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PRÓLOGO
Era noite. Estava frio e chovendo bastante. A chuva era ácida. Todos estavam cansados depois de uma caminhada de dois dias e antes que pudessem armar um acampamento, começou o inferno. Estavam sendo atacados por todos os lados. Não havia como enxergar o inimigo. Um a um da unidade de infiltração foi abatido. O primeiro foi Gilbert, pelas costas. Depois Allison , enquanto tentava alvejar um vulto à sua frente. McCormick acorreu para socorrê-la e deixou de cuidar de sua própria segurança e foi abatido. Siro Lian conseguiu atingir três inimigos antes de ter sido alvejado duas vezes, mesmo assim ainda tentou agredir seu agressor antes de cair. Vulpes, o tosk, abandonou sua capacidade de se mimetizar no ambiente para tentar ajudar seus companheiros e, ao se tornar visível, tornou-se um alvo fácil. Klag, o klingon, apesar de seus urros de raiva e de atirar para todos os lados, não escapou dos ferozes guerreiros Jem´Hadar e foi o último a cair, inconsciente, de cara no solo.
O cenário da batalha desapareceu e, no grande salão holográfico, os treinadores tenente Kobler, capitão Bennett e o capitão Alkon se aproximaram para verificar as condições de seus homens.
- Dra. T´Vel, favor comparecer ao holodeck cinco com a equipe médica. – chamou o capitão Bennett pelo comunicador em seu peito.
- Eles precisam treinar mais. Desse jeito não teremos muita chance. – comentou o tenente Kobler ao olhar os corpos no chão.
- Eles irão conseguir. Estão confinados nesta realidade virtual há três dias apenas. Eles precisam de mais tempo. – Alkon procurou defender seus homens.
- Este é o problema, capitão. Temos que contatar o nosso espião em duas semanas em um planeta, do qual pouco sabemos, e onde tudo pode acontecer de errado. – explica Bennett.
- Entendo sua preocupação. Eu garanto a vocês que estaremos prontos até lá.. – ratifica Alkon a sua confiança nas qualidades de seus soldados. - A propósito, parabéns pela promoção. – diz se referindo ao novo botão na gola do uniforme de Bennett.
- Obrigado, capitão. Espero que as promoções que o senhor solicitou possam ser ratificadas logo. – Bennett sabia que este assunto incomodava Alkon.
- Para isso teríamos que deixar de sermos fantasmas. – diz Alkon sarcasticamente. Desde que a seção 31 os recrutara eles haviam sido declarados desaparecidos em missão e, desde então, têm agido secretamente no quadrante gamma sem o apoio oficial da Federação ou o reconhecimento da própria Frota Estelar.
A Dra. T´Vel entra no salão com sua equipe e começa a “acordar os mortos”.
- Bem vindos de volta à vida, rapazes! – saúda Alkon os seus comandados assim que recobram a consciência.
- Ai! Minha cabeça ainda dói! – reclama a tenente Allison.
- Você provavelmente bateu com ela quando caiu. Vamos até a enfermaria que eu resolvo logo isso. – diz a médica vulcana enquanto seus outros colegas estão sendo atendidos por enfermeiros.
- Sinto que isso não seja possível, doutora. – diz o capitão Bennett impedindo o caminho da tenente segurando-a. - Ninguém sai daqui sem antes conseguir completar o cenário satisfatoriamente.
- Mas ela está ferida. Precisa de tratamento. – argumenta T´Vel tentando impor a lógica na situação.
- Ela irá sobreviver. Todos aqui sofrerão muito mais no cenário real. Se algum de vocês acha que não aguentará o treinamento, ainda está em tempo de desistirem e escolheremos outros mais capazes para a missão. – Bennett esperava que alguém desistisse, mas ninguém se pronunciou. Alkon sentiu orgulho de seu pessoal.
- Ótimo!Vamos recomeçar o exercício... Do início. Computador... Programa assalto dois. Rodar. – o capitão Bennett dá a ordem e a sala se transforma mais uma vez como num passe de mágica. Todos agora estavam no hangar da Albedo prontos para embarcar em duas naves auxiliares.
O tenente Kobler olha com desdém para a doutora e sua equipe. Eles não estavam incluídos no grupo em treinamento.
T´Vel percebe o olhar de reprovação e se retira com os seus assistentes, contudo antes olha para o capitão Alkon reprovando-o por compactuar com o tratamento que estavam dando aos seus colegas.
Alkon sabia que não era época para amabilidades ou diplomacia. Para agir atrás das linhas inimigas precisaria de um treinamento rigoroso, e por isso acatava as ordens do comando da base 375. Tinha que contar com a experiência daqueles homens para que não precisasse fazer nenhum funeral de seus comandados.
- Muito bem rapazes. Vocês deverão pilotar as naves em meio a uma tormenta. Encontrar as zonas de pouso e deixar as naves camufladas. Seguirão uma trilha de dez quilômetros À noite, sem serem detectados pelas patrulhas locais. – Alkon repetia as ordens dadas há dois dias atrás. McCormick imitava a fala de seu capitão, sem emitir som, pois ele, com sua memória total, não se esquecera de nada. – “... algo que vocês não conseguiram fazer das três últimas vezes”.– neste momento Alkon, que passava o grupo em revista, encara seu oficial de ciências que fecha a boca de supetão. Alkon não sorri. McCormick evita de olha-lo nos olhos. Estava envergonhado pela sua conduta. O capitão continua a falar:
- Depois de vocês alcançarem um vilarejo, deverão encontrar o nosso contato e traze-lo em segurança de volta à nave. Entendido?
- Sim, senhor. Entendido, senhor!- responderam todos da equipe.
- Boa sorte, senhores. – disse Alkon para em seguida se afastar, junto com os seus colegas instrutores, para monitorar a ação do grupo.
Allison, Gilbert e McCormick, formavam o time alfa, e voaram na Zênite; enquanto Klag, Siro e Vulpes, formavam o time beta, e voaram na Azimute. A camuflagem holográfica, idealizada pela engenheiro-chefe Naomi Silva, os protegeram até chegarem à atmosfera do planeta. Lá a destreza de Allison e Siro no leme fizeram com que suportassem os fortes ventos e chegassem as novas zonas de pouso programadas. Economizariam um dia e meio de caminhada de acordo com o novo plano de abordagem elaborado por Klag. Deixaram as naves camufladas alterando as holografias para simularem a vegetação local e partiram, separadamente, por dois caminhos distintos até o vilarejo.
Com os sensores de proximidade dos tricorders detectavam os soldados inimigos e, silenciosamente, acabaram com todos. A habilidade do time beta foi a que mais impressionou os instrutores.
Finalmente, após três horas e trinta e dois minutos, e alguns Jem´Hadar mortos; alcançaram a vila. A sala holográfica tornou a aparecer no lugar da paisagem nativa.
- Muito bem, senhores. Nada como a persistência. A marca dos senhores está muito boa, contudo lembrem-se que a parte mais difícil será a volta. – comenta Bennett.
- Senhor, como saberemos quem será o nosso contato? – perguntou Klag ao capitão Alkon.
- Ainda não temos esta informação, tenente. A inteligência da Frota irá receber esta informação quando vocês estiverem à caminho. – informa Kobler.
- Por hoje estão dispensados. Voltaremos com os exercícios amanhã às seis da manhã. Descansem. – ordena Alkon – Klag, quero discutir os novos parâmetros da missão que você elaborou em meu gabinete, achei-o bastante eficiente. – elogiou seu chefe de segurança.
Todos saem do holodeck aliviados e ao mesmo tempo exaustos.
- Vamos até o bar? – pergunta McCormick para Allison.
- Me desculpa, mas o que eu quero agora é tomar uma ducha e dormir! Eu estou podre de cansada! Você não vai ficar chateado, vai? – disse Allison docemente.
- Não, claro que não. Pode ir. Descanse. Te vejo amanhã. – ele deu um beijo nela de despedida e virou-se para os demais colegas estendendo o convite. – E quanto a vocês?
O único a aceitar foi o bajoriano. Os dois desceram pelo corredor ansiosos por molharem as gargantas. McCormick pareceu ter encontrado um companheiro de copo.
- Não fique chateado garoto. Elas são todas iguais. Nos seduzem e depois nos jogam fora. – diz Siro vendo que McCormick ainda estava ressentido pela recusa de Allison. – Vocês estão juntos a quanto tempo? Seis meses?
- Nove. Mas não a culpo. Estamos sobre muita pressão.
- Sabe, ruivo. Você é um bom garoto. A primeira rodada é por minha conta!
- Mas as bebidas são de graça...
- Não seja mal agradecido, rapaz, ou retirarei o que disse.
- Ok... – disse um desanimado Douglas McCormick.
Mais uma missão arriscada estava por vir como tantas outras que tiveram que realizar nos últimos meses. A guerra esperada ainda não havia começado, mas as peças do grande xadrez tridimensional do destino já haviam sido movidas. A Frota realizava exercícios militares próximos à Bajor. Os klingons e os romulanos estavam ficando indóceis perante a ameaça que poderia atravessar a fenda espacial. Uma delegação romulana chegou a tentar destruir a fenda espacial para evitar uma invasão do Dominion, mas o pessoal da DS9 impediu a destruição do Templo Celestial à tempo . Logo depois A Ordem Obsidiana se aliou ao Tal Shiar para atacar o planeta natal dos Fundadores, mas falharam e tiveram sua armada destruída . Isto leva Cardássia a uma guerra civil que acaba tornando Gul Dukat conselheiro-chefe militar. Com Cardássia se reestruturando a atividade Maqui aumentara. O ano começa com a ofensiva klingon sobre Cardássia alegando que ela se aliou ao Dominion. Tal postura faz com que a Federação e o Império Klingon rompam o tratado de Khitomer . Enquanto isso, na Terra, uma reunião de cúpula entre romulanos e a Federação é sabotada causando 27 mortos, pouco mais tarde descobrem que o chefe de operações da Frota Estelar era um transmorfo, e o provável causador do atentado. O verdadeiro almirante Leyton achando que as medidas de segurança tomadas pela Federação não têm sido eficazes, tenta um golpe de estado para isolar a Terra tentando protegê-la do Dominion decretando lei marcial. Novamente o Capitão Sisko e Odo conseguem reverter a situação e entregar Leyton às autoridades .
O ano de 2372 parecia ser o ano em que todas as alianças seriam rompidas, e a tripulação da Albedo teria que andar sobre brasas quentes.
CAPITULO UM
Terra – São Francisco Centro de Comunicações da Frota Estelar Departamento de Telejornalismo
Iryal Lanin era o âncora do noticiário da Federação de Planetas Unidos chamado: “Bom dia Federação”. Um noticiário variado com informes sobre as missões da Frota Estelar, comércio interplanetário, descobertas científicas e esportes praticados por centenas de culturas. O noticiário era normalmente transmitido por todo o quadrante alfa nos canais privativos de naves estelares, bases da Frota e planetas membros ou alinhados à Federação de Planetas Unidos. Um consórcio, formado pela INN, Interestelar Network News, uma rede privada de notícias e a divisão de notícias da Federação; DNF, mas que na prática era controlado pela Frota Estelar, produziam e retransmitiam o boletim diário pelo universo. A Federação optou por ceder uma concessão a uma rede privada para que se pudesse manter a idoneidade das notícias e que não passasse a imagem que elas eram manipuladas; mas que na verdade tinham uma censura interna feita pela Frota. O próprio Yryal Lanin era um operativo da Frota. Tiburoniano de meia idade, de patente de tenente-comandante. Contudo não usava uniforme. Agia como civil para não prejudicar a imagem de imparcialidade que a Frota queria passar. Ele estava se preparando para gravar um dos três boletins diários para as naves da Frota Estelar quando é interpelado no corredor por um colega jornalista cuja voz ele conhecia muito bem.
-IURI! Preciso falar com você!
- É Iryal! – corrige – Depois de dez anos você ainda não aprendeu a falar meu nome, homem? O que você quer Barinni?
- Que libere a minha história sobre o almirante Leyton. Eu não a vi no noticiário desta semana. E que negócio é esse de tirar o sangue de todo mundo que entra aqui no prédio? – diz Timothy Barinni massageando o braço que fora picado por uma hipospray. Ele era um terráqueo de trinta e oito anos, moreno, nariz aquilino, média estatura, e com um comportamento bastante agitado, como todo descendente de italiano. Tinha um visual desleixado. Não se preocupava muito com a moda, mas sabia conquistar as pessoas com a sua simpatia e conversa mole. Armas que nem sempre surtiam o efeito desejado.
- Desculpe, amigo. Apesar do fim da lei marcial nós ainda seguimos as regras de segurança que foram implementadas. Quanto à sua matéria... Ordens superiores. O alto comando não quer que essa informação se espalhe. Não posso ajudá-lo nessa. Não sei como ou onde você obteve as informações sobre o que aconteceu com Leyton , mas te digo que muita gente não gostou nada quando viu seu material. A sua outra matéria sobre o atentado à reunião de cúpula romulano-federação já causou estrago o suficiente. Eu quase fui rebaixado por tê-la liberado, sabia?
- O que eu posso fazer? Eu estava lá. Seria um desperdício não documentar o fato. Quanto ao Leyton...Você sabe...Eu tenho minhas fontes. E antes que você pergunte...Não. Não posso revelá-las. Tradição antiga de família. – Barinni estava sendo sarcástico.
- Tudo bem, eu compreendo. Mas esta matéria não vai ao ar. Peça outra coisa e vou ver o que posso fazer. Que tal fazer a cobertura do dia de Kirk? – Lanin dá um tapinha nas costas de Barinni.
Timothy Barinni faz uma cara de desdém, respira fundo e torna a falar:
- Censura, hein? Então as coisas devem estar indo mal para nós. Nós acabamos de passar por uma lei marcial no planeta! As pessoas ficaram apavoradas. Direitos civis foram violados e a Frota não quer mais que falemos no assunto?
- Isso mesmo. Com o endosso do alto conselho da Federação.
Barinni vê que seus argumentos eram ineficazes. - Tudo bem...Esqueçamos Leyton e sua lei marcial. Soube que ele enfrentará uma corte marcial e depois disso as coisas possam ficar mais claras. Novos detalhes podem vir à tona. Talvez possamos fazer um especial com ele para o final do ano com uma entrevista exclusiva. Que tal?
- Você não desiste, não é mesmo?
- Você acha que cheguei aonde cheguei como? Vamos nos concentrar em outra questão então... Parece que o homem do momento é o capitão Benjamin Sisko. Você precisa me por em contato com ele. A Terra e os nossos aliados da Federação precisam ficar sabendo exatamente sobre o que há de verdade destas escaramuças com o tal Dominion do quadrante gamma do qual temos ouvido tanto. Como é que são esses transmorfos, os tais fundadores...
- Não vai ser possível. Ele está muito ocupado agora. Ele foi nomeado chefe de segurança da Frota para o setor bajoriano. Status de almirante sabe? De certo que as coisas por lá estão fervendo, mas a Frota não vai querer nenhuma propaganda negativa neste momento.
- Propaganda negativa? Um transmorfo assumiu o lugar do chefe de operações da Frota Estelar sem que ninguém soubesse. Poderia ter destruído a Terra e causado muito estrago. Você não acha que o povo precisa saber disso?
- Não! Acho que você agora entendeu o por quê da censura! – Lanin sorri e continua o seu caminho até o estúdio de gravação.
- Espere! Me arrume um transporte até o sistema bajoriano. Prometo não divulgar nada até que você veja o material.
- Você parece surdo, homem. O sistema bajoriano é o último lugar para se estar neste momento. Estamos no meio de uma crise! Talvez a maior que a Federação já enfrentou desde a sua fundação. Os klingons quebraram o tratado. Aquele setor é considerado uma zona de guerra.
- Por isso mesmo é que eu preciso ir. É nas crises que surgem as melhores histórias. Eu preciso ver isso tudo de perto. Não ficar sabendo através de noticiário controlado pela “censura” da Federação ou da Frota Estelar.
- Isto está fora de cogitação. Você nunca foi correspondente de guerra. Não tem o treinamento adequado...Além do mais, já se esqueceu o que aconteceu com Teraxis ? O consórcio e a Frota não iriam deixar que o episódio se repetisse.
Barinni estava ficando sem argumentos. Então recorreu ao único que poderia lançar mão naquele momento: chantagem emocional.
- Então eu me demito! Não posso continuar trabalhando em um lugar onde não existe liberdade de imprensa.
- Está maluco, homem? Vai destruir a sua carreira? Você é o nosso melhor repórter investigativo.
Barinni trabalhava no ramo da imprensa interestelar há quinze anos. É ganhador de dois prêmios “Olho de Shiva” ; um sobre uma reportagem sobre a tentativa de invasão de Vulcano pelos romulanos em 2368 e outro sobre um documentário a respeito dos sobreviventes da guerra com os Borgs em Wolf 359 no ano de 2367. O seu faro jornalístico agora o empurrava em direção ao tal Dominion. O grande mal que ameaçava a hegemonia da Federação. Ele precisava desvendar todo o mistério envolvendo esta nova coalizão de forças, mesmo que para isso tivesse que pôr sua vida em risco.
- O que me adianta ser o melhor se não posso fazer o meu trabalho? Fora daqui eu vou trabalhar como free-lancer e vender a minha história pelo melhor preço. Sei que não vou agradar muita gente fazendo isso, principalmente o alto comando da Frota, mas fazer o quê?
- Eu poderia mandar prendê-lo sabia?
- Sei. Também sei que você não irá fazê-lo, pois sabe que é melhor ter a mim como aliado. Então como ficamos?
- Por que você têm que ser tão teimoso?
- Por que eu sou civil e você militar? Eu não sigo regras. Pelo menos não todo tempo.
Lanin parecia ter sido convencido pela lábia do amigo repórter.
- Ouça, Tim. Eu não posso discutir sobre isso com você agora. Tenho que fazer uma gravação em cinco minutos. Que tal nos encontrarmos no bar The Music of The Stars, na avenida April às oito? Ok? Eu tenho que realmente ir agora. Te vejo lá. – Lanin passou-lhe um cartão do lugar.
Iryal foi praticamente carregado pela sua produção até o estúdio de gravação do “Bom dia Federação” e Timothy ficou pensando se realmente conseguiria o seu intento. Colocou o endereço no bolso no mesmo momento que seu comunicador tocou. Acionou a pequena tela de vídeo polimerizada. Era a sua esposa.
“Tim? Posso falar com você? Liguei o dia inteiro. Por que não retornou as minhas ligações?”
- Estou no trabalho, Liz. Vê? – Timothy exibe o cenário em torno de si para a sua esposa confirmar que falava a verdade.
“Você está sempre no trabalho. Este é o problema. As crianças sentem falta de você. Você por acaso sabe que dia é hoje?”
- Hummm....Deixe-me ver...Terça-feira?
“Droga, Tim! Hoje é aniversário do Michael, seu filho, lembra-se? Não o desaponte. Venha para casa. Estamos te esperando. Oh Deus....”- a ligação foi terminada em meio a soluços e lágrimas.
Timothy quase lançou seu comunicador na parede, mas percebeu que o objeto não tinha culpa por sua omissão nos deveres de pai e marido. Correu até a unidade de vendas a distância mais próxima. Digitou alguns códigos e escolheu uma nave em miniatura por controle remoto como presente para seu filho. Era uma da classe Sovenreign. Digitou o seu endereço e solicitou o envio por teletransporte para dali a meia hora. Seria o tempo de pegar o seu veículo antigravitacional e chegar em casa.
Quando estava no estacionamento lembrou-se de seu compromisso com Iryal. Olhou para o cartão que ele lhe dera. O que faria? Não tinha gastado toda a sua lábia à toa. O que faria? Havia boas chances dele conseguir o que queria e novamente poderia ser indicado para mais um grande prêmio jornalístico.
Por que as decisões que tomamos na vida tinham que ser tão complicadas? – pensou. Ficou olhando para um monitor, das dezenas de monitores espalhados pela redação do noticiário. Escutou a chamada singular do noticiário e seu respectivo logotipo. A imagem de Iryal Lanin apareceu e ouviu-se a sua voz anunciando o início do programa jornalístico, como sempre fazia, há vários anos.
“Bom diaaa Federação! Eu sou Iryaal Lanin e este é o seu programa diário com as últimas notícias da Federação e mundos aliados. E estas são as notícias de hoje...”
CAPITULO DOIS
USS Albedo – doca interna da base 375.
O capitão Alkon estava vistoriando vários departamentos da nave. A maioria do tempo, sua tripulação ficava fazendo manutenção e atualização de dados. As missões, para as quais haviam sido recrutados pela inteligência da Frota, haviam sido reduzidas. O motivo disso era que, o idealizador do “Projeto Fantasma”, da qual a USS Albedo e sua tripulação faziam parte, era o almirante Leyton, ex-chefe de operações da Frota Estelar. Alkon recebera um relatório de prioridade um do almirante Ross no qual contava os recentes acontecimentos na Terra; após o atentado do Dominion em Antuérpia. O almirante Leyton, chefe de operações da Frota Estelar; havia sido substituído por um transmorfo do Dominion; o que revelou que eles poderiam se infiltrar em qualquer parte e ser qualquer um. O verdadeiro Leyton sabia que teria que tomar medidas extremas para defender a Terra e que o presidente da Federação não iria acatar seus planos na íntegra, por ser um pacifista, então sabotou a rede de energia da Terra para dar a falsa impressão que um ataque do Dominion era iminente. Com isso conseguiu convencer o presidente e decretar lei marcial na Terra. Ele sabia que teria que endurecer as medidas de segurança e só poderia fazer isso do jeito que desejasse se afastasse o presidente da Federação do poder. Tentou dar um golpe de estado para depor o presidente da Federação Jaresh-Inyo no dia de um pronunciamento oficial, mas ele não contava com a interferência do capitão Benjamin Sisko e seu chefe de segurança da estação nove, Odo, que descobriram seus planos e o expuseram. O almirante foi preso e todas as suas ações nos últimos meses revistas. Como ainda não se sabia quem era responsável pelo “Projeto Fantasma”, se o Leyton transmorfo ou o Leyton paranóico e traidor; toda a operação com o pessoal da Albedo estava sendo cancelada. Até mesmo o almirante Petersen pode ter sido envolvido no plano do transmorfo e, por isso, foi chamado ao QG da Frota para prestar depoimento na corte marcial do almirante Leyton. Ross foi promovido à almirante e assumiu, definitivamente, o comando da base 375.
Agora tudo ficava claro para Alkon. A sua promoção para capitão tão rápida e seu comissionamento na USS Babel era um engenhoso plano engendrado pelo Dominion, como ele já desconfiava, e, provavelmente, também seria esta atuação nas forças especiais da Frota Estelar. Mas a grande questão era: Por que o Dominion gastaria tanta energia para espionar e atacar a si próprio? Só havia uma resposta possível. Para analisar como o inimigo reage em batalha. Analisar cada ponto forte e fraco. Alkon, a Albedo e toda a tripulação tinham sido, durante todo este tempo apenas cobaias nas mãos do Dominion. O almirante Leyton, o verdadeiro, não era seu inimigo, nunca foi. Provavelmente nunca ouvira falar nele, na missão da USS Babel ou do Projeto Fantasma. Isto tudo se esclareceria na sua corte marcial. Enquanto as provas eram reunidas contra Leyton ele tinha que esperar.
Encontrou-se com McCormick no corredor. Apesar do jovem ruivo não possuir poderes empáticos como o seu capitão, logo percebeu o semblante sombrio de Alkon.
- Algum problema, capitão?
- Creio que sim.
- O que houve? Vão antecipar a missão? Nós ainda não estamos prontos e...
- Não haverá mais missão.
- O quê? Mas como?
Alkon, ciente que aquele assunto era confidencial demais para ser discutido no corredor, puxa seu oficial de ciências pelo braço e entra com ele em um dos laboratórios da nave que estava vazio naquele momento.
- Lembra sobre o que conversamos quando do final da missão de sabotagem àquele planetóide que produzia Ketracel-white ?
McCormick tinha memória total. Ele jamais esquecia de um fato.
- Perfeitamente, capitão.
- Encontraram um espião do Dominion na Terra. Um transmorfo esteve assumindo a forma do almirante Leyton. Provavelmente ele é que nos designava as missões suicidas e pode estar por trás de nossa atual condição.
- Jesus Cristo!
- Não para por aí. O verdadeiro almirante Leyton temendo que mais espiões transmorfos do Dominion poderiam estar operando na Terra, pôs o planeta sob Lei Marcial e depois tentou depor o presidente da Federação. O pessoal da DS9 o impediu a tempo e ele foi preso.
- Deus do céu, capitão...O resto do pessoal já sabe disso?
- Não. O fato de estarmos vivendo isolados de tudo e de todos impediu que soubéssemos disso antes. Acabei de ser informado pelo almirante Ross. O assunto está classificado como altamente secreto. Só comentei com você, pois precisava desabafar com alguém e você foi o primeiro a desconfiar que tal coisa poderia estar acontecendo. Mas irei marcar uma reunião com os oficiais seniores para informar-lhes do ocorrido.
- Obrigado pela confiança, capitão. Quando isto tudo aconteceu?
- Há duas semanas, acho.
- O ruim de se estar na esquina da galáxia é que as notícias demoram a chegar. – reclama McCormick – Se nos avisassem mais cedo poderíamos ter evitado algumas bolhas nos pés com todo aquele treinamento de guerra que o Kobler e o Bennett fizeram a gente passar.
- Eu tenho o meu quinhão de responsabilidade também. Mas nenhum de nós sabia nada sobre isso até algumas horas atrás.
- E o que vamos fazer agora?
- Não sei. Mandaram esperar. Acho que é o que devemos fazer. Continuar com os nossos afazeres até novas ordens chegarem.
- Por mim tudo bem, capitão. Só não ter que enfrentar aquelas sessões no holodeck de novo ficarei feliz.
- Não comente nada com ninguém até a reunião, está bem?
- Pode confiar, capitão.- McCormick faz um cumprimento e deixa a sala. Logo depois Alkon o segue e para no meio do corredor defronte a um painel informativo.
- Computador...Localizar a comandante Okaido.
[HOLODECK UM – DEQUE DOIS]
Alkon apressou o passo. Não queria perder esta etapa da recuperação de sua amada. Assim que adentrou ao holodeck encontrou a doutora T´Vel e o HME sentados em uma pequena arquibancada, num ginásio, assistindo uma animada partida de rollerball. O cenário holográfico reproduzia a final de um campeonato entre os Lunar Meteors e os Orions´s Belt. A comandante Okaido era do primeiro time e vestia um uniforme amarelo com ombreiras, joelheiras, tornozelheiras e capacete. Ela segurava um taco semelhante ao de hóquei, só que se andava sobre patins em uma pista oval tendo que se desvencilhar de seus oponentes, com certa truculência, para arremessar o disco de fibra-carbono em um orifício circular, em uma tabela, para marcar o gol. Pelo menos era isso que Alkon, ao se sentar para assistir a partida, entendeu.
- Perdi muita coisa? – perguntou.
- Olá capitão. Na verdade o jogo começou há dez minutos. Estamos no final do primeiro quarto. O time da comandante está ganhando de quatro a dois.-informa o HME- O senhor quer pipoca?
Alkon olha surpreso para o doutor e seu saquinho de pipoca.
- O senhor não gosta de pipoca? – o HME fica confuso quando o capitão não responde a sua pergunta anterior.
- Você come pipoca? – na verdade era Alkon que estava sem entender como um holograma poderia comer.
- Não, na verdade não. É um saquinho de pipoca holográfica. É mais para estar no clima do programa. Não é apropriado?
- Oh, sim. Muito apropriado.
- Se o senhor ainda quiser a pipoca podemos sintetizar uma para o senhor.
- Não obrigado. Faça bom proveito. – Alkon se surpreendia a todo o momento com o doutor Hime. Este era o nome com o qual ele o batizou e foi aprovado pelo próprio doutor.
- Como ela está, doutora? – perguntou o capitão à sua médica e conselheira em meio a gritaria dos torcedores holográficos em volta.
- Está jogando mal. Não está protegendo o seu flanco esquerdo.
- Não é disso que estou falando. Quero saber sobre a saúde dela. – Alkon tinha dificuldades em escutar a doutora. O jogo estava eletrizando a platéia.
- Ah! Eu diria que ela está respondendo acima das minhas expectativas. – gritou a doutora para ser mais audível.
- E às minhas também. Se é que a minha opinião conta alguma coisa. – interfere o doutor Hime enquanto comia as suas pipocas.
- Claro que sim, doutor. Me desculpe. Não queria fazê-lo se sentir ignorado.
- É um problema muito comum na relação interpessoal homem-holograma. Existe uma pesquisa realizada pelo doutor Grandia Vor de Enara V que...- antes que o doutor Hime continuasse Alkon o interrompeu.
- Doutor...Creio que esta pesquisa deva ser bem interessante. Talvez o senhor queira enviá-la para o meu gabinete mais tarde, por agora o senhor se incomodaria de trocar de lugar? – Alkon queria evitar a intromissão do HME e também de ter que ficar forçando a voz para manter a conversa com a doutora T´Vel.
- De forma alguma.
Alkon se sentou entre o doutor e a doutora.
- Você que o quis ativado. – relembrou a doutora ao perceber que Alkon, por vezes, achava os comentários do doutor enfadonhos.
- Talvez seja uma parte da personalidade do programador se manifestando. Vou pedir a Naomi que dê uma olhada nisso.
- Eu ouvi isso. – disse o doutor Hime.
Alkon pede que a doutora se afaste um pouco para poderem conversar sem serem interrompidos.
- E quanto aquele problema? – pergunta Alkon se referindo novamente à Sarah.
- Ainda sem muito progresso. Talvez você possa ajudar se passar mais tempo com ela.
Alkon não sabia se seria capaz de atender a solicitação da médica. Ele ainda se lembrava de quando Sarah Okaido saiu de coma há dois meses. Não foi uma lembrança agradável.
Dois meses atrás, aposentos do capitão....
[Capitão? Doutora T´Vel. Favor comparecer à enfermaria. Tenho boas notícias!]
Alkon já estava deitado, mas havia ordenado à doutora que o avisasse à qualquer horário quando Sarah retornasse á consciência. Saiu pelos corredores ainda de pijamas. Ao chegar à enfermaria mal pode conter sua alegria. Esperava por este momento há oito meses.
- Como ela está? – perguntou, quase sem fôlego, assim que viu a doutora T´Vel.
- Bem. Ela está acordando...
- Deixe-me vê-la.
- Ainda não. – T´Vel coloca a mão no peito do capitão impedindo o seu acesso à sala de recuperação onde se encontrava a comandante Okaido.
- O que está havendo?- Alkon estranhou a atitude da doutora.
- Você não pode sentir? – desafiou T´Vel o a capitão a exercer suas habilidades psíquicas.
Alkon procurou alcançar a mente de Sarah, mas não conseguiu.
- Como...? Você disse que ela estava bem...- Alkon estava confuso e desesperançado. Apoiou-se em uma bio-bed. Por um momento sentiu suas pernas se enfraquecerem. O que havia acontecido com Sarah?
- Acho melhor você se sentar. Preciso prepará-lo antes de você falar com ela novamente.
- Estou bem como estou. Fale logo, doutora. Detesto suspense. A mente dela se foi?
- Conseguimos debelar sua infecção, replicamos os órgãos afetados e os substituímos a contento. Contudo a bactéria que a infectou portava um vírus desconhecido que afetou a região hipotalâmica e destruiu alguns engrams de memória. O doutor encontrou o vírus e desenvolveu um soro, mas acredito que demoramos demais. O vírus agiu mesmo quando o seu organismo estava em estase. Ela precisará passar por um programa de restauração de memória.
- Em outras palavras...Ela não se lembra de mim ou do que sentimos um pelo outro.
- É provável. Não sabemos ainda a extensão dos danos. Oito meses em coma é muito tempo. Só saberemos quando você estiver com ela, mas queria avisá-lo antes. Ela pode nem sequer reconhecê-lo ou a mim ou até a si própria.
- O nosso elo mental...Ele foi afetado. Eu não consegui alcançá-la...- Alkon estava abalado com as revelações da doutora T´Vel. Como ele reagiria na frente de Sarah?
- Acredito que a sua presença a ajudará na recuperação, mas não crie muitas expectativas.
- Posso vê-la agora?
T´Vel sai da frente e deixou o capitão se aproximar do leito de Sarah.
Alkon afastou as finas cortinas que envolvia a bio-bed. Ele viu o doutor Hime, o médico holográfico, examinando-a com um scanner médico. Logo a seguir ele a ajudou a se sentar e verificou suas pupilas com uma pequena lanterna. Ela estava tão pálida. Seus cabelos estavam desalinhados e ela parecia estar com muito sono.
- Sarah?- Alkon a chamou.
A comandante, porém, não respondeu. Sarah havia se esquecido de quem era. Ele tocou em seu ombro. Ela olhou para ele e sorriu. Um sorriso que o assustou. Aquela não era Sarah Okaido. Não a sua Sarah. Seus olhos começaram a lacrimejar e uma lágrima escorreu pela sua face, apesar de lutar contra aquela emoção.
Sarah olhou-o com curiosidade. Ela não entendia o por que aquele homem chorava.
- Acho que vou deixá-los sozinhos um pouco.- disse o doutor Hime depois que a doutora T´Vel lhe fez um sinal para se afastar.
- Você está bem? – perguntou Alkon com certa dificuldade para falar enquanto tentava arrumar o penteado de Sarah carinhosamente com uma de suas mãos.
- Por que você está chorando? – perguntou Sarah com uma voz de menina.
- Felicidade, eu acho. Estou contente em vê-la bem.
- Eu estou um pouco confusa...Com sono...Não consigo pensar direito...Estou tão cansada...Posso dormir um pouco?
- Claro, claro! Deite-se. Eu vou cobri-la. Descanse. Eu voltarei mais tarde. – Alkon beija-a na testa. Sarah fecha os olhos e volta a dormir.
O capitão sai da sala de recuperação e procura uma cadeira para se sentar. T´Vel se aproxima para confortá-lo.
- Eu olhei para ela e não a vi. Compreende?
- Sarah está com uma idade mental de uma criança de cinco anos, de acordo com a nossa análise. – informou T´Vel ao receber o tricorder médico da mão do doutor Hime e ter lido rapidamente os dados obtidos nos exames preliminares.
- Ela vai se recuperar? Voltará a ser como antes?
- Impossível dizer isso agora, capitão. Precisaremos religar todos os acessos à suas memórias antigas. Reeducá-la...Isso levará algum tempo. – disse o doutor Hime tocando no ombro do capitão para confortá-lo e depois se afastando para cuidar de Sarah.
- Faça todo o possível por ela, doutora.-diz Alkon quase suplicando.
- É o que temos feito. Tivemos, se é que uma vulcana poderia dizer isso, foi muita sorte em ela estar viva agora.
- Agradeça ao doutor por mim.- Alkon se retirou da enfermaria cambaleante. Suas ondas emocionais estavam perturbando a todos à sua volta. Pelo resto daquele dia confinou-se em seu aposento chorando por Sarah e sentindo pena de si.
USS Albedo – Presente
“BING!” – fez o barulho do placar após Sarah ter marcado mais um gol. A comandante comemorava alegremente com os seus parceiros holográficos. O barulho despertou Alkon de suas lembranças do passado. Ele a aplaudiu e gritou seu nome. Ela o viu e acenou de volta agradecendo o incentivo. Talvez eles tivessem uma nova chance. Ele não mais se afastaria dela, por mais que isto doesse. Dessa vez ele não negligenciaria o amor que sentia por ela. Pelo menos era o que ele gostaria que acontecesse.
CAPITULO TRÊS
Terra -São Francisco Bar The Music of the Stars
O bar não estava muito cheio. Era freqüentado basicamente por oficiais da Frota Estelar que residiam na cidade ou que estavam apenas de passagem. Em um canto dois homens discutiam.
- Eu já disse...vai ser muito difícil. A segurança foi reforçada no setor. Não há meios de colocá-lo em uma nave da Frota que esteja indo para aqueles lados. É preciso credenciais que nem mesmo eu tenho. Até naves mercantes estão sendo revistadas de cima a baixo.- dizia Iryal enquanto Barinni insistia na sua idéia de ir para o sistema bajoriano.
- É difícil, mas não é impossível. Segurança reforçada? Sem problemas. É quando se comete mais erros. As pessoas ficam preocupadas demais e acabam se esquecendo de pequenos detalhes. Se não podemos seguir os tramites legais a gente os contorna. Eu posso conseguir as credenciais. Me mostre como é uma. Eu conheço um ou dois falsários que me devem um favor...
- SSSHHH!!!Fale baixo, homem. A Frota tem ouvidos por toda parte, lembra-se?
- Realizar esta matéria vai ser muito importante. Estamos vivendo um momento histórico. Alguém tem que escrever sobre isso. Minha oferta de exclusividade continua de pé.
- Você não entende. Nem a Frota nem a Federação querem alardear sobre a crise que enfrentamos. Isto iria causar um tumulto danado sem contar com os contratos comerciais entre os mundos aliados. Só com esta história da possível invasão do Dominion à Terra que o almirante Leyton inventou fez com que os transportes civis para fora da Terra aumentassem o seu fluxo em quase duzentos por cento. Sabe o que é isso?
- Você sabe que Leyton não estava totalmente equivocado. Senão o capitão Sisko não teria vindo até aqui para uma reunião com o alto comando da Frota. Isto tudo só me dá mais motivos para eu realizar a minha matéria. Eu posso apaziguar as coisas dando um enfoque, de dentro do centro da crise, que a Frota está fazendo todo o esforço para nos proteger. Isto seria bom, não seria? Poderia até conseguir uma entrevista com o capitão Sisko assegurando que nada de mal irá acontecer e etecetera e tal. O que acha?
- Vendo por este lado...
- Nunca saberemos ao certo o que está acontecendo se apenas os militares contarem a sua história. O equilíbrio da balança do poder do universo está para ser alterado, Iryal... Pessoas estão morrendo...Naves desaparecendo... Tratados sendo rompidos...Em cada um destes eventos dezenas de histórias esperam para serem contadas. Você pode fazer parte disso. Você é o âncora do noticiário mais assistido do quadrante alfa. Seu nome ficará na história como o homem que teve a coragem de romper os protocolos em prol da verdade.
- Está bem.Está bem. Você me convenceu. Mas fique sabendo que eu irei editar as suas matérias. Existe o fator segurança. Certos fatos, por questões estratégicas, não poderão vir à tona, compreende?
- Absolutamente!-diz Barinni com um grande sorriso no rosto.
- Eu olho para você e vejo Teraxis. Ele era tão impetuoso quanto você.
- Eu sei que você o apoiou e depois ele desapareceu durante a missão da USS Próxima. Mas não se culpe. Você não tinha uma bola de cristal para saber o que iria acontecer. Foi uma fatalidade. Isto não acontecerá comigo.
- Por que está tão certo disso?
- Porque eu sou mais esperto. Eu ganhei dois Olhos de Shiva , lembra-se?
Iryal fica pensativo por alguns segundos. Bebe um pouco de brandy e por fim fala:
- Vamos fazer o seguinte...Eu vou enviar o seu pedido para ser correspondente no sistema bajoriano. Sua base de operação será a estação DS9. Caso não seja deferido usamos o plano B.
- Plano B?
- Eu arranjo uma credencial e você faz o resto. Não vou nem querer saber os detalhes.
- Agradeço imensamente o seu apoio. Jamais esquecerei! – Barinni aperta a mão de Iryal efusivamente. Então olha para o seu relógio, bebe um último gole e se despede apressadamente. – Obrigado! Obrigado mesmo, mas tenho que ir. Estou atrasado para um compromisso com meu filho. Tchau! Ficarei esperando uma resposta. Tchau!
Timothy Barinni pegou o seu carro e voou para a sua casa em Oakland. Ao chegar todos já estavam dormindo. Um pequeno bolo cortado jazia sobre uma mesa junto com alguns copos vazios de suco. Sua mulher, Liz, o esperava, acordada, sentada em um pequeno sofá.
- Desculpe querida, eu...
- Não precisa se desculpar. Ele não reclamou da sua ausência. Não desta vez. Se não fosse pelo presente que você mandou acho que ele nem iria lembrar que tem um pai.
- Liz...Eu estava trabalhando...
- Eu sei, eu sei. O seu trabalho sempre foi mais importante.que a sua família.
- Não faça isso. Não coloque as coisas desta maneira. Eu os amo. Mas nem sempre consigo conciliar as coisas. – Timothy tenta abraçar a sua esposa, mas ela se desvencilha dele.
- Não. Eu estou muito irritada com você. Eu imaginava um outro tipo de vida ao seu lado. Notoriedade, glamour, festas...
- Temos as festas da Associação Interestelar de Imprensa uma vez ao ano...- diz Barinni tentando fazer uma piada da qual Liz não acha nenhuma graça. Ela começou a arrumar a mesa e a levar os pratos para a cozinha enquanto Barinni tentava se explicar.
- Liz...Eu não sou artista. Eu sou um repórter. Desculpe se não correspondi a sua expectativa, mas o meu trabalho não diminui o amor que tenho por você ou pelas crianças. Vocês são tudo para mim.- Barinni vai atrás de sua esposa e tenta abraçá-la por trás. Dessa vez ela não o rejeita.
- Eu estou sendo egoísta, não estou? – pergunta ela ao marido num tom de voz mais reconciliador.
- Não...Não. Você tem a razão. Precisamos de mais tempo juntos. Tenho trabalhado demais. Que tal mudarmos daqui? Respirar novos ares...
- Viajar? Para onde? – Elizabeth Barinni fica animada com a proposta.
- O que você me diz de viver em uma estação espacial por uns tempos?
- Estação espacial? – Liz estava sendo seduzida pela idéia. Só não sabia o quanto esta idéia era perigosa. Fato que seria desvendado em questão de segundos, pois Barinni não conseguia mentir para a sua esposa. Não por muito tempo.
- Pedi para ser correspondente em DS9. – disse Barinni de uma vez.
- Você fez o quê? – Liz se vira e o encara. Ela não estava nada satisfeita. Ela também ouvira histórias sobre aquela estação e sabia que havia perigo por lá.
- Entenda, Liz...É lá que a História está sendo escrita.
- Você diz isso com a cara mais lavada? Diz que me ama e a seus filhos e nos leva pro meio de uma guerra?
- Não há guerra nenhuma. Pelo menos não agora.
- E quanto aos klingons? Não estamos em guerra com eles de novo?
- Tecnicamente sim, mas a Frota pode dar conta deles. Na verdade eles estão mais preocupados com os cardassianos neste momento.
- Cardassianos? Por que?
- Isto é uma longa história. Depois eu conto. Mas acredite quando eu falo que, no momento, não há perigo. Além do mais eu não seria louco de expor, desnecessariamente, você e as crianças ao perigo. Prometo a você que, ao sinal de qualquer ameaça, pegamos a primeira nave de volta para Terra. Liz...Ser correspondente por lá, nesta ocasião, será muito bom para a minha carreira. Não conseguiria me concentrar no meu trabalho estando longe de vocês. Somos uma família.Gostaria que ficássemos unidos neste momento.
- Os garotos são tão pequenos...E tem a escola...
- Eles poderão estudar em um programa de ensino à distância na estação ou até mesmo em Bajor. Mas se você preferir podemos deixá-los aqui com os seus pais. Depois, quando nos instalarmos e sentirmos o clima poderemos mandar buscá-los.
- Deixá-los aqui? Eu é que não vou ficar longe deles.
- Vamos encarar como uma viagem de férias. Um...Dois meses no máximo. Que tal? Temos um acordo?
Liz fica imaginando se seria capaz de se comprometer desta forma. Desde que disse sim àquele homem sabia que assumiria certos compromissos e que um deles era conviver com o perigo, por mais que ela odiasse em pensar nisto.
- Olhe, Liz...Olhe para mim. Não quero te pressionar. Vamos aguardar a minha nomeação. Depois a gente volta a falar nisto. Qualquer que seja a resposta quero que decidamos isto juntos. Só irei pra lá se você concordar.
Eles selam a paz com um beijo. Vão abraçados para o quarto, não sem antes passar no quarto dos garotos. O pequeno Michael estava dormindo abraçado com a nave de brinquedo dada pelo pai.
- Ele adorou o seu presente. Ele o ama também.
- Estou vendo. Eles já estão tão grandes...Como crescem depressa.
- Brian já está com dois anos e Michael com cinco. Ele está cada vez mais parecido com você.
- Coitado...Deixa ele se parecer com ele mesmo.
- Você é um homem bom, Tim. Não se menospreze. Você é um safado, egoísta e ambicioso. Mas eu te amo mesmo assim. Talvez eu goste de brigar com você para ver se tenho um pouco de atenção...
- Esta noite eu vou te dar toda atenção do mundo! – diz Barinni maliciosamente enquanto dava uns apertões na cintura de Liz e beijava seu pescoço.
- Tim...Quieto! Vai acordar os meninos.
- Desculpe...Vem...Quem sabe hoje a gente não faz a Marylyn?
- Marylyn? Eu pensei que tínhamos concordado que seria uma Peggy!
- Peggy? Não...Que tal Carolyn? Era o nome da minha avó.
- Nada terminado em Lyn. Tive uma amiga de infância com este nome que eu odiava. Por que não Marylou, Sue, Susan...
Em meio a beijos e um debate interminável sobre nomes de menina o casal vai para o quarto para uma noite de amor como há muito não desfrutavam.
CAPITULO QUATRO
O salão de recreação da base estelar 375 não estava muito cheio. A maioria dos oficiais estava de serviço e fazendo turnos duplos. A falsa quarentena do ano passado fora substituída pela guerra contra os klingons e a ameaça constante do Dominion. O comércio na região estava profundamente afetado. Nem os ferengis apareciam mais. Isto significa que a situação era preocupante.
Alkon e sua tripulação podiam andar livremente pela estação sem correrem o risco de serem reconhecidos. Afinal, eles não eram tão famosos assim. Quando puderam ganhar a fama que lhes cabia, quando resgataram delegados da Federação no quadrante gamma, não deram lhes créditos e ninguém ficou sabendo do fato. As honrarias e medalhas que seriam justas para à sua tripulação não vieram e isto deixava Alkon irritado. Quanto ao anonimato, este não incomodava Alkon. Ele preferia que fosse assim. Poderia fazer seu trabalho sem ser muito incomodado pelo alto escalão ou pela mídia. Mas sempre havia a remota probabilidade de algum civil ou mercador reconhecer alguém da “tripulação desaparecida”; então a inteligência da Frota fazia duplos check-in na estação e cruzava dados para verificar se haviam alguma ligação com alguém à bordo da Albedo. Tal rigor na segurança da estação afugentou os últimos comerciantes. Principalmente aqueles que esperavam ter um território neutro para realizar negócios escusos. Somente naves que precisavam de alguma manutenção, reparos de emergência ou se prover de suprimentos, ainda aportavam na estação. Mesmo assim a Albedo ainda era mantida em doca interna e fechada a qualquer visitante que não possuía a autorização correta. Para os curiosos a doca estava em manutenção e era guardada por vários seguranças dia e noite.
Tal situação era desanimadora para Dorn, o luriano salvo por Alkon no ano anterior. Ele havia assumido um restaurante na estação e estava muito feliz. Agora, praticamente sem clientes, era um desânimo só. Foi suspirando e passando um pano em uma mesa que Alkon o encontrou.
- Como vai Dorn?
- Não muito bem capitão...Como o senhor pode ver...- lamentou-se pelo seu estabelecimento estar praticamente vazio, excetuando a presença de alguns oficiais da Frota.
- Não desanime. As coisas irão melhorar. Estamos trabalhando para isso.
- Oh, capitão. Eu confio no senhor e na sua tripulação, mas não me leve a mal...Não creio que esta guerra será ganha rapidamente.
- Vamos fazer o possível para que ela não dure tanto tempo assim. Estamos agindo em várias frentes. Não somos os únicos nesta briga, você sabe...
- É o que estou lhe dizendo...Esta guerra com os klingons...O silêncio dos romulanos...O terror do Dominion... Ainda vem mais coisa por aí. Pode anotar.
Alkon sabia que o luriano estava correto, mas não queria desanimá-lo. Perguntou-lhe então, mudando de assunto, sobre o motivo que o havia levado até ali.
- Ela já chegou?
- Já. A uns dez minutos. Pediu uma taça de sorvete. Ela parece bem, apesar de estar um pouco diferente.- disse o luriano apontando para uma mesa próxima a uma janela.
- Obrigado. – Alkon caminhou até onde Sarah Okaido estava sentada.- Hum... Parece delicioso...- comentou ao vê-la comendo uma taça enorme de sorvete. Sarah estava em roupas civis. Trajava uma blusa de mangas compridas vermelhas com um colete preto onde se via o distintivo da Frota Estelar, e uma calça preta com tira vermelha pela lateral. Calçava sapatos brancos e contrastava bastante com o resto da roupa.
- Você está atrasado.- disse ela sem dar-lhe muita atenção.
- Eu sei. Me desculpe. São as agruras do cargo. Reuniões...reuniões... Posso provar?
- Não sei se você merece...-disse ela fazendo birra.
- Vai me negar este prazer? Sabe há quanto tempo não tomo uma colherada de sorvete?
- Tá bom...Senta aí. Odeio ver um homem suplicar.- disse oferecendo-lhe uma outra colher.
Alkon sorriu. Parecia que a velha Sarah estava de volta. Provou uma colherada do sorvete. Era de baunilha com calda de morango. O favorito dela. Pelo menos costumava ser. Será que ela estava relembrando de tudo?
- Hummm...Maravilhoso...- disse ele ainda de boca cheia. – Este era...é o seu favorito sabia?
- Sei. Eu li no meu dossiê. Quando a doutora T´Vel me falou do seu convite para um lanche resolvi experimentar. É realmente muito bom. É o melhor sorvete que eu já tomei.
Tanto Alkon quanto T´Vel esperavam que estas pequenas experiências reativassem a sua memória. Este sorvete era o que eles sempre pediam quando estavam na academia. Mas parecia que ela não se lembrava.
Após dois meses de reprogramação, Sarah havia alcançado um estágio de uma adolescente de dezesseis anos.
- Como você sabe que este é o melhor? Você já tomou outros? – provocou Alkon.
- Já. Bem...Acho que sim.
- Quais os sabores?
- Eu...Não me lembro. Mas lembro de tê-los tomado. Não é estranho isto?
-É. Mas não precisa ficar ansiosa. Aos poucos você irá lembrar.
Sarah, por um momento, parou de comer e olhou profundamente nos olhos de Alkon. O capitão ficou desconcertado com esta atitude.
- Você e a doutora têm sido ótimos comigo. Não sei como pude esquecê-los. Nós éramos muito chegados?
- Um pouco. – Alkon estava ficando deprimido com o andamento daquela conversa. – A propósito... Você estava muito bem no jogo esta manhã. Sinto ter que ter saído antes do término. Espero que tenha ganhado. Seus reflexos estão cada vez mais apurados. – diz mudando rapidamente de assunto.
- Meu time venceu de 25 a 18. Eu tenho treinado bastante. Precisa ver o programa que o tenente Kobler fez para mim de combate corpo-a-corpo. Fiquei até com medo de mim mesma.
- O Kobler é bom nisso e você sempre foi um soldado muito bem treinado.
Novamente Sarah ficou em silêncio. Olhou demoradamente para Alkon e por fim falou:
- Engraçado...Eu olho para você e para a doutora T´Vel, acho-os familiar num momento, mas no outro...PUF! Nada!
- A doutora já lhe contou toda história? Quero dizer...
- Como eu fiquei assim?
- Isso.
- Já. Eu sou Sarah Okaido. Tenho trinta e dois anos. Cursei a academia da Frota estelar, me formando como a segunda da turma; sendo que a primeira era uma vulcana. – ressaltou - Sou especialista em armas e artes marciais. Servi como sub-chefe de segurança da USS Budapest, classse Norway, e depois como ofical tático, ficando neste cargo por dois anos até ser transferida para a USS Al-Batani, classe Excelsior, para ser chefe de segurança. Você me convidou para ser sua número um. Eu fui ferida em uma missão e agora estou aqui. Desmemoriada. – disse com bom humor.
- Sua memória parece ótima para mim. – Alkon ficou feliz que ela tenha guardado tanta informação.
- Eu li minha folha de serviço. Do tal dossiê que T´Vel me deu para ler. A memória recente parece estar ótima. Mas não me lembro nem da metade do que está escrito lá. Ela disse que...Quer o morango? – Alkon recusou e Sarah voltou a falar enquanto comia o sorvete – Ela disse que me ajudaria a lembrar se eu lesse o tal dossiê, mas parece a história de outra pessoa. Como uma pessoa pode esquecer uma vida inteira? – Sarah fica irritada e pára de comer o sorvete. Sua cara enfezada fez com que, estranhamente, Alkon sorrisse. Ele adorava quando ela fazia esta expressão. Era quando ele usava a sua fala mansa para escapar das suas broncas.
- O que foi? Qual foi a graça?
- Desculpe. É que por um momento você me lembrou de algo. Deixa pra lá.
- Lembrei de quê?
- Nada. Bobagem. Não é nada.
- Como assim nada? Vai diga...Não faça isso com uma desmemoriada.
- É a cara que você fez. Sua cara de enfezada. É uma expressão que vi a velha Sarah fazer muitas vezes.
- Velha? Como assim velha? Você me acha velha?
- Não. Não é nada disso. É só um modo de dizer.
- Então você quer dizer que eu era uma pessoa mal humorada?
- Não. Não era bem isso. Para que eu fui fazer este comentário... – diz Alkon arrependido. - Foi uma tolice de minha parte. Me desculpe.
- Não, senhor. – Sarah segura a sua mão. Alkon fica surpreso com a atitude dela. Há muito tempo ele não sentia seu toque. Ficou paralisado. – Agora que você começou desembucha tudo. Eu quero saber como eu era.
- A palavra certa seria: Exigente. A tripulação a costumava chamar de Lady Samurai. Claro que não na sua frente ou na minha. Mas os apelidos costumam vazar. Eles tinham medo das suas broncas quando os repreendia.
- Nossa! Eu devia ser muito brava! – Sarah estava surpresa.
- Não muito. Você sempre primou pela eficiência. Só isso.
- Bom...Nunca é tarde para mudar. Prometo ser mais flexível doravante. O que você acha?
Neste momento Dorn se aproximou.
- Apreciaram o sorvete? Querem mais alguma coisa? Codrazina talvez? – Dorn tentava a sua velha piada particular com Sarah, mas não surtiu efeito. – Água de Altair? – insistiu.
- Não, obrigada. Eu tenho que pagar por isso? – perguntou Sarah gentilmente.
- Não, senhorita. É tudo por conta da casa.- Dorn se afastou carregando a taça vazia em uma bandeja e um olhar triste.
Alkon sabia exatamente como ele se sentia.
- Bom...Esta conversa está muito agradável, mas infelizmente eu preciso ir.
- Já? – diz Sarah aborrecida.
- Você sabe...São os...
-...deveres do capitão. – completou Sarah. - Sei. – disse ela desapontada.
Alkon ficou de pé, ajeitou sua túnica, aproximou-se de Sarah e a beijou no rosto.
- Prometo vê-la mais tarde. Você ficará bem sozinha?
- Eu estou sem memória, mas não estou retardada. Eu me viro. Qualquer coisa eu pergunto ao computador da estação. Não se preocupe. Bom trabalho.
Alkon hesita por um momento, mas acaba indo embora, não sem antes de lhe fazer um afago no rosto. Ele ainda tinha esperanças de reatar seu romance com ela. Um romance que ela ainda ignorava existir e que ele não queria revelar para não forçá-la a nada. Queria que as coisas acontecessem naturalmente. Como da última vez.
Sarah o vê partindo e passa a mão no rosto no local onde recebera o carinho. Fecha os olhos e tem uma estranha sensação de já ter sentido o perfume do capitão outras vezes. Um forte rubor tomou conta de sua face e um calor maior do resto do corpo. Isto a assustou. Precisaria falar com a doutora T´Vel urgentemente.
CAPITULO CINCO
Terra – São Francisco Centro de comunicações da Frota Estelar Redação da INN-DNF
Vários funcionários transitavam de um lado para o outro nervosamente. Era assim durante as vinte e quatro horas.
Timothy Barinni procurava pelo seu chefe para receber sua nova credencial de correspondente interestelar.
- Oi Tim! – cumprimentou um colega.
- Oi Roy. Viu Zarc por aí?
- Acho que foi tomar café.
- Obrigado. – Timothy foi abrindo espaço entre as pessoas através dos pequenos corredores apertados e dezenas de divisórias.
Displays conectados a várias localidades da Terra e dos territórios da federação mostravam reportagens sobre diversos eventos: nascimento de crianças fruto de relações interespécies, pirataria espacial, catástrofes, guerras e fenômenos espaciais.
“Onde estavam as reportagens de esporte, musicais e humor?” – Pensava Timothy. Provavelmente não estavam na moda. Pelo menos nesta semana. Se não estivesse com a sua agenda lotada faria uma reportagem sobre como o noticiário era volátil nos dias de hoje. Bom...Talvez não desse uma boa matéria. Noticiários sempre haviam sido voláteis. O que importa é a notícia do momento. E era atrás da “notícia do momento” que ele estava atrás.
- Barinni! – um grito de um dos corredores da redação foi ouvido. A voz era inconfundível. Era Zarc Omala, seu redator-chefe. Um Tereliano de quatro braços e nariz engraçado e o motivo dele estar ali.
- Senhor Omala! O senhor está ótimo hoje. Esteve fazendo dieta?
- Sem bajulações, Barinni. Minha cintura aumentou cinco centímetros desde a última vez que o vi.
- Desde quando?
- ONTEM! Ah,ah,ah,ah! – Zarc Omala tinha um humor peculiar. – Quer café? – ofereceu um gole de sua xícara enquanto foi andando à sua frente. Timothy bebeu e esqueceu-se que Omala não usava açúcar e sim sal. Cuspiu o que bebeu, sem que ele visse, no primeiro vaso de planta que viu e devolveu-lhe a xícara.
- O que o traz aqui tão cedo?
-Você ligou para mim, lembra-se? Pediu que viesse voando. Por favor...São sete horas da manhã...Do que se trata?
Entraram no amplo escritório do chefe da redação.
- Ah, sim. Claro! Que estúpido que sou. Sente-se rapaz. – pegou uma vareta de sal e ficou a chupá-la. – Você é um cara afortunado, Barinni. Nunca vi um repórter com os contatos que você tem. – Omala ficou a procurar por algo em sua mesa entulhada de pastas, padds e e-papers. – AH! ACHEI! Aqui está sua credencial e autorizações para seu vôo. Vou sentir sua falta.
- Já não era sem tempo. Estou a uma semana esperando por isso.
- Aí tem também reservas de um hotel em Jalandra city em Bajor. É uma cidade agradável. Sua família vai adorar. Muito ar fresco, música por todo o canto...
- Pensei que ia ficar na estação nove. – disse desapontado.
- Ela não está aceitando hóspedes no momento. Problemas de infra estrutura Pelo menos foi o que alegaram.
- Jalandra? Não é a cidade dos artistas? Não é lá que vive o grande músico Varini?
- Isso mesmo. Você pode até entrevistá-lo, que tal?
- Parece bom.
- Só temos um problema.
- Sabia que estava faltando algo. Qual?
- É quanto ao seu transporte. Hoje existe muita restrição para viagens ao setor bajoriano. Conseguimos uma autorização do vice-almirante Toddman para você e sua família. Sua mulher será uma enviada especial dos Médicos Sem Fronteiras em ajuda humanitária em Bajor. Seus filhos quase não conseguiram a autorização, mas quem gostaria de ver uma mãe chorando? – sorri Omala -Vocês deverão ir em uma nave da quinta frota para a base estelar 375 e de lá serão levados em um explorador até DS9 antes de pegarem um vôo comercial para Bajor. Você terá duas horas na estação nove. Não desperdice este tempo.
- Zarc! Você é incrível! – Barinni beija a testa de seu chefe. – Sabia que você ia conseguir uma brecha nas defesas deles!
- Não me agradeça. O maior mérito é de seu amigo Lanin. Ele soube mexer os pauzinhos certos.
- Vai ser uma viagem longa, cansativa e perigosa.
- Sei disso. E não se preocupe. Sei que sua esposa também iria reclamar e então o que eu fiz?
Barinni fez uma expressão de “surpreenda-me”.
- Contratei uma segurança do maior gabarito e como prova de confiança em seus serviços vou até mandar meu sobrinho com vocês.
- Sobrinho? – Timothy estranhou a presença inesperada deste companheiro de viagem.
Omala começou a se explicar. Aproximou-se o máximo de Barinni, estando sentado, e falou com voz baixa com medo que alguém o escutasse.
- Ele é filho de minha irmã, compreende? Ele andou fazendo umas besteiras, se metendo em más companhias, pondo as mãos onde não devia... Você sabe...Vai ser melhor para ele mudar de ares por uns tempos. Digamos que o sistema solar não é seguro para ele no momento, entende?
- Entendo. Você é um tio e um patrão muito zeloso. Quando será o meu vôo?
- Daqui a dois dias. Você vai até o espaço-porto central e pega o vôo das dezesseis horas até à doca espacial da Frota. Lá procure pela capitã Sobieski. Ela estará no comando da USS Protheus, classe Prometheus, uma das novas naves que a Frota estará testando. Mais uma boa matéria, não? Isto o ocupará nas duas semanas de viagem até a base 375. Eu o invejo Barinni. Estará onde está a ação e viajará numa nave de guerra nova da Frota.Com sua capacidade de contar histórias e o faro que você tem...Vejo mais um Olho de Shiva na sua estante, meu jovem.
- Depois eu é que sou bajulador.
- Mas é verdade. Com sua capacidade de convencer os outros não há limites até onde você possa ir e a INN estará lá com você. Você convenceu a sua mulher e o alto comando da Frota Estelar! Isto não é pra qualquer um não. Você está com a bola toda garotão!
- Devem ser os meus Olhos de Shiva! – brinca Timothy.
- Mas não confie muito neles. Não vai ver demais. Você sabe como são os militares. Não se arrisque. Nós precisamos de boas histórias e não obituários, entendeu? – agora Omala falava como seu chefe.
- Pode deixar, Zarc. Obrigado por todos os arranjos. Vou para casa fazer as malas. – Timothy barinni aperta a mão de seu redator-chefe e se retira da sala.
- Mande lembranças minhas para Liz e os meninos. – gritou Omala ainda sentado e roendo uma vareta de sal.
Barinni passava por seus colegas exibindo a plaqueta de correspondente interplanetário que acabara de conseguir. Era aplaudido por onde passava. O que ele daria para Liz vê-lo agora. Pegou o elevador até o terraço onde estacionara o seu transporte. Estava eufórico. Sentia que aquela seria a matéria da sua vida. Já podia ver uma série de programas relatando a sua viagem. Relatos sobre a vida de Bajor. Entrevista com o capitão Sisko e seu staff. Com o chefe da estação Odo e sua impressão de seus pares do Dominion...A atividade Maqui...Os conflitos entre klingons-cardassianos-federação... Um sem número de reportagens brotava na sua cabeça. Era material para um ano de trabalho. Talvez mais. Só teria que convencer a sua esposa a ficar longe da Terra tanto tempo. Retirou um pequeno gravador do bolso e começou a fazer suas anotações do dia:
-“Lembrar de agradecer Yryal por abrir as portas.” – desligou o gravador para em seguida ligá-lo novamente.
- “Comprar um presente para Liz. Bem vistoso!”
CAPITULO SEIS
USS Albedo. Doca Interna - Base 375.
Klag estava em seus aposentos usando um terminal de computador. Lia uma mensagem que lhe fora enviada secretamente, pois, para todos os efeitos, ele não mais existia. Contudo ele precisava saber como estavam seus parentes em Q´NoS. Sobretudo ele precisava confirmar o quão era verdadeira a visão que tivera em seu ritual de Maj´Qa do ano passado. Pela cara que fazia não estava gostando nada do que estava lendo. De repente a campainha do seu alojamento tocou. Não podia imaginar quem poderia ser àquela hora. Certificou-se em apagar a mensagem e desligar o monitor. Ajeitou o seu robe apertando bem a faixa em sua cintura, caminhou até a porta e abriu-a. Era a tenente Allison Saint-John com uma fisionomia preocupada.
- Oi Grandão. Posso entrar? – disse ela amigavelmente.
Klag não gostava que o chamassem por apelidos. Na verdade ele não era dado a intimidades com qualquer tripulante à bordo. Todavia permitia esta liberdade à Allison porque passou a considerá-la como amiga e por estar em dívida de honra com ela por não ter conseguido protegê-la devidamente quando estiveram juntos em sua primeira missão. Vez por outra Allison procurava se aconselhar com ele. Parecia que ela o via como um guerreiro experiente e capaz de dar bons conselhos. Ele havia sido a primeira pessoa que ela tivera contato quando há dois anos atrás foram comissionados na USS Babel e desde então se tornaram amigos. Na verdade ele poderia dizer que ela era a sua única amiga à bordo. Os outros eles simplesmente respeitava como companheiros de farda.
- Está meio tarde, tenente, o que quer? – disse ele em meio a um grunhido de insatisfação.
- Você é tão receptivo... – ironizou a jovem – Estou sem sono e preciso conversar com alguém.
- Creio que o tenente McCormick seria todo ouvidos. – disse se referindo a relação que havia entre os dois.
Allison sorriu e o encarou como se estivesse dizendo com os olhos: “Você vai me deixar entrar ou não?”
- Entre. – disse ele finalmente desobstruindo a porta. Allison passou por ele cabisbaixa. Enrolou o cabelo e ficou parada olhando ao seu redor. Os alojamentos da Albedo não eram tão grandes quanto o da classe Akira ou de uma classe Galaxy, mas eram confortáveis. Pelo menos os dos oficiais superiores. Consistia em uma pequena saleta com duas poltronas, um pequeno sofá, uma mesa com duas cadeiras para fazer as refeições, com um sintetizador de alimentos na parede e um quarto contíguo que era uma suíte. Neste havia uma cama, um pequeno armário embutido, uma bancada com uma cadeira e um monitor .
A jovem tenente ainda tentava buscar as palavras certas para iniciar a conversa.
Klag postou-se a sua frente e procurou iniciar um diálogo.
- Para quem queria conversar você está muito calada.
- É que eu não sei por onde começar.
- Escute, tenente...Eu não sou um bom ouvinte nem conselheiro. Talvez fosse melhor procurar a doutora T´Vel.
- Não. Ela também não serve. Preciso do ponto de vista klingon.
- Bom, neste caso parece que sou o mais indicado. – Klag era o único klingon à bordo da nave. – Sente-se. – convidou-a sem ter outra alternativa.
- Obrigada.
Klag sentou-se na poltrona à sua frente e perguntou:
- Do que se trata?
- É sobre esta missão para a qual estão nos preparando. Estou um pouco apreensiva quanto à ela.
- Até onde eu sei , ela foi cancelada.
- Zagar escutou que nos mandarão mesmo assim. Temo ser uma armadilha preparada pelo Dominion. Acho que estou ficando meio paranóica.
O jovem elaysiano oficial de comunicações deveria ser transferido para a inteligência da Frota. Daria um ótimo espião.
- Quando ele escutou isso? – perguntou curioso.
- Não sei, mas se for verdade, o que faremos?
- Executaremos a missão conforme fomos treinados. – respondeu com firmeza. Porém Klag não sentiu confiança na jovem. Resolveu que deveria encorajá-la.
- Você é uma oficial treinada. O seu rendimento no simulador foi satisfatório. Não há o que temer.
- Você diz isso porque tem alma de guerreiro. Eu não. Eu gosto de pilotar naves. É o que sei fazer de melhor. Não me sinto bem atirando em outros seres vivos. Eu respeito a vida. Seja de quem for. Eu queria saber de você como é possível não se importar com as vidas de quem você irá destruir ?
Klag notou a visão errada que sua colega possuía dele e da cultura klingon.
- Tenente...Um guerreiro klingon valoriza a vida de seu oponente. Se, em batalha, ele tiver que tomar a sua vida, isto será um privilégio para ele. Não há honra em matar fracos ou inocentes. Se um guerreiro tiver que matar alguém, este será um outro guerreiro que, por sua vez, está disposto a morrer para defender sua posição ou seu ideal.
- Então é só eu pensar que o cara está lá para me matar, então agirei em legítima defesa, é isso? Parece ser uma boa desculpa. Oh, meu Deus! Não sei se serei capaz... – Allison abaixa a cabeça e esconde a face entre as mãos.
- Você nunca matou ninguém em combate corpo-a-corpo, não é mesmo?
- Bom...Você sabe...Já estive em batalhas antes...Como a do ano passado, mas não é a mesma coisa. Eu estava em uma nave e... – ela fez uma pausa – Não. Nunca. – respondeu finalmente.
- Se você está insegura eu posso falar com o capitão e ...
- Não, não. Não quero decepcioná-lo. Ele já se arriscou tanto por nós.
- O caso é que você poderá colocar a missão em risco. Se hesitar no campo de batalha isto comprometerá a vida de um companheiro. Por acaso não está assim por causa do seu relacionamento com o tenente McCormick está? – perguntou Klag sem temer em ser indiscreto.
- Não. Eu sei que ele sabe se cuidar. Desculpe ter incomodado. – diz ela se levantando – Devo estar com TPB.
- TPB? – Klag não entendera do que a tenente estava falando.
- Tensão pré-batalha. Talvez você esteja certo. Acho melhor procurar a doutora T´Vel. Talvez ela possa me dar alguma coisa...
- Coragem não vem em hiposprays. Você terá que consegui-la de dentro de você mesmo. – ponderou Klag.
Allison sorriu e abraçou o amigo. Tal atitude surpreendeu o aparente insensível klingon.
- Sabe Klag eu o considero um amigo e sua opinião é muito importante para mim, você sabe. Obrigada pelos conselhos. Vou refletir sobre tudo que me disse. Sei que para ser uma guerreira eu vou precisar querer ser uma. Vai ser difícil, mas vou tentar. – Allison caminhou até a porta e parou quando ela abriu. Respirou fundo, hesitou por um momento, mas acabou seguindo o caminho de volta à sua cabine.
Klag ficou satisfeito em saber o quanto Allison o considerava. Era mais um laço que o prendia àquela nave e àquelas pessoas. Isto talvez o distanciasse mais ainda de seu planeta natal e de Lurga, seu amor.
Alkon estava sozinho na ponte da Albedo tomando uma xícara de café e olhando para a tela principal desligada quando a doutora T´Vel apareceu. Alkon a cumprimentou sem sequer olhar para ela.
- Olá doutora. Está sem sono também?
- Vejo que suas habilidades psi estão se desenvolvendo. Estava à sua procura...
- Para saber como estou me portando quanto ao progresso de Sarah.
- Prefere continuar a conversa por telepatia? Creio que possa fazê-lo apesar de não praticar a algum tempo. – disse a doutora com certa ironia ao perceber que havia sido invadida mentalmente. Isto era uma grande ofensa para os vulcanos.
- Desculpe a amargura. Não pretendia ler seus pensamentos. É que às vezes eles me são tão audíveis que é impossível bloqueá-los. Principalmente sem a medicação que eu tomava. Estou preocupado com a missão.
- Como já sabe eu, ao contrário, não estou preocupada com isso agora. É sobre o seu comportamento para com a comandante que eu vim discutir. Por que você sempre arranja uma desculpa para não vê-la e quando está com ela arranja outra para ir embora o mais rápido possível? – T´Vel se sentou na cadeira de comando ao seu lado.
Alkon achava que ninguém perceberia isto. É claro que ele subestimara o poder de percepção da doutora.
- Eu olho para ela e não vejo mais a minha Sarah. Ela é uma estranha para mim. É muito doloroso perceber que o que tínhamos juntos...Acabou.
- Não, não acabou. O amor que vocês sentem um pelo outro ainda está lá no fundo da mente dela. Algum dia ele irá reaparecer.
Alkon levantou-se e caminhou pela ponte, olhou alguns instrumentos e por fim encarou a doutora.
- Quando? – perguntou o capitão.
- Impossível precisar. Eu e o doutor acreditamos que ela poderá recompor os seus engrams perdidos. A terapia neuronal que desenvolvemos está recuperando antigas conexões a cada dia. Pelo menos a maioria delas. Levará algum tempo, é claro, mas a nossa Sarah Okaido reaparecerá.
- Que os deuses assim queiram! – diz Alkon com alguma esperança..
- Quanto ao amor de vocês dois... Se a chama não for alimentada ela se apagará. – diz a doutora taxativamente.
- Talvez. Mas no momento prefiro ficar um pouco afastado.
- Não creio que seja a melhor estratégia. – pondera a doutora.
- Será menos doloroso. No início eu achei que poderia suportar a indiferença dela para comigo, mas ainda me incomoda muito. Além do mais preciso me concentrar na missão. Eu ficarei na retaguarda monitorando as equipes quando gostaria de estar com eles.
- A angústia é muito comum nessa situação. Lembre-se que você está emocionalmente mais sensível desde a retirada de seu supressor químico. Suas emoções demorarão a se estabilizar, contudo você deve evitar se isolar. Você só conseguirá uma gastrite com isso.
- Uma gastrite é o menor dos meus problemas agora. Estou preste a enviar os meus melhores oficiais em uma missão que pode ser suicida. A incerteza do que pode acontecer não é algo que me agrade.
- Estas pessoas que você enviará... Você têm alguma dúvida sobre a capacidade deles?
- O time ouro e prata foram formados por Sarah e Klag. Eles são os melhores. Sei bem do que eles são capazes. O que me incomoda é não conhecer assim tão bem o inimigo.
- Quando eles irão?
- Daqui a três dias. Os treinamentos acabaram. Uma nave estará vindo para cá a fim de nos dar suporte na missão. Me disseram que é uma nave de combate experimental, a USS Protheus. Assim que ela aportar e se abastecer partiremos para o quadrante gamma. Isto é confidencial. Só informarei a todos sobre a missão um dia antes.
- Pode deixar capitão. Sei manter segredo. Então mandarão uma escolta, hein? O alto comando está esperando um grande perigo desta vez.
- Estamos sempre em perigo quando se trata do Dominion. Afinal estaremos “brincando no seu quintal” sem sermos convidados. Ainda tem a questão que os klingons voltaram atrás do tratado de Khitomer e os cardassianos podem estar se alinhando para o Dominion para se protegerem dos klingons.
- Parece ser a solução mais lógica para eles. Se isto vier a ocorrer Bajor e a Federação terão problemas.
- As coisas irão ferver por aqui, isto é certo. O comando da Frota acha que este informante misterioso que teremos que resgatar possui informações cruciais que poderão nos ajudar a montar uma melhor defesa e evitar o avanço das forças do Dominion.
- É. Isto tudo é um bom motivo para uma gastrite. Vamos torcer para que logremos sucesso. Mas não se esqueça de sua outra missão. – disse procurando relembrar o capitão de seu compromisso com Sarah – Boa noite, capitão. – T´Vel deixou a ponte.
Alkon terminou de beber o seu chá enquanto pensava no que a doutora lhe dissera. Voltou a fitar a tela principal e a tentar alcançar a mente de Sarah. Pôde vê-la dormindo em seus aposentos, mas parecia haver um muro bloqueando o seu elo telepático. Estava inseguro quanto a expressar seus sentimentos. Já fora difícil da primeira vez e não estava sendo mais fácil agora. Como poderia fazê-la acreditar novamente em seu amor?
Levantou-se e deixou sua xícara sobre o console de navegação antes de pegar o turbo elevador para ir ao seu alojamento. Durante o caminho não conseguia parar de pensar em Sarah. Ao chegar em sua cabine retirou seu uniforme e se dirigiu para o banheiro para tomar uma ducha. Enquanto se banhava a única imagem que lhe vinha à mente era a do rosto de Sarah. Ele não conseguia evitar. Era a sua obsessão. E ela estava atrapalhando os seus deveres como capitão. Tinha que se concentrar na missão. Ela deveria ser sua real e única preocupação. Isto estava dando uma dor de cabeça danada.
Saiu do banho, secou-se e vestiu o seu roupão. Caminhou até o sintetizador e pediu um leite quente. Isto o ajudaria a dormir uma vez que os calmantes estavam proibidos, pois afetavam o seu parato-córtex e conseqüentemente suas habilidades psíquicas.
Sentou-se no chão, próximo a sua cama, e começou a exercitar uma técnica de relaxamento mental que T´Vel o ensinava. Aos poucos a imagem de Sarah na sua mente foi substituída por um céu límpido e claro, depois uma praia, um campo florido e por fim a quietude do espaço iluminado por estrelas distantes. O sono foi dominando o seu corpo e acabou adormecendo ali mesmo onde estava.
Não muito longe dali, na cabine de Sarah, entre um murmúrio e outro sob a coberta, ela dizia : Dorian...Dorian...Dorian...
CAPITULO SETE
A viagem na USS Protheus estava calma e fascinante. Timothy Barinni só havia ido ao espaço duas vezes na vida. A primeira foi quando tinha doze anos em uma excursão escolar de História. Tratava-se de uma viagem à Lua para aprenderem sobre exploração espacial. A segunda foi em lua de mel em um cruzeiro até Altair. Depois disso nunca mais saiu da Terra e julgava não precisar já que tinha acesso a todos os cantos do espaço através do milagre das telecomunicações e de seus contatos dentro da Frota Estelar. Mas o real motivo era que Timothy sofria de enjôo espacial. Um bom motivo para ficar na Terra.
Observava o espaço através de uma escotilha do observatório quando foi abordado pela capitã Sobieski.
- Você deve ser o Sr. Barinni...Procurando material para a sua reportagem?
- Oh, olá capitã. – cumprimentou ao observar o distintivo da patente daquela mulher alta e morena – Muito prazer. Eu apenas me perguntava como é que se sabe se estamos de cabeça para cima ou de cabeça para baixo.
- Não sabemos. A graça está aí. – brincou a capitã. – Desculpe não tê-lo recebido antes. Estava muito atarefada com os procedimentos de partida. Sabe como é...Nave nova, cuidados extremos.
- Não tem importância, capitã. Eu compreendo. O seu primeiro oficial, o senhor Ian O ´Malley, foi muito atencioso.
- Se ele não fosse iria se ver comigo. – disse ela em tom de brincadeira – Espero que estejam bem acomodados. Infelizmente não poderei providenciar um tour pela nave por questão de segurança, mas se o senhor ou sua família ficarem entediados sugiro uma visita a um dos holodecks da nave. Temos programas interessantes. Poderão até fazer um piquenique por lá! Por falar nisso onde estão a sua mulher e filhos?
- Em um piquenique no holodeck três. – sorri Barinni com certo constrangimento.
- Ah, sei... – a capitão também fica um pouco desconfortável com a resposta.
- Não leve a mal, capitão. Não é nada pessoal com a sua nave. Na verdade ficamos muito impressionados com ela desde quando a vimos na doca espacial. É uma classe nova, um novo design e dizem que possui uma arma secreta contra os inimigos.
- Isto é uma entrevista?
- Desculpe. É a força do hábito. Sei que é um projeto novo do corpo de engenheiros da Frota e que nem deveríamos estar aqui. Só fiquei curioso.
- Quem não ficaria? Ainda mais um repórter com a sua reputação. Só aconselho para se manter nas áreas de circulação livre e não teremos problemas. Quanto a sua presença aqui agradeça ao almirante Toddman e aos Médicos Sem Fronteiras, a instituição na qual a sua mulher trabalha. De outra forma nenhum civil subiria à bordo no estado político atual. Mas o senhor ainda não me disse por que estava aqui sozinho no observatório.
- Enjôo espacial. Infelizmente quem projetou os holodecks esqueceu de colocar banheiros neles.
- Compreendo. Seria uma boa sugestão para o corpo de engenheiros da Frota. Ou poderia dar uma boa reportagem para a INN.
- “A falta de banheiros em naves estelares!” - brinca Barinni com uma fictícia manchete.
A capitão ri da piada. – Quanto ao seu enjôo creio que o nosso médico poderia lhe receitar alguma coisa.
- Passarei na enfermaria assim que o meu piquenique acabar. Acho melhor ir andando antes que minha mulher fique preocupada com a minha demora.
- É muito sensato de sua parte. Avise-os que estão todos convidados para o jantar no salão dos oficiais esta noite. Nove horas está bem?
- Oh, claro capitão. Para mim está ótimo. Avisarei. Obrigado pelo convite. Até mais então. – Barinni sai do observatório apressadamente.
A capitão Sobieski observou o repórter até ele sair. Algo dizia que teria problemas durante a viagem. Um homem como ele era irrequieto demais para ficar apenas em alojamento – refeitório – holodeck. Precisaria avisar a segurança da nave para ficar de o olho nele.
Timothy Barinni sabia que a capitão ficaria de olho nele. Se ele fosse ela ficaria. Ele era um homem de ação. Não ficaria toda a viagem fazendo piqueniques. Quando ouvia a palavra “proibido” sua veia jornalística saltava. O problema era comprometer a sua família. Quando estava perto deles não se sentia à vontade para fazer o seu trabalho. Mas como a sua mulher lhe disse antes de partir...”Esta será uma boa oportunidade para aprender algo sobre convivência familiar”.
Ao retornar para o holodeck adentrou em uma paisagem de um bosque tranqüilo com canto de pássaros e um pequeno lago onde patos eram alimentados com miolo de pão pelos seus dois filhos. Deitada sobre uma toalha xadrez estava sua esposa repousando, alheia às estripulias de seus rebentos. Timothy aproximou-se devagar, ajoelhou-se próximo à ela e a beijou na testa. Liz abriu os olhos.
- Oh....Meu príncipe retornou...- disse ela quase num murmúrio.
- Oi princesa. Os garotos se comportaram?
- Eles estão amando. Por que demorou ? Você está melhor ?
- Sim, um pouco. Estive dando umas voltas por aí.
- Lembre-se do que o imediato falou. Andar somente nas áreas permitidas. Se te pegam em algum lugar não permitido vai passar o resto da viagem em confinamento e adeus reportagem.
- Já pegaram. Ou melhor... Quase. Encontrei-me com a capitão. Na verdade ela me encontrou.
- Oh Deus, Tim...Você não estava fazendo nada errado, não é? – Liz sentou-se sobressaltada com a confissão do marido.
- Não, claro que não. Acalme-se. Ela apenas advertiu-me em não pensar em meter o nariz onde não sou chamado. E depois nos convidou para jantar. Na verdade foi quase uma ordem. Ela parece ser uma mulher durona, porém simpática. Intrigante, não?
- Será que preciso ir com alguma roupa especial? Eu não trouxe nada de gala.
- Qualquer coisa poderemos pedir pelo sintetizador. Mas acredito que o traje seja formal. Está gostando da viagem ? – Barinni muda de assunto.
- O holodeck faz nossos sonhos quase virarem uma realidade. É o que tem me distraído e às crianças nestes dois dias de viagem. Eu poderia passar o resto da vida aqui. Tudo é tão calmo...Tão perfeito... – comenta Liz.
- Eu também poderia ficar por aqui um bom tempo.
- Sério? Estou te estranhando. Computador. Informe quantos humanos estão dentro do holodeck neste momento.
[Quatro seres humanos estão presentes.]
- Muito engraçado, Liz. – Barinni não gostou muito da brincadeira.
- Desculpe, amor. Mas tinha que me certificar. – Ela o abraçou e beijou-lhe a nuca – Afinal você ficar relaxando em uma paisagem bucólica não é de sua natureza. Admita.
- Você está certa. Na verdade estou ansioso para chegarmos logo. Não consigo ficar muito tempo sem ter o que fazer. Além do mais ainda me sinto culpado por ter arrastado vocês para a minha loucura.
- Ei! A loucura foi nossa. Eu concordei com isso. Estou até atuando pelos Médicos Sem Fronteiras! Deus sabe que precisava voltar a trabalhar. É uma grande oportunidade e responsabilidade. Não exerço a medicina desde quando engravidei do Michael. E agora terei a chance de provar para mim mesma que ainda sou capaz. – ela percebia o desconforto de seu marido – Querido... Eu também me sinto culpada por trazer nossos filhos para uma zona de guerra, mas como você mesmo disse, a verdade precisa ser contada. Eu estou aqui porque quero fazer a minha parte.
- Nós somos loucos e egoístas. Talvez devamos pegar o primeiro vôo de volta à Terra quando chegarmos à base 375.
- Chegamos longe demais para dar pra trás agora. Somos uma família e juramos ficar juntos na alegria e na tristeza. Nos tempos fáceis e difíceis, lembra-se?
- Só penso se é justo com eles... – diz Barinni se referindo aos seus filhos que estavam brincando a beira do lago.
- Ei...Somos uma família. Eles também fazem parte dela. Afinal quem poderia protegê-los melhor além de nós mesmos?
- A Kobliad que Omala enviou? – brinca Barinni.
Liz ri. A segurança pessoal era de uma espécie pouco amigável, mas extremamente cuidadosa e cumpridora contumaz de seus contratos. Havia sido contratada para tomar conta do sobrinho de Omala e assim estava fazendo desde que vieram à bordo. Não o deixava nem por um segundo. A família Barinni era um sub-contrato que daria atenção no momento necessário. Assumira que a Frota estava suprindo a segurança necessária até chegarem ao sistema bajoriano.
- Por falar nisso onde eles estão? – perguntou Liz.
- Confinados no alojamento. A Kobliad não acha seguro ele ficar circulando pela nave.
- Pelo menos está fazendo jus ao que seu chefe está pagando. - Agora era a vez de Liz mudar de assunto. - Então quais são seus planos?
- Se te contar terei que te matar. – brincou Barinni insinuando que não podia revelar nada sobre o que estava pretendendo fazer.
- Fale sério... – clamou sua esposa.
- Na verdade eu ainda não sei. Espero ter alguns insights quando chegarmos. Vou esperar os acontecimentos se desenrolarem e documentá-los.
- Não se preocupe. Tudo vai dar certo. – disse Liz abraçando-o. – Podemos conseguir muita coisas com essa viagem. Pra começar estamos sendo uma família de novo.
- Nós nunca deixamos de ser. – protestou Barinni.
- Lá vamos nós de novo...- reclamou Liz antevendo um início de uma nova discussão.
- Eu nunca quis deixá-los fora da minha vida.
- Mas acabava deixando mesmo assim.
- Isto não é verdade. – Barinni não queria admitir seu erro.
- Eu não quero brigar. Não podemos simplesmente ficar aqui quietinhos respirando o ar puro? – suplica Liz.
- Liz... Eu nunca quis magoar você ou os meninos. As minhas ausências eram por causa do meu temperamento hiperativo. Sou movido a desafios. Quando vejo uma história que deva ser contada eu esqueço do resto.
- Eu sei. Mas desta vez será diferente. Você tem a mim e aos garotos. – De repente Liz para e um pensamento lhe vem à tona. – É por causa disso o seu desconforto? O enjôo espacial? Você está preocupado com a nossa segurança e com medo de não poder fazer o seu trabalho?
- Em parte talvez seja verdade.
- Então eu e as crianças somos um fardo para você. – Liz se levanta aborrecida. – Por que então insistiu para que viéssemos?
- Eu queria...Eu quero dar uma chance para nós. Ei, você não tinha acabado de dizer que não queria brigar?
- Timothy Barinni você é incorrigível! – sorri Liz ainda enxugando algumas lágrimas do rosto. Timothy se aproxima e a abraça.
- Não quero deixá-la triste ou aborrecida. É que só de pensar que teremos que ficar três semanas nesta nave está me deixando...
- Louco? – completa ela.
- Desconfortável. – corrige ele.
- Um bom eufemismo...Em breve você estará trabalhando e ficará bem. Enquanto isso você terá a mim e aos meninos. Há muito tempo que não temos um tempo para a família. Venho esperando por isso há pelo menos cinco anos e não quero desperdiçar nenhum minuto. – ela o beija selando a paz.
- Você está certa. Eu reconheço que não tenho sido justo com você e com as crianças ultimamente. Não vou fazer falsas promessas, mas vou me esforçar em não pensar tanto no trabalho. Na verdade é em vocês que eu penso o tempo todo quando estou fora fazendo as minhas reportagens. É de vocês que retiro forças para continuar fazendo o que eu faço.
- Oh, Tim... – Liz fica emocionada com a declaração do marido e o beija ardorosamente. Contudo a cena romântica é interrompida com a aproximação dos seus filhos aos berros.
- Pai! Pai! Encontramos uma caverna! Vamos explorá-la? – disse o pequeno e curioso Michael.
- Uma caverna? Que legal! Me mostra onde é. – Um sorridente Timothy Barinni é levado pelas pequenas mãos de seus filhos para longe de sua esposa e de sua crise existencial.
Liz observa o entardecer artificial e seu marido brincando com os filhos. Gostaria de congelar aquela cena para sempre. Infelizmente a vida real não podia ser programada.
CAPITULO OITO
O capitão Dorian Alkon reunira sua equipe de comando para passar alguns informes na sala de conferência da Albedo.
- O almirante Petersen foi chamado de volta à Terra e não está mais no comando. Respondemos agora ao almirante Ross. Outra novidade... Houve um atentado na Terra durante uma reunião de cúpula entre a Federação e o império romulano. Agentes transmorfos estavam atuando na Terra. O capitão Sisko e o comissário Odo da DS9 conseguiram descobrir pelo menos um dos sabotadores e este estava assumindo a forma do C.OP. da Frota.
- O almirante Leyton? – indagou Naomi surpresa.
- Exatamente. A Frota não sabe por quanto tempo ele esteve agindo usando esta forma, mas desconfiam que ele pode ter sido responsável pela missão da USS Babel e da nossa atual condição. – explicou o capitão.
- Então estamos liberados? Voltaremos ao serviço normal? – perguntou Zagar de uma forma dissimulada para que não percebessem que muito do que foi falado não era uma novidade para ele.
- Não. O alto comando acha que se a idéia da criação de uma força tática com o nosso poder bélico foi idéia do Dominion então poderão usar o feitiço contra o feiticeiro. – esclareceu Alkon. Allison e Klag trocaram olhares. A informação de Zagar estava correta. McCormick achou aquele comportamento estranho.
- Mas como iremos ter certeza de quem está puxando as cordas? – reclama McCormick.
- Não saberemos. – disse Alkon um pouco pesaroso.
- Mas e a nossa missão? Poderemos estar sendo enviados para uma armadilha. – conclui Klag.
- É uma possibilidade que teremos que encarar. As nossas ordens são para prosseguirmos com a missão e descobrir tudo o que pudermos para usar contra o Dominion.
- Mas se tudo for uma farsa? Eles estariam nos dando informações falsas. – supõe Allison.
- Caberá a nós separar o joio do trigo. – disse o capitão fatidicamente.
- A questão é...Seremos capazes? – fala a Dra. T´Vel sem ser muito otimista.
- Assim espero. Confio em vocês. E vocês terão que confiar um no outro. – Alkon parecia ser a única voz otimista na sala.
- Não parece ser o suficiente. – reclamou Klag.
- Eu sei. Exames de sangue podem revelar quem é ou não transmorfo, então estamos todos convocados para exames de rotina. Isto será feito aleatoriamente e com certa freqüência. O corpo de engenheiros da Frota está estudando uma maneira mais rápida e eficaz de realizar esta identificação. Mandaram uma sugestão para que estudássemos. – Alkon pega um pad com as informações.
- Pode deixar comigo capitão. – Naomi logo se oferece para executar a tarefa.
- Não, tenente. Você terá uma outra ocupação. Isto ficará a cargo da Tenente Rivera que a partir de agora assumirá a engenharia. Você foi promovida, interinamente, a primeiro oficial. Parabéns. – Alkon não estava muito confortável em nomeá-la e isto era visível.
- Mas capitão eu... – Naomi tentou protestar.
- Você é minha segunda oficial e na impossibilidade da comandante Okaido assumir o seu posto no momento, você é a mais qualificada. Alguma objeção? Não se sente apta para o serviço?
- Não é isso...É que durante todo este tempo nós não nomeamos um primeiro oficial e eu pensei...
- Uma falha minha. Ninguém é insubstituível. Eu, mais do que ninguém, deveria saber disso. Esta lacuna no comando já deveria ter sido preenchida há tempos.
- Quando iremos? – indagou Klag interrompendo a discussão.
- Amanhã. Assim que a USS Protheus chegar. Ela nos dará suporte na missão caso haja mesmo uma armadilha nos esperando. É a mais moderna nave de guerra da Frota. Com o dispositivo multi-vetor de ataque. – acrescenta Alkon às informações anteriores.
- Multi-vetor? – Klag fica curioso.
- A nave poderá se dividir em três quando em combate. Isto surpreenderá o inimigo e o confundirá. – explica Naomi. Seus colegas ficaram surpresos por ela saber todas aquelas informações. Inclusive o capitão. Naomi tratou logo de se explicar. – O quê? Eu tive acesso a dados secretos quando reformamos a Albedo. Eu sabia que estavam construindo algo assim. Vai ser interessante vê-la em ação.
- Esperemos não precisar. – disse o capitão retomando a palavra. – Ainda temos mais uma situação delicada com a qual lidar. O império klingon quebrou o tratado de Kithomer porque a Federação se negou em ajudá-los atacar Cardássia. Eles julgam que transmorfos tomaram o governo cardassiano. Uma pequena batalha foi travada em DS9 por conta disso. Nossas relações estão cortadas e teremos patrulhas klingons com as quais nos preocupar lá fora. Tenente Klag...Você está suspenso de suas funções temporariamente. Deverá ficar confinado em seu alojamento até segunda ordem.
Houve um burburinho na sala de protestos. Klag limitou-se a grunhir baixo e ficar com uma cara mais carrancuda do que o habitual. Imediato você ficará responsável de repassar as informações relevantes para os demais tripulantes. Detalhes da missão só receberemos quando partirmos. Dispensados.
Os oficiais se levantam comentando sobre o que acabaram de ouvir. Allison ao passar pelo seu amigo tenta confortá-lo com um tapinha nas costas. McCormick fica achando que ela se preocupava demais com o klingon. Todos saem da sala. Naomi aproveita e se aproxima de Klag.
- Preciso falar com você.
- Pois não, imediato.
Naomi ficou surpresa em ter sido chamada de imediato. Era algo com o que teria que se acostumar. Esperou que todos saíssem do auditório e comentou.
- Tenho registros de suas comunicações com o “mundo exterior”. O que pensa que está fazendo?
- Como você...?
- Sou especialista em mensagens criptografadas. É meu dever monitorar as mensagens durantes as varreduras dos sistemas. Questão de segurança. Você sabe bem o que é isso. Pode ter enganado Zagar, mas não a mim. Com quem você falava?
- Isto é uma questão pessoal, comandante.
- Vai ser sua corte marcial se eu levar isso ao conhecimento do capitão. Afinal VOCÊ é um inimigo agora também.
- Então seria melhor colocar-me na detenção. – retrucou.
- Não seja cabeça dura, Klag. Estou mostrando um pouco de boa vontade aqui, você poderia fazer o mesmo.
O klingon respirou fundo. Depois de tudo que passaram juntos ele deveria poder confiar mais em seus camaradas.
- Queria descobrir informações sobre a minha família.
- Você entrou em contato com eles?
- Não. Um grande amigo manteve o nosso segredo. Me mandou apenas as informações que necessitava.
- Sabe que isso pode ser interpretado como espionagem no atual estado das coisas.
- A senhora vai me prender?
- Não seja estúpido. Você fez apenas o que todos nós tínhamos vontade de fazer durante todos estes meses. Não posso culpá-lo. Se você fosse um inimigo já teria nos causado mal há muito tempo.
- Existem métodos de infiltração onde um agente fica aguardando meses e até anos para agir.
- Você está me dizendo que é um agente infiltrado?
- Se fosse acha que confessaria?
- Deixe de bobagens. Você está me deixando confusa com toda esta história. Só quero que prometa não mais se utilizar do sistema de comunicações desta forma. Se começarmos a abrir precedentes nossa “camuflagem” já era.
- Já obtive a informação que precisava. As comunicações com o “mundo exterior” não mais ocorrerão.
- Agradeço. Escute Klag. Sei que está com raiva por ter sido afastado, mas não desconte em mim. Creio que posso interceder a seu favor junto ao capitão.
- Um guerreiro klingon luta as suas próprias batalhas. – replicou com rispidez.
- Você não é mais um guerreiro klingon. É um oficial da Frota Estelar que mostrou seu valor em inúmeras ocasiões e isto deverá ser levado em conta. Dispensado. – Naomi sabia se impor também quando necessário.
Klag a cumprimentou com um menear de cabeça e saiu.
Naomi viu o que a imediato da nave deveria ser. Uma ocupação nada fácil. Resolveu ir atrás do capitão para discutir a situação de Klag. Eles não poderiam abandonar um companheiro neste momento.
Momentos depois no escritório do capitão...
Naomi entrou assim que a porta lhe foi aberta.
- Posso falar um minuto com o senhor, capitão?
Alkon estava sentado, tranqüilo, tomando uma caneca de café e lendo alguma coisa em um pad.
- Sim...?
- É sobre Klag, eu...
- Você quer pedir para que ele continue no time. Eu sei. Por que você acha que eu o deixei participar da reunião? Caso contrário eu o confinaria primeiro, certo?
- Sim, mas...- Naomi pensou que as palavras do capitão soavam lógicas.
- Em nenhum momento eu pensei em afastá-lo da missão, do nosso grupo ou da Frota Estelar.
- Mas o senhor disse...
- Eu apenas o notifiquei de algo que me mandaram dizer.
- Eu não compreendo...- Naomi estava confusa. Pensou em sentar-se.
- Fique à vontade, comandante. – Alkon leu seus pensamentos sem muito esforço. Naomi acabou se sentando.
- Fique tranqüila. Já falei com o almirante Ross ainda há pouco. Salientei que seria importante termos um conselheiro militar klingon na nave. O mesmo parece estar ocorrendo em DS9. O capitão Sisko recrutou o comandante Worf para a mesma função. Na verdade, muitas naves gostariam de ter um klingon à bordo que fosse fiel à Federação e à Frota. Devo dizer que ele concordou. Ele apenas não assumirá o posto tático na ponte que ficará a cargo de Brixx. Mais tranqüila?
- Sim, senhor. Permissão para falar livremente?
- Fique à vontade.
- Por que o senhor não comunicou isto tudo antes durante a reunião. Poderia dizer sobre as suas intenções e evitar um constrangimento desnecessário.
- Não queria alimentar falsas esperanças antes de ter a confirmação do almirante ao meu pedido o que aconteceu a apenas poucos momentos antes de você entrar.
- Entendo. Desculpe-me. Vou comunicá-lo agora mesmo da sua decisão.
- Faça isso e diga que nunca deixei de ter confiança nele.
- Eu direi capitão. E...Capitão...Obrigada por também confiar em mim. – a tenente-comandante saiu contente da sala. Alkon estava cada vez mais à vontade em ser capitão. Continuou a tomar seu café com um sorriso no canto da boca.
No dia seguinte...
A USS Albedo estava totalmente operacional e todos os oficiais estavam em seus postos, inclusive Klag, quando McCormick chegou à ponte de comando acompanhado da nova imediato, a tenente-comandante Naomi Silva. McCormick ficara surpreso em ver o klingon ali, mas se lá estava é porque fora autorizado e ele não questionou. Assumiu o posto científico enquanto Naomi se dirigiu, temerosamente, a cadeira ao lado da do capitão. Ela sabia que o posto era provisório e não se sentia à altura do cargo, mas faria de tudo para exercer bem sua nova função. É bem verdade que preferiria continuar na sala de máquinas e passar a vez para McCormick ou até mesmo Klag. Entretanto tinha que seguir a hierarquia militar. Só esperava não demonstrar sua insegurança para os tripulantes. Procurou encarar aquele momento como mais um desafio em sua carreira.
O capitão havia sido convocado pelo almirante Ross para uma última instrução, caberia então à ela dar a partida na nave.
- Senhorita Saint-John...Liberar as amarras. Avisar o centro de controle de vôo da estação para abrir os portões da doca. Senhor Brixx...Relatório.
Klag, ao lado dele, olhou-o com certa inveja. Suas posições haviam se invertido.
- Todos os sistemas estão on-line e com cem por cento de eficiência. Teremos força de dobra à disposição em dez minutos. Dispositivo de camuflagem operacional.
- Ótimo. Acionar a camuflagem assim que sairmos da base. O capitão irá nos encontrar mais tarde. Posicionar a nave a dois mil quilômetros da estação, longe do fluxo de naves, e parar os motores. Partiremos em uma hora.
- Amarras liberadas. Caminho livre, senhora. – informou Allison.
- Acionando camuflagem. – informou Brixx.
- À frente a meio impulso. – acrescentava Allison.
- Sensores informam apenas naves amigas nas proximidades. – informou McCormick ao olhar para a sua amiga, cumprimentando-a, com um leve aceno com a cabeça, pela sua performance na cadeira de comando. Ela agradeceu da mesma forma. Sabia que todos estavam orgulhosos dela e não iria decepcioná-los.
Interior da base 375...
O capitão Dorian Alkon, vestindo seu uniforme negro com detalhes cinza do comando Nova, estava à espera da capitão Sobieski no escritório do almirante Ross. Também lá estavam o tenente Kobler, o capitão Bennett e o próprio almirante Ross. Não demorou muito e a capitã adentrou a sala.
- Estou atrasada? – perguntou ao ver que estavam todos presentes e sérios demais.
- Não, capitão. Estamos dentro do cronograma. – falou Bennett – Quero apresentá-la ao capitão Alkon. Capitão...Esta é Ilyana Sobieski, capitão da USS Protheus.
- Prazer. Bonito uniforme. – disse ela estranhando o uniforme. Um que ela nunca vira antes.
- É mais uma mortalha do que um uniforme. Algo que vesti para a ocasião. – diz Alkon descontraidamente.
- O capitão é muito espirituoso, como a senhora pode ver. Talvez por ser um betazóide . – tentou justificar Bennett.
- Todavia a missão de vocês não será nem um pouco engraçada. – disse o almirante Ross dando um tom mais sombrio à reunião – Vocês não podem falhar. Precisamos trazer o informante vivo custe o que custar. Entendido?
- Sim, senhor. – responderam os dois capitães.
- Capitão Sobieski dará apoio ao capitão Alkon e à sua tripulação. Ele está encarregado desta missão e você deverá reportar à ele, sem contestações. Esta é uma missão secreta. Nada poderá ser registrado nos diários de bordo. Oficialmente a USS Albedo ainda se encontra desaparecida. A Protheus está em um cruzeiro de teste, compreenderam? – perguntou o almirante Ross mais uma vez.
- Sim senhor. – respondeu Sobieski junto com Alkon e ainda acrescentou – Meus oficiais superiores já foram informados do caráter secreto da missão. Estamos orgulhosos em sermos escolhidos para executá-la, senhor.
- Muito bem. Aqui estão as suas ordens e os planos da missão. Leiam e memorizem. Depois destruam os dados. Após a incursão frustrada do Tal-Shiar e da Ordem Obsidiana ao planeta natal dos Fundadores o Dominion está em alerta total. Vocês têm uma semana para cumprirem a missão. Não haverá nenhuma missão de resgate. Comunicações sub-espaciais estão proibidas assim que chegarem ao quadrante gamma. Caso haja algum comunicado da tripulação para seus entes queridos entreguem ao capitão Bennett que ele se encarregará de cumprir a última vontade de todos. – Ross estava com um discurso bem sinistro, contudo verdadeiro. Havia uma boa chance deles não voltarem vivos desta missão.
Neste momento Alkon e Sobieski entregam pads com as mensagens pré-gravadas da tripulação.
- Senhores...Boa sorte na missão e que Deus os proteja. A Frota Estelar tem orgulho de vocês. Dispensados. – diz Ross finalizando o encontro.
Os capitães cumprimentam com uma continência e se retiram do escritório juntos.
- O clima lá dentro estava pesado, não? – comenta Sobieski ao sair.
- Muito. Mas não liga não. Eles são sempre assim. Muito dramáticos. Depois dizem que nós, betazóides, é que exageramos as coisas.
- Você está nisso há muito tempo? Digo...Neste negócio de missão secreta...
- Cerca de um ano.
- Deve ser difícil para vocês. Ficar afastado de tudo, de todos e no final nem levar os créditos pelo sucesso.
- Nossa recompensa é a manutenção da paz no universo.
- É parece ser o bastante. – disse Sobieski concordando.
Alkon acompanhou-a até a comporta de atracação onde estava a Protheus.
- Eu vou até a sala de transporte. Nos veremos mais uma vez quando estivermos no último perímetro de segurança da comunicação. Siga o curso indicado e acredite, apesar de vocês não nos verem, estaremos lá.
- Como assim...? Dispositivo de camuflagem?
Alkon fica em silêncio. Apenas sorri confirmando a suposição da capitã.
- Por que não deram uma pra gente também? – lamenta Sobieski.
- Este é um segredo a mais que terá que guardar. Na verdade, para todos os efeitos a missão é de vocês. Uma nave com bom poder de fogo e velocidade. Serão a nossa distração. Enquanto estiverem preocupados com a sua presença não nos incomodarão. Mas advirto...Não entre em combate. Fuja e salve a sua tripulação. As táticas do Dominion não são nada convencionais. Seus cães de guerra, os Jem´Hadar são imprevisíveis e suicidas. Portanto não se arrisque sem necessidade.
- Obrigado pelo conselho capitão. Temos os nossos trunfos na manga também.
- O sistema multi-vetor?
- Exatamente. Pensei que isso fosse um segredo.
Alkon sorri.
- Mas parece que você é o especialista em segredos. – conforma-se a capitão. - Bom...Espero poder apertar-lhe a mão novamente. – disse Sobieski estendendo-lhe a mão para se despedir.
- Se tudo der certo o faremos em uma semana. E aí gostaria de ter o prazer em conhecer a sua nave. Até breve. – disse Alkon aceitando o cumprimento.
- Será um prazer mostrá-la ao senhor. Até breve.
Os dois capitães dirigem-se para as suas naves sem notar que, a uma certa distância, Timothy Barinni usava um amplificador sonoro e gravara toda a conversa. Ele sempre usava aquele dispositivo para captar conversas interessantes. É claro que isso era ilegal, mas eficiente para quem vive de informações.
“UAU! Acho que temos alguma coisa grande acontecendo por aqui!” – pensou. Olhou de longe e viu sua família passeando pelo corredor da estação visitando algumas lojas que ainda estavam abertas. Pensou duas vezes no que estava prestes a fazer e em seguida esgueirou-se furtivamente até a comporta de atracação da Protheus, sem que ninguém o visse, para investigar melhor que missão secreta seria aquela. Sentia o cheiro de uma excelente matéria nascendo. Viu um conjunto de containers que seriam embarcados e se aventurou em entrar em um deles.
Elizabeth Barinni estava com seus filhos, o sobrinho de Zarc Omala e a segurança Kobliad passeando pela estação até que notou que Timothy não estava ao seu lado. Vez por outra o procurava entre os transeuntes da estação, mas não mais o vira. Liz deduziu que demoraria muito tempo para vê-lo novamente. Timothy Barinni, o repórter, estava em ação novamente.
CAPITULO NOVE
Quadrante Gamma – Um dia depois.
A Azimute a Zênite, as duas naves auxiliares tipo IX da Albedo, estavam prontas para serem lançadas.
Os times de assalto já estavam prontos também. Apenas aguardavam a ordem de partida da ponte. Enquanto isso não acontecia estavam revisando os dados da missão na cartografia estelar.
- Sensores, Brixx? – solicitou Alkon ao seu novo oficial tático.
- Nada nos sensores num raio de um ano-luz. A exceção da USS Protheus.
- Informe à capitão Sobieski para manter posição. Mensagem criptografada emitindo radiação de fundo. Cortar comunicação logo depois e restabelecer daqui a cento e vinte horas. Sleek...Rume para a nebulosa NG 101 nas coordenadas 085 marco dois. Dobra oito em cinco minutos.
- Ssimm, ssenhor! Cursso implementado. Chegada programada em quatorze horasss, vinte nove minutosss e quarenta e cinco segundosss.
- Excelente. Baia Dois?
[Chefe Dillinger a postos, capitão!]
- Quero as naves prontas para partir assim que chegarmos na nebulosa. Alkon desliga.
[Sim, senhor!]
- Sleek transfira nossas futuras coordenadas para as naves auxiliares. Alerta amarelo.
A USS Albedo rumou para o seu esconderijo no espaço: a nebulosa Jenkata ou NG 101 como a Frota a designara.
Cartografia Estelar – Deque Cinco
- A Albedo ficará escondida aqui até que terminemos a missão. A Protheus ficará patrulhando o perímetro. Se naves de guerra Jem´Hadar aparecerem ela deverá atraí-las para longe do esconderijo da Albedo garantindo assim um retorno seguro para nós. – explicava Klag aos seus companheiros enquanto na tela principal era mostrada o cenário onde iriam atuar.
- Mas enquanto a Albedo estiver dentro da nebulosa ela não poderá saber se, do lado de fora, existem naves de patrulha, pois os sensores estarão inoperantes. – lembra Allison.
- Já havia calculado isso. Inventei um brinquedinho que a equipe da engenharia deve estar finalizando agora. Não se preocupe. – disse McCormick enigmaticamente.
- A camuflagem holográfica nos acobertará até a chegada neste planeta. Ele é classe M e a área de pouso fica numa densa floresta do tipo tropical, sujeita a fortes chuvas nesta época. Emissores holográficos pessoais não ficarão prontos a tempo, então recorreremos à maquiagem.
- Vamos virar Jem´Hadares? – diz Gilbert preocupado.
- Não posso dizer que estou ansioso por isso também, alferes, mas será o melhor para a nossa infiltração. – responde Klag.
- Não gosto de usar essas coisas. Estraga a minha pele. – reclama Allison.
-Temos maiores preocupações do que a ação dos cosméticos que usaremos. – bronqueia Klag.
- Desculpe. – diz Allison meio sem graça.
- Eu, Siro e Vulpes iremos na frente. Vocês ficarão na retaguarda garantindo um caminho livre pro nosso retorno. Se algo der errado conosco, vocês devem terminar a missão. Entendido?
- Perfeitamente. – respondem os demais.
- Dispensados. Nos encontraremos amanhã às seis horas no hangar dois.
- Sim senhor.
Allison antes de sair olha para o klingon e ele retorna o olhar como que dizendo “Não se preocupe. Tudo dará certo”.Aquela troca de olhares estava incomodando muito McCormick.
Na manhã seguinte, na ponte...
Uma ordenança, alferes Dalila Madson, serve café para o pessoal de plantão na ponte. O capitão agradece com um sorriso.
- Chegamos na nebulosa, senhor. Sensores inoperantes. Temos flutuação nos escudos. Estão em noventa e um por cento e caindo. – informa Brixx.
- Parada total. Cortar energia principal. Desviar energia secundária para os escudos.
- Senhor.Permissão para falar. – solicita o oficial boliano.
- Permissão concedida.
- Com os sensores inoperantes não ficaremos vulneráveis? Não saberemos o que ocorre lá fora. Se por acaso quando sairmos dermos de cara com naves Jem´Hadar?
- É por isso que vamos testar uma invenção do Sr. McCormick. – dizendo isto a imediato Naomi entra na ponte fazendo sinal de positivo para o capitão. Ela esteve supervisionando a construção da invenção do oficial de ciências.
- Acho melhor testá-la logo enquanto as coisas estão calmas. – diz Naomi assim que se senta.
- Muito bem. Sala de torpedos?
[ Chefe de artilharia Murdock falando, senhor.]
- A sonda sensora está pronta?
[Pronta para o lançamento. É só mandar, senhor.
- Obrigado. Aguarde.
- Chefe Dillinger informa que as naves estão prontas para partir. Todo o pessoal está embarcado. Hologramas funcionais. – diz Zagar.
- Mande soltar nossos passarinhos. Senhor Brixx...Qual a distância entre a nave e a borda da nebulosa?
- Vinte e cinco mil quilômetros.
- Se diminuirmos a distância em dez mil quilômetros poderíamos aumentar a capacidade da recepção dos sensores da sonda. Você acha que assim poderíamos ser detectados pelas naves inimigas?
- Não há como ter certeza, senhor. Não temos conhecimento de como funcionam os sensores das naves Jem´Hadar.
- Vamos especular, tenente... – pede Alkon que o boliano tenha um pensamento mais livre.
- É possível que não, senhor. A atividade eletromagnética no interior da nuvem é bem forte.
Alkon levantou-se e caminhou até o leme. Observou os controles e voltou-se para o tenente Brixx para explicar o plano que desenvolvera com Klag e McCormick.
- É o seguinte, senhor Brixx, vamos improvisar um periscópio.
- Periscópio, senhor? – Brixx não estava entendendo aonde o capitão queria chegar. Estava um pouco aborrecido de ter sido deixado de fora do planejamento tático da missão e só estar sendo informado na última hora.
- Nossos sensores estarão debilitados enquanto estivermos dentro da nebulosa. Devo admitir que o raio trator sofreria de interferência também, correto?
- Sim senhor, mas...- Brixx continuava no escuro.
- Vamos lançar uma sonda sensora que ficará lá fora próxima a borda da nebulosa e ataremos à ela um cabo. De tempos em tempos a emergiremos da nebulosa para sondar a aproximação inimiga. Isto nos dará uma vantagem tática. Sendo a sonda muito pequena será de difícil detecção por eles. O que acha tenente?
- Apesar de não ter sido consultado anteriormente, creio que é um plano arrojado que poderá dar certo.
- Este assunto havia sido discutido antes de você ser colocado neste posto. Mas o estou informando agora. Alguma objeção?
- Não senhor. – respondeu o boliano seriamente. Alkon podia sentir a raiva emanando dele.
- Gostaria que o senhor coordenasse esta tarefa. Se sente capaz disso?
- Sim, senhor.
- Ótimo. Já temos com o que passar o tempo. Sleek reduza a distância entre nós e a borda da nebulosa em dez mil quilômetros; depois parada total. Naomi a ponte é sua. Quando a sonda obtiver os primeiros dados, me avise. Estarei em meu escritório.
- Afirmativo, senhor. – respondeu a imediato.
Alkon se retira sentindo ainda uma animosidade vindo do boliano. Depois de tanto tempo não conseguira se aproximar daquele rapaz, nem de obter sua simpatia ou diminuir o seu rancor. Depois de tanto tempo ele ainda não se conformava da morte de seu primo. Um dia destes eles teriam que conversar sobre isso.
A bordo da Zênite, que como a sua nave-irmã, estava camuflada holograficamente como um caça Jem´Hadar; Allison conversava com seus companheiros de viagem. Ela já estava sentindo coceira da pele artificial em seu rosto.
- Ei, pessoal, vamos abrir a boca um pouco. Eu já estou tensa e com uma vontade enorme de me coçar. Contem uma piada ou cantem uma canção. Pelo amor de Deus!
- Estou me ocupando dos sensores Ally. Além do mais a minha voz não é muito boa. – explicou-se McCormick.
- Eu estou checando nosso armamento e provisões. – justificou-se Gilbert.
- Pela décima vez? Deixe isso pra lá Gil! – reclamou Allison.
- O que eu posso fazer? Sou perfeccionista. – explica-se o alferes.
- É só perguntar ao “Senhor Memória” que ele te diz tudo o que temos a bordo. Inclusive onda há cada parafuso nas junções de encaixe das placas de revestimento do casco da nave. Não é Doug? - brincou Allison com o namorado.
- As naves auxiliares não têm parafusos nas placas de revestimento. – diz McCormick corrigindo a piloto.
- O inventário, tenente. O inventário... – provoca Allison.
- Três roupas espaciais com botas magnéticas e coletes propulsores, caso precisemos sair da nave quando estivermos no espaço. Kit médico padrão da Frota bem como ração para três dias. Um tricorder médico e um para análises de campo. Três vestes termorreguláveis com recicladores de fluidos corporais para ambientes hostis. Três máscaras de gás. Armamento: Três rifles-phasers tipo IV com 3 recarregadores para três mil disparos. Três pistolas phaser tipo II, três cintos com granadas dos tipos F ,G,L e S. Um traje isolante para incursões invisíveis, se necessário... – McCormick começou a falar sem parar.
- Tá bom! Tá bom! Chega. Eu vou ficar quieto. – se rendeu Gilbert. – Eu também estou nervoso. Só tentava matar o tempo. E você Mac? Não faz nada para se distrair?
- Claro. Eu estou me distraindo. – responde sem delongas.
- Como? Vendo a tela dos sensores a cada cinco segundos? – pergunta debochadamente o alferes.
- Isto, jogando xadrez tridimensional, cantando a minha música preferida e refazendo algumas fórmulas de uns experimentos que deixei à bordo da Albedo. – revela na maior simplicidade.
Allison e Gilbert olham espantados para o colega.
- Você está brincando, não é? – pergunta Allison sem acreditar no que acabara de ouvir.
- Como isto é possível? – Gilbert ainda não acreditava no colega.
- Mentalmente. – explica o ruivo marciano.
O espanto foi maior ainda. Sabiam da capacidade de memória de McCormick. Só não sabia que chegava à tanto.
- Às vezes eu acho que você tira sarro com a nossa cara Mac. – Gilbert não havia se convencido da explicação do colega.
- Talvez sim, talvez não. Quem sabe? – diz sorrindo McCormick. Allison lhe dá um cutucão.
- Quanto tempo falta para chegarmos ao tal planeta, Allison? – pergunta Gilbert mudando de assunto.
- De acordo com as informações passadas pelo capitão Alkon, estaremos lá em duas horas. Naomi melhorou os projetores holográficos aumentando sua durabilidade para oito horas.
- Vamos repassar o plano? – pergunta McCormick – Quero ver se vocês também tem uma boa memória.
- Deixa comigo. – disse Allison prontamente - Pousaremos a quinhentos metros da Azimute e seguiremos separados até uma aldeia em um sopé de uma montanha. Lá Mac deverá usar o traje de isolamento para sondar o terreno. Vulpes fará o mesmo, pelo seu grupo, só que usando a sua capacidade de camuflagem natural. Depois Klag entrará na vila e se informará para achar o nosso contato. Ficaremos na retaguarda garantindo um caminho livre para o retorno. Se existir muitas patrulhas no local deveremos criar distrações. Depois de decolarmos temos até três horas para voltarmos até o ponto de encontro com a Albedo. Se as coisas ficarem feias a USS Protheus atrairá o fogo inimigo.
- Parabéns! – exclama McCormick e presenteando-a com um beijo. Gilbert fica constrangido.
- É...Acho que então vou tirar um cochilo. – comenta o jovem alferes.
- Pode ir. Quando chegarmos você saberá. A entrada na atmosfera não será suave. – informa Allison.
Sem maiores problemas as duas naves continuaram seu caminho rumo ao desconhecido.
CAPITULO DEZ
Na USS Albedo o capitão Alkon estava ouvindo uma música clássica deitado no sofá de seu escritório na ponte quando a campainha soou.
- Pode entrar. – disse ele. Era a doutora T´Vel.
- Incomodo? – perguntou a vulcana.
- De jeito nenhum. Na verdade eu estava sentindo falta de nossas conversas. Você está aqui como médica ou conselheira?
- Você está acordado há mais de vinte e quatro horas. Precisa dormir e não bater papo. Isto não seria lógico.
- Veio como médica...- disse constatando mediante a colocação da doutora. Procurou se sentar e completou: - Este é o motivo da visita? Prescrever uma noite de sono?
- Precisamente.
- Sabe...Desde que deixei de tomar meu supressor para-cortical que eu venho tendo dificuldades para dormir. Aliás, isto foi uma prescrição sua, não foi?
- Sim. O senhor está correto. Prescrevi o não uso de Dopaminalanina por ordem do almirante Petersen que queria que desenvolvesse seus poderes mentais. Cuidei dos efeitos colaterais deste processo como alterações em suas taxas hormonais, dores de cabeça, mudanças de humor e depressão. Não me lembro do senhor ter mencionado algo sobre insônia em sua última consulta. Devo deduzir que perdeu a confiança em sua médica?
- Não. Não perdi. Estou muito tenso. Gostaria de ter ido com eles. Não gosto deste protocolo de salva-guarda do capitão.
- Você poderia ter ido. É uma das prerrogativas do capitão fazer parte das equipes de assalto.
- Não posso. Eles querem preservar o que eu tenho aqui. – aponta para a própria cabeça. – Além do mais Sarah não estaria aqui para cuidar da nave.
- Não confia na sua nova imediato?
- Naomi? Ela é uma ótima engenheira, mas não tem experiência no comando. Acho que ela não se sente confortável sentada lá na ponte.
- Nem você. Vi a cara que você fez quando a promoveu. Você não disfarçou bem a sua insatisfação.
- Ficou tão óbvio assim?
T´Vel balançou a cabeça afirmativamente.
- Por Toltha ! Você acha que ela percebeu? – T´Vel concordou novamente com a cabeça. - Devo me desculpar. – Alkon se levantou. T´Vel notou que havia acabado com a tranqüilidade momentânea do capitão.
- Acalme-se. Ela é adulta e saberá encarar bem uma crítica. Você está exagerando em suas preocupações. Creio que você a ajudará ser uma boa imediato. Quanto à missão... Sei como você se sente. Já falamos sobre isto e acho que você está se preocupando à toa. Você os treinou exaustivamente. Você sabe que eles são capazes. Tudo ocorrerá como previsto.
- São os imprevistos que me preocupam. Mas não há nada que posso fazer a não ser aguardar e torcer que tenham sucesso. Talvez você tenha razão. Klag, Siro e Vulpes são mais do que oficiais. São guerreiros natos e saberão dar cabo da missão. McCormick é muito inventivo. Allison é uma das melhores pilotos que já vi na vida e Gilbert é muito aplicado e sabe seguir ordens. Todos têm excelentes e únicas qualidades e por isso foram recrutados. Bom...Uaahh! – Alkon boceja e se espreguiça um pouco. – Devo concordar com você. Meu corpo está pedindo um descanso.
- Agora está usando a lógica. Precisa de algo para dormir? Quer que diminua as luzes?
- Não será necessário. Estou bloqueando a minha resistência ao sono mentalmente como você me ensinou, não havia feito isto antes porque precisava me concentrar na missão e...Uaaah! – Alkon boceja novamente – Viu? Já está começando a fazer efeito. – O capitão dá dois passos e cai de joelhos antes de tombar totalmente em direção ao chão, sendo amparado por uma surpresa doutora T´Vel.
- O senhor só precisa...Unnnh! Melhorar o seu tempo de resposta. – comenta T´Vel em voz alta enquanto arrastava o capitão de volta ao sofá. Ao sair do escritório se dirige à Naomi.
- O capitão está dormindo e é melhor não incomodá-lo se não for extremamente necessário. Pode dizer a ele depois que isto foi uma ordem da médica-chefe da nave. Ele necessita deste sono.
- Sim, senhora. – concordou Naomi um pouco desconcertada.
Base Estelar 375 – Setor Kalandra.
Sarah Okaido havia sido deixada na base aos cuidados do tenente Kobler que uma vez por dia tinha o dever de encaminhá-la para a enfermaria da base para continuar seu tratamento com o médico holográfico local que, por interface, havia recebido os dados referentes ao seu caso pelo médico holográfico da USS Albedo.
O tenente a estava procurando para cumprir as suas ordens. A encontrou no arboredo apreciando algumas plantas.
- Senhorita Okaido? – chamou Kobler por ela.
- É comandante, senhor. – respondeu sem pensar por puro reflexo. Por um momento parecia que a velha Sarah estava de volta.
- Oh, desculpe se fui arrogante. Parece que estou de licença médica, mas isto não me fez perder a minha patente, fez?
- Não, madame. Peço desculpas. Estou aqui para...
- Me escoltar até a enfermaria. Eu sei da rotina. A doutora T´Vel informou-me sobre como me comportar na sua ausência. “Coopere no que for possível.” Ela me disse. – diz Sarah com certo descaso voltando a olhar e tocar as plantas como se querendo lembrar de algo.
- A senhora está se sentindo bem? – Kobler percebe pelo comportamento da comandante que ele não havia chegado num bom momento.
- Você estaria se tivesse a sua vida inteira apagada de sua cabeça?
Kobler não responde. Ele não sabia o que dizer.
- Desculpe, tenente. O senhor só está cumprindo com o seu dever, eu sei. Vamos...Vamos ver o doutor.
Os dois caminham até a enfermaria onde são recepcionados por um homem totalmente careca, um médico deltano, chamado doutor Vica. O tenente a deixa na porta e vai embora cuidar de outros afazeres.
- Como a senhora está se sentindo hoje? – perguntou o doutor.
Sarah já ia dando a mesma resposta que dera ao tenente Kobler, mas ao olhar para ele, ao seu lado, pensou bem e disse:
- É senhorita. Quanto a eu estar bem...Me diga o senhor.
- Por favor, deite-se na cama. Vamos começar os exames. Computador...Acionar programa médico holográfico. – disse o paciente doutor. O fac-símile do doutor Zimmerman, o criador do H.M.E. , se materializa.
- Favor informar a natureza...Oh! É você! – exclama a entidade holográfica ao ver que ela era uma paciente habitual.
- Oi doutor Hime! – cumprimenta Sarah com uma certa alegria ao revê-lo.
- Na verdade eu não sou o doutor Hime. Apesar de me parecer muito com ele. Eu sou o H.M.E. da estação e a bem dizer ainda não me batizaram. Parecem achar isso irrelevante. Eu de minha parte poderia sugerir um sem número de nomes, mas NINGUÉM – diz enfaticamente olhando para o doutor Vica que olha para cima como uma súplica aos Deuses para não ter que ouvir sempre a mesma reclamação – está interessado nisso.
- Mas se o senhor não é ele como me conhece? – perguntou Sarah.
- O doutor Hime – ao dizer o nome de seu colega holográfico olha novamente para o doutor Vica como se o culpasse de alguma coisa – antes de partir baixou a sua ficha médica para o meu programa. Tudo o que ele sabe sobre o seu caso até agora, eu também sei. Enquanto ele estiver fora darei continuidade ao seu tratamento. Quando ele retornar, os dados, que eu obtiver, serão repassados ao programa dele.
- Em suma...Você na verdade é uma cópia dele. Um irmão gêmeo holográfico. – disse Sarah tentando entender a situação.
- Irmão Gêmeo? Nunca havia pensado deste modo...- diz o Doutor pensativo – Pode se dizer que sim. Apesar de que algumas experiências que ele teve ou está tendo neste momento não constam do meu programa e isto nos faz duas entidades completamente distintas. Na verdade eu fui acionado há bem pouco tempo e recebi alguns up-grades que a doutora T´Vel julgou útil.
- Ela só se esqueceu da retirar a tagarelice. – salientou o doutor Vica implicando com seu colega holográfico; que não gostou muito do comentário.
Sarah ri da brincadeira. - Isto é muito complicado para mim. – falou ainda meio confusa. – E aí como está a minha cabeça?
O doutor Vica entrega um tricorder médico na mão do H.M.E. e se afasta para analisar os dados do painel ligado à bio-cama.
- Hummm...- resmunga ao acionar o pequeno aparelho e depois revela o seu diagnóstico – Fisiologicamente você está bem. Seus órgãos clonados estão totalmente integrados ao seu sistema e novas sinapses surgiram com a terapia gênica prescrita. Todavia as áreas responsáveis pela sua memória remota não foram totalmente regeneradas. Acredito que nos próximos dias novas lembranças virão à tona. É como uma caixa de lembranças que foi derrubada e os objetos estarão misturados e fora de ordem quando retornarem. Alguns deles podem ser perdidos para sempre. O que você conseguirá se lembrar só poderemos saber com o tempo. Depende agora só de você.
- Sabe...Hoje senti-me atraída pelo arboredo da estação. Acho que gostava de plantas.
- Bom sinal. E do que mais se lembrou ultimamente? – perguntou o H.M.E. enquanto a preparava para mais uma dose do soro
- Acho que eu gostava de cultiva-las. Não como se eu tivesse sido uma fazendeira. Era algo como uma terapia. Ai! – Sarah sente a picada da agulha que injetava o soro genético lentamente em seu organismo.
- Ou talvez um hobby? – sugere o Doutor Vica.
- Isso! Eu procurei por uma planta no arboredo...Uma que eu gostasse, mas não encontrei nenhuma.
- Que tal essa? – O H.M.E. materializa sobre um pequeno disco holográfico um bonsai.
- Nossa! Ela é linda! Como o senhor fez isso?
- É um holograma. O que você pode me dizer dela?
- Ela é... – Sarah procura se lembrar do nome da planta e depois de muito esforço consegue – Ela é um Schinus molle, nome vulgar...Aroeira. Sua casca é adstringente. Seus frutos fornecem uma tinta cor-de-rosa, que é minha cor favorita, e tem aroma semelhante à pimenta-do-reino. É nativa da América do Sul, Terra. Família das Anacardiáceas. Meu Deus! Eu me lembro! É um bonsai que tenho em meus aposentos na Albedo! – Sarah havia falado tudo num só fôlego.
- Excelente! – disse o doutor holográfico ao fazer sumir a imagem da palma de sua mão. – Novas memórias retornarão espontaneamente, não se esforce. – sugere.
- Minha nossa! Eu...Eu quase fiquei sem ar! Espere...Eu acho...Eu estou lembrando de mais coisas...- Sarah tinha dificuldades para falar. Sua respiração estava ofegante.
- Batimentos cardíacos acelerados! Pressão arterial alterada! – surpreendeu-se o doutor Vica ao ver o painel ligado a bio-cama.
- Acho melhor a senhora descansar um pouco, comandante. – Pede o H.M.E.
- Sabe, doutor...- Sarah deita-se, mas não consegue parar de falar. – Eu gostaria de comer algo. Podia ser uns pastéis Gyoza. São pequenos assim e recheados com carne e verdura. E...arrffff – Sarah faz gestos tentando explicar o que queria. Ela então para de falar subitamente sentindo falta de ar.
- Ela está superventilando!- O doutor Vica estava preocupado. Foi logo preparando um calmante para aplicar com a hipospray.
- A senhora precisa se acalmar! Fique deitada, por favor! Respire devagar! – dizia o doutor holográfico ao tentar conter Sarah sobre a bio-cama com a ajuda do doutor Vica.
- Eu...Eu gosto de hosomaki também! E sorvete de morango...Este eu já sabia...Ah1 Lembrei de...- o hipospray foi administrado e Sarah começou a relaxar e não demorou muito para adormecer.
- Suas funções vitais estão voltando ao normal. – informou o doutor Vica.
- Eu não sabia que um bonsai teria um efeito tão poderoso assim! – exclama o doutor holográfico.
- Ela já estava em processo de rememorização você apenas o acelerou. – comentou o tenente Kobler que acompanha o exame à distância.
- É a terapia gênica. O soro tem forçado suas conexões nervosas crescerem exponencialmente nestes últimos dias o que coincide com os seus ciclos ovulatórios. A atividade hipofisária tem algo a ver com isso. – conclui o doutor holográfico.
- Se isto for verdade temos que interromper a terapia gênica ou seu cérebro não irá suportar. Ela corre o risco de desenvolver tumores. – diz o doutor Vica tecendo seu diagnóstico complementar.
- Se interrompermos a terapia parte de suas memórias jamais poderão ser resgatadas novamente. – diz o H.M.E. consternado.
- Ou fazemos isso ou ela morre, doutor. – diz Vica taxativamente.
O impasse estava diante da equipe médica e a doutora T´Vel estava longe para emitir qualquer opinião. Eles teriam que decidir qual o melhor futuro de Sarah mesmo que este não agradasse àqueles que a amavam, ou a ela própria.
CAPITULO ONZE
USS Protheus...
Um barulho fora ouvido na ala de carga assim que um segurança da nave entrou. Ele foi verificar de onde vinha o tal som e nada viu. O ambiente estava sob meia luz. De acordo com o relógio de bordo eram duas da manhã. Quando alguns ambientes não eram usados as luzes não ficavam acesas. O segurança tinha ido verificar um possível intruso que fora detectado pelos sensores internos da nave, de acordo com as ordens vindas da ponte.
- Computador...Luzes...
O ambiente ficou mais claro. Com um phaser em punho caminhou por entre vários containeres. Continuou a não ver nada. Resolveu solicitar ao computador uma busca por sinais de vida no ambiente.
[Uma forma humanóide.] - informou a voz sintética. Não havia mais ninguém ali além dele próprio, deduziu o segurança.
Se tivesse ampliado mais a sondagem ou a realizado mais cedo teria pego Timothy Barinni, que agora se esgueirava por um duto de ventilação.
- Nossa, como isso é apertado! O que eu não faço por uma boa história. – Barinni resmungava e praguejava por causa da sua idéia estúpida até que chegou a um entroncamento na área de ventilação onde pode ficar de pé.
- Ótimo! Agora tenho mais opções a considerar. Para onde agora? Direita, esquerda, pra frente ou para cima? – se perguntou. Quando se via numa situação deste tipo recorria a um método infalível. Retirou do bolso uma velha moeda de um dollar. Fez um pequeno campeonato de cara ou coroa e por fim o resultado foi: PARA CIMA.
- Bom... Lá vamos nós. – subiu por uma escada cerca de dois deques até encontrar uma saída. Se viu em um corredor com luminosidade reduzida. Deduziu que deveria ser tarde da noite. As chances de esbarrar em alguém eram pequenas. Isto era algo que podia usar a seu favor. Procurou um painel informativo em uma das paredes. Perguntou em voz baixa:
- Computador...Qual a localização da nave neste momento?
[Quadrante Gamma. Dois ponto três anos-luz da fenda espacial bajoriana.]
- Quadrante Gamma? O que estamos fazendo aqui?
[Esta informação é confidencial.]
- Claro, Claro! Eu já devia saber. – Súbito Barinni escuta passos vindos em sua direção. Correu na direção oposta e entrou na primeira porta que encontrou aberta. Infelizmente ele não leu a placa do lado de fora antes de entrar que dizia:”Alojamento de oficiais de segurança”.
Sua entrada brusca acordou quatro oficiais que dividiam o aposento em beliches. Barinni apenas sorriu e tentou uma desculpa esfarrapada:
- Vocês, por acaso, não sabem onde fica o banheiro, sabem?
Minutos depois...
Barinni estava ladeado por dois fortes seguranças que o levaram para o alojamento da capitão Sobieski.
- Eu devia jogá-lo no espaço através da comporta de ar mais próxima, sabia?
- Desculpe, capitão. Eu agi sem pensar. A notícia é meu vício. E sinto que existe uma grande notícia acontecendo por aqui.
- Agiu sem pensar? Eu acho que o senhor sabia exatamente o que estava fazendo. O senhor cometeu um crime de espionagem. Eu diria que isto daria pelo menos uns cinco anos em uma colônia penal. Mas devido à natureza de nossa missão podemos considerar a pena de morte no seu caso.
- Sério assim? Então eu estava certo! – diz Barinni sorrindo, pois confirmara que havia algo realmente que valia uma notícia.
- O senhor acha que isto tudo aqui é uma brincadeira? Acha que eu gosto de ser acordada no meio da noite para dar sermão em idiotas como o senhor? – a capitão não gostou nada de ver o sorriso no rosto do repórter e endureceu seu discurso.
- Não, capitão, De modo algum. A senhora falou de pena de morte? Veja...Eu tenho mulher e dois filhos e...
- Que o senhor abandonou na base estelar, SEM PENSAR, quando decidiu dar uma de clandestino em minha nave. Na verdade o senhor é um grande egoísta, Sr. Barinni. A sua grande notícia parece valer mais do que sua família. Não me venha com este papo sentimental agora, pois isso não vai livrar a sua cara.
- Capitão...Sei que a senhora está irritada e com sono, mas é que fui levado por um impulso. É o meu faro jornalístico, entende? E pela Lei Galáctica de Imprensa eu tenho direito de saber a verdade e divulgá-la.
A capitão se aproxima de Barinni e o encara ameaçadoramente.
- As leis de imprensa não se aplicam aqui na minha nave. Não agora. Eu recebi ordens de deixá-lo na base estelar 375 e assim o fiz. O senhor abusou da minha confiança.
Barinni olhou, de repente, o decote no robe da capitão que revelava parte de seus seios volumosos sob uma linda camisola de cetim negro. Sobieski percebeu e se afastou escondendo o decote.
- Capitão... Eu sei da ameaça do Dominion, depois do que eles fizeram na Terra e com a Frota o público precisa saber o que esperar. O quanto esta ameaça é real? Do que eles são capazes? Vocês estão aqui travando negociações ou é uma operação de guerra?
- Eu não tenho nada a declarar, Sr. Barinni. Isto é assunto confidencial. – disse a capitão de costas para ele.
- Mas...
Sobieski se voltou para Barinni mais uma vez.
- Cale-se, senhor repórter. Isto aqui não é uma entrevista. É uma advertência verbal. Não posso dar meia volta agora para levá-lo para as autoridades competentes. Infelizmente o senhor ficará mais um pouco à bordo. Em um alojamento. Considere isto uma deferência à sua respeitabilidade profissional, caso contrário inauguraria uma cela da minha nave. Seguranças... Confinem-no em um alojamento. Mantenham guarda dia e noite. Podem leva-lo!
Prontamente os dois brutamontes obedeceram a capitão.
- A senhora não pode calar a voz da verdade! Isto é abuso de autoridade, sabia? Isto é impedir a imprensa livre! O povo tem direito de saber o que está acontecendo, capitão! – Barinni gritava enquanto era arrastado para fora do alojamento da capitão.
O´Malley, o imediato da Protheus, entra assim que o repórter sai.
- O que a senhora quer que façamos com ele?
- Oh...Ian...Eu bem tenho algumas idéias, mas todas me levam a uma corte marcial. – sorri depois de momentos de tensão.
- Ele não pode sair daqui sabendo o que sabe.
- O que ele sabe? Que uma nave da Frota está no quadrante gamma? Grande novidade!
- Ele pode saber mais. – pondera o imediato.
- Você quer interrogá-lo? Vá em frente. Sem violência. A seção 31 pode estar à frente desta operação, mas nós não somos eles. Nós ainda somos a boa e velha Frota Estelar. – alerta a capitão.
- Afirmativo, capitão. Com a sua licença. – O´Malley ia se retirando quando a capitão acrescentou:
- Ian...Quero saber como ele entrou aqui e por que demoramos em detectá-lo. Encontre a falha ou os culpados. Este tipo de coisa não pode voltar acontecer, entende? Demos sorte que não era um espião do Dominion. Reforce a segurança e faça sondagens internas de nível quatro periodicamente.
- Sim, senhora. – finalmente o comandante O´Malley sai e Sobieski fica absorta em seus pensamentos.
Ela estava certa o tempo todo. Barinni seria uma grande dor de cabeça. Ela teria que pensar agora num remédio para ela.
CAPITULO DOZE
A Azimute e a Zênite pousaram no planeta desconhecido após muita turbulência na entrada da atmosfera. Não encontraram nenhum satélite de defesa ou naves patrulha no caminho que prejudicassem o progresso da missão.
O planeta era grande, talvez uma vez e meia o tamanho da Terra, e com grandes áreas de terras emersas cobertas por densas vegetações. Os sensores informavam que o clima era instável e que uma tempestade se avizinhava a alguns quilômetros do local de pouso. Procuraram esconder as naves com a folhagem local caso a camuflagem holográfica falhasse. Teriam que retornar em três horas para que os projetores holográficos durassem até o retorno à Albedo.
Klag, Siro e Vulpes saíram da nave carregando suas armas e mochilas. O tosk rapidamente assumiu a dianteira e desapareceu das vistas de seus colegas. Klag estava mais assustador do que o costume com toda aquela maquiagem que o fazia um Jem´Hadar bem convincente. Siro não conseguia evitar de ficar olhando para ele enquanto caminhavam pela floresta.
- O que foi? – perguntou Klag incomodado com os olhares do bajoriano.
- Desculpe, não posso evitar. Você realmente parece um deles.
- Congratule a doutora T´Vel. Foi ela que me deu esta cara. Você também está ...
- Feio? – Siro tentou completar a frase.
- Convincente. – Klag usou uma palavra melhor.
- Sabe...A Doutora poderia te deixar assim. Ficou bem mais simpático. – implicou Siro.
- Grrrrrr. – rosnou Klag.
- Desculpe. Retiro o que disse. – o bajoriano temeu que seu comentário gerasse uma resposta física do klingon.
Mais à frente, Vulpes seguia como batedor, pois seus sentidos eram mais aguçados além de poder se camuflar com o ambiente, o que o tornava invisível aos olhos dos Jem´hadares e confundia os sensores deles. De repente ele parou. O que pressentiu com seu olfato procurou informar rapidamente aos seus parceiros.
-“Patrulha!” – disse usando um comunicador de gargantilha.
Siro, que estava a uns cinqüenta metros dele, olhou no scanner de aproximação acoplado em seu rifle para confirmar.
- São seis. Trezentos metros à frente.
Klag fez um sinal para que Siro se escondesse e acionou o tradutor universal para falar a língua dos guerreiros do Dominion. Continuou andando tentando demonstrar certa tranqüilidade até se deparar com a patrulha.
- ALTO! – disse um dos soldados Jem´Hadar ao se deparar com Klag.
- Não atire! Sou o soldado Kalleb´Talein da patrulha vespertina. – informou Klag sabendo que já era o entardecer.
Os soldados olham desconfiados para ele. Um outro, parecendo ser o líder da patrulha se aproxima dele e diz:
- Já devia ter retornado à base, soldado. O que faz aqui sozinho? Onde está o resto de sua patrulha?
- Eu acho que me perdi deles. Sou novo por aqui e não conheço bem o terreno. – Klag observou Siro em posição de ataque em uns arbustos próximos. Ao desviar o olhar chamou a atenção do líder dos Jem´Hadar que desconfiou de algo.
- Volte para a base, soldado. O setor é perigoso para andar sozinho. – disse o líder.
- Sim, senhor. – Klag faz um sinal com a cabeça para Siro. Sabia que, nem por um minuto, tinha enganado os Jem´Hadar.
Siro alveja um dos soldados e atrai o fogo em sua direção. Klag se volta e, com sua d'ktahg e movimentos rápidos, corta os tubos de KW nos pescoços de dois soldados. Vulpes, que estava em um galho de árvore bem acima deles, pula em cima de outros dois e faz o mesmo com suas garras. Os soldados, desesperados largam suas armas e tentam restaurar a conexão com o tubo da droga. Klag põe um fim ao sofrimento deles com rajadas de phaser do seu rifle. O sexto Jem´Hadar, o líder, consegue fugir e se abrigar dos disparos atrás de uma árvore.
- Consegue vê-lo? – perguntou Klag a Siro que estava a uns cinqüenta metros, usando um comunicador de gargantilha.
- Não muito bem. Está fora de ângulo. Além, é claro, de estar camuflado.
De repente os disparos inimigos cessaram. Vulpes surgiu carregando o Jem´Hadar nos ombros e jogou-o no chão próximo aos seus companheiros.
- Bom trabalho, alferes. – Klag pulverizou-o também para não deixar vestígios.
- Vamos prosseguir. Fiquem atentos.
O segundo time avança pela floresta não muito longe dali. Allison escutou os disparos da briga com a patrulha Jem´Hadar que o outro time travara e pediu aos companheiros que fizessem silêncio. O grupo parou de andar e não ouviu mais nada. McCormick, como líder do time prata, resolveu arriscar uma comunicação usando seu comunicador auricular.
- Time prata para time ouro. Vocês estão bem?
“Afirmativo!Prosseguir com a missão e mantenha silêncio de rádio!” – informava Klag ao mesmo tempo que repreendia o colega por ter feito o chamado.
McCormick não esperava que o klingon fosse tão ríspido com ele, mas mesmo assim se sentiu aliviado ao constatar o bem estar dos colegas.
- Não liga não. Ele também está sob tensão. – diz Allison ao ver que McCormick ficara com cara de tacho.
- Você sempre com peninha dele. – diz McCormick com desdém.
- Não se trata de defender. Você deveria ter mantido o silêncio de rádio. - retruca Allison.
- Precisava saber como eles estavam. Caso não se lembre, se eles falharem nós é que deveremos completar a missão. – McCormick estava com ciúme e somente Gilbert parecia perceber isso ao ouvir a pequena discussão entre os colegas.
Allison, irritada, se cala e passa a frente dos colegas.
- Coloquem os visores infravermelhos. Já está escurecendo! – ordena McCormick tentando chamar mais a atenção de Allison do que seguir as instruções que recebera.
- Vocês estão ouvindo? – perguntou Gilbert.
- O quê? – McCormick não ouvia nada.
- Isto mesmo! Não escuto nenhum som. Não há som de animais nesta floresta. Isto me deixa nervoso. – comenta o alferes Gilbert.
- Talvez não haja uma fauna noturna por aqui. – conclui Allison.
Os três caminham com mais cuidado do que antes, por via da dúvida, procurando fazer o mínimo barulho possível e prestando atenção em sons que pudessem ser alguma ameaça. Os Jem´Hadar possuíam um recurso de camuflagem pessoal que eles não dispunham e seria difícil detectá-los pelos sensores dos scanners dos rifles até ser tarde demais.
Tudo parecia ir bem até que Allison pisou, inadvertidamente, em uma mina terrestre. Ao ouvir o “clic” debaixo de seu pé percebeu logo a encrenca em que estava. -Não se mexa! – grita McCormick.
- Você está brincando!? – diz Allison nervosamente.
Gilbert usa um tricorder e descobre que estão cercados por um campo minado.
- Por que não detectamos as minas antes? – pergunta McCormick irritado.
- Só usávamos a leitura de bio-sinais dos scanners dos rifles. – justificou Gilbert.
- Droga! Quantos são? – McCormick passou da irritação para a preocupação.
- Vinte e um num arco de cento e vinte graus pelos próximos duzentos metros. – informou Gilbert.
- Devem ser todas as patrulhas da área. Foram atraídas pela briga com o time ouro. Isto complica um pouco as coisas...- McCormick falava consigo mesmo e começava a pensar em um jeito de saírem daquele imbróglio.
- Uma boa notícia é que podemos voltar por onde viemos. – disse Gilbert com uma alegria fora de hora.
- EI! Rapazes! Não estão esquecendo de algo? – Allison chama atenção à sua situação desesperadora.
- Ah! Desculpe.- McCormick deita-se no chão e começa a limpar a mina da terra e folhagem que a encobria para estuda-la melhor. – Como pensei. É uma mina com sensor de pressão. Enquanto você não se mexer não teremos problema.
- Não que eu tenha intenção de fazer isso, mas nunca gostei de brincar de estátua. Eu me canso fácil. – disse Allison ironicamente. – Você pode ou não desarmá-la? – disse querendo apressar o seu namorado em tomar uma atitude.
- Não sei. A sua configuração me é desconhecida...
- Mac, eu acho que estou tendo cãimbras...
- Calma! Eu estou pensando...Gilbert...Informe Klag do nosso problema e mande-os ficarem atentos a terrenos minados. Mande a mensagem por código Morse. Depois esconda-se com isso. – McCormick entrega uma sacola onde estava o traje de isolamento que permitiria o alferes ficar invisível.
- Mas e o senhor? O senhor é que deveria usá-lo. – argumenta o jovem.
- Isto não é uma discussão, alferes. É uma ordem. Obedeça. Temos pouco tempo. Não se preocupe conosco. Ficaremos bem. Agora vá!
- Sim, senhor! – Gilbert hesitou um pouco ainda segurando a sacola nas mãos. Olhou para seus dois companheiros como se os estivesse vendo pela última vez e afastou-se o mais rápido que pode floresta adentro.
- Bom...Agora vamos ver essa belezinha....- McCormick analisa a mina com o tricorder para determinar seu próximo movimento. – Ally...Quanto você está pesando atualmente?
- Mac! Isto é coisa que se pergunte numa hora dessa? – Allison estava ofendida, mas logo percebeu, pela cara de seu amor que aquela informação era vital para a solução de seu problema. – Cinqüenta e quatro quilos! – respondeu baixinho como se tivesse medo que alguém mais escutasse.
McCormick olhou-a de uma forma desconfiada. Ele sabia que ela era muito vaidosa.
-Tá bem, tá bem! Cinqüenta e seis! – dessa vez ela falou mais alto. - Eu ia começar uma nova dieta assim que voltássemos.
- Pra mim você está ótima. Você precisa parar de pensar em dieta o tempo todo. – McCormick pegou um pequeno estojo de ferramentas em sua mochila e começa a trabalhar para encontrar um acesso à mina sem que ela explodisse os dois.
- Você acha? – Allison procurava prender a respiração.
- As mulheres sempre se acham dois quilos acima de seu peso, por que será?
- Tradição cultural, eu acho.
- Os padrões de beleza têm mudado muito ao longo dos séculos. A opressão de um padrão de beleza ditada pela mídia já não existe a uns cento e cinqüenta anos.
- Não é a mídia que me incomoda. É o meu espelho. Como vão as coisas aí embaixo?
- Pude remover parte do invólucro externo, mas o dispositivo de detonação não pode ser alcançado por cima.
- E daí?
- Daí ou eu me transformo em uma marmota ou substituímos o seu peso por um outro idêntico. - Acho que a segunda opção é mais plausível. Como você faria isto? - Eu...Eu não sei! – diz McCormick desapontado consigo mesmo.
Allison começa a realmente pensar que aquele era seu fim. Ou seria pulverizada por uma bomba abaixo de seus pés ou pelos soldados Jem´Hadar que não tardariam em encontrá-los e de nada adiantaria a maquiagem étnica que a doutora T´Vel fizera. Tentou prender o choro.
- Como assim não sabe? Você sempre sabe tudo! Logo agora a sua brilhante mente vai falhar? Oh, meu Deus....-reagiu ferozmente contra a resposta de seu namorado.
- Escute, Ally. Eu não vou te deixar morrer, ouviu? Não desista. Eu não vou desistir.- McCormick parecia mais desesperado do que ela. Allison viu em seus olhos, talvez pela primeira vez, que ele seria capaz de morrer por ela. Ela enxugou as lágrimas que escorriam pela face e tentou sorrir ao acariciar o rosto de Mccormick como se estivesse pedindo desculpas pelo seu rompante.
- Eu sei, cérebro. Eu sei que posso contar com você. Afinal você vivia me tirando de encrencas na academia.
- Você bem que as procurava. – riu o marciano.
- O que eu podia fazer? Eu era um imã para confusões. Mesmo depois de formada não me livrei delas.
- Você quer dizer...-McCormick deduziu que Allison ia tocar em um assunto muito delicado para ela.
- Do incidente com o comandante Davros. Eu sei que você intercedeu a meu favor junto ao almirantado. Não negue. De outra forma eu estaria na cadeia ou expulsa da Frota.
- Você quebrou o maxilar dele!
- Ele bem que mereceu. Você sabe bem.
O comandante Vladislav Davros foi o primeiro comandante de Allison em seu primeiro comissionamento na USS Endeavour-C, classe Dreadnought, como piloto júnior. Certa noite, quando ambos estavam sozinhos na ponte de comando ele tentou certas liberdades com ela e não foi feliz. Allison passou por uma corte marcial, foi rebaixada provisoriamente e transferida para ser piloto de naves de carga e manutenção da frota dentro do sistema solar. O comandante foi transferido para o Q.G. da frota para serviços burocráticos além de ter que fazer terapia por causa da sua compulsão sexual. Quando Mccormick soube que sua paixão dos tempos de academia estava com problemas pediu ao seu superior na época, o almirante Galloway, para interceder a favor dela.
- Escute, Ally...Eu fiz o que fiz porque eu sempre amei você é que na época eu não tive a oportunidade de...
- Espero que tenhamos alguma oportunidade de falarmos mais sobre isso no futuro. – diz ela olhando para o problema a seus pés.
- Parece que você continua atraindo encrenca. – ambos riem do comentário. Súbito McCormick pára de rir. Ele tem uma idéia. Usa o seu comunicador de gargantilha.
- Gilbert? – chama o companheiro baixinho.
Uma voz mais perto do que o esperado responde.
[Sim, senhor!]
McCormick percebe que o alferes não havia se afastado como ordenara. Apenas vestira o traje de isolamento e ficara por perto caso fosse necessário.
- Onde você está? – indagou ele sem conseguir ver o colega. Gilbert balançou as folhagens de um pequeno arbusto próximo à eles.
[Aqui! Nos arbustos!]
- Eu sabia que você não ia pra longe.
Desculpe, senhor. Não podia abandoná-los!
- Se sua teimosia não fosse tão providencial eu o repreenderia por desacato. Mas agora tente cumprir o que vou ordenar. Fique coma tenente e a proteja. Quanto a você...- diz se dirigindo a Allison – Terá que brincar de estátua um pouco mais, ok? – McCormick se afasta dando-lhe um beijo na boca.
- Pode deixar, mas aonde você vai? O que vai fazer? – pergunta a tenente.
- Mudar a polaridade do seu imã. – responde McCormick ao sair correndo pela floresta.
CAPITULO TREZE
Na engenharia da USS Albedo, Naomi estava supervisionando o trabalho de seus antigos companheiros de departamento.
- Saudades da caldeira, IMEDIATO? – perguntou a tenente Rivera que assumira o seu lugar. A tenente era uma morena de cabelos volumosos e encaracolados de ascendência colombiana.
- Um pouco, TENENTE.- responde Naomi também dando ênfase na patente. As duas amigas nunca precisaram de se tratar tão respeitosamente antes. Ambas riem da situação. - A ponte estava um tédio. Como anda o fluxo de plasma de dobra?
- Dentro dos padrões. Não há nada com o que se preocupar. Todos os sistemas estão funcionando perfeitamente. Tenho uma equipe trabalhando sem parar para montar o cabeamento do “Periscópio Espacial”. Eles estão dando um duro danado. Eles foram bem treinados. – as duas caminham pela engenharia observando as tarefas serem executadas.
- Eu já devia saber. Sei que você não deixará o padrão cair. Não foi à toa que a indiquei para me substituir.
- Indicou? Pensei que tinha sido o capitão. – brinca Rivera sabendo que a amiga não queria ter deixado o seu antigo posto.
- Digamos que você foi a escolha óbvia. – conserta Naomi.
- Obrigado pela confiança, senhora. Não a desapontarei.
- Chega de formalismo, Carmem. Não precisamos disso.
- Desculpe, comandante. – Naomi faz cara feia – NAOMI. É a força do hábito.
- É sempre bom respeitar a cadeia de comando, mas só estamos nós duas por aqui, então vamos relaxar um pouco, está bem? Não é porque fui promovida que vou passar a ser outra pessoa.
- Se está bem para você co...
- NAOMI.- relembra a comandante para que a amiga a chame pelo primeiro nome.
- ... Naomi. Sei que você não vai virar outra pessoa, mas você tem agora novas responsabilidades. Quer um café ou alguma outra coisa? – pergunta ao passar defronte de um sintetizador de comida.
- Café com leite, por favor.
- Mais café do que leite, certo? – lembra a amiga da preferência de Naomi.
- Isto!
A tenente Rivera dedilhou os pedidos no sintetizador e momentos depois ofereceu uma caneca com um líquido fumegante à colega e pegou outra para ela.
- Você acha que teremos problemas com os tais Jem´Hadar? – perguntou Rivera enquanto sorvia o gole do seu café puro e sem açúcar.
- Navegar em espaço inimigo é sempre perigoso. Não sabemos do que eles são capazes. Podem penetrar os nossos escudos sem que consigamos detê-los. Você sabe que não conseguimos uma freqüência harmônica o suficiente que possamos alternar para evitar que isso aconteça. Então seria bom você ter mais dois tripulantes em cada turno. Por questão de segurança. Não podemos subestimá-los.
- Seria bom termos roubado alguma tecnologia Borg. Talvez eles tivessem uma solução para esse problema. Quanto a aumentar o número de tripulantes acho uma boa idéia. O alferes Crispin foi ao banheiro e já deve estar retornando. Vou pedir que dobre a sua escala. Irei chamar também os alferes Silveira e Porto do controle de danos para nos ajudar na segurança. Valeu pela dica! – As duas param próximas a um acesso de um corredor de manutenção e se recostam em paredes opostas.
- De nada, Carmem...Posso fazer uma pergunta pessoal?
- Sem problema.
- Você sente falta do Jorge? – Naomi se referia ao marido de Rivera.
- Muita. Planejávamos ter um filho no ano passado. Fico pensando no quanto ele deve estar sofrendo após ter sido informado que estou “desaparecida em ação”. Sem falar dos meus pais...- lamenta a nova engenheira-chefe.
- É, faço uma idéia. São as agruras da carreira que abraçamos. Mas acredito que em breve poderemos revê-los. – Naomi compartilha da tristeza de sua amiga e tenta confortá-la.
- Deus te ouça, amiga. Às vezes fico irritada em ser apenas um joguete nas mãos da Frota Estelar. – desabafa Rivera.
- Para eles somos apenas soldados na frente de batalha. Números. Estatísticas. Nossas vidas não nos pertencem. – Naomi esta sendo fatalista.
- Olhando por esse prisma dá vontade de desistir de tudo, não dá? – instiga Rivera.
- Nem me fale. Contudo nós demos muito duro para alcançar as posições em que estamos hoje. Teria sido uma perda de tempo se desistíssemos agora.
- Tem razão. Vamos fazer o nosso melhor para podermos voltar para casa o mais rápido possível. Saúde! – Rivera brindou com o seu café o desejo de tudo voltar a ser como antes. Naomi acompanhou o brinde. Ela sabia que cada tripulante tinha uma história triste para contar. O moral à bordo estava baixo e isto poderia prejudicar as ações deles em combate. Era algo importante a ser reportado ao capitão. Todavia sabia que , apesar de seus esforços, não havia muito a fazer para reparar o problema. Naquele momento sentira falta de um grande luriano peludo chamado Dorn, de seus concursos e gincanas malucas que ele promovia à bordo.
Na ponte de comando Zagar estava atento a qualquer transmissão que pudesse captar, mas havia duas horas que não recebia nada. Sleek, por sua vez, estava quase dormindo na cadeira de tanto tédio. Brixx assumira a ponte na ausência de Naomi e analisava esquemas táticos na tela principal para passar o tempo. Além do três, um quarto tripulante, a tenente Kimberly Jones do controle de danos, fazia o monitoramento das demais estações.
- Esperem! – alertava Zagar para depois se lamentar por mais um alarme falso. – Não. Não é nada.
- Tenente! Limite-se a dar uma informação somente quando tiver uma! – reclamou Brixx – Já é a quarta vez em menos de dez minutos que o senhor nos chama atenção para estáticas!
- Desculpe. – o jovem elaysiano ficou constrangido.
- Às vezes me pego querendo que os Jem´Hadar nos descubram logo aqui. Só assim teríamos um pouco de ação. – comenta a tenente júnior.
- Nossa função é exatamente evitar que isso aconteça, tenente. Devemos entrar e sair da missão sem sermos detectados. Somos um grupo de operações especiais. O conflito é a última coisa que pode ocorrer em uma missão dessas e, geralmente, significaria o fracasso da missão.
- Sabemos disssso, sssenhor, mas a esssspera é dolorosa! – reclama o piloto sauriano Sleek.
- Vocês foram treinados para isso. Cumpram seus papéis e concluiremos a missão a contento. – Brixx não estava sendo nem um pouco simpático. Seus colegas se entreolharam e, quase telepaticamente, decidiram que seria melhor não puxar mais nenhum assunto com ele.
O tenente Brixx, apesar de fazer parte da tripulação, não era exatamente um membro da Albedo. Ele havia sido incorporado à tripulação a cerca de um ano e ainda não conseguira interagir com ninguém à bordo. Se mantinha distante de todos e também não deixava ninguém se aproximar dele. Não era um fazedor de amizades. Parecia estar sempre insatisfeito e sempre procurava discordar de tudo e de todos, inclusive do capitão. Talvez ele ainda não tivesse perdoado o capitão por não ter salvado o seu primo ou gostasse mais de ser um ordenança dos almirantes da base 375. Só saberiam a resposta a essa pergunta se, algum dia, alguém conseguisse ter uma conversa informal com ele. O que parecia muito difícil de acontecer.
Os sensores da estavam prejudicados pela presença de gases ionizantes da nebulosa e a tenente Kimberly Jones , momentaneamente pareceu ter captado algo, mas como não teve certeza, evitou de revelar o que achava que havia captado ao tenente Brixx, com receio de ser repreendida tal e qual fora seu colega oficial de comunicações. Pelo o que ela pôde captar parecia um objeto esférico vindo na direção da nave, mas logo depois ela perdeu seu sinal no sensor. Se ela pudesse realmente ver o que estava lá fora veria dezenas de esferas negras de material desconhecido penetrando na nebulosa que estavam sendo expelidas por uma nave de batalha Jem´Hadar e que uma delas passara bem perto da Albedo. O que vinha a ser estas esferas a Albedo e sua tripulação não demoraria muito para descobrir.
CAPITULO QUATORZE
O time ouro do comando Nova avançava pela floresta mais cauteloso do que nunca. Tiveram que se desviar do caminho traçado originalmente algumas vezes por causa das armadilhas plantadas pelos Jem´Hadar.
- Estes brinquedinhos já estão me enchendo! – reclamava Siro ao desarmar uma armadilha que os levaria a um fosso com lanças mortais. O bajoriano se levantou, pegou seu rifle e mochila e avisou aos colegas que o caminho estava livre para prosseguirem a caminhada.
- Eles estão protegendo demais esta área. – Klag não estava gostando do que estava começando a desconfiar.
- Parece que não estamos indo a um vilarejo comum. Pelo tricorder já passamos por dois perímetros de segurança e umas três patrulhas. Ainda faltam cinco quilômetros até o alvo. Isto está me parecendo mais como... – antes que o bajoriano pudesse completar a frase o tosk o interrompeu.
- Uma armadilha?
- Exatamente. O tal vilarejo sobre o qual nos informaram bem pode ser um campo de prisioneiros. Já visitei alguns campos cardassianos que tinham linhas de defesa semelhantes a estas. Agora a pergunta é: Quem iria nos enviar para uma armadilha? – Siro estava confuso.
- Talvez o mesmo que tenha inventado a história do informante para nos atrair para cá. Sabiam que não resistiríamos a tentação de checar a história. – conclui Klag.
- Mas quem estaria fornecendo este tipo de informação à Frota Estelar? – se perguntava Siro.
- Um agente duplo. – Vulpes tirou a sua conclusão.
- Alguém deles infiltrado entre nós ou alguém nosso que se vendeu pro lado deles? – Siro tentava descobrir um sentido naquilo tudo.
- Seja como for, se existe uma rede de informação com um ou mais de um envolvido nós iremos descobrir. Se os Jem´Hadar capturaram um dos nossos e o está forçando a nos trair descobriremos logo e poremos um fim nisso. De um jeito ou de outro. – Klag não queria mais entender os motivos que os levaram àquela missão e sim cumprir seu objetivo. Levar embora o informante com vida para que este pudesse esclarecer todo este mistério.
- Como iremos encontrar o tal informante? Sabe onde procurá-lo assim que encontrarmos o tal vilarejo? – perguntou Siro à Klag.
- Ele nos mandou a freqüência de um bio-chip implantado em seu corpo. Vamos rastrear o sinal quando rompermos o bloqueio de uma grade de escudos que protege o vilarejo. Vocês deverão ficar de fora para me dar cobertura enquanto eu entro e providencio a minha fuga com ele.
- Sinal de bio-chip? Muito conveniente. Vilarejo protegido com escudos? E como é que este cara conseguiu passar estas informações tão detalhadas? Pelo que eu sei os Jem´Hadar são incorruptíveis. Isto está me cheirando muito mal! Mas se o único jeito de saber disso é pegando o cara...Vamos lá! – Siro se adiantou de novo para rastrear o terreno com seu tricorder quando ouviu pequenas explosões ao longe. Todos os três se jogaram ao chão por reflexo, mas quando viram que estavam à salvo, levantaram-se.
- Será que os outros estão bem? – perguntou Vulpes demonstrando preocupação.
- Saberemos quando retornarmos. Eles foram tão bem treinados quanto nós. Saberão se cuidar.
- Espero que estas explosões sejam algum Jem´Hadar distraído caindo em sua própria armadilha. – comenta Siro.
O grupo continua a sua marcha na escuridão sob uma pequena e contínua chuva.
Não muito longe dali o motivo das explosões era o tenente McCormick desviando a atenção das patrulhas Jem´Hadar da posição em que se encontravam a tenente Allison e o alferes Gilbert; lançando algumas granadas à distâncias estratégicas com o auxílio de marcadores de transporte remoto. Assim que seu tricorder informou que as patrulhas se afastaram da posição dos dois, comunicou-se com o alferes Gilbert.
[Gilbert...Afaste-se da tenente Allison uns cinqüenta metros. Rápido!]
[Afastar-me? Sim senhor!] - o alferes não entendeu a ordem, mas a cumpriu assim mesmo.
A tenente que já estava assustada com o barulho das explosões viu seus temores aumentarem mais ainda quando percebeu que seu corpo estava desaparecendo. Tentou gritar, mas não conseguiu. Nos segundos seguintes estava sendo abraçada por McCormick na plataforma de transporte da Zênite.
- Oooooohhhhh! – Allison conseguiu completar o seu grito, mas depois ficou sem fala.
- Você está bem? – perguntou McCormick aflito.
A tenente segura a cabeça de seu salvador e dá-lhe um beijo ardoroso na boca em agradecimento por ter-lhe salvo a vida. Agora foi a vez dele ficar sem palavras.
- Fico te devendo esta. Como você fez isso? Como chegou até a nave auxiliar tão rápido? Que explosões foram aquelas?
- Substitui você por um grupo de pedras que recolhi. Sabia do seu peso, a massa total das pedras e a gravidade ambiente. Um cálculo básico de Física. Por via das dúvidas pedi que Gilbert se afastasse. Mas como dificilmente eu erro creio que ele está bem. As explosões foram uma distração para as patrulhas Jem´Hadar que estavam quase na posição de vocês. Eu trouxe marcadores de transporte para um transporte remoto caso precisemos sair correndo.
- Mas isso não fazia parte do material que embarcamos...
- Foi uma coisinha que esqueci de mencionar...
- Esqueceu? Não acredito! Você foi demais, sabia? – Allison ri da pseudofalta de memória de Douglas McCormick, o senhor memória perfeita.
- Mas e Gilbert? Não podemos deixá-lo lá sozinho. – lembrou-se a piloto.
- Os sensores da nave não captaram nenhuma grande explosão. Se a mina explodisse iria gerar uma reação em cadeia com as outras minas próximas e aquele pedaço da floresta já era. Seria uma grande cratera agora. Quanto ao Gilbert ele está com o traje de isolamento e já ajustei o transporte, em dez segundos o nosso amigo será trazido pra cá.
- Pena que tenhamos voltado ao ponto de partida. Não poderemos dar apoio ao time ouro conforme combinado. – disse Allison preocupada com o êxito da missão.
- Já pensei em compensar isso. Venha olhar uma coisa. – McCormick mostra a tela dos sensores da nave e depois um mapa do terreno conhecido. – Aqui é a localização do time ouro de acordo com os seus transponders. Este caminho atrás deles, pelo que sabemos, está livre. Usando o transporte poderemos ser enviados para lá em um segundo e assim compensaremos o nosso atraso.
- Ótimo! E por que não fizemos isso antes?
- Porque não sabíamos o que encontraríamos pela frente. Era necessário passar um pente fino pela trilha. Os Jem´Hadar possuem um aparelho de camuflagem individual que os deixa invisíveis, como sabemos, e com isso não podem ser detectados à distância pelos nossos sensores. Com a modificação da rota inicial não saberemos se alguns quadrantes do terreno estarão seguros.
O transporte foi acionado automaticamente e aparentemente nada foi transportado; até que, um assustado Gilbert tirou seu capacete do traje de isolamento e se revelou.
- Ah! São vocês! Pensei que tinha sido capturado. – disse ele aliviado.
- Aproxime-se alferes, para novas instruções. E segure isto. – Mccormick deu-lhe um pequeno dispositivo.
- O que é isso? – indagou o jovem curioso.
- Um marcador de transporte. – disse Allison com naturalidade.
- Observem. Poderemos manter posição aqui e assegurar uma rota segura para fuga. Apesar da plataforma de transporte ser pequena e poder transportar apenas um por vez, ajustaríamos os marcadores de transporte para nos transportar em intervalos de cinco segundos segundos.
- O ideal seria que fossemos transportados todos de uma vez.- comentou Allison.
- Não podemos ter tudo, Ally. Vamos nos preparar. Vou ajustar os marcadores e levar uns extras para o time ouro, caso consigamos chegar perto deles. Por que quando os Jem´Hadar descobrirem que seu prisioneiro fugiu vai ser um Deus nos acuda.
Em pouco tempo os três retornaram a missão e se posicionaram a uns poucos metros do time ouro. Fato que logo foi detectado pelo sensor do rifle de Klag, que, contra a própria vontade, quebrou o silêncio de rádio.
[O que fazem aqui?] - perguntou o klingon com certa irritação quando, após vislumbrar um pequeno clarão, deparou-se com McCormick a trinta metros dele.
[Tivemos um contratempo e precisei fazer um pequeno desvio de rota.] - explicou-se o oficial de ciências.- [Tome. Você vai precisar!] - McCormick jogou para Klag um pequeno saco contendo quatro marcadores de transporte.
Klag abriu o saco e entendeu a mensagem. [Obrigado. Agora afaste-se com o seu pessoal e contorne a clareira. O vilarejo fica morro abaixo. Vulpes já verificou. Parece ser um campo de prisioneiros.]
[Afirmativo.] - Mccormick acatou a ordem e sinalizou para seus companheiros que o seguissem. Gilbert repôs seu capacete e desapareceu.
Klag seguiu pela escuridão com seus homens em mais uma hora de caminhada e avistou, do alto, o campo militar Jem´Hadar, contendo pelo menos seis edificações que pareciam ser de concreto. Várias naves pequenas pousavam e decolavam a todo instante. Quatro torres de observação cercavam o local e com holofotes vigiavam o perímetro. Havia apenas um portão de entrada que era antecedido por duas cercas de arame. Tudo estava muito bem vigiado.
- Devem ter centenas deles. Não tem como completarmos a missão. – disse Siro fatalisticamente.
- Isto vai ser interessante...- Klag ainda estava avaliando suas chances.
- Mesmo que você consiga entrar, vai ser impossível sair de lá. Ainda mais levando um prisioneiro. Não poderemos dar conta de todos eles.
- Você é um Maqui. Está acostumado com causas impossíveis. Além do mais, alferes, eu não quero lutar com todos eles. Eu vou ser um deles, lembra? – Klag mostra o seu rosto modificado para ressaltar o seu ponto de vista.
- Ok. Entendi. Mas lembre-se também que eles podem estar sabendo de nossa presença. E podem estar alerta. – advertiu o bajoriano.
- Eu sei. Vá vestir o traje de isolamento. Você será, o que os humanos gostam de dizer: meu “anjo-da-guarda”. Vulpes...Mantenha posição e avise McCormick se algo der errado. Entendido?
O Tosk concordou balançando a cabeça afirmativamente.
- Vamos agir! – disse Klag por último.
O plano começou a ser posto em prática. Com sorte, os Jem´Hadar jamais notariam a presença deles.
CAPITULO QUINZE
USS Protheus – Ponte de comando...
O primeiro oficial O´Malley se aproximou da capitão Sobiesky e discretamente perguntou:
- O que estamos esperando, capitão?
- Esperando? – a capitão não entendera a pergunta.
- Viemos para o quadrante gamma e estamos mantendo posição há horas. Creio que estejamos esperando por alguém ou por alguma coisa, não é?
- Ah, sim. Estamos. – respondeu a capitão vagamente.
- A senhora pode dizer por que estamos aqui parados? – O´Malley estava se sentia relegado a segundo plano com o silêncio da capitão sobre a missão.
- Não insistia, número um. As minhas ordens são confidenciais. Até mesmo para você. Caso aconteça algo comigo você deve voltar com a nave para a base 375 e se reportar ao almirante Ross.
- Muito bem. Não discutirei as suas ordens. – O´Malley fica em silêncio por alguns segundos, mas não resiste a curiosidade e volta a falar novamente: - Não creio que a Frota mobilizaria uma nave como a nossa, que deveria estar fazendo exercício de guerra para testar todo o seu potencial, para ficar parada no espaço, mas...
- Ian...- a capitão sabia que seu imediato não se renderia fácil, mas, por mais que quisesse, não podia revelar nada ainda. Principalmente em uma época em que o inimigo podia se fazer passar por qualquer um.
- Ok, Ok! Não vou insistir. E quanto ao clandestino, o que fazemos com ele? – O´Malley resolveu mudar de assunto. Ele sabia até onde podia ir com a capitão. Seu sentimento paternal para com ela às vezes o fazia ser extremamente protetor. Na verdade, pela sua idade, ele até poderia ser pai dela. Mas também sabia que cautela e caldo de galinha não fazia mal a ninguém. Pelo menos a nenhum humano.
- O repórter? Não o deixe sair de sua cabine até a missão acabar.
- Isto está providenciado. Temos dois sentinelas em sua porta e até agora ele tem se mostrado uma pessoa compreensiva e colaboradora.
- Todos aqueles que são pegos com a boca na botija geralmente são. Não o subestime.
- Certo. Mas quando voltarmos ele poderá fazer insinuações e comprometer a segurança de futuras missões. – ressalta o número um.
- Isto é verdade, mas trataremos disso mais tarde. Por falar em segurança já descobriu como ele entrou?
- Acreditamos ter sido em um pequeno container que foi trazido à bordo manualmente, pois se fosse transportado, os sensores biológicos da sala de transporte o teriam detectado.
- Avise ao pessoal da segurança para doravante checar com tricorders tudo que entra e sai desta nave. Bom...O meu turno acabou. Vou me recolher. Avise-me se algo incomum acontecer.
- O que, por exemplo? – insiste O´Malley uma última vez para que a capitão revele seus segredos.
- Você saberá! – respondeu ela enigmaticamente ao entrar no turboelevador.
- Sim, senhora. Com certeza avisarei. – respondeu O´Malley ao assumir a cadeira de capitão. Sobiesky pôde perceber a expressão de frustração na face de seu imediato, mas ela não poderia fazer nada para modificar aquela situação. Não poderia dizer-lhe que lá estavam para dar apoio a uma nave fantasma que estava atacando territórios do Dominion. Se a missão fosse bem sucedida receberia uma comunicação em código e voltariam para a base. A tarefa mais enfadonha para um soldado era montar guarda, ela bem sabia disso. Para quem gosta de ação nada mais irritante era não fazer nada. Contudo, estar em alerta, em um posto de sentinela, poderia determinar o destino da batalha e a segurança de todos. Isto estava claro para ela e isto a consolava quando se calava ante ao oficial em que ela mais confiava à bordo.
Não muito distante, Timothy Barinni compartilhava da mesma inquietação do imediato da USS Protheus. Recluso em sua cabine estava a gravar um diário de viagem que retratava a sua situação:
- “Missão misteriosa no quadrante gamma”.– escutou ao reproduzir a frase em seu pequeno gravador que estava sobre a mesa da pequena sala de estar.
- Não.Não ficou bom. Apagar. Gravar : Frota Estelar envia nave em missão perigosa no quadrante gamma. Humm....Não. Muito comprido. Apagar a última frase. Gravar: Repórter da INN é mantido prisioneiro durante a missão secreta no quadrante gamma. Impactante, mas ainda está muito comprido. Apagar. Deixa-me ver...Gravar: Segredos e mentiras no quadrante gamma. – É pode ser! – disse satisfeito com o título que descobrira. Sabia que não podia fazer apenas um relato de suas experiências, tinha que gerar imagens também. Como não confiscaram seus equipamentos ainda resolveu usar a sua microcâmera e começou a gravar algumas cenas que poderia usar em um documentário futuro.
- “Direto do confinamento imposto por oficias da Frota Estelar estou sendo testemunha de uma missão considerada altamente secreta que está desenrolando neste exato momento aqui, no quadrante gamma. Como vocês podem ver pela disposição das estrelas através desta escotilha e confirmar a minha posição para vocês. Atrás destas paredes, planos secretos estão sendo discutidos contra um inimigo que assusta a todos nós atualmente. Será que a Frota conseguirá detê-lo? Mas como vim parar aqui? Onde realmente estou? Quem me prendeu? Que inimigo é esse? São algumas questões que serão respondidas em breve. Timothy Barinni, de algum ponto do quadrante gamma para a INN.” Parar a gravação. É acho que ficou bom. Só preciso arranjar um jeito de transmitir.
Barinni caminhou até o console de comunicação e tentou a interface com a sua aparelhagem, mas sem sucesso. Todas linhas estavam bloqueadas. O que adiantaria ter um furo de reportagem nas mãos se ninguém viesse a saber disso? Era o pesadelo de qualquer repórter. Teria que arranjar uma maneira de sair daquela cabine para coletar mais material para o seu documentário. Procurou um duto de ventilação, mas os que encontrou eram de diâmetro muito pequeno. Sabia que as cabines eram modulares e que as paredes poderiam ser removidas se tivesse as ferramentas corretas. Mesmo assim isto faria muito barulho e chamaria muita atenção. Ficou a fitar, frustrado, a escotilha de seu quarto e súbito estranhou quando avistou um objeto ao longe crescer de tamanho. Parecia uma nave de design desconhecido. De repente, o alerta vermelho soou. Foi até a sua porta com a sua câmera acoplada à cabeça e, assim que a porta abriu, apenas um segurança permanecia em seu posto.
- Volte para dentro, senhor, para a sua segurança! – disse o guarda firmemente.
- O que está havendo?
- Volte para dentro, senhor. – o guarda não estava para conversas. Pôde ver alguma correria pelos corredores
A porta se fechou novamente. Parecia que a ação o havia encontrado mesmo estando preso. Esperava que isso fosse um sinal que a sua sorte havia voltado. Continuou a filmar, agora através da escotilha, fazendo mais uma narração dramática para o evento.
“Timothy Barinni direto do quadrante gamma à bordo da USS Protheus. Uma das mais avançadas naves da Frota Estelar. Uma nave alienígena se aproxima e suas intenções são desconhecidas. Não houve nenhum disparo, então suponho que estejam tentando um contato pacífico. Todavia o alerta vermelho foi soado e a nave está pronta para se defender de quaisquer possíveis ameaças. Quem são e quais suas intenções saberemos em instantes. A INN leva a verdade até você!”
CAPITULO DEZESSEIS
A USS Albedo, de dentro da nebulosa, estava bem protegida dos sensores das naves Jem´Hadar. Toda a nave que passava pelas proximidades desviava da nebulosa para continuar o seu caminho. Foi isso que o relatório de Brixx dizia, como resultado do sensoriamento do “Periscópio espacial” inventado por McCormick. Era isto que estava sendo lido em um pad pela tenente-comandante Naomi que estava, interinamente no comando da nave enquanto Alkon descansava sob ordens médicas.
- Muito bem, senhor Brixx. – disse ela, de sua cadeira, devolvendo-lhe o pad. – Continue com o bom trabalho. Parece que estamos conseguindo nos manter a salvo apesar da patrulha deles.
- A sondagem feita desta forma tem sido...Um pouco complicada, tecnicamente falando. Apesar de tudo tem sido eficaz. – comentou Brixx.
- Não existe facilidades na nossa profissão, tenente. – replicou Naomi.
- Concordo. Fazer uma tração de um cabo de quase dez quilômetros não é uma operação fácil, senhora. – acrescentou o boliano.
- A equipe da tenente Rivera fez um ótimo trabalho, e com a sua supervisão sei que continuarão fazendo, senhor Brixx.
- Obrigado, senhora. – disse humildemente o boliano ao retornar ao seu posto.
- O capitão também ficará satisfeito. – Naomi estava orgulhosa de ter podido cumprir bem o seu papel de primeiro oficial a contento. Aos poucos sua insegurança e receios estavam desaparecendo. Mas toda aquela sensação de serenidade desapareceu quando Brixx informou:
- Sensores de curto alcance parecem estar captando vários objetos vindos em nossa direção.
- Pode ser alguma falha em nossos instrumentos devido à atividade eletromagnética da nebulosa? – perguntou Naomi.
- Verificando...Ampliando sinal...Negativo senhora. Posso tentar conseguir uma imagem dos objetos, mas vai ter muita interferência. Eles estão a apenas oitocentos metros e se aproximando a bombordo.
- Ponha na tela! – ordenou a comandante interina.
A imagem falhada, que surgiu em meio às nuvens rosáceas e púrpuras, eram de pequenos pontos negros.
- Pode aumentar a magnificação? – Naomi não estava certa do que eram aquelas coisas. Pareciam com esferas negras. Dezenas delas. Talvez centenas.
- Tempo para colisão? – perguntou ela.
- Oito minutos, aproximadamente. – disse Brixx.
- Podemos nos afastar dessas coisas?
- Sim, com certa dificuldade. Todavia temos a sonda presa à nós. Ainda não a recolhemos.
- Quanto tempo para embarcá-la?
- Uns quinze minutos, dez, se formos rápidos.
- Isto não nos dá muito tempo de margem de manobra...- Naomi sabia que aquele era o momento que ela tanto temia. O momento das grandes decisões.
- Zagar...Acorde o capitão e o informe da situação. Peça-o para vir até À ponte. Acione o alerta vermelho silencioso. Brixx...Sonde melhor aquelas coisas. Quero ter certeza do que são feitas e o que exatamente elas são. Se for o que estou pensando estaremos bem encrencados. – Naomi tocou em seu comunicador – Atenção engenharia! Desviar energia para reforçar escudos. Erga os escudos, senhor Brixx.
- Já estão erguidos, madame. A cento e quinze por cento de potência. Os sensores da nave não conseguem determinar do que essas coisas são feitas.
Naomi começa a andar de um lado para o outro pensando no que fazer. Estar à frente de uma cadeira de comando era, antes de mais nada, estar pronta para tomar decisões rápidas que salvaguardassem a segurança da nave e da tripulação.
- Senhor Brixx...Corte a conexão com a sonda. Sleek...Avante em um quarto de impulso para dentro da nebulosa. Tenente Brixx...Continue a monitorar esses objetos. Quero saber quantos são e onde estão.
Se os sensores de longo alcance da Albedo pudessem funcionar corretamente captariam as esferas negras se espalhando por toda a borda da nebulosa cercando-a completamente.
Naomi começou a perceber do que se tratava mesmo sem que os instrumentos da nave lhe dissessem; nessa hora ela confiava mais nos seus instintos.
O capitão Dorian Alkon chegou à ponte, ainda com uma expressão sonolenta, mas com muitas perguntas.
- Que história é esta de esferas negras? Já fizeram a sondagem? Foi a sonda que as captou? Por que não me acordaram antes?
- Foram ordens da doutora, senhor. Só incomodá-lo em último caso. O periscópio espacial não captou as esferas e sim nossos sensores. – explicou-se Naomi.
- O que são essas coisas, imediato? – pergunta o capitão ao ver as imagens das esferas na tela.
Naomi se surpreende por um momento com a referência do capitão ao seu novo posto. Iria demorar mais do que ela previa até se acostumar a ser chamada assim.
- Se estou certa, capitão, alguém está nos trancando dentro da nebulosa ou se assegurando que ninguém entre nela para se esconder.
- Parece que estão um pouco atrasados para a segunda hipótese. E espero que não saibam que estamos aqui dentro. Alguma rota de fuga?
- A nebulosa tem cerca de quarenta e dois mil quilômetros de diâmetro. Essas esferas, pelo que pude estimar, levarão cerca de trinta e duas horas para cobrir toda esta extensão. – informou Brixx.
- Bom, a boa notícia é que podemos sair, apesar de não ser prudente. Se ficarmos muito tempo poderemos ficar presos e comprometer a missão. Nosso pessoal lá fora também não poderá entrar. Teremos que arranjar um novo ponto de encontro e não há como fazer isso sem comprometer a nossa posição. Já que a camuflagem não funciona dentro da nebulosa. Em todo caso... Sleek...Mantenha um curso próximo à borda e distante dessas coisas para sempre termos uma rota de fuga. Zagar...Convoque a tenente Rivera e doutora T´Vel para a sala de reunião o mais rápido possível. Vocês dois...- diz apontando para Naomi e Brixx – Acompanhe-me.
Pouco depois estavam na sala de conferência avaliando o comprometimento da missão. Naomi tomou a palavra.
- Sei que o que vou dizer está no campo da especulação, uma vez que não podemos contar com a eficiência de nossos sensores, mas deduzo que estas esferas sejam minas espaciais que devem explodir através de sensor magnético de aproximação. Como não sabemos da eficiência da tecnologia deles neste ambiente a recomendação é de continuarmos a manter uma distância segura.
- Como eles lançaram estas minas? Nós não estávamos monitorando o exterior da nebulosa com o periscópio? Indagou o capitão.
- Isto é correto, capitão. Mas a sonda não ficava emersa das nuvens o tempo todo. Nós repetíamos o processo a cada meia hora. Durante este intervalo de tempo alguma nave apareceu e soltou as minas. - explicou Brixx.
- Alguma possibilidade delas terem vindo do interior da nebulosa? – perguntou a doutora surpreendendo ao capitão. Ela nunca emitia uma opinião que não fosse de sua área. Ela devolveu, ao ar de surpresa do capitão, um levantar de sobrancelha, típico dos vulcanos, quando ele a encarou.
- Analisamos o vetor da trajetória delas e vieram de fora. – respondeu Brixx.
- Onde está a sonda agora? – pergunta o capitão.
- Lá fora. Ordenei que a soltasse para manobrar melhor a nave. Não teríamos tempo para recolhe-la, pois havia um grupo de esferas vindo em rota de colisão com a nave.
- Devo concluir que, a qualquer momento uma daquelas minas pode colidir com a nossa sonda ou com o cabo que a prendia a nós? – o capitão não estava gostando de fazer esta pergunta e sabia que ia gostar menos ainda da resposta.
- Não se as prováveis minas se mantiverem estacionárias como estão.- ressaltou Brixx.
- Mas, me corrija se estiver errado, a sonda e o cabo de ligação ainda se movimentam por inércia após terem sido desengatados, não é? – o capitão era bastante perspicaz. Pelo silêncio de todos sabia que teriam que resgatar a sonda.
- Como não podemos desintegrá-los sem ameaçar uma reação em cadeia pela proximidade das... possíveis minas... – enfatizou como Brixx o fizera - ...Temos que evitar que uma explosão aconteça que faça a nebulosa e nós desaparecermos num piscar de olhos. Creio que não temos muito tempo para tal operação antes de uma destas minas atingir a sonda ou o cabo.
- Pouco menos de dez minutos, senhor. – informou Brixx como McCormick faria se lá estivesse, com grande precisão.
- Sugestão para o resgate, tenente Rivera? = perguntou o capitão.
- Podemos utilizar um pod de serviço. Suas garras poderão agarrar o cabo e tracioná-lo arrastando a sonda no processo. – disse a engenheira prontamente.
- Eu me ofereço para a tarefa, senhor. – se prontificou Naomi.
- Muito bem. Prossigam e boa sorte. – ordenou o capitão – Brixx trabalhe com elas e forneça uma trajetória segura. Repasse os dados para o pod de serviço. E Rivera...- o capitão a chama antes que saia da sala – Quero que seu pessoal tente saber mais das esferas. Qualquer coisa já estará bom. – diz ele sorrindo.
- Daremos o nosso melhor, capitão. – responde a engenheira com a mesma simpatia.
- Ahn, Brixx...Veja com a cartografia se existe um local seguro onde possamos ir e continuar a dar apoio ao time ouro e prata. Vamos agir rápido! Temos pouco tempo!
Cada qual correu para executar as ordens dadas menos, é claro, a conselheira e médica-chefe que continuou sentada olhando para o capitão e interpretando seus sentimentos.
- Alguma coisa, doutora? – o olhar de T´Vel incomodava Alkon terrivelmente.
- Me diz você. – disse ela enigmaticamente.
- Não sei o que quer dizer. Eu não tenho nada para dizer. Não me venha com uma sessão de análise agora. Estamos no meio de uma crise e estamos tentando executar o melhor plano para resolvê-la. Se não tem nada a acrescentar neste sentido, sugiro que volte para o seu posto.
- Você tem certeza que este foi o melhor plano? Eu não ouvi outras opções.
- Doutora...Se a senhora tem alguma idéia...- Alkon quando a encarou pôde sentir aonde T´Vel queria chegar. Sua mente estava transparente para ele.
- Está me acusando de alguma coisa? Acha que estou sendo omisso?
- Você vai deixar a tenente Naomi se arriscar desse jeito?
- Ela se ofereceu para tarefa!
- Você poderia ter dito não.
- Por que eu faria isto? Você acha que quero puni-la? Por ela ter largado a sonda ao invés de ter tentado recolhê-la? Ela teve que tomar uma decisão. Nem sempre a que tomamos é a certa. Nem eu estou certo cem por cento das vezes. Ela é uma oficial competente. Vai saber executar bem a tarefa. Ela sabe dos seus limites.
- Talvez ela queira ultrapassá-los para merecer seu respeito ao posto que ela ocupa agora.
- Já sei aonde você quer chegar! Você acha que eu a deixei se arriscar por que ela não é a Sarah, não é? Mas você está equivocada!
- Você é que está fazendo esta comparação. Eu não disse nada.- T´Vel continuou com o seu olhar firme. Alkon detestou a idéia de a doutora estar certa. Em seu subconsciente ele jamais aceitou outra pessoa no lugar de Sarah e a doutora sabia disso.
Alkon suspirou, enxugou os lábios, andou um pouco pela sala antes de se voltar novamente para T´Vel e dizer:
- Se houvesse outra maneira de recuperar a sonda e evitar a explosão eu a tentaria. Que outra opção você me dá? – ele repetiu a pergunta que fizera antes de toda aquela conversa começar.
T´Vel olhou para ele e por um instante pareceu que iria respondê-lo, mas nada falou. Ela havia conseguido colocar o seu ponto de vista e suscitado a dúvida em Alkon. Ela realmente não precisava dizer mais nada.
Alkon percebeu que perdera este round e a liberou secamente.
- Dispensada, doutora.
T´Vel virou-se e saiu sem esboçar nenhuma reação, o que era esperado pela sua herança vulcana.
O capitão não havia gostado de ter sido posto na parede, apesar de a doutora estar correta. Esperava que esta pequena discussão não abalasse a amizade que construíram nestes últimos anos. Alkon depois percebeu que T´Vel estava fazendo apenas o papel que ele mesmo confiara à ela. De ser sua consciência. Afinal ela também acumulava o cargo de conselheira. E ela fazia isto muito bem.
CAPITULO DEZESSETE
O campo de prisioneiros Jem´Hadar era muito bem guardado. Havia três cercas antes de entrar no campo que era rodeado por quatro torres de observação com soldados, holofotes e armas. No interior existia três edificações e algumas barracas com suprimentos e armamento. Um ou dois vortas podiam ser vistos que deviam chefiar o campo. Mas o que impressionava era o número de Jem´Hadar circulando. Eram cerca de duzentos. Mais ao longe podia ser visto uma torre de comunicação e uma plataforma de pouso para pequenas naves como um caça Jem´Hadar.
As torres teriam que ser tomadas se Klag quisesse sair sem resistência e isto foi logo providenciado. O soldado da torre leste de repente teve o seu pescoço torcido e quebrado por uma força invisível. Ele não teve tempo de reagir e no instante seguinte estava morto debruçado sobre um canhão disruptor. Foi tirado de vista e teve seu lugar tomado por Siro Lian que vestia o traje de isolamento. O mesmo foi feito com o guarda da torre oeste por Vulpes que usava sua habilidade natural de camuflar-se ao ambiente. Faltavam a torre norte e sul que deveriam ficar a cargo da equipe prata. McCormick mantinha o guarda da torre norte na mira e o alvejaria se fosse necessário o mesmo fizera Allison com o guarda da torre sul.
Enquanto isso Klag conseguia entrar no campo seguindo a fila de uma patrulha que retornava passando desapercebido em seu disfarce. Ao conseguir se separar de seu grupo, deu uma olhada em volta e procurou, discretamente com seu tricorder, o sinal do bio-chip do prisioneiro. Pelo aparelho ele estava próximo. O sinal vinha do interior de uma das instalações.
A escuridão favorecia o deslocamento do grupo de apoio que tomava posição na floresta; principalmente do alferes Gilbert que, com o traje de isolamento andava livremente pelo campo de prisioneiros. Nem Klag sabia que ele havia entrado junto com ele.
- Soldado! Entre na fila! – ordenou um Jem´Hadar superior à Klag. Por um momento Gilbert pensou que fosse com ele e que seu disfarce havia sido comprometido. Limitou-se apenas a sair do caminho.
Klag foi pego desprevenido. Percebeu que a fila era para tomar Ketracel-white. Aquilo não estava nos seus planos. Ele não pôde evitar e obedeceu a ordem. O seu sistema de KW era falso, se injetassem a droga em seu sistema ele não sabia como iria reagir.
[ Siro estou com problemas. Preciso de uma distração.]
[Estou vendo.Não se preocupe. Allison, acerte o alvo agora!]
Allison não esperava receber esta ordem tão cedo, mas a cumpriu.
Gilbert pensou em tomar uma atitude, mas o que fazer sem se comprometer? Além do mais Siro já iria agir. Resolveu aguardar.
A fila andava depressa. Apenas dez soldados separavam Klag de uma grande intoxicação.
Siro, após a eliminação do guarda da torre sul, observou que, não muito longe dali, havia containers de plasma de dobra que abasteciam os caças Jem´hadar. Utilizou o disruptor que estava em um tripé na torre leste e providenciou a tão desejada distração que Klag esperava. Uma grande explosão pôs todos a correr e Klag pode sair da fila sem ser percebido.
[Siro! Eu disse uma criar uma distração, não uma guerra!] - reclamou Klag pelo comunicador intra auricular.
[Desculpe, senhor. Velhos hábitos!] - responde Siro ironicamente.
Os Jem´hadar corriam como loucos e procuravam quem os estava atacando.
Klag correu até um pequeno edifício de três andares de onde parecia estar vindo as emissões do bio-chip. Gilbert o acompanhou caso alguma coisa desse errado.
Longe dali a equipe de retaguarda formada por Allison e McCormick, observava a tudo apreensivamente.
- Mas que diabos está havendo lá embaixo? – perguntava Allison ao seu colega.
McCormick ajustou o seu visor e pôde ver Siro disparando nos tanques de combustível.
- Parece que o nosso amigo bajoriano está esquentando um pouco as coisas! – McCormick entendeu que também devia agir. Pegou o guarda da torre norte. – Gilbert...Onde você está?
[Dentro do prédio, com o tenente!] - disse acabando por revelar sua posição.
Klag ao ouvi-lo se surpreendeu.
[Alferes? Você está aqui?]
Nisso um guarda abordou Klag ao entrar no prédio.
- Soldado, estamos sob ataque! Você não deveria estar aqui! – Logo depois o soldado recebe uma pancada na cabeça por trás e cai ao chão. Era coisa de Gilbert.
[Sim, senhor, estou!]
[Rápido antes que eles descubram o que está havendo!] - ordenou Klag ao alferes falando como se eles estivesse à sua frente, mas na verdade estava ao lado dele. Gilbert se divertia com a situação.
[Claro, senhor! Estou bem atrás do senhor. Não se preocupe!]
Lá fora a segunda parte do plano estava sendo posta em prática. Desarmar a grade sensora e os escudos do campo. Vulpes e Siro estavam agindo. Nada que algumas granadas não dessem conta. Imediatamente toda a energia foi cortada.
[Klag para líder prata....O pacote está seguro. Acionando os transportes agora!] - Klag pressiona o marcador do prisioneiro que estava com um capuz sobre a cabeça. Entrega um marcador a Gilbert, que estava sem o capacete e , portanto visível, e em seguida aciona o seu. Mas nada acontece. Resolve reclamar com McCormick.
[Líder prata. Os marcadores não estão funcionando! O que está havendo?]
[De alguma forma as explosões ionizaram a atmosfera em volta do campo. Mas não se preocupe, senhor. Eu tenho um plano B. Vou trazer as naves auxiliares para mais perto e isto irá amplificar o sinal do transporte. Aguarde.] - respondeu McCormick.
Usando um controle remoto em seu punho, McCormick faz decolar as naves auxiliares para resgatá-los.
De repente, feixes de phasers passaram perto dele. Eram alguns patrulheiros Jem´hadares que retornavam para o campo quando viram as explosões.
[Allison! Prepare-se para o transporte!] - avisou Mac preocupado com o bem estar de seu amor. Mal ele acabou de falar os tiros dos soldados Jem´hadares ficaram mais perto e certeiros. Allison pôde escutá-los à distância e também se preocupou com a segurança de seu amado.
[Doug! Eu estou a caminho!]
[Não! Transporte-se agora!. Arrghh!] - McCormick se descuidou por um instante e foi alvejado na perna esquerda o que o fez ajoelhar e deixar cair o seu marcador.
Allison ao ouvir o seu grito de dor pelo comunicador ficou muito nervosa.
[Doug? Doug?] -ela chamava por ele e ele não respondia. Ela temia pelo pior. Correu o mais que pôde na sua direção.
Enquanto isso Klag apertou o marcador mais uma vez do misterioso informante e dessa vez ele desapareceu. Balançou a cabeça fazendo um sinal para que Gilbert fizesse o mesmo. Ele foi o próximo a desaparecer. Mesmo sabendo que McCormick poderia estar em perigo, tendo escutado as transmissões entre ele e Allison. Não podia comprometer a missão. Quando ele se materializou encontrou Siro olhando para ele.
- Onde está Vulpes? – perguntou o bajoriano.
- Ele ainda não apareceu?- Klag também se surpreendeu. “Será que o Tosk tinha sido capturado ou morto?” – pensou. Perguntou logo pelo maior objetivo da missão. - E o prisioneiro?
- Esta na área de carga. Acabei de amarrá-lo. Está bem cooperativo. Gostou do show lá embaixo?
- Apesar de não concordar muito com sua idéia de distração, devo admitir que foi eficiente. Mas não acabou ainda. Temos que sair logo daqui.
- E quanto ao Vulpes? E os outros?
- Use os sensores. Agora vamos!
A Azimute voou em torno da área procurando seus companheiros e atirando contra o campo de prisioneiros.
No solo McCormick lutava por sua vida. Lançou algumas granadas contra seus inimigos, matando alguns, mas outros apareceram. Estes foram alvejados por Allison quando esta chegou.
- O que você está fazendo aqui? – reclamou McCormick.
- Salvando você. Eu acho. – respondeu ela surpresa com a falta de agradecimento por parte dele.
- Eu mandei você partir. Vá tenente! É uma ordem! Aii!-McCormick continuou a reclamar da atitude de Allison e da dor na perna.
- Sem chance, SENHOR!- disse ela debochadamente – Pode me mandar para corte marcial, mas não vou deixá-lo aqui. Onde está o seu marcador?
- Eu o perdi.
Os dois lamentaram a má sorte e continuaram a se defender como podiam. Allison o arrastou para detrás de uma pedra para se protegerem melhor e responder ao fogo à altura. Mas parecia que estavam sendo cercados. Os tiros vinham de todos os lados. Quando parecia que não haveria mais como resistirem os tiros cessaram. Ouviu-se urros e alguns grunhidos. Um Jem ´Hadar apareceu defronte deles e quando ia disparar a queima roupa contra eles foi atingido pelas costas e caiu. Por detrás dele surgiu Vulpes e ele parecia sorrir.
- Eu os achei! – disse ele para alguém. Subitamente toda a área ao redor desapareceu e Allison e McCormick se viram de volta à bordo da Zênite sendo recepcionados por um sorridente e aliviado alferes Gilbert. Quase ao mesmo tempo Vulpes apareceu na Azimute.
Quando todos estavam à bordo, Klag deu a seguinte ordem.
- Senhores vamos garantir a nossa fuga. Fogo à vontade!
- Sim. Senhor! – Gilbert e Siro, cada qual em sua nave, confirmam a ordem e passam a atingir os caças Jem´Hadar no solo em um vôo rasante. Alguns foram atingidos quando estavam alçando vôo o que causou mais explosões no solo matando dezenas de soldados Jem´hadares. Infelizmente três já haviam decolado e se puseram no encalço deles. Pelo menos o campo de prisioneiros já era devido às explosões dos caças e da reserva de plasma de dobra.
A Azimute e a Zênite estavam sendo atacadas e tinham que se desviar para evitar muitos danos aos escudos.
- Aiii! – reclamava McCormick enquanto Allison cuidava de sua perna ferida.
- Você vai ficar bom, seu marciano maluco! A doutora T´Vel me treinou bem em primeiros socorros.
- Segurem-se aí atrás! Temos companhia! – avisou Gilbert enquanto pilotava e tentava desviar dos disparos dos caças inimigos.
A Azimute ficara um pouco para trás para dar fuga a sua nave-irmã.
- Vamos dar uma mãozinha para eles. – disse Siro preocupado com os companheiros. Klag estranhou a atitude do bajoriano que normalmente só pensava em si, mas Siro Lian era mais do que um agente especial da Frota ele era um maqui. – Lançando microtorpedos!
Um caça Jem´Hadar foi pego pela primeira salva de torpedos. Mais dois avançavam a toda velocidade. E o problema parecia que ia ficar pior.
- Tenho mais três entrando nos sensores! – avisa Gilbert.
- A gente não pode nem se divertir que logo querem acabar com a nossa festa. Executando manobras evasivas! – disse Allison.
- Esses lagartos não desistem? – reclamou Siro quando também viu em seus sensores que mais caças Jem´hadares surgiam.
- Vamos seguir com o plano, alferes. Siga para o espaço. A Albedo nos espera! – ordena Klag.
- E deixar nosso pessoal no meio do fogo? Negativo, SENHOR! Executando manobra delta-ômega-dois!
A Zênite girou em torno de seu próprio eixo e executou um mergulho no meio do fogo cruzado atraindo dois caças para si. Quase chegando ao solo arremeteu e lançou um torpedo fotônico que foi detonado antes de atingir o alvo. O deslocamento de ar e terra atrapalhou a navegação dos caças e os fizeram colidir um com o outro proporcionando uma bela explosão.
Klag e Vulpes ficaram perplexos enquanto Siro não tirava o sorriso do rosto. A adrenalina de uma batalha parecia ser o seu combustível.
A Azimute já estava a quase dois minutos do espaço quando Allison resolveu retornar para a atmosfera do planeta.
- O quê você está fazendo? – perguntou Gilbert ao seu lado.
- Sei que Klag e Siro podem se virar, mas não custa retribuir o favor. Além do mais eles estão com o “pacote”!
Gilbert olhou para o seu superior que era McCormick, mas ele fez uma cara como quem dizia: “Vai...Deixa ela...” Naquele momento a dor na sua perna voltava a incomodar fazendo ele desejar mais uma dose de codrazina.
A Azimute pegou um dos três caças que perseguiam a Zênite. Os outros dois romperam a formação de ataque e se afastaram para se reposicionarem quando viram a explosão perto deles. Mas estranhamente seguiram para o espaço. Pareciam estar fugindo.
- Agora vamos pegá-los! – regozijou-se Siro.
Pareciam que iam conseguir sair daquela missão sem problemas, todavia, quando chegaram ao espaço, uma nave de batalha e mais vinte caças Jem´Hadar os aguardavam. O sorriso que Siro esboçava desapareceu. Gilbert, na Azimute, exclamou: - Oh merda!
Somente um milagre os tiraria daquela enrascada pensou Siro Lian.
CAPITULO DEZOITO
O interior da nebulosa Jenkata era uma paisagem bonita, multicolorida. Porém escondia o real perigo iminente. Faltavam poucos metros para o pod, no qual a tenente-comandante Naomi Silva pilotava, agarrasse o cabo da sonda. Era uma manobra de precisão. Mas para quem estava acostumada a lidar com invólucros de plasma de dobra até que não era uma tarefa difícil de executar.
[Estou me aproximando do cabo. Vou tentar laçá-lo agora.] - disse Naomi para a ponte de comando da Albedo. Na nave todos estavam apreensivos. Um erro e todos iam fazer parte da nebulosa. Atomicamente falando.
A primeira tentativa de prender o cabo com a garra mecânica não deu resultado e provoca um frio na barriga de quem estava assistindo a tudo pela tela da ponte principalmente da tenente Kimberly Jones.
[Albedo...Vou fazer nova tentativa.]
- Estamos com você, chefe. Você consegue! – incentiva o capitão Alkon.
Naomi começou a suar frio. Todos dependiam dela e que executasse bem a tarefa senão...Mas por que ela estava insegura? Ela tinha sido a chefe de engenharia de uma nave estelar. Se ela não fosse capaz de fazer seu trabalho a nave já teria explodido há muito tempo. Respirou fundo e tentou mais uma vez. Desta vez ela foi certeira.
[Naomi para a Albedo. Cabo engatado! Começando o procedimento de resgate da sonda!]
- Yeah!! – gritaram na ponte comemorando.
- Entendido imediato. Prossiga com o resgate. Excelente trabalho Naomi! – elogia Alkon.
Lá fora Naomi sorri. Todo o seu medo se fora.
O longo cabo ligado a sonda começou a ser tracionado. Dois, quatro, seis quilômetros foram puxados.
Naomi recebeu mais uma comunicação da Albedo. Era Zagar.
[Tenente...Consegue captar os dados da sonda? Daqui só conseguimos captar interferência.]
- Aguarde. Não. Talvez quando ela estiver mais perto. Aguarde mais um pouco. Vou tentar ampliar a ação dos sensores.] - Naomi agacha e abre um painel abaixo do console de navegação para calibrar os sensores. Levanta-se e vê se seu trabalho foi eficiente.
- Albedo...Estou começando a captar algo. Vou ampliar a freqüência. A sonda está a dois mil metros e se aproximando. Ela aind está funcionando. Recuperando dados das últimas duas horas. Sonda fora da zona de perigo. Cabo a oitocentos metros.
[Ao atingir quinhentos metros tente acionar o seu raio trator.] - sugeriu Alkon.
- Sim senhor. Vou experimentar. Isso dará uma boa idéia do grau de interferência da nebulosa.
De repente um defeito no motor do guincho do pod fez com que a operação fosse interrompida. Naomi tentou destravar o cabo e recomeçar a tração, mas não teve sucesso.
- Albedo...Tenho um problema aqui. O motor do guincho pifou ou algo travou o cabo. Já fiz tudo que podia daqui de dentro. Acho que terei que fazer um passeio.
[Tentou o raio trator?] - perguntou McCormick com ansiedade.
- Já. Ainda tem muita interferência. A sonda está muito longe ainda e a potência do meu feixe de transporte não é muita. O pod não tem muita energia para ser desviada sem comprometer o suporte de vida. Não se preocupe, capitão. Não vou me demorar. Volto antes do jantar.
[Não tenente. Retorne com o pod. Tentaremos reboca-la com o nosso raio trator.] - Alkon se lembrou das palavras da doutora T´Vel de sempre tentar novas opções.
[Desligue os motores Naomi e aprecie o passeio. Sleek...Aproxime-se do pod e tente rebocá-lo. Brixx...Reforce a potência do raio trator. Tenente Jones...Transfira toda a energia que puder para o raio trator.]
A Albedo aproximou-se até trezentos metros do pod. O raio trator conseguiu vencer a interferência ambiente trazendo ele e a sonda para o hangar da nave. Quando Naomi saiu do pod o capitão Alkon, a tenente Rivera e a doutora T´Vel a esperavam. Esta foi logo usando o scanner médico pra procurar vestígios de algum tipo de radiação.
- Excelente trabalho, tenente. – cumprimentou o capitão mais uma vez. Mas Alkon podia sentir que Naomi estava contrariada. Ela aceitou os cumprimentos ainda vestindo o seu traje espacial.
- Deixe-me ajudá-la. – se prontificou Rivera em retirar o traje espacial.
- Obrigada. – agradeceu Naomi.
- Façam a análise dos dados da sonda e envie um relatório o mais rápido possível para a ponte. Temos uma hora para encontrar o nosso pessoal.
- Sim, senhor. – responderam Naomi e Rivera ao mesmo tempo.
Alkon retornou para a ponte pelo turboelevador junto com a doutora. Ele sentiu-se na obrigação de agradecê-la e se desculpar de sua rabugice.
- Desculpe se fui grosseiro com você antes. Seus conselhos sempre me são úteis.
- Não me sinto ofendida, mas aceito suas desculpas se o faz se sentir melhor.
- Naomi é uma ótima oficial e confio na sua capacidade. Nunca duvidei disso. – disse Alkon como querendo reafirmar suas convicções.
- Acredito. – respondeu a doutora.
A porta se abriu no deque dois e T´Vel complementou antes de sair:
- E eu nunca duvidei da sua.
A porta do turboelevador se fechou. Alkon sorriu. T´Vel era uma mulher incrível. Sabia lidar muito bem com os egos das pessoas.
De volta à ponte sua tranqüilidade foi posta à prova quando Brixx deu-lhe más notícias.
- Senhor... Acabamos de recuperar algumas imagens parciais da sonda. Isto é o que ela captou a cerca de uma hora. Um comboio de naves a dois mil quilômetros à frente.
- Ponha na tela. – ordenou Alkon.
Com alguma interferência podia-se ver uma dezena de naves cardassianas escoltadas por algumas naves Jem´Hadar.
- Caramba! – exclamou Zagar.
- Senhor...Para resgatar o nosso pessoal teremos que passar por eles. – alertou Brixx.
- Estou ciente disso, tenente. Preparar para sair da nebulosa. Sleek... Ache uma brecha entre as esferas. Aumentar a eficiência dos escudos. Alerta vermelho. Todos aos postos de batalha! Vamos torcer para não fazer muito barulho.
O reptóide Sleek era tão bom piloto quanto sua colega Allison Saint-John. Bem devagar começou a contornar as esferas que estavam à sua frente.
Todos na ponte ficam apreensivos e torcendo para tudo correr bem.
- Estamosss à quinhentos metrosss da borda da nebulosa. Trezentosss. Cem. Ssaindo da nebulosa, sssenhor – informou Sleek com o seu sibilar característico.
- Muito bem. Acionar camuflagem. Manter escudos e armas preparados. Trace uma trajetória por trás deles. Quando achar que eles não nos captaram acione dobra quatro em direção ao curso quatro-dois-cinco marco dois.
- Sim, sssenhor!
Alkon evita o conflito e ruma para resgatar seus oficiais. Ele sentia que eles estavam em dificuldades, mas não conseguia discernir pelo o que realmente estavam passando. Mas seus poderes empáticos lhe diziam para ele se apressar.
Entretanto quem chegaria primeiro seria a USS Protheus que, como num relâmpago, apareceu saindo de dobra atirando contra a nave de batalha Jem´Hadar. Reforçando o ataque estavam mais duas naves auxiliar tipo onze e uma tipo nove com grande poder de fogo. Era o milagre que Siro Lian esperava. E ele ficaria melhor ainda.
A classe Prometheus era uma nave experimental ainda. Só haviam duas em toda a Frota estelar e nem tinham sido comissionadas oficialmente. Se os testes em campo fossem favoráveis, em no máximo dois anos, elas seriam incorporadas de vez e os estaleiros teriam o sinal verde para construírem mais delas.
Com quatro naceles e um comprimento de 380 metros, a USS Protheus era um pouco menor que sua irmão gêmea: a USS Prometheus. Esta possuía 414m. O seu formato era esguio tendo a seção frontal em formato de seta; substituindo o velho design da seção disco. Em batalha a nave podia se dividir em três. Era o módulo multi-vetor. Uma recente inovação dos engenheiros da frota.
A capitão Sobieski não se fez de rogada para aumentar suas chances. Executou a manobra de separação da nave, o que impressionou tanto os inimigos quanto ao pessoal da Albedo.
- O que está havendo? – perguntava McCormick deitado no chão da nave auxiliar quando percebeu que Allison e Gilbert ficaram espantados com alguma coisa.
- É a USS Protheus, senhor. Ela veio nos ajudar. E está fazendo um ótimo trabalho! – Gilbert era só alegria.
McCormick se esforçou para ficar de pé e se aproximar da janela do cockpit. Quando viu três naves, que pareciam ter sido fatiadas, arrasando os caças dos Jem´Hadar.
A Zênite foi sacudida por disparos e acordou Allison do assombro da chegada da Protheus.
- Não podemos nos esquecer de fazer o nosso trabalho também. – relembrou Allison.
- Escudos a cinqüenta por cento!- reportou Gilbert preocupado.
- MANOBRAS EVASIVAS! – gritou McCormick com certo desespero.
- Aye, aye, capitan! – disse Allison com certo deboche. Era claro que ela iria executar uma manobra evasiva. “Quem ele quer ensinar a pilotar?” – pensou ela.
Não muito longe dali a Zênite também estava passando por maus bocados.
- Esses lagartos são mesmo casca grossa! Sem ofensas Vulpes! – diz Siro se desculpando com seu colega igualmente reptóide.
- Lançar microtorpedos! – ordenou Klag.
- Vai ser nossa última salva. Tem certeza? – Siro sempre discutia as ordens que recebia.
- Será que pode fazer o que eu mando pelo menos uma vez? – retrucou Klag já irritado.
- Você é o chefe. Lá vai!
A carga é disparada e três caças Jem´hadares são destruídos. Quase ao mesmo tempo uma transmissão de rádio é captada.
[Aqui é a nave auxiliar Eidotea da USS Protheus dando apoio. Fique a bombordo que os protegeremos. Seus escudos não estão nada bem.]
- Obrigado pela ajuda Eidotea. Aceitaremos com prazer. – responde Siro.
[Não há de quê senhores. Apertem o cinto por que ainda teremos certa “turbulência” no caminho.]
Na Azimute Gilbert estava preocupado com a integridade da nave quando constatou que se recebessem mais um ataque os escudos cairiam.
- Tente desviar energia para os escudos! – sugeria Allison.
- Já tentei!
- Deixa eu tentar...- diz McCormick se esforçando para arrastar sua perna até o painel de conduites.
A nave sacudiu mais uma vez. Eles não tinham mais escudos.
- Eu falei para Naomi...Esse negócio de holograma para camuflagem consome muita energia....Mas alguém me ouviu? Nãooo!
- Pare de resmungar Doug! Precisamos de escudos agora! – gritou Allison.
Três caças Jem´ Hadar se aproximavam e o desfecho daquele confronto não seria nada agradável. Pelo menos sob a óptica de Allison.
Um tiro atingiu a nacele direita e a nave rodopiou. McCormick caiu e não conseguiu fazer a transferência de energia a tempo.
- Liberar bancos phaser a toda potência! – gritava Allison com Gilbert.
- E como é que eu vou mirar? O controle de atitude já era! – respondeu o alferes desconsolado.
Para sorte deles uma outra nave auxiliar da Protheus viera ao socorro deles. Trinta microtorpedos quânticos e algumas rajadas de phaser tipo IV acabaram com as preocupações do pessoal da Azimute. Pelo menos momentaneamente.
[Aqui é a Tmolus. Tenente Kennet falando. Vocês ainda podem voar?]
- Não temos mais força de dobra, mas temos propulsão e perdemos o controle de atitude. Vamos parecer klingons bêbados.
[Pode deixar conosco. Desliguem os motores. Vamos rebocar vocês com o raio trator!]
- Mas você vai ficar muito exposto aos inimigos. – alerta Allison.
[Não se preocupem. Levarei vocês para fora da zona de combate]
- Este cara é muito confiante! – exclama McCormick com certo despeito.
- Bom já sabemos que ele é bom no que faz. Vamos dar um crédito à ele. – disse Allison com simpatia.
McCormick faz uma cara de ciúmes. Gilbert dá de ombros.
Enquanto isso Siro Lian não quis ficar fora da brincadeira continuava a abater naves inimigas.
- Não devemos nos expor. Precisamos chegar com o informante inteiro! – reclamava Klag. – Rume para uma área mais segura e deixe que a Protheus seja nosso escudo.
- E deixar toda a glória para eles? – reclamou Siro.
Klag não gostava de ter que falar duas vezes. Sua cara ficava mais assustadora com aquela maquiagem Jem´Hadar.
Siro afastou suas mãos do console de navegação, cruzou os braços por detrás da cabeça e deixou Klag pilotar. Ainda restavam cerca de seis naves inimigas que não davam trégua. A Eidotea e a Zênite tentavam se defender como podiam. A nave de batalha Jem´Hadar acabara de explodir e a Protheus estava manobrando para voltar a ser uma de novo.
Mas Klag não conseguia se desvencilhar de dois caças que estavam atrás dele. Siro parecia ter uma mórbida satisfação em ver a dificuldade de seu colega.
- Você vai ficar só olhando ou vai ajudar? – perguntou Klag finalmente.
- É uma ordem? Eu não quero infringir nenhum código da Frota que faça aumentar a minha pena.
- Zombar da morte pode ser muito perigoso. Você está se divertindo com a nossa desgraça? Vai comprometer toda a operação por orgulho? – confrontou Klag.
- Você é Klingon. Soube que vocês é que são uma raça muita orgulhosa.
- Urrrrghhh!! – rosnou Klag. – Está bem! Você quer que eu admita que fiz um mau julgamento? Nos leve até ao hangar da Protheus em segurança.
- Pode deixar, chefe! – Siro estava realmente se divertindo com a situação. Já estivera perto da morte várias vezes e não deixaria se intimidar agora. Assumiu o comando da nave e, com a sua destreza, traçou a rota mais segura. Mesmo assim teve que se livrar de dois caças com o último torpedo quântico. É claro, com um tiro de sorte. Quando estava a duzentos metros cortou os motores e pousou apenas com a força de inércia. Assim que pousou virou para Klag sorrindo. O klingon se limitou a apenas grunhir ao se levantar e ira para a parte de trás da nave.
- É...Vou tomar isto como um elogio. – resignou-se o bajoriano se recostando em seu assento e podo os pés sobre o console de navegação.
A Azimute, estava bem avariada e não seria fácil pousar. A Tmolus a conduzia com segurança até onde pode e os soltou na direção da Protheus para que pudesse protegê-los enquanto o raio trator, agora da nave-mãe, os apanhasse e os pusesse em segurança. Mas eles não contavam que dois caças Jem´Hadar, sabendo que a sua nave de batalha fora destruída e não tinham para onde voltar, rumaram na direção da Tmolus em uma rota suicida. Ao se chocar contra a nave auxiliar a onda da explosão interferiu no raio trator que conduzia a Azimute e esta seguiu sem rumo para o espaço bem na direção dos dois últimos caças Jem´Hadar. Provavelmente eles também teriam a mesma atitude que os seus colegas guerreiros. No interior da Azimute todos estavam perplexos. O suporte de vida estava no mínimo, mas eles não morreriam sem ar e de frio. Não tinham como se defender dos caças. Era o fim. A última coisa que Allison viu foram torpedos vindo em sua direção. A última coisa que sentiu foi McCormick segurar seus ombros por trás. A última coisa que ouviu foi: “Allie...Eu te amo!”
CAPITULO DEZENOVE
A USS Albedo tentava um contato em um canal sub-espacial seguro com a USS Protheus quando finalmente Zagar conseguiu a transmissão ela não era muito estável. Só conseguiram áudio.
[...ieski falando... Estamos a dezoito milhões de quilo... o pacote está segu...]
- Tente melhorar o sinal, Zagar. – ordenava o capitão.
- Estou fazendo o melhor senhor.- respondia o jovem oficial de comunicações.
- Capitão, a senhora está com o nosso pessoal?
Depois de alguns ruídos e a resposta veio:
[...firmativo, senhor. O informante também está à bordo. Quando...rrsssch.]
- Não entendi a última frase. Repita.
[Quando iremos nos encontrar?]
- Rume de volta para a base 375. Já a temos em nossos sensores e estaremos bem atrás de você.
[ Cuidado. Estamos em uma zona quente. Fomos obrigados a engajar contra o inimigo. Tivemos baixas e avarias. Fique alerta! O caminho deve estar espinhoso.] - a transmissão havia ficado melhor e Alkon agradeceu a Zagar acenando com a cabeça.
- Estamos cientes. Atenção a um comboio cardassiano à sua frente. Coordenadas...- Alkon fica esperando Brixx passa-las para ele. - ...Três, quatro, um , marco dois. Manteremos silêncio de rádio a partir de agora. Boa sorte. Albedo desliga.
Naomi estava preocupada. Ela ouvira a capitão Sobieski mencionar baixas. Quem teria perecido?
- Capitão, será que o nosso pessoal está inteiro? – perguntou a imediato.
- Eu não senti nada de ruim acontecendo com eles. Em breve saberemos. Fique tranqüila.
- Tentarei, senhor.
Uma comunicação surge pelo intercom.
[Tenente Rivera para a ponte.]
- Pode falar, tenente. – responde o capitão.
[Já conseguimos baixar todos os dados recuperáveis da sonda.]
- O que mais descobriu?
[As minas foram soltas por uma nave Jem´Hadar. Elas são feitas de uma liga metálica não conhecida e seu interior irradia muito calor. Semelhante ao plasma, senhor.]
- Bombas de plasma? Hummm...Algo interessante para se por no interior de nuvens com gases inflamáveis. Descobriu algum mecanismo de detonação?
[Não senhor. Mas provavelmente deve ser com a proximidade.]
- Parece que demos sorte. Bom trabalho tenente.
- Capitão...Mensagem criptografada chegando da USS Protheus. É do tenente Klag. Temos áudio e imagem. – informa Zagar.
- Na tela!
A imagem não era muito nítida, mas o som estava melhor do que a comunicação com a capitão Sobieski.
[Capitão... Estou enviando a mensagem criptografada em uma faixa sub-espacial de baixa modulação com interferência quântica. Isto pode prejudicar um pouco a sincronia do som com a imagem, mas evitará que a mensagem seja rastreada. Se tentarem só encontrarão radiação de fundo. Aconselhei a capitão Sobieski manter posição antes de atravessarmos a fenda. Precisamos conversar sobre o andamento da missão. Seguir para a base agora seria arriscado. Klag desliga.]
A transmissão cessou. Zagar fez um sinal que ele só tinha obtido aquilo.
Naomi e todos na ponte ficarão preocupados com que ouviram.
- Klag não teria todo este cuidado para enviar esta mensagem se não fosse realmente importante. – comentou Alkon.
- Ele é conhecido por ser cauteloso em suas ações. Alguma coisa não está certa. – concordou Naomi.
- Sleek...Rume até as coordenadas da Protheus. Impulso máximo! – ordenou o capitão Alkon.
Na USS Protheus...
Devido à batalha travada, um dos seguranças que estava na porta dos aposentos de Timothy Barinni, sofreu um ferimento na cabeça e fora levado pelo seu companheiro para a enfermaria, deixando o local desguarnecido.
Barinni aproveitou a chance e escapou de seu confinamento, uma vez que a porta de seu alojamento não estava trancada. Enquanto andava pelos corredores da nave pôde observar muitas avarias, focos de incêndio, gente ferida e outras nervosas em tentar fazer tudo ficar operacional o quanto antes.
Pelo que sabia a nave que chegara antes da batalha não poderia ser culpada por aquilo, pois havia sido bem recebida e não parecia ter grande poder de fogo. Se não foram eles quem seria o responsável por aquilo? Quem eram os ocupantes da nave misteriosa? Essas perguntas atiçavam a curiosidade jornalística de Barinni.
Ele resolveu entrar num duto de serviço e subir algumas escadas que levavam para os deques superiores. Saiu em algum lugar que não sabia bem onde. Esbarrou em alguns tripulantes que não o incomodaram pois estavam ocupados com alguma coisa a fazer e praticamente não o notaram. Entrou em uma sala por acaso e encontrou dois alienígenas que nunca vira antes.
- Quem são vocês? – perguntou Barinni.
- O que você quer aqui? – disse um deles.
- Perguntei primeiro. – disse o repórter.
- Nós somos convidados da capitão Sobieski. E você?
“Ah! Aqueles da nave misteriosa!” – pensou Barinni.
- Eu também sou um... – Barinni hesitou por um momento e completou a frase em seguida - convidado. Timothy Barinni é o meu nome. De que espécie vocês são? São do quadrante gama, não?
- Somos Karemma. Comerciantes.
- Karemma? Por acaso vocês fazem parte do Dominion?
- Sim...Não. Somos renegados. Eu sou Sajmar e este é meu associado Zaldro. Estamos aqui para pedir asilo à sua Federação.
- Asilo? Hummm....Que interessante! – Barinni parecia ter conseguido a sua história – Por que vocês querem asilo?
- Nosso povo é oprimido pelos Vorta e seus soldados que vocês já devem conhecer: os Jem´hadar!
Neste momento Barinni aciona um pequeno gravador em sua mão direita sem que os Karemma percebessem. Ele se senta defronte a eles para ouvir e gravar melhor a conversa.
- E por que acha que a Federação daria asilo para vocês?
- Informação. Temos informações importantes para a Federação e a Frota Estelar. Ela está criptografada em um cristal de dados que só pode ser acessado com o DNA de nosso chefe. – explica Zaldro sem nenhuma cerimônia.
- E depois que esta informação for fornecida o que garante que a Federação os protegerá? – instiga Barinni.
- Sabemos que os povos dirigentes da Federação honrarão o acordo. Ademais poderemos ajudá-los na guerra que está por vir montando um grupo de resistência dentro do Dominion. Não é só o nosso povo que está descontente com eles. – explica Sajmar.
- Sempre pensei que este Dominion fosse uma força difícil de se combater. Quase invencível, eu diria. Acha que o apoio da Frota Estelar será suficiente para o que vocês têm em mente?
- Se estamos vivos até agora é porque a capitão Sobieski demonstrou que há uma esperança. – responde Zaldro com confiança.
Neste momento a “entrevista” é interrompida pelo primeiro oficial O´Malley juntamente com dois guardas de segurança e surpreendem Barinni.
- O que o senhor está fazendo aqui? Deveria estar confinado em sua cabine. Estamos em uma situação de emergência.
- Fui dar apenas um passeio. As coisas que vi pelos corredores...Vocês estavam lutando contra quem?
- Não é da sua conta. Seguranças! Escoltem este homem de volta aos seus aposentos e certifiquem-se que ele não dê mais nenhum “passeio”.
- Um momento, comandante. Eu quero falar com a capitão. – exigiu Barinni ao tentar se livrar dos seguranças.
- Ela está ocupada no momento. Eu transmitirei à ela sua solicitação. Podem levá-lo! Mas antes...
O´Malley pegou a mão direita de Barinni que estava fechada e a abriu com força pegando o seu gravador. Ele sabia que o repórter escondia algo.
- Eu fico com isso!
- Mas isto é uma arbitrariedade! Este equipamento é de propriedade da INN o senhor não tem direito...
- Levem-no!
Barinni não teve alternativa. Foi carregado de volta até o alojamento com mais perguntas do que respostas.
- Desculpem o incomodo. Com licença! – diz O´Malley para os Karemma e se retira do aposento deixando os dois visitantes um pouco confusos. No corredor a capitão aparece e pergunta:
- Você pegou?
- Está aqui. – responde O´Malley mostrando o pequeno gravador. O mesmo que tinham visto pelas câmeras de segurança enquanto Barinni fazia sua entrevista; câmeras estas que foram acionadas assim que o curioso repórter havia entrado nos aposentos dos karemma,
- Parece que o senhor Barinni serviu a um propósito afinal. Nos poupou tempo em interrogá-los.
- Sim, mas me incomoda o fato deles serem tão colaboradores.- comenta o imediato um pouco desconfiado.
- Vamos escutar a gravação. Estes karemma podem estar dizendo mais nas entrelinhas.
Duas horas mais tarde...
O capitão Alkon era recepcionado na sala de reuniões da USS Protheus. Toda a sua equipe estava lá e bem, exceto por McCormick que usava uma tala na perna direita e uma tipóia apoiando seu braço esquerdo.
- Vocês estão bem? – perguntou à eles.
- Foi por pouco, mas vou sobreviver...- respondeu McCormick com bom humor. Ele, Allison e Gilbert foram resgatados por teletransporte momentos antes da Azimute explodir. Os outros se limitaram a anuir com a cabeça. Quem Alkon não esperava encontrar naquele recinto era...
- Elik!
- Olá capitão da Federação. Fico feliz que tenha se lembrado deste humilde servo. – disse o karemma que fora responsável pela tortura que quase matara Sarah Okaido.
- Ele é o informante que resgatamos, senhor! – esclareceu Klag o por que da sua preocupação quando pediu que o capitão os encontrasse.
- Ele? – Alkon parecia na ter se refeito da surpresa.
- Estes dois são seus ex-ajudantes: Sajmar e Zaldro. Foram eles que nos avisaram que seu grupo corria perigo. Se demorássemos mais um pouco a missão teria fracassado. – disse a capitão Sobieski.
- O que este...- Alkon se conteve - ...este ser tem de valioso para nós? Eles são aliados do Dominion! Da última vez que nos encontramos eles quase nos mataram. Ele torturou a minha equipe! – Alkon estava prestes a perder o controle, mas seu supressor cortical evitava que tivesse um colapso emocional.
- Sei como se sente, capitão. Mas da última vez, se bem me recordo, o senhor invadiu o meu laboratório, matou meus guardas e destruiu toda uma produção que levei meses para confeccionar. Apenas reagi em prol dos meus interesses. – contrapôs Elik.
- Interesses? Produzir uma droga para escravizar uma raça de guerreiros desenvolvida geneticamente para matar!
- O senhor tem o seu trabalho e eu tinha o meu.
- Sente-se, capitão. Temos muito o que conversar. – pediu Sobieski quando viu que o rumo da conversa não seria aquele que ela desejava.
- Estou bem de pé. – Alkon não estava confortável em ter que confrontar a pessoa que ele gostaria de matar.
- Como podemos confiar neles? Eles são tão traiçoeiros quanto os romulanos! – disse Alkon preconceituosamente.
- Eu arrisquei a minha vida para entrar em contato com vocês. Tenho informações valiosas sobre o Dominion que gostaria de compartilhar em troca de alguma consideração. – reclamou Elik.
- Você se arriscou? Nós nos arriscamos! Nós perdemos homens ao combater os Jem´Hadar para resgatá-lo daquela prisão! – desabafou a capitão Sobieski se deixando contaminar pelo calor da discussão.
- Olha...Eu sei que tiveram perdas. Eu tive perdas. Desde que vocês destruíram as minhas instalações que eu cai em desgraça. Meus superiores não ficaram nada satisfeitos. Não senhor. Eu perdi tudo. Isto acontece em uma guerra, não é? São perdas aceitáveis e... – Elik tenta expor seu ponto de vista.
- A perda de nenhuma vida é aceitável. Nós não somos peças de reposição como os Jem´Hadar que quando morre um, vocês fabricam outros. Nós temos uma alma! Afinal o que você têm de tão valioso para nós?
- Capitão, compreenda... Eu fui condenado à morte e tive que fugir. Fui caçado por todo o quadrante e antes de me render mandei meus antigos e fiéis empregados levarem uma mensagem para vocês avisando que estaria disposto a colaborar contra o Dominion. Mas já vi que o senhor não está disposto a me ouvir. Quando o senhor estiver mais calmo talvez possamos conversar novamente. – diz Elik se levantando.
Por mais que a capitão Sobieski odiasse ela tinha que concordar com o karemma.
- O´Malley...Escolte os nossos hóspedes de volta ao alojamento. – o imediato e braço direito da capitão acata a ordem. Antes de sair ele a olha como se dizendo: “Isto aqui não vai acabar bem”. O´Malley era um homem de meia idade, mas com um grande vigor físico. Ele havia sido instrutor de vôo de Ilyana na academia e ela lhe prometera que quando tivesse o comando de uma nave ela o chamaria para ser seu imediato. A promessa foi cumprida. A amizade dele era muito importante para Ilyana bem como seus conselhos. Ela não gostou do olhar dele. Dificilmente ele errava em seu julgamento.
Depois que os karemma se retiram Alkon finalmente se senta à mesa de reunião. Sobieski vai até ele e lhe faz um afago no ombro.
- Eu sei que vai ser difícil, mas você vai ter que colaborar. Nós precisamos da informação que ele tem.
- Você acredita neles? – perguntou Alkon.
- Acreditando ou não teremos que arriscar. – disse Sobieski.
- Na verdade devemos às nossas vidas à eles... – comenta Gilbert. – Se eles não tivessem avisado à capitão talvez não conseguíssemos retornar da missão. Uma nave de guerra Jem´hadar e vários caças nos aguardavam no meio do caminho.
- Parece que eu deveria agradecer à eles, não é? – diz o capitão com um falso sorriso estampado no rosto. Gilbert concorda, receoso, com a cabeça.
- Eles também informaram que os cardassianos estão se aliando ao Dominion e ajudando-os a minar o espaço para restringir a navegabilidade. Assim eles controlarão melhor os nossos passos. – informa Klag.
- Já pudemos perceber isso. Quase ficamos presos dentro de uma nebulosa. – acrescenta Alkon.
- Vocês disseram que estavam esperando vocês saírem do planetóide. Um lugar ermo que quando chegaram não tinha como serem detectados.
- O senhor acha que caímos em uma emboscada? – pergunta McCormick.
- Mas se assim foi por que eles deixaram que nos resgatassem? – perguntou Allison meio confusa.
- Para que a fuga de vocês fosse mais realista e endossasse a boa intenção dos nossos amigos karemma. – conclui Alkon.
- Pena. Achei que realmente os havia derrotado. Pensando agora, foi fácil demais! Eles realmente não estavam dando tudo de si. Droga! – reclama Siro.
- Então o Dominion queria que nós os tivéssemos? – pergunta Sobieski sem entender.
- Aparentemente sim. Eles pensam diferentemente de nós. Temos que sempre desconfiar de suas intenções. Por isso reagi como reagi ainda há pouco. A senhora está começando a lidar com eles agora, mas eu já tenho alguma experiência. Acredite quando falo que eles não são confiáveis. Sugiro mantê-los sob observação o tempo todo. – explica Alkon.
- A estratégia deles parece querer nos jogar prematuramente em um conflito. – Klag tentava entender a lógica do Dominion.
- Apesar de termos ordens de evitá-lo, mas acabaremos fazendo isto cedo ou tarde e eles nos pegarão despreparados. – conclui Alkon.
- Nós somos tosk. – diz Vulpes inesperadamente.
- Perdão? – Sobieski não entende o que o reptóide queria dizer.
- Tudo isto é um jogo de caça. A cada nova caçada eles aprendem mais sobre a caça e podem antecipar nossos movimentos. – explica Vulpes.
- Tudo isto é apenas um tipo de jogo de guerra? – a capitão Sobieski estava agora compreendendo a indignação de Alkon. Ele estava participando deste “joguinho” a mais tempo do que ela.
- O que eles disseram até agora? – pergunta Alkon.
Sobieski pede que aguarde um momento.
- Computador...Reproduzir gravação Barinni um.
O pessoal da Albedo passa a ouvir a conversa que Timothy Barinni tivera com os ajudantes de Elik.
Ao final da gravação Alkon pergunta:
- Quem é esse Barinni? É aquele do noticiário da Frota?
- Sim. Um clandestino. Eu o levei até a base 375 para de lá ele e sua família pegasse um transporte para Bajor. Parece que ele ouviu a nossa conversa sobre uma missão secreta e isto instigou seu espírito jornalístico.
- Este era outro motivo pelo qual queria que o senhor viesse. Nossa missão está comprometida. – alerta Klag.
- Mas vocês não o detectaram? – Alkon estava perplexo. A cada minuto era uma surpresa.
- Parece que ele soube fugir dos nossos sensores... Escute, capitão...Sei que houve uma falha de segurança e espero corrigi-la. Achei por bem informá-lo, pois o senhor é que está no comando desta missão e achei o ocorrido relevante.
- Desculpe, capitão. Não queria passar a impressão que a estava repreendendo-a Já estamos tensos demais com a atual situação. O quanto ele sabe, além do que já ouvimos?
- Pouco. Mas já é o suficiente para nos comprometer. Ele está confinado agora, mas eliminá-lo não é uma opção. A família dele deve estar procurando-o. Além disso ele é um repórter famoso da INN. Seu sumiço iria levantar suspeitas.
- Não penso em fazer ele sumir e sim o que ele sabe sobre nós. – explicou Alkon.
- Apagar sua memória? Creio que podemos fazer isso, mas pode causar algum dano colateral. – comentou Sobieski.
- Talvez a doutora T´Vel possa minimizar os danos. – sugeriu McCormick.
- Não sei se ela aceitaria. Isto é algo que vai de encontro aos seus princípios. – Alkon teve reservas quanto a idéia.
- Sua médica é uma vulcana, não? Convença-a que esta é a opção lógica a fazer. Ela poderia fazer uma união mental. Se utilizássemos métodos eletroquímicos não poderemos determinar as extensões dos danos à mente dele.
- Acho que é uma boa desculpa para começar a minha conversa com ela.
- E quanto aos Karemma, capitão? – relembra McCormick.
- Bom...Se quisermos saber o que tem naquele cristal de dados eu deverei me desculpar com Elik. – Alkon não estava gostando do que teria que fazer.
- Ou podemos pegar o DNA dele à força. – sugere Siro.
Todos olham para o bajoriano com reprovação.
- O quê? Eu só tou querendo ajudar. – se desculpa Siro.
- Serei mais diplomático quando encontrar-me com Elik. Vamos ver o que ele tem e depois nos reunimos novamente. Permissão para levar meus homens de volta a Albedo, capitão.
- Permissão concedida.
- Obrigado por tudo. – cumprimenta Sobieski com um aperto de mão.- Voltaremos a nos falar. Vou estudar melhor a nossa situação. Por enquanto sugiro que sigamos em impulso baixo para casa. Estaremos camuflados, mas por perto, caso vocês precisem de ajuda.
- Aguardarei sua comunicação, capitão.
Alkon sai da sala de reunião com sua equipe. Enquanto caminham até a comporta de atracação.Klag, sem pedir permissão, começa a alertar o capitão sobre outro perigo
- Ainda teremos que passar pelas naves cardassianas que estão à frente.
- E pelas minas. – lembra McCormick.
- Uma coisa de cada vez, senhores. – acalma Alkon os temores de seus oficiais.
- Será que os cardassianos estariam dispostos a destruir o tratado que fizeram com a Federação? – pergunta Allison.
- Eles são destruidores por natureza, garota. Um tratado não é nada para eles. – diz Siro com amargura.
- Só saberemos quando tivermos que passar por eles. – afirma Alkon.
- É tenente e não “garota”, senhor. –McCormick ensina ao bajoriano ter mais respeito pela hierarquia da frota.
Siro abre os braços como se desculpando pelo seu erro.
Sozinha em seu gabinete a capitão Ilyana Sobieski recosta-se na cadeira para relaxar um pouco.
- Computador...Billie Holiday ...Toque “Easy living”.
A capitão fechou os olhos e começou a apreciar a suave melodia. Ela não saberia se teria uma nova oportunidade para tal no futuro que a aguardava.
CAPITULO VINTE
Na USS Albedo - Enfermaria...
- Isto não será possível. – retrucou T´Vel.
- Parece não haver outro meio mais seguro. A senhora é médica. Diga-me se há outra opção? – perguntou o capitão Alkon.
Os dois ficaram se olhando por alguns segundos. Estavam sozinhos na enfermaria e T´Vel resolveu romper o protocolo de comando sendo bastante direta com o seu capitão.
- O senhor ainda me recrimina por eu ter apontado suas reservas quanto à Naomi e agora quer me por contra a parede também?
- Achei que tivéssemos superado isto. Não é o caso. Estamos no meio de uma crise. O pessoal médico da capitão Sobieski alegou que outros meios poderiam até matá-lo. Só estou aqui para ouvir uma segunda opinião. Com o pouco que este jornalista sabe poderá comprometer toda a operação secreta contra o Dominion. Não podemos correr o risco de sermos expostos. Agora... Se a senhora não pode fazê-lo, deixarei o procedimento à cargo da capitão Sobieski.
- Você não sabe o que está me pedindo... – diz T´Vel tentando ponderar com o capitão.
- Sei. Que salve a vida de um repórter famoso e proteja o nosso segredo.
- Não é só isso que está em jogo.
- Não? O que mais estaria?
- Você também é um telepata experiente e sabe dos riscos de uma união mental. Compreende que, quando unimos nossa mente a de outro, nós passamos a fazer parte, para sempre, desta mente. E eu, ultimamente, tenho lembranças demais fazendo parte da minha.
- Você se refere àqueles exercícios de controle mental que fez comigo? Você assegurou-me que seria uma união superficial...
- E foram, mas mesmo assim algo é compartilhado. Além disso...
- O quê? Já sei! Você receia em compartilhar a mente com um estranho. Sei que os vulcanos são avessos a isso. Compreendo. Não quero obrigá-la a fazer algo que possa constrangê-la. Me desculpe. – Alkon já ia se retirando da enfermaria quando T´Vel voltou a falar.
- Para fazer o que me pede precisaríamos de um sacerdote ou sacerdotisa vulcana para executar o ritual de Fullara.
- Fullara?
- Este ritual reprime a lembrança de um fato ou emoções não desejáveis.
- Eu pensei que fosse algo que todo vulcano fosse capaz de fazê-lo.
-Tem certas coisas que não aprendemos na escola. O senhor nos superestima.
- É...Então eu errei em procurá-la. Obrigado mesmo assim. – Alkon ia saindo novamente quando T´Vel, mais uma vez, chamou-lhe atenção.
- Contudo...
- Sim? – Alkon era todo ouvidos.
- Capitão...O que vou dizer-lhe deve ser extremamente confidencial. É algo muito difícil para mim...
- Claro, comandante. Pode confiar em mim.
- Há muitos anos atrás eu fui enviada para o santuário do Monte Seleya, por motivos que não vem ao caso agora, para uma vida de serviço ao próximo e em busca do Kholinar.
- Você foi uma...freira?
- Mais precisamente uma aprendiz de sacerdotisa. Mas descobri que não tinha vocação e abandonei o santuário. Algumas técnicas que aprendi eu uso em meus pacientes. Como a que fiz em você. Mas executar o Fullara seria...
- Uma heresia?
- Uma pretensão eu diria. Só escolheria esta opção em último caso, mas não posso me responsabilizar que obteremos o resultado desejado.
- Então voltamos a estaca zero.
- Não exatamente. Posso tentar acessar a memória do nosso paciente com a nossa tecnologia. Nossos recursos e banco de dados médicos é o maior que existe. Creio que nem a nau capitânea tem um igual neste momento. Se puder acessar seu hipotálamo poderei identificar a formação de engramas de memória formados recentemente e apagá-los.
- Isto é mesmo possível? Por que não me disse logo? Por que teve que revelar um segredo seu tão íntimo?
- Gosto de dar sempre opções ao meu capitão. Para esclarecer sobre a segunda opção logicamente tive que revelar um pouco de mim.
- Você é ... Uma pessoa incrível, sabia? – Alkon se sentia honrado em T´Vel ter lhe confiado parte de seu passado misterioso. Apesar de conhecê-la a quase três anos pouco sabia dela além do pouco que constava em sua ficha. Nem a idade dela ele sabia. Pois os vulcanos não gostam de revelá-la para não-humanos.
- Entenda que mesmo esta técnica nunca havia sido tentada antes. Posso apenas estimar um sucesso de oitenta por cento.
- Está ótimo para mim. Acho que resolvemos este problema... E, doutora? – Alkon se volta para T´Vel antes de sair em definitivo. – O seu segredo está bem guardado comigo.
- Obrigado, capitão.
- Não há de quê.
Ao ver o capitão ir embora com um pouco de seus segredos T´Vel se sente mais aliviada. Depois de tanto tempo ela parecia ter encontrado uma pessoa em que ela podia confiar. E Alkon era a pessoa que ela mais respeitava e admirava na nave. Se algum dia tiver a oportunidade ela compartilharia seus medos também.
Ponte de comando.
- Estamos nos aproximando da fenda espacial. Detectando o bloqueio cardassiano à frente. Uma nave classe Galor, uma nave classe Keldon e mais seis naves patrulha classe Barkus. Não há naves Jem´Hadares no perímetro.– informa Klag.
- Pelo menos não que possamos ver. – comenta Naomi receosamente. Neste momento Alkon entra na ponte.
- Capitão na ponte! – alerta Klag. Naomi cede a cadeira. Todos ficam em posição de sentido.
- A seus postos. – ordena o capitão. – Situação?
- Naves cardassianas detectadas. – informa Naomi prontamente.
- Nos viram?
- Não senhor, mas não podemos dizer o mesmo da Protheus. – diz Naomi preocupada.
- Parada total. Condição da camuflagem?
- Agüentando, senhor. - informa Klag.
- Zagar...Mande mensagem encriptada para a Protheus manter a posição.
- Sim senhor. – confirma o elaysiano.
- O que estes caras querem? Só podem estar brincando conosco... – comenta Allison do console de navegação.
- Podemos evocar o tratado. – alerta Brixx que estava, momentaneamente, no posto do oficial científico, mas se portava ainda como o adido militar do almirante Ross.
- Com todo o respeito, capitão...- Klag olha com reprovação para Brixx antes de completar seu pensamento. – Se eles estivessem preocupados com o tratado não estariam realizando o bloqueio.
- Isto é verdade, capitão. Creio que devemos considerar que este ato rompe o nosso tratado com eles. – concorda Naomi.
- O que me incomoda é não saber se essa é uma posição oficial do governo cardassiano ou eles representam apenas uma facção. Não vamos nos precipitar. O show agora é da Protheus, senhores. – o argumento capitão também era válido.
- Zagar...Conseguiu fazer com que ela recebesse a mensagem? – perguntou Alkon ao seu oficial de comunicações.
- Sim, senhor. Parece que ela mandou uma mensagem de volta. Estou decodificando. Só áudio, senhor.
- Vamos ouvi-la. – diz Alkon
Os alto falantes da ponte reproduzem a mensagem que era curta e quase inaudível.
- rsss...Aguardando instruções...rsss...
- Repasse a seguinte mensagem: Romper – Bloqueio – Enviar pacotes para nós – Coordenadas enviadas - Escudos abaixados nos próximos 10 minutos por 10 segundos – Boa Sorte.
- Senhor, teremos que nos descamuflar para recebê-los. – lembra Klag como seu oficial tático.
- Eu sei. Vamos torcer para que não nos vejam. Se virem vão pensar em ser um reflexo da Protheus.
- Um reflexo pequeno. – brinca Allison, pois a Protheus era bem maior que uma nave classe desbravadora como a Albedo.
- Não se preocupe tenente, mesmo que nos percebam mudaremos de posição quando estivermos camuflados. Além do mais eles irão se preocupar muito mais com o que eles podem ver. – diz Alkon apaziguando os temores de sua piloto.
- Que assim seja e os anjos digam amém! – reza Naomi.
- Vamos nos portar como meros espectadores. Só entraremos em batalha se a Protheus correr sérios riscos. Caso contrário, aproveitaremos a ocasião para passar pelo bloqueio com os nossos convidados.
- Mensagem recebida, senhor. A capitão Sobieski agradece e se encaminha para o ponto de encontro. – informa Zagar.
- Klag...Prepare um grupo de segurança para receber os nossos hóspedes. O repórter deve ser levado imediatamente à enfermaria. Zagar...Avise a doutora para receber um paciente. – Alkon levanta-se de sua cadeira e começa a andar pela ponte com uma postura pensativa. Para defronte a tela principal e fica a observar a aproximação da Protheus. Naomi se aproxima dele.
- Senhor...O que será que aqueles karemma podem nos dizer de tão valioso?
- Posições estratégicas do Dominion no quadrante gamma. Não espero nada menos.
- O senhor não acha que eles nos dariam tudo isso só em troca de asilo político, acha?
- Não. Sinto que Elik exala falsidade. Vou confrontá-lo sem o meu supressor quando ele estiver na ala de detenção. Aí veremos.
Os dois ficam aguardando a chegada dos visitantes.
Deque Três
Klag havia convocado Siro Lian, Vulpes e o alferes William Birmington para receber os karemma e o repórter Timothy Barinni na sala de transportes dois, que era no mesmo deque da enfermaria. O klingon aproveitou para ter uma conversa com o bajoriano assim que este se apresentou à ele.
- Não quero nenhuma atitude impensada quando eles chegarem. Apenas os conduza até a ala de detenção. Sem conversa.
- Por que tanta recomendação? Quando é que tive reações intempestivas? – ironiza Siro.
- Sempre! Não pense que esqueci do seu comportamento durante a missão de resgate.
- Se fui tão desobediente assim por que você não informou ao capitão sobre a minha conduta? – desafiou o bajoriano.
- Não vi necessidade de incomodá-lo com este fato. Ele tem outras coisas mais importantes para resolver. Além do mais eu acho que posso lidar com os homens sob meu comando.
- Ah! Você não quis demonstrar fraqueza perante o seu capitão...Entendo. Coisa de klingon. – Siro era incorrigível. Klag estava demonstrando seu apoio, é claro que do jeito dele, e o bajoriano ficava de deboche. Klag estava a ponto de mandar Siro também para a ala de detenção quando o técnico de transporte Tobuki anunciou que um transporte estava em andamento.
Assim que os três se materializaram foram rendidos pela equipe de segurança e Klag informou a ponte da chegada deles.
[Positivo, senhor Klag. Assim que eles estiverem alojados retorne à ponte.] - ordenou o capitão.
Momentos depois na ala de detenção...
Alkon apareceu para falar com Elik e segurava na mão o cristal de dados que foi encontrado com seus ajudantes karemma.
- Ah! Capitão Alkon! Veio retomar a nossa conversa? – disse Elik ao vê-lo ladeado por dois oficiais de segurança.
- Sim. Creio que não fui muito tolerante com você da última vez.
- Nada como a necessidade para nos fazer mudar de ponto de vista, não? Você veio por causa da informação que tenho. Estou correto?
- Correto. Minhas ordens são para dar-lhe proteção em troca desta informação. Como já fiz a minha parte...- Alkon tentou sondar a mente de Elik e não conseguia captar nada além de uma certa desconfiança. Não podia censura-lo por isso. O sentimento era mútuo.
- Estou vendo. – Elik ironizou ao olhar para a sua situação. Detido dentro de uma cela com campo de força.
- Então? – Alkon estava esperando um pouco de colaboração.
- A Federação vai considerar o nosso pedido de asilo?
- Farei com que eles aceitem. Enquanto isso iremos zelar pela segurança de vocês mantendo-os em local secreto.
- Espero que não seja em nenhuma prisão.
- Não será. Sua atual condição é temporária. Eu prometo.
- Vocês querem saber primeiro se podem confiar em mim, não é?
- O que você chama de desconfiança. Nós chamamos de diplomacia.
- Pois bem. Para acessar a informação você precisará de um decodificador que se encontra na nave de meus ajudantes. Próximo ao console de navegação existe um compartimento com um pouco do meu sangue. Coloque uma gota de sangue no cristal, espere um minuto, coloque no decodificador e depois faça uma interface com o computador de sua nave. A informação sobre planos de ataque dos Jem´Hadar, localização de bases, rotas de suprimento...Está tudo lá!
- Por que você faz isso? – perguntou Alkon ainda desconfiado. Tentou uma abordagem mais direta já que sua sondagem mental não havia obtido o resultado esperado.
- Já disse. Vingança. Terei mais a ganhar estando do lado de vocês.
- Obrigado pela informação. Iremos verificar. Mais tarde voltaremos a nos falar. – Alkon se retirou acompanhado de um dos seguranças que ficou montando guarda do lado de fora da ala de detenção.
O capitão toca em seu distintivo e pergunta:
- Naomi...Você ouviu tudo?
[Sim, senhor. Já estamos à caminho da nave deles.]
- Estou indo para a ponte com o cristal de dados e o deixarei com Zagar. Alkon desliga.
Dentro da cela Elik retira um dispositivo debaixo de seu cabelo. Era um bloqueador mental. Ele estava preparado para Alkon desta vez. Conversa com seus comparsas.
- Preparem-se!
- Quanto tempo ele levará para acessar o cristal? – pergunta Zaldro.
- Teremos o nosso sinal. Vocês trouxeram?
Sajmar retira também uma cápsula debaixo de seu cabelo. Zaldro retira uma haste de metal debaixo da sola de eu sapato. Entregam os objetos para Elik que os une sem que o guarda que estava de sentinela visse. Disfarçadamente apóia o dispositivo próximo a grade de energia que gruda magneticamente e volta a se sentar tranqüilamente como se nada tivesse feito.
Na ponte de comando Alkon espera por Naomi e quando esta chega nota que carregava um pequeno dispositivo.
- Eles falaram a verdade, senhor. – diz ela.
- Então faça a conecção. – ordenou Alkon.
Naomi pegou o cristal de dados com Zagar e pingou sobre ele uma gota de sangue de um pequeno frasco que carregava.
- Será que isto vai funcionar? – perguntava o jovem elaysiano.
- Seu sangue deve ter uma enzima que agirá como desbloqueadora de uma tranca química. Já tinha ouvido falar nisto, mas é a primeira vez que vejo uma. – explica Naomi. Em seguida ela encaixa o cristal no dispositivo cúbico que cabia na palma de sua mão. Ele era um pouco transparente e de cor amarelada. Conectou um cabo óptico a ele e ao terminal de comunicações.
- Deve funcionar em instantes... – disse Naomi esperançosa.
Por dois minutos nada aconteceu. Alkon estava visivelmente impaciente. Klag, Brixx, Zagar e Allison olhavam ansiosos na expectativa de que aquela missão tivesse valido à pena.
De repente no monitor do console de comunicações inscrições em uma língua desconhecida e imagens começaram a aparecer em grande velocidade. Provavelmente a informação estava compactada e o computador da nave a estava “desembrulhando”. Naomi e Zagar sorriram para o capitão. Alkon sentiu, por um momento, alívio. Mas subitamente a energia da nave caiu e a ponte ficou sem luz. Luzes de emergência foram acionadas. Um alerta de segurança foi disparado. Klag, do seu posto táctico, verificou o motivo e não gostou do que viu.
- Senhor...O alerta veio da ala de detenção. Parece que os nossos prisioneiros escaparam.
- Como?
- Ainda não sei ao certo, senhor. Os sistemas estão falhando.
- Engenharia? – Alkon tentou a comunicação, mas ninguém respondeu.
- Vá investigar. Dê o alerta geral na nave. Naomi vá com ele e veja o que pode fazer da engenharia. Klag...Capture-os vivos se puder.
- Sim senhor.
Alkon fica irritado em ter confiado em Elik e seus ajudantes. Deveria ter confiado mais em seus instintos. O que aqueles karemma estariam tramando? De repente ele lembra das palavras de Elik respondendo a sua pergunta: “Vingança”. Alkon soca a palma da mão com raiva.Ele odiava ser passado para trás.
CAPITULO VINTE UM
Na USS Protheus...
O imediato de Sobiesky olhou-a esperando uma atitude. Uma sensata.
- Senhor O´Malley vamos continuar o nosso curso para a fenda espacial em dobra dois. Todas as estações fiquem em alerta.
Não era bem isso que O´Malley esperava ouvir, mas mesmo assim respeitou sua decisão : - Sim, senhora. Dobra dois. Alerta em todas as estações! – repete as ordens.
Um oficial do tático informa:
- Estamos sendo contatados, capitão.
- Ponha na tela. – disse ela.
[Nave da Federação...O caminho para a fenda espacial está proibido. Mudem a sua rota imediatamente!]
- Aqui é a capitão Ilyana Sobieski da USS Protheus. Com quem eu estou falando?
[Gul Baren, nave Venkara, classe Keldon.]
-Gul Baren... Esta passagem está sob a jurisdição do governo de Bajor. Não vejo o motivo pelo qual o governo cardassiano impediria naves da Federação de cruzá-la.
[Nós não deixamos de reconhecer a jurisdição de Bajor à passagem da fenda para o quadrante gama, mas deste lado Bajor não possui jurisdição alguma.]
- O senhor está me dizendo que podemos vir para o quadrante gama pela fenda, mas não podemos voltar por ela? Isto é um absurdo! Levaríamos anos para a viagem de volta!
[Não é problema meu. Tenha uma boa viagem!] - o comandante cardassiano desliga na cara de Sobieski. Ela não gosta nada disso.
- Mas que petulante! Chame-o de volta!
- Eles não respondem, capitão.
- Ah, não? Querem briga? Pois bem. A hora da diplomacia acabou. Ativar sistemas de armas. Erguer escudos. Senhor O´Malley assuma a ponte de batalha dois. Senhor Cassidy assuma a ponte de batalha três. Talvez precisemos nos separar novamente.
- Sim senhora! – respondem o primeiro oficial e o oficial tático. Ao saírem da ponte são logo substituídos por outros dois oficiais.
- Nave cardassiana está no chamando, senhora. – informa o novo oficial do tático.
- Ah! Agora querem conversar, não é? Que esperem. Quero ver o que vão fazer.
O bip no painel de comunicações fica tocando por quase um minuto até que Sobieski decide responder.
- Sim? – pergunta com a cara mais cínica do universo.
[Que parte da mensagem anterior a senhora não entendeu, capitão?A fenda está fechada para o quadrante alfa. Estamos apenas protegendo nossos interesses como também o povo de Bajor de acordo com o tratado assinado recentemente com eles. Tratado este que eles rejeitaram assinar com vocês.]
- Meu caro Gul Baren...Bajor recusou-se assinar um tratado de adesão à Federação, mas ainda é um mundo amigo e nós ainda somos seus convidados até que sua situação política esteja consolidada. Enquanto isto não mudar eu ainda vejo a fenda espacial aberta para mim.
[Se a senhora insistir neste curso teremos que abrir fogo. Compreende a sua situação?]
- Perfeitamente. Devo apenas lembrá-lo que a Federação e Cardássia também possuem um tratado que parece que o senhor está desconsiderando. Se Cardássia não pretende mais honrá-lo devo informar ao alto conselho da Federação esta novidade. – Sobieski nota uma certa hesitação no semblante de Baren. Ele olha para trás como se alguém o estivesse coagindo a tomar aquela atitude. Ilyana tenta persuadi-lo mais uma vez:
- Não sei o que está levando agir desta forma. Se pretendem obter alguma vantagem servindo ao Dominion creio que estão se enganando. O Dominion não têm aliados e sim escravos.
Gul Baren fica desconcertado com as palavras do capitão. Como ela sabia da aliança secreta? Antes que possa retrucar Sobieski pede que corte a comunicação. Ela se sentia vingada.
- Capitão... Captando flutuações de energia próxima a nave cardassiana. Detectando surgimento de naves...São naves Jem´Hadar! Cinco...Dez...Quinze...Vinte...
Sobieski corre até o console tático para certificar da informação.
- São trinta caças Jem´Hadar e estão se movendo. Parecem estar nos cercando! As naves cardassianas permanecem onde estão.– informa um assustado jovem oficial.
A capitão voltou a se sentar. Trinta caças Jem´Hadar e oito naves cardassianas. Mesmo que se dividisse não tinha certeza se poderia dar conta do recado. Ainda tinha a preocupação de proteger a passagem da Albedo. Ilyana começou a reconsiderar seu plano de ataque.
- Parada total! Desativar armas! Manter escudos!
- Sim senhora! – respondeu o oficial tático substituto um pouco surpreso com a ordem.
Aquela situação parecia um beco sem saída. Digna de um cenário de treinamento no simulador de comando da academia. Mesmo com todo o seu poder de fogo não havia garantias que poderia furar o bloqueio. Poderia tentar, mas de certo os danos à sua nave e a perda de vidas seriam certas. Ilyana ficou vislumbrando possíveis táticas que lhe pudesse dar uma saída, pelo menos honrosa, desta enrascada. Infelizmente nada lhe ocorria à mente senão o confronto direto. Quando estava preste a dar a derradeira ordem eis que algo inesperado acontece.
Uma pequena nave surgiu da fenda espacial e atirou contra os caças Jem´Hadar atraindo o fogo para ela. Logo foi seguida por pelo menos dez dos caças e destruiu pelo menos seis antes de ser também destruída. Ilyana ia dar a ordem de abrir fogo também quando mais naves surgiram pela fenda. Era a quinta frota! A USS Baldwin, classe Miranda; USS Fitzgerald, classe Sovereign; USS Potomac; classe Cheyenne. Era a cavalaria! Haviam chegado bem na hora!
-Atenção senhores...Engajar! Fogo à vontade!
Os caças Jem´Hadar não esperavam por isso e foram facilmente dominados. As naves cardassianas começaram a atirar mais para se protegerem e em seguida fizeram uma retirada estratégica pela fenda.
Enquanto isso na Albedo...
Alkon estava as voltas com falhas nos sistemas da nave, porém pôde ver quando a quinta frota apareceu e pôs os “caras maus” para correr. Como eles sabiam que estavam em perigo? Por hora isto não importava e sim o timing. Eles estavam lá na hora certa. O melhor é que a Albedo não precisou entrar em batalha. Ainda bem, dada às circunstâncias.
- Já encontraram o problema? – perguntou Alkon para Zagar.
- Não senhor. As comunicações internas e externas caíram. Podemos usar o comunicador dos distintivos. – explica o oficial de comunicações.
- Parece que o transporte e os sintetizadores também não funcionam. – informa a tenente Jones.
- Por Tholta! Alkon para Klag...Já encontrou os fugitivos?
[Ainda não, senhor. Estamos chegando a ala de detenção.]
- Mantenha-me informado.
[Sim, senhor!]
- Consegui restabelecer comunicações com o exterior utilizando subrotinas seguras. Parece que estamos enfrentando um vírus, senhor. – informa Zagar.
- Um vírus? Malditos karemma! Quando eu pegar aquele Elik... – Alkon fica praguejando enquanto uma mensagem surge na tela.
- O que é isso?
- Desculpe, senhor. Está no automático.- disse Zagar meio sem graça.
Era a imagem do almirante Ross. Um pouco desfocada. Ao lado dele estava o comandante Bennett.
[Espero...todos bem. Qual a sua situação, capi...?] - disse o almirante com certa falha no áudio da mensagem.
- Inteiros. Graças à vocês.
[Viemos o mais rápido que podemos assim que recebemos o seu sinal de socorro.] - a comunicação estava mais audível muito embora a imagem não tivesse em foco ainda. Alkon olhou para Zagar, mas ele estava se esforçando para contornar os problemas que o vírus karemma causara nos sistemas da nave.
- Pedido de socorro? Creio ter havido algum engano. Não enviamos nenhum pedido de socorro. – Alkon não estava entendo como poderiam ter enviado tal mensagem.
- Sim. Enviamos. – a voz vinha detrás da cadeira do capitão. Alkon se volta e vê Brixx se aproximar.
- Eu enviei a mensagem assim que detectamos o bloqueio cardassiano. Sei que passei do meu limite e não respeitei a hierarquia à bordo. Mas eu tinha ordens do almirante de avisá-lo caso a missão estivesse seriamente comprometida. Estou pronto para receber qualquer reprimenda pelo meu ato.
Alkon voltou a se irritar. Como se já não bastasse os Jem´Hadar, os karemma, agora teria que se preocupar em ser traído pelo seu próprio pessoal.
- Senhor Gilbert...Confine o senhor Brixx ao alojamento dele. Conversaremos sobre isto depois.
Gilbert cumpre a ordem, porém não consegue acessar o turboelevador. Outra pane nos sistemas.
O almirante Ross nota as dificuldades na ponte que estava com luzes de emergência.
[O que está havendo, capitão Alkon?]
- Eu também gostaria de saber, senhor. – Alkon estava desorientado. Preso em sua própria ponte de comando. Não era uma cena que gostaria que seu superior visse.
- Parece que temos um vírus em nosso computador central implantado pelos karemma que trouxemos à bordo. Estamos tentando contornar o problema.
[Mantenha-nos informado de sua situação. Iremos escoltá-lo de volta para casa. A Protheus ficará mais próxima de vocês. Não hesite em recorrer à ela. Ross desliga.]
Alkon omitiu que os karemma estavam à solta em sua nave e sabe lá o que estavam planejando contra ele. Esperava resolver este problema também antes que sua humilhação se tornasse completa.
CAPITULO VINTE E DOIS
Alguns momentos atrás...
Barinni estava em uma bio-med com tela de contenção sendo examinado por uma médica vulcana.
- Por que estou aqui? – perguntou o repórter.
- Talvez seja porque queira saber demais.
- Onde estou? Aqui não é a Protheus, é?
- Fique quieto até que eu termine de examina-lo.
- Para que está fazendo estes exames?
- O senhor não desiste, não é mesmo?
- Estou sendo mantido prisioneiro. Vocês serão acusados de me manter em cárcere privado. Eu sou um repórter da INN! Eu tenho direito a um advogado!
- Escute aqui, senhor repórter! Se o senhor não se calar terei que sedá-lo. Quanto aos seus direitos... Eles foram revogados assim que o senhor se infiltrou em uma nave da Federação sem autorização. O senhor é acusado de espionagem e pode ser condenado a uma sentença que vai de cinco a dez anos em uma colônia penal,se o juiz for bonzinho. Como violou um segredo militar uma prisão perpétua pode ser considerada. Mas posso dar-lhe uma alternativa.
- E qual seria?
- Supressão de memória. Devolveremos você ao seu local de origem e todas as acusações serão retiradas.
- Você diz...Apagar a minha memória? Isto é um absurdo!
- O senhor escolhe. Sei que o senhor tem uma família e uma carreira, eu li em sua ficha. Se quiser tê-las de volta é só escolher entre perder a memória ou arriscar em ficar o reto dos seus dias em uma prisão.
Barinni fica pensativo por um momento. No que ele havia se metido? O que tanto a Frota estelar queria esconder do grande público?
-Doutora...Esse negócio vai doer?
-Se doer você não saberá. – T´Vel estava tentando tranqüilizar seu paciente com o seu humor sarcático.
- Isto é um procedimento seguro? Que garantias a senhora me dá?
- Nenhuma. Tenha em mente que este procedimento será a sua salva-guarda para sair desta encrenca limpo. – T´Vel começa a separar o material cirúrgico.
- A senhora já fez isto antes? – Barinni estava compreensivelmente apreensivo.
- Não. Nunca. – os vulcanos tinham o hábito de nunca mentirem. – Mas não se preocupe. As chances de tudo dar certo são muito boas. Ademais teremos uma ajuda muito qualificada. Computador...Ativar H.M.E. .
A imagem do doutor holográfico aparece falando a sua frase de inicialização padrão.
- Favor informar a natureza da emergência médica...Oh, doutora T´Vel, é um prazer revê-la.
- De onde ele veio? – Barinni ficava cada vez mais apreensivo.
- Ele é um médico holográfico. È experimental, mas é bastante eficiente em seu ofício.
- Acho que estamos navegando demais no campo experimental por aqui. Não sei se estou pronto para ser cobaia. – Barinni tenta sair da cama, mas recebe um choque da tela energética de contenção. Ele estava desesperado.
- Do que ele está falando? – perguntou o doutor Hime.
- Não há razão para pânico, senhor Barinni. Enquanto o senhor pondera obre o que devemos fazer eu vou comunicar ao meu colega aqui o procedimento cirúrgico.- T´Vel se afasta para conversar com o doutor. Barinni começa a rezar até que as luzes se apagam e luzes de emergência se acendam. O programa do HME foi afetado fazendo a imagem do doutor falhar para em seguida reaparecer.
- O que foi isso? – perguntou o doutor tentando se recompor do susto.
- Parece que estamos com algum problema. Vou falar com o capitão. – T´Vel tenta usar o seu comunicador, mas não consegue fazer contato. – As comunicações foram interrompidas! – a médica-chefe fica preocupada. Algo de muito sério estava ocorrendo.
A grade de segurança que mantinha Barinni sobre a bio-med também havia se desligado. Ele então aproveitou a situação para pular da cama. Apanhou um frasco de amostras e quebrou-o para usa-lo como uma arma.
- Afastem-se de mim. Eu vou sair daqui e denunciar todos vocês! – Barinni anda de costas em direção à porta. T´Vel e o doutor nada podem fazer. Porém, ele não nota que, quando a porta se abre, Klag estava bem atrás dele. Ao encostar no klingon ele se assusta e se vira. Atônito fica sem ação até que T´Vel rapidamente se aproxima e aplica-lhe uma pinça vulcana no pescoço.
- Ajude-me a levá-lo de volta para cama. – diz T´Vel para Klag.
- A senhora está bem? – pergunta o klingon enquanto ajuda a doutora a carregar o repórter.
- Sim. O que está havendo? – perguntou a médica.
- Alguns prisioneiros fugiram e estão, de alguma forma, sabotando os sistemas da nave.
- Prisioneiros? Por que não fui informada?
- A senhora terá que perguntar ao capitão. Deixarei um guarda aqui com a senhora e continuarei com as buscas, com licença. – Klag passa pelo doutor holográfico ignorando a sua presença.
- Doutora T´Vel...Por acaso estou invisível? – pergunta o doutor.
- Não. Por que a pergunta?
- Aquele klingon passou por mim como se eu fosse uma peça de decoração! – o doutor estava indignado.
- Acho que a tripulação ainda não está acostumada a interagir com hologramas com I.A. avançada como o senhor. Até pouco tempo os hologramas serviam apenas como personagens de programas de entretenimento ou de treinamento no holo-deck. Daí para serem membros efetivos de uma tripulação...
- Entendo. Creio que devo discutir este protocolo com o capitão.
- Isto pode esperar. Primeiro devemos cuidar de nosso amigo aqui.
- Ah, sim. Analisei os dados que me forneceu. Acho esta situação bastante irônica.
- Irônica? Explique.
- Nós estamos aqui querendo apagar engramas de memória deste humano enquanto um avatar meu está na base 375 querendo recuperar engramas de outro humano. Não é engraçado?
T´Vel teve que concordar com o doutor. Como a sua amiga Sarah estaria se saindo?
Klag e sua equipe chegam a ala de detenção. Ele logo nota no chão o guarda que deveria estar de sentinela. Ele se abaixou para verificar a condição dele. Era o alferes Flax, um benzariano. Ele estava morto. Procurou logo informar ao capitão.
- Klag para a ponte. Estão me ouvindo?
[Sim.Consertamos o defeito. Pode falar.]- era a voz de Zagar.
- Capitão...Estou na ala de detenção. Flax está morto. Parece ter havido uma explosão na grade de contenção da cela dos karemma. Eles fugiram e levaram um phaser do guarda.
Alkon ficou mais irritado do que triste.
[ Entendido, tenente. Encontre-os e impeça-os de causarem mais problemas.]
- Sim, senhor.- Klag estava também chateado pelo o que aconteceu a um dos membros de sua equipe de segurança. Lembrou que o alferes era um dos seus mais aplicados alunos nas aulas de defesa pessoal.
- Senhor...- chamou por ele um dos guardas de segurança.
Klag se ergueu e saiu da ala de detenção em direção ao corredor. Lá o guarda mostrou que um painel, que dava acesso ao corredor de manutenção, estava aberto. Ele mostrou também o que seu scanner havia captado ao sondar o perímetro.
- Encontramos três sinais nos dutos E-6, G-15 e H-2, senhor.
-Bom trabalho, tenente. – congratulou Klag pela eficiência de seu comandado. Era algo que ele havia aprendido com os humanos. Elogiar a performance aumentava a eficiência. Klag então raciocinou que os dutos referidos iam para lugares chaves na nave. O E ficava no convés cinco onde havia os comandos para o controle de vôo e o armazenamento de torpedos; o G ficava no convés sete que levava à engenharia e a câmara do reator de dobra; e o H ficava no convés oito onde se localizava os emissores de phaser, raio trator e os sistemas de ejeção do núcleo de dobra e anti-matéria. Aqueles caras sabiam aonde ir e em breve imobilizaria a Albedo tornando-a uma presa fácil. Ele precisaria detê-los o quanto antes.
Naomi, ao ouviu a mensagem de Klag, e se apressou em direção à engenharia.
Klag seguiu o corredor de manutenção paralelo ao corredor principal até chegar aos dutos e dividiu a sua equipe de quatro pessoas. Um subiu, outro ficou e dois seguiram em frente. Klag desceu pela escada de serviço dois deques abaixo. Ouviu barulho de um maçarico laser e viu uma luz estranha sendo emanada de um dos dutos de manutenção. Era um dos Karemma danificando as conexões do controle de vôo. Klag atingiu o intruso com dois tiros de phaser até ele tombar. Era Zaldro.
- Aqui é Klag. Peguei um no convés cinco danificando o controle de vôo.
[Ótimo! Tire estes desgraçados daí!]- disse Alkon da ponte. Ele pressentia um perigo maior onde vidas poderiam ser perdidas. Isto lhe causou muita angústia.
Gilbert ainda esperava em pé atrás dele, segurando Brixx pelo braço, o que fazer com o boliano.
- Retornem aos seus postos. Resolveremos isto depois. Algo me diz que precisaremos de toda ajuda possível. Zagar...Encontre McCormick e mande-o vir até aqui. Ele sabe como combater um vírus de computador como ninguém.
- Sim, senhor.
A tenente Naomi Silva estava quase chegando na engenharia e lembrou que a sua substituta e amiga, a tenente Rivera e seus assistentes estariam em perigo. Assim que chegou encontrou a porta de acesso bloqueada. Uma fumaça característica saía debaixo dela. Ao sentir o cheiro confirmou ser o gás refrigerador do núcleo de dobra que estava vazando. Acionou o seu comunicador.
- Carmem? Você está me ouvindo? Carmem?
Ela tentou acessar o painel do controle manual das travas da porta. O computador a alertou.
[Travas de proteção acionadas devido ao vazamento de gás de refrigeração do núcleo de dobra. Destravamento acarretará em perigo para todo o convés.]
- Computador...Anular travas de segurança. Silva Echo-Tango–Dois– Quatro-Delta-Cinco.
[Destravamento das travas de segurança nestas condições necessitam de um segundo código de liberação de um oficial do comando.]
Naomi deu um grito de frustração.Em um momento de desespero ela atirou nos controles manuais com o seu phaser. Atirou na porta. Uma, duas, três vezes. Não houve efeito. Chutou a porta com raiva. Recostou-se nela e caiu em prantos. Não havia nada que pudesse fazer por eles.
CAPITULO VINTE E TRÊS
Como uma aparição Zagar surgiu, usando seu teleportador pessoal, nos aposentos de McCormick, que dormia alheio à confusão que a nave estava passando. A doutora T´Vel havia lhe dado um sedativo e mandado repousar desde que ele reclamara de dor na perna direita que fora ferida durante o ataque ao campo de prisioneiros do Dominion..
- Sr.McCormick! O capitão precisa de você!
- O quê? – McCormick ainda estava sonolento e não entendendo que invasão era aquela em seu quarto.
- O computador principal está com um vírus e o capitão quer que você o retire do sistema! – tentava explicar Zagar.
- O computador está com o quê? – McCormick tentava acordar e entender o que seu companheiro da ponte estava dizendo.
Zagar perdeu a paciência. Digitou algo em seus controles de teleporte em seu bracelete e abraçou McCormick. Segundos depois os dois estavam na ponte. McCormick caiu ao chão assim que Zagar o soltou.
- Mack! Veja o computador. Um vírus está danificando os sistemas primários da nave e daqui à pouco afetará o suporte de vida. _ disse o capitão assim que o viu.
O oficial de ciências se ergueu com a ajuda de Gilbert e Brixx e foi levado até a sua estação. Ajeitou seu ombro esquerdo, que ainda doía e pôs-se a analisar o invasor do computador.
- Ahh...Hummm...É este aqui é muito esperto. Retiro de um arquivo e ele se transfere para outro. Vou ter que bloquear alguns caminhos à frente para encurralá-lo antes de pegá-lo. – comenta McCormick.
- Faça isto! – ordenou Alkon.
- Outros sistemas da nave poderão ser desligados no processo. Como as comunicações, chuveiros sônicos... – alertou McCormick.
- Poderão ser reativados depois? – perguntou o capitão.
- Sim. – respondeu McCormick com simplicidade. Alkon então fez uma cara dizendo: “Prossiga”.
Lá fora, no espaço, todas as naves da Federação já haviam voltado pela fenda espacial exceto a Protheus, que aguardava uma resposta da Albedo que tudo estava bem.
- Eles não respondem, senhora. – informou o oficial de comunicações.
- Estranho...Não há mais necessidade de silêncio de rádio. O almirante Ross havia falado que eles estavam com um pequeno problema e que era para darmos assistência à eles caso fosse necessário. Continue tentando falar com eles. – disse Sobieski.
- Madame...Estou captando altas concentrações de anti-matéria se formando a dois mil quilômetros à ré. Vem da Albedo! – informou o oficial do tático.
- Anti-matéria? Será rompimento do núcleo de dobra? Eles não engajaram em nenhuma briga tão grande assim! O que está acontecendo? Ofereça ajuda à eles!
- Estou tentando senhora, mas eles devem estar com algum problema com as comunicações. Não consigo fazer contato. – dizia o oficial de comunicações se desculpando.
- Reverter curso. Vamos emparelhar com ela. Alerta às salas de transporte. Talvez precisemos realizar uma evacuação de emergência.
- Sim senhora!
A USS Protheus desvia da abertura da fenda espacial e voa em socorro da USS Albedo sem saber ao certo o que poderia fazer.
Na Albedo Klag encontra Naomi sentada e chorando segurando um phaser na mão em frente a porta que dá acesso à engenharia.
- Tenente, o que houve? – pergunta o klingon.
- Eles...Eles...Eles estão todos mortos! – responde ela em meio a soluços e lágrimas.
Klag vê as manchas de phaser na porta, o resíduo de gás de refrigeração que ainda saia por debaixo dela, e entende o que havia ocorrido.
- Levem-na para a enfermaria – diz Klag a um dos oficiais de segurança que o acompanhava – Klag para o capitão Alkon. Um dos Karemma chegou à engenharia e destruiu os refrigeradores do núcleo de dobra. A antimatéria poderá atingir a massa crítica em poucos minutos.
[Houve tempo para evacuação? O pessoal da engenharia está bem?] - perguntou Alkon preocupado com o bem estar da sua tripulação.
- Acredito que eles não conseguiram, senhor. – respondeu Klag taxativamente.
[Podemos ejetar o núcleo?]
- Podemos fazê-lo pelo duto de serviço, mas um deles já está lá. Não sei se chegaremos a tempo. Sugiro evacuar a nave. – Klag não estava nada esperançoso.
[Não será necessário!] . A voz de Siro Lian foi ouvida por todos pelos comunicadores.
[Eu peguei o safado! Avise a doutora que não haverá necessidade de seus serviços. Economizei tempo e medicamentos da Frota para ela. O Tosk está atrás do outro. Creio que o senhor poderá acessar a ejeção do núcleo da ponte...- escutou-se um ruído de algo soltando faíscas. Siro estava consertando o estrago que o karemma Sajmar havia feito. - ...agora!]
Alkon não pensou duas vezes e ejetou núcleo. Este gesto quase destruiu a Protheus que desviou na última hora, não sem antes ser atingida pela onda da explosão.
- Mas que diabos!- exclamou Sobieski quando viu a explosão da ponte e sentiu a sua nave ser projetada na direção oposta.
Na Albedo Elik fugia desesperadamente do Tosk até que conseguiu chegar em um casulo de fuga e se trancar.
Vulpes, o Tosk, não conseguiu abrir a comporta e ficou frustrado quando o casulo se desprendeu da nave. Reportou-se ao comando.
- Aqui é Vulpes. Estou no convés oito. Elik escapou em um casulo de fuga.
Alkon escutou a má notícia e ficou irritado. Não tinha propulsão para persegui-lo, nem teletransporte, nem raio trator para pegá-lo de volta. Até mesmo a Protheus que poderia ajudá-lo estava com dificuldades e mesmo se pudesse ele estava sem comunicações externas. “Maldito Dominion!”; pensou Alkon.
- Vulpes...Pegue uma nave auxiliar e vá atrás dele. Quero este desgraçado de volta!
[Sim, senhor!] - o Tosk correu para o hangar.
Sleek, que havia assumido o posto tático, deu mais uma má notícia.
- SSSenhor...Nave sse dessclamuflando a frente!
Era uma nave de guerra Jem´Haddar, uma das grandes. Ela pegou o casulo de fuga em um feixe de transporte e desapareceu logo em seguida.
Alkon cerrou os dentes de raiva quando viu a cena na tela da ponte. Teve que dar o braço a torcer.
- Vulpes...Abandonar a missão. Vá para a engenharia. Precisaremos de toda ajuda por lá.
- Consegui!!! – gritou McCormick de alegria. Consegui encurralar o vírus. Basicamente o prendi dentro de um armário. Só tem um problema...
Alkon já estava se acostumando a ouvir isso.
- Qual? – perguntou o capitão.
- Tranquei o vírus no mesmo sistema que controla o fluxo de água para as cabines. Nada que o pessoal da engenharia não possa resolver.
- Acho que a higiene será o menor dos nossos problemas. – comentou Alkon com certa tristeza.
- Senhor...O tenente Klag informa que estão restabelecendo as condições atmosféricas e de radiação na engenharia. Solicita uma equipe médica no local. – informa Zagar.
Alkon sabia que uma equipe médica só poderia constatar o óbvio e recolher o que restara dos tripulantes para reconhecimento de DNA. Ele se levantou e fez um sinal para que o seu oficial de comunicações contatasse a enfermaria. Parou frente ao boliano Brixx e antes de dizer algo Zagar comunicou novamente que recebera outra mensagem. Desta vez viera de fora da nave.
- Senhor... É Elik, senhor.
Alkon se virou e caminhou até o meio do passadiço e disse secamente:
- Ponha na tela!
A imagem do Karemma preenchia toda a tela e esboçava um sorriso vitorioso.
[Caro capitão da Federação. Pena o meu pequeno jogo não ter dado certo, mas entenda...Fui incumbido pelos meus contratadores de punir vocês pelo que nos fizeram. Vocês nos causaram muitos prejuízos. Poderia destruí-los agora que estão indefesos, mas não seria uma luta justa não? Vocês humanos dão muito valor a justiça, honra e misericórdia. Entenda o meu gesto como um gesto de boa vontade. O Dominion não os quer deste lado da fenda e faremos de tudo par mantê-los longe. Tomem cuidado se eles forem para o quadrante alfa não terão a mesma misericórdia que demonstrei hoje. E que também não terei em nosso próximo encontro.]
A tela se apagou e Alkon socou o braço de sua cadeira. Não se incomodou em mostrar seu descontrole. Naquela hora, se pudesse, teria estrangulado Elik.
Toda aquela missão tinha sido arquitetada pelo Dominion para destruir ou capturar a sua nave. Foram manipulados desde o início. Mais uma vez. Havia espiões em toda parte. Em quem ele poderia confiar?
Na nave Jem´Hadar Dorth, o vorta, ordenava que desligassem o projetor holográfico.
- Por que se disfarçar desta criatura desprezível? – perguntava a companheira vorta Kelian olhando para o karemma ajoelhado na ponte de comando sob a mira de dois soldados Jem´Hadar.
- Para manter nossas identidades secretas, minha querida Kelian. Você viu a cara do humano? Ele ficou furioso por Elik ter escapado dele. – disse Dorth como se tudo fosse uma grande brincadeira.
- Ele ainda deve estar achando que todo o plano foi arquitetado por este pobre coitado. – comenta Kelian com desprezo.
- Senhor... Senhora...Eu fiz tudo o que me mandaram fazer para me redimir de minha falha. – disse Elik em tom de clemência.
- Sem choro, por favor...Eu sei que se esforçou. Pena que não foi o bastante. – Dorth faz um sinal para o soldado Jem´Hadar que vaporiza o karemma em meio a gritos de súplica.
- Esta Federação está se tornando um transtorno. Os Fundadores ficarão desapontados por não termos capturado esta nave experimental. – comenta Kelian com o companheiro.
- Isto é verdade. Você viu a outra nave? Se divide em três! Eles são tão inventivos!
- Você perde tempo demais com eles com os seus jogos.
- Mas assim conseguimos conhecer melhor as suas fraquezas. Este capitão Alkon...Poderá ser uma aquisição valorosa se conseguirmos atraí-lo para o nosso lado.
- Sabemos que eles podem ser manipulados. Soube do que os Fundadores fizeram com o pessoal da estação nove?
- Vi os relatórios. No final aquele Fundador renegado estragou tudo. Ele pode desequilibrar a balança do poder no quadrante gama e alfa.
- Estamos proibidos de tentar algo contra ele. Os Fundadores ainda tem esperança de trazê-lo para o nosso lado.
- Esperanças...Tudo se resume a isso, não?
- E o que faremos com o capitão Alkon e o pessoal da base estelar 375?
- Agiremos quando estivermos fortes o bastante. Nosso acordo com Cardássia está se concretizando e outros irão aderir ao Dominion em breve. Nossos agentes estão semeando intrigas dentro dos demais governos As espécies dominantes do quadrante alfa possuem uma tendência de serem extremamente paranóicas e vamos explorar isso. Se tivermos sorte eles se destruirão sozinhos.
O capitão Alkon e o pessoal da base 375 também estão sendo vigiados de perto. Não tardaremos em encontrá-los em batalha novamente.
- Dorth, às vezes tenho medo de você e seu intelecto. – diz Kelian.
- Nada que cinco gerações de clonagem não tenha aperfeiçoado, querida. Primeiro...-diz se dirigindo a um Jem´Hadar – Rume para casa.
A imagem do casal Vorta abraçados contrastava com a maldade que eles eram capazes de proporcionar.
Alkon não sabia que eles eram seus verdadeiros inimigos e isto dificultaria a vitória da Federação naquele quadrante.
EPÍLOGO
Base 375 – Um dia depois.
O convés panorâmico estava repleto de oficiais em traje de gala para o funeral dos tripulantes da Protheus e da Albedo. Naomi não parava de chorar e se culpar pela morte de seus companheiros. A música fúnebre foi tocada e em seguida o almirante Ross deu a ordem para ejetarem os oito caixões. Dois deles estavam vazios e representavam os oficiais da Protheus que morreram na destruição da nave auxiliar Tmolus ao proteger a Azimute. Os outros seis eram os oficiais da engenharia e da segurança da Albedo que pereceram no ardil dos karemma.
O capitão Dorian Alkon estava com uma expressão séria e seus amigos mais próximos diriam que seu semblante jovial desaparecera desde que assumira a missão no quadrante gamma. Ao fim da cerimônia Alkon foi consolar a sua atual imediato. Abraçou-a fraternalmente.
- Eu sei que é difícil, Naomi, mas temos que reagir e seguir adiante.
- Eu sei, capitão...Ela...Ela queria voltar para casa...Para o marido...Sem falar em Crispen, Hill, Silveira e Porto. Eles eram tão jovens... Eles só estavam lá porque eu pedi à Carmem que aumentasse o efetivo...Se a comandante não estivesse impedida de assumir Carmem nem viria nesta missão por ser casada. O senhor sabia que ela planejava ter um filho? Ela era tão cheia de sonhos...- Naomi não parava de falar em meio aos soluços tentava encontrar uma justificativa para aquela guerra sem sentido.
- Não se culpe. Não faça isso com você. Entenda que não foi sua culpa. O verdadeiro culpado está lá fora e qualquer dia desses nós os encontraremos e faremos justiça.
- Sabe, capitão...Ela falou comigo que estava irritada por ser um joguete nas mãos da Frota, mas que se sentia honrada em exercer o seu dever. Ela foi um fantasma até o final. Quanto tempo teremos que continuar sendo fantasmas, senhor? Até quando seremos privados do contato de nossos entes queridos? O marido dela não tem direito de saber o que houve com ela?
Alkon se comoveu com as palavras de Naomi e também derramou algumas lágrimas. Ele a abraçou fortemente mais uma vez e se despediu enxugando as suas lágrimas e as dela do rosto. Respirou fundo e se dirigiu até o comandante da base com determinação. Encarou o almirante Ross e disse:
- Preciso falar com o senhor.
- Agora? Estamos no meio de uma cerimônia...
- A cerimônia acabou! – Alkon não estava com muita paciência. Puxou o almirante pelo braço levando-o para o canto do salão. Este pediu aos seguranças que os deixassem sozinhos.
- Precisamos rever a Operação Fantasma.
- Capitão Alkon...Agora não é o local e o momento adequados...
- É um momento tão bom quanto outro.
- Entendo que o senhor está afetado pela perda de seu pessoal e não vou considerar o tom de sua voz uma insubordinação.
-TOM? QUE TOM? – Alkon falou mais alto para que todos ouvissem. – Qual o tom necessário para que o senhor compreenda que está mandando homens e mulheres para missões suicidas? Missões que o inimigo já conhece antes delas começarem! Eu gostaria de saber a quem me reportar...À Federação e aos princípios que jurei defender, á Seção 31 ou ao maldito Dominion? A quem o senhor serve, almirante?
Todos no salão ficam em silêncio olhando para os dois. O tenente Kobler chegou por trás de Alkon para retirá-lo do recinto e segurou seu braço esquerdo. Alkon retirou seu supressor cortical com a mão direita e lançou uma onda mental em Kobler que o largou quase instantaneamente. O tenente segurou sua cabeça demonstrando sentir dor e foi arremessado para longe. Alguns guardas de segurança apontaram phasers para Alkon. Ele , com apenas um olhar, colocou-s em sobrecarga. Nesta altura o almirante Ross resolveu intervir.
- Chega, capitão. Já demonstrou seu ponto de vista. Vocês...Abaixem as armas. Isto não é necessário. Capitão?
Alkon se acalmou e os phasers voltaram ao normal.
- Vamos até o meu gabinete. Lá poderemos conversar civilizadamente. Alkon concordou. No escritório do almirante a conversa prosseguiu.
- Pronto, capitão. Tem minha total atenção. Pode fazer suas queixas. Eu li seu relatório e sei do fracasso da missão. Vocês perderam o nosso informante.
- A missão já estava fracassada mesmo antes de partirmos. Fomos feito de bobo. Eu e você. Toda aquela história de informante foi uma história inventada pelo inimigo para atrair minha nave para uma emboscada. Elik nunca foi um informante. Ele queria se vingar pela destruição de seu laboratório de ketracel-white no ano passado.
- Mas a seção 31 me garantiu...
- O problema de vocês da inteligência é confiar mais num chip de mensagem do que nos próprios instintos. Somos nós que estamos arriscando os nossos rabos lá senhor! Pelo que vimos não podemos confiar em ninguém. A minha tripulação está no limite. O estresse de não poder contatar suas famílias está afetando o desempenho deles. Às vezes sinto em suas mentes que desejariam se amotinar.
- E por que não o fizeram?
- Por que eles aprenderam a agir em equipe. Confiam um no outro e acima de tudo confiam em mim. E eu os estou mandando para morte sem saber ao certo por que.
- O senhor está questionando as ordens da Frota e do Conselho da Federação?
- Acho que eles estão perdendo a perspectiva senhor. O pânico está tomando conta deles. Creio que é hora de reformular a estratégia. Temos que rever este negócio de nos considerar desaparecidos para cometermos ações que não pareçam ter sido aprovadas pela Federação. O inimigo nos conhece. Não há mais nada a esconder.
- Isto não é tão simples assim, capitão. Isto envolve a política de vários mundos. Não posso decidir por todos. Isto tem que seguir canais competentes. Tem o Conselho Militar...
- O senhor quer os canais competentes? Pois bem. Irei à imprensa e denunciarei toda esta operação clandestina em que estivemos envolvidos nos últimos dois anos.
- O senhor não ousaria!
- Eu posso até ser desacreditado, mas creio que o barulho que a imprensa irá fazer vai incomodar muita gente. Como os Klingons e os Romulanos.
- Capitão o senhor não sabe o que está dizendo. Não faça nada que possa se arrepender depois. Arruinaria a sua carreira e a dos seus homens. É isto que quer?
- Eu quero que eles possam ter uma chance de continuarem vivos. De saberem pelo o que realmente estão lutando. Em que o Dominion realmente ameaça à Federação.
- O senhor sabe que se fizer isto pode encurtar a sua vida drasticamente.
- É uma ameaça, senhor?
- É um aviso. De um amigo. Compreenda...Eu também sou pressionado o tempo todo. Pensa que gosto do resultado destas missões? Que me divirto em cerimônias fúnebres?
- Quem o está pressionando, senhor?
- Não posso dizer...
Alkon sabia que poderia ter escutas naquela sala e que o almirante não queria se comprometer. Então Alkon sondou a mente de Ross e percebeu o medo que dela emanava. Também leu um nome: Sloan!
Alkon serenou e sentou-se. Ele já vira aquele nome antes quando investigou a Seção 31 assim que começou trabalhar para eles. Luther Sloan era um operativo do alto escalão da seção 31. Nada mais sabia sobre ele. Seu arquivo era extremamente secreto. Já foi trabalhoso descobrir o seu nome associado à divisão secreta da inteligência da Frota.
- Eu compreendo- disse ele confirmando que recebera a mensagem que Ross queria revelar-lhe. – E quanto ao tenente Brixx? Acatará meu pedido de corte marcial?
- Não.Acho um exagero de sua parte, capitão. Ele estava agindo estritamente sob ordens superiores. Minhas ordens. Ele deveria nos avisar no caso de perigo extremo. Não podíamos nos dar o luxo de perder uma nave na qual investimos tanto. Ele apenas cumpriu com o seu dever.
- O senhor entende que a permanência dele à bordo da minha nave afetaria minha autoridade.- contrapõe Alkon.
- Entendo perfeitamente. Constará na ficha dele uma reprimenda por desacato e ele cumprirá uma semana de detenção. Como ele não era um membro efetivo de sua nave, mas apenas um observador da missão, será transferido imediatamente para realizar serviços burocráticos na base. Está bem assim?
- Perfeitamente, senhor.
- Quanto ao seu pedido a respeito da condição da sua nave...Não posso garantir nada , mas encaminharei o pedido aos canais competentes.
- Eu apreciaria muito, senhor. Desculpe-me pelo meu comportamento anterior.
- Desculpas aceitas. O mesmo não posso dizer pelo tenente Kobler.
- Desculparei-me com ele também quando encontrá-lo.
Alkon fez uma reverência respeitosa ao almirante o escritório encontrou Brixx na ante-sala esperando por ele. Alkon o encarou e, reconsiderando seus sentimentos por ele, disse sem rodeios:
- Admiro a lealdade em uma pessoa e sei reconhecer quando um soldado sabe cumprir ordens. Se você pensa em trabalhar comigo no futuro terá que saber o que é sentir em fazer parte de uma equipe. E ao fazê-lo terá que responder somente a mim. Estamos entendidos?
- Perfeitamente, senhor.
- Sei que você sente que, de alguma forma, eu fui o culpado pela morte de seu primo, uma vez que ele morreu sob o meu comando. De certa forma você está certo. Sou responsável por cada vida à bordo da minha nave. Este é o fardo de um capitão. Tive que conviver com isso na época como terei que conviver com as vidas que perdemos nesta missão. Acredite que Borix morreu acreditando estar servindo da melhor maneira à Frota Estelar. Você deve se orgulhar dele como eu orgulhei-me em tê-lo sob meu comando um dia.- Alkon se aproximou , pôs a mão no ombro do tenente boliano e continuou:
- Se você quiser honrá-lo apresente-se a mim assim que o almirante liberá-lo. Não teria nenhum problema em comissionar novamente um boliano na Albedo.
- Seria uma honra, capitão. E capitão...Perdoe-me pelo meu pré-julgamento. O senhor é um bom líder e um bom capitão. – Brixx dizia as palavras com sinceridade e deixava as mágoas de lado. Nesta missão ele aprendeu a admirar e respeitar Alkon desfazendo a má impressão que tinha dele.
Alkon sorriu e saiu do gabinete do almirante Ross. No corredor, Klag, McCormick e Allison estavam esperando-o.
- Tudo correu bem, capitão? – perguntou Allison.
- Diria que sim. Estou mais relaxado. É bom exorcizar os fantasmas de vez em quando. – Alkon riu da própria piada.
- Estes fantasmas aqui ficaram preocupados com o senhor depois daquela...- McCormick não encontrava a palavra apesar da sua memória perfeita.
- Explosão emocional. – completou Klag.
- Obrigado pela preocupação, senhores, mas foi necessário. Não suportei ver Naomi chorando e não gosto de ver caixões de oficiais da Frota; principalmente se estiveram sob o meu comando.
- Compreendemos e compartilhamos da mesma dor capitão. – disse Allison tomando a liberdade de segurar a mão do capitão.
- Obrigado. Agora descansem. E o você...Sr.McCormick, cuide destes ferimentos! – Alkon retomou o caminho pelo corredor e foi acompanhado pelos seus oficiais.
- A doutora T´Vel me disse que estarei bem em uma semana. – McCormick estava com uma tipóia no braço e usava uma bengala.
- Na verdade teremos bastante tempo para nos concentrar em outras tarefas. A Albedo ficará no estaleiro pelo próximo mês pelo menos. – disse Allison.
- Ela ficou bem danificada realmente. Como aqueles Karemma conseguiram nos causar tantos danos? – perguntou Alkon.
Klag se viu na obrigação de responder. Afinal ele era o chefe de segurança.
- Minhas investigações iniciais mostram que eles portavam algum tipo de explosivo, que não foi detectado pelos sensores do transporte, e usaram para fugir da detenção. Se a Albedo é fruto de um projeto secreto do próprio Dominion seria fácil para eles terem acesso às plantas da nave. Eles não causaram danos que visassem a nossa destruição e sim a nossa incapacitação
- Então eles sabiam como nos atingir. Se tiveram acesso as plantas alguém deve tê-las fornecido. – deduziu McCormick.
- Temos um espião entre nós. Ele pode estar na base ou em nossa tripulação. – afirmou Alkon.
- Ele pode ser um transmorfo? – perguntou Allison assustada com a possibilidade.
- Não podemos descartar nada. Da próxima vez todo e qualquer visitante terá que passar por um exame médico completo. Teremos que fazer um periódico também na tripulação. – comentou Alkon.
- Mas se ele for um transmorfo ele pode se disfarçar como uma cadeira durante o exame e se passar por um tripulante que já tenha feito o exame.- lembra Klag.
- Então teremos que pegá-lo de surpresa. Mas teremos que fazer isto mais tarde. Agora preciso beber algo. Vocês me acompanham? – Alkon convidou o grupo para irem ao restaurante da base administrado por Dorn. Eles aceitam.
Ao estarem todos sentados em volta de uma mesa e já com seus drinks à mão, retomaram a conversa.
- Uma coisa que não entendi foi aquela nave misteriosa que emergiu da fenda antes da Frota atraindo o fogo do inimigo. Quem era ela? – perguntou Allison.
- Ontem fui informado ser uma segurança kobliad contratada para dar ao repórter Timothy Barinni. Assim que ela descobriu seu paradeiro foi em seu encalço. Os kobliads levam os seus contratos à sério. – respondeu Klag.
- E onde está o tal repórter agora? – perguntou Alkon.
- Foi devolvido à família com uma pequena amnésia devido a uma agressão por ladros. Pelo menos esta será a história oficial. Deve estar a caminho de Bajor agora. – responde Klag.
O alferes Gilbert aparece com um recado.
- Capitão...A doutora T´Vel está procurando o senhor. Pediu para encontra-la na enfermaria da estação.
Era sobre Sarah. Desde que chegara ainda não fora vê-la. Esteve tão ocupado...Mas agora não podia adiar mais este encontro.
- Obrigado, alferes. Com licença, senhores. – Alkon apressa-se em direção à saída. Gilbert pega a bebida do capitão, mas Klag o impede de bebê-la, fazendo ele mesmo o gesto. Gilbert, apesar de frustrado, não tem coragem de desafiar seu superior. Ele não teria a menor chance com um klingon.
Ao chegar na enfermaria, o capitão Dorian Alkon encontra o alferes Siro Lian na porta.
- Algum problema, alferes?
- Não. A doutora T´Vel pediu que aguardasse aqui fora.
Alkon achou estranho a presença do bajoriano, mas resolveu ignorar e entrou logo na enfermaria.
- Pois não, doutora? – No recinto Alkon podia ver a doutoraT´vel, o doutor holográfico e o médico da estação o doutor Vica.
- Espero que esteja bem. Soube que esteve um pouco nervoso.
- Escute, doutora, não creio que tenha me chamado aqui para uma sessão de aconselhamento.
- Não. Em primeiro lugar quero que coloque isto novamente. – era seu supressor cortical eletrônico. Havia jogado fora no salão quando perdera a paciência com o almirante.
- Ah, acharam? Ok! E agora?
- Agora venha até aqui que quero lhe mostrar uma coisa.
De uma sala ao fundo Sarah Okaido surgiu vestida com seu uniforme habitual de comandante. Ela havia cortado o cabelo deixando-o bem curto. A sua Sarah estava de volta, pensou Alkon.
- Permissão para reassumir meu posto, capitão.- solicitou Sarah.
Alkon olhou para os médicos à sua volta esperando a aprovação deles.
- Ela está apta a exercer seus deveres. Não há nada mais que possamos fazer. Não por agora. – informou o Dr. Vica e Alkon percebeu uma certa tristeza em suas palavras.
- Se é assim...Permissão concedida. Fico feliz por você estar bem. – Alkon teve vontade de pegá-la em seus braços, mas se conteve.
- Eu devo a minha recuperação a esta excelente equipe médica e a uma pessoa que me apoiou muito todo este tempo...- Sarah se dirige na direção de Alkon. Ele já ia estendendo os braços na direção dela quando ela passa por ele e vai buscar o alferes Siro do lado de fora. Ela o beija na boca e deixa Alkon estupefacto. T´Vel baixa os olhos. Ela até podia sentir pena de seu capitão.
Sarah retorna de mãos dadas com Siro para apresenta-lo ao capitão. Ao notar o olhar constrangido do bajoriano e a indiferença de Alkon ela pergunta.
- Vocês já se conheciam antes?
- Sim. – responde os dois quase simultaneamente.
- Lian tem sido um bom amigo nestes meses de recuperação. Ele tem aprimorado meu treinamento físico junto com o tenente Kobler e me ensinado sobre a política da Federação no setor.
- Acredito que o alferes Siro tenha realmente muito a ensinar. – disse Alkon com certa amargura.
- Nos vamos ao holodeck participar de um programa de simulação de situações da ponte de comando. Para me familiarizar novamente com a minha função. O senhor gostaria de participar? – convidou Sarah.
Alkon sorri e responde, com a voz um pouco embargada, segurando as mãos de Sarah.
- Não obrigado. Talvez uma outra hora. Eu...Eu tenho outras coisa para fazer que exigem minha atenção imediata.
- Está bem. Nos vemos por aí. – Sarah sai de mãos dadas com Siro. Aquela imagem parecia uma adaga fria penetrando no coração de Alkon.
- O que foi que aconteceu? – perguntou para T´Vel ainda de costas para médica. A vulcana não conseguiu responder. O doutor holográfico o fez por ela.
- A terapia gênica afetou as glÂndulas de seu corpo podendo desenvolver tumores. Precisamos interromper o tratamento para salvar-lhe a vida. O resultado foi a recuperação de setenta e dois por cento de sua memória. Se ela recuperará o resto...Só o tempo dirá. Acelerar o processo poderia matá-la.
- Siro não tem culpa. Ela se afeiçoou à ele. Ele estava sempre disponível quando você não estava. Eu tentei te alertar quanto a isso. Ela não se lembra do que você representou para ela. Você não pode culpá-la. – disse T´vel tentando amenizar a dor que Alkon sentia.
- Eu não culpo ninguém. – Alkon se retira da enfermaria. Durante muitos dias ele ficaria incomunicável.
Bajor – Três meses depois...
“Aqui é Timothy Barinni diretamente de Bajor para o Bom Dia Federação. Vocês têm acompanhado a série de programas sobre a reconstrução deste mundo após a ocupação cardassiana. Mas hoje eu falarei de outra coisa. Algo que não acontece todo dia. Uma coisa muito especial aconteceu que, como diriam os bajorianos, somente os profetas poderiam explicar. A nave USS Albedo, dada como desaparecida há mais de um ano, reapareceu. Aparentemente eles foram pegos por uma fenda inter-dimensional. Estou indo até a estação espacial nove para entrevistar esta tripulação que deve ter incríveis histórias para contar. Aguardem Timothy Barinni, de Bajor, para o Bom Dia Federação!”
Assim que a transmissão foi cortada a esposa de Barinni, Liz, estava com uma cara furiosa.
- O que foi ?
- Você disse que iríamos embora amanhã. Meu trabalho aqui está concluído. Minha substituta no hospital já chegou. Esqueceu das crianças?
- Oh, meu bem. Eu não esqueci de nada. Nós vamos até a estação , e faço as entrevistas e de lá vamos embora. Não posso deixar passar esta notícia em branco!
- Não existe outra pessoa que possa fazer isto no seu lugar?
- Até poderia. Eu estive com o filho do capitão Sisko semana passada e ele se mostrou bastante interessado em ser um correspondente da DNF. Não seria uma ótima idéia? O filho do comandante da estação deve poder ter acesso a informações que um repórter comum não teria. Que tal a idéia?
- Achei ótima. Desde que voltemos para casa. Estou morrendo de saudades das crianças.
- Eu também.
O casal se abraça selando a paz. Uma paz que muitos ainda estavam lutando para conseguir.
A USS Albedo e sua tripulação era um deles que estavam lutando para manter esta paz. Só que agora iriam fazê-lo às claras. A Operação Fantasma havia chegado ao fim.
F I M
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