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INFORMAÇÕES    
Autora: Sílvia Costa.
Título: Tradição Original.
Publicação: 02/05/2006.
Publicação Original: 01/11/1997.
Categoria: Jornada nas Estrelas.
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OUTRAS OBRAS DA AUTORA
I Fatos Consumados.
II Forças Antagônicas.
III O Poder dos Iniciais.
IV Vulcanos...
VI Sal da Vida.
VII Nuto Solo Pleraque...
VIII Nuances da Tempestade.
JORNADA NAS ESTRELAS      
USS ATLANTIS - Novos Exploradores. Missão V - Tradição Original - Parte I da Trilogia.
Por: Sílvia Costa.

Imagem de Roberto Kiss direitos reservados.
Imagem de Roberto Kiss feita especialmente para a Série.
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A Federação tem centenas de mundos que a compõe, centenas de mundos que de sua coesão dependem para sobreviverem num universo cada vez mais explorado e populoso.

A Federação prega a igualdade e a justiça entre estes mundos, prega a Primeira Diretriz, mas possui ostensivamente mãos que se estendem por todos esses mundos aliados, e com essas mãos, chamada Frota Estelar, comanda e controla, para o “bem” de todos, esses mundos.

Esse benefício tem um preço. Controlar mundos cria, com ou sem guerras, a necessidade de equipes especializadas nesse controle. Equipes, departamentos... como a Dissuasão. Como o Conselho da Federação, como o controle bem cuidado da tecnologia deste grupo pacífico por mundos e raças mais adiantados para que os novos federados não se engalfinhem, não deixem de obedecer, estejam sempre sob controle...

(...) Diana a fitou com convicção: - Sua sociedade está mudando, seu mundo desmoronou e isso não quer dizer, necessariamente, que algo só ruim esteja acontecendo para o seu povo, Zimmer. Se vocês evoluíram tecnologicamente, sua estrutura de sentimentos uns pelos outros evoluirá também. Isso é inevitável.

Alguma força pareceu crescer dentro da velha mulher, cujos olhos brilharam.

_ Sentimentos! Acha que se constrói uma sociedade com sentimentos?! Acha que não sei que as mudanças são inevitáveis?... – suspirou. – Menina!... Então é tudo que consegue ver sobre nós? Mede-nos por sua história, por sua espécie? Então todas nós, narlogianas e humanos, somos a mesma coisa no final das contas, já que tudo que a sua Federação consegue ser, por suas próprias palavras, é uma fôrma humana para que todos se tornem iguais... Todos iguais aos terráqueos, independente do que cada um seja ou tenha sido... – a voz de Zimmer sumiu de repente e seu olhar vago não pôde ver o rubor nas faces de Diana, que sentiu, por um breve segundo, um imenso nojo de suas funções oficiais perante aquelas mulheres.

Seria por uma questão de justiça universal que estaria ali? Ou estava apenas “dividindo para conquistar”, com a mesma indignidade e ganância que os invasores europeus do século XV quando chegaram nas Américas? (...)

Agradecimentos Especiais: aos leitores que nos dão muitas alegrias.
A Roberto Kiss que gentilmente confeccionou as imagens do conto.

Início da Primeira Parte.

_ ALERTA VERMELHO! POSTOS DE COMBATE! CAPITÃ À PONTE! ISTO NÃO É UM EXERCÍCIO! ALERTA VER...

Diana e Sarah chegaram quase instantaneamente à ponte inundada pela luz vermelha piscante. McKenna verificou as estações de controle enquanto Diana sentava-se em sua poltrona recebendo todos os dados.

_ São klingons rebeldes, Capitã – Chayenne informou.

_ Estão agora sob camuflagem – Melrik reportou de seu posto de ciências.

_ Quantas naves?

_ No momento do ataque, detectamos duas Aves de Rapina – Benrubi respondeu.

_ Velhas, mas excepcionais – Chayenne murmurou com um toque de genuína admiração na voz.

Diana olhou para Sarah, verificando que sua Imediato estava alerta e rígida, apenas os olhos muito castanhos revelando sua excitação com a proximidade de um provável confronto.

_ Khya, alerte-os de sua situaç...

Mas não houve mais tempo para amenidades. A Atlantis sentiu o primeiro torpedo klingon em sua lateral esquerda enquanto viam uma antiga, mas ainda respeitável Ave de Rapina abandonar a camuflagem. Era uma situação, no mínimo, penalizante ver a nave klingon em evidente estado de penúria atacar a novíssima e bem cuidada nave da classe Ambassador. Mas O’Conell não tinha porquê ter pena naquele momento: ordenou evasivas enquanto as duas naves klingons tentavam cercar a Atlantis, que inutilizou uma delas e destruiu a outra com exagerada facilidade.

Diana fitou os escombros pela tela. Combate? Aquilo havia sido um massacre... Até quando aquelas situações se repetiriam? Até quando os klingons estariam divididos entre o passado beligerante e o presente de multi-cooperação do qual necessitavam para sobreviver?

_ Capitã, estamos captando sinais de uma forma de vida na nave klingon semidestruída – Melrik informou.

_ Um sobrevivente? – o médico indagou enquanto entrava na ponte. – O que estamos esperando, senhores?

Diana sorriu para Düff. – Transportes, travar nas coordenadas fornecidas pelo sr. Melrik e aguardar o dr. Düff para efetuar a transferência para a Enfermaria. Sr. Benrubi, providencie dois seguranças.

_ Sim, sr.

_ Melrik, faça uma sondagem minuciosa na nave klingon.

_ Sim, Capitã.

_ Khya, informe nossos passageiros de que tudo está perfeitamente bem e que eles não se atrasarão para a conferência em Mesmarrá.

_ Sim, Capitã.

Diana olhou para Benrubi, que estava com a fisionomia carregada. Compreendia com perfeição a posição dele: novos diplomatas para a Federação, protocolos de segurança para cada um deles e agora um prisioneiro belicoso no meio disso tudo. Suspirou e voltou para seu gabinete.

Mais Tarde, Em outra parte da Atlantis...

Os membros graduados da Atlantis que estavam de folga naquele turno se encontravam no salão de recreação, o que os tornavam sempre muito bem vistos pela tripulação. Eles eram próximos, acessíveis, e suas pequenas e grandes “manias”, nuances de suas personalidades, passavam a ser conhecidas e respeitadas por estes. Sabia-se o que esperar da “Cúpula”, dentro da medida do possível, é claro.

D’Angelis sorriu ante a expressão carrancuda de Joshua, que acabara de se juntar a ele e Khya.

_ O que é tão engraçado, Jordan?

_ Em primeiro lugar, tire esse ar de velório da cara e me diga uma coisa: você acredita que aquele único klingon é um perigo para nós?

Benrubi suspirou. Sua postura não era uma questão de intransigência ou aversão gratuíta aos klingons, pelos quais, de fato, não nutria qualquer tipo de sentimento, mas se havia alguém naquela nave que por obrigação tinha que desconfiar de tudo era o Oficial de Segurança, por acaso ele mesmo. Além do mais...

_ Chame de instinto, mas algo está me dizendo que essa não foi uma boa idéia. Respeito aqueles sacanas o suficiente para aceitar o quanto são perigosos!

_ Bem, eu concordo com o sr. Benrubi nisso, - Khya opinou – mas acho que levamos uma vantagem numérica reconfortante sobre ele, não acham? Além do mais, o dr. Düff não comunicou as condições do paciente.

Como que atendendo as expectativas dos três homens, o comunicador pessoal de Joshua chamou.

_ Benrubi falando.

_ A KLINGON RESGATADA ESTÁ EM MELHORES CONDIÇÕES DO QUE ESPERÁVAMOS A PRINCÍPIO, SR. BENRUBI.

_ Então ela pode ir para uma cela, sr. McKenna?

_ PELA DESCRIÇÃO MÉDICA DE SEU ESTADO, NOSSO DOUTOR GARANTE SUA PLENA RECUPERAÇÃO EM 24 HORAS, OU MENOS. DIRIJA-SE A ENFERMARIA. LÁ A CAPITÃ DECIDIRÁ ISSO.

_ A Capitã está sozinha na Enfermaria?

_ E SEUS HOMENS POSTADOS LÁ, O QUE SÃO?

D’Angelis conteve discretamente seu sorriso: ainda estranhava o fato de Joshua, sempre tão seguro e charmoso com as outras mulheres da nave, ”derrapar” em suas observações, vez ou outra, diante da Imediato.

Benrubi pareceu ficar vermelho por um ou dois segundos, mas a vulcana tratou de “soprar a mordida”:

_ APRESSE-SE, SR. BENRUBI, A CAPITÃ O AGUARDA. DESLIGANDO.

Jordan observou a saída dele e riu para Khya, se despedindo e indo para a Engenharia.

Pela própria Atlantis, que ela queime até o último parafuso em uma reentrada, se Joshua Benrubi não tem uma ‘quedinha’ por Sarah McKenna!...

Balançou a cabeça, sentindo, em seu íntimo, uma certa compaixão pela situação do amigo se aquilo fosse mais que uma ‘quedinha’...

Na Enfermaria...

_ Devemos aumentar a segurança aqui na Enfermaria, Capitã?

_ Apenas a de praxe, Benrubi. Com todos esses passageiros na Atlantis não quero que haja ‘curiosidade’ sobre nossa prisioneira. E quanto a sondagem?

_ O sr. Melrik conseguiu poucos dados técnicos relevantes da Ave de Rapina. Quase tudo está seriamente avariado. Ao que parece, pelo diário de bordo klingon, eles estavam indo até a fronteira do sistema original klingon para receber novas instruções. Era uma patrulha autônoma de reconhecimento nas fronteiras da Federação. Aparentemente, resolveram aventurar além de suas ordens primárias.

_ Espiões suicidas ou mercenários – Diana murmurou.

Joshua assentiu. – Se o diário não foi traduzido incorretamente, esta klingon chama-se Irgg e era a Engenheira daquela nave.

_ Obrigada, Benrubi – Diana disse pensativa. Eles estavam na ante-sala da Enfermaria. Hans Düff voltou para junto deles. – E então, dr?

_ Uma recuperação rápida, mas dentro do que eu esperava.

_ Isso é ‘ótimo’, dr – Benrubi resmungou com ironia.

Hans colocou a mão no ombro dele. – Eu sei que esse monte de civis está te dando nos nervos, mas não tivemos escolha. Pelo menos eu não tive: apesar de “médico” ser apenas uma palavra antiga que ainda usamos por tradição, eu, como humilde engenheiro genético, devo manter a velha premissa de ‘salvar vidas’ – deu um soquinho de leve no peito de Joshua, que não pôde segurar um sorriso. – Mantenho a saúde de vocês, mas também passo ungüento nas feridas de vez em quando.

Benrubi assentiu, sabendo o quanto estava sendo rabugento. – Posso levá-la para uma cela assim que puder ficar de pé, Capitã?

Diana sorriu. – Doutor?

_ Ela acordará em 15 a 20 horas, crianças.

_ Prazo estabelecido, a partir daí é seu departamento, Benrubi.

_ Obrigado, Capitã.

No Salão de Refeições Adaptado para os Passageiros, Mais Tarde...

_ Eu não agüento mais ser babá desses diplomatas, sr. Ness. Eles têm cada exigência!...

William Ness sorriu para o ordenança recém-engajado com ares de autoridade, apesar de ser tão jovem quanto este. – Sr. Augustus, teremos que atendê-los por mais tempo ainda: até a fronteira interna do Quadrante Alfa e de lá para a sede da Federação.

_ Isso é um consolo, sr. Ness. Ir para casa depois de todos esses meses!...

Ness voltou a sorrir. Meses? Para eles eram quase 3 anos e, junto a isso, parecia que o tempo não havia passado...

Mais adiante, Melrik estava com o embaixador e a embaixatriz vulcanos, quando Diana e D’Angelis entraram. O’Conell se dirigiu aos vulcanos, cumprimentando-os como era devido, trocando breves e polidas palavras. E foi de um grupo diplomático ao outro, cumprimentando-os de acordo com seus próprios costumes com desenvoltura e naturalidade.

D’Angelis se misturou a um grupo heterogêneo e Diana voltou a dar atenção aos vulcanos, que estavam ali como representantes diretos da Federação. Melrik já havia retornado ao seu posto.

_ Nunca vi um humano falar tão bem a língua vulcana, Capitã O’Conell.

Diana assentiu levemente, com uma expressão muito suave. Pelo que conhecia dos vulcanos, aquela frase poderia ser considera quase – QUASE – um insulto. Apesar de toda a lenda criada em torno deles, haviam muitos vulcanos, mesmo que veladamente, que não aprovavam os humanos, e várias outras raças, como parceiros dignos de confiança e respeito. “Primitivos”... “Emocionais”... Palavras nada elogiosas quando saídas da boca de um vulcano.

_ Se é um elogio, eu o aceito, senhora.

_ Esposa, esse não é o comportamento adequado a uma embaixatriz vulcana – o embaixador interveio.

Ouviu-se risadas mais adiante: D’Angelis contara uma piada.

_ De fato, marido – a embaixatriz concordou, esboçando uma expressão que Diana considerou como um breve sinal de trégua. Nesse momento, soou em todos os níveis da Atlantis a condição de alerta.

_ TRIPULAÇÃO A SEUS POSTOS! ALERTA AMARELO! CAPITÃ À PONTE! ALERTA AMAR...

Diana já havia sumido.

****

_ Status, McKenna – Diana perguntou assumindo seu posto, para logo constatar o que Sarah dizia:

_ Estamos sob um forte raio trator, Capitã.

_ Eu não entendo! A nave hostil está a uma distância inviável para usar o raio trator! – Chayenne acabou por exprimir o pensamento de todos.

_ Nenhuma comunicação, sr. Khya?

_ Não, sr. Eles simplesmente ignoram minhas tentativas de contato.

_ Amplie visual, sr. Benrubi.

O pequeno ponto aumentou para mostrar aos membros da Atlantis que aquela não era uma nave conhecida.

_ É uma nave veniziana? – McKenna perguntou direto para Melrik.

_ Os sensores não confirmam, Imediato.

McKenna não podia entender direito. Semelhante hostilidade, além da própria aparência da nave e setor em que se encontravam, levava-a a considerar um ataque veniziano. Apesar do raio trator não se encaixar com os métodos e a atual tecnologia deles... Mas tecnologia se comprava, e métodos... Conheciam ainda muito pouco daquela raça para falarem enfaticamente sobre isso.

_ Preparamos armamento, Capitã?

Diana colocou a mão no queixo, olhando fixamente para a tela. Sentia algo familiar, muito parecido com alguma coisa que sabia conhecer bem...

_ Não, sr. Benrubi – e olhou para Sarah. – Sente hostilidade?

McKenna voltou-se para a tela, demorando alguns segundos para responder. Segundos que pareceram uma eternidade na ponte silenciosa e amarelada.

_ Não são venizianos. Nem existe uma hostilidade direta contra nós... – e fitou O’Conell. – Na verdade, elas estão dizendo isso.

Diana estreitou os olhos e assentiu estranhamente. McKenna acabara de confirmar o que sentia.

_ “Elas”, Capitã? – Khya, sempre atento aos detalhes, indagou já incomodado com o suspense.

_ Senhores, estamos dominados por uma nave aparentemente mais poderosa do que a Atlantis. Como não parecem ter intenção primária de nos atacar, esperaremos uma comunicação. Tempo de contato para teletransporte?

_ Se mantiverem o atual curso e velocidade, 1 minuto e 25 segundos – Melrik respondeu.

Diana cruzou as pernas e ficou observando a aproximação da outra nave pela tela panorâmica.

Dois minutos depois...

_ SAUDAÇÕES, NAVE ATLANTIS. NÓS SOMOS DA CASTA GUERREIRA DE NARLOG E NÃO TENCIONAMOS AGREDI-LAS. EU SOU KLADOR.

A imagem das duas mulheres vestidas com sobriedade e eficiência belicosa encheu a tela da Atlantis.

_ Por que nos mantêm sob um raio trator, Klador? _O’Conell retrucou.

_ TUDO A SEU TEMPO, MULHER O’CONELL. NOSSO DESEJO É DISCUTIR ASSUNTOS PERTINENTES APENAS ÀQUELAS QUE COMANDAM ESSA NAVE.

_ Nós iremos...

_ NÃO, POR FAVOR, NÓS IREMOS A SUA NAVE, POIS EXISTEM OUTRAS QUE TAMBÉM ESTÃO ENVOLVIDAS.

_ Como queira, Klador.

_ ESTAMOS A CAMINHO – e o contato se desfez.

_ Muito ilógica essa prematura confiança, Capitã.

_ De nossa parte ou da parte delas, Melrik?

Ele meneou a cabeça negativamente: - Os sensores indicam que um tiro direto daquela nave a essa distância, sem escudos, danificaria grande parte da proa da Atlantis.

_ Como vêm, senhores, não temos opção imediata a não ser ouvi-las. Assuma, Melrik. McKenna, Benrubi, acompanhem-me. Sr. Khya, diga ao sr. D’Angelis para nos encontrar na sala de transportes um.

_ Sim, Capitã.

Na Sala de Transportes um...

Cinco corpos começaram a se materializar na plataforma de teletransportes da Atlantis. Klador se adiantou e cumprimentou O’Conell e McKenna com um elegante e curto gesto de cabeça.

_ Estas são Narin, Marlla e Zimmer, da casta de sacerdotisas de Narlog. E esta é Kibar, de minha própria casta. Podemos conversar.

_ Claro. Acompanhem-nos.

Na Sala de Reuniões...

Zimmer, a mais velha, se voltou para O’Conell e disse com naturalidade: - Seus servos não são necessários, mulher O’Conell: dispense-os.

_ Não existem servos na Atlantis, Zimmer – Diana explicou devagar, olhando para McKenna.

_ É muito estranho o costume terráqueo de permitir a presença masculina em todos os lugares, mas não teremos necessidade deles na conversa que manteremos.

Klador sorriu. – A presença masculina é sempre ‘interessante’, - e a palavra soou estranha pelo tradutor universal – mas não teremos tempo para diversão.

D’Angelis disfarçou uma olhada no alinhamento de seu blaser, compreendendo bem o que elas queriam dizer. Benrubi olhou para Sarah e esta tratou de amenizar a situação, já que conhecia bem as opiniões de sua Capitã a respeito de preconceitos:

_ Capitã, das informações que temos, fornecidas pela única delegação narlogiana que já fez contato conosco, essa sociedade é matriarcalista. Homens não exercem qualquer papel social relevante. Creio que nos manteremos num impasse desnecessário com a permanência de D’Angelis e Benrubi aqui...

Diana encarou Klador e Zimmer, mas achou melhor saber de uma vez o que aquelas mulheres queriam. – Senhores, voltem aos seus postos por favor.

Eles assentiram e saíram em silêncio.

_ Assim é melhor, minhas caras.

O’Conell suspirou discretamente e se sentou. – Bem, senhoras, Narlog é um planeta que nunca aceitou contatos com a Federação. Sabemos muito pouco de seus costumes, mas estamos sempre prontos a travar novos contatos.

_ A Federação não é o ponto – Zimmer replicou, olhando Diana bem dentro dos olhos. - Vocês, O’Conell e McKenna, vocês, mulheres humanas, sim.

_ Precisamos da ajuda das cientistas e líderes da Federação para reerguer nosso lar do fundo da destruição.

_ De mulheres de visão, e poder, para guiarem nossa população...

_ ... e ajudar a repararem nossos erros de guerra – Klador completou.

Diana achou aquilo tudo excessivamente dramático, mas havia sido treinada para encarar toda e qualquer forma de expressão sentimental ou retórica lingüística como normais. – A Federação pode dar essa ajuda, senhoras. Temos seres capacitados para tanto. Se uma guerra as afetou, temos possibilidades de ajudá-las das mais diversas formas. E se juntarem a Federação será uma dupla vantagem para...

_ Pelo pouco que sabemos, - Kibar cortou Diana - essa Federação admite... seres masculinos como líderes.

O tom usado foi sombrio, carregado de desprezo.

_ Instituição muito ‘curiosa’ – Narim acrescentou com desdém.

Eram nessas horas que Diana detestava travar contato com novas culturas: quando elas batiam de frente com seus sentimentos mais caros e profundos de igualdade, respeito mútuo e desapego a rótulos ridículos...

_ Bem, mulher O’Conell, temos tempo para discutir tal assunto em profundidade – Zimmer pareceu pôr um termo na emissão de opiniões inamistosas. E, com um gesto, acrescentou: - Liberaremos sua nave. Só desejamos permissão para acompanhá-las.

_ Claro, Zimmer. Não haverá problemas de nossa parte. McKenna, chame ordenanças para acompanhá-las.

****

Três ordenanças chegaram e Sarah instrui-os na delicada missão de acompanharem as visitantes. Os três eram humanóides e um deles era um macho e Sarah sabia de longa data que os humanóides, incluindo os terráqueos, haviam aprendido a ver com maus olhos, para ser amena, qualquer tipo de preconceito físico. Não queria que o comportamento diferenciador das narlogianas fosse motivo de ‘conversas’ na Atlantis, cuja central de boatos era poderosa.

Quando as narlogianas se foram, Diana voltou-se para a vulcana preocupada:

_ O que me diz, Sarah?

_ O controle mental de Zimmer, Narin e Marlla é bem desenvolvido. Com certeza possuem uma série de capacidades mentais que não tive tempo de sondar com facilidade, indicando alguma espécie de proteção calculada. O que elas podem estar escondendo?

_ Ainda não sabemos, mas algo me diz que é por pouco tempo.

Sarah ergueu a sobrancelha esquerda, pensativa. - A questão principal é: elas pediram nossa ajuda e não a da Federação.

_ Começo a não gostar nada disso... – Diana murmurou, fazendo rugas forçadas na testa. – Com certeza usaram o raio trator para testar nossas forças.

Sarah assentiu pondo uma das mãos atrás das costas.

_ Eu as observarei de perto, Capitã – e lamentou intimamente não poder contar com Melrik nisso.

Diana concordou com um aceno de cabeça. – Não use métodos vulcanos com as guerreiras, Sarah, e isso é uma ordem. Ainda não sabemos o que Zimmer quer conosco e quais são seus escrúpulos quanto a vida alheia. Vamos fazer o jogo delas. Por enquanto.

Sarah assentiu, saindo, e quando a porta se fechou Diana se arrependeu de não ter dito à engendrada que não usasse outros métodos também...

Cinco Horas Depois...

_ Eu gostaria, realmente, de visitar sua nave, Klador.

Klador sorriu com orgulho para Sarah. – Nossas naves são excelentes, mulher McKenna! O modelo veniziano é funcional, mas incompetente em muitos pontos. O que é de se esperar, afinal, não se pode esperar muito de um cérebro masculino! – e riu, embalada na banalidade sincera de suas palavras.

McKenna a fitou, fascinada com aquela convicção. Será que ela mesma não carregaria tais preconceitos disfarçados em uma outra forma de agir? A dois reles séculos, os homens terráqueos também agiam assim. Para Sarah não era difícil compreender o quanto aquele tipo de comportamento era fácil de ser desenvolvido e mantido, principalmente – como acontecia com a maioria da fisiologia humanóide – quando um dos gêneros reprodutivos tendia a desenvolver-se mais fisicamente que o outro.

_ O aperfeiçoamento estrutural é evidente, Klador.

_ Poderia vê-la mais detalhadamente, mulher McKenna, mas não sei se suas técnicas terminaram a esterilização bacteriológica – e, olhando em volta, pelo salão de recreação, perguntou quase incrédula: - Por que existem tantos seres masculinos em sua nave? Compreendo que ela é bem grande e que as mulheres não devem fazer todos os serviços, mas... tantos assim são realmente necessários?

_ Esta é uma nave terrestre da Federação Unida de Planetas, Klador. Isso significa par nós que, entre outras coisas, todos são iguais e podem exercer qualquer função, desde que esteja apto para ela.

_ Mulheres e homens... iguais? – Klador murmurou devagar. – Certas idéias funcionam bem em certos lugares, eu compreendo. Mas isso não quer dizer que funcionem em todos os lugares, mulher McKenna.

Sarah a olhou fazendo um gesto de compreensão. A sociedade narlogiana ainda era um complexo mistério para a FPU. Apesar de todas aquelas frases feitas que havia ouvido daquela mulher nas últimas horas, apenas aquela declaração lhe dissera mais coisas que toda a conversa. Haveria uma espécie de dissidência entre as próprias narlogianas?

O som característico do comunicador pessoal interrompeu seus pensamentos:

_ Imediato falando.

_ ESTERILIZAÇÃO DA NAVE NARLOGIANA COMPLETADA. ERAM AGENTES MUITO NOCIVOS, MAS BASTANTE SIMPLES DE NEUTRALIZAR. MESMO NÃO TENDO NENHUM PROBLEMA APARENTE, EU GOSTARIA DE EXAMINAR NOSSAS CONVIDADAS. OS AGENTES SÃO CONTAGIOSOS E QUERO ME CERTIFICAR DE QUE ELAS NÃO SÃO PORTADORAS PASSIVAS, APESAR DO DESCONTAMINADOR DO TELETRANSPORTE.

_ Claro, Düff. Estamos a caminho.

_ Espere, mulher McKenna.

_ Eu compreendo, Klador: o dr. Düff é um homem humano. Mas confie em mim. Compreendo perfeitamente suas ‘restrições’.

Klador a encarou e sorriu. – Sim, eu confio, mulher McKenna. E confiarei no seu julgamento na capacidade do macho humano.

_ Na capacidade desse em especial – e usou o comunicador. – Sr. Khya?

_ SIM, SR. McKENNA?

_ Avise as narlogianas para me encontrarem na Enfermaria agora.

_ ENTENDIDO, SR. IMEDIATO.

****

_ Obrigado por ter chamado suas auxiliares para fazerem os exames, Hans.

Ele sorriu. – O que você não me pede sorrindo... - Sarah inclinou a cabeça, seu modo de evitar um sorriso expontâneo. – Eu compreendo que as narlogianas sejam matriarcalistas, Sarah, mas a atitude delas seria bastante pueril se se negassem a serem examinadas só por eu ser homem.

_ Eu sei, a maneira delas encararem certas coisas beira o primitivo, mas elas acreditam que funções importantes só podem ser exercidas por mulheres – e sorriu rapidamente, no entanto sem nenhuma cordialidade. – Tenho interesse de visitar a nave narlogiana. Tenho sua permissão médica?

_ Claro, Sarah.

_ Então até mais tarde – e se foi, deixando Düff preocupado com suas idéias.

Doze Horas Depois...

_ Capitã O’Conell, - Düff foi direto ao ponto, como lhe era característico. – tenho recebido queixas de todos os setores: as narlogianas estão provocando uma espécie de convulsão inexplicável nos homens com os quais tomam contato. Eles estão se queixando de dores de cabeça e estômago, câimbras, tonturas, ânsias espasmódicas, tremores, etc...! – Hans fungou furioso. – E, pelo que eu pude analisar, se formou um padrão: aqueles que se negam a obedecê-las imediatamente são os que vêm sofrendo este mal estar psicológico. Não há nenhuma causa fisiológica para isso.

_ “Obedecê-las”, doutor? – e Diana o olhou fixamente.

_ Sim, numa demonstração “voluntária” de submissão – Düff fez um gesto largo, como se as estivesse realmente apontando: - Por favor, tome alguma providência ou eu vou esganar um daqueles pescoços metidos...!

Diana se recostou pensativa. Estava começando a se irritar com aquela baderna. Não queria que a Atlantis virasse uma ridícula zona de combate entre homens e mulheres só porque as narlogianas achavam aquilo divertido!

_ McKenna.

_ SIM, CAPITÃ?

_ Reuna nossas visitantes e, como direi, faça-as ver que a Atlantis não pode sofrer interferências externas. Espere por Düff.

_ SIM, CAPITÃ.

****

Horas mais tarde, as narlogianas já haviam se transferido para sua própria nave. McKenna estava no gabinete da capitã dando-lhe um relatório sobre o que vira.

_ É simplesmente inusitado, O’Conell. Elas estão buscando fêmeas humanóides intelectualmente destacadas para recomporem o governo de Narlog, que se desestabilizou numa guerra civil global. Mas elas não foram claras num ponto: a guerra foi entre as próprias líderes ou um ataque dos homens contra elas.

_ Uma rebelião?

_ Elas destacaram que os homens escravos participaram da morte das líderes, mas não explicaram como.

_ Isso é interessante, Sarah. – Diana pensava em todas as possibilidades. – E isso desestabilizou todo o planeta?

_ De fato. As mulheres venceram, mas a população está doente devido a guerra bacteriológica e química. Agora há poucas mulheres de grande intelecto para assumirem os postos de comando. Apesar de terem perdido, os homens são a maioria, como servos e escravos. As principais cientistas morreram e elas precisam de mais cientistas para deterem a catástrofe. Klador me contou que elas se dividem em castas, mas os homens não, além de não terem direitos, educação formal ou autonomia e direitos políticos. Os em melhor posição são os servos, que são, em geral, os filhos primogênitos, trocados entre as famílias e criados como... animais de estimação.

A cabeça de Diana oscilou devagar, intimamente indignada. Aquilo tudo era tão primitivo, principalmente se comparado a tecnologia que as narlogianas dominavam, que fazia O’Conell considerar os vários caminhos que uma sociedade seguia rumo ao desenvolvimento da tecnologia e à maturidade moral e emocional.

Aquelas coisas nunca conseguiam se desenvolver juntas?

Diana olhou para Sarah e a viu muito estóica e impassível, como se tivesse relatado uma banalidade qualquer.

_ Seu lado humano não se entristece com essas coisas?

_ Não, Capitã – e Diana se espantou. – Pelo lado estritamente imparcial, esta é uma sociedade como outra qualquer. Melhor que a humana a menos de dois séculos atrás, pois esses homens podem não ter voz, mas nada lhes faltava em nenhum estágio de suas vidas. Não havia miséria em Narlog antes da guerra. - E prosseguiu, vendo o espanto crescer em O’Conell: - Mas meu lado vulcano rejeita com veemência o desperdício de potencialidades e os conflitos que poderiam ser resolvidos sem guerra.

Diana levantou-se. – Nossas opiniões pessoais não vêm ao caso agora. Se elas não querem, de alguma forma, se juntarem a Federação, como acham que podemos ajudá-las? Sanear o planeta Narlog inteiro exige uma expedição bem estruturada e um contingente de pessoas, materiais e equipamentos significante.

_ Elas sabem disso, Capitã.

O agudo das comunicações soou:

_ PONTE PARA CAPITÃ.

_ Sim, sr. Khya?

_ O DR. DÜFF PEDE SUA PRESENÇA NA ENFERMARIA, CAPITÃ. A KLINGON ESTÁ CONSCIENTE, SR.

Na Nave Narlogiana...

_ Guiamo-nos certo para essa nave da Frota, Zimmer. As fêmeas humanas que comandam essa nave são de excepcionais qualificações. E as qualidades psíquicas da mulher McKenna são tão claras que, se bem doutrinada, suplantaria muitas de nossas melhores sacerdotisas. E a liderança e saber da mulher O’Conell a transformaria numa das maiores governantes já existentes na história de Narlog.

_ Sim, Marlla. Mas elas são muito devotadas a sua responsabilidade para com a Frota. Foi isso que a mulher McKenna disse a Klador. A mulher O’Conell está ligada intensamente a este fator também.

_ Parece-me que servir a chamada Frota Estelar é a única preocupação delas.

_ Não, minhas caras... – Zimmer murmurou misteriosamente. – Existem fatores tão profundos nelas que somente eu pude notá-los. No devido tempo exploraremos esses fatores. Agora temos um primeiro meio de persuadi-las.

Na Atlantis...

_ Você é uma prisioneira da Frota Estelar e será levada para julgamento – Diana estava dizendo na língua klingon. – O que tem a dizer?

A klingon fez menção de cuspir em Diana, mas esta foi mais rápida e se desviou.

Joshua colocou calmamente o fazer na cabeça da klingon.

Não seja suja, criança rebelde.”

Benrubi e os dois alferes de segurança ficaram na mesma. Apenas Diana entendeu e se admirou de Sarah ter usado a língua vulcana, coisa que raramente fazia.

_ Não precisa me ofender nessa língua horrenda - a klingon falou correta, mas com dificuldade na idioma oficial da FPU: - Vocês, fracos humanos e seus aliados, ralé desprezível e nojenta da galáxia, acham que podem julgar um klingon com suas leis ridículas?! - e os olhos de Irgg brilharam de ódio e desprezo. – Não poupem minha vida, se prezam as suas...

_ Chega de discursos fúteis e belicosos, Irgg. Comporte-se, porque por nossas mãos você não vai morrer – Diana declarou com calma, dando as costas para a klingon e saindo.

_ Covardes! Ralé desprezível e covarde! Maldita bruxa mestiça!!

O passo de McKenna, ao lado de O’Conell, oscilou e ela parou sem se voltar.

Klingons tinham um profundo desprezo pela mistura de raças, assim como odiavam a capacidade mental dos vulcanos.

Diana a fitou em silêncio, esperando que Sarah não brigasse com a prisioneira por uma ofensa sem importância.

Tudo aquilo durou poucos segundos: Sarah nem sequer olhou para trás, enquanto Benrubi levava a klingon para as células de segurança.

****

Benrubi e os alferes entraram no elevador com Irgg. Então, estranha e instantaneamente, os dois jovens seguranças começaram a passar mal e desmaiaram.

Joshua, surpreendido, apontou seu faser para a klingon, mas esta, aproveitando que ele também começava a desmaiar de dor, chutou-lhe a cabeça e apossou-se da arma.

Irgg não podia acreditar na sorte que a ajudava, mas não ia ficar ali parada.

Ao Mesmo Tempo...

_ CAPITÃ O’CONELL, AS MULHERES DA ATLANTIS ESTÃO DESCONTROLADAS! SETOR POR SETOR, ESTÃO SOFRENDO DE UMA “AUSÊNCIA EUFÓRICA”, QUE AS ESTÁ INCAPACITANDO, COMO SE ESTIVESSEM... BÊBADAS!!

Diana ouviu as queixas de Hans Düff consternada. Tinha certeza absoluta de que era hipnose coletiva gerada pelas narlogianas.

_ Capitã, informes das alas D, K, E, S... Meu Deus! – Khya disse vendo seu painel piscar enlouquecido com o excesso de chamadas ao mesmo tempo: - Os homens estão passando mal, tendo crises de dor e desmaiando!

_ Que loucura! O que está acontecendo com a Atlantis?! – Ness exclamou.

_ Entre em contato com a nave Narlog, sr. Khya – O’Conell ordenou.

Khya estendeu a mão, mas não teve forças para executar a ordem de Diana. Ele, D’Angelis, Ness e os demais homens na ponte caíram desmaiados, não sem antes gritarem de dor.

Melrik, porém, soergueu-se bravamente e voltou ao seu posto.

Diana levantou-se agitada. – Soe o alerta vermelho, McKenna. Condição de alerta V-2. Melrik, tente contactar Düff – e foi para a mesa de comunicações, antes constatando que Khya e os outros estavam respirando normalmente: - Nave narlogiana, responda imediatamente. Zimmer, eu sei o que você está fazendo. Eu a aviso: isso se constitui numa agressão direta a esta nave estelar – e olhou para a tela inerme. O silêncio a irritou de vez: - Responda, sua maldita feminista!

McKenna olhou para ela com sua sobrancelha esquerda erguida, mas não disse nada. Melrik, mal contendo sua própria dor, nem reparou no praguejar de Diana.

A voz do computador soou por toda a ponte que rebrilhava com a luz do alerta vermelho:

_ ATENÇÃO, FLUXO DE ANTI-MATÉRIA DECAINDO. REAJUSTE AUTOMÁTICO NECESSITA DE NOVOS DADOS. TEMPO ESTIMADO: 9 MINUTOS E 14 SEGUNDOS. ATENÇÃO, FLUXO DE ANT...

Diana olhou para Sarah – McKenna...!

Sarah se levantou e foi para o elevador e desceu para a Engenharia.

Diana se sentou na cadeira de piloto furiosa. – Bancos fasers?

_ FUNCIONAIS, ASSIM COMO ESCUDOS E TORPEDOS.

_ E o pessoal aí em baixo?

_ OS HOMENS ESTÃO DESMAIADOS, MAS BEM. AS MULHERES CONTINUAM COMO BÊBADAS.

_ Libere energia para a defesa e suba imediatamente.

_ A CAMINHO.

Irgg entrou na ponte atirando em Melrik.

_ Irgg!

_ Como eu disse, capitã, era melhor ter me matado se prezavam suas miseráveis vidas!

_ E o que vai fazer? Que tipo de glória acha que vai ter se não puder provar sua façanha de dominar uma nave da Frota? – Diana argumentou com calma, ganhando tempo.

_ Não sou uma desprezível humana, O’Conell. Você irá viva para Klin. E esta nave estelar! Serão glórias e honra para mim e uma vida de servidão para você!

Irgg deu uma pancada no rosto de Diana, que caiu de joelhos, zonza. Então verificou o fazer e atirou em Diana, indo em seguida para a mesa de comunicações, ao lado do elevador, pois pretendia contactar naves klingons naquele setor.

A abertura da porta do elevador a surpreendeu e a própria McKenna, que, com um rápido reflexo, chutou a arma da mão de Irgg para longe.

Irgg também foi rápida. Chutou McKenna, que quase caiu, e começou a golpeá-la raivosamente.

Sarah revidou e jogou a klingon sobre a cadeira de comando. Irgg atingiu o rosto de Sarah com o pé enquanto caia e depois se ergueu, pulando em cima de Sarah. As duas caíram no chão e passaram a trocar socos furiosos. A boca de McKenna sangrava e, num gesto rápido, Irgg tirou o próprio cinto e envolveu o pescoço da vulcana, que começou a se debater e socar a klingon com o cotovelo, que resistia bravamente.

Tudo aconteceu muito rápido. Antes de Diana se recuperar totalmente, ela viu, surpresa, McKenna puxar com um último fôlego um estilete da própria manga e apunhalar Irgg, que a largou. McKenna, veloz e friamente, retirou o estilete e torceu o pescoço da inimiga, que caiu pesadamente, sem vida.

A engendrada olhou ainda um pouco para o cadáver: - Tenho mais força porque sou mestiça, klingon.

Era irônico que o sangue dos guerreiros mais agressivos conhecidos pelos humanos fosse rosa.

As coisas que vão por dentro...”, O’Conell pensou enquanto Sarah a ajudava a levantar. “Será que nos tornamos tão ingênuos com a segurança da tecnologia que esquecemos nossa fragilidade física?”, mas balançou a cabeça apartando o assunto da mente. Capengou até seu console, verificando o status geral da nave, quando, para o espanto de ambas, Khya e Melrik se desmaterializaram ainda desmaiados.

A porta do elevador se abriu e Chayenne entrou espantada. Os efeitos de “bebedeira” a haviam pegado em seu turno de folga e mal a cabeça havia desanuviado, correu para seu posto, intuindo a necessidade de sua presença.

_ Tome posição em relação a nave Narlog, Chayenne – Diana ordenou.

Várias mulheres entraram na ponte e assumiram os postos desocupados, convocadas automaticamente pelo computador, de acordo com o cronograma de disponibilidade da tripulação previamente estabelecida.

Diana tremia e sentia ainda muita dor pelo efeito do raio fazer. A cabeça parecia explodir em fatias multicoloridas.

Martina entrou na ponte e foi até Diana, examinando-a. O olhar de Sarah sobre ela foi quase raivoso e O’Conell soube, quando a fitou, que jamais veria aquela expressão de medo no rosto da vulcana novamente.

_ Düff? – McKenna chamou pelo intercom. – Düff??

Diana mordeu os lábios. Melrik, Khya e agora Düff. – Computador, verifique os membros da tripulação.

_ EXECUTANDO.

_ Sarah, verifique nossos passageiros e tranqüilize-os da melhor maneira que puder – e O´Conell pôs-se de pé.

Sarah ergueu a sobrancelha enquanto entrava no elevador. – Eles nunca esquecerão esta viagem. – sua voz estava rouca e sombria.

_ Sem dúvida – Diana concordou.

_ TENHO SUA LISTA CAPITÃ O’CONELL – o computador anunciou com sua voz masculina educada.

_ Prossiga.

Cinco Horas Depois...

Sarah saiu da Engenharia onde havia dado todas as ordens necessárias para manter os engenheiros-juniores calmos e a nave funcionando. D’Angelis também desaparecera e, para sua exasperação, Dyllan Sanchez também, o melhor engenheiro-junior para substituir Jordan numa hora daquela.

Escolheram a dedo, essas malditas...”, pensou com frieza e seu comunicador pessoal tocou. – McKenna.

_ McKENNA, VAMOS PARA NARLOG. SUBA.

_ Sim, sr.

Quando Sarah entrou na ponte e se sentou no seu lugar, Diana foi postar-se junto dela. Naquele momento difícil não era possível para as duas afastaram-se da ponte quando o grupo principal de ponte estava tão desfalcado.

_ A Frota não quer que nós sejamos ‘beligerantes’ com as narlogianas. Eles querem um acordo com Narlog. Está em nossas mãos conseguir nossos oficiais de volta sem interferir nos planos da FPU.

McKenna ergueu a sobrancelha esquerda com desdém: - Eu entendo, Capitã.

_ Entrando no setor 223; 17.3 minutos para alcançar a órbita de Narlog – Chayenne informou.

_ Ótimo – Diana disse. – Contacte as narlogianas e avise-as que queremos encontrá-las, sr. Elliot.

_ Sim, Capitã.

_ Sarah, prepare um grupo avançado e faça tudo que for preciso para trazê-los de volta.

Ambas sabiam que naquele caso, os passageiros, compostos de diplomatas, e os interesses da Federação naquele planeta estavam em primeiro lugar e eram responsabilidade direta de Diana.

_ Com certeza, sr.

****

Düff, D’Angelis, Benrubi, Roger, Khya, Sanchez, Melrik e mais 93 homens da Atlantis, com mais de 30 anos e excelentes condições físicas haviam sido levados pelas narlogianas.

Por todas as características genéricas que eles tinham em comum, Diana concluía que eles eram excelentes reprodutores.

Reprodutores! Diana tinha vontade de explodir Narlog, mas não podia. Olhou para Ness, se desdobrando de preocupação sobre o console de Melrik, e percebeu porque ele não fora selecionado: era jovem demais, “franzino” se comparado a exuberância e maturidade física que Jordan, Hans ou Dyllan apresentavam.

Ela sorriu para ele, que pareceu compreender o sentido daquele gesto, enrubescendo.

_ Comunicado de Narlog, Capitã – Elliot informou.

_ Na tela.

_ MULHER O’CONELL, QUE SURPRESA AGRADÁVEL. VIERAM SE JUNTAR A NÓS?

Diana se empertigou, controlando prodigiosamente sua raiva: - Sabe muito bem por que estamos aqui, Zimmer. Mas a Federação achou interessante sua situação e seremos “condescendentes” com suas atitudes. Do contrário, - e Diana enfatizou cada palavra sem alterar as feições do rosto e seu tom de voz: - eu já teria tomado as medidas cabíveis quanto ao ataque à Atlantis.

_ ATAQUE, COMANDANTE O’CONELL? – Zimmer replicou incrédula. – APENAS DEMONSTRAMOS A FRAQUEZA MASCULINA PERANTE SEUS OLHOS! – e apontou para O’Conell e McKenna. – PRECISAMOS PRINCIPALMENTE DE MULHERES DE COMANDO QUE POSSAM DOMINAR O PODER MENTAL E POLÍTICO E COM ISSO GUIAR E CONTROLAR NARLOG! ACHAM QUE EXISTEM MUITAS COMO VOCÊS, COMO EU? – e Zimmer as encarou com o olhar profundo e carregado de seriedade. – VOCÊS SE PREOCUPAM COM OS MACHOS DE NARLOG OU COM SEUS PRÓPRIOS MACHOS?

Diana se ergueu furiosa. – Vocês não compreendem que a escravidão é totalmente primitiva e inaceitável? E ainda nos convidam para participar disso! - Mas Diana se controlou para tratar de um assunto que considerava mais importante. – E o seu povo? Enquanto vocês se ocupam com futilidades políticas eles estão doentes e morrendo. A Federação e a Frota podem ajudá-las enviando um corpo científico qualificado para cá e mais tarde firmaremos acordos mais estáveis e concretos.

_ “O POVO”, “O CORPO”... ESSAS PALAVRAS MASCULINAS NÃO EXISTEM AQUI, MULHER O’CONELL , E, COM SUA VISÃO MASCULINA, COM CERTEZA NÃO COMPREENDE O SENTIDO DO QUE ESTOU DIZENDO... – Havia tristeza na voz da mulher velha. – JÁ HAVÍAMOS DEIXADO CLARO QUE NÃO TEMOS INTENÇÃO DE INCORPORAR NARLOG A SUA ESTRANHAMENTE MISCIGENADA E TOLERANTE FEDERAÇÃO. NÃO SERÁ ESSE O PREÇO QUE PAGAREMOS PARA RECUPERAR MAIS RÁPIDO ESTE PLANETA. – Zimmer olhou para McKenna, que a observava com extremo interesse. – VOCÊS NÃO SERIAM SUBMISSAS A ORDENS MASCULINAS, NEM TERIAM QUE SE SUBMETER A DESCRENÇA DELES E AO REPÚDIO MEDROSO E HUMILHANTE PELOS PODERES E FORÇA QUE AMBAS TÊM! AMBAS SERIAM LÍDERES E COMANDANTES DE NARLOG!

_ AS MELHORES TROPAS, AS MELHORES NAVES, MULHER McKENNA! – Klador exclamou com um sorriso orgulhoso. – NADA DE SEU PRÓPRIO MUNDO LHES FALTARIA. OS SERVOS DE NARLOG SÃO EXCELENTES!

Zimmer sorriu, pois Klador, com seu despojamento agressivo, chegara ao ponto que desejava.

_ Só queremos nossos oficiais de volta – Diana respondeu se perguntando que tipo de poder aquela mulher maluca achava que ela tinha.

_ PODEM PROVAR QUE ELES VALEM O SACRIFÍCIO?

_ Que sacrifício?

_ VENHAM ATÉ AQUI E PROVEM QUE ELES NÃO ESTAVAM DISPONÍVEIS – e elas desligaram.

Sarah e Diana se entreolharam.

Três Horas Mais Tarde...

Sarah vestiu o casaco bege com os acessórios que achou necessário e apertou os pés dentro das botas contra o solo. Narlog era um planeta de clima temperado e tropical e a cidade-estado principal, onde se situava o governo, era cercada de 15 pequenas cidades-militares onde se localizavam os comandos principais de todo o exército. Disso ela sabia por intermédio de Klador, que as telemetrias haviam confirmado, é claro, e era com ela que Sarah contava para se situar dentro dos costumes que a Primeiro Oficial da Atlantis tencionava usar para libertar os homens e conseguir a abertura para a FPU.

Era uma missão difícil. Talvez não conseguisse nenhum dos dois intentos, e era mais do que otimista se conseguisse um deles.

Saiu da Intendência e encontrou Chayenne e Martina no corredor para a sala de transportes nº 02. Sabia que Chayenne era importante na navegação, mas seu instinto lhe dizia que a linda moça índia tinha que descer.

Se este é o destino dela...

Diana recomendara cautela e dureza. Sarah riu intimamente: só aquela capitã para lhe recomendar essas coisas...

_ Sr. Milton, acionar.

****

Depois que haviam sido cordialmente recebidas, ciceroniadas em vários lugares e alojadas e alimentadas, Sarah considerou ser o momento adequado para ver os homens da Atlantis.

Klador estava com ela o tempo todo e, segundo os costumes narlogianos, McKenna pedira que ela formasse o elo entre as estrangeiras e seu mundo, e a narlogiana parecia aceitar com satisfação.

_ Quero vê-los, Klador. Tenho que ter certeza que estão bem.

Klador sorriu com um toque de malícia. – Confesse: há algum dentre eles que a agrada mais que todos?

Sarah suspirou e se surpreendeu consigo mesma: seria totalmente sincera e sabia que isso talvez contasse muito depois.

_ Sim, Klador. Um deles já foi meu durante algum tempo e outro... me é muito caro. Muito – e viu o sorriso da outra. – E ainda há um terceiro... Este eu ainda não decidi, mas ainda assim... ele é meu.

_ Pode ter todos eles aqui.

_ Preciso deles onde eu estiver.

_ Ora, então...

Sarah pôs a mão no ombro dela. – Onde eu estiver... Não é assim a posse dos servos aqui?

_ Mulher McKenna, sei que quer tê-los de volta para sua nave, mas a única maneira dentro das leis de Narlog é você provar a posse deles perante a Cúpula das Maiores. Como sei que nenhum deles é seu filho... – elas sorriram. – Bem, eles não são nascidos aqui, o que torna flexível suas posses. Em primeira instância eles foram tomados assim que chegaram...

_ Estão espalhados?

_ Sim.

_ Foram todos distribuídos sem antes se decidir a quem pertenciam?

_ Espólios de batalha em geral tem esse destino: a quem pegar primeiro pertence.

Sarah deu um sorrisinho mordaz: - Então, com relação a vocês, eu os peguei primeiro.

Klador pareceu pensar. Talvez, se ajudasse Sarah com sinceridade e eficiência, ela quisesse ficar no final das contas.

_ Talvez. Parece ser uma boa defesa.

_ Quero-os juntos.

Klador suspirou.

_ Vai fazer inimigas. Afinal, por que não os deixa um pouco com elas até a audiência?

_ São meus. Não os quero... tocados.

Klador deu uma risada. – Está bem! Então, qual deles quer resgatar primeiro?

_ Aquele que estiver mais próximo.

****

Elas saíram do prédio em que estavam e entraram no adjacente. As narlogianas de altos postos e vida mais abastada moravam na cidade-estado e tanto a residência como o local de trabalho eram juntos, como pequenos feudos abastados e auto-suficientes.

No átrio da casa foram informadas que Amik, a chefe da agricultura e pecuária, não poderia recebê-las imediatamente.

_ Por quê? – Chayenne perguntou curiosa.

_ Ela está com ele.

Martina pareceu compreendeu de imediato o sentido das palavras, pois conteve o risinho sacana com uma das mãos.

_ Ela... – e a engendrada fingiu sua melhor expressão de espanto.

_ Está fazendo sexo com ele – e Klador pareceu solidária. – Eu sei, mulher McKenna, que considera-os sua propriedade, mas isso não é tão grave assim.

_ Mas ele é meu! – e seguiu na direção da porta tentando manter a expressão mais furiosa possível. – E não me impeça!

Já percebera que as narlogianas admiravam o controle e a posse, e usaria um comportamento possessivo e arrogante dali por diante.

Entrou e viu Amik segurando-o pela cintura, poucos centímetros mais alta que ele, beijando-o. Ele estava sem o uniforme, com um sumário saiote de servo, deixando seu corpo moreno e bem torneado quase totalmente exposto, o que levou Sarah a ter um pensamento que nada tinha a ver com aquele momento, pois os olhos dele, muito azuis, pareciam refletir toda a luz do ambiente, claramente ofendido com as coisas que ouvira a pouco.

_ Ora, o que significa isso?

_ Como se atreve você a roubar o que não lhe pertence? Os homens da Atlantis me pertencem e até lá não admito que se apossem deles!

_ Amik, por favor, não custa relevar. Se a Mulher McKenna se tornar uma das sacerdotisas, como Zimmer prevê, você a terá irritado sem um bom motivo – Klador tentou comtemporizar.

Amik se impertigou. Era bem dotada fisicamente apesar de não ser uma guerreira.

_ Você, Mulher McKenna, ainda não provou que eles lhe pertencem.

_ Amik, se alguém entrasse em sua casa e levasse o seu melhor vestido sem lhe pedir você não se irritaria? Claro que sim. Eu não admito. Esse homem, como os outros, fazem parte da minha nave. Ele é meu.

_ Então venha buscá-lo – a outra debochou, vendo apenas uma mulher mais esguia que ela.

Sarah não conteve o sorriso maldoso. Se aproximou tão rápido que Amik mal percebeu o soco que a fez voar até a parede mais próxima. Joshua oscilou e Sarah lhe fez apenas um gesto, para que ficasse onde estava.

_ Se fosse um grão de areia retirado de minha casa eu o defenderia com o mesmo empenho, mulher.

Klador sorriu, admirada da força de Mckenna. – Zimmer tem razão: você será uma grande líder, se resolver ficar.

Sarah a encarou. – Klador...

_ Não diga nada para mim, McKenna – e sorriu ao usar pela primeira vez o nome da outra sem o tratamento formal narlogiano. – Prefiro não saber suas decisões enquanto andar com você.

A vulcana assentiu, nutrindo uma genuína admiração pela guerreira. – Você está me tratando como uma amiga, Klador. Pode ter certeza que não vou esquecer isso.

Klador sorriu. – Venha, vou mandar todos os homens da sua nave para a casa onde você está habitando. – Se virou para Joshua, com o peito e pescoço cheio de marcas das unhas afiadas de Amik, e o achou um tanto... magoado. Não se parecia com os homens narlogianos, uns com revolta e outros com uma tristeza profunda nos olhos. Mas os homens da Federação... Haviam ficado surpresos, depois irritados e finalmente estavam... como se dizia na língua deles?... ignorando-as. Deu uma risadinha, vendo Amik ser cuidada pelos seus servos. – Não os distribuiremos até que todas as decisões estejam tomadas. As demais sacerdotisas ficarão orgulhosas de sua atitude. Será uma honra servir num exército comandado por você.

Joshua suspirou enquanto saiam. Sentia o mesmo que Klador, mas tinha muitos sentimentos confusos dentro dele naquele momento. Antes de alcançarem a rua, Sarah o esperou se aproximar e estendeu o manto narlogiano que usava sobre os ombros dele, que a fitou profundamente.

Sarah murmurou. – As mulheres narlogianas dão muito valor ao... cavalheirismo – e sorriu: - Não há uma palavra feminina equivalente na língua da Federação. – E olhou para Martina. – Cuide dos ferimentos do sr. Benrubi assim que chegarem em casa, sr. Dickens.

_ Sim, sr.

_ Chayenne, comigo. Sr. Revelland, acompanhe o sr. Benrubi e a sr. Dickens.

Elas se separaram em dois grupos. Joshua seguiu em silêncio. Teria tempo para perguntas depois, quando a vulcana voltasse.

Mais Tarde, na Atlantis...

Diana mordeu os lábios após ouvir o relatório de Sarah que recebera a pouco. Na mesa de seu gabinete, na penumbra, uma xícara de chá liberava um vapor perfumado, que subia preguiçosamente para o teto.

A primeira audiência para resolver a questão dos homens da Atlantis e da ajuda da FPU seria em 5 horas. Admirava-se como as narlogianas conseguiam dar igual importância a duas questões radicalmente diferentes!

Suspirou. “Nossa tecnologia ultrapassou nossa humanidade”... Albert Einstein sabia o que estava dizendo. Não, não iria se exasperar. A questão dos oficiais raptados já deixara nas mãos de McKenna, e confiava nela para trazer Melrik e os demais de volta. Sua missão era salvar o planeta Narlog de sua cegueira.

Deu uma risadinha: “Que pretensioso, Diana O’Conell!”

Levantou-se e foi para a ponte.

****

Melrik entrou novamente na ante-sala, onde estavam uma boa parte dos oficiais da Atlantis, comendo, já mais senhor de si por envergar seu uniforme ao invés do saiote narlogiano. Ouviu a risada de Düff e se aproximou, sabendo que McKenna estava na audiência junto com O’Conell.

_ Vamos lá, sr. Melrik, nos conte como conseguiu se safar de sua “proprietária”! – Düff indagou.

D’Angelis conteve a risada para um sorriso e Sanchez acrescentou:

_ Se safar? Pra quê?!

_ Viu o que McKenna disse? Somos todos dela! – Roger mordeu um sanduíche enquanto olhava para Joshua.

_ Quem falou isso? – Benrubi perguntou soturnamente.

_ Ora quem... Martina, é claro! – Khya respondeu.

Hans deu uma risada curta, pondo os pés sobre o sofá, ou o que quer que aquilo fosse. Sanchez se sentou ao lado dele e seu rosto “inocente” irritou profundamente Joshua.

_ Senhores, a Imediato McKenna precisa de todas as informações que dispuserem para ajudar em nosso resgate.

_ Me sinto um móvel num leilão – D’Angelis murmurou com desdém.

_ Eu não me importaria de viver aqui... – Khya disse mais para si mesmo que para os demais, olhando pela janela enorme que mostrava o poente lá longe. Havia uma grande área em volta da cidade-estado com árvores mortas, mas nem essa devastação agressiva tirava a beleza da paisagem. E Khya gostava do que via.

_ Seus arranhões estão melhor, Benrubi? – Sanchez indagou de repente, com um sorriso sem vergonha na cara.

Düff balançou os pés e teve certeza que todos na sala lembraram das longas unhas de Sarah.

_ Ah, meu Deus... – Roger sussurrou, sabendo qual seria o rumo da conversa.

Apenas eles ali sabiam que McKenna tinha tido um curto e ardente “affair” com Sanchez, sem compromisso, sem seriedade e com certeza nada importante. Mas todos ali também sabiam do “relacionamento” conturbado que Benrubi mantinha com ela. E os dois homens, já há algum tempo, não se encaravam com muita... neutralidade.

_ Martina fala demais – Joshua rosnou, sentando-se no parapeito ao lado de Khya.

_ Você resistiu? – Khya perguntou com inocência.

_ E você não? – Jordan apartou, dando apoio a Benrubi. – Isso não é uma brincadeira picante no holodeck, senhores: fomos capturados e todos nós sabemos bem por quê.

_ Pelo menos enquanto estamos aqui podemos aproveitar.

_ O que você tem na cabeça, Dyllan? – Düff explodiu encarando o homem mais novo. – Acha que elas vão querer sua opinião alguma vez durante o resto de sua vida se ficarmos presos aqui?!

_ Não quero fazer um batalhão de filhos anônimos para serem escravos sem voz e sem esperança – D’Angelis grunhiu revoltado.

_ Definitivamente – Roger concordou, lembrando-se de sua esposa maravilhosa.

Joshua suspirou. – Prefiro escolher minha mulher, minha companheira...

_ Uma igual, mesmo com todas as diferenças.

Todos se voltaram para Melrik.

_ É isso aí, sr. Melrik! – Sanchez cortou a surpresa de todos e, pelo respeito que tinham pelo vulcano, ninguém comentou a profundidade de sua declaração.

****

Sarah estava de olhos fechados, deitada sobre uma espaçosa cama, lembrando a cada segundo irritante que teria uma reunião com os “homens da Atlantis” dentro de uma hora.

O que iria dizer a eles, à Diana e a Frota?

As narlogianas queriam os homens ou Diana e Sarah e ambas as coisas eram inconcebíveis. Ficar ali? Mordeu o lábio inferior contendo a irritação que ameaçava dominá-la. Tirar os homens dali simplesmente e “dar uma banana” para as narlogianas? A Federação comeria seu fígado e o de Diana, pois em todo setor não havia uma só pedra onde pudessem pôr a insígnia da Federação e controlar a área: a não ser Narlog. NARLOG.

Riu consigo mesma, lembrando o que Diana lhe dissera há 20 minutos atrás: “Acho que a Frota está considerando com carinho deixar nós duas como brinde aqui”. Se fosse uma missão não se importaria, realmente, mas agora... Sorveu o ar: gostava da Atlantis e do trabalho na Atlantis. E das pessoas que conhecera nela. Seus amigos. Amigos de Düff. Gente muito boa.

A porta abriu e reconheceu os passos com uma facilidade descontraída. Ele se deitou ao lado dela e a abraçou pela cintura. Era reconfortante tê-lo tão perto, como era reconfortante para sua vida dura e comportamento seco o fato de ele simplesmente existir.

_ Você não vai me deixar aqui, vai?

Sarah abriu os olhos e sorriu: - Você é duplamente valioso para elas, Hans. É com certeza um excelente reprodutor. E é um médico.

Ele mostrou a língua para ela como se fosse uma criança de cinco anos.

_ Você não está pensando em ficar aqui, não é?

_ Por quê? Não gostou de Narlog?

_ Não gostei dessas desgraçadas...! Tenho vontade de torcer o pescoço delas pelo que fizeram e ainda estão fazendo com seu povo e seu planeta!

_ Calma, dr... – ela sussurrou, compartilhando com clareza o sentimento de revolta dele.

_ E não me diga que gosta delas!

_ Na verdade, eu as acho bem “burrinhas” para o nível de tecnologia que controlam. Diana tem razão quando sempre indaga por que tecnologia avançada e avanço cultural e moral não andam juntos.

Hans fungou e se pôs de pé. – Ah, a propósito, Mestra, Benrubi quer falar com você.

Ela ergueu a sobrancelha esquerda. – “Mestra”?

Ele sorriu. – Dessa gozação você não vai escapar...!

Sarah balançou a cabeça estoicamente.

****

_ quem vai levar isso a diante, mulher O’Conell? Você vai disparar suas poderosas armas da Federação em nós?

Diana se exasperou. – É claro que não, Zimmer. Que espécie de carniceiros você pensa que somos?

_ Da espécie humana.

Diana suspirou. – Sabe que não pode mantê-los.

_ Quanto o ponto estratégico de Narlog vale para a Federação?

Diana mordeu os lábios imperceptivelmente. – Muito. Por enquanto.

_ Sim: por enquanto eu tenho algo que interessa a vocês.

_ Suas exigências são difíceis de satisfazer.

_ Voluntariem-se.

Não mesmo!”, Diana pensou irritada.

_ O que você faria neste “fim de mundo”, não é mesmo, O’Conell? – e a velha franziu o celho, levantando-se devagar. – O que é “fim de mundo”? Um mundo esférico teria fim?

Diana se indagou, por um momento, se Zimmer não estava um pouco, pelo menos um pouco, maluca. Aquilo, afinal de contas, era bem possível. O mundo dela havia desmoronado e tudo que via como esperança eram duas alienígenas relutantes. Ela tinha noção do quão absurdo era desejar a cooperação dela? Talvez não.

_ Ainda temos sua palavra de honra de que ouvirá nossas motivações e ponderarão?

Zimmer sorriu. – Sim, pois sei que, do contrário, vocês duas não terão o menor pudor de arrancá-los de meu planeta e terminar a destruição que iniciamos. – Balançou a cabeça, pensativa. Não estava assustada, mas fascinada com a fria capacidade de decisão de uma e a altivez de assumir responsabilidades da outra, coisas que precisava imensamente. – Irônico, não, mulher O’Conell?

Diana a olhou nos olhos. – Não, Zimmer: é lamentável o que aconteceu com o seu povo e seu planeta. Mas os meios que você escolheu para sanar isso são bastante questionáveis. E eu não acredito que tudo que acontecerá daqui para frente com vocês dependa da presença relutante minha ou de minha Primeiro Oficial.

Zimmer sabia que Diana havia tomado as providências necessárias para que elas não pudessem mais interferir na tão considerada nave delas. E a mulher McKenna, ali em baixo, ostentava uma muralha mental que ela não tinha, ainda, como ultrapassar. Estava encurralada, mas ainda não desistiria daquelas mulheres especiais que demonstravam a força necessária para não só reerguer a saúde do planeta, mas também o poder das mulheres, que se esvaia todos os dias nas fugas e revoltas que aconteciam agora com uma freqüência estonteante.

Fez um gesto fingindo indiferença e Diana se retirou.

Diana sabia que algo importante estava do seu lado: o tempo. Mas realmente teria tempo de ver Zimmer morrer e seu planeta mergulhar no caos? Teria indignidade suficiente para tanto?

****

Sarah levantou a cabeça do monte de papéis espalhados por sobre a mesa, nos quais estavam toda a lei narlogiana e sua história.

Não queria ter cochilado. Olhou em volta e viu a silhueta de Benrubi na penumbra. Sentiu um calafrio estranho enquanto ele se aproximava dela: sentiu o desejo dele, tão intenso que era quase palpável. Se pôs de pé e ele a fitou com seus profundos olhos azuis.

Você tem tanta emotividade, Benrubi”, Sarah pensou.

_ Queria falar comigo, Joshua?

A surpresa diante do seu nome se expressou num relance. Queria falar com ela, mas, na verdade, não sabia o que dizer.

_ Essa sua estratégia vai dar certo?

Sarah quase sorriu. – Talvez.

Ele passou as mãos nos cabelos castanhos. – “Talvez”? Isso não me parece uma estatística.

_ Estatísticas são chatas, Joshua Benrubi. Além do mais, se for necessário, não importa os caminhos da estratégia.

_ Por que não nos arranca logo daqui?

_ A Federação quer esta pedra.

_ Merda... – e a encarou. – E se for preciso uma pequena troca...

_ Não se preocupe. Vocês não ficarão aqui. Afinal, acidentes acontecem quando alferes estão operando o Controle de Armas no lugar dos oficiais raptados com mais experiência. Às vezes – e ela deu uma pequena volta no aposento. – quando necessário.

Joshua pensou em quanto Sarah era fria e calculista e o quanto ela gostava de parecer má. – você está representando, McKenna? Tudo, absolutamente tudo que fez até aqui foi... falso?

Ela entendeu o que ele quis saber. Se aproximou bem dele e sorriu: - Ora, então estou parecendo má o suficiente para você? Ótimo. Quero que as narlogianas acreditem nisso também... – sussurrou.

Joshua sorriu, entendendo o plano da vulcana. – O que devemos fazer?

Sarah pôs as mãos atrás das costas. – Oh, é muito simples, Benrubi: ...

Três Dias Depois...

Diana ajeitou o uniforme impecável mais uma vez antes de sair do alojamento em direção da sala de transportes nº 2. Zimmer convocara a tão importante Reunião do Conselho das Narlogianas para “julgarem” – Diana se sentia meio tola por isso – o pedido de posse dos 100 homens da Atlantis.

Colocara Chayenne em um aparente turismo por Narlog, pois as comunicações que podiam captar do planeta estavam sendo muito econômicas sobre os acontecimentos recentes, provavelmente uma espécie de censura. Intuíra, pelos dados que Sarah e Melrik haviam lhe passado, que havia muito mais sob a capa da guerra que, “aparentemente”, havia terminado.

E tinha razão. Chayenne descobrira que nem todas as mulheres, principalmente as mais simples e de descendência comum, concordavam com o regime de escravidão dos homens que carregavam seu sangue. Já havia um predomínio do instinto familiar comum aos humanóides nos muitos núcleos descentralizados da cidade-estado, onde as famílias se mantinham longe do exército e conseqüentemente longe do lugar-comum de vender e dar filhos homens não primogênitos. Era como se houvessem duas sociedades narlogianas: uma, formada pelas sacerdotizas e guerreiras, abastada, poderosa e que tomava todas as decisões, institucionalizadora e mantenedora do escravagismo. A outra, com mulheres de cidades do interior ou de famílias fora do círculo de decisões, onde à forma rígida de seguir as normas haviam sido abandonadas aos poucos a ponto de poderem surgir questionamentos quanto à forma de Governo e as leis vigentes, com muitas evidentes “discordantes ativas”, como eram chamadas as mulheres que ajudavam, secretamente, a educar e finalmente na fuga dos homens para longe do alcance do exército. Homens que, em geral, eram filhos, netos ou amantes amados.

Diana assentiu para a controladora dos transportes e se retesou enquanto seu corpo seguia rumo a Narlog pelo feixe de energia.

Em Narlog...

Sarah, Chayenne e Klador a aguardavam e a expressão delas disse logo a Diana que algo não estava como o previsto.

_ Senhora capitã, lamento informá-la que a reunião de tutela foi adiada.

_ Adiada? – e olhou para Sarah.

_ Zimmer está de cama. Düff está com ela agora – e moveu a cabeça levemente para o lado, o seu jeito vulcano que equivalia ao balançar lamentoso de cabeça que os humanos usavam para expressar que algo estava perdido.

_ Então... – os olhos verdes de O’Conell pareceram crescer e se cristalizar.

_ Como são as últimas da posse, as que os detinham antes, nada as impede de levá-los depois da Passagem da velha sacerdotiza, que era a pleiteante da posse deles.

Havia uma imensa dignidade na postura e na voz de Klador. Sua honestidade, mais uma vez, surpreendeu Diana, pois sabia que ela não tinha porquê facilitar as coisas para elas, revelando aquilo.

_ A velha sacerdotiza pede, mesmo assim, que as senhores vão até ela, agora.

Diana assentiu e olhou McKenna de relance. A vulcana engendrada parecia intensamente compenetrada, e se Diana a conhecesse melhor, diria que estava emocionada.

Na Antecâmara de Zimmer, Vinte Minutos Depois...

Sarah assentiu para Hans, que se afastou, antes a olhando com um jeitinho resignado e impertinente que ela sabia querer dizer “se tivessem me chamado logo!”, retribuindo com um “você não podia fazer nada”.

Zimmer fez um gesto que afastou as mulheres para longe do leito. Sua pele estava macilenta, com manchas escuras que se tornavam ainda mais agressivas com o contraste. Com outro gesto autorizou Sarah e Diana se aproximarem.

_ Não tenho tempo, por isso serei direta, um mau hábito que as narlogianas não têm... – seu olhar era firme, apesar de todo o corpo anunciar sem delongas sua crescente fraqueza. – Estou morrendo. A Sacerdotiza Mestra de Narlog está morrendo irremediavelmente e precisa de um determinado número de discípulas para distribuir os segredos primordiais da mística narlogiana... – uma pausa não estudada, mas necessária, se fez. – A maioria superdotada de poderes morreu... elas foram o alvo dos rebeldes... – e seu silêncio dolorido tornava desnecessário a descrição de todo o resto que levara Sarah e Diana até a beira daquela cama, e as comandantes da Atlantis sabiam disso.

Diana a fitou com convicção: - Sua sociedade está mudando, seu mundo desmoronou e isso não quer dizer, necessariamente, que algo só ruim esteja acontecendo para o seu povo, Zimmer. Se vocês evoluíram tecnologicamente, sua estrutura de sentimentos uns pelos outros evoluirá também. Isso é inevitável.

Alguma força pareceu crescer dentro da velha mulher, cujos olhos brilharam.

_ Sentimentos! Acha que se constrói uma sociedade com sentimentos?! Acha que não sei que as mudanças são inevitáveis?... – suspirou. – Menina!... Então é tudo que consegue ver sobre nós? Mede-nos por sua história, por sua espécie? Então todas nós, narlogianas e humanos, somos a mesma coisa no final das contas, já que tudo que a sua Federação consegue ser, por suas próprias palavras, é uma forma humana para que todos se tornem iguais. Todos iguais aos terráqueos, independente do que cada um seja ou tenha sido... – a voz de Zimmer sumiu de repente e seu olhar vago não pôde ver o rubor nas faces de Diana, que sentiu, por um breve segundo, um imenso nojo de suas funções oficiais perante aquelas mulheres.

Seria por uma questão de justiça universal que estaria ali? Ou estava apenas “dividindo para conquistar”, com o mesma indignidade e ganância que os invasores europeus do século XV quando chegaram nas Américas?

_ Não podemos servi-las, Zimmer, não conseguiríamos ajuda-las da maneira que vocês precisam sem o respaldo da nossa Federação. Como você mesma disse, nós precisaríamos nos voluntariar, e quanto a mim essa cooperação é impossível – Diana explicou com extrema suavidade, sentindo pena da derrota delas pela fatalidade.

_ Capitã, - Chayenne interferiu devagar, mas decididamente, e sua voz deua a Sarah uma certeza clara do que vinha sentindo sobre a presença da jovem no planeta: - eu me voluntário a ficar se houver algo em mim que possa ajudar as narlogianas e se Khya puder ficar comigo, como meu companheiro, livre e ao meu lado.

Zimmer fitou a jovem com um brilho de esperança que logo foi contido. – Exigências?

Finalmente Sarah se manifestou. – Comodidades, Zimmer. E não creio que você não tenha notado o potencial latente de Chayenne, já que percebeu o de O’Conell, que está muito mais enraizado.

Diana a fitou e McKenna sabia que ela estava querendo saber até onde aquilo iria sem interferir.

_ Falo sério, capitã. Creia-me, os antigos protetores de minha tribo têm me visitado e me aconselhado. Devo ficar. Assim deve ser.

O’Conell queria que Melrik estivesse ali naquele momento.

_ Sarah, você sabia disso?

_ Sim e não, capitã.

Diana suspirou, sabendo que aquilo era um prólogo sucinto para uma longa explicação.

_ Como pessoa devo discordar de suas bases para uma decisão tão importante, Chayenne, mas como sua capitã, e com ordens expressas, sua voluntariedade neste caso é mais do que adequada. – E se voltou para Zimmer. – E ainda podemos ajudá-las no tocante as conseqüências de sua guerra. Se vocês não desejam a aproximação direta com a Federação, a Primeira Diretriz lhes assegura isso. Podemos celar o seguinte acordo: Narlog não fará parte, pelo menos por enquanto, da Federação e vocês receberão ajuda científica para curar a população e o planeta. Em troca poderemos aportar em pontos que vocês fixarem e mais tarde conversar melhor sobre acordos diverso com a Frota.

Zimmer olhou para as narlogianas e disse com altivez para O’Conell:

_ Creio que concordamos, comandante O’Conell. Mas nenhum macho estrangeiro porá os pés em Narlog, exceto o da mulher Chayenne. Receberemos apenas suas fêmeas cientistas e diplomatas. Enquanto a mulher Chayenne viver em nossa terra, as mulheres da Federação serão bem vindas. Quanto ao espaço-porto... – Zimmer sorveu o ar devagar e Diana teve certeza que ela morreria, mas não hoje e não logo. – Temos nossos satélites colonizados e decidiremos melhores condições a esse respeito. Celamos com a palavra de todas as mulheres de Narlog...

_ Nós cumpriremos nossa parte integralmente, Zimmer – e olhou para Chayenne.

_ Minhas caras... – e Zimmer fitou Diana e Sarah apaixonadamente. – Sempre haverá lugar para vocês em Narlog...

Düff se aproximou. – Agora já é o suficiente, capitã. Ela precisa descansar se pretende ensinar algo a Chayenne.

Lá Fora...

_ Ela viverá, Düff?

_ Durante alguns meses sim, fiz o melhor que pude, capitã.

_ Eu sei que sim, dr.

_ Há seis meses atrás poderia tê-la salvo, salvo todas as que ficaram diretamente expostas...

Sarah pôs a mão no ombro dele. – Tinha que ser assim, Hans.

Dois dias depois...

_ De uma certa forma, eu adoraria fazer parte dessa expedição a Narlog – Sarah murmurou com o olhar perdido nos copos que pedira ao replicador.

_ E deixar a Atlantis? – Diana indagou do outro lado da mesa que separava as poltronas do gabinete da capitã.

_ Apenas de uma certa forma – e Sarah meneou a cabeça, servindo-se e a O’Conell com um líquido púrpura e frio que trouxera consigo quando fôra “convocada” para aquela conversa. – Talvez, em outra época, as nossas respostas fossem diferentes. O poder que elas ofereciam era tentador.

_ No passado...

_ Talvez, Diana. No futuro, quem sabe?

_ Espero que Chayenne tenha feito a escolha certa... – murmurou olhando as estrelas que eram apenas riscos borrados na escotilha. Sorveu lentamente a bebida e lançou um olhar mesclado de surpresa e ironia sobre sua Imediato. – Vinho, Sarah? – e sorriu – Isso me cheira a contrabando!

_ Ora, ora, o que é isso, capitã? – foi irônica. – Como pode pensar que uma tenente comandante da Frota desobedeceria as leis de exportação galáctica?

Diana continuou sorrindo. Sabia que Sarah e Düff mantinham contato em diversas bases e colônias para “obtenção facilitada” desse tipo de mercadoria, que os replicadores alimentares não imitavam a altura.

_ Como será que Chayenne está se saindo – Diana indagou mais para si mesma do que para a híbrida. Gostaria de sentir a mesma certeza factual que Sarah, e até mesmo Melrik, experimentava com relação ao destino da jovem brilhante que agora estava sendo preparada para comandar um planeta estranho em guerra civil. – Talvez ela mude muitas coisas.

Sarah sorriu. – Ela mudará, O’Conell.

Diana a observou por alguns segundos e então resolveu entrar no assunto:

_ Eu não sabia que Chayenne e Khya...

Sarah fez uma cara inocente, o que Diana sabia ser a coisa mais falsa do universo. – Nem tudo dentro da nave é de nossa alçada, capitã. Por incrível que pareça.

Diana cruzou os braços e se recostou na poltrona. – Se você tiver a coragem de me dizer que não sabia, jogo você no espaço dentro de um torpedo fotônico!

Sarah ergueu os ombros com um meio sorriso no rosto. O som característico dos comunicadores de lapela se fez ouvir.

_ MENSAGEM SUBESPACIAL PARA A SRA, IMEDIATO McKENNA – Ness falou devagar, como que se acostumando com aqueles aparelhos, o que fez Diana experimentar uma pontada ao lembrar da voz melodiosa e à vontade de outrora.

_ De onde, sr. Ness?

_ VULCAN, SRA. O EMBAIXADOR SARDUL PEDE PARA INFORMÁ-LA QUE A EMBAIXATRIZ YONAH ESTÁ A CAMINHO DA TERRA.

_ Entendido, sr. Ness. Obrigada.

Sarah olhou para Diana. Sua expressão era, no mínimo, intrigada.

_ Você falou com sua mãe em Vulcan?

Sarah a olhou: “E ainda acha que seus poderes latentes são bobagem...

_ Não tive tempo para uma conversa muito extensa.

_ Ela deve estar precisando de você.

McKenna esvaziou seu copo e fitou-o concentradamente. – Com sinceridade? Tenho minhas dúvidas...

FIM DA PARTE I

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Por: Sílvia Costa.
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