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INFORMAÇÕES    
Autor: Marcos Chiara.
Título: Frente de Batalha I
Publicação: 12/02/2005.
Categoria: Jornada nas Estrelas.
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FRENTE DE BATALHA A TRILOGIA - Mudando as Regras.
As aventuras da USS Albedo na linha de frente do Quadrante Gamma
Por: Marcos Chiara.

Imagem da Internet.
Novela dividida em vinte e dois capítulos. Aguarde a página carregar.

Esta é a primeira missão da USS Albedo. Uma nave desenhada para o ataque e a defesa. Nada mais é do que a nova arma da Federação Unida de Planetas contra a ameaça que surge das entranhas do Quadrante Gamma. O Dominion. Antes que a Guerra Dominion seja definitivamente desencadeada a Frota Estelar e o seu braço secreto a Seção 31 tomam medidas extremas. Convocam uma tripulação aparentemente "descartável" para entrar no campo do inimigo e cumprir uma missão de vida ou morte. Dorian Alkon o Capitão betazóide, que perdeu vários tripulantes na sua última missão, - O Vento que Bate na Janela - terá que se submeter ao Comando Central da Seção 31 e atender suas ordens. Ele sabe que estará novamente colocando todos em risco. Mas este é um preço pequeno a pagar para garantir o atraso da iminente guerra ou em último caso, conseguir informações suficientes sobre as fraquezas do inimigo. Tais fraquezas são raras, pois o Dominion é o inimigo mais astuto que a Federação já teve. Todas as criaturas "sólidas", que habitam o Quadrante Alpha e Beta estão prestes a conhecer as artimanhas dos Fundadores, casta de líderes do Dominion.

Além dos membros da tripulação, Alkon ainda deverá lidar com um experiente rebelde e Maqui bajoriano chamado Siro Lian. Apesar da inconveniente presença do rebelde, ele será de suma importância para guiar nossos amigos entre os caminhos obscuros do inimigo.

Ação, suspense, gotas de adrenalina e romance, ultrapassando os limites da Federação. Acompanhe mais esta aventura cheia de revelações dentro da USS Albedo.

****

ANO 2371...

A Federação Unida de Planetas, desde que tomara o conhecimento da presença do Dominion no quadrante Gamma e de suas intenções beligerantes, havia se mobilizado, ainda que secretamente, para enfrentar a ameaça. Coube a Frota Estelar preparar planos de defesa antes que qualquer membro ou setor da Federação fosse atacado.

O Dominion, por sua vez, havia implantado um sem número de espiões pela galáxia para observar os movimentos e as fraquezas de seus futuros inimigos. Esses espiões eram os changelings, verdadeiras sondas orgânicas, que se misturam nas civilizações em que se encontram, assumindo a forma orgânica senciente superior do local, podendo assim espionar sem ser notado. Estes transmorfos podem assumir também qualquer forma, desde um animal ou objeto.

Na estação espacial nove, o chefe de segurança Odo foi o changeling enviado para espionar Bajor. Mas ninguém, nem ele mesmo sabia disso à época. Quando Odo foi encontrado pelo cientista bajoriano Dr. Mora Pol, em 2358 no cinturão Denorios próximo a Bajor, ele era apenas uma massa gelatinosa disforme sem memória de sua origem. Foi criado em um Instituto de pesquisa e assumiu a forma sólida de um bajoriano. Por ele ter a sua origem no quadrante Gamma ele foi motivo de suspeição pelo alto comando da Frota estelar, tanto que um oficial foi enviado para ocupar o seu posto de chefe de segurança da estação *1a. Fato que teve a oposição do comandante Benjamin Sisko; que desafiou as ordens do vice-almirante Toddman, mantendo Odo em seu cargo e fazendo do oficial da Frota, o tenente Michael Eddington, seu auxiliar. Mais tarde, quando souberam que ele, na verdade era do povo dos fundadores, os chefes do Dominion, sua lealdade aos interesses da Frota Estelar, foi posta em cheque.

As ações dos Jem´Hadar no quadrante Gamma colocaram não só a Frota Estelar em alerta máximo como também chamou à atenção do alto conselho Klingon; do Tal Shiar, o serviço secreto romulano; e da Ordem Obsidiana, a polícia secreta cardassiana que outrora fora sua elite militar. Estas últimas estão, segundo o serviço de inteligência da Frota, mantendo uma incessante troca de informações.

Com tudo isto acontecendo a Frota Estelar acionou a sua vasta rede de espionagem, dentre os inúmeros grupos, a secretíssima seção 31; cujo chefe e seus integrantes não são conhecidos nem pelo comandante em chefe da Frota.

Na Terra, diversas reuniões, de caráter confidencial, têm sido realizadas pelo almirantado para avaliar os futuros movimentos da Frota no setor bajoriano e proximidades, tais ações teriam que garantir a segurança dos mundos aliados e os interesses político-econômicos locais. Um dos mais ardorosos defensores de uma postura mais agressiva contra o Dominion tem sido a do almirante Leyton, chefe de operações da Frota, contudo mesmo tendo convencido o comandante-em-chefe a armar melhor a Frota, através da construções de novas naves, tem recebido severa oposição do presidente da Federação, Jaresh-Inyo, que gostaria que não houvesse um conflito entre o Dominion e a Federação e que tudo pudesse ser resolvido por vias diplomáticas. O problema era que o Dominion não queria conversa e já havia demonstrado que não estavam dispostos a nenhum tipo de diplomacia.

CORREDORES DA SEDE DA FEDERAÇÃO DOS PLANETAS UNIDOS – PARIS

O almirante Leyton saiu enfurecido da reunião sem esperar pelos seus colegas da Frota. Um deles, o almirante Mathew Dougherty, conseguiu alcançá-lo ao apressar os seus passos. Tocou no ombro de seu apressado colega para tentar fazê-lo parar.

- Ei, homem, aonde vai com essa pressa?

- Oh, é você, Matt. – disse quase cuspindo fogo.

- Você não devia ter saído da reunião tão intempestivamente. – aconselha o colega de patente.

- Aquele homem me tira do sério!- Leyton ainda estava irritado.

- Você está falando do presidente. Vamos para um lugar reservado. Não devemos ter esta conversa aqui no meio do corredor. – Os dois se dirigem até o escritório reservado do alto comando da Frota Estelar. Dougherty retoma a palavra enquanto pega uma garrafa uísque. A bebida poderia acalmar os ânimos - Não quer se indispor com a Federação, quer? – diz ao servir o copo ao amigo.

- Obrigado. Não posso ficar de mãos atadas enquanto tudo o que construímos por mais de trezentos anos se esfacela diante dos meus olhos. Não sei como ele não enxerga isso.

- Ele é um político, não um homem de armas como nós.

- Não há espaço para a diplomacia com o Dominion. Já perdemos duas naves e centenas de pessoas. Quantas mais terão que morrer para eles enxergarem a verdade. Precisamos agir. Agir agora! – Leyton toma toda a sua dose de vez.

- Você deve ser cuidadoso com o que fala. Ainda mais com esse clima de suspeição que paira sobre todos com essa coisa dos...Como é mesmo o nome?

- Os Changeling! Os metamorfos espiões do Dominion. A inteligência garante que eles estão infiltrados em vários governos do quadrante Alfa. O recente seqüestro do pessoal da DS9 mostrou que eles estão muito bem informados *2a. Isto me assusta.

- A mim também.

- Colocamos até um pessoal nosso para vigiar o transmorfo da estação nove. Ele sempre me pareceu suspeito.

- Já deixamos naves de prontidão e as bases espaciais próximas da fenda em alerta. Ainda bem que o comandante Sisko está conduzindo bem a situação por lá. Pelo que me lembro foi você que o indicou para este posto, não foi?

- Exatamente. Ele foi meu primeiro oficial da USS Okinawa. Ele é um homem de fibra. Tem lidado com os religiosos bajorianos e os não tão confiáveis cardassianos como poucos. Demos a ele a Defiant, um projeto com a colaboração do império romulano, para defender o perímetro e sondar o quadrante Gamma, mas temo que nem ela nem as habilidades dele e de sua equipe sejam suficientes para enfrentar o Dominion. Eles possuem tecnologias com as quais nem sonhamos e ainda um exército suicida como os Jem'Hadar. As coisas poderão ficar fora do controle. Principalmente se os Cardassianos se voltarem para o lado mais forte. Precisamos penetrar nas linhas inimigas. Aprender mais sobre eles e minar as suas forças antes que eles venham com tudo para cima de nós. Não quero repetir um novo Wolf 359.

- Mas as ordens do presidente são para não tomar nenhuma atitude que possa ser interpretada como agressora pelo Dominion. O que você pretende fazer?

Leyton se serviu de outra dose de uísque e deixou sem resposta seu velho amigo, apenas esboçou um sorriso enigmático. Seu colega mal sabia que seu plano já estava em andamento e tudo graças a um infeliz acidente ocorrido há algum tempo.

Alguns meses antes - Ano 2370
Divisão de engenharia da Frota Estelar
São Francisco – Terra
Hora padrão: 6:15 a.m

O almirante William Petersen entra em seu escritório. Na porta se lê: Classe Nova – Gerência de projeto. Uma ordenança já o esperava e entrega-o um padd *3a com a pauta do dia. Em seguida, após o almirante sentar-se e ligar seu monitor para ler alguns relatórios. Uma cheirosa xícara de chocolate quente lhe é servida.

- Ah, obrigado, tenente. – Petersen agradece a jovem loura de cabelos curtos. Ela sorri e diz cordialmente.

- De nada, almirante. Soube do capitão Keogh, eu sinto muito.

- É...Foi uma perda para todos nós.

O capitão Keogh comandava a USS Odissey, uma nave classe Galaxy, e ele e toda a sua tripulação pereceram em um ataque suicida de uma nave Jem’Hadar no quadrante Gamma. O almirante e o capitão eram amigos de longa data. Agora só restavam lembranças da boa amizade partilhada. Era o que a foto de seu esquadrão da academia dizia-lhe.

A tenente, percebendo que o almirante gostaria de ficar sozinho, retira-se do escritório e retorna para a sala contígua para continuar seus afazeres.

O almirante Petersen não era um homem difícil de se lidar, mas ultimamente não estava com muito bom humor. Além da perda de seu querido amigo, o projeto o qual gerenciava, o da classe Nova, de naves científicas, havia sido paralisado em detrimento de construções de naves de combate por causa da ameaça do Dominion. É claro que o centro de operações não confirmava o motivo, mas todos sabiam que, depois de muito tempo, a Federação estava encarando uma ameaça real e tão perigosa quanto os Borgs.

Um bip vindo de seu monitor foi ouvido. Ele apertou uma tecla com medo de ouvir algo desagradável. Seu instinto não falhava nunca.

- Almirante Petersen aqui...

Era o engenheiro-chefe do projeto ligando da base Utopia.

“ Oi, Will.”

- Senhor Oulton, a que devo o prazer tão cedo assim ?

“Desculpe, nem prestei atenção no fuso horário. Já soube das últimas?”

- Últimas ? Se refere a Odissey?

“ Não, não é isso. Então você ainda não sabe...Droga! Não queria ser aquele que teria que te dar as más novas.”

- Do que você está falando? Fale logo!

“ A USS Equinox foi dada como desaparecida no quadrante Delta. Sabe o que isso significa ?” – ela era uma das naves construídas por eles. Se a Frota concluísse que aquela classe não era segura em campo, apesar de terem demonstrado o contrário nos testes, adeus projeto Nova.

- A Equinox? Desaparecida? Não é possível! Como soube disso? Quando isso aconteceu?

“Soube de fontes seguras, pode confiar. Creio que foi há alguns dias. Estão dizendo que pode ter sido sabotagem do Dominion. Bom, ultimamente tudo é culpa deles, mas podem concluir que houve alguma falha no nosso projeto. Eu não sei o que pensar...O que faremos?”

- Fazer? Não há nada a fazer. Se precisavam de um motivo para cancelar de vez o projeto Nova, este acabou de acontecer. É o fim. Vão desmantelar a sua equipe e remaneja-la para outros projetos. Quanto a mim talvez antecipem a minha aposentadoria ou me darão uma licença prêmio em Risa. Oh, meu Deus! Por que isto tinha que acontecer agora? Só construímos três naves e uma ainda está no estaleiro; de onde, acredito, jamais sairá. Alguém mais sabe disso ?

“Não, ainda não. Mas vai ser difícil esconder isto por aqui por muito tempo. Sabe como é...As más noticias voam”

- Muito bem. Não comente isso com mais ninguém. Vou ligar para Operações e pedir uma posição. Volto a falar com você depois. Petersen desliga. – o almirante enxuga a sua testa calva tentando se recompor da desgraça que se abateu sobre ele. Perder dois amigos em tão pouco tempo. Primeiro Keogh, agora Ransom. Tomou a sua xícara de chocolate e olhou para a janela do escritório que dava para uma linda visão da baía de São Francisco esperando encontrar uma saída para os seus problemas. Quando sua secretária o chama pelo intercom.

Ano 2371 – De volta aos dias atuais...

Petersen estava absorto em pensamentos. Relembrando que em breve sairia de férias e que na volta, talvez, o aposentassem. Olhou mais uma vez a foto de seus velhos camaradas e só então despertou de suas lembranças com a insistência da sua secretária através do intercom.

“Almirante ? O senhor está me ouvindo?”

Ele apertou um botão em sua mesa e respondeu:

- Sim, tenente Füller ?

“Almirante é um comunicado urgente. É do almirante Leyton.”

- Leyton? – às vezes as preces demoravam para serem atendidas. Mas também poderia significar o arauto do juízo final. Achou que depois de três meses sem ter quase nada por fazer finalmente poderiam dar o golpe de misericórdia oficializando o cancelamento do seu projeto. – Pode passar. – disse quase num suspiro. Na tela apareceu o rosto sério do chefe de operações da Frota estelar.

“Bom dia, Will. Gostaria que viesse ao meu escritório. Creio que tenho boas novas para você e sua divisão.”

Boas notícias? Apesar de tudo havia alguma luz nas trevas. Não argumentou. Apenas respondeu secamente.

- Estarei aí em cinco minutos. – desligou o monitor. Recolheu alguns pads com as últimas informações sobre as novas modificações no projeto. Não queria ser pego de surpresa. Rumou para o escritório de seu superior para decidir o futuro de sua carreira e de muitos outros engenheiros ligados ao projeto.

- Tenente, grave todas as ligações e cancele a minha agenda do dia.

- Bom, senhor, quanto à agenda, não se preocupe, ela anda com muito espaço em branco ultimamente. – responde Füller sorrindo.

Petersen sorri de volta e caminha para a porta. Antes de sair a sua secretária deseja-lhe boa sorte.

- Não se preocupe. Em último caso você terá ótimas recomendações minhas.

- Obrigada, senhor.

Saiu do seu escritório na certeza de quem caminhava para um destino incerto, mas no tear do destino já estava tecido o seu futuro, então encararia o que estava reservado para ele com nobreza e procuraria não demonstrar o quanto estava desesperado frente ao seu superior.

****

Capítulo I

Alguns meses depois...
Sistema Hatarian
USS Albedo – NCC 72382

Diário de bordo, data estelar 48384.6. Estamos finalizando o levantamento topográfico e astrométrico de um planetóide classe L para evidenciar potencial para mineração. Infelizmente as conclusões não são muito satisfatórias. Os minérios encontrados não possuem grandes atrativos comerciais ou estratégicos. Anexando ao diário os relatórios dos departamentos científicos. Fim do registro.

O capitão Dorian Alkon estava satisfeito por mais uma missão concluída com êxito, contudo após oito meses no espaço, tais missões de mapeamento eram enfadonhas demais.

Entretanto ainda tinham mais dois anos e quatro meses de missão pela frente. Três anos de missão no espaço, com três licenças de quinze dias a cada ano para toda a tripulação, era o que normalmente a Frota recomendava, uma vez que as antigas missões de cinco anos estavam causando estresse ou uma rotatividade demais na tripulação, o que estava comprometendo a eficiência das equipes. Mesmo com os programas de exercícios, culturais e os holodecks a disposição. Ter que se adaptar a novos colegas ou novas regras demorava um pouco e, no espaço profundo, conhecer bem o pessoal em que você depositará a sua vida, é essencial. Bom...Faltava apenas quatro meses para a licença. Se a tripulação estava agüentando até agora, ele teria que agüentar também; até mesmo porque, sendo o capitão, deveria dar o exemplo. Mas seus amigos mais chegados sabiam que ele não tem estado confortável na cadeira de comando. O verdadeiro motivo eram os tipos de missões que recebiam. A primeira missão da Albedo tinha sido verificar uma anomalia espacial no sistema Devron mas, quando chegaram, a anomalia não mais existia. A única coisa excitante foi de estarem perto demais da zona neutra romulana. Passaram alguns dias navegando a esmo e monitorando transmissões romulanas, mas com a atual política de alinhamento do Império Romulano, não havia nada interessante a reportar. Partiram para Ardana Prime, atendendo a um pedido de socorro, e ajudaram a população local durante uma tempestade eletromagnética. Foi um bom teste para a nova tripulação. Depois receberam a missão de monitorar um buraco negro perto do sistema Talariano; analisar tempestades nas Badlands, para verificar a possibilidade da criação de uma rota segura para navegação, algo que se concluiu não ser possível devido a imprevisibilidade do surgimento dos turbilhões eletromagnéticos; e por fim foram instalar retransmissores sub-espaciais na zona desmilitarizada entre Cardassia e o sistema Bajoriano, destruídos por maquis. Todas essas missões foram cumpridas a contento e a Frota Estelar parecia estar satisfeita com o desempenho da tripulação.

O desempenho da nave também estava sendo excelente, apesar de pequena em relação a USS Babel, era dura na queda. Grande parte deste mérito devia-se ao trabalho da engenheira-chefe tenente Naomi Silva e sua equipe.

O moral da tripulação tem sido mantido em níveis elevados e o mérito era da Dra. T´Vel que, acumulando as funções de conselheira da nave, sugeriu o comissionamento de um barman. Normalmente ele ouvia melhor os problemas da tripulação, sem as inibições de uma consulta programada. Em uma nave da classe Nova não havia esta função. No manifesto da tripulação constavam apenas um chef e três ajudantes de cozinha. Todavia, ao salvarem um luriano de uma confusão em um cargueiro, uma missão não oficial, cujos alguns detalhes foram omitidos do diário de bordo. Seu nome era Dorn, era muito falador, o que era atípico para sua raça, mas também sabia manter-se calado e, quando necessário, ser um bom ouvinte. Ele tem sido uma boa aquisição e uma mudança na rotina da nave. Dorn e a Dra. T´Vel têm se demonstrado uma boa dupla. Juntos eles até discutem abordagens terapêuticas fazendo com que todos, na medida do possível, se sintam bem.

Duas outras novas importantes aquisições para a nave nesses últimos meses foram o navegador sauriano Sleek Kiisiri Kelanii, Ele é o timoneiro no primeiro turno e depois é substituído pela Tenente Allison, quando da troca de turno. Sua pele púrpura e sua aparência reptóide é algo difícil de não se notar quando ele está na ponte. A nave tem funcionado bem em um regime de três turnos. O primeiro começa as oito e vai até às dezesseis horas, o segundo de dezesseis as vinte e quatro horas e o último de vinte e quatro até as oito do dia seguinte. Na Babel os turnos eram quatro de apenas seis horas, mas ela era uma nave maior e possuía mais gente para revezar. Em uma nave pequena era necessário fazer sacrifícios. Se o cansaço tomasse conta, era só requisitar os serviços do ordenança de plantão para trazer um lanche ou simplesmente um café.

A outra aquisição é o novo oficial de operações e comunicações, o tenente-júnior Dylan Zagar. Ele era peculiar. Não só por ser elaysiano e ter que usar servo-motores para se locomover, mas por ser muito jovem e ser um prodígio em conhecimento de diferentes culturas e línguas. Recentemente McCormick, Naomi e a Dra. T´Vel se reuniram para melhorar o deslocamento do jovem pela nave e o dotaram de um teletransportador pessoal intra-nave, que o faz desaparecer e aparecer em qualquer lugar da nave que ele queira ou que seja requisitado. Isto, ás vezes, pega muita gente de surpresa. Contudo o advertiram que o uso contínuo de tal recurso poderia causar instabilidade molecular. E então, apesar de tudo, ele ainda mantém seus servo-motores. Ele era bem simpático e prestativo, não se deixando abater pelas limitações que a gravidade mais alta fazia ao seu corpo. Mas em sua cabine ele podia relaxar flutuando, como em seu planeta natal.

A ponte da USS Albedo era bem menor que a nave anterior, tendo apenas um lugar no console navegacional onde um tripulante assumia a função de piloto e navegador, o que Sleek, Allison, e mais um outro alferes o faziam em turnos alternados de oito horas. No console da estação de armas e do tático o klingon Klag continuava a atuar com mãos de ferro. Klag continuava na Frota através do programa de intercâmbio militar-científico com o governo klingon. Ele também era o chefe de segurança da nave e tinha como seu pupilo o alferes Gilbert, que sofria com suas severas exigências de eficiência. O jovem alferes tinha a ingrata missão de deixar a estação sempre pronta pela manhã para quando, à tarde, o klingon assumisse não se queixasse de nada.

O tenente McCormick, o oficial de ciências marciano, aparentava felicidade com tantas missões científicas e estava sempre ocupado com a análise de dados, indo de um departamento a outro para concluir os relatórios de pesquisa com a maior precisão possível.

O segundo turno, com a presença do capitão na ponte, era sempre tenso. Os oficiais mais jovens queriam sempre mostrar serviço. Além deles havia sempre um oficial de controle de danos atento às condições gerais de funcionamento da nave e sempre ponto a reportar se algum defeito aparecesse. Este oficial, no segundo turno, era a tenente-júnior, Kimberly Jones. Escolhida pela imediato para a função. Elas se conheceram na base 41 quando a número um escolhia a nova tripulação. Ela fazia parte da equipe de controle de vôo da estação e ficou bem feliz em poder servir em uma nave novamente.

Quem parecia não estar se sentindo bem em estar na menor classe de naves da Frota, excetuando a Defiant que fora comissionada na estação DS9, era a imediato de Alkon: a comandante Sarah Okaido.

Dorian Alkon sabia que ela era uma oficial para a ação. Seu sonho era estar na Enterprise, a nau capitânia da Frota, que era um imã para atrair problemas. Porém sua maior qualidade sempre fora a lealdade e, quando foram designados para a Albedo, ela não pulou fora do barco. O capitão também sabia, não só através de seus poderes empáticos, mas pelos olhares que, vez por outra trocavam, que o real motivo que a mantinha ao seu lado era outro e isto o constrangia. Não que ele não a achasse atraente, mas tinha medo que um relacionamento entre os oficiais mais graduados pudesse fazer à disciplina da tripulação. Talvez isto fosse apenas uma desculpa para sua insegurança no relacionamento com mulheres e seu medo de rejeição fosse maior do que a sua coragem.

Quando Sarah apareceu na ponte e sentou-se ao seu lado parecia que fora atraída por seus pensamentos. Alkon resolveu parar de pensar e começou uma conversa:

- Como estão as coisas?

- Bem. Acabo de vir do deck 7 e Naomi me disse que temos força de dobra quando o senhor quiser. Ela já terminou a análise do sistema no nível três.

- Ah... Eu quis dizer com você. Tenho notado que você tem estado tensa nestas últimas semanas.

- Não, estou bem.

- Sarah...- o capitão olha em volta e percebe que estavam ouvindo a sua conversa e resolve ser mais discreto – Venha até o meu escritório.

Os dois se levantam e são acompanhados pelos olhares da tripulação que torciam para que os dois se acertassem.

- Pronto. Aqui podemos falar a vontade.

- O senhor quer falar sobre o quê ?

- Por Tholta *1, Sarah! Eu não quero falar sobre nada. É você que precisa desabafar. Eu apenas pensei que quisesse falar a respeito...

- O senhor sentiu isso ?

- Sentir? Você está transpirando inquietação. E pare de me chamar de senhor!

- Desculpe, capitão. Espero que esta inquietação não tenha prejudicado o meu desempenho.

- Por que você está agindo assim?

- Agindo como ?

- Você está tão formal...

- Creio estar me portando da maneira correta, senhor.

- EU DESISTO! – Alkon se senta diante da resistência de sua primeira oficial. Sarah, contudo, fica em pé em posição de sentido. Percebendo que seria difícil romper aquele bloqueio Alkon ordena – Você pode ficar a vontade, imediato.

- Obrigado, senhor. – ela deixa a posição de sentido, mas evita olhá-lo nos olhos.

- Número um...Sarah...Eu...Por favor olhe para mim.

- Desculpe, senhor. Eu não ...

- Não consegue? Do que tem medo? De que eu leia seus pensamentos? Você sabe que não posso. Existem protocolos para isso. Mas acredite que, mesmo sem os meus dons telepáticos, percebo que algo mudou entre nós.

- O que haveria de mudar ? – Sarah era pura tensão. Jamais ficara assim na frente de ninguém. Apenas dele.

Alkon diz um velho provérbio betazóide: - “Aquele que fala uma coisa e pensa em outra, tem uma guerra dentro de si.

- O quê ? Eu não compreendo...

O capitão levantou-se, segurou Sarah pelos braços e a encarou. Pôde sentir sua respiração ofegante, seu colo pulsante, e seu corpo tremer. Chegou até mesmo a escutar seu batimento cardíaco acelerar.

Quando nada mais havia para ser dito, ambos fecharam os olhos e suas bocas se aproximaram, mas o bip do intercom soou e a voz do jovem oficial Zagar, quebrando o momento mágico.

Alkon a soltou e atendeu o chamado: - Sim...?

Mensagem urgente da Frota Estelar. Prioridade Um, senhor!

- Passe para cá. – Alkon vira o monitor de sua mesa para que ele e Sarah pudessem ver e ouvir a mensagem.

Enquanto a mensagem era retransmitida Sarah procurou sentar-se e recuperar o fôlego.

Olá, capitão. Sou o almirante Petersen. Tenho novidades para o senhor e sua tripulação. Parem com tudo o que estiverem fazendo e rumem para a Base Estelar 375 em dobra máxima. Esta é uma mensagem gravada, portanto não tente me perguntar nada. Quando chegar darei maiores explicações. Boa viagem.

Alkon e Sarah ficam surpresos com o que ouviram. Que missão era esta que os aguardaria?

- Parece que hoje é um dia para emoções inusitadas, não? – pergunta Alkon capiciosamente.

- Acho melhor informar o novo curso ao piloto. – diz Sarah evitando comentar o comentário de Alkon.

- Sarah...- o capitão chama-a antes de sair – Podemos terminar a nossa conversa durante um jantar?

- Como quiser, senhor. – Sarah sai apressadamente em direção à ponte.

Alkon pede um café no sintetizador e fica a olhar as estrelas, pela escotilha, e sorri.

****

Capítulo II

Sistema Meldrar - Colônia Penal Bajoriana em Meldrar I

Siro Lian estava dormindo quando foram incomodá-lo em sua cela. Há muito não via a luz do sol nem a das outras estrelas. Há muito não conversava com alguém sem que tivesse vontade de socar a cara delas.

Naquela manhã ele seria forçado a entrar em uma conversa que poderia resultar em sua liberdade.

- Siro! Levante! Você tem visita.

- Ora, Beral, não enche...Deixe-me dormir...

- Se eu fosse você atenderia ao homem. Ou você não quer sair deste buraco ?

- Quem...? – antes de terminar a frase um oficial da Frota Estelar adentrou a sua cela após Beral, o guarda daquele setor, desligar a grade de energia.

- Siro Lian ? A Frota Estelar tem uma proposta a fazer. É aceitar e possivelmente receber o perdão ou mofar nesta lua por mais dez anos.

Siro sentou-se. Tentou ajeitar o longo cabelo para trás e respondeu:

- Estou ouvindo.

O oficial da Frota passou a relatar a proposta de liberdade condicional. Foi a melhor coisa que ouvira nos dois últimos anos. Melhor até do que as piadas sobre cardassianos que Beral contava. Se havia uma chance de sair daquele lugar ele não a deixaria escapar. Fosse ela qual fosse.

USS Albedo – a caminho da base 375
Bar Panorâmico – Deck dois

A doutora T´Vel estava lendo seus relatórios médicos e tomando uma caneca de mocha vulcano, similar ao café terrestre, quando observa a imediato entrar no salão com uma aparência aflita. Sarah dirigi-se para o balcão e vai logo falando com Dorn.

- Por favor...Me dê algo que possa me fazer parar de tremer.

- Codrazina ? Ah, Ah,Ah! – Quando o luriano vê que a piada não surtiu efeito disse: - Estou brincando. Bom isso deu pra notar, não é?

- Dorn eu não estou no clima. Não me sinto bem hoje.

- Bom, neste caso, seria melhor falar com a doutora ali. – diz o barman apontando para T´Vel.

- Vocês estão levando muito a sério este intercâmbio. Você agora é conselheiro também?

- Todos os barmans o são, comandante. O que a aflige?

- Escuta! Eu não tô a fim de falar dos meus problemas com você. Apenas me dê algo forte para beber.

- Água de Altair ? – Dorn tentou brincar novamente.

Sarah estava prestes a pular o balcão e servir-se sozinha. A cara que ela fez assustou o luriano. T´Vel se aproximou e tocou o seu ombro.

- O quê ? – Sarah falou com rispidez.

- Calma! Você está mesmo tensa hoje. O que está havendo? – T´Vel faz um sinal para que Dorn se afastasse enquanto ela encaminhava a número um para sentar perto de si. Os tripulantes, que estavam olhando curiosos para a explosão emocional da comandante, fingiram olhar para outro lado quando ela os encarou de volta.

- Você deve se controlar. Estão todos olhando...- comenta a doutora.

- Estou me lixando para isso. Eu só queria... – Sarah põe a mão sobre o seu rosto como que querendo que toda a sua aflição desaparecesse.

- Queria uma desculpa para esquecer o seu verdadeiro problema.

- Exatamente. É difícil esconder algo de você ou DELE. – enfatizou não querendo revelar o nome da única pessoa capaz de mexer com as suas emoções.

- Ah...Então é isso...ELE! – falou T´Vel quase com desdém.

- Psiu! Fale baixo.

- Para quem há pouco estava se lixando pro mundo...

- Às vezes eu penso que suas orelhas são falsas, sabia?– Sarah estava se referindo ao sarcasmo de T´Vel, que era incomum a uma vulcana. – Não está no seu horário de ser conselheira? Você não devia estar atendendo alguém com problemas ou algo assim?

- Minha agenda acabou de ser preenchida. O que houve? – perguntou a doutora como se estivesse em uma sessão de aconselhamento.

Sarah suspirou. Sabia que não poderia fugir daquela conversa com T´Vel e resolveu se abrir. Ela precisava mesmo desabafar com alguém. - Fiz o que você havia me aconselhado quando da nossa última conversa.

- E isto o incomodou.

- Sim. Como você...?

- Esperava por isso. É um bom sinal.

- Bom sinal? Por quê?

- É um sinal que ele realmente sente algo verdadeiro por você.

- Sabe...Nós nos conhecemos desde o tempo da academia. Ele nunca... É claro que saímos algumas vezes, mas nunca... Mas hoje... – Sarah estava exaltada.

- O que aconteceu? – T´Vel parecia curiosa, mas era apenas um meio de incentivar sua amiga e paciente a se abrir.

- Nada. Ou melhor...Quase.

- Quase?

- Ele quase me beijou. – disse em voz baixa – Chamou-me em seu escritório para comentar sobre o meu comportamento arredio... Aí me pegou em seus braços...Oh, meu Deus... Eu quase desmaiei...Eu não devia me portar assim. Não sou mais nenhuma adolescente. Eu já tive outros relacionamentos, mas quando estou perto dele minha cabeça fica zonza.

- Isto é muito bom! Estamos fazendo progressos! Por que não se beijaram?

- Fomos interrompidos por uma mensagem que chegou da Frota.

- Que pena! – T´Vel se compadeceu do infortúnio da amiga.

- Pena? Eu pensei que o objetivo era me fazer esquecê-lo. Você havia me dito que eu deveria me afastar de um sentimento que me fazia mal.

- Isto é correto. O sentimento de rejeição. Mas ele não existe mais, não é? Ademais existe um velho ditado na medicina que diz: “A cura de uma doença vem do próprio veneno que a causa”.

- Eu não fui mordida por ele.

- Não literalmente. Ainda.

- T´Vel! – Sarah fica ruborizada com a falta de pudor da vulcana.

- Desculpe. Estava tentando amenizar a tensão. Brincadeiras deste tipo os humanos fazem o tempo todo, não é mesmo? Acho que desenvolvi um pouco de humor. Você sabe, são muito anos de convivência com vocês.– T´Vel estava justificando seu comportamento pouco ortodoxo quando Sarah a interrompeu.

- Ah, T´Vel... O que eu faço agora? Ele me convidou para jantar hoje.

- Então jante com ele. Neste assunto devemos apenas seguir o curso dos eventos.

- Você é muito prática.

- É a lógica. Sou vulcana, lembra-se?

- Quando a conhecemos bem a gente quase esquece disso. – brinca Sarah demonstrando estar mais relaxada – Me sinto tão confusa...

- Sarah... O que você sente por ele realmente?

- Não sei se é amor. Eu sempre o admirei. Ele era jovem prodígio quando o conheci. Ele era brilhante. Ele estava um ano adiantado e eu estava estudando na biblioteca quando ele se ofereceu para me ajudar com os estudos de cinemática vetorial em gravidade zero. Depois disso nos tornamos muito companheiros. Quando me formei ele já era alferes, mas fazia serviços burocráticos. Ele foi a minha formatura, nos despedimos e nunca mais nos vimos. Há dois anos eu estava com a minha transferência quase certa para ser a Oficial tático da USS Cairo quando Dorian convidou-me para integrar sua equipe na USS Babel. Então todo aquele sentimento voltou. Não queria perder a chance de estar perto dele novamente.

- O capitão Jellico perdeu uma ótima oficial.

- Creio que ele ficou decepcionado. Sabe quanto tempo eu fiquei atrás deste posto? É a segunda melhor nave da Frota. Suas exigências são altíssimas. Meu currículo já havia sido aceito. Mas...São as coisas do coração e isto falou mais alto do que qualquer anseio que eu tinha pela minha carreira. Gostaria de não ser tão passional. Eu fui uma burra!

- Você é humana. É compreensível a sua conduta. Agora devemos avaliar esta sua dependência. Amor tem que ser algo que nos complementa e não algo que nos vicie. Que seja uma obsessão. Está claro que alguma coisa ficou mal resolvida entre vocês no passado.

- Você já amou alguém, T´Vel ?

- Sim, mas não tente se desviar do assunto me colocando no meio.

- Tá bom. Tá bom. O negócio é seguir ao sabor da maré, não é? Ok. Que assim seja.

- Coragem, Sarah. Pelo menos é ele que agora quer tocar no assunto. Você é que está na posição de controlar a situação. E jamais se arrependa de tentar ser feliz.

- Obrigada, T´Vel. – Sarah segurou as mãos da doutora em um gesto de agradecimento – Eu sabia que nós íamos ser boas amigas.

- Está vendo? Você sabe avaliar as pessoas tão bem quanto eu. No início eu não ia com a sua cara. Não é assim que vocês dizem?

- Ora, você não ia com a cara de ninguém.

- Isto é incorreto. Eu apenas não queria dividir a minha privacidade. Contudo, depois de tudo que passamos juntas, eu aprendi a confiar um pouco mais nas pessoas. Hoje você, o capitão e Dorn são os meus melhores amigos.

- Oh...Dorn! – disse Sarah como se lembrasse de algo – Eu o tratei tão mal, não foi ? Me dê licença. Eu devo me desculpar com ele.

- Fique a vontade. Depois nos falamos.

Sarah levanta-se e retorna até o balcão do bar onde o luriano estava se despedindo de um tripulante.

- ... E lembre-se... É só colocar uma gotinha de limão. Tchau! Sim, comandante ? Em que posso servi-la?

- Pode começar me desculpando pelo meu rompante ainda há pouco.

- Oh, não é preciso! A doutora T´Vel falou que as mulheres humanas passam por isso vez ou outra. – o luriano estava confundindo o comportamento da comandante com outra coisa, mas Sarah resolveu não se explicar mais e deixar que ele pensasse o que quisesse.

- Para esquecer o incidente que tal um milk shake de chocolate ktariano? Creio que aumentará o seu nível de serotonina e a deixará bem tranqüila.

- Você conhece fisiologia humana?

- A Dra. T´Vel tem me ajudado nisso. “Nós somos o que comemos”. Já ouviu isto? É muito interessante o efeito da comida em nossas vidas. Estou estudando para ser o melhor nutricionista da Frota. Veja...Eu deixava no balcão ervilhas gramelianas como tira gosto. Algo que aprendi quando trabalhava em bares não muito...como direi...bem freqüentados. Bom... Estas ervilhas ressecam glândulas salivares e fazem os clientes beberem mais, e, naturalmente, o bar fatura mais. Mas aqui não há esta necessidade. Então o capitão me fez ver que sementes de abóbora, amendoins ou feijões locar seriam mais adequados. Uma vez, em Rigel II eu...

Sarah ficou escutando o luriano por mais alguns minutos. Se queria esquecer de seus problemas, as histórias de Dorn certamente a ajudaria.

T`Vel ficou olhando os dois à distância. Ficou satisfeita de ter salvo a vida de Dorn e convencido o capitão a incorporá-lo na tripulação.

Há três meses a nave onde Dorn trabalhava estava perdida nas Badlands. Quando a doutora foi cuidar dos feridos, Dorn pediu asilo na nave. Ele havia se desentendido com o capitão anaxariano que o jurara de morte. Os lurianos eram contratados pela sua força e resistência para trabalharem em cargueiros. Dorn sempre desejara ter um restaurante e exercitar o seu maior pecado: a gula. Em seu planeta natal, super povoado, o alimento era racionado e as regras de convívio social eram muito rígidas. Seu povo era infeliz e pouco criativo. Viviam apenas por viver. Ele pensava em obter um pouco de liberdade ao fugir, quando garoto, no primeiro cargueiro em que pode se esconder. Mas, neste último, pela primeira vez, depois de muitos anos no espaço vendo de tudo um pouco, passou a questionar as atitudes do capitão quanto ao tipo de carga que estavam transportando. Fato que não agradou muito, mais ainda quando Dorn jogou fora no espaço a carga que transportavam, durante uma tempestade nas Badlands. Eram armamentos para os maquis. A chegada da Albedo foi providencial. Os anaxarianos não puderam reclamar da carga sob pena da Frota Estelar os prenderem. Foi aí que a ameaça de morte ocorreu. Alkon não pôde provar que os anaxarianos eram contrabandistas de armas e os liberou para partir após dar assistência nos consertos do cargueiro. O capitão anaxariano jurou vingança.

Mais tarde, Alkon confrontou Dorn e este confessou o real motivo de seu asilo. O capitão, por causa do gesto a favor da paz cometido pelo luriano, resolveu não entregá-lo às autoridades e dar-lhe uma segunda chance para mudar a sua vida. É claro que a interferência de T´Vel contou pois ela havia tido simpatia por ele. Como ela mesmo costumava dizer: “Compaixão era a única emoção a que ela se permitia.

Dorn havia progredido muito nestes últimos meses e a doutora estava orgulhosa, outra emoção que ela possuía mas não admitia, por ter encaminhado uma alma perdida para o mundo do bem. Esperava agora poder ajudar Sarah e Alkon a resolverem seus problemas amorosos e, quem sabe, testemunhar uma união feliz.

****

Capítulo III

A tenente Allison Saint-John estava saindo da sala da cartografia estelar quando encontra seu querido amigo, e Oficial de Ciências, Douglas McCormick.

- Você não devia estar descansando? – pergunta ao vê-lo andando apressadamente pelo corredor.

- Oi, Ally. Estou indo ver o andamento da construção de uma sonda detectora de radiação Theta. E quanto a você? Não devia estar na cama também?

- Estava me atualizando na cartografia. Não gosto de deixar tudo pra o computador fazer. Gosto de saber para onde estou indo. Apesar de eu não ter memória fotográfica como você.

- Às vezes eu mesmo gostaria de não tê-la. Tem certas coisas que eu gostaria de esquecer...

- Oh, tadinho...Quando é que vai largar do pé do pessoal do laboratório astrométrico?

- Acho que resolvo tudo em vinte minutos, por quê?

- Sei que já é tarde, mas vão passar um filme legal no holodeck um em 4-D. Foi programado pelo pessoal de recursos humanos, ou seja, dra. T´Vel, para aliviar o stress.

É daqui a quinze minutos. Quer assistir comigo?

McCormick esperava um convite como este desde que Allison era apenas uma voz em seu fone de ouvido quando ele era controlador de vôo por simulação na academia e ela uma jovem cadete com uma arrojada técnica de pilotagem. Pego um pouco de surpresa ele só conseguiu falar:

- Você leva a pipoca?

- Pode contar com isso! Espero você lá então. – Allison beija o amigo no rosto e segue para sua cabine para tomar um banho e trocar de roupa.

McCormick acompanha a colega se afastar e fala consigo mesmo, baixinho:

- “Você leva a pipoca?” Estúpido! – ele bate na própria testa desgostoso com sua atitude patética defronte ao seu amor platônico.

****

Três decks acima o klingon Klag entra em sua cabine após o término de seu turno e solicita ao computador da nave, uma música suave, para, após o seu banho, realizar o seu ritual de meditação.

Klag era um klingon fora dos padrões. Apesar de ter nascido em Q´NoS, planeta capital do império, conhecido pela Federação como Kronos e no passado como Klin, cresceu ouvindo a mãe se queixar das constantes batalhas em que seu pai se envolvia sob pretexto de disseminar a glória do império.

Enquanto seu pai guerreava, ele era condicionado pela mãe, que perdera um irmão e o pai em batalhas, a jamais seguir a trilha do guerreiro. Ela o ensinara arte e cultura, inclusive as alienígenas, para que ele jamais fosse xenófobo como o pai e possuísse uma mente aberta. Isto o fez sonhar em ser escritor, poeta ou músico.

Klag, porém sofreu as pressões sociais, como todo jovem em qualquer mundo, no qual a tradição sempre fala mais alto. Em seu ritual de ascensão prometeu ao pai se alistar, fato que desgostou sua mãe que nunca mais falou com ele.

Seu pai , Krias, era a segunda geração de capitães de naves estelares na família. Seu avô fora o grande Korax. Todavia, durante a guerra civil klingon de 2367, seu pai escolheu o lado errado e foi morto em batalha. Antes de morrer fez Klag prometer manter a casa de Korax e seguir o exemplo de Worf. Krias sabia da competência do filho de Mogh e o quanto se arriscara defendendo a eleição de Gowron para o alto conselho, a fim de recuperar o prestígio de sua casa. Percebeu, tarde demais, que estava errado em lutar ao lado das irmãs de Duras. Gostaria que seu filho fosse tão valoroso quanto Worf e que, se preciso fosse, entrasse até para o programa de intercâmbio com a Frota Estelar. Poderia ser um delírio de um moribundo, mas Klag não o contradisse. Com medo de sua alma ir para Gre´thor, o lugar dos desonrados, e em respeito à agonia de seu pai que durara dois dias até ser realizado o Hegh´bath tay, o ritual do suicídio.

Ao fim da guerra, Klag se apresentou ao recém-eleito Gowron para lhe prestar o juramento de lealdade, contudo ele e sua tripulação, a princípio, foram condenados à morte. Através da intervenção de Kurn, irmão de Worf, eles foram poupados. Kurn conseguiu convencer Gowron que precisariam de guerreiros valorosos para restaurar a paz no império e não poderiam matar ou banir a todos, sob a ameaça do império ficar muito fragilizado. Seria prudente, portanto, que aceitassem as juras de lealdade. Kurn fazia isso porque era amigo de Klag desde pequeno quando fora adotado por Lorgh que por sua vez era amigo de Krias. O laço entre eles era forte.

Sendo assim Klag foi mandado para servir em uma nave patrulha na fronteira com o império romulano e, após três anos, sua inscrição no programa de intercâmbio fora aceito. Foi uma maneira sutil de se afastar dos olhos de Gowron, que o achava uma ameaça; de seus companheiros que o responsabilizaram por não ter aceitado morrer com honra, e cumprir o desejo de seu pai.

Sair de Kronos, na verdade, foi um grande alívio. Estava cansado de seguir velhas tradições de honra. Ele nunca se sentira à vontade em seu próprio planeta e muito menos servindo em uma nave, mesmo ela sendo da Federação. A verdade é que jamais se sentira bem vestindo um uniforme, seja ele qual fosse. Sempre gostara de poder vestir roupas comuns. Fazer o que bem pensasse. Mas ele ainda estava preso a uma dívida de honra e estaria pelo resto de sua vida.

A princípio Klag achou que odiaria ter que conviver com humanos e outras raças. Lembrou-se de sua mãe e procurou manter a mente aberta. Mas seu desconforto era visível. Entretanto havia desenvolvido uma inesperada camaradagem com seus colegas da Federação que o fazia ficar dividido na sua lealdade ao império Klingon.

Durante o banho sentiu saudades de sua família: sua mãe Morel, de sua pequena irmã Belara e de seu grande amor Lurga. Talvez, na próxima licença, voltasse para casa para resolver os assuntos pendentes e não mais fugir deles.

Saiu do banho; enxugou-se; vestiu um roupão; acendeu uma pira no meio da sala, onde se encontrava um pouco de água e algumas rochas; sentou-se no chão e pôs-se a meditar. Tal prática fazia-o controlar a fúria do guerreiro em seu interior. Olhou para a parede de fronte a ele e viu a sua chonnaQ , sua lança do ritual de ascensão que ganhara de seu pai, ladeada por sua mek´leth, a espada que ganhara de seu instrutor na academia klingon ao se formar.

Os vapores das pedras magmáticas da região de No´Mat já estavam envolvendo-o e causando o transe característico do Maj´Qa onde esperava entrar em contato com o espírito de seu pai. Precisava saber se fizera a escolha certa ao seguir o caminho do guerreiro vestindo o uniforme da Frota Estelar.

Klag pôde escutar uma voz:

Jatlh!” Fale! *traduzido do klingonês.

- Vav ? Pai?

Estou orgulhoso de você filho...

- Pai eu não... Eu não quero decepcioná-lo...

Você precisa ser forte para a grande batalha que virá...

- Grande batalha ? Do que você está falando ? – neste momento Klag sente que tocam o seu ombro e quando se vira para ver quem era vê seu pai. Ambos estavam nas montanhas de Q´NoS caçando targs como fizeram tantas vezes no passado.

Um guerreiro não se arrepende da escolha que faz. Veja aquele targ. Ele sabe que não pode conosco, que vai morrer, mas mesmo assim nos enfrenta. É a sua natureza. Lutar até a morte. Morrer com honra!

- Eu...Eu estou confuso. O que o senhor quer dizer com isso? – Klag ainda estava espantado com a paisagem ao seu redor.

Filho...- Krias segura os ombros de Klag e o encara – Você saberá o que fazer quando o momento chegar.” – dizendo isto ele pega a sua lança e se afasta.

- Espere. Aonde vai ? Eu tenho tantas coisas para perguntar...

Voltarei para Sto´Vo´Kor. O retorno do espírito de Kahless está próximo.

- Espere! – a imagem de Krias desvanece-se bem como todo o cenário à sua volta. Ele agora se via em casa sendo recepcionado pela sua sorridente irmã.

Oi irmão. Sente-se. Vou pegar um copo de vinho para você. Você está com cara de estar precisando.

A casa estava cheia de pessoas estranhas. Havia um certo tumulto cujo motivo ele não entendia muito bem.

- Quem são essas pessoas ? – perguntou à irmã quando esta retornou com a sua bebida.

Você não sabe ? Você não veio para o casamento ?

- Casamento ? – Klag sentiu seu sangue ferver ao beber o vinho. Então Lurga não agüentou esperar por ele. Traidora, pensou. O ambiente ficou enevoado e uma súbita raiva irrompeu dentro de si. Arremessou sua caneca para longe e esta, ao se espatifar, fez sumir de vez as suas visões.

Ao sair do transe Klag ainda podia sentir a raiva dentro de si. Seria ciúmes? Como Lurga pôde trair seu juramento ? Seria ela realmente que estava casando ? Certamente que não era Belara. Ela era muito jovem ainda. O certo era que nem sempre as visões refletiam os verdadeiros acontecimentos, mas elas sempre possuíam um fundo de verdade.

Levantou-se, apagou a pira e as velas. Solicitou o computador que ligasse os exaustores no máximo para retirar a fumaça do ambiente e foi beber um pouco de baghol para recuperar-se do choque das visões. Seja o que for que ele tivesse que enfrentar sabia que tinha que estar preparado. Este era o desafio de um guerreiro. Estar sempre pronto para enfrentar o desconhecido. Andou em direção a parede onde estavam as suas armas rituais, pegou sua mek´leth e ficou a exercitar com ela durante toda noite até o cansaço ser mais forte que sua vontade.

****

Capítulo IV

Base Estelar 375 – Setor Kalandra
Próximo ao Sistema Cardassiano

O Almirante Petersen estava inquieto. Toda a sua vida dedicou-se a engenharia espacial. Quando o assunto era política, procurava evitar ao máximo. Contudo o destino havia lhe pregado uma peça. Por ordem do alto comando ele fora transferido para o departamento de segurança na missão de chefiar, secretamente, incursões no quadrante Gamma. Por que ele havia aceito tal missão ?

Primeiro: Ele era um militar que não questionava ordens.

Segundo: Prometeram-lhe não desativar o programa de construção das naves classe Nova que chefiava. As naves Nova seriam o seu legado para a posteridade. Só restou a ele ir para o sacrifício.

Mas o que realmente lhe afligia era: O que ele entendia de batalhas de campo? De espionagem? Bem talvez um pouco. Fazia muitos anos em que ele não atuava ativamente em uma missão. Ele agora era um almirante de gabinete prestes a se aposentar. Só havia servido em naves espaciais no começo de sua carreira há quase trinta anos atrás, até que fora mandado em uma missão da qual não tem boas recordações. Depois disso, contando com a ajuda de amigos nos lugares certos, se transferiu para trabalhos burocráticos até que conseguiu o que queria. Trabalhar como projetista-chefe de naves da Frota. Estava fazendo isso há vinte anos. O único comando que tinha domínio era do seu escritório que só tinha um tripulante, a sua ordenança. Além do mais o pessoal do departamento de segurança sempre causou-lhe certo medo. Havia muitos segredos obscuros que ele não ousava saber, mas tinha ouvido que a Frota nem sempre revelava tudo sobre as suas ações no espaço profundo.

Se havia algo de podre na Frota certamente começaria a feder dentro do departamento de segurança. E a seção 31? Esta nem mesmo o alto comando sabia o que fazia de tão secretas que eram as suas missões. Não havia arquivos, nomes e nem um lugar onde os agentes pudessem ser encontrados. Pelo menos não eram de fácil acesso. Sabia-se, porém que os trabalhos sujos e as missões suicidas cabiam aos agentes da seção 31. Não que a Frota confirmasse que tais missões existissem ou tivessem existido um dia.

Agora Petersen seria um agente também. Na verdade chefe de agentes, mas com nenhuma experiência. Como ele poderia passar confiança aos seus comandados? Não seria isto necessário? Seriam essas missões suicidas? Bastaria enviar-lhes diretamente para morte certa? Seria ele agora um membro da seção 31? Petersen não queria acreditar nisso, mas estava apavorado com a possibilidade de seus receios se concretizarem. Pensava apenas quando iria poder rever sua mulher, filhos e netos. Quando teve a reunião com o almirante Leyton ele havia explicado que o estava enviando em uma missão sem expectativa de término a curto prazo. Se ele e seus comandados fizessem tudo certo voltariam para casa mais cedo.

Durante o último ano ele havia se informado do que estava acontecendo próximo a fenda espacial bajoriana. Todas as intrigas políticas e comerciais do setor estavam arquivadas para livre consulta sua com uma senha especial. Os arquivos eram, logicamente, secretos. Alguns destes arquivos também o inteirou sobre os avanços tecnológicos mais secretos que a Frota e a Federação dispunham. Teria carta branca para usar todos eles. Se, por ventura, soubesse de algo ou alguma coisa que não estivesse disponível, a Frota se encarregaria de torná-la acessível, de um jeito ou de outro. Mas ao ler os arquivos Petersen ficou estarrecido. Nunca vira tantas maravilhas nem em seus sonhos ou pesadelos. Seria difícil ele imaginar algo que os porões da Frota já não possuísse. Tecnologias que só seriam de domínio público dez ou vinte anos no futuro. Nem nos círculos fechados de engenheiros escutara algum rumor que tais coisas pudessem existir. Até hoje ele não se cansava de ler tais arquivos. Eram muitos e em um ano não conseguira lê-los todos.

Olhou a hora em seu monitor e entrou em contato com o centro de comando da base:

- Aqui é o Almirante Petersen. Alguma notícia para mim?

Ainda não, senhor

- Por favor, comunique-me assim que as minhas “encomendas” chegarem.

Sim, senhor. O informarei imediatamente.

Assim que desligou o monitor tocaram a campainha de sua sala.

- Pode entrar.

Um oficial boliano entra com um padd e entrega ao almirante.

- Brixx! Como está o nosso convidado?

- Pareceu-me à vontade. Ele fala pouco, mas acredito que será de grande valia para a missão.

- Alguém sabe da presença dele na estação?

- Não, senhor. Ele está incomunicável. Kobler já chegou?

- Ainda não. Ele saiu de Meldrar a pelo menos duas horas.

- E o pessoal da Albedo?

- Também estão por chegar. Vejo que você está tão ansioso para conhecê-los quanto eu.

- Devo confessar que sim. Será interessante conhecer a tripulação com a qual meu primo Borix lutou até à morte.

- Pelo que li no relatório, Borix deu sua vida no cumprimento do dever. Esta é a maior honraria que um oficial pode ter.

- Permita-me discordar, senhor. Prefiro receber as honrarias vivo.

Petersen sorri. Tinha que concordar com ele. Resolveu mudar de assunto:

- Aqui tem todo o manifesto da Albedo? – refere-se ao padd *2 que Brixx lhe entregara.

- Sim senhor e algumas informações adicionais do departamento de inteligência.

- Claro, eles não deixam passar nada, não é mesmo?- sorri ironicamente - Preciso me familiarizar com eles. Só sei que o capitão é muito jovem para o cargo.

- O senhor ainda vai precisar de mim?

- Não, dispensado. Mas assim que a Albedo aportar entre em contato com o capitão Alkon e traga-o aqui. Siga o protocolo Bravo Dois.

- Sim senhor. – O boliano se retira e Petersen começa a ler o manifesto. Teria que conhecer aquelas pessoas mais do que elas mesmas. – Hum...Eles tem um klingon à bordo também ? Interessante...

Brixx andou pelos corredores vazios e quando entrou no elevador retirou um outro pad de sua túnica e o ligou. Apareceu o rosto de Alkon e ele não fez uma cara boa. Havia feito uma cópia do manifesto para ele sem que soubessem. Queria conhecer aquela tripulação também. Principalmente seu capitão.

****

Capítulo V

Setor Kalandra
Território da Federação
SST *3 : 17h45min04seg pm

Durante a aproximação da base a USS Albedo passa por duas naves da Frota. Uma era um cruzador pesado da classe Korolev de 442 metros de comprimento e uma outra da classe Cheyenne, um destróier de 380 metros. A tenente Allison não conseguiu deixar de fazer um comentário.

- Sinto-me uma sardinha navegando entre baleias.

- O que é isto tenente? Complexo de inferioridade? – brincou o capitão.

- Desculpe, senhor. Creio que seja saudade de pilotar um cruzador pesado como a Babel.

- A Albedo tem sido o nosso lar por quase um ano e não tenho queixas dela. Ela nunca nos deixou na mão. Ela pode ser pequena, mas tem provado o seu valor.

- Cento e sessenta e cinco metros de comprimento, trinta e quatro de altura, sessenta e dois de largura, oito decks, podendo atingir warp 9,6 e mantê-lo por doze horas. Eu conheço as especificações, senhor. Sei do que ela é capaz, mas se me permite falar francamente...

- Nunca impedi meus Oficiais sêniors de serem sinceros. Prossiga.

- A nossa equipe é uma das melhores da Frota...Porque eles não nos deram uma nave maior? Quem será que desagradamos tanto no alto comando?

- ALLY! – McCormick tenta deter os comentários de sua amiga.

- Não tem problema, senhor McCormick. Creio que a nossa timoneira esteja certa. Nesses últimos meses nos colocaram na geladeira. Percebemos isso pelo tipo de missões em que nos enviaram. Se existe um culpado nisto tudo sou eu.

- Desculpe, capitão, eu não pretendia... – Allison percebeu que havia constrangido o seu capitão. O incidente com os Maquis e os Breens no ano passado ainda eram lembranças dolorosas para todos.

- Se preferir uma transferência, tenente, eu entenderei.

- Desculpe, senhor, esta não foi minha intenção. É que às vezes eu não consigo ficar calada e falo demais. O senhor tem o meu maior apreço e respeito. Me desculpe.

- Eu já pude sentir que alguns entre nós me culpam por ter entrado com a representação contra o Alto Comando da Frota e que isso prejudicou a carreira de todos nós; apesar de que, pelo que fizemos, deveríamos ter recebido honrarias, condecorações e promoções.

- O senhor agiu corretamente. Seguiu o que os próprios regulamentos da Frota rezam. – comenta o alferes Gilbert do posto táctico.

- Certamente não é a maioria que pensa assim do senhor, capitão. Acredite. O senhor continua tendo o nosso apoio. – reitera McCormick.

- Eu sei. Vocês têm sido bons amigos e pacientes. Acima de tudo sei que posso contar com a lealdade de todos. É o mínimo que posso esperar dos meus oficiais de ponte.

- Talvez tenham nos chamado até aqui para repararem a injustiça que fizeram! – diz Allison tentando consertar as coisas.

- O centro de controle de doca da base está nos contatando. Solicitam que atraquemos pela comporta sul. Toda a tripulação deve desembarcar e se dirigir para o nível sete. Um oficial espera o senhor, capitão, para dar as novas ordens. – informa o tenente Zagar, que durante toda a discussão manteve-se neutro. Por ser novo na equipe acreditou que era melhor ficar calado.

- Desembarcar toda a tripulação? Isto é incomum... – McCormick estava intrigado.

- O que será que está acontecendo? Não deve ser nada grave, pois não há nenhum tipo de alerta na estação. – diz Allison se certificando em seu console e depois olha para Gilbert, esperando confirmação. Ele ergue os ombros em sinal de que nada de estranho havia detectado.

Ao invés de também ficar curioso, Alkon pede ao computador para localizar a Comandante Okaido.

DECK 4 – ARBOREDO - responde a voz sintética.

- Senhor McCormick assuma os procedimentos de atracação. Se houver algo que mereça minha atenção, sabe onde me encontrar. – Alkon se ergue de sua cadeira, olha para o alferes Gilbert estranhando o fato dele ainda estar na ponte e pergunta:

- Senhor Gilbert o seu turno já não acabou? Onde está o senhor Klag?

- O senhor Klag foi verificar um problema nos tubos ejetores de torpedo e avisou que irá se atrasar um pouco.

- Sei...Espero que não seja nada sério.

- Acho que não, senhor. Só não reportei antes porque ele disse para não preocupar o senhor e...

- Tudo bem, alferes. Não precisa ficar nervoso. Eu já entendi. – Alkon sorri do desespero do jovem e em seguida se dirige a piloto. -Tenente Saint-John... Não arranhe a lataria. – Alkon sorri demonstrando que da parte dele não havia ressentimentos pelos comentários dela.

- Pode deixar com a gente, capitão. – responde a jovem também com um sorriso.

Quando o capitão sai, Allison faz um novo comentário:

- Você já reparou que desde que saímos do sistema Hatariano os dois não ficam mais juntos na ponte?

- Soube por Dorn que eles jantaram na cabine dele uma noite dessas... – emenda Gilbert.

- Será que eles... – Allison joga um pouco de pimenta na fofoca.

- Não sei. Acho que isto é um assunto privado e que só diz respeito aos dois. – responde McCormick da cadeira do capitão criticando a malícia de seus colegas, porém, em seguida, não resiste em fazer o seu comentário – Mas que o clima entre eles está esquisito, isto está. – ri.

A Tenente Kimberly, que é sempre muito séria e compenetrada em seu serviço, não consegue deixar de rir do comentário do oficial de ciências.

- Se eles estão tendo um caso e não querem demonstrar não estão tendo muito sucesso nisto. Está todo mundo comentando. – diz Zagar.

- Ora, Ora! Se não é o nosso garoto prodígio! O que você entende de romances, Zagar? – pergunta McCormick em tom jocoso para o jovem rapaz ao seu lado.

- Muito pouco, mas o suficiente para saber que o deles começou errado e parece não ir nada bem.

- Acho melhor pararmos com essa conversa. O senhor têm razão. Isto é assunto deles. – concorda Gilbert com o oficial de ciências temendo estarem maculando a reputação de seus oficiais superiores.

- É o mal de uma tripulação pequena. Somos apenas cento e três pessoas e é difícil manter um segredo assim aqui. – diz Allison em seu comentário final.

- Estamos é virando um bando de fofoqueiros, isso sim – diz McCormick em auto-censura – Vamos nos concentrar em nossos afazeres. – McCormick levanta de sua estação e se dirige até a cadeira do capitão onde se senta para dar as ordens. - Zagar, informe a tripulação para se prepararem para o desembarque. Allison...Reduza a velocidade para meio impulso. Atenção aos manobradores. Gilbert... Informe qualquer coisa suspeita na estação. Faça uma sondagem. Zagar... Abra um canal de comunicação para o controle de doca.

- Freqüências abertas, senhor.

- Aqui é a USS Albedo pedindo permissão para atracar. Solicitamos raio trator na abordagem final.

Entendido, Albedo. Manobra de atracagem deverá ser feita manualmente. Repetimos. Manobra de atracagem deverá ser feita manualmente. Estamos sem raio trator. Problemas técnicos. Sejam bem vindos a base 375 da Frota Estelar.

- Você ouviu o homem, Ally. Para quem estava querendo emoção, aí está a sua chance .

- Ora, Doug...Este tipo de atracagem eu faço de olhos vendados. Já se esqueceu que eu pilotava cargueiros e naves de transporte antigamente ?

- Eu nunca me esqueço de nada. – respondeu sério. Dizer que ele se esquecia alguma coisa o irritava. Allison, como uma velha amiga, sabia disso e o provocava. - Bom, então esta é uma boa oportunidade para relembrar os velhos tempos.

A Albedo voou serenamente até o local indicado para atracação e a fez suavemente devido a destreza da piloto Allison Saint-John. Todos na ponte a parabenizaram pela manobra perfeita.

- Obrigado.Obrigado. Pago uma rodada para todos no bar da base.

- Combinado. Gilbert...Deixe os principais sistemas no automático e vamos desembarcar. Será bom esticar as pernas em um outro cenário.

Zagar apertou um botão em um aparelho em seu braço, acenou para os companheiros, e desapareceu. McCormick, Gilbert, Kimberly e Allison , como não possuíam um teletransportador pessoal, tiveram que pegar o turbo-elevador para o deck dois, onde iriam pegar suas mochilas em suas cabines.

Enquanto isso, no arboredo, Alkon procurava a sua imediato. O local não era grande. Mas devido a grande concentração de vegetais, dos mais diferentes portes, facilmente poderia se perder. Era um local agradável, de clima tropical e cheiros dos mais diversos, porém agradáveis ao olfato.

- Sarah? – perguntou ao entrar em meio aquele pequeno bosque.

- Aqui! – respondeu ela ao fundo.

- O que está fazendo? – perguntou ao vê-la usando uma luva amarela em uma mão e uma pequena tesoura de poda na outra.

- Estou cuidando dos meus bonsais.

- Você é que os fez?

- Sim. Aprendi com um tio meu. É um ótimo passatempo e uma boa terapia.

Alkon ficou admirando as mãos delicadas de Sarah apararem as pequeninas miniaturas do reino vegetal. Durante todos estes meses em que serviam juntos, raros foram os momentos de lazer que compartilharam e quando fizeram estavam sempre acompanhados com mais uma dúzia de pessoas. Dificilmente encontravam tempo para colocar o papo em dia ou jogar conversa fora, ou até mesmo para saber dos gostos e hobbies uns do outro. Por um momento esquecera-se o porque viera ao seu encontro, até que despertou de seu pequeno devaneio e falou:

- Recebemos ordens de desembarcar. Todos. Sem exceção. Não acha isto estranho ?

- Talvez precisem descontaminar a nave.

- De quê? Radiação de bárions não deve ser. Não temos usado altas dobras nestes últimos meses. Pressinto que seja algo diferente.

- O que poderia ser então? O que os seus poderes betazóides dizem?

- Não muita coisa. É apenas uma sensação. Temo que ela não seja boa.

- Sabe, Dorian, você me assusta às vezes com esse dom. Você dizia a mesma coisa quando íamos fazer uma prova do Capitão Selak.

- Sim. Infelizmente eu sempre estava certo. – riu.

- É. – Sarah riu também – Infelizmente. Tive péssimas notas em história da Federação. Algo que depõe contra as minhas qualidades de imediato.

- Mas você possui outras qualidades que se sobrepõem...- diz Alkon com certa malícia. Percebendo que Sarah ficara sem graça, emenda um outro assunto:

- Lembra de uma vez, na academia, que realizamos uma sessão espírita por conta desse meu dom?

- Nossa! Se eu me lembro? Tem gente querendo nos pegar até hoje por causa disso. Você se fez passar por um médium e espalhamos o boato no campus da academia. Quando deu o horário da sessão, à meia-noite, o prédio dos nossos alojamentos quase entupiu de gente querendo ver a novidade. Se não me falha a memória...Cobramos dez créditos por uma sessão em grupo e cem por uma consulta particular. Na época ninguém sabia que você era um telepata. Você ficou se divertindo revelando segredos das pessoas fingindo que recebia as informações de espíritos. Muita gente ficou impressionada. Alguns até choraram! Coitadinhos!

- Ah, ah, ah! Eu soube que na Terra, no século vinte, tais práticas eram muito apreciadas pelas pessoas e resolvi fazer um revival desta prática.

- Tudo foi muito divertido, para não dizer lucrativo, até descobrirem que era tudo armação nossa.

- Eu não sabia, na época, que não podia ler a mente de um dopteriano.

- Tivemos que devolver parte dos créditos dos cadetes, porque a outra já havíamos “bebido”. Sem falar que ainda recebemos uma reprimenda do administrador do campus e do diretor da academia. Se não fosse eu você teria virado picadinho.

- É...Você sempre me protegeu...

- Você era um garoto fracote e meu melhor amigo. O que eu poderia fazer?

- Sempre fomos amigos e tem certeza que isto é tudo que seremos ? – Alkon estava melancólico e Sarah não gostou do rumo que a conversa estava tomando. Alkon a estava pressionando e ela não gostava de ser pressionada.

- Creio que foi o que combinamos naquele jantar.

- Desculpe. É que está sendo difícil para mim. Como betazóide, conter minhas emoções, é ir contra a minha natureza. A minha raça é regida pela impulsividade, pela liberdade de emoções, pelo viver o momento.

- E você acha que para mim não é difícil, Dorian? Eu tenho que manter uma postura como oficial na nave, enquanto a mulher dentro de mim gostaria de beijá-lo em público não se importando o que os outros vão pensar. Mas temos que seguir os protocolos. Respeitar a hierarquia que juramos seguir.

- A Frota já não adota os votos de celibato há muito tempo, e eu não me importo com o que os outros irão pensar de nós.

- MAS EU SIM! – Sarah jogou a tesoura ao chão. Ela estava se descontrolando. Era a segunda coisa que ela mais odiava. – Para você é muito fácil antecipar uma...uma reação quando pode saber de ante véspera o que estão pensando. Mas comigo as coisas não funcionam deste jeito. Eu...Eu sou humana. Para mim, assumir uma relação com o capitão da minha nave, quando eu sou a imediato, não me parece muito ético.

- Nós não estamos falando de ética aqui, Sarah. Estou falando de amor. – Alkon se aproxima e a segura pelos braços.

Os dois ficaram em silêncio se olhando por alguns segundos. Ela pega as mãos dele e se solta, se afastando e ficando de costas para enxuga suas lágrimas. Era a terceira coisa que ela mais odiava. Que a vissem chorando. Alkon tenta mais uma investida:

- Então peça uma transferência se é isto que a impede. Você não acha que estamos perdendo uma oportunidade de sermos felizes?

- Acho que perdemos esta oportunidade há muito tempo.

- Você não pode estar falando sério. Por que aceitou servir comigo? Porque dispensou um excelente posto na USS Cairo? Não espere que eu acredite que foi pela minha grande experiência e prestígio...

Sarah se virou para responder a altura. Justamente quando a conversa estava caminhando para uma discussão o bip do comunicador de Alkon foi ouvido. A conversa foi interrompida momentaneamente. Esta era a quarta coisa na lista do ‘Eu odeio’ de Sarah. Que lhe cortassem a palavra.

- Pode falar! – responde Alkon com certa irritação na voz.

Procedimento de atracação completado, senhor. Pessoal efetivando o desembarque. O almirante Petersen está à sua espera. O senhor quer que levemos a sua bagagem?

- Não será necessário, Gilbert, obrigado. Diga ao almirante que estou a caminho. – o capitão fica olhando para o rosto enfezado de Sarah e então ele estende a mão e toca em seu rosto fazendo-lhe um carinho.

Sarah permite a raiva ir embora , deixando-se dominar pelos seus verdadeiros sentimentos ao fechar os olhos e sentir o seu corpo se arrepiar. Ela então segura as mãos dele e as coloca em torno de si. Ela abre novamente os olhos e o encara. Os dois se abraçam e se beijam. Um beijo que pareceu levá-los além da borda da galáxia.

- Desculpe... Eu não quis chateá-la.... – dizia ele entre um beijo e outro.

- Não desculpe você. Eu tenho bancado a garota difícil... Sei que não tem sido fácil para você também. Afinal o que você viu em mim ?

- Você sabe...Eu sempre tive uma queda por mulheres mais velhas... – sorri.

Sarah dá um leve soco no peito dele e ri. – Velha? Quem você está chamando de velha?Eu tenho apenas só dois anos a mais que você...

- Eu tenho que ir. – Alkon dá um último beijo – Vou fazer a minha mochila. Tenho um outro encontro, você sabe. Quer que eu mande um ordenança fazer a sua?

- Sim, agradeceria.

Ele se afasta, mas ainda segurava a mão dela e diz:

- Obrigado.

- Dorian...Estas coisas não se agradecem. Vamos deixar rolar e ver o que acontece tá bem? Não poderemos dizer depois que não tentamos e nos arrepender.

- Combinado.- ele a solta, caminha para a porta, mas subitamente se volta, corre até ela e a abraça e a beija mais uma vez, antes de sair correndo em definitivo para encontra o tal almirante.

Sarah fica com um grande sorriso de felicidade estampado no rosto. Retira a sua luva , larga-a sobre um balcão e deixa o arboredo em direção ao seu alojamento.

Nem ela nem o capitão notaram que uma terceira pessoa assistira toda a conversa. Detrás de uma árvore, Zagar, o elaysiano, estava com um sorriso perplexo no rosto.

****

Capítulo VI

A Base estelar 375 foi criada, originalmente, como uma base científica para estudar a astronomia do setor em 2.345. Sob suspeita de ser um posto de escuta da federação ela foi atacada pela União Cardassiana em 2.365, obrigando a Federação a retirar todos os civis e corpo científico (cerca de três mil à época), deixando apenas uma pequena equipe técnica para manter a estação funcionando e , naturalmente, continuar a espionar os movimentos cardassianos.

Ela é do modelo Regula, parecida com a Deep Space Five e a base 173, próxima a fronteira romulana. Têm 2842 metros de diâmetro, 2160 metros de altura e 397 decks, podendo abrigar 5700 oficiais e até seis mil civis. Em termos de armamento sabe-se que têm cem bancos phasers e oito para torpedos fotônicos. Sua doca interna pode abrigar até quinze naves estelares de médio porte.

Com o tratado de paz assinado em 2367 entre a Federação e Cardassia, o pessoal científico e os civis retornaram à estação restabelecendo uma rota segura para a zona desmilitarizada, servindo como um ótimo entreposto e doca de manutenção de naves. Era uma boa alternativa à DS9 que era menor e tinha menos recursos.

Com a recente ameaça do Dominion a Frota Estelar julgou que a base não era mais segura e enviou a quinta Frota de naves para garantir as rotas comerciais e proteger a estação. Lá estavam a USS Baldwin (Classe Miranda), USS Edmund Fitzgerald (Classe Sovereign) capitaneada por Robert DeSoto (transferido da Hood) e sua n0 1 comandante Tara Pagano, USS Potomac (Classe Cheyenne). Em breve se juntaria a elas a USS Protheus, da nova classe Prometheus. Ela será a nave mais avançadas da Frota, possuidora da tecnologia de multi vetor de ataque, onde a nave era capaz de se dividir em três. Era a segunda a ser construída fazendo par com a sua irmã USS Prometheus que dava nome à nova classe de naves. Mesmo com toda esta proteção muitos civis já começavam a deixar a estação, deixando, a maioria dos decks, praticamente vazios.

O clima pesado foi percebido pelos oficiais da Albedo quando desembarcaram. Um grupo de uns trinta homens armados os aguardavam na baia de atracação para conduzi-los até o deck sete.

- O que está acontecendo? O que é isso? Hei! Vamos com calma! – dizia Allison ao ser empurrada por um guarda.

- É melhor não discutir, Ally – falou McCormick para a amiga.

-Para onde estão nos levando? – pergunta Gilbert sem que ninguém lhe respondesse.

Todos foram sendo guiados até os turboelevadores como gado sendo recolhido para o curral após um dia de pastagem.

Alkon e Okaido, ao saírem, deparam com o mesmo cenário e chegam a pensar que a base havia sido dominada por algum inimigo desconhecido. Só ficaram um pouco mais tranqüilos quando dois oficiais da Frota se aproximaram deles e se apresentaram:

- Sejam bem vindos, capitão Alkon, comandante Okaido. Eu sou o vice-Almirante William Ross, encarregado desta estação, e este é meu ajudante de ordens, Comandante Bennett. Desculpe-nos pelo transtorno, mas estamos em alerta amarelo e devido a natureza de sua missão vocês devem ficar incomunicáveis.

- Natureza da nossa missão? Não sabia que estávamos em uma...- Okaido estava no escuro. Do que aqueles caras estavam falando?

- O Almirante Petersen explicará tudo... – Sarah já ia acompanhando Alkon quando é detida por Bennett-...ao seu Capitão – completa Ross. A senhora, por favor, acompanhe o comandante Bennett até o deck sete e aguarde com os demais. O senhor, Capitão, me siga.

Alkon sentiu uma grande preocupação em Ross, mas esta era maior em Sarah. Havia algo sério ocorrendo e ele não conseguia determinar. Ross não estava dizendo totalmente a verdade e Alkon não sabia o porque. Só restou a ele seguir as ordens e quando se separou de Sarah viu que o olhar dela dizia: “Tome cuidado”.

Ao caminhar pelos corredores da estação o Capitão Alkon pôde notar algumas pessoas andando apressadamente e carregando malas ou mochilas, arriscou a fazer uma pergunta:

- A base está sendo evacuada?

- Não exatamente. Algumas pessoas estão sendo precavidas.

- Por qual motivo? Vocês estão com alguma epidemia à bordo? Vazamento radiativo?

- O Almirante Petersen lhe dará todas as respostas, senhor.

Alkon se calou. Seria difícil arrancar alguma informação daquele homem.

Parou em frente a uma porta, ela se abriu e Ross convidou-o a entrar. Estava em uma ante-sala vazia onde se via alguns quadros na parede e um pequeno sofá. Quando olhou para trás o almirante Ross já havia ido. Antes que tivesse a oportunidade de sentar-se, vindo de uma outra sala ao fundo, o tenente Brixx apareceu e chamou-o.

- O Almirante Petersen irá recebe-lo agora. – o boliano ficou a sorrir e Alkon sentiu-se incomodado com aquela atitude. Algo de ruim o aguardava. Ele ajeitou a sua túnica, respirou fundo e adentrou a sala.

Capitão...Queira ficar a vontade. – Petersen estava sentado e assim ficou. Estava com o rosto voltado para o monitor em sua mesa. Parecia estar lendo algo muito importante para ter que desviar o olhar. Depois de alguns intermináveis segundos, falou:

- Capitão Alkon, Dorian. Nascido em 2342 em Betazed. Filho de Bardan e Lomara Alkon, da sexta casa. Considerado um garoto prodígio com um nível psi doze. Apesar de que na sua ficha constar como nível oito. Muito conveniente... Isto é algo raro entre os betazóides e principalmente entre os machos da espécie. Indicado para a Frota estelar pela embaixadora Lwaxana Troi quando tinha apenas treze anos.

Cursou a academia com louvor e se formou aos dezessete anos. Sendo muito jovem para o serviço ativo foi trabalhar como ajudante de ordens do reitor da academia e ficou neste cargo por dois anos até ser indicado como conselheiro da USS Chekov, classe Springfield. Lá recebeu duas promoções, alcançando a patente de tenente sênior, uma comenda da Frota Estelar e uma medalha por mérito em serviço. Após seis anos de serviço foi uns do poucos sobreviventes da batalha contra os Borgs em Wolf 359, onde ficou confinado e vagando pelo espaço, após a destruição de sua nave, em um pod salva-vidas com mais três colegas por 48 horas até serem resgatados. Depois disso ganhou uma estrela de ouro e a cruz vermelha, foi promovido a tenente-comandante e passou seis meses em tratamento psicológico, sendo transferido pra a embaixada de Betazed na Terra para realizar serviços burocráticos. Creio que foi aí que decidiu não mais seguir a carreira de conselheiro e se aperfeiçoou em cursos de qualificação para o comando. Sua performance foi tão boa que o alto comando o indicou para primeiro oficial da USS Trípoli, classe Hokule’a; onde, em uma missão, durante uma batalha com alienígenas desconhecidos, salvou a vida de seu capitão e se manteve no posto até a chegada de reforços. Ganhou a cruz de valor e foi promovido à comandante.

- No ano passado ganhou o seu próprio comando na USS Babel, classe Akira. Na sua primeira missão se envolveu em um conflito armado entre maquis, breens, cardassianos, romulanos e terroristas bajorianos; pondo em risco uma missão diplomática sigilosa. A nave foi bastante avariada no incidente tornando-a inoperante. Ao final da missão, entrou com uma representação contra o alto comando da Frota alegando terem posto as vidas de diplomatas em risco ao enviarem a nave em uma missão numa área de conflito sem o seu consentimento. O processo foi indeferido, pois para a Frota, tal missão nunca ocorreu. Nenhum embaixador deu seu testemunho oficial de ter participado de tal ocorrência e o senhor foi responsabilizado pelos danos causados à nave e a perda de seus tripulantes em uma missão não autorizada ao quadrante Gamma.

- Mesmo assim uma corte marcial não foi realizada e o mais impressionante é que, logo depois, recebeu um novo comando, em uma nave científica, classe Nova, um cruzador leve, tipo desbravadora, a USS Albedo NCC-72382.

Alkon ficou calado olhando fixamente para a frente enquanto toda a sua folha de serviço era lida.

- Muito bem, capitão. O senhor realmente tem uma ficha impressionante. Mesmo sendo muito jovem. É um capitão habilidoso e um homem de valor. É por isso que o senhor e sua tripulação foram requisitados.

- Permissão para falar, senhor.

- Concedido.

- Sua ficha sobre mim não está completa. Faltou relatar que evitei, durante o meu comando na USS Babel, nesta tal missão não autorizada, – enfatizou - o contrabando de armas para os Maquis, frustrei um ataque deles a Cardassia Prime por uma arma de destruição em massa proscrita pela Federação, salvei todos os diplomatas que estavam sob minha proteção de um seqüestro, e destruí uma mina clandestina dos breens que usavam seus prisioneiros como escravos. Ah! Salvei também o filho de um general romulano, o comandante Sisko e seu médico, o Dr. Bashir. Creio que, talvez seja por isso que uma corte marcial não foi instaurada. Entretanto, nem eu, nem meus camaradas recebemos honrarias ou promoções por tais feitos. Agora gostaria de saber por que minha tripulação foi confinada. Estamos sendo acusados de algo?

Petersen ficou impressionado com o temperamento intempestivo do capitão betazóide.

- Acusados? Oh, não senhor. Vocês foram recrutados para uma missão especial.

- Que missão é esta que é necessário que fiquemos incomunicáveis?

- A partir de agora, capitão, o senhor e a sua tripulação estão servindo ao departamento de segurança, mais precisamente às forças de operações táticas. Queremos que o senhor comande incursões por trás das linhas inimigas.

- Linhas inimigas? De quem estamos falando, senhor?

- Do Dominion.

Alkon agora sabia que realmente algo de ruim podia acontecer. Poderiam ter decretado a sentença de morte de todos os mandando para uma frente de batalha. Maldita hora que resolveu processar a Frota.

****

Capítulo VII

Haviam se passado quase duas horas desde que chegaram a estação. Os ânimos estavam aflorados. Todo mundo conversava sobre a situação em que estavam e tentavam adivinhar o por que do confinamento.

- Será que estamos contaminados com alguma radiação ou doença? – perguntava Allison.

- Se fosse já teriam tirado as nossas roupas e nos mandado para câmaras de descontaminação. O caso deve ser outro. – tenta explicar McCormick.

- Onde está o capitão ? Não o vi ainda por aqui. – perguntou o alferes Gilbert.

- Posso acessar um destess terminaisss. – se prontificou Sleek que caminhou sinuosamente até o terminal mais próximo. Depois de algumas tentativas disse com certo desânimo na voz: - O acesso foi bloqueado. Estamos incomunicáveisss.

- Droga! Odeio todo este suspense! – bravejou Allison.

- Talvez você ou a tenente Silva possam garantir um acesso. – sugeriu Klag à McCormick.

O oficial de ciências se afastou do grupo e, discretamente, procurou a engenheira para comentar a sugestão de Klag. Naomi estava sentada em um grande banco no meio do salão em que estavam com outros companheiros, bebendo uma xícara de café, quando McCormick se aproximou e sussurrou em seu ouvido o plano.

- Você quer que eu o quê? – Naomi falou baixo com medo que alguém os escutasse.- Isto é uma violação de sistema. Além do mais, como vou fazer isso sem as ferramentas adequadas?

- Podemos improvisar, vamos lá. É só para matar o tempo. – McCormick tentou convencê-la.

- Matar o tempo? Podemos ir presos, sabia?

- Não sei se você notou, mas já estamos presos. Só queremos saber o por quê.

Naomi percebeu que não conseguiria dissuadir seu colega do quão arriscado seria violar o sistema da base, então se rendeu aos argumentos. Foram até o terminal. Klag, Sleek, Gilbert e Allison fizeram uma parede para ocultar o ato criminoso. Naomi digitou alguns códigos de acesso para os sistemas secundários do mainframe. McCormick abriu um painel e realinhou algumas placas de circuitos isolineares. Dez minutos depois conseguiram acesso às câmeras de segurança da estação.

- Onde querem olhar? – perguntou Naomi aos colegas.

- Banheiro feminino? – brincou McCormick.

- Tente o escritório da administração central. – sugeriu Allison ignorando a sugestão do amigo.

- Por que não pede ao computador para localizá-lo? – perguntou Gilbert.

- Porque assim que eu entrasse com a solicitação saberiam da violação do sistema. Mesmo agora, com todos os desvios de ODN *4 que fizemos, não dou garantias de não nos detectarem. – explicou Naomi.

A imagem do escritório central só mostrava o almirante Petersen conversando com o vice-almirante Ross. Seguiu-se outras imagens dos corredores, lojas, docas, armazéns. A não ser alguns soldados e pessoal da manutenção, parecia não haver mais ninguém na estação.

Sarah Okaido percebeu a aglomeração na frente do terminal e se aproximou curiosa.

- O que vocês estão fazendo?

Todos levaram um baita susto, inclusive o carrancudo Klag, que chegou a ficar em posição de sentido.

- Aliviando a tensão. – disse Allison com um sorriso amarelo.

- Passando o tempo. – falou McCormick quase ao mesmo tempo.

- Espionando...- confessou Naomi.

- Vocês estão malucos? Violaram o sistema de segurança? – a imediato parecia não acreditar na traquinagem dos seus comandados.

- Desculpe, comandante. É que estamos ansiosos em saber o que está acontecendo por aqui. Sabia que confiscaram o teletransporte pessoal de Zagar? Dá pena de ver o garoto tendo que andar com muletas e servo-motores. – diz McCormick.

- Escutem uma coisa. – Sarah tentou demonstrar calma - Recebemos ordens para ficar aqui e aguardar e é o que faremos, entendido? – ordenou.

- Sim, madame. – todos responderam em uníssono.

- Naquele momento a porta do salão abriu-se e uma figura trajando um uniforme negro e cinza entrou. Era Alkon.

- Capitão? – Okaido queria ter certeza que seus olhos não a estavam enganando.

- Oi, pessoal! Temos muito que conversar.

A tripulação se aproxima dele. Mais de cem pessoas angustiadas e tão próximas incomodavam a sua mente sensível àquelas emissões psiônicas involuntárias.

- Por favor, acalmem-se. Vou explicar o que está acontecendo. Por favor... – Alkon estava começando a ficar sem ar.

- Afastem-se deixem o capitão respirar! – ordenou T´Vel quando percebeu que Alkon não estava se sentindo bem.A ordem foi cumprida.

- Capitão, que uniforme é esse?-perguntou Sarah.

- Faz parte do novo trabalho. Fomos recrutados para uma força tática especial que atuará no quadrante Gamma tentando desestabilizar o Dominion.

- O Dominion? Como faremos isso? Sabemos muito pouco sobre eles. – falou Klag.

- Parece que alguém na Frota sabe mais do que nós ou qualquer banco de dados disponível. Estaremos em campanha daqui a quatro meses. A tripulação terá o seu efetivo reduzido. Mais tarde a Comandante Okaido divulgará a lista de transferências – entrega para a Imediato um padd com a lista – Os demais estarão em treinamento até que a nossa nave passe por um upgrade.

- Vão mexer na minha nave? – Naomi estava indignada.

- Não se preocupe, tenente. A coloquei na equipe que supervisionará a reforma a os melhoramentos da nave.

- Obrigado, Capitão. – agradeceu a engenheira-chefe.

- Não entendo, capitão. A nossa nave é nova e faltam muitos anos para que passe por uma reforma. – comenta Klag.

- Para o que iremos enfrentar esteja certo que precisaremos de todo o suporte possível.

- Mas por que nos escolheram? Por quê a Albedo? Ela é um cruzador leve. Por que não mandam um destróier, um cruzador pesado? A classe Nova é uma nave científica. Não foi projetada para entrar em batalhas. – pergunta Okaido.

- A nossa escolha, creio, foi mais política do que pela folha de serviço. Quanto a nave... Bem...Creio que seja por alguns problemas técnicos que não poderão usar naves maiores.

- Chamaria muita atenção. – explica Klag.

- Este deve ser um dos motivos – aponta Alkon – Os chefes de departamento terão uma reunião comigo e o almirante Petersen às 1000 horas. Dispensados.

A multidão se afastou e Alkon sentiu-se um pouco mais aliviado. Ajeitou a gola da camisa em busca de mais ar. Não sabia se estava mais incomodado com o uniforme ou com as ondas mentais de seus camaradas.

- Gostaria de beber algo? – perguntou Dorn prestativamente ao notar seu desconforto.

- Seria bom. Água, por favor, não muito gelada. – ele estava quase sem fôlego. Parecia que havia corrido quilômetros. Precisava tomar seu remédio, mas ele ficara na sua mochila que fora confiscada. Precisaria conversar com a doutora T´Vel discretamente. Okaido se aproximou e começou o seu interrogatório.

- Quem é esse Almirante Petersen ? O que ele tem a ver com isso tudo?

- Ele é o atual comandante da estação e será a ele que nos reportaremos durante o tempo que durar esta campanha. Não fique com essa cara, Sarah. Você sempre quis estar onde a ação está. Agora teremos ação de sobra em nossas vidas.

- É que eu não esperava ser convocada para a força especial da Frota tão cedo.

- Esquadrão Nova. – disse Alkon, aparentemente sem sentido.

- O quê? – Sarah não entendeu do que ele estava falando.

- Será o nosso codinome.

- Foi você que escolheu?

- Foi o primeiro que me ocorreu.

- Achei pouco original.

- Concordo – sorriu – Mas agora já está registrado.

O luriano apareceu com a água, entregou para o Capitão, este o agradeceu, e ele então se afastou.

- E quanto a esse uniforme? Não vai me dizer que também escolheu este modelo.

- Não, meu gosto por roupas é um pouco melhor. Isto é o que teremos que vestir daqui por diante.

- É um pouco sem cor, para o meu gosto. Bom, pelo que entendi, vamos passar os próximos meses por treinamento militar pesado.

- Ei, anime-se! Será como nos tempos da academia.

- É, pelo menos dessa vez estarei em uma posição melhor.

- Creio que a “sargento” Okaido terá muito trabalho pela frente. A tripulação está meio enferrujada. Ah! – Alkon bate em sua própria testa – Já ia me esquecendo... Tenho que te apresentar uma pessoa. – Alkon caminhou até a porta e quando ela abriu revelou um boliano sorridente no corredor.

- Este é o tenente-júnior Brixx. Ele nos ajudará no planejamento tático. Foi comissionado na tripulação a partir de hoje. Será assistente de Klag. Brixx é primo de Borix.

- Seu primo foi um ótimo oficial. Foi uma grande perda para a Frota Estelar. Ele salvou a minha vida e fico honrada em poder dizer isso a um parente próximo pessoalmente. – disse Sarah ao cumprimentá-lo.

- Obrigado, comandante. Tenho certeza que ele o foi. A honra é minha também ao servir com o grupo com o qual ele lutou lado a lado em seus derradeiros momentos.

- A honra será de todos nós. – acrescentou Alkon, apesar de perceber um certo sarcasmo nas palavras de Brixx. Ele não parecia estar sendo sincero. Alkon guardou suas suspeitas para si. Em seguida voltou a falar:

- Brixx nos dará algumas informações vitais durante a reunião. Ele teve acesso ao banco de dados confidencial do Dominion. Apresente-o a Klag. Será bom eles irem se familiarizando já que irão trabalhar juntos.

- Sim, senhor. – Sarah conduziu o boliano até a presença do klingon.

Um barulho metálico, vindo atrás de si, chamou atenção de Alkon que se voltou e deu de cara com o jovem elaysiano se arrastando com suas muletas.

- Capitão...Ai...Será que eles podem me devolver o meu transportador ou , talvez, me dar uma cadeira de rodas antigravitacional ?

Alkon fica surpreso ao ver seu oficial de comunicações naquele estado. Alguém queria realmente restringir o movimento do seu pessoal, mas não sabia que chegariam a este ponto. Sentiu pena do elaysiano.

- Verei o que posso fazer, Zagar. Procure descansar.

- Será difícil nesta gravidade, capitão, mas tentarei. Ficarei agradecido pelo o que o senhor conseguir fazer por mim. – o jovem caminha com dificuldade até um banco onde se senta, arfando.

Alkon sentiu a sua dor de cabeça aumentar e olhou em volta a procura da Dra. T´Vel. A encontrou olhando para as estrelas próxima às janelas do salão.

- Incomodo ? – perguntou o capitão ao se aproximar.

- De modo algum, capitão. Já se sente melhor ?

- Na verdade não. – responde ainda ajeitando a gola da sua blusa, mas antes de falar de sua dor de cabeça, ficou curioso com a contemplação da doutora e, sem resistir, perguntou - O que está olhando ? Saudades de casa?

- Não. Apenas refletindo. Me pergunto como a serenidade do cosmos pode ser perturbada por algumas mentes em conflito. A hostilidade entre raças diferentes parece cumprir um plano cósmico de seleção natural que me foge a lógica.

- Isto realmente foge aos princípios do IDIC. Infinita diversidade em infinitas combinações, não estou certo?

- Sim. A maravilha do fenômeno da vida está na diversidade. Contudo parece existir uma força que impulsiona as raças para um conflito onde apenas uma sobreviverá.

- A senhora está falando em uma entropia biológica ? Isto me parece um absurdo!

- Eu também achava, a princípio. Porém existem vários indícios a nossa volta que nos faz ver as coisas por um outro prisma. Se existe a teoria do Big-Crunch, onde, toda a massa do universo deverá colidir, um dia, em um único ponto; podemos supor que a vida contida neste universo está apenas seguindo o caminho que as estrelas indicam.

- É uma teoria e tanto, doutora. Um tanto metafísico demais, todavia parece bastante plausível. No final, as estrelas governarão as nossas vidas. Parece que terei que acompanhar o meu horóscopo com mais freqüência.

- Não pretendia divertir o senhor. Apenas expus meus pensamentos. Com licença.

- Ei, não se ofenda. Não tive intenção de ridicularizar a sua opinião. Peço que me perdoe.

- Sou vulcana. Sou incapaz de me sentir ofendida, contudo, se o faz sentir melhor, desculpas aceitas.

- Na verdade a procurei porque tenho uma missão para a senhora. Como sabe, nos próximos meses estaremos em treinamento para o campo de batalha e eu também estou inscrito nestes exercícios. Entretanto o meu treinamento será diferenciado e precisarei da senhora para conduzi-lo.

- De mim ? Eu não sou habilitada em técnicas de combate e até os meus conhecimentos sobre arte marcial vulcana são bastante limitados.

- Não será necessário este tipo de habilidade. Existe algo sobre mim que não consta no meu registro médico, mas que a senhora deveria saber. Eu sou um betazóide de psi doze.

- PSI doze? Isto é impossível! Nenhum macho betazóide...

- Eu sei que sou uma incongruência biológica, mas estou aqui. A Frota Estelar quer que eu use esta minha capacidade para desenvolver poderes mentais que nos ajudem na guerra contra o Dominion e a senhora irá me ajudar a controlá-los.

- Guerra ? Não sabia que havia uma.

- Não há, no momento. Mas a Federação acredita que ela é iminente.

- Sendo o senhor um telepata de Psi doze parece-me que quase não utiliza o seu poder.

- Eu os bloqueio. Eles já me trouxeram muitos problemas no passado e depois de Wolf 359, ficou quase insuportável controlá-los. A senhora não sabe o que é ouvir centenas de pessoas gritando por suas vidas. Desde então eu uso um bloqueador químico neuro-sináptico chamado Dopaminalina. Cerca de dez gramas por dia. Dois comprimidos a cada doze horas. Deveria tomar a última dose à uma hora e não estou me sentindo bem. Alguém deve ter achado que, ao me privar de meu remédio, aceleraria a liberação de meus poderes. Eles só não sabem que não posso controlá-los. Será como uma represa ruindo. Será difícil prever o que acontecerá e temo ferir alguém.

- Fascinante. Admiro o seu auto-controle, que sempre demonstrou, mais ainda agora.

- Eu às vezes me surpreendo também por não desmaiar na ponte. Talvez seja por isso que as mulheres me achavam um pouco devagar. – Alkon sorri e em seguida geme de dor de cabeça.

- Precisarei avaliar o seu caso. Preciso levá-lo até uma enfermaria.

- Virão me buscar em dez minutos para uma reunião. Reúna a sua equipe médica e farei que tenham acesso às instalações médicas da base. Nos veremos mais tarde.

- Há quanto tempo usa essa medicação ?

- Uso bloqueadores desde que entrei na puberdade. A Dopaminalina uso há quatro anos.

- Se a Frota Estelar quer utilizar o seu dom natural como uma arma este pode ter sido afetado pelo uso de medicação. Pode levar muito tempo até que detectemos algum sinal deles. Quando foi seu último teste PSI ?

- Também foi há quatro anos quando estava sob tratamento após o ataque Borg. A médica na ocasião não mencionou nada de anormal.

- Talvez porque ela não procurou o que devia procurar. Você fez todos os testes padrões?

- Sim. Fiz os testes Rhine, Ullman-Krippner, Randi, Kirlian, Pabvastha e Surak. Todos os resultados foram positivos e satisfatórios.

- Interessante...Mesmo assim devemos repeti-los ao reavaliá-lo. Vou reunir a minha equipe e...

- Devo pedir sigilo absoluto. Isto deve ficar restrito entre eu e você, por enquanto.

A doutora assente com a cabeça e se afasta. Alkon fica a fitar as mesmas estrelas que, há poucos minutos, a vulcana contemplava e pensa qual estrela estaria governando o seu destino naquele momento.

****

Capítulo VIII

Na primeira reunião de trabalho, todos os chefes de departamento da Albedo estavam presentes, como também o Almirante Petersen, o vice-Almirante Ross, o Comandante Bennet e o Tenente Brixx, que leu um relatório da inteligência sobre os últimos acontecimentos importantes próximos a fronteira de Cardassia e o sistema bajoriano.

- Finalmente o governo bajoriano assinou o tratado de paz com Cardassia. O grande mediador, Vedek Bareil, infelizmente, morreu logo após devido às conseqüências de um atentado que sofrera. Contudo isto não agradou a todos. Especialmente aos maquis. Eles aumentaram suas atividades na última semana dando trabalho ao comandante Sisko da DS9. A nossa inteligência nos informa que a Ordem Obsidiana também não ficou muito contente com o tratado e tem agido sem a anuência do governo central. Temem que Bajor entre para a Federação e eles percam sua influência no setor. Há rumores que estejam flertando com o Dominion. Não sabemos se é para arrancar-lhes informações ou para criar uma aliança. Paralelamente, e misteriosamente, também estão em contato estreito com o Tal Shiar.

- Eles parecem que estão tentando se precaver dos dois lados. De qualquer maneira isso seria um perigo para o setor. Se os romulanos e cardassianos atacassem o Dominion eles viriam com tudo para cima de nós e precipitaria a guerra. Se, por outro lado, resolverem se aliar ao Dominion.... Deus nos ajude! – comenta Sarah.

- Os senhores podem ver que estarão andando sobre brasas quentes. As relações estão muito delicadas por aqui. As civilizações que podemos contatar no quadrante Gamma não nos apóiam por medo da reação do Dominion e outras, primitivas, devido a nossa primeira diretriz, não nos permite alertá-los do perigo. – informa o almirante Ross.

- Onde exatamente nós nos encaixamos, senhor? – pergunta Alkon.

- Temos a missão de minar as forças do Dominion. Afetar sua força militar e comercial. Enfraquecê-los ao máximo antes que...- explicava Petersen quando Bennet completou:

- ...a guerra se inicie. Todas as nossas fontes dizem que ela é inevitável. Portanto vamos torná-la possível de se vencer.

- Os senhores acreditam que minando as suas forças isso poderá fazê-los ficar abertos a um diálogo diplomático? – Sarah pensou que houvesse alguma chance de evitar o conflito.

- É uma tática perigosa. Não conhecemos a força deste Dominion. Pressioná-los pode não ser a melhor opção. – se manifestou Klag.

- Depois do que eles foram capazes de fazer com a Odissey, nós vimos que o diálogo não é possível neste momento. O senhor, como klingon, deve saber que, quando confrontamos um inimigo, não podemos demonstrar fraqueza. O Dominion não respeita quem é mais fraco do que eles. Nós não podemos abrir a guarda. – esclareceu Petersen.

- Esta ação poderá chamar atenção dos nossos aliados e fazer o caldeirão fervilhar mais. – comenta Alkon.

- Por isso estamos tomando uma série de medidas de segurança e sigilo sobre esta missão. Peço aos senhores paciência e acatem as nossas ordens sem discussão. – diz Petersen olhando para Alkon, já sabendo que ele não estava se sentindo muito à vontade em seguir nesta missão.

Alkon sentiu um certo receio de Petersen sobre ele e sua tripulação. Ficou tentado em ler a sua mente, mas sua ética não permitiu. Brevemente toda a sua ética não seria suficiente para bloquear os pensamentos dos que o cercavam, assim que os efeitos de seu bloqueador sináptico desaparecessem.

- O senhor pode ficar tranqüilo, almirante. Sabemos acatar ordens. Creio que seja por isso que nos escolheram e não cadetes recém saídos da academia.

- Não se ofenda, capitão, mas a sua tripulação tem fama de... – o Almirante Ross tenta remediar o mal entendido, mas não obtém sucesso.

- Eu não sei que tipo de informações os senhores têm ao nosso respeito, mas eu garanto que nós sempre defendemos os princípios da Federação e os regulamentos da Frota Estelar, sendo obedientes, fiéis e leais a eles; como seria de se esperar de qualquer oficial. Se não há mais nada a ser reportado, peço permissão para nos ausentar.

Petersen olhou para os seus colegas que balançaram negativamente com a cabeça. A única coisa que pôde dizer foi:

- Dispensados.

Quando o pessoal da Albedo sai, Ross tece um comentário.

- Eles irão nos dar trabalho.

- Você está aqui para que isso não ocorra. Espero que você tenha sucesso. Para o nosso bem. – alerta Petersen.

Bennet olhou de soslaio para o colega que não estava nada satisfeito em ter lidar com aquela tripulação.

****

Diário pessoal, data estelar 48483.2 – O treinamento continua árduo para muitos de nós. Não tinha idéia como estava enferrujada. Após um mês de treinamento, os meus músculos parecem não mais responderem a minha vontade, tão pouco às ordens da Comandante Okaido ou o sádico do Klag. O grandão sempre foi um cara reservado, mas agora parece ter encontrado uma posição para extravasar suas emoções reprimidas. Para piorar as coisas estamos proibidos de usar os sintetizadores. Apenas estão nos servindo ração padrão da Frota. Aqueles dois quilinhos a mais, que sempre me preocupavam, foram expulsos de meu corpo com mais três amiguinhos. Se continuar assim precisarei de um uniforme com um número menor”.

Agora vou tentar dormir um pouco. Nunca sabemos a que horas iremos acordar. Podemos dormir quatro horas ou apenas vinte minutos. Isto faz parte do programa de treinamento. Pelo menos é o que a comandante diz. Quanto tempo será que ela dorme? Allison desliga.

****

Diário pessoal, data estelar 48499.3 – Estamos apenas na metade do treinamento e parece que ele não vai acabar nunca. O comandante Bennett tem criado holo-programas bastante realistas. Hoje consegui até matar um Jem’Hadar, antes que outros quatro me trucidassem. Estou melhorando. Antes eu nem podia vê-los até ser tarde demais. Eles parecem possuir uma capacidade de se camuflarem no ambiente. A comandante me cumprimentou e disse que sou um grande candidato a ganhar a estrela da Federação *5. Acho que ela estava sendo sarcástica.

Zagar me preocupa muito. O garoto tem se esforçado à beça e se arrasta, literalmente, para cumprir suas tarefas. Se não fosse pela sua inteligência e habilidades em baixa gravidade, já teria sido cortado do esquadrão. Nos disseram que formarão duas equipes de elite para formar os grupos avançados. Os oito melhores serão selecionados e espero não estar entre eles, mas minha memória sempre me trai e acabo lembrando o que fazer corretamente a cada minuto e, num impulso incontrolável, não consigo errar ou fingir para mim mesmo.

O mais interessante tem sido usar os novos armamentos. Nunca havia usado um rifle phaser tipo IV ou explosivos que liberavam magnasita para derreter placas de duranium ou utilizar sua radiação para bloquear emissões de phasers ou transportes. O que mais a Frota tem para revelar?

Acredito que esta guerra em que vão nos meter será uma das mais sujas e temo que deve ter muita gente na Frota ansiosa por isso.

Oh...Estão nos chamando para o refeitório. Esta é melhor parte do dia. O que será que temos para o café? Será que a Allison vai me dar a sua ração de novo? McCormick desliga.

****

Querido pai. Não sei quando você poderá receber esta minha carta, mas escrever para você faz com que eu fique mais tranqüila. Pelo menos terei alguém para partilhar as minhas preocupações. Fazer diários pessoais nunca foi um hábito meu , mas sei o quanto isto pode ser relaxante e sugeri isto a chefia de instrução, que acatou prontamente”.

Um dos momentos mais difíceis em minha estadia na base foi logo no primeiro dia, quando tive que dispensar os vinte e seis civis; pessoal da área científica, manutenção e da cozinha; e quatorze oficiais da nave que não se encaixavam no perfil requerido pela inteligência da Frota. Não que estes não tivessem seus méritos, mas possuíam uma família para retornar. Eram pais, mães, maridos e esposas. Isto me deu uma clara noção de que as nossas missões poderão ser uma viagem com bilhete só de ida. Nunca fui de deixar o medo dominar minhas ações, mas confesso que estou apavorada.

Já falei sobre Dorn, o nosso barman? Ele é uma pessoa adorável, mas por ser civil e não ligado à Frota ou a Federação não poderia continuar conosco e tive que dispensá-lo também. Soube que ele ficou bem triste, mas ordens são ordens. Este é o peso que um comandante deve carregar. Seguir ordens acima dos desejos pessoais. Para mim é difícil deixar o coração de lado. Por falar nisso, já lhe falei de Dorian?” Não, espere...Computador...Apagar a última frase.

Acho que papai ainda não está pronto para saber que pode ganhar um genro. Sinto tantas saudades dele que tenho sonhado com ele todas as noites. Acho que vou tomar um banho frio hoje. Computador recomeçar a gravação.

Guardarei esta carta junto com as outras e as enviarei assim que puder e deixarem. Beijos da sua Sarah”.

****

Diário do esquadrão Nova, número oito. Data estelar 48509.7 – Ontem, durante minha sessão com a doutora T´Vel, fui obrigado a readmitir o luriano Dorn ao nosso esquadrão. Ela, a princípio, mostrou-me um gráfico de rendimento da moral da tripulação que estava em uma linha decrescente. Alegou que a presença dele melhorava a eficiência da tropa que antes era mais feliz quando ouvia as suas histórias e piadas. Depois me mostrou um relatório dos níveis de serotonina, o hormônio da felicidade, em níveis baixíssimos. Mas o que me convenceu mesmo foi vê-lo bêbado e choramingando no bar da estação. Ele havia entrado em depressão por ter sido rejeitado e consumiu duas caixas de conhaque sauriano. Ele deu muito trabalho. Foram preciso dez homens para imobilizá-lo e o levarem para a ala de detenção. Levei o caso ao Almirante Petersen e mostrei os gráficos da dra. T´Vel e resolvemos os dois problemas readmitindo ele no grupo. Ele passou de taifeiro honorário para cadete honorário. Algo que o fez muito feliz. E para não parecer que fizemos isso apenas por piedade, o colocamos no programa de treinamento. Seu ânimo contagiou rapidamente os seus colegas que aumentaram sua eficiência nos treinamentos. A dra. estava certa uma vez mais.

Devo dizer que eu mesmo estou feliz. Hoje, pela manhã, recuperei meus poderes psicocinéticos. Só preciso controlá-los melhor. Tentei me servir de um copo com água, mas acabei arremessando-o contra a parede. T´Vel sugeriu que fizesse, na sessão de hoje, uma tarefa simples: colocar uma mesa de jantar com a mente. Só não foi perfeito porque, no último momento, derramei vinho na toalha e, ao me frustrar, deixei a garrafa cair. Mas já é um grande progresso para um macho betazóide.

A Dra. T´Vel acha que, quanto mais eu repetir o treinamento, mais terei o domínio sobre as minhas habilidades. Só não sei se serei capaz de usá-las em combate. Terei que falar com o comandante Bennett para ele projetar um cenário para mim no holodeck. O difícil é fazer as vozes se calarem depois que deixei de usar o meu bloqueador sináptico. Por isso tenho que ficar isolado o tempo todo. Ficar perto de uma pessoa é o mesmo que me obrigar a ler seus pensamentos. E alguns são muito dolorosos para mim. Sinto falta do convívio com a tripulação. Estão todos tão ocupados no dia-a-dia que nem nos falamos e até mesmo as refeições não podemos compartilhar mais. Tenho me alimentado em meu alojamento, sozinho. Na nave, na maioria das vezes, comia junto com os oficiais menos graduados para manter uma certa empatia com a tripulação. O único contato que tenho com a minha tripulação é através de relatórios. Computador parar gravação.

A melancolia tomou conta de Alkon. Ele queria poder dizer que o que sentia mais falta era de poder estar com Sarah. Ele precisava arrumar um jeito de poder vê-la. Já fazia quase um mês e meio desde que se beijaram pela última vez. Ela deveria estar pensando que ele tinha perdido o interesse. Ela não sabia o real motivo de seu confinamento. A doutora estava proibida de revelar seu treinamento para qualquer outra pessoa. Talvez, se ele se concentrasse o suficiente, poderia mandar uma mensagem em seus sonhos, enquanto ela dormia. Alkon ficou a pensar o que ela estaria fazendo. Será que ela pensava nele também?

****

“Diário da engenheira-chefe Naomi Silva. – A equipe que trabalha no upgrade da Albedo é incrível. Não acredito que realizamos tanto em tão pouco tempo. O almirante Petersen, um dos idealizadores do projeto original, já havia preparado tudo meses atrás e teve carta branca da Frota para implementar todas as novidades da tecnologia de vários mundos deixando-as a nossa disposição. Todo o casco foi remontado e reforçado. Nunca vi tantas ´abelhas´ *6 , parecia que a base fora atacada por um enxame de insetos metálicos. A baia interna de atracação ficou infestada deles.

Agora a Albedo tinha cento e oitenta metros de comprimento, quinze a mais do que anteriormente; quarenta metros de altura, seis a mais, o que nos deu para criar mais um deck para carga e suprimentos, e setenta metros de largura, oito a mais do que anteriormente; devido ao reforço do casco primário e secundário, a instalação de um número maior de defletores, que agora eram metafásicos, com capacidade de 688.500 GW, e o alargamento do hangar, onde mais naves auxiliares poderiam ser armazenadas.

A tecnologia dos novos escudos foi adquirida pelos cientistas da Federação dos Breens, bem como o novo reator de dobra e o dispositivo de camuflagem. Tais adaptações ainda são experimentais e por isso escolheram uma nave pequena para testá-la. A princípio usariam na Defiant, mas esta foi comissionada na estação DS9 e usará um dispositivo de camuflagem romulano. Só Deus sabe o que eles cobrarão por isso. Bom, se serve de consolo, não somos mais a menor das naves da Frota agora. Allison ficará contente em saber disso.

Os armamentos serão pesados e teremos para todos os gostos.

Bancos phasers tipo X com 750 tW de potência, cento e vinte torpedos fotônicos e quânticos à disposição, com salva dupla de vinte por minuto. Instalamos também dois canhões isomagnéticos e drenadores de energia que são capazes de desabilitar os escudos de naves inimigas por até quinze segundos, nos dando tempo para revidar ou fugir. Esta tecnologia pegamos dos cardassianos, só não sei se eles sabem disso.

As naves auxiliares serão também bem equipados e armadas. Com aumento do espaço do hangar poderemos acomodar três shuttles tipo 9, que funcionarão como caças de ataque e naves de reconhecimento; um shuttle tipo 11, para missões de tropa de assalto, por ter uma capacidade de acomodar mais tripulantes. Dez contra quatro do tipo 9. Teremos também um shuttle tipo 16 para serviços rotineiros de exploração ou resgate. Sem contar com dois pods de serviço para consertos no espaço.

Estamos instalando circuitos bio-neurais. Eu, particularmente, fui contra. Processadores bio-neurais são altamente eficientes, porém são sujeitos à infecção. Eu não gostaria de ver a nave ´espirrando´ durante uma batalha. Por mim ficava com os velhos processadores ópticos, mas fui voto vencido. Imagino como doutora reagirá quando instalarmos o HME*7 na enfermaria. Em breve este programa será padrão em todas as naves da Federação. Nós fomos a terceira a instalá-lo. As primeiras foram a Enterprise e a Voyager. Ele nos deu um certo trabalho, pois tivemos que instalar projetores holográficos em todos os setores chaves da nave.

O que mais me impressionou foi quando as ogivas de bilitrium chegaram. Elas são capazes de destruir um planeta inteiro ou causar uma explosão considerável no espaço. Alguém na Frota está realmente esperando o pior e não está para brincadeira.

Temos cerca de duas mil pessoas trabalhando para que entreguemos a nave no prazo e acho que conseguiremos. Contudo ainda estou confusa. Apesar de estar orgulhosa com o meu trabalho estou apreensiva com os riscos que correremos após entrarmos na caverna do dragão. Que Deus consiga iluminar o nosso caminho e proteger a todos. Naomi desliga.”

****

Capítulo IX

Base Estelar 375
Data estelar 48609.5
Reunião de trabalho

Em volta da mesa estavam o Almirante Petersen, o vice-Almirante Ross, o Comandante Bennet, o Tenente Kobler, o Capitão Alkon, a Comandante Okaido e a Tenente comandante Naomi Silva. O Almirante Petersen tomou a palavra:

- Senhores...Estamos a poucos dias do lançamento da Albedo. Para a sua primeira missão. Como estão os seus homens Capitão?

- Creio que a comandante esteja mais qualificada, pois foi ela que supervisionou o treinamento. Imediato... – Alkon passa a palavra não sem antes olhar fixamente para Sarah. É a primeira vez, depois de muito tempo, que eles se viam. Sarah ficou a fitá-lo com saudades, mas devido à situação em que se encontravam, ignorou seus sentimentos e respondeu prontamente a pergunta do almirante:

- Mantivemos os níveis de exigência bem altos. De sessenta e três, apenas cinco não atingiram as nossas expectativas. Uma delas foi Dorn. – disse pesarosamente.

- Oh, não! Ele de novo! – reclamou Petersen.

- Senhor, eu gostaria de interceder a favor dele. – disse Alkon.

- Capitão...Já discutimos sobre isso. Ele já teve sua chance. Não podemos mais abrir exceções.

- É que a constituição física dele não era adequada aos exercícios impostos. A gravidade, a atmosfera...Além do mais ele não terá nenhuma função em ações de campo. Seu trabalho deverá ser de retaguarda. Veja o exemplo de Zagar. Ele também não atingiu os índices dos exercícios físicos nas condições padrão da Frota, mas nos de ausência de gravidade não houve quem o superasse.

- Está bem, está bem. Não queremos vê-lo tomar outro porre, não é? Da outra vez já foi difícil arrastá-lo para a detenção.

- Senhor...- falou Sarah novamente – Quanto à dispensa dos civis. A maioria era da equipe de manutenção da nave, neste item estamos desfalcados diante de uma emergência mais série. Só a equipe de engenharia não dará conta do serviço.

- A idéia, Comandante, é que vocês não fiquem muito tempo fora no espaço. Vocês realizarão missões de curta duração. Não deverão passar mais do que duas semanas no espaço e a manutenção poderá ser feita aqui na base quando voltarem. Além do mais iremos incluir em sua tripulação alguns de nossos agentes que deverão cobrir os turnos de serviço.

- Agentes? Que agentes? Eu não fui informada disso. – reclamou Okaido.

- Comandante...Nem tudo tem que ter a sua permissão ou a do Capitão Alkon. Vocês estão aqui para receber ordens. – disse Ross enfaticamente. – Manteremos a tripulação em no máximo oitenta pessoas. Vinte e dois oficiais e cinqüenta e oito tripulantes. Estarão sendo comissionados a partir de hoje o bajoriano Siro Lian, Alferes recém-incorporado. – a imagem de Siro apareceu no telão da sala.

- Lian é um ex-terrorista do extinto grupo Shakaar que lutou pela independência de Bajor. Há cinco anos se envolveu com os maquis realizando uma dezena de sabotagens, contrabandos e assassinatos. Há dois anos Lian se entregou após um malfadado ataque a uma colônia cardassiana onde morreram apenas mulheres e crianças. Ele já fez algumas incursões ao quadrante Gamma e já conseguiu fugir dos Jem’Hadar umas duas vezes. Acredito que ele será de muita valia. – informou o Tenente Kobler.

- Temos também o Tosk. – Petersen apertou um botão na mesa e a imagem do bajoriano desapareceu dando lugar a uma figura reptiliana humanóide.

- Tosk ? – perguntou Okaido.

- Tosk é um reptóide evoluído artificialmente através de engenharia genética para servir de caça para os Hunters; uma raça de caçadores do quadrante Gamma. Por ele ser originário do quadrante Gamma, será um ótimo batedor. Ele foi capturado pela USS Otawa e pediu asilo. Ele não deseja mais ser caçado e concordou em ser agora um caçador, indo contra todo o seu treinamento e instintos implantados. Pedem que o chamem de Vulpes por que ninguém de sua raça tem um nome. – informa agora o comandante Bennet.

- Vulpes? Um nome incomum...- comenta Alkon.

- Quando ele acessou os bancos de dados da Otawa pesquisou sobre caça de animais e simpatizou com as raposas vermelhas da Terra que eram caçadas por esporte como ele. Vulpes vulpes é o nome científico da raposa vermelha. – explicou Ross.

- Tenente Naomi, quando a nave estará totalmente operacional? – perguntou Petersen.

- Suas especificações foram seguidas à risca, senhor. Permita-me elogiar o projeto e a equipe que o senhor destacou. Ela será uma das melhores naves desta classe, e ,se o senhor me permite, talvez a melhor da Frota. Nem a Enterprise poderá ser comparada a ela e... – a tenente percebe que Alkon e Okaido estavam olhando a sua tietagem e procura logo responder o que foi perguntada – Em setenta e duas horas, senhor. Não vejo a hora de ver aquela belezoca em transdobra! – Naomi estava entusiasmada.

- Transdobra ? Espero que não encontremos nenhum campo de asteróides pela frente. – Sarah faz um pequeno comentário jocoso mas ninguém ri. Ela procurou logo esconder o sorriso.

- Bom, senhores...Nos reuniremos em três dias para as instruções finais. A sua tripulação já pode embarcar e se familiarizar com as novidades implementadas. Dispensados. – disse Petersen e em seguida se levanta, sendo acompanhado pela sua equipe. Alkon também ia se levantar quando Naomi faz um sinal para que esperassem.

- Eu preciso falar sobre algo estranho que presenciei durante esta reforma – disse a engenheira em tom baixo.

- O quê foi, Naomi? – perguntou a Imediato curiosa.

- Pode não ser nada, mas quando embarcamos as armas elas não vieram em caixas padrão da Frota. Principalmente as ogivas de bilitrium.

- Bilitrium? Ela não usa conversor de anti-matéria para causar uma explosão dos diabos? – pergunta Sarah.

- Este tipo de arma foi proscrita. Qual a origem dessas armas? Quem autorizou os embarque? – perguntou Alkon.

- Aí é que está não sei. Não há nenhum documento que comprove de onde elas vieram ou quem as mandou pra cá. Para todos os efeitos estas armas não existem. Porém acredito que tudo foi autorizado pelo Almirante Petersen – respondeu Naomi.

- Parece que vão nos meter em mais uma furada. – resmungou Sarah prevendo problemas à frente.

- Eu descobri mais umas coisas...- disse Naomi mais baixo ainda.

- Tem mais? – perguntaram Alkon e Sarah ao mesmo tempo.

- Quando estava verificando os sistemas da nave tive total acesso aos bancos de dados da Frota e as comunicações. Não resisti e tentei contato com a Tenente Rivera, que era minha assistente e tinha sido dispensada por ser casada, mas não consegui. Nem ela nem os demais que foram dispensados jamais voltaram para casa. Fiquei intrigada e ao pesquisar o paradeiro deles esbarrei em uma notícia que me deixou assustada.

- Eu é que estou ficando assustada com essa história. Conta logo, o que mais você descobriu? – Sarah estava bem séria.

- Nós constamos como desaparecidos em uma anomalia espacial não identificada. Nem eles nem nós existimos mais perante a Frota. O isolamento em que nos impuseram desde que chegamos foi para que ninguém esbarrasse conosco. O informe foi liberado oficialmente na noite de ontem. Será dado um alerta geral em uma hora. O pessoal das outras naves não poderão desembarcar na estação por causa de uma estranha epidemia que, provavelmente, nós trouxemos para cá antes de desaparecer.

- Como? – Okaido estava perplexa.

- O que eles pretendem com isso? Por que o almirante... – Alkon logo deduziu sozinho o por que daquilo tudo. – Pelos Deuses! Ele me disse que medidas extremas de segurança estavam sendo tomadas para assegurar o sigilo de nossa missão. Só não sabia até onde eles iriam. Será que o alto comando autorizou uma coisa dessas?

- Capitão...Tenho a impressão de que o alto comando não tem a mínima idéia do que está acontecendo aqui. Alguém está mudando as regras que conhecemos. – justificou Naomi.

- Como poderiam montar uma operação deste porte sem que o alto comando ou a Federação soubessem? – perguntou Sarah ainda atônita.

- Talvez alguém saiba. – ponderou Alkon.

- Como assim? – perguntou a imediato.

- Talvez a mesma pessoa que nos mandou sondar o terreno no quadrante Gamma da primeira vez esteja por detrás desta empreitada. Esta pessoa é do alto comando e com poder suficiente para encobrir uma operação como essa. Li num relatório seu Naomi, que estamos utilizando na Albedo tecnologia Breen e tecnologia cardassiana. Pelo que sei não temos nenhum acordo com nenhum destes povos que promova transferência de tecnologia.

- Está correto, senhor. Estas tecnologias foram apropriadas indevidamente.

- Quem poderia obter tal coisa ? – Sarah não sabia mais o que pensar.

- Isto está me parecendo coisa da seção 31. – diz Alkon taxativamente.

- Seção 31? A agência secreta? Eles podem fazer isso? – Sarah era só perguntas.

- Não só podem como já fizeram. Toda operação suja da Frota está a cargo deles. Está me parecendo que vamos fazer um servicinho para eles. – Alkon estava indignado bem como suas duas comandadas. – Naomi...Continue com a sua investigação. Descubra o máximo que puder disto tudo. Investigue também os nossos amigos Petersen, Ross e Bennett. Eu vou tentar descobrir onde estão os nossos outros tripulantes. Sarah, conto com sua ajuda. Não quero que comentem nada disto com mais ninguém até termos provas concretas. Não vou querer ser chamado de inconseqüente novamente e nem expor vocês a mais um vexame.

- Sim, senhor. Eu sempre gostei de romances policiais, mas nunca pensei em viver um. – disse Naomi um pouco excitada com todo aquele perigo.

- Naomi, cuidado, isto é sério. Se descobrirem que estamos na cola deles as conseqüências podem ser irreversíveis. Se é que me entende. – diz Sarah cautelosamente.

- Sim, senhora. Serei cuidadosa. Vou cobrir o meu rastro por onde passar.

- Muito bem, garotas, ao trabalho. Temos uma nave para colocar em funcionamento. Vamos agir normalmente.

- Sim, senhor. – respondem as duas.

Os três se retiram da sala olhando para os lados para terem certeza de que não havia ninguém por perto e depois se separam. Contudo, a imagem deles estava sendo captada por câmeras de segurança colocadas em lugares estratégicos da base e o almirante Ross estava observando-os o tempo todo. Ele voltou a imagem para desde que ele saiu da sala e notou que a engenheira-chefe estava exaltada e parecendo se queixar de algo com o capitão.

- Computador...É possível saber o que estavam dizendo?

NEGATIVO.ÁUDIO DA SALA DESLIGADO

- Por que o áudio estava desligado ?

ORDEM DE SEGURANÇA 4275

- Quem deu esta ordem?

ALMIRANTE PETERSEN

O almirante era um homem precavido. Não queria que ninguém gravasse a reunião e também não queria que soubessem que a reunião era secreta. Se mais tarde houvesse questionamentos sobre o teor da reunião poderia alegar defeito técnico de dizer sua versão da conversa. Ele sabia que estiveram conversando com fantasmas. A imagem implicava Ross e Bennett também, por isso ela foi permitida. Eles não usariam a imagem sem se incriminar também. Isto significava que ele não confiava em ninguém. A sua paranóia o estava protegendo. Muito esperto. Todavia, Ross iria manter o olho na engenheira da Albedo para tentar descobrir o por que de sua inquietação. Toca no seu comunicador:

- Ross para Kobler.

- Kobler falando.

- Quero que fique de olho na engenheira-chefe da Albedo. Vinte e quatro horas se for preciso. Informe qualquer atitude incomum dela.

- Sim, senhor

Ross se recosta em sua cadeira e fica pensando se a escolha daquele grupo tinha sido adequada. Eles eram espertos demais para o seu gosto.

- Computador...Rodar programa de leitura de lábios. Aproximar as imagens da sala de reunião e simular a conversa no tempo zero ponto onze quatro dois até zero ponto dezoito.

****

Capítulo X

Siro Lian estava se sentindo traído. Parecia que havia trocado uma prisão por outra. A exceção dos treinos diários, que era obrigado a fazer, sua vida não havia mudado muito. Nem a mudança de cardápio valia muita coisa. È claro que, ao invés de uma cela, estava em um quarto confortável, mas ainda não possuía o que mais queria: sua liberdade. Mas como dizem...Tudo tem o seu preço.

Escutou a sua porta abrir. Nem se deu o trabalho de se levantar do sofá em que estava deitado.

- O que é agora, Kobler? Outro treino? Eu já estou cheio destes testezinhos. Quando vou conhecer o tal capitão que você falou?

- Talvez se der ao trabalho de se levantar para me cumprimentar poderemos resolver esta parte. – disse Alkon que estava ao lado do tenente Kobler.

Lian deu um salto do sofá e, constrangido, tentou se desculpar.

- Desculpe, eu...Eu não tinha a mínima idéia....Eu não tive a intenção...

- Deixe de gaguejar homem. – ordenou Kobler – Alferes Siro Lian este é o capitão Dorian Alkon da USS Albedo. – Kobler, enfim, fez as apresentações. Os dois homens estenderam as mãos e se cumprimentaram.

- Alferes Siro. Estou ciente de sua ficha e... – dizia Alkon quando foi interrompido por um comentário do alferes.

- Curioso...- disse Lian sorrindo.

- Perdão?- Alkon não entendia o que o alferes queria dizer.

- O senhor se referiu a mim pelo nome de modo correto. Muitos me chamariam de alferes Lian.

- Já trabalhei com bajorianos no passado e conheço um pouco de sua cultura. Como ia dizendo sei de seu acordo com a Frota para a redução de sua pena e...- Alkon é interrompido mais uma vez.

- Ei! Espere um segundo! Redução? Não! Acho que houve um engano nesta parte. Kobler...Você me garantiu o perdão total se entrasse na sua Frota e orientasse seus homens contra os Jem´ Haddares.

Alkon olha para o tenente que estava se sentindo acuado. Ele tentou se explicar o mal entendido, sem muita habilidade:

- Entenda Lian...Os meus superiores resolveram que devemos dar um passo de cada vez. Dependendo de como você se portar durante as missões...aí sim poderemos rever o seu caso e dar-lhe o perdão total.

- Rever o meu caso? Missões? Você me disse uma missão. Uma missão muito arriscada no quadrante Gamma. Se conseguíssemos sair com vida eu poderia cair fora. Que história é essa agora? E o contrato que eu assinei?

- Você leu antes? – perguntou Alkon tentando retomar sua participação naquela conversa.

- Não, mas...- Lian, percebendo que fora ludibriado, voou no pescoço de Kobler – ORA SEU .....!

Alkon tentou separar os dois e foi arremessado para longe por Lian. Kobler aproveitou o momento para se soltar desferindo um soco no bajoriano que o fez ficar mais irritado. Lian acertou um chute em Kobler que o jogou contra a parede. Alkon, deitado, usou o seu poder psicocinético e lançou uma estatueta, que estava sobre uma mesa, na cabeça de Lian, que, antes de cair desmaiado, ainda se virou na direção do capitão Alkon demonstrando surpresa pelo golpe que recebera.

Alkon se levantou e foi ajudar o tenente Kobler.

- Você está bem?

- Um pouco...sem...ar. Me dê dois minutos...Aí estarei em forma de novo. – respondeu o tenente.

- Vou ter que exercitar toda a minha capacidade de tolerância com este aí. Tem certeza de que ele vale a pena?

- O almirante disse que ele será vital para esta missão.

- Espero que o almirante esteja certo. – diz Alkon ajeitando o seu uniforme.

Os dois oficiais ficaram olhando o bajoriano desmaiado por alguns instantes. Alkon foi até o sintetizador, pediu um copo com água gelada e em seguida derramou sobre a cabeça de Lian, que acordou assustado.

- O quê?

- Vamos, levante-se alferes. Temos muito que conversar.

- Não creio que queira mais conversar com vocês. – respondeu Lian massageando o galo que crescia em sua cabeça.

- O que o senhor quer é irrelevante, alferes. A partir de agora ou é seguir as minhas ordens ou voltar para Meldrar I e pegar mais dois anos por ter agredido oficiais da Frota Estelar. Estamos entendido?

- Sim.-disse Siro Lian baixinho.

- Não ouvi direito a sua resposta, alferes. – disse Alkon com autoridade.

- SIM, SENHOR. – respondeu Lian mais alto.

- Parece que estamos nos entendendo. Agora pegue suas coisas. Irá embarcar. Partiremos em dois dias. Até lá você se acostumará com a nave. Não deixe de passar na enfermaria para cuidar deste galo.

Lian se afasta para pegar sua mochila e algumas roupas dentro do armário. Depois ele é escoltado para fora da cabine por Kobler que o leva até o deck de atracação. Alkon fica para trás. Respira fundo, fecha os olhos e tenta ouvir as vozes dos tripulantes perdidos. Naquele deck não conseguia sentir nada. Ou eles estavam desmaiados ou estavam mais abaixo. Resolveu chamar Okaido.

- Número um...Encontre-me no bar panorâmico em dez minutos. Chame a nossa amiga.

Sim, senhor. Estaremos lá.

BAR PANORÂMICO
DEZ MINUTOS DEPOIS

Alkon, Sarah e Naomi estavam reunidos mais uma vez, sob o pretexto de relaxarem um pouco tomando alguns sucos de frutas, para tentarem descobrir o paradeiro dos seus colegas desaparecidos.

- O que vocês conseguiram? – perguntou logo o capitão.

- Eu não obtive sucesso até agora. Esta base é imensa. Levaríamos mais de uma semana para revirar. Eu só pude usar um tricorder quando tive algum tempo livre. O que não foram muitos.

- Temos menos de dois dias para achá-los. – diz Alkon com certa apreensão.- Por que não usamos os sensores da nave? Se eles podem vasculhar um planeta... – sugere logo em seguida.

- A base está com os escudos levantados. De vez em quando eles os baixam para efetuar um transporte, mas o tempo de janela é muito curto para realizar uma sondagem completa. Acredite. Eu já tentei isso. – explica Naomi para a frustração de Alkon.

- Que tal o centro de operações da base? – pergunta Sarah tentando encontrar uma outra opção.

- Muito vigiado. Se tentássemos usar um terminal seríamos detectados. – diz Alkon decepcionando a sua imediato. – Eu fiz uma sondagem mental e eliminei dez decks esta manhã. – informou sem muito entusiasmo.

- Ótimo! Só faltam mais trezentos e oitenta e sete! – disse Okaido ironicamente

- É parece que não estamos indo nada bem. Vamos precisar desabilitar os escudos da base. É a nossa única opção. Teremos que fazer isso o tempo suficiente para fazer a sondagem através da Albedo. – Alkon definiu o plano a ser executado.

- Não conseguiremos fazer isso sozinhos. Eu e o senhor estamos sendo bastante requisitados para os preparativos de partida. – ponderou Sarah Okaido.

- Eu estou sendo farejada de perto pelo tenente Kobler. Parece que ele sabe que estamos tramando algo. Só pude vir aqui por que ele teve que estar com o senhor. Ele esteve a manhã toda atrás de mim e nem se deu o trabalho de disfarçar. Pedi ao alferes Crispen para dizer, caso ele me procurasse, que estava no banho. Deixei meu distintivo em meu alojamento na nave no caso dele querer confirmar minha localização. Este aqui peguei emprestado do pobre Crispen. Espero que o tenente seja um homem paciente. Mas não posso me demorar muito. Tenho tanto trabalho que vou ter que ficar na nave pelo resto do dia. – justifica-se a engenheira – Quanto àquela investigação que o senhor pediu para fazer... Os arquivos deles estão bloqueados. São altamente confidenciais. Não possuo os códigos de segurança para desbloqueá-los. Contornei alguns protocolos de segurança e achei muito pouco. Ross e Bennett são oficiais de carreira. Já possuíram alguns comandos. Kobler é peixinho de alguém e os segue para onde vão. Mas o que mais me intrigou foi que, o nome Petersen não me era estranho e descobri, no nosso banco de dados, que ele é gerente administrador do projeto das naves classe Nova, ou foi, até a pouco tempo. O nosso almirante Petersen era um almirante de escritório, um engenheiro.

- Interessante...O que faria um homem deste ser destinado para o tipo de operação que está sendo montada aqui? – Alkon ficou muito intrigado.

- Parece que vamos ter que envolver mais gente nessa. Nós três não daremos conta disso pois estamos sendo muito solicitados e visados. – sugere a imediato.

- Eu não queria que isto fosse necessário...- resmunga Alkon.

- Dorian...CAPITÃO – se corrige Sarah percebendo que Naomi estranhara a intimidade da imediato com o capitão – Não precisaremos contar tudo. É só explicar o que queremos que eles façam e o resto fica por nossa conta.

- Está bem. Elaborem um plano. Confio em vocês. Tenho uma reunião com o almirante Petersen em cinco minutos. Boa sorte.

- Pode contar conosco. – diz Sarah sorrindo.

Alkon sai do bar e Sarah retoma a palavra:

- Quem você acha que pode nos ajudar?

- Acho que sei como podemos fazer isso. É uma idéia maluca, mas acho que vai dar certo.- Naomi fica a explicar os detalhes e, pelo sorriso estampado na cara da comandante, ela estava adorando cada parte dele.

CENTRO DE OPERAÇÕES – DUAS HORAS DEPOIS

Dorn surge do elevador empurrando um carrinho cheio de guloseimas para a surpresa dos oficiais de plantão.

- Um presente de despedida da tripulação da USS Albedo, pessoal. Não se acanhem, podem se servir, é de graça. – disse o luriano da forma mais simpática possível.

- O senhor não pode ficar aqui. Este setor é restrito. – disse um oficial.

- Ora, eu sei. Mas tenho uma autorização do próprio almirante para esta confraternização. Eu segui os protocolos e, como taifeiro da nave e oficial da moral, estou apenas cumprindo ordens. – Dorn mostra-lhe uma folha de polímero com a ordem e a assinatura do almirante Petersen.

O documento é passado ao comandante Bennett que a lê e a escaneia para confirmar a validade da assinatura. Somente depois que o computador reconhecer a ordem como válida é que o comandante permite que os petiscos sejam devorados. Ele próprio é o primeiro a se servir de um canapé.

No meio do pequeno tumulto que se segue, Sleek, o sauriano, sai debaixo do carrinho, onde estava contorcido devido a maleabilidade de seus ossos, e se esgueira até o console de controle dos escudos da estação. Da Albedo Naomi e Zagar acompanhavam o sucesso da empreitada de um console da engenharia. Assim que os escudos caíram, Naomi começou a fazer a sondagem. Com a base quase vazia, não foi difícil e nem demorado encontrar vinte pessoas em um mesmo ambiente.

- Armazém dezoito. Vai! – ordenou Naomi.

O jovem elaysiano se transporta carregando uma grande maleta. Ao chegar onde seus companheiros estavam cativos, não perdeu tempo mesmo quando vieram saudá-lo como seu salvador.

- Escutem, tenho pouco tempo para tirá-los daqui. Preciso que me ajudem. Colem estes dispositivos nas paredes, rápido! Òtimo! Agora fiquem nas mesmas posições em que estavam antes e ajam com naturalidade. – neste momento Zagar filma a todos e transfere a imagem para os projetores holográficos que acabaram de instalar. No minuto seguinte tocou em seu comunicador avisando que estavam prontos para partir. McCormick e a Dra. T´Vel esperavam o grupo na sala de transportes da ala de carga da Albedo no deck sete. Assim que o transporte foi efetuado uma imagem holográfica do grupo surgiu no local.

Um bip soou no comunicador de Dorn avisando que obtiveram sucesso. O luriano, com apenas um olhar, avisou a Sleek que era hora de saírem, este, a esta altura, estava misturado com os outros oficiais que não estranhavam a sua presença,.

- Isto bebam mais um pouco...Está gostoso não? Aproveitem o presente. Mando buscar a bandeja e os copos mais tarde. Agradecemos a hospitalidade mas tenho que voltar para a nave e...preparar o jantar. Não bebam demais, hein? Até! – Dorn se retira com seu carrinho e segue para o elevador de costas e só percebe a chegada do almirante Ross e do tenente Kobler quando esbarra neles.

- Mas o que está havendo aqui? – grita irritado o almirante.

- É um prefente da Alf..bedo, fenhor. Quer um ?– responde inocentemente o comandante Bennett com a boca cheia de canapés.

Dorn tenta sorrir e disfarçar todo o seu medo de ser descoberto. Sleek, por sua vez, não conseguia parar de sibilar de nervoso, o que chama a atenção de Ross e o faz levantar a toalha que encobria o carrinho e navegador da Albedo. Em seguida o almirante olha para o luriano em busca de uma explicação.

Dorn só consegue engolir a saliva e sorrir nervosamente. Não tinha o que falar. Haviam sido descobertos. Ele só se lamentava em ter falhado na primeira missão que lhe confiaram.

****

Capítulo XI

Todos os oficiais seniores da USS Albedo estavam perfilados, lado a lado, na frente do almirante Petersen, mesmo a Dra. T´Vel, Allison, e Klag; que não tinham participado da missão e não tinham idéia do porquê daquela reprimenda. O almirante expressava mais decepção do que raiva em seu rosto. Ele andou duas vezes na frente deles buscando as palavras certas a proferir.

- O que eu farei com vocês ? – enfim perguntou.

- Permissão para falar, senhor ? – solicitou o capitão Alkon.

- Concedido.

- Não vejo por que constranger os meus oficiais. Assumo total responsabilidade pelos seus atos. Se alguém tiver que ser punido, que seja eu.

- Muito nobre, capitão, mas não estamos falando de constrangimento. Nem mesmo estou falando de punição. Na verdade, vocês não deveriam nem estar na minha sala uma vez que, neste exato momento, estão perdidos em uma anomalia espacial em algum lugar entre o sistema Hatarian e aqui. O que quero deixar claro a todos vocês que soldados obedecem a ordens sem questionar, caso contrário não servem para usar estes uniformes. Deixe a espionagem para os nossos espiões. Quando vocês tiverem que ser informados de algo , e se eu achar conveniente, vocês o serão.

- Não vejo a necessidade de criar esta falsa notícia ou de deter meus tripulantes como se fossem criminosos. Se é preciso uma ação secreta contra os inimigos poderia requisitar alguns de nós ou enviar os M.A.C.O. *8 – contrargumentou Alkon.

- Capitão...- Petersen parecia estar perdendo a paciência. - A missão em que vocês serão enviados é extremamente secreta. Precisamos nos salvaguardar de qualquer vazamento de informação. A inteligência da Frota achou necessário plantar várias informações e desinformações nos sistemas que nem o melhor investigador do Universo saberia o que realmente acontecera com vocês. Mesmo que descobrisse seria desacreditado com tantas contra-provas que em pouco tempo todos se esqueceriam o por quê da investigação. E até lá a sua missão teria acabado e vocês reapareceriam para acabar com qualquer boato da imprensa. Portanto, capitão Alkon, para o que irão enfrentar, vocês devem continuar desaparecidos e incomunicáveis, inclusive seus vinte tripulantes que foram afastados desta primeira etapa da missão.

- Primeira etapa? – perguntou Alkon.

- Sim. Haverá mais de uma incursão no território inimigo. Eles ficarão aqui na base para servir de retaguarda. – explicou Ross.

- Peças de reposição, você quer dizer. – disse Alkon sem meias palavras.

- Você pode chamar assim. Eles serão reincorporados à tripulação caso aja alguma baixa durante uma missão. – respondeu Ross.

- Os senhores poderiam ter evitado tudo isso se tivessem sido mais claros quanto aos objetivos da missão. – disse o capitão ainda inconformado.

- Vocês possuem um senso aguçado de lealdade, criatividade e desconfiança. Tais qualidades serão cruciais em sua força tarefa. Infelizmente os capitães da Frota têm um hábito de agirem por conta própria e nem sempre seguirem às ordens dadas. – disse o almirante Petersen.

- Eu sou um oficial da Frota estelar e fui treinado para obedecer a ordens, senhor; mas no espaço profundo temos que saber andar com nossas próprias pernas se para toda ação tivéssemos que pedir consentimento do alto comando...

- Então escute mais uma vez, capitão. Você e sua tripulação estão sob MEU comando. E irão obedecer às MINHAS ordens. OBEDECER. Não confrontá-las.

- Senhor, eu...- Alkon tentou ponderar mas foi impedido.

- SILÊNCIO! Não dei permissão para falar. Não quero ouvir mais nada. Já disse tudo que precisavam ouvir. Até mais do que deveriam. Estarão confinados em seus alojamentos até segunda ordem. Dispensados. Agora saiam da minha frente.

O grupo de Alkon retirou-se em silêncio. Petersen finalmente se sentou e enxugou o suor de sua testa com um lenço.

- Você deveria ter me avisado antes sobre este negócio de criar fantasmas. Teria me poupado deste stress.- reclamou Petersen com Ross.

- Para um almirante de gabinete você se saiu muito bem.- desconversou Ross.

- Eu já tive alguma experiência em comando, rapaz, não me subestime.

- Este Alkon será um problema. Seria melhor escolhermos outro para liderar a força tarefa. – comentou Bennett.

- Outro? Depois de tudo que investimos neles. Impossível! Embora eu ainda não tenha certeza de que ele tenha sido uma boa escolha. – diz Ross.

- Precisava isolar os homens deles? A tripulação para um capitão é tão preciosa quanto um filho. Vocês não vão fazer mais nada sem o meu consentimento. Esta missão tem um comando, está claro?

- Eu achei que ele não era confiável e que precisaríamos ter uma salvaguarda. – explicou-se Ross.

- Usando a tripulação dele como refém? Está louco, homem? Estamos do mesmo lado. Mesmo que este esteja podre. E não creio que o próprio chefe de operações da Frota os tenha escolhido ao acaso e tenha investido tantos recursos na reforma da Albedo à toa. – disse Petersen irritado.

- Talvez ele queira matar dois coelhos com um mesmo tiro. – comentou Bennett.

- O que quer dizer com isso? – perguntou Petersen.

- Acho que o comandante quer dizer que o capitão Alkon tem o hábito de constranger a Frota e...- Ross ia explicando, mas Petersen termina o raciocínio.

- O almirante Leyton os jogaria contra o Dominion para provocar uma guerra? Isto por causa de uma missão que antes ele comprometera? Você só pode estar brincando, Ross. Você é um homem prático e trabalhou para a inteligência da Frota por tanto tempo que está começando a ver fantasmas onde não existem.

- Acabamos de ver alguns saindo desta sala.- brincou Ross.

- Me recuso acreditar que mandaríamos o nosso pessoal para uma missão suicida. Isto vai contra tudo aquilo em que acreditamos e temos lutado em nossas carreiras.

- Eu apenas conjeturei, senhor. É o meu trabalho. Imaginar todos os cenários possíveis, senhor.- disse Ross por fim.

Petersen já estava sentindo saudades de seu velho escritório. Não tinha certeza se realmente tinha estômago para este tipo de serviço. A atitude de Ross e Bennett havia demonstrado que não eram confiáveis, e, ao que deixaram transparecer, o almirante Leyton menos ainda. Começou a ter a sensação que havia feito um contrato com o diabo e penhorado a sua alma em troca da continuação do projeto de sua vida: as naves da classe Nova.

****

Na Albedo Sarah puxa o braço de Alkon assim que transpassam a escotilha de atracação. Eles ficam para trás enquanto o resto da tripulação segue caminho para os seus postos. A comandante aproveita para falar com o capitão a sós:

- O quanto de dopaminalina você ainda toma?

- Quem te...Ah! Dra. T´Vel! Pensei que ela mantivesse sigilo sobre os seus pacientes.

- Ela honra seu juramento médico. Eu entrei nos arquivos dela. Queria saber por que você a via com tanta freqüência. Estava preocupada com você. Eu perguntei isso para entender como, com toda a sua capacidade psíquica, você não previu isto tudo? Como não prescrutou as mentes podres destes caras para saber que eles estavam aprontando com a gente?

- Sarah... As coisas não funcionam assim, você sabe. – diz Alkon segurando nas mãos dela. – Você está pensando que eu deveria ter sido mais agressivo, ter confrontado mais o almirante ou quem sabe, ter exigido desculpas pelo que fizeram conosco.

- Ah, comigo sua telepatia funciona, não é? – Sarah se desvencilha dele. – Esses caras estão nitidamente extrapolando a autoridade que possuem. Nós deveríamos...

- Nos queixar ao alto comando? Você sabe o que aconteceu da última vez.

- URRR! – grunhiu Sarah para extravasar a raiva que sentia – O que podemos fazer? Eu odeio sentir-me de mãos atadas.

Alkon a abraçou e disse: - Podemos assombrá-los, uma vez que agora somos fantasmas. – brinca Alkon para aliviar a tensão.

- Não brinque com isso. – Sarah tenta conter o riso – Temos que fazer alguma coisa. Não podemos deixar que nos manipulem assim.

- A verdade é que estamos presos ao nosso juramento à Frota Estelar. Como o almirante mesmo ressaltou somos soldados cumprindo ordens. Se nos rebelarmos isto será um motim e seremos os fantasmas mais caçados do universo.

- Talvez seja melhor nos unirmos aos Maquis. – comenta Sarah sarcasticamente.

- Não temos escolha. Ou melhor, duas. Seguir as ordens ou enfrentar uma corte marcial. Você questionou sobre meus poderes e o que posso dizer é que senti que o almirante Petersen é uma boa pessoa. Ele está sendo pressionado tanto quanto nós. Senti um grande desconforto vindo dele. Creio que ele também não está gostando muito do rumo que as coisas estão tomando. Ele poderá ser a nossa salvaguarda no futuro. Quanto a Ross e Bennett não senti muita sinceridade. Estão escondendo algo. E ainda tem Brixx...

- O primo de Borix,? O que tem ele?

- Eu li a mente dele, sem querer, é claro. Às vezes não consigo me controlar.Não sem meu remédio. Principalmente quando capto ondas de ódio. Ele nos culpa pela morte do primo. Sua mente está cheia de ressentimentos. Acho que ele possa até estar planejando uma vingança contra nós. Ou contra mim.

- Então o transfira. Diga que não o quer. Invente uma desculpa.

- Não posso. A presença dele é uma imposição do almirante por ele ter conhecimento sobre o Dominion.

- Vou ficar de olho nele então. Você acha mesmo que ele pode nos fazer algum mal?

- Talvez. Seus pensamentos eram incertos. Acho que está indeciso. Por outro lado ele poderá nos espionar para Petersen. Devemos ter cuidado com os comentários que fazemos em sua presença. Mas ainda creio que quem nos dará mais trabalho será o bajoriano.

- O alferes Siro? É verdade. Ele é uma casca de ferida. Não se confraterniza com ninguém.

- Ele também foi enganado. Sei como ele se sente. Mas ele será seu problema.

- Meu problema?

- Claro! É a função do imediato. Lidar com a tripulação, escala de serviço...Além disso, ele está na sua equipe.

- Ok. Eu sei qual é minha função. – Sarah fecha a cara.

- Você fica tão bonitinha quando está nervosa, sabia disto? – Alkon a abraçou mais forte.

- Cap...Dorian... Aqui não. – ela tentou se desvencilhar de seus braços, mas a saudade de sentir seu cheiro, do calor de seu corpo e dos seus beijos foram mais fortes. Não soube quanto tempo ficaram na baia de atracação se beijando. Pareceram horas, mas na verdade foram alguns minutos.

- Senti tanto a sua falta...Queria tanto tocá-la... – disse Alkon entre um beijo e outro.

- Eu sei...Eu também... Temos que fazer algo a respeito....-disse ela enquanto Alkon beijava o seu pescoço.

- Na sua cabine ou na minha? – perguntou o capitão.

- Leia a minha mente. – disse ela baixinho e desafiadoramente antes de puxá-lo para o chão.

****

Capítulo XII

A USS Albedo estava pronta para partir. Todos estavam em seus postos. Alkon e Sarah estavam lado a lado e sorridentes.

McCormick e Allison se entreolharam e perceberam que o capitão e a imediato tinham se acertado. Estavam felizes por eles. Alkon sabia que estavam olhando para eles, mas não se incomodou. Ele também estava feliz.

- Fomos liberados para partir. A Fitzgerald irá nos acompanhar até o outro lado da fenda. Nossas informações só serão dadas quando estivermos no quadrante Gamma. – informou Zagar ao capitão.

- Tenente Silva, como estamos aí embaixo? – perguntou Alkon pelo intercom.

Tudo funcionando perfeitamente, senhor. Todos os sistemas estão alinhados. Pode pedir dobra que ela está pronta.” – respondeu a engenheira-chefe.

- Fico feliz em ouvir isso. Tenente Saint-John...Assim que desacatrarmos acionar dobra seis.

A Albedo singrou o espaço deixando a base 375 pra trás como uma pequena luz entre as estrelas até sumir completamente.

- Estamos aproximando do caminho do tempo celestial. –disse Klag se referindo a única fenda espacial estável do universo.

- Gostaria de poder parar em DS9 e saudar o nosso amigo, o comandante Sisko. – disse Alkon.

- Pelo que sei ele agora é capitão. Infelizmente estamos em uma missão secreta, lembra-se? E além disso estamos oficialmente desaparecidos.- lembra a número um.

- Então devemos ficar invisíveis. Senhor Klag...Acionar dispositivo de camuflagem. Allison deixe a Fitzgerald passar na frente e siga no rastro da assinatura de dobra dela.

A Albedo desaparece antes de ser detectada pelos sensores da DS9 que só capta apenas uma nave passando entre eles e a fenda. A Fitzgerald penetra no “olho” da fenda e traz a Albedo em seu rastro.

O espaço interdimensional era indescritível. Luzes, cores e formas jamais vistos. As poucas vezes que Alkon passara por ali sempre sentiu uma paz interior reconfortante. Poucos momentos depois já estavam no quadrante Gamma.

-Tenente Jones...Assuma o comando. Saint-John, McCormick, Klag e número um, vamos estrear a nova sala de conferência.

Esta era uma das muitas novidades implementadas após a reforma da nave. Alguns alojamentos do deck 5 deram lugar a uma sala de conferência de onde receberiam as ordens e discutiriam as melhores táticas para realizá-las.

Um grande telão ocupava toda uma parede e a sala possuía vários balcões onde a equipe podia se sentar e acessar em terminais quaisquer informações complementares. Lembrava um anfiteatro de faculdade.

Lá chegando, Alkon encontrou Naomi, Brixx, Siro, Vulpes e a Dra. T´Vel.

- Pode contatar a Fitzgerald, tenente. – ordenou Alkon.

A engenheira acionou uma tecla e a imagem no telão, que era do símbolo da Federação dos Planetas Unidos, foi substituída pela face do almirante Petersen que estava à bordo da USS Fitzgerald.

Olá capitão. Vocês receberão agora dados sobre a sua primeira missão, contudo eles não poderão fazer parte do banco de dados da nave e deverão ser deletados logo após. No caso de vocês serem capturados será imperativo a destruição da nave. Se não puderem executar este procedimento e a Frota for interpelada sobre suas ações negaremos qualquer conhecimento sobre seus atos considerando-os renegados.

- Ótimo. Fomos promovidos de fantasmas a renegados. – murmurou Okaido.

- SSSHH! – Alkon repreendeu o comentário de sua imediato.

-“Esta mensagem é secreta e só deve ser compartilhada com quem irá atuar diretamente nela. Esta primeira missão consiste em identificar um planetóide de produção de ketracel-white. A inteligência destacou os seguintes sistemas onde provavelmente a droga dos Jem’Hadar é produzida: Torga, Teplan, Torad e Yadera. Evitem entrar em confronto direto com o inimigo. Vocês terão três objetivos a cumprir assim que encontrarem o planetóide. Primeiro: Filmar a fábrica e o processamento da droga. Segundo: Trazer uma amostra da droga. Terceiro: Inutilizar a produção.

Informações complementares vocês obterão do tenente Brixx e dos agentes especiais Siro e Vulpes. Lembrem-se que estarão por conta própria. Nos encontramos em uma semana nestas mesmas coordenadas para escoltá-los de volta à base e prestar alguma assistência se precisarem. Boa sorte e que Deus os proteja.

A imagem desapareceu. Alkon tomou a palavra. De frente aos seus comandados começou a traçar a estratégia para a missão.

- Vulpes...Qual sistema mais indicado para começarmos a investigação?

- Torga. Existem muitos Jem’Hadar por lá. – disse com sua voz gutural.

- As formigas costumam se aglomerar perto do torrão de açúcar. – comenta McCormick.

- Faz sentido. Podem estar se abastecendo com a droga. Como ela é distribuída? Brixx? – Alkon aponta para o tenente indicando que era a sua vez de falar.

- O Dominion possui quatro braços partindo dos fundadores; dos quais nada ou pouco se sabe. Um dos braços atua os changeling, transmorfos espiões. É sua divisão de inteligência. Eles se infiltram no meio do inimigo, vigiando, obtendo informações e até atuando lado a lado com ele. Não desenvolvemos um bom método para identificá-los ainda, pois podem ludibriar os nossos tricorders.

- Filhos da...- ia dizendo Allison quando foi cutucada pelo seu amigo marciano.

O boliano continuou, apesar da pequena interrupção.

- O segundo grupo é o braço político: os Vorta. São uma espécie de senhores feudais. Eles comandam os Jem´Haddar, o braço guerreiro; supervisionam a produção de white e as relações político-econômicas do Dominion. O último grupo é formado pelos Karemma. São eles que controlam os centros de produção da droga, lidam com o comércio com as outras civilizações do quadrante Gamma. Estes são aqueles com os quais podemos ter um maior contato.

- São os que fazem as relações públicas. – comenta Alkon.

- Sim, senhor.-confirma o boliano.

- Pena que não teremos tempo pra isso. Mas deveria ser a melhor política.-diz o capitão tristemente.

- A Frota parece ter abandonado a diplomacia. Por isso nos estão enviando nesta missão.-avalia a comandante Okaido.

- Mais alguma coisa Brixx?-pergunta Alkon.

- Sim. Pelo que a inteligência da Frota pôde apurar o Dominion ocupa 27.820 setores no quadrante com 1782 mundos conquistados.

- São bem estruturados. Será difícil subjugá-los. – disse Klag.

- A Frota acha que toda a estrutura do Dominion cairá se destruirmos a produção da tal droga? – pergunta McCormick.

- A droga não é como qualquer outra. Não existe uma rede de narcotráfico se beneficiando de um comércio expúrio. Ela é fornecida de graça e serve para manter a subserviência dos Jem’Hadar . Sem eles o Dominion aceitará a sentar-se em uma mesa de negociações. – explicou Brixx.

- Sob os nossos termos. – comentou cinicamente Okaido.

- Sim, comandante. Estaremos numa posição melhor do que a tripulação da Odissey. Nossa missão é tornar o quadrante mais seguro. – disse o boliano com um certo fervor quase religioso.

- Libertando os mundos da tirania e opressão sob a égide da Federação. Eu conheço bem esta história. Em meu mundo vivemos isto várias vezes. Uma vez foi o grande Império britânico, outra o nazismo, , comunismo, outra vez foi a nova ordem mundial da grande nação americana....Mas melhoramos muito depois disso e entramos para a grande comunidade cósmica; para ver que, mesmo depois de tanto tempo, a ESTUPIDEZ não era exclusividade da raça humana. – disse a comandante partindo para o sarcasmo.

Alkon percebendo que os ânimos iam ficar alterados decide retomar o rumo da conversa.

- Tenente Brixx ...Pelo que percebi teremos que travar contato com os Karemma. O que mais sabemos deles?

- Temos dados da aparência deles. Alguns relatórios de comércio com os Dosi e os Ferengi...

- Ferengi? – espanta-se McCormick.

- Eles sempre estão na frente quando se trata de novas linhas de comércio. – salienta Alkon.

- ...errr – o boliano pigarreia e um pouco irritado por ter sido interrompido mais uma vez, continua a sua explanação -...Provavelmente são eles que administram os laboratórios de produção de KW.

- Se um desses laboratórios fica em um planetóide, este deve ser bem escondido e muito bem guardado. Vamos ter problemas à vista.

- Não depois de ver as belezinhas que embarcamos. – comenta Naomi jocosamente se referindo ao arsenal de alta tecnologia à disposição. Klag fica curioso e começa a acessar o banco de dados no terminal à sua frente.

- Para que a Frota quer amostras da droga?- pergunta a doutora T´Vel.

- Precisaremos da amostra para saber como neutralizá-la ou usá-la contra eles. – respondeu Brixx

- Fabricar uma arma biológica? Isto é uma violação...- Okaido estava enojada.

- Ei,ei!Número um. Calma! Estamos falando de possibilidades e não de uma realidade. – disse o capitão.

- Desculpe, capitão, mas realmente não confio muito nisso. O que nos garante que uma vez de posse da amostra eles não a utilizarão como uma arma ?

- Estaremos em uma guerra, comandante. Todas as armas são válidas para vencer o inimigo. – disse Brixx com o mesmo fervor de antes.

- Será que estamos preparados para as conseqüências disto ? O que nossos aliados vão dizer? Sem contar com os nossos inimigos... – pondera Okaido.

- Vamos nos preocupar com isso depois, número um. Obrigado Brixx. Alferes Siro Lian. Opções de incursão.

O bajoriano estava sentado quase escorregando da cadeira, entediado com toda aquela conversa. Ao ser chamado se ajeita e procura responder sem demonstrar seu pouco interesse. Ele queria acabar rápido com tudo aquilo. Se o Dominion iria ser destruído ou seria a Federação ele não dava a mínima. Mas, para alcançar a sua liberdade ele teria que fazer a sua parte do trabalho. E a única coisa em que ele ainda acreditava era em honra. Ele fora contratado para um trabalho e iria fazê-lo da melhor maneira possível.

- Vai depender das condições do terreno. Provavelmente não poderemos usar o teleporte pois eles devem manter o laboratório sob escudos. A alternativa é usar uma nave auxiliar. O planetóide deverá ter defesas orbitais ou caças Jem’Hadar em patrulha. A abordagem será difícil. Se conseguirmos passar por isso tudo, sugiro uma equipe pequena para não chamar muita atenção.

- Concordo. Klag, já se familiarizou com o novo arsenal? O que poderemos usar? – pergunta Alkon.

- Sim, capitão – responde o klingon ainda olhando para o seu monitor. – Temos as novas armaduras leves para as tropas de assalto com diversos dispositivos que podem ser utilizados para diferentes condições de terreno, temperatura, pressão e gravidade. – Klag fz uma interface e os armamentos vão aparecendo no telão para todos.

- Uma equipe de quatro pessoas com rifles phasers do tipo IV com scanners de proximidade, identificadores de DNA e lançadores de granadas poderão dar conta da tarefa. Temos ainda ao nosso dispor phasers de mão do tipo III, granadas sônicas, luminosas e com melorazina. Estas poderão ser muito úteis caso enfrentemos um grupo grande.

- Não sabemos se melorazina poderá por um Karemma, Vorta ou Jem’Hadar para dormir. Não conhecemos a fisiologia deles. – saliente a doutora T´Vel.

- Parece que teremos uma boa oportunidade para descobrir. – intervém Alkon – O que mais temos, senhor Klag?

- Explosivos de magnasita. Talvez tenhamos que arrombar algumas portas. Nanotechs vírus para incapacitar o sistema deles e trajes de isolamento.

- Trajes de isolamento ? – pergunta McCormick.

- Foram desenvolvidos para pesquisa antropológica. Permitem que fiquemos invisíveis para estudar culturas alienígenas sem causar interferência em sus sociedades.- explica Brixx

- Invisíveis? UAU! Essa eu gostaria de experimentar! – exclama McCormick.

- Seu pervertido! – diz Allison dando um soco no ombro do amigo deduzindo que as intenções delas não eram as mais puras.

- O quê? – ri o marciano ao massagear o ombro por causa do soco que recebera.

- Vai ser complicado usar estes trajes e mais as nossas armaduras de combate. – ressalta Siro já prevendo uma futura dificuldade.

- Elas poderão ser ajustadas às nossas medidas.Sobre como poderemos chegar até o planetóide, tenho uma idéia.- falou a engenheira.

- Prossiga tenente. – Alkon sabia que Naomi teria uma boa idéia.

- Usaremos a nave auxiliar tipo nove onde poderei implantar emissores holográficos que poderão noz fazer parecer uma das naves Jem´Haddar.

- Será uma ótima camuflagem! Bem pensado Naomi. McCormick e Vulpes. Quero que investiguem o sistema Torga, se for lá que reside o nosso alvo, avisem-me rapidamente. Mas não descartem os demais. Temos apenas uma semana para realizar esta investigação e a intervenção. Comandante...Escale a primeira equipe e famialiarize-os com os trajes e armamentos.

- Entendido, capitão. Deveremos misturar o time ouro e prata. Klag, Vulpes do primeiro; Siro e eu do segundo.

- Muito bem. Reunião encerrada. Mãos a obra. – a sala de conferência se esvazia. Alkon fica sozinho meditando sobre o que terá que enfrentar e se conseguirá cumprir as ordens da Frota mesmo indo contra todos os princípios que moldavam o seu caráter. Pensou...Em uma guerra não há caráter. Não há nomes. Não há rostos. Não há família. O único objetivo é subjugar o inimigo. De repente ele se viu na ponte da USS Chekov em meio a batalha de Wolf 359. Explosões. Amigos morrendo. Mentes em agonia. Não sabia se estava preparado para aquilo de novo. Sua cabeça começou a doer. Decidiu ir procurar a dra. T´Vel. Ao chegar ao elevador indica ao computador seu destino: deck três.

A dra. T´Vel estava verificando algumas culturas quando o capitão apareceu.

- Capitão? Algum novo informe?

- Não. Não há mais nenhuma novidade. Na verdade eu queria saber como está lidando com a SUA novidade.

T´Vel ergue a sobrancelha intrigada. – Não entendi, capitão.

- Como está lidando com o HME ?

- Ah, Ele! – respondeu com um certo desprezo na voz. – Não sei. Eu ainda não o liguei.

- Não o ligou? Não teve curiosidade?

T´Vel apenas responde com um olhar de indiferença.

- Tudo bem. Curiosidade é uma emoção. Desculpe.

- O HME*9 é para ser usado em uma emergência e pelo que me consta ainda não vivenciamos nenhuma.

- Ok,ok! Espero nunca ter que usa-lo, mas ele também pode ser usado para aliviar a escala de serviço. Poderia deixá-lo ativo de madrugada já que estamos com a tripulação reduzida.

- Por mim não tenho objeções. Vou informar a comandante Okaido sobre esta sugestão. Ainda quer cuidar das suas dores de cabeça?

- Como você...?

- Desde que entrou esteve pressionando um nervo no pescoço atrás de suas glândulas parótidas. Creio que seja a técnica Plexar betazóide similar ao Do-in terrestre, para liberar doses de endorfina; mas parece que não está sendo eficaz.

- Você é muito observadora.

- Faz parte da minha profissão.

- Pode fazer alguma coisa? Fico com receio de perder meu auto-controle. Já andei arremessando objetos, involuntariamente, nas paredes de meu quarto.

- Isto tem acontecido com freqüência?

- Sim. E cada vez a intensidade aumenta. E se eu acabar ferindo alguém? Não estarei habilitado para o comando.

- Se eu lhe aplicar um analgésico agora, na sua atual fase de tratamento, poderá prejudicar a recuperação de seus poderes no nível esperado pela Frota. Temos apenas uma alternativa.

- Uma fusão mental?

- Leu minha mente, capitão?

-Sim, desculpe, foi inevitável.

- Não seria uma fusão completa. Apenas algo superficial. Quer tentar?

Alkon fechou os olhos e consentiu que T´Vel tocasse a sua face para atingir a sua mente. Uma onda de tranqüilidade tomou conta de seu corpo. Procurou abstrair-se de toda e qualquer preocupação. Imagens de lugares belos e pacíficos povoaram a sua mente até que imagens do rosto de Sarah apareceram. Depois ele se viu beijando-a e por fim, fazendo amor.

T´Vel desfez o elo mental. A vulcana ficou desconcertada com que viu.

- O que foi? Estava tão bom...- reclamou Alkon ainda entorpecido.

- Creio que obtivemos sucesso. – respondeu a médica sem olhá-lo nos olhos.

- Realmente. Minha dor de cabeça sumiu. Você é fantástica. Obrigado. – Alkon sai da enfermaria e não vê a doutora sorrindo e passando a mão em seu próprio rosto.

Sarah, Sarah, você não me contou nada, hein?” – pensou enquanto tentava reprimir seu próprio desejo, um efeito colateral do elo mental que ela não havia previsto.

****

Capítulo XIII

SISTEMA TORGA
EM UM PLANETÓIDE DESCONHECIDO...

A paisagem era inóspita. Uma nevasca assolava todo o hemisfério. Uma pequena abertura iluminada, em uma montanha, denunciava a única entrada para o complexo de produção de ketracel-white. Poucos guardas rondavam do lado de fora, suportando a neve e a temperatura de cinqüenta graus Celsius negativos.

No interior, a atividade da fábrica era grande. Vários soldados Jem’Hadar e alguns supervisores karemma controlavam não só a produção da droga, mas a sua administração nos bebês Jem’Hadar em um berçário macabro

Do alto de uma torre de observação, Elik, o administrador Karemma local, controlava o andamento do trabalho com certo nervosismo. Ele parecia estar pressentindo que algo aconteceria de ruim. Ele sempre tivera este tipo de premonição e não gostava delas. A aparição de duas pessoas, através de um feixe de teleporte, no meio de sua sala, veio comprovar que ele, mais uma vez estava certo. Eram o casal Vorta, seus contratantes, que vieram fazer uma inspeção surpresa. E eles não podiam ter escolhido uma época pior.

- Oh...senhores...Eu não esperava...Fizeram boa viagem?

- Deixe de bajulação, Elik. Queremos ver os relatórios de produção. – diz o macho.

- Relatórios? Oh, sim, vou pegá-los. Só um momento. – Elik se afasta e procura em cima da bagunça de sua mesa os documentos solicitados.

Kelian, a fêmea Vorta e mulher de Dorth, aproxima-se da janela de observação e faz um comentário.

- Eles parecem estar trabalhando muito devagar.

- Estão? – pergunta Elik assustado enquanto ainda procurava os documentos pedidos. – É que eles estão tranqüilos com sua dosagem de White em dia. – tenta se justificar.

- Jem’Hadar tranqüilos? Eles são guerreiros. Precisam estar um pouco irritados quando confrontarem os nossos inimigos, não acha querido?

- Você tem razão, querida. Elik...reduza a dose de todos eles. Se quiserem mais White terão que trabalhar mais por isso.

- Reduzir? Sim, senhor! Achei! Aqui estão! – Elik mostra os gráficos de rendimento para que Dorth faça a sua apreciação. Ele mostra os relatórios para a sua companheira. Esta fecha os olhos e suspira demonstrando descontentamento.

- Precisamos melhorar, Elik. Os Fundadores só poderão aumentar o seu poder através dos nossos gloriosos guerreiros. Como posso fabricar mais guerreiros se não tiver White para estimulá-los? Elik...Elik...Você me decepcionou.

- Oh, não, senhor. Não tive intenção. Estamos trabalhando muito. Estou com o pessoal reduzido. Mês passado tivemos problemas com os aquecedores do complexo. O senhor não sabe como faz frio aqui neste planetóide....Prometo que, na próxima inspeção, estaremos com a produção dobrada. Eu prometo.

- O que você acha, Kelian? – diz Dorth virando-se para a esposa.

- Acho que podemos dar-lhe uma nova chance.

- Oh, obrigado, madame.- Elik faz uma referência – Obrigado, senhor. Prometo não decepcioná-los.

- Assim esperamos. Vejo você em um mês. E Elik... – diz Dorth.

- Sim?

- Você sabe o que acontece com quem me decepciona, não sabe? – dizendo isso o casal aperta um botão em seus braceletes e somem tão rápido quanto apareceram.

Elik sabia a resposta. O último administrador virou ração para os animais que montavam guarda na entrada da montanha.

- Sajmar! Zaldro! Seus incompetentes! Onde estão vocês? Verifiquem os sensores e os escudos da base! Quero saber por que eles não estão funcionando! – gritou com seus ajudantes. Não queria ser pego desprevenido de novo.

Na nave vorta Kelian conversa com seu esposo.

- Não confio em Elik. Você sabe que em breve precisaremos que todos os centros de produção estejam no máximo de suas capacidades. Mesmo o dele, que é pequeno.

- Ele é um bom homem. E nos teme. Ele irá cumprir o contrato. Não se preocupe.

- Eu me preocupo mesmo é com essa Federação que existe do outro lado da fenda espacial.

- Acho que você está superestimando essa tal de Federação.

- Eles não parecem tão inofensivos assim. Lembra do que Weyoun nos disse?

- Weyoun é um paranóico. Não acredite em tudo que ele diz. O Dominion é mais forte que qualquer civilização do quadrante alfa. Além do mais temos os nossos agentes infiltrados no meio deles, minando suas forças, confundindo-os e eles nem percebem. Em breve o grande plano será posto em prática e eles não serão mais ameaça. É claro que eles tentarão contra-atacar, mas, até lá, será tarde demais.

- Espero que você tenha razão. – Kelian abraça o marido, mas seu olhar demonstrava a sua preocupação.

Na USS Albedo...Dois dias depois...

A tenente Naomi Silva procurava a imediato Sarah Okaido e a encontra no corredor do deck dois.

- Comandante! – disse a tenente correndo em sua direção.

- Sim?

- Gostaria de falar com a senhora, tem um minuto?

- Podemos falar enquanto andamos? Estou indo ao deck seis encontrar Klag.

- Não tem problema. É que eu encontrei um problema durante a última verificação de rotina dos sistemas.

- Que problema?

- Alguns minutos de gravação de algumas das câmeras de segurança foram apagados.

Sarah gelou. Puxou Naomi para o turbo elevador e o travou.

- O que foi? – Naomi não estava entendendo a atitude da imediato.

- Naomi...Eu não sei como dizer isso...- Sarah estava muito embaraçada. A tenente quase não a reconheceu. Alguma coisa estava definitivamente errada.

- A senhora tem alguma coisa a ver com isso?

- Sim. – Sarah responde com grande dificuldade. – E gostaria que você guardasse segredo sobre isso. Alguém mais sabe disso?

- Não. Eu mesma fiz a verificação. Achei que fosse importante reportar o defeito para a senhora pessoalmente. Poderia não ser nada, apenas um pequeno defeito...Mas por que a senhora fez isso?

- Tenente...Naomi...As imagens....São confidenciais, entende?

- Confidenciais? – Naomi tornava as coisas mais difíceis para Sarah.

- Eu precisei apagá-las. Elas gravaram um momento íntimo meu e ...

Naomi demorou, mas entendeu a situação. – Oh, MEU DEUS! – exclamou a engenheira em meio a um riso nervoso. – Você e o capitão ? Na baia de atracação...Comandante eu jamais poderia pen...Oh, meu Deus!

- Silêncio! Fale baixo! Como sabia que o capitão estava envolvido ? Você tentou recuperar as imagens das fitas?

- Não, mas todo mundo andava comentando o caso de vocês. Eu apenas deduzi. Vocês têm estado muito ...como direi...afáveis um com o outro nos últimos dias.

- Todo mundo comenta? – Sarah estava surpresa.

- A senhora sabe que é difícil guardar segredos aqui na Albedo.

- Sei...Mas este terá que ficar entre nós, entendeu?

- Sim, senhora. Creio que estes defeitos acontecem com as câmeras. Acho que vou até substituir algumas.

- Ótimo, faça isso. Obrigado, Naomi.

- Não há de quê.

O turbo elevador recomeça a descer ao comando vocal de Sarah. Ela desce no deck 7 e Naomi fica no elevador para voltar a engenharia. Antes da porta se fechar, Sarah ainda pode ver a engenheira sorrindo e acenando para ela com o polegar para cima aprovando seu romance. Sarah sabia que a tripulação ficaria sabendo o que estava acontecendo mais cedo ou mais tarde e que ficariam feliz por eles. Contudo ela ainda não se sentia segura em admitir o romance publicamente. Ao se encontrar com Klag, o klingon nota a face ruborizada da imediato.

- A senhora está tão corada...A senhora está bem?

- Só com um pouco de calor. Não é nada, tenente. É coisa de fêmea humana. – desconversa a número um – O que você tem para mim?

- Estive pesquisando o sistema Torga, de acordo com a sugestão do agente Vulpes. Encontramos três planetóides a doze milhões de quilômetros. O problema é que não podemos manter a camuflagem por muito mais tempo e ficaremos visíveis antes de chegarmos a qualquer um deles. A alternativa é esconder a nave em uma nebulosa aqui ou neste cinturão de asteróides. Isto colocará a nave longe do alvo pelo menos em um ano-luz. – Klag mostrava em uma mesa mapas e as rotas alternativas.

- Hummm...Isto nos deixará vulneráveis caso a camuflagem holográfica não funcione e, se precisarmos da ajuda, não poderemos obtê-la sem que a Albedo revele sua posição.- disse a comandante preocupada com a estratégia.

- A senhora acha que poderemos usar uma segunda equipe?

- Não. Seria muito arriscado. Em quanto tempo a Albedo poderia nos resgatar no caso de dar algo errado?

- A senhora sabe que, neste caso as ordens são para não nos ajudar. A missão deverá ser abortada. – Klag foi taxativo.

- Você acha que o capitão Alkon seguiria estas ordens? – Sarah relembra o laço de lealdade que existia entre eles. Klag arfou e procurou responder às dúvidas da imediato.

- A maior distância, em warp seis, seria coberta em dez horas e a menor em dois minutos. É claro que a esta altura a nave ficaria tão vulnerável quanto nós.

- Dois minutos sozinhos com os Jem´Haddar...Será interessante. Principalmente porque não conhecemos o total da força deles. Vamos combinar com o capitão um horário para nos comunicar. Caso não recebam nenhum contato nosso a Albedo irá ao nosso encontro. Qual deles será a nossa escolha?

- Os três têm potencial. Utilizei os sensores de longo alcance e detectei assinaturas das naves Jem’Hadar partindo de todos eles, mas um tem um fluxo menor de naves.

- Hummm...Estranho, não? Parece uma rota restrita. Se fazem esta restrição é porque há algo muito importante pra ser protegido. É uma dedução interessante tenente. Eu diria quase vulcana, sem ofensas. – Sarah sabia que os klingons não eram muito simpáticos aos vulcanos, mas sabia também que Klag era diferente, ele tinha a mente mais aberta e não era tão xenófobo quanto aos seus irmãos. Contudo não custava nada respeitar estas diferenças. – Se este for o nosso lugar e se a sua lógica estiver certa, ela poderia ser aplicada aos outros sistemas, não?

- Eu me baseei nos dados do agente Vulpes. Há registros de assinatura de dobra partindo deste planetóide para os demais e quase nenhum no caminho inverso. Algo está sendo transportado. Nos outros sistemas eu não encontrei este padrão. As rotas se cruzavam o tempo todo.

- Bom...Temos que escolher um mesmo e o nosso tempo é curto. Prepare todo o equipamento. Vou avisar o capitão. Quando estaremos prontos para partir?

- Posso aprontar tudo em uma hora.

- Ótimo. Avise Siro e Vulpes para se prepararem.

- Sim, senhora.

Sarah deixa o escritório de operações táticas e toca no seu comunicador.

- Capitão...Vamos ter que sair do modo de camuflagem. O dispositivo está superaquecendo. Temos que encontrar um esconderijo. Recomendo o cinturão de asteróides próximo.

Temos um grupamento de asteróides errantes a dois mil quilômetros.” – informa Gilbert.

Allison marque o novo curso. Zagar...Manter o silêncio de rádio. Gilbert vamos reduzir a energia da nave. Vamos dificultar o máximo a nossa detecção.

Sarah escutava a conversa na ponte enquanto subia pelo elevador. Ao chegar pediu uma conferência privada com o capitão na sala de reunião ao lado.

- Já temos todo o plano de ação traçado. Ficaremos um pouco vulneráveis, mas é a nossa melhor opção. – informa a imediato.

- Confio em você. – diz Alkon fazendo um carinho no rosto de Sarah. - Não se arrisque muito. – pede Alkon.

Sarah fica constrangida e afasta a mão de Alkon do seu rosto.

- Capitão...Dorian...Precisamos aprender a separar as coisas. Ainda sou uma oficial eficiente apesar de estar enamorada. Na verdade acho que estamos dando muita bandeira. O pessoal está comentando e...aquela loucura na baia de atracação.... – comenta Sarah em tom de arrependimento.

- Por que está dizendo isso? Alguém nos viu? – perguntou Alkon preocupado.

- Não, mas tudo foi gravado pelas câmeras de segurança. Tive que apagar os registros e Naomi acabou descobrindo durante uma inspeção de rotina e...O que eu quero dizer é que precisamos ter cuidado. Nos controlar.

- Oh! As câmeras...Tinha me esquecido delas... Não se preocupe. Naomi é uma mulher discreta. Mas você está certa. Preciso me controlar...Não sei o que está acontecendo comigo. Sinto-me mais desinibido depois que deixei de tomar a tal droga. Acho que mexeu com as minhas taxas hormonais. Vou ter que realizar mais sessões de controle mental com a Dra. T´Vel. – Alkon se sentou no sofá.

- Você uniu a sua mente a dela ? – Sarah ficou surpresa.

- Só superficialmente, por quê?

- Oh, meu Deus, Dorian...Ela também deve saber...Deve ter visto e sentido...Oh! Isto é muito embaraçoso! – Sarah andava de um lado para o outro escondendo sua face com as mãos tamanha era a vergonha que sentia.

- Será? Ela não me disse nada.

- Ela é vulcana e uma médica, esqueceu? Ela não fala sobre a intimidade de outras pessoas.

- E o que vamos fazer?

- Agir normalmente e controlar nossos impulsos na frente da tripulação. Nada que o código de conduta ética e moral da Frota já não nos obrigue a fazer no dia a dia.

- Eu sabia que o nosso relacionamento ia ser complicado. Eu jamais quis deixá-la em uma posição incômoda...- Alkon se levantara e tomara as mãos de Sarah por entre as suas procurando dar conforto a ambos.

- Você não tem que se desculpar, Dorian. Aconteceu. – agora era Sarah que lhe afagava o rosto – Estamos vivendo algo que era para ter acontecido há muito tempo.

- Engraçado isto ocorrer justamente agora quando estamos mortos. – diz Alkon em tom jocoso se referindo ao que o almirante Petersen informara sobre a atual situação da tripulação.

- Talvez seja um bom sinal. O nosso amor será eterno. – Sarah acompanha o bom humor de Alkon.

- Sarah..Eu...Posso pedir a permissão para beijá-la ?

- Um momento...Computador...Código de segurança alfa-tango-quatro-sete-dois. Desligar câmeras de segurança por...- Sarah olha nos olhos de Alkon e pois completa a frase-... cinco minutos na sala de reunião da ponte. Executar.

CÓDIGO ACEITO. IMPLEMENTADO.

- Cinco minutos ? – perguntou Alkon surpreso pelo tempo determinado pela comandante. Ia ser um beijo bem comprido.

Sarah sorriu e se deixou beijar sem preocupações. Procurou não pensar que em pouco tempo arriscaria a sua vida em uma missão quase suicida. Queria poder viver aquele momento e não ter que se arrepender depois.

Dorian Alkon, por sua vez, queria poder compensá-la por tê-la colocado em uma situação de vida e morte. Poderia ter se negado em aceitar a missão, mas seu senso de dever falou mais alto. Agora enviava a sua amada para o covil dos lobos e teria que assistir a tudo impassível. Ele teria que ter um ás na manga, afinal ele era um capitão da Frota Estelar.

****

Capítulo XIV

USS ALBEDO
Hangar principal - Uma hora depois

Naomi, Brixx e Alkon estavam no hangar para se despedir da equipe que iria se embrenhar no espaço do Dominion. O grupo avançado já estava com trajes espaciais indo na direção a nave auxiliar.

- A nave está pronta para o embarque, senhores. Os emissores holográficos só ficam ativos por uma hora. Usem somente quando necessário. Vocês possuem um armamento reforçado como quatro torpedos, sendo um quântico e duas salvas de dez micro torpedos. Além de bancos phasers. Apesar disso evitem o confronto ao máximo. É uma operação fantasma, lembram-se? É para entrar e sair sem serem vistos. – explicava a engenheira-chefe.

Sarah observa o nome escrito na lateral da nave: Azimute.

- Belo nome. Quem escolheu? – perguntou.

- Foi o pessoal da engenharia. Escolhemos batizar as naves com nomes de coordenadas astronômicas. Temos ainda a Zênite e a Nadir. – responde Naomi.

- Gostava mais dos nomes das naves antigas: Alfa, Gamma e Theta. – comenta Alkon.

- Bom...As naves anteriores eram do tipo 6 e 15... – a engenheira-chefe tenta se justificar.

- Não eram tão velhas assim...- lembra Sarah com saudades.

- Os nomes tinham mais a ver com o nome da nave. Referia-se a tipos de radiação. – justificava Alkon.

- É...Albedo é a percentagem da radiação incidente refletida por uma superfície sem que esta se aqueça. A placa de batismo da nave diz: “Que uma fração da luz possa ser refletida nos astros por onde passarmos. A luz da razão, da justiça, do amor e da paz.” Este era o cerne de nossa missão. Missões diplomáticas e científicas. – lembra Sarah com certa tristeza face ao que estavam prestes a fazer.

Siro Lian, o bajoriano, não estava mais agüentando aquele papo furado e resolveu se manifestar.

- Senhores...Desculpe interromper, mas temos que chutar os traseiros de uns lagartões lá fora.

A impaciência do ex-maqui interrompeu a conversa e seus modos irritaram a comandante.

- Alferes Siro...Deve aprender a conter o seu ímpeto. Ninguém irá lá fora chutar nada de ninguém. Temos os nossos objetivos e espero que eles tenham ficado claros para o senhor durante a reunião sobre a missão. Se há algo que o senhor não entendeu, espero que faça todas as perguntas agora ou então fique de boca fechada até segunda ordem. Fui clara?

- Sim, senhora. Alferes Siro pedindo permissão para embarcar, madame. – Siro estava sendo sarcástico. Se fosse outro comandado seu ela o teria colocado na prisão por alguns dias, mas a Frota acreditava que ele era importante para a missão, então ela fez um gesto com a cabeça permitindo que ele embarcasse. Klag e Vulpes foram os próximos.

O capitão Alkon apertou a mão de Sarah desejando-lhe boa sorte.

- Se ele lhe der algum problema, tem a minha permissão para chutar o traseiro dele.

A comandante sorriu, virou-se e também embarcou. O capitão, Naomi e Brixx foram para a cabine do controlador de vôo para se protegerem da despressurização. O chefe Caballero acionou os controles. A porta do hangar se abriu e a nave decolou tendo Sarah e Klag nos controles. Eles contornaram alguns asteróides até chegarem em espaço livre.

- Sondando a área...Duas naves Jem’Hadar detectadas e...espere...Não é possível!

- O que foi Klag? – a imediato ficou curiosa.

- Uma nave cardassiana. Está entrando em dobra rumo a fenda espacial de volta ao quadrante alfa.

- Uma nave cardassiana por aqui? Estão muito longe casa. – Siro também estava confuso.

- Será que eles também estão espionando o Dominion? – perguntou Sarah.

- Não é o que parece. As duas naves Jem’Hadar pareciam escoltá-la. Uma atitude muito amistosa da parte deles. – revelou Klag.

- Bom...Vamos resolver um problema de cada vez. Este mistério ficará para outra hora. Rume para o planetóide. Ligarei o nosso holo-disfarce.

A Azimute se transforma em um caça Jem’Hadar em segundos. Contudo o disfarce ainda não estava completo.

- Alterando a assinatura dos motores de dobra. Até aqui tudo bem.- passaram perto de uma nave Jem’Hadar e não foram atacados. Todos suspiravam aliviados, bom, pelo menos ela pode notar o alívio em Siro. Klag e Tosk ficaram impassíveis. - Parabéns Naomi. – cumprimentou a comandante o belo trabalho da engenheira-chefe. Já possui informações climáticas do planetóide? – perguntou para o alferes Siro.

- Ahnn...Planetóide classe H. Atmosfera : 65 % monóxido de carbono, 25% de oxigênio. 8 % de metano e 2% de outros gases. Já respirei coisa melhor, mas sugiro não tirarmos o capacete.Quarenta e oito graus Celsius negativos. Tem também uma tempestade de neve varrendo todo o hemisfério sul. É para lá que apontam as assinaturas de dobra deles.

- Parece Marte, só que com um pouco mais de gelo.Arrume um local mais próximo para o pouso, Klag. – ordenou Sarah.

- Detectando um pequeno platô a uns sessenta metros de altura e a um quilômetro de um espaço-porto.

- Teremos que escalar? Ótimo. Não escalo desde meus tempos de academia. Isto não havíamos previsto nos exercícios de simulação. Espere até o comandante Bennett saber disso. – comenta Sarah.

A Azimute pousa com alguma turbulência devido à nevasca.

- Retirem o traje espacial e vistam o traje de isolamento. É hora do show. Não se esqueçam de manter as câmeras do capacete ligadas. Vamos lá!

Os quatro saem da nave logo depois sob fortes rajadas de vento e neve. Sarah aciona um dispositivo no bracelete de seu traje mudando a holografia da nave para um monte de neve. Isto a deixaria camuflada por um tempo. Mesmo quando a holografia desligasse a neve verdadeira já teria coberto a nave de qualquer maneira e a camuflagem ainda se manteria.

[Essa foi boa comandante. Esteja lá onde a senhora estiver.] - disse Siro ao ver o truque da holo-camuflagem.

[Para que a gente se veja basta acionar o botão amarelo do punho direito. O visor de nossos capacetes ficará na mesma freqüência de nossas roupas. A camuflagem só durará mais dez minutos. Isto será o suficiente para a nave estar coberta.]

[Os ganchos estão prontos. Venham por aqui!]- Klag chamou seus companheiros para a beira do platô. Siro caminhou até a borda, mas deu um passo a mais no vazio e caiu. Era difícil se habituar com aquele visor cheio de instruções digitais além de ter uma nevasca prejudicando ainda mais a sua visão. Vulpes o segurou antes que fosse tarde demais.

[Obrigado!] - agradeceu o bajoriano.

Klag fincou a sua corda e começou a descer o paredão. Seus colegas fizeram o mesmo. A descida durou quinze minutos, mas pareceu uma eternidade para Sarah. Vulpes foi o primeiro a chegar. Sua agilidade era incrível. Por isso os Hunters os admiravam e por isso eles o caçavam.

[Creio que posso ir na frente para ver se teremos problemas.] - falou o reptóide.

[Não há necessidade, Vulpes. Temos como enxergar à distância com nossas lunetas embutidas no visor do capacete.] - explica Klag.

[Não com toda esta neblina. Jem’Hadar podem estar de patrulha camuflados também. Vulpes enxerga eles. Vulpes enxerga o que vocês não conseguem ver.] - insistia ele.

[Camuflados?] - Sarah não entendeu o que o tosk dizia.

[Os Jem’Hadar possuem um dispositivo que os deixam camuflados também.] - explicou Siro.

[Por que Brixx não nos contou sobre isso? Por que você não falou nada antes?] - reclamou Sarah.

[Ei! Ninguém me perguntou.Pensei que vocês já soubessem disso.] Siro se eximiu de qualquer culpa.

[O que a senhora acha, comandante?] - Klag esperava que Sarah desse o aval para a idéia de Vulpes.

[Ele é um tosk, sabe se virar. Pode ir.]

Vulpes então comete um gesto inesperado. Retira o seu traje e só com sua armadura leve avança pelo território inimigo. A sua agilidade era tanta que logo ele desaparece da vista de seus colegas. Além do mais os tosk tinham a habilidade natural de se camuflarem, como se fossem camaleões terrestres.

[Consegue vê-lo?] - perguntava Siro.

[Não, mas tenho o seu sinal.] - informava Klag observando o sensor acoplado ao rifle que carregava.

[Siro, recolha o traje e a mochila dele. Não podemos deixar pistas sobre nossa presença aqui.]-ordenou a comandante. O bajoriano cumpre a ordem a contragosto.

Os três avançaram com dificuldade pelo terreno coberto de neve. Lá na frente, Vulpes, que possuía uma visão infravermelha, estava sondando o terreno. Uma torre de comunicação com radar e pelo menos oito guardas transitando perto de uma entrada encravada na montanha.

[Vulpes para líder]

[Líder na escuta] respondia Sarah a uns quinhentos metros de distância.

[Zona quente a quinhentos metros da sua posição. Oito espinhos.]

[Mantenha posição.] Espinhos era o código para se referirem ao Jem´Haddar. Sarah manda seus comandados se separarem e avançarem para posições diferentes. Siro largou o material de Vulpes e seguiu pela direita.

Os soldados não estavam a vista. Mas podiam ser detectados pelos sensores dos rifles. Cada um tinha que pegar dois soldados de uma forma cronometrada. Quando todos estavam posicionados, Sarah seu o sinal de ataque. O primeiro a agir foi Vulpes que atingiu seus oponentes tão rápido que eles não tiveram chance de reagir. Klag usou sua qutluch*10, foi por trás de um dos soldados, e cortou o tubo que fornecia o KW na altura do pescoço. Isto o fez virar para receber o golpe fatal. O outro soldado escutou o gemido de dor do colega e virou-se. Klag retirou a adaga do peito de um Jem’Hadar e lançou-a no peito do outro. Este não fez muito barulho. Klag arrastou os corpos e cobriu-os de neve.

Siro tinha que pegar dois guardas que vigiavam o portão da montanha. Esperou que os dois cruzassem o caminho um do outro, quando faziam a ronda, e usou um único disparo para tentar pegar os dois de uma vez. O raio tonteou-os, mas não os abateu. Um deles chegou a devolver o fogo.Mas errou o alvo pois não podia ver seu agressor. Isto alertou os guardas da torre que começaram a atirar. O elemento surpresa já havia sido perdido. Sarah teve que agir e atirou nos soldados, usando disrupção máxima, vaporizando-os.

Klag e Vulpes avançaram para atacar os guardas do portão. Siro também avançou atirando.

[Cessar fogo!] - ordenou Klag, vendo que Siro ainda continuava atirando a esmo, o klingon teve que esmurrá-lo. Siro caiu para trás e ameaçou atirar contra seu colega.

[Eu mandei cessar fogo, alferes. Que parte desta ordem você não entendeu ? Esqueceu-se do treinamento? Investida silenciosa. Nada de phasers. Você quase estragou a missão.]

[Tá bom, eu errei. Achei que poderia ser mais rápido com o phaser. Não sabia que eram tão resistentes. Nunca combati corpo a corpo com um deles. Tive muita sorte de fugir das suas naves patrulhas no passado. Além do mais não é muito fácil lutar com este traje.]

[Não me interessa o que você acha, alferes. Apenas cumpra as ordens.Entendido?]

Neste momento Sarah aparece.

[O que está acontecendo aqui? Mas o que deu em você? Está a fim de nos matar?] - bravejou a imediato com o bajoriano.

[Ele estava confuso, mas agora creio que se lembrou do procedimento correto.] - informou Klag estendendo a mão para que o bajoriano se levantasse. Siro recusou a oferta e levantou-se sozinho.

[Com o devido respeito, comandante. Estamos perdendo tempo aqui. Vamos entrar logo antes que descubram o que está havendo aqui.] - Siro não dava o braço a torcer. Pegou o material do tosk e jogou-o de volta para o dono.

Sarah sabia que não adiantava mesmo ficarem ali discutindo. Ordenou que colocassem os explosivos no portão. Enquanto a porta era preparada, Sarah retirava amostras de células de um Jem’Hadar e também da droga. Futuramente essas informações seriam úteis. Tudo estava sendo registrado pela sua câmera.

Um chiado foi ouvido e depois sobreveio um pequeno clarão. A porta veio abaixo. Klag jogou uma granada de fumaça para dificultar a visão dos soldados. Confusos seriam mais fáceis de pegá-los.

Ao entrar observavam os sensores acoplados nos rifles e poucos guardas estavam a frente deles. Na certa jamais pensariam que alguém se atrevesse a invadir aquela base.

[Algum tipo de alarme?] - perguntou Sarah. Klag balançou a cabeça negativamente. Pelo menos não havia nada que os sensores captassem. Vulpes se separou do grupo e entrou em um corredor quando um campo de energia o aprisionou.

[Vocês vêem algum painel?] perguntava Sarah nervosamente querendo libertar o companheiro daquela enrascada. Siro e Klag procuraram, mas nada encontraram.

[Ele deve ter acionado o campo por acidente. O controle deve estar em outro lugar.]- deduziu Klag.

O número de guardas estava aumentando nos sensores. Precisariam libertar Vulpes o quanto antes. Em breve estariam cercados e descobririam se os teriam detectado. Klag observou que existia um corredor paralelo ao que Vulpes estava e teve uma idéia. Implantou cargas explosivas nele. Mandou Siro e Sarah se afastarem e detonou-as. Abriu uma porta para a fuga de Vulpes. A poeira proveniente da explosão caiu por sobre os trajes deles fazendo-os ficar parcialmente visíveis. Foi o suficiente para serem descobertos pelos soldados Jem’Hadar que haviam chegado. Começaram a troca de tiros enquanto corriam por túneis que não sabiam aonde dariam. Um deles parecia levar até uma mina e tinha um carrinho de carga. Entraram nele e liberaram uma trava que o mantinha freado. Se afastaram dos soldados, mas não deixaram de atirar um minuto. Infelizmente o carrinho levava até um pátio onde o KW bruto era descarregado. Lá foram cercados por pelo menos duas dúzias de soldados e operários Jem´Haddar.

A aparente frágil segurança externa na verdade escondia a forte defesa interna daquela fortaleza. Klag olhou para cima e para baixo e viu vários níveis de túneis. Aquilo era um labirinto e provavelmente existia centenas de Jem’Hadar a serem enfrentados. Eles não tinham chance. Retirou seu capacete e jogou sua arma ao chão. Siro e Tosk fizeram o mesmo.

Sarah sabia que estavam derrotados e que a missão já era. Lançou mão de um último recurso antes de ser capturada. Mentalmente pediu socorro para seu amado.

****

Capítulo XV

USS Albedo
Ponte de Comando

O capitão Dorian Alkon estava andando de uma estação a outra verificando sensores e sistemas da nave quando sentiu uma forte dor de cabeça.

- O que foi capitão? – perguntou Zagar.

Alkon não conseguiu responder. A dor estava forte demais. Tentou se apoiar em um dos consoles e foi ajoelhando devagar.

- Acho melhor chamar a doutora T´Vel. – ordenou McCormick a Zagar.

Gilbert amparou o capitão e o levou até sua cadeira onde o pôs sentado. Poucos minutos depois a doutora chegava empunhando seu tricorder médico na direção do capitão.

- Eles...Eles...Foram capturados. – disse o capitão com muita dificuldade.

- Como ele pode saber? Estamos a milhares de quilômetros deles. – espantou-se McCormick com tal afirmação.

- Ele tem treinado para ampliar seus poderes mentais. – explicou a doutora enquanto aplicava um sedativo em Alkon.

- Não! – protestou o capitão temendo perder o contato mental com sua imzadi. - Sarah...Sarah...Ela....- Alkon não conseguia coordenar seus pensamentos.

- Tenho que levá-lo até a enfermaria. Assuma o comando, senhor McCormick. Gilbert me ajude aqui.

- Informe, assim que puder, da condição dele e o que realmente motivou este ataque. – disse o oficial científico.

- Pode deixar. Mas posso adiantar o que ocorreu. Ele possui um elo empático com a comandante Okaido. Algo de ruim aconteceu a ela e isto o afetou.

- Se isto é realmente verdade temos que agir.

- Primeiro vamos cuidar do capitão. Não faça nada precipitado até eu saber se ele estará apto para o comando. Ele não gostaria que o senhor agisse sem consultá-lo.

- Apesar das ordens serem de abortar a missão, caso realmente a nossa equipe tenha sido capturada, irei esperar o seu parecer. – McCormick concordou em esperar, mas sabia que não poderiam esperar por muito tempo, pois as vidas de seus companheiros estavam ameaçadas.

No Planetóide...

O grupo avançado da Albedo estavam com os braços e pernas acorrentados, e suspensos a um metro do solo.

Elik apareceu para interrogar os prisioneiros e perguntou ao comandante Jem’Hadar sobre a cooperação deles.

- Não falaram nada. São bem treinados. – informou o comandante.

- Tulel...Tulel...Está perdendo o jeito em arrancar informações? – provocou Elik.

- Depende de em que condições o senhor irá querer que eles fiquem. Eu ainda nem comecei aplicar os meus métodos. Até os cardassianos já se chocaram com eles.

- Eu sei. Não precisa exagerar. Eu estava brincando. Eles possuem alguma identificação?

- Não, mas sua tecnologia é compatível com a da Federação. – Tulel mostra uma mesa com os equipamentos dos prisioneiros. – Eles vestiam um traje que os deixava invisíveis. Por isso que penetraram as nossas defesas tão facilmente.

Elik olha os equipamentos com indiferença.

- Sajmar e Zaldro não recalibraram os sensores direito. Talvez tenha que puni-los. – Elik volta os seus olhos para os prisioneiros e se aproxima deles. – Quer dizer que eles são da tão falada Federação? Eles são corajosos, não?

- O que o senhor fará com eles? – pergunta Tule ansioso por voltar para a suas técnicas de tortura. Elik não responde e continua a observar os prisoneiros.

- Este aqui é um tosk, não? Um tosk com membros da Federação? Este universo está mesmo de pernas pro ar.

- Ele foi capturado junto com eles e pelo que vestem parecem fazer parte de um mesmo grupo.

- Um tosk capturado...Quem diria ? Uma coisa rara de se ver, não é? Avise os Hunters. Eles irão me dar uma boa soma por ele. Já encontraram a nave deles?

- Estamos com algumas equipes verificando o perímetro.

- Envie algumas naves ao espaço. A nave-mãe deles deve estar por perto. Não quero dar motivos a Dorth ou a mulher dele para me prejudicar. Eu disse que seria melhor instalar satélites de defesa, mas eles disseram que chamaria muita atenção. Então viramos alvo fácil. Como será que nos descobriram ? Como ? – Elik cutuca primeiro Klag, com um bastão que solta uma descarga elétrica, mas ele nem olha para Elik.. Depois tenta Siro que também suporta a dor. Depois pára na frente de Sarah. Ela estava com um corte na testa e nos lábios. Fruto da agressão que sofrera quando de sua captura.

- Esta humana parece valente. Comece com ela. Os humanos são os mais fracos. Mas não a mate. Grave seu sofrimento. As imagens deverão comover alguém de seu povo. Os humanos, pelo que sei, são muito emotivos. Poderemos obter as informações que queremos se fizermos uma pequena chantagem. Só precisamos saber para onde enviar este material. Mas você vai dizer, não é, mulher? – Elik dá um choque também em Sarah que grunhe de dor.

- Pode deixar senhor. Será um prazer. – Tulel pega uma lança com um laser na ponta e usa no abdômen da comandante que grita de dor enquanto sua carne é cortada.

Elik, de costas para a cena se delicia. – Oh, sim...Ótimo! Continue...- então ele se vira e puxa uma cadeira para assistir o horrendo espetáculo. Tulel faz uma nova investida e Sarah volta a gritar. Klag tenta, em vão, se soltar das correntes que o prendia. Mas não era tão forte quanto pensava. Lembrou-se das palavras de seu pai durante as visões que tivera no Maj´Qa:

Você precisa ser forte para a grande batalha que virá...” “Um guerreiro não se arrepende da escolha que faz”.

Na USS Albedo o capitão se recupera na enfermaria.

- Está melhor? – pergunta a doutora assim que Alkon abre os olhos.

- O que aconteceu?

- Você sofreu um abalo psíquico-empático.

- Sarah? Ela está bem?

- Diga-me você. O elo entre vocês é bem forte.

Alkon volta a fechar os olhos e sente dores na barriga.

- Arrrgh...Ela está sofrendo. Está sendo torturada.

- Pode ver os outros? Pode senti-los?

- Eles...Eles estão vivos, mas também foram capturados. Tenho que ajudá-los. – Alkon sai do transe.

- É arriscado demais. Devia pedir ajuda ao almirante Petersen.

- Nós só o encontraremos em quatro dias e duvido que ele nos ajudasse agora. Vou resgatá-los com a segunda equipe.

- Não creio que o senhor esteja em condições para liderar uma operação dessa.

- Então a senhora se incumbirá que eu fique em condições. Parabéns, doutora, você está no time. Sairemos em dez minutos. – Alkon toca em seu comunicador. – Tenente Allison e Alferes Gilbert, apresentem-se ao hangar um.

T´Vel não consegue impedir o capitão de tomar aquela atitude. Na verdade, ela estava contente em poder tomar parte daquela equipe de resgate para salvar a única pessoa que ela considerava uma amiga.

Na ponte McCormick observava nos sensores a aproximação de naves Jem´Haddar.

- Naomi...Temos companhia. Podemos acionar a camuflagem? – perguntou ele à chefe de engenharia através de seu comunicador.

-“O sistema não está em condições de operar novamente por agora. A tecnologia Breen não é muito compatível com os nossos sistemas...

- Ótimo! Vou pedir para que nos visitem mais tarde. – brincou McCormick.

-“Ok,ok! Terei que desviar alguns circuitos de ODN. Me dê dez minutos...

- Faça o mais rápido que puder. Eles estão chegando perto. Não sei se nos detectaram.

Pode deixar. Serei mais rápida do que o costume, mas não espere um milagre Scott” – disse ela em referência ao famoso engenheiro da lendária Enterprise.

Lá fora os caças inimigos sondavam o campo de asteróides a uns quinhentos quilômetros da posição da Albedo, que se escondia detrás de um imenso pedregulho flutuante. O silêncio na ponte era sepulcral. Nem mesmo Sleek sibilava. Apenas suas pálpebras laterais mexiam, nervosamente, a cada segundo.

- Brixx...Acione alerta vermelho silencioso. Prepare as armas.

- Sim, senhor. Aciono os escudos?

- Não.Precisamos da energia deles para a camuflagem. Se ela der certo eles não serão necessários.

De repente um dos caças desvia de sua rota e voa na direção da Albedo. O sangue nas veias de McCormick gelou. Teriam sido detectados?

- Naomi....- sussurrava quase numa súplica pelo comunicador o coamandante interino.

-“Estou quase...Vamos...vamos...”- falava a engenheira com carinho com o sistema de camuflagem.

Quando o caça Jem’Hadar estava a um quilômetro da Albedo, deu meia volta e reintegrou-se a formação da patrulha. A camuflagem tinha sido acionada a tempo.

Alkon para a ponte. Temos sinal verde para sair?

- Sair ? Desculpe perguntar, capitão, mas onde pensa ir?

- “A equipe um está em perigo. Precisamos ajudá-los.

- Temos um enxame de vespas lá fora, capitão. Se saírem agora poderão ser picados.

-“Grato pela preocupação, tenente, mas não temos escolha. Precisamos agir rápido pois existem vidas em jogo.” – insiste o capitão.

- Senhor...O senhor sabe que, pelo regulamento, não recomendaria esta ação. Não podemos ameaçar a missão perdendo mais gente para o inimigo.- McCormick expõe seu ponto de vista.

- Capitão...Como oficial tático interino devo concordar com o oficial de ciências. - se manifesta Brixx.

No hangar o grupo fica em silêncio por alguns segundos.

- Posso dar uma sugestão? – pergunta Allison, já em seu uniforme negro e cinza.

- Pode falar, tenente. – licencia o capitão.

- Podemos nos misturar ao enxame. Tomamos o lugar de uma das naves com a holo-camuflagem e voamos até o planetóide sem levantar suspeitas.

- Pode dar certo, mas destruindo uma nave deles, a explosão resultante alertará os demais. – comenta Gilbert.

- Não se não houver uma explosão. – diz Alkon. O capitão continua a falar com a ponte através do intercom automático acionado pelo comando vocal, uma vez que, nenhum membro da equipe de resgate estava portando o broche-comunicador. – McCormick...Identifique a nave mais afastada do esquadrão patrulha Jem’Hadar e passe as coordenadas para a Zênite.

-“Sim,senhor!

- O que tem em mente, capitão? – perguntou a doutora.

- Algo que fará com que o plano da Tenente Allison dê certo.Vamos embarcar que eu conto no caminho.

A nave auxiliar partiu ziguezagueando por entre as imensas rochas flutuantes até se aproximar por detrás do último caça Jem´Haddar.

- Preparar torpedo com nanotech vírus. Marco 135.5. Isto o colocará bem acima deles. Quando o detectarem o vírus terá sido liberado, incapacitando seus sistemas por quinze segundos. Em seguida me transportarei à bordo e os porei fora de ação. A Albedo capturará a nave, que ficará a deriva, com um raio trator, enquanto nós seguiremos o curso das demais. Se elas estiverem indo até o planetóide muito que bem, senão daremos uma desculpa e seguiremos o nosso plano.

- Ótima idéia, senhor.- congratula Allison.

-Gostaria de oferecer-me para abordar a nave no seu lugar, capitão. – disse o alfres Gilbert procurando seguir o protocolo de salvaguarda do capitão; que rezava que um capitão da Frota Estelar não devia se arriscar em missões avançadas sem necessidade.

- Entendo que queira seguir os protocolos, alferes, mas devo negar o pedido.

- Com o devido respeito, capitão, se o senhor tiver outro ataque mental daquele ficará vulnerável e porá a missão em risco.

- Ele está certo, capitão. – intrometeu-se a doutora. – Seus reflexos não estão cem por cento e sabe que não posso administrar nenhum sedativo no senhor.

Alkon fica pensativo por um tempo. – Tem certeza que pode dar conta, alferes?

- Sim, senhor. Durante o treinamento na base 375 obtive boas notas nas práticas de tiro. Noventa quatro ponto cinco por cento de eficiência! – disse o alferes com orgulho.

- Preste atenção, rapaz. Não estamos numa simulação de combate. Isto é a vida real. Terá que ser cem por cento ou nada.Entendeu? – Alkon apoiou sua mão no ombro de Gilbert para reforçar o seu aviso. – Muito bem. Vá para a plataforma de transporte e aguarde o meu sinal.

O plano foi posto em prática e tudo funcionou como um relógio quântico. Havia apenas dois soldados Jem’Hadar no caça que foram postos fora de combate antes mesmo que percebessem o que estava acontecendo. Por sorte os cinco caças estavam retornando ao planetóide no qual eles estavam querendo ir. Eram realmente a esquadrilha patrulha do centro de produção de ketracel-white. Retornaram avisando que não detectaram nenhuma nave inimiga nos arredores. O problema começaria quando pousassem. Como sairiam da nave sem colocar o disfarce sob suspeita? Logo que Gilbert retornou o capitão deu novas ordens.

- Vistam estes trajes de isolamento. Estes são bastante flexíveis para vestirem sobre os nossos trajes espaciais. – dizia Alkon abrindo um compartimento na parede da nave.

- Vamos ficar realmente invisíveis com essa coisa? – perguntou Allison ainda descrente.

- Pelo menos é o que diz o manual. – brincou Alkon entregando-lhe um PAD com instruções de uso para ler.

Assim que a nave pousou a porta abriu-se e fechou em seguida sem que nenhum deles fosse visto. Tinham uma hora para encontrar seu pessoal. Era o tempo que duraria a camuflagem holográfica. Não podiam perder tempo, por isso, alguns soldados Jem’Hadar que encontraram pelo caminho, foram sendo postos fora de combate sendo vaporizados por feixes de phasers em disrupção máxima.

[Localize-os!] - ordenou Alkon a Gilbert pelo comunicador. O alferes ficou a mover seu tricorder de um lado para o outro sem sucesso.

[Eles possuem um campo de força que afeta os instrumentos. Não consigo detectá-los. Desculpe, capitão!] - respondeu Gilbert pelo comunicador no capacete.

[Teremos que encontrar uma entrada então.] - Alkon faz um sinal para se dividirem, enviando Allison e Gilbert para a direita, enquanto ele e a doutora iam para o sentido oposto.

Caminhar pela neve com toda aquela vestimenta era bem difícil. Contudo a lentidão ajudava o grupo a agir com prudência, pois os movimentos eram bem calculados.

Um Jem´Haddar, próximo a torre de controle, observou passos na neve aparecendo como uma ilusão. Aproximou-se para verificar se o que via era realidade ou não. Foi a última coisa que viu.

[Capitão...Encontrei a entrada.] - informava Allison pelo comunicador do capacete. Ela acendeu um sinalizador químico para facilitar a visualização do local, pois a tempestade de neve estava bem forte aquela altura e prejudicando os sensores de localização embutidos nas armas.

Quando Alkon e T´Vel chegaram, Gilbert já estava trabalhando, com um tricorder, em como derrubar o campo de força existente em um portão que fora anteriormente arrombado.

[Parece que eles passaram por aqui] - comenta T´Vel ao ver o estrago na entrada da caverna.

[Quanto tempo você precisa alferes?] - pressionava o capitão.

[A configuração do campo é desconhecida. Não posso precisar...cinco...talvez dez minutos...] - o rapaz estava nervoso e preocupado em não poder atender as expectativas de seu capitão.

[Não podemos nos demorar. Vamos ter que usar um método mais rápido.] - Alkon pega um estojo acoplado em seu cinturão e retira algumas cápsulas de metal e um detonador por controle remoto.

[Nanotechs? Você realmente gostou destas coisas, não?] - comenta T´Vel ao ver a predileção do capitão por aquela tecnologia.

[A senhora deveria gostar deles também, doutora. Eles revolucionaram a medicina.] - responde Alkon.

[Eu só uso nanobots em último caso. Neste campo eu sou o que vocês diriam...conservadora.]

Alkon entrega algumas cápsulas, que eram magnéticas, para que Gilbert aplicasse nas bordas do campo de força.

[Vamos nos afastar. Se algum deles voar na nossa direção quando eu abrir as cápsulas nossos trajes terão o suporte vital desabilitado e estaremos em uma encrenca séria.] - ordena o capitão.

[Senhor...Assim que o campo de força abaixar eles saberão que há intrusos e virão investigar.] - alerta Allison.

[Estou contando com isso, tenente.] - responde o capitão com um certo desejo de vingança. Quando todos estavam a uma distância segura as cápsulas foram abertas. O campo fora desligado e eles entraram. Enquanto corria para o interior da montanha Alkon explicou como os seus “brinquedinhos” iriam agir.

[ Os nanotechs irão penetrar em todo os sistema deles. Eles deverão ficar ocupados tentando verificar o que está ocorrendo e isto nos dará tempo para achar o nosso pessoal. Agora, se encontrarmos resistência pelo caminho, procurem não fazer muito barulho.]

[Qual a direção ?] - perguntou Gilbert ao capitão.

Alkon fechou os olhos por um momento e viu a face em sofrimento de Sarah. Ela não estava nada bem.

[Por ali.] - indicou ele a direção correta onde estavam seus companheiros e sua amada.

As luzes do complexo começam a falhar e as máquinas de produção de White apresentam interrupções.

- O que está acontecendo? – pergunta Elik preocupado. – Você...- aponta para um soldado Jem’Hadar – Vai ver o que está havendo.

- Devo continuar ? – pergunta o comandante Tulel.

Elik se aproxima e levanta o rosto da já inconsciente comandante Okaido.

- Ela foi uma soldado corajosa. Não esperava que resistisse tanto. Estes humanos são realmente surpreendentes. – Elik solta a cabeça da comandante e se volta para os demais.

- Que tal o klingon? Não gosto do jeito que ele olha para mim. – sugere o comandante Jem´Haddar.

- Um klingon...Sempre quis ver um de perto. Já ouvi falar muito sobre vocês e seu código de honra. Ah...E também como foram subjugados pela tal Federação.

- Me tire daqui que eu ensino mais algumas coisas sobre nós klingons. – vocifera Klag.

- Oh. Oh. Oh! Eles são mesmo violentos, não? – diz Elik com escárnio. – Nos ensine então como resistir ao nosso método de interrogatório. – Elik faz um sinal para que Tulel comece a tortura. O bastão em brasa perfura a coxa de Klag lentamente enquanto ele tenta não urrar de dor, algo impossível de evitar quando o bastão é retirado pela primeira vez.

- Onde está a sua nave, klingon? – pergunta Tulel enquanto rasgava a carne da coxa direita de Klag pela segunda vez com o bastão com laser, que era torcido enquanto penetrava mais fundo.

- tIch baHhHa ! qaHoH!*11 – grita Klag contra o seu carrasco.

- Isto! Eu gosto mais quando reagem. – diz Elik satisfeito ao assistir toda a cena.

- Comandante! – chama o soldado Jem’Hadar que estava de volta com um informe. – Os sistemas estão falhando. A fábrica está paralisada!

- A produção! A produção não pode parar! – Elik sai desesperado da sala de tortura para ver o que está acontecendo. – Sajmar! Zaldro! – Elik chamava pelos seus ajudantes sempre que algo ia de mal a pior. Ele precisaria culpar alguém e, até que se encontrasse os verdadeiros culpados, eles serviriam bem para extravasar a sua raiva.

****

Capítulo XVI

McCormick, Naomi e Brixx estavam na sala de reunião da ponte discutindo o andamento da missão.

- O capitão, se tiver sucesso, terá que sair de lá depressa e deverá ter apoio. Penso em sair de nossa posição e ir camuflado até a órbita do planetóide. Comentários? – pergunta McCormick que estava no comando interinamente.

- Acho arriscado. Não sabemos o tamanho da força de defesa deles. Não se esqueça que eles tem naves camufladas também. – alerta Brixx.

- Eu não me esqueço de nada. – responde McCormick sorrindo lembrando ao boliano que ele possuía uma memória perfeita. – A única coisa que me preocupa é se eles poderão nos detectar de alguma forma.

- Teoricamente sim. Eles podem detectar as emissões de plasma de nossas naceles ou radiação de bárions se estivermos em dobra, mesmo estando camuflados. – responde Naomi as questões técnicas.

- Então teremos que contornar esses problemas. Usaremos a dobra um até o limite do sistema e depois só os motores de impulso e então...

- Navegaremos por inércia corrigindo o curso com os manobradores até detectar o nosso pessoal. Pode dar certo! – conclui a engenheira o pensamento do oficial de ciências.

- Quanto tempo levaríamos para chegar até lá? – perguntou, curioso, Brixx.

- Bom...Umas seis horas...- disse Naomi um pouco preocupada em não chegar a tempo.

- Se usarmos dobra 2.5 até o sistema isto pode levar umas duas horas, correto? Comunique ao senhor Sleek e trace uma rota segura. – diz McCormick a engenheira.

- Acho que o capitão não aprovaria esta investida, bem como o almirante Petersen. Nossas ordens foram para aguardar. – diz Brixx se opondo a missão.

- Comentário anotado, tenente. Estou assumindo toda a responsabilidade. Agora, se não for pedir muito, vá para o seu posto. – McCormick não tinha ido com a cara do boliano. Ele era bem diferente de seu primo. O pessoal da Albedo era como uma família e ninguém era deixado na mão. Quem era ele para dizer o que fazer ?

O boliano se retira com uma cara pouco amistosa.

- Ele parece não ter gostado. – comenta Naomi.

- Ele não precisa gostar. Basta obedecer ordens. Isto Borix sabia fazer bem e era bem mais simpático. – Lembra McCormick com certo pesar. – Naomi...Eu estive pensando...Você é que deveria assumir o comando. Afinal de contas, você é a oficial de maior patente.

- Não, Doug. Você tem mais experiência no comando. Você conviveu com os grandes por muito tempo e eu sou, no fundo, apenas uma engenheira de base estelar. Deixe-me com meus propulsores e reatores, ok?

- Não se menospreze. Você é uma excelente engenheira de nave estelar. Eu fui apenas um ajudante de ordens de almirantes...

- Além do mais foi o capitão que te passou o comando. O que ele diria se soubesse que você passou o cargo adiante?

- Tá. Eu devo estar um pouco inseguro. Eu me lembro do curso de comando e... Puxa. É muita pressão. Ufa! – respirou fundo - Está bem. Vamos deixar como está. Vamos seguir com o plano e torcer para que façamos alguma diferença.

- Ei, calma. Sempre fizemos, não é ? – Naomi sorri tentando confortar o amigo. Ambos saem juntos para a ponte de comando.

****

No planetóide, Alkon observava a grande movimentação dos soldados Jem’Hadar que passavam por eles sem os notarem. Os trajes de isolamento estavam funcionando em um espectro não visível a eles.

[Capitão...] - Gilbert chamou a atenção de Alkon mostrando os sinais de vida de seus colegas no visor do scanner de seu rifle. Fez um sinal com dois dedos apontados para frente para significar que estavam a duzentos metros. Eles procuravam esconder os rifles enquanto andavam, pois seria muito estranho verem as armas flutuando sozinhas pelo ar. O que denunciaria, imediatamente, suas posições. O elo mental de Alkon e Sarah ficara mais forte. Mesmo sem um sensor ele seria capaz de descobrir onde ela estava. Não demorou muito para chegarem onde estavam os reféns. Alkon se chocou com o que viu.

Sarah tinha a barriga queimada e perfurada em vários pontos, além de escoriações pelo rosto, denotando que recebera vários socos. Klag estava com uma barra atravessada em sua coxa e com os lábios sangrando devido as recentes agressões. Siro e o Tosk eram os menos machucados, mas o fato de ver a todos acorrentados e suspensos no ar, revoltou mais ainda Alkon que lançou uma onda mental contra os soldados Jem’Hadar que estavam no recinto, jogando-os contra a parede.

T´Vel retirou a parte superior do traje de isolamento para poder usar seu scanner médico, enquanto Gilbert atirava nas correntes para libertar seus camaradas. Allison e Alkon ajudavam, um a um a se soltar. Sarah estava inconsciente.

[Ela está muito mal, capitão. Temos que levá-la imediatamente para a Albedo.] - informava a doutora.

Neste meio tempo Elik e seus ajudantes retornaram e o que viram fez Sajmar e Zaldro desmaiarem.

T´vel tinha apenas a metade do corpo aparecendo, Allison somente a cabeça, Gilbert apenas um dos braços segurando um rifle.

- Pelos Fundadores! O que são vocês? – balbuciou Elik tremendo de pavor. De repente ele foi erguido no ar. – Socorro! Me solte! Socorro! – uma voz , vindo de lugar nenhum, falou com ele.

[Você merece morrer, desgraçado! Mas tenho uma idéia melhor. Você virá conosco!]

[Capitão...Soldados Jem’Hadar vindo nesta direção! Precisamos ir!] - avisa Gilbert.

[Escute – fala Alkon com Elik ainda suspenso- Eu vou soltá-lo, mas lembre-se que existem armas apontadas para você. Não tente nenhuma ação heróica.]

- Eu herói? Eu, Elik? Eu só sou um pobre comerciante querendo ganhar a vida honestamente e...

[Preste bem atenção! Você vai nos tirar deste lugar. Diga aos seus soldados quando chegarem que está tudo bem e que você vai transferir os prisioneiros.]

- E o que ganho com isso?

[A sua vida vale alguma coisa?]

- Parece que o acordo é justo!

Alkon coloca Elik no chão. Allison e Gilbert recolocam seus trajes de isolamento, menos a doutora que ainda estava parcialmente visível tentando tratar da perna de Klag.

[Doutora...Eles estão quase aqui.] - alerta Alkon.

- Tudo bem doutora...Eu posso agüentar a dor. A senhora cuida dela mais tarde. – pede o klingon.

T´Vel não vê outra alternativa em recolher seus instrumentos e recolocar o traje. Bem na hora em que seis soldados Jem’Hadar aparecem.

- Está...Está tudo bem! Podem ir. Um dos prisioneiros tentou escapar, mas agora já está tudo sob controle!- diz Elik aos soldados.- E vocês...Seus inúteis! Levantem logo daí! – dizia chutando seus ajudantes que estavam desmaiados no chão.

Um dos soldados olhou para o fundo da sala e viu seu comandante tentando se levantar apoiando-se na parede.

- Tudo bem, comandante?

Alkon e Gilbert o estavam sustentando e o alferes ergueu a mão do comandante Jem’Hadar para sinalizar que tudo estava em ordem. Os outros dois soldados que estavam na sala estavam apontando suas armas para os prisioneiros que, agora, estavam sentados no chão. Na verdade eles também estavam sendo sustentados, invisivelmente, pela tenente Allison e pela doutora. Assim que os Jem’Hadar se retiraram, seus pares são devolvidos ao chão, para o alívio de todos, pois eram muito pesados. Alkon voltou a falar, para o espanto dos ajudantes de Elik:

[Muito bem. Agora você vai nos levar p´ra fora daqui. Siga em frente e mostre o caminho.]

- Um momento...Senhor invisível....Eu não posso escoltar os prisioneiros. Os Jem’Hadar é que fazem este serviço. Irão desconfiar se não fizermos isso direito.

Elik tinha razão e Alkon sabia disso. Mas ele não podia simplesmente acordar um Jem’Hadar e fazê-lo concordar com o seu plano. Ele morreria lutando antes de se submeter a isso. Teriam que arriscar. Siro e Vulpes seguraram Sarah, enquanto Klag mancava atrás deles. Elik ia à frente e seus asseclas escoltavam o grupo juntamente com Tulel que empunhava uma arma descarregada e tinha uma outra pressionando as suas costas.

- Não olhem para trás. – alertava Elik aos seus ajudantes que não estavam entendendo o que estavam fazendo. – Não quero começar um tiroteio aqui. Não comigo no meio do fogo.

- Vocês não vão conseguir fugir. Mandaremos as nossas naves atrás de vocês e não esperem por misericórdia! – ameaçava o comandante Jem´Haddar.

[Cale a boca e continue andando.] - falou Alkon.

Finalmente chegaram no túnel que daria acesso a saída. Alkon alvejou Tulel, que tombou inconsciente. Elik e seus ajudantes foram os próximos. Os colegas feridos recolocam seus trajes espaciais. Alkon deu seu traje de isolamento para Sarah. Lá fora, Alkon dá novas ordens ao grupo.

[T´Vel, Allison e Gilbert levem os feridos na Zênite. Eu, Siro e Vulpes vamos atrasá-los o máximo que pudermos.]

[Capitão...Sem o seu traje o senhor está vulnerável...Permita-me...] - Klag , mesmo ferido, tentava proteger seu capitão.

[Já tem suas ordens, tenente. Agora vão. Não vão demorar para descobrirem que foram enganados. Vão, vão, vão!]

E realmente não demorou muito. Vários soldados Jem’Hadar apareciam do nada atirando em várias direções. Alguns tiros passaram bem perto deles. Alkon, Vulpes e Siro se entrincheiraram em alguns montes de neve e devolveram o fogo. Ainda estavam em vantagem. Seus inimigos não os viam. Contudo tinham que ficar mudando de posição o tempo todo porque, cada vez que atiravam, denunciavam suas posições. O tiroteio era intenso. Quanto mais Jem’Hadar tombavam, mais pareciam surgir de dentro da montanha.

Não muito distante dali, o outro grupo avançado da Federação chegava a salvo dentro da nave auxiliar. Allison retira o traje de isolamento, o seu capacete e corre para o console de navegação.

- Segurem-se pessoal! Vamos voar sob uma tempestade.

A nave tem dificuldades em estabilizar o vôo devido as fortes correntes de ar, mas Allison era uma excelente piloto e conseguiu manobrar a nave a contento. Gilbert logo se juntou a ela.

- Não podemos deixar o capitão e os outros lá embaixo. – dizia o alferes inconformado com a situação.

- Temos nossas ordens, alferes. – disse Allison com dor no coração.

- Mas isto não impede que possamos dar-lhes uma chance de escaparem. – Allison se surpreende, mas sorri ante a sugestão de Klag que se postava atrás dela – Faça a volta e mire nestas coordenadas.- disse o klingon clicando no console adiante de Gilbert.

- Senhor? – Gilbert estava confuso. Era pra ir, agora era pra voltar...

- Esta não é uma boa hora para questionamentos, alferes. Faça o que estou dizendo. – Klag foi taxativo.

Allison não questionou e Gilbert também não. T´Vel observou a todos e não intercedeu. Estava mais preocupada em estabilizar as condições de sua paciente e amiga.

Lá embaixo os Jem’Hadar estavam avançando e se aproximando perigosamente das posições de Alkon e seus oficiais.

[Não iremos agüentar por muito tempo. Meu rifle já está quase sem energia.] - dizia Siro pelo comunicador do capacete.

[Não importa.Lutaremos na mão, se for preciso.] - respondia Alkon entre um tiro e outro.

[Este é o espírito, capitão. O senhor poderia ser um Maqui!] - disse Siro.

[Tomarei isto como um elogio]

Siro ri enquanto mudava de posição para evitar ser alvo da artilharia inimiga. Alkon, infelizmente, é encontrado pelos Jem’Hadar que se materializam ao seu lado, forçando a um combate corpo-a-corpo. Vulpes surge para ajudá-lo. Alkon se utiliza dos seus poderes telecinéticos para afastar seus inimigos. Mas eles são muitos. De repente, um pequeno bombardeio criou uma nuvem mais espessa que a própria tempestade. Os três aproveitaram a situação para correrem até o paredão onde teriam que escalar para chegar até a Azimute.

Enquanto isso a Zênite rumava para o espaço.

- Isto dará algum tempo para eles. – afirmou Klag.

- Espero que sim, senhor. – falou Allison - Senhor...quanto a antes...- Allison tentava se explicar da sua atitude de seguir as ordens às cegas.

- Tudo bem, tenente, eu compreendo. Não precisa ficar constrangida por seguir ordens.

- Na verdade eu fiquei bem aliviada quando o senhor deu a contra-ordem. Eu iria me sentir mal se não tivesse feito nada por eles.

- Você é uma ótima oficial e terá uma grande oportunidade para demonstrar, mais uma vez, que é uma excelente piloto, se conseguir nos levar de volta inteiros.

- Pode apostar, senhor.

Nesse ínterim explosões são sentidas próxima a nave. Eram naves inimigas em perseguição. Duas delas.

- Temos companhia. – disse Gilbert.

- Responda o fogo. Envie mensagem de socorro criptografada para a Albedo. Informe também a emergência médica. – ordena Klag.

- Sim senhor. Mensagem enviada. Espero que o campo de asteróides não prejudique...Senhor...- Gilbert estava espantado.

- O que foi?

- Eles já responderam.- respondeu o alferes ainda intrigado.

- Em quanto tempo eles vão chegar ?

Eles vêem a Albedo se descamuflando e as duas naves Jem’Hadar que estavam atrás deles sendo destruídas como resposta.

A Zênite ruma em impulso máximo para o hangar da nave. Um pássaro havia retornado ao ninho. Faltava ainda um.

****

Capítulo XVII

Alkon correu mais do que na sua época de colegial ou de treinamento na academia. Chegou ao sopé da montanha quase sem ar.

[O senhor está bem, capitão?] - perguntou Siro preocupado.

[Acho que gastei todo o meu suprimento de oxigênio]- responde arfando.

[Não foi fácil correr neste relevo acidentado com neve de trinta centímetros, mas acho temos uma boa dianteira.] - confirma Siro olhando seu scanner em seu rifle.

[Graças ao nosso pessoal! Espero que eles também tenham conseguido!] - comentou Alkon.

Vulpes estava ao lado deles impassível. Não parecia cansado. Não estava usando traje de isolamento ou vestimenta espacial. Apenas o uniforme de assalto da Federação. Ele analisava a situação e resolveu se pronunciar:

-Capitão...Eu posso escalar mais rápido do que vocês e poderei trazer a nave para mais perto. – ele quase gritava para ser ouvido em meio a tempestade.

[Está bem, soldado. Vá na frente. Ficaremos aqui dando-lhe cobertura.] - responde Alkon aceitando a sugestão do Tosk que, imediatamente, pôs-se a escalar o paredão reutilizando as cordas que haviam deixado para trás. A sua agilidade era impressionante,. Não era à toa que sua raça era projetada para serem os fugitivos perfeitos. Olhando como Vulpes escalava com extrema facilidade, era difícil imaginar que alguém conseguisse pegá-lo.

[Capitão.Não acho uma boa idéia.] - protestou Siro.

[Por quê?]

[Um Tosk é um fugitivo por natureza. Quando ele tiver pegado a nave, vai dar o fora e nos deixar para trás.]

[Vulpes não é um Tosk comum. Ele escolheu servir à Frota.] - Alkon discorda do bajoriano.

[O senhor confia demais nas pessoas, capitão.]

[Assim como confiei em você. Você ainda é um Maqui e está sob a minha custódia. Você poderia também me dar um tiro e fugir. Por quê ainda está aqui, lutando ao meu lado?]

Siro pensa um pouco e responde:

[Para fazer o que é certo. Se temos alguma chance de derrotar o Dominion, espero poder colaborar com isso. Detestaria ter que, depois de tantas batalhas, apenas ver que trocamos um inimigo por outro que não poderemos vencer. Com vocês e os cardassianos sabemos que podemos lidar.]

[Como vê, todos nós temos as nossas motivações. A de Vulpes é de ter a oportunidade de fugir a sua programação genética, de conquistar a sua individualidade.]

[E qual é a sua motivação, capitão?]

Alkon fica sem resposta por um momento. Por que ele ainda arriscava o pescoço pela Frota depois que a mesma o havia quase expulsado? Ele ainda se fazia esta pergunta todas as manhãs desde que retiraram o seu comando da USS Babel.

[Sou um oficial da Frota Estelar. Minha motivação é manter a paz e a ordem no quadrante Alfa.] - respondeu da forma mais hipócrita possível.

[Besteira!] - comenta Siro não acreditando em nenhuma sílaba que Alkon pronunciara.

O papo fora abruptamente interrompido pelas rajadas de phaser vindas em suas direções. Os Jem’Hadar os haviam encontrado.

[Proteja-se!] - gritou Siro para Alkon que não contava com a invisibilidade. Não foi preciso dizer duas vezes. Alkon encontrou um escudo em uma rocha próxima. Devolveram o fogo. Alkon jogou duas granadas na direção do inimigo. Não dava para ver quantos eram pois eles também contavam com dispositivo pessoal de camuflagem. Mas o silêncio advindo depois das explosões significavam que Alkon havia acertado o alvo.

[Boa pontaria, capitão!] - elogiou Siro.

[Obrigado!Esta foi apenas a primeira onda. Vamos procurar uma possição mais protegida.]

Os dois combatentes se deslocam cuidadosamente, com armas em punho, entre os rochedos.

[Uma nova patrulha não tardará. A explosão vai atrair mais deles até a nossa posição.] - afirmava Alkon.

[Vamos torcer então para que o Tosk chegue antes.] - disse Siro jogando o seu rifle descarregado no chão e pegando um phaser de mão.

Um novo grupo de soldados Jem’Hadar chegam trazendo desesperança para o bajoriano. Eram muitos tiros. Siro imitou Alkon e jogou duas granadas na direção deles, porém, antes que explodissem sozinhas, ele atirou nelas enquanto estavam no ar. O deslocamento de ar foi maior e atingiu mais inimigos. Alkon ficou espantado com aquela inusitada tática.

[Foi uma coisinha que aprendi entre os Maquis.] - se vangloriava o bajoriano.[Cadê aquele lagarto supernutrido? Eu avisei que não devíamos confiar nele!] - praguejava.

[É uma escalada difícil. Mesmo para um Tosk. Acredite. Ele voltará.Continue atirando. Cuidado! À sua direita!]

O aviso de Alkon foi providencial. Um Jem’Hadar havia se materializado bem perto de Siro, que só tem tempo de se abaixar antes de quase ter sua cabeça decepada por uma lâmina. Siro dá-lhe um golpe , rouba a lâmina e tira a vida de seu inimigo. Como eles o havia encontrado?

Eles devem estar usando sensores térmicos!] - concluiu Alkon como se lesse os pensamentos de Siro.

[Eles nos encurralaram! E a nossa munição está acabando!] - constata o bajoriano.

[Ainda temos uma opção.] - Alkon se referia aos seus poderes telecinéticos. Concentrou-se na rocha pendente acima deles e provocou uma avalanche. - [Corra para o paredão até aquela fenda. Rápido!]

[Por quê?]

[Não discuta! Faça o que mandei! Vai!]

Quando Siro ouviu o ruído da avalanche entendeu as ordens do capitão. Correu o mais rápido que pôde.

Exausto com o esforço mental que fizera, Alkon, ao correr, tropeça e cai. A última coisa que vê é um manto branco vindo do céu em sua direção.

No espaço...

- Naves Jem’Hadar se aproximando a bombordo a quinhentos quilômetros. – avisou Brixx do console tático.

- Quantas são? – perguntava McCormick da cadeira do capitão.

- Uma nave de batalha e cinco caças. – informava o boliano prontamente.

Naomi olhou assustada para o oficial de ciências. McCormick sabia que de nada adiantaria se desesperar. Neste momento, Gilbert e Allison adentram a ponte, ela reassume o leme e Gilbert, o posto científico.

- Graças a Deus que vocês estão bem. Onde está o capitão e a número um ? – pergunta McCormick.

- A comandante Sarah e Klag estão sendo atendidos na enfermaria pela doutora T´Vel. O capitão, o bajoriano e o Tosk ainda estão no planetóide. – informou Allison.

- Senhor, se me permite...Não podemos deixa-los. Temos que resgata-los. – solicitou o alferes Gilbert.

- Não se preocupe, alferes, iremos fazê-lo, mas agora parece que temos um problema maior. Parada total. Cortar a energia de todas as áreas não essenciais. Suporte de vida em cinqüenta por cento. Como está a nossa camuflagem, Naomi?

- Poderemos mantê-la, sem nenhuma flutuação, com energia de emergência, por mais uma hora.

- Tenente Brixx...Eles já nos detectaram?

- Não, senhor. Eles estão sondando o perímetro.

- Mantenha-nos em órbita. Vamos dar essa hora para o capitão. Depois disso ou nos revelamos ou partimos.

Um grande silêncio tomou conta da ponte. Todos sabiam dos riscos da missão, mas enfrenta-los era outra história. Torciam para que seus companheiros tivessem sorte.

****

No planetóide, Elik, o karemma administrador do centro de produção de ketracel-white, estava descontrolado.

- Como ainda não o encontraram? – gritava contra uma tela de comunicação.

[Houve uma avalanche, senhor. Eles foram soterrados juntos com muitos soldados nossos.] - informou um soldado Jem´Haddar.

- Vasculhe a área. Quero os seus corpos. Algum vestígio de naves da Federação?

- Nossos sensores em terra foram sabotados. Temos uma equipe reparando o problema, mas vai levar ainda seis horas até que tudo esteja operacional. – informava Sajmar.

- Zaldro...Comunique-me com Tulel em órbita.

- Comunicação estabelecida.

- Tulel, algum vestígio de uma nave da Federação por perto?

- Ainda não, meu senhor. Contudo descobrimos que um de nossos caças está desaparecido.]

- Desaparecido...desaparecido....Esta palavra já está me irritando.Prisioneiros que dasaparecem. Naves que desaparecem. Eles não são etéreos. São de carne e osso e sangram. Nós vimos isto. Eles não podem ficar invisíveis...Espere...Talvez possam....Tulel, procure por naves camufladas. Use sensores de tachyons. Eles não devem estar longe.

As ordens foram cumpridas. A Albedo estava em uma órbita geo-sincrônica negativa, ou seja, estava voando no sentido contrário da rotação do planetóide e da flotilha Jem´Haddar. Não demorou muito para serem detectados.

****

Na Albedo, Naomi, prevendo que seriam descobertos mais cedo ou mais tarde, sugeriu um novo plano de ação.

- Mack, escute...estive pensando...Não é muito difícil detectar uma nave camuflada. A tecnologia do Dominion pode ser bem melhor do que a nossa então eles não demorarão a nos encontrar. Principalmente se emitirem feixes de tachyons em suas varreduras.

- O que você sugere ?

- Baixar a nossa órbita. Os sensores do planetóide estão danificados e todas as naves deles estão aqui no espaço nos procurando.

- Vamos ficar bem embaixo do focinho deles e eles não irão nos ver! Bem pensado!

- Talvez ganhemos algum tempo com isso. – conclui a engenheira.

- Não perderemos nada se tentarmos. Tenente Saint-John...Baixar órbita em trinta graus. Mantenha-nos acima da nevasca. Zagar...Mande mensagem criptografada para a Azimute dando nossa posição. Brixx...Come a sondagem em busca do nosso pessoal. Eles podem não estar conseguindo teto para decolar.

- Presumindo que eles ainda estejam vivos... – comentou o tenente boliano.

- Vamos manter o otimismo, tenente. Não quero pensamentos negativos aqui na ponte.

- Desculpe, senhor. Eu só presumi...

- Por favor, tenente. Vamos nos ater apenas aos fatos. Procure pelos sinais de transponder deles, e nos dê apenas boas notícias. – McCormick sorri cinicamente para o boliano.

- Sim, senhor. Farei o que puder. – disse Brixx um pouco desconcertado.

McCormick estava preocupado com os seus companheiros na enfermaria, ordenou que Zagar colocasse na tela principal a comunicação com a enfermaria. Apareceu a imagem da médica assistente, a indiana Indira Nepatshanu, com uma pintura colorida circular no meio da testa.

[Sim?]

- Gostaria de saber das condições da comandante Sarah e do tenente Klag.

[A doutora T´Vel está operando a comandante neste momento. Quanto ao tenente Klag...] - neste momento o klingon apareceu empurrando a médica assistente para o lado.

[Permissão para retornar ao meu posto, senhor.]

- Que bom que o sangue do guerreiro klingon ainda ferve em você, mas gostaria de ouvir a opinião da doutora primeiro.

O klingon se afastou da frente da câmara aborrecido. A dra. Indira fez o seu relatório.

[O tenente teve uma perfuração nos músculos reto femoral, vasto lateral, com uma pequena lesão no bíceps femoral. Podemos restaurar a musculatura em uma semana, mas para isso ele precisará ser afastado de suas funções.]

- Você ouviu a doutora, tenente. Estamos dando conta aqui em cima. Vamos precisar de você inteiro. Dra. Nepatshanu...Me informe das condições da comandante assim que puder.

klingon grune e volta a se deitar. A imagem da doutora desaparece dando vez ao espaço sideral.

- Senhor...Acho que captei o sinal da Azimute. – informou Gilbert.

- Ampliando o sinal...Confirmado. É ela. – confirma Brixx.

- Sinais vitais? – perguntou McCormick.

- Estamos com muita interferência....melhorando o sinal...três sinais. São eles e estão vivos! Acredito ser essa uma boa notícia, senhor. – disse Brixx lembrando da conversa que tiveram a pouco.

- Pode contar que sim, tenente. Bom trabalho. – McCormick sorri de alívio e sua felicidade ressoa no semblante da engenheira-chefe e da piloto.

****

Lá embaixo o capitão Alkon estava recobrando a consciência.

- Ai...O que...Onde...?

- Nosso amigo lagarto aqui conseguiu nos teletransportar para a nave a tempo, mas parece que um pouco de neve te pegou antes. Não se mexa muito. Seu ombro está deslocado.

- Obrigado, alferes.

- Não tem de quê, capitão. Eu demorei um pouco, pois tive que retirar um pouco de neve que estava sobre a nave.

- Pelo que sei você fez tudo no tempo certo. Onde estamos?

- Infelizmente ainda no planetóide. Tentamos decolar, mas a nevasca não permitiu.Este planetóide é como se fosse um cometa gigante e agora ele está voltado para o sol do sistema. Sua camada de gelo e neve exposta aos raios solares é que estão causando a nevasca. Não sabemos quando durará o periélio*12, pode ser semanas, meses ou até mesmo anos. A boa notícia é que estamos pelo menos a uns duzentos quilômetros do laboratório da montanha e a rede de sensores deles ainda continua inativa. – informa Siro.

- Como pode ter certeza disso? – pergunta o capitão.

- Ainda estamos vivos, não?- responde o bajoriano com simplicidade.

- Vivos, mas não seguros. Quando poderemos decolar novamente ? – perguntou apreensivo o capitão.

- As naceles congelaram. Estamos presos em um banco de neve depois de uma aterrissagem forçada. Teremos que ir lá fora para desenterrar parte da nave. Só que está um frio daqueles! – informa Siro.

- Ainda temos nossos trajes de EVA ?

- Sim, dois deles apenas.

- Ótimo. Eu e você vamos lá fora. Vulpes fica aqui e tente estabelecer um contato com a Albedo.

- Ahn...capitão...As comunicações caíram. Vai levar ainda algum tempo para fazer tudo funcionar de novo. Eu poderia tentar, mas vou logo adiantando que não mexo em um transceptor subespacial há muito tempo. – diz Siro meio sem jeito.

- Então parece que teremos que resolver um problema de cada vez. – Alkon se levantou com dificuldade do chão e foi amparado por Vulpes.

- Vamos ter que trabalhar em duas frentes. Vulpes irá comigo e você mexe no console de comunicações. Só vou precisar de uma..ai...pequena ajuda para vestir o traje.

Momentos depois, já fora da nave, Alkon percebe um dano na nacele direita após ter derretido a neve em volta dela com o seu phaser. Parecia que a queda havia provocado danos maiores do que o pensado. Alkon dá um chute no casco da nave ao perceber que ficariam ali mais tempo do que gostaria e a mercê dos inimigos.

****

Capítulo XVIII

[Elik!] - a imagem de Dorth, o Vorta, seu superior, aparece na tela do centro de operações do laboratório.

- Senhor? – Elik engasga – O que o senhor quer? Digo...Estou ouvindo.

[Escutei que está com alguma dificuldade em manter a produção de White nos limites acertados.]

Elik olha para seus assistentes procurando o dedo-duro. Eles, temerosos, balançam a cabeça negativamente tentando se eximirem de qualquer culpa.

- Não, senhor. Tivemos alguns problemas, mas agora já está tudo sob controle.

[Esses problemas não teriam nada a ver com a ação de terroristas do quadrante alfa, teria?]

- Terroristas? Oh, não. Como o senhor ficou sabendo disso? Quero dizer...O que levou o senhor a pensar numa coisa dessas? – “De certo algum transmorfo estava infiltrado na base sem que ele soubesse. Só assim os Vorta podiam saber de tudo.” – pensou Elik.

[Elik...Elik...Ninguém esconde nada de mim. Seja sincero...O que está havendo aí?]

- Bom...um ..pequeno grupo tentou sabotar a produção, mas os detivemos antes disso. – o karemma resolveu admitir logo a situação antes que as coisas se complicassem para o seu lado.

[Onde eles estão? Você os capturou? Quem eram eles? Cardassianos?]

-Bom...senhor...na verdade....

[Eles fugiram? Como?] - Dorth estava visivelmente irritado e isto não era bom.

- Eles possuíam alguma arma secreta...Um dispositivo que lhes permitiam ficar invisíveis e...

[Invisíveis?]-Dorth estava incrédulo.

- Sim, senhor. Estamos vasculhando tudo num raio de um ano-luz. Mais cedo ou mais tarde eles serão encontrados. Eu garanto.

[Assim espero. No momento estou ocupado com outros assuntos, mas aguardarei um relatório completo seu em uma hora ou então enviarei minha querida esposa com reforços e, é claro, um novo administrador.]

-Obrigado pela confiança. Eles não escaparão. Eu pro...- antes de Elik terminar a frase a imagem de Dorth desaparece da tela. Elik respira aliviado.

-Aquela carniceira não vai ter o gosto de provar o meu sangue. Quero um pente fino neste planetóide. Sajmar mande uma comunicação para Tulel intensificar as buscas no espaço e em terra. Zaldro...Prepare uma nave de fuga. Só por precaução.

Alguns quilômetros dali...

- Algum sucesso com as comunicações? – perguntou Alkon assim que retirou o capacete quando retornou para o interior da nave auxiliar.

- Não sei ao certo... Talvez tenha que substituir alguns chips isolineares. Isso se conseguir, é claro, reativar o sintetizador. Como estão as coisas lá fora?

- A nacele direita está comprometida. Mesmo que a façamos funcionar de novo, será difícil decolar com apenas uma nacele. Além disso, a nevasca parece que não vai dar trégua por um bom tempo. O que mais podemos esperar? – mal Alkon acaba de falar e a nave começa a balançar. O terreno no qual se encontrava estava cedendo.

- Acho melhor sentarem e se segurarem firmes. – gritou Siro enquanto consultava informações no painel.- Estamos sobre uma fenda. A neve embaixo de nós está cedendo. Temos que decolar senão seremos soterrados. – Siro religou os motores, mas a nacele direita ainda não respondia.- Vou tentar uma ascensão inclinada e corrigir com manobradores.

Alkon senta-se do lado de Siro ainda com o traje espacial e comenta:

- O ângulo de ascensão nos levará direto para aquele paredão – disse enquanto olhava para um mapa topográfico que calculava a trajetória da decolagem.

- Capitão...Já enfrentei problemas semelhantes antes. Creio que sei o que estou fazendo.

- Você realmente não se dá por vencido, não é? Nem que as evidências provem o contrário? Veja! Esta rota de navegação é um suicídio! – Alkon aponta para a tela ao seu lado.

Siro Lian fica fitando o capitão por alguns segundos e desliga os motores.

- Capitão...Nós temos que avaliar bem as nossas chances. Eu vejo quatro opções para a nossa situação. Primeiro: Os Jem´ Haddar nos encontram e nós já éramos. Segunda: Vamos cair direto em um precipício e morrermos soterrados por neve e rochas. Terceiro: O terreno pode se acomodar, nossos sistemas de suporte de vida não vão durar muito e morreremos de frio; e por último, que é a minha preferida, investimos contra aquele paredão e, com uma pequena margem, passamos por ele e saímos daqui. Mas o senhor, é o capitão. O que o senhor escolher estará bom para mim.

Alkon odiava que medissem força com ele. Principalmente um subordinado. Siro era atrevido. O que era o espírito de todo maqui. Entretanto havia uma possibilidade dele estar certo.

A nave balançou mais uma vez. Vulpes olhava fixamente para os dois como que ansioso para ver o desfecho daquele embate.

- Muito bem, alferes. Vamos tentar do seu jeito. – Alkon cedeu. Ele sabia que seria burrice não tentar uma chance, ainda que remota.

- Obrigado. – Siro religa os sistemas. – Segurem-se. Não vai ser uma viagem de cruzeiro.

A Azimute chacoalha bastante antes de alçar vôo. O terreno abaixo deles se parte, deixando uma fissura de grande profundidade que poderia ser seus túmulos.

- Inclinação de vinte e cinco graus! Tentando corrigir!- grita Siro irritando os ouvidos de Alkon.

- Ainda estamos indo de encontro ao paredão. – alerta Vulpes ao olhar para tela de navegação.

- Eu sei. Eu sei. Inclinação de vinte e oito graus. – diz Alkon enquanto decidia tentar algo que não haviam planejado antes. Usar a sua telecinese para inclinar a nave o suficiente para poderem vencer a altura do paredão. Nunca havia tentado isto antes, mas estava em uma situação de vida ou morte. Era um excelente momento de tentar. Motivação era o que não faltava.

- Inclinação a..trinta e oito graus e aumentando? – Siro ficou surpreso com a mudança repentina da sorte.

- Impacto em vinte segundos. – informou Vulpes ao olhar os sensores de proximidade.

- Inclinação a quarenta graus...Pelos Profetas, não vamos conseguir! – Siro não acreditava mais na sorte nem na escolha que fizera.

No momento fatal a nave balançou forte, mas todos continuaram inteiros. Alkon saiu de seu transe. Tinha convicção de que não fora sua força mental que livrou a todos de uma morte certa, pois nunca havia movido algo tão grande antes e em condições tão adversas. Então o que acontecera?

[Azimute...Aqui é...rrrrssss....A USS Albedo...rrrrsssss...Querem carona pra casa?]

A voz era do tenente McCormick, não era bonita, mas parecia uma linda música aos ouvidos de todos.

- Será um prazer, tenente. Lembre-me de pagar uma rodada para todos mais tarde. – brincou o capitão.

[Não esquecerei, capitão.]

Um raio trator capturou a Azimute antes que ela batesse. Contudo o salvamento teve um preço. A Albedo tinha desligado a camuflagem e religado todos os sistemas da nave. Não só estavam de novo visíveis, como haviam dado a oportunidade para os Jem’Hadar de detectá-los. Uma esquadrilha veio ao encalço deles.

- Quatro caças vindo em nossa direção. Contato em um minuto e vinte oito segundos.-informou Brixx.

- Parece que vamos ver o quanto este novo motor é capaz. Acho melhor você ir lá para baixo, engenheira-chefe. Sleek..Assuma o lugar da tenente. – a troca de posto foi efetuada e Naomi correu até o turboelevador em direção à engenharia.

- O capitão e os demais já estão à bordo, senhor. – o boliano Brixx era eficaz em seus informes.

- Ótimo. Esta cadeira já estava me incomodando. Camuflagem?

- Operacional em cinco minutos. – informou Gilbert.

- Droga. Alerta vermelho. Erguer escudos. Preparar armas.

****

No hangar, ainda dentro da Azimute, assim que Alkon retira seu traje espacial, resolve dar novas ordens a Siro e Vulpes. Só então se lembra que o bajoriano também estava ferido ao ver os seus pulsos cortados.

- Você acha que agüenta mais uma missão?

- Se isto diminuir minha pena...Desculpe, não resisti. Estou às ordens, capitão.

- Quero você e Vulpes na Zênite. Vamos precisar de alguma distração.

- O senhor vai me deixar sozinho em uma nave?

-Você me pediu confiança. Estou disposto a te dar uma chance. O que me diz?

-Bom...Está bem. Afinal sou só eu contra quatro naves Jem´Haddar. Já fugi deles uma vez. Posso fazer de novo. Vamos lagartão. Você ouviu o capitão, vamos brigar mais um pouquinho.

-È VULPES! – reclama o Tosk antes de seguir o bajoriano. Os três saem da nave, mas Alkon segue na direção do turbo elevador, sentindo muita dor em seu ombro esquerdo. Apesar disso se preocupava mais com outra pessoa. De dentro do elevador se comunica com a enfermaria.

- Dra. T´Vel...Alkon...Como ela está?

[É bom ouvi-lo novamente, capitão. Necessita de ajuda médica?]

- Como Sarah está?

[Estável, mas a deixei em coma induzido. Ela sofreu severos traumas, mas creio que sobreviverá. Mandarei o meu relatório mais tarde, mas gostaria de vê-lo antes disso.] - respondeu a doutora.

- Obrigado.

[Não há o que agradecer, capitão. Apenas cumpri com a minha função.]

- Mesmo assim obrigado. Alkon desliga.

A porta do turboelevador se abre e revela a ponte de comando que ele achou que não veria. Não nesta vida.

- Capitão na ponte!-informava Brixx, conforme o protocolo.

- Devolvendo o comando, senhor! – disse McCormick em posição de sentido.

- Comando aceito. Qual a situação? – A própria Albedo responde ao ser sacudida pelos tiros das naves inimigas.

- Escudos em noventa por cento e agüentando.

- Devolver fogo. Mirem em seus motores. – ordena Alkon.

- Devolvendo fogo. Um caça foi incapacitado. Faltam três. – informou Brixx.

- Manobras evasivas, srta Saint-Jonh. Victor-Delta-Tango.

A Albedo navega em parafuso se desviando dos raios emitidos pelas naves inimigas.

- Liberar minas. Quatro cargas em intervalos de dois segundos.

Uma série de vinte microbombas são lançadas ao espaço pela popa da nave. Elas possuíam sensores de proximidade que detonam quando o alvo chega a uma distância de quinhentos metros. Lançadas a uma velocidade que não possibilite uma manobra de fuga, o inimigo sempre acaba sendo alvejado por algumas. Desta vez não foi diferente.

-Caças destruídos, senhor. – a pequena comemoração na ponte é interrompida pelo novo informe de Brixx. – Mais seis caças aparecendo nos sensores. E uma nave de batalha.

- Tenente Saint-John, marque o curso para 431 marco 2.

- Curso traçado e implementado, senhor.

- Naves a seiscentos quilômetros. Mudaram a formação. Três se dirigem a boreste e os outros três a bombordo. Nave de batalha permanece à nossa popa. Tempo estimado para contato....quarenta segundos.

-Zênite, ouviu isso?

[Alto e claro, senhor!]

- Vocês pegam os da direita e nós os da esquerda. Liberar baia de lançamento.

- Zênite liberada, senhor.- informou Brixx.

A nave auxiliar atraiu o fogo dos caças. De todos eles. Siro fazia manobras erráticas que não constavam do plano inicial.

- O que ele está fazendo? – perguntava McCormick.

Alkon, porém, não se surpreendeu. O bajoriano nunca obedecia direito a uma ordem direta. Na verdade, se sobrevivesse, iria agradecê-lo. Ele estava deixando o caminho livre para a fuga da Albedo.

- Preparar para velocidade de dobra nove ponto dois, tenente.

- E quanto a Zênite? –McCormick estava preocupado com os seus camaradas.

- Não se preocupe, número dois. Piloto...Acionar!

A Albedo sumiu na vastidão negra do espaço.

****

Capítulo XIX

Tulel´Tulen era o comandante da nave de batalha Jem´Haddar. Ele havia sido projetado, desde antes de nascer, para ser o guerreiro perfeito e morrer, se ncessário fosse, arrastando o máximo de inimigos que pudesse com ele. Antes de sai do planetóide fez seu juramento junto com os seus comandados. “Sou o primeiro, Tulel´tulen, e eu estou morto. A partir de agora todos nós estamos mortos. Vamos lutar para reaver as nossas vidas. O que fazemos alegremente porque somos Jem´Haddares. Lembrem: Vitória é vida!

Nada lhe daria mais prazer do que acabar com aquele pessoal da Federação. Nunca antes tinha sido ultrajado por alguém. Nunca nenhum prisioneiro seu havia conseguido escapar. A segurança da fábrica de enzimas isogênicas KW fora quebrada sob o seu comando. Duas vezes. Era muita humilhação. Agora uma pequena nave tentava zombar da força dos Jem´Haddares. Ele iria pulverizá-la. Ora se ia. Mas o inimigo era esperto. Parecia agir como um louco. Não havia como prever suas ações. Quem quer que fosse o piloto daquela nave, era um guerreiro experiente e seria muito honroso destruí-lo. A nave maior poderia ter escapado, mas esta não era páreo para a sua. Ordenou o lançamento de mais três caças. Iria diminuir mais ainda as chances do inimigo.

Siro Lian. Um ex-terrorista bajoriano que lutou para libertar seu povo do jugo dos cardassianos. Depois continuou lutando pela independência das colônias que ficaram sobre o domínio cardassiano sob força de um tratado de paz. Ele se tornou um Maqui. Depois de muitas operações viu que nem sempre os meios justificam um fim. Ele jamais se envolvera com ações que provocassem a morte de civis. Até que, quando isso aconteceu, ele se deixou capturar para fugir daquela vida. A imagem de uma garotinha cardassiana morta ainda assombrava os seus sonhos. Agora estava servindo à Federação em busca de perdão. Mas o único que poderá concedê-lo era ele mesmo. Agora ele sabia disso. Todavia não iria fugir do seu pacto de honra. A Albedo havia conseguido fugir e com isso ele pôde ter salvado várias vidas e faria de tudo para que aquelas naves não a seguissem. Agora eram nove contra um. Seria uma brincadeira interessante. Estava tentando se lembrar de todas as batalhas espaciais que lutara antes e de todos os ardis que usara.

- Ok...Estão gostando da brincadeira? Opa...Muito bem. – dizia cada vez que conseguia se desviar de uma rajada das naves inimigas, voando em zigue-zague. - Vulpes...Acione os projetores holográficos.

A Zênite se transforma em um caça Jem´Haddar. Agora eles teriam que adivinhar quem era o inimigo. Siro esperava que eles só fizessem isso quando fosse tarde demais. Dois caças atiraram em um terceiro e o destruíram. Mas não era a Zênite. Siro rumou na direção da nave-mãe e forçou os caças a atirarem contra ela na perseguição.

- O que estes soldados estão fazendo? Devolvam o fogo! – gritava Tulel com seu armeiro.

Dois caças a mais foram destruídos. Siro ria tanto que assustava Vulpes com sua loucura.

-Hurrá! Só faltam seis. Mire naquele que está a nove horas. Disparar microtorpedos. Fogo!

Um caça Jem’Hadar explodiu em uma luz cegante.

- É isso aí lagartões!

Vulpes grunhiu em objeção ao adjetivo.

- Desculpe, Tosk, é a força do hábito. Sem ofensas. Eles não contavam com essa, não é mesmo?Ah,ah,ah!

- É Vulpes. Cadete Vulpes.

-Tá. Vou procurar me lembrar.

Na nave mãe Tulel´tulan estava confuso. Onde fora parar a nave da Federação? Na dúvida resolveu abater todos os caças. A Zênite resolve fugir do fogo pesado indo para o ventre da nave-mãe e igualando sua velocidade à dela.

Quatro caças são logo destruídos. Faltavam dois. Cada um deles resolve seguir a Zênite e a aborda pelos dois lados. Se livrasse de um o outro, na certa, o pegava. Siro e Vulpes estavam encurralados. Neste derradeiro momento. A Albedo se descamufla como se aparecesse do nada, como um passe de mágica. Atira em uma dos caças deixando o outro para a Zênite.

Tulel e sua tripulação estavam atônitos e não tiveram tempo de reagir.

A Albedo disparou uma salva de vinte torpedos , dez fotônicos, dez quânticos, mais os canhões isomagnéticos e phasers em carga máxima à queima roupa.

- Esta é pela Odissey! – disse Alkon antes de ordenar fogo. Em poucos segundos a batalha chegava ao fim e só restava pequenas fagulhas, que, por causa do vácuo, logo deixariam de existir. Os escudos da Albedo protegeram a nave da explosão.

- Senhor, a Zênite foi atingida pela explosão. Ela está à deriva. – informou McCormick.

- Vamos pegá-los. Acione o raio trator e conduza-a até o hangar. Como eles estão?

- Inconscientes. Sinais vitais fracos. – respondeu o oficial de ciências.

- Avise a enfermaria. Transporte-os para lá se houver necessidade. Condições da nave?

- Todos os sistemas on-line. Para a nossa primeira batalha diria que nossa atuação foi perfeita. Eles nem souberam direito o que os atingiu. – disse Brixx demonstrando certo orgulho.

- Algum sinal de outras naves Jem´Haddares no perímetro? – perguntou Alkon preocupado.

- Não, senhor. Está tudo limpo e calmo. – informou mais uma vez o oficial do tático.

- Ótimo. Tenente Saint-John...Rume para o nosso ponto de encontro. Dobra seis. Vou até a enfermaria. Tenente McCormick...Tenha a bondade...- diz Alkon ordenando que o oficial científico assumisse a ponte mais uma vez. McCormick ergue os olhos em uma prece para que os anjos o protegessem mais uma vez.

Na enfermaria T´Vel zelava pela comandante próximo à sua cama. O capitão Alkon assim que adentra o recinto pergunta por sua amada:

- Como ela está reagindo?

- Ela é uma lutadora. Vai sobreviver.

- Foi muito sério?

- Perfuração no baço, intestino delgado e rim direito. Estou trabalhando na clonagem destes órgãos. Devo substituí-los amanhã. Ela está recebendo sangue artificial e imunoglobulinas sintéticas. Estou fazendo análises de radiação da lança laser que foi usada nela pra ver se não houve danos aos tecidos periféricos. Precisamos ter certeza que não irá surgir tumores futuros ou gerar esterilidade.

- Faça tudo o que puder por ela, T´Vel. Você sabe o quanto ela significa para mim.

- A tratarei com a mesma eficácia que destinaria para qualquer tripulante, capitão. Por falar nisso, o senhor não perguntou pelos outros. – T´Vel se referia ao bajoriano e o Tosk deitados ao lado e sendo tratados pela doutora Nepatshanu.

- Eu sei que eles estão sendo bem tratados. – sorri meio constrangido.

De repente os sinais vitais da comandante começam a cair.

- O que está acontecendo? – pergunta Alkon assustado.

- Não sei. – T´Vel aciona o scanner médico sobre a cama. – É uma infecção por algum patógeno*13 que não foi detectado antes. Está gerando uma septicemia*14. Causando falência múltipla dos órgãos. Ela está entrando em choque. Indira me dê 2 cc de delactovina*15.

Mas a comandante parece não reagir e as convulsões continuam. Alkon fica descontrolado.

- Ela está morrendo. Faça alguma coisa!

- Eu estou fazendo, capitão! Se o senhor quiser ajudar deveria controlar sua histeria e usar o elo mental que mantém com ela para fortalecer a vontade dela de viver!

Alkon procura se controlar e alcançar a mente de Sarah.

- Indira me dê 5 cc de synaptizina*16. – ordena a médica-chefe.

A mente de Alkon vê um branco sem fim até que, em meio a brumas, estava Sarah. Sozinha e desorientada. Ele chamou por ela:

Sarah!

Quem está aí? Quem é você?

Sou eu, Dorian!

Dorian! Eu não o vejo! Onde você está?

Aqui! Siga a minha voz!

Continue falando. Eu ainda não o vejo.

Continue andando nesta direção

Dorian...Eu estou com medo...Aqui está tão frio...

Não tenha medo. Eu estou aqui para te proteger”.– Alkon podia vê-la caminhar em sua direção com os braços esticados. Quando estava preste a abraçá-la, sua imagem se desvaneceu em meio a um sorriso. O elo mental fora rompido. Alkon sai do transe de uma forma súbita.

- O que houve? – perguntou com grande dificuldade. Estava exausto.

- Tive que colocá-la em stasis. Paralisei seu metabolismo até identificar o que causou a infecção.

- Eu quase a toquei...Por um momento pareceu-me que a tinha perdido para sempre.

- Desculpe ter rompido o seu elo mental de forma tão abrupta, mas precisava agir rápido para salvá-la.

- Se isso a salvar, está perdoada. Quanto tempo ela deverá ficar em stasis?

- Não posso precisar no momento. Preciso isolar o agente causador da infecção. Poderei levar horas, dias, semanas...

- Sua equipe é reduzida e tem outros feridos para cuidar. Acho melhor a senhora ter uma ajuda extra.

- O senhor não está dizendo...

- Sim. Computador...Acionar programa holográfico médico.

Uma cópia holográfica do doutor Lewis Zimmerman, o criador do programa, se materializa no meio da enfermaria.

- Por favor informar a natureza da emergência médica.

Os três oficiais ficaram olhando para o doutor holográfico sem nada dizerem.

- Já que não se manifestam posso dizer que temos um paciente em stasis que já foi devidamente tratado, um bajoriano com escoriações leves e um...Tosk inconsciente. Nada que um pouco de codrazina*17 não possa curar. E o senhor...- diz voltando para o capitão. – O senhor está com o ombro direito deslocado, sabia? Mas podemos cuidar disso rapidinho. – o médico holográfico, num gesto rápido e imprevisível, coloca o ombro do capitão no lugar.

- AAII! – grita o capitão.

- Ótimo! Estão todos tratados. Se não há mais ninguém que necessite de meus serviços, sugiro desativar o programa. – o médico holográfico fica sorrindo enquanto os médicos reais e o capitão ficam espantados com sua performance.

****

Capítulo XX

USS Albedo – No dia seguinte...
SST: 7:45 am
Auditório

O capitão Alkon apareceu para a instrução só depois que todos os membros do grupo avançado já estavam sentados.

- Bom dia. Estamos aqui para avaliação da missão e concluir o relatório que será entregue ao almirante Petersen. Gostaria de ouvir o tenente Klag.

- Observei alguns erros em nossa abordagem. Não conhecíamos bem o terreno, o inimigo e o local que iríamos invadir. Agimos na maior parte do tempo no escuro e no improviso. Sugiro avaliar melhor o nosso alvo antes de enviarmos uma equipe em uma outra missão.

- Anotado. Tenente Saint-John? – diz Alkon dando a palavra para outro oficial.

- As naves auxiliares se portaram muito bem e a camuflagem holográfica foi muito útil. A Azimute deverá estar totalmente funcional em dois dias.

- Devemos agradecer a equipe da nossa engenheira-chefe. Os emissores holográficos foram realmente uma ótima idéia. – anotou Alkon. Naomi ergueu o braço agradecendo o cumprimento em nome de sua equipe.

- Os trajes de isolamento deram uma boa vantagem na incursão, apesar de que, da próxima vez eles já estarão preparados. Sensores termográficos ou qualquer coisa que caia sobre os nossos trajes nos denunciam. Diria que eles não são mais uma opção. – reportou o alferes Gilbert.

- Creio que conseguimos os nossos objetivos. Temos as imagens da fábrica, amostras da enzima, da forma de produção e sintetização. Sem contar que danificamos sua produção, roubamos uma de suas naves e detivemos dois prisioneiros. Sem contar a informação da presença amistosa de cardassianos em espaço do dominion. Acho que a seção 31 vai gostar de saber disso. – disse Klag.

- E temos também isso. – Siro coloca uma pedra amarela esbranquiçada sobre a mesa.

- O que é isso? – perguntou Gilbert.

- KW bruto. Peguei no laboratório deles quando não estavam olhando. Acho que o pessoal do departamento de bioquímica vai gostar de analisar isso. Parece ser alguma secreção produzida por fungos ou bactérias em rochas de clima bem frio. Deste composto eles sintetizam a droga.

- Muito bem, alferes. Mandaremos isso para análise o quanto antes. Com isso cumprimos os nossos objetivos. A missão foi um sucesso, apesar dos percalços. – concluiu o capitão.

- Contratempos fazem parte do serviço. Fizemos um pouco de barulho, mas o que vale é que superamos os obstáculos. – comenta Allison.

- Isso só foi possível porque agimos como uma equipe, algo que o alferes Siro custou a entender e quase prejudicou toda a missão no início quando decidiu agir por conta própria. Espero que isto não se repita. Apesar de ter demonstrado valor em batalha, sofrerá uma punição. Continuará confinado ao alojamento até o nosso retorno à base 375.

-É justo. Eu mereço... –concorda o alferes.

- Tenente Brixx, como observador da missão, gostaria de ouvir seus comentários.

- Bom...Achei o local com muito pouca segurança. Poderia ser para despistar, mas também poderia ser uma armadilha. Como poucas naves vieram ao nosso encalço, devemos presumir que as forças Jem’Hadar estão espalhadas pelo quadrante e que, para reunirem uma grande força levará tempo. Isto poderia ser uma vantagem se quisermos elaborar um ataque contra eles.

- Mas não é o que queremos, não é? – provoca Alkon.

- Não senhor. Pelo menos não neste momento. Acredito que nosso próximo encontro com eles não será tão fácil assim.

- Tenente-comandante Silva... – pede Alkon o comentário da engenheira-chefe.

- A nave agüentou bem o batismo. Os escudos multifásicos nem foram arranhados, devido a tática de cautela que adotamos. As naves auxiliares responderam a contento. Continuamos ainda com o problema para manter a nossa camuflagem. A tecnologia Breen é de difícil calibração. A energia direcionada as armas força um pouco os sistemas da nave que demoram cinco ponto seis segundos para ficarem totalmente operacionais, causando um decréscimo de dois por cento nas força destinada aos escudos. Tais problemas teremos que resolver quando voltarmos à base.

- Tenho certeza que resolveremos. Doutora T´Vel... Relatório médico.

- Nesta missão tivemos cinco feridos. Dois já estão aptos ao serviço, os alferes Vulpes e Siro. Recomendo repouso de pelo menos cinco dias ao tenente Klag até que sua perna se recupere totalmente. Quanto a comandante...Ela ainda está em stasis e o HME continua procurando uma cura para a sua condição. Suspeitamos de uma bactéria que, possivelmente, estava nas correntes que a amarrou. A mesma bactéria foi encontrada nos tecidos de Vulpes, Siro e Klag, mas seus sistemas imunológicos são mais resistentes que o humano. Estamos pesquisando uma enzima compatível que possa inibir a ação da toxina da bactéria a partir do soro dos três tipos sanguíneos. O que parece mais compatível é o bajoriano, por sua similaridade com a fisiologia humana. Creio que não demorará muito para acharmos uma cura.

- Você disse cinco feridos, quem é o quinto? – perguntou o capitão.

- O senhor. – respondeu a médica vulcana.

- Eu? Meu ombro dói um pouco, mas não creio que isso me torne inapto ao serviço...

- Não me refiro ao ombro e sim à sua mente. O senhor voltou a usar dopaminalamina, por quê?

O capitão é pego de surpresa. Nem todos sabiam de suas habilidades psicocinéticas.

- Prefiro responder sobre isto mais tarde. Como você soube? – esquiva-se Alkon.

- Toda a sintetização de medicamentos me é informada. Sintetizar medicamentos fora da área médica é proibido. O único que pode anular a minha autorização é o senhor. Acho que esta é uma boa hora para falar sobre isso. Somos uma equipe, não? E somos amigos. Não há nada para se envergonhar ou temer.

- Eu...Para quem ainda não sabe...Possuo certas habilidades que parecem não ter adiantado muito nesta missão. Não posso contar com algo com o qual não tenho total controle.

- O senhor só terá controle total quando adquirir confiança em sua capacidade. – diagnosticou T´Vel.

- Eu quase perdi bons oficiais nesta missão. Eu achei que podia prever tudo e, no caso de alguma eventualidade, socorrê-los.

- Mas o senhor fez isso, capitão. Eu vi quando o senhor jogou aqueles soldados Jem´Haddares contra a parede e ergueu o administrador no ar só com sua mente. Foi um belo espetáculo. Não deve subestimar o seu potencial. – comentou Siro.

- Não se trata de dar espetáculo, alferes, e sim de salvar vidas! – respondeu o capitão elevando a voz.

- Capitão...O que aconteceu coma a comandante...O senhor não pode se culpar. – disse Allison chegando ao cerne da questão.

- Eu sei. Agradeço as palavras de apoio, mas querendo ou não, eu sou responsável pela vida de todos vocês. Acreditem...Não é algo confortável. Quero dizer...Eu gosto do comando, mas, talvez pela minha fisiologia betazóide, sinto a patente pesar mais do que eu posso suportar. Não é o que vocês esperam que um capitão diga, mas é verdade. Talvez a doutora esteja certa. Talvez eu deva ser afastado comando. – Alkon, que estava de pé durante a reunião, sentou-se em um dos degraus do auditório, e ficou cabisbaixo. A doutora se levantou e foi até ele. Tocou em seu ombro e disse:

- Estamos todos sob muita pressão e você mais do que todos. Sugiro que descanse. Use seu programa favorito de holodeck. Todos aqui confiam em você e no seu comando. E o que passe entre nós é resolvido por nós. Não é mesmo pessoal?

- Sim, senhora. – disseram McCormick ,Allison e Zagar.

- Correto. – concordaram Siro e Klag.

- Cem por cento. – disse Naomi.

- Sim, madame. – disse o respeitoso Gilbert.

Vulpes e Brixx demoraram a responder, mas concordaram também com a médica meneando a cabeça para frente.

Alkon sorri com lágrimas nos olhos. Seu momento de fraqueza, afinal, não foi considerado pelos seus camaradas, como tal.

- Bom...Tenho que finalizar esta reunião. – Alkon se levantou e ajeitou sua túnica antes de continuar a falar: - O senhor Klag fica de licença e o senhor Brixx assume o posto tático até seu pronto restabelecimento. O alferes Gilbert e ...- Alkon se utiliza de uma rápida leitura em um pad que tinha à mão. – o alferes DeMornay completaram a escala de serviço. Quero fazer uma menção honrosa ao cadete Vulpes e promovê-lo a alferes por mérito em ação no campo de batalha. – O capitão se dirige ao Tosk e coloca um botão na gola de seu uniforme.

Todos felicitam o tosk, que, meio sem jeito, esboça um sorriso.

- Dispensados. – ordena o capitão. Os oficiais vão saindo um a um até o capitão ficar sozinho com seus medos e culpas. Só sentia um pouco reconfortado quando via o corpo de Sarah pela janela da câmara de stasis da enfermaria. Às vezes ficava ali por uma hora ou mais, tentando alcançar a mente dela, mas sem sucesso. Até o HME se comovia com o seu gesto.

- Não creio estar sendo muito saudável para o seu sistema límbico continuar a forçar a sua mente deste jeito. Quando obtivermos algum progresso garanto que o senhor será o primeiro a ser informado.

- O senhor foi programado para amar, doutor?

- Amor? Conheço o sentimento por descrição em meu banco de dados. Sou capaz de simular quase todas as emoções humanas, todavia não possuo muita experiência neste ramo, uma vez que só fui ativado há apenas trinta e seis horas, quarenta e dois minutos e oito segundos.

- Então me deixe ficar aqui mais um pouco, está bem?

- Como desejar, capitão. – o HME se afasta.

Alkon ficou em pé olhando para o rosto sereno de Sarah por mais uma hora e depois foi para a sua cabine. Tomou um banho e bebeu um cálice de vinho Gamzain, uma bebida que experimentou em sua estadia, no ano passado na estação DS9.

De repente pareceu ouvir algo em meio ao silêncio. Uma voz que conhecia muito bem. Era suave e dizia: “Imzadi...

Era a voz de Sarah.

Procurou por ela em seu quarto, mas certamente ela não estava lá. Talvez fosse um sinal de que poderia alcançar a sua mente. Tentou se concentrar, mas não conseguiu mais ouvi-la. Olhou para o frasco de hipospray sobre a sua cabeceira, pegou-o e jogou-o contra a parede num ato de fúria.

****

Capítulo XI

A USS Albedo navegou camuflada até o ponto de encontro com a USS Fitzgerald e chegou um pouco adiantada. Teria que esperar algumas horas até poderem atravessar a fenda espacial.

O capitão Alkon estava na ponte de comando durante todo o dia. Não conseguira pregar o olho a noite inteira. O trabalho o faria esquecer um pouco da condição de Sarah. Comunicou-se com a engenharia:

- Por quanto tempo poderemos manter a camuflagem, Naomi?

[Nossos sistemas ainda não estão totalmente integrados com a tecnologia breen, mas creio que podemos ficar no modo fantasma por mais seis horas, antes de superaquecermos, capitão.]

- Modo fantasma?

[Uma gíria do pessoal da engenharia, senhor.]

- Ok. Alkon desliga. Alguma coisa nos sensores, McCormick?

- Ainda não, senhor.

- Tenente Brixx?

- Nada nos sensores de longo alcance, senhor.

- Manter o alerta amarelo. Fazer varreduras de longo alcance a cada dez minutos. McCormick prepare uma sonda para detectar naves camufladas em nossa retaguarda. Quero, inclusive, análise de variância de neutrinos.

- Entendido, senhor. Vamos providenciar.

- Assim que a Fitzgerald aparecer me chame em meu gabinete. – Alkon se dirige para a sala contígua À ponte. Ao entrar aciona o sintetizador, materializando uma caneca de café forte sem açúcar.

- Tentando se manter em alerta máximo? – perguntou a doutora T´Vel ao entrar em seu gabinete em meio ao forte aroma de café.

- Olá doutora, bebe alguma coisa? – a vulcana recusa a oferta - Alguma novidade?

- Sarah...A comandante Okaido está bem. A retiramos de stasis esta manhã para começar o seu tratamento. Mas não conseguimos acabar com a infecção ainda. O doutor holográfico notou que seu sistema imunológico está respondendo ao nosso tratamento e ele prevê que a infecção poderá se estabilizar.

- Já é uma boa notícia. Sabe de uma coisa? Eu acho que ontem consegui fazer um contato mental. Na verdade foi ela que me contactou, mas foi apenas por um momento.

- Hummm...Interessante... Isto é um bom sinal. Vou monitorar com maior atenção suas ondas cerebrais. Talvez possamos trazê-la a um nível de consciência onde você possa tocar a sua mente mais uma vez e ajuda-la a expulsar os microrganismos invasores.

- Se isto for possível é só me avisar quando.

- Vou verificar e entrarei em contato.

- Você sabe onde me encontrar. – disse saudando-a com sua caneca de café erguida para o alto.

A doutora sai do gabinete e Alkon se volta para a escotilha para observar as estrelas. Algumas delas estavam ficando mais brilhantes e mais próximas. O alerta vermelho soou. Alkon largou sua caneca sobre a mesa e correu para a ponte. Brixx logo comunicou o que estava ocorrendo.

- Oito naves Jem´Haddar. Corrigindo...Nove naves de batalha Jem´Haddar.

- Elas nos detectaram?

A Albedo é sacudida violentamente.

- Acho que temos a nossa resposta. – disse Alkon ao sentar-se em sua cadeira. – Parece que a nossa vantagem do dispositivo de camuflagem se foi. Como será que eles...

- Varreduras por feixe de anti-prótons. – informou McCormick.

- Ótimo. Vamos nos lembrar disso se houver uma próxima vez. Postos de batalha. Desligar camuflagem. Erguer escudos. Preparar armas! Sleek...manobras evasivas.

A Albedo é alvejada duas vezes e sacode violentamente.

- Escudos multifásicos a cem por cento. Nenhum dano ao casco! – gritou Brixx.

- Preparar uma salva de torpedos quânticos. Tiro disperso. Phasers à vontade. Escolha os alvos tenente.

- Sim senhor!

Duas naves de batalha são atingidas. Danos mínimos. A perseguição continuava. De um lado. Feixe de pólarons, do outro phasers tipo X. Era um espetáculo e tanto.

- Escudo de popa caiu para oitenta por cento. Integridade do casco normal. – informava o oficial tático boliano.

- Manobra Zeta Beta Alkon Omega. Continuar a devolver fogo. Lançar minas.

- Sim, senhor! – responderam, quase num coro, Brixx, Sleek e McCormick.

Uma nave de batalha Jem’Hadar fica avariada, o que não impede das outras continuarem a perseguição. Até que um fato novo ocorre.

- Naves de batalha diminuindo velocidade....Senhor...Caças Jem’Hadar sendo liberados. – Brixx parecia atônito.

- Quantos, senhor Brixx?

- Sessenta e quatro, senhor.

Um silêncio tomou conta da ponte de comando. Alkon não tinha como enfrentar uma situação daquela. Acionou o comunicador e entrou em contato com a engenharia.

- Naomi...Chegou a hora de testarmos a tecnologia de dobra breen. Nos dê a transdobra.

[Afirmativo, capitão. Segurem-se aí em cima!]

Neste momento Allison chega a ponte e rende Sleek que fica ao lado de McCormick esperando ajudar de alguma forma.

- Tenente Allison. Marque um curso seguro e pise fundo!

- Sim senhor. Curso marcado. Implementando dobra oito. Oito ponto dois. Oito ponto cinco. Oito ponto...

- Senhor....Estamos sendo contatados. – informa Brixx surpreso.

- Ponha somente o áudio.

[Federação, rendam-se e pouparemos suas vidas.]

- Responda com estática, alferes. – Alkon faz sinal para cortar a comunicação.

- ... dobra nove. Nove ponto dois...ponto três... – falava Allison em alto e bom som.

- Tenente...Dispenso a contagem. Apenas nos coloque o mais longe possível deles, mas não atravesse a fenda.

- Sim, senhor.

- Brixx...Ainda estamos no alcance deles?

- Não senhor. Estranho...Eles pararam de nos seguir. Mudaram o curso. Estão indo para próximo da fenda espacial.

- Eles o quê? – Alkon vai até o posto tático para confirmar com seus olhos a informação. Então ele percebe que fora enganado. – Allison, abortar transdobra! Parada Total!

- Sim, senhor.

- Senhores...Considerações...

- Eles parecem não nos querer por perto. Vieram em maior número e poderiam ter nos destruído, mas não o fizeram. Sem contar o pedido de rendição. Os Jem’Hadar não negociam. – McCormick também estava intrigado.

- Eles podem estar montando uma linha defensiva do outro lado da fenda. – diz Klag ao entrar na ponte mancando e usando uma bengala.

- O senhor não deveria estar repousando? – pergunta o capitão. O klingon faz uma cara de quem suplicava pelo direito de guerrear. Era algo cultural.

- Muito bem, senhor Klag. Continue. – autoriza Alkon.

- Qualquer nave vinda do quadrante alfa estaria ameaçada. Cargueiros ou ...

- A Fitzgerald! Senhor Ferris, alguma maneira deles terem interceptado nossa mensagem para o almirante? – perguntou o capitão ao alferes que estava no posto de Zagar.

- Como não conhecemos bem sua tecnologia não há como dizer, capitão, mas em princípio não.

- A não ser...- especula Brixx.

- Que alguém os tenha informado também. – conclui McCormick.

- Ou eles já sabiam de todo o nosso plano desde o início. – diz Alkon dando vazão a paranóia.

- O certo é que, se a Fitzgerald aparecer entrará num confronto e é tudo que o Dominion quer. – diz Klag.

- Não podemos deixar o episódio da Odissey se repetir. Tenente Allison Reverter curso. Vamos voltar ao ponto de encontro.

- Senhor... Com todo o respeito...- Klag voltou a falar – Não poderemos ajudar muito contra aquela força inimiga.

- Temos que tentar. Usaremos a Zênite, a Nadir e o caça Jem’Hadar que capturamos como apoio.

- Capitão... Corremos o risco de virar o estopim de uma guerra. Nossas ordens são... – alerta Brixx.

- Eles a começaram quando destruíram a Odissey, tenente.- interrompe Alkon a fala do observador da missão com uma raiva na voz. – Perdi muitos amigos naquela nave. Já perdi gente demais. Se eles querem briga. Terão uma boa oportunidade para isso. Além do mais tenho um plano em mente.

- Adoro quando o senhor fica com este olhar. Começo a ficar com pena deles!

A Albedo volta a zona de batalha camuflada e as naves Jem’Hadar estavam posicionadas formando uma linha de defesa conforme Klag havia especulado.

Alkon designou Allison, Klag e Siro para pilotarem as naves de apoio. O bajoriano ficou surpreso quando Gilbert foi transmitir a ordem e liberá-lo do confinamento.

- O capitão deve estar desesperado, não?

- Estamos em uma situação em que seria uma burrice não aproveitar sua experiência em combate. Agora corra para o hangar. Temos pouco tempo. – disse Gilbert enquanto apressava o passo pelo corredor.

No hangar, Naomi e sua equipe estavam armando as naves com muito cuidado. Siro reconheceu as ogivas de bilitrium. O negócio era sério.

Alkon estava lá para dar as últimas instruções.

- Allison e McCormick irão na Zênite. Siro e Gilbert irão na Nadir. Vulpes e Klag irão no caça Jem´Haddar. As naves auxiliares deverão proteger o caça até ele atingir a distância de cem quilômetros da nave central da linha de defesa. Depois disso eles se transportarão para a nave mais próxima. O caça navegará por controle remoto até a detonação trinta segundos depôs. Será o tempo que vocês terão para se afastarem o máximo possível do epicentro da explosão. A Albedo tentará dar o suporte necessário o máximo de tempo possível. Boa sorte, senhores. Realmente tem sido um prazer servir com vocês. Vamos dar a eles um gostinho com quem estão se metendo! Pela Odissey!

- PELA ODISSEY! – respondem os oficiais com o que se tornou o grito de guerra do pessoal da Albedo. Menos Vulpes e Siro que não sabiam do que se tratava.

A batalha recomeça. A Albedo se descamufla, libera as naves, e é rapidamente alvejada. Três vezes. Mas não são tiros eficazes, pois, os escudos são rapidamente erguidos.

Alkon retorna a ponte. – Começaram a brincadeira sem mim? – brinca o capitão para aliviar a tensão sobre o perigo do momento.

- Escudos em setenta por cento. Estamos sendo alvejados por três naves. Integridade do casco mantida. – informava Brixx.

- Usar todos os bancos phasers em disrupção máxima! Sleek...Vamos passar a tropa em revista. – Alkon queria dizer passar com Albedo por todas as naves inimigas, atraindo o fogo delas, desviando a atenção das naves menores. Caças seguem a Albedo e abrem fogo.

A Albedo consegue destruir cinco deles. As naves de batalha não alteram suas posições.

Vulpes e Klag se misturam aos caças Jem´Haddares e, para não serem descobertos como impostores, atiram em seus colegas. É claro, tendo o cuidado de errar sempre o alvo.

- O que eles estão fazendo? – reclama McCormick.

- Mantendo o disfarce. Não reclame. A pontaria deles é péssima. Se preocupe com os que realmente querem nos acertar. – diz Allison.

- Muito bem. Manobras evasivas Charlie-Tango-Delta. – ordena McCormick

- Implementando. – a Zênite faz uma curva para direita, desce e dá um looping. Fica entre dois caças e quando ia ser alvejado libera microtorpedos de ré, phasers na proa e sai para a esquerda. As naves inimigas são destruídas.

- Escapamos por pouco dessa. Temos mais dois vindo a boreste. Nove horas. – Informa Allison enquanto a nave é atingida duas vezes.

- Liberando minas.

Quando se distanciam, McCormick usa os phasers para detonar as minas. Um dos caças tenta se desviar, mas a explosão o faz rumar em direção ao outro caça, os dois colidem e explodem.

- É menos dois! Só faltam sessenta! – diz McCormick ironicamente.

- É isso que eu gosto em você. Bom humor nos piores momentos! – Allison deixa escapar um elogio que deixa McCormick sem jeito.“Ela disse que gosta de mim?” – pensou o oficial de ciências.

- Veja. – diz Allison apontando para a tela do tático. Siro e Gilbert estão sendo perseguidos por três deles. Vamos ajudá-los.

- E quem nos ajuda?

- Cadê o seu otimismo? Já o perdeu?

- È difícil mantê-lo quando temos pelo menos vinte naves inimigas vindo em nossa direção.

- Uma coisa de cada vez. Vamos lá.

As duas naves auxiliares conseguem fugir das rajadas das naves inimigas como podem enquanto, no caça Jem’Hadar pilotado por Vulpes, Klag preparava o mecanismo de detonação da ogiva.

- Estaremos no alvo em dois minutos, senhor. – informou o tosk.

- Estou quase pronto. Mande o sinal para as naves se aproximarem de nós para efetuar o transporte.

O sinal foi recebido tanto na Zênite quanto na Nadir, mas eles estavam longe e com muitos problemas para resolver. Dezesseis caças estavam caçando-os impiedosamente.

- Klag está chamando. Temos que ir até ele. Escudos a quarenta por cento. Não iremos agüentar muito este fogo. – reclamou McCormick.

- Vamos fazer a volta e tentar uma aproximação. Olhe! A Nadir pegou mais três! – entusiasmava-se Allison.

- Ótimo. Faltam quantos agora? Quarenta? Trinta? – McCormick não estava muito animado.

- Deixe de ser negativo, Doug. Vamos enfrentá-los de cabeça erguida.

- É ...Enquanto ainda temos uma. Eu sou um homem de ciência, não um guerreiro. Gostaria de enfrentá-los de uma forma mais justa.

- Não há justiça em uma guerra, Doug. Nem vencedores. Somente sobreviventes. Aí vem mais três ao alcance das armas. Segure-se.

A Zênite fez um parafuso para fugir dos feixes de pólarons, mas acabou sendo atingida na nacele esquerda. Parecia que a batalha para eles havia chegado ao fim.

McCormick sentiu um arrepio correr a sua espinha. Estes poderiam ser seus últimos momentos e ele não havia revelado o que sentia por Allison. Quando tentou falar algo ela encostou dois dedos por sobre a sua boca, silenciando-o e, simplesmente o abraçou. McCormick, a princípio, ficou sem ação, mas depois correspondeu ao abraço e fechou os olhos, esperando virar poeira cósmica a qualquer instante.

A outra nave auxiliar, a Nadir, voava como um míssil desorientado o que dificultava a mira do inimigo. Siro parecia estar se divertindo.

- Vem, seus viciados entubados! Eh,Eh,Eh! Opa, lá foi mais um!

- Alferes Siro, não estamos propriamente num parque de diversões. – critica Gilbert a atitude de seu colega.

- Desculpe, colega. Eu gosto da adrenalina que a guerra proporciona.

- Escudos a sessenta por cento. O Jem´haddares são formas de vida projetadas para matar. Não possuem vontade própria. Não podemos culpá-los pelo que...

- ORA, ME POUPE GAROTO! Eles servem ao Dominion! Eles irão nos destruir! O meu mundo será o primeiro e depois poderá ser o seu. Eu já tive uma vida inteira arrancada pó alienígenas invasores. Não vou deixar que isso aconteça de novo!

Gilbert se calou. Compreendia a revolta de Siro apesar de não concordar em sentir prazer em matar.

- Veja ! A Zênite está em apuros. Lançar os microtorpedos. Fator dispersão. AGORA! – ordenou Siro.

Gilbert obedeceu. Embora Siro fosse novo na nave, tinha quase o dobro de sua idade e experiência.

Duas naves foram atingidas. Mas uma ainda mantinha rota de colisão. Quando ela fez a uma aproximação maior e estava para dar o golpe de misericórdia, a Zênite revidou com toda energia dos phasers em carga máxima. A explosão da nave deslocou a Zênite pelo espaço.

- É isso. Desviei energia do suporte de vida para este último tiro. Estamos sem armas, sem dobra. Somente impulso. Suporte de vida para mais meia hora. – disse McCormick. Ele tinha que se dar uma nova oportunidade e iria tentar de tudo para tê-la.

- Atenção Nadir. Obrigado pela ajuda, mas agora terá que ser com vocês. Estamos fora do jogo. – informava Allison, feliz, de certa forma, pelo rádio. Depois que desligou as comunicações deu um grande beijo na boca de McCormick. Parecia que seu último gesto havia valido a pena. Ele estava pronto para morrer.

[Afirmativo. Que os profetas os protejam!] - o casal não ouviu muito bem esta benção.

A batalha estava difícil. Os caças restantes perseguiam a Albedo. Eram agora quarenta e dois. Cinco deles ainda estavam dando atenção especial à Nadir. Faltava trinta segundos para conseguirem teleportar Klag e Vulpes e para isso teriam que abaixar os escudos e evitar de serem alvejados no processo.

A Albedo fez uma volta e veio em socorro destruindo os caças que perseguiam a Nadir. Mas neste momento, algo não previsto ocorreu. As naves de batalha se reposicionaram e atiraram, todas ao mesmo tempo e no mesmo alvo: a Albedo.

O super-raio de pólarons concentrado atravessou o casco próximo ao disco principal. As explosões pelos decks causaram inúmeros incêndios. Todos os sistemas caíram. A nave girou em torno de si, dando umas três cambalhotas no espaço até ficar à deriva.

O pessoal da Nadir e do falso caça ficaram chocados com o que viram. Relaxaram na segurança e foram atingidos algumas vezes.

Sob as luzes de emergência, Alkon se ergue do chão com um corte profundo na testa cujo sangue que escorria impedia a sua visão do olho esquerdo. Limpou o sangue com a manga da camisa e, em meio a fumaça, gritou:

- Relatório? Relatório de danos? – ninguém respondeu.

Brixx, Zagar e Sleek estavam inconscientes. Ele mesmo se dirigiu ao console tático para verificar as condições da nave. Elas não eram nada boas. A missão estava severamente comprometida. Ele teria que tirar um ás da manga se quisesse ver as estrelas do quadrante alfa novamente.

****

Capítulo XII

Na engenharia da Albedo Naomi e seus comandados estavam lutando para manterem a nave inteira e eles vivos. Ela também conjeturava como as naves Jem’Hadar os havia detectado tão fácil.

- Seções atingidas já foram vedadas. Tivemos oito baixas. Energia auxiliar ativada. Desviando energia para suporte de vida e escudos. Armas off-line. Trabalhe nisso Crispen. - ordenou a chefe.

- Só temos propulsão. Restabelecendo comunicações internas. – informava a alferes Susan Hill.

[...estão me ouvindo. Aqui é o capitão....rssss...Alguém da engenharia...rssss]

- Aqui é a Tenente Silva, senhor. Acabamos de restabelecer as comunicações internas.

[Como estamos?]

- Mal, senhor. O reator não foi atingido, mas estamos sem armas e escudos a 45%. Poderemos obter força de dobra, mas vai demorar. Temos incêndios nos decks de um a quatro. Oito baixas até agora.

[Faça o que puder, Naomi. Precisamos sair da vista deles o quanto antes. Alkon desliga.]

- Entendido senhor. – aquele pedido do capitão fez a engenheira pensar em algo. Tocou no seu distintivo-comunicador e chamou a doutora T´Vel. – Doutora, aqui é Naomi. Leve um kit médico para ala de detenção rápido. A encontro lá.

A doutora T´Vel estava na ponte com alguns enfermeiros cuidando dos feridos. Quando recebeu a mensagem a estranhou. Ala de detenção? Será que havia alguém ferido lá também? Ela estava cuidando do corte da testa do capitão.

- Eles podiam ter nos matado e ainda podem, por que não o fazem? – perguntava o capitão à sua conselheira e médica.

- Talvez eles tenham senso de humor... – imaginou a doutora.

- Fazendo piada, doutora?

- Apenas uma conjectura. Desconheço o comportamento dos Jem´Haddares. Sei que eles são geneticamente programados para matar. Se eles não são capazes de ter emoções como humor, então não há lógica em suas ações. - Quando acabou a sutura laser pediu a permissão do capitão para deixar a ponte e ver o que Naomi queria. Ele consentiu. Alkon ficou pensando nas palavras de T´Vel.

****

No espaço, na nave capitânea da força Jem´Haddar, o primeiro Dezek ´deren confrontava seu superior, o vorta Dorth.

- Por que não acabamos logo com eles? Eles estão à nossa mercê.

- Porque isto não é o que os fundadores querem. Você quer desafiar a vontade dos fundadores, Durek?

- Não, senhor.

- Ótimo. Esta batalha está nos dando muitos dados sobre esta tal de Federação. Suas táticas, suas habilidades, seus armamentos. Não deixe de retransmitir todos estes dados, entendido?

- Sim, senhor.

- Agora relaxe. Vamos aguardar e esperar pelo próximo movimento.

****

O caça Jem’Hadar que Vulpes pilotava deu meia volta quando já estava quase colidindo com uma nave de batalha. Klag havia paralisado, manualmente, a contagem regressiva em quinze segundos.

- Vamos voltar e ajudar a Nadir e a Zênite. – ordenou Klag.

- Temos uma missão a cumprir, senhor.

- Temos sim. Ajudar nossos companheiros. Não há honra em suicídio numa batalha. Devemos morrer olhando nos olhos do inimigo. Agora faça o que mandei!

- Sim, senhor.

Eles atiraram em alguns caças, o que confundiu o inimigo. A imunidade que tinham deixou de existir. Não demorou muito para eles atraírem o fogo inimigo também.

****

Na Albedo, Alkon observava o painel tático. A bomba já devia ter explodido a esta altura, mas não aconteceu. Por que haviam abortado a missão? Nada estava ocorrendo como combinado. Mas a guerra era assim. Muito imprevisto e um pouco de sorte. E parecia que ela havia lhe sorrido novamente quando Brixx, já refeito, informou do console tático.

- Capitão....Estamos nos camuflando novamente. Energia para os sistemas de phaser retornando.

Definitivamente isto era coisa de Naomi. Alkon contatou-a:

- Naomi...O que está havendo?

Ela respondeu da sala de detenção.

- Gostou da novidade, senhor?

[Muito. Mas eles não irão nos detectar de novo?]

- Não dessa vez, senhor. Os guardas Jem’Hadar que capturamos possuíam um dispositivo localizador embutidos em seus corpos. Havia rastreado uma energia estranha, mas pensei ser algum defeito dos meus instrumentos. Até que tive este insight. Os Borgs também possuíam algo parecido, daí... A doutora T´Vel retirou os dispositivos. Eles cooperaram.

[Você os feriu?]

- Não muito. Usei phaser em tonteio. Uma boa dose. Estão inconscientes. O senhor pediu para fazer o que pudesse. Aí está. Agora só temos que manter a energia da nave baixa e não nos movermos.

Na ponte Brixx discordou da chefe de engenharia.

- Senhor...A Zênite está avariada. Não suportará ser atingida novamente e cinco caças estão voando na sua direção.

- Avise Klag para continuar com a missão e mande a Nadir pegá-los.

- Senhor...O caça do tenente Klag está indo socorrê-los.

- Ele está indo para a direção errada! Sleek...nos aproxime da Zênite e estenda o nosso campo de força neles. Zagar...Mande mensagem criptografada para Klag e a Nadir continuarem com a missão.

- Sim, senhor.

- Quanto tempo falta para a Fitzgerald emergir da fenda espacial?

- Quinze minutos, senhor. – informou Brixx.

- Esta vai ser a batalha mais rápida da história da Frota Estelar. Acione o raio trator. Atire à vontade nas naves inimigas. Sala de torpedos?

[Chefe Murdock, falando.]

- Podemos lançar algum bebê?

[Temos algumas avarias a serem consertadas. Podemos lançar da popa uma salva.]

- Prepare então. Lançar ao meu comando nas coordenadas...quatro ...três...cinco...marco dois. Aguarde. Sleek. Nos coloque em posição.

- Zênite resgatada. Acionando raio trator. Três naves destruídas. A Nadir está cuidando das outras duas. Área minada à frente. Fazer desvio lateral a bombordo quinze graus. Alvos selecionados. Aguardando ordem de fogo. – informava Brixx.

- Assim que o pessoal do caça for resgatado. Avise ao alferes Siro para fugir em dobra máxima.

O plano inicial retomou o seu curso. Dorth não entendeu quando um caça Jem’Hadar voou em rota de colisão coma armada. Quando percebeu o que estava ocorrendo foi tarde demais.

A ogiva de bilitrium explodiu como se fosse a criação de um novo sistema solar. Duas naves de batalha Jem’Hadar tentaram fugir da explosão, mas foram pegas pela onda de choque. A armada inimiga tinha sido destruída.

- Quanto tempo para a onda de choque nos alcançar?

- Dezoito segundos, senhor. – informou Brixx ao capitão.

- Engenharia...Já temos dobra?

[Um minuto, capitão]- respondeu Naomi, já de volta à engenharia.

- Acho que não posso dispor disso, tenente. Dê-me o que puder.

- Nossas naves estão retornando ao hangar.- avisou Brixx.

- Abaixe os escudos. Abra as comportas e diga para se apressarem.

A Zênite é conduzida pelo raio trator e tem um pouso suave, mas com o alferes Siro, tudo tinha que ser diferente. Ele fez um pouso forçado.

- Estão dentro!- Gritou Brixx.

- Erguer escudos. Quanto tempo?

- Onze segundos senhor.- respondeu o boliano.

- NAOMI!

- EENEERGIA DE DOOOBRAA ON-LINE, SSSENHOR!

- Nos tire daqui alferes, AGORA!

A Albedo acelera e consegue fugir a onda de choque maciça quase no último segundo, mas não sem antes chacoalhar um pouco.

- Fomos pegos por uma onda residual. Nada que nos afete muito. Escudos agüentando, senhor. – Brixx sorri satisfeito. Era a primeira vez em que ele desfazia aquela cara carrancuda. A Albedo parecia ter o poder de transformar as pessoas.

- Ótimo trabalho pessoal. Monitore a radiação do epicentro da explosão. Veja se houve sobreviventes ou se mais naves estão chegando. Se tudo estiver calmo. Retorne ao ponto de encontro. Quando o almirante ligar me chame em meu gabinete. – Alkon se levanta da cadeira de comando, ajeita as costas doloridas pela tensão das últimas horas e dirige-se até o pequeno sofá em seu gabinete, onde recosta-se, aproveitando a meia luz , para tirar um cochilo, o que, infelizmente, não durou nem cinco minutos. A campainha do gabinete soou.

- Entre. – consentiu o capitão, ainda deitado e sem tirar a mão esquerda por sobre o rosto.

- Oh..Desculpe, capitão. – era McCormick que voltara e ficara constrangido quando viu que interrompera o sono do capitão.

- Não tem problema, senhor McCormick. O que houve? Não me diga que temos mais companhia...

- Não senhor...Parece que demos conta de todos.

- É...Milagres acontecem às vezes. Desculpe não me levantar, mas estou com uma tremenda dor de cabeça.

- Tudo bem para mim, senhor. Só vim até aqui para dizer que voltamos bem. Algumas avarias às naves, mas nada que a equipe de Naomi não dê um jeito. O senhor conduziu bem a ação de hoje. Creio que a admiração e o respeito que a tripulação tem para com o senhor aumentou depois desta batalha.

- Não estou em nenhum concurso de popularidade, senhor McCormick. Não fiz mais do que a minha obrigação. Todos nós merecemos os parabéns. Conseguimos evitar que a Fitzgerald ou naves civis fossem atacadas pelo Dominion. Um bônus para a nossa missão.

- Espero que o almirante Petersen pense assim. Ele ordenou que não travássemos nenhuma escaramuça com o Dominion...

- Foram eles que começaram...

- Eu sei, senhor. E acho que este é o ponto. O senhor não acha muita coincidência nós estarmos pela segunda vez no meio de um conflito com o Dominion? Parece algo que foi arquitetado e dirigido por eles! – deduz o oficial científico.

Alkon acha o comentário de McCormick tão pertinente que resolve retirar a mão do rosto, sentar-se e encará-lo.

- Está sugerindo que temos espiões do Dominion dentro da Frota Estelar? Que é alguém deles que nos manda para essas missões malucas? Isto já me ocorreu, mas pensei que fosse apenas uma paranóia minha. Imagine se o alto comando pensasse assim....

- Seria uma verdadeira caça às bruxas. Contudo teremos que levar esta hipótese à sério. Toda esta missão começou estranhamente. O almirante Petersen...armas proscritas.... tecnologias roubadas...Parece que nós éramos uma espécie de saco de papai-noel com vários presentes para o Dominion. Não estávamos sendo armados contra eles e sim para eles. Por isso não nos atacaram com tudo que tinham. Por isso não nos destruíram quando tiveram a chance.

- Eles estavam nos estudando. Analisando nossos pontos fortes e fracos! – conclui Alkon.

- Da próxima vez eles irão querer a Albedo como troféu. E não sabemos se poderemos impedi-los de conseguir. – alerta McCormick.

- Por enquanto vamos manter estas conjecturas entre nós. Se existe um espião do Dominion entre nós, não poderemos deixá-los saber que desconfiamos de seus planos para conosco. Vou discutir o assunto com a doutora T´Vel para ver se criamos um meio de identificar um changeling de forma efetiva e sem fazer muito alarde.

- Talvez o senhor possa fazer uma sondagem mental.

- Não sei se posso lê-los, mas é uma idéia para ser discutida na próxima reunião de equipe. Agora vá descansar. Você merece também depois de tudo que passamos. Ah..Doug...Bom trabalho!

McCormick agradece o cumprimento do capitão e se retira. Alkon volta a cobrir o rosto com a mão e se ajeitar no sofá para finalmente tirar seu cochilo quando o seu comunicador, em seu colete, tocou.

- Sim?

[Mensagem da Fitzgerald, senhor. Confirmaram o recebimento da mensagem e nos esperam no ponto de encontro. E capitão...Pelo tom da voz do almirante, ele não estava nada satisfeito com o que viu.] - informou Zagar.

Alkon já havia previsto isto quando o almirante visse a nuvem de fragmentos flutuantes gerada pela explosão de bilitrium. Ele decerto não contou que os seus “fantasmas” iriam fazer barulho arrastando as correntes pelo quadrante Gamma.

- Entendido. Marque o curso para o encontro e não me incomode pela próxima hora.

[Sim, senhor.]

Após quase trinta horas sem dormir, Alkon relaxou e dormiu o sono dos justos.

****

Epílogo

Base Estelar 375 – seis horas depois...
Salão de reunião
SBT*18 : 8:00 am

A equipe de comando da Albedo estava toda presente, a exceção, é claro, da comandante Okaido, que ainda se encontrava em coma na enfermaria da nave. O almirante Petersen, junto ao seu staff, estava com uma fisionomia de quem estava com cólicas intestinais. Ele olhava para os oficiais perfilados a sua frente e não sabia como começar a sua explanação.

Alkon e seus comandados estavam cansados, feridos e com sono, pois estavam ainda enfrentando um fuso horário diferente; pois , quando se viajava em dobra o tempo ficava relativo. O horário da nave deveria sempre se referir ao horário da Terra, mas com a distância, havia alguma discrepância temporal. Todos estavam doidos para aquela reunião acabasse o mais rápido possível.

- Lemos os relatórios da missão e devo dizer que superaram a nossa expectativa. Na verdade, agiram além do esperado. Poderia dizer que a missão foi um sucesso e que as baixas que tiveram foram dentro do aceitável. Porém creio que o que começaram no quadrante Gamma poderá ter sérias repercussões.

Alkon interrompe seu superior. Não agüentava ouvir do almirante aquela acusação velada de que, mais uma vez, ele pôs tudo a perder.

- Sucesso? Baixas aceitáveis? Sérias Repercussões? – Alkon se alterou. Havia deixado de tomar sua dose diária do supressor psicocinético.

- Capitão! – chamou à atenção o vice-almirante Ross.

- Desculpe-me, almirante. Para mim não existem baixas aceitáveis. Existem pessoas...Almas boas que estavam sob meu comando e que se foram por acreditar que estavam fazendo a coisa certa!

- Capitão... Eu ainda não acabei de falar! Quando eu lhe der a palavra o senhor se manifestará. Até lá...- falou Petersen quando foi interrompido mais uma vez.

Mas Alkon não obedece e, arriscando-se a ser posto em uma solitária ou enfrentar uma corte marcial, continua a expor seu ponto de vista.

- Ficamos felizes que vocês tenham ficado satisfeitos com o nosso desempenho, mas o preço para tal foi alto. Para as futuras missões vocês terão que jogar com todas as cartas na mesa. Não posso agir mais no escuro sem saber a quem estou respondendo realmente. Ou vocês confiam em nós ou arrumem outros para fazerem seu serviço sujo!

- Capitão, o senhor está se excedendo! – adverte o vice-almirante Ross.

- O senhor fala de excesso e deve saber bem o que é isto. Seqüestrar tripulantes de minha nave e privar-lhes da liberdade, não é também um excesso? Usar armas proscritas pelo conselho da Federação, também não é um excesso? Quem cometeu mais excessos aqui, senhor?

- Já basta! Não tolerarei mais nenhuma insubordinação do senhor. E espero que este realmente não seja o exemplo que esteja dando para a sua tripulação, pois será muito prejudicial para as suas carreiras. – adverte Petersen.

- Carreiras? Nós somos fantasmas, lembram-se? Nós não temos mais direito as nossas vidas. Vocês as tiraram de nós. – Alkon não baixava a crista.

- Senhores, calma. Não é necessário esta exaltação de ânimos. – disse Bennett querendo por panos quentes na situação.

Os oficiais da Albedo, ainda perfilados, acompanhavam o bate-boca em silêncio, mas suas expressões faciais demonstravam que estavam endossando as opiniões de seu capitão.

Petersen não poderia demonstrar fraqueza. Se quisesse ainda ser respeitado e manter a hierarquia tinha que mostrar quem ainda estava no comando.

- Seus oficiais estão dispensados, capitão. Mais tarde iremos falar com cada um. O senhor fica. Temos assuntos...inacabados para resolver.

Antes de todos saírem, Alkon recebeu uma mensagem mental: “Acabe com eles!”. A única pessoa capaz disso era T´Vel. Olhou para ela de soslaio quando esta se retirava e sorriu discretamente dando a entender que recebera o recado.

O almirante Petersen percebera o sorriso estampado na face de Alkon e resolveu não deixar passar o gesto.

- Algo engraçado, capitão?

Alkon retomou o ar sério.

- Eu diria que sim. Toda esta operação. É uma grande piada.

- Do que o senhor está falando? Não me venha dizer que é a velha paranóia de perseguição novamente?

- O senhor também tem formação em psicologia, almirante? Pois eu sim e sei diferenciar muito bem o que é e o que não é paranóia. E não foi uma simples paranóia que matou oito pessoas lá fora ou que atacou a minha nave quando da última vez que estive no quadrante Gamma. Eu estou querendo dizer que esta operação não me parece com nada do que fui ensinado a jurar quando me graduei. Acredito que muito do que está em jogo aqui, o alto comando não saiba a metade. Sei que me querem como uma arma viva. Sei que sou muito importante para vocês.

- O que está insinuando, capitão? – pergunta o comandante Bennett.

- Que daqui pra frente agiremos de acordo com o livro de regras. Do meu jeito. Da última fui ingênuo em acreditar que poderia resolver tudo internamente. Imagine se algum de nós, os fantasmas, aparecesse e levasse até a Federação ou a um mundo aliado, informações do que está ocorrendo aqui. Seria algo desconfortável para Frota e para o alto conselho explicar. Se procurasse desmentir, de certo aguçaria a curiosidade dos romulanos, dos klingons e sabe-se lá de mais quem.

- O senhor não ousaria!- diz o comandante Bennett temeroso.

- O senhor é muito arrogante, se pensa que vai nos intimidar...- o vice-almirante estava a ponto de agredir Alkon quando este o joga contra um pequeno sofá, com o seu poder mental. O comandante Bennett ameaçou tomar uma atitude, mas o olhar que Alkon desferiu contra ele, o fez dar dois passos para trás. O almirante Petersen estava assustado. E se Alkon se voltasse contra a Federação? Não podia arriscar que tal fato ocorresse.

- Quais são as suas...sugestões? – perguntou Petersen calmamente. Tão calmo poderia ser naquelas condições.

- Libere o restante da minha tripulação e deixe-os voltar para a nave. Quero ter acesso a todas as informações sobre as futuras missões, sem exceção. Preciso realmente saber contra quem estou lutando. Não colocarei mais as vidas de minha tripulação em riscos desnecessários. Ah...já ia me esquecendo. Aprovação da Frota de minhas comendas e promoções.

Petersen olha para Ross e Bennett como se procurasse apoio para aceitar as exigências do capitão Alkon. O vice-almirante, ainda ultrajado, havia ficado de pé e estava ajeitando a sua túnica. Não esboçou simpatia pelas palavras do capitão. O comandante Bennett deu de ombros. O que o almirante decidisse para ele estaria bom. Parecia que ele tinha dois votos contra um.

- Capitão...Estamos todos do mesmo lado. Somos companheiros de armas e não devemos alimentar hostilidades entre nós. Suas reivindicações me parecem justas. Contudo não poderei modificar ainda a condições de vocês. Toda a operação é secreta e muitos não poderão saber quem fez o trabalho. Quanto às comendas e promoções elas poderão ser endossadas pela Frota após o fim da missão. Arranjaremos boas justificativas para isso. Entenda que o seu pessoal deverá ficar confinado à nave e só poderão vir para a base quando forem solicitados e sob escolta. O luriano já está incorporado à base, então não poderá retornar à sua nave. Pelo menos até esta missão acabar. Estamos de acordo? Agora sente-se. Precisamos discutir alguns aspectos de seu relatório.

Alkon obedeceu. Não acreditava que poderia ser tão persuasivo. Já que o almirante cedeu em alguns pontos ele poderia fazer o mesmo.

- Muito bem. Segundo o que li aqui – diz se referindo a um pad em sua mão com um resumo da missão. – vocês viram uma nave cardassiana confraternizando com o Dominion. Isto bate com informações que temos de nossa inteligência que diz que uma facção deles, talvez a ordem Obsidiana, venha tratando um acordo que, possivelmente, termine em uma aliança ou um pacto de não-agressão. Isto é realmente muito preocupante. Logo agora que Bajor assinou um tratado de paz com Cardassia.

- Talvez agora a atividade Maqui diminua. – comenta Alkon.

- Ou aumente. Não temos como prever. Precisamos acompanhar bem de perto todos estes acontecimentos. – complementa Petersen.

- O senhor falou em aguçar a curiosidade das outras forças do quadrante e isto já ocorreu; logo após da menção da existência do Dominion e do desastre ocorrido com a Odissey. – falou Ross contendo a sua raiva – Uma delegação romulana está a caminho de DS9 para se inteirarem da ameaça do Dominion. Não sei como eles irão reagir. Os klingons, até agora não se manifestaram, mas não demorarão em fazê-lo. Temos informações de que o chanceler Gowron está discutindo o assunto com seus generais. – o vice-almirante entrega um pad com as informações a Alkon.

- Como vê, capitão, as peças estão se movendo. Não estamos sozinhos neste jogo. Precisamos agir com extrema cautela. Por isso devemos adiar este confronto o máximo possível. O senhor tinha ordens de não entrar em conflito com eles e acabou dando o que eles queriam.

- Entendo e respeito sua colocação, almirante, mas saiba que , como está no meu relatório, não tivemos escolha. Seria nós ou vocês. O Dominion também sabe jogar este jogo muito bem.

- Eu sei que o senhor e sua tripulação passaram por momentos bem difíceis e admiro o que fizeram e como reagiram. Eu posso estar enferrujado agora, mas sei bem o que é estar em um campo de batalha e ter que tomar decisões em segundos. Agora, antes de ir, creio que deve desculpas ao almirante Ross.

Alkon se levanta e faz um pedido formal em posição de sentido.

- Este capitão se envergonha do que fez, senhor. Peço perdão por minhas ações e estou pronto para qualquer punição que o senhor julgar necessária, senhor.

- Apenas não cometa este erro novamente ou esquecerei o quanto você é importante para a Frota. Dispensado.

Alkon cumprimentou a todos os oficiais presentes e se retirou. Bennett finalmente relaxou e, praticamente, deixou-se cair no sofá.

- Este capitão vai nos dar problemas. – comentou.

- Ele é o problema. Se não fosse por suas qualidades peculiares...- Ross reforça o comentário.

- Senhores...O capitão Dorian Alkon só precisa ser lapidado. Preciso da ajuda de vocês para fazê-lo. Precisamos mantê-lo em rédeas curtas, mas precisamos perceber também que é preciso afrouxá-las de vez em quando. – suplicou Petersen.

- O difícil é admitir que o garoto é muito bom no que faz. Ele destruiu uma armada Jem´Haddar! É um feito para entrar na história da Frota Estelar! – diz Bennett com admiração.

- Mas a Frota não irá saber disso. Ninguém pode saber, está claro? Talvez, um dia, isto seja revelado, mas não agora. – diz Petersen esboçando um pequeno sorriso. Ele admirava Alkon ainda mais depois de hoje, não por ter vencido, com apenas uma nave, uma armada inteira, e sim por tê-lo enfrentado e, principalmente, o vice-almirante Ross.

****

Do lado de fora da sala, a doutora T´Vel esperava o seu capitão, com uma ansiedade acima do comum, para uma vulcana.

- Parabéns, capitão, pela firmeza com a qual tratou dos nossos interesses. Não esperava que agisse com tamanha veemência.

- Obrigado doutora. Acho que uma parte de Sarah se manifestou em mim. Ainda não acredito que tenha tido a coragem de colocá-los contra a parede. – confidencia Alkon à doutora enquanto esta o acompanha pelos corredores da estação.

- Esta coragem sempre esteve dentro de você. Talvez o seu elo mental com a comandante a tenha apenas avivado.

- Por falar nela...Como andam as pesquisas?

- Seu quadro não evoluiu muito, mas o HME acredita que possa administrar um antibiótico para teste nas próximas horas. Não se aflija. Iremos tirá-la dessa.

- Peço aos deuses que sim. Parece que o HME tem sido de muita ajuda, não?

- Confesso que no início estava reticente quanto ao uso desta nova tecnologia. Hoje o encaro como um colega eficiente.

- Um colega? Presumo que estão se dando bem.

- Tanto quanto um humanóide pode interagir com um holograma. É um programa interessante, por vezes penso que ele é até senciente.

- Ele é um IA*19 que aprende toda vez que é acionado. É uma ótima invenção do doutor Zimmerman. Entretanto a Frota acha que precisa ser aperfeiçoado. Soube que o doutor Bashir, da DS9, irá também testar o programa para ajudar a melhorá-lo antes de ser implementado de vez nas naves da Frota.

- Espero que o projeto seja aprovado. O nível de stress entre os profissionais da área médica iria diminuir consideravelmente.

- Imagine uma nave comandada por andróides como o comandante Data e hologramas...Iria poupar muitas vidas.

- O senhor poderia sugerir isto ao comando. – instiga T´Vel ao chegarem na comporta de atracação que os levaria de volta à Albedo.

- Eu? O alto comando não é muito receptivo às minhas idéias, você sabe. Se não fosse pela minha competência e o fato de vir a me tornar uma arma viva como querem, já teriam me expulsado da Frota. Principalmente depois de hoje.

- O senhor é uma carta alta no baralho deles que não ousam descartar. O único capitão da Frota Estelar a destruir uma armada do Dominion.

- Contenha o entusiasmo, T´Vel. Não fica bem para uma vulcana – a doutora fica constrangida com o comentário – A metáfora é boa, mas ainda não sei que jogo eles estão jogando. Dependendo do jogo, posso até ser de um naipe ruim.

- Este jogo de intrigas também não me agrada. Prefiro ficar em meu laboratório médico.

- Como já disse uma vez um primeiro ministro inglês do século vinte: “É melhor não saber como as lingüiças são feitas”.

- Creio que a citação correta seria: “Política e lingüiças, é melhor não saber como são feitas”.

- Ou isso. – os dois chegam ao interior da nave. – Vamos almoçar? Acho que poderemos pedir para que Dorn nos envie aquelas sobremesas deliciosas que só ele sabe fazer. Depois de tantas batalhas meu apetite aumentou. Preciso te contar as boas novas. Creio ter conseguido impor certas regras em todo este jogo sujo.

- Não valorizo tanto o prazer em uma refeição. Alimento-me por necessidade, não por prazer. Contudo me acostumei em partilhar as refeições com os colegas, pois é um bom momento para trocar idéias.

- Isto quer dizer um sim?

- Avisarei o HME para continuar as pesquisas e acompanharei o senhor.

- Ótimo. Vou falar com Naomi sobre a agenda de reparos da nave e encontro com você no restaurante dos oficiais em dez minutos. – o capitão se despede da conselheira e amiga momentaneamente e toca em seu comunicador: - Naomi...Como estão as coisa por aí?

[Com o apoio dos engenheiros da base o trabalho ficará mais fácil e rápido. Prevejo que ela estará totalmente operacional em três semanas.]

- É uma boa notícia. Ainda mais se a tenente Rivera ajudar, não é? – diz Alkon se referindo a assistente de Naomi que estava confinada na base.

[Sim...mas o quê? O senhor quer dizer... Mas como?] - Naomi estava confusa.

- Contarei as novidades mais tarde. Que tal uma partida de poker para logo mais à noite? Posso contar com você?

[O senhor ficará feliz em ter-me à mesa. Sou uma ótima perdedora.] Naomi não perderia esta oportunidade por nada deste mundo. Seria um raro momento de descontração que teriam nos últimos meses.

- Sabe o que dizem...Azar no jogo, sorte no amor. – diz Alkon para descontrair.

{Acho que precisam rever este ditado, senhor. Com a vida que estamos levando, fica difícil ter qualquer tipo de relacionamento.]

- Talvez eu consiga com o almirante Petersen umas férias em Risa.

[Depois de como o enfrentou oje, não duvido, capitão. O senhor soube impor limites. Foi preciso muita coragem.]

- Vocês me ajudaram muito. Sem o apoio de vocês eu não teria tido a coragem necessária.

[O senhor sabe que conta com nosso apoio incondicional. Afinal de contas o senhor é o nosso capitão.]

- Obrigado, Naomi. Espero você às oito horas no salão de recreação. Avise os outros. Alkon desliga.

****

À noite o capitão parecia estar bem mais relaxado. Estava até de bom humor e todos que estavam à mesa de poker notaram. Com roupas civis, Naomi, Allison, McCormick, Zagar o rodeavam, bem como Dorn, que havia conseguido uma autorização especial para lá estar e fazia as vezes de banca. Todos estavam contentes em poder estar juntos em um momento de lazer. Ainda mais quando souberam das boas novas que o capitão contara.

Zagar estava ganhando à três rodadas seguidas e só havia aprendido as regras àquela tarde, quando, após ser convidado, acessou o banco de dados da biblioteca da nave.

- Os elasianos não possuem visão de raios-x possuem? – perguntou Allison sarcasticamente.

- Não que eu saiba. A não ser que o nosso amigo aqui seja um tipo de mutante! – brinca McCormick.

- Foi sorte, senhores. Estou numa boa noite, só isso.

- Vamos lá senhores...Mais uma rodada...- Dorn distribui as cartas – Façam suas apostas!

Os jogadores conferem as cartas e verificam quantas precisarão trocar.

- Eu quero duas. – pediu Allison.

- Uma – pediu McCormick.

- Duas para mim também. – solicitou a engenheira.

- Uma. – falou Zagar um pouco apreensivo.

- Capitão?-perguntou Dorn quando este não se manifestou.

Alkon olhou para as suas cartas e depois para seus companheiros e então, misteriosamente, sacudiu a cabeça negativamente.

- O senhor não vai trocar nenhuma carta?-perguntou Zagar impressionado.

- Não. – respondeu num sorriso enigmático.

Allison foi a primeira a desistir.

- Estou fora. Meu jogo estava muito ruim. Boa sorte para vocês. Vou pegar um chocolate quente no sintetizador. Alguém quer alguma coisa? – perguntou olhando, carinhosamente para Douglas McCormick.

- Não obrigado. - respondeu o jovem marciano de bochechas rosadas, que ficaram mais ainda quando percebeu que seus colegas notaram que entre ele e Allison estava rolando alguma coisa.

Duas rodadas depois, as apostas já chegavam a quase mil créditos, cerca de cinqüenta barras de latinum.

- Os seus trezentos mais cem. – disse Alkon ao apostar na sua vez.

- Tô fora. – disse McCormick se rendendo e, ao se levantar, aceitou um gole do chocolate de Allison, que o abraçou e ficou assistindo aquela emocionante rodada.

- Trezentos e cinqüenta mais duzentos. – apostou Naomi. Zagar estava nervoso. Bem que ele gostaria de ter a tal visão de raio-x. Se isto fosse verdade e ele estivesse em uma roda em Rigel ele seria um elaysiano morto. Na verdade é que ele possuia dois pares. Uma de damas e outra de valetes. Será que os seus adversários tinham um jogo melhor?

As apostas continuaram e a engenheira não agüentou a pressão.

- Acabaram as minhas fichas!

-Pode pedir um empréstimo à banca. – sugeriu Alkon.

- E vou pagar com o quê depois? A sorte não está soprando para o meu lado hoje.

- Serviços prestados. Posso precisar de um ajudante de cozinha. – comentou Dorn.

- Não, obrigada. Eu passo. Eu sou um desastre na cozinha. Você não iria me querer por perto. Boa sorte para vocês. Vou tomar um suco de maracujá vaaliano. Este jogo acabou comigo! – Naomi não gostava de desistir ou mesmo de perder, mas desta vez se rendeu à sua maré de azar.

- Sua vez, Zagar. – desafiou Alkon. O elasiano começou a suar. Tentou olhar bem nos olhos de seu capitão para descobrir a sua tática.

- Por acaso o senhor não está...Desculpe por perguntar mas, não estaria...

- Lendo a sua mente? Não.Vê? – aponta para um aparelhinho colado em sua têmpora que emitia uma pequena luz verde intermitente. Era um supressor neuro-cortical. – Isto é uma das exigências para um betazóide num jogo como esse. Faz parte das regras. Não poderia lê-lo nem se quisesse. Aliás não seria ético de minha parte, não é?

- É claro, senhor. Creio ter lido algo a respeito. Desculpe-me. Eu não queria...

- Deixe pra lá, alferes. Aposte! – disse o capitão num sorriso intimidador.

- Eu...- Zagar estava hesitante. Deu uma última olhada em suas cartas e acabou por debruçar sobre a mesa quase chorando de raiva. – EU DESISTO!

- Iuupiii! – comemorou Alkon. – As crianças desabrigadas de Nova Bajor irão agradecer o donativo em nome de todos.- disse o capitão ao recolher as fichas da mesa.

- Foi uma ótima noite, senhores. Mas agora vou me recolher. Boa noite à todos! – ao se levantar, deixou suas cartas com a face voltada para mesa. Retirou o supressor e saiu da sala.

Todos se entreolharam e quase se jogaram para descobrir qual era o jogo do capitão. Naomi virou as cartas uma a uma sobre a mesa: Um valete de paus, um rei de ouros, um dez de copas e um sete de ouros. Ou seja, nada! Ele havia blefado o tempo todo!

Alkon sorri quando, do corredor, escuta os gritos de frustração de seus colegas. Antes de dormir, porém, dirigiu-se a ala médica. Fora dar boa noite para Sarah. Algo que acostumara a fazer desde que ela estava em coma.

- Oi, querida. Vim te dizer boa noite. Eu te amo e não vejo a hora de abraça-la e repetir isso em seus ouvidos. Sabe...Esta noite eu e o pessoal estávamos jogando poker. Você gostaria de ter visto a cara deles quando souberam que blefei a noite toda. Zagar é um ótimo jogador, mas faltou-lhe malícia... A doutora T´Vel me assegurou que você ficará boa logo. Eu confio muito nela. Não de..desista – disse com a voz embargada – Eu estou te esperando... – Alkon beijou-a na testa enquanto fazia carinhos nos cabelos de Sarah e por uma boa parte da noite Alkon ficou conversando com a sua amada.

Um dia haveria paz novamente na galáxia e eles poderiam desfrutar do amor que sentiam um pelo outro. Por enquanto Alkon só poderia sonhar com este futuro.

FIM

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1a* Do episódio “The Search II” da terceira temporada de DS9.
2a* Do episódio de DS9, “The Search I
3a* Personal acess display device – Aparelho de acesso pessoal com tela, também conhecido como padd, é um pequeno computador de mão "handheld" com múltiplas funções, pode funcionar como uma prancheta eletrônica, um e-book, armazenar dados escritos ou em imagens e etc.
1* Deus da verdade e honestidade Betazóide.
2* PADD – Personal Acess Display – Uma espécie de prancheta eletrônica.
3* SST – Starship time – horário interno da nave controlado pelo computador central para regular o relógio biológico dos tripulantes.
4* ODN – Optical data network. – Sistema de conduites de fibra-óptica para transmissões de dados.
5* A mais alta condecoração da Frota Estelar a ser dada a um combatente. Geralmente ela é póstuma.
6* Apelido dado a pods de serviço.
7* Holograma médico de emergência..
8* "MACO" é um anacrômico de Military Assault Command Operations. Eles não estão associados à Frota Estelar, e sim às forças especiais do planeta Terra; por isso não usam uniformes da frota. Eles normalmente vestem roupas cinzas de camuflagem e são especialistas em combate corpo-a-corpo. São vistos pela primeira vez no episódio The Xindi de ENTERPRISE da 3a temporada em 2003.
9* H.M.E.- holograma médico de emergência.
10* Adaga klingon.
11* Seu verme sem honra.Eu vou te matar! – do klingonês.
12* Periélio- É o ponto de maior aproximação de um sol descrito por um astro que órbita em volta daquele.
13* Substância ou microrganismo causador de doenças.
14* Termo médico que significa infecção generalizada.
15* Droga utilizada para reverter o quadro de choques fisiológicos e tecidos.
16* Droga usada em choques neurolépticos.
17* Droga que age como estimulante.
18* Star Base Time: Hora padrão da base estelar.
19* Inteligência Artificial.

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