idéias do que uma romulana como aquela mulher faziam com dois humanos.

Joshua já sabia que seria assim, mas não pôde deixar de se surpreender intimamente. Que capacidade assustadora para fingir! Não parecia nem de longe sua Imediato cética e minuciosa, cuja maior demonstração de sentimentos seria um sorriso maldoso.

Você não para de me surpreender” - pensou, quando Sarah entregou-lhe a caneca. - Acho que estamos chegando, minha querida.

Ela assentiu com uma expressão suave, seria muito pedir um novo sorriso.

- Espero que nos procurem novamente quando voltarem - o Capitão andoriano disse ao levantar-se - Seus créditos serão sempre bem vindos! - e riu.

- Os nossos muitos créditos são bem vindos em qualquer lugar, sem dúvida, meu caro. - Düff comentou com ironia e o andoriano assentiu.

Na cidade de Zenimar...

Joshua e Hans estavam sentados em uma mesa afastada da entrada do bar e um alienígena os servia com toda a deferência. Em poucas horas Sarah e os meninos da Dissuasão haviam conseguido espalhar sutilmente que estavam ali para realizar “certos” negócios e o que tinham para vender eram armas boas e modernas.

Aquele tipo de traficante era respeitado em lugares como Zenimar. Era difícil transportar e vender qualquer coisa ilegal pelos limites da Federação e armas eram a mais perigosa de todas as mercadorias, controladas implacavelmente pela Frota. Haviam poucos naquele ramo e eles sempre tinham créditos suficientes para comprar uma cidade.

Sarah entrou pela porta que se abria automaticamente e pareceu mergulhar no meio da penumbra esfumaçada, barulhenta e multicolorida que dominava todo o ambiente.

Haviam tantas e diferentes espécies de seres naquele bar, falando pelo menos umas trinta línguas diversas, que a soma de todos aqueles sons unificados assemelhava-se ao zumbido oscilante e rouco dos besouros gigantes de Pólus V.

Atrás dela, quase escondido, vinha um alienígena pequeno, de orelhas proeminentes que dominavam todo o lado de seu rosto ocre, lembrando um chimpanzé animalesco. O que mais chamou a atenção de Joshua foram os dentes pontiagudos e o sorriso debochado que pareciam contrastar com a fileira permanente de algo parecido com dobras na testa do ser. Nunca tinha visto um ser daquele tipo.

- É um prazer inenarrável conhecê-los, Sr. Dexter e Sr. Owen. - o alienígena falou com evidente excesso de suavidade. - Espero ser-lhes muito útil.

- E no que você me seria útil... - fez uma pausa de efeito e um sinal para que o alien se sentasse entre os dois rapazes que estavam junto com ele. - Afinal, o que você é?

O alienígena deu um risinho zombeteiro e inclinou-se para frente um pouco:

- Bem que me disseram que os humanos eram um pouco... “desatentos”. Eu sou um Ferengi, Sr. Dexter. Devo admitir que somos poucos neste setor do quadrante, mas somos muito ágeis nos negócios.

Düff incorporou seu papel e o olhou com desdém.

- Agilidade é do menos precisamos aqui.

Sarah botou apenas um dos dedos no ombro do Ferengi e o recostou quase bruscamente na cadeira. - Pra mim não importa o que você seja, tem ossos que se quebram como todos os outros... - ela sorriu mordazmente para enfatizar o que dissera e percebeu o leve tremor no pequeno e debochado ser.

- Ora, romulana, não é preciso se tornar agressiva... - o tom dele mudou da ironia para a preocupação velada.

A covardia dele era evidente e Joshua pensou se aquela era uma característica daquele ser ou de sua raça.

- Você ainda não viu nada, ferengi - e sorriu - mas vamos cuidar de outra coisa.

- O que veio nos dizer afinal?

O ferengi continuava bem encostado no espaldar da cadeira e olhava de vez em quando para Sarah. - Veio aqui para vender seus produtos, Sr. Dexter, expandir seus negócios? Pois eu tenho uma informação que pode lhe ser muito útil e talvez, dependendo de minha porcentagem, extrema e continuamente lucrativa para os Srs.

Joshua fingiu um certo interesse. - Ora, ora, continue. Posso lhe assegurar que posso ser muito generoso - e , pegando a taça a sua frente, fez um sinal para o garçom que o servira antes.

O ferengi sorriu com seus dentes pontiagudos e começou a falar.

Departamento de Psicologia da Frota Estelar...

Stuart engoliu em seco de novo, tentando controlar sua raiva. Seus passos duros a levaram para seu gabinete, após as últimas recomendações e felicitações, a palavra a irritava ainda mais, do almirante Walker.

Parou na frente de sua porta e a olhou por um instante. Deus!... Sentia-se roubada, rebaixada e sacaneada! Naquele momento nenhuma justificativa empanava os berros de seu orgulho, dizendo que a estavam boicotando. Num impulso, arrancou a plaqueta com letras destacadas, entrou e, ao passar para seu escritório, jogou-a nas mãos de sua assistente.

- Dra. Stuart...

Gina a olhou como se nunca a tivesse visto antes. - Sim?

A jovem balançou-se um pouco indecisa, sem saber precisamente o que dizer a Gina Stuart. Sabia que ele iria esbravejar e pular se ela dissesse “sinto muito sua partida”, mas naquele momento, era tudo o que poderia dizer.

- O que ... faço com isso?

Stuart olhou a plaqueta na qual podia-se ler:

DRA.GINA STUART - CMT DEPARTAMENTO PSICO. COMPORTAMENTAL - FPU.

- Jogue essa merda no lixo.

****

D’Angelis pôs as mãos para trás por um momento, observando do alto do segundo andar da engenharia as novas máquinas que estavam sendo instaladas.

A Engenharia havia sido reorganizada otimizando o espaço interno, que abrigaria, nos seus cálculos, mais uma tropa de engenheiros-juniores.

Ele já havia estudado as novas plantas do motor, suas novas funções e as plantas da Nave que indicavam novos andares com mais alojamentos permanentes, salas de jogos, dois novos ginásios, três refeitórios e uma biblioteca maior. Tudo para abrigar satisfatoriamente 800 tripulantes e 20 famílias civis. Vinte famílias! D’Angelis pensou como Diana enfrentaria esta situação.

Sanchez se postou ao lado dele naquele instante com uma prancheta nas mãos:

- O bom de tudo isso é a visita da minha mestra D’Grandio ...!

Jordan murmurou como se Sanchez tivesse participado de seus pensamentos anteriores.

Sanchez sorriu. - Ela vem instalar aquele novo salão de treinamento, não é, Sr. D’Angelis?

Jordan sorriu. - Aquilo parece mais um parque de diversões! Acho que o pessoal vai adorar!

Dyllan ia perguntar por Sarah, mas calculou que ela estava de folga e assim talvez ela viesse a Nave esporadicamente para uma ou outra atividade complementar.

- Por falar nisso, D’Grandio chega na próxima nave auxiliar. - E Sanchez contactou a ponte. - Ness, quando a engenheira do Holodeck chega?

- EM CINCO MINUTOS, DYLLAN.

- Obrigado. - e voltou-se para Jordan, que ainda olhava a prancheta. - Pra você nada de folga, não é, Sr. D’Angelis?

Ele suspirou - É... Mas eu não me importo, Sanchez. Já estou acostumado em deixar os prazeres da vida em segundo plano.

- Entendo... - Dyllan ficou sombrio, e quaisquer que fossem as lembranças que passavam por sua cabeça não pareciam combinar com seu sorriso quente.

Jordan o olhou amigavelmente. - Ferias não são a coisa mais importante do mundo, Sanchez, temos a Frota e os amigos que fizemos aqui dentro. - Jordan tentou animar o engenheiro, mas lembrou-se que ele mesmo já tinha cumprido com suas obrigações familiares no dia anterior, quando visitou sua ex-esposa e Giacômo, seu filho.

Dyllan assentiu. - Posso conhecê-la também?

- Claro! Venha!.

Na Ponte...

Diana estava com uma prancheta na mão enquanto Martina segurava uma pilha de outras a espera da verificação da Capitã.

Melrik se aproximou dela e aguardou um momento. Diana estava pelo menos três dias trabalhando freneticamente, como se estivessem estacionados em algum posto inimigo e não na sede da Frota Estelar.

- Fale, Melrik, não faça suspense. - Diana o encarou séria.

Melrik ergueu a sobrancelha.- com a série de modificações complementares que estão programadas e engenheiros e técnicos entrando e saindo desta Nave achei interessante destacar a presença de Alexa Petrillo.

Wiser estava próximo e a encarou. Alexa “D’Grandio” Petrillo, era a projetista do motor da Atlantis, uma das mais importantes e respeitadas cientistas da Federação, dentro e fora dela.

- E quando ela virá?- Diana entregou a prancheta a Martina, que a recolheu. Seu rosto estava muito satisfeito com a visita de Petrillo , finalmente ia testar o tão comentado Holodeck, equipamento que causou sensação em alguns departamentos da Frota.

- Em alguns segundos, Capitã.- Melrik retrucou.

A porta do elevador se abriu e uma figura “mignon” oscilou para fora. Diana a reconheceu de imediato.

Alexa era uma mulher por volta dos 65 anos, de aparência vigorosa, em seus 1,50cm e com cabelos brancos muito bem penteados com o corte curto da moda. Ela não era uma oficial da Frota, O’Conell teve ciência disso ao ver de imediato seu comportamento informal.

- Petrillo.

- Sim, sou eu. - Sua voz era segura.

Diana sorriu de novo, com o firme propósito de deixá-la à vontade ante o pessoal da ponte.

- Sou a Capitã Diana O’Conell. É uma honra e um prazer para todos nós tê-la conosco. Bem vinda.

- Obrigada, Capitã, e me desculpe alguma falha nos protocolos, não estou familiarizada com os procedimentos formais da Frota. - e avistou Jordan, que acabava de chegar, o que lhe causou instantaneamente, um grande contentamento. – Olá, Jordan! É muito bom vê-lo aqui cuidando do meu motor!

- Também é um prazer revê-la, mestre D’Grandio! - Jordan respondeu com muito respeito e ar de admiração.

Diana os olhou entendendo o respeito mutuo que os dois engenheiros nutriam uma pelo outro.

Jordan a cumprimentou e depois se virou para Diana.

- Bem, Capitã, acho que já podemos ver as instalações do Holodeck. - E notou uma ponta de entusiasmo nos olhos de Diana.

- Claro, por que não? - Diana concordou, sorrindo, pois estava louca para ver aquilo, mas tentou não transparecer este sentimento; ia constatar se aquele equipamento realizaria tudo que foi exposto na reunião. Era um sonho para treinamentos de campo, uma máquina que criava holograficamente todo um contexto de sensações reais, transformando interiormente a matéria, combinando-a em infinitas variações com energia, para criar um mundo de fantasias quase reais. Na verdade era também um grande parque de diversões, foi assim que os Capitães mais sisudos da Frota o haviam chamado, e na verdade tinham razão, um divertimento para os passageiros de uma Nave Estelar que viajava em espaço profundo e exigia de seus tripulantes o máximo; seria uma nova arma contra o estresse ou se tornaria um vício sofisticado dos anseios humanos? Só o tempo poderia dizer...

Diana ia à frente com Petrillo e Jordan os dois explicavam tecnicamente o funcionamento do equipamento, intercalados por Melrik que definia a Capitã os conceitos mais intrincados; Diana ficou muito impressionada com a explicação rápida, sucinta e esclarecedora que Petrillo deu a respeito da quantidade de energia despendida no uso do equipamento e como ela solucionou o caso, por intermédio de modificações em seu motor – “...e aqueles engenheiros de “gabinete” da Frota tentaram explicar isso em três horas de reunião...” - Diana conjeturou com seus botões.

Para Diana a energia era o ponto básico, a Nave era relativamente grande e utilizava muita energia, não poderiam sobrecarregar a geração de energia nos motores, mesmo sendo o Dilitium ou o Trillitium excelentes provedores.

- Chegamos... - Jordan abriu o painel de controle que ficava ao lado da entrada do deck e digitou alguns caracteres.

- Diana, querida.

Petrillo foi inesperadamente íntima, mas Diana não se importou, deu toda atenção àquela senhora, que tinha uma compostura fenomenal, fazia questão de explicar em uma linguagem simples todos os procedimentos ao se entrar num, como ela chamava? “o futuro holográfico”, onde se pode ser qualquer coisa em qualquer situação.

- O computador central da Nave é a alma deste equipamento ele projetará, através de arquivos, todo o contexto desejado, uma atmosfera real do que for solicitado, também poderá utilizar reminiscências de lembranças próprias as quais são cruzadas com informações dos arquivos existentes na cadeia infinita de informações do computador, projetando, construindo, se não a imagem desejada, um conceito próximo das lembranças conectadas ao computador.

Todos ali ficaram impressionados, Jordan assentia com a cabeça, já havia testado o equipamento para certificar-se que ninguém correria perigo.

- Temos um salva guarda Capitã, - Jordan começou - Chama-se, PROTOCOLO DE SEGURANÇA: quando acionado, a matéria desencadeada pelo equipamento não afetará de forma lesiva os participantes do treinamento, apesar de terem textura semelhante ao contexto real de objetos, como armas e etc.

- Um salva guarda .. - Diana sorriu levemente.

Sanchez estava impressionado com a capacidade do Holodeck, não suspeitava que fosse tudo aquilo, de qualquer forma só acreditaria vendo, afinal a teoria era uma coisa mas a prática era outra coisa diferente. Como engenheiro achava fascinante este invento, um equipamento que não colocava em risco a vida dos participantes do treinamento...

- Podemos acioná-lo pelo computador, Capitã, é só solicitar o contexto desejado. - Melrik disse indiferente.

Jordan virou-se para a parede como se o computador sempre onipresente estivesse só ali, ouvindo só a ele. - Planeta Efesos III, Yupar.

A porta do deck se abriu, uma imagem se formou, rapidamente.

- Então vamos, Srs.

Eles pareciam esperar a ordem de Diana, até Petrillo, tão informal, esperou pelas palavras de Diana para que todos entrassem, a porta com sensores de temperatura, como todas as outras da nave se fechou atrás deles.

- Nossa!... - Sanchez não se conteve e deixou escapar seu êxtase de surpresa.

- Então o que acham? - Petrillo parecia uma criança toda satisfeita com seu invento.

- O que acha, Capitã?- Jordan perguntava encarando ela que olhava fixamente para a paisagem formada no holodeck.

- É impressionante, Sr. D’Angelis, se me contassem de fato custaria a acreditar. - Diana olhava a cena.

- Fascinante - Melrik muito lógico e analisando tudo no dueto “matéria X energia”, via a situação de forma não emotiva, diferente dos demais.

Diana conhecia este local, na verdade viu através de arquivos e imagens do computador, sem nunca ter estado em Efesos III, mas era tudo tão real, uma paisagem admirável, a fidelidade era incontestável e faria aumentar a adrenalina de qualquer um, o holodeck quando empregado para testes certamente diminuiria o custo de qualquer treinamento fictício da frota, não que este não fosse fictício ou barato, mas vendo do lado custo benefício, este poderia ser feito em qualquer lugar do espaço, mesmo em viagens no espaço profundo, sempre tendo a oportunidade de aprimorar os conhecimentos, reciclando periodicamente os tripulantes. E aquela paisagem parecia tão real, as colinas e o verde, uma ravina encantadora que enchia de paz o espírito. Diana só tinha medo agora do vício e na alienação que uma coisa dessas podia causar...

- Capitã...

D’Angelis a tirou de seus pensamentos

- Então, além de impressionante é real, veja - Jordan tocou em uma espécie Efesiana de planta próximo a eles, - Toque. - Jordan a encorajou. Diana a tocou sentindo até mesmo um frescor de vida nas folhas azuis, era impressionante.

- Não esquecemos nem da vegetação - Petrillo olhava todos demonstrando muito orgulho de sua invenção, não era pra menos.

Diana tocava tudo que via, a fim de notar a diferença de texturas, Sanchez fazia o mesmo impressionado.

Melrik olhava o céu tão azul com o sol a pico, era fascinante a recriação da atmosfera, da luminosidade e demais fenômenos climáticos.

Eles estavam em uma pequena colina rodeada de arbustos verdes, e arvores, podiam ver a baixo uma ravina protegida por duas montanhas enormes que davam um efeito grandioso vistas ao longe. Diana deixou escapar um riso de repente.

- Incrível, estava pensando, se ...andarmos mais um pouco vamos dar com a parede de metal do holodeck, a barreira entre nós e o espaço... e tudo parece tão vasto e longínquo.

- De forma alguma, Capitã. - Petrillo falou quase que ofendida, fez uma espécie de muxoxo que fez Diana sorrir amavelmente. - Ande, ande por onde quiser, aqui dentro não podemos pensar em barreiras tridimensionais de distância, largura e altura referentes à Nave, mas tão somente relacionados ao contexto solicitado do computador, poderemos andar quilômetros se desejarmos, sentiremos os quilômetros um a um, isso é inovador Diana - Petrillo falava entusiasmada, mas Diana tinha que lhe dar razão - O que vemos Srs. Não é uma foto, um sistema fixo de paisagens criadas, estáticas, mais é um conjunto holográfico, que recria a atmosfera real da situação desejada.

- É maravilhoso. - Jordan concluiu.

Diana pensava que Sarah deveria estar lá, deveria ver, mas não faltaria uma oportunidade para isso, talvez seja para isso que uma conselheira sirva, Diana sorriu pra si mesma, pensando no que Sarah havia dito, “não sei pra que serve esta conselheira”, talvez para evitar que metade da tripulação se vicie em algo tão fascinante; de qualquer forma Diana se policiava para ela mesma não se empolgar demais com aquilo, afinal ela deveria dar o exemplo...

- Em que época do ano estamos, D’Angelis? - Diana se voltou para o engenheiro que estava ao lado de Melrik.

- Em Efesos III o ano inteiro é assim - Ele a encarou com um sorriso leve.

- Um paraíso perpetuo na concepção terráquea - Melrik completou olhando para longe, sem notar os olhares trocados entre a Capitã e o Engenheiro.

Em Zenimar...

Eles entraram numa sala discretamente posicionada no subsolo de uma das casas de banho muito comuns em Zenimar, que tinha uma mesa simples e algumas cadeiras a sua volta. Uma lâmpada discreta banhava o ambiente com uma luz amarelada. No centro da sala, com cinco guerreiros a sua volta, fora os dois que se postavam à porta, estava uma fêmea Klingon alta e forte, de olhos agressivos e porte altivo. Era evidente que sabia quem era e porque estava ali. Não se surpreendeu inamistosamente ao ver Joshua.

- Sentem-se - a Klingon falou com muito pouca polidez.

Sarah permaneceu de pé atrás de Benrubi, cruzou os braços e sustentou o olhar intrigado da Klingon.

- Você tem um animalzinho que parece pensar ser invencível, humano - e mostrou os dentes numa imitação de sorriso.

- Posso lhe assegurar que ela nunca me falhou, independente do numero de oponentes, senhora.

A Klingon sorriu com sarcasmo e Joshua sorriu de volta.

- Bons servos facilitam nossa vida, humano, mas eu não tenho ilusão quanto à absoluta fidelidade de ninguém, Klingon ou não.

Sarah esboçou um sorriso discreto, que foi percebido pela Klingon.

- Meu nome é Dexter. O que você precisar eu tenho.

A Klingon sorriu mordazmente. - Chame-me de Kasmian, Dexter. Como disse antes, é muito difícil confiar em alguém. E minhas fontes nunca ouviram falar de você, humano.

Joshua se inclinou para trás. - Não estou vivo e livre até hoje por me colocar em anúncios, senhora - e sorriu sem afabilidade. - E eu também nunca ouvi falar de você, Klingon.

Kasmian se empertigou, encarou Joshua por alguns segundos e depois sorriu devagar.

- Ficamos então empatados, como dizem os humanos, por enquanto, Dexter.

Joshua concordou com um aceno de cabeça. Um dos Klingons trouxe uma garrafa de licor e duas taças, serviu-as e se afastou.

- Tenho material de defesa para fornecer, e se estamos aqui estamos por isso, Kasmian. O que você quer, especificamente?

- Você é um negociante muito pouco adulador.

- É o meu defeito, mas sempre achei que amolar demais o cliente com “sugestões” não é bom para ambos.

- Será que você, e só você, poderia me fornecer o que preciso?

- Eu sempre trabalho com exclusividades, Kasmian. Fale o que precisa e eu não a decepcionarei.

- Talvez você tenha que mudar essa idéia, Dexter.

Joshua inclinou a cabeça devagar, os olhos apertados e rapinos.

- Posso fornecer o material que quiser numa quantidade que armaria um pequeno exército. Mas pelo que está dizendo não quer armar um pequeno exército. Pelo que soube, meus serviços para você seriam contínuos.

Kasmian sorriu. - Prove-me que é realmente bom no que faz. Quero uma dúzia de rifles phasers com disrruptor nível 3.

Joshua não sorriu. - Para quando?

- Não os tem com você? - um dos klingons finalmente se pronunciou, o que parecia ser o mais velho.

- Claro que não. Por que andaria com objetos tão evidentes em meu bolso? Amanhã no fim do dia.

- É muito rápido.

- Isso é fácil de conseguir. - E levantaram-se.

- Por um momento pensei que me pediria uma AVE DE RAPINA.

Kasmian riu. - E você conseguiria , humano?!

- Não em um dia, com certeza.

Joshua e Sarah saíram deixando Kasmian com um sorriso pensativo.

- Podemos confiar neles, minha senhora?

Ela permaneceu calada por um momento. A sensação que tinha de ambos era que não lhe falhariam e não sabia explicar porquê.

- Veremos, Akir...

Depois...

McKenna usou um tricorder comum, do tipo não usado pela FROTA, para fazer uma vistoria de rotina nos aposentos de Joshua. Ele entrou depois dela e fechou a porta atrás de si. Ela tirara o sobretudo e Joshua olhava com certa ausência suas pernas fortes e bem torneadas e as nádegas rijas evidenciadas pela calça colada. E, ainda assim, ele conseguia ver a farda nela, como se fosse uma marca indelével.

Sarah se voltou para ele. - Podemos falar agora. Não podemos dar a ela disrruptores 3, mesmo que sejam uma dúzia.

- Então? - ele se sentou na cama e tirou os sapatos. Estava cansado. Haviam dormido muitíssimo pouco desde quando haviam chegado em Zenimar. Suspirou. - Adoraria ir numa daquelas casas de banho...!

Sarah umedeceu os lábios. - E o que o impede?

Joshua deu uma risadinha - Você.

McKenna ergueu a sobrancelha esquerda.

- Vou preparar dispositivos de deleção e micro destruição nos faisers. Parecerão usuais, perfeitos, mas se tornarão inúteis em pouco tempo. Düff como sempre nos proveu muito bem, espero que ele esteja se saindo bem na verificação do terreno.

- Quanto tempo ficaremos aqui? Não quero que esses rifles fiquem inúteis enquanto precisarmos desses disfarces, McKenna.

Ela sentou ao lado de Benrubi e deu um suspiro discreto. - Não se preocupe, Joshua. Se Kasmian é a pessoa que procuramos, uma parte de nosso trabalho já está feito.

Benrubi sorriu distraído, meio irônico: - Mesmo que seja ela, saber seus reais planos ou intenções não será um passo fácil. E você sabe, Sarah. Mas em último caso...

Sarah sabia a que Joshua se referia: ao método vulcano de exploração mental, o que necessitaria de uma aproximação a qual Kasmian certamente não permitiria, facilmente. Mas ambos esperavam que aquilo não fosse preciso.

- Ela me pareceu simpatizar com você, Joshua. Não é uma klingon comum. Agressiva sim, mas com uma mente aberta as possibilidades, adaptável.

- Kasmian seria uma líder perfeita nas atuais condições do Império Klingon então, Sarah. Se fosse realmente possível reerguê-lo.

Sarah segurou por um instante na perna dele e se ergueu. - Mas não é.

Ele passou as mãos nos cabelos e deitou-se na cama com um longo suspiro.

- Felizmente ou infelizmente?...

Sarah concordou com um aceno de cabeça e entrou no quarto ao lado.

****

Eles desceram da pequena nave no meio de um campo banhado da luz multicolorida do final da tarde. Com Benrubi, Düff e McKenna estavam os três jovens sargentos que haviam sido designados pela Dissuasão para auxiliá-los como “complementos”. Eram duros e inflexíveis em suas poses de recém saídos da Academia. Apesar disso, passavam por auxiliares de bandidos muito bem e permaneciam calados e alertas, o que para Sarah era satisfatório.

- Um belo lugar para um passeio - Düff comentou colocando as mãos nos bolsos.

Sarah concordou com um gesto silencioso e voltou-se para o sul.

- Uma Nave se aproxima.

Joshua virou-se na direção indicada mesmo ainda não ouvindo nada.

A Nave de Rapina pousou silvando e levantando poeira, que os envolveu por alguns segundos. A esteira baixou e Kasmian e seus guerreiros desceram em ordem.

Dois dos sargentos, que estavam com uma caixa metálica entre eles, pegaram-na e a colocaram a cinco passos de Kasmian. O klingon mais velho fez um sinal e um deles se aproximou e abriu a caixa, voltou-se para Kasmian com um arremedo de sorriso no rosto.

- Muito bem, Dexter.

Kasmian olhou para Düff, mas não perguntou nada sobre o outro humano. Ela fez um sinal e o jovem klingon pegou um dos rifles, armou-o e apontou para Joshua.

A reação de Sarah foi instantânea: colocou-o para trás de si com um gesto e apontou a mão para Kasmian. Entre seus dedos brilhava um laser azul que incidiu sobre a testa da líder klingon.

- Tenha certeza de ser preciso no seu tiro, klingon. - Joshua murmurou calmamente. Düff sorriu já preparado para a ação.

Kasmian sorriu e com um gesto, o klingon com o rifle apontou-o para um arbusto próximo e o pulverizou.

- Seu animalzinho continua pensando ser invencível, Dexter.

- A ousadia de seus guerreiros podem machucá-los, Kasmian.

Ela se aproximou de Joshua e os dois começaram a caminhar lado a lado. - Não creio que a demonstração frouxa de força e lealdade de nossos servos abale nossos negócios, Dexter.

Joshua retribuiu o sorriso. A klingon era refinada, evidentemente muito culta. Seus olhos pareciam sempre carregar um irônico conhecimento das atitudes alheias, que conseguiam perscrutar as verdadeiras intenções de cada um. Nesse momento teve vontade de olhar para Sarah, pois sentia-a bem atrás dele em seus passos silenciosos. O outro humano que parecia ser o sócio de Dexter ficou ao longe observando-os.

- Não posso ficar muito tempo aqui, Kasmian. Tenho negócios a cuidar e alguns locais novos para “visitar". Mas se você precisar realmente dos meus serviços...

- Então, você me servirá “adequadamente”, Dexter?

- Se seus créditos forem bons...

Kasmian se voltou para ele. - Oh, você não está sendo vulgar de verdade, está, humano?

Joshua não conteve o sorriso charmoso. - Não com você, Kasmian.

Ela riu gostosamente. - Ah, Dexter, eu não sou humana, esqueceu? Se quer me fazer a corte tem que ser um pouco mais agressivo...!

Joshua riu – É, eu sei...!

Eles atravessaram uma arcada e entraram por um túnel a céu aberto, parte de umas construções muito antigas naquela área e desembocaram num amplo salão circular, também a céu aberto, todo escavado na rocha com longos bancos à volta e uma enorme e baixa mesa de pedra redonda no centro.

O klingon mais velho, que era o segundo em comando do que quer que eles fossem, pôs sobre a mesa um mini computador ligado a um suporte de holograma.

- Meus “aliados” atuais pretendem me fornecer os meios financeiros, bases operacionais e informações estratégicas para auxiliar o meu intento. Mas o armamento, e como e de quem consegui-lo, ficam por minha inteira responsabilidade. Não é de minha preferência que seja assim, mas no momento é inevitável.

Kasmian se sentou e Joshua acompanhou-a no gesto, sentando-se junto dela. Os demais ficaram a uma distância discreta.

- Você acredita que seus “aliados atuais” serão... precisos? - Ela o fitou. - Eu sei Kasmian que isso não é do meu interesse. Mas nas atuais condições do povo klingon, desculpe-me, mas não podemos mais chamá-los de Império, é evidente que suas “intenções” tendem a fracassar, se você não domina todas as pontas dessa estrela.

Kasmian alisou a própria perna, pensativa.

- Eu sei bem isso, Dexter. Mas no momento, como eu já disse, isso é inevitável...

Joshua percebeu que eles estavam arriscando tudo, independente das conseqüências que viessem a sofrer. E ele os admirou por isso. Eram os verdadeiros klingons que sempre conhecera, com os quais lutara desde que saíra da Academia da Frota, os inimigos prepotentes e perigosos de outrora e não os seres de orgulho quebrado e vidas adaptadas à força que vira ultimamente.

- Eu admiro sua coragem.

Eles se fitaram.

- No fundo não acredito que isso seja uma questão de coragem. Talvez uma questão de sobrevivência. Digna sobrevivência.

Joshua baixou os olhos e depois fez um sinal para Sarah, que se aproximou.

- Ela pode ensinar o básico da manutenção das armas mais modernas que você me encomendar. Se você precisar.

- É um oferecimento altruísta, Dexter?

- Não sei, Kasmian. Não gosto muito da idéia, mas você me impressionou bastante.

Sarah colocou um dos pés no degrau abaixo deles e apoiou um dos rifles no joelho flexionado. Os guerreiros Klingons a cercaram e ela desmontou a arma e montou-a de novo, pôs a célula de energia e então esperou.

- Pode me dar uma demonstração?

Joshua fez um sinal positivo para McKenna, que se voltou bruscamente e acertou quatro alvos aleatórios em torno do salão e por ultimo o boné do terceiro sargento que estava mais longe. O rapaz ficou pálido mas nada disse. Sarah apoiou o rifle no chão e voltou-se para Joshua, esperando.

- Seu animalzinho é muito hábil.

Sarah a fitou diretamente.

- Mas não fala muito. A não ser com os olhos, que dançam como fogo.

Sarah assentiu.

- Venham, vou lhes mostrar do que vou precisar - e Kasmian foi até o computador sobre a mesa e ligou o holograma, que mostrou vários gráficos seqüenciados. Joshua reparou que naquela seqüência não haviam apenas estimativas, mas mapas estelares e terrestres, possivelmente de Kronos, mas Joshua não podia confirmar naquele momento. - Será uma ação grande mas de rapidez fulminante. Para isso vou precisar do seguinte:...

Mais tarde no QG temporário...

McKenna se esparramou na cama de olhos fechados. Joshua sentou-se perto dela, muito satisfeito, olhou-a e de repente sentiu vontade de passar a mão em seus cabelos castanhos.

- Sarah?

- ...Só um segundo, Joshua... - então ela suspirou fundo e sentou-se bruscamente na cama.

- Tenho certeza que você pode tirar umas horas para descansar, McKenna. Afinal você não dormiu ontem.

- Como sabe disso?

- Já estava com os rifles prontos hoje pela manhã. Me pareceu bem óbvio.

- Você está sendo lógico, Joshua Benrubi.

- Não seja engraçadinha . Não aqui.

- A gente acerta isso depois. - e se dirigiu para a porta.

- A onde você vai?

- Verificar o outro lado da moeda.

- Vai “visitar” o contato romulano, não é?

- Sim, ele chegou hoje à tarde; Düff já está no encalço dele e me espera.

- Leve um dos coleguinhas.

- Prefiro que fiquem com você. Talvez sua nova amiga Klingon queira visitá-lo.

Joshua riu do tom irônico dela. - Você está com ciúmes!...

- Poupe-me, "Sr. Dexter"... - então parou, fitou-o por um momento e voltou para junto dele. Pôs a mão no bolso e, sem cerimônia, abriu a camisa dele, tocou-lhe o peito nu com a ponta do dedo. - Assim ficarei menos preocupada.

Ele olhou para o círculo quase imperceptível que era o sensor de distância e depois para ela.

- Fico lisonjeado com sua preocupação, mas e você?

- Tem um detector ali. Tenho um desses em mim e outro está em Hans.

- Tenham cuidado.

- Sempre. - E saiu.

****

McKenna e Düff caminhavam separados, mas próximos; entraram numa das muitas tendas multicoloridas que se multiplicavam indefinidamente pela feira noturna ao ar livre de Zenimar, aproveitando para se abrigar da chuva fina e insistente que caía desde que saíra da pousada em que eles estavam e que era um QG temporário.

Um mercador romulano a recebeu cheio de boa vontade, encarando o humano que a acompanhava. Quando a reconheceu, sorriu de maneira diferente e indicou-lhe os fundos da tenda, que funcionava como uma espécie de escritório privado.

- Que bom que você veio até aqui. Poupou-me o trabalho de procurá-la. Quem é seu amigo?

Düff sorriu.

- Por enquanto não é da sua conta... - e sorriu matreiro.

- Humanos nunca foram educados mesmo.

Sarah ergueu a sobrancelha.

- Sabia que o procuraria quando fosse adequado. O que o apressa?

- Faço um favor ao seu governo trazendo-lhe um recado: eles ordenaram que vocês retornem. A missão de vocês se encerra aqui.

- Nosso único relatório não foi suficiente para tal decisão, romulano - e pôs as mãos na cintura. - Os romulanos vão traí-la?

O falso mercador se empertigou.

- O pretor não está de acordo com essa “ação mista”, se é o que está insinuando!...

- Eu não fui informada sobre a extensão dessa rede.

- Nem era necessário. Essas coisas foram decididas agora, e só cabe a nós cumpri-las.

- Para pegá-la terão que ter um flagrante. Que nos estamos providenciando.

- Exato. - ele insinuou sorrindo.

Sarah ficou revoltada.

Düff começou a ficar indignado.

- Nunca a capturarão então. Não aquela Klingon. - Sarah deu as costas ao romulano e saiu correndo acompanhada de Düff. Precisava contar a Joshua imediatamente. Düff seguiu por outro caminho: precisava entrar em contato com Kasmian.

****

Benrubi a ouviu atentamente e depois se levantou decidido.

- Eu... preciso ir até lá, Sarah. Preciso saber se ela...

- Eu também quero testemunhar isso. Não quero que seja assim. Düff já está a nossa frente agora.

Eles se encararam. Havia um forte sentimento de injustiça permeando-os. Não importavam suas ordens: o fato é que, para ambos, aquela Klingon tinha o direito de se opor às novas mudanças, mesmo que estas fossem definitivas e metamorfoseantes. Quem realmente lhes garantiria qualquer réstia de autonomia ou existência como povo sem seus líderes, qualquer que fossem suas posições?

Benrubi e McKenna começaram a arrumar tudo e saíram em seguida; tinham que se encontrar com Düff e depois tentaria encontrar Kasmian: obedecendo as ordens, iriam em busca de uma nave que os levassem a estação espacial mais próxima. Não poderiam deixar que a simpatia que sentiam pela Klingon transparecesse a seus superiores. Haviam vindo confirmar pessoalmente os boatos de reunificação Klingon e possível ajuda romulana, que já havia habilmente sido camuflada com aquela mudança de ordens. Tudo o que Sarah podia esperar, intimamente, era que aquela Klingon inteligente pressentisse a traição romulana. O que era mesmo que esperar um milagre. Afinal Düff também não poderia revelar tal simpatia pela klingon perante os espiões romulanos.

- SARAH , ESTÁ ME OUVINDO...?

McKenna colocou o pequeno fone no ouvido. Estava de pé muito próxima ao espaço de aterrissagem das pequenas naves, envolta num barulho ensurdecedor.

- Muito mal, Düff...! Onde você está?...

-FEC... RAM O BAR DO ENC...TRO A POUCOS MIN..OS, SARAH!... EXPLODIRAM METAD... DO QUART..ÃO!...

Sarah mordeu os lábios. - Ela estava aí, Düff...! Ela estava?

- NÃO SEI, SAR...! ESPERO VOC... AQUI!... RAPID...!! VOU TENTAR DESCOBRI... ALG... A ... COIS... ! DESL....

Sarah e Joshua já estavam correndo para o local indicado. Demorariam muito mais à procura de um transporte até lá. Se tivessem sorte, chegariam em dez minutos e encontrariam um Düff inconformado. Joshua já parecia bem revoltado neste instante. Se não tivessem, teria todo o direito de ficar louca e desesperada atrás dele, pois daquela distância já conseguia ver a fumaça e ouvir o barulho indefinido que vinha do local.

****

- Onde o Sr. Düff está? - ela perguntou muito rouca e inflexível a um dos três sargentos que encontrou no meio da pequena multidão.

Joshua saiu em disparada atrás do Médico.

- Sr... - o rapaz murmurou constrangido não entendendo por que ela não estava mais usando o nome “Owen”.

- Acabou, soldado. Temos que ir.

Düff chegou neste instante e encarou Sarah: intimamente ela sentiu um grande alívio por ver ele vivo, apesar de saber disso.

Joshua já tinha se separado dela há alguns minutos, mas não o via em companhia de Hans.

- Onde está o Tenente Benrubi, sargento? - Hans o indagou.

- Pegou um transporte e foi até as ruínas, Sr.

Sarah suspirou fundo, exasperada, e olhou para o Hans.

- Vamos, sargento. Contacte os outros e vamos para o espaço porto. Não temos mais nada para fazer aqui...

O rapaz a seguia mordendo os lábios, confuso e ansioso. Como tudo tinha acabado assim de repente? Contactou seus colegas e pode notar o tom confuso em suas vozes. O comunicador de Sarah soou de novo, alertando a ambos:

- SARAH...?

Ela mordeu o lábio - Onde você está, Joshua?

- ESTOU VOLTANDO PARA CIDADE... ONDE VOCÊ ESTÁ?

- Estamos indo para o espaço porto.

- ESTOU INDO PRA LÁ. DESLIGO.

Uma sensação desagradável se apossou dela por um momento. Os três jovens sargentos estavam agora reunidos a cinqüenta metros de distância dela e já haviam conseguido um transporte. Sarah os alcançou em silêncio e eles se foram.

****

Düff a encarou e em seguida entrou na nave: sabia de certa forma que Sarah queria falar a sós com Joshua.

McKenna estava de pé na entrada da nave, aguardando Joshua. De longe, o mercador romulano a observava discretamente.

Conhecia a família ablagiana daquela mulher esquisita e recebera recomendações severas de não interferir na missão dos humanos, pois eles fariam todo o trabalho sujo até que chegasse o momento de eles reverterem o apoio prometido a Klingon rebelde.

Não interessava aos romulanos confirmar sua não neutralidade para com a Federação tão explicitamente, mesmo que os futuros acordos com Kasmian, se essa fosse bem sucedida em seu intento, se mostrassem vantajosos.

Não, ainda não estava nos planos do Pretor mostrar a Federação a verdadeira posição do Império Romulano.

Ele sorriu quando percebeu que ela o avistara. Talvez um dia, quando os intentos dos romulanos começassem a se revelar, ele pudesse finalmente voltar para casa. O romulano balançou a cabeça para si mesmo: apenas especulava, pois aquelas coisas não lhe cabiam pelo menos não no momento.

Viu o humano chegar e entrar na pequena nave agitado, sem trocar uma palavra com ela, que o seguiu sem reação aparente.

O espião romulano sorriu de novo, irônico.

- Minha prima mestiça... - e deu as costas para a nave que decolava. Tinha um último relatório sobre Kasmian para enviar.

****

- Eu não compreendo como pôde acontecer assim...

- Na realidade você não aceita, Joshua.

Ele passou a mão no rosto e olhou a volta do alojamento confortável que estavam naquela estação espacial, mais uma vez as custas de Sarah. De repente, olhando para ela, compreendia o quanto ela amava a Frota e qual o tamanho de sua dedicação pelo uniforme que ambos ainda não haviam voltado a envergar. Ela não precisava materialmente de nada naquele universo e sua serviência era vulcana.

Ele já contara o que acontecera há apenas algumas horas atrás...

Enquanto o romulano avisava Sarah e Düff para que eles fossem embora ou, em outras palavras, se mantivessem afastados, Kasmian era atacada. Düff chegara ao bar pouco depois das explosões e trocas de disparos faisers entre uma repentino esquadrão romulano e os guerreiros Klingons aliados de Kasmian.

Tentando capturá-la, os romulanos destruíram todo o local, feriram vários inocentes e mataram três Klingons, que protegeram a fuga de Kasmian.

Ela havia ido na direção das ruínas em que eles haviam negociado e Joshua imaginou que os Klingons tentavam chegar à Nave de Rapina.

Joshua seguiu para lá. Tinha, intimamente, esperança de que sua presença evitasse a morte da Klingon; que, de acordo com os padrões da Federação, ela fosse julgada por seus atos e não “punida” clandestinamente .

- A forma, Sarah... Eles a caçaram como um animal e a... mataram assim, fácil, como se não tivéssemos regras a seguir.

- Caçada como um animal... Porque não tivemos competência para detê-la.

Ele a olhou. - Não era de nossa “competência”, Sarah.

Ela oscilou a cabeça levemente. - Talvez não. Talvez nunca tenhamos certeza. - ficou bem perto dele e por um momento teve vontade de confortá-lo. - Você ficou amargurado...

- Porque poderia ter sido eu ... A ordem poderia ter sido pra mim... - e a encarou - ou para você ou mesmo para Düff, eles podem nos pegar de surpresa, todo o departamento. Já pensou que ela tinha direito de opinar pelo destino de seu povo? Já pensou o que será deles de agora em diante? - Levantou e olhou através da escotilha com um olhar parado e profundo. - É como se nunca tivesse visto um Klingon antes... E melancólico vê-los cair ...

- Poderia ser nós, não é ? - e Sarah sentou. - Sempre foram inimigos de primeira. Sinto-me envergonhada ao olhá-los agora...

- Não há mais nada lá, no espaço em que os olhares se encontravam com altivez e sabíamos que havia algo a respeitar.

Sarah sorriu estranhamente. - Lamentamos a perda de um inimigo quase tanto quanto a de um amigo.

Joshua também sorriu. - Afinal, eles não são o sal de nossas vidas?

FIM DA PARTE II.

****

Por: Sílvia Costa.
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