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INFORMAÇÕES    
Autor: Marcos Chiara.
Título: O Exílio.
Publicação: 20/09/2006.
Categoria: Jornada nas Estrelas.
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O Exílio.
Por: Marcos De Chiara.

Imagem da Internet.

Prólogo

"Diário de bordo, data estelar : 3143.3 - Retomamos o controle da nave.

Gostaria que minhas próximas decisões não fossem tão difíceis. Khan e sua gente... Que desperdício colocá-lo num centro de reabili-tação! E o que faço com McGivers?"

Numa pequena sala de conferência estão reunidos alguns dos oficiais da nave para decidirem o des-tino de 73 pessoas. É claro que a decisão final cabia ao comandante, o que poderia deixar algumas pessoas um pouco mais tranquilas à exceção, é claro, de seu capitão.

Scott, McCoy, Uhura, Spock e Kirk só estavam aguardando os oficiais de segurança trazerem os prin-cipais acusados de motim. Assim que eles entram, Kirk pega o seu martelo e toca o sino sobre a mesa três vezes. A Tenente Uhura comunica-lhe que as fitas de registro estavam preparadas e prontas para gravar. O capitão assente com a cabeça e fala, num tom solene:

- O inquérito está em sessão. Com a autoridade a mim investida pelo comando da Frota Estelar, eu declaro todas as acusações e especificações, neste caso, suspensas.

Todos ficam perplexos! Até o impassível Sr. Spock arrisca erguer sua sombrancelha direita de-monstrando incredulidade. Porém o Dr. McCoy, que não é muito afeito a discreção, arrisca logo um comentário:

- Jim?! Eu concordo que você tem a autoridade, mas...

Antes que o bom doutor pudesse terminar a frase, seu Capitão cortou-lhe a fala dirigindo-se para seu imediato. McCoy resignou-se.

- Sr. Spock, acho que o nosso curso nos leva próximo ao sistema Ceti Alpha, não?

O vulcano, sem gaguejar, ou até mesmo piscar; responde ao comandante. - É correto Capitão. O pla-neta Ceti Alpha Cinco é habitável, embora um pouco selvagem, pouco hospitaleiro.

Kirk encara seu algoz, e agora réu, firmemente.

- Mas não mais que a colônia australiana Botany Bay era no início - Kirk parece querer lançar um desafio. Sabe que Khan jamais fugiria de um. Então prossegue seu comentário sem tirar os olhos dele - Aqueles ho-mens foram capazes de conquistar um continente Sr. Khan, podem conquistar um mundo?

O vilão responde, enigmaticamente, com a mesma intensidade.

- O senhor já leu Milton, Capitão?

Kirk entendeu o significado da resposta num átimo, chegou até a esbocar um sorriso, no canto do rosto, de satisfação.

- Já... Eu entendi. - confirmou - Tenente Marla McGivers. Dou-lhe a escolha entre a corte marcial ou de acompanhá-lo até lá.

A Tenente não esperava compaixão nem misericórdia. Procurou redimir seu ato de traição salvando a vida de seu capitão mas, isto não devolveria a dignidade em sua carreira nem a coragem de encarar novamente seus amigos e superiores. Virou-se para seu amado esperando ver em seus olhos algo que a ajudasse a tomar alguma deci-são. Khan olhou para ela com certa ternura, algo que raramente fazia, e a encorajou:

- Será bem difícil. No começo lutaremos para sobreviver... e por comida.

Marla voltou seu olhar novamente para o capitão e finalmente decidiu:

- Eu irei com eles, senhor.

Khan rejubilou-se - Uma mulher superior! Eu a levarei. Tenho alguma coisa a mais que desejei. Um mundo para conquistar, um império para construir!

A afirmação de Khan esfriou o estômago do capitão Kirk, fazendo com que, por um momento, duvi-dasse de sua decisão. Kirk e Khan se entreolham como se estivessem disputando uma "queda de braço" mental. James Kirk termina a contenda com uma única frase:

- A sessão está encerrada.

Os acusados se retiram, sem olhar para trás, escoltados pela guarda de segurança da nave.

O Tenente-comandante Montgomery Scott, que até então só havia se limitado a compor a mesa, que-bra um pouco a tensão no ambiente após a saída dos réus.

- É uma vergonha para um bom escocês admitir isto, mas eu nunca li Milton!

Kirk entende que seu engenheiro-chefe não havia entendido o diálogo com Khan e procura logo ex-plicá-lo:

- A declaração que Lúcifer fez ao cair no abismo, "É melhor reinar no inferno do que servir no céu".

Scott solta um expressivo - Aaaah!

- Seria interessante, capitão, retornar em 100 anos e saber o que cresceu a partir da semente que foi plantada hoje - diz Spock curioso com a decisão de seu comandante.

- É... realmente seria... - responde com o pensamento vago, Kirk.

E com os pensamentos suspensos os oficiais se retiram da sala certos de terem cumprido com o seu dever.

Parte I

Jim Kirk é seguido por dois de seus melhores oficiais, e amigos, pelo corredor, após ter tomado deci-sões que poderiam ter graves consequências. Mas, não queria pensar mais sobre isso agora. No momento um pouco de repouso seria muito agradável.

- Spock...- diz se dirigindo ao seu primeiro oficial sem parar a marcha para o turboelevador.

- Sim, Capitão?

- Assuma o comando. Vou para a minha cabine descansar um pouco. Acorde-me em 2 horas e... Por favor, não antes disso. - lança um sorriso como uma súplica. Spock, apesar de conhecer pouco sobre emoções, já havia se habituado com estes pequenos sinais do seu Capitão.

- Certamente, senhor. - O oficial de ciências se adianta para ir trocar de roupa, pois ainda estava com o uniforme de gala por conta da corte marcial que ajudara a presidir, para em seguida subir até a ponte de coman-do e render o Tenente Sulu. Quando Spock desapareceu na curva do corredor McCoy pegou Jim Kirk pelo braço e interrompeu sua caminhada.

- Eu fiquei calado este tempo todo, mas não consigo mais! Com mil diabos, Jim, você sabe o que acaba de fazer?

- Agora não, Magro... Minha cabeça está estourando...

- Como seu médico eu realmente gostaria de examiná-la - diz McCoy sarcasticamente.

- Magro, eu fiz o que tinha de ser feito. Alguma sugestão? - McCoy fica embaraçado e solta o braço de Kirk lentamente - Bem, eu... hummm... Não, mas é que... Você já pensou no que o Comando da Frota vai achar disso?

- Uhura já deve estar enviando uma cópia da sessão de inquérito para eles. Vamos aguardar a rea-ção deles e aí veremos.

- Neste meio tempo o que fazemos com setenta e dois super humanos? Brincamos de roda?

- Você é o médico. Prescreva alguma coisa. - Kirk dá um tapinha no ombro do doutor e entra no turboelevador pensando somente na cama à sua espera.

Leonard H. McCoy estava com a mente confusa. Tudo havia acontecido muito rápido. Ele sabia que Khan era perigoso demais e deixá-lo mais tempo na nave era o mesmo que tentar o Diabo. Usou o intercom:

- McCoy à enfermaria... - aguardou o sinal de resposta.

- Enfermaria... Enfermeira Chapel falando.

- Christine, reúna a equipe médica. Temos que preparar... - fez uma pausa, pensou por um mo-mento e completou a frase - ... uma operação de emergência. Já estou indo para aí. McCoy desliga. - Antes que a en-fermeira pudesse dizer alguma coisa o doutor desce o corredor com uma idéia surgindo dentre as nuvens de confusão da sua mente.

***

O Tenente-Comandante e Engenheiro-Chefe Montgomery Scott estava à vontade de novo na sua en-genharia. Estava checando todos os painéis e circuitos para deixar as funções primárias e secundárias impecáveis após a investida de Khan e seu grupo.

Com sua inseparável prancheta eletrônica em punho, redesenhou alguns circuitos, colocando travas de segurança que pudessem evitar a repeticão do recente episódio ou quaisquer outras prováveis tentativas futuras de tomar a nave. Quando acabou com os desenhos e os cálculos era hora de por a mão na massa, e aí entrava a participa-ção dos melhores engenheiros e técnicos da Frota Estelar.

- Tenente Rodrigues, providencie a troca dos painéis de controle D-23, C-14, G-7 e L-8 por estas novas configurações. Quero isto ainda para hoje!

- Sim, senhor. Será feito.

Scott admirava o quanto o Tenente Rodrigues era prestativo. Era um ótimo subordinado e aluno. Aliás, ensinar era um grande prazer para aquele escocês e, por isso, todos os cadetes recém-graduados iam parar na sua mão quando comissionados na nave.

Algumas semanas antes de encontrarem a Botany Bay a deriva no espaço, a

Enterprise havia trans-portado a bordo um grupo de jovens cadetes que aguardava para ser comissionado na Base Estelar 14.

Era de praxe que no primeiro mês a bordo os cadetes percorressem todos os setores da nave. Após o traineé seriam designados para as suas funções definitivas de acordo com as aptidões e Curriculum.

Após o incidente do motim as aulas retornaram ao normal e era a vez de Scott pajear aqueles cadetes ávidos por conhecimneto. Mesmo sabendo que eles o estavam aguardando no convés 8, na sala de recreação, para instruções, Scott não conseguia se desvencilhar de seu trabalho, supervisionando seus engenheiros e, na maioria das vezes, ele mesmo executando o serviço. Era o seu temperamento.

Um ordenança aparece à suas costas: - Senhor ? Ordenança MItchel se apresentando com uma or-dem de serviço, senhor!

Scott se assusta com o timbre de voz do rapaz. Estava tão absorto no seu trabalho que não sentiu a aproximação do jovem.

- Ei, calma, rapaz! Quer estourar os meus ouvidos?

- Desculpe-me, senhor. - responde com o olhar fixo.

- Aah, deixe-me ver isto aqui... - puxa a prancheta do ordenança para assinar a convocação de ins-trução dos alferes. Em seguida devolve a prancheta ao jovem e se dirige a seus engenheiros - Rodrigues, De Salle, Tegushi e Fiorentino, conto com vocês para acabarem com isto antes do jantar. Tenho que dar uma aulinha, mas já volto.

- Pode ir tranquilo senhor, nós cuidaremos de tudo por aqui. Quando voltar não vai mais reconhecer os velhos painéis - diz Rodrigues.

- Este é o meu medo...- comenta Scott em tom irônico enquanto segue o ordenança até as escadas que darão ao turboelevador.

A ansiedade já havia tomado conta de todos e o mais ansioso era o jovem Alferes Pavel Chekov. Nos últimos meses a espera havia se tornado rotina.

Depois da graduação na Academia e do fracassado, porém instrutivo, teste na estação espacial Aslan, já haviam se passado seis longos meses, mas estava valendo a pena. Graças a uma indicação do Comodoro Aldous Kramer, ele havia realizado seu sonho: servir na USS Enterprise , sob o comando de seu ídolo, o Capitão James T. Kirk.

Enquanto Chekov devaneava sobre sua vida, a porta da sala de recreações se abre. O Ordenança Mitchel se dirige ao grupo:

- Atenção, sentido! - em seguida entra Scott olhando com desdém para o afetado ordenança.

- Muito bem... descansar. Vamos direto ao assunto. Sou o Tenente-Comandante Montgomery Scott. Sou o responsável pelo setor de engenharia e serei o instrutor de vocês esta semana. A partir de agora vamos fazer um tour pela nave e quaisquer perguntas poderão ser feitas.

Retornaremos para cá em duas horas para o almoço. Vocês terão um descanso de meia hora e ... - Scott tenta terminar a frase sob protestos - ... meia hora e em seguida conti-nuaremos o nosso passeio por mais uma hora e estarão dispensados até o café de amanhã, quando cada um de vocês terá uma atribuição nos setores de engenharia. - pigarreia e volta a falar - O capitão me pediu - assumiu um tom mais solene - para congratulá-los pelo comportamento de vocês durante a crise que passamos. Antes de irmos, alguma pergunta?

Um jovem de aparência latina levanta o braço.

- Senhor, é verdade que a Enterprise ficará obsoleta quando a Bonhomme Richard ficar pronta?

Uma das coisas que mais irritava o engenheiro era chamar a sua dama de obsoleta.

- Como se chama filho?

- Estevão, senhor. - responde um pouco hesitante.

- Alferes Estevão... por mais que a Frota construa outros cruzadores, nenhum deles se comparará à Enterprise. Ela é uma nave que mantemos atualizada e sua manutenção é a melhor da Frota. Se não houver mais per-guntas, sigam-me.

Scott não esperou ninguém perguntar mais nada. Deu as costas e os jovens tripulantes procuraram segui-lo apressadamente. Chekov cutucou Estevão na saída e disse:

- Acho que você pisou no calo dele... - e riram baixinho para não serem ouvidos.

***

Parte II

O Capitão Kirk não havia conseguido dormir pensando no destino de Khan e da Tenente McGivers. Além disso, o Comando da Frota sempre censurava suas decisões achando-as fora do padrão, mas no final ele sempre os convencia do contrário. Recentemente , Kirk havia passado por uma Corte Marcial em que, mesmo com todo o seu prestígio e com uma ficha impecável, quase caiu numa armadilha. Por pouco não fora expulso da Frota. Se isto teria afetado seu prestígio ou melhorado ele ignorava.

O caso Botany Bay fora resolvido sem que outros membros da Federação fossem afetados. Nenhuma crise interplanetária irrompeu, e, os terráqueos do século XX, ressucitados, foram dominados e seriam levados a um planeta inóspito que serviria bem como uma prisão a céu aberto. Todas as nuances do caso constavam do seu relatório, o qual Uhura já devia ter enviado em mensa-gem de rádio sub-espacial. Era apenas aguardar a resposta do Comando da Frota e do diretor do Comitê Militar da Federação, o Almirante Mohamed al-Khazir. Kirk não o conhecia pessoalmente, pois quando este assumiu o posto a Enterprise já havia iniciado sua missão de cinco anos. Mas, o pouco que ouvira falar dele era que o almirante árabe costumava usar o bom senso acima dos regulamentos da Frota. Este era o tipo de homem que jogaria no meu time - pensou Kirk.

De repente o sinal do intercom quebrou o silêncio da sua cabine.

- Kirk falando.

- Capitão, - era Spock - Desculpe incomodar, mas gostaria que o senhor viesse à ponte. Monitorei algo estranho nas celas do grupo de Khan e seria melhor que o senhor avaliasse a situação.

- Algum problema, Spock? - Kirk começou a ficar preocupado.

- Pode não ser nada, mas o senhor pediu que lhe comunicasse qualquer assunto relativo aos prisio-neiros.

Como sempre Spock era enigmático. É claro que não o incomodaria à toa . O incômodo se devia à alguma coisa incomum. - Estou à caminho, Kirk desliga. Será que os homens de Khan estariam tentando escapar? Enfrentar a mesma situação de novo seria demais! Trocou a blusa do uniforme e correu para a ponte.

***

Kirk entrou na ponte de comando demonstrando preocupação. Sua dor de cabeça aumentara. Não sabia se era a tensão do momento ou os efeitos colaterais de quando Khan o prendera na câmara de descompressão. Talvez não fosse uma má idéia deixar que McCoy o examinasse.

- Situação, sr. Spock?

- Captei um aumento de gases no interior das celas e de acordo com os sensores é algum tipo de sonífero.

- Sonífero? Gás de segurança? - diz Kirk surpreso.

- As chances de estar correto são de noventa e nove ponto nove por cento.

- 99,9%? Por que não cem?

- Há sempre uma margem de erro. - explica Spock com simplicidade.

- Erro? Vindo de você? Isto seria... - Kirk procura uma palavra para definir seu ponto de vista e encontra a única possível - ... ilógico!

Spock meneia com a cabeça se sentindo lisonjeado embora evitando a todo custo demonstrá-lo. Já iam se dirigindo ao turboelevador para inspecionarem as celas pessoalmente quando, no mesmo instante, o Doutor McCoy adentra a ponte com ares de gato que comeu o passarinho. Desconfiado, Kirk se volta para ele e pergunta:

- Magro, por acaso está sabendo de alguma coisa a respeito de um gás sonífero nas celas de deten-ção?

- Claro, foi a única solução que me ocorreu. Aliás vim até aqui para comunicar-lhe que eu... - Spock interrompe a fala do médico-chefe para completar a frase no seu lugar.

- Devo presumir que o doutor inundou as celas com gás sonífero para adormecer os homens de Khan até a chegada em Ceti-Alpha 5? - McCoy tenta concluir o que estava tentando dizer , muito embora as palavras de Spock já tivessem dito tudo. Novamente o vulcano o havia deixado sem palavras e antes que pudesse explicar o acontecido, Spock responde sua própria pergunta com um comentário. - Interessante, mas ilógico, uma vez que as celas contêm telas de energia que, ao menor toque, descarregam uma corrente elétrica. No caso específico foram regu-ladas para trezentos voltz, o suficiente para deixar atordoado qualquer ser humano, mesmo homens melhorados gene-ticamente. Creio que o bom doutor desperdiçou o estoque de gás sonífero da nave em vão. - Termina com eloquência na certeza de ter, mais uma vez, demonstrado seu intelecto superior.

McCoy fica desconcertado e logo procura replicar:

- Ora seu... seu orelhudo de sangue verde! Eu não sou obrigado a saber do funcionamento das telas de energia das celas de detenção. Eu sou um médico, não um engenheiro! Só queria evitar que aqueles homens e mu-lheres lá embaixo nos causassem algum problema enquanto esperassem pelo desembarque. Eu e minha equipe fizemos algumas pesquisas e descobrimos que seria muito traumatizante devolvê-los a um estado de animação suspensa nova-mente. O que fiz foi o mais...- e evitando dizer a palavra "lógico", a substituiu por - adequado!

- Doutor, o fato de minhas orelhas serem pontudas e o meu sangue verde é uma consequência da minha anatomia e fisiologia que, felizmente, diferem da sua.

Kirk gostava da retórica de Spock e de ver o doutor irritado, mas uma discussão como aquela na ponte de comando e em frente de subordinados não tinha nenhum sentido em continuar. Resolveu intervir antes que começassem uma longa discussão.

- Parem, vocês dois. McCoy, porque você fez isso eu já sei, mas não creio que fosse necessário. Em todo caso será um problema a menos para nos preocupar. Da próxima vez me consulte.

O doutor resmunga baixinho : - Ora, foi você mesmo que me pediu para prescrever alguma coisa...

Kirk solta um largo sorriso de cumplicidade e dá um tapinha nas costas de McCoy.

- Tudo bem, Magro. Não há problema. - vira-se para Spock - Como está Khan?

- De acordo com o chefe de segurança, está confinado ao seu alojamento e algemado.

- Quantos homens o estão guardando?

- Quatro, bem posicionados. Mas não me parece que ele queira fugir. Ele demonstrou ter ficado satisfeito com a sua decisão.

O capitão fica pensativo por um momento e dirige-se para a sua poltrona.

- Sr.Sulu, quanto falta para chegarmos a Ceti-Alpha 5? - pergunta Kirk com os pensamentos atri-bulados. Droga de enxaqueca!

- Cinquenta e duas horas e trinta e dois minutos, senhor . - afirma o piloto após uma rápida olha-dela em seus instrumentos.

- Spock, quero uma descrição detalhada do planeta e uma lista de possíveis equipamentos que eles poderiam levar para sobrevivência, fora do kit padrão.

- Sim senhor, imediatamente. - o vulcano começa a trabalhar em seu painel de controle.

- Uhura... alguma resposta do Comando da Frota?

- Ainda não, capitão.

James Kirk , quando quer ouvir uma opinião, normalmente consulta seu espelho, mas iria arriscar com o doutor.

- Magro, não acho que Khan ficará comportado durante muito tempo. Ainda mais separado da Tenente Mcgivers. Também não acho necessário pô-lo para dormir.

- Você está pedindo um conselho ou tem alguma coisa em mente?

- Ambos. - diz com um sorriso maroto.

- Bom, psicologicamente falando, seria bom mantê-lo ocupado e confortável para não gerar insas-tifação ou rebeldia.

- Você acha que deixá-lo organizar um plano de desembarque junto com a Tenente McGivers seria algo satisfatório?

- Na atual situação, creio que sim.

- Me dê uma lista dos kits médicos de sobrevivência que você tem e juntarei a ela os dados que Spock me fornecer. Levaremos tudo até ele em quinze minutos.

- Certo, enviarei a minha em dez minutos. - dito isto McCoy se retira.

Neste momento Uhura recebe um chamado e transfere para o capitão.

- Senhor, é o Almirante al- Khazir. Ele quer falar-lhe em um canal particular.

Kirk e Spock se entreolham demonstrando estranheza pela formalidade da ligação. O canal particular só era usado para assuntos altamente sigilosos.

Parecia que seu relatório havia provocado uma indigestão nos burocra-tas da Frota. Ele estava curioso para saber o que o Comitê Militar estava pensando a respeito.

- Transfira para a sala de conferências; Spock, assuma. Chegou a hora de testar a minha lábia.

- Lábia, capitão?

Kirk havia se esquecido que seu imediato nem sempre estava familiarizado com os verbetes terrestres, principalmente os antigos.

- Deixe pra lá. Depois eu explico.

Spock fica com a sombrancelha direita erguida, expressando curiosidade, enquanto acompanha a saída de Kirk da ponte.

***

Parte III

Scotty não via a hora de voltar à engenharia. Aquela pequena excursão pela nave já o estava deixando impaciente. Tinha a sensação de estar de folga. E ele odiava folgas. Porém, a instrução ainda duraria uma semana até que o grupo fosse encaminhado a outro chefe de seção.

- Agora estamos no convés do hangar. - continuou Scott com a explanação

- É aqui que as naves auxiliares aportam ou saem da nave-mãe, conduzidas magneticamente pelo raio trator. Temos duas naves auxiliares à disposição para serviços de pesquisa ou de transporte de pessoal, mas temos espaço para até seis destas.

Um rapaz pede permissão para falar e Scott consente com a cabeça.

- Para quê transportar um grupo para a nave-mãe através de uma nave auxiliar quando temos o te-letransporte?

- Boa pergunta, alferes. Nem sempre podemos usar o teletransporte. Em alguns lugares do espaço ondas magnéticas e nuvens ionizadas atrapalham o fluxo do feixe de energia do teletransporte, e nestes casos usamos as naves auxiliares. Um outro momento em que as usamos é quando um grupo de pesquisadores precisa de apoio em terra, uma vez que um cruzador Classe Constitution, como a Enterprise, não é provido de trens de pouso. Em caso de batalha elas ainda podem ser usadas como naves de assalto ou de reconhecimento.

Chekov levanta o braço para fazer a sua pergunta, demonstrando um pouco de desconforto.

- Senhor, se me permite, creio que nós já estudamos exaustivamente todos os manuais da Federação, referentes às naves na ativa, na Academia. Eu gostaria de saber quando faremos algo prático?

A intervenção de Chekov provoca um burburinho de aprovação no grupo. Scott põe as mãos na cintu-ra e se encaminha ao alferes impetuoso. O pequeno grupo de cadetes recém-graduados recua. O escocês aproveita a pergunta oportuna para animá-los um pouco.

- Qual o seu nome, filho? - pergunta o engenheiro-chefe.

- Chekov. Alferes Pavel A. Chekov, senhor. Scott notava que o jovem russo estava tremendo, mas procurava não demonstrar. Este temor por oficiais com patente superior era secular, e Scott não era um homem de quebrar tradições. Procurou chegar bem perto dele e, tran-quilamente, tirar proveito da situação.

- Muito bem... Chekov! Boa pergunta! Acredito que a sua ansiedade é compartilhada por todos. Tivemos momentos bem agitados por aqui desde a chegada de vocês, mas mesmo assim ainda não tiveram chance de mostrar suas qualidades e aptidões. Talvez agora seja a hora de vocês se pronunciarem. Podemos começar com o se-nhor, Alferes.

- Desculpe, senhor, não entendi. - diz Chekov meio sem graça.

- Diga pra nós o que gosta de fazer. Qual a sua especialidade?

- Bom... Sou especialista em navegação, tática e armamentos. Pelo menos foram as minhas melho-res notas na Academia. - O grupo soltou uma gargalhada descontraída.

- Muito bem! - sorri Scott enquanto anda pelo corredor - E o senhor... - aponta para um outro jovem. - Alferes Estevão, não?

- Eu... Bem... Sou especialista em sistemas de suporte de vida. Manutenção e conserto são minhas palavras preferidas, senhor.

- Excelente! Parece que temos um time de primeira aqui. - Scott vira-se para seu atento ordenança.

- Anote as preferências de cada um. Assim iremos realizar um trabalho mais interessante nesta semana. Garanto que o que não vai faltar é prática! - termina a frase em um sutil tom sádico, imperceptível pelos seus alunos que estão a cercar o ordenança, todos falando ao mesmo tempo.

O intercom soa à procura do engenheiro-chefe. A voz de Uhura era melodia agradável naquele ins-tante.

"TENENTE - COMANDANTE SCOTT, APRESENTE-SE NA SALA DE CONFERÊNCIAS.

TENENTE - COMANDANTE SCOTT, APRESENTE-SE ... " - O engenheiro interrompe a mensagem para responder ao chamado.

- Scott falando, já estou a caminho, - se vira para o grupo e diz -

Vocês estão dispensados por ora, vejo-os depois do almoço. Disperçar. - dizendo isto deixa para trás um atônito ordenança prestes a deixar sua prancheta eletrônica em curto.

***

PARTE IV

Quando Scott chega à sala de reuniões já encontra o capitão, o senhor Spock e o doutor McCoy à sua espera.

- Desculpe a demora, capitão, mas eu estava às voltas com um grupo de cadetes cheirando a leite...

- Desculpas aceitas, Scotty. Sente-se. Só estava esperando você para começar.

- É alguma coisa a respeito de Khan? - pergunta o engenheiro.

- Mais ou menos. - Kirk coça a testa. Sua dor de cabeça ainda não o havia abandonado e parecia que iria demorar para ir embora. - Bom, senhores, estamos numa posição um pouco delicada. Há alguns minutos eu tive uma conversa com o Almirante al- Khazir, Diretor do Comitê Militar da Federação, e ele me disse que meu relató-rio sobre o incidente com Khan era interessante, que minhas considerações a respeito do caso foram satisfatórias, mas que eu aguardasse a decisão final de transferi-los para Ceti-Alpha Cinco até um parecer do Conselho da Federação.

- Eu sabia! - exclama MacCoy dando um soco na mesa. - Eu sabia que eles não iriam passar a mão por cima. Desta vez não há uma manobra corbomite para ajudar.

- Creio que, apesar do rompante emocional do doutor McCoy, sou obrigado a concordar que a situação política é delicada. - A observação do vulcano é acompanhada por um olhar fixo do doutor. Este estava já pronto para replicar quando Kirk estende a mão no ar pedindo que se calasse antes mesmo que McCoy pronunciasse uma síla-ba sequer.

- Explique-se. - solicita Kirk ao seu primeiro-oficial.

- O Comando da Frota, ao ser informado desta situação, é obrigado a informar o ocorrido ao Comitê Militar e ao Conselho da Federação.

Todos começam a prestar mais atenção ao raciocínio de Spock. Além de um brilhante cientista, o vul-cano conhecia ao regulamentos da Frota

Estelar e da Federação de trás para diante e por muitas vezes assessorou Kirk em intricadas situações diplomáticas.

- Se os outros membros do Conselho - continuou - outras raças, descobrem que os humanos estão mantendo em um planeta, não cadastrado como planeta-prisão, super-humanos guerreiros isto poderia criar uma insta-bilidade diplomática. Principalmente entre Klingons e Romulanos.

- Deus do céu, Jim. Eles querem que os mandemos para a câmara de gás em nome da diplomacia? - se exalta o doutor.

- Eles não disseram isso, Magro. Além do mais o especialista em gás aqui é você. - diz o capitão brincando, tentando se livrar do mau humor que a situação parecia atrair . McCoy fica irritado com o comentário mas não retruca. Teria que aguentar a piada do gás sonífero por mais alguns anos-luz.

- Mas, capitão - intervém Scott - Parece - me uma mensagem subliminar dizendo '"Elimine o problema" . -- Senhores, calma. Mesmo que me agradasse espalhar as moléculas de Khan e seu grupo pelo espaço eu não o faria . Basta um Kodos no universo.

- Se me permite, capitão...

- Continue, Spock. Algum prognóstico?

- A meu ver o Comando da Frota pode não informar ao Conselho das suas decisões.

McCoy solta um grunhido de desaprovação à afirmação do primeiro-oficial. - Uma hora ficam preocupados com os regulamentos e na outra rasgam os artigos de Federação.

- Nem tanto, doutor. - continua Spock -- De acordo com o capítulo um, ítem sete, a Federação não está autorizada a intervir em assuntos de jurisdição doméstica a não ser que a paz e a segurança interplanetária estejam sendo prejudicadas.

- E como se trata de seres humanos ressucitados seria apenas um problema terrestre - complementa Kirk. - Meu relatório já havia deixado esta interpretação... Em todo o caso, por enquanto, estamos de mãos atadas.

- Bom, e o que faço com o material que separei? - indaga o médico-chefe.

- É verdade. Não podemos deixar transparecer esta situação para Khan. Vamos dar-lhe um pouco de cor-da. - Kirk aperta um botão na mesa. -- Segurança? - Uma voz forte responde do outro lado da linha.

- Tenente Ferris falando.

- Prepare um destacamento pra o alojamento de Khan. Vou visitá-lo e não quero surpresas.

- Sim senhor, estamos a caminho.

- Jim, por que visitá-lo? Vai comunicar-lhe que querem a sua cabeça em uma bandeja de prata?

- Magro, não podemos fazer nada nas próximas horas até segunda ordem, mas podemos brincar com o nosso Napoleão deixando-o à vontade para programar sua viagem de exílio. Quero que vocês dêem o máximo de atenção às suas necessidades. Respondam suas perguntas. Não podemos esquecer que, apesar de tudo, ele é, ou era, um líder em seu tempo e temos que ter para com ele alguma distinção diplomática.

- Não é muita consideração para com quem quase o matou? -argumenta McCoy. Kirk sente uma pontada da sua dor de cabeça.

- É verdade, doutor. Porém, há um padrão lógico na decisão do capitão. - sugere Spock.

- Um animal em cativeiro é um animal estressado. Mas um animal em cativeiro em situações simila-res a seu habitat é um animal tranquilo, não é isso? - McCoy define a situação.

- Uma situação clássica, doutor. - Spock demonstra satisfação pelo doutor ter entendido o espiríto da coisa. -- Khan é um estrategista militar, mas também é bastante egocêntrico. Ao darmos bastante atenção pensará que controla a situação e, partindo desta premissa, nós é que efetivamente a controlaremos.

- Bom, senhores, chega de ardis por ora. Estão dispensados. Os garotos devem estar esperando-o ávidos por conhecimento, Scott.

- É capitão. Hoje em dia eles acham que sabem mais do que a experiência pode dar-lhes. Ainda não sabem a diferença de um simulador holográfico para um trabalho pesado.

- Se depender de trabalho pesado certamente você é a pessoa mais indicada para dar-lhes as primei-ras noções.

- Não há dúvida disso, capitão. - o sotaque escocês do engenheiro demonstrava um quê de satisfação com o comentário de Kirk.

***

PARTE V

São Francisco - Terra
Sede da Frota Estelar
Data Estelar : 3.143.7

A reunião fora marcada as pressas e o Comodoro Stone não podia imaginar porque o havi-am convocado, ou melhor, podia, já que como chefe de investigação de assuntos internos da Frota, sua presen-ça na reunido as poderia se explicar sobre questões de segurança ou da má conduta de oficiais da Frota.

Quando adentra a sala de reuniões as mais altas patentes estavam discutindo alguma coisa freneticamente; sobre qual assunto ele ficaria sabendo agora.

Stone pigarreia antes do cumprimentar seus colegas. - Boa noite, senhores. Aonde me sen-to? - Um colega, oficial de protocolo, indica-lhe a posição correta à mesa. - Obrigado - responde Stone. Olhando melhor em volta, ele começa a reconhecer o rosto das pessoas que o cerca.

Comodoro Mendez, Delegado chefe de operação de base.

Comodoro Quatermain, chefe de logística.

Almirante de Frota Al- Khazir , diretor do comitê militar da Federação dos Planetas Unidos.

Almirante de Frota Yashida, comandante - em - chefe, em exercício, da Frota Estelar ,uma vez que o Almirante Nogura estava numa missão diplomática em espaço profundo.

Sr. Yuri Mendeleyev, presidente das Nações Unidas da Terra.

Comodoro Fitzpatrick, chefe de operações da Frota Estelar.

Pela presença de todas aquelas figuras importantes, o assunto de veria ser da mais alta gravidade. O Presidente parecia pouco confortável no meio dos militares. Sua preocupação era visível. O Almirante

Al-Khazir se levantou e se dirigiu a tribuna para se pronunciar. Mexeu em alguns papéis colocando - os em ordem e em seguida pediu a atenção de todos.

Senhores... Senhores - repetiu o pedido diante burburinho da conversa

- Um momento por favor. Sei que todos estão intrigados com o motivo desta reunião repentina e de caráter secreto. Devo acres-centar que nada do que for dito aqui será gravado ou escrito, e que nenhum de nós, repito, nenhum de nós está autorizado a comentar o assunto sob nenhuma hipótese, para o bem da humanidade e da paz galáctica.

O tom severo de Al-Khazir ecoou no silêncio que se fazia na sala. Até que alguém o inter-rompeu.

- Por favor, Mohamed, chega de suspense, vamos direto ao que interessa, tenho um planeta para administrar ! - fala o presidente com a exaltação dos políticos.

- Sinto muito, sr. presidente, mas estas informações iniciais são necessárias - retruca o al-mirante e continua a explanar do ponto donde parou do seu discurso inicial - Eu convoquei a todos sob o códi-go de segurança A-1, porque na data estelar 3.143.6, a Frota estelar recebeu uma mensagem da USS Enterprise, sob o comando do Capitão James T. Kirk, dizendo que haviam debelado uma abordagem hostil de uma nave desconhecida e que os culpados iriam ser isolados no planeta Ceti - Alpha V.

"Então o assunto era Kirk!" - Stone sentiu sua adrenalina fluir mais rápido em seu sangue todo o mistério ia se dissolvendo e ele pressentia uma ardorosa discussão por vir.

- Mas quem Kirk pensa que é? Jack Laffite que abandona seus homens numa ilha deserta! - comenta com certa picardia o Comodoro Fitzpatrick. - Como não fui notificado sobre isso? - completa, indig-nado.

- Eu interceptei a transmissão de uma base estelar e não repassei à sede da Frota temendo que as mensagens próximas à Terra pudessem ser rastreadas e tal fato ficasse sob o conhecimento de pessoal não autorizado. Mesmo os canais particulares podem ser espionados. Como os senhores sabem, alguns de nossos... - por um momento o diretor do comitê militar procura uma excessão melhor em sua mente - adversários políticos nos monitoram com frequência e isto nos obriga a sempre estar mudando nossos códigos.

- No entanto, senhores - continou Al-Khazir - não se trata de um ato tresloucado de um capitão de navio pirata. Penso que James Kirk procedeu certo quanto ao problema em questão.

- Mas então se concordas com os atos de Kirk para que esta maldita reunião secreta? - o presidente Mendeleyev insiste em questionar a validade da reunião que sobrepujava aos interesses diplomáticos agendados para aquele dia.

Al-Khazir abaixa a cabeça, sorri, e em seguida a ergue novamente com a certeza de não dizer nenhum impropério ao líder de seu planeta.

- Bom, devo informar que a abordagem foi um plano muito bem arquitetado pelo seu líder que, de princípio, era um convidado na nave mas logo mobilizou a sua tripulação para tomar pontos chaves da nave.

- Como ele conseguiu isso? E a segurança da nave? - indagou o Comodoro Quatermain.

- Eles tiveram acesso ao computador da nave através de um terminal e ainda tiveram ajuda de uma oficial, que, de acordo com o relatório, se apaixonou pelo líder do movimento.

- De que raça eram estes seres? - continuou a perguntar Quatermain, cada vez mais interes-sado nos pormenores da história.

- Humanos, senhores. Humanos do século XX.

As expressões de assombro se multiplicaram em todas as faces. Stone começava achar que estava a assistir um velho holo-vídeo de filmes de suspense do século XXI.

- Sei que parece um tanto incomum, mas sabemos que viagens no tempo são possíveis. Neste caso, contudo, não se trata de algo semelhante a qualquer coisa anteriormente registrada. Uma nave do tipo DY-100, classe Sleeper, de nome SS Botany Bay, foi encontrada vagando no espaço com 96 seres humanos, de ambos os sexos, dos quais somente 72 puderam ser ressucitados.

- Ressucitados? - Stone pede uma expicação detalhada.

- Sim, os corpos estavam em animação suspensa e ao serem abordados pela

Enterprise, o computador de bordo da Botany Bay começou a automaticamente re-animar os corpos mas, nem todas as câmaras funcionavam tão bem após quase trezentos anos de viagem.

- Muito bem.- interrompe a explicação o Comodoro Fitzpatrick, sem deixar de esconder seu ar de contrafeito- O que tem de excepcional nestas pessoas para que pudessem facilmente dominassem uma nave da Frota? -

Al-Khazir não esperava ter que enfrentar os rompantes e a arrogância de Fitzpatrick mas, a experiência de anos na Frota Estelar e agora no Comitê Militar, fizeram dele um homem mais paciente, talvez o mais paciente da Galáxia. Com a serenidade que lhe é peculiar e na certeza de ter conquistado a atenção da platéia, continuou a, pausadamente, destrinchar os mistérios do intrigante caso, ignorando por completo a per-gunta do chefe de operações da Frota.

- Este grupo, senhores, é o que restou dos super-homens que dominaram quase todo o pla-neta durante as Guerras Eugênicas que ocorreram no período de 1992 a 1996.

- Mas isto é impossível! - exclama com sotaque russo o presidente.

- Até ontem poderia ser, senhor. mas hoje isto é um fato. Como diretor do Comitê Militar da Federação dos Planetas Unidos é meu dever reportar este incidente ao presidente da Federação durante uma sessão extra-oficial e de caráter extraordinário do Conselho da Federação. Quis o destino que um humano ocu-passe o cargo ao qual me encontro e isto possibilitará que uma situação, deveras embaraçosa, possa ser evitada.

- Aonde você quer chegar, Mohamed? - pergunta desconfiado o presidente.- Você quer dizer que irá omitir tal informação do Conselho e quer que eu compactue com isso?

- Precisamente, senhor presidente.- responde enfaticamente o Almirante árabe.

- Você está louco homem? Quer causar uma crise diplomática sem precedentes? Eu e você perderíamos nossos cargos fora outras sanções. Não avaliou os riscos de tal procedimento?

- Sim senhor. E é por ter considerado todas as possibilidades e desdobramentos deste caso é que eu convoquei esta reunião. Ao omitir tal informação sei que estarei cometendo um crime grave mas, isto, por mais paradoxo que seja, irá evitar uma crise ainda maior que o senhor possa imaginar.

- Passei os pontos de minha tese ao Comodoro Yashida e ele poderá explicar melhor nossa atual situação ao senhores.

Al-Khazir estende a mão sinalizando para o Comandante-em-Chefe da Frota solicitando-o a ocupar seu lugar no parlatório. Um senhor japonês, baixo, de cabelos grisalhos se desloca lentamente pela sala e respira fundo antes de se dirigir aos presentes.

- Senhores... A situação é grave. Se deixarmos estes super-humanos em confinamento ao ar livre sob proteção da Frota Estelar, alguns membros da Federação, ou Klingons, ou Romulanos, poderão inter-pretar que a Terra está criando um exército de super-seres para fins belicistas. Desde o século XX, após as Guerras Eugênicas; que quase levaram a Europa, Ásia e África a um caos total; o Conselho Mundial de Bio-ética impede que tais procedimentos existam. A manipulação do genoma humano é somente para fins médicos, nunca militar. - A questão é : Revogamos a ordem de Kirk e trancafiamos o grupo em uma colônia penal de segurança máxima; ou revogamos a ordem de Kirk e eliminamos o grupo e admitimos que tal episódio de abordagem nunca ocorreu; ou, por último, apoiamos a ordem de Kirk e arriscamos criar uma crise di-plomática de proporções intergalácticas?

O Almirante Yashida tinha a fama de ser uma pessoa essencialmente prática, em um minuto esclareceu a situação, enquanto Al-Khazir levara mais de meia hora para tentar fazer o mesmo. Novamente o silêncio na sala de conferência era sepulcral. Não houve respostas. Yashida, então, quebrou o silêncio o qual ele mesmo havia criado.

- Para ajudá-los na decisão a ser tomada convidamos os Comodoros Mendez e Stone para falarem dos comandantes da Enterprise, afim de nos dar um perfil psicológico deles para que suponhamos suas reais intenções no tocante a este caso. Passo a palavra ao Comodoro Mendez.

O homem de semblante latino, mais precisamente, de sangue basco, que ficara calado até então, prefere falar de seu próprio assento. Ele era um homem forte, calvo, moreno, com cabelos ralos. Sua personalidade forte fora um dos motivos para ser indicado para o cargo que atualmente ocupa. Ele deu uma olhadela em todos os presentes e em seguida falou:

- Senhores, com todo o respeito, se soubesse que o motivo desta reunião era contestar as ordens de um capitão da Frota Estelar do porte de James Kirk somente pelo fato de evitar que raças alienígenas pensem mal dos procedimentos da Federação, eu não teria pego uma nave cargueiro para vir aqui.

Seus colegas oficiais ficam perplexos com a ousadia da declaração do Comodoro que, no entanto, não se sentia nem um pouco acanhado. Mal deu tempo para que alguém o interpelasse(especialmente Fitzpatrick), ele continuou a dar seu testemunho, demonstrando em seu semblante, um ar enfurecido de um homem que havia perdido um tempo precioso de sua vida e seu trabalho.

- Ser um oficial da frota Estelar é uma grande honraria para qualquer um desta sala e é também para mim. temos que tomar decisões certas em momentos de crise e rezar para que a razão prevaleça. Quando comecei a minha carreira esperava dar tudo de mim para manter a integridade da Federação. Nunca esperei ver o dia em que a mesma Federação, na qual passei a maior parte de minha vida, fosse pedir a cabeça de um homem ou planejar um assassinato friamente premediatado! - as veias do pescoço de Mendez estavam saltadas.

- Não estamos pedindo um discurso, Comodoro, e sim um perfil do Capitão Kirk e do seu primeiro oficial o ... - Yashida procura em um relatório sobre a banqueta o nomoe do oficial vulcano - ... Te-nete-Comandante Spock. O C&C podia parecer inofensivo para quem não o conhecia, mas quando era neces-sário exercer o poder de sua patente e o mais eloquente dos debatedores acabava por ser render a sua retórica. Mendez engoliu a saliva, ficou cabisbaixo por um momento, e voltou seu olhar ao seu oficial superior.

- Comandante... Não foi minha intenção desrespeitar o senhor ou qualquer um dos presen-tes. Peço desculpas pelo meu rompante emocional.

- Desculpas aceitas, prossiga.

- O capitão Kirk é o melhor capitão que a Frota produziu nos últimos anos, um grande subs-tituto aos seus antecessores Pike e April. Ele não acredita em causas perdidas.

- Mas é um desordeiro, vive desobedecendo ordens e insultando diplomatas! - vocifera o Comodoro Fitzpatrick que é, declaradamente, um não simpatizante das atitudes ilógicas de seu comandado.

Mendez observa Fitzpatrick e antes de retrucar as considerações do colega olha para Al-Khazir e Yasshida, e, um leve não com a cabeça de

Al-Khazir o faz desistir de emitir qualquer palavra que contradissesse o Comodoro Fitzpatrick pois seria uma perda de tempo. Ao invés disso, prefere um tom de voz mais baixo e provocador, encara o colega Comodoro e continua a sua fala:

- Ele apenas usa o bom senso quando o manual dos oficiais deixa de dar respostas para to-das as ações. A experiência não se aprende na Academia e sim vivenciando as situações reais de perigo em missões em espaço profundo. Lá não existem simulações de computador. Lá só existe você e uma decisão a ser tomada que poderá ou não salvar a vida de 400 homens ou um planeta inteiro.

- Poderia ser mais breve nos seus comentários, Comodoro? - intervém Yashida - Tenho que estar as nove horas em casa para o aniversário de meu filho mais novo, caso contrário minha mulher me manda para Corte Marcial. Todos riem. Um riso misturado com o nervosismo que imperava na sala mas que serviu para descontrair um pouco os músculos tensos devido a conversação acirrada. Yashyda percebeu que seu estratage-ma dera certo e todos haviam relaxado. Seu estilo, de excelente estrategista, não estava enferrujado afinal.

Mendez ainda estava com um sorriso nos lábios quando voltou a falar.

- Durante o episódio do sequestro da Enterprise na data estelar 3012.4 e do capitão Pike, pude notar que o capitão Kirk tem completa confiança em sua equipe e esta o obedece cegamente. O sr.Spock, apesar de não agir pela lógica humana, e sim vulcana, tem para com a Frota Estelar a mais profunda lealdade. Isto eu pude constatar quando, supostamente, presidi a sua corte marcial. Ele seria um excelente comandante de uma nave es-telar ou uma grande aquisição para o quadro de instrutores da Academia num futuro, talvez ao término de sua atual missão exploratória.

- Finalizando... se os presentes gostariam de saber a minha opinião quanto às atitudes do comando da Enterprise, se possuem conotações beligerantes, devo dizer que tal pensamento seria, no mínimo, leviano. Ao terminar de falar Mendez já estava de pé, pois não havia se contido durante as suas ar-gumentações. Desde que aceitara o convite para ser delegado-chefe de operações de base da frota e deixado a paz e a tranquilidade da Base Estelar onze, não havia participado de uma reunião de cúpula. Pareceu a ele, quando se sentou, que havia deixado uma boa impressão.

- Stone? - soa a voz do ancião japonês convocando o outro Comodoro ao parlatório. Stone, amigavelmente, aceitou o convite.

- Senhores, - inicia em tom formal - presidi também uma corte marcial , a do capitão Kirk em data estelar 2947.3; quando o mesmo fora acusado de homicídio por negligência ao ter expelido um de seus homens da nave durante uma tempestade iônica, nas proximidades da Base Estelar onze.

- Parece até um número cabalístico! - brincou Fitzpatrick mas ninguém achou graça. Deci-diu então não mais abrir a boca até ser convocado, se é que seria.

- Posteriormente, - continuou Stone - descobrimos que tudo não passava de uma armadilha engendrada pela mente doentia do mesmo tripulante, que supostamente achávamos morto, que devido a um grande rancor, inveja e sentimento de vingança; quis prejudicar seu capitão por não ter sido ele a comandar a Enterprise. Em nenhum momento a sua tripulação o abandonou, apesar de todas as evidências apontarem para a sua culpabilidade. A lealdade de todos era surpreendente, principalmente a do seu primeiro-oficial. devo re-interar as palavras do Comodoro Mendez, mas caso a Frota decida iniciar uma investigação mais minuciosa posso acionar a minha equipe imediatamente. A face núbia de Stone esperava olhares de aprovação de Mendez e, em especial, de Yashida. Sua diplomacia o levava a pensar em abandonar a Frota e tornar-se um embaixador em Alpha-Centauri ou na Confederação Planetária de 40 Eridani. Se retirou para ocupar novamente o seu lugar. Yashida agradeceu a brevidade das palavras de Stone bem como a idéia de uma investigação miniciosa do caso. Se dirigiu ao parla-tório pela última vez naquela noite.

- Volto a frisar, senhores que quanto menos pessoas souberem de tal situação será melhor para todos nós. Este assunto é secreto. Num tom mais solene, dando a entender que a reunião terminaria, concluiu:

- Senhor presidente, demais membros desta reunião, para agir com total imparcialidade so-bre este assunto tão delicado é que convidei alguns dos senhores para tomar ciência da situação. O Comodoro Quatermain nos fará um relatório, com a síntese do que foi tratado aqui, em código. Daqui a dois dias voltare-mos a nos reunir para tomar a decisão final sobre o assunto. devo lembra para trazerem as cópias destes relató-rios que serão destruídos na presença de todos. Está vedada qualquer cópia deste documento, os discos conterão travas de segurança. Até lá, um bom descanso, sayonara. A sessão está encerrada.

O chefe de logística da Frota não havia parado um minuto sequer de fazer anotações em um lap-top. Assim que acabou a reunião pegou o disco gravado e o trancou em uma pequena maleta, a mesma foi entregue ao Almirante Yashida.

- Aqui está senhor, o relatório da sessão. Entregarei as demais cópias pessoalmente aos membros presentes. O meu relatório, expondo minhas considerações e decisão, estará as oito horas da manhã em seu gabinete. Quatermain deveria ter uns trinta e oito anos, mas não aparentava mais do que vinte e cinco. Seu comportamento austero contrastava com sua aparência jovial. Yashida ainda o analisava quando bateu continência e este saiu do recinto.

O presidente das Nações Unidas da Terra ainda estava sentado e atônito com o que tinha acabado de ouvir. Quando todos sairam e só ficaram ele e Yashida, murmurou alguma coisa em russo que fez o velho japonês notar a sua presença e evitasse de cometer a gafe de deixar o presidente para trás.

- Devo presumir que também devo considerar em omitir esta informação ao Conselho? - pergunta o presidente quase como um lamento.

O C&C sabia das implicações no caso e da grande responsabilidade de cada um. Ele também entendia que os planos de Al-Khazir era arriscado demais, mas parecia ser a melhor alternativa. Compreendia muito bem o peso que o presidente estava suportando sobre os ombros, e secamente, respondeu: - Sim, senhor presidente.

Em seguida Medeleyev levanta-se, ajeita a sua farta cabeleira branca e sem nada dizer retira-se da sala de conferências seguido pelo Almirante Yashida que hesita, por um momento, de ampará-lo pelo braço. As luzes da sala se apagam automaticamente e imediatamente quando os sensores não cap-tam mais nenhuma emissão de calor, e a porta se fecha, deixando em seu interior, pairando no ar, dúvidas e receios.

***

PARTE VI

Havia exatamente quatorze horas que näo dormia. Seu desconforto só era superado pela ansiedade de chegar logo ao seu mundo. Não a Terra, que estava anos-luz de distância, mas o seu próprio mundo, um planeta inteiro para colonizar e dominar. Não parava de pensar um minuto sobre quando e como fazer os preparativos da viagem e se, é claro, permitiram a um condenado estar a par destas coisas.

Para quem foi um grande imperador no passado Khan Noonien Sigh se resumia a um homem e seu orgulho, nada mais.

Ainda estava deitado de olhos abertos pensando sobre o seu destino quando a porta de sua cabine abriu. Não levantou, apenas limitou-se a olhar para as suas visitas. Dois oficiais de segurança entraram primeiro armados com phasers e estes apontados em sua direção. Em seguida o capitão Kirk e seu imediato vulcano se posicionaram à frente dos guardas. Khan olhou fixamente nos olhos de Kirk como se procurasse uma fraqueza para poder subjugá-lo, mas ele não era a tenente Mcgivers, de certo que não.

- Phasers em tonteio - ordenou Kirk - Khan, tenho novidades, quer ouví-las?

Khan se levantou da cama um pouco desengonçado por não poder se apoiar direito com as mãos que estavam enluvadas por algemas eletrônicas. Ao se por de pé, pergunta:

- Capitão, Capitão... Para que tudo isso? - diz isto estendendo as mãos em direção aos guardas que imediatamente dão um passo para trás, com a ironia que lhe é peculiar Khan volta ao seu discursso - Não posso fazer-lhes mal algum. Não é meu desejo. Meu destino já foi traçado e espero que cumpra com a sua palavra.

- Será cumprida, eu prometo. Quanto as medidadas de segurança é porque eu também desejo que nenhuma surpresa aconteça - retorquiu Kirk - Fiz uma pergunta e espero que a responda.

Khan fechou os olhos, respirou fundo e então os abriu de novo. Em outras épocas homens pensariam duas vezes em falar assim com o todo-poderoso Khan, pelo menos aqueles que tinham amor à vida. Não era o momento, contudo, de voltar ao campo de batalha. O momento era de rever estratégias e escolher a melhor.

- Estou aqui para ouvir, capitão. O sarcasmo de Khan era irritante, mas Kirk não poderia se deixar levar por ele.

- Quero que analise estes relatórios sobre as condições do planeta e responda estes questionários sobre as suas necessidades e a do seu grupo para o desembarque e instalação no planeta.

Spock entrega-lhe uma prancheta eletrônica e notando que evidentemente não a podia segurar, deposita-a sobre uma mesa.

- Quanta generosidade, capitão. Devo presumir que pretende manter a minha mente ocupada para que ela não sirva de oficina para... o diabo? Certo?

Khan não era nenhum tolo e havia percebido os movimentos do jogo. Um jogo que ele realizou centenas de vezes com seus inimigos no passado. O que ele não podia prever era o próximo movimento de Kirk, mas era a sua vez de jogar.

- Capitão...- falou mansamente e quase que hipnoticamente. -- Não espera que eu leia estes relatórios com as mãos assim? Kirk não sabia o que ele tramava. Todo o cuidado era pouco. Tentou arriscar a sorte.

- Tenente Leslie, retire as algemas do prisioneiro-ordena Kirk sob o olhar de surpresa do guarda de segurança.

- Senhor... Retirá-las? - pergunta o jovem oficial tentando confirmar se ouvira corretamente a ordem dada.

- Sim, foi exatamente o que disse, prossiga. O oficial de segurança saca de um dispositivo eletrônico que desbloqueava a trava das algemas e executa a ordem relutantemente. Ao se ver livre das algemas Khan massageia as mãos demoradamente para reativar a circulação.

- Então? - pergunta kirk como que movimentando uma peça de xadrez tridimensional - É capaz de lê-los em uma hora ? Eu espero que sim pois é todo o tempo que terá.

Khan assentiu com a cabeça e acrescentou: -- Como o senhor ordenar. Kirk deu de costas e foi seguido por Spock e os oficiais de segurança. A porta se fechou.

O Capitão estava com problemas, pensou Khan. Algo o pertubava e não era ele e seus comandados, o que seria? Por que a demora para chegar a um planeta que ficava a poucos anos-luz dali tendo uma nave tão potente. Algo os retardava e Kirk estava ganhando tempo brincando com ele, o agradando, demonstrando respeito e consideração, mesmo que forçadamente. Realmente alguma coisa não se encaixava. Talvez lendo os relatórios pudesse encontrar algumas respostas.

***

O refeitório estava lotado. Vozes vindo de toda a parte, mas Chekov não as escutava. A emoção de estar numa nave estelar, e na Enterprise, era demais para ele. Queria o quanto antes demonstrar serviço e ser reparado. Principalmente pelo capitão Kirk. Nem mesmo notou quando Estevão sentou-se a sua frente com sua bandeja de comida. Na segunda vez que Estevão se dirigiu a Chekov é que o alferes o ouviu.

- Ei, Chekov, ficou surdo?

- Como? Ah é você Estevão...- diz demonstrando indiferença.

- Eu perguntei se você não vai comer, senão passa pra cá.

Chekov olhou para sua bandeja e em seguida a empurrou na direção de seu colega de alojamento. Estevão não se fez de rogado e atacou a comida de Chekov.

A voracidade com que o outro alferes devorou a sua comida e a dele impressionaram tanto o jovem russo que se sentiu forçado a fazer um comentário:

- Eu já falei sobre um conto russo sobre um menino que comia demais?

- Não...- diz Estevão de boca cheia, sem parar de exercitar o seu garfo.

- "Num pequeno bairro da velha Leningrado..." - antes que Chekov concluísse a sua história alguém toca o seu ombro.

- Posso me sentar? - A voz doce era de uma bela jovem loira. Janice Rand estava de folga e louca de curiosidade em conhecer os novos tripulantes.

- Mas é claro! - Chekov levanta-se e cede o seu lugar. Estevão fica boquiaberto deixando que um pouco de molho escorra pelo canto da boca. Chekov faz um sinal para ele se limpar e se posicionar melhor. O rapaz um tanto sem graça se limpa e estende a mão para cumprimentá-la.

- Emílio Estevão, ao seu serviço. Janice retribui o cumprimento um pouco enojada mas não demonstra antipatia. Chekov tenta desviar a atenção da ordenança para ele.

- Pavel Andreivich Chekov, senhorita...?

- Janice Rand. Você é russo, não?

- Cada molécula - responde com um largo sorriso.

- Vocês são os cadetes que foram comissionados?

Ckekov muda de semblante. Por quatro anos havia estudado bastante e dado um duro danado para se formar e ser chamado de cadete!

- ALFERES, madame. Alferes! - tornou a repetir. Janice percebeu que havia mexido com os brios do rapaz.

- Desculpe-me, Pavel. Não foi minha intenção ofendê-lo.

- Creio que não, senhorita. - Chekov se levanta e dirige-se até o bar.

- Ele é sempre tão esquentado assim?

- Moça, se não quiser problemas com um russo não mexa com seu orgulho.

Um tripulante percebe a irritação de Chekov quando ele chega e já vai oferecendo uma bebida.

- Um whisky? - "Whisky!" Será que todos ali pensam que ele é uma criança?

- Nyet. Algo mais forte, por favor.

- Mais forte? Tequila? Caipirinha?

- Por Pedro, o Grande! Eu sou russo, estes refrescos não esquentam o meu sangue.

- Vodka! Certo? Só um instante.

- Dá.

O sintetizador de alimentos foi acionado. Enquanto esperava a bebida ser teletransportada da cozinha olhava ansiosamente o relógio digital na parede demonstrar que estava na hora de retornar ao trabalho

***

PARTE VII

Jim Kirk voltava à ponte quando é interpelado por um tripulante.

- Capitão, preciso falar-lhe. - Era o Tenente Riley. Kirk o conhecia bem. O jovem irlandês era um ótimo oficial de comunicação e navegador. Antes acreditava que não pudesse ser um substituto a altura de seu antigo navegador, o sério e carrancudo Tenente Farrel. Ficou triste quando este pediu para deixar a nave e ficar com a sua mulher e filho que não vira a não ser por imagens holográficas. Certas coisas um capitão tinha de compreeender. Mesmo ele que amava aquela astronave mais do que tudo na vida, sabia que poderia ter vivido mil vidas, fosse ao lado de Ruth, Areel Shaw ou de Carol Marcus. Este sentimento de estar deslocado Kirk percebia em Riley naquele momento.

- Sim ,Tenente?- Kirk atende ao apelo de Riley e dirige-se ao seu imediato que o acompanhava pelo corredor - Vá na frente Spock, eu o encontro na ponte.

O vulcano aquiesceu com um sinal de sua sombrancelha e prosseguiu seu caminho.

- Desculpe incomodá-lo, capitão. Sei que está ocupado com o caso de Khan, mas não posso esperar mais.

- O que o preocupa, Riley?

- Senhor, gostaria que considerasse a minha transferência para uma outra nave! - Kirk notou um certo constrangimento no pedido do tenente.

- Transferência? Por quê? Houve alguma coisa?

- Receio de estar comprometendo a imagem do comando. Meus melhores momentos na Frota passei aqui na Enterprise. Ultimamente passei por experiências constrangedoras; como ter dominado a nave e da tentativa de assassinato de Kodos e ...

Kirk não o deixou continuar -- Tenente... - pensou um pouco nas palavras a serem ditas e continuou - Na nossa profissão temos que nos acostumar com certas pressões. O vírus que o afetou em PSI 2000 9 ou o fato de ter encontrado o assassino de seus pais fizeram de você um homem melhor, mais experiente, conhecedor de seus limites. Aquele vírus me afetou e eu também tive que me controlar. Nós fomos os únicos sobreviventes do massacre em Tarsus IV e quando vi Kodos vivo também quiz matá-lo, mas tive que me controlar. Não se deixe abater! - Kirk o segurou pelos ombros e deu-lhe uma sacudidela.

- Eu... Não sei o que dizer, capitão. O pessoal da nave me olha esquisito depois de tudo isso. Não me sinto bem... Fico com medo de sair do meu alojamento toda vez que tenho que me apresentar ao serviço. Kirk entendia que seu amigo irlandês estava numa situacão bem difícil. Seu dever falava mais alto. Um oficial do comando que parece aos seus subordinados um desequilibrado mental não poderia ser um bom exemplo e mesmo um relatório médico dizendo que ele estava bem psiquicamente não iria abafar os mexericos.

- Muito bem, moço. Façamos o seguinte: Pense melhor a respeito, não quero perdê-lo, mas se ainda desejar sua transferência volte a falar comigo, sem constrangimentos.

- Não sei como agradecê-lo por me ouvir, capitão.

- Sabe sim - disse se dirigindo ao turboelevador - Fique. Quando as portas do turboelevador se fecharam ainda podia ver o rosto aliviado de Riley fitando-o. Qual seria sua decisão? Só Deus sabia. A dor em sua têmpora o alertava que os problemas ainda não haviam terminado.

***

A sala de engenharia estava uma bagunça. Não por displicência dos técnicos e engenheiros, mas é que havia muito trabalho por fazer. Já eram três horas da tarde e Scott tinha que voltar, mais uma vez, a sua atenção aos jovens alferes. O Sub-Tenente Mitchel já o aguardava com a precisão britânica de sempre.

- A lista que me pediu, senhor.

- Ah, sei... - diz sem olhar para Mitchel enquanto reconectava alguns circuitos. - Coloque isto aí por cima, sim? Mitchel não encontrava um anteparo à vista que fosse seguro deixar seu relatório e acabou por deixá-lo no console de controle do outro lado da sala. Quando retornou viu o engenheiro-chefe às voltas em discussões com seus colegas.

- Não, não De Salle. Religue os circuitos que dão acesso ao sistema de suporte de vida ao sistema auxiliar L-l7. Com isso se a engenharia for dominada outra vez poderemos pelo menos manter os sistemas de suporte de vida de toda a nave através da enfermaria que é um lugar que nenhum inimigo pensa em dominar.

- Claro, senhor. Bem pensado!

- Obrigado - agradece sem falsa modéstia -- Não se chega a engenheiro-chefe de uma belezoca destas só polindo cristais de dilitium. Mitchel pigarreia - Senhor, os alferes o estão aguardando.

- Já sei, Mitchel. Já sei! Onde estão eles?

- Creio que nos alojamentos dos decks 4 e 6, senhor.

- Pois chame-os aqui pra baixo. Peça que transfiram seus alojamentos para cá. Não se pode conhecer a engenharia de uma nave estelar se não respirá-la 24 horas por dia. Eles não queriam ação? Pois eu vou encher os tubos Jeffries de tantos alferes que vão engasgar os sistemas de propulsão. Temos muito trabalho aqui e está na hora deles terem um pouco de calos nas mãos,concorda?

- Sim, senhor. Providenciarei isto imediatamente - o ordenança se afastou a passos largos. Scott sacudiu a cabeça ao notar o quão patética era a figura do Sub- Tenente Mitchel. Se a Frota continuasse a formar jovens do tipo "todo certinho", certamente o velho Scott e Kirk poderiam se considerar animais em extincão. Onde estava a ousadia, a imaginação? Talvez aquele jovem alferes russo do qual não se lembrava o nome tivesse a resposta. Porém, iria verificar isto mais tarde. Enquanto Mitchel sumia de sua vista voltou a dar ordens para que o serviço andasse mais rápido.

- Rodrigues pegue aqule chave sônica pra mim, sim ? Tegushi ande logo com a calibração do fluxo de anti-matéria! De Salle vá até a enfermaria instalar o dispositivo de emergência...

***

A voz de Uhura soou em todas as alas. ''OS ALFERES : ESTEVÃO, RIZZO, OLIVEIRA, CHEKOV, ANDREAS, YAMAHA, SANCHES, TURNER, NEVILLE, MUBARAK, GRECCO, E RIOS; SE APRESENTEM SO SUB-TENENTE MITCHEL NO DECK 15 COM TODOS OS PERTENCES PESSOAIS EM 15 MINUTOS! REPITO, OS ALFERES: ESTEVÃO, RIZZO..."

Assim que ouviu o seu nome Chekov se apressou em fazer sua mochila. Estevão ainda tirava um cochilo quando Chekov o acordou.

- O que foi? - perguntou Emílio sobressaltado -- Algum alerta vermelho ?

- Temos que nos apresentar no deck 15 em 15 minutos com todas as nossas coisas.

- Ah, não... Logo agora que sonhava ser um mercador de mulheres em Orion...- Estevão volta a por a cabeça embaixo do travesseiro.

- Deixe de sonhar, homem. Temos que ir rápido ou o senhor Scott nos esfola. Ele nos têm na mira não vamos facilitar as coisas pra ele.

- Você acha? Só porque ousamos nos pronunciar?

- Sei quando vejo um homem com idéias na mente. Ele me lembra, por algum motivo, o Comodoro Kramer, um instrutor que tive na Academia.

Fizeram suas mochilas rapidamente e correram para o turboelevador mais próximo, que já estava lotado com jovens ainda se arrumando em seu interior.

PARTE VIII

"Diário de bordo, data estelar 3.144.9 Aguardando ordens do comando da frota sobre o exílio de Khan e seus homens. A demora das novas ordens me faz pensar que a frota possa ter outros planos em mente e isto me deixa um pouco receoso quanto a segurança da nave. A cada nova hora Khan faz novas exigências de material para desembarque.

O Dr. McCoy aconselhou tranferí-lo para um alojamento vip e na companhia da Ten.McGivers para acalmá-lo. Parece que nosso ratinho está confortável no cativeiro mas até quando?"

Enquanto fazia seu Diário na ponte de comando Janice Rand entra com uma bandeja de café para os funcionários de serviço. A ponte estava quase vazia

Afim de economizar combustível Kirk havia pedido que travassem o curso em direção à Ceti Alpha e deixassem a nave em piloto automático com velocidade sub-luz, dispensando o navegador e o piloto. Só ficaram na ponte um técnico de manutenção, um oficial de comando, um oficial de comunicações e ele próprio.

A loirinha, com um sorriso simpático, ao oferecer-lhe um café era uma visão celestial. Não podia censurar que sua parte má, ao se separar de seu corpo por causa de um defeito no transporte, no passado, a desejara.10

- Senhor ? - Janice entregalhe a caneca.

- Obrigado, veio a calhar. - diz Kirk com um sorriso. - Ainda está de serviço?

- Na verdade estou de folga à duas horas, mas resolvi vir até a ponte para agradecer ao senhor.

- Agradecer ? - Kirk não fazia idéia do quê a ordenança estava falando.

- Estive lendo minha ficha e fiquei surpresa ao ver que o senhor me indicou para uma promoção à Sub- Tenente.

Era verdade. Ele havia esquecido disso.

- Era o mínimo que eu podia fazer por seus serviços prestados. Janice enrubesceu. Sua face corada a fazia mais bonita. Antes que algum pensamento pecaminoso lhe viesse a mente resolveu voltar ao seu alojamento.

- Espero que faça juz as minhas recomendações, Alferes. Bem, - levantou-se da cadeira - o café estava muito bom, mas sinto que também está na hora de me recolher. Kirk indica a passagem do tubo elevador para Janice e a segue . Embora seu corpo pedisse descanso sua mente trabalhava em uma idéia que nem ele mesmo tinha certeza do que era ainda. Ainda.

***

- Chekov ? - soa uma voz na escuridão.

- Hum? - veio um gemido como resposta.

- Não consigo dormir. Acho que estou estranhando a "cama".

- Procure contar carneirinhos... - sugeriu Chekov à Estevão.

- Não posso. Na minha terra não tem carneiros, não consigo imaginá-los.

- Emílio... - a voz do jovem russo tinha um tom de súplica. Haviam passado a tarde e toda a noite polindo cada circuito integrado da engenharia. O sistema de emergência de desvio de força da engenharia , em caso dela ser tomada por inimigos, estava concluído graças a ajuda extra da equipe dos Alferes. Ivan, o terrível, teria sido mais misericordioso do que o engenheiro - chefe Scott.

- Chekov ? - tentou mais uma vez a ajuda do amigo mas fora em vão. Pavel já havia retomado seu sono.

- Chekov ? - a voz do Alferes Estevão ecoou no alojamento , mas desta vez não encontrou um retorno.

***

Já havia amanhecido. É claro que quando se está no espaço profundo as noções de manhã, tarde ou noite são meras metáforas. Um relógio atômico, controlado pelo computador central da nave, determinava as horas do dia,dia da Terra. Isto ajudava a regular o relógio biológico de cada um a bordo; bem como a luminosidade dos conveses. Pelo menos era o que afirmavam os cronobiologistas.

Jim Kirk sentiu que devia voltar a ponte depois de ter dado uma olhada no seu relógio de cabeceira. Era um velho relógio-despertador digital do início do século XXI , e ainda funcionava! Kirk adorava relíquias e esta havia ganho do Dr. McCoy quando este se apresentara à bordo. Talvez para quebrar o gelo das apresentações, conquistar sua simpatia ou demonstrar que o doutor não era tão ranzinza e mal humorado quanto parecia.

Eram nove horas da manhã e seus problemas ainda não haviam sido resolvidos. Não até agora. Levantou-se e pôs-se a lavar o rosto. Talvez alguma idéia surgisse." Por quê, com mil diabos, eu tenho que pensar em tudo?" -amaldiçoava as responsabilidades de comando. Tocou o intercom - Kirk falando. Quero os chefes de departamento em dez minutos na sala de conferências. Kirk desliga.

Uma decisão teria que ser tomada, e ele estava disposto a dar um fim em tudo isto.

***

PARTE IX

Quando Kirk entrou na sala de de reunião já encontrou seus oficiais de prontidão.

- Bom dia, senhores. temos que tomar certas providências.

- Pensei que devería-mos aguardar ordens do comando da Frota. - salienta Spock, demonstrando um reservada curiosidade.

- Já aguardei demais. - responde o capitão em desbafo.

- Mas, Jim... - o Dr. McCoy arrisca um comentário - Eles podem acusá-lo de insubordinação!

- Não, não podem. - Kirk sorri para seu primeiro-oficial esperando que este confirmasse o que tinha em mente.

O vulcano olhou para seu capitão procurando compreender melhor a situação. Quando entendeu as entrelinhas, complementou:

- O capitão está certo. A patente de um comandante de nave estelar confere-lhe poderes sobre as vidas de sua tripulação bem como o seu bem estar. Dá-lhe também extensiva jurisdição sobre indivíduos ou atividades exercidadas por afiliados da Federação encontratrados no curso de sua missão; podendo agir como um embaixador da Terra, representando a Federação no espaço longínquo.

- Em outras palavras... - McCoy pede um resumo mais esclarecedor.

- Em outras palavras, doutor .- conclui Kirk - O comando da Frota não cancelou minhas ordens, pois para isso teriam que comunicar ao Comitê Militar, e devido a gravidade da situação, tal problema deveria ser levado a discussão no Conselho da Federação, pois um grupo hostil como o de Khan ameaça a paz galáctica. E pela demora do recebimento de um comunicado devo presumir que eles devem estar com problemas para desatarem este nó que eu fiz.

Todos ficaram aguardando a decisão final do capitão. Scott e McCoy se entreolharam. O doutor, que nunca soube o que era ser paciente, perguntou apressadamente:

- O que você tem em mente, Jim?

- Quero Khan e seus soldadinhos fora de minha nave. A presença deles tira a minha paz, e o meu sono também. A Frota disse para aguardar e o faremos preparando tudo para desembarcá-los o quanto antes em Ceti Alpha-5.

- Mas, capitão, será uma operação muito trabalhosa. Teremos que designar uma guarnição de, no mínimo, cinquenta homens para desembarcá-los com segurança.

- Ninguém disse que ia ser fácil, Scotty. - Kirk notou que seu engenheiro-chefe ficara sem graça com a resposta que lhe dera. Ele sabia que se preocupava com a operação mais do que ninguém, pois todos os detalhes técnicos iriam fatalmente depender dele. Ligou o intercom:

- Sulu?

- Sim, capitão? - responde o piloto.

- Mantenha o curso traçado e nos coloque a uma velocidade de dobra fator três.

- Curso traçado. Dobra fator três, acionando, capitão.

- Uhura?

- Pronta.

- Se houver alguma resposta do comando da Frota... - olhou para os presentes e em seguida completou a frase - ... responda com estática.

***

O sistema Ceti-alpha estava a menos de um ano -luz à frente. Enquanto olhava as estrelas distantes passarem rápido na tela da ponte de comando, Kirk já pensava no momento do desembarque de Khan e seu grupo. Estava obsecado com a idéia de livra-se deste problema, mas tal e qual a sua dor de cabeça, insistia em atormentar seus neurônios.

McCoy adentra a ponte e notando a tensão e o olhar distante de seu capitão saca de seu scanner médico. Ao ligar o pequeno objeto quebra o aparente transe de Kirk. O doutor, em seguida, profere seu diagnóstico.

- Cento e vinte batimentos por minuto. Nível alto de adrenalina. Pressão... Dezoito por dez! É, eu não diria que estaria pronto para uma partida de tênis.

- Vira este negócio para lá, Magro. Não estou interessado em jogar tênis.

- Mas o atual jogo em que está participando está deixando seus nervos em frangalhos. Acho que deve repousar um pouco.

- Me sinto melhor sentado nesta cadeira. - responde com seu sorriso maroto - Como está o grupo de Khan, algum problema?

- Estão estáveis. Acabei de vir da área de detenção. Temos monitorado as suas condições o tempo todo. Acho que mais de duzentos anos no espaço não prejudicaram as condições físicas do grupo. Eles possuem um metabolismo notável. Você anda contando os minutos, não?

- É como uma espinha num rosto de adolescente. Incomoda, dá vontade de espremer mas não é recomendável.

- Eu recomendaria Acnex, mas não acho que sirva para a situação. Kirk sorri. Por um momento sua dor de cabeça o abandora. Ele levanta de sua cadeira e dirige-se para o posto de ciências, onde seu primeiro-oficial está as voltas com o sensoreamento de Ceti Alpha-Cinco.

- Alguma novidade, Spock?

- Talvez... - responde o vulcano sem tirar os olhos de seus instrumentos e a continuar dedilhando o console de seu computador - Estou captando uma leitura incomum, capitão.

- Incomum? Especifique.

- De acordo com os nossos sensores, há uma grande nuvem ionizada envolvendo os planetas Ceti Alpha- Cinco e Seis.

McCoy, que se juntara aos seus dois amigos, não resiste a curiosidade.

- O que isto pode significar ?

- Na prática significa que esta nuvem pode atrapalhar o desembarque no planeta pelo raio de transporte. Na verdade, há uma chance de 98% disto ocorrer.

Kirk sente as suas têmporas recomeçarem a latejar. - Estimativa para a dispersão da nuvem?

- Para as próximas vinte e quatro horas... Nenhuma. Segundo os meus cálculos, a nuvem vem aumentando na proporção de dois centímetro cúbicos por hora.

- Isto mudava totalmente os planos. Se o desembarque não pudesse ser feito pelo transporte, deveria ser feito com uma nave auxiliar. A Frota, desde o início da missão, havia prometido aparelhar a Enterprise com cerca de cinco naves auxiliares. Mas com as constantes necessidades de patrulhamento da galáxia devido aos diversos acordos diplomáticos com inúmeras raças, a verba destinada para a construção delas fora desviada para a construção de naves estelares e cargueiros. O que, políticamente, impressionava muito mais. A Enterprise tinha sorte de poder contar com a Galileo.

- Spock, aguardo sugestões para nos livrar da erva daninha.

- Erva daninha, capitão? Ah, uma planta parasita terrestre! A expressão é usada para fazer uma analogia a uma situação onde um mal cresce entre...

- Spock...- suplica Kirk, cortando o comentário do oficial de ciências- Apenas especule.

- Especular, capitão? - diz Spock demonstrando-se ofendido. - Nós, vulcanos, não especulamos. Procuramos fornecer cálculos tão precisos quanto forem possível mesmo quando os dados não são suficientes para uma resposta exata.

- Isto é especulação! - afirma McCoy na tentativa de irritar seu amigo vulcano, seu passamento favorito. Kirk percebeu , quando Spock levantou sua sobrancelha direita, que o vulcano estava prestes a replicar o comentário do humano implicante e se apressou para falar:

- Seria possível... fornecer dados, os mais precisos nestas condições, para nos livrar desta situação?

Spock não gostou da idéia de ficar sem sua réplica mas, em respeito ao seu capitão, forneceu ao computador alguns dados e em segundos veio a resposta em seu monitor.

- Utilizando uma nave auxiliar seria preciso realizar 13 viagens com duração de, considerando ida e volta, seis horas para cada viagem. Isto incluindo o tempo para o desembarque de cada grupo. Tempo total de oitenta horas, adicionando duas horas para possíveis imprevistos. Para tal operação será preciso, no mínimo, vinte seguranças e mais um oficial para comandá-la.

- Isto nos dá um pouca mais de três dias. É muito tempo! Khan poderia armar alguma coisa.

- Para ser mais exato, capitão - Spock diz isso olhando para McCoy - se incluirmos os preparativos para a viagem teremos oitenta e três horas e trinta e cinco minutos.

- Não podemos dispor deste tempo todo. Não devemos. Não há uma maneira mais rápida? Um plano alternativo?

- Bom... Em recente parada na Base Estelar Onze recebemos uma nova nave auxiliar, a Copérnico, para que o sr. Scott fizesse algumas alterações. Ela não está operacional, pois será um protótipo de um novo modelo. Mas, conhecendo a destreza do sr. Scott, uma vez que a Copérnico ficasse operacional, poderia nos dar cerca de ... - Spock digita novos dados no computador - quarenta e duas horas e oito minutos.

- Não é o suficiente. Tem de haver uma outra maneira. Procure trabalhar junto com Scott para encurtar este tempo. Eu estou procurando um milagre e vocês são as pessoas mais indicadas para que este se realize.- Kirk virou-se para seu piloto - sr. Sulu, quanto tempo falta para chegarmos a órbita do planeta?

- Uma hora e quinze minutos, capitão. Já possuímos visual.

- Ponha na tela.

Um grande planeta azulado, cor características de planetas classe-M, surge na tela da ponte de comando. Ceti-Alpha Seis, seu planeta gêmeo, porém, não possuia a mesma coloração. Uma cor avermelhada indicava grande presença de atividades vulcânicas o que significaria ser um planeta mais jovem.

- Spock, inclua na imagem a nuvem iônica e sua total extensão.

- Imediatamente.

Normalmente aquela nuvem de íons não seria visível, mas os poderosos sensores da Enterprise tornava tal visão em algo possível. Era uma bela visão. Um tom amarelado(cor sugerida pelo computador); encobria todo Ceti- Alpha Cinco e ameaçava o outro planeta também. Mas qual seria o motivo para aquele fenômeno?

- Já descobriu a origem desta nuvem, Spock?

- Estou trabalhando nisto, capitão.

Enquanto Kirk esperava a resposta de Spock ele começou a imaginar a Terra no lugar daquele planeta. A visão agradável das montanhas de sua terra natal... a comida caseira... montando um cavalo e saindo em disparada pelas belas e verdejantes pradarias...

- Já possuo alguns dados, capitão. Kirk é devolvido, subitamente, a realidade.

- Prossiga.

- Na verdade, a nuvem que captamos é derivada de uma instabilidade atmosférica criada por flares do Sol do sistema.

- Flares? Explique.

- São manchas solares que misturam suas linhas de campo magnético causando configurações de campos anti-paralelos. Isto provoca uma aniquilação do campo das duas manchas e a energia é então liberada na forma de uma explosão.

Kirk olha para McCoy sem entender uma palavra que Spock dissera.

- Você perguntou.- diz McCoy tentando consolar seu amigo capitão.

- Isto... O Flare... está afetando a atmosfera do planeta?

- Afirmativo. Os flares produzem raios-X e outras radiações que pertubam a ionosfera do planeta, disparando partículas eletrizadas fazendo-a brilhar.

- Quer dizer que o fenômeno é parecido com uma aurora boreal? - indaga McCoy.

- Exatamente, doutor. - se surpreende com os conhecimento astronômicos do médico da Enterprise.

- Só que no caso de Ceti-Alpha Cinco o fenômeno se extende por todo o planeta, não se restringindo apenas ao seu pólo norte, como acontece na Terra.

- Um flare tão intenso assim pode indicar um provável colapso do sol do sistema? - especula Kirk tentando demonstrar também alguns de seus conhecimentos de astronomia.

Spock assume um tom mais formal, como se fosse um professor se dirigindo à classe.

- O sol do sistema Ceti-Alpha é uma estrela de população II, uma estrela com idade aproximada de 8,5 bilhões de anos, embora seja um sol amarelo, verifiquei uma queda de temperatura nas camadas mais externas. Ele está se tornando uma gigante vermelha. Mas isto só ocorrerá daqui a milhares de anos, porém seus efeitos já podem ser sentidos.

Kirk começa a especular se sua escolha pelo planeta à frente fora um erro. Não poderia perder mais tempo ainda procurando um novo planeta. A Enterprise não era um transatlântico espacial para ficar passeando pelo universo a desenbarcar seus hóspedes e oferecer-lhes estadias inesquecíveis.

- Isto pode afetar a estadia de Khan e seu grupo? - indaga Kirk um pouco temeroso.

- Na prática suponho que sim, capitão. Porém quando o senhor tomou sua decisão não sabia em que condições se encontrava o sistema. Há muito que uma nave da Federação não visitava este setor.

Uma gigante vermelha, até atingir o ápice de sua condição, iria emitir muito mais calor e radiação para as órbitas de seus planetas com o passar do tempo. Estudos mais prolongados deveriam dar a resposta se tal fato aconteceria daqui a dois milhões de anos, duzentos mil anos, duzentos anos, ou dois anos. Se o tempo fosse muito curto ele poderia realmente estar condenando todo os seus prisioneiros à morte e isto ele não gostaria que constasse de sua ficha. O fantasma de Kodos o assombrava, bem como sua dor de cabeça.

Cada vez mais problemas iam surgindo. Um grupo invasor em sono profundo que toma todo o tempo da equipe médica da nave. Um líder político do passado que quase o matou tendo que ser tratado como um hóspede V.I.P. . O comando da Frota na iminência de contrariar as suas ordens. Um oficial de comando pedindo transferência por se sentir inseguro. Um sistema solar em colapso. Uma nuvem iônica se interpondo entre alguma chance de se livrar daquela confusão o mais rápido possível. O que fazer? Dar meia volta e procurar a colônia penal mais próxima poderia ser a melhor solução. Kirk tenta conter sua dor de cabeça pressionando suas têmporas.

- Capitão? - Uhura interrompe o pesadelo de Kirk somente para piorar as coisas. -- Khan exige falar com o senhor imediatamente.

Pareciam que os problemas não teriam mais fim. Quando sua cabeça estava no ponto de estourar, McCoy se aproxima e lhe dá uma injeção que alivia suas dores como num milagre.

- O que foi isto? - pergunta Kirk aliviado.

- Algo que irá ajudar. Também tenho minha cota de milagres. - sorri o médico acompanhando o capitão até o turbo-elevador.

***

PARTE X

Pavel Chekov e os demais alferes estavam perfilados no salão da engenharia para mais um dia de instrução. O carrasco do sr. Scott estava falando à dez minutos sobre o sistema de propulsão da nave, sobre o sistema de dobra, sobre o fuxo de anti-matéria, sobre cristais de dilithium... Até que o intercom soou. Salvos pelo gongo! - pensou Chekov. O discurso foi interrompido. Estevão estava dormindo em pé. Chekov cutucou-o para despertá-lo.

- Ahn? O que foi?

- Você estava dormindo! Você está louco? Deu sorte que o Tenente Scott não tenha percebido.

- Desculpe mas, aquelas camas nos alojamentos não fazem bem a saúde, camarada. Não mesmo. É de admirar que em pleno século XXV não façam camas melhores.

- Ah, acredito que elas são projetadas para provocar o efeito que causam em nossas colunas.

- Será?

- Não duvide disto. A Frota Estelar pensa em tudo.

- Perdi muita coisa?

- Não. Tudo que ele falou já estamos fartos de ler nos manuais. Estou cheio deste enche-linguiça. Ele fala dos cristais de dilithium como se fossem pedras mágicas!

- Mas eles são cristais muito raros!

- Eu brincava de caleidoscópio com eles em Leningrado.

- Existem cristais de dilithium na Rússia?

- Lá existem muitas minas. As maiores da Terra.

- Mas como? Isto não está escrito em nenhum anuário de geologia ou nenhum manual da Frota.

- É que é um segredo militar. Na verdade se sabe disto há muito tempo.

Desde que um russo descobriu como quebrar a barreira da luz.

- Um russo quebrou a barreira da luz? Eu pensei que fosse Zefram Cochrane, e pelo que me consta ele não era russo.

Chekov tinha um grave defeito. Quando ele começava a mentir não sabia quando parar. A colocação de seu colega o deixou um pouco desconcertado mas não demorou muito para elucidar a dúvida de seu colega.

- Bom... na verdade ele apenas aperfeiçou a teoria.

- Puxa! Quem diria? - Estevão dá uns tapinhas de congratulações nas costas de seu colega. Chekov era a pessoa mais versada em diferentes assuntos que conhecera. Tão culto, tão letrado!

Antes que novas histórias surgissem e Chekov se enrolasse mais e mais; a voz firme do engenheiro-chefe ecoou. O gongo soou de novo.

- Estamos com problemas lá em cima, pessoal. O comando espera que resolvamos.

- Que tipo de problema, senhor? - pergunta Chekov na ânsia de que a resposta quebrasse aquela rotina enfadonha.

- Como todos sabem, recentemente tivemos problemas com um homem chamado Khan e seu grupo. Uma corte marcial decidiu por um desterro em um planeta.

Isto seria feito pelo tele-transporte mas uma nuvem iônica nos impede de descê-los. Nossa tarefa será de elaborar um meio rápido, eficiente e seguro para que tal operação se concretize.

- E as naves auxiliares? - pergunta o alferes Mubarak.

- Leva muito tempo. O capitão não quer que percamos mais do que um dia.

O silêncio na sala de engenharia era total. A mente de Chekov fervilhava. Súbito a inspiração tomou conta dele. Em instantes sua mente era uma represa a ponto de se romper. Hesitante, porém eufórico, Chekov levantou a mão para chamar a atenção de Scott.

- Sim, alferes, alguma idéia?

- Acho que podemos realizar o desembarque em algumas horas!

Todos olharam para o jovem russo estupefatos. Até mesmo Scott, o senhor dos milagres, não fazia idéia em que o rapaz pudesse estar maquinando.

- Explique melhor isso, moço.- ordenou o engenheiro-chefe.

Chekov deu uma olhada rápida para seus companheiros e depois fitou o seu oficial superior, suspirou e por fim falou:

- Colocamos todos num container de transporte e os lançamos na atmosfera do planeta. O pouso poderá ser amenizado com foguetes retirados de torpedos fotônicos. Um planeta classe-M possui uma hidrosfera de grande extensão portanto, a probabilidade de uma aterrizagem menos- fez uma pausa- "dolorosa" é de pelo menos 70%.

Chekov terminou sua explanação radiante. Seus companheiros olhavam para ele sem terem entendido nada.

Todavia, Scott já imaginava a idéia em andamento e se preocupava com os detalhes da operação.

- Garoto, venha até aqui.- ordenou o escocês.

O jovem alferes deu um passo a frente. Seu corpo estava tremendo de medo.

Será que havia sido petulante?

Scott aproximou-se e pôs-se a encarar seu pupilo. Chekov prepara os ouvidos para um sermão e uma descompostura quando ouviu:

- Vamos colocar isto no computador. Se suas sugestões forem boas, isto contará pontos a seu favor.

Scott dispensou o grupo que começou a felicitar Chekov pela sua coragem.

Em seguida seus colegas foram realizar outras tarefas de monitoramento dos controles da engenharia enquanto ele e o sr.Scott ficaram a realizar gráficos e cálculos nas horas que se seguiram.

***

"O que eles estavam pensando? Khan Noonien Sigh não era um tolo!

Aprisionando-me numa gaiola dourada, tendo todas as minhas vontades atendidas. Estão querendo minar a minha vontade! Talvez Kirk tenha mudado de idéia e estava apenas querendo torturá-lo com a espera. Ele é um homem ardiloso."

Khan estava nervoso e impaciente. Tentava imaginar os pensamentos de Kirk mas não conseguia. Ele admirava o capitão daquela nave; como qualquer um dos seus inimigos do passado que derrotou.

- Querido? Em que está pensando? - Marla McGivers havia acordado e procurava por ele na cama. Khan não respondeu. Continuou a andar de um lado para outro tentando adivinhar os pensamentos de seu oponente. Quando Marla o chamou pela segunda vez ele se irritou.

- Fique quieta! Estou pensando e sua voz me atrapalha! - olhou furiosamente para aquela que havia tomado como sua propriedade. Os olhos de

Marla se encheram de lágrimas. Por um momento o coração de Khan amoleceu e quando já ia dizer algumas palavras de conforto ou carinho, a campainha do alojamento soou.

- Entre, capitão. Eu já o aguardava. - disse de costas.

Kirk entra acompanhado pelo doutor McCoy. Atrás deles dois guardas de segurança com phasers em punho.

Khan então se vira para a dupla de oficiais.

- Ah, o corajoso Dr.McCoy! Não veio, por acaso, dar-me algumas vitaminas?

- Só se fossem misturadas com arsênico.- responde McCoy como se não valorizasse a própria vida.

- Cuidado, doutor... - enquanto todos esperavam uma ameaça - O senhor fez um juramento! Ou no seu tempo Hipócrates deixou de ter importância?

Kirk, mestre em mediar provocações, não deixa Khan dar-lhe um motivo para sua dor de cabeça voltar.

- Queria me ver? Aqui estou. O que deseja agora?

- Deseja, capitão? Desejos é tudo que tenho, é tudo que me oferecem!

Olhe para este aposento.- dá uma meia volta - É luxuoso, digno de um rei!

Me deixaram até compartilhá-lo com a mulher que escolhi - aponta para Marla que havia se levantado e estava envolta num roupão. A tenente, agora exonerada de suas funções, não conseguia olhar para seu ex-oficial superior pois se sentia envergonhada. Kirk não a censurava. Ela havia salvo sua vida e era uma mulher cega pelo amor. Khan continuou com suas queixas:

- Esta gaiola... Esta situação não pode durar mais nem uma hora, nem mais um minuto! Aonde está o planeta que me prometeu?

- Estamos próximos. Escute Khan estas coisas levam tempo e ... - Kirk não conseguiu completar a frase. Khan se aproxima e encara o capitão. Olha nos fundos dos olhos de Kirk e vocifera:

- É mentira!

- Acredite no que quiser então. Tenho uma nave para cuidar. Não tenho disposição para bancar a babá. Vamos embora, Magro. - Kirk se dirige para a porta quando tem o seu braço puxado. Um guarda ameaça usar o phaser. Kirk faz sinal para que o guarda nada faça.

Khan estava fitando o oficial de segurança e esperando um gesto para poder revidar. Quando este decide se afastar Kirk sente a pressão em seu braço diminuir. Khan o olha como quem diz : "Sábia decisão, capitão!" E então o solta de vez. A diplomacia supera os rompantes emocionais. Seria melhor para todos. Khan, no entanto, não deixa de usar a força em suas palavras.

- Você me teme, capitão. Ainda acha que posso dominar sua nave outa vez, não é? Vejo isto em seus olhos.

- As vezes só vemos aquilo que queremos ver. Eu o subestimei uma vez.

Não costumo cometer o mesmo erro duas vezes.

Khan continuou o seu cabo-de-guerra mental. Olhou Kirk durante alguns momentos e em seguida foi até a mesa da sala para apanhar os relatórios que Spock lhe dera. Pegou-os e entregou a Kirk.

- Li-os e refiz alguns ítens da operação de desembarque. Não está nos dando muita coisa, isto não é justo.

- Você não soube ser misericordioso também. Quero que você entenda sua posição uma vez por todas. Gosto de ver a sua cara azeda na minha nave tanto quanto você a minha. Tenho que engolir que você é, ou foi, um líder político no passado e hoje é considerado um prisioneiro de guerra. Portanto, tenho que tratá-lo bem. Mas, tão logo possa, chutarei o seu traseiro e de seus homens pra fora da Enterprise.

Khan sorriu ao ouvir as palavras de Kirk. Seu deboche era irritante.

- Excelente! Um discurso digno de um grande líder. Agora, capitão... De líder para líder; gostaria de que respondesse algumas questões que me pertubam. Quando chegaremos a Ceti-Alpha Cinco?

- Breve.- responde Kirk, já sabendo que provavelmente já estavam orbitando o planeta.

- Quando poderei rever meus homens?

- No momento oportuno.

- Suas respostas estão sendo muito vagas, capitão.

- Eu acho que já perdi tempo demais com você. Quando tudo estiver pronto será chamado. Até lá aproveite sua estadia e não tente nenhuma gracinha. Os guardas têm ordens de atirar para matar. Isto se refere a tenente ...- corrige-se - a Marla também.

Ao terminar de falar se retira acompanhado de um calado Dr.McCoy e pelos guardas. Já do lado de fora Kirk ordena:

- Deixem os phasers em tonteio.

Os guardas dão de ombros. A ordem não era outra? McCoy sorri para Kirk e este se diverte com tal situação. Ele gosta de manter a fama de ser um capitão imprevisível.

Khan, no interior do alojamento, enfurecido, desfere um poderoso soco na mesa partindo-a em duas.

***

PARTE XI

Quando o capitão entrou na ponte, Spock estava receoso em lhe apresentar más notícias. Porém seu receio poderia demonstrar que sua emoção estivesse tomando conta de sua parte racional. Mas ele era vulcano e possuia um total controle sobre as suas emoções. Oferecer relatórios era seu dever, dar notícias boas ou más fazia parte de seu trabalho. Assim que Kirk se sentou, Spock se aproximou mas, nada falou. Isto incomodou o capitão que percebera que algo incomodava o seu primeiro-oficial.

- Alguma coisa para me dizer, Spock?

- Receio que sim, senhor.- Kirk não gostou do seu tom de voz. Parecia que mil cruzadores de batalha Klingons o haviam cercado.

- Recea? Qual o problema? Se é que ainda podemos nos dar ao luxo de ter mais um.

- Acho que a cota ainda não está completa, capitão.

- Spock! Quer... por favor acabar com o suspense.

O vulcano se aproximou mais e começou a reportar suas últimas descobertas.

- Na última hora estive monitorando a nuvem ionizada que engloba os dois planetas...

- E...- Kirk tenta apressar Spock em suas observações.

- Na verdade são duas nuvens distintas. A primeira deriva de um flare mas, a segunda...

O que poderia ser pior que um Klingon? Dois, era a resposta. A velha piada parecia sem graça agora.

- A segunda? - repete Kirk nervosamente.

- A segunda é mais densa e cheia de pequenas partículas rochosas.

Simulei algumas situações no computador e acredito que Ceti-Alpha Seis possa ter colidido com um astro recentemente.

James T.Kirk tentava acompanhar o raciocínio do vulcano mas parecia que a nuvem ionizada havia penetrado no seu cérebro. Spock prosseguiu:

- Isto alterou sua órbita e afetou seu núcleo. O planeta está se despedaçando e expelindo ondas de calor e eletromagnéticas.

Kirk levou a mão à testa pressionando-a fortemente. Sua enxaqueca voltara. Aonde estava o Dr.McCoy quando se precisava dele?

- O senhor está se sentindo bem, capitão?

- Oh, não é nada. Deve ser a falta de... boas notícias.

Spock ergue sua indefectível sombrancelha direita demonstrando confusão pela declaração de seu capitão.

O ruído do sinal do intercom surge de repente e Kirk atende de sua cadeira.

- Sim? Kirk falando.

- Capitão, acho que tenho um plano para enviarmos nossa encomenda. - a mensagem de Scott parecia uma música, uma valsa talvez.

- Não se mexa Scott, fique aí. Não quero que esta boa notícia escape.- e acrescentou - E isto é uma ordem! Kirk desliga.- vira-se para Spock - Parece que encontramos uma brecha na tempestade! - Dá um tapinha no ombro de Spock e corre para o turbo-elevador. Sua enxaqueca era agora uma leve lembrança.

***

Na sala de engenharia os jovens alferes estavam perfilados como se esperassem uma inspeção. Quando o capitão passou por eles nem ao menos os cumprimentou. Chekov, ao ver seu ídolo, não pode conter sua taquicardia. Kirk estava mais interessado em analisar a chance de se livrar de Khan uma vez por todas.

- Muito bem Scott, aonde está?

- Registramos tudo em fita, capitão. Vou ligar o monitor.

Kirk e Spock, que o havia acompanhado, observaram o vídeo da simulação do envio de uma nave de carga para o planeta e seu pouso, um pouco acidentado, nas águas quentes de Ceti-Alpha Cinco; acompanhada de duas naves auxiliares, em um vôo mais controlado e repletas de oficiais de segurança e equipes de resgate.

Ao final da simulação, Spock arriscou um comentário.

- Muito engenhoso, sr.Scott. Mas nós não temos uma nave de carga. De acordo com a simulação tal veículo parecia um container de transporte de naves da classe Ptolemy, mais precisamente um MK-III.

O vulcano teve a sua fala interrompida por um dos jovens na sala.

- Desculpe, senhor. Mas na verdade a nave de carga foi inspirada no modelo MK-I, que transporta líquidos. Evidentemente é uma versão em escala menor e modificada. - Chekov não ousava olhar na direção de seus oficiais superiores.

Kirk ficou intrigado com a interpelação do jovem alferes, e perguntou ao seu engenheiro-chefe:

- Quem é ele?

- Bem, capitão... - Scott hesita um pouco em apresentar o alferes. - Ele é o autor da ídéia.

- Toda ela?

- Bom.. - confessa sem modéstia- Eu fiz alguns ajustes.

- Ah! - Kirk fitou Spock e por um momento pareceu-lhe que o vulcano estava constrangido porque sua observação não parecia ter sido precisa. - Spock?

- Eu... especulei. - confessa o oficial de ciências. Kirk se divertia com a situação.

- É senhor Spock, parece que tem muito de humano em você.

- Senhor, - diz baixinho- já estou um pouco constrangido com a situação mas não vejo a necessidade de me ofender na frente destes jovens.

- Sinto muito, me desculpe.

- Desculpas aceitas, senhor.

Scott e Kirk se continham para não rir da situação.

O capitão andou até aonde estava o jovem aspirante e se prostou a frente de Chekov. Scott se colocou ao lado de Kirk e fez um comentário em voz baixa. Chekov só ouviu quando Kirk repetira um nome, com certo espanto: Aldous Kramer.

- Se Kramer o recomendou é por que você tem valor. Qual o seu nome? - antes que o russo pudesse abrir a boca, Spock se adiantou:

- Pavel Andreievich Chekov, natural da Rússia, Terra, vinte e um anos.

Se formou a dois meses, três semanas e cinco dias. Foi comissionado na Enterprise uma semana antes de encontrarmos a Botany Bay vagando no espaço.

- Kirk percebeu que seu primeiro-oficial estava um pouco ressentido e precisava demonstrar sua capacidade de estar sempre a par de tudo, como todo em segundo lugar no comando deveria estar. Spock parecia demonstrar satisfação com o seu comentário mas, demonstrar orgulho não ficava bem para um vulcano.

Kirk retirou Chekov da formação e pôs sua mão no ombro dele como se fossem velhos amigos.

- Sabe, eu já servi junto com Kramer no passado...

- Na Farragut, e o senhor salvou-lhe a vida. - emenda Chekov.

- Parece que não há segredos na Frota Estelar, não?

- Nem na Academia, senhor.

Scott e Spock acompanham os dois como num cortejo e só pararam de andar quando Kirk, e seu jovem tripulante, também pararam próximos ao painel de controle principal.

Kirk ficara com muito boa impressão da impetuosidade do jovem, algo que fazia lembrar ele mesmo há dez anos atrás.

- Scott, qual a previsão para a construção da carruagem da nossa Cinderela?

- Bom, senhor. Procuramos analisar todas as alternativas. Em uma descida com as naves auxiliares poderíamos levar cerca de oitenta horas, isto sem contar com o tempo que levaremos para adequar a Copérnico. Digamos que isto acrescentará mais uns três dias. Temos portanto a questão segurança que será mínima. Isto seria um grande risco.

Teríamos que colocar os homens de Khan e os nossos no mesmo espaço físico, eles não poderiam estar dopados pois numa situação de resgate isto dificultaria muito as coisas. Nesta outra alternativa temos a questão de segurança muito mais controlada, pois o monitoramento seria a distância, quando muito uns cinco homens poderiam ir na nave de carga enquanto o restante da tropa está em outras naves. Os botes salva-vidas serão usados no caso de um pouso no mar.

- Quanto tempo? - repete Kirk a pergunta.

- É claro que poderemos trabalhar na nave-cargueiro ao mesmo tempo que na Copérnico...- vendo a impaciência de Kirk, apressa-se num prognóstico.

- Uma semana, se tivermos bastante ratos e abóboras.

- Terá todos que puder dispor. A partir de agora isto será prioridade.

Arranque as paredes do corredor se preciso para montar a nave. Spock?

- Sim, capitão?

- Avise o Dr. McCoy para acordar nossas "Belas Adormecidas"!

- Perdão, capitão, mas não compreendo...

- A tripulação da Botany Bay.- enfatizou- Se eles querem a liberdade terão que trabalhar para obtê-la. Avise toda a equipe de segurança para se deslocarem para o hangar. Quero-os bem vigiados. Quero dois turnos de trabalho. Cada um de doze horas. Se Scott precisar de mais homens destaque pessoas de setores não vitais. Temos uma entraga para fazer.

***

PARTE XII

Cento e vinte pessoas, contando com engenheiros, técnicos, o grupo de Khan e os novos tripulantes; trabalhavam já havia quarenta e seis horas. O cansaço era visível. A percentagem de erros na execução dos trabalhos aumentava. Scott não estava satisfeito. O "fazedor de milagres" queria diminuir o prazo da entrega o máximo possível. Além do mais tinha que aturar as intervenções de Khan que também supervisionava os trabalhos.

- Senhor Scott! - chamava Khan- Quer por favor dizer a este engenheiro para reforçar as emendas do casco interno. Scott balançou com a cabeça para que assim o engenheiro o fizesse. Só depois que recebera as ordens diretas de seu superior é que o rapaz executou o trabalho.

- Nós andaríamos mais rápido se o senhor não interrompesse a todo instante.

- Ah, sr.Scott. Se o seu capitão tivesse me pedido para executar o projeto; eu e meus homens já teríamos acabado o serviço.

- E talvez tivessem explodido toda a nave.- comenta Chekov ao passar carregando um painel refratário junto com Estevão.

- Quem é este?- pergunta, curioso, Khan.

- É o nosso projetista.- explica Scott.

- Um pouco arrogante pro meu gosto. É claro que, pelo seu sotaque, é russo. Nunca gostei dos russos. Eles nunca tiveram modos. Poderiam ter dominado o mundo em minha época e esfacelaram a sua nação. Mas não podemos falar de mauus modos quando temos rifles apontados para nossas cabeças. Khan se referia a um grupo de vinte homens que, das plataformas do hangar, velavam pelo bom andamento dos trabalhos. A porta se abre próximos à eles. Spock aparece para saber dos progressos.

- Estamos prontos para o teste do túnel de vento. Vamos evacuar a área em cinco minutos.- relata o engenheiro-chefe.

- O capitão me pediu para apressar os senhores. Temos uma boa janela por dentro da nuvem daqui a dezoito horas e vinte e três minutos.

- Menos de um dia? - exaspera-se Scott.

- Algum problema quanto a isso, sr.Scott?

- Bom, sr.Spock, já foi muito difícil convencer o capitão que deveríamos ter mais tempo para a operação. Ele deu a entender que concordava conosco.

- Ele teve que reconsiderar as alternativas, principalmente aquelas que demonstravam uma segurança maior.

O escocês não queria admitir mas, esta talvez fosse a primeira vez que não pudesse cumprir um compromisso.

- Diga a ele que isto dificultará bastante as coisas por aqui. Mas faremos o possível.

- Eu direi.

O alarme soou. Todos evacuaram a área. O teste começou. A nave-cargueiro, recém-construída, chaqualhou como se a tivessem colocada dentro de uma chuva de meteoros.

Por fim, apenas algumas placas do casco externo se soltaram. Isto animou um pouco Scott que tão logo o alarme tocou de novo, alertando o final dostestes, já estava dando ordens à sua tropa para refazerem determinadas tarefas.

Spock saiu do hangar na certeza que o prazo seria cumprido. Pegou o turbo-elevador e se dirigiu para a ponte de comando. Assim que chegou , Kirk perguntou-lhe sobre o andamento dos trabalhos.

- Parece-me tudo em ordem, capitão.

- Ótimo! Uhura, alguma notícia da Frota durante este tempo?

- Não, senhor. Espere... temos uma mensagem em código chegando. Um momento, capitão.

Spock e Kirk ficaram intrigados. Momentos depois Uhura decodifica a mensagem.

- É do Almirante Yashida. Conforme o ordenado respondi com estática.

Está classificada como uma mensagem pessoal para o senhor, capitão.

- Passe para a sala de reunião. Spock venha comigo.- aperta um botão na cadeira - Dr. McCoy, dirija-se para a sala de reunião.

- Afirmativo.- responde o doutor.

***

Já na sala de reunião Kirk pede que Uhura toque a mensagem.

-"Do comando da Frota: Almirante Yashida falando. Quando receber esta mensagem espero que não nos tenha contrariado e nos desobedecido. Uma crise diplomática como esta não pode ser resolvida de uma hora para outra. Tivemos que convencer o presidente que você, Kirk, era o nosso oficial mais qualificado para lidar com o problema. Apesar das dificuldades de transmissão de rádio sub-espacial neste setor. Esperamos que a sensatez tenha prevalecido à gestos impulsivos.

- A Frota e o Conselho da Federação apoiam sua decisão tomada em sessão de inquérito com data estelar de 3.143.3. Fim da mensagem."

- Considerando a "estática" nesta região do espaço. A gravação está perfeita, tenente Uhura.

- Obrigado, senhor. Procuro manter as frequências sempre abertas.

- Continue fazendo o seu excelente trabalho. Kirk desliga.

Kirk comemora a sua vitória política. Spock o felicita.

- Parece que , apesar de eu ter captado uma certa ironia nesta conversa, o senhor conseguiu o consentimento da Frota quanto a operação Exílio.

- Ora, Spock, de vez em quando é preciso prever certos acontencimentos.

- Pelo que me consta, dons paranormais não constam de sua ficha, senhor.

Kirk limita-se apenas a sorrir.

- Vejo que se sente mais aliviado, Jim. Isto é bom para o seu stress.

- Os ventos tinham que mudar de direção.

- Mas possuimos correntes muito fortes vindas da direção contrária.- alerta Spock.

- Spock, você tem que sempre ser tão otimista assim?

- Desculpe, doutor, procuro apenas me deter aos fatos. O fato do planeta-gêmeo estar instável é uma questão preocupante.

- A Frota poderá designar uma outra nave para evacuar o local quando for necessário. Pelos seus cálculos quanto tempo levará para chegar a fase crítica?

- Duas décadas. Talvez um pouco mais.

- Então relaxe, sr. Spock. Até lá os burocratas da Federação já terão arranjado uma nova casa. Por enquanto esta servirá.

Alguma coisa preocupava Spock, talvez nem ele mesmo soubesse o que o incomodava. Isto começou a preocupar Kirk mas logo ele se levantou, saiu da sala e deixou este mal pensamento para trás.

***

O Tenente Kevin Riley estava tomando um chá na sala de recreação quando Janice Rand sentou-se a seu lado.

- Ouvi boatos que quer deixar a nave, é verdade?

Riley confirmou. Já não era segredo para ninguém seu desconforto.

Procurou mudar de assunto.

- Joga disc-ball?

- Como é?

- É um velho jogo da Terra. Li a respeito na biblioteca. Foi criado no século XX. Volta e meia está na moda outra vez. Consiste em uma mesa por onde um pequeno disco circular é impulsionado por discos maiores usados pelos competidores. O disco menor desliza num colchão de ar e o objetivo é encaçapá-lo no gol do adversário.

- Parece complicado mas, é interessante. Acho que gostaria de experimentar.

O irlandês se sentia à vontade na compania de Janice. Ela, pelo menos, não debochava dele.

- Pedi ao computador que recriasse o jogo. Montei uma mesa a dois dias. Está lá no fundo. Vamos jogar?

- Ah, eu iria adorar.

Jogaram por quase uma hora. Riram bastante. Riley ganhara por vinte a oito. No fim, exaustos foram ao processador de alimentos para tomarem um suco de laranja. Precisavam recuperar as energias.

- Nossa! - exclama Janice quase sem fôlego - Não me divertia tanto assim desde quando era menina!

- Fico contente. Pela primeira vez desde...- fez uma pausa e revelou sua felicidade- ...desde os últimos acontecimentos eu também não me sentia relaxado.

Janice segurou a sua mão.

- Oh, Kevin. Prometa-me que não tomará nenhuma decisão da qual poderá se arrepender.

- A Enterprise é o sonho de todo cadete da Frota. Ao embarcar nela, pela primeira vez, eu realizei o meu. Talvez seja hora de deixar outros sonharem.

- Mas neste sonho cabem muitas pessoas.- tenta retrucar a ordenança.

- Janice... - agora é Kevin que tenta retribuir o carinho e a atenção alisando com a palma de sua mão o rosto macio da sub-tenente Rand. Ela segura a sua mão e a beija.

Lá fora, no espaço, a imagem do grande planeta azul, que aparece na escotilha, é a única testemunha dos sentimentos que uniam, naquele momento, aqueles jovens oficiais.

***

PARTE XIII

Todos os equipamentos necessários já haviam sido transportados para a Botany Bay-II, nome de batismo da nave de carga construída em tempo recorde. Khan estava radiante. Seus homens estavam perfilados ao lado da equipe da Enterprise, esperando a supervisão final do capitão Kirk. Momentos de angústia para Khan mas, que logo terminam.

- Ah, meu bom capitão Kirk. É um prazer em revê-lo. Estávamos ansiosos por sua chegada. Estamos prontos para partir e felizes pelo nosso destino.

- Espero que para o bem do universo você esteja sendo sincero.

- Capitão... capitão... De comandante para comandante eu vos digo: A honra e a palavra de um homem valem mais do que a própria vida.

- Eu sei, quando eu dependi da sua honra e da sua palavra eu , e quase toda a minha tripulação, tivemos as nossas vidas ameaçadas. Khan logo recolheu o sorriso e fechou a cara. O comentário de Kirk o desconcertou entre os presentes. Fez uma reverência com as mãos e a cabeça e se afastou para ficar ao lado de seus homens. Ele estava paramentado como um Sheik árabe, com vestes vermelhas largas e um turbante azul. Nostradamus poderia reconhecê-lo como o anti-cristo; Kirk o via apenas como um megalomaníaco psicótico.

O capitão pôs-se a inspecionar o trabalho e passar em revista a tropa de engenheiros e ajudantes. Entre eles estava Chekov que estava muito tenso. Ao passar novamente por Khan, perguntou:

- Espero que tudo esteja dentro de suas especificações.

- Capitão... Eu não estou em condições de exigir mais além do que me foi, gentilmente, ofertado.

- Ótimo. Creio que podemos começar o embarque. Devo comunicá-lo que somente oito dos seus homens ficarão acordados para manipularem os controles durante a viagem e auxiliarem as equipes de resgate, se for o caso. Os restantes ficarão dopados e algemados por medidas de segurança.

- Eu compreendo.

Scott se aproxima de seu capitão com informes da ponte de comando.

- Senhor, temos que partir em cinco minutos.

- Ok. Khan apronte o seu pessoal.

- Assim será feito. Deseja-me sorte, capitão.- Khan estendeu a mão mas

Kirk não o cumprimentou. Limitou-se a encará-lo. Era mais um joguinho de nervos, talvez o último mas Kirk não quiz participar. Khan sorriu e deu de ombros. Saiu em direção à nave arrastando suas vestes pelo chão.

- Situação, Scott?

- Bom, senhor; a nave tem capacidade para transportar cem pessoas mais uma tonelada de carga. Nela estarão setenta e três pessoas; incluindo Khan e a senhorita McGivers. Temos também vinte homens nossos divididos em seguranças, equipe médica, um piloto e um navegador.

- Quem estará no comando?

- Bom... Eu estarei, se o senhor não tiver objeções.

- É claro que não, Scotty. Você é o mais indicado.

- O raio trator terá sua polaridade invertida para nos aproximar da atmosfera do planeta. Isto fará com que evitemos de gastar combustível para a ação de frenagem. Tive que diminuir o espaço para o combustível.

- Engenhoso! - elogia Kirk.- É assim que realiza seus milagres?

- Bem, com o tempo que o senhor me deu, eu tive que eliminar algumas coisas do projeto original. Na verdade a nave é um grande bote salva-vidas que temos que garantir de chegar intacto no planeta.

- E o alferes Chekov?

- Ele será o navegador. Ele é um bom rapaz, muito inteligente. Parte do esquema de segurança foi idéia dele.

- Parece-me um jovem promissor.

- Muito.- confirma Scott.

"Alerta. Todo o pessoal não autorizado, deixar a área de lançamento."

Kirk procura se afastar em direção ao mezanino do hangar. Pega um elevador de carga e grita para Scott as últimas informações sobre a missão:

- Eu seguirei vocês em uma nave auxiliar para mantermos contato, já que as transmissões com a Enterprise ficarão dificultadas por causa da nuvem.

- Será uma descida difícil.- rersponde Scott já entrando na nave.

"Não tão difícil quanto enfrentar os burocratas da Federação" - pensa Kirk.

O raio trator é ligado e as portas do hangar começam a se abrir.

Scott assume o lugar de piloto na nave ao lado de Chekov que estava suando frio.

- Relaxa, garoto. Quando menos esperarmos já teremos chegado.

- O meu medo, senhor, é que realmente seja tão rápido quanto o senhor diz.

- Não confia no seu projeto, alferes?

- Nele eu confio. Minha desconfiança é para com as variáveis.

Kirk, já na sala de controles do hangar, dá as ordens para "soltarem as amarras".

- Senhor De Salle, vamos dar a liberdade para o nosso pássaro.

- Aguardando o seu comando, capitão.- responde o engenheiro-chefe assistente.

- Agora.

O raio trator aumenta o seu brilho e a intensidade de suas ondas magnéticas. A Botany Bay é suavemente colocada no espaço e empurrada em direção ao planeta.

- Já foram pegos pela força gravitacional, senhor.

- Desligar raio trator.- Kirk liga o intercom. - Sr. Spock, o senhor tem o comando. Sulu, Uhura e McCoy, apresentem-se no hangar.

***

Dez minutos depois que a Botany Bay-II partiu, a nave auxiliar Galileo os seguiu. Kirk optou por levar uma equipe reduzida para que, na volta, duas naves pudessem trazer todo o seu pessoal, doze em cada. É verdade que, cada nave comporta no máximo sete pessoas mas, retirando alguns equipamentos, elas ficariam mais leves e o retorno estaria assegurado. Bom, pelo menos era o que indicava os cálculos do computador.

Toda a operação estaria concluída em, no máximo, cinco horas. Uma hora a menos do que o previsto. Mesmo com todas as adversidades, Scott conseguira montar uma nave cargueira a partir de, praticamente, material de sucata da Enterprise, em apenas 64 horas! Ainda bem que Kirk podia contar com as mentes mais brilhantes do universo.

Vinte minutos após terem deixado a Enterprise, a nave auxiliar de reserva, a Copérnico, deixou o hangar da Enterprise controlada remotamente por Spock. Ela deveria encontrá-los na superfície do planeta. Mas havia ainda um obstáculo a transpor. Uma hora depois de a Copérnico deixar a nave ela sofreria a influência da nuvem iônica e perderia contato com a Enterprise. Como o intelecto de Spock havia previsto isto ele dotou a nave de um piloto automático que começaria a entrar em operação neste momento. A frenagem e o pouso seguiriam um programa pré-estabelecido e cronometrado. Tais medidas garantiriam o retorno de parte do grupo de escolta. Ele sabia o quanto poderia ser difícil ficar preso num planeta desconhecido. Esta lição já aprendera em Taurus II.11

***

A Botany Bay não estava visível, provalvelmente estava do outro lado do planeta em sua descida espiral.Kirk estava preocupado com seu pessoal. Khan estava comportado demais. Algo lhe dizia que havia um ás escondido debaixo das mangas daquele indiano. Uma telemetria não teria efeito nenhum enquanto estivessem dentro da nuvem. Estavam cegos mas a Enterprise não.

- Kir... SSCRRR... para Enter...SSSCRRRR... se...

- Aqui fala Spock.- mesmo com toda a sua aguçada audição o vulcano tem dificuldades de ouvir seu capitão. Pede para o oficial de comunicações melhorar a recepção.

- ...posição das naves...

Apesar de toda a frase não ter sido escutada o essencial da mensagem foi captada. Spock não perdeu tempo.

- Senhor Dalton, informe posição das naves.

Um tenente que assumira, interinamente, o posto de oficial de ciências demora cerca de quinze segundos para passar a informação.

- A Botany Bay está agora a 50 mil quilômetros do alvo, que é o Naturae Ocean. A Galileo... está a 40 mil quilômetros da área de pouso, que dista 3 quilômetros do primeiro alvo. A Copérnico está agora a dez...Não, onze minutos da Galileo.- o jovem tenente estava visilvemente tenso com a responsabilidade de estar sob o comando do temível sr.Spock.

- Senhor Dalton, o senhor possui a seu dispor o melhor banco de dados da Frota e os sensores mais modernos de toda a galáxia. Se não pode fornecer dados precisos e mais rápidos, sugiro algumas horas extras de simulação.

O rapaz fica envergonhado e sem jeito se desculpa. Mas Spock não tem compaixão.

- A Frota Estelar não espera desculpas, espera eficiência. Agora retransmita os dados para a Galileo com o mínimo de interferência possível.

- Será feito, senhor.

O tenente Riley havia sido convocado para reassumir o seu posto de navegador. "Talvez isto o fizesse se sentir útil"; pensara Spock. A

Enterprise não podia se dar ao luxo de perder um bom oficial.

- Tenente Riley, nos coloque o mais próximo possível das naves auxiliares. Se a nuvem atrapalhar as comunicações pelo menos poderemos manter o contato visual pelos sensores.

- Curso traçado, senhor. - a voz firme de Riley contrastava com a do tenente Dalton. Esta segurança, porém, era aparente. Riley se sentia mais desorientado do que nunca. Parecia que as pessoas queriam que ficasse por ter pena dele. Se isto fosse verdade ele não suportaria conviver com isso. Mas como saber? Será que Janice se aproximou dele por piedade? Será que o capitão estava sendo sincero? O que o sr. Spock achava disto tudo? Riley sabia que ele não tinha sentimentos, ou pelo menos não demonstrava. Seria de bom tom pedir sua opinião? Enquanto se aproximava das camadas mais externas da atmosfera do planeta; Riley ia percebendo que as nuvens, que iam surgindo na tela pareciam penetrar em seu cérebro.

***

A nave de carga balançava mais que numa travessia de uma nebulosa. A turbulência não era o problema principal. Devido a correria para o lançamento da nave, não houve tempo de preparar um isolamento térmico eficaz. Alguns defletores poderiam minimizar a ação do atrito na entrada na atmosfera mas, para diminuir o peso da nave, Scott teve que confiar na camada externa do casco feita de uma liga especial a base de amianto, mica e cerâmica; resfriada por nitrogênio líquido quando a temperatura atingisse a fase crítica de 150ºC. A temperatura no interior da nave estava subindo demais.

- Quanto? - pede Scott para Chekov repetir a medição. O engenheiro estava surpreso.

- Quarenta e um graus, senhor, e subindo!

- Vamos cozinhar! - alarda Estevão que integrava a equipe que controla os sistemas de suporte de vida.

- Khan, peça aos seus homens que auxiliem o alferes Estevão em aumentar a capacidade dos refrigeradores ambientais!- Scott quase teve que berrar pois a trepidação da nave fazia um barulho ensurdecedor. Uns abafadores de ruídos seriam de extrema valia. A sensação que Chekov possuia era de que a qualquer momento a nave inteira se fragmentaria.

- Estimativa de chegada, senhor Scott. - pergunta Khan.

- Uma hora e trinta e sete minutos.

- Uma hora e meia cozinhando! Se eu quizesse fazer uma sauna dessas teria pedido uma transferência para Vulcano! - disse Estevão, já de volta ; procurando manter o bom humor para disfarçar seu nervosismo.

Um pequeno zumbido soou. Má notícia.

- Senhor, estamos... despressurizando... - Chekov parecia não acreditar no que os controles lhe diziam.

- Confirme isto, moço.- ordena Scott.

- Afirmativo. Parece que temos um rombo no casco ou algo parecido que está provocando um vazamento de ar!

- Fale sério, homem. Não teria nenhum circuito fundido? - pergunta ansioso por uma resposta positiva o alferes Estevão.

- Não.Confirmado. Um tanque de ar se rompeu com a pressão externa. Isto parece impossível, verificamos tantas vezes.- Seria sabotagem ?

- Não sobreviveremos a esta queda! Estamos fora do alcance do raio trator da Enterprise. Estamos caindo depressa demais! Vamos nos despedaçar!

Eu os avisei que deveria deixar os meus engenheiros participarem da execução do projeto, deste que agora se transformará no nosso esquife flamejante! -

Khan fica aos berros no intuito claro de causar o desespero e intranquilidade à bordo. Em tal situação ficava difícil de se manter a calma e ele tinha que tirar proveito disto para o que ele tinha em mente.

- Escute aqui, senhor Khan! O comandante desta missão sou eu. Não tolerarei que promova a histeria. Os melhores engenheiros da Frota trabalham nesta nave para garantir sua segurança e a do seu grupo. O único motivo de o senhor ainda estar de pé e tagarelando no nosso ouvido. ao invés de estar dormindo como a maioria, é porque possui certas regalias diplomáticas.

Agora cale a boca e nos deixe pilotar esta coisa! - o desabafo de Scott, por pouco, não fora suas últimas palavras.

Khan cerrou os olhos e desferiu um olhar tão cortante quanto uma cimitarra. O sangue ferveu em suas veias.

- Ninguém... Ninguém manda Khan Noonien Sigh calar a boca! - sua mão agarra o pescoço de Scott que começa a sufocar. Chekov larga os controles para ajudar seu superior e sofre um bofetão que o joga contra a parede. Scott já estava perdendo os sentidos. Não conseguia, com suas duas mãos, aliviar um centímetro sequer os dedos de Khan da sua garganta. Os guardas de segurança tentam avançar mas, são rapidamente dominados pelos homens de Khan antes de conseguirem esboçar qualquer reação.

Estevão saca de seu phaser e atinge Khan. O indiano estremece e cai de joelho soltando Scott que também tomba e desfalece. Estevão, por sua vez, é também atingido por um dos homens de Khan e cai, sem vida. A nave fica desgovernada!

***

Momentos antes a Galileo os acompanhava pelo radar, mesmo com todas as interferências. Teriam contato visual em poucos minutos.

- Como eles estão, senhor Sulu? - pergunta Kirk.

- No curso, senhor. Mas a temperatura no casco está acima do limite.

- Deve estar fazendo um calor dos diabos por lá.- comenta McCoy.

- Quarenta e cinco graus, para ser exato; doutor.

- Eles saberão se virar, Scott está com eles.- comenta Kirk confiante en seu engenheiro-chefe.

***

A Botany-Bay II era um caixão incandescente; como afirmara Khan. A temperatura estava agora em quarenta e sete graus e continuava subindo.

Todos os tripulantes que estavam conscientes, agora se envolviam numa luta desenfreada pelo controle da nave.

Chekov tentava chegar ao console de navegação entre socos e pontapés, mais contra do que a favor! Finalmente conseguira chegar a sua cadeira e estabilizar a nave. No mesmo momento Khan se recuperava dos efeitos atordoantes do phaser e segura no pulso de Chekov quase quebrando-o.

- De agora em diante, jovem russo. Eu sou o comandante aqui! Hamed, vista um uniforme de guarda e não permita que ninguém da ala de carga entre aqui!

- Sim, meu líder!

- Otho, fez muito bem em roubar aquele phaser e escondê-lo. Nos deu uma boa vantagem. Você será premiado na hora oportuna.

O soldado solta um largo sorriso pelo elogio de seu líder.

***

PARTE XIV

O sinal da Botany-Bay II sumiu do radar da Galileo. O Tenente Sulu verificou os instrumentos mais de uma vez antes de se reportar ao capitão.

- Perdemos o contato com eles, senhor.

- Não deveríamos! - expanta-se Kirk. - Sonde a área. - "O que poderia estar dando de errado?" ; Kirknão tinha idéia do que tinha ocorrido mas sabia a origem do problema : Khan.

- Eles alteraram o curso para 235, marco 2. Captei uma pequena explosão antes disso. Um de seus foguetes está avariado.

- O que será que aconteceu? Tente falar com Scott.

- O silêncio do rádio e a cara de frustração de Sulu iam delineando um novo cenário àquela aventura. A mudança de rota pode não ter sido causada pela explosão; Scott estabilizaria a nave rapidamente e isto não ocorreu.

Kirk não gostou dos seus pensamentos.

***

Momentos antes na Botany-Bay II ...

Chekov estava agora com um phaser apontado para sua cara e isto não lhe dava muitas opções de ação. O valorozo Otto havia roubado um phaser e o escondeu até o momento de dominar a guarda de segurança. Estevão também não havia tido chance. Seu corpo jazia inerte no chão da cabine de comando. A explosão fora provocada por um superaquecimento dos conduites dos refrigeradores. A idéia era só desestabilizar a nave para que Khan pudesse tomar o controle mas, as consequências da explosão não foram previstas corretamente. A proximidade dos refrigeradores com os dutos de combustível líquido que alimentavam os foguetes fez com que estes fossem afetados. Scott preferiu um combustível líquido à cristais de Dilithium pois seria necessário instalar um controlador de fluxo de matéria-antimatéria e isto levaria tempo e mais peso para a nave. Chekov esperava a sua vez de encontrar seus antepassados quando Khan falou, amigavelmente, em seu ouvido:

- Agora, senhor Chekov. Estabilize a nave e nos coloque nas coordenadas 235, marco 2.

- Mas isto é fora da área de pouso!

- Muito perspicaz! Isto me dará uma boa dianteira até me encontrarem.

- Estas coordenadas nos levarão até terras emersas. Não suportaremos o impacto. Isto é suicídio!

- Se modificar o ângulo da trajetória iremos descer mais devagar, aumentando com isto a nossa elíptica.

- Não temos como mudar o curso agora. Estamos descendo muito rápido!

- Não se aliviarmos algum peso?

- Não podemos abrir escotilhas isto despressurizará o interior da nave.

- Teremos que nos livrar de algo de fora. Ejete os tubos de combustíveis.

- Mas não teremos como realizar a frenagem.

- Você está começando a me irritar rapaz. Limite-se a executar a ordem ou um de meus homens terá o prazer de quebrar o seu pescoço!

Chekov voltou-se para o painel de navegação. Não se podia discutir com Khan, ainda mais ele estando armado. Com toda a equipe da Enterprise que estava no módulo de comando dominada e sem poder contar com a ajuda do resto do pessoal que estava na ala de carga cuidando das câmaras de suspensão, não havia muito a fazer. Procurou seguir as ordens de Khan e esperar que o capitão Kirk ou o sr. Spock desconfiassem de alguma coisa.

- Tempo para o impacto, sr. Chekov?

- Trinta e dois minutos. Velocidade de 340 km/h e aumentando.

- Ejete os tubos agora! Isto retardará a queda em uns quinze minutos e diminuirá a velocidade.

- Não vai funcionar, Khan! O solavanco poderá danificar mais a nave.

Além do mais não temos trem de pouso e ...

- Você sempre discute as ordens de seu capitão?- sorri Khan ameaçadoramente.- Não teme por sua vida e a dos seus companheiros?

- Claro e por isto insisto na minha opinião.

- Sua opinião não me interessa, rapaz. Nosso local de pouso será uma cadeia de Dunas e isto amortecerá a queda. Agora... Ejete os tubos, por favor... - o pedido delicado vem acompanhado com uma cutucada de phaser na nuca.

Sem sofrer tanto a resistência do ar, a Galileo pousa numa praia próxima ao local, esperado, de pouso da Botany-Bay II. Mas ela não estava à vista. Não havia bóias de sinalização. Nenhum sinal. Ao longe, no céu, podia-se ver um ponto luminoso se aproximando. Era a Copérnico. Sulu monitorou a descida da nave que pousou suavemente ao lado da Galileo.

- Sr. Sulu, Uhura, Magro, vamos sair.

Todos atenderam prontamente as ordens de Kirk. O capitão pôs as mãos na cintura e ficou a esperar algum contato visual com a nave de carga. Em vão.

- Sulu, verifique as condições da Copérnico. Uhura, vê se capta alguma leitura no tricorder.

Passam-se alguns momentos de apreensão.

- Nada, capitão. Nenhum sinal de vida num raio de 1 Km.

Sulu já vinha voltando e foi logo recebendo novas ordens:

- Use os sensores da Galileo para aumentar o nosso raio de ação. Temos que achá-los.

- Sim, senhor.

- Você acha que eles sobreviveram? - pergunta McCoy.

- Eu não posso achar nada, Magro. Eu quero certezas.

As dunas de Ceti-Alpha Cinco eram as maiores que Kirk havia visto. Uma tempestade de areia poderia cobrir um prédio de cem andares em poucos minutos. Apesar disto era uma bela visão, isto amenizava a ansiedade por boas notícias; só não amenizava sua enxaqueca que ameaçava voltar.

O fato da nave de carga ter pousado fora do local previsto poderia ser em decorrência de algum acidente na entrada da atmosfera. Afinal a nave não era muito reforçada, ela não teria outra utilidade futura a não ser de servir como abrigo. Kirk passou a pensar que estava se iludindo. Ter deixado Khan acordado poderia ter sido um erro. Não se podia subestimá-lo. Talvez , num momento de tensão da aterrizagem ele tivesse aproveitado alguma distração para dominar a sua equipe. Esta segunda hipótese aumentou a adrenalina em seu sangue.

- Senhor! - grita Sulu da porta da nave. - Acho que os encontramos!

Kirk, McCoy e Uhura correm de volta para o interior da Galileo.

- Direção e distância, Sulu.

- Trinta graus à oeste. Estão a uns duzentos e cinquenta quilômetros.

- Muito longe para irmos a pé. - tenta descontrair Kirk. Se levarmos uma das naves até lá, poderemos ser vistos?

- Não se tivermos aonde nos esconder. - afirma Sulu.

- Ótimo. Fique aqui com Uhura e tentem contato por rádio com a Botany-Bay II. Eu e o Dr. McCoy iremos na Copérnico até lá. Avise o sr.Spock da nossa situação, se puder vencer a interferência da nuvem.

- Sim, senhor.

***

A sensação de impotência preocupava Spock. Sem poder manter contato com o grupo de terra e sem poder sondá-los ele teria que contar com toda a experiência do sr. Scott e do capitão Kirk em garantirem o sucesso da missão. Em todo caso, se algo desse errado ele saberia. O alferes Chekov sugeriu que uma pequena sonda fosse usada como bóia de sinalização que seria ejetada da nave e lançada ao espaço cso houvesse algum problema; isto substituiria um sinal de rádio que poderia não ser captado por causa da nuvem. O rastreamento da Botany-Bay seria facilitado e as naves auxiliares poderiam se deslocar para o encontro deles. Como após duas horas a bóia não surgiu, concluiu que tudo corria como o planejado. Se em 3,3 horas as naves auxiliares não chegassem ou se comunicassem, teria que pedir auxílio à Federação ou tentar se teletransportar através de uma brecha na nuvem, o que seria muito arriscado. Enquanto Spock ficava conjecturando as alternativas ele não computava a interferência de Khan que acabava de criar a primeira batalha em solo de Ceti-Alpha Cinco.

***

PARTE XV

Quando Chekov recobrou os sentidos notou qu

e estava amarrado junto a Scott que ainda estava inconsciente. A luz de emergência dominava todo o ambiente. Ainda um pouco tonto presenciou uma cena terrível. Um dos homens de Khan perguntava o que fazer com os corpos dos dois guardas e de Estevão. Khan pegou um phaser e, friamente, desintegrou todos. Chekov teve vontade de matá-lo mas as cordas o detinham.

- Maldito! Khan olha para Chekov com surpresa.

- Vejo que recobrou a consciência rápido. Ótimo, preciso de um refém acordado para negociar.

- Jamais conseguirá minha colaboração! O capitão Kirk não é um homem de fazer acordos com assassinos!

- Veremos...

***

A Galileo aterrisou à quinhentos metros da BotanY-Bay II e ficara encoberta por uma duna. Tiveram sorte de a nave de carga não possuir sensores, senão a presença deles já teria sido detectada.

- E agora, Jim? Vamos sair atirando para o alto e gritando como Klingons? Eu sou um médico e não um soldado!

- Você não, eu sim! Dê-me cobertura. - Kirk se afasta do doutor mediante a protestos deste. McCoy suava muito. A temperatura naquele momento estava em trinta e nove graus. Agora era ele que não estava pronto para uma partida de tênis; muito menos para com uma batalha contra Khan.

Kirk se aproximou cerca de quatrocentos metros da nave de carga; os últimos cem se arrastando sobre a areia escaldante. Como não percebeu nenhum movimento hostil do inimigo e estando fora do alcance visual das escotilhas, procurou chegar o mais próximo da nave até o ponto de tocá-la. Queimou a mão. Teve que conter o seu grito de dor. O exterior da nave ainda estava muito quente por causa do atrito com a atmosfera. Ele podia ver McCoy, já à uns vinte metros dali, escondido em uma pequena duna. Fez sinal que estava tudo bem e que não se aproximasse mais.

De repente a porta da nave se abre. Kirk manda McCoy se abaixar. A equipe de descida da Enterprise é colocada para fora. O primeiro a sair é Scott apoiando o braço como se o tivesse quebrado, o segundo é Chekov; com um corte na testa e sendo seguido por Khan, que apontava um phaser para os dois; logo atrás vinha Marla McGivers. Khan ao descer, abaixasse por um momento e pega um punhado de areia entre os dedos. Solta um suspiro de alegria por pisar novamente num solo de um planeta. Só que agora aquele era o seu planeta.Kirk observa que os demais homens da Enterprise também estavam feridos e outros com escoriações leves. Todos se limitavam a obedecer, prudentemente, a direção que os phasers, empunhados pelos homens de Khan, apontavam. Andaram uns dez passos fora da nave e foram obrigados a se ajoelharem em fileira.

Kirk pôde ouvir um pequeno diálogo.

- McPherson, relatório de danos.- ordenava Khan.

- Oito cápsulas de animação suspensa foram destruídas na queda. Não pudemos salvá-los. O sistema de suporte de vida da nave está seriamente avariado mas creio que poderemos consertá-lo. O resto de nosso grupo está sendo reanimado. Todas as armas do inimigo confiscadas. A vitória é nossa, senhor!

- Excelente! - exaltou Khan. Kirk, de onde estava, poderia acertá-lo num só disparo. Mas se o fizesse poderia por em risco todo o seu pessoal. O elemento surpresa ainda era seu, teria que esperar um momento melhor. Ao longe, uma densa nuvem de poeira se aproximava, como uma tempestade. Mas estava muito baixa... Seria um tornado? Era pior! Uma grande tempestade de areia se aproximava. Kirk poderia tirar proveito dela, era o aliado que estava faltando. Um milagre estava chegando a uns duzentos quilômetros horários.

- Senhor! - grita Otto. - Meu líder, veja! O homem de confiança de Khan apontava para o horizonte. Já haviam percebido a tempestade. Pelo semblante de Khan ele não havia gostado do que vira.

- O que vamos fazer, senhor? - suplicou uma resposta McPherson.

- Vamos voltar para o interior da nave. Lá estaremos seguros até a tempestade passar. Levem o engenheiro e o russo também. - ordenou Khan.

- Mas e quanto aos outros prisioneiros? - indagou McPherson.

- Amarre-os e deixem que morram com os pulmões entupidos de areia. Não demore com isso.

- Sim, meu líder.

Minutos depois a porta da nave se fechou. Kirk resolveu arriscar e saiu de seu esconderijo para tentar salvar seu pessoal. Tinha que agir rápido.

- Capitão! Graças à Alah que o senhor está aqui! - respirou aliviado o alferes MubaraK.

- Não temos muito tempo. Vou queimar as cordas de seus pés e depois corram para aonde esta o doutor McCoy.

- Afirmativo, capitão.- quase todos responderam em coro.

A tempestade parecia estar a uns dez minutos dali e os ventos estavam cada vez mais fortes.

McCoy examinava rapidamente a equipe da Enterprise com seu scanner e perguntava para Kirk:

- Estamos vulneráveis, Jim. Devido ao estado desses homens não alcançaremos a Galileo a tempo. Não podemos deixá-los para trás! Kirk teve que lutar com a sua dor de cabeça para poder pensar em algo. O barulho do vento prejudicava ainda mais seu raciocínio até que ordenou:

- Magro!- teve que berrar para ser ouvido, estava difícil manter uma conversação com todo aqueles zumbidos que os ventos da tempestade faziam. -

Use o seu phaser no máximo de disrrupção e aponte para o chão, rápido! McCoy ia perguntar por quê mas devido a proximidade da tempestade desistiu. Seguiu cegamente as ordens. Em segundos abriu-se uma cratera no solo. Kirk gritava para que todos pulassem para dentro o mais rápido possível. Segundos depois a tempestade os alcançava. Todos estavam de mãos dadas para poderem rersistir a fúria dos ventos. Toda a areia do universo parecia estar ali naquele momento. Sem dúvida era uma calorosa recepção que o planeta lhes dera. O alferes Neville não aguentou se segurar e foi levado pelo vento. A cratera ia se fechando. Parecia que estavam afundando na areia mas, na verdade estavam sendo soterrados. Não demorou muito para que ficassem totalmente cobertos. Apenas a mão de Kirk podia ser vista se debatendo até que foi, pouco a pouco, desaparecendo entre as areias do deserto de Ceti-Alpha Cinco. Parecia que o desejo de Khan havia sido cumprido.

***

Spock acabara de realizar o último monitoramento sobre a tempestade solar e ficara satisfeito com os resultados. A nuvem iônica estava se retraindo e permitiria que, em trinta e oito minutos, um feixe de transporte obtivesse a chance de 23% de um transporte seguro. A medida que o tempo passasse as chances seriam ainda maiores. Só faltava a bóia do sr. Chekov ou um comunicado do capitão para que as coisas ficassem no seu devido lugar. Só lhe restava esperar.

-"Botany-Bay... Botany-Bay... Aqui é a nave auxiliar Copérnico. Vocês estão bem? Precisam de auxílio? Podem informar sua posição? - a voz de Uhura estava sendo captada na nave de carga. Khan ficou surpreso mas ao mesmo tempo satisfeito. Era a hora da barganha. Pegou Chekov pelos cabelos e o jogou no assento do console de controle.

- Você, russo!-falava em um tom pejorativo. - Você irá entrar em contato com eles e pedirá que o capitão Kirk fale comigo. Tenho algo a exigir! Vamos, faça!

Chekov se limitou a olhar Khan.

Khan cerrou os olhos e proferiu o seu mais mortífero olhar acompanhado de uma bofetada que tirou o jovem alferes do assento. Agora além de sua testa, seus lábios estavam sangrando também.

- Cão maldito! Não sabe do que sou capaz de fazer? Viu o que aconteceu a seus companheiros? Quer ter o mesmo destino?

Chekov caído se limitava a conter a hemorragia do canto da boca e a pensar num plano que revertesse a vantagem para si. Lembrou da bóia de sinalização e estar no console de controle era uma ótima chance de lançá-la.

Levantou-se com certa dificuldade e sentou-se novamente. Khan sorriu pois havia pensado que suas ameaças haviam surtido efeito. O alferes começou a dedilhar o painel para acionar o rádio e ao mesmo tempo acionava os controles de lançamento da bóia. De repente a nave tremeu. A sonda havia sido lançada ao espaço.

- O que fez, idiota? - Khan o suspendeu pelo pescoço quase separando-o do resto do corpo. Chekov não conseguiu responder, sua visão já estava ficando turva. Otto se debruçou rapidamente sobre os controles e verificou o que havia acontecido.

- Parece que uma espécie de sonda foi lançada, meu líder. Isto dará a Enterprise a nossa exata localização. Perdemos a nossa camuflagem. Khan, agora com mais raiva ainda, atira Chekov de encontro a parede. O jovem russo bate com a cabeça e cai, pesadamente, na inconsciência.

***

- Sr. Spock? - chamava a atenção o tenente Dalton.

- Sim, tenente? Reporte.

- Uma sonda sinalizadora foi lançada da superfície do planeta.

Coordenadas 235 marco 2.

O primeiro oficial ouve impassível a notícia e em seguida aciona o intercom de sua cadeira de comando.

- Sr.Kyle, compute as coordenadas 235 marco 2 para transporte.

- "Afirmativo, senhor!"- responde o chefe de transporte.

- Segurança?

- "Tenente Leslie falando."

- Quero um destacamento na sala de transporte em cinco minutos. - trocando um botão por outro, Spock continuou a dar ordens. - Sr. De Salle, apresente-se à ponte para assumir o comando.

***

Parte XVI

Metade da Botany-Bay II estava soterrada. A nave tinha tombado um pouco para a esquerda e com o assoalho inclinado ficava difícil de se locomover em seu interior. Algum equipamento se soltou das amarras e soterrou algumas pessoas mas nada que causasse ferimentos sérios. Enquanto arrumavam o interior da nave; Khan estava parado e pensando no seu próximo movimento. Não poderia tolerar que mais nada saísse fora de seu controle.

- Você! - apontou para Scott.- Responda ao rádio agora senão seu companheiro sofrerá as mais bárbaras torturas antes de morrer. O escocês não questionou. Sabia do que Khan era capaz.

- O que quer... que eu diga? - perguntou Scott, com dificuldade para falar.

- Diga que estamos bem e que quero falar com o capitão Kirk.

- "Galileo? Aqui é o tenente-comandante Montgomery Scott falando. Estamos bem, apesar de algumas... - antes de completar a frase Khan tocou em seu ombro, o engenheiro enfim, terminou a frase - ... avarias." Uhura não compreendia porquê o tom tão formal na comunicação. Algo estava errado.

- Scott? É você? O capitão está muito preocupado. O que houve?

- " Estamos bem, por enquanto. Khan quer falar com o capitão."

- Com o capitão? - repetiu a chefe de comunicações. Sulu interrompeu o canal.

- Como vamos colocá-lo em contato com o capitão? Não sabemos nem aonde ele está. Ainda mais depois desta tempestade de areia. Se ele estiver morto?

- disse o oriental temeroso.

- Nem ouso pensar nisto, Sulu. O capitão e o Dr. McCoy devem estar bem. Têm de estar.

- E o que dizemos à Khan?

- Vamos enrolá-lo. Khan sabe que as naves auxiliares iriam monitorá-los mas não sabe que o capitão iria vir pessoalmente acompanhar a missão. Isto só foi decidido na última hora.

- Muito bem. Eu tentarei usar o comunicador de mão para contatá-lo em outra frequência. Vou lá fora para ver se melhoro a recepção.

- Combinado.

Khan, impaciente com a demora, pede a Scott que os chamassem de novo. Uhura escuta a voz cansada de Scott mais uma vez e percebe que definitivamente algo não ia bem. Resolveu se desculpar logo.

- Desculpem... Estamos com dificuldades de entrar em contato com a Enterprise. A nuvem iônica continua a atrapalhar as comunicações. Favor aguardar.

De repente uma linha cruzada surge com uma voz familiar e surpreende a todos.

-" Kirk falando. O que quer Khan?"

- Ora, ora, capitão Kirk. Fico contente em realizar a primeira conversação de paz em meu planeta. Quero assegurar a minha anistia. Quero armas e mais suprimentos.

- "Todo o equipamento que necessitava já foi embarcado conforme o estabelecido. Não terá nada mais."

Sulu havia voltado para o interior da nave e indagava com sinais o que estava acontecendo. Uhura deu de ombros. Ela não entendia como o capitão havia captado a mensagem a tempo de responder. Só lhes restava serem bons ouvintes. A voz de Khan foi ouvida.

- "Não me teste, capitão. Ou irá recolher os pedaços de seus homens em breve."

- " O que fez com eles, miserável."

- " Modere seu linguajar, capitão. Digamos que a situação aqui em baixo sofreu um pequeno revés. Eu estou no comando agora e as vidas de seus homens me pertencem."

O rádio fica em silêncio. O que o capitão faria? O que tinha acontecido com o pessoal da Enterprise? Uhura e Sulu ficam preocupados. Pareciam estar ouvindo uma rádio-novela do início do século XX, só que os personagens eram reais.

***

- "Está bem, Khan. Libere meus homens que eu serei o seu refém. Um capitão da Frota Estelar tem um peso maior em sua negociação." Um novo silêncio nas comunicações aumentava o suspense. O movimento agora era de Khan. O que ele faria? O que diria? A partida de xadrez caminhava para o cheque-mate.

- "Combinado, capitão. Parece que pode nos localizar através da sonda que foi lançada. Pouse sua nave e faremos a troca. Khan desliga." Sonda? Troca de reféns? Sulu e Uhura estavam cada vez mais intrigados.

-" Sulu? Uhura? Vocês me ouvem? Respondam! " - a voz do capitão, em outro canal, parecia tão cansada quanto a do sr.Scott. Havia um tom extrema ansiedade também. Era hora de resolverem aquele pequeno mistério.

- Sulu, falando, senhor. Monitoramos a conversa. O que está acontecendo?

- "Dirija a Galileo por controle remoto para próximo da Botany-Bay em uma hora a partir de agora. Khan não sabe que estou mais perto dele do que imagina. Entre em contato com a Enterprise e tente informar a nossa situação. Não entre em contato comigo. Fique de prontidão e aguarde novas instruções. Se dentro de hora e meia e não mais me comunicar quero que retorne para a Enterprise, entendido? Kirk desligando."

- Entendido, capitão.- Sulu sabia que um mecanismo por controle remoto também havia sido instalado na Galileo e não seria difícil controlá-lo da Copérnico. Aos poucos o plano de Kirk ia sendo assimilado. O espaço de tempo de uma hora era previsto para a nave auxiliar, supostamente, retornar a Enterprise e trazer o capitão à superfície do planeta. Com isso Kirk ganharia tempo para elaborar uma estratégia. Mas qual seria ela? Qualquer que fosse seria tão fantástica quanto a "Manobra Corbomite".

***

Os sensores atmosféricos da Botany-Bay II revelavam que a tempestade de areia se distanciava cada vez mais. O perigo havia passado. Pela janela frontal da nave podia-se ver um ponto brilhante no céu se aproximar. Só podia ser Kirk. Mas como ele chegara tão depressa? Khan ficou intrigado.

- "Khan? Aqui é Kirk falando. Responda Khan."

- Estamos ouvindo, capitão. Prossiga. Temos sua nave no visual.

- "Você deve estar se perguntando porque consegui atender o seu chamado tão rápido. Na verdade quando respondi a sua chamada eu já estava em viagem para o planeta em uma nave auxiliar e acompanhei toda a descida de vocês."

" Ah, então era por isso."- pensou Khan tendo resolvido mais um problema. O tempo todo Kirk não havia confiado nele. Mas isto não representava nenhuma desvantagem. Era ele que estava dando as cartas. Kirk teria que seguir suas ordens. A Galileo pousou paralelamente à nave de Khan e ficou a uma distância de cinquenta metros.

- Capitão... - ordenous Khan - Saia de sua nave sozinho, desarmado e com as mãos na cabeça. Irei ao seu encontro para negociarmos. - fez sinal para que Scott encerrasse a transmissão. Mandou abrir a porta de saída e ao sair, teve que saltar para o solo, pois a porta havia se elevado cerca de três metros do chão.

Kirk vinha ao seu encontro. Scott e Chekov também sairam da nave escoltados por Otto e McPherson. Ao chegar perto do capitão da Enterprise o sorriso triunfante de Khan desapareceu quando notou que as roupas de Kirk estavam demasiadamente sujas de areia. Como poderia se chegara depois da tempestade? A não ser que...

Quando percebeu que algo estava errado já era tarde demais! Era Kirk que agora sorria. Um BIP foi escutado. Mãos se ergueram do solo para agarrá-los como numa cena de um velho filme de terror. Até mesmo Scott, Chekov e Kirk, foram derrubados. O pessoal de

Kirk não tinha como saber quem estava agarrando até poderem ver normalmente.

Khan arregalava os olhos enquanto era dominado. Por um momento pareceu a Kirk que ele estava aterrorizado. Mais uma vez o líder indiano subestimou Kirk e foi surpreendido pela engenhosa tática arquitetada por ele.

O fator surpresa foi de grande valia. Khan havia pensado que a equipe da Enterprise que ele havia deixado para trás para morrerem na tempestade havia voltado do mundo dos mortos. Na verdade Kirk percebera que, quando quase sufocara soterrado pela areia, o diâmetro, da maioria dos grãos de areia , eram maiores e possuiam uma densidade bem pequena. Parecia que tinham sido enterrados sob flocos de isopor. Isto permitiu que respirassem debaixo de toda aquela montanha de areia. Daí para elaborar a tática de ataque foi um pulo.

Neste exato momento Spock se materializa com uma equipe de segurança e ajuda a aprisionar, novamente, Khan e seu grupo.

- Desculpe a demora, capitão. Havia uma brecha na nuvem que depois diminuiu muito até termos uma chance segura de arriscar um teletransporte. Mas vejo que o senhor resolveu bem a questão. Espero não estar muito atrasado.

- Claro que não! A sua figura é ideal para finalizar a cena que acabei de dirigir.

- Cena, capitão? - o vulcano não entende a piada de Kirk e ergue a sombrancelha direita para demonstrar sua confusão mental. Spock não havia presenciado o espetáculo de "mortos-vivos" se erguendo do chão senão perceberia em que sua aparência demoníaca teria tido utilidade. Kirk solta uma gargalhada que espanta de vez sua dor de cabeça. No chão, Khan e seus homens estavam sentados e amarrados. Kirk se aproximou dele, se agachou e diss-lhe baixinho:

- Cheque-mate.

***

Parte XVII

Durante toda aquela confusão no planeta Kirk quase esquecera que McCoy precisava de socorro urgente. Ele havia sufocado com a areia e só foi desenterrado dez minutos depois que a tempestade havia passado, já quase sem vida. Ele deveria ser socorrido imediatamente juntamente com Scott e Chekov que estavam muito machucados. Certamente lhes daria uma comenda por bravura. Lamentou, porém que outros de seus homens não tivessem tanta sorte. Principalmente os jovens alferes Estevão e Neville que perderam a vida naquela que fora a primeira missão de ambos. Certamente seriam lembrados com honrarias. O problema é que as famílias daqueles homens não se consolavam com elas.

Já de volta na Enterprise, Kirk e Spock vão visitar o doutor na enfermaria.

- Como ele está, Chapel? - antes que a enfermeira pudesse responder McCoy a segura pelo braço e tenta se levantar da cama mas não consegue e é ajudado pela enfermeira.

- Como o senhor vê, capitão; ele continua muito rebelde. McCoy dá de ombros.

- Para quem engoliu um deserto você parece estar muito bem.- comenta Kirk. McCoy tenta responder mas sua garganta ficara muito ferida e levaria alguns dias para que pudesse falar de novo.

- Parece que o doutor não poderá nos aborrecer com seus comentários inoportunos por um bom tempo.- Spock parecia feliz com a situação. McCoy, nervoso, pede a sua enfermeira, por meio de gestos, algo em que possa escrever. Quando ela fornece o que ele quer; rabisca algumas palavras e entrega a prancheta com um bilhete para Spock.

- O que ele diz? - pergunta Kirk.

- Devo julgar que o doutor passou por momentos difíceis e não quero comentar a sua opinião.

Kirk sorri para seus incorrigíveis parceiros. A enfermeira Chapel também não consegue resistir em rir baixinho na presença de um vulcano desconcertado e de um médico com um sorriso vitorioso no rosto.

Uma semana depois de terem abandonado a órbita de Ceti-Alpha Cinco; o capitão James Kirk reúne no observatório, no convés cinco, todos os oficiais para a condecoração daqueles que atuaram, com bravura, na Operação Exílio. Estava orgulhoso deles. Tinha a certeza de ter sob o seu comando a melhor tripulação da Frota. Foi neste tom que começou o seu pequeno discurso. Não era um homem de muitas palavras mas, de ação. pediu um minuto de silêncio aos presentes por aqueles que jaziam no solo de um planeta distante. Após a pausa continuou a falar:

- Senhores, não os reuni aqui hoje apenas para condecorá-los e sim para lembrá-los que o espaço profundo nos reserva muitos mistérios. Estes serão desvendados mesmo tendo à nossa frente muitos perigos a enfrentar. Nosso primeiro dever é para com a Federação e a Frota; as nossas vidas só terão valor se a usarmos para manter a paz no universo. Os jovens oficiais que aqui estão representam parte do espírito empreendedor que tem levado o homem aonde ele jamais esteve.

Em seguida Kirk condecorou a todos: Scott, Sulu, Uhura. McCoy, Chekov e os demais oficiais que formaram a equipe de descida em Ceti-Alpha Cinco.

- E a cada um deles quero fazer um brinde.- convidou Kirk os presentes.

Todos ergueram seus cálices e beberam em honra daqueles bravos heróis.

- Um brinde especial a um jovem... Sr.Chekov, poderia vir até aqui?

O jovem russo enrubesceu. Estava elegante em seu traje de gala mas não conseguia esconder o seu constrangimento. Cabisbaixo se prostou ao lado de seu comandante.

- Um brinde, senhores, a este jovem que, com seu esquema de segurança, permitiu que revertêssemos a nossa desvantagem e evitássemos um massacre.

- Sáude! - todos disseram em coro. Chekov não sabia onde se esconder. estava deveras envaidecido por ter sido elogiado pelo seu ídolo.

Durante o coquetel que se seguiu Kirk perguntou a Spock se mandara o relatório sobre os recentes acontecimentos para a Frota Estelar.

- Tivemos que esperar que todos se restabelecessem para efetuarmos um relatório completo. Comuniquei da necessidade de, daqui a um ano, uma nave da Federação retorne a Ceti-Alpha Cinco para investigar os progressos do povo de Khan e levar-lhes suprimentos; bem como monitorar a instabilidade do planeta gêmeo.

- Gostaria que, daqui a um ano, toda aquela areia apagasse todo e qualquer vestígio que aquelas pessoas existiram.- comenta Kirk, amargamente, engolindo um pouco de Bourbon.

- O que diz não é lógico, capitão. Foi decisão sua de dar-lhes uma segunda chance num planeta. No intuito que o colonizassem e o explorassem.

- Minhas decisões às vezes se mostram benevolentes demais.- diz Kirk revelando um pouco de culpa.

McCoy se aproxima deles com uma aparência bem disposta e procura participar da conversa.

- Ora, ora, doutor. Vejo que já se serviu. - Kirk toca seu copo no do doutor fazendo um brinde ao seu pronto restabelecimento.

- Talvez... Uns goles deste Bourbon acelere o processo de cicatrização!

- diz McCoy, quase num su-ssurro.

- Espero que o senhor não tenha gasto mais o estoque de gás paralisante do sistema de segurança para fugir dos cuidados da enfermeira Chapel.- comenta o vulcano em tom mordaz.

- Chapel... - o doutor engasga e depois continua - Chapel tem um grande senso maternal mas eu... sou uma criança rebelde. Tive que lembrá-la que sou seu.... superior. Desta maneira, não foi difícil convencê-la. Acho que ela gostaria de estar cuidando mais do senhor do que de mim. A insinuação do amor platônico que a enfermeira nutria pelo sr.Spock fez com que o primeiro oficial, para não demonstrar uma explosão de raiva, pedisse licença e se afastasse de seus amigos. Aquele assunto incomodava demais Spock e ele não sabia como lidar com isso.

McCoy deu de ombros e Kirk sorriu apesar do embaraço da situação. Era bom ver os dois brigando novamente.

O intercom soou. Um oficial veio procurar por Kirk para dar-lhe um recado:

- Senhor, desculpe interromper mas, há uma mensagem para o senhor do comando da Frota.

- Obrigado, já irei atender.

Kirk procurou um canto da sala que estava com pouca gente para acionar um intercom onde pudesse ouvir alguma coisa.

- Kirk, falando. Coloque nos alto-falantes a mensagem. Um barulho de estática iniciou a mensagem mas aos poucos ela se tornava clara e sem ruídos. Todos no salão pararam de conversar e ouviram em silêncio a mensagem.

-" ... e por isso estamos contentes que a missão tenha sido bem sucedida. Novas ordens dizem para que a Enterprise siga para o sistema estelar C-111 para procurar a nave estelar Archon, desaparecida em 2.167 d.C. Há fortes indícios que os descendentes dos tripulantes podem estar vivendo em um dos planetas do sistema. Boa sorte. Almirante Yashida, desliga."

- Bom, senhores, a festa acabou. Todos aos seus postos. O trio mais famoso da nave seguiu junto para a ponte de comando, prontos para mais uma nova aventura. No meio do caminho o tenente Riley bloqueou o caminho do capitão para informar sobre a sua decisão.

- Senhor, posso falar-lhe?

- Claro, é sobre a sua transferência?

- Exato, senhor. Pensei muito a respeito e creio a transferência será a melhor solução. Um oficial tenso e angustiado que não pode manter a concentração no seu trabalho não é de muita valia.

- É o que você acha? Está certo disto?

- Talvez quando passarmos por uma base estelar eu possa ser transferido para uma outra nave ou para algum serviço burocrático na Frota, quem sabe...

- Se é o que deseja, terá toda a minha recomendação. Sua transferêcia está aceita. Seja lá para onde você for. Riley agradece apertando a mão de Kirk e o acompanha até o turbo-elevador, onde McCoy e Spock o esperaravam.

Jim Kirk teria que pensar num navegador substituto e talvez já tivesse um em mente. Um com um sotaque russso engraçado. O tenente Riley ia voltando para seu alojamento quando Janice o surpreendeu.

- Você falou com ele? O que ele disse?

- Ele concordou com a minha transferência. Janice fez uma cara de pesar. Dificilmente poderia ver Riley de novo.

- Ei, não fique assim garota. Afinal de contas a galáxia não é tão grande assim.

- É que eu...- as palavras faltavam para a ordenança.

- Eu sei, Janice. Acho que esta não é uma boa maneira de começarmos um relacionamento. Você deve estar pensando que estou fugindo também de você. Mas não é nada disto. Se pudesse a levaria comigo.

- Você está dizendo isto só para me confortar.

- Não é verdade. Você despertou em mim um sentimento único. Acho que me apaixonei por você, senhorita Janice Rand.

O jovem casal se entreolha e se beija demoradamente. Janice, então se afasta.

- O que foi? Isto não á um beijo de despedida. - tenta se explicar Riley - É apenas um até logo!

- Você está certo. Talvez até nos encontremos na próxima base estelar.

- Do que você está falando?

- Ora, se você pode pedir uma transferência eu também posso!

- Mas... - Riley não podia prever que as coisas chegassem a este ponto.- Mas e o capitão?

- O capitão não é meu dono! O fato de eu ser sua ordenança não quer dizer que eu seja a sua concubina também! - protesta Janice.

- Mas eu não disse isso!

- Mas é o que todos dizem. Eu estou farta de ouvir piadinhas a meu respeito. Acho que isto não fica bem para a reputação do capitão.

- Esta será a sua desculpa? - pergunta Riley sorrindo.

- Ë uma boa desculpa, não acha?

Os dois jovens apaixonados se abraçam e andam pelo corredor a fazer planos para o futuro.

***

Epílogo

AL-Khazir olha para Yashida após o contato realizado com a Enterprise. Olha para as fitas coloridas em cima da mesa e pergunta:

- Estes são os dados que a Enterprise enviou?

- Sim, recomenda que monitoremos um planeta próximo ao planeta-prisão de Khan, pois há perigo que ele exploda nas próximas duas décadas e ameace a vida naquele sistema. Talvez tenhamos que transferí-los de lá.

- Ótimo, destrua estas fitas, Yashida.

- Omar - este era o primeiro nome do chefe do comitê militar -, o que está dizendo?

- O destino decidirá por nós, almirante. Possivelmente em menos de duas décadas não haverá traços de Khan e seus homens ou de possíveis conflitos diplomáticos decorrentes deste caso. Pelo que me consta, o episódio sobre o resgate da Botany-Bay jamais aconteceu. A Enterprise jamais os encontrou. Ë só apagarmos todos os registros a respeito.

- Mas ainda haverá o registro de bordo da Enterprise.- alerta Yashida.

- Cedo ou tarde eles terão que parar para manutenção de rotina em uma base estelar. Um técnico de manutenção, confiável, poderá cuidar disso.

- E a tripulação?

- Aqueles que derem baixa ou pedirem transferência devem ser ameaçados ou subornados. Se isto não adiantar serão desacreditados pois nada poderão provar.

- E quanto ao alto comando? Tivemos duas reuniões sobre isso.

- Todos saberão ficar quietos. Pelo que me consta, não há registro dessas reuniões. Elas Não aconteceram. Comunicarei a situação ao presidente.

O coitado não tem conseguido dormir bem ultimamente. Comunique-se com Quatermain. Peça para que ele destrua seus relatórios. O que acha? O velho almirante não estava a vontade em planejar aquele genocídio. Mas talvez Al-Khazir estivesse com a razão. Alguns tinham que perecer para que o universo pudesse ficar em paz. Pelo menos a parte que cabia à Federação.O que mais o incomodava era não dizer nada ao almirante Nogura. Em breve ele se aposentaria e não convinha importuná-lo com mais um problema. Por fim, Yashida resignou-se e concordou com Al-Khazir

O comandante do comitê militar se despediu certo de que tinha se livrado de um grande fardo sem fazer muito esforço.

Yashida ficou pensativo. Era provável que ninguém ficasse sabendo o que havia aconteceido. Ainda mais num canto remoto como era o sistema Ceti-Alpha. Poré se houvesse uma pequena possibllidade dele ser responsabilizado por isto no futuro teria que se precaver. Apertou um botão em sua mesa.

- Quatermain? Você gravou toda a conversa?

- "Sim, senhor."

- Excelente! Guarde todas as fitas em um cofre bem seguro. Só eu e você teremos acesso a este material. Procure um lugar muito seguro, ouviu, Quatermain? Depois jogue as chaves fora e reze para que jamais tenhamos que utilizar este material, entendido?

-"Sim, senhor. Pode deixar. Tudo será feito no mais absoluto sigilo."

***

Alguns meses depois em Ceti-Alpha Cinco ...

Marla McGivers estava arrependida. Quando olhou para aquele homem moreno e másculo pela primeira vez, suas pernas tremeram. Quando ele a tocou pela primeira vez, todo o seu corpo tremeu. Quando ele a teve pela primeira vez, foi como um feixe de partículas separasse todas as suas moléculas. Não hesitou em ficar com ele mesmo quando ele dominou a Enterprise e, tentou matar seu capitão. Preferiu ficar a seu lado a enfrentar a humilhação de uma corte marcial.

De repente tudo mudou. Seu corpo mudou. Veio a gravidez e o desprezo de Khan. O amor nunca havia existido entre eles; era apenas sexo. Khan passou a procurar outras mulheres do seu séquito quando ela estava indisposta ou enjoada. Agora ela tinha um bebê que exigia sua atenção constante; um marido que a tratava como um objeto e vivia num planeta inóspito cujo ritmo de trabalho, para a sobrevivência do grupo, estava tirando o pouco de ânimo que possuia.

De certo não era este o futuro que havia imaginado para si. Não depois de tantas provações.

Aproveitou o dia estável, com brisas suaves, para deitar-se próximo ao lago do oásis, onde ficara o novo acampamento. Desde que a Enterprise fora embora que o seu povo(como agora ela o chamava); viviam como nômades, a migrar de uma região para outra em busca de um lugar melhor para sobreviverem. A carcaça da Botany-Bay agora servia como abrigo provisório para os grupos de exploradores que passavam por lá, de vez em quando, para cuidarem de sua manutenção. Um ou dois homens ficavam por lá às vezes fazendo da nave uma estação de pesquisa.

Ficou a brincar com seu bebê enquanto esperava Khan retornar de mais uma viagem exploratória. Procurou esquecer um pouco de suas tristezas e angústias e acabou dormindo.

Ultimamente fazia isto constantemente. Uma vez deixou de ir ao lago pois alguma coisa havia entrado em seu ouvido e lhe causado uma grande dor. Antigamente contestava as ordens de seu marido, discutia com ele, mas ultimamente parecia ter perdido toda a sua vontade. Não conseguia mais desobedecer ninguém, nem a sua mais réles serviçal.

Durante muito tempo as dores de ouvido a incomodaram, depois vieram as enxaquecas, cada vez mais fortes. Khan havia lhe dado alguns comprimidos que amenizavam o seu sofrimento. Agora ela só pensava em dormir. Não queria se preocupar com nada. Ficava cansada por qualquer motivo. Só restava dormir e esquecer.

- Minha senhora! - gritou Indira, sua acompanhante quando ouviu Marla gritar e se debater. O bebê fora chutado involuntariamente, durante a convulsão, para dentro do lago.

Indira correu e mergulhou para salvar o filho de seu líder. Quando retornou viu Marla deitada, com os olhos virados para cima e com filetes de sangue saindo de seus ouvidos e narinas. Estava morta.

Khan ao retornar estranhou a aglomeração na frente de sua cabana e os rostos procupados e tristes de seu povo.

Entrou rápido na tenda. Viu Marla sendo velada sobre uma cama feita de madeira. Indira correu em sua direção pedindo clemência.

- Meu senhor! Não tive culpa! Foi o demônio da areia! Aconteceu com ela o mesmo que com Otto e Lin-Sung.

Khan cerrou os olhos para conter as lágrimas. Não podia demonstrar fraqueza perante os seus. Talvez tenha sido melhor assim. Marla estava agora em paz e não teria mais motivos para lamúrias.

- E meu filho? - perguntou com a voz embargada.

- Está aqui! - disse Indira procurando o menino no meio das cobertas.-

Ela o jogou no lago quando teve as convulsões mas eu o salvei! Khan pegou seu filho nos braços, olhou-o com ternura e depois, se recompondo, o colocou de volta nos braços de Indira.

- Saiam todos! Desejo ficar só!

Não houve ninguém que se atrevesse a desobedecê-lo. Mesmo Indira, que havia se tornado sua amante nos últimos meses, respeitou a sua dor e saiu em silêncio como todos.

Ele então desabou no chão de joelhos próximo ao corpo sem vida de Marla. Fez-lhe um carinho no rosto e a beijou pela última vez. Olhou para ciam para conter mais uma vez as lágrimas que teimavam em rolar em sua face. Respirou fundo e lançou uma maldição aos quatro ventos:

- Isto tudo é sua culpa Kirk! Um dia sairei deste planeta e quando isto acontecer o universo tremerá ante a minha presença! Você e sua galante tripulação serão esmagados, mas não antes de sofrer. Sofrer bastante! Como eu sofro agora. Isto é mais que uma promessa. É um juramento!

Alguns anos depois Ceti-Alpha Seis explodiu. Nenhuma nave da Federação viera socorrê-los ou lhes trazer suprimentos. O clima em Ceti-Alpha Cinco piorou. As tempestades de areia aumentaram e a água potável ficara escassa. O único lugar seguro que restara era a nave de carga. Muitos dos seus haviam morrido de fome; de sede; dos ataques dos demônios-do-deserto, que eram pequenos seres rastejantes que depositavam seus ovos nos ouvidos dos distraídos para comerem seus cérebros, levando o hospedeiro à loucura e à morte, como acontecera com Marla. Outros de seu povo foram sacrificados para que apenas os mais fortes sobrevivessem.

Quanto mais o tempo passava seu ódio por Kirk duplicava. Mas haveria um dia em que Alah, Buda, ou qualquer Deus atenderia as suas súplicas e ele pudesse cumprir seu juramento.

Se este dia iria chegar somente o tempo poderia responder a esta questão. Até lá cabia a Khan somente esperar e planejar. Esperar e planejar. Esperar e planejar. Esperar e planejar...

Referências.

  • 1 Trecho extraído do episódio Space Seed, escrito por Gene L. Coon e Carey Wilbur, que foi ao ar em 16 de fevereiro de 1967.
  • 2 Romance escrito por Julia Ecklar - "Kobayashi Maru"- escrito em 1989.
  • 3 Episódio da série de televisão : "Court Martial" - exibido originalmente pela rede de televisão NBC(norte-americana) , em 02/02/67.
  • 4 A hierarquia de postos de comando apresentados nesta história tem como referência o "STARFLEET TECHNICAL MANUAL" escrito por Franz Joseph em 1975.
  • 5 Referência ao episódio da série de televisão: "The Corbomite Maneuver " - escrito por Jerry Sohl e exibido originalmente pela rede de telvisão NBC em 10/11/66.
  • 6 Referência ao episódio: " The conscience of the king" escrito por Barry Trivies e exibido originalmente pela NBC em 8 /12/66.
  • 7 Referência ao episódio : "The Menagerie", escrito por Gene Roddenberry e exibido originalmente em duas partes em 17/11/66 e 24/11/66; pela NBC.
  • 8 Referência ao episódio : "Court Martial", escrito por Don M. Mankiewicz e Stephen W. Carabatsos, que foi exibido originalmente em 02/02/67; pela NBC.
  • 9 Referência ao episódio : "The Naked Time", escrito por John D.F. Black e exibido orinalmente em 29/09/66, pela NBC.
  • 10 Referência ao episódio : "Enemy Within", escrito por Richard Matheson e exibido originalmente em 06/10/66, pela NBC.
  • 11 Referência ao episódio : "Galileo Seven", escrito por Oliver Crawford e S.Bar-David; exibido originalmente em 05/01/67, pela NBC.

F I M

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