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INFORMAÇÕES    
Autora: Sílvia Costa.
Título: Vulcanos...
Publicação: 01/05/2006.
Publicação Original: 20/09/1993.
Categoria: Jornada nas Estrelas.
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USS ATLANTIS - Novos Exploradores. Missão IV - Vulcanos... Sina e Desobediência.
Por: Sílvia Costa.

Imagem de Roberto Kiss direitos reservados.
Imagem de Roberto Kiss feita especialmente para a Série.
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A Federação conhece os vulcanos como seres nobres, pacíficos e lógicos. Uma espécie de “lenda” se espalhou entre seus planetas federados elogiando, temendo ou desprezando a falta de emoção dos habitantes do planeta T’Khasi...

Poucos, muito poucos, porém, sabem que há por debaixo da disciplina ferrenha e do autocontrole invejável, da força física e das admiráveis características fisiológicas: seres também de exacerbadas emoções e desejos, domesticados, controlados, sufocados por séculos de disciplina e desenvolvidos poderes mentais.

Dentre os humanóides da Federação, os vulcanos são os melhores exemplos de evolução bem sucedida em um ambiente extremamente inóspito.

Também seriam um exemplo assustador de ferocidade e selvageria se não houvesse a Lógica...

Agradecimentos Especiais: aos leitores que nos dão muitas alegrias.
A Roberto Kiss que gentilmente confeccionou as imagens do conto.

Glossário e Lista de Personagens:

  • Mckenna, Sarah : primeiro oficial e piloto da Uss Atlantis híbrida vulcana/terráquea
  • O'Conell, Diana : capitã da Uss Atlantis - irlandesa terráquea.
  • Düff, Hans : médico-chefe da Uss Atlantis - alemão terráqueo.
  • Melrik : oficial de ciências da Uss Atlantis - vulcano.
  • Sanches , Dyllan : alferes executivo da primeiro oficial - mexicano terráqueo.
  • Ness, Willian: alferes executivo de ponte e da capitã O'Conell - irlandesa - terráqueo.
  • Jokovith, Faye: tenente engenheira da Uss Atlantis - croata terráquea.
  • Gomes, engenheiro júnior da Atlantis : origem brasileira.
  • D'Angelis, Jordan: engenheiro-chefe e tenente comandante da Uss Atlantis.
  • Benrubi, Joshua: oficial comandante, chefe da segurança e cartógrafo.
  • Mckenna, Roger: tenente chefe do setor de exobiologia da Uss Atlantis.
  • Mckenna, Ann: mulher falecida de Roger sua morte até hoje não foi esclarecida.
  • Khya, Andor : tenente oficial de comunicação na Uss Atlantis. Centauriano.
  • Wilson : tenente oficial segundo em comando na segurança. Ganimedes marte
  • Kenjiro, Tsi-lao: mestre em artes marciais chefe da intendência e oficial de segurança.
  • Chayenne, Wind: tenente oficial navegadora da Uss Atlantis, índia cherokee terráquea.
  • Carlyle, Michael : tenente engenheiro da Uss Atlantis - inglês terráqueo.
  • Simons, John: alferes operador dos transportes na Uss Atlantis. Canadense terráqueo.
  • Wiser, Samuel: co-piloto da Atlantis, sempre substitui Sarah no posto.
  • Rinaldi, François: chefe de cozinha da Atlantis e excelente armeiro. Terráqueo francês.

****

- “Diário de bordo: nave estelar Atlantis em patrulha de rotina no setor Decápode; recebemos ordens da Frota Estelar para aguardarmos o Almirante Kurt e o Embaixador Sarduk na rota para a Base Estelar 325 - de onde eles virão - e seguir para o Sistema Omician VII” - e Diana digitou o encerramento do diário, voltando-se para McKenna: - Nossa missão é, aparentemente, simples, sr. Imediato.

Sarah percebeu o leve toque irônico de Diana e não se surpreendeu. Aprendera que a mulher humana fazia aquilo não por deleite, mas porque a vida havia criado feridas fundas demais para serem ignoradas.

- Sim, O`Conell. Aparentemente, levar um almirante e um embaixador para a fronteira da Zona Neutra mais infestada de ilegalidades entre estes dois quadrantes é simples. Simplíssimo. - Seu rosto moreno não alterou um músculo, mas todos sabiam que isso não era necessário.

- Também antevê problemas, Benrubi?

- Não conheço Omician VII pessoalmente, Capitã, mas sei que nossa Imediato tem razão: zona neutra é sempre problema para uma nave da Frota.

Diana sorriu, vislumbrando por um momento cobras enroscadas em um cesto. - Bem, sei que os senhores tomarão todas as medidas necessárias para nos mantermos inteiros. Status, Chayenne.

- Coordenadas traçadas, Capitã. Razão de chegada ao encontro: 11.57hs em dobra 3.

- Execute, sr. Chayenne. Acompanhe-me McKenna. A ponte é sua, sr. Benrubi.

No gabinete da ponte...

- Sente-se, Sarah - Diana disse. - Você já esteve em Ablag III, principal planeta de Omician VII. O que me diz?

- Levar esses membros da Federação a um planeta com um sistema político instável e acentuada influência romulana é complicado, O`Conell. Sei que a Federação está ansiosíssima para federar Ablag III por causa das jazidas e do ponto estratégico, mas a presença desses homens é precipitada enquanto Acrician... viver.

Diana, sentada, ergueu os olhos para ela. Sarah passara um período longo em Ablag III, parte dele não registrado. Fizera parte, oficialmente, de uma expedição comercial-diplomática, mas Diana sabia, por seus próprios meios, que a engendrada chegara antes e saíra depois da referida expedição. Ela e Hans Duff.

Diana meneou a cabeça. - Se há dois seres com insígnias e patentes suficientes para pensar em tais negociações, com qualquer que seja o lado, são esses dois homens que estamos indo buscar. Qualquer que seja a idéia da Frota e da FPU.

Sarah pôs as mãos para trás. - Isso não é bom, Diana. Desde a última expedição que não houve qualquer contato formal com Ablag III. Os romulanos ficaram a vontade e tiveram tempo para trazer Acrician para o lado deles. A Federação vai querer comprar essa briga assim, de repente? - e Sarah mordeu mentalmente os lábios. Aquilo tudo ia feder, tinha certeza absoluta.

- Não faz o estilo deles, não é? - e O`Conell, que já estava preocupada, começou a raciocinar outras possibilidade ocultas para a presença deles lá.

- O`Conell, eu vivi em Ablag III durante muitos meses. Klingons circulam nas ruas com humanos muito antes de qualquer acordo entre o Império e a Federação. Os mercados são mais numerosos que casas: o planeta é o entreposto comercial número um do setor. Cada clã obedece seu próprio lorde. Os mais influentes são Allilian, que odeia os romulanos e quer organizar Ablag III, e Acrician, que é patrocinado pelos romulanos e não tem muitos escrúpulos.

- Sarah, cá entre nós: Allilian tem algum interesse na Federação?

Sarah fitou a escultura de cristal atrás de Diana quase abstraída. Lembrou-se de corredores largos e limpos, bem iluminados e silenciosos. Junto com essa imagem mesclaram-se outras de um aposento e de uma espécie de cama larga, com um homem ablagiano deitado de bruços. Seus olhos arderam e ela respirou fundo. - Allilian... Ele é muito... decente, se pusermos tal característica comportamental em termos humanos. Os romulanos sabem disso. Sabem que ele fará tudo para transformar Ablag III num planeta-metrópole com reconhecimento legal, algo que prospere e leve as crenças ablagianas para além do sistema.

Diana suspirou. Não sabia se aquilo era um sim ou não, mas talvez ninguém soubesse de fato até chegar a hora. - Parece que será difícil negociar com Acrician e ter apenas Allilian do nosso lado aparentemente não será suficiente.

- Será impossível qualquer acordo que envolva todo o planeta se um dos lados impuser dificuldades. Bem, Capitã, isso é tudo?

- Por enquanto creio que sim, McKenna. Pode ir.

- Com licença, Capitã.

Diana se recostou na poltrona. Gostaria de acreditar que tinha a confiança total da vulcana para perguntar-lhe o que ela fizera, de fato, naquele lugar. Haviam esparsas referências nos relatórios sobre “... a excelente adaptação da tenente McKenna aos costumes ablagianos...” e sua fonte lhe informara que ela fôra confundida pelos locais, diante de alguns membros da expedição, como “... a meia romulana da casa de Acrician...”. Não tinha nenhuma ilusão quanto a designação da Atlantis para aquela missão: era conveniente demais que Sarah McKenna e Hans Duff estivessem na nave. Mas conveniente para quê?

Doze horas depois...

- Permissão para virmos a bordo, Capitã.

- Concedida, Almirante Kurt - e inclinou a cabeça para o vulcano elegante ao lado de Kurt: - Embaixador Sarduk.

Sarduk retribuiu com o mínimo de polidez possível e seguiram para o corredor.

- O ordenança os levará aos seus alojamentos, senhores.

- Em quanto tempo chegaremos a Omician VII, Capitã O`Conell?

- Pouco mais de quatro dias terrestres, Almte. A Atlantis ainda tem alguns reparos e providências para efetuar na Colônia Mineradora de Chumazar.

- Está muito bem para nós, Capitã - Sarduk pronunciou-se . - Pode pedir a sua Primeiro Oficial que vá ter comigo assim que se dispuser?

- Certamente, Embaixador Sarduk.

- Bem, então com sua licença, Capitã O`Conell...

- Toda, senhores - Diana respondeu, observando-os se afastarem intrigada. Onde estaria a Embaixatriz vulcana?

Na ponte...

Diana saiu do elevador e, como sempre, McKenna estava de pé ao lado da cadeira de comando com uma mão na cintura, olhando a tela panorâmica.

- Você nunca senta aí, McKenna? - Diana arreliou-a.

- Minha cadeira é aquela, sr - e apontou para o assento de piloto.

Diana deu de ombros. Era a mesma resposta, sempre.

- O Embaixador Sarduk deseja vê-la quando puder, McKenna. - Sarah não manifestou qualquer reação. - Tabela de empuxo programada, sr. D`Angelis?

- SIM, CAPITÃ. PODE ORDENAR QUALQUER DOBRA PARA NOSSA ENGENHARIA.

- Excelente, sr. D`Angelis. Chayenne?

- Curso programado, sr.

- Execute, McKenna. Estarei na Enfermaria.

- Sim, sr.

Na enfermaira, depois dos testes efetuados...

- Muito bem, Capitã! - Duff aprovou com um sorriso animado os resultados que acabara de pôr na ficha médica de O`Conell: - Excelentes resultados! Metabolismo, funções orgânicas, órgãos vitais, tudo na mais perfeita ordem! - Tirou um pirulito do bolso e pôs na mão dela, dando uma risada. - Você mereceu!!

Diana não se conteve e riu também, olhando analiticamente para o pirulito: - Se soubesse que ganharia um doce teria vindo mais cedo.

Hans riu de novo e de repente fechou a cara, como se sentisse alguma dor, ao ouvir a voz de Sarah pelo comunicador pessoal de Diana:

- PONTE PARA CAPITÃ.

Diana estranhou a reação do sempre alegre alemão, mas atendeu: - Sim, McKenna?

- A ATLANTIS ENTRARÁ NO ESPAÇO DA COLÔNIA CHUMAZAR EM 15 MINUTOS, CAPITÃ.

- Avise ao engenheiro minerador que estamos aqui - e sorriu ao dizer: - Desça em seguida, é a sua vez. Estou subindo.

- ...SIM, CAPITÃ.

Diana olhou para Hans. - Você está bem? Me pareceu um pouco abatido de repente.

- Ei, o médico aqui sou eu! - e sorriu. - Estou bem, obrigada.

Ela retribuiu o sorriso e se foi.

Duff a olhou sair, sabendo que Sarah estava adiando aquele exame. Como ela podia ser tão teimosa?

Na Ponte...

- VOCÊS SÃO BEM VINDOS, ATLANTIS! QUANTOS VÃO DESCER?! ESTAMOS PREPARANDO UMA FESTA PARA VOCÊS!

Chayenne e Khya olharam para Sarah sorrindo. A idéia parecia agradá-los.

- O senhor deve esperar pela Capitã O`Conell para comunicar-lhe tal convite, sr. Gerard.

- ORA, NÃO ME DIGA QUE DEPOIS DE MESES PATRULHANDO ESSE ESPAÇO INFINITO UMA FESTINHA NÃO OS AGRADARIA, SARAH!

Melrik ergueu a sobrancelha e Khya quase riu do atrevimento do homem jovem, ruivo e robusto que enchia a tela. Chamar a vulcana pelo primeiro nome era o cúmulo da ousadia!

- Sr. Gerard...

- MAURICE, POR FAVOR!

Benrubi pôs uma das mãos no rosto discretamente enquanto Diana entrava na ponte naquele exato momento para o completo alívio de Sarah.

- Sr. Gerard - Diana o cumprimentou.

- OLÁ, CAPITÃ. VOCÊS VIRÃO ?

O`Conell fitou McKenna de relance.

- Mandaremos um grupo especializado assim que geosincronizarmos, sr. Gerard. O Engenheiro Chefe D`Angelis me acompanhará depois.

- APENAS VOCÊS? ...

-”Apenas”, sr. Gerard? - e olhou para McKenna.

- O sr. Gerard deseja nossa presença numa pequena... confraternização na colônia, Capitã.

- E ENTÃO? VOCÊS VIRÃO?

- Sr. Gerard, - Diana ia dizer algo, mas mudou de idéia: - um grupo formal descerá para participar de sua festa.

- ORA, QUE BOM! AGUARDAMOS PELO MENOS 150 DE VOCÊS! E... CAPITÃ?

- Sim? - Diana estava quase impaciente.

- A SENHORA TRARÁ SUA PRIMEIRO OFICIAL, CERTAMENTE.

- Certamente, sr. Gerard. Atlantis desliga - e se voltou para Sarah, que olhava as próprias botas: - McKenna, 120 da lista de descidas e mais o sr. Khya, sr. D`Angelis, sr. Chayenne e o dr. Duff.

- Sim, Capitã. Permissão para ir à Enfermaria.

- Concedida.

Na Enfermaira...

Quando Sarah entrou no gabinete de Duff, pôde sentir a preocupação, mesclada a irritação, que ele experimentava, sentado em sua cadeira, de costas para a porta, olhando uma prancha de areia colorida que representava os grandes jogos transcendentais tibetanos.

- Pensava quando você se dignaria a falar comigo de novo.

- Estamos sempre juntos, não seja retórico - e levantou a mão, impedindo-o de replicar. - Ainda posso controlar.

Ele se voltou para ela. - Pode? Então por que tem evitado o exame? Acha que não sei, mesmo sem eles, que há algo errado? Meu Deus, Sarah, você é que está sendo retórica!

O fato de não ficarem juntos, mesmo não sendo um casal vulcano, era muito doloroso para ambos e, no caso de Hans, humano e extremamente mais frágil em termos fisiológicos, era uma verdadeira tortura: eles eram kevol-tyr, uma comunhão mental expontânea rara entre vulcanos e ainda mais rara no caso de Hans e Sarah.

Ela se aproximou e ele a abraçou forte e intensamente.

- Você precisa voltar desta vez... Nada do que eu posso fazer vai ajudar...

- Agora não, Hans...

- Meu Deus, Sarah, quando?! Você pode morrer...!

- Não vou morrer.

Ele a encarou. - Vou preparar um maldito relatório se for preciso, está ouvindo?

- Você não pode.

Ele suspirou. - Por quê?

- Recebemos diretrizes.

Sarah sorveu o ar devagar e olhou em volta: tudo que pertencia a Hans emanava tranquilidade e sobriedade... “formas alvas, brancas, formas claras” ...

Duff sorriu, acompanhando os fragmentos do poema de Cruz e Souza: - ... “de luares, de neves, de neblinas”... - suspirou. - É estranho evocar a calmaria dessas palavras quando tudo está querendo se transformar num caos - e, por um momento rápido, enquanto sua mente buscava uma solução para remediar o estado no qual ela estava mergulhando, a imagem sorridente de Joshua Benrubi veio de algum lugar da sua memória.

Sarah fingiu não ter percebido e pôs as mãos para trás. - Meu amigo, desta vez eu me afastei de você mentalmente para controlar melhor a ligação que Sdeck tem comigo, de tal forma que ele não sofra muito com a evidência do kevol-tyr.

Duff se sentou, juntando-se a respiração suave de Sarah para que aquele assunto delicadíssimo ficasse longe de suas mentes até a hora certa. Não tinha a menor intenção de entrar em contato com Sdeck através de Sarah, muito menos agora: sabia que o vulcano não “apreciava” sua presença onisciente nela, um espaço que estava reservado a ele e que o destino dera de mão beijada a Duff, um humano. Pelas leis vulcanas Sdeck teria que ter cedido lugar para o fato de Sarah e Hans serem kevol-tyr se concretizar oficialmente. Lembrava com clareza a surpresa incontrolável nos olhos do vulcano quando Sarah e Hans haviam declarado que não tinham intenção ou necessidade de formarem uma família pelos laços matrimoniais como acontecia com a esmagadora maioria dos seres unidos pela raridade daquele elo mental.

- O que é a missão? - ele perguntou depois de pigarrear.

- Assim não.

Duff não gostava de telepatia: sempre ficava com um pouco de dor de cabeça quando tinha que formular as mensagens ao invés de recebê-las confortavelmente de Sarah. - “Não pode adiar?

- “Não haverá outra chance com um álibi tão bom, tão cedo” - e detalhou a ele todos os dados que havia recebido e suas ordens.

- Entendo... - ele murmurou finalmente. Duff sempre a acompanhava; gostava daquela vida, mas não da violência embutida nela, as vezes. - Venha, você tem alguns exames a fazer e eu linhas em sua ficha perfeita a preencher.

- Suas rimas estão cada vez piores.

- Não abuse comigo, mocinha, ou não vai ganhar pirulito! - ele gracejou tentando afastar de sua mente a imagem fantasmagórica de Sdeck.

Na Sala de Reuniões da Atlantis...

- Eu acredito que mais um membro graduado da Federação será de grande valia, Embaixador.

Sarduk olhou para Diana indiferente. - Uma capitã de nave estelar mais inibiria do que tranqüilizaria, sr. Almte., mas tenho certeza que isso faz parte de sua estratégia de negociação.

O`Conell ergueu-se. Recebera instruções claras de cooperar com o almirante de forma irrestrita, o que elevava suas suspeitas quanto aquela missão até a “estratosfera”, como se dizia antes das viagens espaciais terráqueas. - A Atlantis é bem conhecida como nave com ênfase em assuntos mineratórios e diplomáticos. A presença de um representante comercial da Frota, como também estou habilitada, certamente seria mais receptível. - “Que diabos estou fazendo?”, Diana se indagou, sabendo que sua nave estava sendo usada para alguma coisa ou muito chata ou muito fora da lei. Ou ambos. “Bem, estou pagando para ver.

Kurt sorriu satisfeito com o apoio da capitã. - Sempre raciocinando com brilhantismo, Capitã O`Conell. Se nossas negociações com Allilian se tornarem lentas e tentar um entendimento diplomático com Acrician for impossível a curto prazo, pelo seu lado, Capitã, talvez um acordo comercial seja mais rapidamente aceito por ambos os lados.

- PONTE PARA CAPITÃ.

- Sim, McKenna?

- COMUNICAÇÃO DE CHUMAZAR, CAPITÃ: ELES NOS AGURDAM.

Diana notou o leve tom irritado de Sarah e preocupou-se: aquilo era muito estranho!

- Eles sabem que estamos aqui, Capitã?

- Não, Almte.

- Bom. Que continue assim.

- Claro, Almte. McKenna, o pessoal selecionado para as salas de transporte e aguarde-me na número dois.

- JÁ FOI EXECUTADO, CAPITÃ, E ESTAREI AGUARDANDO.

Diana voltou-se para os dois homens e notou a indisfarçada atenção de Sarduk sobre a conversa trivial que mantivera com a vulcana.

- O sr. Benrubi estará no comando.

- Obrigada, Capitã O`Conell.

- Disponham, senhores. Com licença.

Na Colônia...

Os corpos de Diana O`Conell e Sarah McKenna materializaram-se na plataforma de teletransportes de Chumazar. Um homem alto, de longos cabelos ruivos e sorriso aberto, que havia sido trazido para aquela colônia a alguns meses passados justamente pela Atlantis, acompanhado de outros dois rapazes pouco mais jovens, as esperavam.

- Bem vindas! São luzes estelares para os nossos olhos!

McKenna ergueu a sobrancelha esquerda evitando transparecer-lhe no rosto a incredulidade desdenhosa a respeito daquelas palavras.

Diana não pôde conter o comentário:

- Pensei que existissem mulheres em Chumazar, sr. Gerard.

- Não mulheres humanas, Capitã O`Conell. Somos apenas cinqüenta humanos aqui, sendo que apenas doze são mulheres: casadas e com idade para serem nossas avós!

Diana não pôde deixar de sorrir com compreensão. Aquela situação era temporária em toda colônia em fase de adaptação e sempre deixava os pioneiros, ou pioneiras, bastante ansiosos.

- Será que eu quebraria alguma norma da Frota Estelar, - se adiantou um dos rapazes - se eu convidasse a Capitã O`Conell para dançar?

- Ora, mas é claro que não, Frank! - Maurice respondeu entusiasmado. - Não é assim, Capitã O`Conell? Dança comigo, Sarah McKenna?

O`Conell parecia não se importar e respondeu com uma inclinação positiva de cabeça. Olhou para McKenna, que estava de mãos para trás, visivelmente disposta a recusar o convite do engenheiro.

- Claro, sr. Gerard - Sarah respondeu com toda a formalidade que era capaz. Olhou para Diana, que parecia estar se divertindo com a situação. “Preciso ter paciência...”, ela rosnou para si mesma, tentando aplacar a vontade, não realmente sua, de surrar aquele homem teimoso.

****

Enquanto Frank conduzia a Capitã O`Conell até a pista de dança, Duff, D`Angelis e Khya, a um canto do salão, conversavam animados, dividindo uma garrafa escura recém iniciada. Duff encheu os copos dos três e se voltou para olhar as pessoas dançando e o que tanto interessara repentinamente Jordan. Decidira que neutralizaria o elo com Sarah aquela noite, como ela o ensinara a fazer para proteger sua privacidade vez por outra. Por mais seu amigo e compreensível que fosse, a irritação dela já estava lhe dando nos nervos.

- A Capitã dança bem, não acha, sr. D`Angelis?

O comentário de Khya fez o sorriso de Duff aumentar. Voltou-se para o ar estranho do Engenheiro Chefe da Atlantis e encheu novamente o copo dele, que se tornara vazio de repente.

****

- Por favor, vamos ser menos formais... ! Chame-me de Maurice e eu a chamarei de Sarah!

Sarah exasperou-se quanto ele tentou estreitá-los mais.

- Está se divertindo, humano...? - ela murmurou com um olhar perigoso, segurando-o pelo cotovelo com muito pouca consideração pelo fato de o estar machucando.

- Imediato McKenna, eu não tive a intenção de ofendê-la...

Sarah suspirou, recuperando o autocontrole e largando o homem bonito discretamente. Tinha sido imperdoável passar telepaticamente sua raiva como estimulante do medo dele. Não deveria ter descido. Saiu do salão sabendo como teria sido fácil quebrar o braço daquele homem solitário e pueril apenas porque fôra incapaz, por um reles segundo, de controlar as emoções irracionais de Sdeck. Estaria errada em protelar? Sdeck agüentaria tempo suficiente para que ela terminasse aquela missão?

- Atlantis, focalizar Imediato e acionar.

O corpo de Sarah McKenna desapareceu diante do olhar confuso de Maurice Gerard.

****

Martina riu com toda a mordacidade de que era capaz e se juntou ao grupo de alferes, puxando seu acompanhante com pressa.

- Minha nossa, isso foi sensacional, gente!

Um dos rapazes sorriu, compartilhando com a maioria um sorriso reconhecedor daquele comportamento da enfermeira.

- O que foi, Martina? Que fofoca extraordinária você tem para nós?

Ela elevou a voz acima da música só o suficiente para que eles a ouvissem:

- O Engenheiro Chefe desta colônia, aquele homem lindo, puxou a Imediato para dançar...!

- E daí, Dickens? - Ness a interrompeu. - Não nos diga que isso é sensacional.

A enfermeira se aproximou dele com um sorriso mordaz. - Oh, Ness, você tinha que defendê-la, não é mesmo? - e se virou para os outros: - O engenheiro a agarrou, eu vi!

- Não seja mentirosa, Dickens!... - Ness exclamou ofendido.

- EU VI, seu capacho de pêlos vermelhos! E se ela foi burra o suficiente para rejeitar um homem como aquele...! - e pôs o dedo na cara do alferes de ponte, rindo: - Eu vi!

Ness a empurrou, com raiva, e, de imediato, Sanchez, que acompanhara imparcialmente a discussão, apartou ambos:

- Não creio que vocês dois vão querer chegar as vias de fato, não é? A Imediato McKenna saberia e não só as fichas de vocês ficariam manchadas, mas é muito provável que vocês seriam transferidos.

Todos sabiam o que ser transferido da Atlantis, a melhor nave da atualidade, a pedido da Imediato, significava: era pior que a morte dentro da Frota, um atestado irrefutável de incompetência.

- Retire o que disse, Martina!... Você não tem o direito de caluniar um oficial com tamanha irresponsabilidade!...

Um dos alferes pôs a mão no ombro dela. - É. Martina. Afinal, não interessa se eles rolaram no jardim ou ela deu o fora nele. O importante é que isso não é da nossa conta.

- Bah! - e ela se afastou. - Claro puxa-sacos! Morram de medo da toda-poderosa!

- Ei, Martina, não é essa a questão...!

- Não interessa! - ela gritou já de longe.

Ness a olhava irritado. No final das contas, ficara magoado com a maneira como fôra tratado.

Sanchez bateu em suas costas. Ness era uma pessoa muito boa, daquelas que fazem um favor por prazer, por carinho, sem pedir nada em troca. Era o coração mais puro que Sanchez já conhecera e um soldado muito leal e dedicado. Riu consigo mesmo: era a primeira vez que o vira ficar vermelho não de vergonha ou timidez, mas de raiva, e esboçar uma reação que pudesse ser - a seu ver com muito esforço - classificada de violenta.

- Não esquenta, Willy. A Martina é uma filha-da-mãe mesmo. Você vai ficar maluquinho se começar a se importar com as opiniões dela.

Mas Dyllan tinha uma opinião particular muito mais apurada da enfermeira. Não acreditava que toda aquela ousadia em relação a Sarah McKenna, e em outras ocasiões a Diana O`Conell, fosse fruto do nada.

Que Martina morra hoje mesmo se ela não tem as `costas quentes`...

Na Atlantis, ao mesmo tempo...

A primeira pessoa que McKenna viu ao lado de Ibirapitanga, o alferes brasileiro daquele turno no transporte, foi Joshua Benrubi sorrindo alegremente.

- O que houve, sr. Imediato? A festa não está boa?

Sarah teve vontade de rugir para ele. - Desça e assuma o meu lugar, sr. Benrubi, então verá por si mesmo.

Joshua deu de ombros. - Sim, sr.

Sarah entrou no elevador comum sentindo fortes caimbras estomacais. - Vigésimo quinto nível. - Tremia. Estava sentindo frio a uma temperatura de 293K.

- VIGÉSIMO QUINTO NÍVEL, IMEDIATO McKENNA - o computador informou com sua voz masculina e educada.

Sarah dirigiu-se para o alojamento 25-90.

- SIM?

- Sarah McKenna.

A porta se abriu. - Entre, sr. Imediato.

A temperatura bem mais alta no alojamento do embaixador vulcano aliviou os tremores de Sarah.

- Estou aqui, sr. Embaixador. É sobre Ablag III?

- Não - e encarou-a. - Você não parece bem.

- Não é nada - e fez um gesto de indiferença. - Como está a senhora minha mãe, sr. Embaixador?

- Bem - e se sentou fazendo sinal para que ela o imitasse. - Esperando um comunicado seu a seis meses terráqueos.

Sarah não se alterou. - Seis? A senhora embaixatriz não deve estar satisfeita por não me comunicar a tanto tempo.

- Insatisfação é um sentimento, sr. Imediato. Yonah compreende suas obrigações. Pediu apenas para que se comunique assim que possa. É provável que possa fazê-lo logo.

- O que quer dizer com isso, Sarduk?

Os olhos negros de Sarduk não vacilaram ao pronunciar em tom seco e elegante as palavras na língua vulcana:

- T`Ran aconselha seu regresso imediato.

McKenna levantou-se e deu alguns passos pelo alojamento destinado ao marido de sua mãe.

- Sei que fui aceita pela família de Sdeck pelo meu sangue vulcano e não por minha capacidade lógica ou pelo posição de minha família. Mas também sei que foi pelo peso de minha posição que todos concordaram com meu ingresso na Frota. Para os padrões das famílias nobres eu já passei tempo demais protelando minhas obrigações de nubente. Todos nós chegamos a um ponto crucial.

A voz dela não a traiu, mas ambos sabiam que havia mais um motivo para estar tanto tempo afastada, o principal motivo.

- Não consigo discernir o propósito de semelhante discurso.

- Dei minha palavra ao Conselho de Anciãos que voltaria no tempo certo para redefinir todos esses pontos. E voltarei.

- Claro, T`Sarahk.

McKenna assentiu silenciosamente ao ouvir Sarduk pronunciar seu nome vulcano, concedendo-lhe grande honra.

- Logo estarei em Vulcan.

- O Conselho de Anciãos achou por bem permitir-lhe uma reavaliação a fim de que Sdeck possa finalmente, com você, compor uma família. Todos nós compreendemos a necessidade de sua longa ausência e suas obrigações como membro da Frota Estelar. Talvez agora, com o passar do tempo, seus poderes tenham se amenizado - e olhou-a bem no fundo dos olhos. - Mas todos nós sabemos porque você deve voltar agora. Eu posso ver neste momento.

Sarah olhou as próprias mãos, que tremiam.

- Seria ilógico refutar as evidências.

Sarduk anuiu com um gesto.

Na colônia, ao mesmo tempo...

Diana estava dançando com Frank e, apesar de ter deixado claro várias vezes naquela noite que não tinha qualquer espécie de interesse pessoal no jovem bonito, ele não desistira ainda de tentar seduzi-la.

- Uma mulher tão bela quanto você deve ser mais complacente com um pobre homem solitário - e sorriu.

- A beleza é muito relativa, Frank - teve vontade de rir da sua frase ultra banal e olhou mais uma vez em volta e não viu McKenna ou Gerard. - Poderíamos ver a área externa? - Diana sugeriu. Queria verificar o paradeiro de Sarah sem tornar-se indiscreta. Sabia que a vulcana estava irritadiça e talvez não tivesse sido boa idéia tê-la deixado com um homem que pudesse ampliar e sofrer com esse estado.

- Ora, mas é claro! - o rapaz respondeu, adorando a idéia súbita.

Não foram muito longe, ao darem de cara com Joshua Benrubi, que olhou com discrição para o braço de Diana que Frank enlaçava.

- Senhor Benrubi? - e O`Conell se preocupou.

- A Imediato McKenna mandou-me substituí-la, Capitã.

Gerard aproximou-se deles com a fisionomia carregada.

- Foi abandonado, Gerard? - Frank gracejou.

- Acho que a Imediato da Atlantis não estava se sentindo bem - respondeu sem muita convicção. - Talvez eu tenha sido grosseiro também...

- Muito bem, sr. Benrubi - Diana disse por fim, constrangida. - Foi um prazer conhecê-los, senhores. Por favor, podem acompanhar o sr.. Benrubi até sua festa?

- Claro, Capitã O`Conell - Gerard respondeu desanimado. Havia sido tão tolo com a mulher vulcana que se sentia profundamente ridículo agora.

- Já nos deixando, Capitã? - Frank indagou decepcionado.

- O dever nos espera em poucas horas, senhores. Com sua licença, volto a minha nave - e saiu sem esperar qualquer objeção.

Na Atlantis...

Diana foi diretamente para seu alojamento e convocou a única pessoa que conhecia sua Imediato melhor que qualquer outra no universo.

A campainha tocou e ela permitiu a entrada.

- Aqui estou, Capitã. Algo grave?

- Fez os exames em Sarah, Dr.?

Hans cruzou as pernas e fitou-a. - Detalhadamente.

- O que há então, Duff? Por que uma vulcana estaria...assim?

Duff mordeu o lábio. Diana podia dizer que nunca vira aquele homem embaraçado.

- Passei algum tempo, depois de me formar, em Vulcan. Como queria servir em uma nave estelar, achei conveniente aprender um pouco mais a fundo sobre nossos amigos vulcanos, porque toda grande nave que se preze sempre tem a presença deles. Além do mais, eu acabara de descobrir que era kevol-tyr com uma vulcana e uni o útil a obrigação.

Diana ouviu com paciência. Por algum motivo ele fazia rodeios e por seus próprios motivos ela achava que devia respeitar isso.

- Fisiologicamente eles são excepcionais: metabolismo vigoroso, uma adaptação prodigiosa ao ambiente inóspito no qual vivem. Parecem invencíveis, não é, Capitã? Toda essa capacidade física aliada a uma mente bem dotada e bem treinada.

- Sim, dr. É por isso que estou preocupada. Talvez por ela ser meio vulcana...

- Capitã, Sarah McKenna é meio engendrada, esqueceu-se? Ela não descende de humanos de evolução natural como eu e você. Se há exemplos de extremos de espécies bem adaptadas e super adaptáveis em um ser é sua Imediato.

Diana assentiu. Apesar do medo preconceituoso que sobrevivera para os poucos descendentes desses humanos, isso estava bem explícito na ficha dela. Sarah descendia daqueles humanos criados em laboratórios de Engenharia Genética para dominar as massas, intelectual e/ou fisicamente. Sabiam mais que qualquer um, aprendiam mais rápido e tinham muito mais força física, tanto os homens quanto as mulheres. E sabiam disso. E como não houvera na época quem os controlassem, fizeram uso do que também tinham em maior quantidade que os humanos comuns: sua arrogância, sua capacidade de destruir, matar e sobrepujar.

De repente via Sarah de outra forma. Ela seria capaz...?

- Ela seria capaz de revelar semelhante comportamento aos poucos, Duff?

- Também haviam dentre eles aqueles que discordavam da barbárie, Capitã. Grandes pensadores e trabalhadores, que lutaram muito pela paz e pela criação da Federação como a conhecemos hoje ao lado dos vulcanos. Os ancestrais de Sarah receberam essa ajuda e essa compreensão. Os vulcanos os instalaram em Marte e em Vulcan e deram a eles alento para continuarem vivendo mesmo na época em que o preconceito e a perseguição contra eles foi implacável. O pai de Sarah era um homem muito bom, de uma índole santificada. O mau humor, os rompantes de agressividade, tudo isso não é nada, O`Conell. Há um único estágio nas vidas dos vulcanos que concentra toda a sua animalidade contida, paixões e sentimentos, porque eles sentem, Capitã, mas isso está além da comparação com os humanos, e é justamente isso que os humanos não compreendem...

Duff suspirou, sabendo que estava se estendo, revelando detalhes de um povo que lhes haviam sido abertos por confiança, mas Diana tinha Melrik a seu lado por muitos anos e Hans sabia que muitas daquelas coisas eram sabidas por ela.

- Um breve instante em suas vidas lógicas e sóbrias que os fazem lembrarem-se que até mesmo a disciplina pode naufragar e a lógica perder o sentido... - Diana completou olhando-o nos olhos.

- ... A época em que todo o seu metabolismo se prepara para reproduzir. Nenhum vulcano pode fugir disso. Eles se tornam frágeis corpos dominados pelas sensações. Não há lógica ou disciplina... eles se tornam perigosos e ferozes animais... no cio.

Diana viu os lábios daquele homem tremerem. Talvez, como nenhum outro humano, ele já tivesse presenciado o mais terrível tabu da sociedade vulcana. Aqueles que conheciam apenas a lenda que os vulcanos eram não poderiam entender o que realmente aquilo significava.

- Duff, não me constava que as mulheres vulcanas passem pelo Pon Farr.

- Não como os homens, Capitã. Mas McKenna não é uma vulcana comum. Sua P.E.S. é altíssima e reage de forma bem diferente: ela não ancora a dor de seu marido mas, com a distância, a amplifica com uma força surpreendente, reproduzindo os sintomas dele até... morrer.

Diana o encarou surpreendida e exasperada. O que Sarah McKenna estava fazendo dentro de uma nave estelar com tal P.E.S., um marido vulcano e certamente obrigações diplomáticas bem mais condizentes com sua posição de princesa vulcana?

- Então ela deve voltar, Duff. Por quanto tempo ela pode agüentar?

- Por mais três semanas, Capitã - ele finalmente mentiu, não querendo e não podendo envolver a Capitã além do que era necessário. Seus olhos azuis brilharam cobertos de lágrimas. Esperava que Sarah fosse rápida, pois tinha certeza que Diana estava disposta a levá-los para Vulcan com toda a presteza.

Diana o fitou. E se McKenna tivesse que ficar em Vulcan, o médico ficaria também? Melrik tentara explicar a ela o que era ser kevol-tyr, mas tivera que usar termos vulcanos arcaicos intraduzíveis que, apesar de seu extenso conhecimento da língua vulcana, haviam deixado muito a desejar no seu entendimento. Sabia apenas que era a união mais forte que existia entre os vulcanos: total, sem barreiras, mais profunda e mais forte que o casamento vulcano, que era realizado pela união mental, mas que necessariamente não levava a união física.

Maior... Os olhos de Diana haviam faiscado com a explicação...

- Tem certeza, Dr.?

- Absoluta.

- Então vamos ver o que podemos fazer em Ablag III com duas semanas.

Vinte e nove horas depois, na ponte...

- AGRADECEMOS PELOS MATERIAIS E NOVOS IMPLEMENTOS TÉCNICOS, CAPITÃ O`CONELL. ESPERAMOS QUE A PARTE DO MINÉRIO RESERVADA A FEDERAÇÃO TENHA A QUALIDADE DESEJADA.

- O dilitium de Chumazar é de qualidade excepcional, sr. Gerard. A Base Estelar 314 lhes mandará informes de nossa entrega. Agradecemos a hospitalidade.

- ESPERAMOS REVÊ-LOS DAQUI A ALGUNS MESES, ATLANTIS - e Gerard olhou para Sarah. - GOSTARIA DE PEDIR DESCULPAS POR QUALQUER INCONVENIENTE.

Sarah teve pena dele. - Nós é que lamentamos qualquer tipo de transtorno, sr. Gerard - ela respondeu com polidez.

Ele finalmente sorriu. - ATÉ BREVE, SENHORAS! BOA VIAGEM!

A tela se apagou e Diana voltou-se para Melrik. - A ponte é sua, Melrik. McKenna, Benrubi, acompanhem-me até o gabinete.

****

- Temos providências a tomar, senhores. Eu estarei presente nas negociações junto aos dois enviados da Federação.

- Providenciarei um grupo de segurança adequado, Capitã.

- Um grupo oficial e outro informal em terra seria uma boa estratégia para ganharmos tempo, Capitã: vocês pelo lado de Allilian e outro pelo lado de Acrician.

- É uma boa idéia, McKenna, mas pelo que sei, não seria fácil contactá-lo.

- Sim, Capitã, mas toda informação que pudermos ter a respeito das intenções de Acrician ou dos romulanos facilitaria nossa tomada de atitude a respeito de qualquer questão - Joshua apoiou.

- Claro, vocês tem razão e acredito que vocês sejam a escolha adequada para liderar o grupo informal. Façam o que for preciso para não interferirem nos planos do Almte. Kurt. Quero os detalhes em uma hora, senhores.

- Sim, Capitã.

- TEMPO DE CHEGADA A ABLAG III NO HORÁRIO, CAPITÃ O`CONELL. ENTRANDO NA FRONTEIRA DA ZONA NEUTRA ROMULANA - Khya informou.

- Avise ao Almte. e ao Embaixador que estamos chegando e que podem vir à ponte, sr. Khya. Abra o intercom - e levantou-se, procurando em Sarah algum sinal de nervosismo. - Atlantis, estamos na Fronteira da Zona Neutra Romulana. Ficaremos em alerta amarelo por tempo indeterminado. Repito: alerta amarelo para todos os postos. O`Conell desliga.

****

Quando Diana, Sarah e Joshua entraram na ponte, os dois membros da Federação já estavam lá.

- Alguma comunicação se faz necessária, senhores? - Diana indagou, sentando-se no seu lugar.

- Devemos enviar um mensageiro com um presente avisando que entraremos em contato - Sarduk explicou.

- Que interessante...

- De fato, Capitã O`Conell. Um lorde ablagiano, qualquer que seja o assunto, só o discute quando toma conhecimento prévio dele, principalmente neste caso, de forma respeitosa e antecedente. Eles são muito cautelosos e desconfiados.

Kurt sorriu. - E sabemos disso agora graças a sua Primeiro Oficial, Capitã.

Diana também sorriu. Sem dúvida Sarah tinha feito um bom trabalho ali.

- McKenna, Benrubi, cuidem disso agora mesmo. Escolha o presente, McKenna, você sabe o que fazer.

- Sim, sr.

- Apenas a título de curiosidade, Imediato, - o Almte. interrompeu sua saída - que tipo de presente será oferecido?

- Uma bebida, sr. Almirante. Uma garrafa de vinho, no nosso caso, pois, - e inclinou a cabeça da forma que só os tripulantes da Atlantis haviam aprendido a identificar como sorriso contido - os humanos têm fama de excelentes preparadores de bebidas.

- Não é uma fama tão ruim... - Kurt ponderou.

Sarah sorriu para Diana. - Permissão para prosseguir, Capitã.

- Concedida, senhores.

Na intendência...

Sarah soltou os cabelos sob o olhar atento de Joshua. Despiu o casaco vermelho e olhou para ele. - Não percamos tempo em voltar na Atlantis, Benrubi: faça o mesmo. - Voltou-se para o console do materializador - Tem meu pedido, computador?

- ATÉ O ÚLTIMO DETALHE SOLICITADO, IMEDIATO McKENNA. FORNECENDO AGORA.

Ela tirou as botas e olhou para o corte quase cicatrizado que Joshua tinha no peito, agora nu, da disputa de adaga de ambos realizada na semana que passara. - Quase não dá mais para notar, Benrubi.

Ele sorriu. - Duff é um médico muito bom, mas foi uma feridinha de nada.

McKenna sorriu também. Recebera uma séria repreensão de Duff por causa daquilo. - Iremos para a casa de Arririan, Benrubi. Talvez tenhamos mais sucesso com essa visita do que possamos imaginar.

- Quem é Arririan, McKenna?

- O filho primogênito de Acrician.

****

Já era noite naquela parte do planeta quando Sarah e Joshua se materializaram em frente aos portões de uma grande muralha que cercava um complexo de moradias e plantações no meio de um deserto pedregoso. McKenna fez sinal para que ele guardasse alguma distância e se aproximou da sentinela, que pareceu reconhecê-la, tirou a túnica e a camisa de mangas compridas, mostrando as costas nuas para o ablagiano, que murmurou um som gutural e fez uma estranha reverência a ela. Sarah fez um sinal para que Joshua se aproximasse e o sentinela os conduziu para dentro das muralhas.

- O que mostrou a ele, McKenna? - Benrubi indagou curioso.

- Uma tatuagem - ela respondeu laconicamente, sem explicar mais nada.

- Sarrahn...! - a voz masculina carregada pelo sotaque ablagiano chamou-lhes a atenção.

- Lorde Arririan... - e Sarah esboçou um sorriso caloroso, estendendo o braço. Arririan fez o mesmo e ambos se tocaram devagar para se soltarem quase instantaneamente.

- Estou feliz em revê-la, Sarrahn... - e o olhar dele foi íntimo e fixo.

- Este é Joshua Benrubi, tripulante da nave Atlantis, como eu, Arririan... - sua voz havia se tornado calma, baixa.

- Ele é bem vindo. E você também...

Mais tarde...

- O servo que Arririan designou para me acompanhar até a fortaleza de Allilian fala pouco - Joshua comentou olhando por uma das janelas da casa principal, onde Arririan morava. Pigarreou: - Arririan é alguém... especial, Sarah?

Ela estava sentada em uma espécie de rede, balançando-se suavemente. - Sim, Joshua.

- Muito especial, Sarah?

- Ensinei a Arririan a organizar e comandar sua casa, montar planos para o futuro e traçar metas e cumpri-las. Ele, como Filho da Família, tem muito mais amor por seu povo, e dignidade para comandá-lo, que seu pai.

Joshua a fitou, compreendendo com clareza quem era Arririan afinal. - Então, ele seria um aliado de excepcionais qualidades para Allilian, se não fosse pelo pai.

Sarah ergueu a sobrancelha com um ar de aprovação. - Sim.

O som característico do comunicador soou.

- McKenna.

- IMEDIATO, A CAPITÃ E OS REPRESENTANTES DA FEDERAÇÃO SERÃO RECEBIDOS DAQUI A DOIS DIAS ABLAGIANOS. NADA FOI DITO, NO ENTANTO, A RESPEITO DE ACEITAÇÃO DA IDÉIA DE NEGOCIAÇÕES.

- Isso era esperado, sr. Melrik. Convoque uma reunião de prioridade dois com a Capitã para daqui a trinta minutos.

- ENTENDIDO, IMEDIATO McKENNA. ATLANTIS DESLIGA.

****

- Arririan quer que eu vá a uma reunião entre os lordes com ele amanhã, Capitã.

Diana a fitou um pouco surpresa.

- Isso é bom?

- É pessoal, Capitã, por isso gostaria de evitar os palpites dos representantes da Federação nisso.

Parecia a Diana que aquela era uma ótima oportunidade para se aproximar de Acrician e Allilian, mas não havia como eles meterem o bedelho naquilo antes do dia marcado.

- Sarah, não posso autorizar sua presença diante desses dois inimigos sem saber a real situação desse encontro.

Sarah olhou para os próprios pés. Era um hábito que Diana ainda não aprendera a identificar com clareza suas razões.

- Vão realizar a união da Sacerdotisa dos Espíritos, que nesta geração é a Filha da Família de Allilian, com o Chefe da Casa dos Desertos, que nesta geração é o Filho da Família de Acrician. E os mazarrians, caso hajam, devem estar presentes e serem identificados por ambas as famílias.

Diana ficou confusa. - Você é uma mazarrian? O que diabos é isso?

Sarah suspirou e a encarou. - Quer dizer “a pessoa amada”.

Diana foi até a escotilha e passou a mão no rosto. Teve pena do ablagiano, e não sabia bem por quê. Seria seu lado romântico ou seu instinto lhe dizendo que aquilo não era nada bom?

- Seja sincera, Sarah: isso pode prejudicar, de alguma forma, as negociações da FPU?

- Não, Diana. Apesar de eu ter certeza que os romulanos sabem que eu vim da Atlantis, em Ablag III todos acreditam que eu sou uma mestiça de romulano com uma ablagiana do povo.

Diana balançou a cabeça devagar. - Quantos sabem disso?

- Isso não consta em nenhum relatório, Capitã. E espero que, de sua parte, nunca conste.

Diana finalmente recebera a prova definitiva que a vulcana confiava nela. - Nunca constará, Sarah.

- Obrigada, Diana.

****

Ficou acertado então que o Chefe de Segurança da Atlantis desceria com um pequeno e bem preparado contingente, disfarçados, para ocuparem pontos estratégicos na reunião com Allilian.

Sarah e Duff ajudaram nos últimos retoques de comportamento e indicaram os locais onde seriam menos evidentes.

O grupo estava terminando de pôr o vestuário, que incluia roupas e caracterizações de ablagianos do povo, de soldados rasos romulanos, de klingons mestiços e de humanos com aparência suspeita.

- Os humanos com cara de bandidos são mais discretos em Ablag III do que qualquer outro tipo comum - Duff dissera a eles a alguns minutos atrás.

Sarah, envergando as roupas ablagianas, os olhava se prepararem com um ar abstraído.

- Eles se machucarão?

- Estarão tão longe dos acontecimentos que sequer saberão.

- Está pronto” - e pousou a mão no antebraço esquerdo dela por um breve instante, indo embora em seguida.

- Estão prontos, senhores? - Sarah postou-se ao lado de Joshua.

- Sim, sr!

- Vamos para a sala de transportes número 2, acelerado - Benrubi instrui-os e se voltou para ela. - Não precisará de nenhum de nós com você?

- De forma alguma, Benrubi. Até mais tarde.

- Não vai descer conosco?

- Preciso falar com Ness e Dickens sobre a briga deles antes que as coisas “esfriem” demais.

- Como sabe que eles brigaram, McKenna? Não recebi nenhum relatório sobre isso.

Ela sorriu mordazmente: - A tecnologia faz milagres hoje, caro Benrubi.

Joshua não teve coragem de indagar se a vulcana estava usando nanoreceptores de adrenalina de agressividade - um projeto da própria Sarah na Academia - na tripulação. Isso seria o fim, o cúmulo da invasão de privacidade, mas como falar em privacidade para pessoas como Sarah, ele ou a própria Capitã? Seria irônico.

- Tenha cuidado.

Sarah não pôde deixar de sorrir. - Tome conta deles e não saia das ordens sem me contactar antes.

Uma hora mais tarde, na casa de Arririan...

- O encontro será na Casa do Povo dentro de três horas, Sarrahn...

Estavam sozinhos e ela tocou o rosto dele com cuidado. - Você não deve se culpar por não ter conseguido afastar seu pai dos romulanos, Arririan...

- Eu quero o melhor para o meu povo e minha família, Sarrahn... Os romulanos são maus vizinhos e meu pai só compreende o tilintar das moedas...

O homem ablagiano estava envergonhado e toda a sua família também, Sarah sabia, mas eles tinham que seguir seu lorde enquanto este vivesse ou renunciasse.

- Ele é um homem velho, Arririan... Talvez queira renunciar...

- Ele é um homem egoísta, Sarrahn... E meu povo e minha família vão sofrer enquanto ele estiver vivo...

Sarah o beijou com ternura e ele se entregou ao beijo arrebatando-a nos braços com sofreguidão e desalento.

- Por que você não ficou, Sarrahn...? Você estava indo bem nos ensinamentos e com certeza seria escolhida para ser a Sacerdotisa dos Espíritos por esta geração... - e seu rosto mergulhou nos cabelos sedosos dela.

- Tenho obrigações a cumprir, como você, Arririan... Não tive liberdade para escolher ficar...

- Essa não é você...

Sarah segurou-lhe o rosto entre as mãos de longas unhas. - Eu já havia feito minhas escolhas... Eu não seria feliz morando para sempre no mesmo lugar...

- Eu sei... - e a beijou devagar. - E eu não seria feliz longe de minha terra...

Um gongo soou no pátio lá embaixo.

- Está na hora, Arririan...

- Sim, eu sei, Sarrahn...

****

O salão estava cheio com as duas famílias dos sacerdotes, cada uma de um lado. Allilian e sua esposa estavam ladeando uma jovem robusta e de cabelos curtos, como os solteiros ablagianos deviam usar, e Acrician, sua mazarrian e sua esposa ladeavam Arririan. A filha de Allilian e Arririan tinham, respectivamente, um jovem ablagiano e Sarah sentados a frente deles.

Allilian pegou o rapaz sentado pelo antebraço esquerdo e Acrician fez o mesmo com Sarah, aproximando-se do centro do círculo.

- Este é o mazzarian de minha filha e ele aceita sê-lo enquanto for vivo...

- Eu o aceito... - Arririan respondeu em seguida.

- Está é a mazarrian de meu filho, mas ela partirá...

- Eu lamento... - a filha de Allilian seguiu o ritual.

- Venham, Filhos do Povo, e declarem sua Aceitação... - um velho sacerdote conclamou os jovens.

- Fique no círculo, Sarrahn... - Arririan chamou-a de volta, estendendo-lhe a mão. - Você sempre será minha mazarrian e de nossa família mesmo que jamais volte a Ablag III...

A filha de Allilian e seu jovem mazarrian também estenderam as mãos para ela. Sarah entrou no círculo e eles se deram as mãos.

- Vocês, jovens, sempre serão uma família de hoje em diante... O Povo espera que, unidos, honrem a disposição de busca pela paz e sabedoria que nos fazem existir...

- Honraremos...!

O sacerdote mais velho sorriu. Aconselhara Arririan a buscar uma ou mais consortes, já que sua mazarrian não ficaria. A filha de Allilian seria feliz ao lado dele e de seu mazarrian, mas Arririan dissera-lhe, apenas para tranqüilizá-lo era evidente, que faria isso com o passar do tempo, sem pressa. Uma família grande era uma dádiva imensurável, é claro, mas ele era paciente.

- Vamos comemorar...!

O sacerdote mais velho pôs a mão na testa de cada um deles e se afastou. A única coisa que sabia, olhando para Arririan junto a sua jovem mazarrian, era que ele não seria feliz plenamente. E só poderia se dedicar totalmente aos seus ideais quando Acrician renunciasse ou morresse.

****

- Fique comigo esta madrugada...

Ela deu a mão para ele. - Ficarei até que as luzes da estrela que virá sumam de novo... Depois partirei e você deve ficar em paz...

- Eu ficarei... Por sua vontade...

****

Quando amanheceu, as batidas enérgicas na porta dos aposentos de Arririan não o pegaram de surpresa, pois o sacerdote a muito estava acordado contemplando a figura bem torneada e nua da mulher que amava dormindo suavemente em sua cama.

- O que há...?

- Pedem sua presença na Casa de seu pai, senhor... Lorde Acrician não acordou...

- Avisem a todos... partimos em alguns minutos...

- Sim, meu senhor...

Arririan fechou a porta e olhou para a cama onde Sarah estava agora sentada.

- Não teremos o resto do dia...

- Mas você terá sua família e seu povo, meu lorde...

- Sarrahn...

- Vá...

Ele foi até ela e a abraçou. Passou a mão nos cabelos dela e se foi sem voltar a olhá-la.

Sarah sabia que ele se uniria a Allilian e que os dois abririam quase que instantaneamente as portas de Omician VII para a Federação e a Frota.

Pôs as roupas ablagianas antes de contactar a Atlantis.

Dois dias depois...

Uma nave da classe Excelsior havia geosincronizado com Ablag III numa órbita abaixo da Atlantis a 14 horas atrás com ordens para permanecer ali o tempo que os lordes Arririan e Allilian necessitassem do apoio dos membros da Federação para realizarem o compromisso de unirem-se a FPU e todos os demais acordos comerciais, diplomáticos e táticos fossem estabelecidos e firmados com o novo membro.

Acrician havia falecido durante o sono por complicações na oxigenação cerebral e os romulanos, com os quais era o único em entendimento, tiveram que se retirarem não realmente satisfeitos da disputa do dilitium, que já haviam começado a extrair discretamente, e do ponto estratégico.

A Atlantis marcara rota para Vulcan e Duff e McKenna estavam de licença até chegarem lá, por precaução. Dentro de mais 15 horas estariam geosincronizando com o planeta dos vulcanos.

- “Diário pessoal: muito além das expectativas de qualquer diplomata da FPU, agora Ablag III está federado. A morte “natural” e “providencial” do maior impecilho para isso foi quase “milagrosa”. Sarah McKenna tinha pouco tempo, mas cinco dias me parecem um recorde” - Diana suspirou, sabendo que as coisas não podiam ter dado tão certo assim tão facilmente. Duff era engenheiro genético, alguém especializado em fazer os organismos funcionarem, ou não, com suas próprias proteínas, bastando dizer a elas o que fazerem, ou não.

Mas quem dera a ordem?

****

Duff acabara de contar a Joshua todos os acontecimentos em Ablag III, que ouvira calado enquanto bebericava o líquido púrpura que o alemão lhe oferecera.

- Ela casou, Duff? Como você deixou?

Duff riu. Era hora de ter aquela conversa com Benrubi.

- O ritual ablagiano de formação de uma nova família é muito mais complexo que isso, Joshua. Muitas pessoas podem se juntar para formar um núcleo dependendo dos interesses em jogo e do próprio ambiente inóspito em que vivem. O papel de cada um dentro desse núcleo pode até mudar de acordo com os sentimentos das pessoas, mas a família é forte e estável. - Suspirou. - Sarah não se tornou uma esposa, na concepção que os humanos têm desse papel num casal, mas um membro daquela família nova. Se ela ficasse em Ablag III aí sim seus papéis se definiram claramente. Ela já é casada com um vulcano, ou você esqueceu porque estamos aqui? Além do mais, o que você pensa que eu sou para ela, hein?

Ele ficou encabulado. Na verdade, não sabia. - Vocês têm algo chamado... kevol-tyr, não é isso?

Hans sorriu. Olhou em volta do alojamento do israelense, austero, mas agradável. Sarah vinha meditando nos últimos dois dias e a folga forçada do médico o estava deixando ansioso. Haviam terminado com sucesso aquela missão, mas em Vulcan haveria muito mais ação. Gostava do israelense e não sabia por que tinha necessidade de aplacar as dúvidas dele. Não sabia? Bem, seu instinto lhe dizia que Joshua tinha bons sentimentos por Sarah, independente do número de sopapos que costumavam trocar.

- Temos, não: somos. A palavra é intraduzível mesmo para a língua vulcana atual. Tem origem no que os lingüistas vulcanos chamam de “sussurrar arcaico” - e sorriu. - Não é fácil explicar para um humano, Joshua...!

- Vocês são almas gêmeas - Benrubi comparou. - Você a ama?

Duff se emocionou com a tentativa de compreender do outro. - Não há ninguém neste universo por quem eu morreria... Nossa troca, nossa interação, são muito diferentes das sensações de paixão e sexo, Joshua: somos como um só, diferentes e iguais, o mesmo corpo em corpos separados, capazes de sentirem juntos e se ignorarem - suspirou. - É difícil explicar...

- Eu quero entender, Hans.

O homem mais velho balançou a cabeça. - É como se ela fosse minha mãe e minha filha ao mesmo tempo, Joshua. Como vou pôr em palavras algo que não se entende raciocinando, apenas se sente? Como vou explicar a sensação de ter veias ou guelras se você não tiver tido uma nunca?

- É como se ela fosse você e ao mesmo tempo não fosse...

Duff deu uma risada. - É, parece que conseguiu pegar alguma coisa.

- Desculpe-me se fui intrometido. Faz tempo que eu queria... entender vocês.

O alemão sorriu e se levantou. - Tenho quase cinqüenta anos, Joshua, e considero que um homem na minha idade já tem rugas suficientes para compreender certas coisas.

- Você não tem rugas, Duff.

- Você entendeu muito bem o que eu quis dizer, seu fingido.

Joshua sorriu. - Sim, claro que sim, dr.

Três horas mais tarde...

Sarah e Duff haviam descido assim que geosincronizaram e agora ele aguardava o desenrolar dos acontecimentos na casa dos Sernick enquanto Sarah se encontrava com Sdeck, que não estava nada bem.

Dizer que estava preocupado chegava a ser abstrato. As barreiras que Sarah impusera entre eles haviam caído quando iniciara um elo mais profundo com Sdeck, mas algo mais forte nela as reerguera rapidamente com o intuito de poupá-lo. Poupá-lo... Como? Se tudo o que sentia naquele momento era uma angústia incontrolável pelo destino de ambos?

Desde o dia em que ele e Sarah haviam se tocado acidentalmente e a fusão mental total se estabelecera entre eles com aquele simples toque - a prova irrefutável do kevol-tyr neles - que sabia que não haveria um destino sem ela.

E depois do fogo do Pon Farr ser consumido, o que restará dentro da Lógica a fazer? “. Seus olhos muito azuis se fixaram na estrela que sumia: o kunatikalifi, onde Sdeck se uniria definitivamente a ela ou morreria para libertá-la? Não, era primitivo demais para ela. Ou talvez... as famílias simplesmente se reunissem e decidissem deixá-la ir, como antes...

Talvez. Mas os vulcanos das castas nobres tinham um código de comportamento complicado demais para a visão simples das coisas que Duff possuía. Aquelas duas famílias tinham tantos interesses em comum e tão complicados, que Hans sabia que tudo dependeria de boa vontade.

Mas boa vontade era algo lógico?

Uma hora mais tarde...

Um pequeno grupo, composto por T`Ran, líder dos anciãos, os pais de Sdeck e este, estava reunido em uma sala austera e sombria para decidirem o destino daquela união.

Sarah entrou ao lado da mais poderosa matriarca de Vulcan, cujo poder nem mesmo os anciãos ousavam desafiar. Se T`Pau havia sido respeitada nos corredores iluminados da Federação, Yonah era temida nos bastidores de vários mundos, federados ou não.

- Assumi um compromisso com Sdeck que não se compatibiliza com os demais compromissos que assumi. Desejo desfazer a união mental.

- Você se nega a formar uma família vulcana por causa da Frota Estelar, T`Sarahk?

- Cumprir meus compromissos com a Frota não está fora dos interesses de minha família, T`Ran - Sarah respondeu.

- Você assumiu um compromisso com Sdeck antes da Frota, T`Sarahk. Não pode, simplesmente, deixar Sdeck nessa posição desfavorável mesmo que o tenha convencido.

- E não deixarei, T`Ran. compensarei o acordo de união e os anos de noivado, como é devido.

- Então você considera os anos de espera dele como de compensação mensurável?

Sarah piscou, sentindo um calor terrível se apossar de seus sentidos. T`Ran a estava desafiando? Será que estava tão velha que esquecera de todas as coisas que haviam se passado antes? Ou estava testando seu controle?

Sarah se levantou. - Você me quer aqui, T`Ran? - a voz baixa e ameaçadora reverberou pela sala de pedra .

A mãe de Sdeck também se levantou. - As famílias decidirão o que é melhor, T`Ran.

- Que assim seja, então - a anciã disse cavernosamente, olhando Sarah de modo indescritível.

****

Sarah espumava de raiva e parecia haver uma onda de luz vermelha a sua frente. Tudo por menos de um segundo e então foi como se várias portas se batessem a sua volta, isolando-a do mundo:

A roda... “, as palavras lampejaram em sua mente. Respirou fundo e foi como se não houvesse raiva antes.

O ódio que sentia daquela prisão mental, pior que qualquer prisão física, era a pior de todas as sensações que já experimentara na vida.

Não os enfrentaria como antes, no entanto, pois a simples idéia de machucá-los de novo a horrorizava mais que tudo.

Ficou horas sentada no parapeito da janela de seu quarto vendo mentalmente a imagem de um felino andar de um lado para o outro do aposento.

****

O animal parou, deitou-se e dormiu e a imagem sumiu de seus pensamentos.

Já era a hora de saber o que fôra decidido.

****

- Eu terminei minha missão.

- Arriscou-se além do tempo hábil.

- Foi impossível usar menos tempo.

O vestido leve farfalhou com suavidade no chão de pedras enquanto se aproximava de Sarah.

- Por isso você merece ser recompensada.

- Não quero ficar aqui. A prisão mental desencadeará reações... desagradáveis.

Yonah sorriu. Sarah continuava massageando fortemente a área das sobrancelhas, um gesto que reconhecia bem: a jovem híbrida sentia dores insuportáveis, que fariam muitos outros vulcanos bem treinados uivarem de dor ou recorrerem, em último caso, a controladores como...

- ... eu.

- Não leia meus pensamentos.

Era uma ordem clara, mesmo que maquiada com um tom controlado, quase - QUASE - cordial.

Sarah tirou a mão do rosto e a fitou por um brevíssimo momento, depois se ergueu e foi até a janela. Com aquele olhar Yonah soube que ela não estava conseguindo discernir palavras e pensamentos: o medo dos vulcanos era muito grande, porque com aqueles sintomas era evidente que muitos controladores estavam ocupados em “monitorar” Sarah. Sorriu: e, apesar disso, mesmo juntos, eles nunca conseguiriam penetrar na mente de sua menina número um.

- Vá, Primeira Filha. Tudo o que tinha que fazer por Sdeck foi feito. Sdeck está pronto para desfazer a união mental.

Sarah baixou a cabeça momentaneamente, massageando os olhos. Nunca viveria em Vulcan de novo, e não sabia se afirmava ou indagava isso, e se isso a magoava ou aliviava.

- Também estou pronta.

- Chame Duff - e Yonah saiu majestosamente por uma porta lateral.

FIM

****

Por: Sílvia Costa.
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